sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

País da luz vermelha


O Brasil corre o risco de ficar obsoleto antes de ficar pronto

Claude Lévi-Strauss

De Nuremberg para Bolsonaro

As imagens dos yanomamis em condições subumanas, com as costelas da fome, doentes, agonizantes ou mortos remeteram o mundo às vítimas dos campos de concentração nazistas da Segunda Guerra. Desde o começo da guerra sabia-se da existência desses campos e que eles deviam ser palco de maus-tratos e de mortes de judeus, mas não se tinha a dimensão da tragédia. Foi preciso que, com a rendição da Alemanha, os Aliados penetrassem neles para que fosse conhecido o tamanho do horror.


Da mesma forma, por mais que se soubesse que Bolsonaro e os militares que ele corrompeu tinham aberto a Amazônia a um vasto catálogo de bandidos —invasores de terras, garimpeiros ilegais, desmatadores, assassinos de aluguel, estupradores e traficantes de drogas, armas e pessoas—, o Brasil não tinha consciência de até que ponto isso estava atingindo os yanomamis.

É possível que o povo alemão ou parte dele desconhecesse a realidade dos campos de extermínio ou não quisesse acreditar neles. Mas, assim como a burocracia nazista sabia o que se passava, vários ministros de Bolsonaro —pelo menos os do Meio Ambiente, da Saúde, da Defesa, da Justiça, da Agricultura e da Mulher, Família e Direitos Humanos, além dos três comandantes e demais militares que atuaram na Amazônia— também sabiam da situação dos yanomamis. Se mais não fosse, há dezenas de provas de que eles foram alertados. Mas a boiada precisava passar.

O genocídio dos yanomamis está agora escancarado. Isso não trará os seus mortos de volta, mas, se se fizer justiça, Ricardo Salles, Damares Alves, Braga Netto, Eduardo Pazuello, Marcelo Queiroga, Tereza Cristina, Hamilton Mourão e muitos outros terão de se sentar ao lado de Bolsonaro no banco dos réus.

Um banco, de preferência, importado de uma loja de móveis de Nuremberg.

O fascismo no Brasil

Um professor meu da Universidade de Chicago, Brasilianista, uma vez me disse como caricatura ao se referir ao peso e tamanho do Estado em nosso país, que “A revolução capitalista no Brasil é mais difícil do que a socialista. Não que a socialista seja possível”. Rimos bastante, mas verdadeiro.

Nunca me preocupei com a possibilidade de socialismo no Brasil, por saber com convicção que deste mal nunca padeceremos. Com relação à revolução capitalista, também não. Todas as tentativas de se instalar no Brasil uma economia de mercado, inclusive recentemente como anunciado na campanha de Bolsonaro em 2018, fracassaram. O Brasil, há dois séculos, é um Estado Patrimonialista, onde o Estado se apodera das relações econômicas e sociais, conforme descrito por Max Weber, com um mercado econômico concedido e auxiliar, gerador dos lucros dos quais o próprio Estado se apropria.

Mas me preocupo muito com o fascismo no Brasil, por ver ele possível.


O fascismo, conforme descrito nos trabalhos de Hannah Arendt, De Felice e George Mosse, tem por origem as classes médias iliteratas sem perspectivas sociais e ansiosas em ter poder na sociedade, despertadas que são por um Líder, em alemão, Das Fuhrer, demagogos oportunistas sem ideologia, aliados a parcela de empresários, certamente não a sua maioria, na busca da reserva de mercado pela força. Este quadro de possibilidades se forma devido a dois fatores. Primeiro, quando o país passa por forte recessão econômica, como na Alemanha com a hiperinflação em 1922 e no Brasil com a queda do PIB de US$ 2,6 trilhões em 2011 para US$ 1,8 trilhões em 2015.

Segundo, na decepção para com os partidos tradicionais, como na Alemanha na República de Weimar e no Brasil com o PT e o PSDB e imagem dos políticos devido à Lava Jato. Em todos os países onde o fascismo se instalou, o Líder, ou Das Fuhrer, usa da mentira como arma social. Na Alemanha, o inimigo externo era o comunismo e a Rússia, e o inimigo interno os Judeus que tanto ajudaram a Alemanha a se desenvolver. No Brasil de Bolsonaro, o inimigo externo eram a Venezuela e a China, na esdrúxula tentativa no início de seu governo da invasão da Venezuela sob o manto da “ajuda humanitária”, e o inimigo interno o comunismo, este ente abstrato que paira na mente dos incautos da mais impossível implantação. “Deutschland Uber Alles”, “o Brasil acima de tudo”. Não é por nada que a utilização dos símbolos Nazistas tanto cresceu no Brasil. O Observatório Judaico dos Direitos Humanos apontou recentemente que o número de ataques neonazistas de 2019 a 2020 quase que dobrou no país, de 12 para 21, 49 em 2021, 32 somente no primeiro semestre de 2022.

Bolsonaro perde as eleições, tenta o Golpe de Estado, e continua na expectativa. O único antídoto para o fascismo é o desenvolvimento econômico e dura legislação, para satisfazer e controlar a horda das violências, como ocorreu na Alemanha após a Segunda Guerra Mundial.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

Garimpo ilegal transforma ouro em barras e joias legais

O ouro é o principal motivo da tragédia que atinge o povo yanomami, extraído por garimpeiros que deixam um rastro de destruição por onde passam. A atividade ilegal é favorecida por legislação frágil e fiscalização precária, que abrem espaço para que o metal precioso saia dos confins da floresta e seja comercializado em barras ou em joias nos grandes centros urbanos do Brasil e do exterior.

A lei em vigor estipula que o garimpeiro que vende ouro a uma empresa preencha, ele mesmo, uma nota fiscal em papel indicando o local de onde o metal foi extraído. Além disso, segundo a norma é presumida a boa-fé do vendedor, isentando o comprador da necessidade de checar a origem do ouro ou da responsabilidade por eventuais declarações falsas.

Como o Brasil não tem um sistema eficiente de rastreabilidade do ouro, se a Polícia Federal (PF) recebe alguma denúncia ou suspeita de fraude, precisa checar uma a uma as informações indicadas nas notas fiscais e as lavras de onde o ouro supostamente foi retirado – uma investigação difícil de produzir resultado.

Por esse motivo, alguns especialistas ouvidos pela DW afirmam que melhorar o rastreio na comercialização de ouro no Brasil seria, no longo prazo, até mais importante do que impedir a entrada de garimpeiros nas reservas indígenas, como vem sendo feito em caráter emergencial na Terra Indígena (TI) Yanomami.


Atualmente, o garimpeiro leva o ouro que extraiu a uma Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários (DTVM), que são empresas autorizadas pelo Banco Central e pela Receita Federal a comprar o metal. Ele indica então na nota fiscal o local de onde o ouro foi extraído, a chamada Permissão de Lavra Garimpeira (PLG).

As lavras garimpeiras são autorizadas pela Agência Nacional de Mineração (ANM) a pessoas físicas, com 50 hectares, e jurídicas, com 1.000 hectares. Em ambos os casos, é necessário obter licença ambiental do órgão onde a lavra está situada e um descritivo técnico de como ela será explorada, assinada por um geólogo.

Na teoria, a lavra garimpeira serve para identificar a origem do ouro. Na prática, sua existência no formato atual serve, em muitos casos, para mascarar o metal obtido ilegalmente. É o que se convencionou chamar de "garimpo fantasma", termo cunhado por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em um estudo feito em parceria com o Ministério Público Federal e divulgado em agosto de 2020.

Por meio de imagens de satélite, os pesquisadores cruzaram a origem declarada do ouro com a geolocalização das lavras garimpeiras. Eles descobriram que muitas lavras, onde deveria haver extração do metal, só existia mata nativa, sem qualquer intervenção humana. Assim, os especialistas entendem que aquela área serviu para "legalizar" ouro extraído irregularmente – de uma reserva indígena, por exemplo.

O esquema revelado pelos pesquisadores em parceria com o MPF mostrou que, de 2019 a 2020, 6,3 toneladas de ouro produzidas no país vieram de lavras sem garimpo, com movimentação aproximada de R$ 1,2 bilhão. Vender ouro cuja origem é fraudada pode ser enquadrado como crime de lavagem de dinheiro e falsidade ideológica.

No momento de vender o ouro para uma DTVM, o garimpeiro escreve na nota fiscal seus dados pessoais, a quantidade e a origem do metal. "É uma autodeclaração. Ele não vai dizer que retirou ouro da Terra Indígena Yanomami, mas vai colocar a identificação de uma lavra garimpeira qualquer", afirma Larissa Rodrigues, gerente do Instituto Escolhas, organização da sociedade civil que desenvolve estudos e análises econômicas para o desenvolvimento sustentável.

Segundo um levantamento feito pela organização com base em 40 mil registros de comercialização do metal, cerca de 229 toneladas de ouro vendidas no país de 2015 a 2020 tinham indícios de irregularidades. "Quem compra esse ouro, a DTVM, se resguarda baseada na lei que está em vigor. Por isso, é muito difícil responsabilizar as pessoas que estão cometendo ilegalidades. É importante que nós possamos melhorar a legislação rapidamente", diz.

Em agosto do ano passado, um projeto de lei apresentado pelas então deputadas federais Joênia Wapichana (Rede-RR), atual presidente da Funai, e Vivi Reis (PSOL/PA) propôs endurecer as regras sobre venda e compra de ouro e ampliar sua rastreabilidade. Esse texto tem apoio da Receita Federal, do Banco Central e da ANM, e é avaliado pelo governo federal para ser possivelmente editado como medida provisória.

"Essa facilidade com que o ouro ilegal entra no mercado formal estimula as invasões em terras indígenas e das unidades de conservação. Mudar a legislação, mas não só isso, vai inibir a presença dos criminosos não só na Terra Indígena Yanomami, mas em outras regiões, como no Pará", afirma Rodrigues.

Gustavo Geiser, perito da Polícia Federal (PF) em Santarém, no Pará, afirma que esse projeto de lei tem um texto "maduro" e com boas proposições, e que se o governo transformá-lo em uma medida provisória será "algo a se comemorar".

A região de atuação de Geiser é crucial para entender o caminho do ouro ilegal no Brasil, sobretudo o extraído em Roraima, onde fica parte da Terra Indígena Yanomami afetada pelo garimpo. Em cidades paraenses, incluindo Santarém e Itaituba, onde também há intensa atividade garimpeira, o metal irregular é "legalizado" ao ser vendido em DTVMs amparadas pela boa-fé que resguarda dos compradores.

Como mostrou uma reportagem da agência independente Repórter Brasil, em junho de 2021, baseada em inquéritos da PF, o ouro extraído da Terra Indígena Yanomami estava sendo comercializado nas lojas F'D Gold e Ourominas, ambas em Itaituba.

As duas empresas estão sendo investigadas pela Justiça brasileira, mas negam qualquer irregularidade. "Essa é uma circulação que nós investigamos. Há muito ouro ilegal e legal circulando aqui. Há uma relação logística nesse sentido. O mesmo grupo que circula em Roraima, circula no Pará também", diz Geiser.

Para ele, parte do problema da circulação do ouro ilegal poderia ser resolvida com a tecnologia. "O ponto central é a possibilidade de ter um banco de dados. O ouro que é comprado no Brasil não é registrado. Nós precisamos ter a tecnologia a nosso favor", diz.

Rodrigues, do Instituto Escolhas, corrobora. "É preciso haver um rastreio capaz que demonstre esse fluxo desde a extração. Uma possibilidade é a nota fiscal eletrônica, mas há outras alternativas", diz. Ela cita como exemplo a utilização de registros similares aos de blockchain, capaz de integrar os dados e informações dos processos minerários e dos fluxos de produção, e a implementação de cadastro digital de todas as pessoas físicas e jurídicas aptas a movimentar e comercializar ouro.

Na PF, Geiser chama a atenção para o programa Ouro Alvo, que busca criar um acervo com partículas de ouro do Brasil e identificar irregularidades. De 2019 a junho de 2022, a PF apreendeu 733 quilos do metal em operações no país. "O ouro muda de acordo com a região do país. A intenção é para seguir mapeando as características do ouro e coibir ilegalidades", diz.

Apesar de estarem amparados pela lei, Rodrigues afirma que compradores nacionais e internacionais precisam exigir de seus fornecedores mais indicativos de que o ouro vendido não tem origem ilegal. Ela ressalta que pelo menos 50% do metal negociado pelo Brasil tem sangue indígena ou está relacionado ao desmatamento.

Nos últimos meses, a PF tem tentado rastrear o caminho do ouro rumo à Europa. Em outubro de 2021, a Repórter Brasil mostrou que a BP Trading, principal exportadora de ouro do país, tinha negócios com empresas nacionais investigadas por aquisição do metal oriundo de terras indígenas. A BP Trading afirmou na época em nota que "mantém rigorosos controles quanto à origem do mineral adquirido de seus fornecedores" e que é "condição inafastável para a realização de suas operações que o minério esteja acompanhado da devida documentação pertinente exigida pela legislação em vigor".

"Praticamente todo o ouro do Brasil é exportado para grandes economias, como Canadá, Suíça, Reino Unido [e outras na] Europa. Nós sabemos que não há um certificado de pureza ou algo similar, mas essas empresas internacionais precisam pressionar por algo nesse sentido. E, se houver desconfiança quanto à procedência, não comprar", afirma Rodrigues.

Os Bolsonaro, uma família do barulho e do malquerer

“A pátria é a família amplificada. E a família, divinamente constituída, tem por elementos orgânicos a honra, a disciplina, a fidelidade, a benquerença, o sacrifício”, escreveu Ruy Barbosa, jurista, político, diplomata, tradutor, orador e um dos intelectuais mais reverenciados do seu tempo.

Se é como disse Ruy, dá para entender porque a família Bolsonaro fez do Brasil ao seu tempo a pátria da desonra, da indisciplina, da infidelidade, do malquerer e dos sacrifícios inúteis. Obrigada pelo marido, Michelle anunciou que não tem a menor pretensão de candidatar-se à sucessão de Lula em 2026.


Carlos Bolsonaro, o Zero Dois, filho de Rogéria, a primeira mulher do pai dele, a quem derrotou ao se candidatar a vereador no Rio, amou o anúncio feito por Michelle, a quem detesta. A recíproca é verdadeira. Por sua vez, Michelle celebrou discretamente a perda por Ana Cristina Valle da nacionalidade brasileira.

Ex-administradora do esquema da rachadinha nos gabinetes de Carlos e de Flávio, o Zero Um, Ana Cristina foi a segunda mulher de Bolsonaro. É mãe de Jair Renan, o Zero Quatro. Com Michelle, Bolsonaro teve uma filha, Laura. Ao separar-se de Bolsonaro, Ana Cristina casou-se com um norueguês e foi morar na Noruega.

Separou-se depois, voltou ao Brasil, e veio morar em Brasília com Jair Renan, o que deixou Michelle possessa de raiva, e Bolsonaro bastante incomodado. Aqui, comprou uma mansão no Lago Sul sem ter dinheiro para isso e começou a ser investigada pela Polícia Federal. Michelle ficou satisfeita com a notícia.

Candidata a deputada distrital, Ana Cristina não se elegeu, para alegria de Bolsonaro, que temia ser alvo de chantagem. Se um dia Ana Cristina abrisse o bico e contasse o que sabe…, mas Ana Cristina decidiu se mandar para a Noruega outra vez. E por ter adquirido a nacionalidade norueguesa, perdeu a brasileira.

A perda foi publicada, esta semana, no Diário Oficial da União. O processo foi aberto à época em que Bolsonaro era presidente e Anderson Torres, hoje preso, ministro da Justiça. Ana Cristina ainda não disse o que fará. Jair Renan, sempre afastado do pai, também não. Bolsonaro dirá que nada teve a ver com nada.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

Brasil com 523 anos


 

Ninguém merece ser pobre

Não dá realmente para acreditar que uma pessoa pobre tenha votado no Bolsonaro. Mas teve. Alguma distorção ideológica, muita fake News, algum preconceito e as igrejas neo pentecostais. Eu pergunto: O que o governo Bolsonaro fez pelos pobres? Absolutamente nada e isso só considerando os pobres nas regiões urbanas. Se ampliamos nossa pergunta aos indígenas, nordestinos, negros e outros grupos segregados ai a resposta é zero pra menos. Além de não ter feito nada criou condições para que o extermínio dos povos originários, por exemplo, avançasse. O que vemos hoje nas terras Yanomamis fez com que o presidente Lula e Sonia Guajajara fossem até lá para uma intervenção de emergência.

Estão morrendo de fome e de doença. Povos abandonados e envenenados pelo mercúrio liberado ao garimpo pelo governo criminoso que foi derrotado nas urnas.


A pobreza vem acompanhada da desassistência, do abandono e da morte. Como os indígenas, as populações de rua que aumentam a cada noite que passa também morrerão. Aliás essa era a ideia. Além de não interessar a mínima ao governo que passou a existência dessa gente, morrer era o plano. Alías Guedes pregava esa política ao culpar os pobres pelos problemas. Realmente para eles os pobres, indígenas, negros e desempregados são os responsáveis pelo fracasso da política econômica neoliberal. E sse gente não morre, deviam pensar entre uma taça de vinho e outra. Na realidade todos morrem. O que nos resta é o tempo de vida aqui na terra que deveria ser vivido de modo mais justo.

Acabar com a pobreza não é mole, mas é possível e já vivemos isso. Saímos do grupo de miseráveis quando Lula foi eleito a primeira vez e agora, na terceira vez ele não pode deixar isso de lado. Tratar das feridas deixadas nesse povo sofrido não vai dar tréguas ao governo Lula. E as pessoas vão ficar de marcação. Não dá para considerar as oscilações do Mercado de capoitais quando tem um povo inteiro morrendo de fome e doença. Lula tem que salvar o povo brasileiro que tem fome e não a Bolsa de valores. A bolsa faz parte de todo o sitema de economia do capitalismo mas não é determinante como queria Guedes e sua turma. É atarativo para o capital estrangeiro como também é um povo que come, mora dignamente, estuda e trabalha. Um mecado que não leva isso em consideração é um mercado distorcido, feito para enriquecer queles poucos que ainda têm dinheiro. Ter dinheiro hoje deveria mudar de definição. Não deveria ser acumular nos investimentos e nos imóveis. Deveria ser ter o bastante para ser feliz, poder comer dignamente, conhecer novos lugares enovas culturas. Sei que éuma utopia. Já ganhei muito mais do que ganho duramente hoje mas acho que sou mais feliz assim. Claro que mais tranquilidade ajuda na busca pela felicidade. Mas isso nós vamos conseguir e o caminho para se chegar lá já ajuda. A exploração é um crime e a pobreza uma punição que ninguém deveria sofrer. Viva os povos originários, os pobres e todos aqueles que lutam para sobreviver. Que a vida seja um prêmio.

Os nomes do genocídio e dos genocidas

Apesar das fotos, depoimentos, comprovações e discursos, ainda há quem conteste o holocausto cometido pelos nazistas. Da mesma forma, ainda há quem recuse o uso da palavra genocida para definir o que foi feito contra o povo ianomâmi. Mas não há como negar os sinais de crime contra a humanidade: decisões políticas tomadas, justificações ideológicas e a banalidade do mal que acoberta o crime, graças ao comportamento social brasileiro.

Tanto quanto o antisemitismo usava o argumento de uma hipotética ameaça à soberania alemã por parte dos judeus, no Brasil alguns manifestam necessidade de eliminar o povo ianomâmi para evitar a ameaça de criação de uma nação independente. Esses discursos serviram de base para justificar envenenamento da água com mercúrio, negar vacina e expulsar ianomâmis das terras onde vivem integrados à natureza desde muito antes de o Brasil surgir. Por 523 anos, o Brasil praticou o genocídio com o nome de etnocídio.


Ao longo de 350 anos, trouxemos 5 milhões de africanos para servirem como escravos na economia exportadora e nos serviços à parcela branca e rica. Sob a banalidade do mal, com o nome de escravidão, aceitamos o genocídio secular, motivado por ganância econômica, racismo e arrogância europeia. Há 135 anos, para continuar a exploração em nome do progresso e do bem-estar de uma minoria privilegiada, proclamamos a Lei Áurea, mas mantivemos os descendentes sociais dos escravos sem escolas. Mudamos o nome de genocídio para analfabetismo. Soltamos, mas não libertamos, tiramos as algemas, mas não ensinamos a usar o mapa do caminho adiante. Em 1889, proclamamos a República, mas a "elite" manteve o genocídio da escravidão moderna, que não precisa trazer acorrentados desde a África, basta deixá-los nascer no Brasil e viverem sem educação.

Não se sabe o número de escravos nascidos no Brasil, nem daqueles que nasceram republicanos e morreram sem aprender a ler, vítimas do analfabetismo, o banalizado mal brasileiro. Não são assassinados em massa, mas não têm emprego, não têm renda, sobrevivem nos guetos da desigualdade social. No século 21, quando não se consegue negar escola à população urbanizada, mantém a última trincheira da escravidão: o genocídio sob o nome de desigualdade escolar. A banalização da maldade de um sistema com escola senzala para muitos e escola casa grande para poucos, mantendo o genocídio da apartação social.

Os alemães enriqueciam desapropriando os judeus mortos pelo gás Zyclon B, usado nos monstruosos crematórios de seus campos de concentração. A parcela rica do Brasil fica mais rica graças ao mercúrio usado contra os ianomâmis, e também ao crematório de cérebros de crianças pobres nas escolas senzala, concentrando os bons empregos e renda para os que têm acesso às escolas casa grande. A banalização do mal tolera a secular história dos genocídios brasileiros: etnocídio, escravismo, analfabetismo, desigualdade escolar.

Os genocídios têm nomes diferentes, provocam mortes em números diferentes, sob formas diferentes, mas têm as mesmas causas — arrogância da civilização ocidental, ganância de lucro dos investidores, voracidade de consumo pelos ricos, racismo e supremacia dos brancos sobre as outras raças — e, a maior de todas, a indiferença dos que assistem e se beneficiam de seus resultados, por Zyklon B, por mercúrio ou pela corrupção nas prioridades. Os alemães foram coniventes com o genocídio de judeus, os brasileiros são coniventes com os genocídios dos índios, dos escravos, dos analfabetos e dos sem-escola de qualidade. Todos coniventes, mas alguns culpados e diretamente responsáveis.

É preciso dar nomes aos genocídios e apontar os nomes dos genocidas. Na Alemanha, os responsáveis pelos crimes dos nazistas se suicidaram ou foram levados ao Tribunal de Nuremberg, onde foram condenados à morte ou a longos períodos na prisão. Precisamos recusar a banalidade do mal e despertar contra todos os genocídios brasileiros, escondidos sob outros nomes, cometidos por todos que sonham com o progresso que elimina índios, usa escravos ou concentra educação para manter a desigualdade social. Mas também levarmos aos tribunais aqueles que no Brasil demonstraram, por palavras ou atos, responsabilidade com o específico genocídio contra o povo ianomâmi.

O capitalismo 'teve metástase'

“Somos a praga do planeta, uma espécie de ameba gigante. Ao longo da história, o ser humano, ou melhor, esse clube seleto da humanidade, vem devastando tudo ao seu redor”, adverte Ailton Krenak em “Não se come dinheiro”, um dos textos que compõem um livrinho extraordinário, A vida não é útil, editado na Argentina pela Eterna Cadencia, com tradução de Cecília Palmeiro e prefácio de Natalia Brizuela.

O xamã, filósofo, líder indígena e escritor brasileiro, uma das vozes mais reveladoras do pensamento latino-americano contemporâneo, foi filho da primeira geração de Krenak que viveu “no cativeiro”. A terra ancestral dos Krenak na região do Rio Doce foi ocupada pelo Estado brasileiro em 1922. Como muitos outros indígenas no Brasil no início do século XX, ele foi forçado a viver em uma reserva indígena.

Em 1968, sua família foi novamente forçada ao exílio. Chegando a São Paulo em 1975, frequentou escolas ocidentais, estudou artes gráficas e rapidamente se envolveu com o então emergente despertar dos povos indígenas que desembocou na criação da União das Nações Indígenas (UNI) em 1983.

O governo das corporações

Krenak é o nome do povo indígena ao qual pertence, não um sobrenome no sentido em que é comumente utilizado no ordenamento jurídico. Ailton, que nasceu em 1953 em Minas Gerais, propõe estabelecer contato com a experiência de estar vivo. “Pode ser uma ficção afirmar que se a economia não funcionar plenamente vamos morrer. Nós poderíamos colocar todos os dirigentes do Banco Central em um cofre gigante e deixá-los morando lá, com a economia deles. Ninguém come dinheiro”, enfatiza.

Para ampliar essa constelação temática cita as palavras de um ancestral de um indígena estadunidense do conselho de anciãos do povo Lakota, Wakya Un Manee, também conhecido como Vernon Foster. “Somente quando for cortada a última árvore, pescado o último peixe, poluído o último rio, que as pessoas vão perceber que não podem comer dinheiro”. A ideia de concentração da riqueza, na perspectiva do xamã e do filósofo, atingiu seu clímax. “O poder, o capital entraram em um grau de acumulação que não há mais separação entre a gestão política e financeira do mundo”, diz.

E acrescenta: “Os governos deixaram de existir, somos governados por grandes corporações. Quem vai fazer a revolução contra corporações? Seria como lutar contra fantasmas. O poder, hoje, é uma abstração concentrada em marcas aglutinadas em corporações e representadas por alguns humanoides. Não tenho dúvida de que esses humanoides, focados no poder do dinheiro, também sofrerão uma saturação”.

O livro preserva o encanto do que se poderia chamar de “método construtivo”. A maior parte dos textos de Ailton surge de conversas, conferências e debates, realizados nos primeiros meses da pandemia de Covid-19, que posteriormente foram transcritos e editados. A pesquisa e organização do livro ficou a cargo de Rita Carelli.

“As ideias são desenvolvidas na e pela conversa, num brilhante resplendor do pensamento conceitual produzido em movimento”, aponta Natalia Brizuela no prefácio de La vida no es útil. “Poderíamos pensar em todas as apresentações públicas, entrevistas, conversas e textos de Ailton como formas de construir alianças por meio de uma política de reciprocidade, que articulam e dão forma a uma nova relacionalidade entre indígenas e não indígenas. A oralidade que está na origem do texto de Ailton é a forma escolhida para uma noção radical de relacionalidade que ele oferece aos não indígenas – analisa Brizuela. O diálogo, a troca, a relação e a reciprocidade são noções-chave no pensamento de Ailton e, na forma oral, tornam-se a estrutura de uma práxis baseada na escuta”.



Ideias para adiar o fim do mundo

A desconexão com o organismo vivo que é a Terra preocupa Ailton. As evidências estão à vista: geleiras derretendo, oceanos cheios de lixo, listas crescentes de espécies ameaçadas de extinção. “Será que a única maneira de demonstrar aos negacionistas que a Terra é um organismo vivo é esquartejá-la? Picá-la em pedaços e dizer: ‘Olha, ela é viva’? É uma estupidez absurda”, assegura em um dos textos que poderia inscrever uma parte do pensamento do xamã e filósofo no decrescimentismo, esse movimento político, econômico e social que enfatiza a necessidade de reduzir o consumo e a produção globais.

“Temos que parar de nos desenvolver e começar a nos envolver”, propõe, e sugere que quando tudo vai por água abaixo ele invoca o poeta Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), especialmente o poema “O homem; As viagens”, porque é “um poema sobre o que estamos vivendo”: “Restam outros sistemas fora / Do solar a colonizar. / Ao acabarem todos / Só resta ao homem / (estará equipado?) / A dificílima dangerosíssima viagem / De si a si mesmo: / Pôr o pé no chão / Do seu coração / Experimentar / Colonizar / Civilizar / Humanizar / O homem / Descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas / A perene, insuspeitada alegria / De conviver”.

Ler Ailton implica entrar em outro modo, um modo que expande as experiências e os sentidos, anestesiados pelo excesso de racionalidade da cultura ocidental. Em Ideias para adiar o fim do mundo, ele postula a centralidade dos sonhos. “Sonhar é uma prática que pode ser entendida como um regime cultural em que, logo pela manhã, as pessoas contam o sonho que tiveram. Não como uma atividade pública, mas de caráter íntimo. Ninguém conta seu sonho em uma praça, mas para as pessoas com quem você se relaciona. O que também sugere que os sonhos são um lugar de transmissão de afetos”.

O despertar de Ailton veio de um sonho compartilhado com ele no final dos anos 1970 por um xamã que lhe falou sobre a devastação da Terra pelos projetos dos brancos. Ele compartilhou esse sonho com outros parentes indígenas quando começou a viajar pelo Brasil para fundar a UNI. Ele percebeu que “havia algo na perspectiva dos povos indígenas, na nossa forma de ver e pensar, que poderia abrir uma janela de compreensão no ambiente que é o mundo do conhecimento”. Após a criação da UNI, co-fundou o Centro de Cultura Indígena em 1985, e dentro desta organização lançou o primeiro programa de rádio produzido por indígenas, o Programa de Índio, que foi ao ar entre 1985 e 1990.

“Isso que as ciências política e econômica chamam de capitalismo teve metástase, ocupou o planeta inteiro e se infiltrou na vida de maneira incontrolável”, reflete o xamã. Nosso sonho coletivo de mundo e a inserção da humanidade na biosfera terá que acontecer de outra forma. Podemos habitar este planeta, mas deve ser de outra maneira. Teremos que nos reconfigurar radicalmente para estar aqui”. Ailton reconhece que alguns povos entendem que seus corpos estão relacionados com tudo o que é a vida; que os ciclos da Terra são também os ciclos de seus corpos. “Observamos a terra, o céu e sentimos que não estamos dissociados dos outros seres. O meu povo, assim como outros parentes, tem essa tradição de suspender o céu”.

Em seguida, explica em que consiste essa tradição. “Suspender o céu é ampliar os horizontes de todos, não só dos humanos. Trata-se de uma memória, uma herança cultural do tempo em que nossos ancestrais estavam tão harmonizados com o ritmo da natureza que só precisavam trabalhar algumas horas por dia para proverem tudo que era preciso para viver. Em todo resto do tempo, você podia cantar, dançar, sonhar: o cotidiano era uma extensão do sonho. E as relações, os contratos tecidos no mundo dos sonhos, continuavam a fazer sentido depois de acordar”.

A narrativa de Ailton é como um mantra da afetividade. Um ano marcante em sua vida foi 1987, pelo discurso que proferiu aos membros da Assembleia Constituinte, encarregada de redigir uma Constituição democrática para o Brasil, após 21 anos de ditadura militar. Vestido da cabeça aos pés com um terno branco, enquanto pintava lentamente o rosto com jenipapo preto, disse: “Os indígenas têm um jeito de pensar, um jeito de viver, que nunca coloca nenhum animal ou ser humano em risco”.

Como porta-voz da UNI, ele desenvolveu quatro reivindicações que foram incluídas na Constituição de 1988: o reconhecimento dos direitos históricos dos povos indígenas, a demarcação das terras indígenas, a garantia de que os coletivos indígenas seriam os únicos usuários dos recursos naturais dos territórios demarcados e o cumprimento pelo Estado brasileiro dos projetos de futuro das populações indígenas. “Ao invés de serem ‘emancipados’ e, portanto, desaparecidos, os indígenas entregaram uma demanda que Ailton expressou e realizou em sua performance: a demanda de serem reconhecidos como cidadãos como indígenas”, fundamenta Brizuela no prefácio do livro.

Consumir mundos

“O sistema capitalista tem um poder de cooptação tão grande que qualquer porcaria que anuncia vira imediatamente moda”, confirma Ailton. “Estamos todos nós viciados no novo: um carro novo, uma máquina nova, uma roupa nova, alguma coisa nova. Já foi dito: ‘Ah, mas a gente pode fazer um carro elétrico sem gasolina, que não vai poluir’. Mas será tão caro, tão sofisticado, que se tornará um novo objeto de desejo”, descreve como funciona o consumo e sua análise se expande para além dessa mania.

“O capitalismo quer nos vender até mesmo a ideia de que podemos reproduzir a vida. Que até a natureza pode ser reproduzida. Acabamos com tudo e depois fazemos outra natureza, ficamos sem água doce e depois ganha-se muito dinheiro dessalinizando o mar, e se não é suficiente para todos, eliminamos uma parte da humanidade e fica só para os consumidores. Uma espécie de Big Brother que governa o mundo ao gosto do capitalismo”, define o autor de Ideias para adiar o fim do mundo e Futuro ancestral, entre outros livros.

A psicanalista e crítica da cultura brasileira Suely Rolnik aponta que o capitalismo passou por tamanha transformação que se tornou necrocapitalismo. “Esse capitalismo nem precisa mais da materialidade das coisas, pode transformar tudo numa fantasia financeira e fingir que o mundo é operacional, ativo, mesmo que esteja tudo errado”, interpreta Ailton e aponta que isso é uma “distopia”, porque “em vez de imaginar mundos, a gente os consome” e que “depois de comer a Terra, comemos a Lua, Marte e os outros planetas”.

O antropocentrismo deve ser abandonado porque “há muito mais vida além da gente; não fazemos falta na biodiversidade”, afirma o autor de A vida não é útil. “Há muito tempo minha comunhão com tudo o que chamam de natureza é uma experiência que não vejo sendo valorizada por muitas pessoas que moram na cidade. Já vi pessoas me ridicularizarem: ‘Ele fala com uma árvore, ele abraça uma árvore, ele fala com o rio, ele contempla a montanha’, como se isso fosse algum tipo de alienação. Esta é a minha experiência de vida. Se isso for alienação, estou alienado. Faz muito tempo que não programo atividades para ‘depois’. Não sabemos se estaremos vivos amanhã. Temos que parar de vender o amanhã”, aconselha uma das vozes mais reveladoras do pensamento latino-americano contemporâneo.

A proposta de Ailton desafia o utilitarismo. “A vida não tem nenhuma utilidade. A vida é tão maravilhosa que a nossa mente tenta dar uma utilidade para ela, mas isso é uma estupidez. A vida é fruição, é uma dança, só que é uma dança cósmica, e queremos reduzi-la a uma coreografia ridícula e utilitária. Nós temos de ter a coragem de ser radicalmente vivos, e não negociar sobrevivência”, insiste e lembra que os povos originários ainda estão presentes neste mundo “não porque foram excluídos, mas porque escaparam”.

“Os povos nativos resistem a essa investida do branco porque sabem que ele está enganado e, na maioria das vezes, são tratados como loucos. Fugir dessa captura, para experimentar uma existência que não se rendeu ao sentido utilitário da vida, cria um lugar de silêncio interior”. Um exemplo o ajuda a ampliar sua visão de mundo e, ainda, a questionar o politicamente correto. “Quando os indígenas dizem: ‘A Terra é nossa mãe’, os outros dizem: ‘São tão poéticos, que imagem linda!’ Isso não é poesia, é a nossa vida – esclarece. Estamos presos ao corpo da Terra, quando alguém a pica, fere ou arranha, desorganiza o nosso mundo”.

Ler o xamã, filósofo e líder indígena é como conversar com todos os humanos: “Ou você ouve as vozes de todos os outros seres que habitam o planeta com você, ou faz guerra contra a vida na Terra”, diz o autor de A vida não é útil. A conversa com Ailton é um caminho para o sentido cósmico da vida.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

Brasil da obra pronta

 


O Brasil condenado pelo negacionismo político

A economia de um país não caminha por muito tempo sobre uma sociedade sem justiça social; tanto quanto a justiça social não caminha sobre economia ineficiente. A negação da necessidade de sociedade justa e a negação da necessidade de economia eficiente são dois negacionismos que condenam o Brasil a surtos de crescimento sem sustentabilidade social, ou surtos de avanços sociais sem sustentabilidade econômica.

A história do último século oscilou entre políticas econômicas sem sensibilidade social e políticas sociais sem conhecimento das regras da economia. Tivemos milagres econômicos que logo esbarraram na desigualdade como a riqueza se distribuía, na falta de educação de base, no transporte público caótico, na sua saúde e moradia precárias. Também tivemos momentos de políticas sociais que esbarram na falta de eficiência econômica levando a inflação, juros altos, endividamento, depredação ecológica.


Sem sensibilidade social, tivemos governos que não aumentaram o salário mínimo, mesmo quando a riqueza crescia, outros que sem conhecimento econômico propõem aumenta-lo mesmo sem base econômica que permita sem a ilusão de inflação. Há relação da sociedade com a economia que exige sensibilidade social, mas também respeito a certas regras econômicas.

Sem distribuir renda nem investir no social, a sociedade se desagrega e a economia quebra por demanda limitada, por violência, por desequilíbrio ecológico, baixa produtividade, insatisfação. Distribuindo sem considerar limites nem restrições a economia e os benefícios sociais são devastados pela inflação, pela ineficiência, pelos desequilíbrios. A sociedade justa e a economia precisam estar casadas pela responsabilidade política usando a variável tempo para realizar seus propósitos nos prazos possíveis, sem abandonar a eficiência econômica nem os propósitos sociais: sem negativismo social nem econômico, com sensibilidade social e conhecimento científico. Negar os limites definidos pela ciência econômica pode matar ainda mais e por mais tempo do que negar vacina para lidar com a epidemia. Negar a tragédia social é uma forma de genocídio tão grave quanto ignorar a epidemia.

'Heil Bolsonaro!'

Reportagem de Isabella Menon na Folha ("Ideias nazistas em escolas acendem alerta", 3/1) traz um retrato alarmante: a naturalidade com que o Brasil tem convivido com atos de apoio ao nazismo, até mesmo em colégios e universidades. Esses atos vão desde suásticas pichadas em muros, grupos autoproclamados neonazistas, professores defendendo Hitler em aula e jovens que se fantasiam de Hitler e fazem seus gestos. Em dezembro, um adolescente em Aracruz (ES), portando uma braçadeira de suástica, matou a tiros quatro pessoas e feriu 13.

As causas são óbvias: a propaganda que esses jovens absorvem no submundo da internet e o discurso de ódio que escutam em casa. O envenenamento digital não seria tão eficiente se detectado por pais responsáveis e democratas. Mas, quando os próprios pais se identificam com aquelas teses, os garotos não têm chance. Como batismo de fogo, muitos foram levados para o quebra-quebra em Brasília.

Alguma dúvida quanto à presença de neonazistas entre os bolsonaristas da baderna? Jair Bolsonaro, pivô do levante, flertou com o nazismo durante toda a sua vida política. Há farta documentação: mensagens, discursos, slogans, auxiliares adeptos da estética hitlerista, homenagem a uma neonazista alemã e muito mais. Segundo a antropóloga Adriana Dias, o número de células neonazistas no Brasil pulou de 72 em 2015 para 1.117 em 2022. Mera coincidência com o mandato de Bolsonaro?

Em 1944, o Exército brasileiro mandou 25 mil heróis para a Itália, a fim de ajudar os aliados a combater o nazismo. Destes, 467 voltaram mortos e repousam no Monumento aos Pracinhas, aqui no Rio. Os militares que ainda apoiam Bolsonaro fariam melhor se fossem em coluna por um ao monumento e cuspissem nas urnas gritando "Heil Bolsonaro!".

Adriana Dias morreu neste domingo (29), vitimada por um câncer. É um duro abalo na luta contra o neonazismo no país.

O que Bolsonaro queria

Um país pra chamar de seu, é claro e já pedindo perdão a Erasmo Carlos pelo uso das palavras. Mas era isso. Como nos seus planos não estava a derrota nas eleições e ele fez de tudo para conseguir, agora vemos esses fantasmas mais ou menos ameaçadores tentando todo tipo de golpe. Só que me parece que eles faltaram à aula de História quando se falou de Golpe. Aliás, acho que faltaram a todas as aulas de História. Um golpe não se faz assim e aqui no Brasil todos os golpes, maiores ou menores, tiveram a mão dos EUA, da imprensa oficial, dos empresários e da Igreja. Esta tentativa reuniu parte dessa lista, mas sem efetivar o apoio.

Nem a eleição, nem o golpe deram certo e apesar do presidente do PL dizer que esta minuta de golpe estava em todas as casas, queria dizer que na minha não estava. O medo do golpe pode ser, mas a minuta só quem pretendia torna-la definitiva. Aí teríamos um Brasil realmente transtornado. O plano era minucioso e o primeiro mandato de Bolsonaro acabou sendo um período de prova para a ideologia que viria por aí. As armas liberadas, as politicas reacionárias em relação a gênero, drogas, aborto e comportamento em geral, o gado bem alimentado e a política no sentido mais amplo seria a base deste novo período de trevas que se armava para o Brasil.


Mas é fácil de se imaginar. Um país sem política, que era a finalidade, é um país sem democracia. Os povos indígenas dizimados e o garimpo comendo solto, envenenando os rios e enriquecendo os poderosos que se escondem atrás das árvores. Organizações de fiscalização e apoio aos indígenas, à floresta, à ecologia e ao meio ambiente fechadas definitivamente. Os militares assumindo o controle de todos os setores do governo, não todos os militares, mas os que fecham com a ideologia do presidente, as escolas militarizadas também, as universidades reduzidas ao ensino técnico, a cultura limitada ao divertimento sem abstração ou elaboração, ou seja, sem construção de uma identidade brasileira. A classe média cada vez mais pobre e os pobres cada vez mais miseráveis e junto a isso a Saúde doente e contribuindo para o projeto de extermínio.

O Mercado que num primeiro momento poderia até se animar com essa possibilidade, também ferido de morte sobretudo diante do isolamento que o país entraria no mundo todo. Falando nisso, o projeto previa justamente o alinhamento do Brasil com as ditaduras que permanecem no planeta criando um bloco reacionário e perigoso que a cada dia se espalha mais por aí. Os ricos cada dia mais ricos e os pobres cada dia mais pobres o que faz com que os ricos fiquem cada dia mais ricos.

Mas não foi nada disso que aconteceu. Conseguimos frear a besta fera e dar um pouco de fôlego à democracia. Vamos nessa. Nos fará mais felizes e como diz o próprio termo, é o sistema de todos e até agora não se inventou nada melhor.

O crime pede respeito

São numerosos os dados sobre pessoas com antecedentes criminais nos atos terroristas. Só o acampamento em Brasília registrou 73 delitos (lesões corporais, furtos) em dois meses. Não será por acaso que, em atentados ultradireitistas nos EUA, se registrem indivíduos com gravames penais. Entre trumpistas e seus êmulos brasileiros medeia um oceano de coincidências significativas tecidas pela relação íntima entre política e crime, traço essencial do fascismo.


Foi George Orwell quem primeiro enxergou na linguagem política a secreta destinação de fazer com que "o crime se torne respeitável". Como a delituosa escamoteação da verdade sempre foi intrínseca à luta pelo controle do Estado, a afirmação visa prioritariamente efeitos colaterais do exercício do poder. A atualidade do escritor comprova-se na vida brasileira, onde se faz politicamente pertinente a sua tese de que "numa época de mentiras universais, dizer a verdade é revolucionário".

Na linha de Orwell, a lógica do crime é maior que a da lei. De fato, na vida prática, mais importa a conduta, que pode ser existencialmente lesiva em aspectos não legalmente codificados. A lei, por sua vez, visa geralmente a garantir elites contra as classes desfavorecidas. Mas não pertence à pobreza a raiz do fenômeno criminoso (aliás, os pobres salvaram eleitoralmente o país), e sim à miséria humana, à aliança interna com a escuridão. Em sua amplitude, o crime configura todo dano ético à sociedade. Por exemplo, a tortura, assim como sua apologia pública.

É clara, assim, a natureza terrorista do vandalismo, da sabotagem elétrica e do caminhão-bomba, apesar da duvidosa tipificação legal. Inconteste é o crime tramado de lesa-instituição de paisanos e fardados: as falanges do Inominável e seus generais. Toda ideologia aspira à publicidade, mas é como se o crime fosse uma ideologia das sombras. E, na falta de bingos ou outros fetiches, a mancomunação delituosa pode confortar idosos, carentes de objetivos vitais e instrumentalizados pela perversão do gozo.

Talvez demore para se aquilatar toda a gravidade da delinquência antidemocrática, à qual não escapam autoridades, religiosos, médicos e o próprio Legislativo. Por enquanto, para um reequilíbrio realista, vale ponderar sobre miúdos episódios sintomáticos. Num deles, uma invasora detida em Brasília queixava-se: "Estão nos tratando como presos". Ou seja, a coautora de um dos atentados mais infames contra a República brasileira ignorava a sua condição criminosa. Por alienação de classe ou por negação digital da realidade, o delírio privilegiado obscurecia a enormidade da violência. É que "cidadãos de bens" (e não "do bem") são embalados pela cantilena fascista do crime respeitável.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

Brasil paizão

 


É Flórida

Jair Bolsonaro continua na Flórida, abanando-se com o formulário em que pediu visto de turista às autoridades americanas já que seu passaporte "diplomático" caducou. Há dias, um dos zeros, indagado sobre quando seu pai pretendia voltar, respondeu: "Não sei. Pode ser amanhã, pode ser daqui a seis meses, pode não voltar nunca. Ele está desopilando".

Desopilando? Olha a corrida ao dicionário. Segundo o Houaiss, desopilar é "desobstruir, aliviar, desentupir, descarregar". Opilar, por sua vez, significa "obstruir um conduto natural". Logo, Bolsonaro está com um conduto natural obstruído e precisa desentupi-lo, daí seu turismo na Flórida. A imagem é repulsiva para ser lida no café da manhã, mas, pelo menos, Bolsonaro está fazendo isso longe. E, se uma de suas opções é não voltar nunca, imagine o grau da obstrução que o acomete.


Desopilar é também "alegrar-se, desanuviar, espairecer, rejubilar-se". Mas o que haverá de tão alegre hoje na Flórida para Bolsonaro? Não será a companhia de seu amigo Donald Trump, já que, para Trump, Bolsonaro vale agora menos que o papel amassado da embalagem do seu chiclete. E não que Bolsonaro esteja precisando de dinheiro, mas a possibilidade de fazer "palestras para empresários", a R$ 50 mil por palestra, também se frustrou —como turista nos EUA, ele não pode prestar serviço remunerado. Por que então Bolsonaro não as faz de graça, para desopilar?

E como imaginar Bolsonaro entregando-se a outra acepção da palavra, "rejubilar-se"? Ele não tem muitas razões para se rejubilar. Os americanos veem com asco a sua presença no país. Anguillara Vêneta, a cidade da Itália que o tornou cidadão honorário, quer apagar essa mancha de sua história. E até sua mulher, Michelle, já o deixou para trás e voltou. Só lhe resta armar um cercadinho e falar para os pacóvios brasileiros na Disney.

Bolsonaro não tem escolha. É Flórida.

Irresponsabilidade é geral


A gente permitiu que isso acontecesse no nosso tempo no nosso país, debaixo da nossa guarda porque todos nós, brasileiros, nós somos responsáveis pelo que está acontecendo 
Sonia Bridi

Não são somente ‘índios’

Se fossem somente os ianomâmis, seria uma tragédia, mas é muito mais que isso. É o destino trágico das “populações indígenas integradas” ao sistema brasileiro. É uma repetição cruel do que ocorreu com os africanos que aqui foram máquinas de trabalhar como escravos. De fato, os que chamamos de “índios” são representantes de outras humanidades. São manifestações do humano, hoje em estado de tortura física e moral. Na experiência de quem se dedicou ao assunto, é o preço do cruel rito de passagem que vai do isolamento à integração sempre mutiladora, senão genocida, quando essas “humanidades indígenas” são canibalizadas por nosso mundo “civilizado”.

Quando falo em humanidades, penso no conceito de cultura de E. B. Tylor, de 1871! Nessa definição, cultura não é alta ou boa educação e belas-artes — é algo definidor da condição humana como “aquela totalidade complexa, que inclui conhecimento, crença, arte, lei, moralidade, costumes e quaisquer outras capacidades e hábitos adquiridos pelo homem como um integrante da sociedade”.


Quando etnólogos falam em “Línguas e culturas indígenas do Brasil”, como fez num livro indispensável Darcy Ribeiro em 1957, eles redefinem radicalmente as coletividades humanas chamadas vulgarmente de “tribos” e “raças”, pois o cultural é sabedoria, moral e costumes habituais — que se faz coletivamente sem pensar —, mas não é inato. É, como tudo o que nos distingue como humanos, aprendido por meio de um sistema de relações sociais.

Note bem, em 1871 Tylor nos tirou da tirania das taras raciais e racistas (usadas até hoje como classificadores de coletivos humanos) para ler as diferenças de costumes como uma totalidade — como um cosmo que, ao lado do idioma, chega de fora para dentro. Tylor deu um passo decisivo contra suposições biológicas usadas para explicar diferenças.

Quando, então, falamos da atual tragédia ianomâmi, estamos de fato nos referindo à agonia de liquidar um modo alternativo de ser humano. Nesse sentido, ser “índio” não é apenas ser um autóctone ou um grupo ancestral que revela seu primitivismo andando nu... É ser, como nós, uma “humanidade plena”, que vivencia a vida de modo alternativo, mas de nenhuma maneira fora dos quadros gerais do que chamamos de “condição humana”.

“Índios” são como a gente, a menos que se lhes atribua algum traço racista imutável. Eles são vitimados pelas mesmas doenças e violências, como qualquer outro grupo humano (devo lembrar a agressão russa à Ucrânia?). Pois, como parceiros da nossa flutuante e contraditória humanidade, eles, tal como nós, pagam um preço descabido por seu modo de ser e agir.

A tragédia dos ianomâmis leva-me aos anos 1960, quando comecei a estudar essas sociedades e, em 1961, vivi três meses com os gaviões na mata paraense.

Não tenho espaço para exprimir o que vi e pesquisei, exceto para reiterar o dramático processo de contato intercultural desse grupo de língua jê com os extratores de castanha locais, descrito no livro “Índios e castanheiros”, escrito com Roque Laraia, um texto de juventude incapaz de descrever os horrores que testemunhei.

Como assinalei no meu diário, os “índios” não passavam um dia sem falar em morte e reafirmar que morreriam. Felizmente, tal profecia não ocorreu, mas a extinção como um destino e a perda irreparável de uma experiência humana alternativa poderia ter ocorrido. Tal foi o caso de muitas dessas culturas que não tivemos o cuidado de sequer pensá-las como esplêndidas experiências de viver na floresta com uma tecnologia engenhosa, mas não engenheira, marcada muito mais pela reciprocidade que pela troca na qual um lado tira vantagem do outro. Algo mais do que claro no caso ianomâmi, a que se devem acrescentar o assalto a seu território, o roubo de suas riquezas, a violação de suas almas por catequistas — e a infame indiferença de administradores. É preciso a tragédia para agirmos e, quem sabe, ir da extinção para um ato de benevolência.

Parte de nós

É feio reconhecê‑lo, mas a maioria das pessoas não faz distinções e rejeita os matizes. Ainda mais feio e triste é admitir a excessiva influência dos governantes na percepção que temos dos seus países e dos seus povos. Não serve de muito o facto de, quando Trump foi eleito presidente, há um par de anos, ter perdido o sufrágio popular por uma diferença de dois milhões de votos, se não estou mal lembrado, e de só o injusto sistema eleitoral americano lhe ter permitido a investidura. Desde então, a nossa ideia dos Estados Unidos mudou para pior, e essa péssima ideia afecta a totalidade dos seus cidadãos. Embora saibamos que uma grande parte da nação detesta Trump e sofre com ele mais do que qualquer estrangeiro, a mancha torna‑se também extensiva às suas vítimas. Há pouco tempo, declinei um convite de Harvard porque — expliquei‑o a quem me escrevia — “não porei os pés no seu país enquanto Trump continuar em funções”. O professor em questão era tão contrário ao seu presidente como eu ou mais, mas a minha decisão — pessoal, insignificante — é irreversível, como foi a de não ir lá durante os mandatos de Bush Jr., que cumpri estritamente. Assim se eu, que procuro ter em conta os matizes, reajo desta maneira drástica, como não reagiriam assim tantos que nem sequer o procuram? Pelo seu lado, a Grã‑Bretanha foi sempre um dos meus países favoritos, e a minha anglofilia declarada valeu‑me um desprezo significativo em Espanha. Desde a votação do Brexit, no entanto, as minhas simpatias foram minguando. Sei que os partidários do abandono da União Europeia foram poucos mais do que os desejosos de ficar, e que, além disso, muitos destes últimos, confiando em que os despropósitos e as mentiras flagrantes não prevaleceriam, se abstiveram despreocupadamente. Tenho bastantes amigos ingleses e escoceses, e todos eles estão horrorizados ou desesperados. Não tomei a mesma decisão — pessoal, insignificante — que a respeito dos Estados Unidos (custa‑me mais, e o Brexit ainda não teve lugar), mas tenho escassa vontade de visitar um lugar que sempre me alegrou e atraiu. Os governantes, com efeito, têm mais peso do que o desejável, e quando são oprobriosos contagiam todos com o seu opróbrio. É por isso que é tão irresponsável e nocivo o que os dirigentes independentistas catalães estão a fazer há seis anos. Deixando de parte outras considerações, conseguiram que no resto de Espanha nasça e cresça uma animadversão indiscriminada contra “os catalães”, quando, dos seis ou sete milhões que são, só dois (segundo os cálculos mais interessados) apoiam esse procés de laivos racistas, ultrarreacionários e antidemocráticos, por muito que os seus promotores encham cinicamente a boca com a palavra “democracia” e que o idiótico PEN os anime a troco de dádivas. Durante estes seis anos acumularam insultos, desprezo, calúnias e agravos sem fim contra “os espanhóis”, com especial sanha contra madrilenos, andaluzes e estremenhos. Por sorte, a reacção tem sido exígua, lenta e nada exaltada. Mas é óbvio que a paciência se erode e que a exasperação está a aumentar. Aos Mas, Puigdemont, Junqueras, Torra, Rovira, Artadi, Rufián e companhia, isso não lhes dá cuidado; de facto, anseiam por mais exasperação. O certo é que, até mesmo se um dia a sua anelada República fosse um facto e a Catalunha independente, a geografia, casmurra, não mudaria, e continuaríamos a ser vizinhos. Será aconselhável irritar deliberada e sistematicamente o vizinho, sobretudo quando este é o nosso principal cliente? Quando é aquele a quem solicitaríamos auxílio em caso de catástrofe natural ou de atentado terrorista massivo? Quando temos séculos de convivência e de solidariedade ininterruptas, apesar das fricções inegáveis? Quanto tempo será preciso para que se restabeleça a confiança perdida e a estima deteriorada? Uma vez que nos consideramos compatriotas e que estamos muito misturados, é neste caso ainda mais necessário não perdermos de vista os matizes e fazermos um esforço contínuo por recordar que os usurpadores mencionados não são, em absoluto, “os catalães”, mas antes — graças a um outro sistema eleitoral injusto — indivíduos que, devido a uma maioria parlamentar artificial, tomaram como reféns todos os seus concidadãos. Há quatro ou cinco milhões que não fazem nada senão sofrer, e a eles não podemos virar‑lhes as costas nem abandoná‑los à sua sorte, são a maioria. Conheço muitos assim, catalanófonos. Passo parte do ano na sua terra e, madrileno que sou, e tendo‑me pronunciado publicamente não contra o independentismo (defenda cada um o que queira), mas contra este independentismo totalitário e a mal, nunca me senti rejeitado nem me vi desprezado, nem em privado nem na rua. Antes pelo contrário. Agora que começa o julgamento dos políticos acusados de delitos, o tom do ruído subirá mais. A difamação da democracia espanhola não conhecerá limites nem escrúpulos. As ofensas multiplicar‑se‑ão. Ser‑nos‑á dito que não se passou aquilo a que vimos. Os que fomentam o ódio aplicar‑se‑ão com afinco. Justamente agora é preciso não perder de vista que “os catalães” não são os que vociferam, increpam e caluniam, seja de que maneira for. Continuam a ser parte de nós, como o foram sempre, ainda que para os usurpadores e seus acólitos nós já não sejamos parte deles. Isso não nos deve importar. São muitos, mas os menos.
Javier Marías, “Será o cozinheiro boa pessoa?”
Javier Marías, “Será o cozinheiro boa pessoa?”

terça-feira, 31 de janeiro de 2023

A irrelevância ao alcance de todos

Repassando outro dia no jornal as listas de livros mais vendidos, vi que nosso complexo de vira-lata continua ovante. Dos 10 mais, 9 são americanos e 1 é brasileiro. Não sei se lá fora também é assim. Como muitos países estão vivendo dias conturbados, imagino que, neles, o interesse pelos assuntos nacionais seja pelo menos equivalente ao fascínio pelas coisas dos EUA. A exemplo do Brasil de tempos mais nacionalistas.

Num jornal de 1964 que há pouco me caiu aos olhos, também havia uma lista de livros mais vendidos. Exceto por um ou outro sobre a Guerra Fria ou a fome na África, a maioria era de brasileiros. E, entre estes, um gênero então em voga: tratados “eruditos” sobre temas irrelevantes e vice-versa, com citações em latim, prefácios de gente séria e crítica feroz de tudo. Alguns: “A Ignorância ao Alcance de Todos” (1962), “O Puxa-Saquismo ao Alcance de Todos” (1963) e “Seja Você um Canibal” (1964), todos de Nestor de Hollanda, e “Tratado Geral dos Chatos” (1963), de Guilherme Figueiredo. Tenho-os até hoje, lidos, sublinhados e anotados.

Nestor de Hollanda (1921-1970) era radialista, humorista e comunista, mais ou menos nessa ordem. E Guilherme Figueiredo (1915-1997), um escritor respeitado, com largo trânsito no meio e dramaturgo levado à cena por Tonias, Procopios e Bibis (anos depois, para seu azar, seu irmão caçula, João Batista, seria o quinto presidente da ditadura).

“A Ignorância…” pregava a analfabetização compulsória do país, já que a alfabetização parecia impossível. “O Puxa-Saquismo…” era um manual da bajulação para políticos e populares. “Seja Você um Canibal” se compunha de receitas culinárias para levar ao fogo famosos e anônimos. E, “Tratado Geral…”, um guia para identificar, evitar e, se preciso, matar um eventual chato no nosso caminho.

Todos ficaram meses nas listas dos jornais e vários ao mesmo tempo. Outro Brasil.

Ruy Castro