sábado, 9 de agosto de 2025

O fim das guerras

A concepção dialética de história tem como um de seus elementos centrais a categoria da contradição, entendida como a força motriz responsável pela jornada da civilização. Ela envolve ideias, valores e circunstâncias coletivas opostas causadoras de transformações sociais, políticas e econômicas. Sua expressão concreta é o antagonismo, o qual diz respeito à cizânia, ao conflito direto entre forças sociais assentadas em ideologias alternativas, ao choque entre grupos que possuem interesses divergentes. Confrontos entre classes, protestos, revoltas e guerras se mostram como exemplos típicos.

Em relação às guerras, sabe-se que, ao longo do tempo, elas se manifestaram de formas distintas. Na Antiguidade, reis e imperadores comandavam tropas compostas por soldados profissionais, mercenários contratados e grupos de civis. Na Idade Média, os cavaleiros – guerreiros montados, seguidores de um código de ética – apareciam como os grandes protagonistas, seguidos por fileiras de soldados a pé, mercenários e agrupamentos de camponeses. Na Modernidade, as forças armadas nacionais emergiram como os principais atores das hostilidades extensivas, travadas em inúmeras batalhas e campanhas. Já no período contemporâneo, os conflitos envolvem Estados, governos, sociedades, grupos paramilitares, exércitos privados, insurgentes e milicianos.

Um conjunto de fatores tem sido responsável pelo surgimento das guerras. Dentre eles podem ser citados a disputa pelo poder, isto é, grupos que almejam o controle do Estado ou grandes potências que visam obter a liderança de uma região ou do mundo; o interesse econômico que agrega a fruição de bens, riquezas, recursos estratégicos, a obtenção de territórios, o domínio de mercados e a aniquilação de competidores rivais; a imposição ideológica muitas vezes causadora da exterminação cultural de um grupo ou povo e as rivalidades étnicas e religiosas que podem provocar o extermínio de conjuntos populacionais.

É do conhecimento geral que as guerras têm permeado a história humana desde épocas remotas até os dias que correm. A lista delas aponta que há mais de 2.500 anos antes de Cristo até a presente data ocorreram muitas dezenas de conflagrações, além de múltiplas outras que continuam em andamento na atualidade. Dentre as mesmas emergiram as de curta duração como a das Malvinas entre Reino Unido e Argentina que durou dez semanas, as de média duração como a da Coreia do Norte contra a do Sul que se estendeu por quatro anos e as de longa duração como a dos Cem Anos entre França e Inglaterra. Apareceram também as que mais provocaram mortes tais como a Segunda Guerra Mundial com mais de setenta milhões, a dos Três Reinos na China com aproximadamente 36 milhões e a Sino-Japonesa com vinte milhões de falecidos.

Além da extensão e da letalidade, existem outros critérios classificatórios, como o desenvolvimento da conflagração, a intensidade do confronto, a abrangência do conflito, as causas do embate e as armas estratégicas utilizadas na contenda. Uma classificação amplamente aceita e utilizada é aquela baseada no critério da sucessividade, composta por cinco categorias: primeira, segunda, terceira, quarta e quinta gerações. Observa-se que as guerras de segunda e terceira gerações podem ser consideradas modernas, enquanto as de quarta e quinta são vistas como pós-modernas, segundo estudiosos do tema.


Entretanto, qualquer uma dessa guerras acarreta outros efeitos sociais negativos afora o número de óbitos, os quais tendem a perdurar por muito tempo e comprometer diversas gerações. Podem ser mencionados o deslocamento de contingentes populacionais, a fragmentação de comunidades, o aumento da violência e da criminalidade, a destruição de infraestrutura essencial, o exacerbamento da pobreza e da desigualdade social, o comprometimento educacional do povo, a violação de direitos humanos e a estigmatização e discriminação de grupos envolvidos. Agregue-se a este rol os elevadíssimos gastos financeiros das contendas. Apenas para ilustrar, estima-se que a reconstrução da Ucrânia após a conflagração com a Rússia deverá custar aproximadamente 1 trilhão de dólares.

Por sua vez, muitos indivíduos poderão ser afetados pelo denominado transtorno de estresse pós-traumático que atinge cerca de 20% do conjunto de pessoas que testemunharam ou vivenciaram um evento chocante e provocador de ferimentos e ameaças de morte. De um lado tem-se os veteranos de guerra, que sofrem com sonhos angustiantes, sentimento de culpa, dificuldades de concentração e surtos de irritabilidade. Do outro tem-se o impacto na saúde mental da população, haja vista que uma grande proporção de indivíduos desenvolve vários tipos de comportamentos que atrapalham seus atos diários tais como depressão, ansiedade e insônia.

Apesar dessas nefandas consequências deve ser lembrado que as guerras proporcionam repudiáveis vantagens ao desenvolvimento econômico. Além das obras de restauro, aparecem o estímulo à indústria de equipamentos militares e de armas que lucrou 12 bilhões de euros em 2022, a inovação tecnológica, os contratos governamentais com empresas privadas envolvedores de somas elevadas, a obtenção do controle de recursos naturais valiosos, a mobilização da força de trabalho com a redistribuição de empregos e recursos humanos e o impulso ao consumo e à produção interna devido ao possível incremento do nacionalismo.

Parece indubitável que a grande maioria das pessoas deve ser favorável à proposta do término das guerras por causa dos efeitos perversos que exibem. Entrementes, há muita gente visceralmente contra às mesmas que considera utópica a possibilidade de eliminá-las da vida em sociedade. Acreditam que é uma suposição imaginária, de natureza irrealizável e de acordo com a concepção original de utopia, isto é, a descrição de uma sociedade quimérica possuidora de peculiaridades altamente almejáveis, quase perfeita para a convivência entre pessoas, onde ocorre o desfrute da liberdade individual com respeito aos direitos dos outros, a aceitação e a valorização da diversidade e da inclusão, o império da justiça social garantidor dos recursos e serviços básicos e o predomínio da harmonia social, ou seja, o respeito, a empatia e a colaboração entre todos os membros da coletividade.

Existem outros motivos da descrença. A força do realismo pragmático induz os indivíduos focarem seus empenhos em soluções práticas e imediatas. O medo às mudanças de relevo tende a causar resistências. Aparece desconfiança aos ideais quiméricos se advindos de uma possível associação com regimes políticos totalitários. A formulação das utopias por grupos sociais específicos inclina-se a fortalecer a crença do não atendimento a todos os segmentos da sociedade. As questões utópicas podem parecer muito distantes dos problemas enfrentados no presente. A multiplicidade de utopias que falharam nas tentativas de implementação resulta em desilusão e ceticismo.

Esquecem, entretanto, que ideias utópicas podem vir a se materializar haja vista que várias delas já se concretizaram. A história registra que algumas comunidades conseguiram se estabelecer e funcionar a contento com base em valores específicos assumidos pelos seus integrantes tais como os Quakers, os Shakers e os Amish. Países escandinavos como Suécia, Noruega e Dinamarca possuem sistemas de bem-estar social robustos, altos níveis de igualdade, acesso universal à saúde e educação e proeminente qualidade de vida. Propostas como as cidades-jardim idealizadas por Ebenezer Howard no século passado, destinadas à vivência harmônica entre pessoas e natureza, influenciaram o planejamento urbano em vários recantos do planeta, promovendo a integração entre áreas rurais e urbanas, incremento de espaços verdes e aparecimento de comunidades sustentáveis. A denominada sociedade digital oferecedora de tecnologia para promover a colaboração e a inclusão está se estabelecendo de forma célere com o advento de plataformas de coadjuvação, redes sociais e iniciativas de código aberto.

É importante realçar que estas concepções não se transformaram em realidade de maneira rápida. E só se tornaram viáveis porque foram mantidas no decorrer do tempo, permaneceram vivas, se conservaram em estado de potência, persistiram acalentadas. Infere-se, portanto, que a criação e o cultivo de ideias utópicas, por si mesmas, são fundamentais para o possível advento de modificações na vida em sociedade em momentos oportunos.

Ademais, elas são dotadas de um significativo poder para instigar críticas, inspirar ações e mobilizar as pessoas com base em visões do futuro. Possuem então um elevado valor político. De fato, as abstrações imaginosas funcionam como uma fonte de esperança, motivação e incentivo às pugnas relativas a mudanças na sociedade; ajudam a feitura de questionamentos a determinadas circunstâncias evidenciando falhas e injustiças; estimulam o debate sobre valores e ética na vida comunitária; auxiliam na construção de narrativas voltadas para a construção de políticas sustentáveis e inclusivas; tendem a enriquecer o discurso político pela abertura de espaço à pluralidade de ideias.

Este valor político já foi devidamente testado. Veja-se o caso do Manifesto Comunista, de 1848, escrito por Marx e Engels. Ele inspirou uma série de revoluções na Europa conhecida como a Primavera dos Povos, exigente de direitos democráticos e reformas sociais. Levou os bolcheviques liderados por Lenin a derrubarem o governo da época e estabelecerem o regime comunista. Incitou movimentos trabalhistas nos séculos XIX e XX em várias partes do continente europeu e da América do Norte promovendo a luta por direitos trabalhistas e melhores condições de vida. Inspirou movimentos sociais e revoluções na América Latina, tal como a cubana liderada por Castro e Guevara. Influenciou países africanos e asiáticos na luta contra o colonialismo, especialmente em Angola e Vietnã.

Outras proposituras utópicas contribuíram para a ocorrência de mudanças sociais. Os instauradores da Comuna de Paris em 1871 colocaram em prática o recurso da autogestão e o respeito aos direitos dos trabalhadores os quais influenciaram movimentos socialistas e comunistas em várias partes do mundo. O socialismo de Fourier assentado nos falanstérios, coletividades autossuficientes promotoras da igualdade e harmonia social, infundiram diversas experiências comunitárias e ações cooperativas no decorrer dos últimos dois séculos. O projeto da Aldeia de Auroville em 1968 na Índia, uma espécie de comunidade internacional, é voltado para a busca da paz entre pessoas de diferentes origens e culturas. A Ecovila de Findhorn na Escócia busca a concretização de uma vida sustentável, a proteção do ambiente e o estabelecimento de relações sociais mais justas e colaborativas. O movimento feminista assentado na igualdade entre homens e mulheres está conseguindo estipular direitos reprodutivos e paridade no local de trabalho.

Dada sua elevada importância, infere-se que o pensamento utópico deve ser devidamente cultivado pelos indivíduos — tanto no âmbito da educação formal quanto da informal —, sendo possível recorrer a diversas estratégias para esse fim. A título de ilustração, podem ser mencionadas: a análise de iniciativas comunitárias bem-sucedidas, a criação de cenários futuros, a capacitação de pessoas para que se sintam aptas a promover mudanças, a formação de redes de apoio entre aqueles que compartilham visões alternativas, a realização de debates sobre questões sociais e políticas, e a reflexão crítica sobre as realidades atuais e as possibilidades de sua transformação.

Exclusive esta sugestão educacional cabe continuar a análise do tema do fim das guerras, relembrando seu caráter utópico conforme anteriormente mencionado. Porém, é preciso ir além do que foi aludido porquanto existem outras razões que alimentam esse caráter. Uma quantidade elevada de pessoas acredita que a violência é uma parte inevitável da natureza humana. O lucro proveniente da indústria bélica pode dificultar a busca por soluções pacíficas. Diferenças culturais, religiosas e ideológicas tendem a tornar desafiadora a construção de uma paz duradoura. A predominância de desigualdades e injustiças atrapalha o estabelecimento da concórdia. Rivalidades e desconfiança persistentes entre países podem perpetuar a ideia da inevitabilidade dos conflitos. A percepção de ameaças globais inclina-se a gerar uma mentalidade de defesa por meio de conflagrações.

Sem dúvida, essa intelecção quimérica, majoritária e profundamente arraigada, configura-se como um dos maiores óbices à consolidação da conciliação e à tentativa de pôr fim às guerras. Entrementes, há numerosas pessoas empenhadas em impedir e encerrar os conflitos, pois acreditam firmemente nessa possibilidade. Destaca-se, nesse contexto, o esforço dos integrantes da ONU voltado à prevenção da eclosão de confrontos bélicos. Vale ressaltar que a organização desempenhou um papel de grande relevância na contenção de certos conflitos, como na mediação da crise dos mísseis de Cuba, em 1962, entre Estados Unidos e União Soviética; na arbitragem entre as Coreias do Norte e do Sul, entre 1950 e 1953; e na atuação diante da delicada situação entre Geórgia e Rússia, em 2008. 

Também atuou de modo eficaz contra o agravamento e a escalada de prélios. Em 1965, facilitou a ocorrência de um cessar-fogo entre a Índia e o Paquistão e outro, em 1973, na guerra do Yom Kipur envolvendo egípcios, sírios e israelenses. Prevenção da escalada de tensões entre Libéria e Serra Leoa na última década do século passado. Estabilização da Libéria em 2003, após anos de guerra civil, por meio de um acordo de paz e realização de eleições democráticas. Acordo de Paz de Ouagadougou, em 2007, durante a guerra civil na Costa do Marfim. Libertação do Kuwait junto ao fim do conflito com o Iraque nos anos de 1990 e 1991. Promoção do processo de paz na guerra civil de El Salvador entre 1980 e 1992.

Pessoas comuns e não apenas os membros da ONU também podem com vislumbre de êxito, atuarem contra, evitarem o exacerbamento e a ascendência das contendas violentas. Essa tarefa tem cabido aos denominados cidadãos ativos ou civicamente engajados. São indivíduos que abandonam a rotina e o conforto da esfera privada, isto é, do trabalho e da família, para exercerem atividades no espaço público, tais como ruas, praças, meios de comunicação e redes sociais, em defesa não só de seus interesses, mas, principalmente, em benefício das coletividades local, nacional e internacional, por meio do trabalho voluntário, atos de boicote, campanhas filantrópicas e muitas outras ações mobilizadoras.

Ressalte-se que a prática da cidadania ativa encontra respaldo em distintas ideologias políticas, mesmo quando divergentes entre si. O liberalismo, embora incline-se fortemente para a democracia representativa, também a contempla no âmbito da democracia direta, por meio de instrumentos como plebiscitos, referendos, projetos de iniciativa popular e o recall de mandatos. O comunitarismo valoriza o trabalho voluntário, as campanhas de sensibilização e as ações filantrópicas em nível local. Já os defensores da democracia radical enfatizam a atuação dos movimentos sociais, voltados à promoção de transformações diversas no interior da sociedade. Por sua vez, os seguidores do marxismo tendem a favorecer a democracia participativa como meio de controle popular sobre os governantes e como estratégia para a instauração do socialismo.

Dentre os recursos disponíveis aos cidadãos ativos destacam-se os movimentos sociais, ou seja, as ações conjuntas sustentadas por grupos organizados da sociedade que pugnam por diversas causas tais como a paridade entre homens e mulheres, a defesa do meio ambiente e o direito à terra. Esses expressivos e longevos movimentos que emergem em resposta a insatisfações e demandas de grupos existentes na coletividade mais ampla podem apresentar uma organização formal ou espontânea, serem dotados de estruturas hierárquicas ou descentralizadas, perdurarem ou se desfazerem no decorrer do tempo. Entretanto, os mesmos se revelam como expedientes poderosos de mudança e de resistência.

Uma enorme quantidade de movimentos sociais já se manifestou no passado e continua ocorrendo no presente em todas as partes do mundo. Na atualidade, existem alguns que se revelam como os mais importantes e persistentes. O Black Lives Matter, nos Estados Unidos que luta contra a violência e o racismo sistêmico enfrentados por pessoas negras tem estimulado protestos em inúmeras nações. O LGBTQIA+ busca direitos iguais e aceitação para indivíduos de todas as orientações sexuais e identidades de gênero. O Fridays For Future, mantêm o foco na pugna das mudanças climáticas. Organizações de povos originários lutam contra a exploração de suas terras e buscam maior reconhecimento e respeito por suas tradições. Grupos antifascistas agem em resposta ao aumento da extrema direita com suas rejeitáveis ideologias.

Muitos movimentos sociais se mostraram exitosos, pois alcançaram os objetivos pretendidos. O favorável aos direitos civis nos Estados Unidos na década de cinquenta do século passado, liderados por Luther King e Rosa Parks, foi contra a segregação racial e culminou na aprovação da Lei dos Direitos Civis e da Lei de Direito ao Voto, que garantiram direitos iguais para todos os cidadãos estadunidenses. A partir do início do século XX, grupos feministas foram conseguindo relevantes conquistas como o direito ao voto, o acesso à educação e ao mercado de trabalho e a diminuição das diferenças salariais com os homens, inclusive em países desfavoráveis às mulheres, como a Arábia Saudita onde elas estão cada vez mais presentes nos setores da educação, saúde, finanças, diplomacia e forças armadas. Agrupamentos combatentes da corrupção no Brasil contribuíram significativamente para a emergência da Operação Lava Jato a qual trouxe à tona escândalos de deperecimento que afetavam a política e a economia do país e a mobilização da sociedade civil bem como a pressão popular resultaram em mudanças na legislação sobre ela.

Especificamente em relação às guerras sabe-se que vários deles apresentaram efetividade. Alguns frearam o possível surgimento delas. A mobilização Anti-Apartheid na África do Sul, assentada na resistência pacífica e na desobediência civil, liderada por Mandela e Tutu ajudaram bastante a acabar com o apartheid sem uma guerra civil em larga escala. As manifestações pacifistas na Europa durante os anos sessenta e setenta do século passado, lapso da guerra fria, contra a proliferação nuclear e a militarização contribuíram muito para evitar um conflito nuclear. O Movimento de Independência da Índia na década de 1940, sob o comando de Gandhi e pautado na bandeira da não-violência contra o colonialismo britânico impediu a emergência de um confronto armado de elevada proporção.

Outros impediram o andamento e favoreceram o desenlace delas. Nos estados Unidos, a oposição à Guerra do Vietnã cresceu significativamente na década de 1960 e início de 1970. Agregados de ativistas, estudantes, veteranos de guerra e cidadãos comuns realizaram protestos em massa, marchas e outras ações em diversas cidades envolvendo milhares de pessoas. A constante divulgação de informações sobre os bombardeios, as mortes de civis e os demais horrores da conflagração contribuiu bastante para a formação de uma opinião pública contrária à intervenção militar. Por sua vez o aumento da pressão levou a uma mudança na postura de políticos e militares que resolveram reduzir o número de soldados em combate e, posteriormente, tomaram a decisão de proclamar seu término.

A Guerra de Kosovo em fins da década de noventa colocou em ação organizações não governamentais e grupos de direitos humanos que mobilizaram a opinião pública mundial. Denunciaram a violação de direitos humanos e a limpeza étnica, as quais foram decisivas na geração de pressões sobre governos e organismos internacionais. Outras manifestações como o apoio humanitário favorável à promoção da paz, a realização de fóruns e conferências buscadores de soluções diplomáticas, as propostas de reconciliação entre as comunidades sérvias e albanesas e as exigências de justiça para as vítimas de crimes de guerra se integraram às anteriores e acorreram o desfecho do conflito.

Outrossim, existem aqueles que caminham de forma paralela em apoio e revigoramento às exteriorizações contra a guerra. As vultosas e persistentes mobilizações benfazejas ao desarmamento merecem ser citadas. O Control Arms Coalition, uma liga global sediada nos Estados Unidos, inclui múltiplas organizações da sociedade civil e trabalha para propiciar o controle de armas em nível internacional. A Ceasfire Campaign, do Reino Unido, busca ativar a opinião pública e influenciar políticas para reduzir a prática da violência com armas visando garantir a segurança comunitária. Precisam ser mencionadas também os favoráveis à paz. Na Síria, grupos de ativistas tentam promover soluções pacíficas e diálogos intercomunitários, buscando evitar uma escalada do conflito e facilitar a reconciliação. A Liga Internacional de Mulheres Pela Paz e liberdade persiste lutando por liberdades políticas, econômicas e sociais, direitos das mulheres, justiça racial e supressão das armas no mundo.

Observe-se que a real possibilidade do encerramento das guerras traz consigo o factível ocaso das forças armadas. A esse respeito vale recordar que há alguns séculos elas começaram a surgir junto com o aparecimento dos estados nacionais com a finalidade essencial de defendê-los pelo uso da violência. Com o passar do tempo e por causa do irrefreável processo de civilização, se sujeitaram e continuam se sujeitando à uma série de mudanças a partir de sua configuração original. No momento estão enfrentando o curso de um salto qualitativo rumo a uma organização agregada, isto é composta por humanos e robôs. Em seguida deverão encarar outro salto qualitativo que as transformarão em uma legião de androides de aparência humana movidos pela inteligência artificial. A manifestação dos confrontos circunscritos aos batalhões de autômatos poderá favorecer o surgimento de uma gigantesca falange de cidadãos ativos firmemente comprometidos com a efetiva e ininterrupta situação de paz em todos os recantos do planeta.

Ademais, cabe acrescentar que este segundo salto qualitativo tende a se revelar como o último momento da guerra cinética tal como vem se manifestando. Veja-se que as operações psicológicas, eletrônicas, cibernéticas e econômicas se encontram em andamento. Entretanto, uma outra forma de conflagração poderá aparecer, qual seja, a realizada no metaverso, isto é, o universo pós-realidade, o ambiente multiusuário perpétuo e persistente que funde o mundo físico com a simulação digital, a convergência das dimensões concreta e virtual. Com efeito, se a tecnologia continuar sua pujante trajetória atual e as pessoas viverem muito tempo de suas vidas no metaverso as pugnas poderão se estender para ele envolvendo as operações mencionadas como um sexto e talvez o derradeiro domínio, pois o primeiro foi a terra, o segundo a água, o terceiro o ar, o quarto o espaço e o quinto o ciberespaço.
Antônio Carlos Will Ludwig

Colapso no futuro

Eles navegam em sua distância intermediária de órbita terrestre baixa, sua visão a meio mastro. Pensam: talvez seja difícil ser humano, e talvez seja esse o problema. Talvez seja difícil fazer a transição entre pensar que seu planeta está seguro no centro de tudo e saber que ele é, na verdade, um planeta de tamanho e massa mais ou menos normais, girando ao redor de uma estrela mediana num sistema solar em que tudo é mediano numa galáxia de tantos outros, incontáveis, e a coisa toda vai explodir ou colapsar.

Samantha Harvey, "Orbital"

O parvo, o pavão e o ocaso da teoria política

Os idiotas vão tomar conta do mundo; não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos
Nelson Rodrigues

Dizem que na Suprema Corte norte-americana, na qual os juízes são vitalícios, existe uma regra pela qual se um membro muito idoso começa a dar sinais de que está perdendo sua capacidade de julgar, cabe ao segundo membro mais velho avisá-lo que é hora de se aposentar. Mesmo no âmbito do senso comum, se alguém comete algum desvario, alguém por perto pode alertá-lo, repreendê-lo ou, de alguma forma, avisá-lo de que sua atitude ou comportamento não é aceitável.

Entretanto, quando o alucinado inadequado é um Presidente da República parece que não existe esta prática saudável. Qualquer um em um posto de saúde, diante de alguém que entrasse tentando impedir a aplicação de uma vacina, ou pregando os poderes salvadores de um remédio inadequado, o desmentiria de pronto e, se fosse um ser agressivo e claramente parvo, poderia, inclusive chamar um segurança. No entanto, quando um certo presidente miliciano fez exatamente isso, insistentemente, no quadro de uma pandemia mortal, apesar das reações de gente da ciência, do jornalismo mais ou menos sério e do bom senso, parecia que, pelo cargo, devia-se à figura maligna uma espécie de respeito ao direito de dizer e fazer besteiras.

O atual presidente dos EUA especializou-se em dizer e fazer sandices. Vestiu-se com as vestes da rainha louca de Alice e começou a taxar a tudo e a todos, sem disfarçar a falta total de sentido das medidas, jogando taxas de 50%, 100%, baixando para 10% ao sabor do acaso. Indagado por uma repórter sobre qual a fórmula usada para chegar a esta ou aquela taxa, o presidente pavão começa por dizer que não há uma fórmula matemática, mas uma medida baseada no bom senso. O mesmo bom senso que taxou uma ilha onde só tem pinguins, grandes economias aliadas, países pobres, como ameça a países beligerantes ou retalização política a regimes considerados hostis.

Um reporter norte-americano nos explicou que a base para a tal teoria de que o problema dos EUA seria o déficit nas transações comerciais com o mundo viria de um senhor chamado Peter Navarro, encontrado pelo coordenador da campanha de Trump numa busca sobre autores de teoria econômica no site da Amazon. Diante da precária sustentação dos argumentos principais da teoria do déficit pelo autor, surge com frequência a citação a um certo Ron Vera, o qual, como se veio a descobrir, não existe. Trata-se apenas de um alter ego de Peter Navarro, que ele diz ter criado simplesmente como “um recurso estilistico”.

Vejam só, uma professora que corrigisse um trabalho escolar que lançasse mão de um tal recurso criativo teria riscado a folha com caneta vermelha e alertado o estudante de que aquilo não se deve fazer. Em qualquer uma de nossas tão atacadas universidades, qualquer orientador teria advertido o senhor Peter Navarro que isto não seria aceito, e caso chagasse à banca esse senhor teria sido reprovado. Do mesmo modo, qualquer editora séria que fosse informada de tal recurso criativo teria recusado a publicação. No entando, não apenas esse farsante embasa uma teoria sem fundamento que sutenta uma política insana, como se tornou Conselheiro Senior para o Comércio e Manufatura da maior economia do mundo.

Diante desse quadro, temos que rever alguns conceitos caros à teoria política. Devemos acrescentar à definição weberiana de Estado, como monopólio do uso legítimo da força em um determinado território, que seu mandatário tem o monopólio do uso legitimo de sandices. John Locke, Montesquieu, Rousseau, cada um ao seu modo, na origem do mundo burguês em luta contra o Absolutismo, buscavam maneiras pelas quais o poder do Estado não se impusesse aos indivíduos e à sociedade, fosse pelas leis, pela divisão de poderes, por um sistema de pesos e contrapesos, ou ainda pela mítica “soberania popular”. Bom, parece que na fase burlesca da decadência do mundo burguês nenhuma engenharia política consegue evitar que um desqualificado aventureiro assuma o comando de uma nação. Não estamos falando de casos isolados: Trump nos EUA; Bozo no Brasil; um comediante na Ucrânia; o burlesco Berlusconi na Itália; um Milei na Argentina; Erdogan na Turquia.

Vejam, não se trata apenas da constatação folclórica de que o bobo da corte governa; acredito mesmo que as vestes do palhaço sirvam mais à farsa do Estado do que os ternos sérios dos burocratas. Não tem nada de engraçado nesses miseráveis, eles são a expressão pura do mal, da perversidade, da violência e da ignorância. Governam nações e seus arsenais atômicos, produzem guerras e milhares de mortes, praticam genocídios, riem na cara da pobreza, da miséria, da fome, enquanto destroem o planeta. A plateia aplaude e pede bis.

O mais insano é que a sociedade e seus membros civilizados, que reconhecem o caráter bizarro dos governantes, aceitam como normal e legítimo o uso do cargo por um insano perverso. Trata-se os parvos e pavões em posse de mandato com respeito, suas medidas são discutidas como se nelas houvesse alguma lógica, negocia-se com eles, buscando a adequação às chamadas novas condições do mercado como se nada de anormal estivesse acontecendo. Alice assustada segura sua xícara de chá vazia, entre a lebre louca e o chapeleiro maluco, e se propõe a negociar.

Maquiavel inaugurou a teoria política moderna afirmando que não seria possível compreender a moral do príncipe como a moral do cidadão — deste último se espera que não minta ou mate, mas o príncipe não só pode como deve saber usar da mentira e da violência a serviço da preservação do poder. Aqui, também, devemos atualizar as bases da teoria política. Aos mandatários do poder político do Estado são permitidos sandices e desvarios que não se espera ver no povo e nos cidadãos.

Parece que a sociedade capitalista em sua fase terminal e decadente vai encontrando sua forma política adequada.

Um museu de grandes novidades: Onda da extrema-direita continua

A ascensão da extrema-direita no Brasil é um fenômeno que se insere em um contexto global de polarização política, evocando paralelos históricos e preocupações quanto à estabilidade democrática. A extrema-direita no Brasil supera o carisma individual de sua maior liderança, Jair Bolsonaro, mesmo com sua inelegibilidade e várias investigações criminais, as ideias e valores que mobilizou permanecem vivos. A atual transição do campo conservador está esmagando o que havia da direita centrista, radicalizando esses grupos e jogando-os para o espectro mais agudo do reacionarismo. Essa onda do chamado neofascismo fez emergir novas lideranças e novas formas de abordagem política, ampliando sua base de apoio e garantindo sua continuidade por ainda bastante tempo.

O enfraquecimento de Bolsonaro não implica o fim desse novo ciclo da extrema-direita. A figura do ex-presidente, antes central, hoje convive com um movimento fragmentado que se reorganiza em torno de agendas comuns, surfando sempre na insatisfação popular difusa, que antes era canalizada pela figura do ex-presidente, agora se pulveriza, permitindo a emergência de líderes regionais e setoriais. Nomes como Tarcísio de Freitas, Ronaldo Caiado e Nikolas Ferreira ilustram a diversidade dentro da direita.


Tarcísio, com um discurso mais tecnocrático, tenta angariar credibilidade institucional e midiática; Caiado investe em pautas conservadoras ligadas principalmente ao agronegócio; e Nikolas, que tenta encarnar um moralismo radical, difundido em redes sociais, tornando-se popular em parcela importante da juventude. Essas e outras lideranças ampliam a gama de apelos ideológicos, mantendo coeso o núcleo conservador.

As redes sociais continuam sendo o principal veículo de mobilização da extrema-direita no país. Narrativas simplistas e emocionais, reforçadas por algoritmos e notícias sabidamente falsas, criam bolhas ideológicas antagônicas ao debate racional e avessas aos fatos reais. Segundo dados do Relatório de Digital News Report (2023), 62% dos brasileiros acessam notícias principalmente por redes sociais, o que facilita a disseminação de desinformação, essa dinâmica amplia a polarização e dificulta o diálogo, permitindo que a extrema-direita se fortaleça mesmo sem um líder centralizado.

Os traços culturais dos brasileiros, como autoritarismo, nacionalismo e conservadorismo, são alicerces históricos sobre os quais a extrema-direita constrói seu discurso e unifica sua base. Esses valores, consolidados ao longo de séculos, preparam o terreno para a aceitação de soluções políticas simplistas e autoritárias, presente desde a colonização e reforçado pela ditadura militar, o autoritarismo alimenta a crença de que lideranças fortes e centralizadoras enfrentam melhor as crises. O nacionalismo, por sua vez, cria um senso de pertencimento e um furor ufanista exacerbado, contrapondo os destinos da nação aos supostos inimigos da pátria, sejam esses internos ou externos.

O discurso autoritário encontra legitimação em uma memória coletiva falsa que aponta para governos antidemocráticos como solução de todos os problemas. A busca por respostas imediatas a problemas complexos, somada a um crescente moralismo conservador, revitalizado e turbinado principalmente no centro das igrejas evangélicas brasileiras, que valorizam um suposto modelo de família tradicional e combatem pautas progressistas, reforça a ideia de uma ordem social natural, respaldando a manutenção do abismo social. Outro aspecto importante é o discurso que justifica ações anti-institucionais em nome de um pragmatismo supostamente necessário, essa lógica corrói o respeito às instituições e legitima comportamentos contrários ao Estado Democrático de Direito. Esse simplismo político faz ressoar soluções autoritárias na sociedade brasileira, predisposta historicamente a aceitar retóricas salvacionistas.

A força da extrema-direita brasileira não está isolada, integra um cenário mundial de fragmentação política, instabilidade econômica e desconfiança nas elites tradicionais, nesse sentido, o passado oferece ensinamentos valiosos. A ascensão do fascismo na Europa dos anos 1930 ocorreu em meio a crises econômicas, descontentamento popular, uso intenso de propaganda política, supressão de liberdades civis e perseguição a minorias. Tais condições, resultantes em parte do colapso econômico pós-1929, ecoam na atual conjuntura mundial. A retórica do inimigo interno, o apelo à segurança e a hostilidade às diferenças encontram ecos no presente. O alerta histórico torna-se, assim, ainda mais urgente.

O encorajamento à violência, o desrespeito às decisões judiciais e o estímulo à polarização extrema tencionam a democracia brasileira e mundial. Assim como no passado, discursos autoritários podem resultar na erosão de liberdades civis e na fragilização das instituições, criando um ambiente propício ao surgimento de regimes autoritários. Como uma das maiores democracias do mundo, o Brasil exerce influência além de suas fronteiras, a forma como o país lida com o avanço da extrema-direita interessa à comunidade internacional, seja para reforçar valores democráticos, seja para evitar o contágio autoritário.

Enquanto a extrema-direita se consolida, a esquerda enfrenta dificuldades. A falta de renovação de lideranças, a incapacidade de dialogar com demandas concretas como segurança e emprego, e a ausência de inclusão mais ampla de temas emergentes enfraquecem sua capacidade de conter a maré ultraconservadora. Mesmo com a relevância da figura política do presidente Lula, a esquerda carece de novas lideranças capazes de dialogar com as periferias, interior do país, além dos jovens e os trabalhadores precarizados. A sucessão não pode depender de uma única figura carismática. Para se contrapor à extrema-direita, a esquerda precisa articular suas pautas e sua comunicação com soluções para a vida cotidiana. Um projeto que una igualdade, segurança, oportunidades e respeito à diversidade pode recuperar apoio popular, tornando-se um antídoto contra o autoritarismo.

Além dos partidos, outras esferas da sociedade precisam se mobilizar. Mídias independentes, ONGs, movimentos sociais, universidades, igrejas progressistas, sindicatos e instituições como o Judiciário e o Ministério Público, além dos democratas em geral, sejam esses centristas ou os que ainda restam na direita, todos desempenham um papel-chave no fortalecimento da democracia. A tarefa fundamental será fiscalizar o poder, promover debates qualificados, garantir direitos fundamentais e construir pontes entre atores diversos, esses setores formam uma barreira contra o avanço do autoritarismo.

O Brasil encontra-se em um momento decisivo, a ascensão da extrema-direita, alimentada por valores culturais enraizados e pela tensão global, ameaça a democracia. O paralelo com os anos 30 do século passado destaca o perigo real de retrocessos institucionais e a necessidade de uma mobilização ampla e contínua para além da esquerda. Aprendendo bastante com os erros dos estadunidenses, que trouxeram de volta ao comando do seu país, um autocrata com viés fascista, que ao retornar ao poder veio ainda mais truculento e avalizado abertamente pela plutocracia local, esperemos que o Brasil fique distante desse exemplo.

O fortalecimento das instituições, o engajamento da sociedade civil, a ação de lideranças comprometidas com o diálogo e a manutenção de uma frente ampla nos diversos setores da sociedade são fundamentais para evitar a deterioração democrática. Cabe ao país decidir se abraçará soluções autoritárias e simplistas ou se, ao contrário, reforçará os alicerces de uma democracia inclusiva, plural e resiliente. Essa questão começará a ser respondida no próximo pleito eleitoral nacional.

O brasileiro de fabricação ideológica

Não basta nascer no Brasil para ser brasileiro. Aos poucos, vamos sendo outra coisa que ainda não sabemos o que exatamente é. Cada vez mais, muitos nascidos no Brasil gostariam de ter nascido em outro país. As demonstrações nesse sentido avolumam-se. Agora mesmo, nas manifestações direitistas e antipatrióticas na avenida Paulista, em favor de réus de crimes políticos contra o Brasil, muita gente abraçada à bandeira americana, a aplaudir Trump, o presidente americano que nos vê como fundo de seu quintal.

Já não somos um país verde e amarelo, apenas amarelo, com a camisa da seleção brasileira, bolsonarizada. A esfera azul é hoje uma bola de futebol. Torcemos pelo time, mas não pela pátria. Um traidor da pátria anexou-se ao quintal da Casa Branca e conspira contra a economia brasileira e contra as instituições brasileiras.


O condomínio familiar de poder que se instalou mais no Palácio da Alvorada do que no Palácio do Planalto, em governo anterior, que mais morou e mais desgovernou do que outra coisa, conspira contra o que somos. Contra aquilo que nos tornamos à custa de privações e de determinação, de vontade de vencer. O capitalismo brasileiro do nacional-desenvolvimentismo derrubado pelo golpe de Estado de 1964.

Desde que, em 1942, o imaginativo Walt Disney, depois de uma vinda ao Brasil, inventou o brasileiro ideológico, tendo como parceiro o Pato Donald, o depressivo personagem da família do Tio Patinhas, um brasileiro criado na prancheta começou a nascer. Para nos anexar nos marcos ideológicos da geopolítica que estava sendo gestada durante a Segunda Guerra Mundial, a de nova concepção de colônia e de sujeição política.

Dei-me conta disso nestes dias difíceis. Interesso-me há anos pelo familismo anômalo do milionário infértil da mítica moedinha número 1, quando publiquei num jornal de Porto Alegre “Tio Patinhas no centro do universo”. Um texto para compreender o capitalismo inacabado e inacabável da periferia do planeta. Escrito numa tarde chuvosa de sábado, correu mundo.

Trata de seres imaginários. Todos ligados por parentesco suposto e não real, seres castrados. Vinculam-se como tios e primos. Nenhum é pai ou mãe. Uma família de agregados pelo afã de dinheiro, que nunca logram obtê-lo. Num mundo em que só o trabalho cria, não trabalham. Fazem de conta.

De certo modo, nasce um modelo da nova classe média, a do consumo, já longe da classe trabalhadora que lutou pela ascensão social como justa recompensa pelo trabalho. Aquela concebida por um dos grandes empresários brasileiros, industrial, agrícola e financeiro, Antônio da Silva Prado, um pai da abolição da escravatura em 1888.

Nesse mesmo ano, no Senado do Império, fez um discurso emblemático em favor do trabalho livre. No lugar do negro caçado a laço e escravizado, o do tráfico negreiro, o imigrante do trabalho livre disposto a vir para o Brasil pela possibilidade de se tornar proprietário de sua própria terra e dono de seu próprio trabalho.

E explicava o imigrante: “Se o colono for morigerado, sóbrio e laborioso, fará pecúlio e se tornará dono de terra”.

Nessa síntese, a ética do trabalho do que deveria ser o fundamento de um capitalismo brasileiro. Não há capitalismo sem técnicas de inclusão social de quem trabalha. Não há capitalismo com exclusão social e desemprego.

John Maynard Keynes, professor em Cambridge, teorizou sobre isso em sua teoria do emprego e renda que daria origem ao Estado do bem-estar social, integrativo.

Vivi e testemunhei alguns dos benefícios dessa concepção de desenvolvimento econômico com desenvolvimento social quando fui pesquisador visitante e professor da Universidade de Cambridge. Margaret Thatcher tentou acabar com isso. A nova direita estava nascendo. Chegaria aqui, a de um capitalismo do qualquer um que só quer ganhar e não quer distribuir.

O neoliberalismo econômico criou o fascismo bolsonarista e deu-lhe a cara da dupla ideológica Zé Carioca e Pato Donald. O pato da dupla é um pato mesmo, um parvo, e o carioca é um malandro que ensina o tolo Donald a tomar cachaça.

É o que querem nos tornar como gente de segunda classe da era Trump. Bajuladores, brasileiros de faz de conta e pseudo-americanos de coisa nenhuma, tirados de casa repentinamente e despachados de volta para o Brasil todas as semanas, em aviões lotados. Brasileiros fora do lugar, sobras demográficas. Excesso de contingente.

O Estado americano não gosta de nós. Fomos amansados. Gostamos da subalternidade. Temos um lambe-botas nos fundos da Casa Branca.

Não é estranho, portanto, que haja quem vá à rua para aplaudir e bajular atos antibrasileiros de Trump contra nossa economia e nossas instituições democráticas.

Ascensão e queda dos Estados Unidos

Arnold Toynbee, em “A Study of History”, diz que as civilizações surgem através das “Elites Criativas”, que formatam o projeto de uma nação, que se dissolve à frente quando perdem a capacidade de adaptação às novas circunstâncias que se vão apresentando.

Roma nasce em 753 aC, segundo os valores da “virtude” romana, da força, da dignidade, da austeridade, e da perseverança. A República é constituída em 509 aC, com o Império a partir de 27 aC. Roma desvirtua-se na sucessão dos Césares. A partir de 180 dC, Roma se deteriora, caindo em 476 dC. Edward Gibbons, em “The History of the Decline and Fall of the Roman Empire”, diz que a pergunta não é por que Roma caiu, mas por que demorou tanto a cair. Caiu pelas Guerras Civis e a deterioração das finanças para se manter as províncias. Demorou a cair porque não havia um Império suficientemente grande em suas proximidades que o confrontasse. O Cristianismo substituiu a cultura romana, ajudando a sua dissolução. A Europa entra na Idade Média, enquanto o Império Romano do Oriente em Constantinopla, a Pérsia e a China prosperam.


Os Estados Unidos nasceram da Revolução Americana, de 1775 a 1783. Os “Pais da Nação” fundaram o país dentro dos princípios das teorias liberais de Adam Smith e outros, da liberdade que gera o consenso, e do mercado que gera a prosperidade. A partir de 1880, os Estados Unidos tornaram-se superavitários na balança de pagamentos, predominantemente negativa a partir de 2010. Durante a Segunda Guerra Mundial, o PIB dos Estados Unidos aumentou +69%; Inglaterra +15%; França -49%; Alemanha -19%; Itália -39; Japão -22%. Em 1960, o PIB dos Estados Unidos representava 40% do PIB mundial, caindo para 26% em 2024; China hoje com 17%; União Europeia 17%; países do BRICS somando 29%. Adicionalmente, os dados do World Inequality Report mostram que as classes médias têm sido comprimidas desde 1980, possibilitando o surgimento de líderes radicais de direita, na deterioração social, e no arrobo das decisões. Hoje, os Estados Unidos vão contra os fundamentos da nação, da liberdade política e da economia de mercado. que fizeram o país crescer. Decai a grande nação.

O declínio das civilizações e grandes nações é geralmente acompanhado por guerras. Como diz Maquiavel, “o homem chora mais a perda de seu patrimônio do que a morte de seu pai”. No caso do “Império Britânico”, a Inglaterra perde importantes colônias a partir de 1850; Canadá em 1867; Austrália em 1901; Nova Zelândia em 1907; África do Sul em 1910. Devido ao crescimento e expansão da Alemanha e do Império Austro-Húngaro no início dos anos de 1900, a Inglaterra e a França impõem tarifas sobre os seus produtos. A Primeira Guerra Mundial eclode em 1914 em Sarajevo. Em 1917, o Tratado de Versailles impõe multas à Alemanha que chegam a 80% de seu PIB, com a emissão de papel moeda pela Alemanha em 1922 e geração da hiperinflação. Segue-se o crescimento do Partido Nazista e a Segunda Guerra Mundial.

O problema é que hoje temos a bomba atômica.

sexta-feira, 8 de agosto de 2025

Pensamento do Dia

 


Quanta água o ChatGPT 'bebe' para responder sua pergunta?

As fotos que você posta nas redes, o filme que vê no streaming, a aposta nos sites de bets, tudo isso é processado em um data center, um centro de armazenamento de dados que funciona como uma espécie de "cérebro" da internet.

E que é também um ávido consumidor de energia.

"Eles funcionam como um computador gigante de alta performance", ilustra Juliano Covas, gerente comercial e de engenharia para o segmento de data centers da América Latina da Corning Optical Communications.

Com corredores cheios de armários de ferros com pilhas de servidores, os data centers demandam muita eletricidade, usada tanto pelas máquinas em si quanto pelo sistema de refrigeração que funciona sem parar para impedir que elas superaqueçam.

Com o aumento da conectividade, essas estruturas se multiplicaram no Brasil nos últimos anos.

Hoje há 162 data centers espalhados pelo país, conforme estimativas da Associação Brasileira de Data Centers (não há dados públicos oficiais), com capacidade instalada em torno de 750MW e 800MW.


Algo dessa magnitude, para efeito de comparação, é semelhante ao consumo de energia de uma cidade de cerca de dois milhões de habitantes, conforme estimativas feitas por técnicos da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) a pedido da reportagem.

Com a popularização do uso da inteligência artificial, contudo, a expansão prevista para a próxima década, deve multiplicar esse número em mais de 20 vezes.

Nessa escala, o segmento de data centers pode se tornar estratégico — foi inclusive mencionado nesta semana pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, como setor que pode ser explorado em conjunto com os Estados Unidos em meio à negociação do tarifaço americano.

Haddad justificou dizendo que o Brasil possui grande oferta de energia pra manter esses centros de processamento de dados funcionando.

De acordo com os números do Ministério de Minas e Energia, a demanda por energia por data centers no Brasil deve chegar a 17.716 MW em 2038, estimativa feita com base nos pedidos de acesso à rede de energia do país enviados pelas empresas à pasta.

Um desses pedidos, que recebeu recentemente o aval do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), é um megaempreendimento de 300 MW, com investimento previsto de R$ 50 bilhões, que deve ser erguido na região do porto do Pecém, no Ceará, para abrigar um data center que estaria gerando interesse em grandes empresas de tecnologia como a chinesa ByteDance, dona do TikTok, conforme noticiou a agência Reuters.

À reportagem, o TikTok afirmou que no momento não confirma nem nega a informação.

A Casa dos Ventos, responsável pelo projeto, disse que o início da construção está previsto para o segundo semestre de 2025 e que a expectativa é que o complexo entre em operação em 2027.

Usando a mesma analogia do consumo de eletricidade por habitante (que não é uma comparação perfeita, mas serve para dar dimensão da magnitude), a demanda por energia projetada para os data centers em 2038 equivaleria à de uma cidade de 43 milhões de habitantes, quase quatro vezes a população da cidade de São Paulo (11,5 milhões, conforme o Censo 2022).

Mas o que isso significa — qual vai ser o impacto desse crescimento?


Qualquer aumento na produção de energia elétrica, ainda que renovável, gera algum tipo de impacto ambiental, que pode inclusive afetar negativamente as populações que vivem próximo às usinas (leia mais abaixo).

No caso dos data centers, os especialistas ouvidos pela BBC News Brasil apontaram que hoje é difícil fazer essa estimativa com precisão, especialmente com a disseminação da inteligência artificial.

Data centers que têm a capacidade de treinar, implementar e disponibilizar aplicações e serviços de IA são equipados com circuitos eletrônicos com chips de alto desempenho (como o H100 da Nvidia) que consomem muito mais energia do que os tradicionais.

O quanto mais, contudo, hoje ainda é difícil dizer. Cientistas que têm se dedicado a tentar estimar o consumo de energia — e o impacto ambiental como um todo — afirmam que a quantidade de informações compartilhadas pelas empresas de tecnologia e operadores de data centers não é suficiente para fazer um cálculo acurado.

Não se sabe, por exemplo, em que capacidade os data centers operam — se consomem algo perto de toda a energia que a infraestrutura dispõe ou muito menos que isso.

Outro dado considerado importante que não é compartilhado pelas empresas é qual percentual dos servidores é usado para treinar os modelos e para a operação de fato dos chatbots, a chamada "inferência", processo usado para gerar o texto de resposta.

Ou ainda quais data centers são usados para esse tipo de serviço.

"Os data centers são caixas pretas", diz Alex de Vries, fundador do Digiconomist, projeto que há uma década estuda as consequências não-intencionais das tendências digitais.

"Nós estamos conversando por Zoom agora e eu não faço ideia em que parte do mundo estão os servidores que estão processando a chamada", ilustra o economista, que mora nos arredores de Amsterdam e pesquisa o consumo de energia e o impacto ambiental da IA como parte do doutorado na Vrije Universiteit Amsterdam.

De Vries tenta calcular o uso de eletricidade a partir dos chips da maior fornecedora hoje para a indústria de IA, a Taiwan Semiconductor Manufacturing Company (TSMC), levando em consideração o volume de chips vendidos pela empresa e fazendo suposições sobre a capacidade utilizada dos data centers onde eles operam, a eficiência do sistema de refrigeração e os demais parâmetros para os quais não há informações divulgadas.

"É um desvio enorme para se chegar a algo que deveria ser muito simples de obter", ele comenta.

"As empresas sabem exatamente quanto de energia seus sistemas de IA estão usando, eles apenas optam por não publicar essa informação", completa.

Com o cálculo, ele chega em uma estimativa do consumo global de energia pela inteligência artificial, que no ano passado se comparava a toda a eletricidade usada na Holanda.

"Em 2025 esse número deve dobrar, a inteligência artificial vai consumir duas vezes mais energia do que um país como a Holanda", afirma De Vries.

O economista tem advogado por mais transparência por parte das empresas de tecnologia, argumentando que hoje é difícil confrontar os custos e benefícios da inteligência artificial.

"Enquanto isso, a demanda por energia está crescendo tão rápido. Nunca vimos nada parecido antes", ressalta De Vries.

Fabro Steibel, que é diretor-executivo do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS), pontua que o uso de data centers no Brasil é muito diferente do que se observa em países como os EUA, por exemplo, onde algumas dessas instalações são usadas para treinar modelos de linguagem grandes (LLM, na sigla em inglês) como o ChatGPT, Claude e Gemini.

"A gente não é 'big techs'", ele pondera, emendando que a comparação que ficou famosa no último ano, de que uma pergunta ao ChatGPT consumiria algo semelhante a uma garrafa d'água, não é generalizável para o setor como um todo.

"Isso não foi inventado, mas é um caso bem específico, em um determinado contexto", completa.

Essa ideia nasce, segundo ele, a partir de uma reportagem do Washington Post de setembro de 2024 que repercutia um estudo de pesquisadores da Universidade da California, Riverside com uma estimativa do gasto de água para que o chatbot escreva um email de 100 palavras (519 ml).

O próprio texto destaca que o consumo de água varia a depender do sistema de refrigeração usado pelo data center e lista diferentes estimativas a depender do Estado americano em que estivesse localizado, indo de 235 ml no Texas a 1.468 ml em Washington.

O consumo de água nos data centers se dá basicamente de duas formas: indireta, quando a energia usada na instalação vem de hidrelétricas, e direta, quando o recurso é usado no sistema de refrigeração do prédio.

Há dois modelos bastante diferentes de refrigeração, entretanto. Um deles usa uma torre de resfriamento em que a água que passa pelo circuito evapora, criando a necessidade de adição de água pura constantemente ao sistema.

Nos Estados Unidos, que concentra cerca de três mil data centers, o uso desse sistema tem causado impacto em pequenas cidades pelo país e gerado atritos entre as populações locais e grandes empresas de tecnologia.

O segundo é um sistema de refrigeração de ciclo fechado, em que o uso de água é significativamente menor.

Esse, segundo a assessoria da Casa dos Ventos, será o modelo utilizado no grande data center previsto para ser construído no Ceará. A empresa afirmou ainda que o data center terá acesso exclusivo "a 300MW de energia fornecida por parques eólicos e solares".

Mesmo as energias renováveis, contudo, têm algum tipo de impacto, ainda que em termos de emissões de gases de efeito estufa elas sejam muito menos danosas do que os combustíveis fósseis.

Há casos em que o barulho das turbinas eólicas, por exemplo, chega a causar depressão, insônia e surdez em quem mora nas proximidades.

Ou conflitos territoriais entre as empresas e comunidades locais, que são tema de pesquisa da professora da Universidade Federal do Ceará (UFC) Adryane Gorayeb, que é também membro do Observatório da Energia Eólica.

Em uma das comunidades estudadas por ela, localizada no litoral do Ceará, o empreendimento aterrou uma das lagoas entre dunas que era usada para pesca durante o inverno, comprometendo a subsistência da população local, e bloqueou a única via que os moradores usavam para sair e entrar no vilarejo, forçando-os a escalar dunas mais altas para se deslocarem.

"Muitas das comunidades tradicionais do litoral impactadas pela construção de usinas vivem uma rotina de ameaças aos seus direitos mais básicos, desde acesso à água, alimentos e à terra", comenta.

O Observatório da Energia Eólica recentemente expandiu seu escopo para pesquisar também os impactos da energia solar, que vão desde consumo de água para lavar os painéis até uso de agrotóxicos na manutenção da vegetação que cresce abaixo das placas solares.

Fabro Steibel, da ITS, argumenta que o Brasil está produzindo "soluções locais" na construção de uma infraestrutura local voltada para a inteligência artificial com potencial de produzir impacto ambiental significativamente menor do que o observado em países como os EUA.

"A necessidade faz a solução. Se eles [big techs] têm todo o equipamento à disposição, não têm incentivo nenhum de revolucionar. A gente não tem esse recurso", destaca.

E cita como exemplo a previsão, na recém-aprovada lei de fomento à IA aprovada em Goiás, do uso de biometano para produção de energia para data centers. O ITS coordenou a consulta pública realizada durante a elaboração da proposta.

"O data center movido a biometano existe? Não, ele é outra frequência, outra coisa. Mas pode existir. E o biometano tá ali, é o que sobra da soja e do milho."

Goiás espera se tornar o primeiro Estado do país a usar os chips mais avançados da Nvidia, o Blackwell B200, que foram encomendados pelo Centro de Excelência em IA da Universidade Federal de Goiás (UFG). O objetivo é integrá-los em oito supercomputadores que serão usados em cerca de 70 projetos de pesquisa.

A reportagem tentou contato com o Centro de Excelência em IA da universidade pedindo detalhes sobre a estimativa de consumo de energia da nova estrutura, mas não teve retorno.
Camilla Veras Mota

Cadê o ESG?

O fim do mundo saiu de moda. Setores econômicos expressivos estavam avançando no seu compromisso socioambiental. O ESG (Ambiental, Social e Governança) vinha mostrando uma conscientização do andar superior do PIB com os impactos da mudança climática sobre os negócios e a natureza. A novidade estava no “G” e significava que o cuidado social e ambiental seria incorporado aos valores fundantes do setor privado, indo além do greenwashing.

No entanto, em tempos de tarifaço o fim do mundo pode esperar. Pelo menos, é assim que pensa o mercado. A bem da verdade, nada de novo no front capitalista. Os conflitos comerciais são parte da busca normal por lucro. Como se não bastasse, várias dessas disputas ganham alcance geopolítico com ameaças militares. Contudo, Trump conseguiu botar mais pimenta nesse vatapá global.


A Europa estava na frente na corrida pelo novo normal dos negócios. Segundo um estudo de 2023 da PricewaterhouseCoopers – PwC, cerca de 60% dos ativos de fundos mútuos de investimento europeus estariam em carteiras baseadas em princípios ESG até 2025 (US$10 trilhões só na Europa). Em outros países, como os Estados Unidos, o ESG ainda enfrentava resistência entre os acionistas ávidos por dividendos e os CEOs motivados por bônus anuais expressivos (todos atentos ao curto prazo).

Bem ou mal, os mercados – e seus governos – vinham acordando para aquilo que o Secretário-Geral da ONU Antonio Guterres chamara de “extermínio em massa” ou de “caos climático irreversível”, quando não haverá mais lucro, bônus, empresa nem mercado.

A guerra da Ucrânia jogou um balde de água fria no aquecimento global, esquentando o clima entre russos e europeus. Trocou-se o debate climático pela corrida armamentista e a retomada da matriz energética não renovável. Depois disso, só a OTAN demonstra alguma importância enquanto organismo multilateral. A ONU, cada vez mais escanteada desde o fim da Guerra Fria, perdeu ainda mais voz e voto durante a crise de Gaza. Agora é cada um por si.

O tarifaço de Trump atingiu em cheio os mecanismos do mercado globalizado, baseado na indústria, no agro, petróleo e no sistema financeiro convencional. É um tiro de misericórdia no modelo de economia mundial pós Segunda Guerra. As ameaças ianques põem em dúvida a lealdade interna entre os membros de blocos como União Europeia, Mercosul, BRICS, ALCA, G7, G20 e OMC, fragilizando inclusive a confiança entre aliados históricos como Rússia e China, sobrando balas perdidas para o Brasil e a Índia.

Às vésperas de uma COP30 na Amazônia, setores políticos antiquados mundo afora correm para raspar o tacho da velha economia, amparados por um balaio tecnológico anarcodigital (acham-se pioneiros da Nova Era). Sejamos francos, o que persiste, mesmo entre as big techs, ainda são os valores colonialistas do século XV, guiados pela desigualdade social e devastação da natureza – progressivamente turbinados pela pólvora, pelas caravelas, pela máquina a vapor, eletricidade, comunicações, internet e agora pela IA. A situação está mais para um esgotamento de um velho modelo do que para o surgimento de algum novo paradigma disruptivo. O que vemos no futuro é o passado.

A Terra é um organismo vivo, em permanente transformação. Enquanto continuamos passando boiadas, em meio a guerras e tarifaços, a natureza não dá mostras de se comover com as distrações humanas rudimentares. Nesse cenário, o ESG ainda representa as capacidades do mercado de interpretar a realidade e influenciar uma prosperidade sustentável.

Cortina de fumaça sobre golpismo ilude quem a criou

É um pouco angustiante acompanhar a evolução do entendimento dos conservadores sobre as movimentações antidemocráticas de 2022 e 2023. No começo, vemos algum estranhamento e mal-estar com os acampamentos em frente aos quartéis. Em 2023, o quebra-quebra do 8 de Janeiro é tão rejeitado que a principal explicação para ele era tratar-se de uma armadilha desenhada pela esquerda. A própria existência dos planos golpistas é inicialmente negada, de tão abjeta. Mas, aos poucos, uma cortina de fumaça vai sendo lançada, e as verdades objetivas desaparecem — até para os atores que provocaram o encobrimento.

No livro clássico de história militar “Overlord” (Simon & Schuster, 1984), o historiador britânico Max Hastings descreve os procedimentos adotados pelas forças aliadas na invasão da Normandia em 1944, destacando as táticas sofisticadas de confusão e dissimulação empregadas para encobrir a verdadeira natureza da operação.


A mais conhecida dessas táticas foi o uso de cortinas de fumaça lançadas por navios britânicos ao longo da costa, com o objetivo de proteger as forças de desembarque e ocultar os movimentos das embarcações de apoio. Outras estratégias de engano operaram em escala ainda mais ambiciosa. A mais notável foi a Operação Fortitude, uma manobra gigantesca de desinformação que criou exércitos fictícios, movimentou tanques infláveis, emitiu transmissões falsas e usou agentes duplos para convencer os alemães de que o desembarque principal ocorreria não na Normandia, mas em Pas-de-Calais. Hastings observa que os alemães “relutaram em transferir reforços para a Normandia, mesmo dias depois do desembarque real”, tamanha a eficácia do engodo.

A cortina de fumaça lançada na guerra não foi apenas física, mas também de comunicação — uma sobreposição de sinais falsos e distrações que ocultou a realidade sob a dissimulação construída meticulosamente. Algo semelhante ocorre na política brasileira: as movimentações antidemocráticas, inicialmente rejeitadas por setores conservadores, foram aos poucos ofuscadas por críticas e pelo realce a detalhes, até que finalmente desapareceram os fatos.

O 8 de Janeiro foi inteiramente desconstruído. Primeiro, enfatizou-se que as forças de segurança foram omissas e que o Ministério da Justiça sumiu com imagens de câmeras, lançando a suspeita de que tudo fora armado: ou era uma armadilha para estimular a manifestação a desandar ou o próprio quebra-quebra era ação de infiltrados de esquerda (24% da população brasileira acredita nessa tese conspiratória). Em seguida, o discurso conservador enfatizou as penas elevadas da Justiça e destacou entre os presos as mães de família e os idosos, como se fossem o perfil demográfico dominante.

Ao final, os conservadores consolidaram o entendimento de que o 8 de Janeiro não passou de uma manifestação de pessoas de bem, ordeiras, que saiu um pouco do controle, provavelmente por indução do governo Lula ou de infiltrados de esquerda. A agitação golpista nos acampamentos, a articulação com os generais golpistas, o objetivo de criar caos para induzir uma intervenção militar, o tombamento de torres de transmissão, o bloqueio de refinarias de petróleo, a paralisação de rodovias, tudo isso desapareceu sob a fumaça.

Aconteceu o mesmo com as minutas do golpe. No princípio, tudo era mentira, e elas nem sequer existiam. Depois, não passavam de conjectura. Acrescentou-se em seguida que tudo era constitucional, que, se fosse efetivado, passaria pelo rito de consultar o Conselho da República, o Conselho de Defesa e enviar ao Congresso Nacional. Como poderia haver tentativa de golpe sem Exército nas ruas? Onde estava o erro em cogitar acionar um mecanismo previsto na Constituição? Assim, sob tanta distração, desapareceu a realidade: a medida consistia em intervir no TSE para reverter o resultado eleitoral e prender um ministro do Supremo — e só não foi tentada porque o Exército a considerou golpista.

Há, porém, uma diferença crucial entre as cortinas de fumaça da guerra e da política. Enquanto os estrategistas militares sabiam exatamente o que encobriam, na política a névoa narrativa parece enganar os próprios autores. A ênfase em detalhes laterais — como o perfil dos manifestantes ou eventuais falhas processuais — desloca o foco dos fatos objetivos, que são desaprendidos com a repetição do discurso. O que começa como dissimulação deliberada se transforma, com o tempo, em crença genuína.

Não é tão diferente do mecanismo pelo qual a esquerda jogou tanta fumaça no esquema de corrupção que ligava Petrobras, empreiteiras e financiamento eleitoral, a ponto de hoje, para ela, parecer que tudo aquilo provavelmente não existiu ou não passou de pretexto para prender Lula e impedir que as empreiteiras seguissem fazendo o Brasil se desenvolver. Só que a cegueira induzida dos conservadores é mais grave que a cegueira induzida da esquerda, porque, no caso dos conservadores, o que desaparece é a ameaça à própria democracia.

De golpista a mártir: o teatro político de Bolsonaro

Faz parte das estratégias centrais dos novos movimentos de direita, que ao redor do mundo ameaçam a democracia, apresentar a si e seus líderes como vítimas. Donald Trump foi o precursor. O bilionário, que ao longo da vida violou repetidas vezes e de forma comprovada as leis, afirma estar sendo perseguido por um sistema judiciário injusto e politizado. Agora, porém, ele estaria se defendendo. Essa é sua justificativa para os ataques a figuras e estruturas centrais da democracia, que se baseia na divisão do poder e das decisões. Quando essa divisão deixa de existir, também deixa de existir a democracia.

O ex-presidente do Brasil Jair Bolsonaro e seu clã – admiradores de longa data e alunos aplicados do atual presidente dos EUA – tentam copiar essa estratégia de inversão entre agressor e vítima. Querem fazer os brasileiros e o resto do mundo acreditarem que não são eles os autores de uma tentativa de golpe de Estado, mas sim as vítimas de um suposto juiz ditatorial no STF. Já não resta dúvida de que o golpe de Bolsonaro só fracassou devido à resistência de alguns generais que não quiseram embarcar na aventura do capitão.


Diante desse fato, o clã Bolsonaro passou a investir em outra frente de combate: manter sua base mobilizada por meio de confusões calculadas, distrações constantes e imagens nas redes sociais que retratem Bolsonaro como a verdadeira vítima. Era exatamente esse o objetivo quando Bolsonaro, com a ajuda de seus filhos, violou deliberadamente a ordem judicial clara do ministro Alexandre de Moraes de se abster do uso das redes sociais, provocando assim a imposição da prisão domiciliar. Seria ingênuo acreditar que os advogados de Bolsonaro não o alertaram sobre essa consequência.

No círculo de Bolsonaro sabe-se muito bem que a tentativa de golpe permanece abstrata no imaginário da maioria dos brasileiros e, portanto, também facilmente negável. Já as imagens de um ex-presidente com tornozeleira eletrônica e em prisão domiciliar são concretas e permanecem na memória. Nas redes do bolsonarismo (e do trumpismo), hermeticamente fechadas à realidade e a qualquer forma de complexidade, essas imagens têm o efeito desejado: Jair, o salvador do Brasil, está sendo perseguido pelo poder.

Essa narrativa não se destina apenas ao público brasileiro, mas também a Donald Trump e seus capangas, como o secretário de Estado americano Marco Rubio. A tentativa de Trump de exercer pressão sobre o governo Lula por meio da ameaça das tarifas de importação mais altas do mundo não foi bem recebida no Brasil. A sociedade brasileira pode estar politicamente extremamente polarizada – mas a maioria dos brasileiros rejeita tentativas de ingerência externa nos assuntos internos do país; e compreende (espera-se!) o que significa separação de poderes.

Foi um erro de cálculo do clã Bolsonaro imaginar que, com ameaças totalmente desproporcionais, seria possível exercer tamanha pressão a ponto de fazer com que a denúncia contra Bolsonaro fosse arquivada ou que Lula concedesse anistia aos golpistas. No círculo de Bolsonaro isso parece já ter sido compreendido. Agora, trata-se de continuar alimentando a espiral de escalada e manter Trump engajado. O presidente americano deve continuar acreditando que há uma "caça às bruxas" contra Bolsonaro – assim como teria havido contra ele, o grande Donald.

É absolutamente legítimo criticar que o Supremo Tribunal Federal do Brasil seja sobrecarregado com decisões que pertencem ao campo da política. Também é válida a crítica às decisões monocráticas e ao excesso de poder que é atribuído a juízes individuais em casos específicos. O resultado são decisões muitas vezes tidas como impulsivas e excessivas, que colocam os juízes sob fogo cruzado. Cria-se a impressão de que há duelos pessoais entre juiz e acusado. Foi assim no caso Moro vs. Lula; e agora se repete no caso Moraes vs. Bolsonaro.

Por maiores que sejam os méritos de Moraes em defesa da democracia e do Estado de Direito, por não se deixar intimidar por aspirantes a ditador, seu protagonismo involuntário acaba servindo aos bolsonaristas. Pois, naturalmente, apresentam a situação como se Moraes estivesse em uma cruzada pessoal contra Bolsonaro e seus seguidores – quando, na verdade, trata-se de um processo judicial contra criminosos.

Seria bom que o caso Bolsonaro chegasse logo ao fim e que o ex-presidente fosse condenado a uma pena de prisão justamente merecida (que, como de costume no Brasil, ele de todo modo não cumpriria integralmente). Também seria desejável que os conservadores brasileiros se libertassem do feitiço maligno de Bolsonaro e de seu clã. Há tempo demais o país não se ocupa com a modernização necessária em quase todas as áreas (que também não está sendo promovida pelo governo Lula), mas sim com os assuntos familiares e as fantasias de onipotência desse senhor paranoico e medíocre.

Bolsonaro, o espelho do 'homem da providência'

Depois de O filho do século e O homem da providência, a Editora Intrínseca acaba de lançar em português Os últimos dias da Europa. É o terceiro livro da tetralogia escrita pelo escritor italiano Antonio Scurati – uma reconstrução a um só tempo crítica e romanceada do ditador italiano Benito Mussolini, unindo ficção, ampla base documental e uma rigorosa pesquisa histórica sobre a ascensão do fascismo em um período de crise das democracias liberais e dos Estados de Direito, nas primeiras décadas do século 20, e sobre o declínio da direita autoritária após a derrota da Alemanha e da Itália na Segunda Guerra Mundial.

Além de colunista do jornal milanês Corriere della Sera – um dos mais importantes da imprensa europeia – e do respeitado La Stampa, criado em Turim há 158 anos, Scurati é professor de Literatura Comparada na Universidade de Comunicação e Línguas (IULM) de Milão, e sua tetralogia – que tem a interação entre ideologia autoritária e Estado como seu fio condutor – é fascinante. Dos diferentes ângulos, períodos históricos e bibliográficos dessa sua obra, destaca-se o segundo volume – O homem da providência, livro que trata da consolidação do regime fascista na Itália. Para o leitor brasileiro, a razão desse destaque é, guardadas as devidas distâncias históricas, a proximidade entre Mussolini e sua versão tupiniquim, Jair Messias Bolsonaro – um político da extrema direita que jamais foi educado ou adestrado nos valores republicanos.


Este último é uma cópia ainda mais borrada do que o primeiro, a começar pelo fato de ambos sofrerem de severa prisão de ventre – o primeiro, em decorrência de uma úlcera duodenal, e o segundo, em razão das facadas que o atingiram no atentado de Juiz de Fora. Questões de necessidades físicas à parte, ambos, igualmente, têm o mesmo lema político – “Deus, Pátria e Família”, repetem os bolsonaristas, traduzindo do italiano o lema fascista “Dei, Patria e Famiglia“.

Ambos também se valem da defesa dos valores familiares, dos costumes e da tradição como instrumento político para “reeducar o povo”. E como para Scurati “o fascismo é uma religião e o verbo sagrado de todas as religiões, desde sempre, é obedecer”, os dois também têm forte penetração em meios religiosos. Enquanto o primeiro era apoiado por “acólitos e idióticos”, segundo o escritor italiano, o outro é muito popular entre militares de baixa patente e evangélicos e seus pastores de fala gutural, com o olhar voltado ao dízimo e o uso inconsequente de citações bíblicas para oferecer ilusões.

Não bastasse isso, enquanto Mussolini promovia a expulsão do funcionalismo da administração pública que não aderisse às diretrizes políticas do governo fascista e ao mesmo tempo alimentava o medo e transformava-o em ódio ao outro, a quem pensa racionalmente, e afirmava que a cultura universitária deveria “ser assimilada rapidamente e expulsa com a mesma velocidade”, em seu governo, Bolsonaro partiu da palavra para a ação. Uma de suas iniciativas foi asfixiar financeiramente as universidades federais e os centros públicos de pesquisa do País.

Carismático, mas culturalmente limitado, Mussolini atraía, entre outros, “fanáticos incapazes de ver com clareza as próprias ideias”, pessoas “broncas, medíocres, obtusas e ignorantes” fascinadas pela marcha sobre Roma, lembra o autor italiano. Para quem viu pela televisão a passeata entre as portas do Comando do Exército em Brasília e os ataques tresloucados das hordas bolsonaristas ao Palácio do Planalto, aos prédios do Senado e da Câmara e ao plenário do Supremo Tribunal Federal no 8 de janeiro de 2023, as palavras com que Scurati descreve a marcha sobre Roma dos fascistas italianos, em 1922, também não podem ser usadas para traduzir o perfil dos bolsonaristas fanáticos que atentaram contra a democracia?

Uma das passagens mais envolventes de O homem da providência está na menção à incompatibilidade entre inteligência e fascismo – uma suposição feita pela primeira vez por Benedetto Croce, um importante político de formação liberal e respeitado professor de filosofia durante a primeira metade do século 20. O modo como essa incompatibilidade entre cultura e fascismo foi apontada pelos intelectuais antifascistas durante os anos de 1920 e 1930 na Itália, ao denunciar os “raciocínios mal desenvolvidos de seus adversários mussolinistas para justificar deploráveis violências e prepotências”, como a censura à imprensa, também pode ser identificada entre nós no fenômeno bolsonarista, onde extremismo ideológico e cultura são como água e azeite.

Ambos, Mussolini e Bolsonaro, se destacam por uma visão simplificadora dos fatos, por desacreditar o Judiciário e por análises rasteiras e enviesadas dos acontecimentos, reduzindo a complexidade dos problemas reais a um único inimigo – os comunistas, os corruptos, os vagabundos e os não patriotas, por exemplo. Ou seja, “os desajuizados que renegam a Pátria”. Por consequência, cada um a seu modo almeja a submissão de todos, ao mesmo tempo em que dissemina a barbárie, sob a forma do culto à violência física e/ou simbólica fundada na premissa do confronto permanente – quem não é amigo é inimigo e, como tal, tem de ser afastado, expulso e até assassinado.

Foi o que ocorreu, por exemplo, com o líder socialista Giacomo Matteotti, morto por milícias fascistas após ter denunciado a fraude nas eleições de 1924. E, também, quando Bolsonaro elogiou, no plenário da Câmara dos Deputados, um de seus ídolos, o coronel Brilhante Ustra, torturador do regime militar, por ter sido o que classificou como “pavor de Dilma Rousseff” no período em que ela ficou presa nos porões da ditadura. E, igualmente, quando os militares golpistas de 8 de janeiro de 2023 cogitaram assassinar o presidente, o vice-presidente da República e um ministro do STF.

Em suma, o segundo e o terceiro livros da tetralogia de Scurati têm como fio condutor a análise da concepção fascista de uma hierarquia política e governamental baseada na vontade do chefe – o Duce. Como dissociar essa postura antiliberal e antidemocrática das concepções políticas autoritárias de Bolsonaro, que em vários discursos fez as seguintes afirmações: “Eu respeito as instituições, mas devo lealdade apenas a vocês, o povo. Vocês tiveram coragem de romper o continuísmo, o populismo, a demagogia que esse Brasil viveu ao longo dos últimos 30 anos” (2019); “Eu sou a Constituição” (2020); “A temperatura está subindo. O Brasil está no limite. O pessoal fala que eu devo tomar uma providência. Estou aguardando o povo dar uma sinalização” (2021); “Não roubei, não matei ninguém, não trafiquei ninguém. Isso aqui [a tornozeleira eletrônica] é um símbolo da máxima humilhação. Sou uma pessoa inocente. O que vale para mim é a lei de Deus” (2025)?

As três primeiras falas foram feitas quando estava no poder, a que chegou menos por seu talento e capacidade estratégica, mas por oportunismo, torpeza e desídia. Primando não mais pela arrogância, mas agora por um estilo choroso, a última fala foi feita após os crimes a ele imputados pela Procuradoria Geral da República em processo aberto no Supremo Tribunal Federal, como liderança de organização criminosa, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, danos contra o patrimônio da União e deterioração de patrimônio tombado.

O personagem central de O homem da providência é um político hoje morto que serviu de espelho para outro ainda vivo – e que depende de uma improvável anistia para sobreviver na vida política. É por isso, mesmo estando o “mito” nos dias de hoje muito mais próximo de uma cela em algum presídio do que uma sala no Palácio do Planalto, que sua leitura é imperdível.

quinta-feira, 7 de agosto de 2025

Aristóteles e aquela coisa da perceção

O Observatório de Segurança e Defesa (OS&D) da SEDES levou a cabo um estudo, realizado entre 2000 e 2024, onde conclui que o número de crimes registados diminuiu 1,3 por cento. Apesar disso, a referência à criminalidade nas primeiras páginas dos principais jornais nacionais aumentou 130%, o que demonstra uma discrepância brutal entre a criminalidade participada e a perceção pública da insegurança. O relatório de 2025 da SEDES conclui assim que este contraste contribui para o processo de destruição da confiança nas instituições.

O relatório alerta não apenas para esta profunda discrepância mas também para outro facto bem revelador de persistência mediática: “Um crime ficava nas notícias 2,6 dias. Agora, são mais de quatro dias.” Importa, portanto, tentar compreender a razão de ser desta aparentemente estranha situação.

Não apenas noticiar mas dissecar até à exaustão todo e qualquer crime, em especial aqueles que apresentam contornos mais hediondos, por parte da imprensa mas sobretudo das televisões, com particular incidência nos canais de notícias por cabo, é o pão nosso de cada dia. Pode-se admitir que tal se deve à ideia de que as audiências gostam de sangue, uma necessidade humana que se atesta desde sempre, como nos tempos do império romano, quando o povo apreciava presenciar lutas de morte entre gladiadores, no Coliseu de Roma e cristãos atirados às feras.


As redes sociais vieram desafiar a prática do jornalismo sério, enquanto mediação comunicacional, cujos profissionais estão sujeitos a um código deontológico, incluem o contraditório e pugnam pela imparcialidade. Ao contrário, as redes sociais limitam-se a propagar falsidades, não verificam os factos, não exercem o direito ao contraditório e não apresentam quaisquer pruridos éticos, tendo apenas como alvo estimular o algoritmo, as visualizações, os likes e as partilhas. Para não falar das contas falsas criadas apenas para propalar a mentira. Em consequência, algum jornalismo deixou-se afetar, nalguns casos, alterando as suas orientações editoriais e trocando a confirmação dos factos, a seriedade das fontes e o objetivo de informar de forma isenta, que sempre constaram do seu ADN, pela voracidade do imediato e a espuma dos dias.

Mas o facto é que a cobertura mediática excessiva da violência, guerra e crime muitas vezes decorre de algumas intervenções políticas, em particular de partidos que utilizam a criminalidade como arma política, levando de arrasto a comunicação social e gerando assim uma falsa perceção de insegurança e um sentimento de medo. Segundo um porta-voz daquela associação, “as redes sociais são um vetor de insegurança por desinformação”. Esse ruído comunicacional origina inevitavelmente especulação, tendência para o justicialismo e o discurso securitário, que vão depois alimentar todos os populismos de esquerda e direita.

A tão badalada perceção subjetiva de insegurança que os cidadãos experienciam, e que mina a confiança nas instituições democráticas e no estado de direito, contribui ainda para comprometer o desenho, desenvolvimento e eficácia das políticas públicas, levando governos e instituições da administração a agir em nome de perceções e não dos factos em si mesmos. Schopenhauer sabia que “O primeiro passo no caminho do pensamento crítico é entendermos que a percetibilidade de algo não implica a existência desse algo”.

Até mesmo os fenómenos que divergem das tradições, usos e costumes da ordem social contribuem para a perceção individual da insegurança, em particular nos indivíduos mais velhos.

Uma vez que a segurança é essencial para o desenvolvimento harmonioso duma sociedade, é óbvio que a informação ocupa lugar central nessa matéria, na medida em que pode estimular a barbárie ou o civismo.

Aristóteles dizia que “O valor fundamental da vida depende da perceção e do poder de contemplação ao invés da mera sobrevivência.” O mal é que muitos andam apenas a tentar sobreviver em vez de afinarem as suas perceções, recebendo sem critério todo o lixo que lhes impingem.

Jogando Bolsonaro ao mar

Já aconteceu antes. Era uma vez um político que, legitimamente eleito, vestiu a farda de ditador e tentou impor ao mundo seu estilo de governar —intimidar, dividir, desestabilizar, perseguir, humilhar, subjugar, expulsar e tocar o terror. Com que fim? O de estabelecer sua bolha, expandir sua dominação, consolidar seu poder. Para isso, valeu-se também de recuar, contradizer-se, abandonar parceiros e parecer imprevisível —como alguém pode se defender se não sabe como será o ataque?


Quem é? Adolf Hitler? Não. Donald Trump. Veem-se nos dois essas mesmas táticas e estratégias e em função de igual objetivo: a implantação de um Reich planetário —um império gigante, totalitário, quaquilionário, livre de pretos e morenos e, se possível, imortal. Mas não é tão fácil. O de Hitler, de sólidas engrenagens e que ele garantia que iria durar mil anos, parou nos 12. O de Trump não chegará nem perto. Seu titular é instável e ignorante demais para executar um programa —qualquer um.

Já podemos avaliá-lo por suas investidas contra o Brasil. Ao sequestrar a economia brasileira supostamente em defesa de Bolsonaro, Trump só conseguiu o contrário: alertou os indecisos para o fato de que o "Brasil acima de tudo" era conversa fiada e afundou Bolsonaro nas pesquisas. Seguindo esse raciocínio, quanto mais Trump prejudicar o país, em função de um homem que 60% da população quer ver na cadeia, só piorará a situação de Bolsonaro e dos que o apoiam. Isso inclui a banda do Congresso que, neste momento, aparenta defender Bolsonaro e que o abandonará assim que sentir a mudança do vento.

Com ou sem Trump, Bolsonaro será julgado, condenado e preso, com hora certa para apagar a luz da cela. E não será surpresa se, mais ocupado com um escândalo interno por pedofilia e por suas disputas com a Rússia, Trump, como já fez com tantos, virar as costas a Bolsonaro —que, por sinal, ele só viu duas vezes na vida, talvez uma.

Os dois têm uma coisa em comum: não vacilam em jogar os amigos ao mar.

American Revolution

Os Estados Unidos da América sempre constituíram uma nação violenta, que exterminou os povos indígenas nativos das Américas; promoveu a trágica imigração compulsória e a escravidão dos povos da África Subsaariana; incorporou os territórios colonizados por espanhóis e franceses; e promoveu a Marcha para o Oeste. Os norte-americanos, em sua história, assistiram a vários assassinatos de presidentes, candidatos e figuras públicas. Quatro presidentes foram assassinados em exercício, Abraham Lincoln em 1865, James Abram Garfield em 1881, William McKinley em 1901 e John Fitzgerald Kennedy em 1963. A América, “terra dos livres e lar dos valentes”, que se transformou no país imperialista por excelência, interfere na economia e na política de todos os demais países, explora o mundo inteiro e intervém militarmente em outras nações de acordo com a sua conveniência. Os norte-americanos são racistas em relação a afrodescendentes, hispanos, orientais etc. e, com seus dólares, acham que são os donos do universo. Yankee go home!

Os militares brasileiros, por sua vez, acham que “o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”. Mas, os mineiros de Governador Valadares foram mais longe ainda e acham que melhor mesmo é viver na América, em Orlando ou em Boston, assim como os brasileiros ricos acham que melhor mesmo é viver em Miami.

Contudo, além de violentos e imperialistas, os Estados Unidos também sempre foram uma nação revolucionária, a começar por abrigar os europeus expulsos pelo processo de acumulação primitiva do capital e os indesejados por questões religiosas – ingleses, holandeses, alemães, escoceses, irlandeses, suíços e franceses. Soma-se a Revolução Americana de 1776 e a guerra de independência em relação à Inglaterra; a Guerra Civil com a vitória dos estados do norte, progressistas e contrários à escravidão; a abertura dos portos para os novos imigrantes da Itália e do Leste Europeu etc.

O movimento libertário anarquista era muito expressivo entre os operários nos Estados Unidos no final do século XIX e início do século XX. A Chacina de Chicago de 1886 foi responsável pela instituição do 1º de maio como Dia Internacional dos Trabalhadores. Os anarquistas eram socialistas, contra qualquer forma de opressão, principalmente do Estado; e antimilitaristas por natureza, contra as guerras entre os estados nacionais. Depois da Primeira Guerra Mundial e da Revolução Russa, os anarquistas foram duramente reprimidos na América, que temia uma revolução em escala mundial, foram presos e deportados, numa perseguição muito mais dura que aos comunistas no período do macarthismo da Guerra Fria.

Após a Segunda Guerra Mundial, em que desempenharam um papel decisivo para a derrota do Eixo e a libertação da Europa Continental, os Estados Unidos e a União Soviética passaram a dividir o globo terrestre. Nos anos 1960, em plena Guerra Fria, cresceu o movimento contracultura e contra a Guerra do Vietnã nos Estados Unidos. Em 1971, enquanto Imagine do inglês John Lennon, em ritmo zen, se transformava no hino internacional contra as guerras, sugerindo que as pessoas imaginassem o mundo todo vivendo a vida em paz; nos Estados Unidos, Blowin’ in the wind de Bob Dylan, inspirado no ritmo spiritual negro revolucionário de No More Auction Block, incendiava os jovens, desde 1963, perguntando quantas mortes ainda serão necessárias até que se saiba que muitas pessoas já morreram.

John Lennon, durante a apresentação dos Beatles à Rainha e à família real na Inglaterra, disse: “Gostaria de pedir a ajuda de vocês. Para as pessoas nos assentos mais baratos, batam palmas; e os demais, se quiserem, apenas chacoalhem suas joias”. Os americanos, no entanto, não têm rainha nem corte para se debaterem em vão, sua agressividade flui naturalmente – para um brasileiro, pode ser muito difícil conceber, mas mesmo as pessoas em situação de rua e os indigentes são altivos e possuem um forte senso de seus direitos como cidadãos. Sid Vicious, do Sex Pistol, era uma afronta na Inglaterra, mas não conseguia entender a cultura dos Estados Unidos e teve a sua agressividade neutralizada pela sociedade norte-americana. Agressivo no palco, ele levou uma surra lascada na saída do espetáculo. Sid Vicious morreu de overdose em 1979, quatro meses depois que a sua namorada norte-americana, Nancy Spungen, foi assassinada – Sid era o principal suspeito do crime – no Hotel Chelsea em que viviam, a poucas quadras do apartamento em que eu morava em Nova York. Em 1980, o inglês John Lennon também foi assassinado nos Estados Unidos.

As velhinhas norte-americanas de tailleur são muito mais perigosas do que os punks ingleses. Eu estava num ônibus quando subiu um número exagerado de pessoas. Uma senhora idosa e muito elegante sentou-se a meu lado e contou que o motorista do outro ônibus desceu todos os passageiros porque seu substituto falhara e o carro iria para a garagem. Cansado de ouvir a mulher ficar reclamando, me referi ao bom tempo que fazia. A velhinha não se fez de rogada – “se estivesse chovendo eu teria dado um tiro na cabeça do motorista”. Fiquei torcendo para que o tempo não virasse.

Martin Luther King e Robert Kennedy foram assassinados em 1968 sem que a ordem pública e as instituições dos Estados Unidos fossem abaladas. Pelo contrário, as instituições democráticas norte-americanas foram reforçadas depois desses assassinatos. Numa palestra, conheci um senhor, já muito idoso, que havia sido amigo de Luther King. Contou que fazia parte da primeira turma em que um negro se titulou advogado, talvez na Columbia University, não me recordo exatamente; e, no discurso de formatura, para parabenizar o formando, o reitor disse que esperava que ele emigrasse para a Libéria.

O amigo de Luther King, para elucidar a vitalidade que beira à violência, contou que, uma vez, colocou um anúncio no jornal, para contratar uma secretária, e que apareceu uma candidata que simplesmente não tinha nenhuma das qualificações listadas no anúncio, nenhuma; ele também não teve nenhuma dúvida e contratou a ousada candidata no ato. Outra vez, ele estava na rua esperando um táxi de uma agência, que tinha contactado ao telefone. Um automóvel parou, o motorista abriu a porta e ele entrou, achando que era o táxi que havia solicitado – não era. O motorista, recém-chegado à cidade, sequer conhecia as ruas de Nova York, mas havia percebido que ele estava aguardando um carro. O senhor teve que indicar o caminho e disse para nós que isso é que era o nova-iorquino, que esse motorista furão, com toda sua garra e cara de pau, certamente iria aprender a dirigir na cidade em tempo recorde… e o que mais?

Na época da palestra, 1991, os Estados Unidos estavam metidos numa crise econômica séria e falava-se muito em violência. O senhor idoso disse que, nas primeiras décadas do século XX, no tempo das máfias italianas, judias e irlandesas, nem mesmo a polícia tinha coragem de sair para a rua depois das oito horas da noite. A energia do amigo de Luther King era tão forte, que fiz questão de ir apertar a sua mão no final da palestra. Não falei nada, só queria pegar na mão dele.

Ao visitar o Museu da Imigração em Ellis Island, li um depoimento de uma agente da imigração contando a entrevista com uma senhora recém-chegada nas primeiras décadas do século XX, com suspeita de debilidade mental. Se a suspeita fosse confirmada, a mulher não seria admitida em território americano e teria que retornar ao país de origem. O teste psicológico incluía algumas questões. Perguntaram se, quando ela lavava uma escada, lavava de baixo para cima ou de cima para baixo. A mulher ouviu a pergunta, ficou pensativa e disse, finalmente – “eu não vim para a América para ficar lavando escadas não”.

Para Karl Marx, a Inglaterra, o país que inaugurou o Capitalismo Industrial e que detinha a hegemonia internacional no século XIX, seria o palco da Revolução Socialista. Mas o seu fiel parceiro Friedrich Engels, que lhe sobreviveu, se lamentou que a classe operária inglesa havia se aburguesado. Posso estar errado, mas minha intuição me leva a crer que, com a perda da hegemonia internacional deste tigre de papel e o fiasco Trump, os Estados Unidos estão fadados a herdar o papel atribuído à sua antiga metrópole e liderar a Revolução Socialista Internacional.

Que o povo norte-americano, com coragem, se levante na luta final pela Internacional!

(Poderiam dizer que o autor está forçando a barra, quer o socialismo a qualquer custo, pois, outro dia, neste mesmo veículo, postou um artigo dizendo que é a China que, por linhas tortas, está fadada a implodir e superar o reino da mercadoria)
Samuel Kilsztajn

O trabalho que enlouquece

Trabalho é uma coisa boa, ou uma coisa ruim?

Nós crescemos num ambiente de feroz dualidade. Na vida informal, todo mundo reclama do trabalho e elogia a diversão. Todo mundo odeia a segunda-feira. Todo mundo celebra o fim-de-tarde da sexta (é a cultura do SEXTOU!), porque vem por aí o fim de semana que implica em descanso ou divertimento.

Por outro lado, o discurso ideológico no diz que “o trabalho enobrece”, “o trabalho dignifica”, e quando esse argumento de índole moral não é o bastante, nos dizem que “sem trabalho ninguém sobrevive”, “sem trabalho você não vai ter como financiar o seu lazer, nem os seus prazeres, nem sequer os seus vícios”.

Há divergências, é claro, mas todos nós ouvimos variações desse discurso. O trabalho é ruim, mas é necessário. Quer dizer então que não existe trabalho bom?

Curiosamente, há pelo menos duas categorias profissionais em que já ouvi dezenas de vezes algo assim: “Sou um cara de sorte, porque me pagam uma boa grana para fazer a coisa que eu mais gosto no mundo!” Esses profissionais são os músicos e os jogadores de futebol. Mesmo quando o cara ganha apenas o suficiente para sobreviver sem sustos ele se acha um cara de sorte. Porque gosta muito do que faz.

Há muitos outros, sem dúvida. Deve haver mais gente nessa faixa do que imaginamos. Publicitários. Professores (sim, alguns ganham bem). Motoristas. (Conheci motoristas profissionais que diziam: “A única coisa que eu gosto é dirigir.”)

Quero falar, porém, do extremo oposto. Dos trabalhos que ninguém quer executar, e só executa porque está MUITO precisado de dinheiro. Já tive um professor de Economia que usava sempre o “limpador de fossas sanitárias” como exemplo do trabalho detestável, mas socialmente imprescindível. (Como dizem nos filmes norte-americanos: “It’s a dirty job, but someone has to do it”.)

Trabalho de estivadores, carregando peso na cabeça. Cassacos de engenho, cortando cana num sol de 40 graus. Empregadas domésticas esfregando diariamente cada centímetro de uma casa enorme.


Alguém executaria esses trabalhos, se não fosse pago? Somente por diversão, por exercício? Ou (como tantas vezes dizemos) “para adquirir experiência de vida”? Talvez – se for o caso daquela pessoa que, depois de adquirida a experiência de vida, volta para seu apartamento com ar condicionado, manda trazer cervejas e conta para os amigos: “Eu tive duas semanas que me ensinaram muitas coisas importantes”. Vida que segue.

É diferente a situação de quem está preso a uma classe social e não tem nenhuma rota de fuga, provavelmente vai ter que pegar-no-pesado pelo resto da vida. Alguém pode até tentar se consolar, pensando que é melhor uma mercadoria entregue do que uma mercadoria parada, ou uma casa limpa do que uma casa suja. Existe algum propósito no que está fazendo, existe alguma utilidade. “Eu estou aqui me matando, dirigindo esse ônibus no sol do verão, mas as pessoas vão chegar em casa com segurança.”

O problema é que na maioria desses empregos brutais a relação patrão-empregado é mais brutal ainda. O patrão, em vez de atenuar os desconfortos, procura torná-los ainda mais cruéis, para que o trabalhador não esteja ali defendendo a feira da semana, e sim a própria vida.

Já vi patrão, em momento descontraído à mesa de um bom restaurante, comentar: “Eu podia pagar ao meu pessoal o dobro do que pago, não ia abalar um fio de cabelo nas minhas finanças. Mas aí eles iam começar a gastar dinheiro, a se inchirir, a arranjar distrações, a querer melhorar de vida... Comigo não!...”

Há uma pequena parábola, que li na infância, provavelmente na revista Sesinho, editada por Vicente Guimarães (o tio de Guimarães Rosa, vejam só). Era a revista recreativa do Serviço Social da Indústria (Sesi), que meu pai recebia todo mês.

O autor da parábola contava ter chegado a um canteiro de obras onde estava sendo erguida uma catedral. Perguntava ao primeiro operário: “O que você está fazendo?” O homem respondia, secamente: “Quebrando pedras.” Ele perguntava o mesmo ao segundo, que respondia, resignado: “Estou ganhando o sustento da minha família.” E depois a um terceiro, quase eufórico, que explicava: “Você não vê? Estou construindo uma catedral!”.

São níveis diferentes de envolvimento, mas em todos eles existe um mínimo de sentido. De projeto pessoal. Mesmo o cara que está quebrando pedras pode extrair certo prazer do ato de quebrar uma pedra bem certinha. Ou então de visualizar na pedra a carantonha do capataz, e descer-lhe a marreta. Algum prazer a gente sempre encontra.

Existe um outro tipo de trabalho, no entanto, que é a versão grotesca do trabalho desagradável. É o trabalho propositalmente absurdo, que não resulta em nada, não beneficia ninguém, e é imposto a uma pessoa como castigo, ou como processo de enlouquecimento deliberado.

Prisioneiros são muitas vezes obrigados a tarefas sem sentido – passar a manhã inteira cavando um buraco, e a tarde inteira recolocando a terra no lugar, todos os dias, no mesmo local, sob vigilância. (Me pergunto às vezes se a vigilância disso não será, também, uma forma de punição.)

Algumas cadeias obrigam os prisioneiros a marchar sem parar, em círculo, para se desgastarem fisicamente, e também para facilitar a vigilância. Van Gogh pintou um quadro famoso sobre esse tema, que aparece também em filmes como Irma La Douce de Billy Wilder e Laranja Mecânica de Stanley Kubrick.

São atividades desgastantes, sem sentido, sem resultado. Uma forma de cansar o corpo e de embotar a mente através da repetição sem propósito.

A revista eletrônica Jacobina publica uma entrevista do antropólogo norte-americano David Graeber, em que ele comenta os diferentes graus de necessidade ou de absurdo no trabalho. Destaco aqui alguns trechos.

.Você pergunta a qualquer marxista sobre trabalho e valor-trabalho, eles sempre vão imediatamente para a produção. Bem, aqui está uma xícara. Alguém tem que fazer a xícara, é verdade. Mas fazemos um copo uma vez e lavamos dez mil vezes, certo? Esse trabalho simplesmente desaparece por completo na maioria desses relatos. A maior parte do trabalho não é produzir coisas, é mantê-las iguais, é mantê-las, cuidar delas, mas também cuidar de pessoas, cuidar de plantas e animais. 

Em teoria, você está recebendo algo por nada, você está sentado aqui sendo pago para fazer quase nada, em muitos casos. Mas isso simplesmente destrói as pessoas. Há depressão, ansiedade, todas essas doenças psicossomáticas, locais de trabalho terríveis e comportamento tóxico, agravados pelo fato de que as pessoas não conseguem entender por que tem motivos justos para estar tão chateadas.

Porque, sabe, por que estou reclamando? Se eu reclamar com alguém, eles vão dizer: “Pô, você está ganhando algo por nada e ainda está reclamando?” Mas isso mostra que nossa ideia básica da natureza humana, que é inculcada em todos pela economia, por exemplo – que todos nós estamos tentando obter a maior recompensa com o mínimo de esforço – não é realmente verdade. As pessoas querem contribuir com o mundo de alguma forma. Então, isso mostra que se você dá às pessoas uma renda básica, elas não vão sentar e assistir TV, o que é uma das objeções.
Braulio Tavares