quarta-feira, 22 de setembro de 2021

Pensamento do Dia

 


Cara de um...


O presidente apresentou dentro da nossa visão, a visão do nosso governo, a situação que o Brasil vive 
Hamilton Mourão

Faça por merecer

Uma das cenas de guerra mais marcantes da filmografia contemporânea foi representada pelo ator Tom Hanks ao incorporar o capitão John Miller na obra “O resgate do soldado Ryan”.

O último filho vivo da família Ryan, combatendo na França após o desembarque na Normandia, precisava ser poupado.

Tendo recebido a tarefa, o capitão Miller reúne um grupo de sete homens e segue para a linha de frente a fim de cumprir a missão.

Ao longo das jornadas, a patrulha se depara com emboscadas, famílias desesperadas, alemães ainda prontos a matar para não morrer.

Os soldados vão ficando pelo caminho. Quando Ryan é encontrado, Miller é atingido de morte. Sabendo que o fim se aproxima, sussurra ao ouvido de Ryan: faça por merecer.

Assistir à epopeia renova a fé na importância de passar pela vida e deixar uma semente. Não importa se esta semente é de tâmara, uma árvore que leva anos para que o fruto possa ser apreciado. Plante-a.

O soldado Ryan fez por merecer. Ao final do filme, no Cemitério Militar da Normandia, diante da sepultura do capitão Miller, o velho paraquedista se apresenta com o relatório de sua vida. “Capitão, eu creio que fiz por merecer, missão cumprida.”


A sociedade e suas lideranças precisam fazer por merecer. Precisam assumir suas tarefas e persegui-las até sua concretização. Precisam vencer o mal que subsiste nos ambientes conflagrados do século 21. Precisam fazer valer a verdade sobre a hipocrisia da mentira montada por tijolos da insensatez e sanha pelo poder.

No campo da realidade palpável, um exemplo desse mundo distópico foi-nos revelado ontem nos discursos proferidos por ocasião da abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas.

Líder a líder, todos subiram ao palco e do púlpito discursaram tão somente para os seus. Quantos foram convencidos? Quantos pela retórica daqueles próceres – treinados para leitura em teleprompter de textos pautados na sugestão de seguidores – mudaram de opinião? Poucos, nenhum.

O discurso do secretário-geral da ONU, António Guterres, teve o dom de iluminar os desafios globais e propor estímulos aos países assentados naquele organismo.

Estímulos, pois ações exigem vontade de agir, que não é tempero fácil de ser agregado aos projetos de governos com interesses fricativos políticos e pessoais.

Meio ambiente, clima, fome, desigualdade social, migração, pandemia, vacina, guerras foram temas tratados por Guterres. Em cada um deles, há pontos de vista distintos a se observar.

A agenda mundial carece de uma discussão ampla e desarmada na tentativa de colimar os interesses nacionais aos interesses nacionais dos outros.

É ingênuo acreditar na possibilidade de entendimento quando algumas lideranças de países importantes não o veem como solução.

A confrontação Globalismo versus Nacionalismo emergiu em força. Quiçá, como cortina de fumaça para toldar as frustrações pós-guerra fria, fim da história e, recentemente, a reacomodação da balança geopolítica do poder mundial.

Os atuais “príncipes” precisam incorporar o figurino da boa liderança, apresentando suas soluções aos desafios vigentes. Não se espera atitudes arrogantes e amadoras como remédio a problemas profissionais.

É mandatório, entretanto, que a comunicação dessa liderança se faça de forma genuína, sobre o suporte da verdade, não da desinformação. Ao escutar a fala do chefe de governo brasileiro, pairaram dúvidas sobre a intenção e oportunidade do discurso. Não reflete a realidade, é o que se comenta em vários fóruns da sociedade.

Pareceu a confirmação de que a tribuna da ONU foi mero ambiente para enviar recados para o quintal da casa em algaravia permanente. Sejamos justos, ele não foi uma exceção. Outros a usaram de igual forma.

O mundo já se apercebeu desencaixado do espírito proposto pela carta das Nações Unidas. Aqueles valores ficaram ao costado nos velhos caminhos. Que fazer? Aceitar a perda da liberdade entre indivíduos, a nome de resultados duvidosos?

É hora de meditar. Validar narrativas. Amorfo emocionalmente, o sujeito não se inquire sobre o que ocorre à sua volta. Incorporado à massa, cria uma sensação de ser isento de responsabilidade. Bloqueia o seu grilo falante – a voz da consciência – e faz o que todo mundo faz.

É preciso fazer mais. Muito mais. “Ler e agir” para suplantar o mal, como assevera a professora Heloisa Starling na conclusão da biografia de Hanna Arendt, escrita por Ann Heberlein.

Se o que se busca é paz e harmonia para a colheita de boas tâmaras pela sociedade, os beneficiados, todos nós, precisam fazer por merecer. Regar, arrancar ervas daninhas e podar até que flores e frutos se fortaleçam sozinhos.

Caráter e liderança

Montesquieu dizia que “a indiferença pelo bem comum é a causa da ruína das repúblicas”. Ruína que começa com a indiferença do presidente da República em honrar suas promessas ao povo brasileiro. Prometeu abrir a economia, privatizar estatais e aprovar reformas liberais para desidratar o Estado intervencionista que estrangula os brasileiros que trabalham e produzem riqueza, mas se rendeu à agenda do corporativismo que destrói a produtividade e a competitividade do Brasil e ainda criou mais estatais, como a ENBPar, que recebeu um aporte de R$ 4 bilhões dos cofres públicos.

Prometeu combater a “velha política” e a corrupção, mas se aliou ao Centrão, sepultou a Lava Jato, e pululam escândalos de superfaturamento de vacinas e de seus familiares. Por fim, Bolsonaro prometeu honrar os valores cristãos, mas na hora da pandemia demonstrou falta de misericórdia e de compaixão com milhares de brasileiros que padeceram da covid. Menosprezou a importância da vacina e repudiou o uso de máscara. Ademais, o presidente mostra-se indiferente aos reais problemas que afetam a vida dos brasileiros, como a queda da renda e o aumento do desemprego e da inflação, que vem encarecendo o preço do gás de cozinha, da carne, do arroz e feijão.

Evidentemente, o presidente da República culpa os infortúnios do seu governo à pandemia, à imprensa “esquerdista” e às decisões do Supremo Tribunal Federal e do Congresso. Essa visão infantil de que o problema está sempre nos outros revela sua incapacidade de reconhecer as incompetências política e administrativa do seu governo.

A questão crucial é como atravessar o vale do desgoverno e das crises institucionais até a eleição de 2022. O Brasil tem hoje um caminho e dois desvios. O caminho é a construção de um plano de ação para defendermos a democracia e nos unirmos em torno de uma candidatura presidencial competitiva, capaz de vencer os dois desvios – Bolsonaro e Lula. O primeiro representa a maior ameaça à democracia desde o golpe militar de 1964; o segundo retrata a volta ao pesadelo do passado em que se semeou a desgraça do presente – o sectarismo político, a corrupção sistêmica que corroeu a credibilidade das instituições e a gênese do nefasto governo Dilma, que nos brindou com recessão econômica, 13 milhões de desempregados e a atuação irresponsável de um Estado intervencionista que debilitou a economia.

A união dos defensores da democracia tem de ser construída em torno de dois pilares. Primeiro, é vital restabelecer os canais de diálogo cívico e de articulação política entre as principais lideranças do País em torno da defesa da democracia. Trata-se de uma tarefa imperiosa para combater o radicalismo político e os rompantes autoritários nas redes sociais, na imprensa, no Parlamento e nas cortes. Essa missão requer verdadeiro espírito público para sobrepor as divisões políticas que fragmentaram famílias, partidos, instituições e a Nação. Demanda disposição de conversar com antigos adversários para construir o entendimento em torno de prioridades urgentes para derrotar Lula e Bolsonaro. Exige restabelecer laços de confiança que tecem o consenso social para transformar ideias em apoio popular e votos no Congresso e nas urnas. Foi justamente essa amálgama de objetivos claros, mobilização cívica e resolução política que permitiu o País superar três crises: a eleição de Tancredo Neves em 1985, a destituição do presidente Collor em 1992 e o impeachment de Dilma em 2016.

Segundo, é preciso racionalidade e objetividade para colocar as prioridades do Brasil acima das disputas políticas. O Centro de Liderança Pública (CLP), em parceira com várias instituições da sociedade civil, criou em setembro de 2020 o Unidos pelo Brasil, um movimento para pressionar o Congresso a votar uma agenda mínima de projetos que ajudem a impulsionar a retomada da economia e a modernização do Estado. Ao unir pessoas determinadas a trabalhar por uma agenda de país e capaz de mobilizar a sociedade civil e o Parlamento, o Unidos pelo Brasil exerceu um papel protagonista na aprovação de projetos, como o marco do saneamento básico, a autonomia do Banco Central, a nova Lei do Gás e o projeto que acaba com os supersalários da elite da administração pública. A iniciativa prova que, mesmo em momentos turbulentos da política, é possível avançar com a agenda modernizadora do País, unindo esforços da sociedade civil e das lideranças políticas em torno de objetivos comuns.

O Brasil precisa apaziguar os ânimos, focar sua atenção numa agenda de país e olhar para o futuro. Não há futuro promissor se continuarmos a insistir nas escolhas erradas do passado que pavimentaram o caminho do radicalismo político, da recessão econômica, do desemprego e da maior crise social no País. A construção do Brasil que queremos começa pelas escolhas que faremos em 2022. O futuro presidente precisa ter dois atributos para tirar o País do lamaçal do patrimonialismo, do corporativismo e do clientelismo: caráter e liderança.
Luiz Felipe D'Ávilaautor do livro "10 mandamentos – do Brasil que somos para o país de queremos"

Banana de dinamite

Durante a ditadura militar, havia um governo autoritário, cujo poder estava com as Forças Armadas e a administração a cargo de tecnocratas civis. Atualmente vivemos um período em que se mantiveram, pelo menos formalmente, as instituições da democracia-liberal, mas conjugada a um projeto de destruição
Jorge Ferreira

É preciso combinar com a lei

A lei, a regra, a norma ou o habitual estão fora de nós. Quando um desejo nascido no fígado ou no coração nos assalta, temos de combinar com os costumes. Sem um acordo entre interesses egocêntricos e leis sociocêntricas não há jogo.

O coletivo é governado por normas fora dele que, no entanto, são parte dele ou feitas para ele. Não é por acaso que mandamentos e leis foram entregues a deuses encarnados, patriarcas, visionários e profetas – a seres extramundanos, como dizia Max Weber – em montanhas mediadoras entre céu e terra, ou em situações dramáticas como tempestades, humilhações, extrema solidão e doenças mortais.

Por mais, entretanto, que as leis sejam sagradas, somos nós que as honramos com nossa lealdade ou desonestidade. Mesmo vindo do “outro mundo”, não há quem não saiba que as regras mudam e são mudadas.

Tudo isso para dizer algo simples, mas pouco discutido no Brasil. Nas monarquias e aristocracias, os soberanos e os nobres que são parte de sua corte ou família (pessoas especiais, “cortadas” ou removidas das gentes comuns) não precisam pensar no futuro, pois sua posição social é dada ao nascer.

Nobres são estruturalmente diferenciados (têm, reza a lenda, sangue azul) e imutáveis. O clero tem uma dinâmica singular porque ninguém nasce padre, bispo ou papa. Mas o “povo” (os membros do chamado “terceiro estado”) tem de construir o seu futuro e esse futuro, como o dos escravos, é preestabelecido. Uma pessoa comum morre como nasce.


A ideia democrática de mobilidade social vertical – de nascer pobre, mas morrer rico, de ser ninguém e virar alguém – é parte de uma intrusão individualista ou, como se diz, de um apadrinhamento, de sorte ou malandragem. Trata-se de uma mudança formidável que, obviamente, depende de transformações radicais de leis e costumes.

É preciso não esquecer que a igualdade perante a lei é algo complexo e difícil mesmo em sociedades que nasceram republicanas, como faz prova o caso americano. Leis justas enfrentam desejos, projetos, paixões e interesses que promovem injustiça por origem familiar, cor da pele, trabalho, gênero, idade e mais o que o leitor ou leitora quiser acrescentar.

Se republicanos natos têm problemas com suas inevitáveis esferas privilegiadas (os cargos governamentais, por exemplo) – os ultrarricos ou suas “classes dominantes” –, imagine o Brasil, que nasceu escravagista e dividido em vice-reinados aristocráticos, reforçados pela fuga da Corte portuguesa para o Rio de Janeiro, em 1808. E, algumas décadas depois, com a República, a separação do Estado e da Igreja Católica e a Abolição (bem como o jogo do bicho).

A questão que não se cala é a seguinte: como não continuar com privilégios aristocráticos na República, a menos que se combine com os barões, os altos funcionários e os comuns? Como não ter foros privilegiados e reversões jurídicas brutais se os ditos republicanos não enxergam os seus vieses aristocráticos?

Pergunto: o populismo que resolve tudo no discurso, mas agrava tudo na prática, não seria um modo de tentar combinar uma nobreza soberana com plebeus sujeitos da lei? Questiono: os foros privilegiados conferidos aos representantes do povo não seriam emblemas de delegação, de uma entrega política que embarga a representatividade democrática, conforme sugeria o cientista político Guillermo O’Donnell?

Meu saudoso mentor, Roberto Cardoso de Oliveira, dizia que não se passa de pato para ganso impunemente. Não pense o leitor que estou aqui propondo o absurdo de um retorno à monarquia. Não! Meu propósito é deslindar essas intrusões jurídicas nobres, parte e parcela de certos cargos, que recriam leis privadas ou especiais num campo jurídico igualitário. Infecções sociais que explicam o “Você sabe com quem está falando?”, esse rito pessoal que reafirma superioridades sociais e, obviamente, vira um “golpe” quando é articulado por um presidente.

Em suma, não se passa de monarquia escravocrata a República sem combinar com os golpistas, os coronéis, os barões, os autoritários reacionários dos dois lados, o machismo, os corruptos e os racistas estruturais. Os que querem levar vantagem em tudo...

PS: A desmontagem está quase no fim e, depois, virão outras montagens e mais desmontagens. Os jornalistas Merval Pereira e Carlos Alberto Sardenberg chamam atenção para esses absurdos e abusivos desmanches. Afinal, como diz um velho filme de Frank Capra, as causas perdidas são, paradoxalmente, as causas que valem uma luta. No caso brasileiro, a da igualdade democrática e, com ela, a da coerência legal. Cedo ou tarde o nosso lado republicano vai ter de combinar com o nosso poderoso viés aristocrático – esse mantenedor de privilégios.

Aqui ó, Brasil

 


Em discurso na ONU, Bolsonaro mostra que odeia o Brasil

Nenhuma surpresa de que o Jair Bolsonaro que deu as caras na Assembleia-Geral da ONU é aquele que conhecemos desde sempre: canalha e ególatra. Pelo terceiro ano consecutivo, o presidente fez o que faz cada vez melhor: mentiu.

Quem achou que seria diferente não entendeu nada sobre o seu caráter. Bolsonaro não é um sujeito moderado, jamais será. Seus raros recuos não significam mudança nenhuma em sua forma de fazer política e de nos representar. Tal qual a parábola do sapo e do escorpião, ele é capaz de morrer afogado, mas nada o fará trair suas convicções e transformar sua natureza autoritária.

O que ainda me surpreende é que o país continue mais um ano e três meses refém desse mitômano, que usou o palco da ONU apenas para reafirmar o que já sabemos: é um presidente que fala e governa apenas para uma pequena parte da população, aquela que acredita nesse Brasil utópico criado em sua cabeça.


Se existisse, esse país descrito na ONU seria quase um paraíso. Só não digo que gostaria de morar lá porque seria um paraíso habitado por zumbis idiotizados, que aplaudem o rosário de delírios desfiado por Jair. Um lugar sem corrupção, com florestas preservadas, economia bombando, onde família é mamãe, papai e filhinho e todos são mais espertos que o resto do mundo e tomam cloroquina.

Bolsonaro, em seu discurso, ignora não apenas a realidade como também os milhões de brasileiros que não se encaixam no conto de fadas que ele insiste em repetir sobre o país. Despreza a diversidade cultural, sexual, política e religiosa que sempre nos fez um caldeirão invejado pelo mundo, apesar dos pesares.

Não temos presidente. Bolsonaro odeia o Brasil. Não à toa, vem do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, o gesto que melhor traduz o discurso mentiroso do presidente, em Nova York: um dedo do meio na cara de cada um dos brasileiros que ele não representa.

Bolsonaro acertou em cheio ao falar na ONU para seu rebanho

Se um povo faz por merecer o governo que tem, o do Brasil é um governo de cafajestes, velhacos, farsantes e medíocres. Uma escória reunida em torno de um ex-capitão expulso do Exército por ser mal militar a ponto de planejar atentados terroristas a quartéis.

Supor que ele seria capaz de comportar-se como um estadista ou discursar como se fosse um na abertura da 76ª Assembleia Geral da ONU, é o mesmo que, há dois anos, ter considerado difícil a escolha entre o charlatão e Fernando Haddad no segundo turno.

Equivale também a dizer, como tantos já dizem, que daqui a 12 meses, se nenhum outro candidato se impuser até lá, a Presidência da República estará ao alcance de dois conhecidos extremistas – Jair Messias Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva.


Há motivos bastantes para que 38% dos brasileiros digam hoje que não votarão em Lula de jeito nenhum, e 59% digam o mesmo de Bolsonaro, segundo a mais recente pesquisa Datafolha. Mas Lula nunca foi um extremista nem governou como extremista.

Os mais afortunados deste país sabem muito bem disso e beijaram sua mão em apelo para que voltasse a se candidatar em 2014 no lugar de Dilma. Lamentaram porque isso não aconteceu. Os defeitos de Lula comprovadamente são outros, não esse.

Extremista sempre foi Bolsonaro desde que descobriu a política como um meio de vida para sustentar-se, e à sua família, rachando com ela dinheiro público desviado por meio de brechas oferecidas pelas leis, ou simplesmente ignorando as leis.

Jamais passou pela cabeça dele eleger-se presidente. Candidatou-se por estar cansado de sua insignificância como deputado. Seu propósito era garantir a reeleição dos seus três filhos zero, dedicando-se depois a desfrutar de uma gorda aposentadoria.

Somos uma vergonha

Na verdade, o Brasil inteiro é uma vergonha. Apesar de todos os crimes do sociopata, que acarretaram 600 mil mortes, falhamos miseravelmente como país, porque fomos incapazes de afastá-lo do cargo e trancá-lo na cadeia. A culpa é coletiva

O meu, o seu, o nosso dinheiro

Em abril de 2009, uma série de reportagens do site "Congresso em Foco" abalou o Congresso Nacional ao revelar que parlamentares faziam turismo com dinheiro público. A verba era de uma generosa cota para compra de passagens aéreas relacionadas às atividades do mandato.


Na prática, porém, cada congressista gastava o dinheiro a seu bel-prazer e sem dar satisfações a ninguém. Deputados e senadores ainda levavam a tiracolo parentes, amigos e cupinchas para destinos turísticos no Brasil e no exterior, como Nova York, Miami, Londres, Paris, Milão, Madri. Uma farra!

Doze anos depois, os repórteres Eduardo Militão, Eumano Silva, Edson Sardinha e Lúcio Lambranho revisitam o escândalo e trazem mais novidades no livro "Nas Asas da Mamata", recém-publicado. Eles descobriram agora, por exemplo, que o contribuinte bancou as passagens de Jair e Michelle Bolsonaro para a lua de mel em Foz do Iguaçu, em 2007.

A gastança era possível graças a regras extremamente permissivas adotadas por Michel Temer e Aécio Neves, quando exerceram a presidência da Câmara. No Senado, com José Sarney no comando, não era diferente. A falta de controle era de tal ordem que a cota aérea de dois senadores foi gasta depois da morte deles. Ao todo, 560 parlamentares foram investigados, e os gastos, em valores de hoje, seriam de R$ 105 milhões.

Para não esvaziar a surpresa da leitura, acrescento apenas que os autores reconstituíram as investigações oficiais para traçar a teia de impunidade que resultou em mais um crime sem castigo. O que fizeram Corregedoria, Conselho de Ética, Câmara, Senado, polícia, Ministério Público, Judiciário? Está tudo no livro, com nomes, datas, decisões.

Esse belo trabalho jornalístico põe em evidência um dos aspectos mais nefastos da mentalidade e da prática política no Brasil: o de que autoridades em geral não querem entender que têm a obrigação de prestar contas de cada centavo gasto do meu, do seu, do dinheiro suado dos nossos impostos.

Não é só culpa de Bolsonaro que o mundo zombe do Brasil

Além de triste, é injusto que o Brasil tenha passado de objeto de desejo fora de suas fronteiras a motivo de chacota, com todas as consequências que isso acarreta, como a grave crise econômica e moral que vive o país.


As patéticas imagens que chegam de Nova York, que mostram o presidente Jair Bolsonaro — na cidade para a Assembleia Geral da ONU — comendo um pedaço de pizza na rua, impossibilitado de entrar em um restaurante por não ter se vacinado, e também sua entrada no hotel pelas portas dos fundos por medo de encontrar jornalistas, já percorreram o mundo e são uma vergonha para o país.

Pouco importa o que Bolsonaro vai dizer em seu discurso inaugural na ONU. Essas imagens já disseram tudo e se relacionam mais a uma “República das Bananas” do que ao quinto maior país do planeta e coração econômico da América Latina.



Seria o caso de se perguntar: até quando as demais instituições do país continuarão a permitir que o Brasil continue sendo alvo de chacotas e ironias por manter no poder um presidente que é alvo de mais de 100 pedidos de impeachment no Congresso? As desculpas políticas para não abrir um processo contra o presidente, além de perigosas, são ridículas.

O fato de que as razões da baixa política prevaleçam para continuar a manter no poder um presidente rejeitado pela grande maioria da população — essa que apoia a abertura do impeachment— empobrece as demais instituições e os partidos.

A passividade das forças políticas diante das investidas do Governo contra a democracia e a palpável incapacidade do capitão de governar um país da envergadura do Brasil podem, um dia, cair nas costas de outros. Outros que, podendo fazer isso, não tiraram do poder um personagem mundialmente reconhecido não apenas como genocida, mas, também, como alguém que está destruindo as riquezas ambientais que afetam todo o planeta, e envenenando a coexistência de milhões de pessoas cada vez mais empobrecidas que buscam ossos de animais nos mercados — já que a carne ficou só para as classes abastadas. É uma vergonha e uma humilhação para um país que, além de tudo, exporta alimentos para meio mundo.

Hoje, o Brasil tem políticos preparados e capazes de presidir o país não só com competência, mas também com dignidade. Arrastar o país sem governo e sem prestígio internacional por mais um ano por causa das pequenas ou grandes intrigas da baixa política poderá contribuir para piorar ainda mais a grave crise econômica e para multiplicar no exterior a falta de credibilidade do Brasil.

Não podemos esquecer que a força do presidente da República no Brasil é muito expressiva e concentra muito poder, para o bem e para o mal. Portanto, a permanência no poder de alguém desacreditado dentro e fora de suas fronteiras e que está comprometendo o seu futuro implica responsabilidade das demais instituições.

A experiência nos lembra que, embora seja difícil construir um país com bases democráticas e econômicas sólidas, é muito fácil reduzi-lo a escombros pela incompetência ou arrogância de quem o governa. Que o Brasil se deteriora a cada dia que passa enquanto cresce a crise que o aflige e que poderia comprometer ainda mais seu futuro já não é mais um segredo. É uma evidência global.

Que quem tem o poder continua a fechar os olhos à deterioração do país e a tapar os ouvidos ao clamor da maioria, que segundo todas as pesquisas pede uma mudança de poder, poderia acabar sendo trágico para os pobres e os ricos, já que todos acabam perdendo com um presidente e um governo que claramente se mostram incapazes de tirar o país do inferno.

Agora, pouco importa o que o presidente brasileiro possa dizer na ONU, onde já é objeto de descrédito e de medo, visto como alguém que possa arrastar o nazifascismo à terceira maior democracia do mundo.

O simbolismo negativo do presidente e sua comitiva oficial comendo pizza na rua de NY e entrando no hotel pelos fundos, como um fugitivo, para escapar das perguntas dos jornalistas, anulam as palavras de seu discurso, que já perderam toda a força e o respeito.

terça-feira, 21 de setembro de 2021

Ridicularizado, Bolsonaro é alvo de avalanche de denúncias na ONU

Pelos corredores da ONU, reuniões informais ou conversas sigilosas entre atores da cena internacional, falar em Jair Bolsonaro (sem partido) é a garantia de ouvir dos interlocutores estrangeiros reclamações, denúncias e ironias, nem todas elas finas.

Com uma reputação destruída, o presidente chega às Nações Unidas nesta semana num clima de completa desconfiança e irritação diante de suas políticas. Ele será o primeiro a subir no púlpito para fazer o discurso de abertura da Assembleia Geral, nesta terça-feira (21).

Mas o que ele tem pela frente é uma organização que se transformou no principal palco de denúncias internacionais contra seu governo. Informalmente, ridicularizar o presidente brasileiro passou a ser o “novo normal” nas conversas entre embaixadores.

Os exemplos são diários. Na semana passada, uma alta funcionária de um organismo internacional e encarregada de temas de gênero me parou num corredor da ONU para se queixar da postura do governo brasileiro contra o avanço dos direitos das mulheres.

Dias depois, numa coletiva de imprensa e diante da ida de Jair Bolsonaro para Nova York sem se vacinar, eu questionei de forma irônica a principal porta-voz da ONU em Genebra se a imunidade diplomática de um chefe-de-estado era suficiente para proteger de um vírus. Com apenas um sorriso, sua reação foi clara.

Também na semana passada, numa sabatina que o governo foi submetido na ONU para avaliar a questão de desaparecimentos forçados no país, a intervenção do Ministério da Família, Mulher e Direitos Humanos foi recebida com uma mistura de choque, revolta e deboche.

Parte do discurso do Brasil era sobre a postura do país contra o aborto. O problema: o tema sequer estava na pauta da reunião que se dedicava a falar da violência policial, milícias e as vítimas da ditadura entre 1964 e 1985.

Na quarta-feira, ao divulgar um informe que revelava que o Brasil seria a grande economia que menos cresceria em 2022, um dos autores da previsão foi claro ao explicar que, em parte, o motivo da crise tinha um responsável: “ele”. O autor se referia, obviamente, ao presidente brasileiro e o caos político que ele instaurou.

O brasileiro, isolado e duramente criticado, terá de fazer gestos internacionais que reduzam o mal-estar que o Brasil vive no palco mundial. Durante a recente reunião de cúpula dos Brics, Bolsonaro usou seu discurso para distribuir elogios aos demais líderes do bloco, inclusive para o chinês Xi Jinping. A atitude representou um contorcionismo diplomático inédito na gestão do presidente, que passou meses atacando a China.

Agora, a expectativa é de que ele amenize também seu discurso, diante de sua fragilidade internacional. Assim, a esperança é de que isso se traduza numa pressão menor, justamente num momento em que, em casa, Bolsonaro entra em ritmo de campanha eleitoral, para 2022.

Analistas internacionais não escondem: sob o atual presidente, a reputação do país desabou. Segundo um ranking publicado pela consultoria Future Brand, o Brasil perdeu dez posições na classificação de 2020, em comparação ao ano anterior. Na 57ª colocação, o país é superado pelo Cazaquistão, Panamá ou Egito em termos de “marca internacional”.

“Considere Jair Bolsonaro”, diz o informe. “Ele pode ser popular agora graças ao auxílio emergencial. Mas investimentos estrangeiros deixaram o país e o desemprego bate recorde.”

O que o ranking traz é, no fundo, um reflexo do que também se vê em corredores dos organismos internacionais. Altos representantes da ONU e embaixadores são claros: o estrago feito por Bolsonaro na imagem internacional do Brasil foi enorme em diferentes áreas e apenas mudar o tom do discurso não será suficiente. Hoje, seu nome é acompanhado por comentários jocosos, de indagação de suas faculdades mentais e de indignação diante das ameaças à democracia.

Em apenas dois anos e meio de governo, Bolsonaro foi alvo de 32 cartas e comunicações de relatores independentes da ONU, denunciando violações de direitos humanos cometidos pelo governo. As comunicações, mantidas em sigilo por meses, se referem a temas como violência policial, pandemia, ditadura, imprensa, moradia, educação, racismo e tantos outros.

Isso não inclui as dezenas de cartas e comunicados que a ONU recebeu com denúncias feitas por parte de ONGs, ativistas e indígenas contra o presidente brasileiro, além de pelo menos cinco acusações apresentadas à procuradoria do Tribunal Penal Internacional, em Haia.

Além das queixas oficiais, o mal-estar também ocorre por conta da campanha que o Brasil fez parte para minar a credibilidade das entidades internacionais, ainda sob a gestão de Ernesto Araújo, no Itamaraty.

O governo deixou o Pacto da ONU sobre Migrações e ainda desistiu de sediar uma das principais reuniões sobre meio ambiente. O Brasil ainda mantém uma das maiores dívidas com o organismo internacional.

O mal-estar também vem da postura interpretada como uma tentativa de enganar a comunidade internacional sobre a questão do desmatamento. Discursos de Bolsonaro anunciando supostos feitos e compromissos foram recebidos nos últimos anos como um sinal de que não haveria como confiar no país.

Bolsonaro ainda foi deixado de fora de uma Cúpula do Clima, no ano passado, por não ter nada a anunciar de concreto.

Agora, o novo chanceler Carlos França tenta mudar o tom, recuperando princípios básicos da diplomacia brasileira, entre eles o apoio ao multilateralismo e aos tratados internacionais.

Mas sem credibilidade e até ridicularizado, o presidente enfrenta uma comunidade internacional que, antes de voltar dar algum crédito para o brasileiro, espera ver a reconstrução de instituições, a defesa do estado de direito, a retomada de políticas e estratégias sociais e ambientais que foram desmontadas pelo governo em apenas dois anos e meio.

E, para isso, experientes negociadores alertam que Bolsonaro terá de mudar muito mais que seu discurso. E isso não está nos planos do Planalto.

segunda-feira, 20 de setembro de 2021

Brasil diário

 


Bolsonaro desperdiça verba pública para envergonhar os brasileiros na ONU

Sejamos claros: A viagem de Bolsonaro a Nova York, para discursar pela terceira vez na abertura da Assembleia Geral da ONU, é uma inutilidade a serviço da desmoralização do Brasil. Ele desembarcou na cidade no domingo. Por determinação do serviço secreto americano, teve de entrar no hotel pela porta dos fundos para evitar contato com manifestantes que gritavam na entrada: "Fora, Bolsonaro." Saiu para comer à noite. Foi obrigado a mastigar pizza com auxiliares na calçada, pois apenas os vacinados têm acesso aos restaurantes nova-iorquinos.

Sejamos diretos: Sob Bolsonaro, a imagem do Brasil no estrangeiro tornou-se um borrão no qual se misturam o vexame sanitário, os arroubos antidemocráticos, a estagnação econômica e a destruição ambiental —não necessariamente nessa ordem. Bolsonaro realizou o pesadelo que frequentava os sonhos de Ernesto Araújo. O ex-chanceler dizia que se a atuação do governo bolsonarista faz do Brasil "um pária internacional, então que sejamos esse pária."

Por último, sejamos didáticos: Até aqui, em matéria de diplomacia, Bolsonaro fez o pior o melhor que pôde. Conseguiu desfazer a boa imagem do Brasil no estrangeiro. Para começar a refazer o que desfez, o presidente teria de conciliar duas necessidades conflitantes: ser Bolsonaro e preservar minimamente o interesse nacional. Mas as manifestações prévias reforçam a suspeita de que Bolsonaro e interesse nacional são mesmo dois elementos inconciliáveis.

O capitão já avisou que defenderá na ONU o chamado marco temporal, que limita a demarcação de terras indígenas às áreas ocupadas pelos índios em 1988. Ele alega que fala em nome do agronegócio. Na verdade, ecoa os interesses do ogronegócio, aquele pedaço de lavoura arcaico que invade, desmata e queima. Voar até Nova York para expor numa vitrine planetária posições retrógradas, que afugentam o capital estrangeiro, é uma variante nova do velho hábito de jogar dinheiro público pela janela. O brasileiro paga para passar vexame.

Eu mi(n)to

“Mentiram-me. Mentiram-me ontem e hoje mentem novamente/Mentem de corpo e alma, completamente/E mentem de maneira tão pungente/que acho que mentem sinceramente”. Poema de Affonso Romano de Sant’Anna, A implosão da Mentira (Ed. Global, 2007).

Atualíssimo. A mentira é um pecado que cometemos diariamente. Pequenas, grandes, convenientes, analógicas, digitais. Segundo Otto von Bismarck, “Nunca se mente tanto como na véspera das eleições, durante a guerra e depois da caça”.

Há uma exceção à regra: o líder político elevado à categoria de mito. Ele mente autenticamente; diz o que pensa; no imaginário dos fanáticos seguidores é a encarnação da verdade absoluta.


Assim é o Presidente Bolsonaro. Um golpista confesso. Não mentiu para os brasileiros nem botou a máscara de democrata. Delimitou o quadrado de três lados quando definiu o espaço de sua relação com o poder: só largaria “morto, preso e com a vitória”. Eliminou uma das regras de ouro da democracia: a alternância pacífica do poder para os que perdem a eleição.

Tentou liquidar a eleição, outra regra de ouro da democracia, quando, em manobra diversionista, ocupou o espaço do debate político, ao arguir preventivamente a fraude das urnas eletrônicas. Seguiu o fracassado exemplo de do seu inspirador, Donald Trump.

Enquanto os brasileiros sofrem com a agonia de cada dia, o Presidente continua sua marcha obsessiva em continuar no poder, ultrapassando limites das regras do jogo e apostando no ambiente da radicalização e fragmentação das oposições.

O campo das oposições busca uma forma de se livrar de Bolsonaro. A solução é simples: a democracia aponta o caminho das eleições de 2022. O governo tem data marcada para acabar. As lideranças e grande parte da sociedade brasileira, espremidas pelo barulho das extremas, não discutem nem se articulam para construir um projeto estratégico capaz de enfrentar os problemas concretos das pessoas e, ao mesmo tempo, encarar os grandes desafios de um mundo em acelerada transformação.

Se, ao longo do percurso, houver um agravamento da crise institucional e se caracterizarem pressupostos jurídicos e políticos, a democracia, também, aponta a solução: o impedimento de Sua Excelência.

Os prejuízos do desgoverno afetam a sociedade. Para não ser repetitivo quanto à gravidade da situação, basta atentar para o que disse, em recente entrevista, o competente economista Pérsio Arida: “Os investidores veem o Brasil como um pária”.

Parafraseando Manuel Bandeira: “Cavalinhos andando. Cavalões comendo. O Brasil politicando”. O povo empobrecendo e muita gente morrendo.

Uma pausa para a emergência

Neste momento em que a confusão política é menos intensa, observo que, nos grupos que sigo nas redes sociais, há um sério debate sobre o futuro do país. Sinto não participar ativamente por falta de tempo e, às vezes, boa conexão.

Não tem mais validade aquele verso de Drummond: “Ao telefone perdeste muito tempo de semear”. As pessoas estão semeando ideias, e espero que um dia sejam levadas à prática, embora a mediação do mundo político real tenda a neutralizá-las.

De minha parte, se pudesse contribuir agora, tentaria levar mais diretamente ao mundo político a ideia de uma emergência ambiental. Não há trégua nesse campo. Bolsonaro pode, apesar da relutância, aceitar a vacinação, atenuar suas frases no cercadinho, esquecer, momentaneamente, o voto impresso. Mas seu projeto de devastação dos recursos naturais é diuturno, não para nos feriados, nem com bloqueio de caminhoneiros.


Na sua cabeça, não é uma política destrutiva. Pensa na riqueza material, num conceito de progresso. Possivelmente, assim pensava a elite capixaba quando arrasou a Mata Atlântica, processo magistralmente descrito por Warren Dean no livro “A ferro e fogo — A história e a devastação da Mata Atlântica brasileira”.

Agora, as cidades do Oeste de Santa Catarina decretaram emergência por causa da seca, o reservatório de Ilha Solteira, em São Paulo, está no nível mínimo, e a Chapada dos Veadeiros arde em Goiás.

Não se trata de abordar a emergência apenas pelo ângulo planetário com base nos dramáticos relatórios da ONU. É possível partir daqui de dentro para o mundo. O Brasil está secando, perdermos 15,8% de nossa água doce em três décadas. Os incêndios no Pantanal mataram 17 milhões de animais.

E essa matança pelo fogo se completa com as balas. Como diz um morador da Serra da Bodoquena, agora que as armas são mais acessíveis:

— Morrem onças porque comem o gado; queixadas e catetos, porque comem o milho; antas e pacas, porque a carne é boa.

No momento em que acabo de concluir uma série de programas para uma temporada, sinto-me atraído pela possibilidade de documentar a crise hídrica, que considero histórica. Não no sentido comum, pela simples comparação de níveis dos rios e reservatórios e intensidade de chuva, uma espécie de variação dentro de um fenômeno regular.

Considero a crise histórica porque representa um momento de inflexão. Nunca mais seremos o país com riqueza de matas e abundância de água como costumamos nos imaginar. Todos os grandes biomas brasileiros estão sob ataque.

Não tenho outro caminho, exceto documentar essa perda. Nem há exílio possível. Conheci as asperezas do exílio, estudei o tema mais amplamente no livro de Maria José de Queiroz “Os males da ausência — Ou a literatura do exílio”. Pessoalmente, encontrei exilados que eram órfãos de um Estado, como os palestinos, os eritreus.

Mas é difícil imaginar o exílio de um país que deixou de existir, não como unidade política, mas como entidade física, sem a beleza e a exuberância que não só encantam o mundo, mas nos ligam a ele.

Ainda haveria tempo de buscar o desmatamento zero na Amazônia, de recuperar as principais bacias hidrográficas, de estancar a matança no Pantanal, a destruição do Cerrado, a liquidação do que restou da Mata Atlântica. Isso podia suscitar também uma grande cooperação internacional.

Mas o que predomina hoje no governo e, infelizmente, entre os militares, é uma certa noção de progresso e uma grande desconfiança em relação ao mundo. O Brasil vai se tornar um espelho de seu universo mental.

Pelo menos, é possível documentar a tragédia, à espera de uma tomada de consciência, algo que os eventos extremos já estão provocando no mundo.

A emergência ambiental figura no topo da agenda de alguns líderes mundiais. A preservação da Amazônia é uma aspiração da maioria do nosso povo. Vamos esperar que, por algum milagre, isso seja um tema nas eleições de 2022 e que funcione como mais uma pedra no sapato de Bolsonaro.

O Brasil pode se tornar a imagem da extrema direita, mas será tão árida quanto a alma dessa corrente política.

A conspiração da ignorância

A realidade não nos tem dado sossego. O mundo avança por caminhos imprevistos. Há muito tempo que a energia motriz das nossas sociedades não é o petróleo, o carvão ou, mesmo, a eletricidade. O combustível com que atestamos a cabeça e o ânimo é a informação. É ela que nos põe em movimento. Com inúmeras formas, a informação chega de todos os lados, catalisada pela internet, multiplicada por mil. Talvez essa avalanche de perspetivas e interpretações, ajude a explicar esta situação. Talvez as extremas guinadas da atualidade noticiosa contribuam para a ideia de que tudo é possível.

Uma pandemia mundial, quem poderia imaginar? Para lá da quantidade considerável de epidemiologistas, tanto profissionais, como amadores, duvido que alguém conseguisse prever o que temos atravessado desde o início de 2020. Perante tal surpresa, não admira que haja quem duvide. Os já famosos negacionistas são gente com uma grande confiança nos seus sentidos, na sua experiência pessoal e nas suas fontes informativas.


Com ou sem pontuação, com ou sem maiúsculas, exprimem-se nas redes sociais e, às vezes, na rádio ou na televisão, naqueles programas que recebem telefonemas do público. Manifestam-se de peito feito, desafiantes, destemidos perante nenhuma ameaça percetível. Quando dizem eles referem-se ao mundo inteiro. Quando expõem ideias sobre a pandemia, o principal argumento que apresentam é de que não viram e não conhecem ninguém que tenha visto.

Suponho que não tenham amigos entre a comunidade de trabalhadores das análises clínicas. Para além desse detalhe, aquilo que me parece mais interessante é esta forma extravagante de analisar e avaliar o mundo: apenas existe aquilo que já se viu e experimentou. Consideremos por um instante a imensa quantidade de assuntos que nunca vimos à nossa frente, mas que acreditamos existir, contamos com eles na nossa conceção da existência.

No entanto, não é possível dizer apenas que não. Sempre que se nega alguma coisa, está implicitamente a afirmar-se o contrário ou uma variação daquilo que se nega. Quando avaliados a partir de outro ângulo, os negacionistas são muito mais afirmacionistas do que se poderia julgar numa primeira e apressada leitura.

Por espantosa ironia, os mesmos indivíduos que nos encorajam a desdenhar daquilo que não testemunhámos, pedem-nos para acreditar em conspirações secretas internacionais, em extraterrestres que ocuparam o planeta e se fazem passar por seres humanos, em seitas satânicas que controlam as elites mundiais, que praticam a pedofilia e se alimentam de sangue para rejuvenescer. Nenhum deles testemunhou realmente estes terríveis factos, apenas os encontraram descritos na internet por alguém que viu, foram-lhes enviados numa corrente anónima de mensagens nas redes sociais.

Ou seja, chegámos ao ponto em que, abertamente e sem pudor, se escolhe aquilo em que se acredita. Basta que exista um fluxo contínuo de “informação” a abastecer e a desenvolver essas ideias e, também, que exista uma comunidade disposta a acolher quem chega, a tratá-lo como um dos seus. Dá um certo conforto acreditar em conjunto, independentemente da crença em causa.

Antes, estas pessoas já existiam. Eram o maluco da aldeia, o excêntrico rancoroso. Agora, a tecnologia deu-lhes a oportunidade de comunicarem, de alimentarem em conjunto a sua mania, criaram associações e federações. E há muitas aldeias no mundo, mesmo muitas, cada uma com o seu maluco.

domingo, 19 de setembro de 2021

Do Terceiro Reich até nós

Há versos ou poemas inteiros que grudam na memória e, mudos, passam a nos desafiar para sempre, retornando em particular nos momentos agudos de crise. Entre tais lembranças, difícil deixar de incluir Inquisitorial, de um jovem e talentoso José Carlos Capinan de meados dos anos 1960, ainda no rescaldo da guerra e do vasto sentimento antifascista que ela havia desencadeado.

“O poeta não mente, dificulta” – dizia Capinan –, e a dificuldade que propunha retirava-nos qualquer conforto possível: uma coisa é zombar, levados pelo gênio de Chaplin, do ridículo do Terceiro Reich, mas, de fato, o que faríamos se vivêssemos naquele tempo e tivéssemos de encarar em primeira pessoa o que só depois se revelaria absurdo?

Lição de arte e de vida, sem dúvida. A lição, porém, não implica comparações imediatas, como seria o caso se aplicássemos automaticamente o rótulo infame – fascismo ou nazismo – aos modernos ou pósmodernos movimentos de corrosão da democracia liberal ou, mais apropriadamente, da democracia tout court. Mais adequado é observar o modo como tais movimentos contemporâneos, repropondo em novas bases a figura do homem providencial, buscam arregimentar o povo, ou a “sua” parte do povo, indispondo-a contra as instituições republicanas que garantem as liberdades individuais e os direitos humanos.

Por óbvio, aqui nos valemos da engenhosa fórmula, criada por Yascha Mounk, para descrever a ação dos novos homens fortes. Da Rússia de Putin à Venezuela de Chávez e Maduro, países e estruturas políticas variam e personalidades podem não ser decalques umas das outras, ainda que haja entre elas imitadores baratos. Contudo, há algo de inquietantemente regular nos procedimentos que, hoje, buscam dissociar democracia e liberalismo e instaurar o cerco populista aos mais variados “Capitólios”, inclusive o nosso.


Deixando de lado os fatores “estruturais” da grande transformação, que põem de pontacabeça as relações entre economia e sociedade, nação e mundo, as respostas regressivas apoiam-se sempre em pesados elementos ideológicos, no sentido mais negativo do termo.

Há quem tenha detectado, como os autores de um relatório da controvertida Rand Corporation (Paul & Matthews, The Russian ‘Firehouse of Falsehood’ Propaganda Model , de 2016), a matriz putiniana do emprego maciço e coordenado de meias-verdades e mentiras consumadas, criando uma realidade paralela a partir da qual milhões de pessoas interpretam a realidade, fazem escolhas e se orientam, ou desorientam, na vida real. Não há ideologia inocente e não deixa de ser curioso que, aceita a hipótese da origem putiniana, haverá algum resquício de tipo “soviético” nas técnicas manipulatórias que se disseminaram, com o Brexit e a eleição de Trump, nos países ocidentais mais emblemáticos.

O “jato de mentiras” que jorra da boca dos autocratas não é um simples meio de “desviar a atenção” de questões incômodas para o governante ou fazer com que a sociedade se distraia de outros assuntos mais cruciais. Tal efeito não está de modo algum excluído, muito ao contrário, mas nos interessa sublinhar que este tipo de violação da linguagem é que permite a imposição de estratégias para a extração do consenso ao menos passivo de expressivos contingentes da sociedade.

Um consenso ativo pressuporia, por parte das camadas dirigentes, recursos hegemônicos capazes de dinamizar a vida cívica, enriquecer as formas da política e incorporar forças e ideias divergentes e até antagônicas num contexto de liberdade e pluralismo. Mais democracia, portanto, e não menos. À falta de tais recursos, a direita populista e iliberal dos nossos dias, ao contrário do que queria o poeta, mente e dificulta, corrói as instituições e faz adoecer as palavras. Congênita a ela é a busca obsessiva e paranoica do inimigo geopolítico e dos seus agentes internos a serem aniquilados, numa imóvel guerra fria que se limita a substituir espantalhos: antes, a Rússia de 1917, agora a China de 1949.

A liberdade que a direita autocrática apregoa é internamente contraditória. Ela é, acima de tudo, a liberdade do indivíduo autarquicamente concebido, desembaraçado de vínculos e obrigações, e armado até os dentes para defender o que discricionariamente entende ser seus “direitos”. A contradição interna fica patente quando se observa que, para fazer valer a liberdade sem laços e os direitos sem contrapartida, torna-se necessária a implantação de um Estado baseado, primariamente, na força e, secundariamente, na fabricação artificial do consenso. Em resumo, na mentira, na distorção e na enfermidade de palavras e sentidos.

Elites políticas, de direita, centro ou esquerda, dirigentes econômicos e cidadãos comuns, como qualquer um de nós, quase podemos “tocar” na história que se desenrola à nossa frente, com seus fatos e personagens precários e bizarros. É verdade, não estamos em 1930 e os embriões de Hitler e Mussolini não passam disto: embriões. O Inquisitorial, no entanto, continua a incomodar e a tirar o fôlego: “Tu, ante o presente, / Como te defines ao que será passado?”.

Não estamos em 1930 e os embriões de Hitler e Mussolini não passam disto: embriões.

Sem política social, apenas interesse eleitoral

O governo de Jair Bolsonaro não tem política pública social. Alega não dispor de recursos. No entanto, Bolsonaro tem dinheiro para agradar a sua base eleitoral. Na segunda-feira, o governo e a Caixa Econômica Federal anunciaram uma nova linha de financiamento imobiliário, com juros subsidiados, voltada exclusivamente para policiais e bombeiros.

Num Estado Democrático de Direito, no qual vigora o princípio da igualdade, é inconstitucional que algumas categorias profissionais sejam privilegiadas com juros mais baixos, enquanto o restante da população não tem acesso ao benefício. Por que um policial deve ter mais facilidade para comprar a casa própria do que uma professora, uma enfermeira, uma assistente social ou um motorista de ônibus, por exemplo?


Por definição, políticas públicas devem atender quem mais precisa. Os recursos públicos não podem ser usados para beneficiar familiares, amigos ou base eleitoral de um político. Tal restrição é evidente. O dinheiro público deve atender ao interesse público, não a objetivos particulares.

Segundo o governo, o novo programa de subsídio de juros receberá R$ 100 milhões do Fundo Nacional de Segurança Pública. Ora, o objetivo desse fundo é apoiar projetos na área de segurança pública e prevenção à violência, segundo as diretrizes do Plano Nacional de Segurança Pública. São recursos que devem servir a toda a população. Seu destino não é favorecer funcionários públicos envolvidos na segurança pública.

A concessão de privilégios por parte de Bolsonaro a policiais e bombeiros não apenas tem um explícito caráter eleitoreiro – usa e abusa do cargo para tentar se manter no poder –, mas evidencia desprezo pela situação da população. Sempre, mas especialmente num quadro de crise social e econômica, é preciso priorizar quem mais necessita.

Num cenário de crescimento acelerado da pobreza e da extrema pobreza, com cada vez mais pessoas em situação de extrema vulnerabilidade, o presidente Bolsonaro, como se fosse um vereador, anunciou que sua base eleitoral poderá comprar a casa própria com juros subsidiados pelo restante da população. Eis um governo que prima pela total ausência de solidariedade.