quarta-feira, 23 de julho de 2025

Descobriram quem são os Bolsonaros?

O presidente Trump causou duas hecatombes no Brasil em uma só tacada. A primeira com o aumento escandaloso de 50% das tarifas, algo mais próximo de uma sanção contra uma nação inimiga. A segunda foi a forma que propôs para rever a decisão: bastava que as instituições brasileiras salvassem a família Bolsonaro - o pai Jair e o filho Eduardo -, que tudo seria esquecido. Essa vendeta trumpista, típica de mafioso, foi apoiada pelos governadores Zema, Tarcísio, Ratinho Jr. e Caiado, que depois se arrependeram, mas sem romper com o “mito”. Após esse escorregão, fica a pergunta: esse grupo da direita brasileira é incapaz de entender o perverso significado do bolsonarismo?

Quem se surpreendeu com esse casamento entre Trump e os Bolsonaros, e o tipo de decisão que produziram, ficou os últimos anos fora do planeta Terra - ou então concorda com a forma extremista que pensam. Em relação ao presidente americano, a intempestividade e a chantagem são marcas de seus governos, tendo crescido ainda mais agora por ter ampliado o seu poder. O Brasil não é o primeiro a sofrer com isso. O trumpismo, como toda a extrema direita que se alimenta das ideias totalitárias de Carl Schmitt, segue a lógica do amigo versus o inimigo, tanto no plano interno como no externo. E o presidente Lula é certamente um alvo preferencial de Trump.


O sentimento de guerra contra o lulismo está contido em dois elementos. O primeiro é ideológico, e o segundo, geopolítico. Começando por esse último, Trump pretende ampliar seu poder nas áreas americanas de influência e evitar que países estratégicos saiam de seu controle. O Brasil é um deles, especialmente por suas fortes relações com a China - esqueçam o Brics, uma arena de diálogo entre nações muito heterogêneas que por ora nem cócegas faz nos Estados Unidos.

Resumo da ópera trumpista: o Brasil fica nas Américas e é grande demais para estar mais próximo da China do que dos EUA. Trump irá usar chantagens comerciais e ameaças contra as instituições públicas dos países para conseguir seu intento de ser o novo imperador de um mundo dominado pelos Estados Unidos, sem repartição de hegemonia. Nesta situação, a soberania brasileira está em jogo, é preciso defendê-la com firmeza, mas também é fundamental não cutucar o governo americano com provocações desnecessárias e irrealistas frente ao nosso efetivo poder geopolítico.

A geopolítica explica parte da decisão contra o Brasil, mas o fator ideológico tem sempre um peso muito grande quando o ator é de extrema direita. Foi com uma ideologização que torna inseparáveis a política da vida cotidiana das pessoas que esse grupo cresceu em várias partes do mundo. Esse novo populismo, nitidamente autoritário, soube como ninguém se posicionar numa era do espetáculo, na qual corações e mentes são conquistados por um modelo polarizado de alimentar o ódio contra os inimigos e de adorar efusivamente e sem questionamento os seus líderes.

Trump e Bolsonaro estão no mesmo barco ideológico, formado por um grupo extremista bastante organizado no plano internacional, com uma organicidade e estratégia muito maiores que o centro, a esquerda e a direita liberal ao redor do mundo. O trumpismo quer que um bolsonarista, ou alguém referendado pelo bolsonarismo, ganhe as eleições de 2026. A sanção comercial que o Brasil sofreu tem forte relação com isso, infelizmente. Daí que o casamento ideológico com o bolsonarismo se alinha à lógica geopolítica da decisão comercial americana.

Nesse sentido, o velho bordão bolsonarista tem de ser mudado: minha família acima de tudo, Trump acima de todos - Bolsonaro chegou a dizer nesta semana que é “apaixonado” pelo presidente americano. Nosso ex-presidente, na verdade, sempre adotou um patriotismo fake, subserviente a Trump e condicionado aos interesses da família e dos amigos. Todo o restante do script, da camisa amarela da seleção às juras pelo respeito às quatro linhas da Constituição, eram encenação frente aos seus efetivos objetivos.

A articulação de Eduardo Bolsonaro com o trumpismo e a reação imediata de regozijo de seu pai, bem como de outros líderes bolsonaristas, escancarou o falso patriotismo desse grupo. O importante seria salvar a família Bolsonaro, mesmo que tivesse de colocar o país de joelhos. O interesse pessoal à frente do interesse nacional - na hora de comemorarem a decisão de Trump, e comemoraram efusivamente, se esqueceram dos negócios em diversos setores e milhares de empregos que seriam rifados para agradar ao líder da extrema direita brasileira. Fica aqui a lição ao empresariado brasileiro.

Ficou muito evidente que a família Bolsonaro estava fazendo com o país o que a famosa música de Chico Buarque descreve que uma elite fez com sua cidade. Bastava aceitar a chantagem feita pelo Zepelim de Trump e entregar as instituições brasileiras ao controle do governante estrangeiro, que tudo estaria resolvido. Mas, se isso fosse feito, o Brasil se chamaria Geni e o verdadeiro patriotismo teria sido morto pelo bolsonarismo.

O efeito gigantesco da decisão trumpista para a economia brasileira fez com que os governadores que cortejam o apoio de Bolsonaro para 2026 mudassem, mesmo que envergonhadamente, sua posição inicial. Melhor que fiquem com o Brasil e não sejam subservientes a Trump - afinal, foram eleitos por brasileiros para defendê-los.

Porém, imagine que a decisão fosse outra: em vez de optar pela sanção comercial, Trump punisse, de alguma forma, o ministro Alexandre de Moraes, o que seria só o começo, porque mais adiante, para ser uma chantagem crível, deveria haver punições a mais autoridades, o que significa tentar manietar as instituições brasileiras. Isso seria aceitável por Zema, Tarcísio, Ratinho Jr. e Caiado? Nem faço a pergunta para os Bolsonaros, porque o patriarca tentou dar um golpe de Estado, o que mostra o pouco apreço pela democracia brasileira. Afinal, como disse o filho Eduardo, antes da posse do pai, para fechar o STF bastava um soldado e um cabo.

Se a opção trumpista fosse pela punição contínua de autoridades e instituições brasileiras, estaria em jogo a democracia brasileira, gerando uma guerra política que, ao fim e ao cabo, teria efeitos econômicos ruins, com impactos negativos para empresários e trabalhadores. A proposta de pacificação feita pelos Bolsonaros, sobejamente conhecidos por uma trajetória pacificadora em seus discursos e atos, seria a de quebrar o regime democrático. Zema, Tarcísio, Ratinho Jr e Caiado concordam com isso?

Já faz tempo que tais governadores têm se comportado, tristemente, como seguidores de Bolsonaro, e não como importantes lideranças da Federação brasileira. Não questionaram a evidente tentativa de golpe de Estado liderada por Bolsonaro, como se esqueceram das maldades do governo bolsonarista: desmatamento, abandono de populações indígenas, discurso racista e machista que grassava pela Esplanada dos Ministérios, desastrosa gestão da pandemia - 700 mil mortos e mais de um ano com 5 milhões de crianças sem um padrão nacional de educação - e, para voltar à política externa, as provocações perigosas à China, nosso principal mercado para exportação e maior investidor no país.

Se voltar ao poder alguém que apenas siga as ordens do bolsonarismo, há enormes chances de briga com o governo chinês, com resultados econômicos ainda mais desastrosos do que o embargo trumpista.

As lideranças que cotejam o apoio de Bolsonaro também estão ignorando os efeitos do trumpismo para o Brasil, adotando o boné do “Make America Great Again” como vestimenta de festa - e sorrindo para a foto. Não precisamos e nem devemos brigar com os Estados Unidos, um parceiro relevante que vai além dos governos de ocasião. Só que milhares de brasileiros serão expulsos dos Estados Unidos até o final de 2026. O que os governadores intitulados bolsonaristas moderados têm a dizer sobre isso aos eleitores brasileiros? É provável que o Mercosul consiga um acordo com a União Europeia e o Brasil aprofunde cada vez mais as relações econômicas com a Ásia, sobretudo com a China. Se Trump quiser melar esses negócios, o que dirão Zema, Tarcísio, Ratinho Jr. e Caiado?

Aparentemente, esses governadores só entenderam os efeitos nefastos do bolsonarismo com a bomba comercial nuclear jogada por Trump no Brasil, que vai prejudicar o país em nome da salvação do patriarca bolsonarista. Mas a reviravolta dessas lideranças tem sido tímida e ainda tentando manter Jair Bolsonaro no armário, para ninguém ver. Será mesmo que descobriram quem são realmente os Bolsonaros?

Há três hipóteses aqui. A primeira é que tais governadores, ou a maioria deles, ainda são amadores e não compreenderam o que está em jogo - neste caso, não estão preparados para serem lideranças nacionais. A segunda possibilidade é que são cínicos, querendo apenas o espólio eleitoral, o que é preocupante porque a extrema direita não vai deixá-los em paz na eleição de 2026. Por fim, pode ser que comunguem de quase todas as ideias do bolsonarismo, mas escondam o seu perfil ideológico com a máscara de moderados. Aí é mais perigoso, porque poderiam gerar um estelionato eleitoral.

Saber quem são, de verdade, os governadores que bajulam Bolsonaro e se vendem como moderados é algo central para o futuro do país. Afinal, é preciso saber com quem se contará na próxima porrada que Trump dará no Brasil.

Ameaça de excluir o Brasil do GPS e do Swift é ideia absurda

Os dois boatos que tomaram as redes bolsonaristas nos últimos dias, de novas sanções que o governo Donald Trump poderia impor ao Brasil, não têm pé nem cabeça. Um sugere que o Brasil poderia ser cortado do sistema GPS, aquele que faz nossos mapas de celular funcionar. O outro determina que o Brasil poderia ser cortado do Swift, o protocolo adotado internacionalmente para transferências monetárias internacionais. O primeiro deixaria o país incapaz de ter sistemas internos para localização. O outro impediria toda transação financeira para fora. As ideias são absurdas por motivos técnicos e por motivos políticos.


Quando falamos de GPS, em verdade deveríamos usar outra sigla: GNSS. É a sigla, em inglês, para Sistema Global de Navegação por Satélite. Originalmente, era uma rede de satélites americanos espalhados por todo o globo que mandam um sinal para a Terra. Aparelhos captam esses sinais, fazem a triangulação e conseguem botar sua posição precisa no mapa. Só que, faz tempo, os satélites não são mais apenas americanos. Além do sistema GPS, existem na rede GNSS os sistemas Galileo (União Europeia), Glonass (Rússia), BeiDou (China), além dos dois regionais de Índia e Japão. Quase todos os celulares capazes de conexão 4G se conectam a essas redes. Caso os Estados Unidos desconectassem o GPS do território brasileiro, as outras redes seguiriam funcionando.

Ainda assim, tecnicamente é muito difícil fazer essa desconexão de uma quantidade imensa de satélites de um país do tamanho do Brasil. E a desconexão não afetaria só nossos guias de trânsito. Afetaria todos os aviões americanos, todos os navios americanos que passassem pela região. Afetaria, igualmente, todos os países vizinhos ao Brasil.

O corte do sistema Swift foi uma hipótese levantada pelo deputado federal não mais licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), em uma de suas muitas lives. Ele — que parece estar numa crise maníaca não tratada e agrava sua situação a cada vez que encara uma câmera ligada à internet — está desinformado. Também há uma alternativa ao Swift, embora seja mais complexa. É o Cips chinês. A Rússia foi cortada do sistema Swift durante o governo Joe Biden como parte das muitas sanções econômicas impostas após a invasão da Ucrânia. Moscou fez a conversão de todo o seu sistema bancário para a opção chinesa. Demorou pouco mais de um ano. Com a tecnologia do sistema financeiro brasileiro, seria possível que demorasse menos para nós. Mas certamente seriam meses duros, com o Brasil tendo dificuldades de fazer negócios para fora.

Ainda assim, há um detalhe político importante: o Swift não é apenas americano. Trata-se de uma joint venture com a União Europeia que tem sede em Bruxelas. Ou seja, não basta que a Casa Branca deseje desconectar um país do mundo. É preciso que a União Europeia queira o mesmo. Não há qualquer sinal de que a hipótese seja razoável.

O ponto é o seguinte: esses sistemas como GPS, Swift e tantos outros dependem de confiança internacional. A Rússia foi cortada do Swift por decisão conjunta de Washington e União Europeia porque decidiu sair para uma guerra de anexação de território. Algo assim não ocorria no mundo desde a Alemanha nazista. Foi por causa da gravidade do ocorrido que a punição foi escolhida. Não foi porque um presidente americano acordou de mau humor ou encontrou um líder político estrangeiro com o qual não simpatizava.

Se os americanos começam a usar a infraestrutura mundial que inventaram ou controlam para punir outros países, o resultado é um alerta mundial. Um alerta para o qual só há uma resposta: criar uma infraestrutura substituta que não dependa dos humores de Washington. Muitos consórcios internacionais assim existem, mais surgiriam.

Se boa parte do problema americano é não perder uma guerra comercial, diplomática ou o que for para a China, a pior coisa que os Estados Unidos poderiam fazer é informar a todo mundo: é inseguro usar sistemas americanos. Donald Trump pode ser impulsivo, mas seu maior problema ainda é a China, e gente o suficiente, inclusive no movimento radical Maga, compreende o que não dá para saber.

Isso não quer dizer que outras sanções para o Brasil não possam ser levantadas. Podem. Só que essas, técnicas, seriam um contratempo para o Brasil e um suicídio em nível mundial para os Estados Unidos. Afinal, seu resultado seria ceder mais espaço para Pequim.

terça-feira, 22 de julho de 2025

Pensamento do Dia

 


Hora de ser brasileiro

Isso de ser brasileiro é estranho porque, às vezes, passa um tempo esquecido; às vezes, uma certa decepção com as elites políticas aborrece. Mas, ao contrário do verso de Drummond, há um momento em que todos os bares se abrem, e todas as virtudes se afirmam. A carta de Trump fixando uma tarifa absurda sobre os produtos brasileiros é um desses momentos. Como assim, logo o Brasil, que tem déficit comercial com os Estados Unidos?

Felizmente, sou carta fora do baralho em Brasília. Mas isso não me exime de pensar e fazer algo. É uma oportunidade para que todos façam, pois é um tipo de luta aberta a todos, por menor que seja a contribuição de cada um. Pelo menos é assim na visão estratégica que me parece adequada.


Creio que, apesar de certo conformismo nos Estados Unidos, ainda existe capacidade crítica no país. Dentro de nossos limites, precisamos despertá-la por meio de microiniciativas que podem ser cartas, mensagens, conversas em fóruns internacionais. Temos algo a dizer: somos um exemplo singular de injustiça e de truculência de Trump.

Minhas expectativas vão se confirmando progressivamente. No início, um Prêmio Nobel de Economia, Paul Krugman, ressaltou o absurdo da medida. Outros economistas também a criticaram. Hillary Clinton, adversária de Trump na primeira campanha, se manifestou contra a decisão.

Em seguida, a Câmara de Comércio dos Estados Unidos pediu revisão. Afinal, mais de 6 mil empresas americanas comerciam com o Brasil e serão atingidas pela tarifa draconiana. Em pouco tempo, a Justiça poderá ser acionada, pois a fixação de tarifas extraordinárias depende de condições legais. No caso brasileiro, estão ausentes.

Há uma luta de longo alcance a travar, e isso pode nos revigorar como país. Certamente, beneficia o governo, influencia as eleições e pode marcar nosso futuro, pelo menos até 2030.

Isso não significa que se deva concordar com tudo. Já fiz críticas à política externa de Lula, argumentando que não expressa a frente democrática que o levou ao poder. É algo dele e do PT. Mas essa é uma questão que tem de ser resolvida no debate democrático interno. Parceiros de Lula na frente, Alckmin e Simone Tebet jamais se pronunciaram, pois estão satisfeitos em seus cargos e não querem transtornos, como criticar Putin e sua política nefasta na Ucrânia.

Da mesma forma, a cruzada para desbancar o dólar parece um pouco voluntarista. O que mantém o dólar como padrão são fatores econômicos e políticos desde 1944, com o Acordo de Bretton Woods. Discretamente, em vez de discursar, a China criou um banco de pagamentos e negocia em sua própria moeda. Já alcança 4% do movimento mundial. Se, de um lado, não se derruba o dólar apenas com discurso, de outro, não se mantém o dólar na base da repressão, como quer fazer Trump. É algo que desafia a vontade de um governante.

De qualquer forma, desejar uma unidade nacional que transcenda nossas divergências políticas não significa que elas desapareceram. Significa apenas que podem ser tratadas num contexto democrático e apenas nele. De modo geral, sanções contra um país fortalecem governos e empobrecem o povo. Isso é válido para alguns, mas, no caso brasileiro, com uma economia mais poderosa, as chances de atenuar o baque econômico são maiores.

Resta esperar o resultado da investigação que os americanos farão no Brasil, baseados na Seção 301 do Trade Act. Ela é pensada para investigar países hostis aos interesses americanos. Será que o Brasil é realmente hostil? De qualquer forma, estamos diante de um processo longo e difícil. Começou um novo tempo — não nos afastemos uns dos outros.

A unidade nacional implica usar toda a nossa imaginação. Mas não pode se tornar um mecanismo de unanimidade forçada, sobretudo porque não há concordância total com a política externa do PT.

A ilusão brasileira

O país onde se nasce enseja uma visão utópica. Não há isenção na hora de defini-lo. Abordo o Brasil com cuidados. Acerto e me equivoco. Mas pouco importa. Quem acertaria lidando com um país que ostenta tal magnitude, com um território que ao sobrevoá-lo corre-se o risco de se pensar no Caribe, mas ainda se está dentro de suas fronteiras. E que a despeito desta desmedida, não sofre turbulências linguísticas. Com o privilégio de ser mestiço. No corpo e na memória sincrética. Uma mestiçagem que vai além dos corpos, pois tingiu a alma e devora as entranhas da sua cultura, que é insidiosa e esplêndida, como deve ser.

O Brasil é um amálgama de todos seres e saberes. Entre tantas etnias, somos fundamentalmente ibéricos, filhos da imaginação portuguesa e espanhola. Herdeiros de um universo impregnado de ficção, do faz-de-conta, de peculiar noção de realidade. De uma realidade que, concebida como uma invenção pessoal, cada qual narra segundo seus desígnios. Propensos nós, por conta de uma vocação individualista, a opor-se aos projetos coletivos, às organizações sociais programadas para durar. Com exceção talvez da construção acelerada da capital Brasília, que corresponde às pirâmides do Egito.

O realismo pátrio é pautado em geral por forte dose de fantasia. Assim, inventar como fantasiar fazem parte da índole social. Daí agradar-nos aparentar o que não somos, exibir o que nos falta, simular a posse de bens que não temos; pedimos emprestados ao vizinho. Como consequência, proclamamos, eufóricos, que somos amigos do rei, do presidente, comensal do prefeito da cidade. E para ostentar um valor que não temos, tiramos com facilidade do bolso do colete um nome famoso, insinuando intimidade com ele.

Esta dança de aparência e exibição há muito instalou-se entre nós. Somos cortesãos com gosto. O poder é o mel das nossas vidas. Originou-se de variadas etnias, mas especialmente da península ibérica, e prosperou na alma brasileira antes de existirmos como nação. Um comportamento social que nos leva a inquirir sobre a nossa gênese.

Até mesmo os intérpretes brasileiros, que se aventuraram a definir nossa índole brasileira, que tão bem espelha a nossa conduta pública e privada, não puderam assegurar-nos de que linhagem originamo-nos, e o que nos une e nos separa. Ou excursionar com as mãos apalpando o horizonte o que é puramente do âmbito do mistério. Ou mesmo dizerem com exatidão onde se resguarda a matriz do nosso ser. Dizerem por meio das vozes canônicas e populares o que significava ser brasileiro ao longo do século XIX ou não se reconhecer brasileiro nas turbulências do século XXI.

Acaso ser brasileiro, um desígnio que cobre o território nacional, do norte ao sul, portanto oito milhões de quilômetros quadrados, é simplesmente nascer dentro deste território, ou mesmo a beira do oceano Atlântico, já que somos donos das duzentas milhas marítimas? É nascer em um lugar molhado ou seco, que não se vê no mapa nem com lupa? Uma aldeia à margem da civilização, que a mãe, após parir o filho, inventou para assegurar-lhe que embora tivesse vindo ao mundo em um grotão era um brasileiro? Enquanto enchia-lhe a cabeça com devaneios, lendas, narrativas, afim de garantir-lhe certidão de nascimento e humanidade.

Ser brasileiro então é termos epiderme e alma mestiças, resultantes das andanças humanas pelo mundo? Apresentar-se às autoridades municiado do documentos onde está consignada a filiação? Como nome dos pais, data de nascimento, dados enfim que se incorporam a estatística e controlam a cidadania? De que etnia procede seu cabelo, se é fino, encrespado, enquanto o nariz tem narinas dilatadas, de origem bantu, e outros o apêndice curvado para indicar procedência semítica. Etnias que de nada servem aos brasileiros, vale mesmo é ser parte de todas as tribos, proclamar-se filho das andanças humanas pelo mundo.

Acaso ser brasileiro é ter idiossincrasias similares, paixões que se igualam, temperamentos que acenam com a mesma bandeira nacional onde está inscrito o dístico Ordem e Progresso? Nordestinos que padecem da sede e sulistas que se perdem nos pampas, tomando chimarrão como se fossem argentinos?

Narrativas astutas e mentirosas pautam a nossa história

É-se brasileiro pela língua que se fala no lar, na cama, na via pública? Independente do sotaque que cada região ostenta. Um anasalado, outro mais gutural, outro mais afunilado. Mas cada sotaque soando como música aos ouvidos de quem se emociona com a fragmentação das características. Uma língua vinda de Portugal há mais de quinhentos anos. E que se tornou a língua dos quebrantos, dos desejos eróticos, da eloquência parlamentar, dos sentimentos recônditos. A língua dos amantes e da poesia. Mas também dos guerreiros, dos corruptos que hoje são tantos no território nacional, sobretudo na capital do país, dos ditadores que foram expulsos a partir da implantação democrática em 1988, dos vândalos, dos supliciados de outrora e dos que ainda padecem nas mãos dos que têm poder. Também dos astuciosos, mentirosos, dos falsos donos das palavras, dos doutrinários inescrupulosos que nos tempos atuais, da tribuna da capital, nos ludibriam a pretexto de nos servir. A língua dos vencedores, dos pecadores. Dos que pedem perdão sabendo que incorrerão de novo na mesma culpa.

Há tantas maneiras de ser brasileiro. É rir confrontado com o ridículo que atribuímos ao vizinho como causador da situação constrangedora. Rir para que apreciem o nosso humor. É chorar quando a dor é pública e o nosso pranto prova a excelência do nosso caráter, como somos sensíveis diante da dor alheia. É abraçar quem sofre como se a manifestação de pesar assegurasse ao outro que seríamos eternamente solidários.

Ser brasileiro é dilacerar as cordas vocais na hora do gol, como modo de levarmos a ilusão para casa e com ela enfrentar a semana entrante a despeito do transporte, das dívidas que se acumulam, da educação precária dos filhos, da moradia que um temporal derruba matando dois ou três familiares. É beber a cerveja que o vulgo e a emoção chamam de loura gelada, como se estivessem se referindo quem sabe à loira Marilyn Monroe, criando com a garrafa um vínculo erótico. De forma que busquemos similitudes em torno da mesa e transfiramos para mais tarde as divergências que nos apartem. Já que convém esquecer que são escassos os recursos que nos une. É dizer piadas que atraiam a plateia de vizinhos, tendo como sujeito da nossa crueldade alguém que era necessário castigar. Um gay, por exemplo, um travesti, uma prostituta. Não há piedade em qualquer nação.

Aparentamos, então, ser cervantinos, somos brasileiros como quando abraçamos quem está próximo, o vizinho na hora do gol que decide a partida, fortalecidos pela esperança de vencer os embates da semana entrante. Como quando, emotivos e vulgares, sorvemos a cerveja que cristaliza similitudes em torno da mesa e transfere para o futuro as divergências que ora nos apartam.

Ser brasileiro é aceitar o mistério, convencido de que sendo Deus brasileiro, cabe-lhe solucionar os nossos conflitos. É saber que o Brasil é nossa morada e alojamento dos nossos mortos, e que nada nos faltará. Nem teto, nem a sopa fumegante. A vida supre-nos com sol, sal, alegria e a esperança dos dias vindouros.

Afinal, nos trópicos brasileiros as colheitas se multiplicam como nas bodas de Canaã. É a terra que Pero Vaz de Caminha, em 1500, assegurou ao rei Dom Manuel, em Lisboa, que aqui o que se plantasse, vingaria. Assim nasceram as bananas da infância junto com o fausto do verbo da língua lusa portuguesa. Para nós, cidadãos, é uma espécie de paraíso que bonifica a memória tanto com lembranças como com o esquecimento. Pois temos a propriedade de esquecer o que convém apagar. Também a transcendência, a despeito dos cultos sincréticos, e Deus estar em todos os lugares, não prospera e o enigma não é respeitado. Não há, pois, vocação filosófica, como os alemães. E por conta da força da intriga e da iminência da metáfora, somos voltados para a ficção e para a poesia.

A memória, contudo, que os brasileiros cultivam, corresponde à matéria que guardamos do mundo. Como consequência, para sermos brasileiro, somos gregos, romanos, árabes, hebreus, africanos, orientais. Somos parte essencial das civilizações que aportaram nesta terra onde afloram a abundância, a alegria, a traição, a ingenuidade, o triunfo do bem e do mal, a ilusão, a melancolia. Atributos todos nutridos pelo feijão preto bem temperado, o arroz soltinho, o bolo de fubá, o bife acebolado, e os anjos feitos de açúcar e gema de ovo que enfeitam a paisagem atlântica e sertaneja.

No Brasil, ao longo dos séculos, surgiram narrativas astutas e mentirosas que pautam a nossa história. Heróis e malfeitores, de estirpes emaranhadas. Outrora abominados, hoje reverenciados. Quem se interessa pelo julgamento da história? Mas personagens afinados com as torpezas e as inquietudes do seu tempo. Acomodados à sombra da mangueira que resiste aos anos, enquanto dedilhavam as cordas do violão e do coração.

Berço de heróis e marinheiros, neste litoral os saveiros da imaginação cruzaram os mares, instalaram culturas feitas das sobras alheias. Quem aqui nasceu, ou aqui aportou, fincou no peito brasileiro bandeiras, hábitos, linguagem, loucas demências.

É necessário, portanto, que ao viajar para o Brasil, o estrangeiro se apresse em dominar sua história, suas leis que, conquanto promulgadas, dão margem a interpretações múltiplas, coteje se o tema do seu interesse se harmoniza entre os diversos poderes públicos de Brasília. Se de verdade é o paraíso fiscal em que sonhou investir seu capital volátil, uma pretensão que contraria nossos interesses associados ao real desenvolvimento econômico do país. Sobretudo convém auscultar os sentimentos do brasileiro, sua simpatia, sua astúcia, a vocação com que altera as regras da vida e do mercado econômico. De como no meio de qualquer processo altera leis e diretrizes. De como ganha um tempo que, para o investidor, constitui um prejuízo, mesmo que as autoridades não saibam o que fazer com o tempo que guardou. Convém, sim, sondar o coração do brasileiro, que se reparte entre a família e os amores clandestinos, através da leitura dos intérpretes da pátria, dos ficcionistas, dos poetas. Deles emana a leitura que lhes dará o detalhe, a medida, as substâncias do ser brasileiro. A exegeses que vai fundo a genealogia dos afetos. Que tentou chegar perto deste coração brasileiro. Talvez se deslumbre com este povo singular, que trata o cotidiano com admirável leveza. E que a despeito de carnavalizar a realidade, também ostenta sintomas de melancolia.

É necessário saber e levar em conta, diariamente, de que nasceu no Rio de Janeiro em 1828, durante o Segundo Reinado, o escritor Machado de Assis, com nome de batismo Joaquim, cujo determinismo falhou ao não prever a própria grandeza. E de cuja obra surge o verbo que nos define e concede à nação um destino solar e a alvorada de cada dia.

Amigos, sejam todos bem-vindos a esta terra amada.

Nélida Piñon (1934-2022)

Presidentes punidos, democracias fortalecidas

Esses dez dias na Coreia do Sul me fizeram refletir sobre as semelhanças políticas e institucionais com o Brasil. Ambos os países se tornaram democracias praticamente ao mesmo tempo – o Brasil em 1985, a Coreia do Sul em 1987. São sistemas presidencialistas, multipartidários, em que o presidente concentra amplos poderes constitucionais, mas o Judiciário atua com independência notável.

As coincidências não param nas instituições. Tanto no Brasil quanto na Coreia, a única mulher a ocupar a presidência foi afastada do cargo por impeachment. Park Geun-hye foi condenada a 32 anos de prisão por corrupção, mas cumpriu apenas cinco, após receber perdão do então presidente Moon Jae-in. No Brasil, Dilma Rousseff também teve seu mandato interrompido, embora por crimes fiscais e orçamentários. Já Lula foi condenado a 12 anos de prisão por corrupção, mas teve a pena anulada pelo STF após 580 dias de cárcere.

Brasil e Coreia do Sul são casos raríssimos no mundo democrático: os únicos que puniram judicialmente líderes políticos desviantes enquanto seus respectivos partidos ainda estavam no poder. Na maior parte dos casos, elites políticas só são responsabilizadas quando já estão na oposição, o que costuma levantar suspeitas de parcialidade nos julgamentos. Essa exceção revela a força e a autonomia dos sistemas de freios e contra pesos em ambos os países.

Mais recentemente, Brasil e Coreia do Sul voltaram a exibir paralelos políticos, quando seus presidentes protagonizaram tentativas de retrocesso democrático. Nos dois casos, no entanto, as iniciativas fracassaram.

No Brasil, Jair Bolsonaro lançou dúvidas sobre a lisura das urnas eletrônicas e se recusou a reconhecer a derrota na eleição de 2022. Hoje responde no STF por tentativa de golpe de Estado, abolição do estado de direito e organização criminosa. Na Coreia do Sul, o presidente Yoon Suk-yeol enfrentou uma grave crise institucional em dezembro de 2024, ao decretar Lei Marcial. A Assembleia Nacional reagiu prontamente com um processo de impeachment, confirmado por unanimidade pela Suprema Corte.

Esses episódios ilustram a importância de um desenho institucional que combine presidencialismo, multipartidarismo e um Judiciário autônomo – especialmente quando não há maiorias legislativas automáticas para presidentes com perfil desviante ou autocrático. Tanto no Brasil quanto na Coreia do Sul, a democracia foi colocada à prova – e sobreviveu – não apesar, mas por causa de instituições capazes de impor limites reais ao poder presidencial. Em tempos de crise democrática global, essa talvez seja a mais inesperada das virtudes.
Carlos Pereira

Estamos nos transformando em uma nuvem de dados. E isto não é nada bom

Oito em cada dez usuários de internet no Brasil usam as redes sociais com frequência, de acordo com dados de 2024 do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto Br (NIC.Br). Silenciosamente, enquanto você navega, as redes sociais coletam muito mais informação do que aquilo que fornecemos conscientemente.

Esses dados são coletados em várias camadas. A camada “zerésima” corresponde às informações básicas que preenchemos – nome, idade, interesses, nossa rede de contatos. A partir dessa base, existem nas outras camadas um universo de dados comportamentais sendo monitorado. As redes observam o que curtimos, compartilhamos, comentamos, assistimos, o tempo que passamos em um post ou vídeo.

Esses padrões são comparados estatisticamente aos de outros usuários e, a partir disso, vão inferindo com quem se parecem os nossos gostos, desejos e até aspectos da nossa personalidade.

 'A vida offline é o que dá sentido a qualquer coisa que ocorra na tela'

O consultor de mídia dinamarquês Thomas Baekdal chama isso de dados de primeira ordem. São criados pelas plataformas, refinando tudo aquilo que extraem da nossa atividade e que pode permitir fazer inferências sobre o que abre nosso bolso. Esses dados são organizados em perfis vendidos para anunciantes de forma automatizada, em leilões que ocorrem em microssegundos.

Eles não precisam acertar 100%; se errarem, o pior que pode acontecer é ignorarmos algum anúncio. A segunda camada, portanto, está na relação comercial das plataformas com anunciantes a partir dos nossos dados. A partir de tudo que sabem sobre nós e mais o que inferem, as plataformas constroem perfis super detalhados.

Não precisam saber necessariamente quem você é, mas sabem que, se acertarem no seu gosto e no seu momento, você pode assistir a um vídeo, clicar num anúncio ou comprar alguma coisa. É um pouco de demografia, um pouco de psicografia e um tanto de matreirice.

Há ainda uma terceira camada, a dos cookies de terceiros, ainda mais invasivos que os das plataformas. É assim que os anúncios perseguem você de um site a outro. Cookies são pequenos arquivos que os sites despejam no seu navegador quando você visita uma página. A finalidade é identificá-lo na próxima visita, e com isso eles viram uma espécie de diário de bordo de tudo o que você fez no site.

Eles podem ser do próprio site acessado: ao retornar a um site de noticias, os links que você já clicou aparecem roxos em vez de azuis. Mas no lucrativo negócio dos cookies de terceiros, os cookies despejados no seu computador pelo site que você visita podem vir de redes de anúncios presentes também em outros sites.

A relação dessas redes não é diretamente com você, mas com os sites que acessa. Se a mesma empresa do cookie monitora um site de notícias e um site de alimentação, por exemplo, ela vê quem visita os dois ou não. Por isso é que tantos sites usem pop-ups pedindo sua autorização para cookies: se não usam cookies de terceiros, não é preciso pedir licença.

Essas empresas coletam dados da sua navegação para refinar um perfil comercializável seu. Num nível mais alto, esses dados são vendidos e cruzados com bases externas, tipo dados vazados do Serasa, histórico comercial e até dados de saúde. É assim que surgem os corretores de dados (data brokers). Eles não têm relação com o seu uso da internet e nem com os sites por onde você passa.

São empresas que compilam tudo isso para vender perfis completos, muitas vezes contendo nome, CPF, telefone ou nomes de parentes. Esse mercado alimenta desde a publicidade legítima até golpes e fraudes, seja via publicidade (84% das reclamações sobre anúncios são de anúncios digitais) ou mais diretos.

Pessoas que aplicam golpes no WhatsApp, por exemplo, muitas vezes compraram o perfil da vítima, com foto e tudo, num site que fornece isso.

Quem está nesses bancos de dados nem faz ideia que está sendo comercializado como produto. Parte das pessoas que faz ideia disso acaba embarcando na ideia falaciosa de que “todos os nossos dados já são públicos”. É uma falácia: nesses casos mais graves, eles foram roubados ou obtidos mediante falsas premissas.

O efeito mais direto é que o conteúdo que aparece para você nas redes sociais não é neutro. As plataformas têm interesse em manter você dentro delas pelo máximo de tempo possível, porque assim podem lhe mostrar mais anúncios. Você verá mais postagens dos amigos com quem interage mais, e não daqueles de quem tem mais saudade.

Geralmente, interage mais com quem usa mais a plataforma, posta mais bobagem ou coisas mais engajantes. Se em vez de amigo é um assunto, a plataforma vai jogar os assuntos que fazem você dar mais sinais de que gostou – curtidas, compartilhamentos.

Se você abrir o YouTube num browser recém-instalado, sem se logar, vai ver o retrato do universo paralelo do que mais engaja no Brasil. Depois que a plataforma começa a lhe conhecer, personaliza tudo o que pode para segurar você lá dentro.

Quanto mais tempo passa, mais dados ela coleta, mais sedutora fica e mais tempo você continua lá. Esse ciclo é vicioso. Essa lógica vem sendo comparada com à das máquinas caça-níqueis.

O feed infinito é uma dessas táticas. As plataformas mais agressivas também “punem” links. O Facebook, por exemplo, reduz o alcance de postagens com links porque tiram o usuário da plataforma. O Instagram nem permite link clicável em posts comuns. O Twitter, agora X, também passou a privilegiar conteúdo nativo.

O objetivo é manter o usuário dentro da bolha, para poder seguir coletando dados e vendendo anúncios. Segundo a autora Shoshanna Zuboff, as plataformas transformam o comportamento do usuário para torná-lo mais previsível e definir melhor o que oferecer. O problema é que isso cria bolhas muito fechadas. É um sistema que transforma cada um de nós numa ilha de estímulos personalizados.

As plataformas usam a ideia de “transparência” de forma muito elástica. Há a transparência voltada ao consumidor — a opção de ver em quais categorias de anúncios você caiu — mas é difícil de acessar, oculta nas configurações e com linguagem vaga.

Já a transparência pública, sobre como as plataformas operam, está sendo sistematicamente desmontada: a API do Twitter, que permitia pesquisar quem falava com quem sobre determinados temas, foi encerrada com a compra pelo Elon Musk em 2022.

O fechamento mediante cobrança de um valor abusivo foi o prego no caixão desses estudos, de modo que perdemos a capacidade de monitorar articulações de desinformação e extremismo em tempo real e de embasar demandas de responsabilização.

Ao longo da última década, as redes sociais passaram a dificultar o acesso à informação confiável. As pessoas foram perdendo o hábito de ir diretamente a quem produz notícias, esperando que as plataformas lhes entregassem o que fosse essencial. Além de prejudicar o jornalismo, isso reforçou o mito de que “se for importante vai chegar até mim” — ideia que nasceu por volta de 2012, quando estávamos todos apaixonados pelas redes sociais.

.Só que o que circula mais nas redes não é o essencial, mas o que for mais clicável e que causa emoções fortes.

Jonah Berger, professor de marketing na Universidade da Pensilvânia (EUA) e autor do livro “Contagious: Why Things Catch On”, mostra isso com clareza em seu estudo. Notícias com maior carga emocional são mais lidas e compartilhadas e têm mais chances de viralizar, especialmente se causam raiva. Essa mobilização permanente tem consequências políticas, sociais e até interpessoais.

E, claro, o algoritmo privilegia esse tipo de conteúdo justamente porque engaja. O algoritmo não quer que você se informe; quer que você reaja curtindo, compartilhando, comentando, desde que seja tudo no jardinzinho murado das plataformas. Politicamente, isso acaba desmobilizando e mobilizando de maneira assimétrica.

Zeynep Tufekci, professora de sociologia e relações públicas na Universidade de Princeton (EUA), mostrou no YouTube que esse modelo pode conter uma trilha para o extremismo. Você começa buscando vídeos sobre alimentação saudável e, se for seguindo as indicações da plataforma, ela vai subindo o tom gradualmente até mostrar teorias conspiratórias sobre vacinas.

O algoritmo empurra para o conteúdo mais extremo daquele tema porque é o que mais prende atenção. Quanto mais você acata a sugestão do algoritmo, mais o seu comportamento se torna previsível e mais fácil fica alvejá-lo com anúncios. Mesmo que sua própria família deixe de suportá-lo.

A IA já está presente há muito tempo nesses processos, especialmente na forma de aprendizado de máquina (machine learning). Ela analisa no agregado o que foi visto, clicado e ignorado, compara e usa isso para prever o que pessoas com gostos parecidos podem querer ver a seguir. Isso vale para redes sociais, para o Netflix e para qualquer plataforma que recomenda conteúdo.

Na pior hipótese, você escolhe outra coisa pra ver na mesma plataforma, o que para eles é mais um sinal importante, ou desliga a TV e vai dormir.

Com a IA generativa, o cenário fica ainda mais complexo. Já tem gente usando esses modelos para produzir conteúdo em escala – vídeos, livros, podcasts –, às vezes com informações falsas. Em 2023, saíram dez “biografias” de Claudia Goldin, vencedora do Prêmio Nobel de Economia, no dia seguinte ao anúncio, algumas delas geradas por IA. Esses modelos simulam uma linguagem muito convincente, despejada na tela com base na probabilidade.

Brinco que são “máquinas de encher linguística”, que chutam com a autoconfiança de um homem branco de meia-idade em uma mesa de bar. Quem usa a IA gerativa sem checar direito o seu resultado tem uma probabilidade alta de espalhar desinformação pelo mundo. Quem checa direito e corrige o resultado do que gera nas máquinas de encher linguística, por outro lado, corre o risco de perder todo o tempo que ganhou usando o assistente digital. Ou até mais.

Uma das grandes urgências da atualidade é garantir a transparência nas plataformas: obrigá-las a abrir o funcionamento de seus algoritmos à auditoria – para sabermos quem vê o quê, por que vê e quem pagou para aparecer – e liberar os dados das postagens. Como faz o Bluesky ou fez o falecido Twitter, algo que Facebook e Instagram nunca fizeram.

Igualmente, é essencial regulamentar influenciadores, cujo poder de vender produtos, ideias e até apostas, como evidenciado na CPI das Bets, atuou sem regulação clara, explorando comercialmente a relação de confiança criada na pandemia de maneira muitas vezes abusiva, o que exige limites.

Somente entender essa lógica de funcionamento das redes e legislar com base nela, e não apenas na comunicação tradicional, poderá conter essa escalada de baixaria.

Ao mesmo tempo, há redes sociais com outra dinâmica. O Bluesky, por exemplo, não exibe algoritmos de viralização: quem posta de manhã só alcança quem está online naquele momento, e repostagens são necessárias para aumentar o alcance. Não penaliza links nem privilegia conteúdo polêmico, tornando o ambiente menos tóxico.

As ferramentas de automoderação permitem desconectar comentários ofensivos, seguir listas comunitárias e bloquear perfis em massa. O Mastodon tem um protocolo ainda mais aberto do que o Bluesky, e permite maneiras muito mais flexíveis de moderar, mas muitos consideraram uma rede técnica demais e acabou não pegando no Brasil fora de comunidades mais técnicas mesmo.

A esperança existe, mas depende de nós: precisamos entender melhor como essas plataformas funcionam, cobrar transparência, apoiar iniciativas de regulação e buscar ambientes mais saudáveis para o debate público. Tem muita gente boa pesquisando e propondo caminhos – como os pesquisadores Letícia Cesarino (UFSC), Rosana Pinheiro Machado, Francisco Brito Cruz (fundador do InternetLab e hoje independente), Rafael Evangelista (Labjor/Unicamp) e tantas outras vozes críticas e técnicas.

As redes sociais moldam o que vemos, o que pensamos e até como nos comportamos; não dá para deixar esse poder todo nas mãos de empresas que podem ser compradas ou implodir os mecanismos de proteção dos usuários. Precisamos pensar coletivamente em como queremos nos informar, nos comunicar e construir nossa visão de mundo, tentando cortar gradualmente a dependência de cada “big tech” e buscar alternativas. Essas alternativas existem, mas são péssimas vendedoras de si próprias.

Mais importante ainda seria desplugar com mais frequência os laços sociais, conversar olho no olho sem obrigação de viralizar e sem ser assediado por anúncios. A vida offline é o que dá sentido a qualquer coisa que ocorra na tela.

Geopolítica da loucura encenada

O imperador Calígula dizia ser um deus e conversar com a lua. Sanguinário, devasso, aperfeiçoava métodos de tortura, exilava cidadãos. Encabeça a lista dos governantes absolutistas mais loucos do mundo, próximos às ideias monarquistas de Curtis Yarvin, pensador da extrema direita, consultor de Elon Musk para um terceiro partido. Seria apressado associá-los a Trump, embora a crueldade do régulo americano tenha afinidade com o rol histórico dos desatinados. Eleito, ele veste carapuça imaginária de imperador, com fúria caligulesca de deportações e sombrios rumores sexuais. Mas de olho além da Lua, em Marte.


Em princípio, são aspectos miúdos do trumpismo, cujo eixo é a reafirmação do protecionismo econômico dos EUA por meio de guerra comercial. Nisso, nenhuma loucura, e sim reflexo do medo da desindustrialização, devida à realocação de fábricas para onde os salários se rebaixam ao nível da desumanidade. Uma reação particular à nova ordem mundial, que vitimiza a antiga classe trabalhadora branca do "cinturão da ferrugem". A esta, junto a setores desclassificados, deveu-se a eleição de Trump.

Em suma, foi o medo. Pode-se agir por medo ou apesar dele. No último caso, enfrentam-se obstáculos, até mesmo a morte. É o que se observa nos "tycoons", construtores de fortunas e impérios. E disso sempre fez alarde o capitalismo. O que nunca se explicita é o temor subjacente às conquistas. A paranoia como cimento social é motora de uma ideologia isolacionista, expressa em modos de vida, literatura popular e cinema de ação. Uma sociabilidade propícia a serial killers.

Esse é o substrato da aversão visceral ao outro, o estrangeiro, foco da alma coletiva encarnada em Trump. Deportar imigrantes é uma incitação ao exílio interior de cidadãos destinados à "América Novamente Grande" (Maga), ou seja, brancos descendentes dos primeiros colonos. O uso de boné do Maga por um não-americano, um brasileiro, digamos, é um marcador rebarbativo de ignorância política ou do transe atravessado pelos excluídos da nova bonança, prometida, não pelo impossível retorno da indústria manufatureira, e sim pela IA.

Mas o domínio da inteligência vive à sombra da besteira. Anos atrás, Jean Baudrillard assinalava que "a tirania da IA preside ao nascimento de uma besteira desconhecida até agora —a estupidez artificial— espalhada por toda parte, nas telas e redes informáticas. Então a besteira natural pode ganhar nobreza, como loucura" (em "Le Pacte de Lucidité").

Produto dessas telas e redes, portanto, de um novo tipo de estupidez, Trump busca nobreza eleitoral na insanidade. Seu niilismo, avesso ao iluminismo das universidades, prospera na depressão moral e cultural dos parceiros de crueldade: nacionalistas cristãos de direita, big techs e até na subserviência da brasileira, a JBS, que doou US$ 5 milhões para a sua posse.

Trump quer dinheiro. A aparente loucura está na imprevisibilidade da sua gangorra entre mundo histórico e realidade paralela. Até agora não emulou Calígula, que fez do cavalo Incitatus um senador romano. Uma equinocultura contagiante: segundo um senador brasileiro, Trump poderá retaliar com bomba atômica se for desobedecido. Mas o Chucky-Laranja, invenção telemórfica, prefere se afirmar como reencenador oportunista de loucuras do passado.

segunda-feira, 21 de julho de 2025

A Estátua da Liberdade está envergonhada

As nações se distinguem e se identificam pela adoção de diversos símbolos. Não importam a dimensão territorial ou tamanho de PIB. A identidade nacional está, orgulhosamente, inscrita nas bandeiras, hinos e rituais que atravessam gerações formando uma unidade indissolúvel – a nação – fortalecida por uma vontade contínua de pertencimento, “um plebiscito diário”, na inspirada definição do historiador francês, Ernest Renan (1823-1892), a quem Joaquim Nabuco dedicou o capítulo VII do livro de memórias Minha Formação.

No caso de monumentos ou estátuas, elas revelam muito mais do está diante dos olhos. Puxam pela imaginação, provocam ressonâncias, carregadas de dinamismo e afetividade. Vai mais além quando ultrapassam o intelecto e o interesse estético: fazem a vida vibrar e se revelam como forças unificadoras.

Neste sentido, três ícones merecem alguns comentários. O primeiro na ordem dos sentimentos é o Cristo Redentor, construído no cimo do morro do Corcovado. Mede 709 metros acima do nível do mar é a mais alta estátua do mundo no estilo Art Déco com 38 metros de altura, 28 de envergadura 1145 toneladas. O engenheiro Heitor da Silva Costa projetou a estátua, esculpida pelo franco-polonês Paul Landowski e o rosto criado pelo romeno Gheorghe Leonida. Os trabalhos duraram nove anos: início em 1922 e inaugurada em 12 de outubro de 1931, dia consagrado a Nossa Senhora Aparecida.

Contemplar o que seria e é um cartão postal transforma-se na beleza mágica e sentimento profundo do gesto de admiração e respeito. A estátua condensa a beleza oceânica e o horizonte verde-azul no abraço universal da paz e do acolhimento dos que aqui vivem e dos que vieram na busca de novos caminhos.


E o que dizer da Torre Eiffel, marco do centenário da Revolução Francesa, inaugurada na Exposição Universal de 1889, como estrutura temporária, prevista para ser desmontada após vinte anos, alvo que foi das severas críticas de artistas e intelectuais parisienses? Ora, a Torre feita de ferro forjado, pesando 10 mil toneladas, serviu também para comprovar sua resistência ao vento, tese defendida pelo seu projetista Alexandre Gustavo Eiffel. Mais tarde, por ocasião da Segunda Guerra Mundial, Hitler ordenou que fosse demolida. Os franceses destruíram os elevadores. Restou-lhe profanar a soberania francesa com a suástica nazista, banida pela bandeira tricolor na celebração da resistência e da vitória dos aliados.

O que comove e sensibiliza na arte é a força do espanto, um estalo de admiração e surpresa que despertam curiosidades, estimulam dúvidas e buscam respostas que não existem. Mas é um exercício saudável refletir e especular. É o que ocorre quando nos deparamos com monumentos já referidos e que se completam no encontro com a Estátua de Liberdade, originalmente, chamada “Liberdade Iluminando o Mundo”.

Na raiz, estavam princípios e ideias que deveriam ser comemoradas e cultivadas como um destino histórico da humanidade. Para dar forma e enfatizar a permanência e a universalidade do conjunto de valores, entre eles, o valor supremo da liberdade. Em 1886, o jurista e político francês Edouard René Laboulaye propôs a criação de um monumento que celebrasse a amizade franco-americana e os ideais republicanos da democracia. A concepção foi de Fréderic Auguste Bartholdi e a estrutura interna de Gustavo Eiffel, o mesmo engenheiro da Torre Eiffel. A inauguração ocorreu em 28 de outubro de 1886.

A Estátua da liberdade exala símbolos. Ela representa a deusa romana Libertas que personifica a autonomia, a independência e todas as faces da libertação humana. A tocha na mão direita remete ao caminho iluminado e a esperança. Na mão esquerda segura a tábua com a inscrição de 04 de julho de 1776 data da Declaração de Independência dos EUA. Nos pés, as correntes quebradas são os grilhões da opressão e da tirania. Durante o período de forte imigração (1892 a 1954), a visão da Estátua apontava para uma vida nova, um ícone de boas-vindas ao mito do “sonho americano”, na direção de sete pontas, os sete mares e os sete continentes, representando uma cultura de amplitude universal.

Enquanto isso, o Presidente Trump, democraticamente eleito, usa as instituições que asseguram a estabilidade política para destruir a própria democracia e, se necessário, a força como pressuposto para a paz. Embora rompido, Trump ouve os conselhos do ideólogo da extrema direita e esperto homem de negócios, Steve Bannon: “A verdadeira oposição é a mídia. A forma de lidar com ela é entupindo a zona de merda”.

Infelizmente este é o nível dos atores que emporcalham a política. Tentam colocar em xeque a democracia. A democracia não é um ponto de chegada. É algo móvel. Um processo. É um truísmo dizer que nenhum regime, chega à democracia plena. Não basta se adequar às mudanças históricas. É fundamental preservar os princípios fundadores e operar aperfeiçoamentos. O desencanto com a democracia representativa é global. Mas não se pode perder de vista que padecemos de fatores endógenos, entre eles, a confiança que mina as estruturas institucionais, as relações pessoais e gera o espaço por onde prospera a erva daninha dos apelos populistas.

Quanto à economia, os estragos estão sendo contabilizados e serão enfrentados por um país unido e utilizando os caminhos da diplomacia política. Tem razão a lucidez de Edmar Bacha: “Em vez de Trump procurar acordos comerciais para o país, age como um ‘valentão’ dando tiro em bar. Mas o mundo vai sobreviver a ele”.

A crônica de um naufrágio anunciado

De tempos em tempos, a realidade nos oferece cenas tão emblemáticas que só a literatura, com seu panteão de personagens, parece ser capaz de explicá-la. E esse é o caso do Capitão Ahab, protagonista do romance Moby Dick. Na obra, publicada por Herman Melville em 1851, Ahab encarna a figura do líder obcecado por um inimigo simbólico — a baleia branca — cujo enfrentamento não é racional, mas movido por ressentimentos e desejos de vingança. Na sua cruzada pessoal, o personagem ignora alertas em sacrifício do pragmatismo e conduz a tripulação do navio Pequod ao naufrágio.

O arquétipo literário proposto por Melville pode nos ajudar a explicar o período de incertezas políticas que vivenciamos hoje, notadamente a situação do bolsonarismo no Brasil e do trumpismo nos EUA, com os quais Ahab compartilha traços de irracionalidade e impulsividade autodestrutiva, para dizer o mínimo. Tanto aqui quanto lá, tais grupos têm mantido uma lógica de confronto contínuo contra inimigos difusos — o “sistema”, o Judiciário, a imprensa, o “globalismo”, etc. —, numa estratégia esquizofrênica que dispensa a construção de alternativas viáveis para a própria sobrevivência política e insiste na mobilização pelo ressentimento. E o episódio da imposição de tarifas comerciais por parte do governo americano sobre produtos brasileiros oferece um exemplo concreto disso.

Conforme visto no dia 9, Donald Trump anunciou tarifas de 50% sobre todas as exportações do Brasil aos EUA a partir de 1º de agosto de 2025. A decisão, comunicada por meio de uma carta pessoal endereçada ao presidente Lula (PT), chocou os analistas e foi classificada como punitiva, ultrapassando qualquer expectativa do mercado. O Brasil, aliás, foi tratado de forma desproporcional em relação a outros países taxados, como Argélia, Iraque, Líbia e Sri Lanka (30%), Brunei e Moldávia (25%) e Filipinas (20%). Enquanto o teor da carta escancarou a motivação política deste movimento, ao citar o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), criticar o Supremo Tribunal Federal (STF) e avançar sobre a manutenção da “liberdade de expressão” e a regulação das plataformas digitais.


Ainda que não seja a primeira vez que Washington tenha utilizado tal estratégia enquanto instrumento geopolítico, a situação revela uma inversão do espírito que norteou a criação da ordem comercial liberal pós-Segunda Guerra — uma ordem que, como lembra o Nobel Paul Krugman, via no comércio internacional não apenas ganhos econômicos, mas uma ferramenta de promoção da paz e de fortalecimento da democracia. Da mesma forma, torna-se evidente a falta de uma lógica econômica por trás dessas medidas, considerando que os americanos mantêm um superávit na balança comercial com o nosso país, o que inviabiliza justificativas para a adoção de tarifas dessa natureza.

De acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, a relação comercial entre Brasil e EUA é deficitária para o Estado brasileiro desde 2009. Segundo o presidente Lula, em entrevista à BBC, o déficit acumulado dos últimos 15 anos já ultrapassa US$400 bilhões. Portanto, as “graves injustiças do regime atual”, nos termos da carta enviada por Trump, são evidentes inverdades para quem lê os números — e verdadeiras inevidências para quem acredita, talvez demais, em bravatas tarifárias.

Além disso, apenas para título de ilustração, cerca de 30% do café e 50% do suco de laranja importados pelos EUA vêm do Brasil, conforme dados divulgados pela Reuters. O que significa que, sob à sombra da diminuição no fluxo de venda, os roasters norte-americanos não conseguiriam absorver o aumento dos custos internos. Já no campo do alumínio e do aço, segundo a Intellinews, uma tarifa de 25% sobre as exportações brasileiras seria responsável por uma queda estimada de 11% na venda desses insumos, o que, em termos de prejuízo, bateria a casa dos US$1,5 bilhão.

No entanto, um detalhe curioso — para não dizer irônico — é que os setores atingidos no Brasil estão sediados justamente em redutos bolsonaristas: Minas Gerais e São Paulo. Estados governados por figuras próximas ao ex-presidente — Romeu Zema (Novo) e Tarcísio de Freitas (Republicanos) —, e que agora poderão experimentar interrupções na produção, demissões em massa e perda de arrecadação. Aliás, o possível impacto inflacionário, causado pelas pressões nas cadeias de transmissão, só não é mais instigante do que o papel de Jair Bolsonaro nessa história. Isso porque, longe de ser protagonista, o ex-presidente tornou-se um peão mal posicionado no tabuleiro geopolítico de Washington, algo claro no final da carta de Trump, quando o republicado diz que:

“[…] Se o senhor [Lula] desejar abrir seus mercados comerciais, até agora fechados, para os Estados Unidos e eliminar suas tarifas, políticas não tarifárias e barreiras comerciais, nós poderemos, talvez, considerar um ajuste nesta carta […] O senhor nunca ficará decepcionado com os Estados Unidos da América […]”. 

Em outras palavras, embora seja tentador acreditar na “reciprocidade amistosa” da relação Trump-Jair, conforme o bolsonarismo afirma incessantemente, a Casa Branca instrumentaliza Bolsonaro como pretexto para minar a coesão dos BRICS e enfraquecer as posições da China na América do Sul — esses sim, os reais alvos dos EUA. Não se pode ignorar que a recente carta foi divulgada apenas três dias após o encontro do grupo no Rio de Janeiro — evento que, entre outros temas sensíveis, incluiu a proposta de um sistema monetário mais autônomo em relação ao dólar, provocando reações imediatas. No dia 06 de julho, Trump ameaçou impor tarifas adicionais de 10% a qualquer país que se alinhasse “às políticas ‘antiamericanas’ dos BRICS”.

Para além das tensões diplomáticas, as posturas reativas da Casa Branca refletem as transformações do cenário internacional. Hoje o PIB dos BRICS já superou o do G7, por exemplo. Além disso, o populismo tarifário de manual, por assim dizer, não apenas testa os limites da paciência brasileira, como também busca intimidar os rivais norte-americanos. No entanto, esta guerra comercial pode se transformar num famoso “tiro no pé” ao produzir efeitos inversos aos esperados por Washington. Em visita recente ao Palácio da Alvorada, o Primeiro-Ministro indiano, Narendra Modi, foi recebido por Lula em uma reunião que selou parcerias estratégicas nas áreas de ciência e tecnologia, agricultura e combate ao terrorismo. Após o encontro, o presidente brasileiro reforçou o posicionamento do bloco: os BRICS não aceitam intromissões de países que se recusam a reconhecer a soberania de seus membros.

Logo, diante desse cenário, perguntamos: o que exatamente impediria os integrantes do grupo de se aproximarem ainda mais? Que garantias têm os EUA de que sua estratégia não acabará, na prática, incentivando o fortalecimento interno do bloco, inclusive no plano econômico, por meio de mecanismos de proteção mútua?

Não há dúvidas de que os EUA buscam utilizar a figura do bolsonarismo enquanto cortina de fumaça, mirando em quem realmente os incomoda: Pequim. Porém, ao fazer isso, Trump acaba por fragilizar economias aliadas e dar margem para a reconfiguração de discursos no campo adversário.

Lula, que até então vinha adotando um comportamento conciliador no plano internacional, encontra agora uma oportunidade interna: se posicionar como defensor da soberania diante de agressões externas, e articular um — já conhecido e eficaz — discurso de “unidade nacional” frente ao “inimigo estrangeiro”. Capitalizar a situação sobre um desgaste provocado por forças que, paradoxalmente, se dizem defensoras do Brasil, tende a render ganhos satisfatórios na arena doméstica, impulsionando a popularidade atual do presidente. Afinal, quem diria que Bolsonaro, mesmo temporariamente, reuniria do mesmo lado do “cabo de guerra” figuras de distintas pigmentações ideológicas, desde Guilherme Boulos (PSOL) e Luiz Felipe d’Ávila (Novo) ao Editorial do Estadão (10/07)?

Em entrevista à Record, o presidente Lula destacou que “brincar” com a taxação internacional só levaria a um jogo de retaliações sucessivas, um processo exponencial em que um aumento de 50% seria prontamente respondido com outro de igual magnitude. Um duelo que não termina por exaustão, quando um dos lados resolve, politicamente, recuar. E até aqui, não foi o Brasil quem piscou. Ao contrário do governo japonês, que, quando sujeito à mesma pressão protecionista, sinalizou rapidamente o interesse em renegociar, o Palácio do Planalto parece disposto a não ser o primeiro a ceder.

O tom adotado pelo governo deixa isso claro. Segundo o Ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, o Brasil deve ampliar sua presença em mercados alternativos, buscando reduzir a dependência de exportações aos EUA. O Ministério das Relações Exteriores, por sua vez, reforçou a postura ao passo que optou por devolver à Casa Branca a carta enviada por Trump, apontando seu tom ofensivo e listando as imprecisões factuais do discurso presidencial americano.

Trata-se de uma questão de tempo até que os representantes das federações agroindustriais brasileiras abandonem o silêncio e se juntem ao coro. Isso porque, no fim das contas, a situação das tarifas demonstrou que o nacionalismo performático do séquito bolsonarista não apenas prejudica o país, mas os interesses econômicos de quem antes apoiou Bolsonaro com poucas ressalvas. Mais do que isso, semelhante à tragédia de Ahab em Moby Dick, não parece haver ao lado do bolsonarismo a busca por vencer uma disputa, mas a necessidade de perpetuar uma luta como forma de manter a coesão do seu rebanho político.

Ou seja, o ex-presidente não está voltado para a construção de um projeto viável — nem mesmo para as elites —, mas sim para a sustentação de uma “guerra eterna” contra a “baleia branca”, onde a derrota importa menos do que o confronto. A ruína é uma consequência previsível, mas secundária.

À medida que se torna evidente a ausência de coerência entre as tarifas de 50% impostas pelos EUA e a realidade econômica — marcada pela integração de cadeias produtivas —, e ao passo que os mercados brasileiro e norte-americano começam a reagir, resta a pergunta: o que sobra para Donald Trump? Por enquanto, provavelmente, o velho e conhecido TACO (Trump Always Chickens Out). Afinal, duas semanas é tempo mais que suficiente para recuos — e não seria a primeira vez que o republicano voltaria atrás após bravatas desse tipo. E para o Brasil, o que sobra?

Embora o quadro não seja favorável, Brasília possui alguns trunfos, a começar pela capacidade de resiliência do Itamaraty em negociações bilaterais e institucionais. Sabemos que ações por violação de normas multilaterais na Organização Mundial do Comércio (OMC), buscando a restauração de cotas de aço e alumínio, por exemplo, podem parecer inócuas nesta altura do campeonato. Mas liderar esforços de diálogo em estruturas de governança pode ser uma boa alternativa, inclusive para justificar movimentos posteriores mais bruscos.

Acima de tudo, a diversificação de mercados visando o Leste e Sudeste Asiático, e a União Europeia, além do aprofundamento comercial intra-BRICS e o avanço de parcerias de infraestrutura e integração logística com a China nunca foi tão urgente. Em outras palavras, se o Governo agir com estratégia e cautela poderá transformar um choque adverso numa oportunidade histórica de reposicionamento do país no cenário global e, também, no fortalecimento de sua posição interna. Mas e quanto ao Bolsonaro? O que resta ao bolsonarismo?

Os paralelos com a jornada de Ahab, nessa situação, são pedagógicos e, da mesma forma que o destino do Capitão não foi resultante de uma força incontrolável — mas da decisão consciente de priorizar o conflito à sobrevivência coletiva —, ao bolsonarismo resta a mesma máxima que impera no romance de Melville: quando a irracionalidade substitui a razão, o naufrágio deixa de ser uma possibilidade e passa a ser apenas uma questão de tempo.

Geopolítica da loucura encenada

O imperador Calígula dizia ser um deus e conversar com a lua. Sanguinário, devasso, aperfeiçoava métodos de tortura, exilava cidadãos. Encabeça a lista dos governantes absolutistas mais loucos do mundo, próximos às ideias monarquistas de Curtis Yarvin, pensador da extrema direita, consultor de Elon Musk para um terceiro partido. Seria apressado associá-los a Trump, embora a crueldade do régulo americano tenha afinidade com o rol histórico dos desatinados. Eleito, ele veste carapuça imaginária de imperador, com fúria caligulesca de deportações e sombrios rumores sexuais. Mas de olho além da Lua, em Marte.



Em princípio, são aspectos miúdos do trumpismo, cujo eixo é a reafirmação do protecionismo econômico dos EUA por meio de guerra comercial. Nisso, nenhuma loucura, e sim reflexo do medo da desindustrialização, devida à realocação de fábricas para onde os salários se rebaixam ao nível da desumanidade. Uma reação particular à nova ordem mundial, que vitimiza a antiga classe trabalhadora branca do "cinturão da ferrugem". A esta, junto a setores desclassificados, deveu-se a eleição de Trump.

Em suma, foi o medo. Pode-se agir por medo ou apesar dele. No último caso, enfrentam-se obstáculos, até mesmo a morte. É o que se observa nos "tycoons", construtores de fortunas e impérios. E disso sempre fez alarde o capitalismo. O que nunca se explicita é o temor subjacente às conquistas. A paranoia como cimento social é motora de uma ideologia isolacionista, expressa em modos de vida, literatura popular e cinema de ação. Uma sociabilidade propícia a serial killers.

Esse é o substrato da aversão visceral ao outro, o estrangeiro, foco da alma coletiva encarnada em Trump. Deportar imigrantes é uma incitação ao exílio interior de cidadãos destinados à "América Novamente Grande" (Maga), ou seja, brancos descendentes dos primeiros colonos. O uso de boné do Maga por um não-americano, um brasileiro, digamos, é um marcador rebarbativo de ignorância política ou do transe atravessado pelos excluídos da nova bonança, prometida, não pelo impossível retorno da indústria manufatureira, e sim pela IA.

Mas o domínio da inteligência vive à sombra da besteira. Anos atrás, Jean Baudrillard assinalava que "a tirania da IA preside ao nascimento de uma besteira desconhecida até agora —a estupidez artificial— espalhada por toda parte, nas telas e redes informáticas. Então a besteira natural pode ganhar nobreza, como loucura" (em "Le Pacte de Lucidité").

Produto dessas telas e redes, portanto, de um novo tipo de estupidez, Trump busca nobreza eleitoral na insanidade. Seu niilismo, avesso ao iluminismo das universidades, prospera na depressão moral e cultural dos parceiros de crueldade: nacionalistas cristãos de direita, big techs e até na subserviência da brasileira, a JBS, que doou US$ 5 milhões para a sua posse.

Trump quer dinheiro. A aparente loucura está na imprevisibilidade da sua gangorra entre mundo histórico e realidade paralela. Até agora não emulou Calígula, que fez do cavalo Incitatus um senador romano. Uma equinocultura contagiante: segundo um senador brasileiro, Trump poderá retaliar com bomba atômica se for desobedecido. Mas o Chucky-Laranja, invenção telemórfica, prefere se afirmar como reencenador oportunista de loucuras do passado.

domingo, 20 de julho de 2025

Pensamento Obsessivo

 


'Quando dormia com fome': meu testemunho sobre a fome exaustiva em Gaza

Quando fui para a cama naquela noite, estava com fome. Tentei ignorar a dor crescente no estômago, convencendo-me de que a única refeição que havia feito o dia todo era suficiente. Mas a fome não é algo que se possa silenciar — especialmente quando ela retorna dia após dia, tornando-se a norma em vez da exceção.

A fome, no entanto, não era o único peso que eu carregava naquele dia. O esforço físico necessário para sobreviver à vida cotidiana tornou-se insuportavelmente exaustivo. Desde carregar água na mão até caminhar longas distâncias — seja para o meu trabalho como jornalista ou em buscas desesperadas nos mercados por algo que nos sustentasse — tudo isso acontece sob uma dura realidade que carece até mesmo das necessidades mais básicas para a sobrevivência.

Não consigo parar de pensar nos meus pais idosos, ambos sofrendo de doenças crônicas e precisando de nutrição regular para se manterem estáveis. A cada refeição perdida, temo pela saúde deles. Depois de um esforço exaustivo e de uma busca incansável, finalmente consegui apenas um quilo de farinha. Misturamos, assamos e acabamos com oito pães pequenos. Dividimos em quatro dias — um pão por dia para cada um, meu pai e minha mãe. Não comemos para nos sentirmos satisfeitos; comemos para aguentar.


Mas tudo o que estou passando empalidece em comparação com o som dos soluços que me chegaram através de um telefonema de uma parente. Ela chorava incontrolavelmente, contando-me que sua casa estava completamente vazia de comida e que seus cinco filhos choravam de fome. Engasgando com as palavras, ela disse: "As crianças estão morrendo de fome, o mercado está vazio e eu não sei como convencê-las a dormir". Permaneci em silêncio, incapaz de encontrar uma única palavra para confortá-la — ou para salvá-los.

Pessoas começaram a desabar nas ruas de pura exaustão. O choro das crianças, os gemidos dos idosos e os rostos vazios de fome tornaram-se parte do cotidiano. Ontem, uma criança chamada Yazan Al-Dreimly morreu de fome. Yazan não foi o primeiro e não será o último — cerca de 17.000 crianças em Gaza sofrem exatamente como ele, sob o domínio implacável do cerco, da opressão e da fome.

O Ministério da Saúde de Gaza anunciou hoje, sexta-feira, que os departamentos de emergência estão recebendo um número sem precedentes de cidadãos de todas as faixas etárias, sofrendo de exaustão física severa devido à fome. O Ministério observou que centenas de casos podem enfrentar morte iminente, pois seus corpos se deterioram além dos limites da resistência humana.

A caminho do mercado, vi uma mulher pálida desmaiar no meio da rua. Ela tentou dizer alguma coisa, mas a fome a dominou antes que suas palavras pudessem nos alcançar. Enquanto escrevo estas linhas, tive que parar várias vezes, tentando recuperar o fôlego e os pensamentos. Até mesmo escrever se tornou uma tarefa exaustiva — uma tarefa que tentamos com corpos enfraquecidos e mentes sobrecarregadas pela angústia.

Nos últimos dias, a fome deixou de ser apenas um sentimento interno ou uma dor silenciosa — tornou-se uma cena vívida e viva que se desenrola diante de nossos olhos em cada rua e esquina. Vejo crianças vasculhando os escombros em busca de restos de comida ou migalhas de pão, enquanto mães sentam-se nos degraus de suas casas destruídas, abraçando seus filhos com tristeza e desamparo, observando suas respirações desacelerarem diante dos olhos, incapazes de lhes oferecer qualquer coisa.

Conheço uma vizinha idosa que sempre foi conhecida por sua paciência e generosidade. Ontem, a vi chorando baixinho atrás da porta — ela não tinha encontrado nada para cozinhar para os netos por dois dias consecutivos.

Em nosso bairro, o cheiro de uma sopa simples feita com água e algumas lentilhas — quando disponíveis — preenche o ar como se fosse um banquete. Essa fome não distingue entre jornalista, criança, paciente ou idoso; todos se tornaram vítimas do cerco e da fome. Alguns se acostumaram ao silêncio, outros engoliram as lágrimas e muitos perderam a capacidade de falar de pura dor.

Não se trata mais apenas de escassez de alimentos — é um colapso da dignidade humana. As pessoas sentem que o mundo inteiro lhes virou as costas e que a morte por inanição se tornou uma ferramenta "legítima" de pressão política. A fome não é exceção — é uma política sistemática que nos cerca de todos os lados, sob a proteção internacional e um silêncio global nada menos que vergonhoso.

Nesta dura realidade, a fome deixou de ser um sentimento passageiro — tornou-se uma característica marcante da vida cotidiana em Gaza. Ande pelas ruas e você verá mães carregando seus filhos, em busca de um pão, e pais desempregados carregando silenciosamente o peso de sua impotência. Os mercados estão vazios, a ajuda é insuficiente e as refeições são medidas não pelo prato, mas pela mordida. Agora contamos os pães da mesma forma que os remédios — dividindo-os cuidadosamente entre os membros da família, não por luxo, mas pela sobrevivência.

As pessoas aqui não buscam luxos, mas o mínimo necessário para viver. Água limpa, combustível suficiente para alimentar um pequeno fogão, remédios para aliviar a dor de um paciente ou uma refeição quente para acalmar o coração de uma mãe. A cada dia que passa, as esperanças diminuem e a pressão psicológica se intensifica. Muitas pessoas que conhecemos caíram em depressão, e algumas perderam a força para seguir em frente sem dizer uma palavra, simplesmente porque não veem horizonte ou fim próximo para esse sofrimento.

Em meio a tudo isso, a solidariedade popular não desapareceu — o que consideramos nosso último refúgio. Vizinhos compartilham a comida que conseguem reunir, amigos trocam o pouco que têm e famílias dividem o arroz ou as lentilhas restantes. Essas são tentativas de sobreviver com dignidade em tempos de fome.

Que lei no mundo permite matar de fome mais de dois milhões de pessoas? Sob qual código legal ou moral esse crime é cometido, além do crime de genocídio?

E se apenas uma criança israelense passasse fome? Quantas organizações seriam mobilizadas? Quantas declarações seriam emitidas? Quantas portas se abririam para salvá-las?

Mas aqui em Gaza, somos deixados para morrer em silêncio.

A fronteira está no bolso

Enquanto atravesso o Jardim do Campo Grande, salta-me à vista um grupo num piquenique. Aproximo-me e vejo, então, um insuflável enorme. É uma galinha branca, de bico vermelho, com um cabelo dourado, penteado como o de Trump, com umas mãos a sair das asas a agarrar as grades negras de uma espécie de jaula que a rodeia. Detenho-me. “Isto é o que parece?”, pergunto em inglês a um casal encostado a um banco de jardim. O homem solta uma gargalhada. “É. É um protesto anti-Trump. Vou chamar a organizadora”, diz-me desenvolto.

Aparece, então, a Maria, outra americana, de pele branca e cabelo escuro, que me explica que este ano não lhes apeteceu fazer só o piquenique do 4 de Julho. “Há poucos motivos para celebrar.” Fizeram, então, um protesto. E ali estão eles, talvez meia centena de americanos, a maior parte de meia-idade, todos a morar em Portugal. Como a maioria não se conhece, têm no peito autocolantes onde escreveram os nomes.

“O meu pai emigrou para os Estados Unidos com 14 anos, vindo do Chipre. Os meus avós foram depois. Se os meus avós fossem vivos, nunca iam acreditar que eu tinha vindo para a Europa para ter uma vida melhor”, conta-me a Maria, enquanto conversamos e me fazem perguntas sobre o Serviço Nacional de Saúde ou o sistema de propinas português. Temem ser vistos como usurpadores e garantem-me logo que trataram de arranjar seguros. São todos brancos e estão bem na vida, mas falar com uma portuguesa que lhes diz que são bem-vindos provoca-lhes um alívio visível. Ninguém quer ser o outro, o que está a mais.


Trocados dois dedos de conversa, sigo o meu caminho, ouvindo um podcast do jornal espanhol El Diário. Há uma frase que me fica na cabeça: “Ou somos imigrantes, ou somos fronteira”, diz o locutor, à medida que vai desfiando os casos: do espanhol qualificado que se sente de lado nenhum, à negra, filha de imigrantes, que tendo nascido em Espanha tem a cada passo de pedir documentos a um país onde nunca esteve, passando pelos ucranianos que vieram fugidos da guerra. “Ou somos imigrantes, ou somos fronteira.” Suponho que somos as duas coisas a maior parte do tempo.

Abro o Instagram. Há uma menina de 12 anos que chora descontroladamente. “O meu pai, o meu pai. Ele é tudo o que tenho. É ele quem toma conta de mim, quem me dá comida. O que vai ser de mim agora?”, pergunta a criança americana a quem o ICE (a polícia de fronteiras americana) acaba de prender o pai. O estômago embrulha-se-me. Todos os dias há mais um vídeo destes no feed do meu Instagram. É a brasileira a quem dois polícias encapuzados arrancam dos braços o bebé de nove meses para a levar presa. É o funcionário de uma escola primária que, com as lágrimas nos olhos, conta como a polícia aproveitou a festa de finalistas dos miúdos para levar os pais imigrantes, enquanto as crianças (elas, sim, americanas) se agarravam a chorar às pernas dos professores, sem saber quem cuidaria delas. São meninos e meninas que ainda não fizeram 10 anos, e não sabem uma palavra de inglês, que se sentam sozinhos em salas de audiências perante um juiz que vai decidir se os deporta ou não. É a mulher de meia-idade, sentada no carro, cheia de raiva e desespero, contando que levaram o vizinho, que conhecia há 30 anos e era o único cuidador da mulher acamada. “Estive há pouco tempo em Amesterdão, na casa de Anne Frank”, conta ela, enquanto explica que em Los Angeles já há quem se quotize para pagar aos vendedores ambulantes imigrantes para ficarem em casa, por terem medo do Estado. “Está a acontecer outra vez”, diz ela.

Há uma violência enorme nestes vídeos. Consigo ouvir o choro dos meus filhos em cada uma daquelas crianças. Imagino o que seja arrancarem-mos dos braços, obrigando-me a deixá-los para trás desamparados. A dor que sinto ao pensá-lo é física. E, no entanto, não chegará nunca sequer perto do que sentirão estas pessoas.

Enquanto escrevo, há milícias a varrer as ruas de Torre Pacheco, aqui ao lado, em Múrcia, Espanha. Estão a perseguir e a espancar todos os que lhes pareçam imigrantes magrebinos, porque houve um idoso espanhol que terá sido agredido por alguém dessa origem. Seguem de bastões pelas ruas, vêm de todos os lados de Espanha, partem carros e invadem lojas. Há crianças fechadas em casa, com medo. E um influencer espanhol recupera uma imagem que me parece a melhor para descrever o que se passa. “Quando fechamos formigas brancas e vermelhas num frasco, elas convivem pacificamente. Até que alguém abana o frasco. Aí, começam a matar-se furiosamente.”

Quem abana o frasco? Sabemos bem quem o abana. Por lá é o Vox, na América é Trump – que chega ao ponto de dizer que há uma coisa chamada “crime imigrante”, quando um estrangeiro que chega para trabalhar tem 60% menos probabilidades de acabar preso por ter cometido um crime do que um americano de nascença. Por cá, são outros. Mas são sempre os mesmos. Os que nos querem divididos e com medo. Os que sabem que, enquanto o frasco estiver a abanar, não vamos perceber como nos roubam a saúde, a educação e a habitação, alimentando um sistema iníquo que, cada vez mais, aumenta a desigualdade, produzindo fortunas obscenas ao mesmo ritmo que faz crescer a miséria.

“Os políticos que são contra a imigração são os mesmos que não punem quem a explora”, diz o sociólogo Hein de Haas, numa entrevista ao Público, a propósito do livro em que desmonta os mitos sobre o tema. “A ironia é que a melhor política é não ter fronteiras. Parece muito contraintuitivo, mas sabemos pela História que, quando não há fronteiras, as pessoas entram e saem. A ironia do controlo de fronteiras apertado é que se encoraja as pessoas a ficarem. Não é que ficar seja mau, mas o problema é que a maioria dos imigrantes gostaria de regressar aos seus países”. Ou, como disse Max Frisch, “queríamos trabalhadores e, em vez disso, recebemos pessoas”. Mas não as vemos como pessoas, quando muito como mão de obra e, por isso, precisamos de as desumanizar para as podermos explorar quando queremos e descartar quando não precisamos.

Enquanto espero que acabe a aula de piano dos meus filhos, há um brasileiro que inscreve a sua filha na escola. “Vim porque Portugal é muito seguro. O sétimo país mais seguro do mundo”, diz muito alto. Entro na conversa. Diz-me que sabe do que fala, afinal, é juiz lá e veio para cá fazer um mestrado para, pelo menos durante dois anos, tirar a filha adolescente daquela sociedade perigosa.

“Vim agora do partido Chega”, conta-me, explicando que lá foi porque está indignado por quererem mudar as regras de acesso à nacionalidade. Comprou um apartamento no Príncipe Real e “não podem mudar as regras a meio do jogo”. Foi pedir uma reunião. Está preocupado com as regras, mas lá me conta que a mãe, que é médica, esteve ilegal porque, tendo entrado como turista, começou a trabalhar num centro de investigação sem se lembrar de que tinha de regularizar a situação. Agora, tem medo de regressar para ver a neta e sofrer alguma sanção. “Mas ela cá gasta mais do que recebe”, garante-me ele, confiante de que a situação social é um passaporte especial. E é. A fronteira está no bolso. E quem agita o frasco, sabe bem disso.

Quem quer dinheiro?

O bordão ficou famoso na TV brasileira, pois mesmo os poucos bilionários existentes, insanamente, querem mais dinheiro. Mas a questão correta é: quem precisa de mais dinheiro? Os governantes dos países mais ricos concordaram direcionar mais recursos para os fabricantes de armas, e ajustaram seus orçamentos correspondentemente. Claramente, esses dirigentes vivem num mundo distinto daquele em que labutam e sofrem mais de sete dos 8,3 bilhões de seres humanos hoje vivos!

Os gases de efeito estufa emitidos pelas atividades militares são elevadíssimos, mas não são reportadas nos inventários nacionais. Isso, devido ao forte lobby exercido pelos EUA e OTAN, lá atrás, quando se discutia o Protocolo de Kioto (1997)! Lembremos do general Eisenhower, que nos advertiu, muito antes, sobre o risco decorrente do poder e influência, sobre os governos, do complexo industrial-militar. Agora, industrial-militar-financeiro-consumista!


Claro, com loucos controlando diferentes governos nos vários espaços da geopolítica, uns chamando os outros de autocratas, há riscos militares na atualidade. Por outro lado, a história demonstra que ampliar gastos com armas e munições apenas resolve os problemas dos produtores de armas, sem garantir segurança à população. Pelo contrário, é esta que é sacrificada, bombardeada por armas cujo custo faz a alegria de seus produtores e impede o atendimento das necessidades da maioria! Democracia?

Segundo o The Guardian (22/4/25), estudo cobrindo 125 países revelou que 89% das pessoas querem ação governamental mais forte contra as mudanças climáticas, mas os dirigentes dos maiores países, ao invés de responderem às necessidades da população, optaram por ampliar gastos militares. Democracia?

Segundo estimativas, pois inexistem dados oficiais, as forças armadas dos EUA, sozinhas, emitem anualmente mais CO2 que países como Suécia e Portugal. Se fossem um país, os militares norte-americanos estariam entre os 40 maiores emissores do mundo. Mesmo nações que dizem respeitar democraticamente a vontade da maioria ocultam informações sobre as emissões dos seus militares. Estima-se que estas representem cerca de 6% das emissões globais. A partir de hoje, com maiores gastos com armas, essa proporção aumentará. Ou seja, exatamente o contrário do que a maioria da população precisa e quer. Democracias?

Com tamanha divergência entre as preocupações dos seus habitantes e os alertas dos cientistas, de um lado, e de outro as decisões dos governantes, não espanta que cresça o descrédito das populações na possibilidade de suas necessidades serem atendidas. Não espanta, também, que eleitores – sempre mal-informados sobre as intenções e alianças dos candidatos – busquem opções esdrúxulas para comandar seus países!

E, ainda pior, nossos muitos bizarros dirigentes sigam construindo, cada vez mais rapidamente, um mundo de guerras, eventos climáticos extremos, morte e desespero para nossos filhos e netos!

Tempo de Trump vai custar a passar

‘O tempo envelhece depressa’, ensinou o escritor italiano Antonio Tabucchi em belíssimo livro de contos publicado há anos. Quase já não conseguimos mais habitá-lo (o tempo), tamanho é nosso desassossego contemporâneo. Estamos cada vez mais aprisionados ao turbilhão do momento, à sensação de aceleração e fragilidade do mundo. Esquecemos quanto a História é apenas um rosário de momentos que o futuro se encarrega de trançar. A política, de modo geral, e os políticos medíocres, em particular, gostam pouco de elucubrações sobre o tempo — e ainda menos de ensinamentos da História. Vão atropelando para não ser atropelados por suas próprias fraquezas. Tome-se como exemplo o 45º presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Cinquenta anos atrás, o 37º ocupante da Casa Branca fora obrigado a renunciar, enrolado até o pescoço no escândalo Watergate. Para Richard Nixon, a hecatombe teve amargor pessoal. Para o resto do país, o trauma foi nacional. Ao longo dos anos seguintes, o Congresso americano empenhou-se em promulgar uma série de reformas visando a proteger as instituições democráticas e a restaurar a confiança dos americanos no governo. Foram reformas que fortaleceram a transparência e a ética públicas, aprimoraram a supervisão do Congresso, impuseram limites significativos aos poderes presidenciais. Resistiram bastante bem ao teste do tempo, até a irrupção de Trump na cena mundial. No primeiro mandato, ele escapou de dois pedidos de impeachment encaminhados pela Câmara, fatalidade histórica que poderia ter evitado seu segundo mandato. Saiu da Casa Branca literalmente pela porta dos fundos em 2020, depois de derrotado pelo democrata Joe Biden, mas renasceu legitimado nas urnas em 2024.


É desde sua segunda posse, em janeiro, que Trump passou a agir como “imperador do mundo”, expressão cunhada pelo presidente Lula em entrevista a Christiane Amanpour, da CNN Internacional. Um presidente desprovido de respeito às leis, que age como se regras fossem para tolos e normas, para perdedores. Talvez até acredite ser mesmo imperador. Já no seu primeiríssimo livro, intitulado “A arte da negociação”, de 1987, ele exaltava a arte da bravata.

— Jogo com as fantasias das pessoas — escreveu pelas mãos do ghostwriter Tony Schwartz. — As pessoas nem sempre sabem pensar grande por conta própria, mas ficam hiperfascinadas com quem é capaz disso. Querem acreditar que algo é a maior coisa do mundo, a mais espetacular e mais grandiosa. Chamo a isso de “hipérbole verdadeira”. Outros chamariam esse jogo de fraude moral.

Trump acabou revelando, na semana passada, a dimensão doentia de sua própria fantasia. Depois de anunciar a taxação dos produtos brasileiros vendidos nos Estados Unidos em 50%, deu uma explicação lapidar para os tarifaços que anda espalhando mundo afora:

— Faço porque eu posso.

Como gosta de dizer o brasileiro Frei Betto, pessoas não mudam, apenas se revelam.

Fazer, como sabemos, exige visão de longo prazo, disciplina, planejamento, compreensão de complexidades — tudo que Donald Trump desdenha por carecer desses atributos. Segundo citação frequentemente atribuída a Albert Einstein (por soar inteligente), nenhum problema pode ser resolvido a partir do mesmo grau de consciência que o criou. Pois bem, passados seis meses de governo Trump 2, nada do que ele anunciou de forma espetaculosa tem dado os resultados prometidos. A revolução tarifária destinada a “tornar a América grande novamente” corre o risco de fazer o resto do mundo conhecer-se melhor. Ucrânia e Gaza continuam com a vida civil em carne viva, com o russo Vladimir Putin e o israelense Benjamin Netanyahu dando um baile nas fantasias do americano de acabar com guerras em 24 horas. Ainda na semana passada, Netanyahu avançou mais um degrau no seu ímpeto expansionista, arrogando-se o direito de bombardear também a Síria. Putin, enquanto isso, multiplica a derrama de bombas sobre Kiev ganhando tempo e terreno.

Também a política anti-imigração de Trump — extremada, perversa, aplicada com crueldade estratégica e indiferença tática — tem obtido resultados tortos. A maré humana que conseguia atravessar a fronteira pelo México praticamente secou, tornando concreta sua principal promessa de campanha. Ao mesmo tempo, o número de americanos — inclusive republicanos — que se declaram contrários à deportação em massa de imigrantes capturados nas ruas, no trabalho, em igrejas, fábricas, plantações, escolas ou hospitais já beira os 60%. Começam a sentir o peso destrutivo do Estado policial que elegeram e prefeririam não ver.

Faltam três anos e meio para Trump terminar o mandato. Esse tempo certamente não envelhecerá depressa.