sexta-feira, 8 de agosto de 2025

Cortina de fumaça sobre golpismo ilude quem a criou

É um pouco angustiante acompanhar a evolução do entendimento dos conservadores sobre as movimentações antidemocráticas de 2022 e 2023. No começo, vemos algum estranhamento e mal-estar com os acampamentos em frente aos quartéis. Em 2023, o quebra-quebra do 8 de Janeiro é tão rejeitado que a principal explicação para ele era tratar-se de uma armadilha desenhada pela esquerda. A própria existência dos planos golpistas é inicialmente negada, de tão abjeta. Mas, aos poucos, uma cortina de fumaça vai sendo lançada, e as verdades objetivas desaparecem — até para os atores que provocaram o encobrimento.

No livro clássico de história militar “Overlord” (Simon & Schuster, 1984), o historiador britânico Max Hastings descreve os procedimentos adotados pelas forças aliadas na invasão da Normandia em 1944, destacando as táticas sofisticadas de confusão e dissimulação empregadas para encobrir a verdadeira natureza da operação.


A mais conhecida dessas táticas foi o uso de cortinas de fumaça lançadas por navios britânicos ao longo da costa, com o objetivo de proteger as forças de desembarque e ocultar os movimentos das embarcações de apoio. Outras estratégias de engano operaram em escala ainda mais ambiciosa. A mais notável foi a Operação Fortitude, uma manobra gigantesca de desinformação que criou exércitos fictícios, movimentou tanques infláveis, emitiu transmissões falsas e usou agentes duplos para convencer os alemães de que o desembarque principal ocorreria não na Normandia, mas em Pas-de-Calais. Hastings observa que os alemães “relutaram em transferir reforços para a Normandia, mesmo dias depois do desembarque real”, tamanha a eficácia do engodo.

A cortina de fumaça lançada na guerra não foi apenas física, mas também de comunicação — uma sobreposição de sinais falsos e distrações que ocultou a realidade sob a dissimulação construída meticulosamente. Algo semelhante ocorre na política brasileira: as movimentações antidemocráticas, inicialmente rejeitadas por setores conservadores, foram aos poucos ofuscadas por críticas e pelo realce a detalhes, até que finalmente desapareceram os fatos.

O 8 de Janeiro foi inteiramente desconstruído. Primeiro, enfatizou-se que as forças de segurança foram omissas e que o Ministério da Justiça sumiu com imagens de câmeras, lançando a suspeita de que tudo fora armado: ou era uma armadilha para estimular a manifestação a desandar ou o próprio quebra-quebra era ação de infiltrados de esquerda (24% da população brasileira acredita nessa tese conspiratória). Em seguida, o discurso conservador enfatizou as penas elevadas da Justiça e destacou entre os presos as mães de família e os idosos, como se fossem o perfil demográfico dominante.

Ao final, os conservadores consolidaram o entendimento de que o 8 de Janeiro não passou de uma manifestação de pessoas de bem, ordeiras, que saiu um pouco do controle, provavelmente por indução do governo Lula ou de infiltrados de esquerda. A agitação golpista nos acampamentos, a articulação com os generais golpistas, o objetivo de criar caos para induzir uma intervenção militar, o tombamento de torres de transmissão, o bloqueio de refinarias de petróleo, a paralisação de rodovias, tudo isso desapareceu sob a fumaça.

Aconteceu o mesmo com as minutas do golpe. No princípio, tudo era mentira, e elas nem sequer existiam. Depois, não passavam de conjectura. Acrescentou-se em seguida que tudo era constitucional, que, se fosse efetivado, passaria pelo rito de consultar o Conselho da República, o Conselho de Defesa e enviar ao Congresso Nacional. Como poderia haver tentativa de golpe sem Exército nas ruas? Onde estava o erro em cogitar acionar um mecanismo previsto na Constituição? Assim, sob tanta distração, desapareceu a realidade: a medida consistia em intervir no TSE para reverter o resultado eleitoral e prender um ministro do Supremo — e só não foi tentada porque o Exército a considerou golpista.

Há, porém, uma diferença crucial entre as cortinas de fumaça da guerra e da política. Enquanto os estrategistas militares sabiam exatamente o que encobriam, na política a névoa narrativa parece enganar os próprios autores. A ênfase em detalhes laterais — como o perfil dos manifestantes ou eventuais falhas processuais — desloca o foco dos fatos objetivos, que são desaprendidos com a repetição do discurso. O que começa como dissimulação deliberada se transforma, com o tempo, em crença genuína.

Não é tão diferente do mecanismo pelo qual a esquerda jogou tanta fumaça no esquema de corrupção que ligava Petrobras, empreiteiras e financiamento eleitoral, a ponto de hoje, para ela, parecer que tudo aquilo provavelmente não existiu ou não passou de pretexto para prender Lula e impedir que as empreiteiras seguissem fazendo o Brasil se desenvolver. Só que a cegueira induzida dos conservadores é mais grave que a cegueira induzida da esquerda, porque, no caso dos conservadores, o que desaparece é a ameaça à própria democracia.

De golpista a mártir: o teatro político de Bolsonaro

Faz parte das estratégias centrais dos novos movimentos de direita, que ao redor do mundo ameaçam a democracia, apresentar a si e seus líderes como vítimas. Donald Trump foi o precursor. O bilionário, que ao longo da vida violou repetidas vezes e de forma comprovada as leis, afirma estar sendo perseguido por um sistema judiciário injusto e politizado. Agora, porém, ele estaria se defendendo. Essa é sua justificativa para os ataques a figuras e estruturas centrais da democracia, que se baseia na divisão do poder e das decisões. Quando essa divisão deixa de existir, também deixa de existir a democracia.

O ex-presidente do Brasil Jair Bolsonaro e seu clã – admiradores de longa data e alunos aplicados do atual presidente dos EUA – tentam copiar essa estratégia de inversão entre agressor e vítima. Querem fazer os brasileiros e o resto do mundo acreditarem que não são eles os autores de uma tentativa de golpe de Estado, mas sim as vítimas de um suposto juiz ditatorial no STF. Já não resta dúvida de que o golpe de Bolsonaro só fracassou devido à resistência de alguns generais que não quiseram embarcar na aventura do capitão.


Diante desse fato, o clã Bolsonaro passou a investir em outra frente de combate: manter sua base mobilizada por meio de confusões calculadas, distrações constantes e imagens nas redes sociais que retratem Bolsonaro como a verdadeira vítima. Era exatamente esse o objetivo quando Bolsonaro, com a ajuda de seus filhos, violou deliberadamente a ordem judicial clara do ministro Alexandre de Moraes de se abster do uso das redes sociais, provocando assim a imposição da prisão domiciliar. Seria ingênuo acreditar que os advogados de Bolsonaro não o alertaram sobre essa consequência.

No círculo de Bolsonaro sabe-se muito bem que a tentativa de golpe permanece abstrata no imaginário da maioria dos brasileiros e, portanto, também facilmente negável. Já as imagens de um ex-presidente com tornozeleira eletrônica e em prisão domiciliar são concretas e permanecem na memória. Nas redes do bolsonarismo (e do trumpismo), hermeticamente fechadas à realidade e a qualquer forma de complexidade, essas imagens têm o efeito desejado: Jair, o salvador do Brasil, está sendo perseguido pelo poder.

Essa narrativa não se destina apenas ao público brasileiro, mas também a Donald Trump e seus capangas, como o secretário de Estado americano Marco Rubio. A tentativa de Trump de exercer pressão sobre o governo Lula por meio da ameaça das tarifas de importação mais altas do mundo não foi bem recebida no Brasil. A sociedade brasileira pode estar politicamente extremamente polarizada – mas a maioria dos brasileiros rejeita tentativas de ingerência externa nos assuntos internos do país; e compreende (espera-se!) o que significa separação de poderes.

Foi um erro de cálculo do clã Bolsonaro imaginar que, com ameaças totalmente desproporcionais, seria possível exercer tamanha pressão a ponto de fazer com que a denúncia contra Bolsonaro fosse arquivada ou que Lula concedesse anistia aos golpistas. No círculo de Bolsonaro isso parece já ter sido compreendido. Agora, trata-se de continuar alimentando a espiral de escalada e manter Trump engajado. O presidente americano deve continuar acreditando que há uma "caça às bruxas" contra Bolsonaro – assim como teria havido contra ele, o grande Donald.

É absolutamente legítimo criticar que o Supremo Tribunal Federal do Brasil seja sobrecarregado com decisões que pertencem ao campo da política. Também é válida a crítica às decisões monocráticas e ao excesso de poder que é atribuído a juízes individuais em casos específicos. O resultado são decisões muitas vezes tidas como impulsivas e excessivas, que colocam os juízes sob fogo cruzado. Cria-se a impressão de que há duelos pessoais entre juiz e acusado. Foi assim no caso Moro vs. Lula; e agora se repete no caso Moraes vs. Bolsonaro.

Por maiores que sejam os méritos de Moraes em defesa da democracia e do Estado de Direito, por não se deixar intimidar por aspirantes a ditador, seu protagonismo involuntário acaba servindo aos bolsonaristas. Pois, naturalmente, apresentam a situação como se Moraes estivesse em uma cruzada pessoal contra Bolsonaro e seus seguidores – quando, na verdade, trata-se de um processo judicial contra criminosos.

Seria bom que o caso Bolsonaro chegasse logo ao fim e que o ex-presidente fosse condenado a uma pena de prisão justamente merecida (que, como de costume no Brasil, ele de todo modo não cumpriria integralmente). Também seria desejável que os conservadores brasileiros se libertassem do feitiço maligno de Bolsonaro e de seu clã. Há tempo demais o país não se ocupa com a modernização necessária em quase todas as áreas (que também não está sendo promovida pelo governo Lula), mas sim com os assuntos familiares e as fantasias de onipotência desse senhor paranoico e medíocre.

Bolsonaro, o espelho do 'homem da providência'

Depois de O filho do século e O homem da providência, a Editora Intrínseca acaba de lançar em português Os últimos dias da Europa. É o terceiro livro da tetralogia escrita pelo escritor italiano Antonio Scurati – uma reconstrução a um só tempo crítica e romanceada do ditador italiano Benito Mussolini, unindo ficção, ampla base documental e uma rigorosa pesquisa histórica sobre a ascensão do fascismo em um período de crise das democracias liberais e dos Estados de Direito, nas primeiras décadas do século 20, e sobre o declínio da direita autoritária após a derrota da Alemanha e da Itália na Segunda Guerra Mundial.

Além de colunista do jornal milanês Corriere della Sera – um dos mais importantes da imprensa europeia – e do respeitado La Stampa, criado em Turim há 158 anos, Scurati é professor de Literatura Comparada na Universidade de Comunicação e Línguas (IULM) de Milão, e sua tetralogia – que tem a interação entre ideologia autoritária e Estado como seu fio condutor – é fascinante. Dos diferentes ângulos, períodos históricos e bibliográficos dessa sua obra, destaca-se o segundo volume – O homem da providência, livro que trata da consolidação do regime fascista na Itália. Para o leitor brasileiro, a razão desse destaque é, guardadas as devidas distâncias históricas, a proximidade entre Mussolini e sua versão tupiniquim, Jair Messias Bolsonaro – um político da extrema direita que jamais foi educado ou adestrado nos valores republicanos.


Este último é uma cópia ainda mais borrada do que o primeiro, a começar pelo fato de ambos sofrerem de severa prisão de ventre – o primeiro, em decorrência de uma úlcera duodenal, e o segundo, em razão das facadas que o atingiram no atentado de Juiz de Fora. Questões de necessidades físicas à parte, ambos, igualmente, têm o mesmo lema político – “Deus, Pátria e Família”, repetem os bolsonaristas, traduzindo do italiano o lema fascista “Dei, Patria e Famiglia“.

Ambos também se valem da defesa dos valores familiares, dos costumes e da tradição como instrumento político para “reeducar o povo”. E como para Scurati “o fascismo é uma religião e o verbo sagrado de todas as religiões, desde sempre, é obedecer”, os dois também têm forte penetração em meios religiosos. Enquanto o primeiro era apoiado por “acólitos e idióticos”, segundo o escritor italiano, o outro é muito popular entre militares de baixa patente e evangélicos e seus pastores de fala gutural, com o olhar voltado ao dízimo e o uso inconsequente de citações bíblicas para oferecer ilusões.

Não bastasse isso, enquanto Mussolini promovia a expulsão do funcionalismo da administração pública que não aderisse às diretrizes políticas do governo fascista e ao mesmo tempo alimentava o medo e transformava-o em ódio ao outro, a quem pensa racionalmente, e afirmava que a cultura universitária deveria “ser assimilada rapidamente e expulsa com a mesma velocidade”, em seu governo, Bolsonaro partiu da palavra para a ação. Uma de suas iniciativas foi asfixiar financeiramente as universidades federais e os centros públicos de pesquisa do País.

Carismático, mas culturalmente limitado, Mussolini atraía, entre outros, “fanáticos incapazes de ver com clareza as próprias ideias”, pessoas “broncas, medíocres, obtusas e ignorantes” fascinadas pela marcha sobre Roma, lembra o autor italiano. Para quem viu pela televisão a passeata entre as portas do Comando do Exército em Brasília e os ataques tresloucados das hordas bolsonaristas ao Palácio do Planalto, aos prédios do Senado e da Câmara e ao plenário do Supremo Tribunal Federal no 8 de janeiro de 2023, as palavras com que Scurati descreve a marcha sobre Roma dos fascistas italianos, em 1922, também não podem ser usadas para traduzir o perfil dos bolsonaristas fanáticos que atentaram contra a democracia?

Uma das passagens mais envolventes de O homem da providência está na menção à incompatibilidade entre inteligência e fascismo – uma suposição feita pela primeira vez por Benedetto Croce, um importante político de formação liberal e respeitado professor de filosofia durante a primeira metade do século 20. O modo como essa incompatibilidade entre cultura e fascismo foi apontada pelos intelectuais antifascistas durante os anos de 1920 e 1930 na Itália, ao denunciar os “raciocínios mal desenvolvidos de seus adversários mussolinistas para justificar deploráveis violências e prepotências”, como a censura à imprensa, também pode ser identificada entre nós no fenômeno bolsonarista, onde extremismo ideológico e cultura são como água e azeite.

Ambos, Mussolini e Bolsonaro, se destacam por uma visão simplificadora dos fatos, por desacreditar o Judiciário e por análises rasteiras e enviesadas dos acontecimentos, reduzindo a complexidade dos problemas reais a um único inimigo – os comunistas, os corruptos, os vagabundos e os não patriotas, por exemplo. Ou seja, “os desajuizados que renegam a Pátria”. Por consequência, cada um a seu modo almeja a submissão de todos, ao mesmo tempo em que dissemina a barbárie, sob a forma do culto à violência física e/ou simbólica fundada na premissa do confronto permanente – quem não é amigo é inimigo e, como tal, tem de ser afastado, expulso e até assassinado.

Foi o que ocorreu, por exemplo, com o líder socialista Giacomo Matteotti, morto por milícias fascistas após ter denunciado a fraude nas eleições de 1924. E, também, quando Bolsonaro elogiou, no plenário da Câmara dos Deputados, um de seus ídolos, o coronel Brilhante Ustra, torturador do regime militar, por ter sido o que classificou como “pavor de Dilma Rousseff” no período em que ela ficou presa nos porões da ditadura. E, igualmente, quando os militares golpistas de 8 de janeiro de 2023 cogitaram assassinar o presidente, o vice-presidente da República e um ministro do STF.

Em suma, o segundo e o terceiro livros da tetralogia de Scurati têm como fio condutor a análise da concepção fascista de uma hierarquia política e governamental baseada na vontade do chefe – o Duce. Como dissociar essa postura antiliberal e antidemocrática das concepções políticas autoritárias de Bolsonaro, que em vários discursos fez as seguintes afirmações: “Eu respeito as instituições, mas devo lealdade apenas a vocês, o povo. Vocês tiveram coragem de romper o continuísmo, o populismo, a demagogia que esse Brasil viveu ao longo dos últimos 30 anos” (2019); “Eu sou a Constituição” (2020); “A temperatura está subindo. O Brasil está no limite. O pessoal fala que eu devo tomar uma providência. Estou aguardando o povo dar uma sinalização” (2021); “Não roubei, não matei ninguém, não trafiquei ninguém. Isso aqui [a tornozeleira eletrônica] é um símbolo da máxima humilhação. Sou uma pessoa inocente. O que vale para mim é a lei de Deus” (2025)?

As três primeiras falas foram feitas quando estava no poder, a que chegou menos por seu talento e capacidade estratégica, mas por oportunismo, torpeza e desídia. Primando não mais pela arrogância, mas agora por um estilo choroso, a última fala foi feita após os crimes a ele imputados pela Procuradoria Geral da República em processo aberto no Supremo Tribunal Federal, como liderança de organização criminosa, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, danos contra o patrimônio da União e deterioração de patrimônio tombado.

O personagem central de O homem da providência é um político hoje morto que serviu de espelho para outro ainda vivo – e que depende de uma improvável anistia para sobreviver na vida política. É por isso, mesmo estando o “mito” nos dias de hoje muito mais próximo de uma cela em algum presídio do que uma sala no Palácio do Planalto, que sua leitura é imperdível.

quinta-feira, 7 de agosto de 2025

Aristóteles e aquela coisa da perceção

O Observatório de Segurança e Defesa (OS&D) da SEDES levou a cabo um estudo, realizado entre 2000 e 2024, onde conclui que o número de crimes registados diminuiu 1,3 por cento. Apesar disso, a referência à criminalidade nas primeiras páginas dos principais jornais nacionais aumentou 130%, o que demonstra uma discrepância brutal entre a criminalidade participada e a perceção pública da insegurança. O relatório de 2025 da SEDES conclui assim que este contraste contribui para o processo de destruição da confiança nas instituições.

O relatório alerta não apenas para esta profunda discrepância mas também para outro facto bem revelador de persistência mediática: “Um crime ficava nas notícias 2,6 dias. Agora, são mais de quatro dias.” Importa, portanto, tentar compreender a razão de ser desta aparentemente estranha situação.

Não apenas noticiar mas dissecar até à exaustão todo e qualquer crime, em especial aqueles que apresentam contornos mais hediondos, por parte da imprensa mas sobretudo das televisões, com particular incidência nos canais de notícias por cabo, é o pão nosso de cada dia. Pode-se admitir que tal se deve à ideia de que as audiências gostam de sangue, uma necessidade humana que se atesta desde sempre, como nos tempos do império romano, quando o povo apreciava presenciar lutas de morte entre gladiadores, no Coliseu de Roma e cristãos atirados às feras.


As redes sociais vieram desafiar a prática do jornalismo sério, enquanto mediação comunicacional, cujos profissionais estão sujeitos a um código deontológico, incluem o contraditório e pugnam pela imparcialidade. Ao contrário, as redes sociais limitam-se a propagar falsidades, não verificam os factos, não exercem o direito ao contraditório e não apresentam quaisquer pruridos éticos, tendo apenas como alvo estimular o algoritmo, as visualizações, os likes e as partilhas. Para não falar das contas falsas criadas apenas para propalar a mentira. Em consequência, algum jornalismo deixou-se afetar, nalguns casos, alterando as suas orientações editoriais e trocando a confirmação dos factos, a seriedade das fontes e o objetivo de informar de forma isenta, que sempre constaram do seu ADN, pela voracidade do imediato e a espuma dos dias.

Mas o facto é que a cobertura mediática excessiva da violência, guerra e crime muitas vezes decorre de algumas intervenções políticas, em particular de partidos que utilizam a criminalidade como arma política, levando de arrasto a comunicação social e gerando assim uma falsa perceção de insegurança e um sentimento de medo. Segundo um porta-voz daquela associação, “as redes sociais são um vetor de insegurança por desinformação”. Esse ruído comunicacional origina inevitavelmente especulação, tendência para o justicialismo e o discurso securitário, que vão depois alimentar todos os populismos de esquerda e direita.

A tão badalada perceção subjetiva de insegurança que os cidadãos experienciam, e que mina a confiança nas instituições democráticas e no estado de direito, contribui ainda para comprometer o desenho, desenvolvimento e eficácia das políticas públicas, levando governos e instituições da administração a agir em nome de perceções e não dos factos em si mesmos. Schopenhauer sabia que “O primeiro passo no caminho do pensamento crítico é entendermos que a percetibilidade de algo não implica a existência desse algo”.

Até mesmo os fenómenos que divergem das tradições, usos e costumes da ordem social contribuem para a perceção individual da insegurança, em particular nos indivíduos mais velhos.

Uma vez que a segurança é essencial para o desenvolvimento harmonioso duma sociedade, é óbvio que a informação ocupa lugar central nessa matéria, na medida em que pode estimular a barbárie ou o civismo.

Aristóteles dizia que “O valor fundamental da vida depende da perceção e do poder de contemplação ao invés da mera sobrevivência.” O mal é que muitos andam apenas a tentar sobreviver em vez de afinarem as suas perceções, recebendo sem critério todo o lixo que lhes impingem.

Jogando Bolsonaro ao mar

Já aconteceu antes. Era uma vez um político que, legitimamente eleito, vestiu a farda de ditador e tentou impor ao mundo seu estilo de governar —intimidar, dividir, desestabilizar, perseguir, humilhar, subjugar, expulsar e tocar o terror. Com que fim? O de estabelecer sua bolha, expandir sua dominação, consolidar seu poder. Para isso, valeu-se também de recuar, contradizer-se, abandonar parceiros e parecer imprevisível —como alguém pode se defender se não sabe como será o ataque?


Quem é? Adolf Hitler? Não. Donald Trump. Veem-se nos dois essas mesmas táticas e estratégias e em função de igual objetivo: a implantação de um Reich planetário —um império gigante, totalitário, quaquilionário, livre de pretos e morenos e, se possível, imortal. Mas não é tão fácil. O de Hitler, de sólidas engrenagens e que ele garantia que iria durar mil anos, parou nos 12. O de Trump não chegará nem perto. Seu titular é instável e ignorante demais para executar um programa —qualquer um.

Já podemos avaliá-lo por suas investidas contra o Brasil. Ao sequestrar a economia brasileira supostamente em defesa de Bolsonaro, Trump só conseguiu o contrário: alertou os indecisos para o fato de que o "Brasil acima de tudo" era conversa fiada e afundou Bolsonaro nas pesquisas. Seguindo esse raciocínio, quanto mais Trump prejudicar o país, em função de um homem que 60% da população quer ver na cadeia, só piorará a situação de Bolsonaro e dos que o apoiam. Isso inclui a banda do Congresso que, neste momento, aparenta defender Bolsonaro e que o abandonará assim que sentir a mudança do vento.

Com ou sem Trump, Bolsonaro será julgado, condenado e preso, com hora certa para apagar a luz da cela. E não será surpresa se, mais ocupado com um escândalo interno por pedofilia e por suas disputas com a Rússia, Trump, como já fez com tantos, virar as costas a Bolsonaro —que, por sinal, ele só viu duas vezes na vida, talvez uma.

Os dois têm uma coisa em comum: não vacilam em jogar os amigos ao mar.

American Revolution

Os Estados Unidos da América sempre constituíram uma nação violenta, que exterminou os povos indígenas nativos das Américas; promoveu a trágica imigração compulsória e a escravidão dos povos da África Subsaariana; incorporou os territórios colonizados por espanhóis e franceses; e promoveu a Marcha para o Oeste. Os norte-americanos, em sua história, assistiram a vários assassinatos de presidentes, candidatos e figuras públicas. Quatro presidentes foram assassinados em exercício, Abraham Lincoln em 1865, James Abram Garfield em 1881, William McKinley em 1901 e John Fitzgerald Kennedy em 1963. A América, “terra dos livres e lar dos valentes”, que se transformou no país imperialista por excelência, interfere na economia e na política de todos os demais países, explora o mundo inteiro e intervém militarmente em outras nações de acordo com a sua conveniência. Os norte-americanos são racistas em relação a afrodescendentes, hispanos, orientais etc. e, com seus dólares, acham que são os donos do universo. Yankee go home!

Os militares brasileiros, por sua vez, acham que “o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”. Mas, os mineiros de Governador Valadares foram mais longe ainda e acham que melhor mesmo é viver na América, em Orlando ou em Boston, assim como os brasileiros ricos acham que melhor mesmo é viver em Miami.

Contudo, além de violentos e imperialistas, os Estados Unidos também sempre foram uma nação revolucionária, a começar por abrigar os europeus expulsos pelo processo de acumulação primitiva do capital e os indesejados por questões religiosas – ingleses, holandeses, alemães, escoceses, irlandeses, suíços e franceses. Soma-se a Revolução Americana de 1776 e a guerra de independência em relação à Inglaterra; a Guerra Civil com a vitória dos estados do norte, progressistas e contrários à escravidão; a abertura dos portos para os novos imigrantes da Itália e do Leste Europeu etc.

O movimento libertário anarquista era muito expressivo entre os operários nos Estados Unidos no final do século XIX e início do século XX. A Chacina de Chicago de 1886 foi responsável pela instituição do 1º de maio como Dia Internacional dos Trabalhadores. Os anarquistas eram socialistas, contra qualquer forma de opressão, principalmente do Estado; e antimilitaristas por natureza, contra as guerras entre os estados nacionais. Depois da Primeira Guerra Mundial e da Revolução Russa, os anarquistas foram duramente reprimidos na América, que temia uma revolução em escala mundial, foram presos e deportados, numa perseguição muito mais dura que aos comunistas no período do macarthismo da Guerra Fria.

Após a Segunda Guerra Mundial, em que desempenharam um papel decisivo para a derrota do Eixo e a libertação da Europa Continental, os Estados Unidos e a União Soviética passaram a dividir o globo terrestre. Nos anos 1960, em plena Guerra Fria, cresceu o movimento contracultura e contra a Guerra do Vietnã nos Estados Unidos. Em 1971, enquanto Imagine do inglês John Lennon, em ritmo zen, se transformava no hino internacional contra as guerras, sugerindo que as pessoas imaginassem o mundo todo vivendo a vida em paz; nos Estados Unidos, Blowin’ in the wind de Bob Dylan, inspirado no ritmo spiritual negro revolucionário de No More Auction Block, incendiava os jovens, desde 1963, perguntando quantas mortes ainda serão necessárias até que se saiba que muitas pessoas já morreram.

John Lennon, durante a apresentação dos Beatles à Rainha e à família real na Inglaterra, disse: “Gostaria de pedir a ajuda de vocês. Para as pessoas nos assentos mais baratos, batam palmas; e os demais, se quiserem, apenas chacoalhem suas joias”. Os americanos, no entanto, não têm rainha nem corte para se debaterem em vão, sua agressividade flui naturalmente – para um brasileiro, pode ser muito difícil conceber, mas mesmo as pessoas em situação de rua e os indigentes são altivos e possuem um forte senso de seus direitos como cidadãos. Sid Vicious, do Sex Pistol, era uma afronta na Inglaterra, mas não conseguia entender a cultura dos Estados Unidos e teve a sua agressividade neutralizada pela sociedade norte-americana. Agressivo no palco, ele levou uma surra lascada na saída do espetáculo. Sid Vicious morreu de overdose em 1979, quatro meses depois que a sua namorada norte-americana, Nancy Spungen, foi assassinada – Sid era o principal suspeito do crime – no Hotel Chelsea em que viviam, a poucas quadras do apartamento em que eu morava em Nova York. Em 1980, o inglês John Lennon também foi assassinado nos Estados Unidos.

As velhinhas norte-americanas de tailleur são muito mais perigosas do que os punks ingleses. Eu estava num ônibus quando subiu um número exagerado de pessoas. Uma senhora idosa e muito elegante sentou-se a meu lado e contou que o motorista do outro ônibus desceu todos os passageiros porque seu substituto falhara e o carro iria para a garagem. Cansado de ouvir a mulher ficar reclamando, me referi ao bom tempo que fazia. A velhinha não se fez de rogada – “se estivesse chovendo eu teria dado um tiro na cabeça do motorista”. Fiquei torcendo para que o tempo não virasse.

Martin Luther King e Robert Kennedy foram assassinados em 1968 sem que a ordem pública e as instituições dos Estados Unidos fossem abaladas. Pelo contrário, as instituições democráticas norte-americanas foram reforçadas depois desses assassinatos. Numa palestra, conheci um senhor, já muito idoso, que havia sido amigo de Luther King. Contou que fazia parte da primeira turma em que um negro se titulou advogado, talvez na Columbia University, não me recordo exatamente; e, no discurso de formatura, para parabenizar o formando, o reitor disse que esperava que ele emigrasse para a Libéria.

O amigo de Luther King, para elucidar a vitalidade que beira à violência, contou que, uma vez, colocou um anúncio no jornal, para contratar uma secretária, e que apareceu uma candidata que simplesmente não tinha nenhuma das qualificações listadas no anúncio, nenhuma; ele também não teve nenhuma dúvida e contratou a ousada candidata no ato. Outra vez, ele estava na rua esperando um táxi de uma agência, que tinha contactado ao telefone. Um automóvel parou, o motorista abriu a porta e ele entrou, achando que era o táxi que havia solicitado – não era. O motorista, recém-chegado à cidade, sequer conhecia as ruas de Nova York, mas havia percebido que ele estava aguardando um carro. O senhor teve que indicar o caminho e disse para nós que isso é que era o nova-iorquino, que esse motorista furão, com toda sua garra e cara de pau, certamente iria aprender a dirigir na cidade em tempo recorde… e o que mais?

Na época da palestra, 1991, os Estados Unidos estavam metidos numa crise econômica séria e falava-se muito em violência. O senhor idoso disse que, nas primeiras décadas do século XX, no tempo das máfias italianas, judias e irlandesas, nem mesmo a polícia tinha coragem de sair para a rua depois das oito horas da noite. A energia do amigo de Luther King era tão forte, que fiz questão de ir apertar a sua mão no final da palestra. Não falei nada, só queria pegar na mão dele.

Ao visitar o Museu da Imigração em Ellis Island, li um depoimento de uma agente da imigração contando a entrevista com uma senhora recém-chegada nas primeiras décadas do século XX, com suspeita de debilidade mental. Se a suspeita fosse confirmada, a mulher não seria admitida em território americano e teria que retornar ao país de origem. O teste psicológico incluía algumas questões. Perguntaram se, quando ela lavava uma escada, lavava de baixo para cima ou de cima para baixo. A mulher ouviu a pergunta, ficou pensativa e disse, finalmente – “eu não vim para a América para ficar lavando escadas não”.

Para Karl Marx, a Inglaterra, o país que inaugurou o Capitalismo Industrial e que detinha a hegemonia internacional no século XIX, seria o palco da Revolução Socialista. Mas o seu fiel parceiro Friedrich Engels, que lhe sobreviveu, se lamentou que a classe operária inglesa havia se aburguesado. Posso estar errado, mas minha intuição me leva a crer que, com a perda da hegemonia internacional deste tigre de papel e o fiasco Trump, os Estados Unidos estão fadados a herdar o papel atribuído à sua antiga metrópole e liderar a Revolução Socialista Internacional.

Que o povo norte-americano, com coragem, se levante na luta final pela Internacional!

(Poderiam dizer que o autor está forçando a barra, quer o socialismo a qualquer custo, pois, outro dia, neste mesmo veículo, postou um artigo dizendo que é a China que, por linhas tortas, está fadada a implodir e superar o reino da mercadoria)
Samuel Kilsztajn

O trabalho que enlouquece

Trabalho é uma coisa boa, ou uma coisa ruim?

Nós crescemos num ambiente de feroz dualidade. Na vida informal, todo mundo reclama do trabalho e elogia a diversão. Todo mundo odeia a segunda-feira. Todo mundo celebra o fim-de-tarde da sexta (é a cultura do SEXTOU!), porque vem por aí o fim de semana que implica em descanso ou divertimento.

Por outro lado, o discurso ideológico no diz que “o trabalho enobrece”, “o trabalho dignifica”, e quando esse argumento de índole moral não é o bastante, nos dizem que “sem trabalho ninguém sobrevive”, “sem trabalho você não vai ter como financiar o seu lazer, nem os seus prazeres, nem sequer os seus vícios”.

Há divergências, é claro, mas todos nós ouvimos variações desse discurso. O trabalho é ruim, mas é necessário. Quer dizer então que não existe trabalho bom?

Curiosamente, há pelo menos duas categorias profissionais em que já ouvi dezenas de vezes algo assim: “Sou um cara de sorte, porque me pagam uma boa grana para fazer a coisa que eu mais gosto no mundo!” Esses profissionais são os músicos e os jogadores de futebol. Mesmo quando o cara ganha apenas o suficiente para sobreviver sem sustos ele se acha um cara de sorte. Porque gosta muito do que faz.

Há muitos outros, sem dúvida. Deve haver mais gente nessa faixa do que imaginamos. Publicitários. Professores (sim, alguns ganham bem). Motoristas. (Conheci motoristas profissionais que diziam: “A única coisa que eu gosto é dirigir.”)

Quero falar, porém, do extremo oposto. Dos trabalhos que ninguém quer executar, e só executa porque está MUITO precisado de dinheiro. Já tive um professor de Economia que usava sempre o “limpador de fossas sanitárias” como exemplo do trabalho detestável, mas socialmente imprescindível. (Como dizem nos filmes norte-americanos: “It’s a dirty job, but someone has to do it”.)

Trabalho de estivadores, carregando peso na cabeça. Cassacos de engenho, cortando cana num sol de 40 graus. Empregadas domésticas esfregando diariamente cada centímetro de uma casa enorme.


Alguém executaria esses trabalhos, se não fosse pago? Somente por diversão, por exercício? Ou (como tantas vezes dizemos) “para adquirir experiência de vida”? Talvez – se for o caso daquela pessoa que, depois de adquirida a experiência de vida, volta para seu apartamento com ar condicionado, manda trazer cervejas e conta para os amigos: “Eu tive duas semanas que me ensinaram muitas coisas importantes”. Vida que segue.

É diferente a situação de quem está preso a uma classe social e não tem nenhuma rota de fuga, provavelmente vai ter que pegar-no-pesado pelo resto da vida. Alguém pode até tentar se consolar, pensando que é melhor uma mercadoria entregue do que uma mercadoria parada, ou uma casa limpa do que uma casa suja. Existe algum propósito no que está fazendo, existe alguma utilidade. “Eu estou aqui me matando, dirigindo esse ônibus no sol do verão, mas as pessoas vão chegar em casa com segurança.”

O problema é que na maioria desses empregos brutais a relação patrão-empregado é mais brutal ainda. O patrão, em vez de atenuar os desconfortos, procura torná-los ainda mais cruéis, para que o trabalhador não esteja ali defendendo a feira da semana, e sim a própria vida.

Já vi patrão, em momento descontraído à mesa de um bom restaurante, comentar: “Eu podia pagar ao meu pessoal o dobro do que pago, não ia abalar um fio de cabelo nas minhas finanças. Mas aí eles iam começar a gastar dinheiro, a se inchirir, a arranjar distrações, a querer melhorar de vida... Comigo não!...”

Há uma pequena parábola, que li na infância, provavelmente na revista Sesinho, editada por Vicente Guimarães (o tio de Guimarães Rosa, vejam só). Era a revista recreativa do Serviço Social da Indústria (Sesi), que meu pai recebia todo mês.

O autor da parábola contava ter chegado a um canteiro de obras onde estava sendo erguida uma catedral. Perguntava ao primeiro operário: “O que você está fazendo?” O homem respondia, secamente: “Quebrando pedras.” Ele perguntava o mesmo ao segundo, que respondia, resignado: “Estou ganhando o sustento da minha família.” E depois a um terceiro, quase eufórico, que explicava: “Você não vê? Estou construindo uma catedral!”.

São níveis diferentes de envolvimento, mas em todos eles existe um mínimo de sentido. De projeto pessoal. Mesmo o cara que está quebrando pedras pode extrair certo prazer do ato de quebrar uma pedra bem certinha. Ou então de visualizar na pedra a carantonha do capataz, e descer-lhe a marreta. Algum prazer a gente sempre encontra.

Existe um outro tipo de trabalho, no entanto, que é a versão grotesca do trabalho desagradável. É o trabalho propositalmente absurdo, que não resulta em nada, não beneficia ninguém, e é imposto a uma pessoa como castigo, ou como processo de enlouquecimento deliberado.

Prisioneiros são muitas vezes obrigados a tarefas sem sentido – passar a manhã inteira cavando um buraco, e a tarde inteira recolocando a terra no lugar, todos os dias, no mesmo local, sob vigilância. (Me pergunto às vezes se a vigilância disso não será, também, uma forma de punição.)

Algumas cadeias obrigam os prisioneiros a marchar sem parar, em círculo, para se desgastarem fisicamente, e também para facilitar a vigilância. Van Gogh pintou um quadro famoso sobre esse tema, que aparece também em filmes como Irma La Douce de Billy Wilder e Laranja Mecânica de Stanley Kubrick.

São atividades desgastantes, sem sentido, sem resultado. Uma forma de cansar o corpo e de embotar a mente através da repetição sem propósito.

A revista eletrônica Jacobina publica uma entrevista do antropólogo norte-americano David Graeber, em que ele comenta os diferentes graus de necessidade ou de absurdo no trabalho. Destaco aqui alguns trechos.

.Você pergunta a qualquer marxista sobre trabalho e valor-trabalho, eles sempre vão imediatamente para a produção. Bem, aqui está uma xícara. Alguém tem que fazer a xícara, é verdade. Mas fazemos um copo uma vez e lavamos dez mil vezes, certo? Esse trabalho simplesmente desaparece por completo na maioria desses relatos. A maior parte do trabalho não é produzir coisas, é mantê-las iguais, é mantê-las, cuidar delas, mas também cuidar de pessoas, cuidar de plantas e animais. 

Em teoria, você está recebendo algo por nada, você está sentado aqui sendo pago para fazer quase nada, em muitos casos. Mas isso simplesmente destrói as pessoas. Há depressão, ansiedade, todas essas doenças psicossomáticas, locais de trabalho terríveis e comportamento tóxico, agravados pelo fato de que as pessoas não conseguem entender por que tem motivos justos para estar tão chateadas.

Porque, sabe, por que estou reclamando? Se eu reclamar com alguém, eles vão dizer: “Pô, você está ganhando algo por nada e ainda está reclamando?” Mas isso mostra que nossa ideia básica da natureza humana, que é inculcada em todos pela economia, por exemplo – que todos nós estamos tentando obter a maior recompensa com o mínimo de esforço – não é realmente verdade. As pessoas querem contribuir com o mundo de alguma forma. Então, isso mostra que se você dá às pessoas uma renda básica, elas não vão sentar e assistir TV, o que é uma das objeções.
Braulio Tavares

quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Pensamento do Dia

 


'Por quanto tempo mais ficaremos parados?'


Estou na França, em Toulon,
Visitando minha filha, o verão está chegando.
O mar é quente, a luz é dourada,
Meu neto ri — estou envelhecendo.
Subimos as colinas, ainda através de aldeias,
Uma fonte canta, nós bebemos até nos fartar.
Pão e queijo sob as árvores,
Caprice des Dieux e a brisa do oceano.

Naquela noite eu acordo antes do dia,
A casa dorme, meus pensamentos não param.
Um jornal na língua de um estranho —
Números de jovens assassinados.
Gráficos e tabelas, nomes apagados,
Crianças perdidas e mães perseguidas.
Eu vi os pedágios de 48 —
A contagem sobe alto, o mundo espera.

Por quanto tempo mais ficaremos parados?
Quanto silêncio é preciso para matar?
Enquanto eu como queijo na Provença,
Uma criança morre com os lábios secos, sem nunca ter tido uma chance.
Por quanto tempo mais teremos que fingir
Que o conforto é a paz e o silêncio um amigo?
Quanto tempo mais?
Quanto tempo mais?

Ela mora no mesmo mar azul,
Mas ela não pode ir embora, ela não pode ser livre.
Nenhum barco para Gaza, nenhum socorro,
Sem pão, sem água, apenas tristeza.
Eu tenho tudo, ela não tem nada —
O céu acima, um sol escaldante.
Quando tudo se vai, a morte preenche o espaço,
Com a mão da fome, com o abraço da guerra.

Eles sabem — os ministros e os homens,
Aqueles que juram “Nunca mais”.
Eles sabem que não é “muito complexo para ver”,
Mas genocídio se desenrolando em uma tela.
Ainda falam de “equilíbrio”,
De “sombras” e “diplomacia”.
Mas o silêncio é uma escolha,
E o silêncio é uma arma.

Por quanto tempo mais ficaremos parados?
Quanto silêncio é preciso para matar?
Enquanto eu como queijo na Provença,
Uma criança morre com os lábios secos, sem nunca ter tido uma chance.
Por quanto tempo mais teremos que fingir
Que o conforto é a paz e o silêncio um amigo?
Quanto tempo mais?
Quanto tempo mais?

Isto não é 1942,
Não Ruanda, não é notícia velha.
Isto é agora — enquanto as flores desabrocham,
O jantar é servido em uma sala silenciosa.
Vejo meu neto perseguindo a luz,
E saiba que uma criança morreu em Gaza ontem à noite.
Uma risada terminou antes de começar —
Um nome apagado pelas mãos de um soldado.

Por quanto tempo mais ficaremos parados?
Quanto silêncio é preciso para matar?
Enquanto rolamos, bebemos e dormimos,
As sepulturas crescem, as feridas são profundas.
Não somos inocentes — não mais.
Cada boca calada, cada porta que se fecha.
Quanto tempo mais?
Quanto tempo mais?

Por que o bolsonarismo voltou às ruas?

Ao que tudo indica, o bolsonarismo voltou às ruas. Já não se veem as multidões impressionantes de 2016 a 2020, tampouco as mobilizações alcançam a escala nacional dos tempos gloriosos do movimento —mas cumprem bem a função que o consórcio Bolsonaros-Malafaia lhes designou.

Em uma época em que a presença digital e a política institucional são, de longe, mais efetivas do que 30 ou 40 mil pessoas aglomeradas ao redor de um carro de som, "as ruas" passaram a ter valor sobretudo simbólico e psicológico.

A nova extrema direita aprendeu com a esquerda tradicional, igualmente populista, que "ocupar as ruas" com multidões mobilizadas confere a qualquer causa um selo de legitimidade que a política institucional raramente alcança. Nesse sentido, 50 mil pessoas reunidas num domingo teriam mais valor simbólico como expressão da soberania popular do que os 513 deputados eleitos e os 120 milhões de votos depositados nas urnas.


Reunir uma multidão é enviar uma mensagem: se querem saber o que o povo quer, eis aqui o povo manifestando sua vontade. Com isso, o populismo de direita derrota a esquerda no seu próprio jogo, já que esta, que antes dominava nitidamente as praças, já não consegue, como antes, levar multidões significativas às ruas —salvo em ocasiões excepcionais. E é aí que entra o segundo ponto de interesse da extrema direita nas manifestações de rua: se é legitimidade o que está em jogo nesse exibicionismo, tamanho é documento, sim —e "as nossas manifestações são maiores do que as suas".

O que explica, naturalmente, o despeito que os exibicionistas de multidões costumam nutrir pelo "povo da USP" —o Monitor do Debate Político, liderado por Pablo Ortellado—, que introduziu critérios rigorosos e transparentes para estimar o número real de participantes em atos públicos, retirando do jogo de interesses a prerrogativa de inflar livremente o tamanho das massas mobilizadas.

Durante anos, foi fácil esticar os números até a escala assombrosa das centenas de milhares —ou mesmo do milhão—, até que os cientistas "encolhedores de multidões" estragaram a brincadeira e lembraram que política não se faz (só) com hipérbole.

Mas a questão não é apenas por que o bolsonarismo aprecia exibir grandes multidões, e sim por que elas voltaram a se reunir com mais frequência. A resposta está em outra função desses protestos: seu papel na reafirmação identitária e na compactação ideológica do grupo. Ao ocupar as ruas, o movimento mede seu próprio tamanho, reativa laços de pertencimento e renova a convicção de que ainda tem força.

Pessoas se dispõem a sair de casa e protestar quando se identificam fortemente com os outros manifestantes, acreditam que um valor essencial ou a sobrevivência do grupo está em risco ou sentem urgência diante de uma ameaça. Todas essas condições estão presentes para os bolsonaristas, desde que as narrativas sobre "a ditadura de Alexandre de Moraes" e a perseguição injusta a Bolsonaro foram plenamente incorporadas pelo movimento. As manifestações são, então, atos de autodefesa tribal, de sobrevivência da própria identidade.

É o "ninguém larga a mão de ninguém" de um grupo que faz da vitimização a principal estratégia de coesão e mobilização. Poucas coisas são tão eficazes para reforçar uma identidade e produzir o senso de "ou nos juntamos ou estamos perdidos" do que a convicção de estar cercado, ameaçado e sob ataque.

Nisso, o consórcio Bolsonaros-Malafaia é especialmente eficaz. Sabe que o bolsonarismo se move por medo e indignação, sentimentos que precisam de um bicho-papão para serem suscitados. Se o antipetismo perdeu apelo político, ou ficou menor que o antibolsonarismo — como comprova o fato de Lula ter sido reeleito em 2022 —, o novo monstro que frequenta os pesadelos é Alexandre de Moraes.

Se a Lula se odiava por corrupto, a Alexandre se odeia por ditador. Sem sombra de dúvida, o antialexandrismo é o antipetismo desta estação, assim como o sentimento anti-STF é a nova versão da antipolítica que protagonizou a eleição de 2018. Assistimos, em tempo real, ao bolsonarismo reciclando um mobilizador de fúria política e fabricando coletivamente a cola que une sua militância — ingredientes essenciais para pôr, mais uma vez, multidões indignadas nas ruas.

Eis por que a massa bolsonarista se agita, nas ruas e nas redes, para defender o que as narrativas do movimento garantem estar sob ataque: sua própria existência enquanto movimento político e moral. A ameaça, como convém, tem nome e rosto: o juiz-ditador, o monstro desta estação.

Ofensivas de Trump apenas vulgarizam o que as big tech já fazem desde sempre

É 2012 e pesquisadores do Facebook realizam experimento de manipulação psicológica com algoritmos e chocam-se ao perceberem que esqueceram que a plataforma foi criada para ranquear estudantes de forma misógina. É 2015: pesquisadoras identificam que recursos do Facebook ocultaram mobilizações do Black Lives Matter. É 2017: massacres em Myanmar levam à fuga de centenas de milhares – Anistia Internacional aponta papel da promoção algorítmica do ódio. É 2018, o escândalo da Cambridge Analytica reforça o poderio das big tech em influenciar eleições. É 2021, funcionários da Google e Amazon protestam contra o Projeto Nimbus, que oferece IA e infraestrutura digital ao apartheid israelense. É 2025: ferramenta Grok exalta Hitler no X, antigo Twitter. Caso relembra o célebre Tay Bot da Microsoft, que fez o mesmo no Twitter em 2016.

É janeiro de 2025: Mark Zuckerberg (Meta), Sam Altman (OpenIA), Elon Musk (X), Sundar Pichai (Google), Jeff Bezos (Amazon) e Peter Thiel (Palantir) participam da posse de Donald Trump, costuram novos contratos e abandonam compromissos de fachada – nunca realmente cumpridos – ligados à sustentabilidade, diversidade e transparência. No Brasil, a Advocacia Geral da União realiza audiência pública em reação à repentina mudança de termos de uso das plataformas. As empresas não enviam representantes.


Junho de 2025. Brasil lança, com pouca escuta da sociedade civil, versão atualizada “Plano Brasileiro de Inteligência Artificial” que inclui diversas menções positivas a empresas como OpenIA e, apesar de incluir menções à “redução da dependência externa”, as ações e investimentos são eclipsados pela enormidade de gastos que o país tem com as big tech. Só em 2024, foram R$ 10 bilhões gastos em ferramentas, softwares e serviços de nuvem que, ainda, vulnerabilizam dados de brasileiros. Pouco antes, o ministro da Fazenda se reuniu com representantes da Amazon e da Nvidia para levar um plano de incentivos fiscais para construção de data centers no Brasil. Brasileiros ainda não conhecem as condições do plano.

Chegamos a agosto de 2025 e a vulgaridade das ofensivas de Trump tem parceiros e beneficiários muito evidentes. Em declaração cheia de desinformação, a Casa Branca afirmou que a motivação para taxar desproporcionalmente o Brasil inclui as supostas ações do país para “tiranicamente e arbitrariamente coagir empresas dos EUA a censurar discurso político, desplataformizar usuários, entregar dados sensíveis ou mudar suas políticas de moderação”. 

O Brasil sofre de síndrome de Estocolmo com as big tech – o triste fenômeno psicológico quando vítimas de sequestro ou abuso desenvolvem sentimentos positivos e de dependência com seus agressores. As evidências do papel das big tech e capital financeiro sedento por usar tecnologias digitais e IA para aprofundar explorações parecem ser ignoradas por políticas públicas, ao mesmo tempo que a sociedade civil organizada não consegue espaço para participar – ou ao menos ter acesso a informações que deveriam ser transparentes.

As más decisões do Estado brasileiro sobre as big tech não acontecem num vácuo. Tais empresas são muito mais sofisticadas para incidir politicamente que a expressão mais agressiva do trumpismo deixa transparecer. Parte expressiva do Congresso Nacional brasileiro tem sido capturada pela influência dessas corporações, que contam com acesso privilegiado aos espaços decisórios e conseguem pautar a agenda legislativa em favor de seus interesses.

O abuso de poder econômico de grupos como Meta, Alphabet e Microsoft se manifesta não só na pressão sobre parlamentares, mas também na influência exercida sobre outros atores no campo da governança das tecnologias digitais. O investimento das big tech em think tanks, grupos de pesquisa em universidades privadas, conferências de privacidade de dados e outros espaços de debate sobre tecnologia criam um ambiente de promoção da ignorância e esquecimento sobre o histórico e o presente antidemocrático das big tech e o que representam.

Nesse contexto, o avanço da regulamentação das plataformas de redes sociais no Brasil, muitas vezes alardeado como censura prévia, aparece atravessado pelo lobby e pressão do setor privado, escancarando como seu poder se infiltra nas instituições e corrói a capacidade de defesa de um processo democrático efetivo.

Os impactos negativos da ofensiva de Trump a tantos setores brasileiros diferentes e os decorrentes benefícios de apoio ao governo federal na opinião pública, assim como a fragilização da confiança nos Estados Unidos, abrem uma janela de oportunidade ímpar. Agentes públicos, sociedade civil e pesquisadores acadêmicos, assim como o empresariado nacional responsável, podem tomar melhores decisões que reconheçam que o problema vai muito além de Trump – e que precisamos de um imaginário tecnológico de futuro que inclua soberania digital de forma significativa.

A marcha da insensaz

Não bastassem os cenários apocalíticos, cada vez mais frequentes, as erupções vulcânicas, os terremotos, tsunamis, inundações, o covid deixando para trás marcas de destruições catastróficas, os homens, mesmo assim, insistem em fazer guerra. É a "marcha da insensatez” de um grupo de meia dúzia de líderes empoderados pelas próprias ambições. Essa vaidade pessoal, transferida para os Estados Nacionais, extingue vagarosamente a vida no Planeta. Desorganiza países, economias, cidades, promove a morte de populações inteiras, fecham escolas, hospitais, explodem pontes e destroem terras agrícolas. Diante da dimensão que essas coisas estão tomando, perguntaria, se haverá tempo para um novo Plano Marsall, destinado a recuperação agora da Ucrânia, da Rússia, de Gaza, da Síria, do Líbano, do Iêmem, de Israel mesmo e até para uma reorganização do mundo.

Tem-se de admitir que esta geração política do Planeta é representada por lideranças paranóicas. Até fevereiro deste ano, a aventura de invadir a Ucrânia teria custado aos russos US$ 211 bilhões de suas reservas, de acordo com estimativas do Pentágono, já que a Rússia se recusa a tornar público este tipo de informação . Para os ucranianos, em fevereiro, os gastos aproximavam-se de US$ 320 bilhões. Mas eles receberam perto de US$ 100 bilhões de ajuda externa do mundo ao seu redor (Instituto Kiel da Economia Mundial). A Ucrânia mesmo teria investido em sua defesa entre US$ 150 a 200 bilhões.


No Oriente Médio, a guerra de Israel contra o Hamas, já levou a perdas físicas globais, projetadas para próximo de US$ 600 bilhões, incluindo a Síria, o Irã, o Líbano e o Iêmen, que vinham abrigando as guerrilhas revolucionárias do Hezbolah, do Hamas, dos Houtís, e outros grupos radicais clandestinos . Tiveram bombardeados campos de petróleo, fábricas e depósitos de armas. O Irã perdeu ainda unidades de geração de energia nuclear. Mas, a salvação da região está ainda no óleo combustível cru extraído.

Esta, contudo, não é ainda a guerra dos sonhos de Vladimir Putin - há 20 anos tentando expandir-se para territórios dos vizinhos. Da mesma forma, de Ali Kameini, Líder religioso Supremo do Irã que, sem muito sucesso, parece ter pretendido contaminar hegemonicamente o Oriente Médio. O mesmo se pode dizer de Kim Jong-un, da Coréia do Norte, que tem feito demonstrações de Poder para os países que estão à sua volta. Não teve, entretanto, coragem de testar sua capacidade militar com a Coréia do Sul e com o Japão. Nas primeiras tentativas de entrar na briga contra a Ucrânia, Kim perdeu em batalha a maioria dos seus homens e armamentos.

A impressão que se tem é que os líderes das superpotências parecem estar se aproveitando desses conflitos para treinar seus exércitos, assegurar prestígio no cenário político internacional e fazer testes com artefatos militares de última geração. Esta guerra está sendo travada, sobretudo, com foguetes de longa distância e famílias de “drones" que, projetados no espaço, se autodirigem, rastreaiam o inimigo, fotografam e lançam bombas. Apesar de voarem solitários, sem pilotos, os drones contabilizam a morte de mais de um milhão de combatentes e civis, conforme a OTAN- Organização do Atlântico Norte.

Os "senhores da guerra" tem dificuldade ainda de realizar seus sonhos paranoicos de uma "guerra total", esforçando-se em vão para atrair potencias ambíguas como a China e os Estados Unidos, bem como todos os 49 países europeus para conflitos bélicos que eles inventaram. O balanço das perdas físicas que essas guerras insanas estão provocando é dramático: crianças, idosos e mulheres, fugindo, como refugiados, desabrigados pelo mundo.

Essa geração de líderes surgidos na década de 50 eram infantes ou nem haviam nascidos quando ocorreu a Segunda Guerra Mundial, provocada por Hitler na expectativa de expandir território alemão e Poder pessoal. A aventura teria custado só para a Alemanha US$ 7,1 trilhões, para o Japão, 4,1 trilhões e para a Itália, 2, 5 trilhões. Perdida a guerra os alemães tiveram de indenizar países, vilas e pessoas , incluindo uma soma inicial de 20 bilhões de dólares o que fez em máquinas, matrizes tecnólogicas e fábricas. Morreram mais de 80 milhões de cidadãos. Até hoje os gregos cobram dos alemães indenizações pelos danos. Os cientistas alemães foram redistribuídos entre a Rússia e os Estados Unidos.

A França estimou o montante de suas perdas a três vezes o PIB nacional. A Bélgica e os Países Baixos sofreram danos em proporções semelhantes. A destruição física alcançou 40% das 49 das maiores cidades alemãs e 39% das habitações familiares, seguida de pilhagens retaliatórias de dimensões incalculáveis. As maiores cidades europeias registraram danos urbanos entre 20% a 30 % incluindo escolas, hospitais, universidades, os distritos comerciais centrais, e sistemas de transportes foram interrompidos. Locomotivas, vagões, barcaças, ônibus e até carros particulares foram confiscados. Pontes, estações ferroviários, aeroportos sofreram danos graves. A agricultura em todos os países ocupados teve destruídos milhões de hectares de terras de cultivo. Animais, fazendas, máquinas agrícolas, fertilizantes e mão de obra desapareceram. O abuso contra mulheres e crianças atingiu limites impensáveis.

Na Europa Oriental, a devastação foi ainda mais grave. A Polônia relatou que 30% de seus edifícios foram destruídos, bem como 60% de suas escolas, instituições científicas e instalações da administração pública; 30 a 35% de suas propriedades agrícolas e 32% de suas minas, sistemas de energia e indústrias foram danificados . A Iugoslávia teve destruídas 20,7% de suas moradias . Nos campos de batalha a Ucrânia e Rússia passaram por uma a destruição devastadora.

O mundo não merece isso. Viver é um privilégio. Passa-me pela cabeça que, de uma maneira geral, quem opta pela carreira política tem algum problema de adaptação aos modelos sociais e de trabalho vigentes ou tem dupla personalidade. Poucos resistiriam a testes psicológicos sérios. Recordo do meu amigo, Laerte Rimoli, segundo o qual estamos diante de uma hegemônica “Marcha da Insensatez". Não tivemos ainda ataques nucleares, mas já se fala em mísseis` lançados contra usinas nucleares espalhadas pelos territórios. Nelas se processa o urânio e produz-se o plutônio. Perguntas que não querem calar: Depois dessas guerras, haverá algo a ser recuperado por um novo Plano Marshall? Desta vez, com a inflação acusando picos e os correntistas bancários batendo às portas dos bancos russos, será que o Kremlim concordaria?

'Nós não temos um rei — temos um presidente'

Mais de 2300 nomes filiados ao Sindicato dos Roteiristas dos Estados Unidos (o Writers Guild of America) assinaram uma carta aberta denunciando "ataque autoritário sem precedentes” do presidente Donald Trump e seu governo. Entre os signatários estão nomes como Spike Lee, Adam McKay, Ilana Glazer, Mike Schur, Liz Merriwether e Tony Gilroy.

Segundo a revista Variety, o documento cita os “processos infundados” movidos pelo presidente norte-americano contra empresas de mídia que publicaram reportagens que o desagradaram" e que ele transformou em "acordos financeiros”, como o caso da Paramount, que pagou US$ 16 milhões a Trump para encerrar “um processo sem mérito” contra o programa "60 Minutes".

Os roteiristas também destacam que Trump “retaliou contra publicações que fizeram reportagens sobre a Casa Branca e ameaçou as licenças de emissoras”, além de pedir repetidamente o cancelamento de programas, noticiosos ou de entretenimento, que o criticam. Eis o texto:

Somos membros do Sindicato dos Roteiristas dos Estados Unidos (Writers Guild of America) que falam com uma só voz para denunciar os perigosos e crescentes ataques à Primeira Emenda, à mídia independente e à imprensa livre.

Somos um sindicato de roteiristas de cinema, televisão e jornalistas, construído e sustentado sobre a crença fundamental de que narrativas ousadas, comédias destemidas e reportagens firmes são indispensáveis para uma sociedade livre e democrática. Sempre soubemos que a fidelidade a esses princípios poderia nos tornar alvo de ataques — vindos de nossos empregadores, de interesses corporativos ou mesmo de políticos. Ainda assim, sempre compreendemos nosso papel em uma democracia saudável.

Agora, enfrentamos um ataque autoritário sem precedentes. Só nos últimos meses, o presidente Trump entrou com processos infundados contra organizações jornalísticas que publicaram reportagens das quais ele não gosta, e os transformou em acordos financeiros — o mais notório deles com a Paramount, que pagou US$ 16 milhões para encerrar um processo sem mérito contra o programa "60 Minutes". Ele retaliou contra publicações que relataram fatos sobre a Casa Branca e ameaçou as licenças de emissoras. Regularmente, pede o cancelamento de programas de notícias e entretenimento que o criticam, como os de fim de noite e, mais recentemente, "The View".

De forma alarmante, grande parte do governo federal agora se uniu a esses ataques. Republicanos no Congresso colaboraram para cortar o financiamento da Corporation for Public Broadcasting, com o objetivo de silenciar a PBS e a NPR. A FCC condicionou abertamente a aprovação da fusão entre a Skydance e a Paramount a garantias de que a CBS faria “mudanças significativas” no suposto viés ideológico de seu jornalismo e de sua programação de entretenimento. O presidente da FCC, Brendan Carr, ecoou as ameaças de Trump.

Ainda assim, a Paramount quer que acreditemos que o cancelamento de "The Late Show with Stephen Colbert" não teve relação com política ou com a aprovação da fusão.

Essas são tentativas antiamericanas de restringir os tipos de histórias e piadas que podem ser contadas, de silenciar a crítica e a dissidência.

Nós não temos um rei — temos um presidente. E o presidente não tem o direito de decidir o que vai ao ar na televisão, nos cinemas, nos palcos, nas nossas estantes ou nas notícias.

Conclamamos nossos representantes eleitos e os líderes da indústria a resistirem a esse abuso de poder. Conclamamos nosso público — cada pessoa disposta a lutar por um futuro livre e democrático — a levantar a voz.

Essa certamente não é a primeira vez que a liberdade de expressão é atacada neste país, mas ela continua sendo um direito nosso porque geração após geração de americanos se dedicou a protegê-la. Agora e sempre, quando escritores são atacados, nosso poder coletivo como sindicato nos permite reagir. Este período da vida americana não durará para sempre — e, quando terminar, o mundo se lembrará de quem teve coragem de se manifestar.

terça-feira, 5 de agosto de 2025

Pensamento do Dia

 


Reforma do sistema monetário global?

As idiossincráticas trumpadas de Trump mereceriam a explicitação das forças socioeconômicas que se movimentam nos subterrâneos das vidas de mulheres e homens.

Keynes, o John Maynard, dedicou-se à compreensão das relações complexas entre Estrutura e Ação, entre os papéis sociais e sua execução pelos indivíduos engalanados nos ouropéis da liberdade e racionalidade, mas, de fato, enredados nas forças sistêmicas. Keynes, na esteira de Freud, introduziu as configurações subjetivas produzidas pelas interações entre as formas sociais e seus indivíduos, inexoravelmente submetidos aos objetivos de acumulação de riqueza monetária.


Não seria impróprio afirmar que o poder americano se debilitou no exercício de suas forças. Mais uma vez, no movimento de suas estruturas, a economia global iludiu as conjecturas binárias que pretendem afastar a Economia da Política. O exercício do poder americano desencadeou transformações financeiras, tecnológicas e geopolíticas que culminaram no enfraquecimento de sua hegemonia.

Entre tantos desesperos, Trump acusou os Brics de organizarem uma conspiração contra o poder do dólar. Não por acaso, um dos temas do momento é a reforma da arquitetura financeira internacional, ou coisa assemelhada. São cada vez mais frequentes os rumores sobre a possibilidade de abandono progressivo do dólar em favor de outras moedas no faturamento das transações internacionais e na denominação de contratos.

O futuro chegou ao passado: Keynes, delegado da Inglaterra em Bretton Woods, propôs a Clearing Union, uma espécie de banco central dos bancos centrais. A Clearing Union emitiria uma moeda bancária, o bancor, destinada exclusivamente a liquidar posições entre os bancos centrais. Os negócios privados seriam realizados nas moedas nacionais, que, por sua vez, estariam referidas ao bancor mediante um sistema de taxas de câmbio fixas, mas ajustáveis. Os déficits e superávits dos países corresponderiam a reduções ou aumentos das contas dos bancos centrais nacionais (em bancor) junto à Clearing Union.

O plano apresentado por Keynes em Bretton Woods buscava uma distribuição mais equitativa do ajustamento dos desequilíbrios de balanço de pagamento entre deficitários e superavitários. Isto significava, na verdade - dentro das condicionalidades estabelecidas - facilitar o crédito aos países deficitários e penalizar os países superavitários. O propósito de Keynes era evitar os ajustamentos deflacionários e manter as economias na trajetória do pleno emprego. Ele imaginava, ademais, que o controle de capitais deveria ser “uma característica permanente da nova ordem econômica mundial”.

O arranjo monetário adotado em Bretton Woods afirmou a supremacia do dólar. Essa supremacia sobreviveu ao gesto de Richard Nixon em 1971 - a desvinculação do dólar ao ouro - e à posterior flutuação das moedas em 1973. A continuada desvalorização do dólar, ao longo dos anos 70, suscitou a elevação brutal do juro básico americano em 1979. Esse gesto de poder derrubou os devedores do Terceiro Mundo, lançou os europeus na “desinflação competitiva” e culminou na crise japonesa deflagrada no crepúsculo dos anos 80. A valorização da moeda americana suscitou o Acordo do Louvre, que empurrou goela abaixo do Japão a valorização do iene, a famosa endaka.

Sob pressão de Tio Sam, o país entrou na farra da desregulamentação financeira. Saboreou inicialmente as delícias de uma bolha imobiliária e outra no mercado de ações. A curtição durou pouco. Em 1989, os preços dos imóveis e das ações despencaram e deixaram os bancos japoneses encalacrados em créditos irrecuperáveis.

Retornemos às relações entre Estrutura e Ação: a supervalorização da moeda americana que danou as economias devedoras, como o Brasil, também moveu o investimento direto das corporações industriais americanas para a China e Ásia emergente.

Hoje, a “competitividade” chinesa é crescente tanto nos mercados menos qualificados quanto, em ritmo acelerado, nos de tecnologia mais sofisticada. O país tornou-se grande receptor do investimento direto americano, europeu e japonês e, ao mesmo tempo, ganhou participação crescente no mercado de bens finais, peças e componentes dos EUA e Europa.

A redistribuição espacial da indústria manufatureira ampliou os desequilíbrios nos balanços de pagamentos entre os EUA, a Ásia e a Europa, bem como favoreceu o avanço da chamada globalização financeira. A ampliação dos déficits comerciais americanos que atormentam Trump teve como contrapartida a rápida acumulação de reservas na China superavitária. Nos anos 90, as reservas chinesas abasteceram vigorosamente o mercado de títulos emitidos pelo Tesouro americano.

Há bens que vêm para o mal. A acumulação de reservas chinesas lastreadas nos Treasuries foi simultânea à espantosa expansão do crédito nos Estados Unidos. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é a mesma coisa. Nessa toada, a espantosa evolução do consumo das famílias de Tio Sam instigou a bolha financeira que explodiu na crise de 2008. A virtude da temperança chinesa incitou os destemperos da finança que levaram à crise de 2008.

Não por acaso, correm à solta as propostas de reforma das relações monetário-financeiras internacionais. Quase todas elas contemplam a redução do papel do dólar como moeda-reserva e recomendam sua substituição progressiva por um sistema plurimonetário.

Há quem pretenda ressuscitar a proposta europeia apresentada em 1979, na reunião do FMI em Belgrado: substituir o dólar por uma cesta de moedas, a “conta de substituição”. Naquela reunião, a proposta foi rejeitada por Paul Volcker, que reafirmou o poder da moeda americana, ao impor ao mundo uma elevação sem precedentes da taxa de juro.

Despido da roupagem de protagonista importante, o palmeirense que ora submete os leitores do Valor às suas mal traçadas linhas estava na reunião de Belgrado. Ouvi pessoalmente as vozes dos poderes que comandam a economia. “Ninguém vai contestar o Poder do Dólar”, sapecou Volcker.

Trump toca flauta?

Numa entrevista recente, no podcast Pod Force One, Trump disse que estudou flauta por um breve período, com seus 11, 12 anos de idade. Embora não toque mais, continua conduzindo ratos, crianças e adultos ao abismo, de maneira semelhante ao famoso flautista de Hamelin.

Diz o conto, como muitos sabem, que numa cidade infestada por ratos, apareceu um flautista afirmando que, por um certo pagamento, poderia livrar os habitantes dos roedores. Acordo feito, levou os ratos, ao som da sua música, a se afogarem no rio. Acordo desfeito, por não ter recebido o combinado, escafedeu-se e depois voltou, com nova música que encantou as crianças locais e as levou, aprisionadas, a uma caverna. A cidade ficou sem crianças e, pois, sem futuro.


Melhor dizendo, não propriamente sem futuro, mas sem um futuro desejável, com melhor qualidade de vida, mais entendimento, negociações, concessões recíprocas, construções comuns, convivência harmônica e melhorias da qualidade de vida da maioria. Objetivamente falando, estamos sendo conduzidos a um futuro oposto a todos esses valores civilizacionais, a um porvir rumo à barbárie!

Nessa direção nos conduz um dos dirigentes mais poderosos da Terra. Há alternativas? Claro, existem, mas hoje sem o poder necessário para direcionar o futuro num rumo mais desejável. Como construir essa alternativa?

Não há resposta simples, clara e suscinta. O caminho há que se fazer ao caminhar. O bem comum tem de prevalecer sobre o lucro privado, sem deixar de reconhecer que o lucro privado é potente motor de melhorias para o bem comum, ainda que seja, também, causa de danos ao bem comum. A complexidade do equilíbrio entre bônus e ônus requer algo que os cada vez mais dominantes algoritmos e menos democráticos dirigentes não possuem: humanismo!

A força dominante é um Golias, mas há que construirmos os Davis! A vitória do pequeno sobre o grande é difícil, mas não impossível, e não se limita à bíblia!
No caminho a construir, equívocos ocorrerão, e somente serão corrigidos se prevalecerem os objetivos de privilegiar a solidariedade, a cooperação, a humildade e a objetividade rumo à uma nova civilização, na qual o ganho privado, domesticado, não suplante o bem-estar coletivo.

Trata-se, pois, de reinventar e redefinir o mundo, a civilização, os objetivos, os desejos, os sonhos, a satisfação, o contentamento.

Trata-se, talvez, de reinventar o animal humano, tornando-o, de fato, sapiens?

'Genocídio mais televisionado da história'

Ilan Pappe é filho de judeus alemães que escaparam da perseguição do nazismo. Nasceu em Haifa em 1954, seis anos após a criação do Estado de Israel. “Tive a infância típica de uma criança israelense”, contou na sexta-feira, na Festa Literária de Paraty. Ao escolher o ofício de historiador, ele começou a ter contato com fatos que não eram ensinados na escola. “Tudo o que encontrava nas minhas pesquisas contradizia o que havia ouvido dos meus pais e dos professores. Fui exposto a uma história bem diferente de Israel e da Palestina”, disse.

Depois de uma temporada de estudos no exterior, Pappe voltou a Israel para mostrar o que havia garimpado em livros e arquivos oficiais. Sua visão crítica do sionismo desagradou amigos, parentes e colegas de academia. “Fui ingênuo. Achei que seria recebido de braços abertos”, comentou. “Não me dei conta de que desafiar a narrativa histórica do meu próprio país seria considerado uma traição. Isso foi um choque para mim”, admitiu.


O historiador disse ter vivido um dilema comum a quem rema contra a maré. Ou se mantinha fiel às suas convicções ou “cedia à pressão e escrevia o que as pessoas queriam ler”. “Decidi continuar com a minha verdade, sabendo o preço que precisaria pagar”, contou. O mais caro foi a demissão da Universidade de Haifa, em 2006. Sem espaço para trabalhar em Israel, ele aceitou convite para dirigir o centro de estudos palestinos da Universidade de Exeter, no Reino Unido.

Autor de mais de 20 livros, Pappe veio ao Brasil lançar os dois mais recentes: “Brevíssima história do conflito Israel-Palestina” e “A maior prisão do mundo”, cujo título resume sua visão da atualidade em Gaza. “Os palestinos moram numa grande prisão desde 1967. Israel controla tudo em suas vidas. Eles vivem como detentos”, disse na Flip.

“Israel lançou mais bombas sobre a Faixa de Gaza desde 2007 do que os aliados lançaram sobre a Alemanha na Segunda Guerra”, prosseguiu. Ele comparou a situação atual do território à de um campo de extermínio. “É o genocídio mais televisionado da História”, sentenciou.

Na visão de Pappe, os palestinos são alvo de um processo de limpeza étnica, com a cumplicidade das potências que dão armas e apoio político ao governo de Israel. Ele disse que a promessa de França e Reino Unido de reconhecerem a Palestina como Estado é um “pequeno passo”. Mas defendeu que só sanções econômicas, como as aplicadas à Àfrica do Sul na época do apartheid, seriam capazes de frear o massacre em Gaza. “Se o Ocidente fizesse 50% do que está fazendo com a Rússia (após a invasão da Ucrânia), criaria um grande problema para Israel”, disse.

Ao apresentar a mesa, a curadora Ana Lima Cecilio disse que o convite a Pappe foi a “decisão mais importante” da 23ª edição da Flip. “Houve pressão para impedir que eu falasse a vocês”, agradeceu o historiador, sob aplausos e gritos de apoio. Ele afirmou que suas críticas não demonizam Israel nem os israelenses. “Eu falo em hebraico, sonho em hebraico”, comentou, antes de lembrar que mais da metade da população de Gaza tem menos de 20 anos de idade. “Esses jovens só conheceram uma realidade: viver sob cerco, bombardeio e destruição permanente.”

Trump é um pesadelo

Estive em Paraty para falar de um belo livro de fotos de João Farkas: “Costa norte”. Escrevi um texto de apresentação e, no debate sobre manguezais, dunas e petróleo na Foz do Amazonas, um homem perguntou:

— E o fator Trump, que dizer sobre ele?

Fugia um pouco do tema, mas respondi com sinceridade que Trump me tirava algumas horas de sono. Sou jornalista, ele é o homem mais poderoso do mundo. Terei de falar sobre ele nos próximos anos, é um inescapável pesadelo.

Seu narcisismo e estreiteza de ideias colocam um perigo ao analista: cair na zona de conforto da crítica fácil e deixar de evoluir como faria se estivesse diante de alguém com ambiguidades e zonas de sombra típicas da riqueza humana.


Não posso desistir. Preciso trabalhar e, além do mais, Trump influencia a sorte do Brasil. É um momento de todos ajudarem, dentro de seus limites. O que posso fazer é estudar mais.

Estou iniciando o clássico “Fantasias masculinas”, de Klaus Theweleit, uma análise profunda e inquietante de um grupo de soldados que tiveram papel crucial na ascensão do nazismo. Os soldados eram integrantes dos Freikorps, unidades paramilitares que lutaram e triunfaram sobre o movimento revolucionário alemão, imediatamente depois da Primeira Guerra.

Talvez possa avançar em minhas análises. Mas o fator Trump implica mais que um esforço individual de interpretação. É um desafio que pede uma estratégia nacional. Quando houve o tarifaço, sugeri que concentrássemos a energia tentando mobilizar as forças internas nos Estados Unidos, onde a medida repercutiu mal. Intelectuais, políticos e jornalistas criticaram Trump, sem falar nos grupos econômicos descontentes, que serão úteis nas eleições que se aproximam.

Passado o primeiro momento, é necessário continuar negociando. Mas sugiro que o Brasil inicie uma longa mudança. Primeiro ponto tático: é preciso recuperar ao máximo os contatos com os Estados Unidos. A Frente Parlamentar Brasil-Estados Unidos ainda não fez uma única reunião neste ano. Nossa inteligência, se podemos chamá-la assim, não acompanhou os passos dos lobistas que influenciaram a Casa Branca e contavam diariamente seus feitos.

De modo geral, nos comportamos como se o fator Trump nunca fosse chegar a nossa praia. As divergências não podem evitar o diálogo. Precisamos ampliar nosso conhecimento sobre o que se passa nos Estados Unidos, identificar interlocutores e compartilhar com os americanos este momento difícil, que parece desembocar num governo autoritário.

Em termos estratégicos, há um consenso de que devemos ampliar os negócios com o mundo, abrir mercados na Europa. Lula trabalha para fechar o acordo Mercosul-União Europeia ainda neste ano. Mas há também Canadá, México e todos os países que, de certa forma, foram atingidos pelas tarifas de Trump, inclusive na Ásia.

Existe outro nível de abertura, talvez difícil de trafegar numa maré nacionalista. É a abertura da própria economia brasileira, simplificando a estrutura tarifária, removendo barreiras não tarifárias, avançando no que o Banco Mundial chama de caminhos da prosperidade. Claro que uma abertura assim implica riscos internos que precisam ser minimizados. Podemos sair mais fortes de tudo isso. Por que não tentar?

Entre ameaças e chantagens

A chantagem de Trump de aumentar em 50% as tarifas para produtos brasileiros, com o objetivo de pressionar nosso Judiciário, faz parte de sua estratégia global, a teoria do louco. Imperam a imprevisibilidade e o personalismo em suas decisões. O bilionário tenta persuadir seus adversários mostrando que é capaz de qualquer ação para vencer. Em parte, está funcionando, como o acordo EUA-UE evidencia.

A Folha lembrou das rusgas entre Brasil e EUA por causa de softwares e computadores nos anos 1980. O país protegia seu mercado dos produtos estadunidenses ao mesmo tempo que incentivava o desenvolvimento de uma indústria nacional. Aos moldes do que fizeram China e Japão, fabricava softwares copiando a tecnologia dos EUA.


Como resposta, Ronald Reagan ameaçou aplicar uma sobretaxa de 100% sobre produtos brasileiros. A lista incluía madeira, ferro, equipamentos telefônicos e aviões. Sarney cedeu. O Brasil permitiu a comercialização dos produtos da Microsoft e flexibilizou sua política de informática. As sanções foram suspensas. Nossa indústria naufragou e nossa dependência externa reflete-se nos R$ 10 bilhões gastos com big techs em 2024.

Nos anos 1990, o neoliberalismo era mais que uma moda, era uma ordem ideológica. Economistas, jornais e políticos vibravam com as privatizações e a reorganização do Estado promovida por FHC no Brasil e que se estendia a maioria dos países da América Latina.

Todos seguiam as diretrizes do Consenso de Washington, que impunha ajustes estruturais, cortes de gastos sociais e abertura de mercado para liberar empréstimos. Precisa de dinheiro? Só adotando nossas políticas. Esse era o subtexto do FMI. “O que está sendo vendido como ajuda econômica é, na verdade, uma forma altamente sofisticada de chantagem econômica. A ‘ajuda’ do FMI vem sempre com um preço — e esse preço é o sacrifício da soberania econômica”. escreveu Naomi Klein em a Doutrina do Choque.

Ou como vaticinou o geógrafo David Harvey, “O neoliberalismo não destrói o Estado — o redesenha como instrumento de classe.” Não é coincidência a primeira experiência neoliberal ter ocorrido durante a ditadura de Augusto Pinochet entre os anos de 1973-1990 no Chile.

Há as chantagens evidentes e irracionais de Trump, há as ideológicas e racionais do neoliberalismo. E há as chantagens da rotina, que nos colocam em um labirinto sem saída. Somos submetidos aos mecanismos psicológicos, burocráticos e existenciais tal qual Josef K., o protagonista de “O Processo” de Franz Kafka. Nós normalizamos as opressões e somos cúmplices indiretos delas.