
segunda-feira, 24 de outubro de 2016
Ninguém nota, ninguém vê
Parece ser consenso que um dos segredos do sucesso é fazer a probabilidade trabalhar a favor. Faz sentido. Mas a gente frequentemente toma decisões que minimizam a chance de sucesso simplesmente por desejo de que a realidade seja melhor do que é.
Se o sonho é seguir carreira na iniciativa privada, estudar, progredir, trabalhar e alcançar resultados baseado em méritos próprios e meritocracia, é provável que este seja o caminho mais difícil, mais arriscado, e com recompensas menores e duvidosa. E, se tudo der errado, sem rede social ou aposentadoria digna. Como diriam, perdeu!
Nos trópicos, isto não vale a pena. Racionalmente, a o melhor é procurar salários acima da media, estabilidade no emprego, segurança social diferenciada e aposentadoria privilegiada. A receita é concurso publico. Trabalhar para o Estado combina algo retorno com baixo risco. Imbatível. A vida como ela é.
Mas digamos, por outro lado, que o importante seja satisfazer o instinto empreendedor. Criar empresa, crescer, dar empregos, pagar todos os impostos, e vender exclusivamente par ao setor privado.
Se a burocracia não esmagar. Se o empreendimento sobreviver ao sistema tributário. Se aguentar o custo Brasil. Se tudo der certo, ainda não vai ser bom. Vai faltar financiamento. E vai ser difícil conseguir clientes não relacionados ao Estado. Perdeu de novo!
Pessoas físicas e jurídicas tem em comum que, de acordo com o pervertido sistema capitalista criado nos trópicos, relacionamento privilegiado com o Estado é condição fundamental para o sucesso.
E conseguir este relacionamento requer métodos específicos. E envolvimento e influência nas decisões econômicas e empresariais tomadas por este mesmo Estado. É sem duvida uma especialidade. Infelizmente, especialização que não gera benefícios para a sociedade.
No capitalismo tropical, Robin Hood irremediavelmente engrossaria a fila dos desempregados. Tira-se de todos, para dar a alguns. De todo lado. E ponto.
Através da entronização de privilégios na constituição, nas leis, nas instituições, na cultura, o país vive de administrar exceções. E cada um de seus cidadãos, cada empresa, cada instituição, luta para se enquadrar nas tais exceções.
No final, o que resta é um modelo falido. Com compromissos e benefícios na maior parte das vezes injustificáveis, inexplicáveis, inexplicáveis, mas protegidos com unhas e dentes.
A injustiça, a falta de sentido, a maldade insolente de um sistema de benefícios e privilégios ineficiente, injusta e impagável está incorporada a realidade. É aceita. Não é questionada.
Virou paisagem. Ninguém nota. Ninguém vê.
Se o sonho é seguir carreira na iniciativa privada, estudar, progredir, trabalhar e alcançar resultados baseado em méritos próprios e meritocracia, é provável que este seja o caminho mais difícil, mais arriscado, e com recompensas menores e duvidosa. E, se tudo der errado, sem rede social ou aposentadoria digna. Como diriam, perdeu!
| José Jiménez Aranda |
Mas digamos, por outro lado, que o importante seja satisfazer o instinto empreendedor. Criar empresa, crescer, dar empregos, pagar todos os impostos, e vender exclusivamente par ao setor privado.
Se a burocracia não esmagar. Se o empreendimento sobreviver ao sistema tributário. Se aguentar o custo Brasil. Se tudo der certo, ainda não vai ser bom. Vai faltar financiamento. E vai ser difícil conseguir clientes não relacionados ao Estado. Perdeu de novo!
Pessoas físicas e jurídicas tem em comum que, de acordo com o pervertido sistema capitalista criado nos trópicos, relacionamento privilegiado com o Estado é condição fundamental para o sucesso.
E conseguir este relacionamento requer métodos específicos. E envolvimento e influência nas decisões econômicas e empresariais tomadas por este mesmo Estado. É sem duvida uma especialidade. Infelizmente, especialização que não gera benefícios para a sociedade.
No capitalismo tropical, Robin Hood irremediavelmente engrossaria a fila dos desempregados. Tira-se de todos, para dar a alguns. De todo lado. E ponto.
Através da entronização de privilégios na constituição, nas leis, nas instituições, na cultura, o país vive de administrar exceções. E cada um de seus cidadãos, cada empresa, cada instituição, luta para se enquadrar nas tais exceções.
No final, o que resta é um modelo falido. Com compromissos e benefícios na maior parte das vezes injustificáveis, inexplicáveis, inexplicáveis, mas protegidos com unhas e dentes.
A injustiça, a falta de sentido, a maldade insolente de um sistema de benefícios e privilégios ineficiente, injusta e impagável está incorporada a realidade. É aceita. Não é questionada.
Virou paisagem. Ninguém nota. Ninguém vê.
Os inimigos da democracia
A complexidade e a diversidade da condição humana tornam a convivência democrática um exercício desafiador que precisa se socorrer, nas sociedades livres, de mecanismos de mediação das vontades em conflito. Para que o sistema democrático funcione, é necessário que tanto no plano individual como no coletivo os cidadãos aceitem o fato de que nem sempre suas vontades ou convicções podem prevalecer e por isso devem, democraticamente, acatar as decisões da maioria. É claro que a dinâmica da vida social exige um permanente aperfeiçoamento dessas regras de convivência – as leis – que, enquanto não são mudadas, pelo consenso ou pelo voto da maioria, precisam ser respeitadas. Fora disso, não existe convivência democrática.
Essa é uma lição que, ao longo de sua história de 36 anos, 13 deles no poder, o PT ainda não aprendeu. Padece, esse partido, do vício ideológico que leva seus seguidores a ignorar ou tentar anular dois atributos indissociáveis da condição humana: a complexidade e a diversidade. Esse comportamento foi radicalmente seguido pelos petistas e aliados ao longo de todo o processo do impeachment.
A tropa de choque “dilmista” baseou sua atuação em dois pressupostos relacionados, um político e outro legal: o processo era um “golpe” contra uma presidente legítima e democraticamente eleita, porque ela não cometera nenhum crime de responsabilidade.
Ora, ninguém jamais negou que Dilma foi eleita com 54 milhões de votos. Nem é o caso de saber se cometeu ou não, com suas mentiras, um estelionato eleitoral. A tudo isso se sobrepõe outro fato, igualmente incontestável: Dilma perdeu a confiança da enorme maioria dos brasileiros, que passaram a pedir seu afastamento. Quanto a ter ou não a presidente cometido crime de responsabilidade, o julgamento amplamente majoritário de seus julgadores foi categórico: houve crime. Daí o impeachment previsto pela Constituição.
Os petistas e aliados, contudo, não se conformam. Como partem do princípio de que são monopolistas da verdade e da virtude, durante todo o debate do impeachment insistiram em comportar-se como se estivessem participando de uma assembleia de estudantes – com todo respeito ao idealismo e vigor juvenis que ali ainda se percebem. O anacronismo político e a demagogia barata de suas intervenções frequentemente tropeçavam na falta de argumentos sólidos. Restava-lhe partir para o berro.
Derrotados fragorosamente na votação do impeachment, os petistas anunciam que vão recorrer agora ao STF, mesmo sabendo que são ínfimas as possibilidades de a “camaradagem” de Ricardo Lewandowski, ao fatiar o julgamento para preservar os direitos políticos de Dilma, fazer adeptos. Sabem que a possibilidade de que o Supremo reverta a decisão do Senado é remota. Não faz mal. Haverá outros recursos a serem levados tanto ao STF como a organismos internacionais – como já fizeram –, onde esperam ver o Brasil tratado como uma república de bananas. Para o PT, recursos judiciais são meros pretextos para se exibir no patético papel de vítima de algozes implacáveis.
Há um limite para tudo, inclusive para a tolerância em relação ao comportamento político. Esse limite não precisa estar, necessariamente, definido em leis escritas. Existe um foro irrecorrível nas sociedades democráticas, inclusive naquelas, como a brasileira, que ainda se debatem com as dificuldades da incipiência. Esse foro é a consciência popular, a capacidade que os seres humanos têm, nas condições mais adversas, de se dar conta – parafraseando Abraham Lincoln – de que alguns podem ser enganados todo o tempo, todos podem ser enganados por algum tempo, mas é impossível enganar a todos, por todo o tempo. Em outubro de 2014, mais de 54 milhões de brasileiros elegeram uma presidente, sobrepondo-se aos mais de 50 milhões – os petistas nunca mencionam isso – que votaram no oponente dela. Menos de um ano depois, mais de dois terços desses mais de 100 milhões, pelo menos 65 milhões, pediam nas ruas e nas pesquisas de opinião o afastamento de Dilma agora consumado.
O PT precisa aprender que o único caminho que lhe resta, se quiser continuar fazendo parte do ecúmeno sociopolítico brasileiro, é o acato à democracia representativa – liberal, portanto – e o respeito às leis do País.
Essa é uma lição que, ao longo de sua história de 36 anos, 13 deles no poder, o PT ainda não aprendeu. Padece, esse partido, do vício ideológico que leva seus seguidores a ignorar ou tentar anular dois atributos indissociáveis da condição humana: a complexidade e a diversidade. Esse comportamento foi radicalmente seguido pelos petistas e aliados ao longo de todo o processo do impeachment.
A tropa de choque “dilmista” baseou sua atuação em dois pressupostos relacionados, um político e outro legal: o processo era um “golpe” contra uma presidente legítima e democraticamente eleita, porque ela não cometera nenhum crime de responsabilidade.
Ora, ninguém jamais negou que Dilma foi eleita com 54 milhões de votos. Nem é o caso de saber se cometeu ou não, com suas mentiras, um estelionato eleitoral. A tudo isso se sobrepõe outro fato, igualmente incontestável: Dilma perdeu a confiança da enorme maioria dos brasileiros, que passaram a pedir seu afastamento. Quanto a ter ou não a presidente cometido crime de responsabilidade, o julgamento amplamente majoritário de seus julgadores foi categórico: houve crime. Daí o impeachment previsto pela Constituição.
Os petistas e aliados, contudo, não se conformam. Como partem do princípio de que são monopolistas da verdade e da virtude, durante todo o debate do impeachment insistiram em comportar-se como se estivessem participando de uma assembleia de estudantes – com todo respeito ao idealismo e vigor juvenis que ali ainda se percebem. O anacronismo político e a demagogia barata de suas intervenções frequentemente tropeçavam na falta de argumentos sólidos. Restava-lhe partir para o berro.
Derrotados fragorosamente na votação do impeachment, os petistas anunciam que vão recorrer agora ao STF, mesmo sabendo que são ínfimas as possibilidades de a “camaradagem” de Ricardo Lewandowski, ao fatiar o julgamento para preservar os direitos políticos de Dilma, fazer adeptos. Sabem que a possibilidade de que o Supremo reverta a decisão do Senado é remota. Não faz mal. Haverá outros recursos a serem levados tanto ao STF como a organismos internacionais – como já fizeram –, onde esperam ver o Brasil tratado como uma república de bananas. Para o PT, recursos judiciais são meros pretextos para se exibir no patético papel de vítima de algozes implacáveis.
Há um limite para tudo, inclusive para a tolerância em relação ao comportamento político. Esse limite não precisa estar, necessariamente, definido em leis escritas. Existe um foro irrecorrível nas sociedades democráticas, inclusive naquelas, como a brasileira, que ainda se debatem com as dificuldades da incipiência. Esse foro é a consciência popular, a capacidade que os seres humanos têm, nas condições mais adversas, de se dar conta – parafraseando Abraham Lincoln – de que alguns podem ser enganados todo o tempo, todos podem ser enganados por algum tempo, mas é impossível enganar a todos, por todo o tempo. Em outubro de 2014, mais de 54 milhões de brasileiros elegeram uma presidente, sobrepondo-se aos mais de 50 milhões – os petistas nunca mencionam isso – que votaram no oponente dela. Menos de um ano depois, mais de dois terços desses mais de 100 milhões, pelo menos 65 milhões, pediam nas ruas e nas pesquisas de opinião o afastamento de Dilma agora consumado.
O PT precisa aprender que o único caminho que lhe resta, se quiser continuar fazendo parte do ecúmeno sociopolítico brasileiro, é o acato à democracia representativa – liberal, portanto – e o respeito às leis do País.
Um tango inesquecível
Al Pacino, em "Perfume de mulher" ("Scente of a woman" - 1974),
dança com Gabrielle Anwar
Fundamentalismo e tolerância
O laicismo, tal como hoje se apresenta e “milita” não é apenas uma opinião, um conjunto de ideias ou uma convicção, que se defende em legítimo e respeitoso diálogo com outras opiniões e convicções, como é próprio da cultura e da praxe democrática. É uma “ideologia”, ou seja, uma cosmovisão –um conjunto global de ideias, fechado em si mesmo -, que pretende ser a “única verdade” racional.
A humanidade, imaginam os defensores de uma cultura agnóstica e laicista, seria mais civilizada e feliz num mundo liberto das amarras espirituais. Será? Penso que não. O fundamentalismo islâmico é apresentado como a comprovação definitiva dos males que a religião provoca no mundo. Sonega-se um dado essencial: o terrorismo é um desvio covarde, uma instrumentalização cínica, uma apropriação criminosa de uma marca que não lhe pertence.
Na verdade, a história das utopias da razão está manchada de sangue, terror e privação. A Revolução Francesa, por exemplo, não gerou apenas um magnífico ideário. A utopia de 1789, em nome da “igualdade”, da “fraternidade”e da “liberdade”, desembocou no terror da guilhotina.
A 2ª Guerra Mundial não foi acionada por gatilhos religiosos. O holocausto do povo judeu, fruto direto da insanidade de Hitler, teve alguns de seus pré-requisitos precisamente na filosofia da morte de Deus. Nietzsche, o orgulhoso idealizador do super-homem, está na raiz imediata dos campos de concentração e de extermínio programado. E não foi a religião que desencadeou o Arquipélago Gulag do stalinismo. Feitas as contas, com isenção e honestidade intelectual, é preciso reconhecer que o sonho racionalista projetou poucas luzes e muitas sombras.
A utopia, concebida no ambiente rarefeito dos gabinetes intelectuais, perfila um homem impecável, um sistema irretocável. Depois, ao topar com o homem real, com suas grandezas e misérias, não admite a evidência das limitações teóricas. Brota, então, o delírio persecutório, a síndrome da conspiração. A abstração quer se impor à realidade. E o humanismo inicial cede espaço ao obscurantismo.
O autêntico fenômeno religioso, ao contrário, só pode medrar no terreno da liberdade. Na verdade, entre uma pessoa de convicções e um fanático existe uma fronteira nítida: o apreço pela liberdade. O fanático impõe, fulmina, empenha-se em aliciar. A pessoa de convicções, ao contrário, assenta serenamente em suas ideias.
Precisamos, todos, promover um clima da racionalidade e de tolerância na discussão das ideias. O debate não pode ser travado em clima de Fla x Flu, marca registrada de certas manifestações nas redes sociais. Não devemos demonizar quem diverge da nossa opinião. O confronto das ideias é enriquecedor. O fechamento à discussão é tremendamente empobrecedor.
A humanidade, imaginam os defensores de uma cultura agnóstica e laicista, seria mais civilizada e feliz num mundo liberto das amarras espirituais. Será? Penso que não. O fundamentalismo islâmico é apresentado como a comprovação definitiva dos males que a religião provoca no mundo. Sonega-se um dado essencial: o terrorismo é um desvio covarde, uma instrumentalização cínica, uma apropriação criminosa de uma marca que não lhe pertence.
Na verdade, a história das utopias da razão está manchada de sangue, terror e privação. A Revolução Francesa, por exemplo, não gerou apenas um magnífico ideário. A utopia de 1789, em nome da “igualdade”, da “fraternidade”e da “liberdade”, desembocou no terror da guilhotina.
A 2ª Guerra Mundial não foi acionada por gatilhos religiosos. O holocausto do povo judeu, fruto direto da insanidade de Hitler, teve alguns de seus pré-requisitos precisamente na filosofia da morte de Deus. Nietzsche, o orgulhoso idealizador do super-homem, está na raiz imediata dos campos de concentração e de extermínio programado. E não foi a religião que desencadeou o Arquipélago Gulag do stalinismo. Feitas as contas, com isenção e honestidade intelectual, é preciso reconhecer que o sonho racionalista projetou poucas luzes e muitas sombras.
A utopia, concebida no ambiente rarefeito dos gabinetes intelectuais, perfila um homem impecável, um sistema irretocável. Depois, ao topar com o homem real, com suas grandezas e misérias, não admite a evidência das limitações teóricas. Brota, então, o delírio persecutório, a síndrome da conspiração. A abstração quer se impor à realidade. E o humanismo inicial cede espaço ao obscurantismo.
O autêntico fenômeno religioso, ao contrário, só pode medrar no terreno da liberdade. Na verdade, entre uma pessoa de convicções e um fanático existe uma fronteira nítida: o apreço pela liberdade. O fanático impõe, fulmina, empenha-se em aliciar. A pessoa de convicções, ao contrário, assenta serenamente em suas ideias.
Precisamos, todos, promover um clima da racionalidade e de tolerância na discussão das ideias. O debate não pode ser travado em clima de Fla x Flu, marca registrada de certas manifestações nas redes sociais. Não devemos demonizar quem diverge da nossa opinião. O confronto das ideias é enriquecedor. O fechamento à discussão é tremendamente empobrecedor.
Epidemia de sífilis atrai ganância da indústria do remédio
Em meio ao alvoroço que provocou a prisão do ex-deputado Eduardo Cunha, muita gente não se apercebeu que o país enfrenta uma epidemia de sífilis. Isso mesmo, uma doença do século XV, que praticamente desapareceu no resto do mundo, virou epidemia no Brasil, segundo alerta o próprio Ministro da Saúde Ricardo Barros. Como não bastasse, o vírus da Zika que vem provocando hidrocefalia nos recém-nascidos, agora estamos diante de outra doença que também afeta a futura geração ainda no ventre da mãe. Esse é mais um dos legados da herança maldita dos petistas que preferiram assaltar os cofres públicos a cuidar da saúde dos brasileiros.
Ao constatar a epidemia, o Ministério da Saúde, mais uma vez, mostrou a sua espetacular incompetência na política de prevenção a doenças no país para impedir que muitas delas virem epidemia. Seus dirigentes aproveitam-se da situação para anunciar que o Brasil vai estimular a indústria farmacêutica a fabricar mais penicilina, pois, por se tratar de um remédio barato, ela quase não o produz mais. A pergunta que se faz é a seguinte: por que o Ministério da Saúde deixou que a doença contaminasse as mães e os bebês a esse ponto? Por que deixou virar epidemia para só então alertar para a grave situação? Será que por trás de tudo isso não está funcionando mais uma vez o lobby da indústria farmacêutica para entupir o Brasil de penicilina a preço exorbitante, como já aconteceu em outros momentos de crises fabricadas?
O brasileiro vive tão espoliado, tão massacrado pelo poder público que se tornou um povo descrente. Duvida de tudo. Não acredita mais em nada divulgado pelo governo. Está tão desiludido que reage até para o bom dia do vizinho. E tem motivos de sobra para isso. Na última década enfrentou todo tipo de epidemia: dengue, zika, chikungunya, aumento da AIDS e, agora, sífilis. Enfrentou tragédias de chuva e de seca, onde viu o dinheiro público ir para o ralo ou para o bolso dos políticos e empresários corruptos. A maior de todas as crises, entretanto, foi o desastre da administração da Dilma que deixou o país capengando, carente de tudo. O resultado do caos é essa mais nova epidemia, a de sífilis.
Os números divulgados pelo Ministério da Saúde são assustadores. Nos últimos cinco anos a doença avançou de forma incontrolável. Em 2014 foram registrados mais de 100 mil casos de sífilis em gestante no Brasil. O surgimento de bebês com sífilis congênita foi de 6,5 casos em 2015 para cada mil nascidos vivos, 13 vezes mais do que é tolerado pela Organização Mundial da Saúde, e 170% mais do que o registrado em 2010. A sífilis em gestante teve um aumento de 202%. Passou de 3,7 para 11,2 casos a cada mil nascidos vivos. E para a sífilis adquirida, a sífilis na população em geral, a taxa é de 42,7 casos para 100 mil habitantes.
A sífilis é uma doença sexualmente transmissível. Quando não curada com eficiência ela pode atingir o cérebro e o coração levando a pessoa à morte. Como a penicilina é barata, há dois anos o remédio desapareceu do mercado. Para que a indústria volte a fabricá-lo, o Ministério da Saúde está disposto a pagar 50% a mais para trazê-lo de volta ao mercado. Assim, ele subiria dos atuais R$ 6,00 para R$ 9,00. Entendeu agora porque o antibiótico sumiu das prateleiras? É isso mesmo o que você pensou. Com o aumento, a penicilina entra de novo no mercado para acabar com a “epidemia” que a própria indústria farmacêutica provocou para forçar o Ministério da Saúde a aumentar os preços. E assim, passivamente, o governo vai desembolsar uma fortuna para combater uma doença que afeta principalmente países de extrema pobreza. Agora, epidêmico no Brasil.
Muda-se a mesa da sala, mas as cadeiras continuam as mesmas.
Jorge Oliveira
Ao constatar a epidemia, o Ministério da Saúde, mais uma vez, mostrou a sua espetacular incompetência na política de prevenção a doenças no país para impedir que muitas delas virem epidemia. Seus dirigentes aproveitam-se da situação para anunciar que o Brasil vai estimular a indústria farmacêutica a fabricar mais penicilina, pois, por se tratar de um remédio barato, ela quase não o produz mais. A pergunta que se faz é a seguinte: por que o Ministério da Saúde deixou que a doença contaminasse as mães e os bebês a esse ponto? Por que deixou virar epidemia para só então alertar para a grave situação? Será que por trás de tudo isso não está funcionando mais uma vez o lobby da indústria farmacêutica para entupir o Brasil de penicilina a preço exorbitante, como já aconteceu em outros momentos de crises fabricadas?
O brasileiro vive tão espoliado, tão massacrado pelo poder público que se tornou um povo descrente. Duvida de tudo. Não acredita mais em nada divulgado pelo governo. Está tão desiludido que reage até para o bom dia do vizinho. E tem motivos de sobra para isso. Na última década enfrentou todo tipo de epidemia: dengue, zika, chikungunya, aumento da AIDS e, agora, sífilis. Enfrentou tragédias de chuva e de seca, onde viu o dinheiro público ir para o ralo ou para o bolso dos políticos e empresários corruptos. A maior de todas as crises, entretanto, foi o desastre da administração da Dilma que deixou o país capengando, carente de tudo. O resultado do caos é essa mais nova epidemia, a de sífilis.
Os números divulgados pelo Ministério da Saúde são assustadores. Nos últimos cinco anos a doença avançou de forma incontrolável. Em 2014 foram registrados mais de 100 mil casos de sífilis em gestante no Brasil. O surgimento de bebês com sífilis congênita foi de 6,5 casos em 2015 para cada mil nascidos vivos, 13 vezes mais do que é tolerado pela Organização Mundial da Saúde, e 170% mais do que o registrado em 2010. A sífilis em gestante teve um aumento de 202%. Passou de 3,7 para 11,2 casos a cada mil nascidos vivos. E para a sífilis adquirida, a sífilis na população em geral, a taxa é de 42,7 casos para 100 mil habitantes.
A sífilis é uma doença sexualmente transmissível. Quando não curada com eficiência ela pode atingir o cérebro e o coração levando a pessoa à morte. Como a penicilina é barata, há dois anos o remédio desapareceu do mercado. Para que a indústria volte a fabricá-lo, o Ministério da Saúde está disposto a pagar 50% a mais para trazê-lo de volta ao mercado. Assim, ele subiria dos atuais R$ 6,00 para R$ 9,00. Entendeu agora porque o antibiótico sumiu das prateleiras? É isso mesmo o que você pensou. Com o aumento, a penicilina entra de novo no mercado para acabar com a “epidemia” que a própria indústria farmacêutica provocou para forçar o Ministério da Saúde a aumentar os preços. E assim, passivamente, o governo vai desembolsar uma fortuna para combater uma doença que afeta principalmente países de extrema pobreza. Agora, epidêmico no Brasil.
Muda-se a mesa da sala, mas as cadeiras continuam as mesmas.
Jorge Oliveira
Chance para ex-financiadores de campanha provarem amor pelo Brasil
Empresas investiram quase R$ 5 bilhões na campanha eleitoral de 2014. Quando perguntados porque fizeram isso, os empresários geralmente dão resposta padrão: fortalecer a democracia, participar do processo. Ou seja, se eles foram sinceros, trata-se de uma verdadeira prova de amor pelo Brasil. Mas a maioria da população duvida disso e considera que eles estavam comprando favores dos políticos.
Agora que o financiamento empresarial de campanha está proibido, as empresas têm a chance de provar que investiam desinteressadamente nas eleições. Uma prova seria investir os R$ 5 bilhões em outros benefícios coletivos que não poderão mais ser gastos, a cada quatro anos, em campanhas eleitorais, o que se equivale a R$ 1,25 bilhão por ano. Por exemplo, as empresas poderiam provar o amor ao Brasil doando recursos para o plantio de árvores.
Justifico. O Brasil desmatou demais e em lugares errados e proibidos e está sofrendo por causa disso. O desmatamento no entorno dos rios agrava o efeito das estiagens e faz rios secarem, prejudicando o abastecimento para consumo humano, o uso para agricultura e a geração de energia por meio de hidrelétricas.
Por outro lado, na época das chuvas muitos rios transbordam e alagam cidades. Isso ocorre porque sem a proteção da floresta parte do solo é levado para o leito do rio, deixando-o mais raso. E a água da chuva corre mais rapidamente para os rios quando o solo está nu. Com as árvores, a água escorreria mais lentamente e uma parte se infiltraria no solo em vez de escorrer pela superfície.
Nos morros das cidades, a falta de floresta leva a deslizamentos de terras que matam e desalojam pessoas; geralmente as mais pobres que moram em lugares proibidos ou inadequados.
Em suma, a população do campo e das cidades se beneficiaria com o reflorestamento.
Infelizmente, o plantio espontâneo ou obrigatório de árvores tem ficado muito aquém do que o necessário e pode continuar assim se depender dos políticos financiados pelos empresários no passado recente.
Parte do reflorestamento que deveria ocorrer em áreas desmatadas ilegalmente deixou de ser obrigatório, pois os políticos anistiaram parte destes crimes ao mudarem o Código Florestal em 2012. Além disso, o prazo para o início do reflorestamento de áreas desmatadas ilegalmente tem sido adiado pelos mesmos políticos – em específico, eles têm adiado o prazo para o Cadastro Ambiental Rural, que é o primeiro passo para a regularização ambiental. Acresça-se, nem o Congresso e nem o Executivo destinaram recursos do orçamento para apoiar os pequenos proprietários a reflorestarem suas áreas, conforme autoriza o Código Florestal.
Quanto seria possível plantar com o recurso que deixará de ser investido pelas empresas em financiamento de campanhas eleitorais? Considerando R$ 1,25 bilhão por ano, seria possível custear um terço do custo total anual estimado para o Brasil atingir a meta de reflorestar 12 milhões de hectares até 2030*. Mesmo supondo que as empresas só estivessem dispostas a investir metade do que investiram na última eleição (equivalente a R$ 625 milhões por ano), ainda seria um volume expressivo e suficiente para consolidar uma indústria do reflorestamento de espécies nativas que será necessária para o reflorestamento em larga escala no país. Essa indústria envolve desde a coleta de sementes, preparação de mudas, plantio e manutenção das áreas plantadas.
Investir em reflorestamento também beneficiaria diretamente os setores de algumas das empresas que financiaram eleições. Por exemplo, a JBS, a maior empresa de processamento de carne do mundo foi a maior financiadora de campanha em 2014 (R$ 350 milhões). Este valor anualizado seria suficiente para reflorestar quase 20 mil hectares por ano nas fazendas que são suas fornecedoras.
Finalmente, o financiamento do plantio de árvores resultaria em um ganho de reputação para as empresas muito maior do que financiar políticos.
Quais empresas estão dispostas a provar o seu amor pelo Brasil?
Paulo Barreto
Agora que o financiamento empresarial de campanha está proibido, as empresas têm a chance de provar que investiam desinteressadamente nas eleições. Uma prova seria investir os R$ 5 bilhões em outros benefícios coletivos que não poderão mais ser gastos, a cada quatro anos, em campanhas eleitorais, o que se equivale a R$ 1,25 bilhão por ano. Por exemplo, as empresas poderiam provar o amor ao Brasil doando recursos para o plantio de árvores.

Por outro lado, na época das chuvas muitos rios transbordam e alagam cidades. Isso ocorre porque sem a proteção da floresta parte do solo é levado para o leito do rio, deixando-o mais raso. E a água da chuva corre mais rapidamente para os rios quando o solo está nu. Com as árvores, a água escorreria mais lentamente e uma parte se infiltraria no solo em vez de escorrer pela superfície.
Nos morros das cidades, a falta de floresta leva a deslizamentos de terras que matam e desalojam pessoas; geralmente as mais pobres que moram em lugares proibidos ou inadequados.
Em suma, a população do campo e das cidades se beneficiaria com o reflorestamento.
Considerando R$ 1,25 bilhão por ano, seria possível custear um terço do custo total anual estimado para o Brasil atingir a meta de reflorestar 12 milhões de hectares até 2030
* Essa meta foi estabelecida pelo Brasil como parte do plano de reduzir as emissões de gases que causam o aquecimento global. O Instituto Escolhas estimou que seriam necessários R$ 3,7 bilhões por ano para custear o reflorestamento de 12 milhões de hectares até 2030.
Infelizmente, o plantio espontâneo ou obrigatório de árvores tem ficado muito aquém do que o necessário e pode continuar assim se depender dos políticos financiados pelos empresários no passado recente.
Parte do reflorestamento que deveria ocorrer em áreas desmatadas ilegalmente deixou de ser obrigatório, pois os políticos anistiaram parte destes crimes ao mudarem o Código Florestal em 2012. Além disso, o prazo para o início do reflorestamento de áreas desmatadas ilegalmente tem sido adiado pelos mesmos políticos – em específico, eles têm adiado o prazo para o Cadastro Ambiental Rural, que é o primeiro passo para a regularização ambiental. Acresça-se, nem o Congresso e nem o Executivo destinaram recursos do orçamento para apoiar os pequenos proprietários a reflorestarem suas áreas, conforme autoriza o Código Florestal.
Quanto seria possível plantar com o recurso que deixará de ser investido pelas empresas em financiamento de campanhas eleitorais? Considerando R$ 1,25 bilhão por ano, seria possível custear um terço do custo total anual estimado para o Brasil atingir a meta de reflorestar 12 milhões de hectares até 2030*. Mesmo supondo que as empresas só estivessem dispostas a investir metade do que investiram na última eleição (equivalente a R$ 625 milhões por ano), ainda seria um volume expressivo e suficiente para consolidar uma indústria do reflorestamento de espécies nativas que será necessária para o reflorestamento em larga escala no país. Essa indústria envolve desde a coleta de sementes, preparação de mudas, plantio e manutenção das áreas plantadas.
Investir em reflorestamento também beneficiaria diretamente os setores de algumas das empresas que financiaram eleições. Por exemplo, a JBS, a maior empresa de processamento de carne do mundo foi a maior financiadora de campanha em 2014 (R$ 350 milhões). Este valor anualizado seria suficiente para reflorestar quase 20 mil hectares por ano nas fazendas que são suas fornecedoras.
Finalmente, o financiamento do plantio de árvores resultaria em um ganho de reputação para as empresas muito maior do que financiar políticos.
Quais empresas estão dispostas a provar o seu amor pelo Brasil?
Paulo Barreto
domingo, 23 de outubro de 2016
Internet e populismo mataram a verdade
A mentira e a falácia são os dois grandes inimigos da política, do jornalismo e, em geral, da convivência humana. E de um tempo para cá a Internet, as redes sociais e o populismo mataram a verdade, criando uma sociedade na qual qualquer afirmação se torna realidade, mesmo sendo falsa; qualquer acusação repercute, mesmo caluniosa; e as meias-verdades e meias-mentiras se tornaram os eixos do debate público, agitadas pela maior maquinaria de propaganda já conhecida: a Rede.
O candidato à presidência dos Estados Unidos, Donald Trump, pode dizer que o atual presidente, Barack Obama, nasceu fora do país e não acontece nada? Pode o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, afirmar descaradamente que há uma conspiração mundial contra ele sem que sua cara caia de vergonha? Pode Mariano Rajoy negar uma e outra vez a existência do resgate europeu para a Espanha? Pode o ex-líder do Podemos Juan Carlos Monedero dizer que a ascensão de seu partido nas eleições europeias de 2014 forçou a abdicação do rei Juan Carlos e tudo bem? Os líderes do independentismo catalão podem afirmar que fora da Espanha permaneceriam na União Europeia sem que ninguém os coloque em seus devidos lugares? Podem os partidos de extrema direita europeus afirmar que os refugiados que fogem das guerras da Síria e do Afeganistão são terroristas emboscados e seus seguidores acreditam neles? Infelizmente, sim.
O populismo, de direita, de esquerda ou puramente nacionalista, começou há muito a faltar com o respeito à realidade e conseguiu crescer na base de falácias que servem para cumprir seu objetivo de chegar ao poder ou permanecer nele. De nada vale que Obama apresente sua certidão de nascimento, que os venezuelanos expressem seu desejo de liberdade, que as contas do Estado incluam o resgate financeiro da Espanha, que a história demonstre que a preparação da abdicação do Rei começou meses antes de o Podemos se apresentasse às eleições, que Bruxelas afirme que a Catalunha fora da Espanha será excluída da EU, ou que as fotos da tragédia e da indignidade demonstrem que as centenas de milhares de refugiados não vêm para a Europa para matar, mas para evitar morrer.
A verdade é incompatível com o populismo, que floresce ajudado pelos novos canais criados em torno da Internet. Centenas, milhares de ativistas, lançam suas mensagens em jornais digitais, blogs e, acima de tudo, contas em redes sociais como uma marreta batendo uma e outra vez contra a realidade, até que conseguem destruí-la.
A intimidação digital é, hoje, uma profissão de futuro intimamente ligada aos movimentos populistas de um lado e de outro. As hostes do Podemos, ou dos independentistas, partem para o combate nas redes sociais quando recebem o mandato para atacar impiedosamente um político, um jornalista, um líder de opinião ou um cidadão comum que ousou criticar um dos seus líderes, ou que simplesmente pensa de forma diferente do que eles. O insulto, a calúnia e a mentira são as armas usadas para destruir o contrário, na maioria das vezes a partir de um anonimato covarde no qual vale tudo.
Por outro lado, o nacionalismo espanhol mais rançoso também aderiu à difamação nas redes sociais. Já na campanha para as eleições municipais distribuíram documentos falsos sobre as intenções de alguns dos candidatos às principais prefeituras da Espanha. Falou-se de transformar clubes esportivos em fazendas-escola ou bobagem semelhante. E, recentemente, ativistas da mais antiga caverna lançaram a mentira descarada de que o jogador de futebol catalão Gerard Piqué tinha cortado as mangas da camisa da seleção nacional para remover a bandeira da Espanha. De nada serviram as explicações e as fotos que mostram que a camisa de manga comprida não tem a bandeira. O mal já estava feito. Mais uma vez, uma mentira repetida muitas vezes (infinitas, com a ajuda das redes sociais) se transformou em verdade e em arma a ser lançada contra seu inimigo.
Mas a mentira não é patrimônio exclusivo da política. Muitos meios de comunicação também sucumbiram à sedução de criar uma realidade que sirva aos seus interesses. Não todos, é claro; como nem todos os políticos, sociólogos e historiadores se deixaram levar pela atração fatal da falácia (argumento que parece válido, mas não é).
A irrupção da Internet no jornalismo provocou danos irreparáveis a uma profissão já duramente atingida pela crise econômica e pelas pressões dos poderes públicos e econômicos. A essência de um bom jornalista pode ser definida como buscar uma notícia, comprová-la, avaliar se é relevante e torná-la uma história bem contada. Embora nesses quatro passos que parecem simples seja muito fácil desrespeitar a verdade, que é o princípio fundamental de um bom informador.
A Rede é um canal infinito e histérico que submete o jornalista a uma pressão infernal. Trabalhei alguns anos em agências de informação onde se dizia que as notícias queimavam nas mãos e que deviam ser divulgadas o mais rapidamente possível; mas isso nunca era feito sem antes comprová-las com as três fontes obrigatórias. No mundo da Internet, as notícias não queimam, explodem. E muitas vezes, demasiadas, são publicadas sem o nível de comprovação suficiente: ou seja, sem confiabilidade (isso, sem contar as notícias publicadas com a ciência de que não são verdadeiras). Do jornal digital passam às redes sociais e, destas, a outros meios de comunicação que as retroalimentam como se as tivessem comprovado.
Ninguém está isento dessa febre provocada pelos acessos, pelos usuários únicos e pela dura concorrência. Assim, muitas vezes as manchetes são distorcidas para obter mais leitores, convertendo-as numa paródia do que realmente diz a notícia. Depois são tuitadas, retuitadas, os comunicadores de rádio e televisão as comentam, os debatedores tiram proveito, e colunistas a invertem... No final, a verdade, se é que houve algo em sua origem, vai se esmigalhando pouco a pouco, transformando a notícia num quebra-cabeça mal montado com figuras disformes.
Infelizmente, a cotação do quilo de verdade está em baixa no mercado.

O candidato à presidência dos Estados Unidos, Donald Trump, pode dizer que o atual presidente, Barack Obama, nasceu fora do país e não acontece nada? Pode o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, afirmar descaradamente que há uma conspiração mundial contra ele sem que sua cara caia de vergonha? Pode Mariano Rajoy negar uma e outra vez a existência do resgate europeu para a Espanha? Pode o ex-líder do Podemos Juan Carlos Monedero dizer que a ascensão de seu partido nas eleições europeias de 2014 forçou a abdicação do rei Juan Carlos e tudo bem? Os líderes do independentismo catalão podem afirmar que fora da Espanha permaneceriam na União Europeia sem que ninguém os coloque em seus devidos lugares? Podem os partidos de extrema direita europeus afirmar que os refugiados que fogem das guerras da Síria e do Afeganistão são terroristas emboscados e seus seguidores acreditam neles? Infelizmente, sim.
O populismo, de direita, de esquerda ou puramente nacionalista, começou há muito a faltar com o respeito à realidade e conseguiu crescer na base de falácias que servem para cumprir seu objetivo de chegar ao poder ou permanecer nele. De nada vale que Obama apresente sua certidão de nascimento, que os venezuelanos expressem seu desejo de liberdade, que as contas do Estado incluam o resgate financeiro da Espanha, que a história demonstre que a preparação da abdicação do Rei começou meses antes de o Podemos se apresentasse às eleições, que Bruxelas afirme que a Catalunha fora da Espanha será excluída da EU, ou que as fotos da tragédia e da indignidade demonstrem que as centenas de milhares de refugiados não vêm para a Europa para matar, mas para evitar morrer.
A verdade é incompatível com o populismo, que floresce ajudado pelos novos canais criados em torno da Internet. Centenas, milhares de ativistas, lançam suas mensagens em jornais digitais, blogs e, acima de tudo, contas em redes sociais como uma marreta batendo uma e outra vez contra a realidade, até que conseguem destruí-la.
A intimidação digital é, hoje, uma profissão de futuro intimamente ligada aos movimentos populistas de um lado e de outro. As hostes do Podemos, ou dos independentistas, partem para o combate nas redes sociais quando recebem o mandato para atacar impiedosamente um político, um jornalista, um líder de opinião ou um cidadão comum que ousou criticar um dos seus líderes, ou que simplesmente pensa de forma diferente do que eles. O insulto, a calúnia e a mentira são as armas usadas para destruir o contrário, na maioria das vezes a partir de um anonimato covarde no qual vale tudo.
A mentira não é patrimônio exclusivo da política. Os meios de comunicação também sucumbiram à sedução
Por outro lado, o nacionalismo espanhol mais rançoso também aderiu à difamação nas redes sociais. Já na campanha para as eleições municipais distribuíram documentos falsos sobre as intenções de alguns dos candidatos às principais prefeituras da Espanha. Falou-se de transformar clubes esportivos em fazendas-escola ou bobagem semelhante. E, recentemente, ativistas da mais antiga caverna lançaram a mentira descarada de que o jogador de futebol catalão Gerard Piqué tinha cortado as mangas da camisa da seleção nacional para remover a bandeira da Espanha. De nada serviram as explicações e as fotos que mostram que a camisa de manga comprida não tem a bandeira. O mal já estava feito. Mais uma vez, uma mentira repetida muitas vezes (infinitas, com a ajuda das redes sociais) se transformou em verdade e em arma a ser lançada contra seu inimigo.
Mas a mentira não é patrimônio exclusivo da política. Muitos meios de comunicação também sucumbiram à sedução de criar uma realidade que sirva aos seus interesses. Não todos, é claro; como nem todos os políticos, sociólogos e historiadores se deixaram levar pela atração fatal da falácia (argumento que parece válido, mas não é).
A irrupção da Internet no jornalismo provocou danos irreparáveis a uma profissão já duramente atingida pela crise econômica e pelas pressões dos poderes públicos e econômicos. A essência de um bom jornalista pode ser definida como buscar uma notícia, comprová-la, avaliar se é relevante e torná-la uma história bem contada. Embora nesses quatro passos que parecem simples seja muito fácil desrespeitar a verdade, que é o princípio fundamental de um bom informador.
A Rede é um canal infinito e histérico que submete o jornalista a uma pressão infernal. Trabalhei alguns anos em agências de informação onde se dizia que as notícias queimavam nas mãos e que deviam ser divulgadas o mais rapidamente possível; mas isso nunca era feito sem antes comprová-las com as três fontes obrigatórias. No mundo da Internet, as notícias não queimam, explodem. E muitas vezes, demasiadas, são publicadas sem o nível de comprovação suficiente: ou seja, sem confiabilidade (isso, sem contar as notícias publicadas com a ciência de que não são verdadeiras). Do jornal digital passam às redes sociais e, destas, a outros meios de comunicação que as retroalimentam como se as tivessem comprovado.
Ninguém está isento dessa febre provocada pelos acessos, pelos usuários únicos e pela dura concorrência. Assim, muitas vezes as manchetes são distorcidas para obter mais leitores, convertendo-as numa paródia do que realmente diz a notícia. Depois são tuitadas, retuitadas, os comunicadores de rádio e televisão as comentam, os debatedores tiram proveito, e colunistas a invertem... No final, a verdade, se é que houve algo em sua origem, vai se esmigalhando pouco a pouco, transformando a notícia num quebra-cabeça mal montado com figuras disformes.
Infelizmente, a cotação do quilo de verdade está em baixa no mercado.
A esquerda de bandeiras enroladas
Onde estão as bandeiras da esquerda? O que pode ser ainda eixo do discurso da esquerda no Brasil?
Depois da estrondosa derrota do PT e da pequena movimentação que eleva em alguns pontos a posição do PSOL no espectro ideológico, torna-se bastante difícil enxergar colheitas vermelhas (identificadas nas roças da esquerda) no território.
É claro que não se pode afirmar que a cor vermelha se apagará na paisagem, eis que grupamentos como MST, CUT, MTST e outros minúsculos enclaves ainda se vestirão com o manto cor de sangue. Mas as bandeiras da esquerda, no sentido do discurso, estas, sim, passarão um bom tempo esquecidas no baú.
Nesses tempos de alta tensão política, com o desdobramento do processo de investigação pela Operação Lava Jato, a preocupação central dos atores políticos é a de sobreviver aos sobressaltos.
Se os inputs ideológicos sofrem refluxo na esteira das crises econômicas que têm abalado as Nações, imagine-se o que se infere sobre a esquerda brasileira quando sua fortaleza avançada – o PT – é derrubada por bombardeios devastadores. E mais: quando o país ingressa na maior recessão de sua história.
Desde os tempos do mensalão, o Partido dos Trabalhadores tem sido considerado o eixo central da engrenagem de corrupção que consome os recursos do Estado. Logo, seu discurso de “esquerda” deixou de receber endosso. Passou a ser mentiroso.
Afinal, o que seria de esquerda para os ideólogos petistas? Dar ao Estado uma conformação paquidérmica; locupletar a máquina administrativa com milhões de militantes; fechar as empresas do Estado para qualquer iniciativa que implique abertura de programas e compartilhamento de ações com a iniciativa privada; e promover uma gastança sem fim, na crença de que os recursos do Tesouro são infinitos. Por aí se mede o tamanho do legado esquerdista que o arquipélago petista gostaria de imprimir ao país.
O fato é que nem aqui nem alhures a esquerda consegue expandir seu roçado. Ao contrário, o que tem ocorrido é uma ligeira inclinação à direita, sob o empuxo de forças do mercado, que tentam buscar alternativas para os gargalos das economias em todos os recantos.
É evidente que o Estado deverá continuar a deter seu papel de controle e intervenção quando as crises assim o exigirem. Isso foi o que aconteceu na crise de 2008, quando a maior democracia ocidental, os Estados Unidos, se obrigou a intervir no mercado e a controlar os rumos da economia.
Mas o fato é que o Estado não tem cumprido suas tarefas e funções, ante a inexorável pressão de populações desassistidas e carentes. Os serviços públicos têm entrado em situação de penúria. Os equipamentos das estruturas de saúde, educação e mobilidade são precários e defasados.
Ante as demandas crescentes, por parte de conjuntos cada vez mais críticos e exigentes, o Estado só tem uma alternativa: repartir suas funções com a iniciativa privada.
Essa é a radiografia que remanescentes da ortodoxa esquerda não querem enxergar. Por isso, abrem suas tubas de ressonância para deflagrar campanhas negativas contra gestores e representantes que pregam o avanço e jogam suas fichas no tabuleiro da modernidade.
O presidente Macri, na Argentina, tenta viabilizar uma administração voltada para salvar a economia do país. Por aqui, é visível o esforço do governo Temer para tirar o país do buraco mais fundo de sua história econômica. A economia é o foco da administração.
Azeitada, a locomotiva econômica puxará os carros do trem para os trilhos, garantindo recursos para pagar os aposentados, expandindo o mercado de trabalho, consolidando os eixos da educação de qualidade, garantindo investimentos na infraestrutura.
Na maior metrópole do país, São Paulo, o prefeito eleito, João Doria, promete agir sob o mesmo espírito de modernização das estruturas. Teremos uma máquina menor, mais funcional, mais ágil, tocada por quadros qualificados.
Em muitos municípios, entre os 5.668, o discurso de avanços poderá dar o tom do novo ciclo político-administrativo que se inicia.
Não há mais condições para que velhas práticas da administração e da política continuem a ser usadas. Daí a necessidade de um choque de cultura. Os grupos que agem no entorno do Estado precisam mudar comportamentos.
As Centrais Sindicais constituem um exemplo. Parecem arremedos do sindicalismo de proveta. Lutam para receber contribuições cada vez mais gordas do sistema confederativo. E usam recursos para aumentar ricos patrimônios com imóveis e instalações suntuosas.
Os partidos políticos, por sua vez, haverão de ganhar escopos conceituais, de forma a criar e a preservar uma identidade.
Não são necessários mais que 10 a 15 partidos. Cláusulas de desempenho – votação acima de um teto em um determinado grupo de Estados - condicionarão sua existência. Sua participação nas administrações se faz necessária, até porque a meta de um partido é alcançar o poder. Mas os entes devem fazer indicações meritórias, quadros preparados e tecnicamente capacitados para exercer os cargos.
A responsabilidade no campo da administração pública se fará absolutamente necessária. De forma que serviços malfeitos, desleixo, apatia, desorganização, falta de zelo por parte dos gestores implicará seu imediato afastamento das estruturas públicas nos três níveis da administração – União, Estados e Municípios.
Transparência e controle – eis dois valores que haverão de ganhar força nos próximos tempos. A abertura dos canais da administração dará clareza aos contratos, propiciando disputas ordenadas por critérios de justiça. Controlar o fluxo e o cronograma de obras será fundamental para dar eficiência à administração pública, ao mesmo tempo em que aumentará o grau de confiança dos cidadãos em seus gestores.
Não há como inserir a tecla da “esquerda” nessa planilha de conceitos e valores. Por isso mesmo, sugere-se aos retardatários que ainda não chegaram ao século XXI, que despertem de seus sonhos. Parecem ter adormecido antes da queda do Muro de Berlim e ainda não despertaram. Abram os olhos antes que sejam jogados no monturo das coisas rotas e sem uso.
Depois da estrondosa derrota do PT e da pequena movimentação que eleva em alguns pontos a posição do PSOL no espectro ideológico, torna-se bastante difícil enxergar colheitas vermelhas (identificadas nas roças da esquerda) no território.
É claro que não se pode afirmar que a cor vermelha se apagará na paisagem, eis que grupamentos como MST, CUT, MTST e outros minúsculos enclaves ainda se vestirão com o manto cor de sangue. Mas as bandeiras da esquerda, no sentido do discurso, estas, sim, passarão um bom tempo esquecidas no baú.
Nesses tempos de alta tensão política, com o desdobramento do processo de investigação pela Operação Lava Jato, a preocupação central dos atores políticos é a de sobreviver aos sobressaltos.
Se os inputs ideológicos sofrem refluxo na esteira das crises econômicas que têm abalado as Nações, imagine-se o que se infere sobre a esquerda brasileira quando sua fortaleza avançada – o PT – é derrubada por bombardeios devastadores. E mais: quando o país ingressa na maior recessão de sua história.
Desde os tempos do mensalão, o Partido dos Trabalhadores tem sido considerado o eixo central da engrenagem de corrupção que consome os recursos do Estado. Logo, seu discurso de “esquerda” deixou de receber endosso. Passou a ser mentiroso.
Afinal, o que seria de esquerda para os ideólogos petistas? Dar ao Estado uma conformação paquidérmica; locupletar a máquina administrativa com milhões de militantes; fechar as empresas do Estado para qualquer iniciativa que implique abertura de programas e compartilhamento de ações com a iniciativa privada; e promover uma gastança sem fim, na crença de que os recursos do Tesouro são infinitos. Por aí se mede o tamanho do legado esquerdista que o arquipélago petista gostaria de imprimir ao país.
O fato é que nem aqui nem alhures a esquerda consegue expandir seu roçado. Ao contrário, o que tem ocorrido é uma ligeira inclinação à direita, sob o empuxo de forças do mercado, que tentam buscar alternativas para os gargalos das economias em todos os recantos.
É evidente que o Estado deverá continuar a deter seu papel de controle e intervenção quando as crises assim o exigirem. Isso foi o que aconteceu na crise de 2008, quando a maior democracia ocidental, os Estados Unidos, se obrigou a intervir no mercado e a controlar os rumos da economia.
Mas o fato é que o Estado não tem cumprido suas tarefas e funções, ante a inexorável pressão de populações desassistidas e carentes. Os serviços públicos têm entrado em situação de penúria. Os equipamentos das estruturas de saúde, educação e mobilidade são precários e defasados.
Ante as demandas crescentes, por parte de conjuntos cada vez mais críticos e exigentes, o Estado só tem uma alternativa: repartir suas funções com a iniciativa privada.
Essa é a radiografia que remanescentes da ortodoxa esquerda não querem enxergar. Por isso, abrem suas tubas de ressonância para deflagrar campanhas negativas contra gestores e representantes que pregam o avanço e jogam suas fichas no tabuleiro da modernidade.
O presidente Macri, na Argentina, tenta viabilizar uma administração voltada para salvar a economia do país. Por aqui, é visível o esforço do governo Temer para tirar o país do buraco mais fundo de sua história econômica. A economia é o foco da administração.
Azeitada, a locomotiva econômica puxará os carros do trem para os trilhos, garantindo recursos para pagar os aposentados, expandindo o mercado de trabalho, consolidando os eixos da educação de qualidade, garantindo investimentos na infraestrutura.
Na maior metrópole do país, São Paulo, o prefeito eleito, João Doria, promete agir sob o mesmo espírito de modernização das estruturas. Teremos uma máquina menor, mais funcional, mais ágil, tocada por quadros qualificados.
Em muitos municípios, entre os 5.668, o discurso de avanços poderá dar o tom do novo ciclo político-administrativo que se inicia.
Não há mais condições para que velhas práticas da administração e da política continuem a ser usadas. Daí a necessidade de um choque de cultura. Os grupos que agem no entorno do Estado precisam mudar comportamentos.
As Centrais Sindicais constituem um exemplo. Parecem arremedos do sindicalismo de proveta. Lutam para receber contribuições cada vez mais gordas do sistema confederativo. E usam recursos para aumentar ricos patrimônios com imóveis e instalações suntuosas.
Os partidos políticos, por sua vez, haverão de ganhar escopos conceituais, de forma a criar e a preservar uma identidade.
Não são necessários mais que 10 a 15 partidos. Cláusulas de desempenho – votação acima de um teto em um determinado grupo de Estados - condicionarão sua existência. Sua participação nas administrações se faz necessária, até porque a meta de um partido é alcançar o poder. Mas os entes devem fazer indicações meritórias, quadros preparados e tecnicamente capacitados para exercer os cargos.
A responsabilidade no campo da administração pública se fará absolutamente necessária. De forma que serviços malfeitos, desleixo, apatia, desorganização, falta de zelo por parte dos gestores implicará seu imediato afastamento das estruturas públicas nos três níveis da administração – União, Estados e Municípios.
Transparência e controle – eis dois valores que haverão de ganhar força nos próximos tempos. A abertura dos canais da administração dará clareza aos contratos, propiciando disputas ordenadas por critérios de justiça. Controlar o fluxo e o cronograma de obras será fundamental para dar eficiência à administração pública, ao mesmo tempo em que aumentará o grau de confiança dos cidadãos em seus gestores.
Não há como inserir a tecla da “esquerda” nessa planilha de conceitos e valores. Por isso mesmo, sugere-se aos retardatários que ainda não chegaram ao século XXI, que despertem de seus sonhos. Parecem ter adormecido antes da queda do Muro de Berlim e ainda não despertaram. Abram os olhos antes que sejam jogados no monturo das coisas rotas e sem uso.
Nova era à vista
Anular o voto, segundo o meu amigo, é terceirizar a inteligência, “tem sempre algo de menos dramático a preferir entre um e outro”, e nesse sentido a escolha se faz um dever.
É nítido, neste momento histórico, que onde existe uma possibilidade eleitoral a favor da “novidade” e da capacidade de gestão, em contraposição à política que levou o Brasil à “falência”, o eleitor tende a embarcar na primeira. Foram poucas as candidaturas em 2016 com esse apelo, mas tiveram um elevado índice de sucesso.
Caso mais meridiano é o de João Doria, em São Paulo. Pegou o pouco de bom da tradição e se fartou de muita mudança e capacidade de gestão.
Nunca foi tão difícil para políticos requentar as velhas propostas e discursos; os comícios foram ultrapassados em importância pelo Facebook, mais barato, de maior e mais contundente alcance.
Quem deixou de fazer carreatas economizou gasolina sem perder um voto, os candidatos mais atentos se esquivaram dessas e se deram bem. Quem usou a roupagem a rigor da política enfrentou desconforto.
O eleitor de 2016 é o mais revoltado das últimas décadas. Parece estar sofrendo na pele a catástrofe que assola o país e enxerga a razão disso na corrupção em suas multíplices formas adotadas pelos políticos.
O desemprego e a falta de atenção a educação, saúde e segurança devastaram o conceito de quem está nas proximidades do “poder”. E com razão! O povo sofre. Sofre muito e culpa quem está no poder.
Os partidos historicamente antagônicos nunca foram tão nivelados em mediocridade. Mais ou menos culpados, mais ou menos coniventes, os navegantes do poder estão ardendo na mesma frigideira e, autopsiados, revelam as mesmas causas internas de falência generalizada.
No debate da RedeTV! aqui, em BH, um deplorável encontro de “vale-tudo”, o candidato do PSDB negou seu padrinho, não respondeu às perguntas que afirmariam o apoio dele. Parecia como são Pedro na Quinta-Feira Santa ao ser interrogado pelos soldados romanos antes que o galo cantasse na madrugada. A expressão dele era aquela imortalizada no quadro “A Negação de Pedro”.
Nessa obra exibe-se o apóstolo com trepidação em sua expressão insegura. Seus olhos buscam – sem encontrar – a firmeza para se desvencilhar do que o levaria à desgraça. Provavelmente, no caso de João Leite, não seria uma perda, mas nitidamente estava temeroso e preparado para sair de uma ligação que até ontem era sua maior bandeira. Alexandre Kalil deu um “coice” no presidente de seu partido, PHS, “nunca o vi”, e ainda afirmou que se filiou a um partido porque de outra forma não poderia ser legalmente candidato.
Para atento observador, essas manifestações consolidam os fantasmas que aparecem no horizonte verde-amarelo. Nos últimos dias, a ficha caiu, e ninguém quer ser apadrinhado por quem quer que seja.
Repete-se o fenômeno que se seguiu à operação Mani Pulite, na Itália, e poderá ocorrer aqui, no Brasil, em decorrência da Lava Jato. Os partidos foram varridos lá, porque na Itália o sistema, que funcionava num clima saturado de corrupção, foi condenado como um todo.
A mudança é politicamente progressiva e sequencial. Previsível, apesar de incerto ser o prazo de execução do destino.
A eleição de 2018 ocorrerá à luz da legislação atual, a não ser que movimentos de ruas, empurrados por redes sociais, antecipem a ruptura do velho modelo, mas até lá muitos desaparecerão de cena.
A transição da velha para a nova política está para acontecer e se precipitar com a prisão de Eduardo Cunha, um meteorito que extinguirá o sistema jurássico.
João Doria, em São Paulo, antecipa a solidificação do magma que escorre da erupção em curso. Outra era está nascendo.
É nítido, neste momento histórico, que onde existe uma possibilidade eleitoral a favor da “novidade” e da capacidade de gestão, em contraposição à política que levou o Brasil à “falência”, o eleitor tende a embarcar na primeira. Foram poucas as candidaturas em 2016 com esse apelo, mas tiveram um elevado índice de sucesso.
Caso mais meridiano é o de João Doria, em São Paulo. Pegou o pouco de bom da tradição e se fartou de muita mudança e capacidade de gestão.
Nunca foi tão difícil para políticos requentar as velhas propostas e discursos; os comícios foram ultrapassados em importância pelo Facebook, mais barato, de maior e mais contundente alcance.
Quem deixou de fazer carreatas economizou gasolina sem perder um voto, os candidatos mais atentos se esquivaram dessas e se deram bem. Quem usou a roupagem a rigor da política enfrentou desconforto.
O eleitor de 2016 é o mais revoltado das últimas décadas. Parece estar sofrendo na pele a catástrofe que assola o país e enxerga a razão disso na corrupção em suas multíplices formas adotadas pelos políticos.
O desemprego e a falta de atenção a educação, saúde e segurança devastaram o conceito de quem está nas proximidades do “poder”. E com razão! O povo sofre. Sofre muito e culpa quem está no poder.
Os partidos historicamente antagônicos nunca foram tão nivelados em mediocridade. Mais ou menos culpados, mais ou menos coniventes, os navegantes do poder estão ardendo na mesma frigideira e, autopsiados, revelam as mesmas causas internas de falência generalizada.
No debate da RedeTV! aqui, em BH, um deplorável encontro de “vale-tudo”, o candidato do PSDB negou seu padrinho, não respondeu às perguntas que afirmariam o apoio dele. Parecia como são Pedro na Quinta-Feira Santa ao ser interrogado pelos soldados romanos antes que o galo cantasse na madrugada. A expressão dele era aquela imortalizada no quadro “A Negação de Pedro”.
Nessa obra exibe-se o apóstolo com trepidação em sua expressão insegura. Seus olhos buscam – sem encontrar – a firmeza para se desvencilhar do que o levaria à desgraça. Provavelmente, no caso de João Leite, não seria uma perda, mas nitidamente estava temeroso e preparado para sair de uma ligação que até ontem era sua maior bandeira. Alexandre Kalil deu um “coice” no presidente de seu partido, PHS, “nunca o vi”, e ainda afirmou que se filiou a um partido porque de outra forma não poderia ser legalmente candidato.
Para atento observador, essas manifestações consolidam os fantasmas que aparecem no horizonte verde-amarelo. Nos últimos dias, a ficha caiu, e ninguém quer ser apadrinhado por quem quer que seja.
Repete-se o fenômeno que se seguiu à operação Mani Pulite, na Itália, e poderá ocorrer aqui, no Brasil, em decorrência da Lava Jato. Os partidos foram varridos lá, porque na Itália o sistema, que funcionava num clima saturado de corrupção, foi condenado como um todo.
A mudança é politicamente progressiva e sequencial. Previsível, apesar de incerto ser o prazo de execução do destino.
A eleição de 2018 ocorrerá à luz da legislação atual, a não ser que movimentos de ruas, empurrados por redes sociais, antecipem a ruptura do velho modelo, mas até lá muitos desaparecerão de cena.
A transição da velha para a nova política está para acontecer e se precipitar com a prisão de Eduardo Cunha, um meteorito que extinguirá o sistema jurássico.
João Doria, em São Paulo, antecipa a solidificação do magma que escorre da erupção em curso. Outra era está nascendo.
Os catedráticos em bandalheiras
Com a pretensão de ensinar aos brasileiros como devemos nos comportar diante da corrupção, esses catedráticos em bandalheira deram declarações esclarecedoras – e estarrecedoras – nos últimos dias. O ex-presidente Lula da Silva, por exemplo, assinou artigo no jornal Folha de S.Paulo no qual diz perceber “uma perigosa ignorância de agentes da lei quanto ao funcionamento do governo e das instituições”. Para o chefão petista, os delegados e promotores “não sabiam como funciona um governo de coalizão”. Infelizmente, a aula do mestre Lula terminou aí, mas os bons alunos haverão de entender a lição: a julgar pela experiência petista, um governo de coalizão funciona na base da compra, de preferência em dinheiro vivo, de apoio parlamentar, razão pela qual não é possível pensar num governo que arregimente apoio apenas na base de afinidade de ideias. Para Lula, é evidente que os agentes da lei tinham de saber disso.
Movido pelo mesmo espírito didático, Eugênio Aragão, que foi ministro da Justiça do governo de Dilma Rousseff até o impeachment da presidente, deu uma entrevista à revista Carta Capital na qual se propôs a explicar aos cidadãos por que a corrupção não apenas é “tolerável”, segundo suas próprias palavras, como também, em certos aspectos, é positiva.
Como Lula, Aragão tratou de desqualificar os procuradores da República porque, segundo ele, desconhecem como funciona a corrupção. “Essa garotada do Ministério Público não tem a mínima noção de economia”, disse Aragão. Para ele, empresas pilhadas em corrupção, como aconteceu na Lava Jato, não deveriam ser punidas, porque, nesse caso, empresas estrangeiras tomariam seu lugar, roubando empregos dos brasileiros. “Aqui no Brasil a gente entrega nossos ativos com uma facilidade impressionante”, protestou Aragão. Os procuradores “não sabem como isso funciona” e “simplesmente botaram na cabeça uma ideia falso-moralista de que o País tem de ser limpo”, argumentou ele. Ora, diz o ex-ministro, “corrupção existe em todas as parte dos mundo” e “não é um problema moral, é sobretudo um problema estrutural simples”.
E a aula prosseguiu. A corrupção acontece, explicou Aragão, “quando os processos administrativos de decisão são bloqueados” e, para desbloqueá-los, “a empresa distribui dinheiro”. Ao “molhar a mão dos fiscais para isso ir mais rápido”, conforme argumentou o ex-ministro, a empresa consegue superar a burocracia “e entrar mais cedo como concorrente no mercado”, razão pela qual – atenção – “do ponto de vista econômico isso não é ruim, não”. Para Aragão, “a corrupção que, na verdade, serve como uma graxa na engrenagem da máquina, essa, do ponto de vista econômico, é tolerável”. E ele arremata: “A Lava Jato gaba-se de ter devolvido ao País R$ 2 bilhões. E quantos bilhões a gente gastou para isso? Do ponto de vista econômico, a conta não fecha”.
Portanto, não se trata de entender a corrupção como parte de um mundo naturalmente imperfeito. O que se tem aqui está em outro patamar: para essa turma, temos que aceitar que o combate à corrupção é indesejável e prejudica o País. Felizmente, os brasileiros estão a dizer claramente para esse pessoal, nas urnas e nos tribunais, o que pensam disso.
Como Lula, Aragão tratou de desqualificar os procuradores da República porque, segundo ele, desconhecem como funciona a corrupção. “Essa garotada do Ministério Público não tem a mínima noção de economia”, disse Aragão. Para ele, empresas pilhadas em corrupção, como aconteceu na Lava Jato, não deveriam ser punidas, porque, nesse caso, empresas estrangeiras tomariam seu lugar, roubando empregos dos brasileiros. “Aqui no Brasil a gente entrega nossos ativos com uma facilidade impressionante”, protestou Aragão. Os procuradores “não sabem como isso funciona” e “simplesmente botaram na cabeça uma ideia falso-moralista de que o País tem de ser limpo”, argumentou ele. Ora, diz o ex-ministro, “corrupção existe em todas as parte dos mundo” e “não é um problema moral, é sobretudo um problema estrutural simples”.
E a aula prosseguiu. A corrupção acontece, explicou Aragão, “quando os processos administrativos de decisão são bloqueados” e, para desbloqueá-los, “a empresa distribui dinheiro”. Ao “molhar a mão dos fiscais para isso ir mais rápido”, conforme argumentou o ex-ministro, a empresa consegue superar a burocracia “e entrar mais cedo como concorrente no mercado”, razão pela qual – atenção – “do ponto de vista econômico isso não é ruim, não”. Para Aragão, “a corrupção que, na verdade, serve como uma graxa na engrenagem da máquina, essa, do ponto de vista econômico, é tolerável”. E ele arremata: “A Lava Jato gaba-se de ter devolvido ao País R$ 2 bilhões. E quantos bilhões a gente gastou para isso? Do ponto de vista econômico, a conta não fecha”.
Portanto, não se trata de entender a corrupção como parte de um mundo naturalmente imperfeito. O que se tem aqui está em outro patamar: para essa turma, temos que aceitar que o combate à corrupção é indesejável e prejudica o País. Felizmente, os brasileiros estão a dizer claramente para esse pessoal, nas urnas e nos tribunais, o que pensam disso.
Impunidade de Renan consegue desmoralizar Executivo, Legislativo e Judiciário
O senador Renan Calheiros é o mais perfeito exemplo da desmoralização simultânea dos três Poderes da República. Sua inexplicável impunidade é uma afronta à cidadania e depõe contra o funcionamento das instituições brasileiras. A trajetória política dele mais parece uma folha corrida. Como conseguiu ser eleito senador após ter renunciado à presidência da Mesa Diretora para evitar cassação? Somente esse fato já mostra a falência da política nacional. E logo depois ele conseguiu voltar a ser presidente do Senado e entrou de novo na linha sucessória da República, vejam a que ponto de esculhambação chegamos.
Renan foi um dos homens de ouro do então presidente Fernando Collor e desde sempre esteve envolvido em corrupção. Em 2006, ficou provado que recebia mesada da empreiteira Mendes Júnior para sustentar uma filha fora do casamento, cuja mãe virou capa da Playboy. Para se defender, o senador então apresentou notas frias de falsas venda de gado. Nada, absolutamente nada, aconteceu a Renan, e o processo está prestes a prescrever no Supremo, que coleciona inquéritos e ações contra ele.
A impunidade de Renan Calheiros é imponderável, inaceitável e inacreditável. Não há explicação. E devemos lembrar que esse personagem marginal até chegou a ser ministro da Justiça no governo de Fernando Henrique Cardoso, que até hoje alimenta o sonho de voltar ao poder, era só o que faltava.
E agora a Folha de S. Paulo noticia que “após irritação de Renan, Temer discute operação com ministro da Justiça”, referindo-se à prisão do diretor da Polícia do Senado, Pedro Ricardo Araújo. Protegido de José Sarney e de Renan Calheiros, este servidor da República funciona como uma espécie de leão-de-chácara dos caciques do PMDB e de outros políticos de idêntica ideologia, digamos assim, como Gleisi Hoffmann (PT-PR), Fernando Collor (PTC-AL) e José Sarney (PMDB-AP).
Quer dizer que o presidente Michel Temer se reuniu com Alexandre de Moraes, ministro da Justiça, para criticar a operação da Polícia Federal no Senado e depois telefonar e se desculpar com Renan, que considerou abusiva a operação policial? Será que entendi bem a reportagem de Gustavo Uribe e Daniel Carvalho?

A impunidade de Renan Calheiros é imponderável, inaceitável e inacreditável. Não há explicação. E devemos lembrar que esse personagem marginal até chegou a ser ministro da Justiça no governo de Fernando Henrique Cardoso, que até hoje alimenta o sonho de voltar ao poder, era só o que faltava.
E agora a Folha de S. Paulo noticia que “após irritação de Renan, Temer discute operação com ministro da Justiça”, referindo-se à prisão do diretor da Polícia do Senado, Pedro Ricardo Araújo. Protegido de José Sarney e de Renan Calheiros, este servidor da República funciona como uma espécie de leão-de-chácara dos caciques do PMDB e de outros políticos de idêntica ideologia, digamos assim, como Gleisi Hoffmann (PT-PR), Fernando Collor (PTC-AL) e José Sarney (PMDB-AP).
Quer dizer que o presidente Michel Temer se reuniu com Alexandre de Moraes, ministro da Justiça, para criticar a operação da Polícia Federal no Senado e depois telefonar e se desculpar com Renan, que considerou abusiva a operação policial? Será que entendi bem a reportagem de Gustavo Uribe e Daniel Carvalho?
Os excelentes jornalistas da Folha revelaram também que na sexta-feira, horas depois da operação da Polícia Federal, o ministro Geddel Vieira Lima (Secretaria de Governo) foi um dos primeiros a entrar em contato com Renan.
Noticiaram também que a reação do presidente do Senado será abrir espaço para aprovar o projeto que estabelece punições a autoridades policiais e judiciais que cometerem abusos.
Quer dizer que é assim que funcionam as instituições? O presidente do Senado protege acintosamente notórios corruptos, como Collor, Sarney e Gleisi, mas o ministro Geddel e o presidente Temer consideram que isso é normal e até dão força ao meliante?
Noticiaram também que a reação do presidente do Senado será abrir espaço para aprovar o projeto que estabelece punições a autoridades policiais e judiciais que cometerem abusos.
Quer dizer que é assim que funcionam as instituições? O presidente do Senado protege acintosamente notórios corruptos, como Collor, Sarney e Gleisi, mas o ministro Geddel e o presidente Temer consideram que isso é normal e até dão força ao meliante?
A incompreensível impunidade de Renan e seu prestígio na política conduzem a algumas conclusões:
1) O governo de Michel Temer continua refém dos caciques do PMDB, conforme temos noticiado aqui na Tribuna da Internet;
2) O Supremo não tem a menor condição de processar parlamentares e ministros corruptos, porque é conivente, omisso ou incapaz;
3) O foro privilegiado precisa acabar, o mais rápido possível, para deixar a primeira instância florescer;
4) Os três Poderes estão apodrecidos, como diz Caetano Veloso, e precisam ser lavados e enxaguados, como diria Odorico Paraguaçu, o genial personagem da peça “O Bem Amado”, que virou uma das melhores produções da TV Globo.
5) Tentar abafar a Lava Jato não passa de ilusão, porque é mais fácil o governo ser derrubado do que parar a nova geração que toca a Justiça Federal, a Procuradoria-Geral da República e a Polícia Federal.
6) Alguém tem alguma dúvida a respeito?
1) O governo de Michel Temer continua refém dos caciques do PMDB, conforme temos noticiado aqui na Tribuna da Internet;
2) O Supremo não tem a menor condição de processar parlamentares e ministros corruptos, porque é conivente, omisso ou incapaz;
3) O foro privilegiado precisa acabar, o mais rápido possível, para deixar a primeira instância florescer;
4) Os três Poderes estão apodrecidos, como diz Caetano Veloso, e precisam ser lavados e enxaguados, como diria Odorico Paraguaçu, o genial personagem da peça “O Bem Amado”, que virou uma das melhores produções da TV Globo.
5) Tentar abafar a Lava Jato não passa de ilusão, porque é mais fácil o governo ser derrubado do que parar a nova geração que toca a Justiça Federal, a Procuradoria-Geral da República e a Polícia Federal.
6) Alguém tem alguma dúvida a respeito?
Temer alista seu governo na infantaria de Renan
Às favas a lógica com o caso da Polícia Legislativa do Senado. Sob Renan Calheiros, montou-se nos porões do Poder Legislativo um departamento de bisbilhotagem. Com verba pública, adquiriram-se equipamentos de inteligência capazes de fazer e desfazer grampos e escutas ambientais. Às custas do contribuinte, policiais legislativos foram mobilizados para proteger senadores suspeitos de assaltar o Estado. Realizaram-se varreduras de escutas em gabinetes, residências funcionais e imóveis particulares —em Brasília e alhures. E Renan, em vez de ficar constrangido, está irritado.
Pilhado numa investigação de mostruário —nascida de uma delação, executada pela Polícia Federal, sob supervisão do Ministério Público Federal e com a anuência do Poder Judiciário—, o Senado reagiu com uma nota oficial assinada por seu presidente. Nela, Renan Calheiros defende as ações de quatro policiais legislativos presos e demarca o seu terreno: “As instituições, assim como o Senado Federal, devem guardar os limites de suas atribuições legais.” Beleza. Mas faltou responder: quem zelará pelo interesse público quando o Senado for utilizado como biombo para ilegalidades?
Depois de emitir a nota, Renan dedicou-se a uma de suas especialidades: a retaliação. Borrifou ameaças no ar. Fez saber ao Planalto que não gostou da entrevista na qual o ministro Alexandre Moraes (Justiça) justificou a operação montada para deter as extrapolações dos policiais legislativos. E voltou a brandir o projeto que pune os chamados abusos de autoridade. Renan faz dessa proposta uma espécie espada multiuso. Ora espeta os procuradores da força-tarefa da Lava Jato ora cutuca Sergio Moro. Revela-se capaz de tudo, menos de um autoexame que o faça enxergar seus próprios abusos.
De repente, numa subversão da lógica, o Planalto deflagrou uma articulação para acalmar Renan. Coordenador político do governo, o ministro Geddel Vieira Lima tocou o telefone para o senador. O próprio Michel Temer adulou Renan com um telefonema. Antes, enquadrou o ministro da Justiça, convocando-o em pleno sábado para prestar informações sobre a operação em que a Polícia Federal, munida de cinco mandados judiciais de busca e apreensão e quatro ordens de prisão, recolheu equipamentos de espionagem do Senado e prendeu quatro policiais legislativos, entre eles o diretor da Polícia do Senado, Paulo Ivo Bosco Silva, homem de confiança de Renan.
Num par de telefonemas, o governo Michel Temer atravessou a Praça dos Três Poderes para se alistar na infantaria que, sob Renan Calheiros, é acusada de obstruir investigações que alvejam personagens como Fernando Collor, José Sarney, Edison Lobão Filho e Gleisi Hoffmann. O Planalto reforça seu alinhamento com Renan num instante em que a Lava Jato arromba o principal armário do imperador de Alagoas: a Transpetro.
O delator Felipe Rocha Parente, que se apresenta como entregador de propinas, revela aos investigadores os caminhos que a verba suja percorreu para migrar da subsidiária da Petrobras para os bolsos de pajés do PMDB. Estima-se que escoaram por esse duto pelo menos R$ 100 milhões em 12 anos. Desse total, Renam apropriou-se R$ 32 milhões, informou outro delator, o ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado.
Compreende-se a irritação de Renan. Ele tem 32 milhões de motivos para espumar de raiva. Que conhece o senador sabe: é nos instantes em que está for a de si que ele mostra o que tem por dentro. O que parece incompreensível é o esforço que o governo empreende para demonstrar que é parte do problema. Não há governabilidade que justifique o erro político de reforçar a impressão de que Renan manda porque pode e o presidente da República obedece porque tem juízo. Dilma Rousseff mantinha com Lula um relacionamento do mesmo tipo. Deu em Michel Temer.
Pilhado numa investigação de mostruário —nascida de uma delação, executada pela Polícia Federal, sob supervisão do Ministério Público Federal e com a anuência do Poder Judiciário—, o Senado reagiu com uma nota oficial assinada por seu presidente. Nela, Renan Calheiros defende as ações de quatro policiais legislativos presos e demarca o seu terreno: “As instituições, assim como o Senado Federal, devem guardar os limites de suas atribuições legais.” Beleza. Mas faltou responder: quem zelará pelo interesse público quando o Senado for utilizado como biombo para ilegalidades?
Depois de emitir a nota, Renan dedicou-se a uma de suas especialidades: a retaliação. Borrifou ameaças no ar. Fez saber ao Planalto que não gostou da entrevista na qual o ministro Alexandre Moraes (Justiça) justificou a operação montada para deter as extrapolações dos policiais legislativos. E voltou a brandir o projeto que pune os chamados abusos de autoridade. Renan faz dessa proposta uma espécie espada multiuso. Ora espeta os procuradores da força-tarefa da Lava Jato ora cutuca Sergio Moro. Revela-se capaz de tudo, menos de um autoexame que o faça enxergar seus próprios abusos.

De repente, numa subversão da lógica, o Planalto deflagrou uma articulação para acalmar Renan. Coordenador político do governo, o ministro Geddel Vieira Lima tocou o telefone para o senador. O próprio Michel Temer adulou Renan com um telefonema. Antes, enquadrou o ministro da Justiça, convocando-o em pleno sábado para prestar informações sobre a operação em que a Polícia Federal, munida de cinco mandados judiciais de busca e apreensão e quatro ordens de prisão, recolheu equipamentos de espionagem do Senado e prendeu quatro policiais legislativos, entre eles o diretor da Polícia do Senado, Paulo Ivo Bosco Silva, homem de confiança de Renan.
Num par de telefonemas, o governo Michel Temer atravessou a Praça dos Três Poderes para se alistar na infantaria que, sob Renan Calheiros, é acusada de obstruir investigações que alvejam personagens como Fernando Collor, José Sarney, Edison Lobão Filho e Gleisi Hoffmann. O Planalto reforça seu alinhamento com Renan num instante em que a Lava Jato arromba o principal armário do imperador de Alagoas: a Transpetro.
O delator Felipe Rocha Parente, que se apresenta como entregador de propinas, revela aos investigadores os caminhos que a verba suja percorreu para migrar da subsidiária da Petrobras para os bolsos de pajés do PMDB. Estima-se que escoaram por esse duto pelo menos R$ 100 milhões em 12 anos. Desse total, Renam apropriou-se R$ 32 milhões, informou outro delator, o ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado.
Compreende-se a irritação de Renan. Ele tem 32 milhões de motivos para espumar de raiva. Que conhece o senador sabe: é nos instantes em que está for a de si que ele mostra o que tem por dentro. O que parece incompreensível é o esforço que o governo empreende para demonstrar que é parte do problema. Não há governabilidade que justifique o erro político de reforçar a impressão de que Renan manda porque pode e o presidente da República obedece porque tem juízo. Dilma Rousseff mantinha com Lula um relacionamento do mesmo tipo. Deu em Michel Temer.
Quando se proibirá?
O projeto das 10 Medidas, Moro e a trincheira da cidadania
A ministra Cármen Lúcia, em entrevista ao programa Roda viva desta semana, entre várias questões importantes de uma extensa pauta, declarou seu apoio ao projeto das 10 Medidas contra a corrupção, ainda que com ressalvas à viabilidade de algumas delas, que devem ser aperfeiçoadas pelos deputados da comissão, nesta próxima semana. Depois de mais de 60 convidados das mais diferentes áreas chamados a contribuir em audiências públicas, o relator da matéria, deputado Onyx Lorenzoni, formulará o relatório final que será lido entre os dias 1° e 7 de novembro. Isto se o grande inimigo da Lava Jato, o senador Renan Calheiros, não arranjar um meio de boicotar o projeto, como vem tentando. Ao ser perguntada, a ministra Cármen Lúcia questionou a oportunidade do projeto de lei sobre o abuso de autoridade contra promotores, juízes e demais agentes públicos patrocinado pelo senador, que quer votar essa lei como meio de engessar a Lava Jato ainda no mês de novembro. É uma corrida contra o tempo. E o senador quer juntar tudo no mesmo balaio: as 10 Medidas, o abuso de autoridade e a reforma política, sabe-se lá com que malévola intenção. Mas a ministra já se antecipou a esta contradança entre Legislativo e Judiciário: “O que se precisa perguntar é se há legitimidade nesta mudança ou se passa por análise de oportunidade e conveniência”, disse. “Precisa ser agora? O que motiva que tenha de ser agora?”, questionou. Numa entrevista ao Estadão, Deltan Dallagnol, autor do projeto das 10 Medidas, comentou ser “favorável à modernização da lei de abuso de autoridade, mas que as regras do projeto permitem que sejam interpretadas para punir policiais, procuradores, promotores e juízes que desempenham seu trabalho de modo legítimo”. Cabe lembrar que ainda em maio deste ano, Renan Calheiros e Romero Jucá foram flagrados em grampos telefônicos com o ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, no que parecia ser uma conspiração para barrar a Operação Lava Jato.
Mas abençoado país que tem um Sergio Moro na trincheira da cidadania! Ainda nesta semana, depois de já ter participado de uma das audiências públicas na comissão especial das 10 Medidas, o juiz fez uma palestra definitiva no Congresso Brasileiro de Radiologia, com uma extensa exposição da Operação Lava Jato, frisando apenas os casos julgados, e de sua importância para a mudança de cultura política brasileira. Lembrou que, assim como na Operação Mãos Limpas da Itália da década de 1990, a investigação da Lava Jato começa em março de 2014 visando apurar nada além do que mais uma denúncia de lavagem de dinheiro, quando a PF tropeçou com a relação de um dos doleiros investigados com um alto diretor da Petrobras. Contas de empresas de fachadas recebiam volumosos depósitos de grandes fornecedores da estatal. Daí, para se chegar à corrupção política, foi uma mera questão do método adotado “siga o dinheiro”, quando o Ministério Público suíço resolveu abrir as contas e o diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa colaborar. Moro lembra que corrupção política ocorre em qualquer país do mundo, mas não a corrupção sistêmica, quando era regra do jogo o pagamento de propinas de 1% a 3% do valor dos contratos, o que levou, já em 2015, a Petrobras a reconhecer R$ 6 bilhões de prejuízos em seu balanço oficial!
O que começa a fazer nexo para a maioria dos cidadãos é que a crise fiscal que culmina com 12 milhões de desempregados resulta também em péssimos serviços públicos nas áreas de seu interesse imediato, como educação, saúde, saneamento e segurança, e provém exatamente da corrupção sistêmica da política brasileira. Daí, a urgência das reformas política, da Previdência, trabalhista, da administração pública, e não apenas a da chamada PEC do teto de gastos. A corrupção sistêmica consiste no exercício da política como organização criminosa, uma Orcrim, como se passou a chamar a associação para o crime entre políticos e operadores, intermediários e empresários fornecedores do Estado, onde metade das comissões era pró “pessoal de casa”, metade era pró-políticos. E dos que não tinham foro privilegiado e foram sentenciados pelo juiz Moro, cinco eram ex-parlamentares, dos quais três já haviam sido condenados pelo STF desde o mensalão, e continuavam a receber propina do petrolão, mesmo depois de condenados. Daí a definição do juiz Moro como um caso de corrupção sistêmica. Para além, inclusive da Petrobras, alcançando outras empresas e autarquias que estão sendo investigadas em larga extensão da administração pública. Além dos custos sociais da depressão econômica, da fuga de investidores, da destruição do patrimônio público e da degradação da cultura política, temos a perda de confiança na democracia e na própria autoestima cívica do povo brasileiro. Já no fim de seu importante depoimento, o juiz Sergio Moro faz uma bela profissão de fé na democracia brasileira. Afirma que as coisas estão mudando e o mérito não é seu pessoal nem do seu juízo, mas institucional como do MPF, da PF, da Receita e outros órgãos que resolveram dar um basta e pagar para ver contra a cultura de impunidade dos detentores de poder. Para isto, a pressão da cidadania e o apoio das instâncias recursais superiores do Judiciário, como o Tribunal Federal da 4ª Região, o STJ e o próprio STF foram essenciais. Mais do que as campanhas das Diretas-já, o apoio das megamanifestações da sociedade desde 2013, foi essencial pra evitar a obstrução da justiça pelos poderosos. No caso da operação italiana Mãos Limpas, os políticos contra-atacaram com as mesmas leis sobre abuso de autoridade, da mesma forma como está acontecendo agora com as iniciativas de Renan e Jucá.
Essa é a tarefa dos cidadãos e da mídia. E que não é impossível de sucesso. O juiz Moro relembra do exemplo dos EUA no início do século passado, quando Theodore Roosevelt faz seu discurso de posse já em 1903, comparando o agente público corrupto ao pior dos delinquentes, pois prejudica toda a sociedade. E defende que a exposição e a punição pública, longe de abalar a confiança da sociedade, são uma honra para uma nação e não uma desgraça. Neste momento, Sergio Moro é aplaudido intensamente, o que dá a medida de que a cidadania tem, enfim, uma figura pública com quem se identificar. Embora lamente que as 10 Medidas infelizmente não tenham vindo do Legislativo, e sim do Judiciário com apoio da cidadania, Moro elogia com habilidade a instância maior do Judiciário quando o STF proíbe as doações eleitorais de empresas. E quando define a execução da pena em segunda instância ainda na semana passada, cuja regra passa a ser a execução e não a suspenção da pena. Pois o princípio da presunção de inocência não impede que nos EUA e na França, inclusive, se execute pena de prisão até mesmo na primeira instância. O que faz Moro é nos devolver o ânimo cívico com a convicção de que as 10 Medidas estão para ser aprovadas na comissão parlamentar. Até mesmo por que o Congresso Nacional precisa ser mais responsivo e recuperar seu prestígio social. Assegura sua esperança de que a corrupção sistêmica não pode ser encarada como uma fatalidade de nosso subdesenvolvimento político, como “uma doença tropical”. E faz uma vigorosa defesa da vitalidade da democracia brasileira que venceu, inclusive, a ditadura militar mostrando que o povo sabe, sim, votar. Como no caso da inflação que todos acreditamos poder superar e superamos. E o próprio enfrentamento da pobreza nos últimos anos. Portanto, chegou a hora de nossa quarta superação civilizatória que é de dar cabo à corrupção sistêmica da política nacional. E o papel da cidadania neste embate entre políticos investigados, de um lado, e agentes públicos empenhados na aprovação do projeto das 10 Medidas, ainda que com modificações, é que pode fazer a diferença. Nesse sentido é de registrar a intensificação das campanhas nas redes sociais de organizações e movimentos da sociedade civil mobilizando os cidadãos para monitorar e cobrar de seus representantes no Congresso Nacional uma clara posição de apoio ao projeto. Basta dar uma busca na internet sobre as “10 Medidas” e se verá o tamanho do “clamor das ruas”.
Jorge Maranhão
Mas abençoado país que tem um Sergio Moro na trincheira da cidadania! Ainda nesta semana, depois de já ter participado de uma das audiências públicas na comissão especial das 10 Medidas, o juiz fez uma palestra definitiva no Congresso Brasileiro de Radiologia, com uma extensa exposição da Operação Lava Jato, frisando apenas os casos julgados, e de sua importância para a mudança de cultura política brasileira. Lembrou que, assim como na Operação Mãos Limpas da Itália da década de 1990, a investigação da Lava Jato começa em março de 2014 visando apurar nada além do que mais uma denúncia de lavagem de dinheiro, quando a PF tropeçou com a relação de um dos doleiros investigados com um alto diretor da Petrobras. Contas de empresas de fachadas recebiam volumosos depósitos de grandes fornecedores da estatal. Daí, para se chegar à corrupção política, foi uma mera questão do método adotado “siga o dinheiro”, quando o Ministério Público suíço resolveu abrir as contas e o diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa colaborar. Moro lembra que corrupção política ocorre em qualquer país do mundo, mas não a corrupção sistêmica, quando era regra do jogo o pagamento de propinas de 1% a 3% do valor dos contratos, o que levou, já em 2015, a Petrobras a reconhecer R$ 6 bilhões de prejuízos em seu balanço oficial!
| Pawla Kuczynski |
Essa é a tarefa dos cidadãos e da mídia. E que não é impossível de sucesso. O juiz Moro relembra do exemplo dos EUA no início do século passado, quando Theodore Roosevelt faz seu discurso de posse já em 1903, comparando o agente público corrupto ao pior dos delinquentes, pois prejudica toda a sociedade. E defende que a exposição e a punição pública, longe de abalar a confiança da sociedade, são uma honra para uma nação e não uma desgraça. Neste momento, Sergio Moro é aplaudido intensamente, o que dá a medida de que a cidadania tem, enfim, uma figura pública com quem se identificar. Embora lamente que as 10 Medidas infelizmente não tenham vindo do Legislativo, e sim do Judiciário com apoio da cidadania, Moro elogia com habilidade a instância maior do Judiciário quando o STF proíbe as doações eleitorais de empresas. E quando define a execução da pena em segunda instância ainda na semana passada, cuja regra passa a ser a execução e não a suspenção da pena. Pois o princípio da presunção de inocência não impede que nos EUA e na França, inclusive, se execute pena de prisão até mesmo na primeira instância. O que faz Moro é nos devolver o ânimo cívico com a convicção de que as 10 Medidas estão para ser aprovadas na comissão parlamentar. Até mesmo por que o Congresso Nacional precisa ser mais responsivo e recuperar seu prestígio social. Assegura sua esperança de que a corrupção sistêmica não pode ser encarada como uma fatalidade de nosso subdesenvolvimento político, como “uma doença tropical”. E faz uma vigorosa defesa da vitalidade da democracia brasileira que venceu, inclusive, a ditadura militar mostrando que o povo sabe, sim, votar. Como no caso da inflação que todos acreditamos poder superar e superamos. E o próprio enfrentamento da pobreza nos últimos anos. Portanto, chegou a hora de nossa quarta superação civilizatória que é de dar cabo à corrupção sistêmica da política nacional. E o papel da cidadania neste embate entre políticos investigados, de um lado, e agentes públicos empenhados na aprovação do projeto das 10 Medidas, ainda que com modificações, é que pode fazer a diferença. Nesse sentido é de registrar a intensificação das campanhas nas redes sociais de organizações e movimentos da sociedade civil mobilizando os cidadãos para monitorar e cobrar de seus representantes no Congresso Nacional uma clara posição de apoio ao projeto. Basta dar uma busca na internet sobre as “10 Medidas” e se verá o tamanho do “clamor das ruas”.
Jorge Maranhão
O sonho (errado) acabou
A prisão do companheiro Eduardo Cunha deixou aturdidos os heróis da resistência democrática. Como vão explicar isso em casa? Cunha era o grande vilão do golpe, a mente perversa que arquitetou a destituição da mulher honesta para entregar o poder aos brancos, velhos, recatados e do lar. A impunidade do Darth Vader do PMDB era o lastro da lenda, a prova de que estava tudo armado para arrancar do governo os quadrilheiros do bem.
Mas eis que Sérgio Moro, esse fascista que só persegue os bonzinhos, prende Cunha. E agora? É grave a crise. Eduardo Cunha era a reserva moral do PT. E do PSOL, da Rede e seus genéricos. Com a impunidade dele, você podia até defender Lula e Dilma numa boa, por mais que eles roubassem o Brasil na sua cara: bastava dizer que era contra o Cunha — o fiador do golpe, o homem do sistema. Mas que sistema é esse que põe seu articulador no xadrez?
Ficou confuso. Melhor tomar uma água de coco, que o sol está forte. Os juros começaram a cair depois de quatro anos. A inflação de outubro é a menor em sete anos, e ano que vem o desemprego começa a baixar. Isso não é mágica, é governo.
Temer faz parte da mobília antiga do PMDB, e não tem nenhuma bandeirinha simpática para acenar. Se aparecer em alguma negociata, adeus. Mas, ao assumir o Planalto, resolveu escalar os melhores para tomar conta do dinheiro. Banco Central, Tesouro, Fazenda, BNDES, Petrobras — todos sendo desinfetados pelos melhores cérebros, mundialmente reconhecidos.
Por que Michel Temer fez isso, e não simplesmente substituiu os parasitas esganados do PT pelos velhacos do PMDB? Não interessa, perguntem a ele. A vida no Brasil vai melhorar, e isso é muito grave. O que será daquelas almas puras que gritam “fora Te-er” e se tornam instantaneamente grandiosas?
O que será dos corações valentes que ficam bem na foto denunciando a entrega do país ao bando do Cunha? Talvez só uma Bolsa Psicanálise para fazer frente a tanto sofrimento. Na época do Plano Real foi igualzinho.
Na privatização da telefonia, que libertou a população dos progressistas retrógrados de sempre, esses mesmos que gritam contra o golpe (ou seus ancestrais) estavam lá nas barricadas — apedrejando quem chegava para os leilões. Eram os heróis da resistência democrática contra a ganância capitalista.
Aí a privatização se consumou, a vida de todo mundo melhorou, e os heróis foram combinar a próxima narrativa — pelo celular. A eleição no Rio de Janeiro, terra de Eduardo Cunha, apresenta um fenômeno surpreendente. No primeiro turno, a cidade confirmou a sua vocação de oposição a si mesma. No segundo turno, Marcelo Crivella disparou. Como pode?
Gente esclarecida, eleitores de candidatos respeitáveis como Fernando Gabeira e que jamais votariam num bispo da Igreja Universal, cogitando votar em Crivella? Talvez a resposta seja simples: Marcelo Freixo é o candidato contra o golpe. O bom entendedor fez suas contas: o discurso que cultiva a mística de esquerda, à prova de vida real, é exatamente o que destruiu o país nos últimos 13 anos.
Freixo surgiu muito bem na vida pública. Fez um trabalho corajoso de denúncia das milícias, num tempo em que muitos as viam como justiceiras contra os traficantes. Se tornou personagem real de “Tropa de elite”, clássico extraído do trabalho excepcional de Luiz Eduardo Soares — acadêmico de esquerda que jamais sujeitou sua honestidade intelectual às místicas lucrativas. Já Freixo preferiu se tornar o personagem de si mesmo. Seria ótimo, se fosse de verdade. Falar a verdade dá trabalho.
O próprio Gabeira correu o risco do suicídio político algumas vezes, para não trair suas convicções. Primeiro a fazer a crítica da luta armada ainda em plena ditadura, apoiou a privatização da telefonia pelo governo FH — e na época era difícil ao eleitorado de esquerda ver aquilo como o melhor para a coletividade, e não uma traição neoliberal.
Depois desembarcou da base de Lula no auge, ao enxergar a putrefação do governo pré-mensalão: “sonhei o sonho errado”. As viúvas do governo que caiu de podre 13 anos depois disso ainda tentam ver em Dilma (se lembram dela?) uma vítima inocente da direita: preferem embelezar o pesadelo a parar de sonhar.
No Rio, o sonho errado ainda rende um bom mercado eleitoral. Na ânsia de cultivar essa mística revolucionária, Freixo estimulou protestos violentos (nega, mas estimulou) — logo ele, que denunciou as milícias sanguinárias. Apoiou sindicalistas que bloquearam o trânsito e engessaram a cidade.
Para vender o seu peixe humanista, ele prende e arrebenta — como diria o general Figueiredo. Infelizmente, ainda há quem escolha candidato pelo crachá de progressista ou conservador (no sentido de moderno ou retrógrado).
Então vamos lá, sem crachá: quem põe em risco seus votos para defender o bem comum, como fez Gabeira, é progressista; quem põe em risco o bem comum para defender seus votos, como faz Freixo, é conservador. E não adianta botar o Cunha no meio, porque agora ele está ocupado.
Mas eis que Sérgio Moro, esse fascista que só persegue os bonzinhos, prende Cunha. E agora? É grave a crise. Eduardo Cunha era a reserva moral do PT. E do PSOL, da Rede e seus genéricos. Com a impunidade dele, você podia até defender Lula e Dilma numa boa, por mais que eles roubassem o Brasil na sua cara: bastava dizer que era contra o Cunha — o fiador do golpe, o homem do sistema. Mas que sistema é esse que põe seu articulador no xadrez?
Ficou confuso. Melhor tomar uma água de coco, que o sol está forte. Os juros começaram a cair depois de quatro anos. A inflação de outubro é a menor em sete anos, e ano que vem o desemprego começa a baixar. Isso não é mágica, é governo.
Temer faz parte da mobília antiga do PMDB, e não tem nenhuma bandeirinha simpática para acenar. Se aparecer em alguma negociata, adeus. Mas, ao assumir o Planalto, resolveu escalar os melhores para tomar conta do dinheiro. Banco Central, Tesouro, Fazenda, BNDES, Petrobras — todos sendo desinfetados pelos melhores cérebros, mundialmente reconhecidos.
Por que Michel Temer fez isso, e não simplesmente substituiu os parasitas esganados do PT pelos velhacos do PMDB? Não interessa, perguntem a ele. A vida no Brasil vai melhorar, e isso é muito grave. O que será daquelas almas puras que gritam “fora Te-er” e se tornam instantaneamente grandiosas?
O que será dos corações valentes que ficam bem na foto denunciando a entrega do país ao bando do Cunha? Talvez só uma Bolsa Psicanálise para fazer frente a tanto sofrimento. Na época do Plano Real foi igualzinho.
Na privatização da telefonia, que libertou a população dos progressistas retrógrados de sempre, esses mesmos que gritam contra o golpe (ou seus ancestrais) estavam lá nas barricadas — apedrejando quem chegava para os leilões. Eram os heróis da resistência democrática contra a ganância capitalista.
Gente esclarecida, eleitores de candidatos respeitáveis como Fernando Gabeira e que jamais votariam num bispo da Igreja Universal, cogitando votar em Crivella? Talvez a resposta seja simples: Marcelo Freixo é o candidato contra o golpe. O bom entendedor fez suas contas: o discurso que cultiva a mística de esquerda, à prova de vida real, é exatamente o que destruiu o país nos últimos 13 anos.
Freixo surgiu muito bem na vida pública. Fez um trabalho corajoso de denúncia das milícias, num tempo em que muitos as viam como justiceiras contra os traficantes. Se tornou personagem real de “Tropa de elite”, clássico extraído do trabalho excepcional de Luiz Eduardo Soares — acadêmico de esquerda que jamais sujeitou sua honestidade intelectual às místicas lucrativas. Já Freixo preferiu se tornar o personagem de si mesmo. Seria ótimo, se fosse de verdade. Falar a verdade dá trabalho.
O próprio Gabeira correu o risco do suicídio político algumas vezes, para não trair suas convicções. Primeiro a fazer a crítica da luta armada ainda em plena ditadura, apoiou a privatização da telefonia pelo governo FH — e na época era difícil ao eleitorado de esquerda ver aquilo como o melhor para a coletividade, e não uma traição neoliberal.
Depois desembarcou da base de Lula no auge, ao enxergar a putrefação do governo pré-mensalão: “sonhei o sonho errado”. As viúvas do governo que caiu de podre 13 anos depois disso ainda tentam ver em Dilma (se lembram dela?) uma vítima inocente da direita: preferem embelezar o pesadelo a parar de sonhar.
No Rio, o sonho errado ainda rende um bom mercado eleitoral. Na ânsia de cultivar essa mística revolucionária, Freixo estimulou protestos violentos (nega, mas estimulou) — logo ele, que denunciou as milícias sanguinárias. Apoiou sindicalistas que bloquearam o trânsito e engessaram a cidade.
Para vender o seu peixe humanista, ele prende e arrebenta — como diria o general Figueiredo. Infelizmente, ainda há quem escolha candidato pelo crachá de progressista ou conservador (no sentido de moderno ou retrógrado).
Então vamos lá, sem crachá: quem põe em risco seus votos para defender o bem comum, como fez Gabeira, é progressista; quem põe em risco o bem comum para defender seus votos, como faz Freixo, é conservador. E não adianta botar o Cunha no meio, porque agora ele está ocupado.
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