quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

Ordem no Brasil

 


Conjunto da obra bolsonarista mais se assemelha a um país-fantasia

Era uma vez um país chamado Brasil, presidido por um capitão chamado Jair Bolsonaro, que deveria comandar a nau pátria até o último dia de mandato, 31 de dezembro de 2022. Só que o capitão sumiu desde que Luiz Inácio Lula da Silva foi eleito seu sucessor. E o conjunto da obra bolsonarista, entregue a conta-gotas e de má vontade à equipe de transição de Lula, mais se assemelha a um país-fantasia. Fantasia por falido, e falido no sentido múltiplo do termo — financeiro, social, gerencial, moral. A julgar pelos primeiros relatórios de alguns dos 30 grupos temáticos da transição, a desgraceira é monumental. Por enquanto, o impacto nacional decorrente dessa ruína ainda é pouco percebido — nada consegue competir com o feitiço da sucessão de zebras, surpresas e reviravoltas de uma Copa do Mundo. E a do Catar só termina no domingo 18 de dezembro, já às vésperas do Natal. Portanto, na prática, até a posse de Lula no Palácio da Alvorada, o país continuará navegando à deriva. Algum dia, talvez, será possível computar quanto do futuro do Brasil foi perversamente esbanjado ou destruído na era Bolsonaro.


É do jogo político que toda equipe de transição desfie queixas e aponte falhas quanto ao estado real do país que lhe é entregue pela administração anterior. Não raro, para justificar futuros percalços ou não cumprimento de promessas de campanha. Outras vezes, o descalabro é do tamanho da grita. Na transição americana de 2020, a equipe leal ao derrotado Donald Trump ficou os primeiros 16 dias pós-eleição sem sequer atender telefonemas da equipe vencedora de Joe Biden. Muitos funcionários públicos de carreira, temendo que alguns bancos de dados científicos viessem a ser manipulados antes da troca de poder, chegaram a armazenar conteúdos em nuvens fora do alcance trumpista. Jamais na história política dos Estados Unidos ocorreu uma transferência mais envenenada das ferramentas do Estado. Mas Estado havia.

E aqui? Aqui há falência. Os grupos temáticos amontoados pelo vice-presidente eleito, Geraldo Alckmin, no Centro Cultural Banco do Brasil de Brasília, para a elaboração de uma radiografia nacional, parecem atordoados. Há os que engatinham, os que já percorreram meio caminho e os altamente preparados para a tarefa. Todos têm em comum garimpar nos escombros do que já foi um país com políticas públicas.

O testemunho mais contundente da semana veio durante a entrevista coletiva do grupo de trabalho de meio ambiente. Trata-se do grupo dos sonhos de qualquer governo, dada a proficiência e o conhecimento de seus integrantes. Na quinta-feira, o microfone foi passando de mão em mão até chegar a vez de Izabella Teixeira fazer seu resumo.

Formada em biologia e doutora em planejamento energético, ex-ministra do Meio Ambiente nos governos Lula e Dilma Rousseff e coringa das Nações Unidas para a crise climática, quando essa servidora pública fala, a gente presta atenção dupla. Até porque sua voz de contralto é forte. (Seria até impiedoso imaginar um debate entre ela e Ricardo Salles — aquele que ocupou a mesma cadeira no governo Bolsonaro e dela foi exonerado após acusações de envolvimento em exportação ilegal de madeira da região amazônica. A terraplenagem intelectual seria épica.)

— Não é exagero, não é drama. Todo mundo sabe que sou muito pragmática, mas levei muitos sustos vendo os documentos — esclareceu a ex-ministra. — Não é uma questão de ineficiência ou incompetência [do governo Bolsonaro]. Houve uma decisão política de destruir.

Alegrou-se, porém, com a solidariedade encontrada junto ao corpo técnico do ministério e de outras 200 instituições que forneceram dados e foram ouvidos pelo grupo. Nunca vira tamanha força da sociedade civil:

— Vieram de forma colaborativa, engajada, produtiva. Não vieram reclamando.

Ela acredita que o Brasil dessa nova envergadura tem força para reconstruir o diálogo — até porque, “sem a força da sociedade e de vocês [a imprensa] comprometidas com a transparência e a verdade, o Brasil não fica de pé”. Em resumo:

— Não tem dinheiro para prevenção alguma. Acabou. Aliás, acabou de sair um ofício do presidente do Ibama suspendendo todas as atividades por falta de dinheiro. Acabou o licenciamento ... não tem fiscalização. Está por escrito, em ofício enviado ao secretário executivo do Meio Ambiente explicando as razões do bloqueio de todo o dinheiro disponível. Então me parece que o Ibama vai trabalhar virtualmente ... Feliz Natal para os grileiros e para os criminosos neste país do crime ambiental, porque é isso que está sendo dito.

Se todos os grupos de trabalho da transição forem tão eficazes e produtivos quanto o do meio ambiente, o governo Lula pelo menos saberá em que pântano estará pisando. E o que fazer para, mais adiante no futuro, poder proporcionar um Feliz Natal para o Brasilzão que merece.

Não podemos esquecer

Começamos pelo presidente Lula mantido preso por uma artimanha do ex-juiz ladrão. Depois, o povo reunido após o resultado na Barra da Tijuca na frente do condomínio onde ele mora. Só gente branca, bem vestida, heterossexual na sua maioria e muita gritaria. Nenhuma canção cantada. Em seguida, a cerimônia no interior da casa com o ex- senador Magno Malta comandando uma oração de agradecimento e as pessoas em volta. Que vergonha da cena. Aí veio o trauma que ficou em todos nós. A sensação de desespero que nos tomou e a perspectiva dos 4 anos que viriam pela frente. A escolha dos ministros nem me lembro direito porque eram todos pessoas desconhecidas, saídas de que porão eu não sei. Transição não houve. Era passar o bastão como numa corrida de revezamento que começou no golpe que tirou a Presidenta Dilma.

Temer fez questão de facilitar as coisas no dia da posse, depois do desfile ridículo com Carluxo na carona do Rolls-Royce presidencial. Passou a faixa e se retirou para o lixo da História. Ainda apareceu algumas vezes para confirmar que seu destino deveria ser aquele mesmo. E começou então a sucessão de barbaridades que passo a elencar aqui sem compromisso de ordem ou lógica como foi, aliás, o governo que passou.

Decretos e mais decretos tentando desmontar tudo aquilo que a duras penas tinha sido erguido para alavancar o país no chamado mundo ocidental desenvolvido. O Brasil foi saindo de cena devagarinho e o mundo olhava abismado para o que acontecia aqui. Parece que o grande decreto dizia nas entrelinhas que estava liberada a falta de pudor, a violência e o fascismo. O caminho ficou mais fácil. Ninguém mais tinha vergonha de ser de extrema direita. O mercado parecia em êxtase. Paulo Guedes apesar de não ser nem para o Mercado uma pessoa confiável recebia todos os reconhecimentos.


O ministério do exterior nos envergonhava diante do mundo. O do meio Ambiente era ainda pior. Começou a vender madeira ilegal por conta própria e no passar da boiada revelado naquela reunião fatídica de ....deu início ao processo de espoliação das nossas matas, florestas e reservas. A educação virou a casa da mãe Joana. O trabalho virou secretaria e a saúde encontrou no meio do caminho que iria facilitar ainda mais a vida dos planos de saúde, a pandemia da Covid- 19 que mudou a história não só do Brasil, como do mundo inteiro.

Aqui ele debochou, fez pouco caso, adiou a compra de vacinas e foi responsabilizado pela morte de mais de 200 mil pessoas entre as 700 mil que morreram. Foi negacionista, vendedor de Cloroquina e contrário ao uso de máscara ou isolamento social. Imitou quem morria sufocado e acirrou a luta por um pouco de oxigênio que assolava Manaus.

Daí pra frente foi um festival de desgraças e fracassos. A economia, como não podia deixar de ser, parou. O trabalho virou um salve-se quem puder no maior processo de uberização que este país já viu. Sindicatos fecharam e a negociação ficou nas mãos dos patrões. A Previdência tirou o dinheiro dos mais pobres e transformou a aposentadoria numa esmola dada de favor. O auxílio emergencial que deveria vir para ajudar na pandemia foi distribuído com endereço certo e o pouco que foi parar nas mãos de quem precisa, usado como moeda eleitoreira. A violência virou linguagem, as armas foram liberadas e nas eleições nem o dinheiro jorrado nos candidatos da situação e na organização das fake news adiantou. Apesar de tudo isso ele perdeu. Tentou contestar, ameaçou dar golpe desde muito tempo antes do voto, fez cara feia, ficou ridicularizado no mundo e aqui teve que se isolar no palácio em depressão profunda que demonstra sua total falta de recurso político.

Mas escapamos de boa. Escapamos de ter um STF aos poucos trabalhando para legitimar a falta da democracia, uma política ambiental predadora e comercial, um mercado também ameaçado por uma política incerta e burra, uma saúde dedicada a matar o povo, uma condição social que chegaria a números tremendos de fome e desemprego. Esse seria o país da meritocracia, do desrespeito às diferenças, da violência de gênero, da militarização das escolas e do achatamento da cultura e da educação. Viraríamos uma espécie de feudo dessa gente que acabaria transformando o Brasil numa imensa fazenda produtora de mentiras, falsos números e uma riqueza infinita para quem a apoiasse. Escapamos de boa, repito e não podemos esquecer o que passamos. Viva os novos tempos.

Respeito ao próximo


Hoje a liberdade é tida como um direito absoluto. Mas não há liberdade absoluta. A liberdade não é sequer um direito. A liberdade é um dever, um dever fortíssimo. A liberdade é o respeito pelo próximo
Manoel de Oliveira

A 'ambição de poder' e a volta dos militares à caserna

A volta dos militares às suas funções constitucionais específicas é o caminho para despolitizar as Forças Armadas, historicamente contaminadas pela velha compreensão positivista de que são a expressão armada e a liderança moral do povo brasileiro desde a vitória de Guararapes contra os holandeses, o mito fundador do Exército nacional. Em razão disso, muitos militares ainda acreditam que, em nome do povo, devem exercer a tutela sobre os Poderes republicanos e as demais instituições da vida pública.

Essa compreensão vem dos governos de Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto, que consolidaram o regime republicano e operaram uma transição na qual o poder político do país saiu das mãos da aristocracia imperial e passou aos grandes fazendeiros de café, não apenas por isso, mas quase que como uma indenização pela abolição da escravidão pela monarquia constitucionalista. Mas havia uma compreensão clara na República Velha, a partir do governo de Prudente de Moraes, de que a democracia era um poder civil, apesar de todos os problemas.

A Revolução de 1930 virou tudo de pernas para o ar. Foi um golpe de Estado que depôs o presidente Washington Luís, em 24 de outubro de 1930, articulado pelos estados de Minas Gerais, da Paraíba e do Rio Grande do Sul para impedir a posse do presidente eleito Júlio Prestes, sob alegação de fraude eleitoral. A crise econômica de 1929, que repercutiu fortemente na economia cafeeira, e o assassinato do político paraibano João Pessoa — um crime passional que se transformou numa catarse política — embalaram a conspiração liderada pelo gaúcho Getúlio Vargas com apoio do mineiro Antônio Carlos. Lideranças oriundas do movimento tenentista deram ao golpe a sustentação militar de que precisava.

Em 3 de outubro, militares liderados por Getúlio Vargas, no Sul, e Juarez Távora, no Nordeste, convergiram para o Rio de Janeiro. Getúlio Vargas tornou-se chefe do Governo Provisório com amplos poderes, revogou a Constituição de 1891 e governou por decretos. Nomeou seus aliados como interventores nos estados. Os políticos esperavam que o novo presidente convocasse eleições gerais para formar uma assembleia constituinte, mas não foi o que aconteceu. Com a derrota da Revolução Constitucionalista de 1932, na qual os paulistas tentaram destituir Vargas, a ditadura se consolidou, principalmente, a partir de 1937, com o chamado Estado Novo.

A ditadura Vargas durou 15 anos, mas não foi um regime militar, apesar do amálgama positivista do florianismo com o castilhismo gaúcho. Getúlio era um populista, que contava com grande apoio popular, por criar o salário-mínimo e instituir a legislação trabalhista. Por ironia da História, após a redemocratização de 1945, o golpismo que o levou ao poder migrou para um partido de origem liberal, criado em São Paulo para se opor a Getúlio, que passou a contar com forte apoio militar, a União Democrática Nacional (UDN). Com a fim da guerra e a destituição de Getúlio Vargas, o país passou por sucessivas crises, nas quais os militares tutelaram a política como se fossem um “poder moderador” que, na monarquia, fora exercido por D. Pedro II.


Mas não havia ainda uma “ambição de poder” consolidada nas Forças Armadas como instituição. Isso somente viria a ocorrer após o golpe militar de 1964, que resultou numa ditadura na qual os generais se revezaram na Presidência da República. Com a redemocratização, após a eleição de Tancredo Neves, em 1985, e o governo de José Sarney, os militares voltaram gradativamente aos seus afazeres constitucionais, porém, numa espécie de limbo doutrinário: a Guerra das Malvinas e o fim da Guerra Fria, respectivamente, subverteram os seus vetustos planos de Estado Maior, que viam na Argentina e na antiga União Soviética (e nos comunistas, por meio de uma “guerra interna, subversiva, psicológica e permanente”), os inimigos da Nação.

A eleição de Jair Bolsonaro exumou velhos conceitos e fez renascer das cinzas a “ambição de poder” da geração de militares saudosos dos 20 anos de ditadura, nos quais a carreira era uma via de ascensão política para mandar e desmandar no país. Esse é o problema com que o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva se depara ao assumir o governo, porque há uma contradição entre esse sentimento agora difuso nas Forças Armadas, reforçado pela suposta presença de 8 mil militares, aproximadamente, em cargos comissionados do governo federal, e a democracia como poder civil, consagrada pela Constituição de 1988.

“Desmilitarizar” o governo e reposicionar as Forças Armadas não será uma tarefa fácil, ainda mais se uma nova doutrina militar mais democrática, já esboçada na Política Nacional de Defesa, não for consolidada. O próprio Ministério da Defesa, como instituição civil, precisa ser reformado, assunto para outra coluna. Militares geralmente são austeros, disciplinados, estudiosos, leais, patriotas e probos, mas muitos têm cacoete mandonista e nem sempre estão preparados para exercer funções tipicamente civis. Reformados, são cidadãos com os mesmos direitos de qualquer servidor público e, portanto, aptos a permanecer no governo, se for preciso, desde que para exercer cargos compatíveis com a respectiva formação. O principal problema são militares da ativa em cargos públicos não ligados à Defesa e em desvio de função, como foi o caso do general Pazuello, hoje deputado federal eleito, no Ministério da Saúde, e a militância política por militares da ativa, dentro e fora das organizações militares, que subvertem a hierarquia e a disciplina. Isso não deveria ocorrer.

O Brasil não chora por Bolsonaro. Ele é que chora por ele

O pastor evangélico Magno Malta (PL-ES), agora eleito senador, foi uma das primeiras pessoas a penetrar na sala do hospital de Juiz de Fora na noite de 6 de setembro de 2018, quando Bolsonaro, candidato a presidente da República, recuperava-se da cirurgia depois da facada que quase o matara.

Malta puxou várias orações e, enquanto o fazia, descobriu o corpo do enfermo e tirou uma fotografia para mostrar a extensão da cicatriz que acompanharia Bolsonaro pelo resto da vida. Postada nas redes sociais, a fotografia viralizou e até hoje reaparece de vez em quando. Bolsonaro ficou-lhe grato pela ideia que teve.



É, pois, com a autoridade de quem sempre esteve perto de Bolsonaro, que Malta, depois de visitar recentemente o único presidente brasileiro que tentou se reeleger e acabou derrotado, confidenciou a Valdemar Costa Neto, chefe do PL: “Bolsonaro já era”. Foi a impressão que ele lhe deu. Costa Neto ouviu calado.

Malta não é um caso de infidelidade a Bolsonaro, mas Tarcísio de Freitas (Republicanos), eleito governador de São Paulo com o apoio do presidente amorfo, deprimido e, como se não bastasse, vítima de uma crise de erisipela, pode, sim, ser considerado um caso de infidelidade. Em entrevista à CNN, Freitas disse:

“Eu nunca fui bolsonarista raiz. Comungo das ideias econômicas do governo Bolsonaro. A valorização da livre iniciativa, os estímulos ao empreendedorismo, a busca do capital privado, a visão liberal. Sou cristão, contra aborto, contra liberação de drogas, mas não vou entrar em guerra ideológica e cultural”.

É porque perdeu que Bolsonaro chora, como se viu ao receber, no Clube Naval de Brasília, os cumprimentos de fim de ano dos mais altos oficiais das Forças Armadas. Foi a terceira aparição pública dele em eventos militares nos últimos 10 dias. Se tivesse chorado pelos que morreram de Covid, talvez seu destino fosse outro.

Mas não. Além de não ter chorado, além de ter receitado drogas ineficazes para combater a pandemia, além de ter retardado a compra de vacinas, em março do ano passado, quando o país lidava com uma média de 4 mil mortos por dia, Bolsonaro afirmou em um vídeo inesquecível:

“Chega de frescura, de mimimi, vão ficar chorando até quando?”

Dissera antes:

“Eu não sou coveiro”.

Foi o coveiro de sua própria candidatura. É por essas e outras que o país não chora por ele.

sábado, 3 de dezembro de 2022

Brasil da macaquice

 


A falta que um muro de arrimo nos faz

Se fôssemos julgar pelos últimos quatro ou cinco anos, nossa conclusão só poderia ser a de que a maioria dos brasileiros, mesmo os poliglotas e os pertencentes às camadas ditas “nobres”, adora o debate público, não porque tenha grande interesse no desenvolvimento do País, mas porque seus maiores deleites são maldizer as instituições e insultar adversários.

Confesso que não tenho mais paciência para isso. Dou atenção a tais embates – que tiveram seu ápice na eleição presidencial de 2018 – por razões estritamente profissionais. Pessoalmente, posso manifestar desânimo, resmungar e até grunhir quando me deparo com algum fato público abominável – e os há em abundância; mas deixo para os desocupados o contentamento de martelar sandices como essas dos últimos anos.


Nossa história ostenta uma pândega simetria. Cerca de 80 anos atrás, os poliglotas e nobres a que acima me referi, representando-se como combatentes das justas medievais, abarrotavam-se nos melhores salões a fim de esgrimir no mais castiço português a contraposição de suas teses sobre o que significava “ser brasileiro”. Era raro irem à janela para dar uma olhada no ambiente externo; se lá fossem, não veriam muita coisa, pois a iluminação era escassa, uns poucos pobretões matavam o tempo e a maioria da população não estava lá, estava no interior, tentando sobreviver como trabalhadores rurais.

Nos salões, os que se mantinham em suas poltronas acompanhavam a liça, liderada, de um lado, por um grande historiador, Sérgio Buarque de Holanda, do outro pelo poeta Cassiano Ricardo, louvaminheiro-mor da ditadura Vargas. Sérgio defendia que o traço que nos distinguia como povo era um legado português, a “cordialidade”, frisando que tomava esse termo no sentido etimológico (aquilo que vem do coração, que tanto pode ser um jeito pacífico ou um jeito odiento); Cassiano esbravejava que o sentido profundo de nossa cordialidade era não sermos propensos ao conflito, fruto de nossa abundância de recursos, da quantidade de terras, e, portanto, em última análise, da vontade de Deus.

Subjacente a essa elegante esgrima, o que encontramos é a peculiar recusa brasileira em entender que sociedades tanto podem progredir como regredir. Se avanços acontecem, retrocessos, recuos e rupturas também podem acontecer. Já usei este espaço algumas vezes para lembrar que a mesma Argentina que um dia ostentou uma renda anual per capita no mesmo nível da de Espanha, Itália, Alemanha e Suécia, na hora atual marcha célere para se tornar um dos países mais pobres do hemisfério, com uma inflação anual perigando bater nos três dígitos.

E daí?, poderá perguntar meu impaciente leitor. Daí duas coisas. Primeiro, sabemos todos que nossa democracia é defeituosa. Quem preferir viver sob uma ditadura, em vez de contribuir para o aprimoramento desta democracia que bem ou mal temos, só o que tem a fazer é escolher a linha aérea de sua preferência.

Segundo, ressaltar que somos um país sem muro de arrimo. Muro de arrimo, como também sabemos, é uma barreira formada por milhares ou milhões de pedras. Imaginemos, contudo, um arrimo formado não por pedras, mas por milhões de seres humanos – vale dizer, de cidadãos. Para tornar compreensível essa sugestão, permitam-me acrescentar dois pontos. Nossas instituições políticas são inexpugnáveis, invulneráveis, imunes a uma queda como a sofrida pela Argentina durante o século 20. Aos que acreditam piamente na “robustez” de nossas instituições, lembrarei apenas que, mesmo no período dos governos militares, até o poderoso general Ernesto Geisel precisou se precaver contra um golpe. O segundo ponto é nossa distribuição de renda. Ninguém ignora que o conjunto formado pelos 10% mais pobres de nosso país é centenas de vezes maior que o constituído pelos 10% mais ricos. Ou, abrindo um breve espaço para a linguagem jornalística corrente, que os descamisados que passam o dia catando ossos e restos de comida para a sopa da noite são um colossal múltiplo daqueles que vez por outra se reúnem para saborear um camarão e um bom vinho. Entre os de cima e os de baixo, nada há que possa escorar as instituições políticas. Para termos mais segurança, alguns milhões de integrantes das camadas médias teriam de se preparar para uma função de arrimo. Mas, por favor, não me entendam mal: no Brasil (como na maioria dos países semelhantes ao nosso) os desacertos e retrocessos constitucionais são mais frequentemente causados por aqueles, fardados ou não, que preferem crustáceos a sopas de ossos.

Um esclarecimento final. Meu propósito neste artigo não foi entoar cantilenas de Cassandra. Torço para que o próximo governo seja capaz de nos tirar deste atoleiro em que nos meteram. Sempre tive ressalvas a respeito do sr. Lula, mas reconheço que ele amadureceu no transcurso dos últimos 20 anos; reconheço, principalmente, que agora ele parece compenetrado de que nossa primeiríssima prioridade é desarmar os ânimos, ou seja, repor nossa vida pública num ambiente de comedimento e bons modos.

'De que cor é a fome, mãe?'

Li que na grande e rica São Paulo, a maior cidade da América Latina e um estado como toda a Espanha, uma menina do subúrbio perguntou à mãe de que cor é a fome. Ela não perguntou qual era o gosto das dores da fome, ela as conhecia muito bem, mas de que cor. As crianças são tão criativas.

Deve ter sentido o amargor da fome, como sentem hoje milhões de brasileiros , algo que se torna mais agudo na véspera do Natal , para perguntar se, além do gosto amargo, também tem cor.

Essa nova situação paradoxal de um mundo cada vez mais rico e com mais fome por metro quadrado é o que os políticos, todos eles, deveriam estar estudando e resolvendo antes de mais nada.

E é talvez porque a maioria da humanidade, melhor ou pior ainda, continua a comer para sobreviver que não conseguimos compreender a crueldade crua da fome.

Escrevo com conhecimento de causa porque pertenço ao grupo dos que conheceram os golpes da fome. Foi durante a guerra civil espanhola, que foi seguida pela odiosa e dolorosa ditadura de Franco . Sim, então sabíamos o que era a fome, a doçura de um pedaço de pão branco ou preto, trigo ou cevada.

Também a conheci pessoalmente na escola religiosa onde estudei o ensino médio. Éramos jovens e nosso estômago estava sempre reclamando. Na Espanha foram anos de escassez. Muito tempo se passou para mim, mas os sonhos do forno na aldeia da minha infância de onde saíam os pães com cheiro a céu quentes como sóis ainda estão vivos na minha memória.

Na escola davam-nos ao pequeno-almoço café com leite, um pãozinho pontiagudo que acabava com duas dentadas. O que nós inventamos? Corte cada dia os dois picos do pãozinho, guarde-os para ter 14 no final de semana e poder encher a tigela de leite. O triste era que às vezes algum bandido descobria onde eu os guardava e os roubava. Aquele domingo foi duplamente amargo.

Durante o verão, eles nos levaram a alguns acampamentos do exército nos Picos de Urbión, no meio das montanhas. Na nossa idade e andando 20 km todos os dias, nosso apetite era devastador. Foi assim que inventamos tudo. Nos dividimos em grupos para tentar encontrar algo para comer. No meu, alguns de nós íamos pescar trutas com as próprias mãos debaixo das pedras do rio e outros, sobretudo os asturianos, tentavam ordenhar uma vaca. Foi um banquete.

No Natal, às vezes as famílias nos mandavam um tablete de nougat duro. O que fizemos para que durasse mais? Cortamos em pedacinhos e embrulhamos em jornal como bombons para durarem mais. Isso se passou para mim, 75 anos, e ainda me parece agora.


Talvez por pertencer ao grupo dos que acreditam que os tempos passados foram piores, também penso com alguma raiva que hoje não deve faltar comida a ninguém nem Natal sem mimo a uma criança. Estou errado e tenho certeza que neste Natal e neste rico Brasil, milhões de crianças passarão fome novamente.

Ontem, na pequena vila de pescadores, perto do Rio onde moro, presenciei no mercado, na porta de minha casa, uma cena que mesmo que eu vivesse mais 90 anos do que já completei, não conseguiria esquecer. Ela era uma mulher velha, com um rosto magro. Eu estava sozinho. Ela foi comprar bananas. Ela pegou duas, daquelas que são cozidas. Ela foi ao caixa pagar. No caminho, olhou para as moedas em sua mão. E pensou por alguns segundos. Ela se virou e devolveu uma das bananas que havia escolhido. Fiquei tentado a escolher o melhor cacho da mesa do mercado e colocá-lo em sua bolsa. Não o fiz para não a humilhar, mas prometi a mim mesmo que minha primeira coluna seria dedicada ao drama daquela velha que partiu triste com uma única banana na mão.

Em casa, eu não consegui ler os jornais coalhados como sempre com os escândalos de corrupção política enquanto há gente, idosos e crianças que passam fome e até o pão puro, sem nada, tornou-se uma iguaria e um luxo. A raiva subiu aos meus olhos.

Há alguns dias, minha colega Naiara, correspondente deste jornal aqui no Brasil, me perguntou, intrigada, por que em meu recente livro de poemas, Alfabetos Perdidos, dediquei um deles ao “pão”. É que, além das minhas lembranças da fome na infância, ainda tenho a cena vivida aqui em minha casa com um sobrevivente do campo de extermínio nazista de Auschwitz.

Minha esposa preparou uma refeição e fez pão caseiro. Quando o nosso comensal se sentou à mesa, desculpou-se por comer apenas pão e disse-nos que nos anos do inferno em Auschwitz os seus sonhos, os seus desejos mais ardentes, os seus pesadelos, eram um pedaço de pão, duro ou mole, não importava. Era pão. E sim, ele comia apenas pão. Pouco depois soubemos que ele se foi para sempre. Jamais o esquecerei com o pão quente da minha mulher nas mãos comendo-o aos bocadinhos.

Sim, hoje num mundo rico em tecnologia, em milagres da ciência, onde o Homo Sapiens consegue viver cada vez mais e já sonha em conquistar e habitar o cosmos, ainda há crianças sem poder comer no natal e perguntando angelicalmente de que cor é a fome. Isso nos julga e nos condena.

Anistia nunca mais

Muitas vozes alertam o Brasil sobre os custos impagáveis de cometer um erro similar àquele feito há 40 anos. No final da ditadura militar, setores da sociedade e do governo impuseram o silêncio duradouro sobre crimes contra a humanidade perpetrados durante os vinte anos de governo autoritário. Vendia-se a ilusão de que se tratava de astúcia política. Um país “que tem pressa”, diziam, não poderia desperdiçar tempo acertando contas com o passado, elaborando a memória de seus crimes, procurando responsáveis pelo uso do aparato do Estado para prática de tortura, assassinato, estupro e sequestro. Impôs-se a narrativa de que o dever de memória seria mero exercício de “revanchismo” – mesmo que o continente latino-americano inteiro acabasse por compreender que quem deixasse impunes os crimes do passado iria vê-los se repetirem.

Para tentar silenciar de vez as demandas de justiça e de verdade, vários setores da sociedade brasileira, desde os militares até a imprensa hegemônica, não temeram utilizar a chamada “teoria dos dois demônios”. Segundo ela, toda a violência estatal teria sido resultado de uma “guerra”, com “excessos” dos dois lados. Ignorava-se, assim, que um dos direitos humanos fundamentais na democracia é o direito de resistência contra a tirania. Já no século 18, o filósofo John Locke, fundador do liberalismo, defendia o direito de todo cidadão e de toda cidadã matar o tirano. Pois toda ação contra um estado ilegal é uma ação legal. Note-se: estamos a falar da tradição liberal.

Os liberais latino-americanos, porém, têm essa capacidade de estar sempre abaixo dos seus próprios princípios. Por isso, não é surpresa alguma ouvir um ministro do Supremo Tribunal Federal, como Dias Toffoli, declarar, em pleno 2022, pós-Bolsonaro: “Não podemos nos deixar levar pelo que aconteceu na Argentina, uma sociedade que ficou presa no passado, na vingança, no ódio e olhando para trás, para o retrovisor, sem conseguir se superar (...) o Brasil é muito mais forte do que isso”.



Afora o desrespeito a um dos países mais importantes para a diplomacia brasileira, um magistrado que confunde exigência de justiça com clamor de ódio, que vê na punição a torturadores e a perpetradores de golpes de estado apenas vingança, é a expressão mais bem acabada de um país, esse sim, que nunca deixou de olhar para o retrovisor. Um país submetido a um governo que, durante quatro anos, fez de torturadores heróis nacionais, fez de seu aparato policial uma máquina de extermínio de pobres.

Alguns deveriam pensar melhor sobre a experiência social de “elaborar o passado” como condição para preservação do presente. Não existe “superação” onde acordos são extorquidos e silenciamentos são impostos. A prova é que, até segunda ordem, a Argentina nunca mais passou por nenhuma espécie de ameaça à ordem institucional. Nós, ao contrário, enfrentamos tais ataques quase todos os dias dos últimos quatro anos. Nada do que aconteceu conosco nos últimos anos teria ocorrido se houvéssemos instaurado uma efetiva justiça de transição, capaz de impedir que integrantes de governos autoritários se auto-anistiassem. Pois dessa forma acabou-se por permitir discursos e práticas de um país que “ficou preso no passado”. Ocultar cadáveres, por exemplo, não foi algo que os militares fizeram apenas na ditadura. Eles fizeram isso agora, quando gerenciavam o combate à pandemia, escondendo números, negando informações, impondo a indiferença às mortes como afeto social, impedindo o luto coletivo.

É importante que tudo isso seja lembrado neste momento. Porque conhecemos a tendência brasileira ao esquecimento. Este foi um país feito por séculos de crimes sem imagens, de mortes sem lágrimas, de apagamento. Essa é sua tendência natural, seja qual for o governante e seu discurso. As forças seculares do apagamento são como espectros que rondam os vivos. Moldam não apenas o corpo social, mas a vida psíquica dos sujeitos.

Cometer novamente o erro do esquecimento, repetir a covardia política que instaurou a Nova República e selou seu fim, seria a maneira mais segura de fragilizar o novo governo. Não há porque deleitar-se no pensamento mágico de que tudo o que vimos foi um “pesadelo” que passará mais rapidamente quanto menos falarmos dele. O que vimos, com toda sua violência, foi o resultado direto das políticas de esquecimento no Brasil. Foi resultado direto de nossa anistia.

A sociedade civil precisa exigir do governo que se inicia a responsabilização pelos crimes cometidos por Bolsonaro e seus gerentes. Isso só poderá ser feito nos primeiros meses do novo governo, quando há ainda força para tanto. Quando falamos em crimes, falamos tanto da responsabilidade direta pela gestão da pandemia, quanto pelos crimes cometidos no processo eleitoral.

O Tribunal Penal Internacional aceitou analisar a abertura de processo contra Bolsonaro por genocídio indígena na gestão da pandemia. Há farto material levantado pela CPI da Covid, demonstrando os crimes de responsabilidade do governo que redundaram em um país com 3% da população mundial contaminada e 15% das mortes na pandemia. Punir os responsáveis não tem nada a ver com vingança, mas com respeito à população. Essa é a única maneira de fornecer ao estado nacional balizas para ações futuras relacionadas a crises sanitárias similares, que certamente ocorrerão.

Por outro lado, o Brasil conheceu duas formas de crimes eleitorais. Primeiro, o crime mais explícito, como o uso do aparato policial para impedir eleitores de votar, para dar suporte a manifestações golpistas pós-eleições. A polícia brasileira é hoje um partido político. Segundo, o pior de todos os crimes contra a democracia: a chantagem contínua das Forças Armadas contra a população. Forças que hoje atuam como um estado dentro do estado, um poder à parte.

Espera-se do governo duas atitudes enérgicas: que coloque na reserva o alto comando das Forças Armadas que chantageou a República; e que responsabilize os policiais que atentaram contra eleitores brasileiros, modificando a estrutura arcaica e militar da força policial. Se isso não for feito, veremos as cenas que nos assombraram se repetirem por tempo indefinido.

Não há nada parecido a uma democracia sem uma renovação total do comando das Forças Armadas e sem o combate à polícia como partido político. A polícia pode agir dessa forma porque sempre atuou como uma força exterior, como uma força militar a submeter a sociedade. Se errarmos mais uma vez e não compreendermos o caráter urgente e decisivo de tais ações, continuaremos a história terrível de um país fundado no esquecimento e que preserva de forma compulsiva os núcleos autoritários de quem comanda a violência do Estado. Mobilizar a sociedade para a memória coletiva e suas exigências de justiça sempre foi e continua sendo a única forma de efetivamente construir um país.

Desigualdade que vem do berço

O prêmio Nobel de economia Angus Deaton começa seu livro “A Grande Saída” convidando o leitor a entender que, muitas vezes, situações positivas podem gerar desigualdades. Se, entre dois prisioneiros de um campo de concentração, um consegue escapar, isso vai gerar uma desigualdade.

Obviamente, isso não significa que seja ruim que alguém escape daquela situação infernal. É positivo que uma pessoa deixe de ser vítima de uma injustiça. A desigualdade, no caso, reflete que nem todos conseguiram escapar de uma situação ruim.

No livro, Deaton fala de como a Humanidade vem escapando da penúria ao longo dos últimos séculos. Até pouco tempo, quase todos os seres humanos tinham níveis de consumo baixo, acesso muito limitado à saúde e viviam sob governos tirânicos.

Ao longo desses anos, partes do mundo conseguiram escapar desses grilhões. Primeiro veio a revolução sanitária, que reduziu a mortalidade infantil inicialmente no Ocidente, depois no resto do mundo. Depois veio a melhora nas condições materiais. Em 1990 (praticamente anteontem!), 38% do mundo viviam na extrema pobreza. Em 2019, já eram bem menos: 8,4%.


Mas nem todos escaparam. Mesmo em países de renda média, como o Brasil, há partes da população que estão presas a condições prejudiciais. Por aqui, há um fator adicional: aqueles que ficam para trás parecem ter seu destino traçado desde o nascimento.

Um trabalho recente dos economistas Diogo Britto, Alexandre Fonseca, Paolo Pinotti, Breno Sampaio e Lucas Warwar traz informações inéditas sobre mobilidade social no Brasil. Usando dados da Receita Federal, de pesquisas domiciliares e de programas sociais, eles criaram uma nova base de dados de relações entre filhos e pais e a renda de cada um deles.

Como em boa parte do mundo, os filhos de pais ricos também tendem a ser ricos. No Brasil, contudo, a persistência da desigualdade de renda de uma geração para outra é muito maior do que em outros países.

Filhos nascidos em lares que estavam entre os 20% mais pobres só têm 4% de chance de chefiarem famílias que estarão entre as 20% mais ricas. Entre aqueles que nasceram em lares que estão entre os 20% mais ricos, há quase 50% de chance de que eles continuem entre os mais ricos quando adultos.

Em média, cerca de 50% da renda dos brasileiros é determinada pela renda dos pais. Esse percentual é muito maior do que nos Estados Unidos (35%), Canadá (25%) ou países escandinavos (20%), indicando baixa mobilidade social.

A persistência na desigualdade ao longo do tempo é particularmente perversa. Ela indica que mesmo alguém talentoso e esforçado vai ter uma chance muito baixa de reverter seu infortúnio de berço. Se uniformidade social mata os incentivos para a inovação e o esforço, a imobilidade social também o faz.

E quais são as soluções para isso? Obviamente, não há uma resposta simples a essa pergunta. Mas experimentos na educação de primeira infância iluminam alguns possíveis caminhos.

Recentemente, um grupo de pesquisadores que inclui os brasileiros Lycia Lima, Pedro Olinto e Ricardo Paes de Barros analisou os efeitos de uma loteria que deu acesso gratuito a creches para famílias pobres do Rio de Janeiro. Como o benefício era aleatorizado, as diferenças entre os que receberam e não receberam o benefício são causadas pelo acesso a creche — e não como mera correlação.

O estudo mostra que, durante vários anos, as crianças que receberam esse tipo de apoio na primeira infância eram mais altas, mais bem nutridas e tinham melhores índices cognitivos do que as que não receberam. Um efeito importante do programa é o fato de as creches liberarem irmãos, mães e avós do trabalho doméstico — podendo assim trabalhar fora e aumentar a renda da família.

Tal estudo replica no Brasil resultados similares de estudos em países ricos. Você já leu sobre eles nestas páginas (“O Direito de Sonhar”, 29/01/2022). Em comum, eles mostram que intervenções na primeira infância têm impactos substantivos sobre crianças que crescem em lares pobres, amenizando algumas das amarras que as prendem naquela situação.

O Brasil é muito desigual. Mas há algo além: nossa desigualdade é persistente, o que impede que gerações de brasileiros escapem das suas circunstâncias. Se quisermos construir uma sociedade em que o destino de uma criança não esteja sacramentado antes de ela nascer, é prioritário atacar a desigualdade que vem de berço.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

Pensamento do Dia

 


Sem abdicar da esperança

No Brasil, a reflexão nunca foi razoavelmente prestigiada. Preferimos, sempre, reagir percorrendo o circuito das emoções.

Ocorre que a revolução digital, com a força descomunal das redes sociais, enfraqueceu a mediação reflexiva da informação, acentuando a prevalência, quase absoluta, da emoção sobre a reflexão, em um processo de autoamputação da razão.

Sem juízo de valor, basta ver a capacidade de convencimento dos influenciadores digitais, profissionais ou eventuais, vis-à-vis a mídia tradicional. Seu poder de convencimento é avassalador.

Não é, contudo, um fenômeno local, mas, em menor ou maior intensidade, mundial. Aparentemente, é, também, irreversível, o que imporá uma rediscussão da natureza do Estado e dos institutos que o integram.

Como já ocorreu tantas vezes, talvez estejamos vivendo uma transição entre duas realidades históricas, o que remete à conhecida reflexão do pensador italiano Antônio Gramsci: “O velho está morrendo e o novo não pode nascer; nesse interregno surgem os sintomas mórbidos mais variados”.


Um desses sintomas, hoje, são os movimentos oportunistas que buscam, por meio da manipulação da linguagem, viabilizar interesses próprios, nem sempre legítimos, gerando uma peculiar guerra de palavras.

Grandes dicionários costumam eleger a palavra do ano. O Merriam-Webster, que nos dois últimos anos destacou as palavras pandemia e vacina, elegeu, para este ano, “gaslighting”. Segundo ele, essa palavra corresponde ao ato ou prática de enganar grosseiramente alguém especialmente para vantagem própria, de forma mais elaborada que a mentira improvisada, porque decorre de um planejamento com propósitos iníquos. O Brasil é um terreno fértil para esses atos ou práticas, em virtude de nossa acanhada capacidade de reflexão.

Nesse delicado contexto, que se soma ao imprevisível curso das mudanças climáticas, à guerra da Ucrânia e outros focos de tensão bélica, ao desabastecimento alimentar, à inflação em escala internacional e à crise da democracia, teremos a instalação de um novo governo no Brasil, em circunstâncias em que se constatam visíveis e irresolutas instabilidades institucionais.

É previsível que surjam muitos projetos governamentais para enfrentar os problemas atuais e um futuro desafiador. Ainda que possa parecer uma platitude, é recomendável que a ação política seja pautada pelo comedimento de linguagem, desarmamento dos espíritos, planejamento centrado em diagnósticos e em escolha de soluções qualificadas, e negociação sem apelo a meios pouco virtuosos.

Por que o mundo precisa de um tratado global sobre plástico

De nossas embalagens a nossas roupas e eletrodomésticos – o plástico está presente em quase todos as áreas do consumo.

Mas um tratado global para conter essa torrente de poluição pode mudar as coisas. No início deste ano, líderes mundiais reunidos numa conferência das Nações Unidas votaram por unanimidade pela elaboração de um acordo juridicamente vinculativo sobre o plástico até 2024.

"Este é o acordo ambiental multilateral mais significativo desde o acordo de Paris. É uma apólice de seguro para esta geração e as futuras, para que elas possam viver com plástico e não serem amaldiçoadas por ele", disse então Inger Andersen, chefe do Programa Ambiental da ONU.

Agora é a vez de um comitê de negociação, formado por delegados da ONU, agências especializadas e ONGs, acertar os detalhes. Nesta semana, o grupo se reúne no Uruguai para a primeira rodada de negociações sobre como abordar a produção, o design e o descarte do plástico.
A dimensão do problema

Embora existam muitas estatísticas sobre a produção de plástico, ativistas dizem que não se pode saber ao certo quais são os números reais. Não há requisitos globais para que a indústria relate sua produção, mas a magnitude da crise é clara.

A Fundação Heinrich Böll, uma fundação política da Alemanha, estima que 8,3 bilhões de toneladas métricas de plástico foram produzidas entre 1950 e 2015. Isso é mais de uma tonelada por pessoa vivendo no mundo hoje. Disso, a maior parte foi para produtos e embalagens de uso único – e menos de 10% foi reciclado.

O restante é queimado, despejado em aterros sanitários ou jogado na natureza, nos quais os animais podem ficar presos ou comer e se engasgar.

Animais de engasgam com plásticos em seu habitat

Uma vez em nossos ecossistemas, o plástico pode lá permanecer por centenas de anos. A bem da verdade, ele nunca desaparece completamente, mas apenas se decompõe em fragmentos cada vez menores, que têm um alcance ainda maior. Os microplásticos contaminam a nossa água potável, o ar, o solo e os alimentos. E, como resultado, o corpo humano. A ciência ainda está dividida sobre as ameaças à nossa saúde.

Mesmo assim, a produção não mostra sinais de desaceleração. Se as políticas públicas não mudarem, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) estima que o consumo de plástico deve aumentar de 460 milhões de toneladas métricas em 2019 para 1,2 bilhão de toneladas em 2060.

Dois setores estão particularmente interessados ​​em manter as vendas de plástico em crescimento: o petroquímico e o de combustíveis fósseis, já que a maior parte do plástico é feita com produtos químicos derivados do petróleo e do gás natural. Essa matéria-prima representa 12% da demanda global de petróleo, uma parcela que deve crescer, de acordo com um relatório de 2018 da Agência Internacional de Energia.

Muitos especialistas ambientais dizem que uma crise global como a da poluição plástica também exige uma resposta global para combater o problema.

No momento, a legislação difere de país para país e tem graus variados de sucesso. Muitas leis visam plásticos feitos de material não reciclável ou projetados para serem descartados rapidamente.

A União Europeia, por exemplo, proibiu produtos de plástico de uso único, como cotonetes, talheres, pratos ou canudos. A Nova Zelândia também não permite embalagens de alimentos de poliestireno e bandejas de alimentos de PVC. Bangladesh, Quênia e vários outros países africanos proibiram as sacolas plásticas.

Outros grandes poluentes, como os EUA, não têm nenhuma lei federal que regule o uso de plásticos descartáveis. Mas o lixo tem consequências internacionais, seja quando levado para ecossistemas de outras nações ou exportado para aterros sanitários no exterior.

"No momento, temos uma verdadeira colcha de retalhos na legislação", disse Christina Dixon, da Agência de Investigação Ambiental do Reino Unido. "Mas o plástico, como material e como poluente, é totalmente transfronteiriço. Portanto, é incrivelmente difícil administrar algo que flui pelo ar, pelas correntes oceânicas e pelo comércio."

Embora a poluição plástica seja frequentemente enquadrada como um problema de gerenciamento de resíduos – de que a reciclagem precisa ser intensificada –, muitos especialistas dizem que precisamos é olhar para a origem do problema.

"Não podemos lidar com a poluição plástica sem lidar com a produção de plástico", disse Dixon.

À medida que a produção de plástico virgem aumenta, ativistas estão pressionando para que o tratado global inclua proibições e restrições a novos materiais. Isso significa que a economia teria que repensar o consumo e priorizar a redução dos resíduos plásticos em vez da reciclagem ou do descarte.

Mas, para que isso aconteça, é preciso haver dados melhores, diz Dixon. Ela quer que os negociadores criem um padrão global para que os vendedores relatem quanto produzem, onde obtêm seus petroquímicos e como seu plástico é composto.

"Se tivermos a elaboração de relatórios como uma obrigação legal mínima, isso criará a capacidade de estabelecer restrições a certos tipos de polímeros problemáticos e estabelecer metas para limitar e reduzir gradualmente a produção", disse ela. "Sem o relatório, o tratado está realmente fadado ao fracasso."

Dixon também espera que o tratado estabeleça um fundo para ajudar as economias em desenvolvimento na transição para o abandono do plástico. De acordo com um estudo publicado na Science Advances, países de alta renda, como os EUA e o Reino Unido, foram responsáveis pela maior quantidade de lixo plástico produzido per capita em 2016. Os efeitos, porém, são sentidos em todo o mundo.

O comitê tem apenas dois anos para decidir sobre esses fatores. O prazo apertado mostra a urgência do problema, mas também dificulta as condições.

"Eles precisam encontrar um equilíbrio entre agir rapidamente e projetar um instrumento realmente robusto que será eficaz nos próximos anos", disse Dixon.

Bolsonaro já era, por absoluta incapacidade de se reinventar

Uma coisa é o que dizem para consumo público os políticos que cercam de perto o presidente demissionário Jair Bolsonaro, calado, perplexo e desocupado desde que perdeu a eleição.

Outra bem diferente é o que eles dizem quando conversam entre si no escurinho do cinema, ou nos gabinetes da República à prova de escuta dos curiosos, especialmente dos jornalistas.


Para consumo público, eles dizem, ou pelo menos diziam até um dia desses, que Bolsonaro, pouco a pouco, voltava a governar, que já dava ouvidos aos outros, e que em breve recuperaria a voz.

Intramuros, dizem o contrário. Que Bolsonaro continua apático, macambúzio, sofrido, que não fala porque não tem nada a dizer, e que dificilmente será o líder da oposição ao governo Lula.



Bolsonaro sempre gostou de impor suas vontades, e quando as via ameaçadas, falava muito, batia na mesa, distribuía desaforos, e valia-se da caneta cheia de tinta para intimidar os desafetos.

Jamais em 27 anos como deputado federal ele foi homem de partido. Passou por 9 e está no décimo, o PL de Valdemar Costa Neto. Operava como um franco atirador do baixo clero da Câmara.

Esteve a ponto de encerrar sua carreira por cansaço e desânimo. Sentia-se sem futuro na política. Aí, teve a ideia de ser candidato a presidente para impulsionar a carreira dos filhos.

Foi então, para seu próprio espanto, que se deu bem. Foi então, depois de quatro anos, que se deu mal. Entrou para a história como o único presidente que não se reelegeu, e o pior de todos.

O que ele teria a dizer aos seus eleitores hoje? A maior parte dos que votaram nele queria evitar a volta de Lula. A minoria que poderia votar novamente sente-se órfã e começa a criticá-lo.

Transcorrido mais de ano em que tentou desacreditar o processo eleitoral, reconhecer a derrota seria contraditório. Tendo se empenhado pelo golpe, não pode mandar os golpistas para casa.

Acreditou que os partidos que o apoiaram, comprados com o Orçamento Secreto, estariam ao seu lado na vitória ou na derrota. Não foi o que aconteceu. E ele está revoltado.

Quando a Alemanha, na Copa do Mundo de 2014, goleou o Brasil por 7 x 1 e sagrou-se campeã, muito se disse que o futebol jogado por ela viera para ficar e seria copiado pelos demais países.

Na Copa de 2018, a Alemanha emperrou na fase de grupos. Na Copa do Catar, ora em curso, foi o que se viu ontem. O futebol alemão será obrigado a se reinventar, e certamente o fará.

Quanto a Bolsonaro, por absoluta impossibilidade, já era.

A volta da política cala Bolsonaro

Lula reinaugura a política em Brasília. Até agora tem sabido, para ficar na metafísica influente destes dias, como tocar e lançar a bola, a despeito da rabugice "Duzmercáduz" e de setores consideráveis da imprensa, que odeiam justamente a... política. "Rabugem", a propósito, é sinônimo de sarna. O rabugento está sempre se coçando, numa inquietude viciosa.

Jair Bolsonaro se queda em silêncio porque moralmente derrotado, incapaz de se apresentar a suas milícias com a conhecida altivez burra e truculenta. Faz soar, na sua quietude, o apito de cachorro para manter mobilizados os zumbis do golpismo, enquanto Eduardo, o filhote, vai à farra no Qatar levando consigo supostos "pen drives" sobre "a atual situação do Brasil"... Mas há mais do que o peso da derrota.

Aquele que, para todos os efeitos, ainda preside o país nada diz porque se vê cercado, de súbito, por um ambiente que lhe é absolutamente estranho e ao qual sempre se mostrou hostil: a negociação. Quando chegou à Presidência, tinha uma carreira de quase 30 anos como deputado federal, trilha profissional seguida pelos filhos. O clã havia encontrado um meio de ganhar a vida e de acumular um formidável patrimônio —parte em dinheiro vivo—, mas se dedicava a que causa pública mesmo?


O líder petista indicou vários nomes para se acercar da herança do "imbrochável" amuado, mas é evidente que é ele, não um preposto enfatuado e arrogante, a negociar, por exemplo, a PEC da Transição. O eleito já se encontrou duas vezes com Arthur Lira (PP-AL) e Rodrigo Pacheco (PSD-MG), presidentes, respectivamente, da Câmara e do Senado.

Não sei se Lula consegue a aprovação da PEC pelo pico, com um valor de R$ 198 bilhões, excepcionalizando-se por quatro anos os R$ 175 bilhões do Bolsa Família. Seria o melhor, mas é provável que não leve tudo: alguns falam em favor de dois anos, tempo para se arranjar outra âncora fiscal. Frise-se: essa eventual nova amarra —teto de dívida, por exemplo— é só métrica diversa. O dinheiro é um só. O que se busca é um critério confiável para conter gastos, mas que tenha um efeito virtuoso na economia, em vez de conduzir ao sucateamento de bens e de serviços públicos, com superávit primário chinfrim e insustentável em meio ao caos.

A negociação virou instrumento para a formação da futura base de apoio e para a eleição das respectivas Mesas da Câmara e do Senado. O PT apoiará a recondução de Pacheco, como o esperado, e de Lira, o que constrange alguns bons. É do jogo. Ignorando-se os limites da realidade, não se consegue nem tomar um Chicabon, para ecoar Nelson Rodrigues.

"Ah, mas e a permanência do orçamento secreto"? Como existe, é uma excrescência e não vai se tornar virtuoso porque Lula será o presidente. Parece-me, no entanto, que, por ora, já é grandeza demais dotar o país de uma peça orçamentária realista; reconstruir a governança destroçada em qualquer área que se analise; reinserir o Brasil na economia verde; enfrentar —e isto ainda reserva sortilégios futuros, podem apostar— um processo de normalização do golpismo, que contamina até setores da imprensa, e reinstaurar o espaço da divergência que não pressuponha a eliminação do outro. O "bolsofascismo" veio para ficar. O desafio consiste em circunscrevê-lo, aprisionando-o nos nichos da delinquência política.

Antes de escrever essa coluna, voltei ao noticiário do início de dezembro de 2018. Bolsonaro, presidente eleito, dedicava-se a atacar a legislação ambiental, e Guedes explicava como aprovaria medidas salvacionistas apelando às "bancadas temáticas", não aos partidos. Deu tudo errado. No dia 26 de maio de 2019, o Planalto já patrocinava o primeiro ato golpista contra o STF e o Congresso. Um dos alvos era Rodrigo Maia, então presidente da Câmara, que conduzia a reforma na Previdência e teria, no ano seguinte, papel central na PEC de Guerra contra a Covid. Nem por isso parou de apanhar.

Eram os primeiros passos do desastre. "Uzmercáduz" reagiam com menos estridência do que a uma simples entrevista de Lula afirmando que a responsabilidade fiscal não pode levar à irresponsabilidade social. Estão desatualizados. Precisam redescobrir o capitalismo e a política.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

O que os militares mais temem é a perda dos privilégios adquiridos

Assim como se normalizou Bolsonaro e os absurdos que ele cometeu até aqui, o país correrá perigo caso normalize também a insubordinação militar diante do fato de Lula ter sido eleito.

É isso o que acontece no momento. Se vai haver ou não uma escalada da insubordinação, ninguém pode afirmar com segurança. Só depois que Lula for diplomado e tomar posse.

Nunca os militares acolheram manifestantes que pedem um golpe. Nunca os comandantes ameaçaram pedir demissão por se opor ao presidente eleito. É de insubordinação que se trata.

O Alto Comando das Forças Armadas bolsonarizou-se. O atual presidente governa por delegação dos seus antigos pares, e se dependesse somente deles, teria sido reeleito.

O golpe de 64 foi dado sob o pretexto de defender a democracia ameaçada pelo comunismo. Suprimiu-se a democracia por 21 anos. O comunismo, hoje, não existe mais, salvo na China capitalista.

Se houvesse um novo golpe, qual seria o pretexto? Que a Previdência especial para os militares será suspensa? Que os mais de 6 mil militares empregados no governo perderão o emprego?

Alegações fisiológicas podem pesar, mas não ser admitidas publicamente. Como justificar um golpe? Por que os militares sempre foram de direita, e Lula e a sua turma de esquerda?

O Centrão, em acelerado processo de entendimento com o novo governo, é de esquerda? Geraldo Alckmin, o vice-presidente, é de esquerda? Simone Tebet (MDB) é? Foram todos abduzidos?

Sem falar do presidente americano Joe Biden, que se não vier à posse de Lula estará pronto para recebê-lo antes disso na Casa Branca, como fez em 2002 o então presidente George Bush.

A revolta dos militares com a eleição de Lula alimenta-se do medo de perder os privilégios adquiridos. De volta ao poder sem disparar tiros, imaginaram ali permanecer por um longo tempo.

Lula e seu ministro da Defesa, José Múcio Monteiro Filho, terão uma parada indigesta pela frente, é verdade. Mas não lhes faltam habilidade e experiência para vencê-la. São bons negociadores.

A revolta dos militares com a eleição de Lula alimenta-se do medo de perder os privilégios adquiridos. De volta ao poder sem disparar tiros, imaginaram ali permanecer por um longo tempo.

Lula e seu ministro da Defesa, José Múcio Monteiro Filho, terão uma parada indigesta pela frente, é verdade. Mas não lhes faltam habilidade e experiência para vencê-la. São bons negociadores.

Pensamento do Dia

 


Uma rima para patriotas

Em Pernambuco, um patriota abraçou-se a um caminhão para impedir que ele furasse um bloqueio na estrada e rodou crucificado ao para-brisa por quilômetros em alta velocidade. No Paraná, patriotas de mãos dadas cantaram o Hino Nacional para um pneu entronizado no meio da rua –o pneu ouviu o hino em respeitoso silêncio. No Rio Grande do Sul, outra multidão de patriotas piscou seus celulares para o céu, tentando supostamente chamar a atenção de E.Ts. para que venham impedir a posse de Lula.

Já para uma patriota talvez também gaúcha, não há motivo para desespero. No dia 1º de janeiro, Brasília será palco de uma metempsicose: a alma de Bolsonaro transmigrará para o corpo de Lula no ato de posse e Bolsonaro continuará governando, só que no corpo do inimigo. A vidente não explicou o que será do corpo de Bolsonaro, subitamente oco, ou se a alma de Lula, despejada e sem teto, se mudará para o dele.


Enquanto isso, alheios ao Além, mais patriotas fazem penosas vigílias diante de quartéis pelo país, aguentando frio, chuva, água pelas canelas, sem ter onde sentar, passando a esfiha e pizza fria, dormindo ao relento e aliviando-se em banheiros químicos ou no mato –tudo isso para que as Forças Armadas saiam do conforto e cumpram sua obrigação de salvar o país com uma intervenção federal, digo golpe.

Por sorte, nem todo mundo aderiu à insânia. Políticos, empresários, agros, pastores, partidos e até militares, que se faziam de bolsonaristas hidrófobos, já estão conversando com o novo governo. Eduardo Bolsonaro, filho 03, foi flagrado vibrando na torcida brasileira no Qatar, indiferente ao desespero dos patriotas. E, pelo sumiço, prostração e silêncio de quase um mês, nem Bolsonaro, abandonado pelas redes digitais, quer saber mais de Bolsonaro.

O bolsonarismo está se tornando uma seita em extinção e seus últimos fiéis são patriotas sujeitos a uma rima óbvia.

Necessidades são únicas


De que serve discutir as ideologias? Se todas se demonstram, também todas se opõem, e semelhantes discussões fazem duvidar da salvação do homem. Ainda que o homem, por todo o lado, à nossa volta, revele as mesmas necessidades.
Antoine de Saint-Exupéry, "Terra dos Homens"