Sentam-se ao meu lado no restaurante do bairro. A sala está cheia. As mesas estão encostadas. Têm os dois camisas brancas, gravatas azuis, calças cinzentas. Um deles já passou dos 40, o outro deve andar pelos 60. “Então, os miúdos?”, pergunta o mais velho, sem saber bem por onde começar a conversa, enquanto as azeitonas chegam à mesa. “Estão no colégio, não é?” O outro responde que a mais nova está na escola pública. “Na escola pública?”, quase se engasga de espanto. “E não estão sempre a faltar?”, interroga, curioso, perante aquela extravagância do colega de almoço. “É uma escola pequena, quase não há greves. Funciona bem. Depois do 4º ano é que a coisa piora. Vai ser preciso mudar”, assevera o mais novo, tentando tranquilizar o mais velho, que lá concede, com um suspiro, que “se é assim, está bem”.
Chega o jarro de vinho tinto da casa à mesa. Sai um cachaço de porco para um, um bacalhau espiritual para outro. E a conversa continua à volta das crianças. “Aquilo no colégio do mais velho é que é só faturar”, comenta o mais novo dos comensais. “Só faturar, pois, só faturar”, reage o outro, em tom de galhofa, gargalhada aberta, enquanto cospe um caroço de azeitona e enumera as coisas “pagas à parte”, que ainda se lembra bem dos tempos em que a filha andava também numa escola privada. “São 750 euros por mês”, revela o mais novo. O mais velho estaca. “São 750 euros por mês?”, pergunta, de olhos arregalados, talvez fazendo as contas ao que ganha o colega, num cálculo rápido e assustado. “Mas ao menos come lá?”, quer saber. “Come”, sossega-o o outro, que acrescenta ao rol das despesas as exigências de materiais. “No outro dia, andei a correr não sei quantas lojas atrás de uma marca de lápis. Aquilo era caríssimo! O vendedor até me explicou que os lápis eram feitos com madeira de cedro ou não sei o quê… E eu quero lá saber! São lápis! Mas eles pedem”, resigna-se.
O mais velho lembra-se bem de como era quando a miúda estava no colégio. “Eu bem lhe dizia: ‘Não precisas de levar esse esquadro XTPO, não vais fazer desenho profissional! Levas esse e depois, se não der, logo se vê’”, recorda entre mais uma garfada de porco e batatas fritas. Chegou ao fim o jarro de tinto de casa. “Traga mais antes que acabe”, brincam para o empregado, acenando o recipiente vazio.

Começam, então, a falar do trabalho “lá do banco”, das colegas que se zangaram e do chefe novo que acabou de chegar. “Aquilo é a cultura lá do norte. Disciplina”, comenta o mais velho. “Pois, é a sério”, concorda o mais novo. Percebo, pela conversa, que estão os dois mais ou menos no mesmo barco, que neste caso é uma das agências bancárias das redondezas e que ambos encaram com algum receio o chefe novo e os novos métodos. O tom gabarolas não o esconde. Não são patrões nem banqueiros, não são CEO nem grandes investidores, não são sequer diretores. Tenho quase a certeza de que se encolheriam, com o mesmo desdém com que o mais velho encarou a hipótese de alguém pôr um filho na escola pública, se lhes dissesse o que são. Mas são isso. São trabalhadores.
Vêm de gravata ao restaurante que faz o menu do dia a 12 euros. Mas estão apertados. Estão apertados porque cada vez menos lhes chega do Estado social. Se põem um filho na escola pública, sentem quase a culpa de não estar a fazer esforço suficiente por ele. Não lhes passa pela cabeça exigir que a escola pública melhore. Isso que é de graça é para os outros, eles não, eles trabalham, não precisam cá de esmolas. E se precisam é só até à coisa se endireitar e conseguirem, a muito esforço, pagar o colégio, mesmo que ele leve uma fatia demasiado grande do rendimento familiar. É o que é. “É só faturar”, como dizia o outro, mas nada de questionar, que a escola pública é cada vez mais um lugar para os pobres, para os que ficam para trás, cheio de gente que nem fala português, vazio de professores e técnicos, uma bandalheira de faltas e greves, para onde ninguém no seu juízo atiraria os filhos, tendo outra opção, ainda que não se trate bem de opção, mas de um sacrifício. Que diabo! É um sacrifício necessário. Nem se questiona.
Não falaram de doenças, mas aposto que têm o seguro de saúde lá do banco. E, enquanto assim for, é menos uma dor de cabeça, que isto dos hospitais públicos já se sabe como é e dos centros de saúde o melhor é nem falar. Sorte foi as mulheres terem parido quando ainda não era preciso andar em bolandas, numa gincana entre hospitais, a ver qual deles terá a urgência aberta. O pior será se um dia tiverem um acidente grave ou um cancro ou uma daquelas doenças raras de nomes impronunciáveis que só se tratam com medicamentos que custam milhões. Aí, logo se vê. Mas, para já, hospitais públicos só os veem nas notícias e, claro, sabem bem que estão à pinha com os imigrantes que vêm para cá para se tratar às nossas custas, mesmo que os jornais expliquem que não é bem assim e as estatísticas o desmintam. Também quem é que ainda lê jornais? A vida já é complicada o suficiente para se estar a encher mais a cabeça com desgraças.
Saí do restaurante antes de eles chegarem à sobremesa. Deixei o mais novo a admitir que “até podia trabalhar mais, se houvesse outra organização”, num desabafo sincero, que não mereceu resposta do mais velho, visivelmente mais calejado nestas coisas, sabedor de que não é boa política mostrar fraquezas e muito menos admitir que não se faz tudo o que se pode e mais um pouco ainda. Mas, pronto, o rapaz ainda é novo, coitado, não sabe tudo da vida. Até tem a mais nova numa escola pública, vejam bem.
Há uns tempos, noutro restaurante popular no bairro ao lado, à hora de almoço, fiquei ao pé de outros dois homens de camisas brancas, mas abertas, sem gravata, com um sotaque afetado, que em menos de nada começaram a rosnar contra o adicional ao IMI – cobrado aos imóveis cuja soma do valor patrimonial tributário supera os 600 mil euros. “O imposto Mortágua”, diziam, entre a raiva e o desdém, como quem descreve um assalto. Estavam muito zangados com os impostos em geral, mas com este em particular. E lembro-me de ter pensado em como estavam bem na vida para, tão novos (ainda não chegavam aos 50), já terem este tipo de problemas. Há, de facto, problemas que são um luxo.
Os meus vizinhos de almoço, desta vez, não me parecem padecer do mesmo tipo de ansiedades tributárias. Mas, pelo pouco que lhes ouvi e pelo resto que imagino – concedam à cronista esse exercício de alguma ficção –, quase aposto que teriam reagido bem se, para meter conversa, me tivesse posto a atacar o Estado e os impostos. Não sabendo a afinidade clubística de quem está ao lado, esse é o tema mais seguro para quem quer fazer amigos de ocasião em conversas de tasco.
Sabem que mais? Não os julgo. Não com a intensidade com que julguei os dois betos endinheirados, enojados com a ideia de pagar entre 0,7% e 1% a mais de IMI sobre imóveis avaliados (sublinhem o “avaliados”) entre os 600 mil e o milhão de euros. Estes dois bancários não são rentistas e será até excessivo chamar-lhes capitalistas. São só assalariados em negação. Estão endoutrinados na ideia de que devem pagar por tudo aquilo que já pagam nos impostos.
Não é estranho que se revoltem contra os impostos. Não é estranho que se sintam espoliados. Concedo até que se sintam um pouco explorados, quando veem o que pagam para não usufruir de quase nada. E vejo que é aí, nesse ponto sensível, que fica o lugar onde medra o ódio pelo outro, aquele que não se esforça e “vive de subsídios”, mesmo que esse outro seja tão imaginado como essas fortunas de subsídios ou que esse viver seja, afinal, tão miserável que não há como o invejar.
Um Estado que anda há décadas a cortar, até se amputar no mais básico. Um Estado que acha que os serviços que presta – cada vez menos e cada vez pior – são uma espécie de esmola, que deve ser reservada aos mais pobres. Um Estado que abre os bolsos às Web Summits e dá bodos de descontos às maiores empresas, que oferece benefícios fiscais a estrangeiros ricos e a fundos que especulam com a habitação até ela deixar de ser um direito e se parecer mais com um ativo numa folha de Excel. Um Estado assim não pode admirar-se que a porta ao fascismo comece a abrir-se.
O Estado a que chegámos, meus amigos, é este. Não o escrevo com fatalismo. Recuso-me a acreditar que isto não tenha remédio. Mas escrevo-o para que fique claro que estas coisas não aparecem do nada nem são só o produto de algoritmos viciados em vídeos extremistas. O terreno onde o ódio cresce anda a ser lavrado há anos. Arrancar-lhe as raízes não se fará com as políticas do costume.
O tempo em que se cortavam cabeças nas esquadras de polícia do País era também o tempo em que se espancavam estudantes nas manifestações, automobilistas na Ponte 25 de Abril ou, uns poucos anos antes, outros polícias no Terreiro do Paço, no famoso protesto dos “secos contra os molhados”. Uns anos duros e autoritários do “cavaquismo”, em que as forças de segurança refletiam o estilo das lideranças, ao jeito do “eu nunca me engano e raramente tenho dúvidas”. Doa a quem doer.
O crime chocante na esquadra de Santarém, em que o sargento Santos decapitou um suspeito de roubar para alimentar o vício da droga, aconteceu já nos primeiros meses de uma nova era, com o governo de António Guterres, em que as polícias ganharam uma face mais humanista. Mudaram muito, de facto, porque o discurso político assim os orientou. A palavra, vinda de cima, tem esse efeito, quando usada de forma responsável, sensata, com sentido de Estado.
Não é que os nossos líderes políticos sejam responsáveis por tudo e mais alguma coisa, mas o oposto também não é verdadeiro. Eles não existem fora do tom social – sobretudo, eles não podem conduzir-se na vida pública achando que em nada contribuem para o tom social.

Os pequenos poderes, aqueles com que o cidadão lida no seu dia a dia, são uma esponja do discurso político dos grandes poderes. Seja Governo, oposição, extrema-direita, candidatos presidenciais, todos os que por estes dias têm palco, microfone e uma aura de credibilidade – o seu tom define não só o sistema como a forma de o contornar, aproveitando-se dele.
O discurso político dominante coloca os imigrantes como uma entidade utilitária, um “mal necessário” de que a economia precisa até certo ponto, logo a base da escala social, as “mulas de carga” dos baixos salários e da vida indigna, espécies sub-humanas que se traduzem em números e contingentes a tolerar, mas sem direito a verdadeiras políticas de integração. Este é o sistema. Os que se aproveitam do sistema para ganhar dinheiro organizam-se no tráfico de pessoas para explorar imigrantes (vistos como “não pessoas”) em serventia de quase escravatura. Mas não estamos a falar das clássicas redes mafiosas, a bandidagem habitual; estamos a falar dos dez militares da GNR de Beja detidos na semana passada por serem “capatazes”, contratados por uma rede de exploração de imigrantes para os controlar e espancar. Rede encabeçada por dois portugueses, já que estamos sempre a pedir as nacionalidades dos criminosos.
Estamos a falar do agente da PSP que matou Odair Moniz e terá plantado provas para justificar o crime; de um agente da PSP que espancou até à morte um imigrante marroquino em Olhão; e falamos também dos 11 bombeiros do Fundão detidos por violarem um colega de 19 anos, facto justificado com o âmbito de uma suposta “praxe”.
São os pequenos poderes a mostrar o tom da hipocrisia podre e sem valores de certos discursos políticos, anti-imigração e cheios de masculinidades mais do que tóxicas, criminosas, que, mais do que qualquer partidarismo, demonstram uma falta de humanidade (ainda) chocante.
São os monstros comuns, os que vivem entre nós, na porta do lado, na vizinhança, de que falava Hannah Arendt. Aqueles que estão à solta, sentindo-se mais justificados do que nunca.
Diz um provérbio russo que peixe começa a feder a partir da cabeça ("ryba is galovy gniot", para conferência dos cultores da língua). Como em todo provérbio, há um jogo entre a significação aparente e o sentido oculto. Isso se aplica ao momento presente da escuridão que nos segue desde a formação moderna do país: o julgamento de generais, almirante e oficiais menores não é só fato inédito nas Forças, mas também atestado de velhice de uma casta, entranhada como um alien nas vísceras da República.

Refletindo sobre a idade avançada em seu "De Senectute — o tempo da memória", o pensador italiano Norberto Bobbio relata um lamento ponderado de idosos: "Não é que a velhice seja ruim, o problema é que dura pouco". Bobbio pergunta-se "será mesmo que dura pouco?" E contrapõe um verso de Dario Bellezza: "Fugaz é a juventude/ um suspiro a maturidade/ avança terrível a velhice/ e dura uma eternidade".
É que o pensador também rumina sobre os artifícios que tanto prolongam a vida quanto impedem de morrer. A decrepitude pode estender-se como um fardo. "Ao lado da velhice censitária ou cronológica e da velhice burocrática, existe também a velhice psicológica ou subjetiva". As duas últimas coexistem em aspectos grotescos da política, como o dos parlamentares vitalícios, maldosamente comentados na imprensa: "Era lindo ver o triste desfile dos senadores vitalícios, cada um mais cadavérico que o outro; uma velha Itália que ninguém quer mais e que sozinha sepultou a si mesma" (Pietro Buscaroli, musicólogo). E mais: "Velhos, mas podres de tanto veneno e rancor, sobras ilícitas e condenáveis do regime das bombas e das tangentes".
Como no aforismo do peixe, há outro sentido nessas referências italianas. "Velhice", última fase da vida", diz Bobbio, "exprime um ciclo que se avizinha do fim. Por isso, ela é também empregada metaforicamente para assinalar a decadência de uma civilização, de um povo, de uma cidade". Mesmo citando clássicos, como Cícero, que fazem apologia da sabedoria da idade, ele sustenta: "quem louva a velhice não a viu de perto". Notícias recentes de Trump o reportam cochilando acordado ou preocupado apenas em aumentar seu nababesco salão de baile dourado em construção.
Mas a velhice aqui pautada não é o natural amadurecimento biológico. É principalmente o fato institucional sem a necessária renovação existencial. É o que faz do bicentenário Parlamento nacional exemplo de decrepitude. E nos golpistas, peixes grandes condenados, não carece ver de perto sinais de doença física e mental. Por mais distantes, exibem não senioridade, mas uma velhice pesada tanto para si mesmos quanto para outros.
Para si, porque contemplam um futuro despido das patentes e medalhas que lhe fazem a glória pessoal. Para outros, efeitos cansativos da vontade de eternizar-se de uma casta que se arroga a tutela da República, desatenta à sua própria degeneração. Dado o estado dessas cabeças, é hora de pensar também com o nariz.
Neste meio século não parece que os governos tenham feito pelos direitos humanos tudo aquilo a que moralmente estavam obrigados. As injustiças multiplicam-se, as desigualdades agravam-se, a ignorância cresce, a miséria alastra. A mesma esquizofrénica humanidade capaz de enviar instrumentos a um planeta para estudar a composição das suas rochas assiste indiferente à morte de milhões de pessoas pela fome. Chega-se mais facilmente a Marte do que ao nosso próprio semelhante.
Alguém não anda a cumprir o seu dever. Não andam a cumpri-lo os governos, porque não sabem, porque não podem, ou porque não querem. Ou porque não lhe permitem aquelas que efetivamente governam o mundo, as empresas multinacionais e pluricontinentais cujo poder, absolutamente não democrático, reduziu a quase nada o que ainda restava do ideal da democracia. Mas também não estão a cumprir o seu dever os cidadãos que somos. Pensamos que nenhuns direitos humanos poderão subsistir sem a simetria dos deveres que lhes correspondem e que não é de esperar que os governos façam nos próximos 50 anos o que não fizeram nestes que comemoramos. Tomemos então, nós, cidadãos comuns, a palavra. Com a mesma veemência com que reivindicamos direitos, reivindiquemos também o dever dos nossos deveres. Talvez o mundo possa tornar-se um pouco melhor.José Saramago ao receber o Prêmio Nobel de Literatura
A constatação é triste: 72% da população mundial vive hoje em países não democráticos, ditaduras ou autocracias eleitorais. Na última década, as ditaduras subiram de 22 para 33, enquanto os sistemas democráticos caíram de 44 para 32. Sobe também o número de democracias falhas, um modelo híbrido que abriga componentes de regimes autocráticos e democráticos, onde ocorrem falhas na aplicação de princípios e valores, como liberdade de imprensa, independência entre os Poderes, repressão policial, ameaças de golpes, integridade do sistema eleitoral, entre outros.
Tal constatação tem como fonte uma pesquisa feita pelo Instituto sueco, V-Dem, da Universidade de Gotemburgo. A escalada autoritária é uma ameaça ao equilíbrio entre as Nações. Nos últimos tempos, o planeta vive sob o temor de que uma nova Guerra Fria, que poderá ser o estopim de um conflito de proporções mortíferas para a Humanidade. China e Rússia, juntos na estratégia de eliminar o poderio ocidental, capitaneado pelos Estados Unidos, e tendo como pano de fundo a tragédia que se abate sobre a Ucrânia, empurram o planeta na direção do precipício. Semana passada, vimos Vladimir Putin, o todo poderoso mandatário-mor da Rússia, falar alto: “Se a Europa quiser guerra, estamos pronto”.
Afinal, o que ocorre com as democracias? Estão morrendo? Assistem, inertes, ao desvanecimento de sua base? Não têm resistido ao volume crescente da violência, que invade os ares da liberdade? A luta do poder pelo poder, sem as luzes das ideologias e doutrinas, seria uma volta ao nosso passado ancestral?

São questões cruciais. Que já mereceram análises de cientistas políticos. A afamada obra Como as democracias morrem, dos professores Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, faz importante observação para entendermos a vida contemporânea. A tese principal dos dois autores é a de que os sistemas são corrompidos por meio da perversão do processo legal, significando que os governos legitimamente eleitos subvertem os meios que os levaram ao poder.
Na América Latina, basta ver os golpes militares, no Brasil (1964), na Argentina (1966), no Chile (1973), no Uruguai (1976) e os movimentos de tendência golpista, que ocorrem aqui e ali, a escancarar a instabilidade das instituições representativas, a militarização da vida política e cerceamento da liberdade política e de expressão.
Até a maior democracia ocidental, a norte-americana, tem sofrido ameaças, a partir da eleição de Donald Trump e sua pregação antidemocrática. Ali, nunca se viu tanta pregação contra os eixos da democracia.
A crise, como se sabe, é crônica, se arrasta há tempos. E onde estão suas raízes? Norberto Bobbio, o cientista social e político italiano, em sua clássica obra, O Futuro da Democracia, levanta a questão: as democracias não têm cumprido seus compromissos para com as comunidades.
Promessas não cumpridas caracterizam uma sociedade pluralista, com seus vários centros de poder, com o domínio das oligarquias que procuram preservar suas tradições e, ainda, com a força do poder invisível, que age nos subterrâneos do poder visível, representado pelo Estado. Basta ver a expansão das gangues e do crime organizado, hoje presentes em praticamente todos os países da América Latina. Calcula-se que cerca de 40% dos homicídios globais estão ligados ao crime organizado e à violência de gangues, que são prevalentes nas três Américas,
A incultura política campeia. Bobbio é enfático: a apatia política chega a envolver cerca da metade dos que têm direito a voto. É pouco. Em nosso Brasil, a imensa maioria do eleitorado ainda vegeta no terreno que se chama de “cidadania passiva”.
As promessas não têm sido cumpridas por causa dos obstáculos e desafios impostos por uma sociedade que saiu de uma economia familiar para uma economia de mercado, ou seja, uma economia planificada, que abriu a era do “governo dos técnicos”, e trouxe, em seu arcabouço, sérios problemas, como desemprego, inflação, aumento das desigualdades, competição desvairada, violência.
O rendimento do estado democrático sofre queda e, em muitos países, os sistemas governativos tornam-se ingovernáveis. As tensões entres Poderes (caso do Brasil) contribuem para a instabilidade institucional. As ingerências de um Poder sobre outro se tornam constantes, a ponto de se considerar que funções legislativas são absorvidas pelo Poder Judiciário, como ocorre, hoje, por nossas bandas. Basta olhar para a recente querela entre o STF e o Senado Federal e sua acusação recíproca de invasão de competências.
O STF até parece uma gigantesca delegacia de polícia, a julgar vândalos. O Poder Executivo, por sua vez, encabresta o Poder Legislativo, com sua articulação para cooptar parlamentares com liberação de recursos e outros meios de atração, como cargos e espaços na estrutura administrativa.
Em um ensaio alentado, os professores e pesquisadores Fernando Limongi e Angelina Figueiredo explicam: “o padrão organizacional do Legislativo brasileiro é bastante diferente do norte-americano. Os trabalhos legislativos no Brasil são altamente centralizados e se encontram ancorados na ação dos partidos. Ademais, enquanto o presidente norte-americano possui limitados poderes legislativos, o brasileiro é um dos mais poderosos do mundo. … da mesma forma, não é possível desconsiderar os poderes legislativos do presidente.”
O fato é que o exercício da governança se torna cada vez mais complexo. Os interesses grupais e individuais suplantam as demandas coletivas. A conquista do poder, a qualquer custo, é a meta que transforma a política em uma arena de lutas. Sob essa paisagem conflituosa, golpes, insurreições, movimentos de ruptura, ancorados nos quartéis e nas armas, são os novos componentes que corroem os vãos e desvãos das democracias, tornando o mundo mais autoritário.
Justamente no momento no qual o Brasil tenta reassumir um papel de liderança internacional na agenda ambiental e climática, o Congresso – dominado por forças conservadoras, ruralistas e setores alinhados à extrema direita – age para sabotar o país. A derrubada dos vetos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao PL 2.159/2021 representa um dos maiores retrocessos ambientais desde a redemocratização. Não à toa, o texto ficou conhecido como "PL da Devastação ".
E não são apenas os movimentos ambientais que soam o alarme. Também a Anistia Internacional, setores da Igreja Católica, pesquisadores, cientistas e um relator especial da ONU alertam para as consequências da proposta.
O discurso tenta vender a ideia de "modernização" das regras de licenciamento ambiental. Mas o conteúdo real do projeto revela outra lógica: acabar com os estudos de impacto ambiental e social, justamente o coração de qualquer sistema democrático de proteção ambiental. Pela nova regra, empresas poderão "autorizar" seus próprios empreendimentos por meio de simples autodeclarações: sem análise técnica independente, sem transparência pública e sem participação da sociedade. É a porta aberta para abusos, fraudes e destruição acelerada.
A supressão da participação social é um dos pontos mais graves. Povos indígenas, comunidades quilombolas e populações tradicionais perdem não apenas o direito à consulta, mas também o acesso a informações que lhes permitiriam contestar violações. Sem estudos prévios, resta um vácuo institucional no qual interesses privados passam a prevalecer de forma absoluta.
O PL 2.159/2021 não enfraquece apenas o licenciamento: ela fragiliza pilares elementares do Estado Democrático de Direito.

O impacto concreto pode ser ilustrado de forma simples: imagine um empresário adquirindo uma vasta área numa terra indígena ainda em processo de demarcação – processo conhecido por sua lentidão burocrática e vulnerável à pressão política. Com a nova legislação, bastará uma autodeclaração para desmatar, converter o território em pasto ou instalar monoculturas de alta degradação. Erosão do solo, contaminação de rios, perda de biodiversidade, agravamento do calor e redução das chuvas – todos esses efeitos deixam de ser analisados. E o modo de vida das populações originárias simplesmente desaparece do mapa.
O ataque legislativo recai principalmente sobre dois biomas cruciais: Amazônia e Cerrado . Ambos já enfrentam pressões históricas; ambos desempenham funções ecossistêmicas essenciais para o regime de chuvas no Brasil e para o equilíbrio climático global. Essa regressão normativa, além de colocar o país no caminho da devastação interna, prejudica os esforços internacionais para limitar o aquecimento global.
A ironia é que até o próprio agronegócio será a vítima. A ciência é unânime: o aumento das temperaturas , a irregularidade das chuvas e a intensificação das secas afetarão profundamente a produtividade agrícola. Hoje, cerca 60% das terras agrícolas brasileiras já apresenta algum nível de degradação. Projeções indicam que esse número pode chegar a quase 75% até 2060, com prejuízos bilionários. A bancada ruralista está destruindo a base material de seu próprio negócio.
No plano jurídico, a perplexidade é igualmente grande. O PL cria insegurança ao invés de solucioná-la: fragmenta competências entre União, estados e municípios; elimina parâmetros mínimos; abre brechas para interpretações contraditórias; e estimula um ambiente normativo caótico. Essa desorganização não é um acidente, mas arte do objetivo central: criar um cenário em que fiscalização se torne inviável. As comunidades tradicionais ficaram expostos a uma anarquia de um capitalismo sem regras.
Não surpreende, portanto, que o Supremo Tribunal Federal (STF) deva ser acionado. Há sólidos argumentos constitucionais para questionar a PL, sobretudo sua violação ao princípio da proibição do retrocesso ambiental que impede o Estado de desmontar proteções essenciais sem motivação constitucional robusta.
Mas talvez o aspecto mais estarrecedor seja outro: o PL 2.159/2021 representa o oposto do que a sociedade brasileira quer. Pesquisas de escala nacional mostram 94% dos brasileiros reconhecem que o aquecimento global é real e já sentem os efeitos das mudanças climáticas, 74% afirmam que a proteção ambiental deve prevalecer sobre o crescimento econômico; mais de 90% consideram fundamental a defesa da Amazônia, mais de 80% da população mundial exige ações mais firmes dos governos em defesa do clima.
Em outras palavras, a população brasileira apoia de forma esmagadora a proteção ambiental. Quem sabota essa agenda é o Congresso, uma instituição hoje blindada contra a vontade popular, capturada por interesses privados e dominada pelas mesmas oligarquias que, há décadas, impõem seus privilégios ao país: homens brancos, ricos, herdeiros de clãs políticos e representantes de setores econômicos poderosos.
O paradoxo persiste: uma sociedade que defende massivamente a natureza e um Parlamento que age sistematicamente para destruí-la. A pergunta inevitável ecoa: por que o país continua elegendo representantes que não refletem seus valores nem seus interesses de longo prazo? Trata-se de um dos enigmas mais persistentes do cenário político brasileiro contemporâneo.
São personagens centrais da sociedade brasileira. Não são sinônimos, apesar das semelhanças. O malandro tem uma conotação positiva na nossa paisagem cultural. Adota um estilo de vida peculiar. É temente a Deus e ao trabalho. Desafia as convenções sociais de modo a levar vantagem em tudo que se mete. Para lograr uma existência livre, leve e boa, desenvolve habilidades da esperteza. Da astúcia. Aprimora a arte enganar e encontra sempre que se deixa enganar: a legião dos otários.
No entanto, passa raspando pelo Código Penal de modo a não cair na malha do artigo 171 (estelionato e fraudes diversas). Não é bandido. Pelo contrário. O malandro e o ambiente da malandragem são fontes de inspiração do cancioneiro, da literatura e da pesquisa sociológica.
O renomado antropólogo, escritor e jornalista, Roberto DaMatta (1936), na obra magistral Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro, define o malandro como “um ser deslocado das regras formais, fatalmente excluído do mercado de trabalho. Aliás definido por nós como totalmente avesso ao trabalho e individualizado pelo modo de andar, falar e vestir-se”.

Por sua vez, a romantização do malandro é cantada na poesia musical do samba-choro de autoria de Assis Valente (1911-1958) Camisa Listrada, 1937, imortalizada na voz da “pequena notável”, Carmen Miranda (1909-1955). Jorge Aragão compôs a canção Malandro (1983) interpretada pela saudosa Elza Soares (1930-1922). Cabe destacar a consagrada peça do teatro musical de Chico Buarque de Holanda, A Ópera do Malandro, encenada em 1979 e adaptada ao cinema em 1985.
Na literatura e na criação de personagens televisivos, cinematográficos, o malandro é tema recorrente e que molda um tipo original, um modelo arquetípico, desde a figura criada nas Memórias de um Sargento de Milícias, explorada pelas diversas escolas literárias, a exemplo do legado modernista em Macunaíma – O herói sem nenhum caráter (Mário de Andrade, 1893-1945)) e que está na boa da companhia do espertíssimo e irreverente Vadinho em Dona Flor e seus dois maridos (Jorge Amado,1912-2001).
Não custa mencionar a figura singular do vivaldino Castelo, o protagonista do delicioso conto de Lima Barreto (1881-1922) que engabelou o Barão de Jacuecanga e os burocratas da época como O Homem que Sabia Javanês. E para além de nossas fronteiras, cabe destacar a figura octogenária e icônica de Zé Carioca, criado nos estúdios Walt Disney (o Joe) como um versátil e suave representante do estilo do carioca da época, alegre, criativo, bem-humorado, manero, tempos longínquos em que a diplomacia americana praticava e difundia o “soft power”. E na epifania de Herivelto Martins, hoje desnaturada, morar no morro era viver pertinho do céu.
A verdade é que os tempos mudaram radicalmente. Na era competitiva e performática, não há lugar para o malandro tradicional. Sobra a tentação da ganância e, com ela, afunda o ideal ingênuo da vida boa e simples. O crime é o vizinho em todos os recantos do espaço social. A malandragem dá lugar à bandidagem. A astúcia e a esperteza abrem passagem para a delinquência; a fraude é o método; estelionato, mais do que um tipo penal, é o objetivo permanente para obter a vantagem ilícita; e organizar a ação criminosa, um investimento estratégico.
Entra em cena o trambiqueiro. O falsário, o trapaceiro, o golpista sob um invólucro mais “elegante”: o marginal pleno. No caso brasileiro, este tipo de delinquente utiliza padrões sofisticados na estruturação dos negócios à margem da lei. Elabora um plano e monta a estratégia para o assalto ao bem público ou privado. A estratégia se aproveita do persistente patrimonialismo do estado brasileiro onde viceja a promiscuidade entre o interesse público e o privado. É o “locus” adequado.
Com razoável esforço de observação, é possível identificar o perigo bem como acionar os mecanismos de proteção às vítimas potenciais. Senão vejamos.
Todo trambiqueiro desenvolve o agudo senso oportunista, sabe onde está o “tesouro” e, certeiro, versátil, conhece, também, as formas mais eficientes de abordagem. Começa com um discurso pró-mercado. Mentira. Foge da concorrência e da competição como o diabo da cruz. Em compensação, adora todo tipo de subsídios, monopólios e tudo mais que esteja sob o manto corrompido do “capitalismo de laços e de compadrio”.
Prevenido, o marginal pleno/trambiqueiro se protege com uma sólida arquitetura jurídica montado por “competentes” consultores e advogados pagos com honorários estratosféricos. Prefere, é claro, os que demonstrem comprovada influência junto às autoridades. Cuida com zelo especial de instalar “lavanderias”; plantar vastos “laranjais”; buscar os paraísos fiscais de modo a apagar responsabilidades e sonhar com o crime perfeito.
Todo ele se mostra atual. Antenado. Digitalizado. Convincente. Cultiva um verniz de modernidade no estilo. É neo. Neo-rico. Neo-enófilo. Neo-Gourmet. Neo-brega com métricas chiques no falar, soleniza lugares-comuns; no vestir, roupas de marca, caras, com certo “despojamento corporativo”; no divertir (aí mora o perigo), luxos, excentricidades e uma casual cafungada no pó.
Dos escândalos amplificados com o ditongo “ão”, ao careca do INSS”, ao “trambanqueiro” do Master e ao guloso Magro da Refit, todos ostentam para valer. Ao fim e ao cabo, espetaram algumas dezenas de bilhões de reais nos costados dos aposentados do INSS e no bolso do contribuinte. As promessas do sistema de compliance, os mecanismos de fiscalização e controle passaram batidos diante de evidentes sinais de enriquecimento ilícito.
Ninguém viu. O impressionante livro de Saramago O Ensaio sobre a Cegueira oferece uma explicação, ainda que ficcional: epidemia geral que afetou a visão de uma comunidade. No nosso caso, tudo indica que ocorreu, e pode continuar ocorrendo, epidemias, porém, seletivas o que garante aos delinquentes o troféu da impunidade.
Gustavo Krause
Desde 1995, a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) teve seis presidentes. Quatro foram presos, no comando da casa ou no comando de coisas ainda piores, como o ex-governador Sérgio Cabral Filho. Que tenham prendido mais um presidente da Alerj deveria causar surpresa? Ou tédio enojado?
Qualquer leitora de jornais dirá logo que essas perguntas estão erradas, pois não se trata de problema específico da Alerj ou do Rio de Janeiro, embora meus conterrâneos estejam de fato exagerando, por assim dizer. Há mais evidências de que a corrupção está mais disseminada, tolerada, perigosa e, agora, é motivo central de uma das maiores querelas institucionais do Brasil —parlamentares contra Supremo.
A corrupção é cada vez mais sistemática ou organizada em gangues políticas. O exemplo mais recente é o desse Rodrigo Bacellar (União Brasil), que presidia a Alerj. Foi preso nesta quarta pela Polícia Federal porque acusado de prestar serviços a um grupo criminoso, vazando informações a fim de ajudar um comparsa a fugir da polícia, no caso um deputado acusado de ser próximo do Comando Vermelho.

A corrupção é escandalosamente tolerada —basta lembrar o caso das rachadinhas daquela famosa família. Está mais e mais conectada ao dito "crime comum". A corrupção vai além do suspeito de sempre, o Legislativo —vide as investigações de vendas de sentenças e outras negociatas em Tribunais de Justiça e no Superior Tribunal de Justiça.
A corrupção tornou-se problema institucional maior e crônico, por vias indiretas, mas gritantes. Nesta quarta, o ministro Gilmar Mendes, do STF, decidiu que o pedido de impeachment de ministros do Supremo deve partir da Procuradoria-Geral da República —o caso ainda vai para o plenário do tribunal. Se a decisão tem fundamento constitucional é assunto para entendidos. O que importa aqui, agora, é que se trata de mais um capítulo do embate entre STF e Congresso. O Senado reagiu e diz que pode votar emenda constitucional que trate do assunto.
Parlamentares, em particular da direita e da extrema direita, querem cabeças do Supremo. A julgar por outras votações relevantes, a maioria quer aprovar leis que a ajude a fugir da polícia e da Justiça. Vide o caso da PEC da Blindagem. Sim, o Supremo está fora da casinha institucional e politizado de modo indevido faz mais de década. Mas o limite constitucional da atuação do Judiciário é assunto da minoria parlamentar que se ocupa de assuntos públicos sérios.
Faz mais de dois anos, deputados e senadores estão incomodados com as investigações de roubança de emendas parlamentares. A tentativa de "blindagem" piorou com a lambança das emendas e depois de o ministro Flavio Dino elaborar um plano para colocar alguma ordem na casa.
Operações contra o crime organizado e contra o crime empresarial ou financeiro organizado frequentemente passam perto do mundo político: pegam amigos, assessores, parentes, sócios. Já pegaram alguns bagrinhos. Há tubarões nervosos. De qualquer modo, seja qual for o motivo, "político" ou outro, parlamentares querem evitar que a gentalha seja processada ou presa. Deputados da extrema direita fogem do país para escapar da polícia, com a tolerância do Congresso.
É uma nova crise de corrupção institucional, que ocorre quando descobrimos o tamanho das facções e suas relações com empresas e finanças. Pior, pode bem haver laços entre todos esses bandos.
Há uma semana, escrevi de novo aqui sobre Bolsonaro. Leitores estranharam e me cobraram por ter dito que não falaria mais dele. Mas eu nunca disse bem isso. O que prometi foi que, quando Bolsonaro fosse preso, deixaria de poluir este espaço com seu nome. E só naquela quinta-feira, com o jornal já nas ruas, foi-lhe dada a ordem de cumprimento da pena e Bolsonaro começou a contar com quantos dias se fazem 27 anos e três meses de cadeia.

Outros leitores me atribuíram uma fixação em Bolsonaro. De fato, devo ter escrito umas cem vezes ou mais sobre ele nos últimos sete anos. Mas tinha razão para isso. Bolsonaro, político rasteiro quando deputado —pertencia ao baixo clero do baixo clero—, beneficiou-se de uma trágica convergência política para ganhar a Presidência e se tornar o homem mais perigoso da nossa história republicana. Se chegasse ao segundo mandato, já tinha tudo preparado para eternizar-se no poder, do qual "só sairia morto", como não se cansou de dizer. Em quatro anos no Planalto, dedicou cada hora do dia a esse plano.
Outros leitores comentaram que "está na hora de esquecer Bolsonaro" e que "continuar a falar dele é dar-lhe uma importância que ele não merece". Pois penso exatamente o contrário. Não podemos esquecê-lo nunca. Bolsonaro precisa ser lembrado para sempre a fim de que não surjam novos bolsonaros —assim como as Forças Armadas não podem se esquecer de Augusto Heleno, Braga Netto, Almir Garnier e outros que rebaixaram suas fardas a serviço de alguém que nunca honrara a dele.
A história é a espinha dorsal de um país, daí os regimes autoritários, de direita ou de esquerda, a reescreverem quando se instalam no poder. Todos aprenderam com George Orwell: quem controla o presente controla o passado; quem controla o passado controla o futuro.
Bolsonaro já devia começar a fazer parte do currículo do ensino básico. Os filhos de muitos mortos pela Covid, por exemplo, têm o direito de saber que seus pais morreram porque ele lhes negou a vacina.
A recente decisão das empresas farmacêuticas Dr. Reddy’s e Hetero de disponibilizar o Lenacapavir como profilaxia pré-exposição (PrEP) ao HIV por US$ 40 anuais a partir de 2027 foi recebida com entusiasmo por organizações internacionais de saúde pública. Não sem razão, pois trata-se de um medicamento injetável de altíssima eficácia, aplicado apenas duas vezes por ano, capaz de contribuir na prevenção do HIV para populações que enfrentam estigma, violência, criminalização ou barreiras na adesão medicamentosa. Entretanto, apesar do potencial revolucionário desta tecnologia, o modelo de acesso que vem sendo estruturado tende a intensificar os padrões globais de exclusão que historicamente moldam a resposta à epidemia.
Médicos Sem Fronteiras (MSF), uma das vozes mais respeitadas no campo humanitário, celebrou o acordo, mas advertiu para um paradoxo evidente: os 120 países contemplados no licenciamento incluem muitos territórios de baixa renda, mas deixa de fora países de renda média onde ocorre um quarto das novas infecções globais por HIV. Vale lembrar que o licenciamento foi concedido pela empresa Gilead, que, em última instância, detém o poder de definir quais países que poderão ter acesso aos genéricos.
Também ficam excluídas populações que participaram de ensaios clínicos com o Lenacapavir na América Latina, como o Brasil, a Argentina, o México e o Peru, cenário que reforça uma lógica extrativista em que corpos do Sul global servem como base de pesquisa, mas não como destinatários prioritários dos benefícios produzidos.
Essa contradição evidencia que a disputa em torno do Lenacapavir não é apenas sanitária, mas também econômica e geopolítica. A tecnologia biomédica, quando submetida às lógicas de propriedade intelectual e de rentabilidade corporativa, deixa de ser instrumento de saúde pública e passa a operar como um ativo estratégico circulando em mercados globalmente desiguais. O caso do Lenacapavir, portanto, inscreve-se na longa história de tensões entre ciência e capital, característica dos regimes contemporâneos de inovação farmacêutica.
Segundo modelagem recente do UNAIDS, as metas globais propostas reduzirão apenas 50 mil novas infecções, num universo potencial de 3,8 milhões que poderiam ser evitadas com uma estratégia mais ousada de implementação. Isso ocorre porque os principais compromissos internacionais, como o acordo entre PEPFAR, Gilead e Fundo Global, são limitados em escopo territorial e populacional, e porque sua concepção política prioriza grupos como gestantes e lactantes, enquanto desprioriza populações-chave que já carregam o maior peso da epidemia.
A Gilead, detentora da patente, permanece no centro da crítica. Sua estratégia comercial prioriza o lucro e resguarda mercados de alto poder aquisitivo, enquanto restringe a entrada de genéricos e limita acordos de licenciamento voluntário. O resultado é uma cadeia de oferta que, mesmo ampliada com a participação de empresas indianas, permanece estreita, insuficiente e vulnerável às oscilações do mercado.
Não é apenas uma questão de preço, mas de controle político da tecnologia. O monopólio sobre moléculas inovadoras permite às corporações governar a velocidade, o alcance e as condições de difusão de medicamentos, invertendo a lógica: não é o interesse público que organiza a inovação, mas a inovação que subordina o interesse público às dinâmicas corporativas.

O anúncio do preço de US$ 40 é um avanço, mas insuficiente se considerado o que está em disputa: a possibilidade real de frear a epidemia em escala global. A ciência, aqui, não é o limite. O limite é a política. Deixar grandes populações de fora de um regime de acesso significa consolidar um sistema de saúde internacional seletivo, onde vidas são hierarquizadas por critérios econômicos e geopolíticos.
O caso das Filipinas, citado pela MSF, é emblemático: ofertar Lenacapavir a apenas 2% da população, mas justamente às populações mais expostas, reduziria quase metade das novas infecções. A matemática da saúde pública segue submetida à matemática do lucro.
O sistema classificatório global de renda, utilizado para determinar acesso a genéricos e a acordos de licenciamento, reduz realidades complexas em categorias binárias, perpetuando a colonialidade no campo da saúde global. Ao final, países considerados “ricos demais para receber ajuda”, mas “pobres demais para comprar inovação”, ficam aprisionados em um limbo sanitário e econômico.
É verdade que os países excluídos da licença voluntária da Gilead poderiam recorrer a licença compulsória – portanto, não estariam totalmente reféns do acordo. No entanto, essa seria uma outra batalha, que igualmente depende de vontade política.
Uma estratégia verdadeiramente transformadora exigiria ampliar acordos de licenciamento para toda a América Latina e demais países de renda média; estabelecer mecanismos de transparência nos preços e nos custos de produção; fortalecer pressões multilaterais para flexibilizar patentes em contextos de pandemias e epidemias; garantir participação das populações-chave na formulação das políticas de acesso; e fomentar produção pública e regional de tecnologias biomédicas.
A ciência já demonstrou que o Lenacapavir pode mudar a história da prevenção ao HIV. O que falta agora não é tecnologia, mas decisão política. A saúde global seguirá refém da lógica de mercado enquanto países e organizações não confrontarem a estrutura que transforma bens fundamentais à vida em mercadoria. O desafio, portanto, vai além da PrEP. Trata-se de redefinir o regime global de inovação biomédica e exigir que a vida, e não o lucro, seja o eixo organizador das políticas de saúde.
O ritmo da vida moderna tornou-se tão acelerado que muitos de nós já nem o questionamos. Vivemos numa espécie de corrida permanente, em que cada dia começa com urgências e termina com a sensação de que ficou algo por fazer. A produtividade transformou-se numa métrica de valor pessoal e a disponibilidade constante parece ter-se tornado um requisito de sobrevivência, porém, por trás desta normalidade forçada esconde-se um risco cada vez mais evidente, o burnout.
O burnout não é apenas sinónimo de cansaço extremo. É um esgotamento profundo, físico e emocional, que se instala quando ultrapassamos de forma continuada os nossos limites. Surge quando tratamos o descanso como um detalhe dispensável, quando ignoramos a necessidade de parar, quando acreditamos que resistir é sempre a solução. E, no entanto, é justamente esta ideia, a de que aguentar é virtude, que nos empurra para o abismo.

Hoje, qualquer pessoa está vulnerável, a linha que separa dedicação de exaustão tornou-se tão ténue que basta um prolongado período de exigência para a ultrapassarmos sem perceber. A tecnologia ampliou essa fragilidade, estamos sempre alcançáveis, sempre ligados, sempre expostos a estímulos que exigem resposta, a fronteira entre trabalho e vida pessoal dissolveu-se, e com ela dissolveu-se também o espaço para simplesmente existir.
Mais preocupante ainda é que a sociedade continua a glorificar este modo de vida, premia quem nunca falha, quem acumula tarefas, quem está sempre “on”. Raramente valorizamos quem escolhe descansar, quem define limites, quem decide preservar a saúde mental antes de tudo, mas a verdade é que nenhuma carreira, nenhum objetivo e nenhum reconhecimento compensam o desgaste silencioso que se vai acumulando até rebentar.
É, por isso, urgente que repensemos o modo como vivemos, precisamos de recuperar o direito ao ritmo humano, um ritmo que permita pausa, reflexão e cuidado. Precisamos de aceitar que não somos máquinas e de compreender que produtividade sem bem-estar não é progresso, é autodestruição. A ideia de que parar é desperdício deve dar lugar à consciência de que o descanso é parte essencial da vida e não um luxo ocasional.
Viver não pode ser apenas cumprir tarefas, responder a e-mails ou sobreviver ao calendário, viver implica sentir, relacionar-se, estar presente e cuidar de si. Implica reconhecer que o corpo tem limites, que a mente precisa de silêncio e que a felicidade não nasce de uma agenda cheia, mas de uma vida equilibrada. E cuidar de nós não é egoísmo, é responsabilidade. É o gesto que garante que permaneceremos inteiros, saudáveis e capazes de dar o melhor de nós às pessoas e causas que nos importam.
O burnout não é inevitável, mas evitá-lo exige coragem, a coragem de abrandar quando tudo nos empurra para correr, de dizer “basta” quando os limites já foram ultrapassados, de escolher a vida antes que ela se reduza a uma sucessão de obrigações. Talvez o maior desafio do nosso tempo seja justamente este, aprender a viver de forma consciente, recusando a lógica do sacrifício permanente.
Porque, no fim, não se trata de fazer mais, trata-se de viver melhor. E essa escolha, embora difícil, é a única capaz de nos devolver aquilo que a pressa nos tem roubado, a capacidade de sermos verdadeiramente humanos.
A imagem do ex-presidente Bolsonaro, em vídeo gravado sobre a violação da tornozeleira eletrônica, é devastadora, fazendo desmoronar sua figura pública. No exercício da Presidência, transmitia a mensagem da masculinidade em motociatas que atravessavam o País, apresentando-se, em casaco de couro, como um mito imbatível, capaz de superar toda e qualquer adversidade. Começou a fraquejar quando a tentativa de golpe se mostrou inviável, dada a intervenção do Alto Comando do Exército, recluindo-se cada vez mais. Após ter se tornado réu, recolheu-se à prisão domiciliar, culminando nessa cena patética de um homem que confessa, abatido, candidamente, para uma agente penitenciária, que violou a tornozeleira eletrônica com um ferro de solda. Ela, inclusive, se dirige a ele como “seu Jair”, sem nenhuma consideração para com sua prerrogativa presidencial.

Mostra essa cena um homem alquebrado, que em nada corresponde à imagem que antanho transmitia. Enseja, isso sim, compaixão. Do ponto de vista estritamente legal, o ministro Alexandre de Moraes tem razão em decretar a sua prisão preventiva, porém poderia ter levado em conta circunstâncias atenuantes, como um eventual surto produzido pela mistura indevida de suas medicações. Seu comportamento não mostra alguém que estivesse arquitetando uma fuga graças a uma vigília preparada por seu filho, 19 horas depois! Não faz sentido. Se há crítica à vigília religiosa, tanto maior deveria ter sido a precaução com o presidente Lula, que teve diariamente vigílias ideológicas, sem nenhuma proibição. O bom senso recomendaria que Bolsonaro permanecesse por suas condições psicológicas e de saúde em prisão domiciliar.
No entanto, desde uma perspectiva política, a questão é outra. Tendo ruído a sua imagem e considerando as condições de sua prisão, incomunicável, não está nem estará em posição de exercer nenhuma liderança. Diria mesmo que não tem nem perfil para isso. Ele se comporta como uma pessoa normal, não como um líder político propriamente dito. Façamos uma comparação histórica, desprovida de juízo moral.
Hitler cresceu na prisão e soube enfrentá-la. Mussolini, em sua ascensão ao poder, superou adversidades. Perto de nós, Lula fez face à prisão com dignidade, com apoio de seus seguidores, cresceu nas dependências da Polícia Federal e virou novamente presidente da República. Bolsonaro, por sua vez, contrasta com essas figuras. Tem uma aversão, aliás justificada, pela prisão, apesar de eventuais ganhos políticos de que poderia usufruir.
O problema que se coloca, então, é o de como o bolsonarismo pode sobreviver sem um líder. O deputado Eduardo Bolsonaro, de seu autoexílio, também patético, declarou, a propósito da escolha de seu irmão Carlos Bolsonaro como candidato a senador por
Santa Catarina, que o bolsonarismo é um “movimento político”. O caso em pauta significa uma intervenção direta nesse Estado, contrariando o governador e lançando impregnações contra duas deputadas, uma federal, Carol de Toni, e outra estadual, Ana Campagnolo. Duas bolsonaristas de estrita observância, que ousaram dizer não a uma tal imposição. Ainda segundo o deputado, deveriam simplesmente obedecer ao “movimento”, dirigido doravante pelo clã familiar, embora não se saiba ao certo quem dirige o clã na atual situação.
Por que, porém, o uso da palavra “movimento”? Significa uma estrutura hierárquica que não admite contestações, sendo que ordens devem ser simplesmente cumpridas. A relação é vertical. No caso de um partido político, diferentemente, há sempre níveis de horizontalidade, com discussões internas, diferentes interesses políticos, líderes divergindo entre si, sem que haja uma estrutura monolítica. Não é o caso de “movimentos”, a exemplo do fascismo na Itália e do nazismo na Alemanha, que não admitiam nenhum tipo de crítica interna. Tal tipo de estrutura encontra-se da mesma forma em organizações mafiosas, nas quais a ordem do “padrinho” é incondicionalmente seguida, sob risco de violência física. Basta rever a trilogia Poderoso Chefão.
Acontece, contudo, que a pretensão do deputado Eduardo Bolsonaro é nada mais do que uma pretensão com o intuito de enquadrar o bolsonarismo órfão. Seu outro irmão, o senador Flávio Bolsonaro, dias depois, referendou a sua fala ao declarar que, doravante, seria ele o porta-voz do pai, encarregado de transmitir suas orientações aos diferentes setores estaduais do “movimento”, que deveriam evidentemente ser obedecidas. Ora, imediatamente depois, seu irmão o contestou dizendo que ele não seria o porta-voz exclusivo, visto que ele assumiria igualmente essa função. O clã expõe a disputa interna, rompendo com a ideia mesma de “movimento”, a supor que seus membros estejam dispostos a segui-los, conforme ordens desprovidas de liderança. Isso para não dizer de aliados que nenhum compromisso têm com esse projeto político.
Qual pode bem ser o futuro do bolsonarismo sem líder, submisso às incertezas de um clã que exige apenas obediência incondicional?
Quando escrevi aqui que Bolsonaro parecia ouvir vozes, leitores me condenaram. Não direi felizmente, mas agora ele mesmo confessou o fato ao tentar romper a tornozeleira. Acreditou que o aparelho emitisse mensagens — talvez alienígenas. Dá para entender, enfim, a lógica por trás de seus seguidores e de hábitos tão estranhos quanto ajoelhar-se e rezar para um pneu.
Nesse cenário existem dois atores — o ex-presidente e seus simpatizantes radicais. A mão e a luva. O político não existiria sem eles. Suas parvoíces, insultos e preconceitos encontram eco — e voto — numa parcela da população.
O capitão deu rosto ao “tiozão do zap”, o personagem doméstico que repassa fake news e tem opinião até sobre embargos infringentes. O tiozão pode ser o tio, o cunhado ou aquele parente que nunca se interessou por política. Claro que é um comportamento importante, porque traz ao debate público personagens ausentes. Mobiliza.

Desde a vizinhança do golpe de 1964, não se via a movimentação de massas da direita. Passeatas como a Marcha da Família com Deus deixaram de ocorrer até o bolsonarismo. Apenas o campo progressista conseguia reunir multidões — principalmente por ser oposição aos militares. O delírio do líder, que parecia fraqueza, mostrou-se a força motriz para reativar toda uma tradição política adormecida. O “tiozão do zap” ouviu o chamado e foi para a rua.
Com a tentativa do golpe de 2022 desmascarada e condenada, fica um duplo legado. De um lado, o eleitor escolheu mal seu representante. De outro, a democracia mostrou vivacidade. Não foi a primeira vez — em ambos os casos. Nestes 40 anos de vida democrática, passamos por dois impeachments, quatro presidentes presos, sob diferentes acusações, e agora há dois deputados federais foragidos da Justiça. Além de um terceiro boquirroto já à beira de ganhar sua pena. O saldo poderia ser negativo caso o golpe tivesse ocorrido e não houvesse a apuração dos crimes. Nada disso aconteceu. As instituições mostraram-se em atilado estado de prontidão.
Entre os simpatizantes bolsonaristas, a reação foi tímida — por certo envergonhados pelo ato humilhante de meter ferro na tornozeleira. O ex-presidente não criou o preconceito ou a paranoia, mas deu a eles licença para sair do armário e um idioma comum. Ele é menos um líder e mais um sintoma que se tornou catalisador. Muitos ouvem vozes. São sintomas da democracia. Até escolher mal faz parte. E o Brasil escolheu mal repetidas vezes — não só com Bolsonaro.
Se existe uma força institucional que barrou o golpe de direita, há também uma inércia ideológica à esquerda que impede mudanças profundas. Ambos os extremos revelam fanatismos distintos: um reza para pneus, outro para estatais.
Já na redemocratização a população colocou na Presidência a direita, a extrema direita, a centro-esquerda e a esquerda. São sinais de um arcabouço maduro. Houve prevalência do petismo em razão de um líder carismático. E da infelicidade de parte do eleitorado se identificar com ideias como o estatismo e o patrimonialismo lulista. Num país onde se reza para pneus, talvez não seja surpresa que se reze também por estatais deficitárias.
Lula e seus simpatizantes são antiquados e ainda ajoelham pela cartilha econômica do velho partidão de guerra. O empreendedorismo digital não contaminou a maioria da sociedade, principalmente a intelectualidade. O choque de capitalismo defendido por Mário Covas em 1990 (!) encontrou eco apenas no governo FH. Mesmo assim, o campo petista bombardeou as privatizações. Telefonia, bancos estaduais — tudo foi atacado. Agora, olhamos para a lambança do BRB de Ibaneis e de novo lembramos como a política faz mal ao sistema financeiro.
Embora as instituições mostrem vigor — mesmo acossado, o BC liquidou o Master —, o aparelho eleitoral parece cada vez mais corrompido e distorcido. Culpa da classe política, interessada na manutenção de um mecanismo incapaz de representar a população brasileira. É um modelo pensado para afastar a sociedade do bom debate público.
E assim seguimos, um país que consegue prender seus presidentes, mas é incapaz de se livrar de seus piores vícios. As mesmas instituições que silenciam as “vozes” da tornozeleira parecem impotentes para calar a algazarra de um sistema político que grita por uma reforma sempre sufocada. O desafio não é mais salvar a democracia de um colapso — ela já provou sua força. É salvá-la de seu próprio cansaço.
“Se todos quisermos, poderemos fazer deste país uma grande nação. Vamos fazê-la”Joaquim José da Silva Xavier
Eu gostaria de saber o que está acontecendo com o Brasil uma vez que apresentamos quase quarenta e cinco mil assassinatos por ano.
Eu gostaria de saber o que está acontecendo com o Brasil quando os dados apontam que existem cerca de trinta e cinco mil acidentes fatais de trânsito anualmente.
Eu gostaria de saber o que está acontecendo com o Brasil quando, entre as 20 cidades mais perigosas do mundo, duas são brasileiras, a saber, Rio de Janeiro e São Paulo.
Eu gostaria de saber o que está acontecendo com o Brasil quando duplicamos, em 15 anos, se tanto, o número de pessoas morando em favelas, hoje em torno de 16 milhões de brasileiros.
Eu gostaria de saber o que está acontecendo com o Brasil quando as autoridades que deveriam zelar pela Educação das nossas crianças e dos nossos jovens consideram que seja possível passar de ano nas escolas públicas em determinados estados da Federação tendo o aluno levado bomba em até seis matérias.
Eu gostaria de saber o que está acontecendo com o Brasil quando a mídia, com frequência cada vez mais assustadora, enaltece artistas e criadores - se aceitamos esses termos - de qualidade um tanto quanto duvidosa, reduzindo a atividade cultural a uma mera questão de celebridade.
Eu gostaria de saber o que está acontecendo com o Brasil quando a redemocratização política, que suscitou tantas esperanças em 1985, acabou resultando em quatro presidentes da República presos, em dois deles sacados do poder por impeachment e em outro que golpeou a Constituição Cidadã de 1988 para se reeleger aos quarenta e quatro minutos do segundo tempo.
Eu gostaria de saber o que está acontecendo com o Brasil quando o sistema financeiro produz um escândalo de bilhões e bilhões de reais quase que mensalmente.
Eu gostaria de saber o que está acontecendo com o Brasil quando o sistema de saúde revela que cerca de meio milhão de cidadãos são afastados, anualmente, das atividades de trabalho, por motivos de ordem mental.
Eu gostaria de saber o que está acontecendo com o Brasil quando cinco milhões de pessoas deixam o país, legalmente, em busca de outra vida no exterior.
Eu gostaria de saber o que está acontecendo com o Brasil para registrar, em apenas uma década, quase sete milhões de acidentes de trabalho.
Eu gostaria de saber o que está acontecendo com o Brasil quando, em apenas seis anos (isto é, entre 2019 e 2024) desmatamos uma área de quase dois milhões de hectares. Para efeito de comparação, o Nordeste inteiro possui cerca de um milhão e meio de hectares.
Eu gostaria de saber o que está acontecendo com o Brasil quando, entre as dez cidades mais barulhentas do mundo, uma delas é brasileira, São Paulo, a sétima no ranking.
Por tudo isso eu pergunto, já que não adianta tapar o sol com a peneira: o que está acontecendo com o Brasil? Eu gostaria de saber.
Postagens que ironizam o comportamento dos jovens da geração Z têm se acumulado nas redes sociais, conforme essa faixa, formada por quem nasceu entre 1997 e 2010, tem chegado à idade adulta e ingressado no mercado de trabalho. Não é incomum que a convivência com indivíduos de outras faixas etárias leve a um choque geracional.
Mas a geração Z, que no Brasil soma 48,8 milhões de pessoas (23,2% da população), também cresceu em meio a instabilidades políticas, econômicas e sociais. Em 2008, o Brasil enfrentou uma recessão, em 2013 os protestos de junho alteraram as forças políticas no poder, culminando com o impeachment da então presidente Dilma Rousseff. Depois, veio a pandemia de covid-19, somada à inflação.
Para a pesquisadora da FGV Social, Janaína Feijó, "essa geração tem sim uma dificuldade adicional na hora de adquirir bens e serviços, que são uma medida da qualidade de vida do indivíduo". Ela explica que nas últimas décadas o reajuste nos salários não acompanhou a alta no custo de vida.

Essas condições desfavoráveis contribuíram para moldar o comportamento dessa geração que é menos idealista e mais cautelosa em relação ao consumo. A consultoria McKinsey avaliou o comportamento da geração Z e aponta que esse grupo associa compra a uma expressão da própria autenticidade e valores pessoais. Esse grupo valoriza a fluidez, inclusive de gênero e crença, ao contrário das gerações anteriores.
Assim, compromissos de longo prazo, como a compra de imóvel ou a formação de uma família, são adiados tanto por conta das preferências pessoais quanto por causa de condições econômicas. "A geração Z busca por mais experiências, não necessariamente por manter ativos e eventualmente patrimônio, tal qual uma geração de 30, 40 anos atrás, que almejava conseguir a casa própria e um emprego com estabilidade", afirma o sócio da consultoria Delloite, Marcos Olliver.
O levantamento anual da Deloitte demonstrou as principais preocupações da geração Z no Brasil: custo de vida (34%), desemprego (25%), mudança climática (24%), saúde mental (22%) e segurança e criminalidade (18%).
Quando estavam na juventude, os integrantes das gerações X (1965 a 1980) e Y (1981 a 1996) também enfrentaram dificuldades: hiperinflação , confisco de poupança, mudança do regime da ditadura militar para a democracia, além de guerras e conflitos. No entanto, os jovens de hoje idealizam esse passado quando comparam com sua própria realidade.
No entanto, essa impressão ignora avanços dos quais os jovens atualmente usufruem: o nível de desemprego é o menor da série histórica (5,6%, segundo o IBGE) e a qualificação se tornou mais acessível (um terço dos alunos que terminam o ensino médio vão para a graduação). Houve ainda o aumento na proporção de mulheres e pessoas negras nas universidades e nas carreiras.
"Mas tudo isso fez com que a concorrência também aumentasse, e o jovem sentiu a pressão por se destacar", pondera Feijó. "Os jovens precisam ter habilidade socioemocionais exigidas pelos empregadores, mas por não ter experiência, não conseguem ter todos esses atributos e não conseguem entrar no mercado de trabalho de forma efetiva."
O estilo de vida também contribui para a sensação de piora nas condições gerais. Nos últimos 10 anos, o consumo de ultraprocessados aumentou 5,5% entre a população brasileira, segundo a Universidade de São Paulo (USP), 84% dos jovens são sedentários (IBGE) e 66% dos brasileiros têm dificuldade para dormir, de acordo com pesquisa publicada na revista Sleep Epidemiology. Além disso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que até 21% dos jovens de 13 a 29 anos se sentem solitários com frequência.
"Perdeu-se o convívio em espaços reais e as práticas coletivas, tínhamos vizinhanças mais ativas que ofereciam de diferentes formas uma rede de apoio mais sólida e com contornos mais delimitados", ressalta a psicóloga e professora da USP, Ana Barros. Ela diz que a soma desses fatores leva à deterioração da saúde mental.
Cerca de 40% das mulheres e 29% dos homens da geração Z afirmaram sofrer de depressão em 2024, entre os integrantes da geração X essa proporção foi de 32% e 25%, respectivamente, e na Y, de 38% e 31%. Os dados sobre brasileiros são da pesquisa World Mental Health Day, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
O comprometimento do senso de comunidade também está relacionado ao uso das redes sociais. Enquanto nativa digital, a geração Z cresceu seguindo o ritmo dessas plataformas, que favorecem as conexões virtuais e o isolamento, e comprometem o desenvolvimento de habilidades sociais dos jovens enquanto amadurecem.
"A tecnologia mudou completamente as relações sociais, a forma como experimentamos e construímos nossa subjetividade e o contato com o outro. Hoje a subjetivação é feita na lógica da visibilidade e espelhamento imediatos", afirma a psicóloga Ana Barros. "Isso gera uma necessidade de validação externa muito instantânea, com uma pressão constante por corresponder a padrões e expectativas que levam a sentimentos de muita angústia e sensação de inadequação."
Apesar da piora de indicadores, o consultor Marcos Olliver aponta que a saúde mental se tornou uma prioridade, o que avalia como positivo. "Para as outras gerações, não havia tanto a preocupação com a questão de qualidade de vida ou de bem-estar". Cerca de 13% dos brasileiros fazem terapia e 15% tomam remédios para tratar questões psiquiátricas, aponta pesquisa da Vida LinkedIn. Para 41,6%, saúde mental é uma das prioridades.
Barros afirma que esse movimento é um ponto de virada importante. "Isso indica que apesar das pressões inéditas que os jovens enfrentam, eles também desenvolvem estratégias próprias da sua época, como o próprio uso das redes sociais para formar comunidades virtuais e compartilhar o que sentem."
Em nome desse bem-estar, eles priorizam a vida privada em relação ao trabalho, e estão menos dispostos a se submeter a condições exaustivas: 56,2% dos jovens almejam vagas com possibilidade de trabalho remoto e horários flexíveis, de acordo com levantamento da Infojobs. Outros 71,6% disseram que deixariam os cargos se o ambiente fosse tóxico ou o trabalho estiver desalinhado com seus valores.
A classificação em gerações não é um consenso científico. Uma vez que foca nas diferenças e não nas convergências entre gerações, essas categorias fomentam a ideia de que há um choque entre elas, e servem de material para memes, além de refletir o pensamento de uma classe média alta, e não do grupo como um todo.
Feijó assinala que pessoas com níveis de renda e educação diferentes, têm comportamentos distintos, mesmo dentro da mesma geração.
"Geralmente, a população preta e parda tem esses sonhos materiais muito mais latentes do que a classe mais de renda mais elevada, composta majoritariamente por brancos ou amarelos. Por isso, o sonho da casa própria ainda é comum entre os mais pobres, enquanto os mais ricos já conseguem vislumbrar outras oportunidades, como ter um negócio e investir. Então, os sonhos são diferentes, mas os desafios permanecem."
Após compreender a dimensão e a extensão da “operação” no Complexo do Alemão e Penha no Rio de Janeiro (RJ), três conclusões preliminares parecem evidentes: a brutal chacina de 28 de outubro de 2025 tornar-se-á um marco na História contemporânea brasileira e sugere um ponto de viragem; o violento massacre policial teve um óbvio propósito político e tático eleitoral; a horripilante imagem dos corpos enfileirados na Praça São Lucas transportou-me diretamente para Gaza – realidades distintas, mas que nos apontam para a questão central: o racismo/racialização. Para o entendimento desse acontecimento é preciso ter em consideração elementos de longa duração histórica, do ciclo da ditadura empresarial-militar (1964-1985) e o contexto do Rio de Janeiro dos anos 90/2000, bem como as questões da conjuntura. Sinteticamente.

As classes dominantes brasileiras, herdeiras do colonialismo português, não importaram somente “estética e muito pouco além disso”, sobretudo, perpetuaram e atualizaram as lógicas e tecnologias político-raciais de desumanização daqueles considerados “sub-humanos”, “descartáveis”, “sem alma”. Ou seja, os pobres, periféricos, excluídos, subalternos, escravizados, os trabalhadores – as populações negras, não brancas e ameríndias. Portanto, para essa “elite”, que necessita das violentas “estética” e ideologia racistas, como forma de conservação do seu statu quo, estas populações são passíveis de genocídio, tortura, chacinas e massacres. Aos “seus serviços”, das tropas coloniais até à “burocracia armada” do Estado hoje (polícia, policiamento e encarceramento), matam impunemente os “sub-humanos” e sem precisarem de justificar nem serem responsabilizados.
A “lei informal” transmitida no treinamento policial é: identificou algo parecido com um fuzil nas mãos de um morador de comunidade, “atire para matar”, todos ali são suspeitos – mesmo que seja um guarda-chuva. Por outras palavras, é pena de morte. A presunção de inocência só existe para os condomínios dos ricos, onde muitas mães daqueles jovens mortos pela polícia vem trabalhar todos os dias, garantindo o trabalho de reprodução social de setores daquela “elite” que interiorizou e continua a “lucrar” com o racismo. Para se ter uma noção de uma política concreta, nos anos 90 um dos governadores do RJ criou as “gratificações faroeste”, ou seja, quanto mais o polícia matava, mais aumentavam os seus rendimentos mensais; recentemente tentaram recriá-las, mas ficou sem efeito.
As imagens dos mortos enfileirados, seminus, alguns corpos desmembrados – mesmo que fossem todos do Comando Vermelho (CV) – não provocaram uma grande repulsa nacional por aquele morticínio planeado pelo Estado. Isso significa que o que impera é uma generalizada dessensibilização e indiferença social; no caso do Rio de Janeiro, existe até considerável aprovação popular à “operação”. E muitos setores “progressistas” apoiaram e legitimaram o morticínio ou demonstraram uma indignação seletiva e com ressalvas. Isto é, capitularam completamente à lógica política-policial aplicada no país nos últimos 40 anos. O Presidente Lula da Silva, num gesto com preocupações eleitorais e de despolitização, a surfar no dito “populismo penal”, sanciona uma lei que endurece o combate ao “crime organizado” – a ironia é que o idealizador da lei foi o seu algoz, Sérgio Moro – e envia para o Congresso Nacional um “Projeto de Lei Antifação”. Por outras palavras, Lula está a legitimar a forma (fracassada) de combater a violência e a criminalidade no Brasil, as mesmas estratégias punitivistas e repressivas que a direita e a extrema-direita têm como pilar central na sua retórica política e ação governativa. O ponto central é que esse tipo de “consenso” e indiferença só evidencia que na História do Brasil a política de extermínio dos “indesejados”, nas suas diferentes formas, tem sido parte da nossa realidade e do nosso imaginário social, desde a colonização até à conformação do capitalismo brasileiro vigente, seja na sua forma de ditadura empresarial-militar ou representativo-liberal, etc.
Imagino que alguns leitores já estejam a pensar: “Mais um defensor de bandido!” Responderia que não, apenas levo os estudos científicos sobre as formas de combater a economia política do crime e o meu antirracismo às últimas consequências, assim como defendo a vida e a dignidade humana, principalmente daquelas pessoas que ao nascer são “condenadas” à morte, à miséria e à exclusão social pela estrutura racial-capitalista que forma o Brasil na sua História. Questionemo-nos. Qual é a “racionalidade” ou o “cálculo” que justifique um jovem “escolher o mundo do crime”, que lhe reserva uma vida curta (a morte) ou anos privado de liberdade? Não será a falta de perspetiva de futuro? De capacidade de sonhar com uma vida melhor? Que outro mundo é possível? Penso que se começarmos a questionar-nos com perguntas desse tipo e combatendo contra a ideologia racista que aprendemos nas diferentes estruturas sociais e instituições, talvez tenhamos a oportunidade de entender que os “excluídos” no apartheid dos morros são incorporados pela economia política do crime como força de trabalho barata e descartáveis, enquanto os poderosos e verdadeiros chefes do “crime organizado” estão a viver nos condomínios de luxo, quiçá em palácios de governo, ou a trabalhar no centro do mercado financeiro brasileiro (Faria Lima) ou nalgum banco em Londres.
Esse tipo de organização – Comando Vermelho (CV), Primeiro Comando da Capital (PCC), etc. – surgiu dentro do sistema carcerário brasileiro, visando reivindicar melhores condições e organizar o espaço prisional, pois as cadeias não “ressocializam” ninguém, são mais uma máquina de moer seres humanos e recrutar pessoas para o crime – o PCC emergiu com maior força após o massacre do Carandiru. Bruno Paes Manso escreveu um recente artigo a diferenciar os dois grupos. O ponto decisivo é que essa economia política do crime (EPC) identificou nessas formas coletivas de organização a possibilidade de transitar do assalto a banco (no caso do CV, 1980), para intermediação e também comercialização de cocaína, que vinha da Colômbia e era despachada dos portos brasileiros para a Europa. Mas como esses grupos poderiam garantir o transporte “seguro” de uma mercadoria tão valiosa, mas ilegalizada? A “solução” foi armarem-se fortemente. Como conseguiriam acesso a armas fabricadas na Alemanha, na Bélgica e nos EUA, entre outros? É nesse contexto que aparece um novo nicho de comercialização no RJ, o das armas com alto potencial de letalidade e imponente; a forma mais rápida e fácil comprar o armamento foi com setores do Estado que têm acesso às armas, as forças de polícia e do Exército. Ou a partir da política de liberalização de armas do governo Bolsonaro. O mesmo vale para as munições.

Às vezes, é preciso relembrar o óbvio. Os fuzis não brotaram do chão nem caíram dos céus nos morros do Rio de Janeiro. Existe todo um complexo, lucrativo e sofisticado comércio de armas e munições que as coloca na mão daqueles jovens pobres e na sua maioria negros. Por que será que a polícia não investiga esse comércio (necromercado)? Não haveria muitos agentes do Estado implicados nesse processo? Grandes empresários “de bem”? Não existe nenhuma relação entre contravenção (“jogo do bicho”), a polícia e as milícias (grupo formado por polícias ou ex-polícias) no RJ?
Outra face desse processo é que a economia política capitalista do crime entendeu que estando fortemente armada permitia ter o controlo dos territórios em que se instalava – evidentemente com a permissão e a organização estatal, uma “regulação armada” dos territórios. Quer dizer, existe uma relação entre o alargamento do CV e a própria expansão urbana da Cidade Maravilhosa.
É a partir desses territórios sob sua regulação armada que a EPC comercializará parte dos estupefacientes que transportava, mas no decorrer de tempo colocou em prática a estratégia capitalista de “diversificar os negócios”, aprendendo com os “rivais” das milícias que tudo se poderia transformar em serviços vendáveis dentro das comunidades, desde a “segurança” à permissão para abrir um comércio, a internet, a luz, a água, o gás, os terrenos e moradias, etc.
O que pretendo salientar é que perceber a questão de território é primordial, pois, de um lado, aquelas populações que lá vivem sofrem por falta de políticas públicas universais e projetos de governo transformadores, que viabilizem ter uma vida em que a privação de necessidades elementares não seja uma constante. Por outro, as ditas organizações criminosas também os subjugam, matam e espoliam de forma quotidiana. É nessa estrutura social contraditória que a EPC tem condicionado e recrutado muitos jovens, que, sem perspetiva de uma vida longe da pobreza e da miséria, aderem ao universo criminal – um dado revelador da chacina de 28 de outubro: um terço dos mortos não tinha o registo do nome do pai nos seus documentos de identificação.
Além das questões de longa e média duração que procurei sumarizar, existem alguns elementos da conjuntura que são relevantes. Como a sequência de erros táticos da extrema-direita/neofascista brasileira: Eduardo Bolsonaro foi para os EUA conspirar junto da Administração Trump, para sancionar juízes e aplicar alta tarifas sobre o Brasil, com o objetivo de evitar a condenação de Jair Bolsonaro por golpe de Estado – sem efeito; assim como a tentativa dos deputados bolsonaristas de aprovar dois projetos de emenda constitucional (PEC), um para amnistiar os golpistas (incluindo Jair Bolsonaro) e outro para inibir a investigação judicial aos deputados e políticos.
O resultado desses equívocos políticos, como o ataque à soberania brasileira por Trump e pela família Bolsonaro, permitiu que o governo Lula retomasse a iniciativa da agenda política do país. Porque a gestão “Lula 3” até àquele momento encontrava-se em crescente impopularidade, uma das consequências da aplicação de uma política económica neoliberal – “austericídio fiscal”, como categorizou Gleisi Hoffmann (ex-presidente do Partido dos Trabalhadores e ministra do governo). Relativamente aos projetos de lei, a esquerda brasileira (moderada e radical) teve a iniciativa de retomar grandes manifestações de ruas, até então sob a hegemonia do bolsonarismo, a fim de demonstrar contrariedade às PEC. Em síntese, a extrema-direita brasileira viu-se na defensiva, por serem identificados por amplos setores da sociedade como “traidores da pátria”, “anti-Brasil” e “defensores de bandidos”.
É nesse contexto que a carnificina “determinada” pelo governador Cláudio Castro e o seu secretário de segurança pública tem forte indícios e relação com o facto de o bolsonarismo estar encurralado politicamente. O que os levou a iniciar uma contraofensiva, visando retomar a agenda política do país, colocando na ordem do dia uma pauta em que eles repetem “respostas” simplicistas (“guerra às drogas”) e, sobretudo, conseguem mobilizar vários setores populares, especialmente nas grandes cidades, afetados e atingidos quotidianamente pela insegurança, o medo, a violência direta (assaltos, furtos, assassinatos) e o controlo de territórios pela economia política capitalista do crime (CV, PCC, etc.).
Por outro lado, eles sabem (inconscientemente ou não) que a “esquerda” que capitulou ao neoliberalismo e à austeridade não tem “solução” para a questão de segurança pública – basta examinar a letalidade policial em governos estaduais ditos progressistas –, porque para atenuar essa expressão da questão social, repito atenuar, seria necessário um robusto investimento público em habitação, saneamento básico, escola, saúde, assistência social e uma multiplicidade de políticas sociais, mas que o Novo Arcabouço Fiscal de Lula-Haddad não permite – o gasto financeiro do Estado permanece intocável.
A dimensão mais perigosa dessa contraofensiva do bolsonarismo é que ela pretende importar, na forma de lei e retórica política, a gramática ideológica trumpista dos “narcoterroristas”, para legitimar os assassinatos indiscriminados que o Ministério da Guerra dos EUA tem realizado no Pacífico – basta colocar a etiqueta de que são traficantes-terroristas. A família Bolsonaro já encetou a cantilena de que Trump poderia atacar barcos no Brasil, abrindo um precedente que poderá legitimar um ataque americano ao país, em nome do combate aos “narcoterroristas”, assim como o governador do RJ também contactou o governo Trump para que este reconheça o CV como “grupo terrorista”.
Nota final. Suspeito de que o genocídio em Gaza tenha aberto um processo histórico em que a dessensibilização social é de tal ordem que “já não precisamos de campos escondidos para praticar genocídio [e chacina], basta a normalização” e a interiorização desse novo-velho modo de vida. Um dos sinais de que a historiografia nos ajuda a compreender no processo de fascistização é que a violência estrutural passa a ser visível e se torna uma estética política. Há muitas lições políticas para retirarmos tanto de Gaza como do Rio de Janeiro, se quisermos um futuro menos sombrio.