segunda-feira, 20 de março de 2023

Cobrando o dízimo de Lula



Não deu nada à Igreja
Edir Macedo, líder da Universal

Fé, fanatismo (e lucro!) na pós-modernidade

A raça humana é sempre toda ouvidos
para um conto de fadas
Lucrécio, De rerum natura, 50 AC

A insistência em uma ideia enraizada,
independentemente de evidências contrárias,
é a fonte do autoengano que caracteriza a loucura
Barbara Tuchman

A compreensão científica do tema não é complicada. Estamos progredindo firmemente no que foi chamado de catástrofe em câmera lenta. A destruição desta Terra solitária, nosso próprio habitat, avança por meio das mudanças climáticas, redução drástica da biodiversidade, esterilização do solo, poluição da água e do ar, contaminação química, desmatamento e tantos dramas surrealistas como plásticos nos mares, nos rios e em nosso sangue. Temos todos os números, estatísticas e cadeias de causalidade, sabemos o que e quem é/são os responsáveis. E temos todas as informações sobre a catástrofe social, 850 milhões passando fome, dos quais cerca de 180 milhões são crianças, além de 2,3 bilhões em insegurança alimentar e ainda mais com dificuldade de acesso à água potável. Cerca de 2 bilhões não têm acesso à eletricidade, sem falar na inclusão digital. Estamos destruindo nosso ambiente vital, para o lucro de poucos. Para onde foi nossa racionalidade?

Podemos dar de ombros: a pobreza sempre existiu. E fingir que não sabemos: o plástico nos mares nem sempre é visível, a Amazônia está queimando mas longe, e 2050 parece tão distante. Omeletes e ovos quebrados e assim por diante. Mas o fato é que todo esse drama simplesmente não é inevitável e o sofrimento não é necessário. Temos todas as medidas óbvias traçadas na Agenda 2030, 17 metas e 169 objetivos. E temos toda a tecnologia de que precisamos, inclusive o sistema de renda básica já bastante experimentado no Brasil e em outros países. E, claro, temos os meios financeiros. O PIB mundial de 100 trilhões de dólares que estamos alcançando este ano significa que o que produzimos em bens e serviços é equivalente a 4.200 dólares por mês por família de quatro membros. O que produzimos atualmente é amplamente suficiente para garantir que todos tenham acesso às necessidades básicas da família, conforto e dignidade. Claro, podemos nos referir à renda nacional líquida em vez do produto interno bruto, ou adicionar capital fixo acumulado, mas isso não muda o fato básico: estamos destruindo nosso meio ambiente e gerando enorme sofrimento de bilhões, preparando-nos para uma catástrofe ainda maior. para nossos filhos, enquanto temos todos os meios necessários para reverter os dramas. Nossos problemas não são econômicos, no sentido de falta de recursos: são questões políticas e de organização social.

Um exemplo simples nos ajuda a voltar à Terra. O mundo enfrenta a inflação, e os governos, com forte apoio dos interesses financeiros, estão elevando as taxas básicas de juros, como se as economias estivessem superaquecidas, muito dinâmicas. Mas examine, por exemplo, a energia. A produção e o consumo de petróleo no mundo giraram em torno de 90 milhões de barris por dia nas últimas décadas, notavelmente estáveis. Mas seus preços têm apresentado um comportamento ioiô. Isso é atribuído a “mercados”, mas o fato é que os custos de extração, o volume de oferta e o uso final não mudaram significativamente. Não tivemos que esperar pelo conflito na Ucrânia para especular sobre o petróleo. 

A razão óbvia é que não se trata de “preços de mercado”, que refletiriam variações de oferta e demanda, mas decisões políticas. Estamos diante de formadores de mercado, não de usuários dos mercados. O petróleo é um recurso natural: é extraído, não produzido. E pertence a países, não a corporações. Mas os extratores e comerciantes corporativos decidem sobre os preços. Não é uma questão de custos, mas de poder para aumentar os lucros. No final de 2022, “os lucros das maiores empresas petrolíferas do mundo subiram para quase US$ 173 bilhões, quando a guerra da Rússia na Ucrânia elevou os preços da energia, segundo estimativas de analistas. A britânica Shell e a francesa TotalEnergies relataram lucros para os primeiros nove meses de 2022 de US$ 59 bilhões. As rivais americanas Chevron e ExxonMobil devem reportar ganhos acumulados no ano próximos a US$ 70 bilhões, enquanto os lucros de 2022 da britânica BP podem ultrapassar a marca de US$ 20 bilhões. As receitas acumuladas para os sete maiores perfuradores de petróleo do setor privado durante os primeiros nove meses de 2022 podem chegar a US$ 173 bilhões, de acordo com previsões de analistas coletadas pela S&P Global Market Intelligence e lucros relatados”. Os lucros do petróleo na Exxon triplicaram em 12 meses. 


Como o uso de energia permeia todos os setores, os preços sobem em toda a economia. Muitos governos estão subsidiando os usuários finais, em vez de reduzir os lucros por meio de impostos sobre lucros inesperados. Os preços mais altos pagos pela população alimentam esses lucros mais altos. Os preços não “sobem” do nada, são elevados na origem, seja a que pretexto for. A inflação é uma transferência de dinheiro para o Big Oil, e para grandes intermediários, vazando para vários setores. Devemos ceder o controle dos recursos naturais a especuladores privados? O ex-governo Bolsonaro no Brasil privatizou em grande parte a estatal Petrobrás, em nome do “combate à corrupção” – uma narrativa política polivalente – quase dobrando os preços do botijão de gás e dos postos de gasolina. Foi uma decisão política, e o dinheiro que as famílias têm de pagar é transferido para grandes empresas privadas na forma de dividendos. Existe alguma justificativa científica para lucros gigantescos a partir da extração de um recurso natural? Atribuir o caos a inevitáveis ​​mecanismos de mercado pertence ao que Michael Hudson chamou de “economia-lixo”.

São escolhas políticas. The Economist lamenta que “a cada ano US$ 2,6 trilhões em alimentos sejam desperdiçados – o suficiente para acabar com a fome quatro vezes”. Quatro traders — ADM, Bunge, Cargill e Dreyfus — controlam a comercialização de 80% dos grãos. Mercados? Eles estão competindo para melhor satisfazer os clientes? A produção brasileira de alimentos está nas mãos deles, produzimos 3,7 quilos de grãos per capita só na safra passada, mas 33 milhões passam fome e 125 milhões são subnutridos. 5 O governo da Índia simplesmente bloqueou as exportações de trigo e arroz, para garantir mais abastecimento de alimentos à população. Uma decisão política que alimenta a população e mantém os preços baixos. O elefante na sala, diante do desastre ambiental e da pobreza explosiva, é que os interesses corporativos e sociais se desintegraram, gerando uma situação insustentável.

O último relatório do UNRISD (Instituto de Pesquisa das Nações Unidas para o Desenvolvimento Social) de 2022, Crises of Inequality: shifting power for a new eco-social contract , apresenta os números do Crédit Suisse sobre a concentração de riqueza, resultado direto da fuga geral de renda e riqueza pelas empresas gigantes:

Para tornar os números claros, 1,2% dos adultos mais ricos do mundo têm 47,8% da riqueza total, US$ 221,7 trilhões. Na base da pirâmide, mais da metade da humanidade, 53,2%, tem apenas US$ 5 trilhões, 1,1% da riqueza total. Para dobrar a riqueza da metade mais pobre da população, bastaria transferir 2,2% dos mais ricos, que eles mal perceberiam. Os números são explosivos e estão piorando rapidamente. O “livre mercado” tornou-se um ralo gigante para uma elite improdutiva, gerando um drama universal. O Relatório do UNRISD afirma o óbvio: “As desigualdades extremas de hoje, a destruição ambiental e a vulnerabilidade à crise não são uma falha no sistema, mas uma característica dele. Somente mudanças sistêmicas em grande escala podem resolver essa situação terrível”. 

Como afirma o relatório, “nosso mundo está em estado de fratura”. A ciência está aí, sabemos o que está acontecendo, mas os “fatos” permanecem basicamente enterrados em relatórios técnicos, e a população é insuficientemente informada. Mas não é só uma questão de informação. Nas recentes eleições presidenciais no Brasil, nas quais Lula venceu por 1,8%, cerca de metade da população não só aceitou como lutou (e continua lutando) por argumentos como o de que Lula é comunista, que seu governo quer levar as crianças ao homossexualismo, que o mundo quer se apoderar da “nossa” floresta amazônica, e tantos argumentos completamente absurdos, aceitos docilmente por pessoas inteligentes, técnicos com diploma universitário, pessoas normais, não apenas extremistas armados. Nos debates políticos, não discutimos o que é preciso para preservar o meio ambiente, gerar empregos, reduzir a desigualdade ou expandir a escola pública. Para muitos, o tema era “Deus, Pátria, Família”

Com a prioridade do julgamento moral e dos argumentos religiosos, o nacionalismo berrante, o porte de armas em nome de Jesus e a bandeira nacional espalhada em tantos ombros, estamos diante de pessoas com ódio no olhar, atitudes tão bem apresentadas por Jonathan Haidt em seu The Righteous Mind [A Mente Moralista]. Com que facilidade as pessoas são tomadas pelo fanatismo, tornando-se inatingíveis pelos argumentos do bom senso, da racionalidade e da ciência. Isso não é particularmente brasileiro, é claro, e estimular as características irracionais que são tão poderosas em todos nós tornou-se uma importante ferramenta política. O mesmo Dio, Patria, Famiglia ressoou na eleição de Meloni na Itália, Erdogan na Turquia, Duda na Polônia, Orban na Hungria, Duterte nas Filipinas, Netanyahu em Israel, Kristersson na Suécia, para não falar de o discurso doentio de Donald Trump ou os absurdos do Brexit, assim como o discurso de tantos políticos locais. Devemos nos esforçar muito mais para entender racionalmente nossas dimensões irracionais.

Mark Twain ficou muito impressionado com essas questões, pois via a sociedade “tendo guerras o tempo todo, formando exércitos e construindo marinhas e lutando pela aprovação de Deus de todas as maneiras possíveis. E onde quer que houvesse um país selvagem que precisava ser civilizado, eles iam até lá e o tomavam, e o dividiam entre os vários monarcas esclarecidos, e o civilizavam – cada monarca à sua maneira, mas geralmente com Bíblias e balas e impostos. E a maneira como eles exaltaram a Moral, o Patriotismo, a Religião e a Irmandade dos Homens foi nobre de se ver.” (182) Isso é poderoso, e é essencial separarmos o sentimento religioso, a espiritualidade, que encontramos em tantas civilizações, de seu uso político em diferentes estruturas de poder, usando divindades para justificar qualquer coisa, uma tendência que se generalizou com as mídias sociais, algoritmos e as tecnologias de manipulação em escala industrial permitem.

“A razão pode levá-lo a qualquer lugar que você queira ir”, escreve Haidt. (122)  Ele qualifica o uso deformado da racionalidade como pensamento confirmatório , raciocínio motivado ou cérebro partidário . (81, 88) Barbara Tuchman, ao tentar entender The March of Folly , refere-se à auto-hipnose , bem como à hipocrisia . (269, 271) “Os psicólogos chamam o processo de triagem de informações discordantes de ‘dissonância cognitiva’, um disfarce acadêmico para ‘Não me confunda com os fatos’.” (322) Mas o particularmente chocante é a escala em que o mundo corporativo apoia e financia essas manipulações, particularmente claras na esfera republicana dos EUA, mas também no Brasil, trazendo votos e apoio à destruição do meio ambiente, privatizações e fortunas evangélicas.

O fato também é que tantos economistas transformaram mansamente a ciência em justificativa de interesses que sabem serem destrutivos, tantos advogados defendem absurdos, em nome da lealdade de seus clientes, e tantos jornalistas espalham profissionalmente mentiras e ódio com o poder de TVs como a Fox News nos EUA e tantos canais no Brasil. Não estamos apenas caminhando para uma catástrofe sistêmica, estamos perdendo nossa capacidade de lidar com ela, o controle básico do processo de decisão pública. Democracia? Quo Vadis?

Nada de novo

Felizmente, nem tudo pode estar em todo lugar ao mesmo tempo, como pretende o filme multicampeão de Oscars de 2023. Há coisas que merecem ser contadas com vagar para ser sorvidas em profundidade. Assim fez Erich Maria Remarque quase cem anos atrás ao publicar sua obra-prima literária “Nada de novo no front”. A primeira edição, de 1929, esgotou-se no mesmo dia e, ao final daquele ano, mais de 1 milhão de cópias já haviam sido lidas com reverência. Até hoje Remarque continua sendo, ao lado de Goethe, o escritor de língua alemã mais lido no mundo.

O livro, como se aprende na escola, é baseado na vivência do autor como soldado na Primeira Guerra Mundial (1914-1918). O narrador é um jovem recruta, Paul Bäumer, que parte para a guerra voluntariamente ao lado de colegas de classe. Encontra a face do horror daquela que, com razão, é chamada de “A Grande Guerra”. No livro, combatentes se arrastam em trincheiras de lama e sangue, convivem com restos humanos pendurados em arame, cavalos são esturricados por bombas, explodem feio, e a soldadesca, ora faminta à beira da loucura, ora convulsionada por gases venenosos, vai silenciando. Poucos saem da narrativa com vida. O próprio protagonista, Bäumer, morre poucos dias antes da assinatura do Armistício que, na vida real, pôs fim à carnificina de mais de 40 milhões. Foi todo um mundo que ruiu e que Erich Maria Remarque compreendeu e descreveu sem retórica.

Ucrânia, 20223

Recebido de braços abertos por seu caráter pacifista e apolítico, o livro foi transformado em roteiro de filme e estreou nas telas em tempo recorde — pouco mais de 12 meses depois de publicado.

Na exibição do dia 5 de dezembro de 1930, a sala do Mozart Hall de Berlim estava abarrotada. De repente, saindo do nada, uma tropa de 150 “camisas marrons” nazistas tomou de assalto a sala aos gritos de “Filme de judeu!”. Comandados pela figura reptiliana de Joseph Goebbels, jogaram bombas de efeito moral no público, soltaram ratazanas no auditório, destruíram equipamentos e surraram quem imaginavam ser judeu.

— Em apenas dez minutos o cinema virou manicômio — descreveu Goebbels em seu diário.

O futuro chefe da Propaganda de Hitler havia percebido no humanismo de “Nada de novo no front” uma ameaça mortal para a ideologia nazista. Em pouco tempo, o Conselho Supremo de Censura proibiu a exibição do filme na Alemanha. Era apenas o começo. Na noite de 10 de maio de 1933, com Hitler instalado no poder havia apenas quatro meses, uma multidão estimada em 40 mil cidadãos assistiu a um fogaréu gigantesco na Praça da Ópera de Berlim. Eram perto de 25 mil livros, arrancados de livrarias, bibliotecas e residências por paramilitares da SS, que ali arderam até virar cinzas. Não apenas em Berlim, como noutras 30 cidades universitárias do país. De Erich Maria Remarque a Zola, de Freud a Thomas Mann, de Einstein a H.G. Wells, mais de 150 autores alemães e estrangeiros foram considerados heréticos à pureza nacional.

— É a limpeza do espírito germânico — festejou Goebbels.

Entre aqueles cujas obras foram incineradas estava também Heinrich Heine, gigante poeta alemão do século XIX.

— Onde quer que se queimem livros, ao final também seres humanos serão queimados — escrevera ele, presciente, na peça “Almansor”.

Assim foi, como se viu de forma trágica nos campos de extermínio do Terceiro Reich de Hitler. (Apesar de não ser judeu nem comunista, Erich Maria Remarque conseguiu sair da Alemanha a tempo. Sua irmã caçula, Elfriede, presa pela Gestapo e submetida a um julgamento de fachada, terminou decapitada na guilhotina em 1943.)

Aprendemos com os grandes pensadores que livros não são objetos mortos. Contêm uma potência de vida tão vibrante quanto a alma que os criou. Por isso existe uma simbologia tão gritante na sanha milenar de autoritários (seculares ou religiosos) em queimar livros: a ilusão vã de destruir ideias.

O remake de “Nada de novo no front”, do diretor Edward Berger, vencedor de quatro Oscars no domingo passado, é portentoso. Até demais. Fiel à narrativa contida do protagonista do livro, Erich Maria Remarque acrescentara à edição em inglês um epílogo igualmente lacônico para a morte de seu personagem:

— Ele caiu em outubro de 1918, num dia tão calmo e silencioso na frente de combate que o registro do Exército se limitou a uma única frase: “Tudo tranquilo no front ocidental”.

No filme, o bravo soldado Bäumer, que no livro gradualmente vai despertando para a futilidade da guerra — de qualquer guerra —, morre em cena repleta de pirotecnia bélica, sem ter compreendido por que morria naquele descampado de Flandres.

Ainda assim, filme e livro são atualíssimos — basta olhar para as trincheiras na Ucrânia. Nada de novo no front.

sexta-feira, 17 de março de 2023

Pensamento do Dia

 


Do 'Consumo Consciente' ao 'Consumo Necessário'

Os esforços recentes de toda humanidade em estabelecer uma convivência pacífica entre a sociedade e o meio ambiente tem como principal desafio conter o consumo.

O ímpeto de consumo de todos nós traz desequilíbrios irreversíveis entre fontes renováveis e ambição consumista. Os Chineses, com sua tradição milenar de consumo necessário, foram os últimos a sucumbirem ao padrão: “Sou o que consigo consumir”.


Infelizmente não haverá ESG (Ambiental, Social e Governança) suficiente para reverter os estragos do consumismo instalado e em pleno voo.

Empresas socialmente corretas, de energia limpa, reciclagem, economias circulares etc. não escapam de burocracias enormes de difícil e lenta implementação.

São poucas as iniciativas que respeitam as prerrogativas nativas de fazer o bem e normalmente brotam da necessidade ou da previsibilidade que essa bandeira no médio e longo prazo aumentará os lucros, portanto bem-vindas, mas insuficientes.

Insuficientes porque permeiam a premissa do “Consumo Consciente” e esse modelo de pensamento não conseguiu barrar o necessário para garantir o futuro do homo sapiens.

Então, qual o novo engajamento?

É o “Consumo Necessário”.

Mas o que é consumo necessário?

Para as pessoas o consumo necessário é, por exemplo, após o fabricante de celular ter lançado vários modelos novos, você continuar com o seu até a necessidade da trocar ser real, ou por estar danificado ou por defasagem tecnológica.

Para as empresas, quando as pessoas forem em suas lojas, o atendente gentilmente pedir para ver o seu celular, e após breve análise, orientar que não cabe um novo aparelho. O seu é suficiente para suas demandas, para o que você precisa.

E, pasmem, todos voltarem para suas casas felizes da vida! As pessoas satisfeitas com seus velhos celulares e as empresas satisfeitas com seus lucros.

Hoje não temos mais dúvidas que o clima do planeta está em acelerada mudança.

Notícias corriqueiras em nosso dia a dia traduzem esse potencial estrago na prática, e bem perto, não mais do outro lado do mundo.

As Pessoas e as Nações estão como duas crianças dizendo uns para os outros: Comece você primeiro!!

Hora de entendermos que basta “Eu ser Eu” e “Você ser Você”, juntos implantarmos o “Consumo Necessário” e barrarmos a degradação do Planeta.

Para trazermos toda população do mundo para esse contexto, fica aqui uma sugestão no idioma global: “Me being myself ” and “You being yourself ”.

Tais militares, tais civis

Civis não podem entrar de surpresa num quartel militar e sair pintando postes sem autorização —os militares são muito ciosos de seus postes. Civis não podem invadir as repartições dos quartéis e sair carimbando despachos ou assinando promoções de segundo sargentos a primeiro sargentos —os militares são muito específicos a respeito de despachos a serem carimbados e de quais segundo sargentos merecem passar a primeiro. E, claro, nenhum civil pode se candidatar a general e, mesmo que seja absurdamente aceito pela comunidade militar, continuar se dizendo civil, com os gozos e benesses dos civis.


Já o contrário é possível. Os militares têm o direito anual de rolar seus pesados tanques e canhões pelas ruas dos civis, sem ligar para o estrago do asfalto sob as rodas e lagartas. Os militares podem trabalhar como funcionários em repartições civis, abrir gavetas, escarafunchar fichários, cantar as secretárias e ainda serem pagos para isso. E, pior, um general pode subir em palanques eleitorais e continuar general com os privilégios dos generais —como o de ser julgado por seus pares, não pela Justiça civil, e sair assobiando no azul.

É verdade que, num regime democrático, um militar só fará tudo isso com o estímulo de um civil, geralmente o presidente da República. Foi o que tivemos com Bolsonaro. Os militares estavam quietos nas casernas, limitando-se a rosnar em surdina contra as bandalheiras civis, quando viram em Bolsonaro a resposta às suas preces. Para muitos, ali estava o homem que botaria ordem no país. E pularam no seu colo.

Só não imaginavam que, sob Bolsonaro, teriam de acobertar desmatadores, cobrar propinas por vacinas, praticar charlatanismos, arapongar desafetos do presidente, tumultuar as eleições, abrigar golpistas, exterminar indígenas, contrabandear joias etc. —o rol é vasto.

E, que nem os civis, aprender a mentir.

Requintes de crueldade

Talvez não tivesse havido no mundo senhores de escravo mais cruéis do que os senhores de escravos no Brasil.

Tem-se a impressão de que, durante o longo período de escravidão, o brasileiro se esqueceu de que era ser humano e de que como a seres humanos devia tratar os seus semelhantes.

Para vergonha nosa, a história daquele triste período revela práticas de crueldade que hoje nos parecem incríveis.

(...) No Rio de Janeiro, a cidade mais culta do país, se encontravam nos jornais anúncios como este: "Na rua tal, número tal, vende-se carne-seca própria para escravos".

Sabem vocês que carne-seca era essa? Carne inferior, carne deteriorada apodrecida.

Viriato Corrêa, "História da liberdade no Brasil"

Paulo Freire: como o legado do educador brasileiro é visto no exterior

O nome do pensador e educador brasileiro Paulo Freire, premiado mundialmente pelos métodos educacionais que criou e desenvolveu, está comumente associado a polêmicas e tem dividido opiniões em seu país natal.

Seu sistema de alfabetização reconhecido mundo afora pela eficácia quando aplicado em larga escala principalmente em comunidades carentes, é ligado pelo espectro político mais conservador a ideologias de esquerda. Em consequência, o nome de Paulo Freire vem sendo usado com frequência como um rótulo político-partidário, um emblema de referência para reforçar argumentos e narrativas tanto dos que o criticam como dos que o defendem.

Agora, nesse começo de 2023, o nome de Paulo Freire volta ao centro de debates com a intenção de mudança do nome de uma estação do metrô de São Paulo, como noticiado pelo jornal Folha de S.Paulo, nesta terça-feira (14/03).

Segundo a reportagem, a estação que ainda não foi inaugurada, deixaria de chamar-se Paulo Freire como inicialmente planejado e passaria a ser batizada como Fernão Dias, em homenagem ao polêmico bandeirante.

A mudança teria sido feita por dirigentes da empresa que administra o metrô, controlada pelo governo de Tarcísio de Freitas, um aliado do ex-presidente Jair Bolsonaro, que atacou Freire em diversas ocasiões.


Tratada pelo governo Bolsonaro como bode expiatório da má qualidade do ensino público brasileiro, a obra do educador Paulo Freire (1921-1997) pode ser controversa. Mas o trabalho do pedagogo e filósofo, nomeado em 2012 patrono da educação brasileira e autor de um método de alfabetização que completou 50 anos em 2013, não deixa de ser bastante relevante nas discussões mundiais sobre pedagogia.

Freire é estudado em universidades americanas, homenageado com escultura na Suécia, nome de centro de estudos na Finlândia e inspiração para cientistas em Kosovo. De acordo com levantamento do pesquisador Elliott Green, professor da Escola de Economia e Ciência Política de Londres, na Inglaterra, o livro fundamental da obra do educador, Pedagogia do Oprimido, escrito em 1968, é o terceiro mais citado em trabalhos acadêmicos na área de humanidades em todo o mundo.

Para especialistas em educação ouvidos pela BBC News Brasil, entretanto, a raiz da controvérsia em torno da pedagogia de Paulo Freire não é sua aplicação em si - mas o uso político-partidário que foi feito dela, historicamente e, mais do que nunca, nos dias atuais. "Li a maior parte dos livros dele. Minha tese de doutorado foi amplamente baseada em seus ensinamentos. Tenho aplicado seu método de várias maneiras em minha carreira profissional, na prática e na pesquisa", afirmou a pedagoga Eeva Anttila, professora da Universidade de Artes de Helsinque, na Finlândia.

"A maior vantagem de sua metodologia é a abordagem anti-opressiva e não autoritária, a pedagogia dialógica e respeitosa que ele promoveu. O problema é que suas ideias têm sido usadas para fins políticos - o que, em meu entendimento, nunca foi seu propósito inicial", disse a finlandesa.

Freire tornou-se conhecido a partir do início dos anos 1960. Ele desenvolveu um método de alfabetização de adultos baseado nos contextos e saberes de cada comunidade, respeitando as experiências de vida próprias do indivíduo. Aplicou o modelo pela primeira vez em um grupo de 300 trabalhadores de canaviais em Angicos, no Rio Grande do Norte. De acordo com os registros da época, a alfabetização ocorreu em tempo recorde: 45 dias.

Referência mundial em qualidade do ensino, a Finlândia conta, desde 2007, com um espaço dedicado a discutir a obra do educador brasileiro. O Centro Paulo Freire Finlândia fica na cidade de Tampere. "É um hub para os interessados em Paulo Freire e em seu legado para tornar o mundo mais igualitário e justo", de acordo com a definição da própria instituição. Eles publicaram, online, três livros com artigos - em finlandês - analisando a obra do brasileiro. O material teve 17 mil downloads.

Há centros de estudos semelhantes, todos batizados com o nome do brasileiro, na África do Sul, na Áustria, na Alemanha, na Holanda, em Portugal, na Inglaterra, nos Estados Unidos e no Canadá. Na Suécia, Freire é lembrado em um monumento público. Localizada no subúrbio de Estocolmo, 'Depois do Banho' é uma obra em pedra-sabão esculpida entre 1971 e 1976 pela artista Pye Engström. Sentadas lado a lado, estão retratadas sete personalidades com apelo político, como o poeta chileno Pablo Neruda (1904-1973), a escritora sueca Sara Lidman (1923-2004) e a sexóloga norueguesa Elise Ottesen-Jensen (1886-1973).

Mas a obra do educador brasileiro está longe de ser unanimidade entre os países que costumam liderar o ranking Pisa (sigla em inglês para Programa Internacional de Avaliação de Estudantes). Em Cingapura, que apareceu na primeira colocação na edição 2016 da avaliação trienal realizada pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) com escolas conhecidas por adotar um método linha-dura, a BBC News Brasil procurou a mais importante instituição de ensino superior do país para saber se algum pesquisador comentaria a obra do brasileiro Paulo Freire.

Professor destacado pela assessoria de comunicação da Universidade Nacional de Cingapura para atender à reportagem, Kelvin Seah disse que "não era a melhor pessoa para comentar sobre Paulo Freire". "Eu não sou familiarizado com seu método", afirmou.

Convidado a comentar sobre qual seria o método mais adequado ao contexto brasileiro, o especialista recomendou que os gestores analisassem caso a caso. "O método mais apropriado para os alunos em uma escola depende do perfil dos alunos da escola, do treinamento prévio recebido pelos professores, bem como dos recursos de instrução e financeiros disponíveis para a escola."

Em artigo acadêmico analisando o legado de Paulo Freire pelo mundo, o professor de filosofia da educação da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, Ronald David Glass aponta que o mérito de Paulo Freire está no método que valoriza a "consciência crítica, transformadora e diferencial, que emerge da educação como uma prática de liberdade".

"Paulo Freire viveu sua vida no espaço desta consciência; é por isso que inspirou e energizou pessoas no mundo inteiro, e é por isso que seu legado se prolongará muito além de qualquer horizonte que possamos enxergar agora", escreveu o professor. "Freire sempre estava buscando se tornar mais humano, tornar possível que outros fossem mais humanos e, se acolhermos esta busca com tanto amor e determinação quanto ele, então uma maior medida de justiça e democracia estará ao alcance."

Professor da Faculdade de Educação da Universidade Cristã do Texas, Douglas J. Simpson causou certa polêmica no meio acadêmico ao publicar, anos atrás, um artigo intitulado 'É Hora de Engavetar Paulo Freire?'. "Na verdade, não acho que suas ideias devam ser arquivadas", esclareceu ele à BBC News Brasil. "Meu texto foi pensado para atrair a atenção daqueles que acham que sempre estamos recorrendo a Freire. Pessoalmente, acho importante descobrir de novo ou pela primeira vez por que precisamos combinar uma forte paixão reflexiva 'freireana', de respeito e amor, a pessoas carentes de justiça pessoal."

Simpson afirma que a pedagogia baseada no diálogo é fundamental "para que a educação e a democracia prosperem, ou pelo menos sobrevivam". Ele culpa justamente a falta de diálogo pelo fato de as sociedades - e as escolas - estarem fortemente polarizadas politicamente. "Não temos sido efetivamente ensinados a praticar o diálogo nas escolas, muito menos nos governos." Para o professor, Paulo Freire ensinou, acima de tudo, que precisamos aprender "a ouvir, a entender e a respeitar uns aos outros" e a "trabalhar juntos nos problemas".

Considerando o contexto brasileiro, Simpson acredita que não deveria haver uma padronização - ou seja, que as escolas não deveriam seguir todas o mesmo método pedagógico. "As escolas precisam de culturas e responsabilidades que se baseiem em uma ética profissional, políticas e práticas meritórias", disse. Para ele, os métodos são necessários, "mas devem ser vistos como revisáveis, porque as escolas, sociedades, trabalhos e aprendizados são dinâmicos". "A padronização nas escolas muitas vezes leva a uma inércia indevida, de mesmice, de regulamentação estéril", complementou.

Nos anos 1970, o pedagogo John L. Elias, então professor da Universidade de Nova Jersey, escreveu muito a respeito de Paulo Freire. O educador brasileiro foi tema de sua tese de doutorado. Em texto de 1975, Elias apontou "sérios problemas no método" do brasileiro.

"A teoria da aprendizagem de Freire está subordinada a propósitos políticos e sociais. Tal teoria se abre para acusações de doutrinação e manipulação", afirmou ele. "A teoria de Freire da aprendizagem é doutrinária e manipuladora?", provocou.

Elias apontou que o educador brasileiro via "os sistemas educacionais do Terceiro Mundo como o principal meio que as elites opressoras usam para dominar as massas". "Conhecimento e aprendizado são políticos para Freire, porque eles são o poder para aqueles que os geram, como são para aqueles que os usam", argumentou.

Professora de Educação Internacional e Comparada na Faculdade dos Professores da Universidade Columbia, nos Estados Unidos, Regina Cortina já abordou a metodologia de Paulo Freire em diversos estudos sobre educação na América Latina, mas disse à BBC News Brasil que não se sentia "confortável" em comentar o tema no momento "por causa das mudanças administrativas no Brasil". Cortina afirmou, por meio da assessoria de imprensa da universidade, que não é possível vislumbrar com clareza "como as coisas vão seguir nas escolas brasileiras".

Para Freire, o ensino ocorre a partir do diálogo entre professor e aluno, desenvolvendo assim capacidade crítica e preparando os estudantes para sua emancipação social. No jargão do meio, o método Freire é o oposto ao conceito "bancário" de educação - aquele no qual o professor "deposita" o conhecimento nas mentes dos alunos. Para Freire, a educação é construída em conjunto.

O método Paulo Freire chegou a ser adotado pelo governo de João Goulart (1919-1976) em esforços para alfabetização de adultos. Com a ditadura militar, entretanto, o educador passou a ser perseguido, chegou a ser preso por 70 dias e viveu no exílio na Bolívia e no Chile. Após a publicação da 'Pedagogia do Oprimido', em 1968, Freire foi convidado para ser professor visitante na Universidade Harvard, nos Estados Unidos.

Reconhecido desde 2012 como o Patrono da Educação Brasileira, Paulo Freire é considerado o brasileiro mais vezes laureado com títulos de doutor honoris causa pelo mundo. No total, ele recebeu homenagens em pelo menos 35 universidades, entre brasileiras e estrangeiras, como a Universidade de Genebra, a Universidade de Bolonha, a Universidade de Estocolmo, a Universidade de Massachusetts, a Universidade de Illinois e a Universidade de Lisboa. Em 1986, Freire recebeu o Prêmio Educação para a Paz, concedido pela Unesco, a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciências e Cultura.

Há instituições de ensino que seguem o método Paulo Freire em diversos países. É o caso da Revere High School, escola em Massachusetts que em 2014 foi avaliada como a melhor instituição pública de Ensino Médio nos Estados Unidos. Em Kosovo, um grupo de jovens acadêmicos criou um projeto de ciência cidadã inspirado na pedagogia crítica do brasileiro. Os participantes recebem um kit para monitorar as condições ambientais e, assim, juntos, pressionar o governo por melhorias na área.

"Acredito que seria ótimo que a pedagogia em qualquer escola de qualquer país partisse do pensamento de Freire", comentou a pedagoga finlandesa Anttila. "Especialmente no Brasil, dada a atual situação política e a história do país." Ela diz que um método de ensino, para funcionar bem, precisa levar em conta as situações de vida dos alunos. "Não acredito em pedagogia autoritária. As aulas não precisam ser autoritárias. É preciso diálogo, discussão, negociação, exploração. Construir conhecimento para que haja capacidade de expressar ideias e ouvir os outros. Eis a chave para a democracia. E a educação democrática é a única maneira de salvaguardar uma sociedade democrática", declarou.

quinta-feira, 16 de março de 2023

Pensamento do Dia

 

Giacomo Cardelli (Itália)

Os diamantes são os melhores amigos de uma garota

Não me surpreendeu a notícia de que a família Bolsonaro recebeu as joias da Arábia Saudita como bens de caráter "personalíssimo". Nada mais normal do que o presidente e sua esposa receberem joias no valor de quase R$ 17 milhões como um presente pessoal. Ainda mais quando o remetente for o governo de um país com o qual o Brasil estava, na época, negociando acordos.

Bom, falando sério: ainda mais espantoso é ver o vídeo no qual o coronel Mauro Cid, o faz-tudo do presidente, organiza a retomada das joias aprendidas pela Receita Federal em São Paulo, poucas horas antes da fuga presidencial para a Flórida, no fim de dezembro. Havia um avião da FAB, além diárias pagas para que o sargento Jairo Moreira da Silva pudesse ir a São Paulo, onde tentou vários truques para liberar as peças.


De onde a família Bolsonaro tira esses fieis faz-tudos? Antes, era o Fabrício Queiroz, o faz-tudo do Jair e do Flávio, além da família do Adriano da Nóbrega, claro. Agora é uma turma de militares. Ainda tem Frederick Wassef, o advogado do clã, que até emprestou sua casa em Atibaia para o Queiroz se refugiar.

Falando nisso: já sabemos algo sobre os cheques no valor de R$ 89 mil depositados pelo Queiroz na conta da Michelle Bolsonaro? Nunca saberemos, penso, assim como não haverá consequências para a família Bolsonaro – nem pelo caso das rachadinhas, nem por este novo, das joias sauditas. Aparentemente, existem castas aqui no Brasil que são intocáveis.

A Justiça não atuou de forma pesada contra as falas misóginas e racistas de Bolsonaro quando ele era deputado, nem quando "dedicou" seu voto pelo impeachment de Dilma Rousseff a um monstro torturador. Sem falar da multa ambiental emitida pelo Ibama a Jair por pescar em local proibido em Angra dos Reis. Foi logo anulada quando o Jair virou presidente.

E tenho a sensação que nem esse novo caso fará com que Bolsonaro perca seus súditos. A percepção da realidade é subjetiva, os seguidores ferrenhos desculpam qualquer deslize do seu herói. Sabemos que isso também se aplica à esquerda, onde o PT está criando a narrativa de que a Lava Jato foi apenas uma invenção de uns juízes e promotores. E nada mais.

Segundo essa narrativa, devemos ser mais pragmáticos e menos moralistas. Afinal, "corrupção existe em todos os lugares". Conforme esse argumento, o importante é a governabilidade, pois o caos e a anarquia devem ser evitados a qualquer preço, para garantir a sobrevivência da sociedade. O governo Lula manter ministros suspeitos de corrupção e de ligações com milicianos entristece. "Mas, teremos, pelo menos, a salvação da Floresta Amazônica em troca".

P.S.: Aí me pergunto, por que o Lula não simplesmente declarou o triplex no Guarujá ou o sítio de Atibaia como presentes personalíssimos, para acabar com os problemas judiciais? Solução simples.

Mal começaram a ser descobertos os podres da Era Bolsonaro

E se Bolsonaro tivesse sido reeleito em 30 de outubro do ano passado? Com certeza, não haveria a depredação dos prédios públicos na Praça dos Três Poderes em 8 de janeiro.

Em outra data, a depender de como se comportassem seus ministros, os prédios do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior Eleitoral poderiam, sim, ser atacados.


Se dependesse de Bolsonaro, teriam sido atacados há mais tempo. Em 2021, ele encomendou um voo rasante de um jato da FAB sobre o prédio do Supremo para estilhaçar seus vidros.

Alvo da encomenda, o ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva, disse não. Foi demitido. Os comandantes, à época, do Exército, Marinha e Aeronáutica pediram demissão.

Nunca antes na história democrática do Brasil, um presidente da República, em meio ao governo, substituiu de uma vez os comandantes das três armas.

Reeleito Bolsonaro, o escândalo das joias sauditas não teria vindo à tona. A essa altura, os agentes da Receita que apreenderam as joias de Michelle já teriam sido transferidos para outros postos.

E as joias estariam brilhando no pescoço, nos dedos e nas orelhas da primeira-dama com mandato renovado. Não se saberia que o pacote com joias para Bolsonaro entrou ilegalmente no país.

Sim, e a devassa ilegal feita nos dados fiscais e sigilosos do ex-ministro Gustavo Bebianno e do empresário carioca Paulo Marinho, desafetos da família Bolsonaro? Também seria ignorada.

Se não fosse, ficaria por isso mesmo. Por acaso, o Ministério do Trabalho teria sido acionado para resgatar baianos em situação de trabalho escravo no Rio Grande do Sul? Nunquinha.

Não havia Ministério do Trabalho. Quem ousaria investigar uma coisa feia dessas em municípios onde Bolsonaro derrotou Lula com folga? De resto, os produtores de vinho gaúcho são bolsonaristas.

A Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) usou um programa israelense para espionar nos últimos 3 anos cerca de 10 mil pessoas de cada vez. Luz teria sido jogada sobre o fato?

E sobre as 38,9 milhões de doses de vacinas contra a Covid-19 vencidas, avaliadas em cerca de 2 bilhões de dólares? Só há pouco, a informação chegou à equipe do governo Lula.

O ex-ministro Marcelo Queiroga, da Saúde, disse que não era ele quem cuidava do assunto. E que com o esfriamento da pandemia, os brasileiros deixaram de se vacinar. Cloroquina cura.

O tapete que esconde a podridão do governo Bolsonaro mal começou a ser levantado.

Os diamantes e o poder

“Oi, Cora. Essas bolsonarices ajudam os petistas a esconder os presentes que Lula e outros petistas receberam das empreiteiras. (Lembra dos relógios do Jacques Wagner?) Abs.”

O missivista (ainda se usa essa palavra?) não é, a rigor, um desconhecido; é um leitor que me escreve rotineira e educadamente, em geral enviando links para colunas e matérias com um certo viés. Ele sabe que não pensamos da mesma forma e não pretende me converter, apenas apontar o que lhe parece mais sensato do que o que eu escrevo. Respondi:


“Não estou elogiando os petistas. O que você chama de ‘bolsonarice’ atende por corrupção, e corrupção por parte de uma das piores ditaduras atuais. Duvido que os sauditas tivessem coragem de oferecer tais mimos a Angela Merkel ou a Jacinda Ardern. Não ser petista não faz do Bolsonaro um ser humano ou um governante minimamente aceitável.”

Ele replicou:

“Não está elogiando os petistas, mas ao não criticar Lula e o PT (sim, o governo deles já começou!) e ao fazer de Bolsonaro alguém ainda pior do que ele é, torna o efeito parecido. O governo Lula usa o Bolsonaro como ‘seguro’. O mesmo ditador daria o presente ao Lula, que o aceitaria. P.S. aceitar aquele presente é moralmente errado, talvez mesmo algo ilegal, mas não é propriamente corrupção, de acordo com nossa Lei.”

Meu leitor ignora que é impossível fazer de Bolsonaro alguém ainda pior do que ele é, e aí está, a meu ver, a sua maior falha filosófica. O governo Lula, ao contrário, sabe bem disso (razão pela qual, justamente, o usa como “seguro”).

Acho importante o que ele me escreveu porque revela como parte ponderável do país pensa sobre o assunto, a saber: 1) Lula teria feito o mesmo, e 2) aceitar milhões em joias talvez seja ilegal, embora não seja propriamente corrupção.

Tecer considerações no subjuntivo é um exercício inútil, mas duvido que Lula fizesse o mesmo — não por ser a “viva alma mais honesta do Brasil”, mas por ter inteligência política para perceber o potencial de estrago de um certo tipo de “presente”. Em 2003, sua falecida esposa Marisa Letícia fez questão de doar ao Fome Zero, muito publicamente, um colar que recebeu nos Emirados Árabes.

(A política é feita tanto de símbolos quanto de fatos.)

Duvido, sobretudo, que a Arábia Saudita tivesse a audácia de oferecer um presente tão insultuoso para o atual governo, ainda mais por baixo dos panos. No cenário internacional, goste-se dele ou não, concorde-se ou não com a direção da nossa política externa, o Brasil de Lula é protagonista, enquanto o de Bolsonaro era pária — e assombração sabe para quem aparece.

Isso não quer dizer que Lula seja um santo. Ele está longe disso, muito, muito longe. Mas de todos os políticos da História recente do país, ele é o mais ambicioso, e o que melhor entendeu o seu papel: a sua obsessão é pelo poder, e não por quinquilharias, rachadinhas ou cargos para a parentalha.

Por isso, aliás, foi para a prisão, e não para Orlando; mas aí já são outros quinhentos.

Os almirantes e o cumprimento do dever

Conta-se que, diante do inimigo, quando se aproximava do Riachuelo, o almirante Barroso transmitiu à frota uma mensagem: “O Brasil espera que cada um cumpra o seu dever”. Com esse espírito, Hélio Leôncio Martins, então capitão-tenente, subiu em um caça-ferro para proteger comboios no Atlântico, na 2.ª Guerra. Testemunhou um submarino do Eixo explodir um petroleiro na costa venezuelana.

Mais tarde, o almirante Leôncio foi o primeiro comandante do porta-aviões Minas Gerais. Era sincero nas respostas. Ao ser indagado sobre se a Marinha estava preparada para o conflito, disse: “Zero... Pode pôr zero. Zero mesmo. Não sabíamos nada de defesa antissubmarina, não tínhamos arma, nem equipamentos”. O caça-ferro Juruena, com o qual fez a guerra, só foi incorporado à Marinha em novembro de 1942, três meses após iniciado o conflito. E foi no mar que o Brasil sofreu as maiores baixas – 1,5 mil mortos –, embora a memória lembre mais da perda dos cerca de 600 pracinhas e aviadores na Itália. “Cada passagem de comboio era uma vitória.” E Leôncio teve muitas. Morreu em 2016. Honrou cada sílaba da frase de Barroso.

A Marinha tem agora um novo dever a cumprir. Lidar com o papel de seus almirantes no governo de Jair Bolsonaro. Foi do comandante da Força, Almir Garnier, que surgiram duas extravagâncias: o desfile de carros de combate em Brasília, no dia da votação da PEC do voto impresso, e a ridícula recusa de transmitir o cargo ao almirante Marcos Olsen. Elas expuseram a politização na Marinha.

Já a revelação do caso das joias trazidas escondidas da Arábia Saudita para Bolsonaro e sua mulher, Michelle, por outro almirante – Bento Albuquerque – só atesta a degradação que o bolsonarismo impôs ao País. Em uma das andanças, Bento esbarrou em um fiscal que cumpria o seu dever.

Pior. A voz do almirantado que se insurgiu contra a partidarização da Força Naval, o contra-almirante da reserva Antonio Nigro, foi punido com uma repreensão, em 2022. E isso em um governo que abafou o caso do general da ativa Pazuello. Se há punições que têm o valor de uma medalha, Nigro teve a sua.

Sobre as joias, escreveu: “Não me surpreende o fato de Bolsonaro ter incorporado ao seu acervo pessoal parte dos presentes. Nem tampouco o protagonismo de militares partidarizados na façanha de omitir o desvio das joias. Louvável a dignidade da conduta dos agentes de carreira da Receita. Exemplar a resistência deles contra investidas de autoridades de mais elevado nível hierárquico”. Nigro tem razão. Não disse nada de ofensivo, só reconheceu na conduta do fiscal o mesmo material que moveu Barroso e Leôncio: o cumprimento do dever.

quarta-feira, 15 de março de 2023

Brasil é dos muambeiros

 


Verdadeiros vigilantes


Eu não confio no Estado. Eu confio na vigilância da sociedade
Nélida Piñon

As digitais do governo Bolsonaro na criação de um Estado policial

Todo cuidado é pouco em um mundo onde até objetos domésticos de aparência inocente são capazes de espionar seu comportamento e desejos, e informar a respeito aos interessados ocultos. De fato, todo cuidado é pouco e, na maioria das vezes, inútil.

Comprada no final do governo Michel Temer, a ferramenta “FirstMile”, desenvolvida pela empresa israelense Cognyte, custou a bagatela de 5, 7 milhões de reais, um terço do valor das joias dadas de presente a Michelle pela ditadura da Arábia Saudita.


Não se sabe se ela entrou em ação de imediato; sabe-se, porém, que dela se valeu o governo Bolsonaro entre 2019 e 2021, via Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), órgão subordinado ao Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República.

Trata-se, segundo apurou O Globo, de um sistema secreto de monitoramento que permite acompanhar em qualquer ponto do país os passos de até 10 mil donos de celulares a cada 12 meses, naturalmente à revelia deles, senão não faria sentido.

Para isso bastava digitar o número de um contato telefônico no programa e ver em um mapa a última localização conhecida do dono do aparelho. Moleza! A partir daí, o dono do aparelho só sairia de vista se a ABIN perdesse o apetite por ele.

A agência não tem autorização legal para acessar dados privados de ninguém; nem na época da ditadura militar de 64, o famigerado Serviço Nacional de Informações (SNI) tinha. Mas, e daí? Em um Estado policial, tudo é permitido; num semi, quase tudo.

O SNI grampeava telefones, o que dava trabalho e exigia agentes para ouvir os diálogos e transcrever o que parecesse importante. Exigia gente também para seguir ao vivo a movimentação dos espionados. Um software, hoje, cuida de tudo sem deixar rastros.

Uma vez que o governo foi trocado no início de janeiro último, ignorasse se o “FirstMile” continua ativo e, nesse caso, monitorando Bolsonaro nos Estados Unidos. Há meios de burlar a vigilância. Lula, por exemplo, só usa o celular dos outros.

O certo é que na Flórida, onde se refugiou, Bolsonaro está sujeito à vigilância de drones. Não admite uma Alexa perto dele porque ela não guarda segredos, transmite-os em tempo real. E usa vários celulares, mas de preferência de auxiliares.

Quando presidente, no auge de sua paranoia, ele se escondia no Palácio da Alvorada com medo de ser atacado por um drone. Não raras vezes, abaixava-se para conferir se não havia uma bomba atada ao carro que o transportava.

Certa ocasião, filmado por um admirador, tentou tomar-lhe o celular. Foi quando ganhou o apelido de “Tchutchuca do Centrão”.

O castigo de Carluxo é voltar ao Rio

Cinelândia, centro do Rio. O vereador Carlos Bolsonaro —de cabeça baixa, com pinta de paranoico, cercado de seguranças e andando rápido para não ser reconhecido— entra na Câmara Municipal usando a porta alternativa, na lateral do prédio. Ao flagrá-lo, um gaiato que almoçava no Amarelinho entoa a plenos pulmões a cantiga infantil: "Apareceu a Margarida, olê olê olá".

Em sua sexta legislatura, o filho 02 consegue ser um completo estranho no ninho. Se bobear, ele não sabe nem onde fica o Amarelinho, tradicional bar e restaurante ao lado da Câmara. Além de gaiato, o carioca que o chamou de Margarida é um privilegiado, pois viu o vereador chegar para um raríssimo dia de trabalho na cidade que o elege desde 2000, quando era apenas um adolescente de 17 anos e foi introduzido na política pelas mãos do papai.


Motivo de piada entre seus pares no Parlamento —"O Rio é a primeira cidade do Brasil que possui um vereador federal"—, Carlos passou os últimos quatro anos longe, em Brasília. Apontado por Bolsonaro como principal responsável por sua chegada ao Palácio do Planalto, em 2018, ele voltou a influir na campanha presidencial, comandando o gabinete do ódio e impulsionando a estratégia da mentira nas redes.

Investigado por lavagem de dinheiro, organização criminosa, com o sigilo bancário quebrado, refugiou-se depois das eleições nos EUA, onde nasceu sua filha Júlia. Cogitou pedir cidadania italiana para escapar da Justiça. Não houve jeitinho: retornou ao velho Palácio Pedro Ernesto na semana passada.

Já tem explicações a dar: por que usou o cartão corporativo da Presidência da República para trabalhar em home office durante a pandemia? Foram 11 diárias de hotel, em março de 2021, que custaram R$ 2.300 aos cofres públicos. Na época, atuando de maneira remota e recebendo salário na Câmara, Carlos Bolsonaro criticou o isolamento social. Estando em Brasília, é claro.

segunda-feira, 13 de março de 2023

Propina das Arábias


De presente oficial da Casa de Saud, segundo a versão inicial, a semana termina com a suspeita de que as faiscantes joias-ostentação têm cara, cheiro e delivery de propina.
Dorrit Harazim

O futuro das mentes e das máquinas que pensam

Considere a seguinte situação: você acorda atrasado para o trabalho e, na pressa, esquece o celular em casa. Só quando fica engavetado no tráfego, ou amassado no metrô, é que você se dá conta. E agora é tarde para voltar. Olhando em volta, você vê pessoas com celular em punho conversando, mandando torpedos, surfando na internet. Aos poucos, você vai sendo possuído por uma sensação de perda, de desconexão.

Sem o celular, você não é mais você. A junção do humano com a máquina é conhecida como “transumanismo”. Tema de vários livros e de filmes de ficção científica, hoje é um tópico essencial na pesquisa de muitos cientistas e filósofos. A questão que nos interessa aqui é até que ponto essa junção homem-máquina pode ocorrer, e o que isso significa para o futuro da nossa espécie. Será que, ao inventarmos tecnologias que nos permitam ampliar nossas capacidades físicas e mentais, ou mesmo máquinas pensantes, estaremos decretando o nosso próprio fim? Será esse o nosso destino evolucionário, criar uma nova espécie além do humano? É bom começar distinguindo tecnologias transumanas daquelas que são apenas corretivas, como óculos ou aparelhos de surdez.

Tecnologias corretivas não têm como função ampliar nossa capacidade cognitiva: simplesmente regularizam alguma deficiência existente. A diferença ocorre quando uma tecnologia não só corrige uma deficiência como leva seu portador a um novo patamar, além da capacidade normal da espécie humana. Por exemplo, braços robóticos que permitem que uma pessoa levante 300 quilos, ou óculos com lentes que permitem enxergar no infravermelho. No caso de atletas com deficiência física, a questão se torna bem mais controversa: em que ponto uma prótese, como uma perna artificial de fibra de carbono, cria condições além da capacidade humana? Considerando esse caso, será que é justo que esses atletas compitam com humanos sem próteses?

A maioria das pessoas acha que esse tipo de hibridização entre tecnologia e biologia é coisa para um futuro distante. Ledo engano. Como no caso do celular, está acontecendo agora. Estamos redefinindo a espécie humana através da hibridização – na maior parte, ainda externa – com tecnologias que ampliam nossa capacidade. Sem nossos aparelhos digitais – celulares, tablets, laptops –, já não somos os mesmos. Criamos personalidades virtuais, ativas apenas na internet, outros “eus” que interagem em redes sociais com selfies arranjadas para impressionar. Esses eus virtuais são criações remotas, onipresentes.


Cientistas e engenheiros usam computadores para ampliar sua capacidade cerebral, enfrentando problemas que, há apenas algumas décadas, eram considerados impossíveis. Como resultado, a cada dia surgem novas questões que, antes, nem podíamos contemplar. O ritmo do progresso científico está diretamente relacionado com nossa aliança a máquinas digitais. Somos já transumanos. Aonde isso nos levará? Em livro de 2018, o filósofo sueco Nick Bostrom, professor na Universidade de Oxford, soa o alarme: se criarmos inteligências superiores à nossa, poderemos nos tornar obsoletos.

Em Superinteligência, Bostrom faz uma analogia entre nós e os gorilas, e entre nós e as inteligências artificiais sobre-humanas: do mesmo modo que a sobrevivência dos gorilas depende da nossa benevolência, se máquinas mais inteligentes e poderosas do que nós existirem, nossa sobrevivência dependerá delas. E o que garante que elas irão nos preservar? É o mito do Frankenstein revisitado, criaturas criadas por cientistas ameaçando nossa espécie. Claro, a premissa aqui é que é possível criar tais máquinas superinteligentes.

Nisso, a comunidade científica e filosófica está dividida. De um lado, temos os que acreditam que é apenas uma questão de tempo: do mesmo modo que a Natureza “criou” ao menos uma espécie inteligente (golfinhos, baleias, cachorros e gatos são inteligentes, mas não desenham computadores ou sondas espaciais, ou compõem sinfonias e poesia), não há qualquer empecilho fundamental para que possamos repetir a façanha, criando outras entidades inteligentes. As leis da Natureza, argumentam, não proíbem a construção de inteligências artificiais.

Críticos rebatem que a questão não é tão simples. Primeiro, não sabemos exatamente o que é inteligência. E, se não temos uma definição, fica bem difícil recriá-la artificialmente. Por exemplo, o supercomputador da IBM Deep Blue, que ganhou do campeão mundial de xadrez Garry Kasparov em 1997, não era inteligente. Ao menos não no sentido de ser uma entidade autônoma, capaz de tomar suas próprias decisões. Deep Blue reunia uma velocidade incrível de processamento de informação com um programa altamente sofisticado de seleção de estratégias, escolhendo seus movimentos baseado num processo refinado de otimização.

A inteligência de Deep Blue era de seus programadores e não da máquina em si. Na Europa e nos EUA, duas grandes iniciativas estão tentando criar uma máquina inteligente baseada na desconstrução do cérebro humano. Essencialmente, a ideia é mapear o cérebro em todo detalhe, incluindo cada neurônio, suas ligações sinápticas com outros neurônios (sua “cognitividade”), o fluxo de substâncias neurotransmissoras de neurônio a neurônio, recriando toda essa informação num gigantesco programa de computador, uma simulação do cérebro humano em uma entidade de silicone. Uma pesquisa sem dúvida fascinante, que leva a uma pergunta essencial: como saber se temos toda a informação relevante para recriar um cérebro humano, o objeto mais complexo do Universo conhecido?

Como no famoso conto de Jorge Luis Borges, “Sobre o rigor na ciência”, um mapa perfeito, contendo todos os detalhes do original, teria que ser do tamanho do que se propõe a mapear, sendo, portanto, inútil. No caso do mapeamento do cérebro, certamente esse tipo de iniciativa é extremamente importante e válida, e nos trará muita informação valiosa sobre seu funcionamento e estrutura. Mas o objetivo final, a compreensão completa do cérebro humano, me parece um mito.

Afinal, sabemos que nossa aferição do que existe é sempre limitada: o que vemos do mundo, mesmo com nossos instrumentos, jamais é tudo o que pode ser visto. Portanto, qualquer simulação de uma entidade real será necessariamente incompleta. No máximo, podemos tentar captar aquilo de mais essencial, recriando um modelo parcial do que existe. Me parece difícil concluir que esse modelo parcial terá funções cognitivas idênticas a um cérebro real. Ainda pior: nem sabemos o que significa entender o cérebro destituído do corpo que o comanda.

Mesmo se programas de computador chegarem a ser inteligentes, sua inteligência não será como a nossa. Será outra coisa, destituída de um corpo. E o que é um humano destituído de um corpo? Impossível contemplar. O que é uma inteligência que não sofre ou sente dor? Até que ponto essas emoções subjetivas podem ser capturadas num programa, numa sequência de instruções? Me parece que esse objetivo – a construção de máquinas autônomas inteligentes – está bem mais distante do que um que já está acontecendo, nossa hibridização com tecnologias que expandem nossas habilidades cognitivas.

No brilhante filme Ela, de 2013, um homem se apaixona por um sistema operacional inteligente, capaz de aprender com a informação que recebe. A história é trágica, explorando a solidão humana e como a tecnologia do futuro – na medida em que nos definimos pelas nossas interações com os outros – irá redefinir quem somos. Ao menos no filme, os “outros” poderão não ser mais humanos. Apesar da beleza e da importância do filme, é bom não confundi-lo com a realidade. Como argumentei, é muito possível que a premissa das máquinas inteligentes, ou mais inteligentes do que nós, seja falsa. É bem mais provável que o futuro da inteligência esteja dentro do cérebro humano, e não fora. Nós, ou os nossos híbridos com máquinas, é que nos tornaremos superinteligentes, estendendo nossa capacidade mental por meio da união do biológico com o cibernético.

A meu ver, o futuro da inteligência artificial não está nas máquinas, mas na inteligência humana artificialmente ampliada. Não estamos desenhando nosso fim, mas uma nova espécie que transcenderá os limites evolucionários que determinam o funcionamento de nossos cérebros e corpos. Com isso, não devemos temer o futuro da pesquisa em inteligência artificial, mas vê-la como uma oportunidade de emancipação, de crescimento da nossa espécie. Certamente, nossos descendentes serão mais inteligentes e, espero, também mais sábios.
Marcelo Gleiser, "O caldeirão azul"

1984 não é aqui

Reler um livro é um prazer renovado. A frase imortal do filósofo Heráclito: “Não podemos nos banhar no mesmo rio porque as águas renovam-se a cada instante”, não se aplica aos livros: a beleza da escrita parece água parada. O que muda é o banhista caso se disponha a reaprender, redescobrir novos mundos e recriar um novo leitor.

Imaginando que os meses tradicionais de fim de ano seriam mais amenos, me comprometi a reler três livros (não sou um “leitor voraz”, normal, apenas). Engano: os tempos sombrios, ferozes, seguem trepidantes. Ainda assim, segui o conselho do grande Nelson Rodrigues “Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia”.



Escolhi 1984 de Eric Blair, nome jogado ao esquecimento pela força do pseudônimo do George Orwell e quase uma dezena obras precocemente interrompidas, aos 46 anos, por uma infame tuberculose.

Irving Howe, editor e crítico literário americano, desfez minha dúvida: “Não é fácil imaginar que muita gente torne a reler 1984 espontaneamente: não há razão nem necessidade, pois ninguém o esquece”. Mas, precisa ser lembrado. Principalmente diante de autocratas declarados e enrustidos.

Diferente dos clássicos, uma vasta e atônita “fortuna crítica” não conclui se ele escreve sobre o passado, descreve o presente ou prediz o futuro. Não importa se a gente termina sem ter a resposta. Mais uma vez, Howe enxerga longe: “Se o mundo de 1984 se concretizar, ninguém o lerá exceto os donos do poder total; se o mundo de 1984 não se concretizar talvez as pessoas fiquem com a impressão de que o livro não passava de um mero sintoma de algum distúrbio privado, de um pesadelo”.

Assim carregamos 1984 como um pesadelo que é nosso. “Afinal de contas, diz George Parker, escritor e jornalista do New Yorker Times, a verdade revela-se a coisa mais frágil do mundo. O drama da política é o que está no nosso cérebro”. Winston, personagem central da obra, talvez seja o último sobrevivente dos tempos de antigamente.

Viveu no ambiente propício da distopia: a guerra permanente (Oceânia e Eurásia), o inimigo imaginário – Emmanuel Goldstein a ser exterminado, a opressão letal e a substituição completa do humano por máquinas obedientes para exercer a totalidade do mal.

Com efeito este é o ponto de identificação do horror de Orwell: os totalitarismos. Não escreveu sobre governos ou qualquer preferência política. Criou o “Organograma do Mal” sob a ubiquidade do Grande Irmão; Ministério da Verdade (que só mentia pela escuta de tudo pela Teletela); Ministério do Amor (controlado pela Liga Juvenil Antissexo); A Novilíngua (ou Novafala) em associação com a Polícia do Pensamento e o Duplipensar para extinguir a liberdade de pensamento, tudo envenenado pelo programa diário Dois Minutos de Ódio e a construção filológica de modo a conectar clichês, segundo Hannah Arendt, à banalidade do mal, com permanentes doses de arsênico.

Antes de qualquer insinuação, não me refiro a distopias nacionais, mas que elas existem, existem, rondam as pessoas e, perigosamente, a humanidade em territórios de dor e surtos de desesperança na síntese de três famosos slogans do Ministério da Verdade: “Guerra é paz. Liberdade é escravidão. Ignorância é força” para os quais a moral a se extrair desse pesadelo perigoso parece simples: “Não deixe que aconteça. Depende de você”.

1984 não é aqui.