quarta-feira, 13 de março de 2019
Para ir se acostumando
Quem governa — no sentido de tomar as decisões que se impõem a todos — é sempre uma minoria ou alguns grupos minoritários em concorrência entre si. As minorias organizadas e resolutas acabam controlando o poder e suas decisões. É por isso que o jurista italiano Norberto Bobbio recomendava o estudo de como essas “minorias emergem, governam e caem”. Segundo ele, as classes políticas se dividem entre as que “se impõem” e as que “se propõem”. O poder conferido a uma minoria dirigente nas eleições não é irrevogável, mas concedido sempre a título provisório. O perigo de deixar o poder subir à cabeça é perder essa perspectiva de transitoriedade, até porque mandatos são o recurso mais escasso de um governo, um tesouro cuja medida é o tempo, ou seja, que se esvai a cada dia.
No mundo real, porém, o governo Bolsonaro enfrenta dois problemas que não têm nada a ver com a oposição: uma disputa intestina entre as “tropas de assalto”, que venceram as eleições, e as “tropas de ocupação”, os quadros com competência técnica para fazer o governo funcionar; e a incapacidade, até agora, de organizar uma base de apoio robusta no Congresso para aprovar as propostas disruptivas do governo, a começar pela reforma da Previdência. É aí que entra em campo o que Bobbio chamava de “subgoverno”, as agências governamentais que exercem funções essenciais de Estado — arrecadar, normatizar e coagir — e funcionam no piloto automático, quanto maior for a bateção de cabeça entre os novos ocupantes do poder. Essas agências não somente operam os mecanismos que dão sustentação orgânica ao Estado como se relacionam com outros atores da elite dirigente, no Congresso e no Judiciário, a partir dos seus próprios interesses, que muitas vezes são contrários aos da sociedade. Ainda mais no Brasil, cujo Estado é anterior à formação da Nação e teve seu controle dividido entre as oligarquias políticas, os estamentos estatais e as corporações profissionais. Geralmente, é o choque entre essas minorias que leva ao fracasso os governos.
Caso Marielle: há mais dúvidas do que respostas
A execução da vereadora Marielle Franco e do seu motorista Anderson Gomes está sob investigação há 363 dias. A 48 horas do aniversário de um ano dos assassinatos, o Ministério Público e a polícia anunciaram com estardalhaço a prisão dos supostos assassinos: Ronnie Lessa e Élcio Vieira de Queiroz, ambos egressos da Polícia Militar. Quem mandou matar? Não há sinal dos mandantes.
Alegou-se que "provas técnicas" levaram à identificação dos executores de Marielle e Anderson. Pode ser. Mas essas provas não foram colocadas sobre a mesa nas entrevistas. Informou-se que os criminosos nutriam uma "repulsa" pela figura de Marielle e por sua pauta política. Mataram por "motivo torpe", alegou a Promotoria. Cometeram "crime de ódio", declarou o representante da polícia civil. Impossível não é. Mas faz pouco nexo.
No mundo em que as coisas fazem sentido, matadores de aluguel matam como um negócio. Não costumam se dar ao luxo de custear uma operação sofisticada para matar uma pessoa por não gostar das atividades dela. Agem por dinheiro, não por capricho. As autoridades não excluem a hipótese de surgirem os mandantes.
O governador do Rio, Wilson Witzel, soltou fogos. "É uma resposta importante que nós estamos dando à sociedade, a elucidação de um crime bárbaro". Elucidação? Longe disso.
Se os representantes do Ministério Público e da polícia civil do Rio tivessem convocado a imprensa nacional para anunciar uma nova receita de feijoada, haveria no panelão dessa investigação de quase um ano muito caldo (dois suspeitos estão no fogo) e pouco feijão (falta mostrar as provas técnicas). Carne, nem pensar —esse gostinho, a plateia só vai sentir quando forem respondidas as perguntas centrais: quem mandou matar? Por quê?
Convém lembrar que a investigação do caso Marielle está sob investigação da Polícia Federal. Isso ainda vai longe.
Deu no jornal
Imprensa é alvo de Bolsonaro no Twitter a cada 3 dias
Em pouco mais de dois meses de governo, o presidente Jair Bolsonaro usou sua conta no Twitter para publicar ou compartilhar mensagens nas quais critica, questiona ou ironiza o trabalho da imprensa brasileira. Foram 29 publicações desde a posse até esta segunda-feira, 11, uma média de uma vez a cada quase três dias na rede social que o presidente tem utilizado como principal meio de comunicação com a população.
O governo é refém de um lunático
Antes que os bolsonaristas mais aguerridos peguem em armas, um esclarecimento. O lunático do título não é quem vocês estão pensando. Refiro-me a Olavo de Carvalho, o guru que faz a cabeça do presidente.
O autoproclamado filósofo emplacou dois pupilos como ministros: o das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e o da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez. As presepadas dos discípulos não saciaram o mestre. De seu escritório em Richmond, ele se dedica a semear intrigas e provocar novas crises em Brasília.
No fim de janeiro, Olavo se lançou numa cruzada contra o vice-presidente Hamilton Mourão. Chamou o general de “maluco”, “covarde”, “psicopata”, “charlatão desprezível” e “vergonha para as Forças Armadas”.
Como o vice não pode ser demitido, o ideólogo escolheu outros alvos. Na semana passada, o embaixador Paulo Roberto de Almeida o culpou por sua exoneração do Ipri, o instituto de pesquisas do Itamaraty. O diplomata havia chamado Olavo de “sofista” e “debiloide”.
Na sexta-feira, o guru da ultradireita surpreendeu ao pedir que seus alunos no governo, “umas poucas dezenas”, entregassem os cargos imediatamente. “O presente governo está repleto de inimigos do presidente e inimigos do povo, e andar em companhia desses pústulas só é bom para quem seja como eles”, dramatizou.
Era só jogo de cena. Na verdade, Olavo queria revanche após saber que alguns pupilos haviam sido rebaixados na hierarquia do MEC. A tática funcionou. Ontem Bolsonaro mandou Vélez demitir três militares que se contrapunham aos olavistas no ministério. O expurgo mostra que o governo é refém de um personagem que divulga teorias conspiratórias e se descreve como “apenas um véio lôco” no Facebook.
Além de ver comunistas em toda parte, Olavo promove uma campanha incansável contra as universidades e o jornalismo profissional. Não por acaso, é cultuado por blogs governistas que propagam “fake news”.
Há poucos dias, o blogueiro que difamou uma repórter do jornal “O Estado de S. Paulo” pediu doações em dinheiro para o guru. “Professor Olavo precisa da nossa ajuda”, justificou.
O autoproclamado filósofo emplacou dois pupilos como ministros: o das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e o da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez. As presepadas dos discípulos não saciaram o mestre. De seu escritório em Richmond, ele se dedica a semear intrigas e provocar novas crises em Brasília.
No fim de janeiro, Olavo se lançou numa cruzada contra o vice-presidente Hamilton Mourão. Chamou o general de “maluco”, “covarde”, “psicopata”, “charlatão desprezível” e “vergonha para as Forças Armadas”.
Como o vice não pode ser demitido, o ideólogo escolheu outros alvos. Na semana passada, o embaixador Paulo Roberto de Almeida o culpou por sua exoneração do Ipri, o instituto de pesquisas do Itamaraty. O diplomata havia chamado Olavo de “sofista” e “debiloide”.
Na sexta-feira, o guru da ultradireita surpreendeu ao pedir que seus alunos no governo, “umas poucas dezenas”, entregassem os cargos imediatamente. “O presente governo está repleto de inimigos do presidente e inimigos do povo, e andar em companhia desses pústulas só é bom para quem seja como eles”, dramatizou.
Era só jogo de cena. Na verdade, Olavo queria revanche após saber que alguns pupilos haviam sido rebaixados na hierarquia do MEC. A tática funcionou. Ontem Bolsonaro mandou Vélez demitir três militares que se contrapunham aos olavistas no ministério. O expurgo mostra que o governo é refém de um personagem que divulga teorias conspiratórias e se descreve como “apenas um véio lôco” no Facebook.
Além de ver comunistas em toda parte, Olavo promove uma campanha incansável contra as universidades e o jornalismo profissional. Não por acaso, é cultuado por blogs governistas que propagam “fake news”.
Há poucos dias, o blogueiro que difamou uma repórter do jornal “O Estado de S. Paulo” pediu doações em dinheiro para o guru. “Professor Olavo precisa da nossa ajuda”, justificou.
Ataque à imprensa e o autoritarismo

O presidente Jair Bolsonaro não gosta dos jornais e jornalistas que não lhe seguem cegamente e de forma acrítica. Acha que pode, através das redes sociais, substituir entrevistas por lives do Facebook, trocar os anúncios oficiais da Presidência por disparos no Twitter, e que ele e seus filhos podem promover falsos jornalistas e perseguir os profissionais dos quais eles não gostam. Não dará certo, como outras investidas autoritárias também fracassaram.
Eu escrevi em 2004 várias colunas criticando duramente as investidas contra a imprensa pelo governo Lula, em seu início. Elas estão publicadas no meu primeiro livro, “Convém Sonhar”. O então ministro-chefe da Casa Civil José Dirceu propôs a criação de duas agências para controlar os jornalistas. Na exposição de motivos para o Congresso, argumentou que sua iniciativa se devia ao fato de não haver uma instituição capaz de “fiscalizar e punir as condutas inadequadas dos jornalistas”.
Os poderosos de então, como os de hoje, estão errados. Os jornalistas estão submetidos a todas as leis do país. E principalmente ao escrutínio de quem nos lê, ouve, assiste, segue. Se naquela época o PT queria inventar uma agência que punisse os discordantes, agora o presidente Bolsonaro cria milícias digitais que simulam o movimento natural da opinião pública, e às quais ele pessoalmente dá a senha de atacar.
O caso deste fim de semana deve ser analisado cuidadosamente para se entender a forma Bolsonaro de ameaçar a liberdade de imprensa. Um blog assinado pelo jornalista e documentarista marroquino Jawab Rhalib, hospedado no site francês chamado Mediapart, publica trechos de uma suposta entrevista de Constança Rezende e inventa a frase “a intenção é arruinar Flávio Bolsonaro e o governo”. Rhalib não entrevistou a repórter do “Estadão”. Recorreu a uma conversa que ela teve com uma pessoa que se apresentou como estudante para entrevistá-la. Na própria transcrição que o blog faz não aparece a frase atribuída a ela e ressaltada na postagem do presidente brasileiro. Bolsonaro deu curso a uma mentira e insuflou seguidores a atacar a jornalista.
A Agência Lupa fez a verificação e mostrou que era falso, o “Estadão” também desmentiu, mas o linchamento virtual continuou, já que teve o aval do próprio presidente. Ontem à tarde, o Mediapart publicou em português, em sua conta no Twitter, que não tem responsabilidade sobre a seção de blogs — destinada a leitores — e que a informação que Bolsonaro divulgou não era verdadeira. A propósito, quem ameaça o senador, filho do presidente, é ele próprio e seu amigo Fabrício Queiroz. Quando esclarecerem as movimentações bancárias estranhas, cessará o problema.
Não é a primeira vez que o bolsonarismo ataca jornalistas. Os métodos já são conhecidos: ameaças, xingamentos, uso de pedaços de verdade para construir uma grande mentira, intimidação, exposição do rosto do repórter com o aviso de que aquela pessoa é o alvo da vez. Isso já foi feito várias vezes nestes poucos meses que vão da campanha, transição e exercício do poder.
O ataque virtual é idêntico ao que fazia o então presidente Hugo Chávez. Ele era capaz, como vi em Caracas, de no meio de uma multidão que o aclamava apontar para um jornalista presente ao evento e acusá-lo de ser um inimigo do bolivarianismo, colocando-o em risco físico. Como agora se aponta na rede quem supostamente é inimigo do bolsonarismo.
Em abril de 2004, escrevi neste espaço contra governantes autoritários. “São perigosos, estejam eles na esquerda ou na direita, seja de que partido forem”. Naquela época me referia a essa tentativa do PT de criar agências para controle da imprensa, projeto que acabou sendo retirado diante das muitas críticas. O governo usou então sites aos quais repassava grandes somas de dinheiro para criticar alguns jornalistas. Aquela coluna escrita há 15 anos tem frases que parecem atualíssimas, como por exemplo, a que dizia: “Senhores governantes, por favor governem”. É o que está faltando a Bolsonaro. Dedicar-se ao exercício do cargo para o qual foi eleito e que tem usado de forma tão abusiva.
A nova tática da extrema direita espanhola nas redes: espalhar boato e corrigir pela metade
“A mãe de uma das meninas entrou em contato com o vice-presidente do Vox porque é simpatizante do nosso partido”, conta por telefone uma porta-voz da formação nas ilhas do Mediterrâneo. “Disse-nos que tinham agredido sua filha e duas [outras] menores por volta de 9h30 da manhã. Nós lhe pedimos tudo e nos disse que denunciou [a Guarda Civil nega], depois nos disse que foi ao centro de saúde de Son Servera, mas que demorava, e foram para o de Manacor, e depois nos passa um boletim médico, mas parece que não é de agora”. Era de fevereiro. A formação elaborou outra notícia, mas com uma captura de tela desse suposto documento hospitalar em que não se via a hora nem o dia do escrito. O EL PAÍS entrou em contato com a suposta “mãe” que teria alertado o Vox, mas o número indicado não respondeu a nenhuma mensagem.

O salto para a imprensa foi imediato. O jornal regional Última Hora publicou o fato depois da nota de imprensa: “Vox denuncia que três garotas foram agredidas”. O presidente do partido, Santiago Abascal, anexou o link desse jornal em seu perfil do Twitter, com 187.000 seguidores: “Nisto é que dá a doutrinação nas salas de aula: umas feminazis enlouquecidas deram uma surra em três meninas por não engolirem suas malditas imposições. Já chega!”. A notícia se multiplicava com milhares de compartilhamentos. Horas depois, as contas do Instagram do Vox Jovens (51.000 seguidores) e do grupo Cañas por España (17.300) faziam o mesmo, com links para veículos espanhóis de âmbito nacional, através dos seus stories – pequenos vídeos que ficam 24 horas no ar. “Todo nosso apoio às garotas do Vox que foram atacadas. Este é o feminismo que diz defender os direitos das mulheres?”, diziam.
No meio da tarde, Rocío Monasterio, futura candidata do partido à prefeitura ou ao Governo regional de Madri, concedia uma entrevista ao canal Cuatro: “Denuncio o feminismo supremacista que agrediu em Palma duas menores por não colocar o lacinho. Uma teve os dentes quebrados, e outra foi arrastada pelo chão”.
O clipe da entrevista desse vídeo de três minutos foi publicado no perfil oficial do partido no Twitter – 208.000 seguidores –, onde ainda continua ativo, gerando milhares de compartilhamentos, apesar de incluir uma notícia falsa. Já soma 100.000 reproduções e foi difundido pelas contas de Abascal e da própria Monasterio. Mais alcance. Mais impacto.
No Facebook, onde o partido conta com mais de 254.000 seguidores, já alcança 142.000 visualizações, com mais de 3.000 compartilhamentos e mais de 1.000 comentários. E continua. Nesta rede social, a formação deu um passo além e transformou essa publicação em anúncio pago. O objetivo: chegar a pessoas que não tem por que seguir o partido. As tarifas publicitárias nessa rede social, usada por 23 milhões de pessoas na Espanha, variam em função da campanha. Promover um vídeo como este para que chegue a 100.000 usuários teria um custo próximo de 5.000 euros (21.740 reais). O Facebook não permite saber qual estratégia foi usada neste caso.
No sábado pela manhã, a notícia continuava se espalhando. O líder do partido nas Baleares, Jorge Campos, falou à rádio Cope e forneceu novos dados: “Estamos em contato com suas famílias. Estamos prestando-lhes todo tipo de assistência jurídica quanto às ações que a família queira empreender. [As garotas] estão nervosas, preocupadas, machucadas, recuperando-se das lesões. Abaladas, como não poderia deixar de ser”. Horas depois, não havia garotas nem lesões. Nada.
Depois das 16h, a formação de extrema direita punha fim à notícia, três horas depois de ser desmentida pelo El Diario de Mallorca: “Fomos vítimas de uma manipulação. Denunciaremos os fatos”. Os tweets do Vox Baleares e de Santiago Abascal desapareceram. A conta da formação nas ilhas publicou a retificação no Twitter e no Facebook: 10.000 seguidores. As contas oficiais do Vox – que somam mais de 600.000 – não se manifestaram.
“Os partidos têm a responsabilidade de analisar as coisas que chegam de seus simpatizantes antes de compartilhá-las em suas redes”, conta Gustavo Entrala, criador da conta do Papa no Twitter. “Isso acontecerá na campanha eleitoral. E não devemos nos esquecer de uma coisa: embora seja retificada, é da primeira mensagem que se lembra”. Há alguns dias, o jornal El Confidencial publicou que altos executivos do Facebook se reuniram no mês de janeiro com todos os partidos em Madri para tentar deter as notícias falsas nas próximas eleições.
Na última pesquisa pós-eleitoral, em 2016, estimou-se que 40% dos eleitores haviam seguido informações sobre a campanha através dos meios de comunicação e 25% através das redes sociais. Nos Estados Unidos, no entanto, dois em cada três cidadãos têm acesso às notícias por meio desses canais, conforme relatado pelo centro de análise Pew Research em 2016: o ano do presidente Trump.
Depois de sua eleição, ficaram conhecidas várias notícias falsas divulgadas pelo Facebook: como que o papa Francisco o havia apoiado publicamente. Essa invenção gerou quase um milhão de interações (comentários, compartilhados, likes...).
Há exatamente um ano explodiu o escândalo da Cambrige Analytica, um enorme vazamento de dados através do Facebook para lançar mensagens políticas aos usuários. E a bola de neve da desinformação prossegue: em outubro do ano passado, um estudo do Oxford Institute anunciou que agora as notícias falsas são compartilhadas inclusive mais do que há dois anos.
A Comissão Europeia decidiu enfrentar essa ameaça. A partir de 1º de janeiro de 2019, o Facebook, o Google, o YouTube e o Twitter são obrigados a comunicar mensalmente a Bruxelas sua luta contra as campanhas de desinformação. “O objetivo daqueles que contaminam diariamente o debate público é encontrar alto-falantes que difundam suas mensagens”, explicou o jornalista Eduardo Suárez em uma coluna neste jornal. “Este axioma deveria definir a nossa conduta nas redes. Criticar o tweet de um provocador ajuda a propagá-lo.”
O caso das garotas de Mallorca reflete muito bem a importância desses canais para o Vox. Ou, como diz Santiago Abascal no livro La España Viva: “Para nós as redes não são um instrumento, para nós elas são o instrumento, o mesmo que nos permitiu reunir tanta gente nos últimos tempos”.
Bolsonaro continua 'autêntico'

Há quem acredite que os militares vão conseguir, em algum momento, que Bolsonaro tenha uma postura mais presidencial, mais de acordo com o cargo. Esse grupo que acredita numa transformação se diz aliviado por contar com militares na cúpula do poder. Diz que os ex-membros das Forças Armadas são os adultos na sala. Quem acredita numa metamorfose patrocinada pelos militares sonha com um Bolsonaro mais atento aos detalhes dos grandes temas nacionais, sem grosserias pelas redes sociais e ciente do papel da imprensa numa democracia. Esse desejo não é de todo descabido. Disciplina e persistência são duas características dos atuais e ex-membros das Forças Armadas. Se tem uma coisa que os militares sabem fazer é perseguir uma meta.
O problema dessa linha de pensamento esperançosa em uma transformação é não considerar que Bolsonaro também tem incentivos para continuar sendo o velho Bolsonaro de sempre. Se seu governo não conseguir fazer a economia voltar a crescer de forma consistente, se o desemprego não começar a cair logo e se a renda média do trabalhador não aumentar, alguém terá de levar a culpa. Nessas horas, é grande a tentação de apontar o dedo para a imprensa, o Congresso, o mau tempo ou o que for. As razões para manter a mesma fórmula de atuação vão além de achar um bode expiatório em eventuais momentos de crise. Quanto mais “autêntico” Bolsonaro aparecer, mais acesa estará a parte da sua base de apoio preocupada com os chamados temas de costumes. Se quiser manter essa base eletrizada, o presidente vai continuar usando as redes sociais da mesma maneira que sempre usou. Bolsonaro passou quase três décadas no Congresso sendo Bolsonaro, foi eleito presidente sendo Bolsonaro. Ainda que quisesse muito, talvez não conseguisse usar outro figurino. Nem com a insistência dos militares.
terça-feira, 12 de março de 2019
O capitão mente
Que Jair Messias Bolsonaro sempre foi irresponsável já se sabia. Basta ter acompanhado seus 33 anos como deputado federal – ou seu comportamento no ano passado como candidato a presidente.
Uma vez eleito, o que agora se sabe é que ele passou à condição de leviano. Quando nada porque comanda diretamente ou por meio dos filhos uma rede de sites de aluguel destinada a disseminar mentiras.
A última delas (a última, não, a mais recente) foi o ataque à honra da repórter Constança Rezende, do jornal O Estado de São Paulo. E, por tabela, à imagem do centenário jornal.
A fraude avalizada por Bolsonaro ruiu por completo com o reconhecimento do site francês Mediapart de que eram falsas as informações postadas por um leitor em um dos seus blogs.
O blog é aberto aos leitores do site que podem escrever o que quiser sem que o Mediapart se responsabilize pelo conteúdo. Ali, um tal de Jawad Rhalib escreveu o que Bolsonaro passou adiante.
Rhalib escreveu que Constança teria declarado em conversa gravada por um estudante que sua intenção era a de arruinar a vida do senador eleito Flávio Bolsonaro e provocar o impeachment do pai dele.
O texto de Rhalib, que se apresentou como “documentarista”, foi reproduzido pelo jornal sensacionalista de direita americano Washington Times, famoso por seu viés racista.
E finalmente aqui saiu em um blog de apoiadores de Bolsonaro que mais de uma vez já foi recomendado por ele e seus filhos. Foi o que bastou para que Bolsonaro o endossasse.
O texto no blog Terça Livre foi assinado pela jornalista Fernanda Salles Andrade. Que vem a ser… O quê mesmo? Assessora do deputado estadual mineiro Bruno Engler, do PSL de Bolsonaro.
Pego mentindo, Bolsonaro não passou recebido. Preferiu escrever no Twitter que o “ambiente acadêmico vem sendo massacrado pela ideologia de esquerda que divide para conquistar”.
E advertiu a quem interessar possa, e com a maior cara de pau: “Neste contexto a formação dos cidadãos é esquecida e prioriza-se a conquista dos militantes políticos”.
A formação “dos cidadãos” é posta em grave risco quando um candidato a presidente da República se vale de notícias falsas para se eleger – e uma vez eleito, para governar.
Uma vez eleito, o que agora se sabe é que ele passou à condição de leviano. Quando nada porque comanda diretamente ou por meio dos filhos uma rede de sites de aluguel destinada a disseminar mentiras.
A última delas (a última, não, a mais recente) foi o ataque à honra da repórter Constança Rezende, do jornal O Estado de São Paulo. E, por tabela, à imagem do centenário jornal.
A fraude avalizada por Bolsonaro ruiu por completo com o reconhecimento do site francês Mediapart de que eram falsas as informações postadas por um leitor em um dos seus blogs.
O blog é aberto aos leitores do site que podem escrever o que quiser sem que o Mediapart se responsabilize pelo conteúdo. Ali, um tal de Jawad Rhalib escreveu o que Bolsonaro passou adiante.
Rhalib escreveu que Constança teria declarado em conversa gravada por um estudante que sua intenção era a de arruinar a vida do senador eleito Flávio Bolsonaro e provocar o impeachment do pai dele.
O texto de Rhalib, que se apresentou como “documentarista”, foi reproduzido pelo jornal sensacionalista de direita americano Washington Times, famoso por seu viés racista.
E finalmente aqui saiu em um blog de apoiadores de Bolsonaro que mais de uma vez já foi recomendado por ele e seus filhos. Foi o que bastou para que Bolsonaro o endossasse.
O texto no blog Terça Livre foi assinado pela jornalista Fernanda Salles Andrade. Que vem a ser… O quê mesmo? Assessora do deputado estadual mineiro Bruno Engler, do PSL de Bolsonaro.
Pego mentindo, Bolsonaro não passou recebido. Preferiu escrever no Twitter que o “ambiente acadêmico vem sendo massacrado pela ideologia de esquerda que divide para conquistar”.
E advertiu a quem interessar possa, e com a maior cara de pau: “Neste contexto a formação dos cidadãos é esquecida e prioriza-se a conquista dos militantes políticos”.
A formação “dos cidadãos” é posta em grave risco quando um candidato a presidente da República se vale de notícias falsas para se eleger – e uma vez eleito, para governar.
Democracia direta: a verdadeira e a 'fake'
Os Estados Unidos só viraram o que são hoje porque ao longo de todo o século 20 tiveram um quase monopólio da flexibilidade institucional que a vida como ela é requer. O resto dos países europeus, dos quais o Brasil é um prolongamento, não nasceram democráticos como eles. Foram obrigados a se ir democratizando, de confronto em confronto, pelos oprimidos do absolutismo que conheciam do novo sistema inventado na América e os encantava pelos efeitos que produzia pouco mais que ecos.
Foi esse desconhecimento que permitiu que tantos adotassem da democracia o discurso mas mantivessem do absolutismo a essência. Os portugueses foram os mestres dessa arte. No “sistema corporativo” que inventaram, a “cabeça” (antes o Imperador e depois da Republica o Judiciário, o poder não eleito que herdou as prerrogativas dele) reserva a cada parte do “corpo” o “direito especial” que houver por bem lhe outorgar.
Esse “especial” e o poder de distribui-lo ao seu belo prazer, a exata negação da essência da democracia cuja base é a igualdade de direitos, é o que nos mantém, a eles no poder, e a nós na servidão semi-feudal de que nunca saímos. Da “direita” ou da “esquerda”, com ou sem “revoluções”, eles vêm sempre dos 5% da população que recheiam as corporações que controlam o estado, as estatais e o poder de se auto-atribuir privilégios.

O círculo não foi rompido com o advento do governo Bolsonaro. O que ele representa é um movimento de subversão da hierarquia interna do “sistema” obtido com o recurso às redes sociais num momento em que a crise do estado levou o antigo caminho das urnas a um desmonte parcial. O governo eleito vem do “baixo clero”, sim, mas da mesma “nobreza” de detentores de privilégios em que o país continua dividido desde que foi arrancado de sua “americanidade” pela invasão do Rio de Janeiro pela corte portuguesa em 1808.
Tiradentes foi o último episódio realmente revolucionário do Brasil. Sendo a unica revolução real da humanidade a que decorre da “iluminação” da conquista da autonomia na busca da verdade que só a educação proporciona, a manutenção da sombra da ignorância é, como sempre foi, a arma essencial do status quo. Com o recrudescimento da censura, depois do enforcamento do alferes, a toda referência que não fosse européia que a Republica não conseguiu romper, quem sonha com mudanças no Brasil sonha com os efeitos de um processo cuja mecânica o país inteiro desconhece quase absolutamente, e que é fruto de uma tecnologia de construção de instituições cheias de sofisticadas sutilezas. É nisso que reside a nossa maior dificuldade. O que se pode reformar, para colher lá na frente esta ou aquela mudança real de rumo de uma sociedade, são as instituições. Mas muito maior que a dificuldade de saber como conseguir abrir a porta a mudanças tem sido a de formular quais mudanças, exatamente, é preciso fazer para colher a democratização que todos desejam.
A História tem seus caprichos. Bolsonaro não é a revolução mas chega no momento em que ela se tornou inevitável. Uma vez no poder, deu-se conta, por meio de um eficiente trabalho intensivo de informação de sua equipe econômica, da urgência e da gravidade terminal da crise da previdência. Conduzido por ela, vai bater na barreira de sempre. O medo de cair no vácuo venezuelano levou a uma supervalorização da constituição antes da definição da sucessão pelas redes sociais. Mas o fato é que, na ausência do “direito divino”, ela foi transformada no congelador de privilégios da hora. E tem sido brandida como antes brandia-se a heresia para impedir avanços.
A verdade é a única arma capaz de romper essa barreira. A reforma de Paulo Guedes, por mais próxima que chegue da profundidade com que foi desenhada, apenas abrirá a porta a um processo de ajustes permanentes em que o Brasil terá de se engajar daqui por diante, dadas as mudanças na extensão da vida humana, nas relações de trabalho, nos costumes, em tudo, enfim, que até aqui descrevia a condição humana. A previdência, assim como tudo o mais na ordem institucional brasileira e mundial passa a ser um processo em permanente evolução que vai requerer retoques em velocidade alucinantemente crescente. Se nunca fez sentido enfiar privilégios previdenciários na constituição, portanto, agora faz menos ainda. Desconstitucionalizar a previdência é, portanto, um objetivo absolutamente prioritário.
A forma como a vida nacional já vem sendo decidida através das redes, contornando instituições esclerosadas, proporciona uma sensação de alívio neste primeiro momento de “vingança” dos “sem voz”, mas não passa de uma reprodução perigosamente tosca do que os suíços vêm praticando há 729 anos e os americanos de lá importaram há cerca de 120. Como toda ferramenta esse expediente serve, porém, a quem quer que recorra a ele, para o bem ou para o mal. O que tira desse sistema o seu potencial venenoso é a construção de um modelo confiável de representação do país real no país oficial. Não há mal nenhum em que o povo encurte os caminhos das suas relações com o governo desde que seja para REFORÇAR a representação aumentando o poder de cada representado sobre O SEU representante. Isso só se consegue com eleições distritais puras. Desde que se saiba exatamente qual representante representa cada conjunto de brasileiros, não ha mal nenhum, muito ao contrário, em que a relação entre eles seja a mais direta possível, para fazer ou desfazer leis, para encurtar ou encompridar mandatos. Mas se esse encurtamento partir do governo, o resultado é opressão.
Nesse sentido, os Bolsonaro vêm “acertando no errado”, o que lhes tem rendido poder, aquela coisa que corrompe sempre e corrompe absolutamente quando é absoluto. Por isso é bom não esquecer jamais. Não existe democracia sem representação.
Jair e Bolsonaro
É como se Jair estivesse no comando de um dos governos e Bolsonaro, de outro. Sim, apenas uma fantasia, mas uma fantasia mais real do que a realidade insólita exibida nos dois meses e meio de mandato do capitão – e, mais grave, até pouco tempo atrás “comprada” com naturalidade por determinadas parcelas da sociedade, especialmente pelos mercados e por setores produtivos da economia.

Enquanto Jair e a ala arquiconservadora do ministério atendiam a uma parte do eleitorado, com declarações e atitudes controvertidas, principalmente na chamada pauta social e de costumes, Bolsonaro e a equipe econômica atendiam à outra parte, com o discurso insistente de prioridade absoluta à reforma da Previdência e outros projetos dentro do campo do liberalismo, como as mudanças na legislação sindical e trabalhista.
Cada um desses públicos escutava as mensagens de seu interesse e tapava os ouvidos para as outras, como se a saída fosse escolher um presidente para chamar de seu. Tem a Damares com o rosa e o azul, tem o Vélez com os brasileiros canibais? Sim, mas tem também Moro e Guedes, com carta branca para fazer e desfazer nas suas áreas. Desnecessário dizer que as cartas não são tão brancas assim.
As duas alas preferiam não questionar até quando os governos de Jair e Bolsonaro conseguiriam manter essa distância. A cada dia que passa, porém, ficam cada vez mais visíveis os limites dessa convivência.
É verdade que uma certa mistura de papéis já era esperada, com base na divisão das forças que apoiaram a candidatura Bolsonaro e até na inexperiência do grupo que chegou ao poder. Mas dificilmente alguém imaginaria a sucessão de inconveniências de alguns ministros e principalmente do próprio presidente – que chegaram ao extremo com a absurda divulgação do tal vídeo obsceno no Twitter e, logo em seguida, com a fala sobre a subordinação da democracia às Forças Armadas.
Jair e Bolsonaro meteram os pés pelas mãos e assustaram uma parcela considerável de apoiadores. Menos, é óbvio, as turbas de “haters” que infestam as redes sociais. Como sempre, na sequência vieram as traduções do pensamento bolsonariano – “não foi bem isso que ele quis dizer” –, principalmente pela voz do vice Hamilton Mourão. O crescente mal-estar causado por esses episódios, porém, só faz reforçar as críticas ao despreparo do presidente e, por tabela, ampliar os rumores de desconforto entre os militares do entorno do Planalto.
Pelas mudanças de direção nos mercados nos últimos dias, pode-se concluir que os investidores já começam a se perguntar onde vai dar essa confusão. Não há como esquecer o Jair e ficar só com o Bolsonaro. Ou o contrário. Na quinta-feira, o dólar chegou a bater na marca dos R$ 3,90, a maior do ano, e analistas atribuem parte dessa escalada aos tropeços do governo, ainda que o principal fator seja a piora do cenário externo.
Na avaliação geral, Bolsonaro não tem demonstrado firmeza em relação à reforma da Previdência. Prova é que, com uma penosa negociação pela frente, achou por bem ir para o celular e atacar o carnaval. Desse jeito, não há articulação política que aguente o tranco.
É muito cedo para decretar que a reforma da Previdência vai ou não vai adiante ou que investidores estrangeiros voltem ou continuem afastados do Brasil. Especialmente investidores na economia real, que dependem de mais garantias sobre a consistência do ideário liberal do governo Bolsonaro. Mas que é preciso organizar já o governo, da porta para dentro, não há a menor dúvida.
Reformistas defendem que, para pôr de pé a Nova Previdência, é crucial o presidente entrar em campo. Atendendo a pedidos, depois das confusões carnavalescas, Bolsonaro fez várias manifestações em redes sociais sobre a urgência nas mudanças na Previdência e sobre a necessidade de não “desidratar” a proposta original. Além disso, reuniu-se com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), para acertar o tom do início das conversas no Congresso e os agrados às bancadas de aliados.
A pergunta fundamental, porém, é: “qual” presidente vai entrar no jogo da Previdência? Aquele que banca o programa econômico de Paulo Guedes ou o que bate boca no Twitter com quem vem pela frente? Antes de qualquer coisa, Jair e Bolsonaro têm de se entender.
Jair Bolsonaro cria no Twitter um Brasil alternativo
No momento, há dois países num mesmo Brasil. Há o país real e o país alternativo, que existe apenas no Twitter de Jair Bolsonaro. No Brasil do Twitter do presidente, o Carnaval é um grande Golden shower e o Caso Coaf não passa de um conjunto de "chantagens, desinformações e vazamentos", dos quais a imprensa se aproveita para fabricar uma guerra contra o Palácio do Planalto.
No Brasil real, há pessoas espantadas com a alternância de extremos no poder. Saiu a turma do "nós contra eles". Entrou a tropa do "eles contra nós". Os dois grupos têm pelo menos dois pontos em comum. Não enxergam culpados no espelho. E vêem a imprensa como grande inimiga da nação. Antes, era a "mídia golpista". Agora, são os os cultores de "fake news".
No Brasil do Twitter de Bolsonaro, um "fake" presidente distorce declarações de uma jovem jornalista para acomodar nos lábios dela as frases que atormentam os seus pesadelos. Nos sonhos ruins de Bolsonaro, a imprensa quer "arruinar a vida" de Flávio Bolsonaro, o filho "Zero Um" e "buscar o impeachment" do inquilino do Planalto. Pilhado nas distorções, esse presidente "fake" das redes sociais não deu o braço a torcer. Ele voltou à carga: "Segue o jogo da farsa e do vitimismo" da imprensa, escreveu Bolsonaro.
No país real, um presidente novo em folha espalha no Planalto um rastro pegajoso em que se misturam nódoas do amigo Queiroz, que ele indicou para assessorar o primogênito, manchas do laranjal plantado na folha do gabinete do filho e até marcas de um repasse esquisito para a conta da primeira-dama. Mas o Bolsonaro do Brasil alternativo do Twitter, quando confrontado com o melado que escorre ao redor no país real avalia que não deve nada a ninguém. Muito menos explicações.
O estômago de Moro
Em Davos, durante o Fórum Econômico Mundial, defendeu com presteza seu superior quando, em um debate sobre populismo, aventou-se a possibilidade de Bolsonaro ser um representante castiço da leva de autocratas que surgiram no mundo na esteira da frustração popular com a política, e que nada fizeram para combater a corrupção. Moro disse aos presentes que, diferentemente de Silvio Berlusconi na Itália, Bolsonaro tinha um discurso forte anti-corrupção e estava agindo para combatê-la. Era janeiro e o caso Queiroz estava em seu auge.
Naquele mesmo dia, soube-se que seu filho, Flávio Bolsonaro, empregou em seu gabinete na Alerj familiares de um dos líderes milicianos suspeitos do assassinato da vereadora Marielle Franco. Moro foi questionado por jornalistas em Davos e se limitou a dizer que não lhe cabia comentar sobre o tema.

Quando desconvidou a cientista política Ilona Szabó de integrar o Conselho Nacional de Política Criminal, um cargo não deliberativo e não remunerado, a pedido de Bolsonaro, o ministro agiu como soldado. Foi pragmático e não se abalou em ter sua autoridade soterrada pelo andar de cima. Cumpriu as ordens do chefe sem grandes demonstrações de pesar. Havia conhecido Ilona, ironicamente, durante o debate em Davos em que defendeu que Bolsonaro e Berlusconi não tinham nada a ver.
Quem observa o funcionamento do Ministério da Justiça enxerga em Sérgio Moro um estômago de avestruz e nenhum sinal de fígado. Ele estaria disposto a agir estrategicamente, engolindo críticas da opinião pública e evitando desgastes considerados desnecessários com o governo, em favor de um objetivo maior: conseguir aprovar o pacote anti-crime e outras medidas executivas que não necessitem de aval do Congresso, no intuito de concretizar um legado de combate à corrupção.
Moro trouxe para dentro do MJ expertise investigativa do COAF e de outros órgãos de controle. Tem, portanto, um núcleo de investigação dentro de casa. Como ministro, também tem a prerrogativa de pedir a instauração de inquéritos a um órgão subordinado, que é a Polícia Federal. Trata-se de um conjunto de atribuições nunca antes detido por um ministro da Justiça.
Os limites do estômago de Moro serão testados quando as ligações que receber do andar de cima não mais tratarem de assuntos banais, como o caso Ilona. Será educativo saber como o ministro lidará com indigestões.
Chega de bancar republiqueta
Peraí, presidente: o senhor e seus filhos têm que tomar um rumo. Chega. Nós não somos uma republiqueta. O presidente tem que se portar como presidente e parar de repercutir besteirasVanderlan Cardoso, senador do PP-GO
Por que as chuvas continuam matando tantas pessoas no Brasil?
Ao menos 12 pessoas morreram na região metropolitana de São Paulo com os desdobramentos das chuvas que caíram desde a noite deste domingo (11). Segundo especialista ouvido pela BBC News Brasil, a forma de ocupação da cidade e a ausência de obras de drenagem contribuem para que tragédias como esta sejam frequentes nos inícios de ano.
O urbanista Gilson Lameira é professor da cadeira de infraestrutura urbana da Universidade Federal do ABC (UFABC) - o campus da instituição em Santo André ficou ilhado.
Segundo ele, não é possível afirmar que catástrofes como esta estejam relacionadas com as mudanças climáticas: historicamente, a região metropolitana de São Paulo é um local com grande nível de chuvas.
O urbanista Gilson Lameira é professor da cadeira de infraestrutura urbana da Universidade Federal do ABC (UFABC) - o campus da instituição em Santo André ficou ilhado.
Segundo ele, não é possível afirmar que catástrofes como esta estejam relacionadas com as mudanças climáticas: historicamente, a região metropolitana de São Paulo é um local com grande nível de chuvas.
"Estatisticamente, estas taxas de chuvas não são novidades. As chuvas nessa região já foram até maiores. Diminuíram nos últimos 15 anos, e agora parecem estar voltando ao patamar anterior", diz ele.
Em um balanço apresentado na manhã desta segunda-feira, a Prefeitura de São Paulo disse que a região recebeu, desde o dia 1º de março, mais de 90% do volume de chuvas esperado para todo o mês de março. Foram 160,8 milímetros de chuva - esperava-se, para março, um volume total de chuvas da de 177,4 milímetros.
Só entre as 19h de domingo e as 7h de segunda-feira, a capital paulistana acumulou 57,8 milímetros, o que corresponde a quase um terço do esperado para todo o mês.
A chuva forte provocou mortes na capital e em outros cinco municípios da região metropolitana. Segundo o Corpo de Bombeiros paulista, seis pessoas foram vítimas de afogamentos e outras cinco morreram em deslizamentos de terra - o 12º óbito ocorreu quando um carro caiu dentro de um córrego em Santo André.
O maior número de mortes foi em Ribeirão Pires, município de 121 mil habitantes que faz divisa com bairros da Zona Leste de São Paulo. Quatro pessoas perderam a vida no local, em deslizamentos de terra.
Em São Caetano do Sul, no ABC Paulista, três pessoas morreram afogadas; e outras três morreram desta forma em Santo André. Embu das Artes, São Bernardo do Campo e São Paulo também registraram uma morte por afogamento cada.
As quatro mortes ocorridas em Ribeirão Pires foram de pessoas que estavam em uma casa no bairro de Estância das Rosas, que desabou. Além das mortes, mais duas pessoas ficaram feridas.
O Corpo dos Bombeiros também recebeu 601 chamadas para atender a ocorrências ao longo da madrugada de segunda-feira.
No pior momento das enchentes, a cidade registrou 52 pontos de alagamento - muitos deles com interrupção do trânsito, o que provocou a maior lentidão do tráfego do ano na cidade até agora.
Além disso, uma fábrica de caminhões da Mercedes-Benz em São Bernardo do Campo foi atingida por alagamentos e interrompeu a produção nesta segunda-feira. Em nota, a empresa disse que está "trabalhando para realizar os procedimentos de limpeza e manutenções necessárias para que a fábrica volte a operar o mais rápido possível".
Só entre as 19h de domingo e as 7h de segunda-feira, a capital paulistana acumulou 57,8 milímetros, o que corresponde a quase um terço do esperado para todo o mês.
A chuva forte provocou mortes na capital e em outros cinco municípios da região metropolitana. Segundo o Corpo de Bombeiros paulista, seis pessoas foram vítimas de afogamentos e outras cinco morreram em deslizamentos de terra - o 12º óbito ocorreu quando um carro caiu dentro de um córrego em Santo André.
O maior número de mortes foi em Ribeirão Pires, município de 121 mil habitantes que faz divisa com bairros da Zona Leste de São Paulo. Quatro pessoas perderam a vida no local, em deslizamentos de terra.
Em São Caetano do Sul, no ABC Paulista, três pessoas morreram afogadas; e outras três morreram desta forma em Santo André. Embu das Artes, São Bernardo do Campo e São Paulo também registraram uma morte por afogamento cada.
As quatro mortes ocorridas em Ribeirão Pires foram de pessoas que estavam em uma casa no bairro de Estância das Rosas, que desabou. Além das mortes, mais duas pessoas ficaram feridas.
O Corpo dos Bombeiros também recebeu 601 chamadas para atender a ocorrências ao longo da madrugada de segunda-feira.
No pior momento das enchentes, a cidade registrou 52 pontos de alagamento - muitos deles com interrupção do trânsito, o que provocou a maior lentidão do tráfego do ano na cidade até agora.
Além disso, uma fábrica de caminhões da Mercedes-Benz em São Bernardo do Campo foi atingida por alagamentos e interrompeu a produção nesta segunda-feira. Em nota, a empresa disse que está "trabalhando para realizar os procedimentos de limpeza e manutenções necessárias para que a fábrica volte a operar o mais rápido possível".
Bolsonaro: proibidão para menores e maiores

Machão caricato, boçal -usou o auxílio-moradia “pra comer gente”-, homofóbico, eterno espírito de baixo clero, cristão de araque etc. Caberia em vários filmes do gênero. Inclusive no clássico Histórias que nossas babás não contavam (1979), dirigido por Oswaldo de Oliveira, uma paródia de Branca de Neve e os Sete Anões. Bolsonaro faria o caçador. Óbvio que prefiro o mitológico Costinha no papel. E Deus salve, para todo sempre, a Adele Fátima, magnífica atuação.
Perigoso para menores, sob pena de um Brasil sem futuro, o moralista militar da reserva é igualmente proibidão para maiores de 60 anos. Imagina se depender da bondade da turma de Paulo Guedes (todo-poderoso ministro da Economia) e se for pobre, como a massa maior do país. Vixe. Pode ter que escapar fedendo com 400 mirréis para remediar o irremediável custo das receitas e caldos de uma velhice sem sustança.
O capitão da reserva, com a sua denúncia moral rasa e o fastio para governar, se enquadra em outra característica atribuída ao ciclo da pornochanchada: distrair os fanáticos eleitores para evitar questões graves da realidade do país. Nada como um carnavalesco post pornô para desviar dos escândalos do Queiroz e do laranjal do partido que o conduziu, generosamente com dinheiro público, ao Palácio do Planalto.
Ao situar o presidente como personagem elementar de tal safra cinematográfica, longe desse escriba a intenção de diminuir a importância do movimento que começou no Rio de Janeiro e teve a Boca do Lixo paulistana como sua Hollywood. Sou fã e confesso em público, sem vergonha, a minha devoção. É que a pornochanchada é quase o lugar (óbvio) de fala do Bolsonaro, entende? Sabe a última do capitão? A antologia completa está inteira nesse ciclo do cinema tupiniquim, incluindo no pacote a paranoia diante dos “comunistas”, temática presente nas películas dos anos 1970.
Para entender o Brasil deste período, recomendo, além de rebobinar as velhas fitas de VHS no inconsciente, assistir ao documentário Histórias que nosso cinema (não) contava (2018), dirigido por Fernanda Pessoa. O filmaço passou por algumas poucas salas no Brasil (que pena, merecia cartaz permanente pelo seu caráter pedagógico, paulofreiriano, talvez) e é fácil de encontrar nos serviços de streaming.
Cinema é montagem. E a diretora, na companhia de Luiz Cruz, o montador do longa-metragem, sabem disso. Pesquisa profunda qual a garganta daquele outro clássico norte-americano (Deep Throat, 1972), o filme não é carente de voz em OFF ou de entrevistados para narrar um mundo de coisas. Bastou a sabedoria de editar falas & falocentrismos, cenas e obscenidades que dão conta de um país que já mudou muito, mas foi buscar no reino da pornochanchada, nas eleições do ano passado, o seu comandante em marcha-ré.
Pessoa e Cruz enfileiram 27 longas para contar sobre o cinemão do período da Ditadura Militar. E agora José? (Tortura do Sexo), dirigido por Ody Fraga é exemplar, com cenas que reúnem os castigos dos porões e um possível erotismo de dar um nó no cabeção do doutor Freud. Doideiras que só a pornochanchada, não o Cinema Novo ou cult decifravam.
Tem o Silvio de Abreu com Árvore dos Sexos (1977) e Cada Um Dá o Que Tem(1975), fita que dirige com Adriano Stuart e John Herbert. Reparo na vida e obra de Sílvio de Abreu. Tanta tv, tanto cinema, tanto teatro... Em todas as funções possíveis: roteirista, ator, supervisor de núcleos dramáticos etc etc. Sério candidato a um dos maiores artistas brasileiros de todos os tempos. Repare na biografia desse homem. Além de tudo, dirigiu o maior elogio ao freudianismo de todos os tempo, Mulher Objeto (1981), com Helena Ramos (palmas eternas) e Nuno Leal Maia —sim, Nuno fabuloso também em O bem dotado, o homem de Itu(direção José Miziara, 1978).
O filme da Pessoa é um delírio sem fim para a minha geração, mas creio que seja mais importante ainda para quem desconhece o ciclo da pornochanchada e agora se vê desgovernado pelo capitão-presidente. Se senti falta de um Walter Hugo Khouri, nosso Antonioni da Móoca, matei a saudade da Sandra Bréa (1952-2000), tem lindeza maior no cosmo? Senti falta pelo universo que sugere, mas é polêmico situar o Khouri neste ciclo, talvez não lhe pertença.
Em compensação, a ficção científica A Super Fêmea (Anibal Massaini Neto, 1973), com Vera Fischer, é um nirvana. Que documentário rico sobre um período idem. Pena que, na vida real, só nos sobrou este caricato capitão-presidente enquanto obscuro objeto do resquício autoritário. “Noooossa!”, exclamaria o grande Costinha, com sua imoral bocarra. “Tás brincando?!”, completaria a mesma humorística figura.
Xico Sá
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