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| Cido Oliveira |
segunda-feira, 26 de novembro de 2018
Juízes e presidentes
Naturalmente, o outro lado da moeda é que os quatro últimos chefes de Estado são alvo de investigações por suspeita de roubos. Eles se encontram investigados pelo Poder Judiciário, com ordens de prisão e embargo de seus bens, ou foragidos. Por sua vez, o ex-ditador Alberto Fujimori, condenado a 25 anos de prisão por seus crimes, está refugiado sob tratamento intensivo na Clínica Centenário de Lima, de onde, caso saia, voltará para a cadeia da qual o tirou um indulto indevido do ex-presidente Pedro Pablo Kuczynski. Este último, também com ordem de prisão, é alvo de uma investigação judicial por lavagem de dinheiro, assim como o ex-presidente Ollanta Humala, que, com sua mulher, Nadine, ficou dez meses em prisão preventiva. O outro ex-presidente, Alejandro Toledo, fugiu para os Estados Unidos quando se descobriu que tinha recebido cerca de 20 milhões de dólares (76 milhões de reais) de propinas da Odebrecht, e agora é alvo de um processo de extradição movido pelo Governo peruano.
Essa coleção de presidentes suspeitos de corrupção — eu me acuso de tê-los promovido e haver votado neles, acreditando que fossem honestos — justificaria o mais sombrio pessimismo sobre a vida pública do meu país. No entanto, depois de ter passado oito dias no Peru, volto animado e otimista, com a sensação de que, pela primeira vez em nossa história republicana, há uma campanha eficaz e valente de juízes e procuradores para punir de verdade os presidentes e funcionários desonestos, que aproveitaram seus cargos para cometer crimes e enriquecer. É verdade que nos quatro casos até agora só há presunção de culpa, mas os indícios, principalmente em relação a Toledo e García, são tão evidentes que é muito difícil acreditar em sua inocência.
Como em boa parte da América Latina, o Poder Judiciário no Peru não tinha fama de ser aquela instituição incorruptível e sábia encarregada de zelar pelo cumprimento das leis e punir os crimes; e tampouco de atrair, com seus salários medíocres, os juristas mais capazes. Pelo contrário, a má fama que o rodeava fazia supor que um grande número de magistrados não tinha a formação e a conduta devidas para administrar justiça e merecer a confiança dos cidadãos. No entanto, de algum tempo para cá, uma revolução silenciosa está em andamento no seio do Poder Judiciário, com o surgimento de um punhado de juízes e procuradores honestos e capazes, que, correndo os piores riscos, e apoiados pela opinião pública, conseguiram corrigir aquela imagem, enfrentando os poderosos — tanto políticos como sociais e econômicos — em uma campanha que levantou o ânimo e encheu de esperanças uma grande maioria de peruanos.
A corrupção é hoje o maior inimigo da democracia na América Latina, corroendo-a a partir de dentro, desmoralizando a cidadania e semeando a desconfiança em relação a instituições que parecem nada mais do que a chave mágica que transforma as maldades, os crimes e os privilégios em ações legítimas. O que ocorreu no Brasil nos últimos anos foi um anúncio do que poderia ocorrer em todo o continente. A corrupção havia se espalhado por todos os cantos da sociedade brasileira, comprometendo igualmente empresários, funcionários, políticos e gente comum, estabelecendo uma espécie de sociedade paralela, submetida aos piores compromissos e imoralidades, na qual as leis eram sistematicamente violadas em qualquer lugar, com a cumplicidade de todos os poderes. Contra esse estado de coisas se levantou o povo, liderado por um grupo de juízes que, amparados pela lei, começaram a investigar e a punir, enviando para a prisão aqueles que, por seu poder econômico e político, acreditavam ser invulneráveis. O caso da Odebrecht, uma empresa todo-poderosa que corrompeu pelo menos uma dezena de Governos latino-americanos para conseguir contratos multimilionários de obras públicas — sem suas famosas “delações premiadas”, os quatro ex-chefes de Estado peruanos estariam livres de problemas com a Justiça —, transformou-se praticamente no símbolo de toda aquela podridão. É isso que explica o fenômeno Jair Bolsonaro. Não é que 55 milhões de brasileiros tenham se tornado fascistas da noite para o dia, e sim que uma imensa maioria de brasileiros, farta da corrupção que tinha se transformado no ar respirado no Brasil, decidiu votar no que acreditava ser a negação mais extrema e radical daquilo que se chamava de “democracia” e era, pura e simplesmente, uma delitocracia generalizada. O que acontecerá agora com o novo Governo desse caudilho abracadabra? Minha esperança é que pelo menos dois de seus ministros, o juiz Sérgio Moro e o economista liberal Paulo Guedes, moderem-no e o levem a atuar dentro da lei e sem reabrir as portas para a corrupção.
Seria uma vergonha se o Uruguai concedesse asilo a Alan García, que não está sendo investigado por suas ideias e atuações políticas, e sim por crimes tão comuns como receber propinas de uma empresa estrangeira que competia por contratos multimilionários de obras públicas durante seu Governo. Seria como fornecer um álibi de respeitabilidade e vitimização a quem — se for verdade aquilo de que é acusado — contribuiu de forma flagrante para desvirtuar e degradar a democracia que, com justiça, esse país sul-americano se gaba de ter mantido durante boa parte de sua história. O direito de asilo é, sem dúvida, a mais respeitável das instituições em um continente tão pouco democrático como foi a América Latina, uma saída de emergência contra as ditaduras e suas ações terroristas para calar as críticas, silenciar as vozes dissonantes e liquidar os dissidentes. No Peru, conhecemos bem esse tipo de regimes autoritários e brutais que semearam sangue, dor e injustiças durante grande parte de nossa história. Mas, precisamente porque estamos conscientes disso, não é justo nem aceitável que em um período como o atual, no qual, em contraste com aquela tradição, vive-se um regime de liberdades e de respeito à legalidade, o Uruguai conceda a condição de perseguido político a um dirigente que a Justiça investiga como suposto ladrão.
Os juízes e procuradores peruanos que se atreveram a atacar a corrupção na pessoa dos últimos quatro chefes de Estado contam com um apoio da opinião pública que o Poder Judiciário jamais teve em nossa história. Eles estão tentando transformar a realidade peruana em algo semelhante àquilo que o Uruguai representou durante muito tempo na América Latina: uma democracia de verdade e sem ladrões.
Apenas carne no matadouro
Mais médicos, menos fantasia
A grande oportunidade que está diante de nós é a ida de milhares de jovens médicos brasileiros para o interior. As condições salariais são atraentes. O dinheiro ficaria no Brasil.
Mas não é esse o principal ganho. O encontro de milhares de jovens da classe média urbana com os rincões do Brasil pode representar para eles um grande aprendizado.
Já houve grandes momentos históricos em que esse encontro se deu. Na Rússia, no século XIX, quando milhares de estudantes foram compartilhar o cotidiano dos camponeses. Havia muito romantismo, ideias revolucionárias, uma visão idealizada dos pobres do campo. Embora o resultado tenha sido revoluções esmagadas, foi um período rico para a própria cultura russa.
Aqui, no Brasil, as idealizações não são as mesmas. Minha impressão é que os brasileiros vão encontrar no interior surpresas positivas sobre as pessoas que vivem lá. Os russos se decepcionaram porque esperavam ver nos camponeses um reflexo de suas fantasias urbanas.
A ida dos médicos brasileiros teria o mesmo valor pedagógico que a carreira oferece aos militares: percorrer diferentes pontos do país, sentir a diversidade, acreditar mais ainda no potencial do Brasil.
Não há contraindicação ideológica. Ouso dizer mesmo para uma juventude de esquerda dos grandes centros: o choque cultural seria benéfico. Certamente, sairia mais realista.
Meu primeiro trabalho na TV, creio em 2014, foi sobre uma cidade do Maranhão chamada Buriti Bravo. Já era uma aproximação com o Programa Mais Médicos. Uma visita às cidades mais desamparadas, no Maranhão e no Amapá.
Semana passada, procurei algumas pessoas como o escritor Antonio Lino, que fez uma dezena de viagens para escrever sobre o Mais Médicos. E também o sanitarista Hermano Castro, da Fiocruz.
Minhas primeiras conclusões: o programa é essencial para as cidades cobertas; ele pode ser feito majoritariamente por brasileiros, o que não significa que alguns estrangeiros não possam participar, dentro das regras do jogo. Constatei também que o gargalo é a formação desse tipo de médico. Isto estava previsto no programa de Dilma, mas não foi bem desenvolvido.
É preciso ser realista. Apesar dos salários, ainda é muito difícil fixar um jovem médico no interior. A realidade me leva de novo ao mundo das ideias.
A única maneira de atenuar realmente o problema é uma valorização simbólica desse tipo de trabalho. Transmitir um pouco, por exemplo, a chama que ilumina um grupo como o Médicos Sem Fronteiras, que leva ajuda a pessoas em grandes dificuldades. No caso, o governo comprar essa ideia talvez não ajude tanto quanto se fosse aceita pelo mundo cultural. Não proponho heróis positivos, são pessoas de carne e osso que merecem um reconhecimento maior.
Tanto os cubanos quanto a esquerda encaram esse trabalho como o produto de uma visão socialista, e desafiamos a verem na medicina um mercado, e não adotarem suas teses.
Esquecem que a exportação de serviços médicos é um importante item no comércio exterior cubano. É um negócio de Estado. Não só o Médicos Sem Fronteiras, mas inúmeras organizações humanitárias no mundo demonstram que essa presença ao lado dos mais fracos não é, unicamente, uma consequência da visão socialista.
Para completar a semana, ouvi uma conferência do ministro alemão Cristoph Bundscherer num painel sobre indústria 4.0. Paradoxalmente, ele falava de um futuro tecnológico com diagnósticos à distância, portanto, com menos médicos.
Se combinarmos a formação dos novos médicos com uma abertura para o mundo tecnológico, é possível atenuar esse grande problema brasileiro.
No momento, temos um pepino. No futuro, talvez nos lembremos da passagem dos cubanos apenas como um doloroso aprendizado. É raro um contrato ser rompido assim, numa área tão sensível, sem que tenhamos salvaguardas. Isso faz parte do legado. Ideologias se interessam pelas ideias, não pelas pessoas.
Sujeito (não tão) oculto
Assim como Ernesto Araújo causou enorme perplexidade ao ver o “globalismo” como complô interplanetário liderado pela “China maoista” para exterminar o Ocidente e os valores cristãos, Vélez Rodríguez se coloca como um Dom Quixote na guerra pela preservação do “valores tradicionais de nossa sociedade”. Ambos, aliás, pelo mesmo veículo: seu blog anti-PT e pró-Bolsonaro.
Professor emérito da Escola de Comando do Estado Maior do Exército e professor colaborador de Pós-graduação em Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora, o futuro ministro da Educação se destaca por ser contra o PT, o Enem, as cotas, a ideologia de gênero e, claro, a favor do “Escola sem Partido”, mas sem pressa.
Nascido na Colômbia, está convencido de que as escolas brasileiras vêm sendo usadas para impor à sociedade uma doutrinação marxista e desmontar os valores tradicionais “no que tange à preservação da vida, da família, da religião, da cidadania, em suma, do patriotismo”.
Ou seja: na visão do novo governo, o Itamaraty e as escolas estão infestados de comunistas, contaminados pela ideologia marxista, servindo de instrumentos para o “climatismo” e o “antinatalismo”, conceitos criados por Araújo para explicar como os ambientalistas, abortistas e ateus se articulam para, ardilosamente, destruir o mundo.
No “Novo Brasil”, portanto, há o risco de expurgos, dedos em riste, dossiês, acusações, suspeitas, danças estonteante de cadeiras, sabatinas para apurar a ideologia de servidores e professores concursados e “depurar” o Estado. Ou é só impressão, um temor delirante? Tomara que sim.
Num campo mais concreto: assim como o futuro chanceler deve explicações sobre como projetar a imagem do Brasil, atrair investimentos, melhorar as condições de comércio e fortalecer parcerias, espera-se que o ministro da Educação diga com clareza o que ele pretende fazer pela... educação.
Pela valorização dos professores, qualidade do aprendizado, a escola como fator de igualdade de oportunidades, a qualificação dos jovens, a excelência das universidades. No primeiro texto depois de anunciado, ele prometeu focar nos municípios, na perspectiva individual e nas diferenças regionais. E terminou com a saudação bolsonarista: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”.
Com Mozart Neves, sabia-se o que ele significava e pretendia, porque ele não divaga sobre ideologias e ameaças fantasmagóricas e é, sim, uma reluzente referência do Instituto Ayrton Senna. Precisa dizer mais? Por isso, foi descartado com tanta ligeireza e escorraçado pela bancada evangélicas, que testou forças e ganhou.
Talvez fosse melhor Jair Bolsonaro trocar a metafísica do distante Olavo de Carvalho pelos critérios de Paulo Guedes. Vamos combinar que as escolhas do ministro da Fazenda para salvar a economia do País estão sendo bem mais pragmáticas, úteis e consensuais do que as do filósofo erudito para salvar o mundo e o Brasil dos próprios demônios dele.
Bolsonaro tenta inventar a coalizão sem partido
Não é que Bolsonaro tenha levado ao pé da letra a promessa de acabar com o toma-lá-dá-cá. É dando que o capitão espera obter votos no Congresso. A diferença é que ele imagina ter encontrado uma maneira de camuflar o código de barras. Dividiu o território da Esplanada dos Ministérios em três pedaços: dois que serão presumivelmente geridos com seriedade, e outro nem tanto. Nos pedaços que todos presumem sérios, foram acomodados militares da reserva, como o general Augusto Heleno (GSI); e técnicos como Sergio Moro (Justiça) e Paulo Guedes (Economia).
No terceiro pedaço, estão os ministérios a serviço do fisiologismo. Coisa fina: Agricultura, Educação e Saúde, por exemplo. Na campanha, Bolsonaro rasgou o sistema político-partidário. Eleito, costura o casaco do lado avesso. Em vez de fechar negócio com o partido par ou com a legenda ímpar, negociou ministérios com frentes parlamentares temáticas. Imagina que sairá mais barato.
Num esforço para melhorar a coreografia, Bolsonaro evitou acertos com o PTB de Roberto Jefferson, o PR de Valdemar Costa Neto e assemelhados. Numa evidência de que não é fácil modificar integralmente o cenário, o presidente eleito encostou seu futuro governo nas bancadas do Boi, da Bíblia e da Saúde. A turma da Bala aguarda na fila.

Por um instante, imaginou-se que, sob Bolsonato, a Presidência da República seria da cota do DEM, pois calhou de as bancadas suprapartidárias indicarem deputados do ex-PFL. Além de Onyx Lorenzoni (DEM-RS), que cosquistara a chefia da Casa Civil, foram guindados ao primeiro escalão dois representantes do DEM de Mato Grosso do Sul na Câmara: Luiz Henrique Mandetta (Saúde) e Tereza Cristina (Agricultura).
Descobriu-se na sequência que, no novo governo, o Palácio do Planalto pertence, na verdade, à cota dos evangélicos. Para além do poder de indicar, a banda da Bíblia usufrui do privilégio de vetar ministros. Enviou à fogueira o educador Mozart Neves Ramos, que cometeu o pecado de não beijar a cruz do projeto de Escola sem Partido. Os parlamentares de Cristo celebraram a indicação do colombiano Ricardo Vélez Rodríguez.
“A bancada evangélica é importante, não é para mim, é para o Brasil”, disse Bolsonaro neste sábado (24). “A pessoa indicada (para a Educação) não é evangélica, mas atende aquilo que a bancada evangélica defende como os princípios, valores familiares, respeito à criança… Formar alguém que seja útil para o Brasil e não para o seu partido.”
A maneira como Bolsonaro se prepara para governar tornou-se surpreendente porque ninguém prestava muita atenção no personagem antes de ele virar um fenômeno eleitoral. O histórico parlamentar e a origem do mandato presidencial revelam que Bolsonaro não gosta de se coligar com ninguém. Nos seus 28 anos como deputado, nunca foi visto numa reunião com líderes partidários para negociar um projeto. Sempre preferiu a encrenca à concórdia. Na corrida presidencial, se pudesse, não teria se coligado nem com o seu partido, o PSL.
Há políticos cujo temperamento permitiu que formassem grandes coligações. Foi o caso, por exemplo, de José Sarney e Fernando Henrique Cardoso, duas almas acomodatícias. Lula, embora também fosse afeito à negociação, optou por compor sua coalizão levando à fronteira do paroxismo o fisiologismo praticado sob Sarney e FHC. O mensalão e o petrolão, esquemas de compra de apoio parlamentar com moeda sonante, tiveram origem no primeiro reinado de Lula. Deu em cadeia.
Outros presidentes tentaram governar acima dos partidos políticos antes de Bolsonaro. Os casos clássicos são os de Fernando Collor de Mello e Jânio Quadros. Deram-se mal. Um foi enxotado do Planalto. Outro bateu em retirada. O que há de diferente no caso de Bolsonaro é o uso das frentes parlamentares temáticas como estepes dos partidos clássicos, quase todos em processo de autocombustão. Como sucede em qualquer transação mercantil, será preciso fazer uma conta do tipo custo-benefício.
A chance de a manobra de Bolsonaro dar certo é pequena. Além das emboscadas que a oligarquia partidária planeja realizar, não é certo que os membros das bancadas temáticas, habituados às mobilizações em torno de causas específicas, se animarão a pegar em lanças por um pacote de reformas que inclui da reviravolta na Previdência ao embrulho anticorrupção. Seja como for, Bolsonaro sempre poderá alegar que tentou fazer algo diferente.
Crise brasileira aumentou fosso entre ricos e pobres
No documento País estagnado: um retrato das desigualdades brasileiras - 2018, cálculos feitos pela instituição a partir dos microdados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostram que os segmentos mais ricos conseguiram aumentar sua renda no ano passado, enquanto os ganhos dos mais pobres recuaram.
De 2016 para 2017, os 10% de brasileiros mais ricos experimentaram, em média, um aumento de 6% nos ganhos obtidos com seu trabalho. Já considerando também outras fontes de rendas (como aposentadorias, pensões, aluguéis, etc), o rendimento médio desse grupo atingiu R$ R$ 9.519,10 em 2017, uma alta de 2% ante 2016 (R$ 9.324,57).
A metade mais pobre da população, por sua vez, teve uma retração de 3,5% de seus rendimentos do trabalho em 2017, um reflexo do aumento do desemprego no país. Já a média de rendimentos totais, que inclui também benefícios sociais, caiu 1,6% para R$ 787,69, o que representa menos de um salário mínimo.

"As atenuações nas quedas de rendimentos dos mais pobres, quando considerados rendimentos totais em contraste com renda de todos os trabalhos, mostram a importância de o Estado reduzir o impacto de crises econômicas, que tendem a atingir os mais pobres com mais força", destaca a Oxfam.
Outro reflexo da crise econômica e da alta taxa de desemprego - que passou de 11,5% em média em 2016 para 12,7% em 2017 - foi o aumento do número de pobres no país pelo terceiro ano seguido.
Segundo o relatório, o Brasil tinha 15 milhões de pessoas pobres - que sobrevivem com uma renda de até US$ 1,90 por dia (pouco mais de R$ 7, segundo critério do Banco Mundial) - em 2017, o que representa 7,2% da população. Isso significou alta de 11% em relação a 2016, quando havia 13,3 milhões de pobres (6,5% da população).
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Além de trazer cálculos próprios, o estudo faz uma análise de dados já divulgados por diferentes instituições. O relatório chama atenção, por exemplo, para a estagnação da queda na desigualdade de renda em 2017, após quinze anos sucessivos de melhora desse indicador.
O índice de Gini - que mede a concentração de renda na sociedade e varia de zero (perfeita igualdade) até um (desigualdade máxima) - vinha recuando desde 2002 até 2015 no Brasil. Em 2016, devido a mudanças na pesquisa de renda (Pnad) do IBGE, não foi possível comparar o resultado no ano anterior. Em 2017, quando a comparação foi retomada, o indicador ficou em 0,549, estável em relação a 2016.
Com isso, o país passou de 10º para 9º mais desigual do planeta no ano passado, segundo ranking do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud).
Para retomar os avanços na distribuição de renda, o relatório sugere mudanças na forma como o Estado arrecada e gasta. A Oxfam ressalta que o sistema tributário do país vai na contramão do modelo dos países desenvolvidos ao privilegiar impostos indiretos (sobre produção e consumo) em detrimento daqueles que incidem diretamente sobre renda.
Na prática, isso contribui para a concentração de renda, já que os mais pobres acabam pagando proporcionalmente mais impostos.
A organização defende, então, a volta da tributação sobre lucros e dividendos distribuídos por empresas a acionistas, assim como a criação de novas alíquotas de impostos de renda (IR) mais elevadas para brasileiros com maior renda. Hoje, a alíquota máxima de IR no país é de 27,5%, cobrada sobre todos que ganham acima de R$ 4.664,68.
A proposta vai na direção oposta da prometida pela campanha do presidente eleito Jair Bolsonaro. Durante a corrida eleitoral, o futuro ministro da Fazenda, Paulo Guedes, disse que quer unificar a alíquota de IR em 20% para todos que ganhem acima de R$ 5 mil, deixando isentos os brasileiros com renda abaixo desse valor.
Segundo Rafael Georges, coordenador de Campanhas da Oxfam e autor do relatório, é possível distribuir renda sem elevar a carga tributária, mas para isso é preciso tornar o sistema mais progressivo, como prevê a Constituição brasileira.
"Alíquota única (de IR) joga contra a redução da desigualdade. Não faz sentido, não é previsto na Constituição e é excessivamente benevolente com o topo da pirâmide social no Brasil, que já paga pouco imposto de renda. Vamos esperar propostas concretas (do novo governo) para uma posição mais definitiva", afirmou.
Do ponto de vista de gastos, a Oxfam critica medidas de austeridade (cortes de despesas públicas) que impactam o atendimento aos mais pobres em serviços públicos como saúde e educação, defendendo a revogação da emenda constitucional que congelou os gastos públicos por 20 anos.
Defensores do chamado "teto dos gastos" argumentam que ele é necessário para tirar as contas públicas do vermelho - rombo que vem desde 2014.
O documento reconhece que o equilíbrio fiscal é necessário para dar sustentabilidade à redução das desigualdades, mas considera que o congelamento dos gastos não resolve o problema.
"Não defendemos expansão descontrolada de gastos. O problema é que o teto congela tudo. Os gastos sociais que aumentam a produtividade da economia no médio prazo, como investimento em educação e saúde e em infraestrutura, e não mexe nos privilégios", argumenta Georges.
O documento também mostra um aumento no fosso de renda racial e de gênero.
A partir da análise de dados do IBGE, a Oxfam detectou o primeiro aumento na desigualdade de rendimento entre homens e mulheres em 23 anos. Enquanto em 2016 as brasileiras ganhavam em média o equivalente a 72% da remuneração dos brasileiros, em 2017 esse percentual recuou para 70% (R$ 1.798,72, contra R$ 2.578,15 da renda média masculina).
O agravamento foi ainda pior no caso da desigualdade racial. Em 2017, o ganho médio dos negros ficou em R$ 1.545,30, pouco mais da metade (53%) do rendimento dos brancos (R$ 2.924,31). Esse percentual era de 57% em 2016.
"Em geral, em momentos de crise, quem é o primeiro a perder o emprego no Brasil São aqueles que estão na franja da economia, com contratos temporários, na ponta do setor de serviços, a mão de obra da construção civil, o chão de fábrica. Essas pessoas são a base da pirâmide e em sua maioria são negros e mulheres", ressalta o coordenador de Campanhas da Oxfam.
Conto do vigário
Conseguiu-se a almejada renovação da Câmara e, principalmente, do Senado. Mas o que ouve é que o nome que desponta para presidir o Senado no ano que vem é do alagoano Renan Calheiros, cabal personificação da velha política.
Em vez de apoiar as reformas de que o País tanto precisa, o senador alagoano preferiu aliar-se ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em negociações que selam o atraso de Alagoas. O Estado natal de Renan Calheiros teve o pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) nas edições de 2000, 2010 e 2014. Em vídeo publicado em junho nas redes sociais, Renan declarou apoio à então pré-candidatura do presidiário petista. “Lula é candidato a voltar à Presidência da República, tem direito de fazer campanha porque não cometeu crime algum e foi condenado sem provas”, disse o senador, que tenta assumir pela quarta vez a presidência do Senado. Ele já presidiu a Casa de 2005 até 2007, de 2013 a 2015 e de 2015 a 2017. Em 2007, renunciou ao cargo após escândalo de corrupção.
Seus malabarismos político-partidários vêm de longa data. Se nos últimos anos tem sido um aliado habitual do sr. Lula da Silva, Renan Calheiros já esteve no lado oposto. Em 1989, filiado ao Partido da Reconstrução Nacional (PRN), foi um dos principais assessores do então candidato à presidência da República Fernando Collor de Mello. Meses depois, Renan, líder do governo no Congresso, foi quem defendeu o pacote de medidas econômicas de Collor, que incluía o famoso confisco da poupança.
Mas Renan Calheiros não é conhecido apenas pelos cargos que ocupou ao longo de quatro décadas de vida política. Fez-se notório por seu contumaz envolvimento com fatos definidos no Código Penal. Renan Calheiros responde a mais de uma dezena de processos e inquéritos criminais. Diversas vezes seu nome foi citado em escândalos de corrupção relacionados à Operação Lava Jato. Num dos casos, a Procuradoria-Geral da República (PGR) apresentou ao Supremo Tribunal Federal denúncia contra Renan Calheiros, entre outros políticos, por corrupção e lavagem de dinheiro envolvendo a Transpetro, subsidiária da Petrobrás. Noutro caso, ele é investigado por um suposto esquema de desvio de recursos do Postalis, fundo de pensão dos Correios.
Submete o eleitor a um conto do vigário a ampla campanha habilmente desenvolvida por Renan Calheiros para ocupar a presidência do Senado no próximo biênio. As eleições mostraram que a população deseja que o País ande para a frente e renove suas práticas políticas. Renan, de volta à presidência do Senado, representaria um total retrocesso e uma evidente quebra de expectativa. Seria como se o que ocorre no Congresso não tivesse nenhuma relação com a vontade da população. É uma lástima que Alagoas tenha sido capaz de eleger mais uma vez o senador Renan Calheiros, mas isso de forma alguma é pretexto para ampliar o problema, alçando-o à presidência da Casa. A tolerância do brasileiro tem limites.
sábado, 24 de novembro de 2018
Guru dos quadrados
Sou irresistível. Eles leem as coisas que eu escrevo e levam a sérioOlavo de Carvalho, guru dos Bolsonaro
Bolsonaro: pressões e apelo à unidade
Passada a adrenalina da batalha eleitoral e a alegria da vitória, ficam as pressões; setores e colaboradores que esperam ser recompensados pelo apoio circunstancial ou decidido, de coração ou de oportunismo, de todo tipo. E todos, é claro, julgam-se capazes de ocupar os cargos e papéis mais elevados na administração; deter o poder. E, admitido que no primeiro escalão não haverá espaço para todos, iniciam-se coalizões internas, começa o jogo de desqualificação de antigos aliados. Não tem jeito, a disputa é inerente ao momento.
E é bom se conformar porque assim será por quase todo o governo, até que nova rinha eleitoral recomece o jogo e reaglutine em torno da manutenção do poder central os interesses que se dispersaram, sem rompimentos definitivos.
Também é certo é que sempre haverá defecções, cacos e restos de relacionamento espalhados pelo caminho sem conseguir se conjugar com os outros interesses do poder. Há intolerância também internamente e as ambições se tornam inconciliáveis. Foi assim com o PMDB de Tancredo, que deu em Sarney sob a tutela de Ulysses, despertando o quercismo, desaguando, enfim, no que viria a ser o PSDB da primeira fase.
Foi assim com o “collorato” que derreteu tão logo a popularidade se esvaiu, abandonando Fernando Collor, deixando-o só, como implorou que não o fizessem. Foi assim com os tucanos, de esquerda e socialdemocratas, unidos à oligarquia do PFL; bloco que se fragmentou primeiro nas escaramuças sempre presentes entre supostos desenvolvimentistas e denominados monetaristas, depois, na disputa entre Roseana Sarney e José Serra, na sucessão de Fernando Henrique Cardoso.
Não foi diferente com o PT de empolgação socialista e natureza pragmática, que logo de saída gerou rachas que resultaram no PSOL. Depois, na disputa surda entre Dirceu e Palocci, e mais tarde na emergência da confusão dilmista, que foi a assunção do PT de verdade o qual se urdiu e lascou-se por si próprio.
De modo que, antes de afundarem por efeito da oposição, os grandes blocos de poder naufragam na trama interna, pelas disputas de grupos, pelo cansaço e pela carnificina comum que se dá na sucessão do líder. É questão de tempo. Pode durar 20 anos, dois mandatos, apenas um, alguns meses… É nesse momento que se testa a resiliência do líder.
Pois o líder não é o mais preparado tecnicamente, nem o mais respeitado na relação entre os poderes ou o mais esperto para escapar às armadilhas dos inimigos. O líder é aquele que, antes de tudo, vocaliza o geral do grupo e o aglutina em torno de si.
Já se percebe esse processo nesses primeiros movimentos da formação do governo Bolsonaro, sem que se saiba, ainda, se o ex-capitão tem habilidades para reunir os seus em torno de si.
O bastidor de qualquer transição é feito desse material e isto é inerente aos jogos de poder desse momento. Nada tem a ver com honestidade e boas intenções; é da natureza humana. Tolice supor que com Jair Bolsonaro pudesse ser diferente. O tiroteio amigo despertado com a definição do nome de Joaquim Levy, acolhido com enorme má vontade, ou no balão de ensaio que fritou Mozart Neves para o ministério da Educação, que foi sem nunca ter sido, são casos típicos, sujeitos a tornarem-se apenas mais dois casos que ilustram justamente a dificuldade do poder.
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O bolsonarismo se supõe capaz de governar acima do fisiologismo e a despeito dos partidos. Indica que pode fazê-lo por meio de bancadas temáticas, que perpassam quase todas as legendas e que se autonomizam das direções partidárias. Pode ser, mas esta é uma tese que ainda deverá ser provada. Parece pouco provável, no entanto.
Porque as tais bancadas “da bala”, “do boi”, “da bola” e “da bíblia” operam por pactos mínimos, se coesionam em torno de interesses básicos e são divergentes em muitos aspectos, mesmo dentro de seus temas originais. Logo, não foram um todo monolítico, sendo eivadas de conflitos e pressões internas.
Ora, é fácil compreender: nem todo evangélico opera no mesmo software que Magno Malta, por exemplo. Nem todo deputado-delegado professa a liberação das armas, nem todo ruralista é latifundiário; nem todo latifundiário é improdutivo. Há nuances internas e nuances ainda maiores entre um grupo e os outros. A agenda da sociedade rural não é igual ao pessoal da bola; e estes não se aproximam necessariamente dos “da bíblia”, que se distinguem em muitos aspectos da moçada “da bala”.
Não será, portanto, em torno de princípios gerais que se operará a unidade política, pois são muitos, diversificados e pouco convergentes, quando não contraditórios. Sabe também Jair Bolsonaro que a ele não estarão tão livres e facilitadas as portas do fisiologismo, pois foi ele mesmo quem tratou de colocar uma trava entre elas. E morderá a língua e perderá apoio e respeito se agora recorrer àquilo que amaldiçoou com tanta ênfase.
Não foi por outro motivo que na última quarta-feira, reunido com parlamentares eleitos pelo seu PSL, Bolsonaro declarou a seus parceiros: “O parlamento é muito importante, precisamos do parlamento e precisamos, acima de tudo, dar o exemplo. […] Estamos no mesmo barco. Se eu afundar, não é vocês não, é o Brasil todo que vai afundar junto. E não teremos retorno”.
Premido por pressões dentro de casa, o presidente eleito parece ter percebido que sua alternativa de início é busca um clima de emergência e risco, onde o “pior” seja entendido como o pior para todos. É o apelo de um homem que pede compreensão, entendimento e moderação — sem ser ele exatamente moderado. É a tentativa de fazer-se o líder que coesiona seu grupo em torno de si. Resta ver se isto bastará.Carlos Melo
'Os privilegiados são analisados por pessoas; as massas, por máquinas'
Cathy O’Neil (Cambridge, 1972), doutora em matemática pela Universidade Harvard, trocou o mundo acadêmico pela análise de risco de investimento dos bancos. Achava que esses recursos eram neutros do ponto de vista ético, mas sua ideia não tardou a desmoronar. Percebeu como a matemática poderia ser “destrutiva” e empreendeu uma mudança radical: somou-se ao grupo de finanças alternativas do movimento Occupy Wall Street, que nasceu em 2011 em Nova York para protestar contra os abusos do poder financeiro, e começou sua luta para conscientizar sobre como o big data “aumenta” a desigualdade e "ameaça" a democracia.
A autora do livro Weapons of Math Destruction (“armas de destruição matemática”, um trocadilho com a expressão “armas de destruição em massa”, inédito no Brasil), que também assessora start-ups, defende que os algoritmos geram injustiças porque se baseiam em modelos matemáticos concebidos para reproduzir preconceitos, equívocos e vieses humanos. "A crise financeira deixou claro que a matemática não está apenas envolvida em muitos dos problemas do mundo, como também os agravam", considera.
O’Neil, que participou há algumas semanas de um fórum sobre o impacto dos algoritmos nas democracias, organizado pelo Aspen Institute da Espanha e pela Fundação Teléfonica, respondeu às perguntas do EL PAÍS.
Os conteúdos são ordenados em função de quem fala mais no Twitter ou no Facebook. Isso não é matemática, são discriminações feitas por humanos. A pessoa que desenvolve o algoritmo define o que é o sucesso
A autora do livro Weapons of Math Destruction (“armas de destruição matemática”, um trocadilho com a expressão “armas de destruição em massa”, inédito no Brasil), que também assessora start-ups, defende que os algoritmos geram injustiças porque se baseiam em modelos matemáticos concebidos para reproduzir preconceitos, equívocos e vieses humanos. "A crise financeira deixou claro que a matemática não está apenas envolvida em muitos dos problemas do mundo, como também os agravam", considera.
O’Neil, que participou há algumas semanas de um fórum sobre o impacto dos algoritmos nas democracias, organizado pelo Aspen Institute da Espanha e pela Fundação Teléfonica, respondeu às perguntas do EL PAÍS.
Você afirma em seu livro que a matemática é mais importante do que nunca nos assuntos humanos.
Resposta. Não acho que seja a matemática, e sim os algoritmos. Essa é parte do problema; estamos transferindo nossa confiança da matemática para certos modelos que não entendemos como funcionam. Por trás deles há sempre uma opinião, alguém que decide o que é importante. Se olharmos as redes sociais, há vieses. Por exemplo, os conteúdos são ordenados em função de quem fala mais no Twitter ou no Facebook. Isso não é matemática, são discriminações feitas por humanos. A pessoa que desenvolve o algoritmo define o que é o sucesso.
Por trás dos algoritmos há matemáticos. Eles têm consciência do sistema de vieses que estão criando?
Não são necessariamente matemáticos, e sim especialistas capazes de lidar com fórmulas lógicas e com conhecimentos de programação, estatística e matemática. Sabem traduzir a forma de pensar dos humanos para os sistemas de processamento de dados. Muitos deles ganham muito dinheiro com isso e, embora do ponto de vista técnico sejam capazes de detectar essas falhas, preferem não pensar nisso. Em empresas como o Google, há quem se dê conta, mas, se manifestarem seu compromisso com a justiça, os advogados da companhia lhes farão se lembrar do compromisso com os acionistas. É preciso maximizar os lucros. Não há incentivos suficientes para transformar o sistema, para torná-lo mais justo. O objetivo ético não costuma ir acompanhado de dinheiro.
Você denuncia que os algoritmos não são transparentes, que não prestam contas do seu funcionamento. Acha que os Governos deveriam regulamentá-los?
São opacos inclusive para os que os desenvolvem, que, muitas vezes, não são suficientemente pagos para entender como funcionam. Tampouco comprovam se cumprem as leis. Os Governos devem legislar e definir, por exemplo, o que torna um algoritmo racista ou sexista.
Em seu livro, você menciona o caso de uma professora norte-americana que foi demitida por decisão de um algoritmo. Acha possível medir a qualidade humana com um sistema informático?
O distrito escolar de Washington começou a usar o sistema de pontuação Mathematica para identificar os professores menos produtivos. Foram demitidos 205 docentes depois que esse modelo os considerou maus professores. Atualmente não temos como saber apenas com dados se um trabalhador é eficiente. O dilema se você é ou não um bom professor não pode ser resolvido com tecnologia, é um problema humano. Muitos desses professores não puderam reclamar, porque o secretismo sobre como o algoritmo funciona lhes priva desse direito. Ao esconder os detalhes do funcionamento, fica mais difícil questionar a pontuação ou protestar.
Qual é a chave para poder fazer isso no futuro?
É um experimento complicado. Primeiro é preciso haver um consenso na comunidade educacional sobre quais elementos definem um bom professor. Se a intenção é avaliar se ele gera suficiente curiosidade nos alunos para que aprendam, qual é a melhor fórmula para medir isso? Se entrarmos numa classe e observarmos, poderemos determinar se o docente está incluindo todos os alunos na conversa, ou se consegue que trabalhem em grupo e cheguem a conclusões, ou se só falam entre si em aula. Seria muito difícil programar um computador para isso. Os especialistas em dados têm a arrogância de acreditar que podem resolver essas questões. Ignoram que primeiro é preciso um consenso no campo educacional. Um algoritmo estúpido não vai resolver uma questão sobre a qual ninguém está de acordo.
Resposta. Não acho que seja a matemática, e sim os algoritmos. Essa é parte do problema; estamos transferindo nossa confiança da matemática para certos modelos que não entendemos como funcionam. Por trás deles há sempre uma opinião, alguém que decide o que é importante. Se olharmos as redes sociais, há vieses. Por exemplo, os conteúdos são ordenados em função de quem fala mais no Twitter ou no Facebook. Isso não é matemática, são discriminações feitas por humanos. A pessoa que desenvolve o algoritmo define o que é o sucesso.
Por trás dos algoritmos há matemáticos. Eles têm consciência do sistema de vieses que estão criando?
Não são necessariamente matemáticos, e sim especialistas capazes de lidar com fórmulas lógicas e com conhecimentos de programação, estatística e matemática. Sabem traduzir a forma de pensar dos humanos para os sistemas de processamento de dados. Muitos deles ganham muito dinheiro com isso e, embora do ponto de vista técnico sejam capazes de detectar essas falhas, preferem não pensar nisso. Em empresas como o Google, há quem se dê conta, mas, se manifestarem seu compromisso com a justiça, os advogados da companhia lhes farão se lembrar do compromisso com os acionistas. É preciso maximizar os lucros. Não há incentivos suficientes para transformar o sistema, para torná-lo mais justo. O objetivo ético não costuma ir acompanhado de dinheiro.
Você denuncia que os algoritmos não são transparentes, que não prestam contas do seu funcionamento. Acha que os Governos deveriam regulamentá-los?
São opacos inclusive para os que os desenvolvem, que, muitas vezes, não são suficientemente pagos para entender como funcionam. Tampouco comprovam se cumprem as leis. Os Governos devem legislar e definir, por exemplo, o que torna um algoritmo racista ou sexista.
Em seu livro, você menciona o caso de uma professora norte-americana que foi demitida por decisão de um algoritmo. Acha possível medir a qualidade humana com um sistema informático?
O distrito escolar de Washington começou a usar o sistema de pontuação Mathematica para identificar os professores menos produtivos. Foram demitidos 205 docentes depois que esse modelo os considerou maus professores. Atualmente não temos como saber apenas com dados se um trabalhador é eficiente. O dilema se você é ou não um bom professor não pode ser resolvido com tecnologia, é um problema humano. Muitos desses professores não puderam reclamar, porque o secretismo sobre como o algoritmo funciona lhes priva desse direito. Ao esconder os detalhes do funcionamento, fica mais difícil questionar a pontuação ou protestar.
Qual é a chave para poder fazer isso no futuro?
É um experimento complicado. Primeiro é preciso haver um consenso na comunidade educacional sobre quais elementos definem um bom professor. Se a intenção é avaliar se ele gera suficiente curiosidade nos alunos para que aprendam, qual é a melhor fórmula para medir isso? Se entrarmos numa classe e observarmos, poderemos determinar se o docente está incluindo todos os alunos na conversa, ou se consegue que trabalhem em grupo e cheguem a conclusões, ou se só falam entre si em aula. Seria muito difícil programar um computador para isso. Os especialistas em dados têm a arrogância de acreditar que podem resolver essas questões. Ignoram que primeiro é preciso um consenso no campo educacional. Um algoritmo estúpido não vai resolver uma questão sobre a qual ninguém está de acordo.
sexta-feira, 23 de novembro de 2018
Evangélicos derrotam Bolsonaro
Como Mozart, aos olhos dos evangélicos, é um educador liberal a ponto de ser elogiado pela esquerda, o nome dele foi vetado. O que fez Bolsonaro? Trocou Mozart pelo colombiano Ricardo Vélez Rodríguez, professor emérito da Escola de Comando e estado Maior do Exército.

Fogos de artifício espocaram no Rio onde mora o pastor Silas Malafaia, que se revoltara com a escolha de Mozart. E em Richmond, no estado norte-americano de Virgínia, onde mora o ensaísta de direita Olavo de Carvalho, padrinho da indicação de Vélez Rodríguez.
O ensaísta e o futuro ministro têm pelo menos duas coisas em comum. Primeira: Olavo foi comunista por dois anos no final dos anos 60 do século passado, e Vélez Rodríguez de esquerda no seu país. Segunda: os dois migraram para a direita tão logo se viram em apuros.
Para quem se apresentou durante a campanha como não político apesar de ser deputado há 30 anos, disposto, uma vez eleito, a enfrentar as pressões dos seus pares por cargos aqui e acolá, Bolsonaro demonstrou que não será bem assim.
Prometeu fazer um governo “sem concessões a ideologias” para se contrapor a quase 14 anos de governos do PT marcadamente ideológicos. Era conversa para enganar eleitores, e deve ter enganado muitos deles, talvez o suficiente para vencer.
Inexiste governo ideológico porque é impossível encarar as questões sem partir de um ponto de vista. A visão do PT sempre foi de esquerda. A de Bolsonaro, de extrema direita com um viés militarista. Nada a ver apenas com o conservadorismo que é outra coisa.
A democracia restaurada por aqui desde 1985 passará por seu mais estressante teste a partir de janeiro de 2019. Deus é Pai!
Velhinho privilegiado
Há 7.072 detentos idosos em todo o país, segundo dados do CNJ de agosto deste ano. Desses 1.492 estão com 71 anos ou mais
Jair, o que a gente vai dizer?
A divulgação da lista ocorreu poucas horas depois de um áspero duelo de discursos no encontro da cúpula econômica dos países da Ásia e do Pacífico entre o presidente da China (ao qual a imprensa internacional já se refere como imperador) e o vice-presidente americano Mike Pence (Trump esnobou o encontro). A guerra de palavras entre Beijing e Washington tornou mais difícil acreditar numa solução breve para a declarada guerra comercial entre os dois gigantes da economia mundial.

Mais ainda: na guerra de discursos, China e Estados Unidos descreveram-se mutuamente como potências coloniais na Ásia. Pence pediu aos países da região (e outros fora dela) que não aceitem “dívida externa” (uma referência à grande iniciativa estratégica chinesa de projetos de infraestrutura em vários países) que possa “comprometer sua soberania”. E Xi Jinping acusou os EUA (embora não tivesse mencionado o nome) de solapar o sistema de regras internacionais “por motivos egoísticos”.
Se alguém ainda tinha alguma dúvida, a ascensão da China resulta num confronto geopolítico de proporções inéditas, e tanto o desafiante (a China) como o desafiado (os Estados Unidos) comportam-se totalmente de acordo ao que previam algumas teorias sobre Relações Internacionais: a superpotência americana não pode tolerar o surgimento de uma outra superpotência capaz de dominar sozinha uma parte do mundo. E, inicialmente, dedica-se a uma clássica política de “containment” (comparável à da Guerra Fria com a União Soviética). A China já denuncia esse tipo de “cerco”.
As mesmas teorias supõem que inicialmente a China crescerá de forma harmônica e pacífica, até sentir que sua própria segurança (e crescimento) estão em risco – o ponto já parece ultrapassado. É esse tipo de tensão geopolítica que tem trazido medo nos últimos meses aos mercados internacionais – mais até do que as disputas comerciais travadas em termos de “guerras”. Aqui entra o papel de indivíduos. Xi Jinping, o novo imperador chinês, não deixa de maneira alguma a impressão de ser um dirigente propenso a ceder a pressões externas. Ao contrário: ele parece convencido de que o único objetivo dos Estados Unidos é o de conter a China.
Xi vai se encontrar dentro de alguns dias na cúpula do G20 com Donald Trump, o homem que acredita que conflitos geopolíticos dessa magnitude colossal se resolvem com “amigos” conversando ao redor de um campo de golfe (como ele fez com Xi Jinping na Florida). De fato, a cúpula chinesa aparentemente diferencia entre as instâncias tradicionais de formulação de condutas externas americanas (departamentos de Defesa e Estado), que se engajaram no “containment” como estratégia frente à China, e a figura de Trump.
O problema, porém, ficou claro para as outras potências que lidaram com chineses e americanos nos últimos tempos. Cada vez mais Washington e Beijing pedem aos líderes de outros países que assumam um lado nessa disputa monumental. Mesmo com tantos oceanos nos separando dos EUA e da China, não vamos escapar de ouvir a mesma pergunta: qual o lado?
E aí, Jair, o que a gente vai responder?
Filhos da época
e a época é política.
Todas as tuas, nossas, vossas coisas
diurnas e noturnas,
são coisas políticas.

Querendo ou não querendo,
teus genes têm um passado político,
tua pele, um matiz político,
teus olhos, um aspecto político.
O que você diz tem ressonância,
o que silencia tem um eco
de um jeito ou de outro político.
Até caminhando e cantando a canção
você dá passos políticos
sobre um solo político.
Versos apolíticos também são políticos,
e no alto a lua ilumina
com um brilho já pouco lunar.
Ser ou não ser, eis a questão.
Qual questão, me dirão.
Uma questão política.
Não precisa nem mesmo ser gente
para ter significado político.
Basta ser petróleo bruto,
ração concentrada ou matéria reciclável.
Ou mesa de conferência cuja forma
se discuta por meses a fio:
deve-se arbitrar sobre a vida e a morte
numa mesa redonda ou quadrada.
Enquanto isso matavam-se os homens,
morriam os animais,
ardiam as casas,
ficavam ermos os campos,
como em épocas passadas
e menos políticas.
Wislawa Szymborska, "Poemas"
Quem julga quem?

É difícil acreditar que cidadãos de bem, que estudam muito e trabalham demais, que têm como escolha e missão aplicar a justiça para todos, não tenham tentado mudar essa regra que prova que o crime compensa no Brasil, para alguns. Em contraponto ao aumento salarial do Judiciário, o CNJ deveria abolir esse prêmio por mau comportamento que depõe contra a corporação.
Não se imagina que um juiz como o futuro ministro da Justiça, Sergio Moro, concorde com a manutenção desses privilégios vergonhosos sustentados com dinheiro público. Claro que não é só isso, nem são só os juízes.
São vantagens e privilégios que vão se acumulando com a ajuda de parlamentares que transformam em lei os desejos das categorias mais poderosas, entre elas a que talvez os julgará um dia.
Como entender bonificações por triênios, quinquênios, licença-prêmio para funcionários?
Então a pessoa é premiada por se manter no emprego (vitalício) durante três ou cinco ou dez anos? Não é obrigação?
Por que juízes têm dois meses de férias por ano? Sua atividade profissional seria mais cansativa e desgastante do que a de médicos, dentistas ou motoristas de caminhão? Será que trabalham mais e em piores condições do que outras carreiras públicas? Policiais, bombeiros, professores...
Não me julguem mal, juízes amigos, com todo o respeito, estamos falando de justiça e exemplo. Os magistrados, por sua autoridade moral, devem ser os primeiros a praticar a justiça, dando o exemplo. Não basta ser justo, é preciso parecer justo. Certamente, há muitos juízes contrários a essas injustiças — e também muito medo da pressão corporativista e do poder do sindicato da toga. É difícil julgar a si mesmo.
O que Bolsonaro dirá aos pobres?
O número de empregos formais cresce a 1,2% ao ano, praticamente nada, ritmo um tico menor que o de setembro.
O número de empregos formais na indústria parou de crescer. Voltou ao patamar de outubro de 2017. Ao menos a situação parou de piorar na construção civil. Há avanço melhorzinho no setor de serviços. Mas o quadro geral é de estagnação.
A taxa de desemprego geral, medida pelo IBGE, deve chegar a uns 12,2% em 2018, progresso ínfimo em relação aos 12,7% da média do ano passado. Pelas previsões, deve ficar perto de 11,7% em 2019, melhoria outra vez pequena, embora mais gente deva estar empregada.
Mesmo que o ritmo de crescimento da economia aumente, como se prevê para 2019, os danos socioeconômicos ainda serão extensos e há pouco o que fazer.
Obviamente, um crescimento de pelo menos 2,5% no ano que vem, que é o chute informado dos economistas, seria um alívio em relação ao 1,4% deste 2018. Mas alívio para quem?
O que Jair Bolsonaro dirá ao eleitorado? Pode, claro, dizer sem mentir que o estrago é grande e o remédio é difícil. Como vai dizê-lo, e o que as pessoas vão ouvir, é outra conversa.
Em tese, o governo vai começar o ano propondo uma reforma da Previdência, até aqui majoritariamente rejeitada pela população, e um plano de aumento mínimo do salário mínimo, se é que vai haver reajuste além da inflação (isto é, zero de aumento real). Sem medidas dessa espécie, dificilmente haverá crescimento maior da economia em 2019, se é que não sobreviria nova deterioração.
Ou seja, só é bom se for ruim, por assim dizer.
Uma recuperação mais rápida da construção civil tende a minorar o desemprego entre os mais pobres. Com reformas em andamento, é possível que as taxas de juros de prazo mais longo até baixem e a confiança econômica cresça, o que pode animar vendas e construção de imóveis residenciais.
Quanto à infraestrutura, tão cedo a coisa não andará mais rápido, pois o governo não tem dinheiro e terá de se organizar para tocar a construção pesada, o que leva tempo. De resto, falta muito para que as concessões à iniciativa privada resultem em abertura de canteiros de obras.
O crescimento regional será desigual, um tanto menor na região Nordeste, onde a vida é mais dura, estimam economistas do Bradesco, em relatório publicado nesta quarta-feira (21). Muitos pobres, de resto, estão cronicamente desempregados ou precarizados.
No que diz respeito a programas sociais ou serviços públicos, um grande feito será evitar que mais governos estaduais entrem em colapso.
O governo federal pode compartilhar algum dinheiro que receberá em 2019 com leilões de petróleo, como já indicou que vai fazer, mas os estados voltarão à breca logo em 2020 se não fizerem ajustes duros, na Previdência e no funcionalismo.
Ou seja, as providências mais sensatas ainda serão impopulares. Dificilmente o povo vai notar que se evitou degradação adicional dos serviços públicos.
Bolsonaro não tem até agora um discurso para os mais pobres, no que diz respeito a problemas socioeconômicos. Não terá recursos para nada em 2019. As melhorias possíveis dependem, pois, de reformas, de habilidade política.
Quanto mais energia gastar em planos econômicos muito ambiciosos ou mirabolâncias de outra espécie, mais implausível será seu sucesso.
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