sábado, 5 de novembro de 2022

Discutir com mortos


Discutir com uma pessoa que renunciou ao uso da razão é como administrar remédio aos mortos
Thomas Paine (1737-1809)

O professor e Bolsonaro

A vitória de Lula no Brasil é um respiro. De todas as cabeças visíveis da nova extrema direita, essa que se formou na ponta da paranóia geral, das teorias da conspiração, do hábil marketing do ódio, da manipulação do fanatismo religioso e das diversas formas de elogiar a violência, Jair Bolsonaro pode muito bem ser o única figura mais perigosa que seu ídolo (sic) Donald Trump. O perigo em seus respectivos casos vem em parte do tamanho de suas economias, que influem no que acontece em suas áreas de influência, mas também daquelas coisas que não são quantificadas e às vezes são tomadas de ânimo leve, apesar de estarmos testemunhando a deterioração que provocam nas nossas sociedades há já vários anos. Refiro-me a uma certa forma de exercer a liderança que é muito desenfreada nos dias de hoje, e cuja principal estratégia é a destruição de tudo. Esta nova forma de fazer política deve ser bem sucedida, porque senão não se entende que, com os danos que causa, tornou-se moda em nossas democracias desorientadas que parecem ser seus piores inimigos todos os dias.

A forma a que me refiro é uma encarnação do mesmo populismo de extrema-direita que acompanhamos de perto há vários anos, porque está destruindo as coisas há algum tempo. Esse populismo curiosamente flerta com o fascismo, ou pelo menos bebe do fascismo como forma de entender o mundo. Você já sabe: o elogio da violência, o populismo com conteúdo racista, a invenção de um inimigo do povo, tudo filtrado por um ultranacionalismo acessível a qualquer um. Dicionário fascismo, em outras palavras. Uso a palavra com plena consciência: sei bem que se usa demais e para tudo, às vezes por leveza, às vezes por frivolidade e às vezes por ignorância. E isso é negativo: se for usado de forma descuidada, como fazem tantos políticos colombianos, a linguagem perde seu valor e não serve mais para nomear coisas quando realmente precisamos. Como precisamos falar de Trump, o líder messiânico de uma gangue de paranóicos violentos –extremistas, neonazistas, supremacistas brancos– que agora invadem as casas de políticos dispostos a matar com golpes de martelo; como precisamos, sim, falar de Bolsonaro, cuja forma de entender o mundo é militarista ao ponto da caricatura.

O que não impede, aliás, que levem muito a sério. Nas bandeiras de seus seguidores ele sai fazendo a saudação militar, e é de se perguntar por que isso parece aceitável mesmo para cidadãos que não sentem, como Bolsonaro, nostalgia pelos líderes militares do golpe do século passado. Mas é do conhecimento público que foi um soldado medíocre e que deixou o exército pela porta dos fundos, julgado por indisciplina e acusado de arquitetar planos para desestabilizar o quartel. Talvez seja daí que vem o que vem agora: ele não seria o primeiro a tentar lavar o sentimento de fracasso com o que os psicólogos chamam de supercompensação (mas não tenho certeza de que Bolsonaro tenha lido Alfred Adler). As atitudes do homem despertam a nostalgia de homens fracos (aqueles que sentem necessidade de tirar fotos fetichistas com seus fuzis, por exemplo). De qualquer forma, tudo isso é uma questão de nichos: nada explica adequadamente por que 49% do país votou nele. O que acontece depois?

De maneiras que talvez não sejam óbvias, mas que estão se infiltrando, Bolsonaro colocou boa parte de seus eleitores em autodefesa. Ele é, sempre foi, um agitador social, um hábil manipulador do ressentimento e do ódio, e esse aspecto não é diferente: liberou o porte de armas; suas redes sociais elogiam os armados. Esse é o mundo selvagem em que Bolsonaro se move, temperado com o medo dos cidadãos em cidades que estão entre as mais inseguras do continente, e seu talento tem sido transmitir aos eleitores a convicção de que estão ameaçados. Nada poderia ser mais fácil nestes tempos, em que a política não vem mais de cima, por assim dizer, mas circula entre nós, se faz entre nós (com as mentiras que compartilhamos, com as mensagens que circulamos, com a facilidade assustadora com isso desejamos a destruição ou extermínio do outro). Tudo isso foi explorado por Bolsonaro. Ironicamente, a ameaça mais real que o Brasil experimentou durante seu mandato, a do novo coronavírus, foi desprezada e negligenciada – vai passar, disse Bolsonaro, como uma gravidez de mulher – e o resultado foram milhares de vítimas que poderiam ter sido salvas.

Sua capacidade de dividir e confrontar, de cultivar provocações e agressões verbais, encontrou terreno fértil em nossas guerras culturais. A esquerda, ateus, minorias sexuais: o inimigo é claro e passa pela religião, ou para convencer os fiéis de que sua fé está em perigo. Em um país conservador onde as igrejas evangélicas têm enorme influência, basta acusar o candidato de falar com o diabo para tê-lo por trás, como Bolsonaro fez com Lula. Como em casos semelhantes, quem mente primeiro e mais escandalosamente domina a conversa pública. É a grande lição, ou uma das grandes lições, que Bolsonaro aprendeu com Trump: e ele a copiou conscientemente. Não surpreende, porque Bolsonaro se olha em Trump como um espelho; são dois malandros com passados medíocres, que compartilham uma visão de mundo digna de um valentão adolescente e uma incapacidade patológica de não fazer o mal quando podem.

(Eles também são parecidos em uma outra coisa: o fracasso de sua reeleição, que é tão incomum em um país quanto em outro, e sua recusa em aceitá-la.)

Bolsonaro também copiou os caminhos e as estratégias de Trump, e isso nem é o mais grave: o mais grave é que outros possam copiá-lo. Sua derrota pode retardar ou desencorajar esse efeito mimético. Embora talvez isso seja uma ilusão. De qualquer forma, a verdade óbvia é que as duas figuras são tão parecidas quanto seus eleitores, ou uma grande parte deles. Tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, são cidadãos que se sentem ameaçados; tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, são cidadãos que se alimentam quase que exclusivamente nas redes sociais; tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, vivem em uma realidade que se afasta ligeiramente ou francamente da realidade verificável.

E esse talvez seja o maior dos desafios que Lula enfrenta: como governar para uma parte da cidadania que não está vendo a mesma realidade que o Governo? Ele já fez a mesma coisa que Biden fez na época: prometeu que governaria para todos, que uniria sua sociedade dividida. Estas são as palavras esperadas de um presidente, é claro. E, no entanto, assim que escrevo esta última frase, me pergunto se é verdade. Talvez não: talvez sejam as palavras que antes esperávamos dos presidentes do passado. Chamados à unidade, à harmonia, à tolerância? E então, quem vai nos ameaçar?

Remover as raízes do fascismo

A reconquista da democracia, processo aberto com a vitória da ampla frente política em torno da candidatura Lula-Alkmin, afirma-se a cada dia em que pese a sedição de setores da categoria dos caminhoneiros que ocuparam as estradas em rebelião ao resultado das urnas, vociferando em favor de uma intervenção militar. A essa altura, já se faz patente o caráter metodicamente concertado desse movimento sedicioso, que as hostes bolsonaristas tinham como sua bala de prata a fim de promover o tumulto e o caos com que justificariam o golpe nas instituições que urdiam.


Por falta de apoio político e sustentação militar, a conspiração resultou em mais uma tentativa frustrada no histórico golpista de Bolsonaro, obrigado, mais uma vez, a desfazer a sedição que inspirou, solicitando aos caminhoneiros de sua grei o abandono das estradas e o retorno às suas rotinas, vários deles ao alcance dos rigores da lei. A derrota dessa descabelada incursão antidemocrática tem o condão de alertar para os riscos que a nossa democracia terá pela frente em sua imposição – as sementes perversas do autoritarismo adubadas em quatro anos pela pregação fascitizante encontraram terreno para frutificarem, como se viu no processo eleitoral e agora nessa rebelião.

O horizonte que se revela para o governo Lula-Alkmin, diante dessa cultura antidemocrática que germinou entre nós, reclama por ações ainda mais inventivas e audaciosas do que as mobilizadas na vitoriosa disputa eleitoral. Nesse objetivo, o raio de ação da frente política a dar sustentação ao governo deve sondar, sem qualquer limitação, todas as possibilidades de expandir seu âmbito no sentido de incorporar todo aquele que recuse o fascismo como ideologia política. Nesse sentido, o agrupamento político conhecido como o Centrão e demais forças representativas do conservadorismo brasileiro, inclusive as que na disputa eleitoral se alinharam à candidatura Bolsonaro, devem ser objeto de interpelações em pautas específicas por parte do governo democrático.

O fascismo conta com raízes históricas em nosso país, ora presente em partidos e movimentos sociais como nos anos 1930 com o integralismo que atraiu amplos setores das camadas médias, intelectuais e militares, ora como ideologia encapuzada do Estado, tal como na constituição de 1937 que baniu os partidos políticos e jurou de morte os ideais liberais subscrevendo os argumentos de Karl Schmitt, ideólogo do nazismo de Hitler, inspiração do então ministro da Justiça Francisco Campos, autor daquele famigerado texto.

Essa constituição liberticida foi revogada com a deposição de Vargas, porém muitas das suas disposições ganharam sobrevida na Carta de 1946, em particular sua legislação sindical que não só crimilizava as greves como punha sob tutela do Estado a vida associativa dos trabalhadores, em franca importação da Carta del Lavoro do fascismo italiano. A constituição democrática de 1988, embora tenha expurgado disposições autoritárias dessa legislação, manteve vínculos que ainda preservam os sindicatos na órbita do Estado, comprometendo sua plena autonomia.

Sobretudo, as raízes mais fundas do nosso autoritarismo derivam do processo de modernização que aqui teve curso a partir de 1930 operada, desde Vargas, no sentido de compatibilizar as velhas elites agrárias com as emergentes originárias da industrialização. Exemplar gritante disso o fato de se manter os trabalhadores do mundo agrário à margem do sistema de proteção criado pela legislação trabalhista. Tal como na Itália e na Alemanha, que passaram por regimes políticos fascistas depois de processos de modernização conservadora em meados do século XIX, os diferentes surtos brasileiros de modernização, como nos anos 30 e nos anos 60, importaram no fortalecimento dos nexos entre as elites empresariais e as do empresariado industrial, de que é fruto o moderno agronegócio. A modernização impediu nossa passagem ao moderno.

No caso brasileiro, tal processo de conservação do poder das elites agrárias se manifestou igualmente no processo do abolicionismo, em que pese a pregação de suas principais lideranças, como André Rebouças e Joaquim Nabuco, em favor de uma distribuição de terras aos emancipados da escravidão. A abolição passou ao largo da questão fundiária com o que se frustrou o primeiro movimento de formação de uma opinião pública efetivamente nacional.

Remover raízes tão fundas leva tempo e exige coragem, sabedoria e prudência, virtudes presentes nos articuladores, Lula à frente, que souberam nos levar à vitória sobre as hostes fascistas na sucessão presidencial. O mesmo caminho deve guiar o nascente governo democrático, pautando cada passo no sentido de devolver ao país os rumos de que fomos desviados em busca do reencontro com os ideais civilizatórios de que um governo criminal tentou nos afastar.

Como ficam os militares depois da vitória de Lula

Os militares conquistaram acesso privilegiado ao poder durante o governo Jair Bolsonaro, com reflexos na definição de políticas públicas e nos rendimentos da categoria, e exerceram um grau de influência na esfera civil do país como não ocorria desde o fim da ditadura militar.

A ascendência da caserna sobre a política deverá ser reduzida com a posse do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva, mas tem raízes históricas no país e ela deve seguir à espreita de uma nova crise grave para retomar a busca por protagonismo, avaliam especialistas.

Durante a gestão de Bolsonaro – um capitão reformado do Exército – os militares comandaram órgãos relevantes do governo, como Casa Civil, Secretaria-Geral da Presidência, Saúde e Infraestrutura, entre outros. E ocuparam centenas – ou milhares, a depender da metodologia – de outros cargos no governo.

O jornalista Fabio Victor, autor do livro recém-lançado "Poder camuflado: Os militares e a política, do fim da ditadura à aliança com Bolsonaro", editado pela Companhia das Letras, compilou levantamentos que buscaram medir o número de militares que ocuparam a gestão pública federal.

O Tribunal de Contas da União (TCU) identificou em 2020 6.157 militares exercendo funções civis na administração pública federal, um aumento de 102,2% em relação aos 2.957 de 2016 – incluindo 1.969 militares inativos contratados para funções temporárias no INSS, além de 1.249 acumulando cargos na saúde e 179 na educação.

Outro levantamento realizado pela Lagom Data para o livro de Victor identificou mais de 5 mil militares em cargos civis no final de 2021, alta de 43% em relação aos 3.500 no final do governo Dilma Rousseff. Considerando apenas os mais altos postos comissionados da administração federal – a elite do funcionalismo – 186 diferentes militares da ativa e da reserva ocuparam esses cargos ao longo do governo Dilma, e 717 no governo Bolsonaro até dezembro de 2021, alta de 285% – dos quais apenas um em cada cinco estava em pastas tradicionalmente ligadas à caserna.

O sociólogo João Roberto Martins Filho, professor da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), especialista em Forças Armadas e ex-presidente da Associação Brasileira de Estudos de Defesa, afirma à DW que os militares participaram do governo Bolsonaro "do começo ao fim" e "não fizeram nenhuma sinalização de distanciamento".

Uma atuação destacada das Forças Armadas a serviço do governo Bolsonaro ocorreu no processo de organização das eleições deste ano. Os militares foram convidados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a participarem da Comissão de Transparência das Eleições, e usaram o espaço para semear dúvidas sobre a urna eletrônica e fazer exigências à Corte alinhadas ao interesse do presidente de questionar a lisura do processo eleitoral.


"Bolsonaro e seu ministro da Defesa, que se revelou um bolsonarista de quatro costados tão logo trocou a farda pelo paletó, aproveitaram [o convite do TSE] para politizar ainda mais uma questão que não diz respeito aos militares e ampliaram a confusão entre política e caserna", afirma Victor.

Uma diferença crucial entre a atuação dos militares durante o próximo governo Lula e como eles agiram nas gestões anteriores do PT é que agora sabe-se com mais clareza o que a caserna pensa e como ela age para ocupar espaços, diz Martins Filho – como se as máscaras tivessem caído durante o governo Bolsonaro.

Ele cita um documento lançado em maio pelos institutos General Villas Bôas, Sagres e Federalista, intitulado Projeto de Nação e com propostas para o Brasil até 2035, em uma cerimônia com a presença do general Hamilton Mourão, vice-presidente da República, que "representa bem" o que pensa o meio militar.

No documento, há críticas à suposta "ideologização radical no ensino" e à atuação do Judiciário e do Ministério Público "sob um prisma exclusivamente ideológico, reinterpretando e agredindo o arcabouço legal vigente, a começar pela Constituição".

Outro registro do pensamento militar é uma carta do general Villas Bôas, ex-comandante do Exército, divulgada no final de semana do segundo turno, que afirmava que a eleição de Lula levaria à "destruição do civismo e ridicularizarão do patriotismo e dos símbolos nacionais", "desrespeito à Constituição" e "desmontagem das estruturas produtivas que tão arduamente foram recuperadas".

"Parece uma série de devaneios, mas representam bem o que pensa o militar médio", diz Martins Filho. Ele afirma que os militares "não perdoam" o Judiciário por ter anulado as condenações de Lula e, como resultado, permitido que o petista concorresse à eleição.

Nesta quinta-feira (03/11), Mourão expressou esse sentimento em um post no Twitter, no qual reclamou que a população aceitou "passivamente" a "escandalosa manobra jurídica" que anulou as condenações do petista.

Victor também identifica que a crítica ao Judiciário é um elemento comum no meio militar hoje. "Grande parte dos militares concorda com aspectos do bolsonarismo e faz eco a questões como a crítica ao papel do Supremo e do TSE. Acham que o Judiciário se intrometeu demais, e isso tensiona relações entre o poder civil e a caserna."

A campanha de Lula ao Planalto falou poucas vezes sobre o que planeja fazer em relação aos militares. Há nas suas diretrizes de governo apenas uma curta menção às Forças Armadas, afirmando que elas "atuarão na defesa do território nacional, do espaço aéreo e do mar territorial, cumprindo estritamente o que está definido pela Constituição".

Martins Filho avalia que a escassez de detalhes de Lula sobre como pretende lidar com as Forças Armadas é uma estratégia deliberada para não dar sinais de fraqueza ou de enfrentamento, e indica que ele "perdeu as ilusões" de que seria possível conquistar os militares destinando fartos recursos para seus projetos – como tentou fazer no seu primeiro governo.

O professor da Ufscar cita que o ex-chanceler e ex-ministro da Defesa Celso Amorim também declarou em entrevistas ter ficado atônito ao perceber que muitos militares haviam ludibriado o governo petista, para conquistar promoções na carreira, e depois mostraram-se bolsonaristas.

Uma das medidas consideradas certas no próximo governo Lula é a redução do número de militares exercendo cargos civis na administração pública federal, o que irá provocar perda de rendimento para os afetados – que hoje acumulam o soldo militar às gratificações de suas funções no governo.

Martins Filho também projeta que a gestão Lula evitará declarar novas operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), que foram usadas nos governos anteriores do PT para designar as Forças Armadas como responsáveis pela segurança de eventos como a Rio+20 em 2012, as visitas do Papa Francisco em 2012 e 2013 e a Copa do Mundo de 2014. Uma alternativa civil seria designar a Polícia Federal para essa função.

"Segundo o modus operandi desses generais, toda vez que você dá um cargo importante para eles procurando agradar, apaziguar, você os acaba empoderando", diz Martins Filho.

Ele diz que outro caso que ampliou o poder e prestígio dos militares durante os governos do PT foi a participação do Brasil na Missão da Nações Unidas para Estabilização do Haiti, que foi comandada por um período pelo general Augusto Heleno, atualmente braço direito de Bolsonaro e ministro do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República. O ex-ministro da Infraestrutura de Bolsonaro e governador eleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas, também atuou no Haiti.

Ele prevê ainda a destinação de poucos recursos para projetos militares muito custosos, devido à desconfiança mútua com o novo governo e às restrições orçamentárias previstas para os próximos anos.

Por outro lado, o governo Lula não deve promover punições aos militares que atuaram no governo Bolsonaro, diz Martins Filho. Victor tem avaliação semelhante: "Pelo histórico dos dois governos de Lula e pelo perfil conciliador do presidente eleito, creio que ele vai se esforçar para evitar revanchismos."

Em relação ao comando do Ministério da Defesa, Victor diz ser "seguro" que Lula nomeará um civil para o comando da pasta, uma prática iniciada em 1999, no segundo governo Fernando Henrique Cardoso, que simbolizou a submissão das Forças Armadas ao poder civil, e interrompida no governo Michel Temer, com a nomeação do general Joaquim Silva e Luna em 2018.

Ele afirma que Aldo Rebelo, que comandou a Defesa de outubro de 2015 a maio de 2016, quando Dilma foi afastada do cargo no seu processo de impeachment, é "benquisto" entre os militares, mas não deverá ter apoio do PT para voltar ao cargo "a menos que Lula resolva bancá-lo". Ele menciona que os deputados petistas Carlos Zarattini e Arlindo Chinaglia, ambos de São Paulo, têm "algum trânsito" na caserna, e que o nome do vice-presidente eleito, Geraldo Alckmin, também tem sido ventilado.

Victor pontua que um desafio do novo governo Lula será lidar com a pressão de setores mais à esquerda por mudanças em temas tidos pelos militares como "intocáveis", como a Lei da Anistia, os currículos das escolas militares e o sistema de promoção de oficiais-generais. "Mas creio que deve prevalecer a natureza de Lula pela conciliação."

Pelo menos no início do governo Lula, a perspectiva é de pouca resistência pública dos militares da ativa em relação ao novo presidente. Um dos motivos é o pragmatismo daqueles que hoje são coronéis e desejam chegar ao posto de general, uma promoção que depende de alguma articulação política, diz Martins Filho.

Além disso, os militares buscarão manter um canal aberto com Lula para pleitear verbas para as Forças Armadas. "Eles não poderão agir como uma força bolsonarista, pois é o governo central que tem o dinheiro e esse confronto direto não seria bom para eles", afirma Martins Filho. Mas tampouco haverá uma efetiva aproximação. "A incompatibilidade de gênios é muito grande entre o presidente da República eleito e os militares."

Martins Filho avalia que o cenário mais provável é os militares recuarem para uma posição mais discreta a partir da posse de Lula. "O problema é que agora nós sabemos o que eles pensam e como eles agem, e é completamente diferente do que pensa a frente democrática. Será uma relação difícil", diz, sublinhando o risco de que, caso Lula enfrente alguma crise grave, os militares "voltarão com tudo" para a seara política com a narrativa de que são instituições a serviço do povo.

quarta-feira, 2 de novembro de 2022

Pensamento do Dia

 


'Pombo' quer confusão


Lidar com determinadas pessoas é que nem jogar xadrez com pombo. O pombo vai voar, derrubar as peças, defecar no tabuleiro, só quer saber de confusão
Gilmar Mendes, ministro do Supremo Tribunal Federal

Bolsonaro perdeu o primeiro, o segundo, e agora o terceiro turno

É só para quem pode, não é para quem quer. Bolsonaro perdeu o primeiro turno, perdeu o segundo e agora perdeu o terceiro. Não foi escolha dele perder o primeiro e o segundo – a culpa é do povo, que preferiu eleger Lula. Mas foi sua escolha perder o terceiro.

“Acabou”, ele admitiu em conversa com oito ministros do Supremo Tribunal Federal. Bolsonaro os convidara para assistir ao seu pronunciamento no Palácio da Alvorada, o primeiro depois da derrota. Os ministros recusaram o convite. Foram sábios.


Foi a fala oficial mais curta do presidente que estava em silêncio há 45 horas. E Bolsonaro só a fez porque seu isolamento era crescente. No último domingo, ao não cumprimentar Lula pela vitória, Bolsonaro deu a senha para que fosse abandonado, e foi.

Os presidentes do Senado e da Câmara dos Deputados foram os primeiros a largá-lo de mão. Governadores eleitos, mesmo aliados dele, fingiram que nada aconteceu e tocaram suas vidas. Os chefes de partidos políticos já estavam em outra. Bolsonaro indignou-se.

Fora traído, berrou em mais de uma ocasião. Deixou de atender telefonemas. Mandou apagar mais cedo as luzes do Alvorada, e foi lamber suas feridas. Faltou ao trabalho na segunda-feira, mas até aí nada demais: ele não gosta de trabalhar. E, por canais ocultos…

Por eles, direta ou indiretamente, estimulou sua tropa de choque a ir para as ruas, bloquear estradas e tocar fogo em pneus. O país assistiu a cenas impagáveis. Talvez a mais impagável: bolsonaristas amotinados em Porto Alegre celebrando a anulação das eleições.

Os ministros do Supremo não acharam a menor graça no que viram: em menos de duas horas, formou-se, ali, maioria para avalizar a decisão de Alexandre de Moraes que ordenara à polícia o desbloqueio das estradas e a dispersão dos manifestantes.

Em seguida, passaram a pressionar Bolsonaro para que dissesse que respeitaria a Constituição. Ele disse, mas de má vontade. Não reconheceu a derrota, porém. E como não reconheceu, seus devotos sentem-se autorizados a continuar nas ruas.

Anderson Torres, da Justiça, foi o único ministro a aliar-se incondicionalmente a Bolsonaro: faz corpo mole, simula obedecer à decisão do Supremo, mas evita o uso da força para desbloquear as estradas. Esse idiota e mau servidor aposta no quê? No golpe?

Contra o golpe bolsonarista, basta convocar a Gaviões da Fiel e a Galoucura do Atlético Mineiro. As duas torcidas puseram a correr bolsonaristas que promoviam arruaças em São Paulo e na estrada que liga São Paulo a Minas. Futebol é coisa séria. Golpe, não é.

O dia da derrota de Bolsonaro no terceiro turno terminou com um carão à moda da toga. A convite dos ministros, ele foi ao prédio do Supremo reunir-se com eles. Por pouco, não lhe esfregaram na cara um exemplar da Constituição. Presentearam-no com um.

A maior vocação autocrata que o país conheceu desde o fim da ditadura vai embora tarde. E à saída, como os pombos, emporcalha tudo o que deixa para trás. O que não faria se fosse reeleito? Como disse Francisco, o Papa é argentino, mas Deus é brasileiro.

A "canarinha" virou arma política

A camisola nacional de futebol brasileira é uma daquelas camisas icónicas e imediatamente reconhecíveis em todo o mundo. Uma que ao longo da história do futebol tem inspirado tanto medo como admiração.

Poderia provavelmente perguntar a qualquer pessoa, em qualquer parte do mundo, fã de futebol ou não, de que país é essa camisola - e a maioria não pensaria duas vezes.

Usada por jogadores como Pelé (ou o rei como ele é referido no seu país), Garrincha, Sócrates, Zico, Ronaldo, Ronaldinho, entre tantos outros. O poder da camisa de futebol do Brasil é inegável. A nível mundial.

Um símbolo de orgulho num país dividido por profundas desigualdades sociais, um uniforme que em tempos representou um vasto país de 200 milhões de pessoas, uma nação obcecada com o desporto. Sim, os brasileiros também se destacam em coisas como o voleibol e o judo nos Jogos Olímpicos, e tiveram Ayrton Senna como lenda da Fórmula 1, mas é o futebol que os une verdadeiramente, dos mais pobres aos mais ricos.

Tradicionalmente durante os campeonatos mundiais, quando o Brasil joga, o país chega normalmente a um impasse quase completo. Quando eles organizaram a copa em 2014, os feriados nacionais foram declarados sempre que o país estava em campo.

E o Brasil continua a ser a única equipa do planeta a ter ganho CINCO copas do mundo, apesar de ter perdido as últimas.

Mas recentemente, essa mesma venerada camisola de futebol entrou na arena política de formas nunca antes vistas.

O Presidente Jair Bolsonaro conseguiu associar a sua própria personalidade política e a sua candidatura a um segundo mandato à amada camisola de uma forma muito eficaz.

Em comícios e manifestações políticas, os seus seguidores embrulham-se em bandeiras brasileiras e a maioria deles usam a majestosa camisa de futebol.

O próprio líder brasileiro veste a roupa com frequência, em eventos oficiais e não oficiais. Um dos seus maiores apoiantes, um homem de negócios de nome Luciano Hang, dono de uma enorme cadeia de lojas de departamento, veste publicamente um fato verde e amarelo completo quando está na presença de Bolsonaro.


Assim, Jair Bolsonaro e os seus associados ligaram nos últimos anos o Bolsonarismo aos símbolos nacionais do Brasil, tornando quase impossível para as pessoas distinguir agora o emblemático uniforme de futebol, com todo o seu simbolismo, da última campanha política do líder.

Nas ruas do Brasil de hoje, vestir o canarinho - um apelido histórico e afectuoso dado pelos brasileiros à sua própria camisola de futebol - tornou-se um acto político.

Basta ver algumas das imagens do último Dia da Independência, que em 2022 marcou 200 anos desde o fim da monarquia portuguesa no país, e verá como se tornou problemático para os não seguidores do Presidente Bolsonaro vestir o artigo.

Durante as comemorações de Setembro passado, o Presidente Bolsonaro foi acusado pelos seus críticos de realizar comícios políticos ao lado das suas funções oficiais em cerimónias realizadas tanto na capital Brasília como no Rio de Janeiro. E a cor escolhida pelos milhares de pessoas que assistiram aos comícios? Amarelo e verde. E o que foi usado pela maioria dos seus seguidores nestes eventos políticos? Adivinhou-o.

Uma pesquisa rápida nos meios de comunicação social prova quão divisória e intensa a política se tem tornado no Brasil nos últimos anos. Os apoiantes de Luis Inácio Lula da Silva, rival de Bolsonaro, usam vermelho, a cor do partido do Trabalhador, que ele representa. Os adeptos de Jair Bolsonaro usam verde e amarelo, e na maioria dos casos a camisola da seleçcão brasileira.

Recentemente uma das maiores estrelas mundiais do futebol, Neymar, que joga pelo Paris Saint-Germain e também pela selecção brasileira, e que tem vivido efectivamente na Europa durante a última década, declarou o seu apoio incondicional a Jair Bolsonaro, participando mesmo numa das famosas transmissões ao vivo do presidente na internet.

A campanha de Bolsonaro marcou um golo ao associar o seu candidato a um dos maiores jogadores actualmente na selecção nacional. Alguns questionaram as motivações de Neymar para uma tal demonstração pública de lealdade para com o político.

Durante uma entrevista, Lula foi rapidamente a insinuar que Bolsonaro tinha "perdoado" algumas das dívidas fiscais do jogador ao país. Neymar está actualmente a ser acusado de evasão fiscal em Espanha, onde tinha jogado antes de se mudar para França. O caso está em curso.

Outros atribuem o caso ao apoio de Bolsonaro a Neymar quando o jogador de futebol foi acusado de violação num hotel de Paris por uma modelo brasileira em 2019. O caso foi arquivado pelas autoridades brasileiras por falta de provas, e a reclamante foi mais tarde acusado de extorsão pelo pai de Neymar.

Mas a associação de um partido político, e do seu candidato presidencial, com a camisa memorável, tomou proporções nunca antes vistas no "país do futebol", pois assim os brasileiros referem-se à sua própria pátria.

A bandeira do país e as cores nacionais estão agora também a ser utilizadas como ferramentas para meios políticos pelo candidato em exercício. É definitivamente mais um golo da equipa de publicitários de Bolsonaro, mas um que deixa em aberto uma série de questões.

Onde ficam os milhões de eleitores que não apoiam o Bolsonaro e as suas políticas? Pode uma pessoa no Brasil hoje, independentemente da sua inclinação política, ir às lojas com a camisola da selecção nacional, sem medo de ser questionada ou mesmo intimidada por um apoiante de Lula?

Se alguém com a mesma camisa fosse declarar em público que não apoia o Presidente Bolsonaro, como reagiriam as outras pessoas?

Alguns fanáticos brasileiros foram acusados de extremismo político e violência mortal.

Em Agosto, Marcelo Arruda, que trabalhava como tesoureiro para a o Partido dos Trabalhadores local, no estado do Paraná, e um apoiante declarado de Lula, celebrava o seu 50º aniversário numa festa privada em que o tema era Lula. Alguns convidados usavam vermelho, o jingle da festa do trabalhador era tocado. A cara do famoso ex-presidente foi impressa no bolo de aniversário.

Não convidado e desconhecido da família, Jorge Rocha Garanho, invadiu com slogans associados ao Bolsonaro, a festa de aniversário. Desafiado, partiu, mas mais tarde regressou e matou a tiro o Sr. Arruda à queima-roupa, em frente da sua família e amigos que se tinham reunido para a celebração do aniversário.

Mais tarde, um juiz declarou o crime como sendo de motivação política e o assassino, que também foi baleado durante a "festa" mas sobreviveu, está actualmente preso.

No início deste mês ocorreu outro crime fatal. Um apoiante de Lula apunhalou o seu próprio amigo oito vezes durante uma luta na região costeira de São Paulo.

A vítima, José Roberto Gomes Mendes, um apoiante de Bolsonaro, estava a usar uma T-shirt com a cara do presidente impressa quando o ataque ocorreu. Mais tarde, ele morreu. O assassino, Luiz Antonio Ferreira da Silva, alegou autodefesa e confessou que tinha havido uma altercação sobre opiniões políticas.

Portanto, a questão principal agora é: será que um dia, quando toda esta divisão política acabar, e temos de acreditar que acabará eventualmente, será que TODOS os brasileiros serão capazes de reclamar a sua célebre camisa do futebol nacional e parar literalmente de se matarem uns aos outros?

Desordem é indignação?


Os atuais movimentos populares são fruto de indignação e sentimento de injustiça de como se deu o processo eleitoral
Jair Bolsonaro



Golpista sendo golpista

De onde menos se espera, daí é que não sai nada, diria Apparício Torelly, o "barão de Itararé". Quase dois dias após ser derrotado nas urnas, Jair Bolsonaro deixou milhões de brasileiros e dezenas de profissionais da imprensa plantados, à espera do projeto de ditador finalmente reconhecer o resultado das eleições. Tolinhos — e eu me incluo nesse bonde.

Havia um tiquinho de esperança de que houvesse algum resquício de civilidade. O que tivemos foi mais do mesmo: golpista sendo golpista. Agradeceu aos votos dos eleitores, ignorou, como sempre fez, a outra metade do país para quem ele fez questão de não governar, e aproveitou o holofote para atiçar a militância.


"Os atuais movimentos populares são fruto de indignação e sentimento de injustiça de como se deu o processo eleitoral." Tão direito como só um covarde consegue ser, deu a entender que não foi uma eleição limpa. Recorro ao "barão de Itararé", novamente: "não é triste mudar de ideias, triste é não ter ideias para mudar".

Jair Bolsonaro seria um prato cheio para o "barão" que de nobre tinha apenas o texto afiado, o deboche, o humor anárquico. Jornalista e escritor, Torelly não perdoava políticos, intelectuais, ricos e pobres. Deixou uma lista enorme de frases impagáveis que conversam com o nosso século e com a crônica política atual, embora uma delas tenha ficado datada. "O voto deve ser rigorosamente secreto. Só assim, afinal, o eleitor não terá vergonha de votar no seu candidato."

Sorte de o "barão" não ter conhecido o eleitor bolsonarista-raiz que não apenas se orgulha, como tem passado os últimos dias defendendo arruaça, fechamento de estradas e acredita que o país vai parar para defender o indefensável: golpe militar. "Sábio é o homem que chega a ter consciência da sua ignorância", diria o barão. Mas isso é mais difícil para o bolsonarismo e para Jair Bolsonaro do que reconhecer a derrota.

terça-feira, 1 de novembro de 2022

Por qual das portas do Palácio do Planalto ele pretende ir embora?

Bolsonaro foi uma doença, que por mais grave que parecesse acabaria passando. Entrará para a história como o único presidente do Brasil que até aqui não conseguiu se reeleger. E como o pior presidente da história desde o fim da ditadura.

Tão logo sua derrota se desenhou, trancou-se no Palácio da Alvorada e não recebeu ninguém – nem os ministros mais chegados, nem seu candidato a vice, o general Braga Neto. No domingo, acordara convencido de que seria reeleito.

Não se preparou para a eventualidade de perder. Perdeu para Lula, que governará o país pela terceira vez e à sombra de quem transcorreu todas as eleições presidenciais de 1989 para cá; mas perdeu sobretudo para si mesmo. Abusou de errar.


O maior adversário de Bolsonaro foi Bolsonaro. Natural que fosse. No início de 2018, quem diria que aquele deputado federal do baixo clero, que nunca aprovou um projeto na Câmara, parasita dos militares que queriam distância dele, se elegeria presidente?

Ele estava cansado da sua desimportância e planejava desfrutar o resto da vida na companhia de Michelle e de Laura, a filha que nascera “de uma fraquejada”. Concorrendo à presidência, impulsionaria a carreira política dos filhos e iria descansar.

Era o que lhe bastaria. De repente, ao acordar da operação que em Juiz de Fora salvou sua vida, deu-se conta de que seria eleito. “Agora, é só administrar”, murmurou ainda sob efeito da sedação. Teve uma crise de choro no dia em que se elegeu e ficou em casa.

Não teria o que dizer às dezenas de jornalistas brasileiros e estrangeiros reunidos para ouvi-lo em um hotel da Barra da Tijuca. Precisava acostumar-se à ideia de que governaria o país por quatro anos sem dispor de um plano, nem de mínimas condições para tal.

Quando acordar hoje, terá de fazer uma escolha que definirá seu futuro: reconhecer ou não a derrota. Se reconhecer e facilitar a transição para o próximo governo, poderá sonhar, pelo menos sonhar, em liderar a oposição ou parte dela de olho em 2026.

Se não reconhecer, se disser que a eleição foi fraudada, seu destino será a lata do lixo. Quem o apoiaria na aventura de tentar melar as eleições? Os militares? Esqueçam. Eles choram a derrota que também foi deles, mas em breve baterão continência para Lula.

O Centrão? Piada. O Centrão já está em outra. Não jogará fora das “quatro linhas da Constituição” porque só ganha jogando dentro. Lembrem-se: em 1964, a maioria dos políticos acreditava que a ditadura seria algo fugaz. Não foi. Durou 21 anos.

Em 1961, ao renunciar à presidência com apenas seis meses no cargo, Jânio Quadros voou a São Paulo carregando a faixa que recebera de Juscelino Kubistchek e que enfeitou o peito de todos que o antecederam. Jânio imaginou voltar nos braços do povo.

Teve que devolver a faixa que, mais tarde, enfeitaria o peito dos generais que o sucederam na presidência. O último deles foi João Baptista de Oliveira Figueiredo, um oficial da Cavalaria, que ao saber que passaria a faixa a José Sarney, negou-se.

Figueiredo poderia ser melhor lembrado pela história, afinal deu continuidade à política de abertura política inaugurada pelo general Ernesto Geisel, concedeu a anistia aos exilados e presos políticos e resignou-se a ir embora – mas, não.

O general é lembrado por ter saído do Palácio do Planalto pelas portas do fundo para não cruzar com Sarney. Na verdade, foi por uma porta lateral, mas a história é impiedosa. Figueiredo não acabou no Irajá, mas na Barra da Tijuca a mendigar atenção.

Bolsonaro tem casa em um condomínio na Barra da Tijuca. E sempre terá Fabrício Queiroz, o administrador da rachadinha dos filhos Zero, para pescar com ele. Queiroz candidatou-se a deputado federal pelo Rio e perdeu. Serão dois sem mandato.

Pensamento do Dia

 


Protesto de caminhoneiros ressalta a importância do segundo turno

As manifestações de caminhoneiros, ontem, com bloqueios de estradas em 16 estados, em protesto contra a vitória do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva, no domingo, não são propriamente uma surpresa; são ações planejadas por uma extrema direita golpista, que sempre procurou desacreditar as urnas eletrônicas e trabalhou para construir um cenário de deslegitimação do resultado das eleições, caso o presidente Jair Bolsonaro fosse derrotado. Entretanto, é um movimento que não tem a menor chance de dar certo.

As lideranças dos caminhoneiros talvez nem saibam, mas estão derrotados desde o 7 de Setembro de 2021, quando ocuparam a Esplanada dos Ministérios e ameaçaram invadir o Supremo Tribunal Federal (STF), furando o bloqueio da Polícia Militar do Distrito Federal. Àquela ocasião, foram insuflados pelas manifestações bolsonaristas de Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo, e pelos ataques de Bolsonaro às urnas eletrônicas. A reação das instituições e da sociedade foi inequívoca: não haveria apoio suficiente para impedir que as eleições deste ano fossem realizadas, com a utilização do sistema de urna eletrônica, nem que o ex-presidente Lula fosse candidato.

Todas as tentativas de tumultuar o processo eleitoral e desacreditá-lo, desde então, foram frustradas. Em todos os momentos em que Bolsonaro atacou a Justiça Eleitoral e, principalmente, o seu presidente, ministro Alexandre de Moraes, houve fortes reações das lideranças políticas e das instituições democráticas, que culminaram no manifesto lançado em 25 de agosto passado, por estudantes e professores da tradicional Faculdade de Direito do Largo do São Francisco (USP), que teve o papel de grande divisor de águas entre os setores democráticos da sociedade e aqueles que apostavam numa aventura autoritária, com a qual Bolsonaro acabou identificado.

Esse divisor de águas está tendo um papel decisivo no reconhecimento do resultado das eleições de domingo. A estreita vantagem numérica de Lula, ao obter 60.345.999 votos (50,9% dos votos válidos), contra 58.206.354 votos (49,1% dos votos válidos) de Bolsonaro, não reflete a dimensão do apoio que o resultado da eleição obteve imediatamente após o encerramento da apuração. A vitória de Lula foi reconhecida pelos presidentes da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG); pelo governador eleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos); e pelo presidente do PL, Valdemar da Costa Neto. Seus principais aliados afastam qualquer possibilidade de uma reação golpista.

O reconhecimento internacional ao resultado das eleições, entre os quais destacam-se a rapidez com que o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, e o presidente francês, Emmanuel Macron, saudaram a vitória de Lula, e o acompanhamento em tempo real do pleito pela mídia internacional são outra barreira a eventuais intenções golpistas. Mas o que realmente torna inequívoca a vitória do petista é o fato de termos uma eleição em dois turnos, desde a Constituição de 1988, uma sábia decisão dos constituintes, tomada com base na nossa história política.

Getúlio Vargas voltou ao poder em 1950 numa eleição consagradora, com 48,83% dos votos, o que não impediu que seu mandato fosse confrontado até a crise de agosto de 1954, quando se matou, embora seu principal adversário, Eduardo Gomes, tivesse obtido apenas 29,66% dos votos. É famosa a frase de Carlos Lacerda, o líder da UDN: “O sr. Getúlio Vargas, senador, não deve ser candidato à Presidência. Candidato, não deve ser eleito. Eleito, não deve tomar posse. Empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de governar”. Os setores que contestam o resultado da eleição repetem exatamente o mesmo raciocínio, porém, nenhuma liderança política de expressão da base governista defende essa posição.

Juscelino Kubitschek, o construtor de Brasília, foi um grande presidente da República, mas sua posse também foi contestada. Fora eleito com 36% dos votos, seguido por Juarez Távora, que obteve 30%. A UDN passou a defender a deposição de JK. Em 1956, iniciou-se em Jacareacanga-PA um movimento de militares contrários a JK; em 1959, na cidade de Aragarças-GO, ocorreu outro levante militar contra o presidente, reprimido por forças legalistas lideradas pelo marechal Henrique Teixeira Lott.

Caso a eleição fosse em turno único, Lula seria vitorioso com 57.259.504 (48,43%) votos, contra 51.072.345 (43,20%) de Bolsonaro, uma boa vantagem em relação ao atual presidente, mas não a maioria dos votos. O segundo turno foi realizado exatamente para que a maioria fosse inequívoca, como aconteceu. A demora de Bolsonaro para reconhecer a vitória de Lula alimenta especulações e a agitação golpista. Entretanto, ao mesmo tempo, funciona como um fator de desgaste político, que pode resultar numa liderança menor do que aquela que teria, com a grande votação que obteve, se optasse por reconhecer logo o resultado e assumisse o papel de líder da oposição, em bases democráticas.

Fragmentos da comemoração na Avenida Paulista

Caminhar pela Paulista até o MASP foi como aterrissar no coração da democracia. A vitória de Lula fez milhares de pessoas esquecerem o medo de uma vingança dos fascistas que desatariam violências para tentar acabar com a festa. Não apareceram, e a avenida só recepcionou sorrisos e abraços.

A velha militância petista, com seus cabelos grisalhos e os olhos marejados, se misturou a muitos jovens, que exalavam a energia política das próximas décadas. Essa eleição provocou essa nova geração, ao menos a parte dela que não se submete ao racismo, à homofobia e ao machismo.



Assim, os dois sentidos da Paulista foram tomados pela diversidade. Estavam lá também famílias com crianças, todos esperando que Lula subisse no carro de som e os saudasse. Quando seria? A expectativa aumentava o volume do coro, as canções da campanha, “ôôô, o Lula voltou”, as caixas de som berravam “”Tá na hora do Jair já ir embora”. O ainda atual presidente foi lembrando com um carinhoso “Ei Bolsonaro vai toma no cu”.

Desgarrar os símbolos nacionais, como a bandeira e a camisa da seleção da extrema-direita pareceu o primeiro projeto político da avenida. Uma bandeira do Brasil gigante foi estendida, camisas amarelas da Nike pipocavam e pequenas bandeiras de plástico enfrentavam freneticamente o vento. Mas o vermelho prevaleceu. Falando de futebol em ano de copa, Neymar foi reverenciado com xingamentos e uma canção que exaltava sua ex-namorada Bruna Marquezine.

Quando Lula subiu no carro de som, o formigueiro se espremeu e o espaço entre as pessoas sumiu. Os braços levantados empunhavam o “L” e as vozes se fundiram em “Lula, guerreiro, do povo brasileiro”. Voltaram as lembranças de 2002, quando essa mesma avenida se derramou de esperança.

Acompanhado do carisma de Janja, da discrição Geraldo Alckmin (PSD), da lealdade de Fernando Haddad e Gleisi Hoffman, Lula disse que “essa não é uma vitória minha, uma vitória só do PT. É uma vitória de toda nação, de quem resolver liberar o país do autoritarismo”. Agradeceu Simone Tebet mais uma vez.

“A partir de amanhã eu tenho que começar a me preocupar como é que a gente vai governar este país. Eu preciso saber se o presidente que nós derrotamos vai permitir que haja uma transição para que a gente tome conhecimento das coisas”, discursou o novo presidente.

Houve um emocionado minuto de silêncio para as vítimas da pandemia. E enquanto Daniela Mercury cantava, as pessoas começaram a se dispersar. Antes o Hino Nacional foi cantado a plenos pulmões. Perguntei a um vendedor de água, o que ele achava da vitória de Lula: “Pra mim não vai mudar nada, vou continuar trabalhando e morando na rua”.

Domingo foi dia de comemorar. Mas a segunda-feira cinza e chuvosa em São Paulo parece anunciar os enormes desafios e dificuldades que o país e a democracia enfrentarão nos próximos anos.

Acabou o pesadelo!

Acabou! Chega! Depois de muitas fake news, muita gritaria nas redes sociais e de muito medo de pessoas armadas fazendo loucuras, o Brasil se livrou de um incendiário para respirar novamente. O país elegeu um presidente que busca a paz, a pacificação, a volta ao normal.

Parece uma viagem no tempo: vejo as imagens da Avenida Paulista tomada por apoiadores de Lula, festejando sua terceira eleição. Em 2002 e 2006, estive na Paulista para ver a festa das vitórias de Lula. Eram tempos de esperança, de ventos novos e fortes.

Depois, estive nas manifestações de junho de 2013, quando o PT de Dilma começou a perder a rua. E estive em 2015 e 2016, quando a massa verde e amarela pediu a cabeça de Dilma. Ah, também vi o boneco inflável de Bolsonaro na Paulista. Agora o boneco broxou, e o PT retomou a Paulista.


Voltamos para o final do ano de 2010, com o terceiro mandato de Lula. Será? Parece que os anos de 2011 a 2022 foram uma década perdida. E dolorosa demais. As manifestações de 2013, o 7 a 1 de 2014, a tempestade perfeita de 2015 e 2016, os anos Temer, a Lava Jato e a prisão de Lula. E o mandato de Jair Messias, com as florestas queimando, o desprezo pelo coronavírus, a escalada armamentista e as ondas de fake news.

Acordamos agora de um pesadelo? Não, foi tudo real. Quantas experiências horríveis, quanta desgraça, quantas brigas. Mas agora chega. Agora o Brasil volta a ter relações normais com o resto do mundo e consigo mesmo. Espero.

E o Brasil volta a proteger os indígenas e as florestas. Volta a ter uma política para a cultura. Volta a priorizar livros e não armas. Volta a valorizar universidades e não quartéis.

Para isso, o Brasil se livrou da extrema direita, como os Estados Unidos fizeram há dois anos ao eleger Joe Biden. Temos a sorte que os pesadelos acabaram mais cedo do que o previsto. Pois nunca antes um presidente havia perdido a reeleição. Agora perdeu, mesmo abusando da máquina governamental.

Mas, para livrar o país, Lula precisou de mais de 60 milhões de votos. Bolsonaro, por sua vez, juntou mais de 58,2 milhões de votos, uma imensidão. Foi por pouco – 2 milhões de votos – que o Brasil escapou de mais uma tragédia. Imaginem!

Foram os pobres e as mulheres, a maioria deles do Nordeste, que salvaram a democracia brasileira. Não vamos esquecer disso. E não vamos esquecer que é um homem condenado em processos duvidosos e sem provas concretas, que teve que passar 580 dias na prisão, que agora estende a mão para pacificar o país. Isso é de uma grandeza impressionante.

Enquanto isso, do Palácio do Planalto em Brasília, sai um silêncio estarrecedor. Nenhuma palavra, nem a ligação obrigatória para dar os parabéns para o vencedor. Nem para uma saída digna serve. Mas vai acabar logo, no 1º de janeiro o Brasil volta ao normal. Espero que os incendiários larguem os fósforos e baixem as armas. Chega dessa loucura.
Thomas Milz

O golpe de Estado continuado

Neste domingo tornou-se evidente que está em curso um golpe de Estado no Brasil. É um golpe de tipo novo, cujo curso poderá não ser substancialmente afetado pelo resultado das eleições, ainda que a vitória de Lula da Silva certamente afetará o seu ritmo.

É um golpe que começou a ser posto em movimento em 2014 com a contestação dos resultados das eleições presidenciais ganhas pela presidente Dilma Rousseff; prosseguiu com o impeachment da presidente Dilma Rousseff em 2016; com a prisão ilegal do ex-presidente Lula da Silva em 2018 de modo a impedi-lo de concorrer às eleições que foram ganhas pelo presidente Jair Bolsonaro, beneficiário principal do golpe de Estado na sua fase atual.

Com a eleição de Jair Bolsonaro encerrou-se a primeira fase do golpe e iniciou-se uma segunda. Tal como Adolf Hitler em 1932, Jair Bolsonaro tornou claro desde o primeiro momento que se servira da democracia exclusivamente para chegar ao poder e que, uma vez atingido este objetivo, exerceria o poder com o exclusivo objetivo de a destruir. Nesta segunda fase, o golpe assumiu a forma de esvaziamento lento da institucionalidade e da cultura política democráticas, cujos principais componentes foram os seguintes.

No domínio da institucionalidade: exploração de todas as debilidades do sistema político brasileiro, nomeadamente do poder legislativo, aprofundando a mercantilização da política, a compra e venda de votos dos representantes do povo no período entre eleições e a compra e venda de votos de eleitores durante os períodos eleitorais; a cumplicidade do sistema judiciário conservador incapaz de imaginar a igualdade dos cidadãos perante a lei e habituado a conviver tanto com o primado do direito como com o primado da ilegalidade, dependendo dos interesses em causa; a captura das Forças Armadas através da distribuição massiva de cargos ministeriais e administrativos.

No domínio da cultura política democrática: a apologia da ditadura e dos seus métodos repressivos, incluindo a tortura; utilização massiva das redes sociais para divulgar notícias falsas e promover a cultura do ódio e uma ideologia de bem-estar esvaziada de outro conteúdo que não o do mal-estar ou sofrimento infligido ao “outro” construído como inimigo; a capilarização no âmago do tecido social do imperialismo religioso conservador dos EUA (evangelismo neopentecostal) em vigor desde 1969 como preferencial política contra-insurgente.


Esta fase concluiu-se no final do primeiro turno das eleições presidenciais em 2 de outubro passado. A partir daí, entrou numa fase nova assente no ataque frontal ao núcleo duro da democracia liberal, o processo eleitoral e as instituições encarregadas de garantir o seu decurso normal. Esta fase é qualitativamente nova em razão de dois fatores.

Em primeiro lugar, tornou-se mais clara a internacionalização do ataque à democracia brasileira por via de organizações de extrema direita globais originárias e financiadas pela plutocracia norte-americana. O Brasil transformou-se no laboratório da extrema direita global; aí se testa a vitalidade do projeto fascista global em que o neoliberalismo joga um novo (último?) fôlego.

O objetivo principal é a eleição de Donald Trump em 2024. Informações fidedignas dão-nos conta de que as empresas de desinformação e de manipulação eleitoral ligadas ao notório fascista Steve Bannon estiveram instaladas em dois andares de uma das ruas principais de São Paulo donde dirigiram as operações.

Nesta fase eleitoral, as duas estratégias principais foram as seguintes. A primeira foi a intimidação para impedir o “voto errado” e os benefícios em troco do “voto certo” oferecido pelo baixo empresariado e por políticos locais. A segunda, há muito utilizada pelas forças conservadoras nos EUA, sob o nome de vote suppression, foi a supressão do voto. Tratou-se de um conjunto de medidas excecionais, sempre sob o verniz da normalidade legal, destinadas a impedir os grupos sociais mais inclinados a votar no candidato oposto aos golpistas de exercer o seu direito de voto: bloqueios de estradas, excesso de zelo na fiscalização de veículos que transportam potenciais votantes, intimidação de modo a provocar a desistência, suspensão de transportes gratuitos decretados pela lei eleitoral para promover o exercício do direito de voto aos mais pobres.

E agora, Brasil? A democracia brasileira sobreviveu a esta nova fase do golpe de Estado continuado. Para isso contribuiu o notável e destemido envolvimento dos democratas brasileiros que viram no seu voto a prova de uma vida minimamente digna, a afirmação da sua auto-estima civilizatória, o princípio ativo da energia democrática para os tempos difíceis que se avizinham. Contribuiu também a firmeza das instituições da justiça eleitoral, no meio de pressões, de desautorizações e de intimidações de todo o tipo. Mas seria estultícia irresponsável pensar que o processo golpista terminou. Não terminou e vai entrar numa nova fase porque as condições e as forças nacionais e internacionais que o reclamam desde 2014 continuam vigentes e só se fortaleceram nestes anos mais recentes.

O golpe de Estado continuado vai entrar numa nova fase. De imediato, será provavelmente a contestação dos resultados eleitorais para compensar o fracasso dos golpistas em não terem conseguido os resultados que pretendiam com as múltiplas fraudes que praticaram. Depois, o golpe assumirá outras formas, ora mais subterrâneas com a utilização do crime organizado para intimidar as forças democráticas, ora mais institucionais com a mobilização desviante do poder legislativo para criar uma situação de permanente ingovernabilidade, nomeadamente com a ameaça de impeachment do governo eleito e dos quadros superiores do sistema judicial.

Embora o objetivo de médio prazo dos golpistas seja impedir que o Presidente Lula da Silva termine o seu mandato, o processo do golpe continuará e só será verdadeiramente neutralizado quando os democratas brasileiros se derem conta de que a vulnerabilidade da democracia é em boa medida auto-infligida, pela arrogância em pretender ser a única condição para a legitimidade do poder em vez de assumir que a sua legitimidade estará sempre à beira do colapso numa sociedade socioeconómica, histórica, racial e sexualmente muito injusta.

domingo, 30 de outubro de 2022

Brasil em decisão

 


Estupidez é arma, e mata

A estupidez seria má conselheira, segundo ditado português. Há quatro anos neste mesmo período, a estupidez espumava com dentes arreganhados, para quem não seguia seu pensamento infame. Fosse quem fosse, votasse até mesmo em azarão ou optasse pelo voto nulo ou a abstenção, merecia a mesma infâmia de não ser patriota. 

A demolição sistemática do país, das instituições e mesmo de órgãos de reconhecimento internacional, incrementou a estupidez nacional, agora infiltrada em outros rincões nunca antes atingidos. 

Enterrados as centenas de milhares de mortos pela Covid, não há um resquício de respeito àqueles que sofreram e morreram em nome da estupidez. Continuam milhões a espumarem o ódio sem olhar a quem. É a hora do assédio constante no melhor estilo do autoritarismo a impor-se sobre tudo e todos.

O país está atolado na mediocridade, que os "arrependidos" tanto impulsionaram, os calados deixaram pra lá e a cambada dos canalhas ainda ovaciona. 

Independente do que aconteça neste domingo, e nos dias subsequentes, há uma certeza que serve de lição: a estupidez mata e destrói uma nação sem ficar pedra sobre pedra. 

Os quatro anos de estupidez, se não houver recaída, fizeram uma estrago que não está contabilizado em moeda. Seria o de menos, estes últimos anos abalaram a estrutura social e emocional das pessoas a partir do momento que a bandeira de todos foi sequestrada pela estupidez. 

A Alemanha sabe muito bem o quanto custou para domar a estupidez nazista. O Brasil ainda precisa aprender mais sobre sobre essa face do autoritarismo que divide em torcida para 
melhor dominar.

Luiz Gadelha

Duro opositor do PT, médico torturado por Ustra declara voto em Lula

O médico Gilberto Natalini, de 70 anos, foi preso 18 vezes durante a ditadura militar. Sua primeira prisão, em 1972, foi a que mais a marcou. Foram 42 dias detido no temido Doi-Codi de São Paulo, comandado pelo oficial Carlos Alberto Brilhante Ustra, quem o recebeu naquelas instalações.

Natalini relata que foi torturado diretamente por Ustra, quem via todos esses dias. Então com 18 anos, o médico era naquele ano estudante de medicina. Levou choques elétricos nos ouvidos, que comprometeram sua audição até hoje. Gostaria de ter sido cardiologista, mas a dificuldade em ouvir as captações do estetoscópio o impediu.

Os dois – Ustra e Natalini – se reencontraram 41 anos depois, quando prestaram depoimento na Comissão Nacional da Verdade, em Brasília, em 10 de maio de 2013. O militar disse que impediu a instalação do comunismo no Brasil, que lutou contra o terrorismo e que nunca matou ou torturou alguém.

“Cumpri todas as ordens. Ordens legais. Nunca, como se diz, ocultei cadáver, cometi assassinato. Vou em frente nem que morra assim. Lutei, lutei e lutei. E tenho dito” – declarou Ustra naquele dia.

Presente no auditório, Natalini deu um testemunho antes e confirmou ter sido vítima de Ustra. A certa altura, o então presidente da comissão, Cláudio Fonteles, perguntou a Ustra uma acareção com Natalini. Ele recusou.

“Não faço acareação com terrorista”.

E se iniciou um bate-boca entre eles.

“O senhor que é bandido”.

Passados todos esses anos, Natalini, que foi do PCdoB, ajudou a fundar o PSDB. Depois, se filiou ao PV. Nunca morreu de amores, de quem é crítico ferrenho. Foi vereador por cinco mandatos e sempre de oposição a gestões petistas. Mas, agora, anunciou voto em Lula. Será a segunda vez que vota num petista. A primeira vez foi também em Lula, em 1989.

“Vou relevar tudo que fizeram para evitar o mal maior”.


O senhor anunciou agora que irá votar no Lula, partido que sempre se opôs, apesar de tudo. Qual a razão?

Sou muito crítico ao PT. Vi o PT nascer, eu era PCdoB. Tivemos uma guerra com o PT no início, que veio tomando o lugar dos comunistas. Disputou muito com a gente, do partidão. Disputa quase até física. Até João Amazonas (fundador do partido) criticou o PT. E depois aderiu. O PCdoB aderiu ao PT. Depois, saí. Fiz muita oposição na Câmara ao PT. Nunca votei no PT. Exceção em 1989, contra o Collor. Sou um crítico contundente do PT. Em 2018 anulei meu voto no segundo turno. Fiz oposição ao Haddad na Prefeitura.

O que o sr. critica no PT?

O PT não tinha o direito de fazer o que fizeram. Vieram empurrando todo mundo. Fui secretário de saúde de Diadema (SP), logo após uma gestão do PT. Para ter ideia, apagaram todos os dados dos computadores da secretaria. Simplesmente isso.

Não seria natural um ex-perseguido e torturado pela ditadura votar em Lula?

É um engano isso. Nem todos perseguidos votam no Lula. A turma da esquerda velha de guerra morreu toda de fome. O João Amazonas, tiveram que fazer vaquinha para comprar o seu caixão. Prestes, Brizola. A turma tinham muito princípio e moralidade imensa. Aquela esquerda não era demagógica. Por isso eu critico do PT. Tomou a bandeira da esquerda, só que os princípios não preservaram. Tem coisas graves do PT no trato da coisa pública.

Mas agora irá votar em Lula.

Em 1989, votei contra o Collor. Agora, vou relevar minhas críticas ao PT, que não vou esquecer jamais. Sei o que vocês fizeram no verão passado, como se diz. Estamos diante de uma ameaça brutal a democracia, que é o Bolsonaro. Eu vou me compor com essa frente democrática. Tenho pedido voto para o Lula nas redes. Só não participo de reuniões. Não sou baba ovo. Meu apoio a Lula é pela democracia, pela defesa do meio ambiente, uma causa cara para mim. Meu voto foi muito sofrido para ele conquistar.

Mas em 2018, não votou em Haddad? Bolsonaro tinha elogiado Ustra.

Em 2018, não conseguia votar em Bolsonaro por causa do Ustra. Fui torturado diretamente por ele. Choque elétrico. Me torturou em 1972, no Doi-Codi, na Oban, em São Paulo. Jamais votaria nessa direita incivilizada e cruel. No Haddad, não conseguia porque fui oposição a ele na Câmara. Mas dessa vez, não dá. Bolsonaro é truculento, armamentista. Não posso me omitir quem tem Ustra como ídolo. Está em jogo a sorte do meu país. Vou fazer um esforço enorme, passar por cima do que tenho contra o petismo e vou votar no Lula. E estou recomendando na minha família.

Pode comentar um pouco de sua perseguição e prisão na ditadura?

Fui 18 vezes preso. Na primeira vez, foram 45 dias lá no Doi-Codi. Interrogado e torturado pelo Ustra. O via todo dia. Me deu choque, ficou horas com o pedaço de pau à minha frente. Eu tinha 18 anos, era estudante de medicina. Eu nunca dei um tiro em ninguém. Nunca dei uma facada. Sou da disputa política, não da luta armada. Mas, mesmo que eu tivesse pego em armas, depois que você prende uma pessoa, a desarma e submete um ser humano adversário na cadeia não pode, pelas leis de guerra, torturar. É muito ignóbil. Ele era um expert em tortura. Depois, fui preso pelo Dops. Minha última prisão foi no governo Sarney, em 1985, após uma manifestação. Fiz o enterro do Sarney. Fiquei horas preso, mas era uma prisão mais para constrangimento. Já estava começando a abertura. Tenho 70 aos e sigo estribuchando na luta. Só vou parar quando parar de respirar.

Como foi reencontrá-lo 40 anos depois?

Não foi fácil. O enfrentei e ele se negou a fazer uma acareação. Disse que não faria acareação com terrorista. O chamei de mentiroso na sua frente e de bandido e torturador. O pessoal da Comissão da Verdade, depois do embate, me ofereceu ir num carro da Polícia Federal até o aeroporto e que um delegado me acompanhasse até entrar no avião. Dispensei. Enfrentei o Ustra quando comandante do Doi-Codi.

A tortura deixou o sr. com sequelas.

Sim. Fiquei com uma lesão auditiva, perda nos dois ouvidos. Foi choque elétrico. Ustra rodava a manivela da máquina. Um fio era chamado de pimentão, choques de 250 volts. O outro, era o pimentinha, de 100 volts. Tive cada um deles nos meus ouvidos. Uma dor indescritível. Queria ser cardiologista, mas, pelas lesões, não conseguia ouvir os sopros cardíacos com o estetoscópio. Quem tem Ustra como ídolo se afastou da raça humana.

Os evangélicos contra-atacam com ‘Messias’

Na época da ditadura militar, um censor, furibundo com alguns diálogos de uma peça teatral, convocou o autor a dar explicações. Por razões conhecidas, Shakespeare não pôde comparecer. Nestes tempos michelenescos, o afável arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer, se viu obrigado a explicar por que usa vestes vermelhas. O inquisidor ouviu algo mais ou menos assim:

“É a cor dos cardeais, meu filho”, e no Twitter, dom Odilo cravou: “Conheço bastante a História. Às vezes, parece-me reviver os tempos da ascensão ao poder dos regimes totalitários, especialmente o fascismo. É preciso ter muita calma e discernimento nesta hora!”

Dom Leonardo Steiner, arcebispo de Manaus, buscou inspiração em trecho de “Irmãos Karamazov”, de Dostoiévski, para cravar sua incredulidade diante da terra arrasada pelo Bolsolão: “Quem mente a si mesmo e escuta as próprias mentiras chega ao ponto de já não poder distinguir a verdade dentro de si mesmo”.


É possível que algum eleitor de Damares ou um pastor que prega nos cultos contra os homossexuais venha a chamar os Karamazov de comunistas, mas, vá lá, é da vida: o chefe deles já disse que -5% + 4% são 9% positivos. Perdoai-o, mas com Oscar Wilde na cabeça:

“Os loucos às vezes se curam; os imbecis, nunca”.

Desde a redemocratização, pela primeira vez a Igreja Católica, trazida à vida terrena, se vê às voltas com laivos autoritários. Na ditadura militar não ocorreu; mas no regime nazista aconteceu algo semelhante às cenas de 12 de outubro. No dia de Nossa Senhora Aparecida, a milícia bolsonarista perseguiu padres em Aparecida , vaiou a homilia da missa principal, gritou palavrões e ainda fez brindes com latas de cerveja dentro da igreja.

A turba ensandecida saiu das redes sociais, incensada pelos pastores bolsonaristas, e, inspirada pelo desamor exalado por seu capitão, agora se comporta como milícia armada —e mira o contingente de fiéis católicos.

Ali pelo século IV e V, os protocristãos, perseguidos pela ignorância e pelo ódio, eram jogados aos leões, em espécie de sádico prazer.

O sadismo se manifesta diante do infortúnio alheio — por exemplo, imitar alguém sufocado pela Covid-19. Ou na descrição libidinosa, detalhada e colorida, com brilho nos olhos, de crianças com dentes arrancados para fazer sexo oral. O prazer doentio se revela nas interjeições.

A milícia atual vigia, e ameaça e caça, conceitos vagos ditados por uma sombra escura de inclemência e ressentimento. Reagem, à semelhança dos ratos de Pavlov, quando explodem em seus ouvidos palavras como miséria, fraternidade ou empatia. Por desconhecerem o Evangelho, atacam os padres durante os sermões. E destroem imagens de santos. E correm atrás de quem veste batina.

As palavras de Cristo, em ensinamentos gravados na Bíblia, são ouvidas agora como acintes da esquerda. A turba esquece que Jesus Cristo acabou crucificado por seu tom solidário e generoso, verdadeiro incômodo ao poder da época: “Não roubarás; não matarás”; e, sentiram as meninas venezuelanas, “não desejarás a mulher do próximo”.

O problema de quem vaiou a catequese no Santuário de Aparecida é ter lido apenas a orelha dos Evangelhos e/ou acreditar na má-fé dos pastores bolsonaristas, religiosamente incultos e ideologicamente comprometidos. O cristianismo (como filosofia) nasceu em meio ao descalabro da escravidão, da pobreza brutal e da miséria civilizacional —pedofilia, satanismo, matanças entre os clãs, abuso de poder.

Demorou para a Igreja Católica ser enredada e reagir, de maneira ainda capenga, à instrumentalização da fé religiosa como base partidária. Os cães bolsonaristas há tempos vociferam a postura intolerante de jogar os adversários aos leões. É a mesma toada da turba romana.

Os ataques às homilias e aos padres em diversas igrejas Brasil afora ocorrem quando ecoam os ensinamentos contra a violência, a intolerância e a mentira. De novo, Dom Leonardo Steiner: “Usar a religião como ameaça a fim de angariar voto tem cheiro de imoralidade”.

O manejo descarado e argentário da religião, se no momento atiçou parte da cúpula católica brasileira, obrigada a reagir ao retrocesso civilizacional (“quero todo mundo armado”), agora gera mobilização entre as denominações não embolsadas.

Desde dias atrás, o projeto de poder messiânico de Michelle e Damares é desafiado dentro de seu quintal, encarnado pelo hit gospel “Messias”, cantado por Leonardo Gonçalves, entre os maiores sucessos no YouTube. Vale muito ouvir. A letra deve azedar as manhãs delas: E tudo isso por causa de política/Por causa de um falso pânico moral/Promovido pelos donos de igreja/Que tiveram o perdão de uma dívida /De 1,4 bilhões de reais/Decretado pelo presidente da República (…)/A gente tem fome e sede de justiça.

Para os religiosos independentes, tem nome e endereço o satanás.