terça-feira, 28 de maio de 2019

Pacto nada! Bolsonaro quer colar no Congresso e no STF a pecha de acuados

O presidente Jair Bolsonaro convidou os presidentes da Câmara, do Senado e do STF — respectivamente, Rodrigo Maia (DEM-RJ), David Alcolumbre (DEM-AP) e Dias Toffoli — para um café na manhã no Palácio da Alvorada. Estarão presentes também Onyx Lorenzoni, chefe da Casa Civil, e Augusto Heleno, do Gabinete da Segurança Institucional. A ideia seria estabelecer um pacto entre os Poderes em favor das reformas da Previdência e tributária, da revisão do pacto federativo, da desburocratização e de medidas em favor da Segurança Pública, segundo informa a Folha.

Entendi. Bolsonaro convoca seus radicais, eles vão às ruas, esculhambam os outros dois Poderes, o presidente os aplaude e ataca as tais "velhas práticas" da política, diz que Centrão é sinônimo de palavrão, ajuda a divulgar vídeos que atacam o STF e o Legislativo e, bem…, aí vem a proposta de um pacto.

Já vivi o bastante para saber que, por aí, nada acontece. Maia, o principal alvo dos ataques de rua, poderia até engolir brasa acesa. Mas e os outros parlamentares? O presidente do STF tem liberdade para definir a pauta, mas não tem como decidir os votos dos demais ministros.


Nem a retórica que sustenta o convite está ajustada. Bolsonaro está fazendo tal convite porque sabe que atravessou o samba e que o apoio à agressividade palavrosa oriunda das manifestações aumentou a tensão entre os Poderes em vez de diminuir. Rêgo Barros, que não tem voz própria e porta a voz do presidente, explicou a coisa assim:
"As manifestações são um sinal de que a sociedade não perdeu as esperanças e de que seus anseios serão escutados pelos dirigentes do país. Esta voz das ruas não pode ser ignorada. É hora de retribuirmos este sentimento. O que devemos fazer agora é um pacto pelo Brasil. Estamos todos no mesmo barco e juntos podemos mudar o país".
Entendi. Então quem está convocando os respectivos presidentes das duas Casas do Congresso e do STF são as ruas? Mas esperem: nesse caso, Maia, Alcolumbre e Toffoli, que presidem entes que dizem respeito a todos os brasileiros, devem ignorar as ruas no dia 15? Ou aquelas vozes não valem?

Bolsonaro até agora não entendeu que ele é presidente de todos os brasileiros — inclusive dos que não votaram nele. E os outros três comandam Casas que pertencem ao conjunto da população; não são líderes de facções ou de milícias. Nem Bolsonaro deveria sê-lo.

Pacto com o quê? Bolsonaro nem mesmo consegue, em benefício do governo, fazer com que senadores com ele alinhados optem pela coisa certa no Senado no caso do destino do Coaf.

Um pacto supõe uma pauta, um comportamento e um compromisso. Ocorre que nunca se sabe quando Bolsonaro pode transformar aliados em inimigos.

De novo, vem a pergunta legítima: se, correndo hoje tantos riscos, como o de a MP 870 caducar, Bolsonaro trata os demais Poderes aos tapas, por que os trataria aos beijos caso venha a conseguir as coisas que deseja?

Dada a retórica do porta-voz, o presidente quer forçar a mão para consolidar a versão de que as ruas intimidaram Legislativo e Judiciário. O encontro, dois dias depois das ofensas disparadas, passa a impressão de que Maia, Alcolumbre e Toffoli estão com medo.

Bolsonaro não quer, de fato, café da manhã com ninguém. Ele chamou os homens que comandam o Legislativo e o Judiciário para tentar colar neles a pecha de acuados pelas ruas — que, no caso, são as ruas bolsonaristas.

Até porque, num pacto, as pessoas sempre cedem. Bolsonaro estaria disposto a ceder em quê?

O tamanho do 'mito'

Quem apostou no fracasso das manifestações de apoio ao presidente Jair Bolsonaro no último domingo perdeu. Foi uma dupla demonstração de força: primeiro, do poder de mobilização de uma militância aguerrida e ideologicamente alinhada com seu líder; segundo, da capacidade de direção política dos protestos, que foram convocados para confrontar o Congresso e o Supremo Tribunal Federal (STF), mas acabaram redirecionados para apoiar o presidente da República e a reforma da Previdência. Não é pouco.

Também perdeu quem apostou no emparedamento do Congresso e do Supremo, ainda que Bolsonaro tenha acarinhado seus partidários radicais com sua declaração de que o ato foi um protesto contra as “velhas práticas”. Motivação inicial dos protestos, essa intenção foi sendo frustrada por setores que apoiam o presidente da República, mas não são radicais, situam-se no espectro da centro-direita. Esses setores mais moderados estão ancorados nos ministros políticos, militares e técnicos que compõem o governo e não reproduzem a lógica do grupo ideológico que cerca o clã Bolsonaro. O agrupamento moderado faz o presidente da República ser maior do que o “mito”.


Como nos ensina o mestre Norberto Bobbio, todo governo é a forma mais concentrada de poder; porque as funções essenciais do Estado, que são normatizar, arrecadar e coagir, fazem dele o eixo da vida nacional. O poder do Estado, cujo vértice é a Presidência, é muito maior do que o carisma do líder, ainda que esse carisma seja uma via de chegada e conservação do poder. Essa relação é ainda mais complexa na democracia, porque existem as mediações do Congresso (que normatiza) e do Supremo (que delimita a autoridade). Talvez a melhor conclusão que possa se tirar das manifestações de domingo seja a separação das coisas, ou seja, deram mais nitidez entre o que é o poder do Estado e o carisma do “mito”.

Isso é bom para todos, porque há gente no governo que ainda não sabe separar alhos de bugalhos. Misturar essas coisas foi um dos defeitos do governo Lula, cujo enorme carisma era acompanhado também de grande capacidade de negociação. Juntando o poder do Estado com seu magnetismo popular, o petista abduziu do Congresso a grande política, levando toda a mediação do mundo dos interesses, tanto do trabalho como do capital, para o Palácio do Planalto. Restou ao parlamento a pequena política, cujo subproduto foi a propina miúda dos negócios, porque as grandes negociatas, essas rolavam mesmo é nos ministérios e nas estatais, sobretudo a Petrobras. Dilma não tinha a mesma capacidade de mediação, enveredou por um caminho desastroso na economia e acabou apeada do poder, pelo povo na rua e pelas raposas do Congresso. A Operação Lava-Jato se encarregou, depois, de passar o rodo em quase todo mundo que meteu os pés pelas mãos.

Ao não lotear o governo e recusar o chamado toma lá dá cá, o presidente Bolsonaro devolve a grande política ao Congresso, que está recuperando sua capacidade de mediação com a sociedade, embora o custo disso seja certa instabilidade política e muitos desencontros com o governo, inclusive de sua base. O fato de o governo ter fortes características bonapartistas é contrabalançado pelo fortalecimento do Congresso como espaço da grande política e da negociação com a sociedade, e não do transformismo e do cretinismo parlamentar. Essa é uma visão otimista, digamos assim, mas verdadeira. O debate sobre a reforma da Previdência revela que a Câmara está nesse rumo; o fato de a reforma tributária entrar em discussão à revelia do Palácio do Planalto, para fortalecer a Federação, tem o mesmo significado. Pode ser que dessas tensões com o Executivo resulte uma relação mais saudável entre os poderes da República.

Isso também vai depender do Congresso, em particular das forças de centro-esquerda que apoiam as reformas e da esquerda formada pelo PT e seus aliados históricos. Fragilizadas pelo resultado das urnas — ficaram de fora do segundo turno —, as forças de centro-esquerda se rearticulam no Congresso em torno do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e do apoio às reformas. A emergência de outros atores nos governos estaduais, sobretudo João Doria (PSDB), em São Paulo, pode até resultar no surgimento de uma alternativa de poder fora do eixo da polarização Bolsonaro-Lula.

Já que falamos no nome do santo, vamos falar do milagre: o Lula livre! é um beco sem saída para o PT, serve para manter o partido agrupado e aguerrido, mas não para romper o isolamento. Retroalimenta a narrativa olavista e sua capacidade de mobilização. Essa polarização, que se impôs no primeiro turno das eleições passadas, pavimentou o caminho das alianças de Bolsonaro com os setores moderados. Vem daí a falta de iniciativa política dos partidos de esquerda a reboque do petismo, cuja bandeira de resistência absoluta às reformas é uma espécie de quanto pior, melhor.

O plebiscito permanente do bolsonarismo

Não importa o volume das manifestações governistas de domingo. Avalio que foram de porte razoável e de caráter nacional tanto quanto expressivas de uma mentalidade autoritária, resumida no ataque direto ao Parlamento — motor original dos atos e ímpeto antidemocrático cujo propósito, apesar da competente campanha que tentou limpar a barra pesada das convocações, não se conseguiu disfarçar: o de esmagar o Legislativo sob a convicção de que o Congresso, o inimigo, sindicato do crime, seja poder menor destinado a mero despachante dos desejos do governante popular, um imperador eleito, um guerreiro de todos os lados acossado pelo monstro chamado establishment.


O tamanho e a representatividade dos protestos, porém, sempre independerão dos fatos, matéria que são para guerra de versões. Como escrevi: não importa. O que interessa tampouco deriva do sucesso populacional das manifestações e da qualidade de suas pautas — e pode ser resumido numa pergunta: em que os atos contribuem para a agenda de um governo que se vende como reformista e que, para ter êxito na empreitada, necessitará de mínima estabilidade? Mais precisamente: qual a aposta contida em dar vazão — com estímulo oficial desde o Planalto, inclusive do presidente — a uma estratégia de intimidação contra um Poder da República do qual o Executivo precisará?

Nesta altura, só uma questão resta — dado que o erro político está cometido: o quanto tamanha burrice atrapalhará. Como recado ao ingênuo que espera alguma perspectiva de equilíbrio para se planejar, a estupidez patriota é clara: o governo, dirigido pela força reacionária bolsonarista, escolheu a campanha permanente e não perderá chance de plantar polarizações. É caminho tomado por quem desconhece a história ou se julga habilitado a desafiá-la: um governo que se move sob linguagem de oposição, ainda aos cinco meses, apostando em apoio popular constante, é um que cansa e se cansa.

O bolsonarismo investe na fundação de uma cultura plebiscitária como mecanismo para esvaziar-desqualificar o Congresso e anabolizar um canal de comunicação direta entre líder carismático e povo. É fetiche totalitário antigo e que tem exemplo recente na Venezuela — um país de instituições devastadas pela imposição populista dos governantes e que expõe sua paralisia em disputas tribais sobre quem reúne mais esfomeados na rua.

Não acredito, por óbvio, na viabilidade desse norte plebiscitário: porque o Brasil não é a Venezuela e tem a faca afiada (e prática) de um mercado que compra (pagou caro por Bolsonaro) tão rápido quanto vende (barato) se diante de uma alternativa de negócio; porque a população, saturada de discurso político-eleitoral, elegeu Bolsonaro, um forte, para resolver o problema, e não para se apregoar vítima e pedir socorro; porque o povo não tarda a perceber que essa batalha partidária nas ruas equivale a país travado (um que não gera empregos); e porque não há quem, não sendo fanático ou estando a serviço, cegue-se longamente em fumaça que pretenda camuflar incompetência.

O governo Bolsonaro tem natureza — a imprevisibilidade — avessa ao princípio básico do que seja governar, o que é agravado pela alarmante incapacidade de gestão. E o investimento permanente em conflitos, essa verdadeira forja de crises institucionais que anima o bolsonarismo, apenas radicalizará o que é óbvia constatação: a de que um programa de reformas liberais, como o de Paulo Guedes, não tem meios de prosperar, senão modestamente, num ambiente de instabilidade como regra.

A reforma da Previdência já passou, será aprovada, e será razoável, independentemente de governo — e essa também é mensagem captada por quem gira a roda do dinheiro. Mas: e depois? Qual a força política — para concretizar a retórica reformista estrutural — de um governo que veste a antipolítica, que se pensa eleito para ser uma nova etapa da Lava-Jato e que considera a formação de base de apoio parlamentar uma atividade criminosa, o que significa informar ao mundo que fará “articulação” (com quem considera bandido) caso a caso, projeto a projeto, multiplicando confrontos como os vistos até agora? Não é sustentável.

O mercado financeiro, fiador de Bolsonaro como alguém domável pela razão produtiva, já mediu e pôs preço na limitação incontornável do presidente, e está ávido por embarcar na engenharia que se projeta para minimizar o prejuízo e tocar a canoa da administração de danos até 2022: o parlamentarismo informal que parece unir “governo Guedes” e o poder moderador em que consiste o Congresso, uma costura que se dedicaria a um pacote enxuto de reformas econômicas e que ceifaria — ceifará — a agenda de costumes que dá identidade ao bolsonarismo.
Carlos Andreazza

Brasil se esfarelando


Bolsonaro tira das ruas suas próprias confusões

O asfalto forneceu as informações. E Jair Bolsonaro tirou suas próprias confusões. O capitão obteve das ruas um respaldo sólido o bastante para espantar a assombração de um impeachment precoce. Mas o meio-fio não lhe deu musculatura suficiente para emparedar o Congresso. Ao contrário, na comparação com o protesto estudantil de 15 de maio, os atos deste domingo revelaram-se menores. As conclusões são óbvias: A conjuntura continua envenenada. E não há melhor antídoto do que a saliva. Entretanto, tomado por suas confusões, Bolsonaro planeja continuar trafegando na contramão.

Em entrevista à Record, sua emissora predileta, Bolsonaro soou como se considerasse um crime dialogar. Referindo-se à reforma da Previdência, afirmou: "Eu te pergunto: O que tenho que fazer? Ir para dentro do Parlamento conversar? Não é uma boa prática. Se nós não enfrentarmos isso, e rápido, o Brasil pode sucumbir economicamente, como o ministro [da Economia] Paulo Guedes já falou." Foi como se declarasse: "Já fiz a minha parte. O povo está comigo. Se não quiser fechar o Posto Ipiranga, o Congresso que engula a proposta e não chateie."

Mais cedo, num culto evangélico, Bolsonaro havia afirmado que a manifestação pró-governo revelara "um firme propósito de dar um recado àqueles que teimam, com velhas práticas, em não deixar que o povo se liberte." Na entrevista televisiva, o capitão refinou sua mira:

"Centrão virou um palavrão. A melhor maneira de mostrar que não tem motivo de satanizar esse nome é ajudar a votar aquilo que interessa para o Brasil. Agindo dessa maneira, haverá reconhecimento por parte da população. Acredito que uma parte considerável dos parlamentares não quer ser rotulada de Centrão, o grupo clientelista, ou aquele grupo que quer negociar alguma coisa para votar."



De fato, quem olha de longe não enxerga inocentes no centrão, só culpados e cúmplices. O problema é que esse aglomerado partidário concentra algo como 200 dos 513 votos da Câmara. Nesse contexto, cabe indagar: Se Bolsonaro fala sério quando diz acreditar que um pedaço do centrão deseja se livrar da pecha clientelista, por que não conversar? Ou por outra: como um presidente minoritário fará para prevalecer no Legislativo sem um diálogo consequente com parlamentares novatos e legendas independentes, que fogem do contágio com o centrão?

Alguma coisa subiu à cabeça de Bolsonaro. Deve ter subido pela escada, pois certos raciocínios do presidente parecem ter fôlego curto. Não conversa com o centrão, mas quer estreitar sua inimizade com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, um dos principais alvos da manifestação deste domingo.

"O Rodrigo Maia é uma pessoa diferente de mim", afirmou o entrevistado. "O que eu falo, os ministros cumprem aquele objetivo, mas ele não tem esse poder dentro da Câmara, porque cada partido tem uma direção."

Ai, ai, ai... Bolsonaro exerceu mandato parlamentar por 28 anos e não notou que o Congresso não é como um governo, onde todos se colocam —ou deveriam se colocar— a serviço dos mesmos fins.

O Legislativo existe para abrigar os conflitos. Contém ao mesmo tempo uma coisa e o seu contrário. Abriga parlamentares que perseguem um determinado objetivo e outros que defendem o oposto. Se compreendesse essa lógica, Bolsonaro talvez percebesse que sua Presidência seria menos atribulada se tentasse convencer pelo diálogo em vez de imaginar que pode prevalecer aos solavancos.

As confusões que Bolsonaro tira das ruas estimulam conclusões pouco animadoras. Fica-se com a sensação de que o presidente supervaloriza o "Messias" que carrega no sobrenome. Se Deus pudesse escolher um lugar para morar, a despeito da instabilidade, esse lugar seria o Brasil. Como não pode, Bolsonaro imagina ter plenas condições de representá-lo. Falta convencer o pedaço do Congresso que enxergou nas ruas deste domingo evidências de que o "messias" do Planalto nunca esteve tão sujeito à condição humana.

A economia derrete sob Bolsonaro

Sete meses atrás, numa tarde de domingo, Jair Bolsonaro se elegeu presidente de um país com 12 milhões de desempregados.

Sucedeu a um fragilizado Michel Temer, sobrevivente de três tentativas de cassação na Justiça Eleitoral e na Câmara. Temer conseguira domar a inflação e reverter a tendência de declínio da economia. Recebeu de Dilma Rousseff um Produto Interno Bruto em queda de 4%. Entregou com crescimento de 1%.

Vinte e oito semanas depois, a fila de desempregados aumentou para 13,4 milhões. A perspectiva de recuperação se esvaneceu. No Brasil de Bolsonaro, economistas já disputam adjetivos — estagnação ou depressão.


O presidente se entretém na caça a fantasmas do sepultado comunismo, estimulando sectarismo e manifestações de apoio ao governo. Em cinco meses, da sua caneta saiu apenas uma iniciativa para imediata criação de empregos — na produção de armas.

Bolsonaro pode não ter percebido, mas o país derrete sob seu comando. Deveria ver o caso de São Paulo, onde há sete meses obteve 15,3 milhões de votos (67,9%), com uma vitória acachapante em 631 das 645 cidades.

São Paulo se asfixia em perdas econômicas intensas, disseminadas e reincidentes. A indústria completou três trimestres de queda na produção. Em março, a recessão difundia-se por 72% dos setores industriais, sem perspectiva de reversão para veículos, alimentos, eletrônicos, máquinas e equipamentos.

Mas essa não é uma peculiaridade paulista. O IBGE já constatou declínio em dez dos 15 estados com base industrial — ou seja, em dois terços dos núcleos urbanos mais ricos, onde a vida depende dos empregos e dos salários mais qualificados.

O presidente vai precisar trocar a diversão nas redes sociais pelo trabalho, se quiser fechar o primeiro ano de governo com crescimento irrisório, em torno de 1%. Com desemprego em alta, população empobrecida, empresas endividadas e sem investimento, ele já preside um país em flerte com a depressão. O tempo passou, e Bolsonaro não viu.

O líder e eu (e ninguém no meio)

Um dos tantos fenômenos imparáveis trazidos pela revolução digital se chama desintermediação. É o que nos leva a reservar voos e hotéis sem passar por uma agência de viagens, e a ter conta corrente sem pisar numa agência bancária. É o que permite que marcas vendam roupas na Internet sem precisar de loja alguma, e que a Netflix produza cinema sem projetá-lo em salas de cinema. A desintermediação poupa custos e incomodidades a empresas e usuários, claro, mas deixa vítimas evidentes: as agências de viagem, as agências bancárias, as lojas de roupa, as salas de cinema. O cliente sempre tem razão. Nos Estados Unidos, soam os alarmas pela velocidade com que fecham os centros comerciais, que em muitos lugares são o verdadeiro centro, a praça das pequenas cidades que não têm forma de cidade, e sim de urbanizações espalhadas entre as rodovias.

Temos um consumo sem intermediários. Mas podemos ter uma democracia sem intermediários? Uma democracia em que o líder diz que só responde ante o povo, sem estruturas como os aparatos dos partidos? Onde o líder se comunica com seus seguidores diretamente, evitando o jornalismo profissional? O mundo digital (embora não só ele) debilitou os establishments político e midiático. É o que Steven Levitsky chama de “democratização das democracias”: antes, os partidos controlavam as candidaturas, e a informação fluía por diversos veículos. Ambas as estruturas tendiam à moderação: competiam para seduzir o cidadão comum.


Hoje, estamos fragmentados e polarizados. Emerge um novo cesarismo. Dirigentes estridentes assumem o controle de partidos velhos, forçados a seguir suas ideias inesperadas, ou criam partidos mais personalistas que os de antes. Como são eleitos nas primárias (nos países com essa regra partidária), não acham que devem nada a ninguém em seu partido, nem se sentem obrigados a integrar suas correntes. Como desprezam os meios de comunicação, não se submetem a coletivas nem a entrevistas incômodas. Em vez disso, comunicam-se pelo Twitter ou fazem circular suas mensagens (quando não notícias falsas) pelo WhatsApp.

Nas redes sociais, manda a mensagem simples (e unidirecional, claro). A política compete ali com o entretenimento, mimetizando-se com ele. Numa democracia sem intermediários, numa sociedade hiperdigitalizada, na política do espetáculo, somos cidadãos ou somos audiência? Eleitores ou followers? Um voto vale o mesmo que um like? Um meme vale o mesmo que um programa político? Existem mais vozes, mas há mais diálogo?

A ágora era uma praça de verdade, uma esplanada onde os antigos gregos se reuniam para debater os assuntos públicos da cidade. Ali nasceu a democracia. Que não aconteça com a ágora o que aconteceu com os centros comerciais presos entre as rodovias. Experimentamos coisas, temos que fazer isso, mas não encontramos nada melhor que a velha invenção dos gregos. E nem antes nem agora estamos a salvo dos demagogos.
Ricardo de Querol

Pensamento do Dia


Nem ao mar nem à terra

Digamos que o resultado tenha sido algo próximo a um zero a zero. A "manifestação" de domingo (26) só não foi um completo jogo de soma nada porque rendeu inúmeras, e algumas até úteis, discussões e análises a respeito do modo "Bolsonaro de governar ao longo da semana anterior.

Por exemplo, traçou uma risca de giz entre os apoiadores racionais do presidente e os adoradores da mítica do mito. Os primeiros resolveram manter distância do movimento, para eles desprovido de sentido e com potencial de risco desnecessário. Os últimos foram às ruas ainda que com a pauta radical bastante desidratada. A maioria pediu o razoável: apoio à reforma da Previdência e ao pacote de medidas anticorrupção do ministro Sergio Moro.

Não chegaram a expressar maluquice a rejeição ao Centrão e as críticas ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia, pois o Congresso ainda tem léguas a percorrer antes de recuperar sua imagem junto à população. Isso independente da posição político-ideológica de cada grupo ou cidadão.

Os fanáticos fechadores de Congresso e linchadores de Supremo Tribunal Federal ficaram relegados à irrelevância como convém a minorias ínfimas. Mesmo elas deixaram de lado a tal pauta de costumes.

Quanto ao volume de manifestantes, ficamos também na soma zero: nem tantos que reforcem as posições e os métodos mais radicais nem tão poucos que pudesse ensejar a conclusão de que o governo cavara uma derrota nas ruas.

Pois aí é que está: nenhum dos lados em embate faz coisa alguma com o rescaldo das manifestações. E, se não deixam legado, é de se perguntar para quê? Até aonde a vista alcança há uma única resposta: só para engrossar a lista de inutilidades produzidas pelo governo em seus ainda incompletos seis meses de mandato. Isto sim pode vir a se configurar relevante mais adiante.

Não digam...

Não digam que fui rebotalho,
que vivi à margem da vida.
Digam que eu procurava trabalho,
mas fui sempre preterida.
Digam ao povo brasileiro
que meu sonho era ser escritora,
mas eu não tinha dinheiro
para pagar uma editora.

Carolina Maria de Jesus

Bolsonaro não deve ter gostado das manifestações de domingo

Um jornalista brasileiro que conhece como poucos o presidente Jair Bolsonaro me garante que ele não deve ter gostado das manifestações deste domingo. Acompanha-o como repórter desde que o hoje presidente era um anônimo deputado do chamado “baixo clero”, essa massa de congressistas às ordens dos cardeais dos grandes partidos que vivem das migalhas de seus banquetes. Desde então, o que sempre distinguiu o ex-militar, diz, foi a briga, a guerra, a defesa da ditadura e da tortura e o desprezo pelos diferentes, dos gays aos negros.


O presidente, que tinha insuflado suas hostes mais aguerridas a saírem às ruas para defendê-lo dos que preferem, segundo ele, um país “ingovernável”, não deve ter se entusiasmado, de fato, com a marcha de milhares de seus seguidoressobre Brasília. Não porque lhe parecessem poucos, já que certamente temia que fossem menos, mas porque preferia que se manifestassem com mais garra, mais radicais, pedindo em coro, por exemplo, o fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal. Fizeram-no só um punhado de vozes isoladas.

Foi, para assombro dele, uma manifestação até pacífica, sem grande aparato policial, em que se defendiam bandeiras que não entusiasmam o presidente hoje em dia, como a aprovação pelo Congresso da reforma da Previdência, indispensável para que a economia do país não desmorone. Tampouco parece interessar a Bolsonaro a tal lei com a qual surpreendeu dias atrás ao garantir que tinha uma proposta para melhorar a arrecadação pública. No final, era a magia ridícula de um suposto imposto sobre a venda de imóveis.

Não deve ter agradado ao presidente tampouco a ênfase que seus manifestantes puseram em exigir a aprovação imediata do projeto do ministro da Justiça, o juiz Moro, sobre o combate à criminalidade e à corrupção. O gigantesco boneco inflável de Moro que dominava a Esplanada dos Ministérios, tratado como “herói nacional”, apareceu no momento em que Bolsonaro se mostra arrependido de ter escolhido o juiz da Lava Jato como um de seus ministros-estrela. A cada dia ele dá sinais de que o juiz, que aparece nas pesquisas com 60% de aprovação nacional, o dobro da que o presidente obtém, perdeu o interesse para Bolsonaro e começa até a lhe dar medo. Defende-o cada vez menos das investidas do Congresso, que abandonou seu projeto. Começa a lhe parecer incômodo.

Aliás, a bandeira da luta contra a corrupção política, identificada no ministro Moro, que foi uma das que deram milhões de votos a Bolsonaro, começou a se desinflar quando surgiram as primeiras notícias de que tanto os filhos do presidente como ele próprio e sua esposa estariam envolvidos em um esquema de corrupção política e em suas perigosas relações com as violentas milícias do Rio, a cujos líderes os Bolsonaro tinham condecorado como heróis. E, como se fosse pouco, começou a cair sobre eles a sombra do assassinato da jovem militante de esquerda Marielle Franco, vítima das milícias em cujas águas nadava toda a família do presidente. E o mistério continua enquanto as pessoas se perguntam o que Moro fará.

Daí que o sonho dos filhos de Bolsonaro e de seu guru, o filósofo ultradireitista Olavo de Carvalho, seja colocar no importante Ministério da Justiça alguém que eles possam controlar melhor. Aquele imponente Moro sendo alçado por seus admiradores em Brasília ao posto de herói nacional deve ter lhe parecido uma provocação.

O presidente teria preferido uma manifestação mais dura, de guerra, com sua gente imitando com as mãos, como ele, o gesto de disparar uma arma, com as crianças arrastando brinquedos de guerra. Uma manifestação que recordasse a luta dura da campanha eleitoral, da qual ele parece não querer ou não saber sair. Parece mais abominar a política como a inventaram os gregos, vista como a arte do compromisso, da negociação, do diálogo com os outros poderes e com a polis.

Antes das manifestações, em um culto evangélico no Rio, o presidente manifestou o que desejava e esperava da marcha de seus fiéis sobre Brasília: “O firme propósito de dar um recado àqueles que se aferram às velhas práticas que não deixam que este povo se liberte”. O recado que ele pedia, e que não se deu, era o de uma clara ameaça de autogolpe.

As velhas práticas, segundo Bolsonaro, seriam a velha política dos conchavos e corrupções em troca de votos no Congresso para aprovar as leis propostas pelo Executivo. Mas ouvir Bolsonaro e seus filhos exaltarem a “nova política”, quando ele e sua família estiveram até ontem inundados na mais velha e rançosa política vivida nos sombrios bueiros do poder, soa mais a escárnio. E, aparentemente, pelo resultado das manifestações, nem sequer todos os seus apoiadores parecem dispostos a lhe seguir nessa perigosa aventura. Agora haverá que esperar seu próximo desafio na rua. Ou lhe terá bastado o deste domingo?

O voto Bolsonaro

Muita poeira tem sido lançada aos olhos dos cidadãos brasileiros, como se um grupo de predestinados operantes em redes sociais e ideólogos de tipo conspirativo tivessem sozinhos ganho as últimas eleições presidenciais. Nem Hércules teria tido a ousadia e a força de tal pretensão!

Não se trata de desmerecer a estratégia adotada nas redes sociais, mas de reconhecer uma realidade muito mais complexa. O voto bolsonarista foi essencialmente um voto do não, de tipo lulista, “contra tudo o que está aí”. Claro que o que estava aí se baseava em outra percepção da realidade, desta feita, a corrupção da experiência petista de governo, o descalabro econômico, seguido do aumento de desemprego, e os efeitos da Lava Jato enquanto fator de regeneração nacional. O não se estendia também ao politicamente correto, que foi imposto goela abaixo aos habitantes deste país, muitos de índole conservadora.


A corrupção petista havia se tornado visível graças à Lava Jato, ao expor o modo de exercício partidário do poder, com o PT se apropriando de recursos públicos com fins pessoais e políticos. Líderes partidários acabaram sendo condenados e remetidos à prisão, num espetáculo que não deixa de ser doloroso para o País, porém necessário do ponto de vista da punição exemplar. Outros partidos e políticos sofreram o mesmo destino, mostrando o caráter suprapartidário de tal operação. A classe política ficou maculada, o que foi muito bem aproveitado pelo candidato vencedor.

No supermercado as pessoas começaram a sentir os efeitos da inflação, ao que se acrescentavam a redução da renda familiar e o desemprego. Pessoas que tinham galgado uma posição social superior, principalmente durante parte dos mandatos do presidente Lula, sofreram o descalabro do governo Dilma, com recessão, juros altos e perda de emprego. Do ponto de vista da percepção pessoal, há enorme diferença entre uma pessoa voltar a uma posição social inferior e dela nunca ter saído. O carro comprado foi vendido, a educação privada dos filhos voltou para a pública e apartamentos foram devolvidos. O caminho estava aberto para o candidato que soubesse dizer não.

O apoio maciço dos evangélicos, que em muito contribuiu para a vitória, teve como uma das suas âncoras a linguagem conservadora do candidato, que soube fustigar sem pena os exageros e os excessos do chamado politicamente correto. As pessoas de índole familiar conservadora não mais aguentavam tal tipo de imposição, qualificada de “progressista”. Se isso era o “progresso”, preferiam não avançar. Diga-se de passagem que mudanças culturais, para serem bem-sucedidas, devem ser feitas homeopaticamente, salvo se pretenderem uma revolução, que, ao fazer economia de meios, produz resultados desastrosos.

Na esteira da crise de valores, a imagem de Jair Bolsonaro terminou por ser beneficiada pelo prestígio social das Forças Armadas. Os militares gozam de excelente reputação na opinião pública, pela retidão de seus membros e por sua defesa intransigente dos princípios nacionais. Em certo sentido, votar no então candidato veio a significar uma volta democrática dos militares ao poder, o que foi reconhecido pelo presidente na constituição de seu Ministério. Note-se, ademais, que é esse grupo que está sendo atacado pela ala ideológica do governo, como se fossem meros intrusos, quando são os mais responsáveis.

Um fator totalmente imprevisível terminou contribuindo decisivamente para a vitória: a facada. As imagens do candidato sofrendo e sua lenta e difícil recuperação o puseram como vítima da violência que prometia erradicar. Horas de televisão foram dedicadas ao ataque e às suas repercussões, criando uma ampla identificação social com a vítima. A simpatia pelo candidato tomou conta da sociedade. Páginas de jornais, rádios e redes sociais cobriam cotidianamente o que estava acontecendo. Nenhum candidato, por mais tempo de rádio e televisão que tivesse, podia equiparar-se a essa superexposição. Nesse período, a eleição se definiu, não tendo o candidato Jair Bolsonaro podido participar de nenhum debate. Apresentação de ideias e de programa de governo tornou-se prescindível.

Hoje se ouvem supostas análises e comentários de que a Câmara de Deputados – e por extensão o Senado – está se recusando a levar adiante a proposta de reforma da Previdência que foi eleita com o novo governo. Ora, o presidente não apresentou, quando candidato, nenhuma proposta de reforma da Previdência, nem, em geral, econômica, salvo pequenas exceções. Não espanta que haja reações. Que a reforma da Previdência é algo essencial, isso salta à vista, basta fazer as contas. Acontece que nem isso foi – e tampouco é – explicado adequadamente. O governo continua imerso em suas contradições.

Teria sido muito mais sensato retomar o projeto de reforma da Previdência do então presidente Michel Temer, que estava pronto para ser votado em plenário. Em vez disso, o governo Bolsonaro quis fazer a “sua” proposta, supostamente “nova”, contra a “velha”. Foi, de fato, a “velha” forma de fazer política, não querendo reconhecer a continuidade das reformas e propostas feitas no curto governo anterior. O resultado é que o País já perdeu um ano!

Por último, convém dizer uma verdade óbvia, que, no entanto, parece estar sendo esquecida. Não é só o presidente que tem legitimidade popular, a do voto, mas também os senadores e deputados. Todos eles foram eleitos conjuntamente num mesmo processo eleitoral. Logo, é uma falácia dizer que os deputados, por exemplo, estão se colocando contra o voto popular, na medida em que eles são, igualmente, o resultado do mesmo voto. A representatividade do presidente é a mesma dos parlamentares. Se não houver esse reconhecimento, o Brasil continuará imerso em conflitos insolúveis, com desfechos que podem ser institucionalmente nocivos.

Os enviados de Deus

Muitos governantes invocam o nome de Deus como escudo, registra a história. Em seu reinado, o ditador Franco, “caudillo da Espanha pela Graça de Deus” referia-se sempre à Providência Divina: “Deus colocou em nossas mãos a vida de nossa Pátria para que a governemos”. A fascista Falange Espanhola o declarou “responsável perante Deus e a história”.

Monarcas justificam tudo pelo direito divino, independentemente da vontade dos súditos. Hassan II, no Marrocos, se declarava descendente do profeta Maomé: “Não é a Hassan II que se venera, mas ao herdeiro de uma linhagem dos descendentes do profeta Maomé”.

Hirohito, imperador do Japão de 1926 a 1989, era visto como divindade. Criou uma aura, distante da população que viveu guerras e mortes. Vestia-se como um “imperador divino e perfeito”, descendente da deusa do sol, Amaterasu.

O ditador Idi Amin Dada, de Uganda, garantia ao povo que conversava com Deus em sonhos, espécie de aval aos seus atos. Um dia perguntaram: “O senhor conversa com frequência com Deus”?“Sempre que necessário”. Já em Gana, os eleitores cantavam assim a figura de Nkrumah:“o infalível, o nosso chefe, o nosso Messias, o imortal”.

Aqui se eleva aos céus a figura de Jair Bolsonaro. A quem um pastor evangélico do Congo, Steve Kunda, assim se refere: "Na história da bíblia, houve políticos que foram estabelecidos por Deus. Um exemplo, o imperador da Pérsia, Ciro. Antes do seu nascimento, Deus fala através de Isaías: ‘Eu escolho meu sérvio Ciro’. E o senhor Bolsonaro é o Ciro do Brasil”.

O nosso Messias jogou o vídeo nas redes sociais. E entoou:“Brasil acima de tudo; Deus acima de todos”.

Para reforçar, o bispo Edir Macedo pede que Deus ‘remova’ quem se opõe a Bolsonaro, acusando políticos de tentarem "impedir o presidente de fazer um excelente governo".

O fato é que os governantes em países atrasados culturalmente e até desenvolvidos organizam seu próprio culto. Querem a imprensa cultivando sua imagem de herói, Salvador da Pátria, Super-Homem, Pai dos Pobres, Enviado dos Céus. Nietsche já alertava contra tal esperteza: “o super-homem destrói os ídolos, ornando-se com seus atributos. A apoteose da aventura humana é a glorificação do homem-Deus”.

Essa mania do parentesco com Deus ressurge na onda direitista e populista que se espraia pelo planeta, incluindo Hungria, Polônia, Áustria, Itália, Suíça, Noruega, Dinamarca, Filipinas, Turquia e, claro, os Estados Unidos de Donald Trump.

Esses governantes assumem comportamento autoritário, criam estruturas próprias de comunicação, formam alas sociais amigas e inimigas, fustigam a imprensa. Tentam impedir a mídia tradicional de cumprir sua missão de apurar os fatos, vigiar e cobrar dos poderes públicos.

Cortam investimentos publicitários, extinguem empregos e investem no “achismo” das redes sociais. Os efeitos brotam: perda de credibilidade na informação; formação de exércitos na guerra da contrainformação; apartheid social.

No meio do turbilhão, Jair ataca a imprensa e os políticos e, quem sabe, pensa subir ao trono das divindades. Já tem até identidade: afinal, Messias é seu sobrenome.
Gaudêncio Torquato

domingo, 26 de maio de 2019

Passeata é inútil quando o problema é o despreparo

Vai mal um presidente quando precisa de grupos na rua em manifestações de apoio. Collor precisou. Pode ir mal um país quando seu presidente recomenda aos apoiadores evitar ataques ao Congresso e ao Judiciário. Que apoiadores são esses? Estarão enganados quanto às convicções democráticas de seu líder? Podem ter-se enganado, talvez, quando esse líder repassou em rede um texto sobre a impossibilidade de governar com as instituições. O tom do texto era golpista, mas ele declarou, depois, havê-lo simplesmente repassado.

Por que repassou, se discordava, e sem adicionar uma palavra de rejeição? Isso nunca foi explicado, mas explicar nunca foi o forte desse presidente. Ele comprovou essa qualidade, mais uma vez, ao anunciar um projeto capaz de render mais que o trilhão de reais pretendido pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, com a reforma da Previdência. O projeto, soube-se depois, é uma fórmula para o governo ganhar dinheiro com a atualização de valor de imóveis incluídos na Declaração de Renda. Na prática, seria uma antecipação do imposto pago depois da venda. E se esse bem nunca for vendido? A ideia básica já foi rejeitada em países do mundo rico. Para o presidente e alguns de seus auxiliares, deve ser uma grande novidade. A propósito: o ganho para o Tesouro, se houver, ficará muito longe do trilhão, segundo fonte do próprio governo.

Enquanto o presidente se ocupava da manifestação, estranhamente descrita por alguns como um “protesto a favor do governo”, congressistas ocupavam espaço político, aprovavam na Câmara a medida provisória de recomposição dos ministérios e punham em tramitação um projeto próprio de reforma tributária.

Para alguns, a movimentação na Câmara foi um recuo do Centrão, pressionado pelo governo e por seus apoiadores. A visão oposta parece mais adequada. Afinal, os deputados, além de mostrar serviço, negaram a transferência do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) para o Ministério da Justiça e se anteciparam ao projeto governamental de mudança dos impostos e contribuições. Pode-se discutir o alcance de cada um dos projetos, o da Câmara e o do Ministério da Economia, mas o Executivo foi inegavelmente atropelado – e sem invasão de atribuições, acusação dirigida ao presidente no caso do decreto sobre porte de armas. Mais importante ainda, parlamentares de peso, a começar pelos presidentes da Câmara e do Senado, já se declararam comprometidos com a reforma da Previdência, com ou sem atuação do Executivo.

Contestado no Parlamento e no Judiciário, o presidente acabou forçado a editar um novo decreto sobre o assunto, para restringir, por exemplo, o acesso a certo tipo de fuzil. Um dia antes, as ações da Taurus haviam disparado na bolsa paulista, depois de anunciada pela empresa uma fila de 2 mil pessoas interessadas na compra daquela arma. Entre outras mudanças, o segundo decreto reduziu as facilidades para crianças ingressarem nas escolas de tiro e iniciarem a vida no mundo do bangue-bangue, tão valorizado entre muitos bolsonaristas.

Mais um recuo foi incluído, portanto, na lista bolsonariana. O presidente já havia recuado, por exemplo, da tentativa de controlar o preço do diesel. Não parece ter abandonado totalmente a ideia, mas foi forçado a amaciar sua atitude depois de uma desastrada pressão sobre a diretoria da Petrobrás. Recuou também da decisão de impor seus critérios, formalmente, à publicidade das estatais. A bobagem estava claramente encaminhada, na área de Comunicação, quando o secretário de Governo, general Santos Cruz, chamou a atenção para a Lei das Estatais. Não pode o Executivo, segundo essa lei, meter-se em decisões administrativas como a publicidade estritamente mercadológica.

No começo do mandato o presidente já havia abandonado, ou pelo menos adiado, o plano de mudar para Jerusalém a embaixada em Israel. Advertido para o custo de uma encrenca com países muçulmanos, grandes importadores de alimentos produzidos no Brasil, reviu sua ideia e substituiu a mudança da embaixada pela instalação de um escritório comercial. Mais que uma decisão econômica, esse remendo foi uma tentativa de mostrar-se fiel ao compromisso de seguir, algum dia, seu líder Donald Trump e ao mesmo tempo contentar os apoiadores evangélicos. Nenhum desses motivos tem relação com os interesses políticos e econômicos de uma diplomacia de respeito.

O Executivo brasileiro recuou também do anunciado abandono do Acordo de Paris sobre o clima. Deu mais um passo atrás ao confirmar, depois de havê-la negado, a realização, em Salvador, de uma conferência regional preparatória para uma grande reunião sobre a questão climática em Santiago do Chile. Alguém próximo do presidente deve ter-lhe apontado os enormes custos diplomáticos e comerciais de suas bravatas anticonservacionistas. Os custos internos do empobrecimento ambiental deveriam ser suficientes, mas a esses o presidente e vários de seus auxiliares parecem absolutamente insensíveis.

Enquanto o presidente passava mais uma semana tropeçando, perdendo tempo e sendo forçado a recuar mais de uma vez, o vice Hamilton Mourão participava de reuniões em Pequim, era recebido pelo presidente Xi Jinping e tentava anular os danos causados por seu chefe e pelo ministro das Relações Exteriores na relação com a China, maior cliente das exportações brasileiras.

Além de ser grande compradora, a China tem um importante programa internacional de investimentos em infraestrutura. É preciso, sim, avaliar a conveniência de cada projeto, mas isso é função normal de um governo tecnicamente preparado, competente na ação diplomática e levado a sério pelas autoridades estrangeiras.

Sem essas qualidades, nenhuma passeata de apoio será suficiente para fortalecer um presidente e sua equipe. A ruindade será do governo. Não adianta culpar a democracia.

Um presidente reativo

Jair Bolsonaro se meteu numa encrenca. Não, não falo de ele ter assumido a Presidência, mas da convocação de seus apoiadores para participar de manifestações pró-governo neste domingo. Do nada, o presidente criou para si o que os americanos chamam de “lose-lose situation”, isto é, colocou-se numa posição em que, não importa o que ocorra, ele sairá perdendo.

Se as manifestações não reunirem um público grande, ou seja, se der para carimbar que foram um fracasso, o governo terá dado uma inédita demonstração de fraqueza —e com apenas cinco meses de mandato.

Se, por outro lado, os protestos ficarem apinhados de gente, a pressão sobre o Congresso e o STF tornará mais tenso o relacionamento entre os três Poderes, dificultando o futuro de sua administração, que depende do Legislativo e do Judiciário para concretizar praticamente todos os seus projetos.

Mesmo no mais verossímil cenário de copo meio cheio, meio vazio, no qual as manifestações não possam ser classificadas nem como fiasco nem um retumbante sucesso, Bolsonaro não sai incólume. Ele já perdeu pontos ao expor divisões entre seus apoiadores. Grupos fortemente vinculados ao presidente, como o MBL e o Vem pra Rua, anunciaram publicamente que não estariam nos atos. O próprio Bolsonaro pulou fora, e proibiu ministros de participar.

A estratégia de atiçar as massas contra o Legislativo e Judiciário só faria sentido se o presidente tivesse planos reais de investir contra os dois Poderes. E, mesmo assim, a abordagem racional teria exigido que atacasse com carga total, não que, no instante seguinte, se pusesse a contemporizar e esvaziar os protestos.

A sensação que fica é a de que o presidente não tem um plano muito definido do que fazer para lograr seus objetivos. Ele apenas reage, com base em instintos, aos acontecimentos. Como nada indica que mudará de atitude, devemos esperar três anos e meio de muitos sobressaltos e inconstâncias.

Bolsonaro, o infiltrado

Algumas poucas vezes ao longo dos seus primeiros cinco meses de governo o presidente Jair Bolsonaro surpreendeu positivamente. Sua declaração contra os que querem ir ao ato deste domingo para atacar o Supremo Tribunal Federal e o Congresso Nacional foi uma dessas vezes. Bolsonaro fez a afirmação durante café da manhã com jornalistas, o quinto encontro desse tipo marcado pelo presidente, e que também podem ser incluídos na sua lista de bola dentro. Quem defender o fechamento do STF e do Congresso “estará na manifestação errada”, disse. “Isso é manifestação a favor de Maduro, não de Bolsonaro”, concluiu o presidente.

Não podia estar mais correto. Os Poderes constituídos são a base da democracia. Pode-se até criticar o Supremo e o Congresso por decisões que tomarem, mas jamais pregar o seu fechamento. Os que acusam o Judiciário e o Legislativo pelos problemas de Bolsonaro estão equivocados. Os que sugerem que a saída é interromper o funcionamento das duas casas maiores são pessoas de baixa qualificação cognitiva e falam da boca para fora sem medir consequências.

O próprio Bolsonaro já atacou o Supremo mais de uma vez. Ele também defendeu, pouco antes da eleição, aumentar de 11 para 20 o número de ministros do STF. “Para equilibrar as coisas”, nas palavras de seu filho Eduardo, o ideólogo da família, sugerindo um viés de esquerda dos membros da casa. Bobagem, claro, mas enfim, era assim que os Bolsonaro pensavam no ano passado. O mesmo filho disse, algum tempo antes, que bastariam um soldado e um cabo para fechar o Supremo.

O presidente também já bateu à vontade no Congresso. Outro dia mesmo afirmou que o grande problema do Brasil é a classe política. Nesse caso o ataque era generalizado, e ele ressaltou que incluía-se dentro da citada classe problemática. Em momentos mais remotos da sua atividade política, Bolsonaro defendeu a ditadura, estado que pressupõe um Executivo forte que funcione sem fazer consultas e sem sofrer avaliações, com o fechamento ou a submissão dos outros Poderes. Esse é o problema do presidente. Ele diz uma coisa num dia e outra diferente no dia seguinte.

No café com jornalistas, o presidente disse também que, embora condene os ataques, nada impede que durante o ato “apareça um infiltrado defendendo essas ideias e usando a camisa amarela”. Quer dizer, ele condena quem ataca, mas admite que haja, no meio da manifestação a seu favor, gente gritando pelo fechamento do STF e do Congresso. Trata-se do famoso “morde e assopra”. Condena, mas não tanto assim. E, ao que parece, perdoa os que se equivocarem.

O presidente é ele próprio um infiltrado. Assumiu o comando da nação depois de anos produzindo declarações contra a democracia e a favor de qualquer barbaridade que lhe parece apropriada. Como a tortura, por exemplo. O presidente Jair Bolsonaro é um infiltrado no jogo democrático. Nenhuma dúvida. O importante é que agora, com o poder que obteve das urnas, continue produzindo considerações como aquela do café da manhã.

Jogar a favor dos Poderes constituídos é obrigação do presidente da República. Ao defender o Supremo e o Congresso, Bolsonaro estava simplesmente cumprindo uma de suas principais atribuições constitucionais. Mesmo assim pode-se dizer que, vindo de quem veio, ele fez muito bem.
História implacável

Nunca fez bem aos presidentes do Brasil tentar governar atacando o Congresso ou sem apoio parlamentar. Todos os que foram por esse caminho, dentro da normalidade constitucional, se deram mal. Pela ordem, Getulio se suicidou; Jango foi destituído; Jânio renunciou; Collor e Dilma sofreram impeachment.

Vox populi

Com apenas cinco meses de mandato, a aprovação ao governo de Jair Bolsonaro derrete a olhos vistos. Pesquisa da XP/Ipespe mostra que, numericamente, a avaliação negativa do presidente já supera a positiva. Segundo o levantamento, feito entre os dias 20 e 21 de maio, com margem de erro de 3,2 pontos porcentuais, subiu para 36% o número de entrevistados que consideram o governo ruim ou péssimo - há duas semanas, eram 31%. Já o porcentual de entrevistados que consideram a gestão ótima ou boa passou de 35% para 34% no mesmo período. Ou seja, em duas semanas, Bolsonaro perdeu seis pontos porcentuais de aprovação.


O derretimento tem sido constante desde fevereiro, quando a desaprovação a Bolsonaro estava na casa dos 17%. Já a aprovação ao presidente oscilou menos - saiu de 40% em fevereiro para 34% agora, indicando que pode haver uma espécie de “núcleo duro” de apoio ao governo. O grosso do eleitorado que passou a condenar a gestão do presidente provavelmente saiu da parcela que considerava Bolsonaro “regular” - que passou de 31% há duas semanas para 26% na última pesquisa. Isso sugere que a paciência dos que ainda esperam alguma coisa positiva do governo está acabando rapidamente.

Exemplo disso é o quadro sobre as expectativas para o restante do mandato. A parcela dos otimistas, que estava em 63% em janeiro, hoje está em 47%, enquanto os entrevistados mais pessimistas já somam 31% - eram 15% em janeiro e fevereiro.

Tal cenário não surpreende, pois a maioria dos indicadores econômicos sofreu forte deterioração ao longo dos cinco meses de mandato de Bolsonaro, eleito justamente com a promessa de deflagrar um amplo e vigoroso processo de recuperação do crescimento do País. A pesquisa mostra que, embora a maioria dos entrevistados (49%) ainda atribua aos governos petistas a maior parte da responsabilidade pela crise econômica - sinal evidente da vitalidade do antipetismo manifestado nas urnas na eleição passada -, dobrou, de 5% para 10%, em apenas duas semanas, a parcela de eleitores que responsabilizam Bolsonaro.

Tal percepção começa a tomar corpo porque o presidente tem sido até aqui incapaz de adotar medidas que de alguma forma ajudem a reverter o clima de desconfiança. Aparentemente mais preocupado com os radares nas estradas e com a moralidade no carnaval, Bolsonaro limitou-se até aqui a encaminhar uma proposta de reforma da Previdência ao Congresso, a respeito da qual não mostra grande convicção e por cuja aprovação não parece interessado, já que não se empenhou em formar uma base parlamentar que pudesse defendê-la. Quando resolveu mencionar outras iniciativas, como um certo projeto tributário que, segundo Bolsonaro, trará uma economia maior do que a reforma da Previdência, ficou definitivamente claro que o presidente da República não tem a menor ideia do que está falando - o que naturalmente contribui para o aumento do ceticismo.

Mais de uma vez, nos últimos dias, Bolsonaro declarou que governa conforme os desejos do “povo”. Se realmente está interessado em ouvir a voz do povo, e não apenas a dos devotos de sua seita, o presidente faria bem em ao menos observar a opinião expressa nas pesquisas. No levantamento mais recente, por exemplo, cresceu de 37% para 48% a parcela de entrevistados que consideram que, nas relações com o Congresso, o presidente deveria “flexibilizar suas posições para aprovar sua agenda, ainda que isso signifique se afastar do discurso inicial”. Apenas 31% - parcela que possivelmente corresponderia ao “núcleo duro” do bolsonarismo - entendem que Bolsonaro deve “endurecer suas posições e seu discurso, ainda que isso signifique dificuldades na relação com o Congresso”.

É claro que nenhum chefe de governo deve basear sua gestão em pesquisas de opinião, pois muitas vezes é preciso tomar decisões impopulares para resolver os problemas nacionais. No entanto, fica cada vez mais evidente que Bolsonaro parece contar com o apoio somente daqueles que o veem como “messias” e como um mártir do “sistema”. Aos demais brasileiros, que não se deixaram encantar pelo palavrório salvacionista de Bolsonaro, resta o pessimismo.

As cortes da mentira

A corte era só uma, nos velhos tempos. Hoje são muitas! Pequenas cortes, onde os homens, mestres na arte da dissimulação, jogam sub-repticiamente os seus interesses e tomam atitudes nobres ou sensíveis. Mentindo sempre.... em nome de ridículas verdades e de razões excessivamente particulares.

Mas a finura, única que verdadeiramente cultivam, para dizer agora que o preto é preto e logo que é branco? E a paixão disfarçada mas firme com que se defendem aqui e atacam além? Com que dominam e desbaratam os seuis ilusórios contendores.... Quais contendores?
Irene Lisboa, "Apontamentos"

O atraso é nosso

Segundo projeções da Bloomberg até 2030, o panorama econômico mundial sofrerá uma profunda mudança. Hoje espanta imaginar que a China, sinônimo de pobreza e atraso social até a década de 90, já em 2020 terá deixado os Estados Unidos como segunda economia do mundo. No horizonte também é dado como certo que a Índia, reconhecida até há poucos anos como um dos países mais miseráveis do planeta, ultrapassará os Estados Unidos.

A população da Índia na atualidade, com 1,2 bilhão de habitantes, chegará a ultrapassar aquela da China - que limitou severamente a procriação com 1,5 bilhão de abortos nos últimos 15 anos -, hoje com seu 1,4 bilhão.

O Brasil, nesse contexto de colossos (no início do século XXI pareciam concorrentes insignificantes para o “gigante adormecido”), crescerá, sim, mas num ritmo bem mais lento, a ponto de que seu PIB será equivalente a míseros 13% daquele da China e 18% da Índia. Os dois países orientais estão realizando avanços impressionantes, assumindo o domínio da produção não só física, mas intelectual das novas tecnologias.

O Brasil avançará no ranking dos dez maiores, alcançando o sexto lugar (hoje no oitavo), porém será ultrapassado pela Indonésia, Turquia (!). Nas previsões do futuro imediato, apenas a Alemanha entre os “europeus” estará no grupo das dez maiores economias, exatamente na lanterna. Sumirão do “caput mundi”, segundo a Bloomberg, a França, a Inglaterra e a Itália.


Na base dessa mudança radical, além do crescimento populacional e do nivelamento de desigualdades, é preciso buscar as razões culturais que permitiram escolhas de ordem política em favor do desenvolvimento acelerado.

A Índia, uma mescla de 20 raças arianas e orientais, apesar de aparentemente parada no tempo, se beneficiou de uma cultura hinduísta e do seu derivado budista. Nestas, o destino do ser humano leva ao nirvana, quando o corpo e seus tormentos, como o envelhecimento, serão dispensados, e, liberto de reencarnar, continuará numa forma de espírito angelical, determinado por valores e possibilidades indescritíveis com palavras.

A ideia de uma ininterrupta evolução entre dois infinitos liga ao ser indestrutível (o espírito) um fardo chamado "karma" (méritos e deméritos). A complexidade faz dessa população uma atenta observadora da imaterialidade, do pensamento, da meditação, do intelecto, das vibrações da natureza.

Essas religiões propiciam abertura mental, reflexão, contraposição de ideias, aceitação e atenção para o impalpável: fatores essenciais na Índia, normalmente insignificantes e não ensinados no Ocidente. O indiano é naturalmente alerta à “imaterialidade”, às ondas do pensamento como criadoras e modeladoras.

Numa época pós-industrial, como a que vivemos, as maiores conquistas, inclusive econômicas e financeiras, passaram a se realizar nas tecnologias avançadas e nas comunicações virtuais. Disso o imenso acervo cultural e religioso, baseado nos Vedas, Upanixades e Bagavad Gita, deu valor a capacidades superiores, reflexiva, intuitiva, analítica. Cidades pobres como Bangalore em duas décadas saíram de uma entristecedora miséria para surgir como centros de tecnologia avançada da comunicação, da informática, da imagem e da informação.

A China, por sua vez, carrega, como destaca o sociólogo Domenico de Masi, a sábia tradição de Confúcio, que enraizou no país as regras de ordenamento exterior das atividades humanas e de uma vida regrada pelo contínuo equilíbrio “marcial” de forças e de ações conscientes. Em contraste com o pensamento materialista do Ocidente.

O comunismo chinês difere do congênere da Europa e mais ainda daquele da América Latina. Baseia-se atualmente no “Beijing consensus”, um contraposto ao “Washington consensus”, e se apresenta como uma composição de pragmatismo, intervenção do Estado na economia, prioridade do mercado sobre a democracia, enxerto capitalista no Estado socialista, abertura liberal aos investimentos internos e externos, flexibilidade absoluta do emprego, carga tributária mínima, baixa intervenção burocrática, assistencialismo enxuto, concentração das decisões num núcleo fechado e restrito de inteligência, ao qual se submetem Legislativo, Exército e Judiciário.

É um sistema que, visto do Ocidente, parece um sonho (ou pesadelo) ultraliberal, um Frankenstein de ideologias e de regras que, entretanto, recolheu um inconteste sucesso econômico, sem empreender guerras e confrontos, para erguer-se como a maior potência econômica e, em breve, financeira do planeta. Isso sem ter em comum a visão bolivariana do comunismo latino-americano, que tem como referência a castigada Cuba e os escombros da Venezuela.

Em 2030 a China alcançará um PIB de US$ 64 trilhões, mais que o dobro dos US$ 31 bilhões dos Estados Unidos. A Índia, em segundo lugar, terá US$ 46 bilhões, enquanto o Brasil, em sexto lugar, ficará com US$ 8,6 bilhões.

O Brasil não possui tradição, cultura que possibilitem fórmulas chinesas. A desgraça maior aqui é o patrimonialismo de direita e de esquerda, que se locupleta usando o mecanismo suprapartidário da corrupção, sem qualquer preocupação, a não ser eleitoral, com o crescimento da economia e a retirada da pobreza da população. Aliás, quanto maior, mais inculta e miserável ficar a população, mais se presta às manobras de quem pensa, assumindo um governo, apenas em pilhar o que sobrou das pilhagens anteriores.

Em comum, as economias emergentes do planeta levam a sério o superávit das contas públicas, os investimentos em infraestrutura e os multiplicadores de oportunidades.

Já no Brasil a cultura local prioriza o acessório, os privilégios e as “maracutaias”, sem preocupação com o futuro, a educação, a formação ética e profissional. A atenção é com o acessório; tão grande que esgota as receitas, maximizadas por uma carga tributária absurda, a ponto de tomar emprestados recursos para pagar a folha.

Se analisarmos o lulopetismo, veremos que, na sua fase de sucesso, registrou superávits primários, e disso atraiu investimentos enormes, mas, quando começou a “pedalar”, caiu e perdeu o rumo.

Os exemplos de fora e a lição de dentro não servem ao atual Congresso. As reformas devem visar à perenização dos superávits, estancar a irresponsabilidade (privilégios), que desperdiça as oportunidades de progresso de todos e que, como na China, tiraram centenas de milhões de pessoas da miserabilidade.

Os investimentos estruturantes não têm cota legal (!) até hoje. Paradoxalmente, aquilo que ajustou e fez avançar toda e qualquer economia de sucesso mundo afora, aqui, entre nós, nem é discutido.

O desgaste de Bolsonaro

Em apenas 144 dias de governo, o presidente Jair Bolsonaro atravessou uma importante linha de desgaste. Há mais pessoas achando que sua administração é ruim e péssima do que avaliando que é boa e ótima. É o presidente desde a redemocratização cuja popularidade caiu mais rapidamente no primeiro mandato. Interessante também notar que há uma quase unanimidade de que a relação dele com o presidente da Câmara deveria ser melhor, e a maioria considera que o presidente poderia ser flexível para que suas propostas passem no Congresso.

A pesquisa XP/Ipespe ouve mil pessoas, e por telefone. É metade da amostra do DataFolha, mas tem sido capaz de apontar as tendências do eleitorado. O governo deveria olhar com cuidado esses sinais, porque tem três anos e sete meses pela frente e muita necessidade de aprovar mudanças difíceis para que a economia saia do descaminho em que entrou.

Apenas 10% acham que a crise atual é culpa do presidente Bolsonaro. De forma justa, eles responsabilizam mandatos passados, principalmente os do PT, quando o país entrou em recessão e o desemprego passou a aumentar. Mas eram 5% na última pesquisa. Quanto mais o tempo passar, mais subirá a tendência de pôr na conta do atual governo o que estiver dando errado.

De fevereiro para maio, aumentou de 17% para 36% os que fazem avaliação negativa do governo Bolsonaro e caiu de 40% para 34% os que têm visão positiva. Os que consideram regular eram 32% e agora são 26%. Essa turma do meio está indo para a visão de que a administração é ruim ou péssima.

Há um número maior de brasileiros com expectativa positiva para o resto do mandato, ou seja, achando que esse tempo de dificuldades iniciais será superado. São 47% os que têm esperança de um desempenho melhor no tempo restante, mas eram 63% em janeiro. Hoje são 31% os pessimistas e eram 15% no começo do ano.


O desgaste é natural, mas não é comum que aconteça tão rapidamente, antes ainda de se completar os seis meses. Os estrategistas do governo deveriam pensar mais profundamente, e sem terceirizar a culpa, sobre o que está acontecendo para essa queda ser tão rápida. Há uma relação direta entre popularidade e capacidade de o governante atrair parlamentares para os seus projetos. Quando ela cai, há a lógica centrífuga no presidencialismo de coalizão: os deputados e senadores se afastam. E o caso recente mais perfeito disso foi o segundo mandato da presidente Dilma Rousseff, quando a inflação subiu rapidamente, a economia afundou na recessão, e em três meses ela chegou a 60% de rejeição. No primeiro mandato ela teve um recorde positivo nesta fase inicial: 47% achavam ótimo e bom o seu governo, segundo o Datafolha, e apenas 7% consideravam ruim e péssimo. Ela perdeu esse capital ao longo dos anos, foi reeleita, mas imediatamente caiu num vácuo. O PT passou a dizer que a ex-presidente foi vítima de golpe, mas deveria olhar com objetividade o que disseram os números de popularidade e da economia, e a relação desses dados negativos com os seus problemas no Congresso, para evitar, na eventualidade de voltarem ao poder no futuro, a repetição dos mesmos erros. A terceirização da culpa dá um conforto temporário, mas não muda o quadro.

Nesta pesquisa da XP/Ipespe o governo pode culpar a imprensa, mas isso não resolverá seu problema. A percepção das pessoas ouvidas é de que o noticiário está mais desfavorável: 56% acham isso, contra 45% na última pesquisa. A culpa é da notícia ou dos fatos? O governo criou problemas para si mesmo, teve uma agenda negativa, com essas brigas entre alas da administração que derrubaram um ministro e vários funcionários de segundo escalão, como os três presidentes do Inep. O presidente fez declarações polêmicas ou falsas, e seu grupo atacou políticos com os quais poderia fazer alianças. Ao todo, 48% acham que ele deveria flexibilizar suas posições para aprovar as medidas no Congresso. Bolsonaro tem bloqueado esse caminho quando inventa que negociar é aceitar a corrupção.

A maioria, 70% dos entrevistados, quer que o Brasil permaneça presidencialista, mas o eleitorado, como se sabe, nunca deu ao partido de qualquer governante a maioria das cadeiras no Congresso. Quem ocupa a Presidência precisa conquistar isso negociando a coalizão. E é exatamente o que Bolsonaro não faz.