terça-feira, 12 de agosto de 2025

A degradação do Congresso

O recente episódio de obstrução da pauta legislativa na Câmara Federal, quando bolsonaristas promoveram um motim, impedindo, por dois dias, o trabalho regular do Congresso, sinaliza a continuidade da crise democrática que, há décadas, corrói a imagem de nossa representação política. Mas, convém lembrar que a degradação do Congresso Nacional não é apenas um problema conjuntural, mas estrutural, revelando o esgarçamento do pacto democrático e a crescente distância entre representantes e representados.


A esfera política nunca foi tão mal avaliada. Pesquisas recentes sobre a imagem dos congressistas revelam uma percepção majoritariamente negativa da atuação do Congresso Nacional. A desaprovação do Congresso é alta, com números semelhantes à reprovação do governo Lula e com uma visão mais negativa entre os eleitores de Bolsonaro.

A maioria da população desaprova a atuação do Congresso Nacional, com 51% de reprovação, segundo a última pesquisa realizada. A última pesquisa sobre a imagem dos políticos, realizada pela Datafolha, mostra que 78% dos brasileiros acham que o Congresso age em interesse próprio. E mais: o Legislativo tem a pior avaliação entre os três Poderes da República. Aproximadamente 42% aprovam o trabalho do Congresso. A pesquisa mostrou que os mais pobres tendem a aprovar mais o Congresso do que os mais ricos. Além disso, eleitores de Lula têm uma visão mais favorável ao Congresso do que os de Bolsonaro.

O fato é que o Congresso vem sofrendo um grave desgaste de legitimidade perante a opinião pública. A percepção geral é a de um parlamento tomado por interesses particulares, fisiológicos ou corporativos, desconectado das reais necessidades do povo. As figuras parlamentares cada vez mais se moldam à lógica das redes sociais. Deputados e senadores viram influencers, priorizando a viralização de falas agressivas ou “lacradoras” em detrimento da atuação legislativa substantiva. A política se reduz ao espetáculo, e o debate público é substituído por slogans e memes.

Além disso, o Congresso tem sido capturado por lobbies diversos: do agronegócio, das igrejas neopentecostais, das grandes empresas, de corporações armadas, entre outros. Comissões são loteadas e pautas são compradas ou negociadas em troca de vantagens. A agenda pública cede lugar à pauta de interesses.

A prática do “toma-lá-dá-cá” se institucionalizou de tal forma que cargos, verbas e emendas secretas tornaram-se moeda corrente para a manutenção do apoio ao governo da vez, independentemente de ideologias. A governabilidade passa pela barganha e não pelo convencimento democrático.

Casos de corrupção, rachadinhas, falsos pronunciamentos, manipulações regimentais e blindagem de aliados corroem a imagem institucional do Legislativo. O Parlamento, que deveria ser casa da transparência, é frequentemente visto como espaço de impunidade.

Em suma, o Congresso legisla menos e legisla mal. Muitas leis são aprovadas a toque de caixa, sem debates profundos ou audiências públicas. Outras vezes, renuncia a seu papel e delega competências ao Executivo, inclusive em temas sensíveis.

O que poderia ser feito para melhorar o conceito da instituição política? A resposta aponta para a educação política. Ao promover a educação política, é possível combater a descrença na política e na democracia, incentivando a participação ativa dos cidadãos na construção de um futuro melhor para todos. Essa meta inclui um conjunto de providências, entre as quais o debate de temas relevantes, a formação de jovens cidadãos, o investimento na formação de educadores e a criação de diálogo e participação.

Combater a corrupção, implementando mecanismos de controle e fiscalização eficazes, punindo exemplarmente os corruptos e promovendo a transparência na gestão pública. Fortalecer a democracia, estimular a participação cidadã em conselhos municipais, audiências públicas e outros espaços de discussão, além de garantir eleições justas e transparentes. Realizar reformas políticas, tornando as campanhas eleitorais mais justas e transparentes, além de garantir a representatividade e a governabilidade. Exigir conduta ética e transparente dos políticos, promovendo a responsabilização por seus atos e a punição de desvios de conduta. Reconhecer a importância da política como ferramenta de transformação social e promover o debate público sobre temas relevantes para a sociedade.

A educação política é um investimento no futuro da democracia, pois contribui para a formação de cidadãos conscientes, críticos e engajados, capazes de transformar a sociedade para melhor.

'Você está demitido': um jeito Trump para ditar a realidade

O presidente dos EUA, Donald Trump, é conhecido por demitir pessoas. A frase "Você está demitido", aliás, virou sua marca registrada no programa de TV "O Aprendiz". Agora, como presidente, não poderia ser diferente.

A demissão de Erika McEntarfer no início de agosto, no entanto, foi um tanto peculiar. Ela não perdeu o cargo de chefe do Bureau of Labor Statistics (Escritório de Estatísticas do Trabalho) por criticar Trump ou por ter se indisposto com os republicanos.

McEntarfer, cuja nomeação foi confirmada por ampla maioria bipartidária (86 a 8) no Senado dos EUA em janeiro de 2024, perdeu o cargo simplesmente por fazer o seu trabalho.
"Eu a demiti!"

No início de agosto, o gabinete de McEntarfer apresentou seu relatório periódico sobre a evolução do mercado de trabalho americano. Segundo o documento, a criação de empregos nos EUA foi menor do que o esperado nos últimos meses.

Poucas horas depois, McEntarfer foi demitida. A jornalistas, Trump qualificou os números como phony, o que pode significar falsos ou simplesmente estranhos, e acrescentou: "Eu a demiti".


Mas o que aconteceu exatamente? "O número de novos empregos criados teve que ser revisado significativamente para baixo; a previsão anterior não se concretizou", explica Hendrik Mahlkow, economista do Instituto da Economia Mundial (IfW), em Kiel.

"Nos últimos dois meses, foram criados mais de 200 mil empregos a menos do que o esperado. Isso mostra que as políticas de Trump estão enfrentando obstáculos", disse Mahlkow no podcast de negócios da DW (em alemão).

Em sua plataforma social Truth Social, Trump voltou a bater na mesma tecla, e chamou McEntarfer de "incompetente" e a acusou de alterar os números para prejudicá-lo.

Para Mahlkow, especialista do IfW, não há "nenhuma evidência" sobre isso. Fato é que o Bureau of Labor Statistics primeiro elabora um prognóstico – ou seja, uma estimativa de como o mercado de trabalho poderá se desenvolver nos próximos meses.

Essa estimativa é baseada em pesquisas de opinião. "Posteriormente, quando são disponibilizados os números reais de quantos novos empregos foram criados, as previsões precisam ser revisadas."

As revisões podem ir em ambas as direções. Neste caso, elas foram para baixo – o que irritou Trump. "O cerne da política de Trump é que ele se apresenta como um líder que promove a recuperação econômica", diz Mahlkow. "Se os indicadores econômicos não se encaixam nessa narrativa, o portador de más notícias é demitido."

Mas quem pensa que isso não passa de apenas mais um capricho de Trump está subestimando a importância dos dados oficiais para a economia.

Deste episódio, surgem algumas perguntas. Por exemplo: quão confiáveis serão esses dados no futuro? Será que em breve todas as estatísticas passarão a ser revisadas antes da publicação para determinar se podem ou não desagradar a Trump? E até que ponto tais números ainda refletem a realidade?

Investidores nas bolsas de valores americanas também se fizeram perguntas semelhantes, com os índices caindo significativamente no dia da demissão de McEntarfer. Demitir a chefe de estatísticas foi um "ataque deliberado à integridade dos dados econômicos dos EUA e de todo o sistema estatístico", disse Jed Kolko, do Instituto Peterson de Economia Internacional em Washington, D.C., à BBC.

Dados precisos sobre o mercado de trabalho também são fundamentais para o Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA). Entre as funções do órgão, está viabilizar o pleno emprego por meio de sua política monetária.

"Se o Fed não puder mais confiar nos dados do mercado de trabalho, a política monetária não poderá mais reagir de forma confiável", disse o economista Mahlkow, do IfW.

Por décadas, os dados econômicos americanos eram apresentados como um modelo de excelência, disse Mahlkow. "Ter dados tão bons e detalhados para uma economia tão grande distinguia os EUA. Agora, isso está se deteriorando."
Os EUA estão se tornando como a China?

O exemplo da China, a segunda maior economia do mundo depois da americana, pode trazer algumas pistas sobre aonde isso tudo pode levar. Lá, a liderança comunista faz questão de garantir que seus planos sejam cumpridos – o que resulta em baixa confiança nos números oficiais de crescimento econômico.

"Investidores, bancos e organizações internacionais têm se esforçado para interpretar os números supostamente verdadeiros", diz Mahlkow. Eles comparam, por exemplo, os números oficiais sobre exportações de produtos chineses com dados de importação de outras economias ou tentam tirar conclusões sobre a atividade econômica a partir de dados de mobilidade.

O ceticismo em relação aos dados dos EUA ainda não é tão grande, diz Mahlkow. "Mas os acontecimentos dos últimos meses mostram a rapidez com que uma base de confiança construída ao longo de décadas se erode."

Isso especialmente porque a confiança é rara numa época em que ameaças alfandegárias, acordos e prazos mudam semanalmente.

"Trump nos ensinou que as regras não se aplicam mais a ele e aos EUA. Agora só existe o direito do mais forte, e as pessoas estão constantemente testando até aonde podem ir", avalia Florian Heider, diretor científico do Instituto Leibniz de Pesquisa de Mercado Financeiro e professor da Universidade Goethe em Frankfurt am Main.

A incerteza resultante é um veneno para os mercados financeiros, que recentemente tiveram uma leve recuperação achando que o pior das "tarifas recíprocas" já havia passado.

Uma nova demissão, porém, poderia causar pânico rapidamente. "Ele [Trump] só precisa demitir o presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, por querer taxas de juros mais baixas", disse Heider. "Ao fazer isso, ele questiona a independência do banco central. E aí as coisas podem degringolar de novo muito rapidamente."

segunda-feira, 11 de agosto de 2025

Pensamento do Dia

 


Apóstolos da mentira: quando a política trai a verdade

A carta dos 50%, enviada por Donald Trump com ataques insidiosos ao Brasil, acusando nosso país de ser “contra as eleições livres” e “os direitos fundamentais de liberdade de expressão dos americanos”, seria apenas risível e ridícula se não fosse tão eivada de mentiras óbvias e de falta de educação e compostura diplomática. Verdade que, em matéria de desatinos, nada mais vindo do atual presidente norte-americano chega a surpreender. O que surpreende e espanta, em vez disso, é que políticos brasileiros da atual oposição entrem no barco furado das vendetas e notícias falsas trumpianas e façam declarações explícitas de apoio a essa missiva que mais parece ter sido escrita por um transtornado psíquico. Tarcísio, governador de São Paulo, é um dos que se juntaram ao coro dos atuais aprendizes de ditador em curso e acusaram Lula de ser o responsável pela ira funesta do colega Trump. Caro Lula, a mentira faz escola. O Evangelho dos Apóstolos da Mentira tem muitos seguidores, no Brasil e no mundo.

Vivemos uma era de crise da verdade. Em vez de serem líderes comprometidos com o bem comum, muitos políticos atuais se tornaram verdadeiros apóstolos da mentira - não apenas mentirosos ocasionais, mas missionários da falsidade, que constroem sua influência com base na manipulação sistemática da realidade.

A metáfora é dura, mas precisa. Um apóstolo, no sentido original, é alguém que propaga uma doutrina com fervor e convicção. No caso desses políticos, a doutrina é a mentira. Não uma mentira qualquer, mas aquela que se transforma em ideologia, em instrumento de mobilização de massas e até em alicerce de governos inteiros.

A mentira como método - O fenômeno é global. Nos Estados Unidos, Donald Trump - que da mentira sistemática não se sabe se é apóstolo ou Papa - construiu um império político sobre a negação da realidade: das “fake news” à “grande mentira” sobre as eleições de 2020, sua estratégia foi sempre semear desconfiança e alimentar conspirações. Sua tática de base é a “Big Lie”, repetir a mentira até que pareça verdade.


No Brasil, Jair Bolsonaro zombou da ciência, disseminou desinformação sobre vacinas e inventou versões paralelas da história nacional, tudo com o objetivo de manter sua base em permanente estado de alerta e fidelidade. Sua tática principal é a desinformação via redes sociais e lives semanais com conteúdo manipulado.

O mesmo se vê na Rússia de Vladimir Putin, onde a falsificação do passado soviético e a distorção da realidade da guerra na Ucrânia sustentam uma política autoritária e belicista. A verdade, nesses regimes, é tratada como inimiga. Putin usa a mentira como arma de guerra. Tática principal: Criação de uma realidade paralela via controle da mídia estatal.

Na Turquia temos Recep Tayyip Erdogan, cujas mentiras mais marcantes são a negação de repressão a jornalistas e opositores, bem como a manipulação reiterada de dados econômicos e eleitorais. Os efeitos não poderiam ser outros: Fragilização da democracia turca, prisões políticas, censura. A tática principal de Erdogan: misturar até a exaustão nacionalismo, religião e censura, e criar ações para sustentar narrativas.

E não podemos deixar de lado, entre os principais apóstolos atuais da mentira (eles são muitos!), Benjamin Netanyahu (Israel). Suas mentiras mais marcantes: Minimiza ou nega a dimensão das violações de direitos humanos em Gaza; distorce fatos históricos e jurídicos sobre os palestinos. Efeitos: Escalada, até as raias do genocídio, do conflito com os palestinos; crescente isolamento diplomático. Tática principal: Uso de medo e nacionalismo para justificar ações militares controversas.

Esses líderes utilizam o que o pensador político Jason Stanley chamou de "propaganda autoritária": uma combinação de medo, ressentimento, distorção e culto à personalidade, que torna as pessoas não apenas desinformadas, mas incapazes de distinguir o verdadeiro do falso. Uma sociedade assim está à mercê de qualquer narrativa conveniente ao poder.

Uma mentira com seguidores – Mas estejamos atentos: Não é só o político que mente. É o sistema que absorve a mentira como parte de seu funcionamento. São redes sociais inundadas de fake news. É a mídia conivente ou intimidada. São instituições enfraquecidas pela constante erosão da confiança pública.

Mas talvez o aspecto mais inquietante seja a fidelização dos seguidores. Esses “apóstolos” da mentira conseguem o que muitos líderes sempre desejaram: uma base que não apenas os apoia, mas que acredita cegamente neles - mesmo quando a realidade os desmente. A mentira torna-se um dogma. Quem a contesta é tratado como inimigo, traidor ou “anti-Deus”.

Por que isso importa? - Porque quando a mentira se institucionaliza, a democracia adoece. O debate público se torna tóxico. A confiança entre cidadãos se dissolve. E o futuro passa a ser construído sobre areia movediça. A verdade não é apenas um valor moral - é uma condição para a convivência civilizada.

Para Bolsonaro, salvar a pele equivale a desmontar instituições

Outro dia ouvi que o único erro de Eduardo Bolsonaro foi não ter pedido a Trump para deixar de fora o nome de sua família na punição ao Brasil. Tudo bem que taxista não conta, mas é mau sinal que a esta altura chamar os Bolsonaro de câncer, neoplasia social, soe pueril e inócuo, como me dei conta ao responder. Segundo pesquisa do Datafolha, 46% dos brasileiros são contra a condenação do ex-presidente.

Contra a Justiça brasileira, Bolsonaro diz que só obedece à lei de Deus —o seu, é claro, como sempre. Vale-se da versatilidade da escusa que lhe permitiu cometer atos gravíssimos aos olhos de qualquer deus, incluindo o que ele costuma chamar de seu, para seguir bravateando como se não fosse réu.


Na hipótese benigna (para ficar na metáfora médica), os Bolsonaro seriam apenas uma trupe de meliantes comandados por um arruaceiro irresponsável, que encenaram o maior engodo no qual este país já caiu, a esparrela do "Brasil é o meu partido", desmascarada por eles mesmos, com as cores da bandeira americana, no jogo arriscado e inepto de sua sobrevivência. O difícil é entender como alguém em condições cognitivas normais —e de índole autodeclarada patriótica— pode continuar acreditando nisso se não for de má-fé.

A explicação é também um alívio, já que aponta para o caso americano. Não somos os únicos idiotas. Tentando se equilibrar nas cordas de um escândalo insuflado pelos próprios correligionários, Trump nega a existência da lista que prometera revelar, se eleito, com o nome dos clientes de um esquema de pedofilia comandado por Jeffrey Epstein, que teria se suicidado na prisão, esperando julgamento.

Uma legião de eleitores inflamados do Maga conta com a lista para confirmar suas teorias conspiratórias sobre crimes hediondos cometidos pela elite liberal, democratas e afins, almas corrompidas do sistema demoníaco, sem atinar para o fato de Trump (que, eleito, passou a atribuir a invenção da lista a um embuste da oposição) ser ele próprio um predador sexual, ex-amigo íntimo de Epstein.

Para chegar ao poder e aí se manter, a extrema direita precisa inverter o sentido das coisas e das palavras, na maior cara de pau. Aqui, chama de corajoso o malandro que chora como vítima quando é pego em flagrante, foge assim que possível e depois ri à socapa só de pensar no próximo golpe.

Em nome da democracia e do mundo livre, hoje o país da liberdade de expressão persegue universidades, prende, processa e/ou deporta indivíduos cujas ideias não correspondem aos interesses do projeto autocrático (a começar por estudantes acusados de antissemitismo por denunciar o escândalo do genocídio promovido por Israel em Gaza). E ainda taxa de ditatoriais os países que tentam resistir, pela lei, à imposição de regras comerciais arbitrárias, no vácuo do desmanche estratégico dos órgãos jurídicos multilaterais.

Não é nenhuma surpresa que os Bolsonaro incorporem o discurso invertido (de que a liberdade é um mundo sem justiça e sem lei) em benefício próprio e em detrimento do país. Para eles, salvar a pele equivale a desmontar as instituições. Corresponde ao histórico e ao entendimento de mundo de um homem cuja vida pública começou, ainda no Exército, com um plano de atentado a bomba para aumentar seu salário.

O que não faz sentido é que a inversão tenha escancarado a porteira do oportunismo (ou da metástase), a ponto de levar políticos e cidadãos a abraçar os interesses imperialistas e predatórios de uma autocracia estrangeira. Nos Estados Unidos, Eduardo Bolsonaro estaria sujeito às penas cabíveis por traição.

Em meio à ferocidade de uma guerra financeira e tecnológica, em breve talvez também física, cujo horizonte é o controle da inteligência artificial e da indústria bélica de última geração, dependentes de minérios de que o país dispõe, ninguém precisa de gente sem estratégia política e visão de futuro, vestindo a camisa ou o boné do adversário na mesa de negociação.

Todos seremos vencidos

O escalar da retórica nuclear entre Washington e Moscovo, registada nos últimos dias, não pode ser visto apenas como uma forma de Trump e Putin assinalarem a passagem dos 80 anos das bombas despejadas em Hiroxima e Nagasaki. E, apesar de toda a preocupação que possa gerar, também não convém não levar as ameaças muito a sério. No fundo, aquilo a que estamos a assistir é a um certo cheirinho a Guerra Fria, embora com uma diferença fundamental: desta vez, os dois líderes não defendem ideologias opostas e têm até imensas semelhanças na forma como silenciam os opositores, fazem pressão sobre os adversários e utilizam todos os meios ao seu alcance para fortalecer o poder pessoal, apenas permitindo seguidores fiéis à sua volta.

Este escalar de ameaças é, antes, o sintoma de algo mais vasto: o poder crescente dos chamados “homens-fortes”. É até a consolidação do “triunfo dos brutos” que, há cerca de uma década, tem marcado a política internacional: o poder a ser exercido por homens que concentram a autoridade, cultivam a imagem de força pessoal e recorrem, sem qualquer tipo de pudor, à ameaça como arma principal.

Com Donald Trump nos comandos da Casa Branca e com o dedo afiado nas suas redes sociais, este estilo tem ganhado cada vez maior preponderância e novos imitadores. E, aos poucos, vai arrastando o mundo para um clima de confronto permanente, sempre a apelar ao uso da força e que, inexoravelmente, destrói muitos dos valores e princípios que, durante algum tempo, pensámos que deveriam pautar o debate político e os relacionamentos internacionais entre Estados.


No estado atual do mundo, parece já não interessar quem tem razão, mas sim quem tem mais força. E, especialmente, quem ameaça com maior intensidade, como se tudo lhe fosse permitido e nada tem a perder. A diplomacia internacional, nos temas principais, foi substituída por jogos de força, por sanções, por guerras comerciais e, quando a ocasião o justifica, por ameaças militares abertas.

Parece que estamos a caminhar sempre em direção a um confronto iminente e explosivo que, como nos filmes de aventura, é evitado à última hora. Aqui, não por um herói improvável, mas sempre pela ação de um “homem-forte”, com o seu inevitável discurso nacionalista e que promete sonhos de grandeza aos seus compatriotas. Temos visto, em tantos casos, que nada disso é verdade. Só que é a perceção que eles tentam criar. E, já ninguém tem dúvidas, todos sabemos que vivemos hoje num mundo dominado mais pelas perceções do que pela análise fria, metódica e transparente da realidade.

Esta emergência do poder dos “brutos” constitui a maior ameaça ao desenvolvimento saudável da Humanidade, à defesa dos direitos humanos e aos valores que permitam a liberdade e a justiça social e económica. Percebe-se que a erosão dos valores democráticos é evidente, um pouco por todo o lado. E não só têm crescido os sentimentos de intolerância perante quem pensa de modo diferente, como está a desaparecer uma noção muito antiga em que sempre assentou o pensamento humanista: o respeito pelo outro, seja ele quem for, mas que deve ser respeitado como ser humano.

A forma como tantos países com tradição democrática têm assistido, em silêncio, ao que acontece em Gaza é reveladora do mundo em que vivemos e da erosão dos valores que devíamos todos compartilhar, até por estarem inscritos na Declaração Universal dos Direitos Humanos e na própria criação das Nações Unidas. Quando, deliberadamente, como se fazia nos antigos cercos da época medieval, se matam populações à fome, não pode existir estratégia política que desculpe o “bruto” que comanda esse extermínio. Por muito menos, por exemplo, já se encetaram intervenções de forças internacionais, para impedir situações que não chegavam a esta barbárie. E é cada vez mais inadmissível que Israel continue a proibir que observadores e jornalistas internacionais entrem no território para poderem, em liberdade, contar o que realmente se passa.

Em Gaza, fora dos olhares do mundo, não está só uma população a ser dizimada, à fome e aos tiros. É a própria Humanidade que, quando escolhe o silêncio, acaba por ficar sitiada e abdicar dos valores que deviam norteá-la. E quando isso acontece, tal como se existir uma guerra nuclear, uma conclusão será inevitável: todos seremos vencidos.

Entre a distopia e a construção do país desejado

Ao contrário do que se prega, o neoliberalismo não trouxe nada de bom para a humanidade. O avanço da perspectiva neoliberal a partir da década de 1980 representou um grande golpe contra direitos sociais conquistados a duras penas após a Segunda Guerra Mundial. As promessas de maior eficiência e distribuição de riquezas veiculadas, principalmente por Ronald Regan e Margareth Tatcher, ficaram restritas aos discursos.

O que se verificou, na realidade, foi um intenso processo de desregulamentação e ampliação da liberdade de movimentação do capital e a aceleração da formação de oligopólios e da concentração de renda por todo o mundo. Uma concentração de renda possibilitada, entre outras razões, pelo enfraquecimento da classe trabalhadora às voltas com o desemprego crescente e, também, pela captura dos ganhos de produtividade pelo capital. Ganhos de produtividade que antes eram repassados aos salários e reinvestidos na produção.

Assim, sistemas públicos de saúde, de previdência, de acesso à educação de qualidade, de proteção ao trabalho e políticas de redistribuição de renda e inclusão, abriram espaço para iniciativas do setor privado que avançaram com voracidade sobre as poupanças públicas coletivamente construídas.

Para alcançar tais objetivos foi preciso naturalizar o neoliberalismo como o único caminho a ser seguido. Uma naturalização bastante presente nos telejornais e no mundo corporativo. Além disso, foi preciso quebrar a espinha dorsal do sindicalismo, a exemplo do combate à greve dos mineiros da Inglaterra, entre 1984 e 1985. Foi necessário também mover uma guerra ideológica contra as instituições do estado de bem-estar, as políticas inclusivas e os partidos situados à esquerda do espectro político.

Em decorrência, observamos o aumento significativo da miséria, da violência, das crises humanitárias, do número de conflitos armados, das migrações, das agressões ao meio ambiente, das crises sanitárias e das emergências climáticas. Cresceu também, a extrema direita como expressão torta do mal-estar que a selvageria econômica criou.


Esse processo se intensificou de forma ainda mais temerária com a presença de Donald Trump na presidência da nação mais poderosa da Terra. Sem demonstrar nenhum constrangimento ou respeito ao conjunto de valores e organizações que ditaram os rumos das relações internacionais até bem pouco tempo, Trump vem sacudindo o mundo político e provocando solavancos expressivos nos mercados mundiais.

De fato, desde ameaçar anexar a Groelândia, caçar e expulsar imigrantes em massa ou afirmar que pretende tornar o Canadá o 51 estado americano, o presidente estadunidense vem mobilizando a atenção e a preocupação de todos para um comportamento intempestivo e de resultados inesperados e dramáticos para a grande plateia que assiste a tudo atônita.

Nessa perspectiva, a desqualificação de instituições internacionais como a Organização Mundial do Comércio ou de agências da ONU, como a Organização Mundial de Saúde ou a Unesco, opera no sentido alçar a maior liderança da extrema direita à condição de instância máxima definidora do que é justo ou não no campo da lei, da economia ou da política em todo o mundo. Mais ainda, do que é verdade no campo da ciência.

Para tanto, vale tudo: humilhar chefes de Estado aliados como Zelensky, apoiar o genocídio em Gasa, atacar repentinamente o Irã, ameaçar a Índia, impor um cerco comercial à Rússia ou ainda tentar interferir nas instituições de países autônomos, como demonstram as recentes ações contra o Brasil.

Desde armas até a utilização de estratégias de lawfare, tudo é empregado para submeter o mundo aos interesses reunidos em torno de Trump. Interesses poderosos, a exemplo das big techs, totalmente envolvidas em esquemas de propagação de mentiras, da perpetuação da ignorância, do reforço aos preconceitos e de desorientação e manipulação da opinião pública.

Guiada por um personagem midiático que se porta como imperador do planeta, a extrema direita vem fazendo estragos pelo mundo. Histriônico e errático, assim como outros líderes deste segmento político, Trump encarna um personagem circense que nada tem de inocente. Aqui vale lembrar o alerta de Polónio, personagem de William Shakespeare, sobre a aparente confusão mental do príncipe Hamlet: “há método nessa loucura”. Um comportamento hipócrita e afetado, comum aos representantes dessa corrente ideológica. Uma mise-en-scène que tem por objetivo produzir material para alimentação das bolhas que eles criaram com o auxílio de algoritmos.

Nessa nova configuração das relações internacionais, o uso da força se torna mais frequente e é exercido às claras. O genocídio do povo palestino em Gasa, por exemplo, envergonha a humanidade e questiona os frágeis mecanismos de governança internacional diante de um crime hediondo. Na economia, o protecionismo se impõe e busca avançar sobre os recursos de países sem capacidade de autodefesa para além da frágil condenação da comunidade mundial aos atos de agressão que lhes ameaçam a soberania.

Embora não resolva por completo a questão, a reação a esse tipo de ameaça passa certamente pela reorganização das cadeias produtivas e pela diversificação de mercados, incluindo o fortalecimento dos mercados internos dos países exportadores. Passa igualmente, por fazer ver aos empresários americanos que tais atitudes arbitrárias por parte de Trump geram quebra de confiança e inseguranças jurídicas capazes de comprometer, de modo duradouro, as relações comerciais com os EUA.

No Brasil, contando com o apoio subserviente e criminoso de gente que vergonhosamente se dispõe a barganhar a dignidade e a autonomia do país, Trump instrumentaliza o grupo político organizado ao redor da figura medíocre e patética de Jair Bolsonaro para alcançar objetivos econômicos e geopolíticos que atentam contra a soberania e as instituições brasileiras.

Escamoteados por falsas e risíveis acusações de que o país estaria vivendo em uma ditadura, os ataques norte-americanos contra o Brasil estão longe, em tudo, de uma cruzada pelos direitos humanos e pela democracia. Ao contrário, Trump está se utilizando justamente do grupo que atentou contra a democracia e que, segundo as investigações, planejaram matar o presidente da República, seu vice e um ministro da Suprema Corte. Um plano que incluía a organização de campos de concentração.

O que está realmente em jogo, entre outros alvos de interesse, é o domínio sobre terras raras, o acesso às nossas reservas de petróleo e minerais, o patrimônio genético presente na Amazônia, as áreas cultiváveis e o mercado representado pelo PIX, que desde sua criação movimentou mais de R$ 60 trilhões. Está em jogo também, o alinhamento do país ao BRICS, que hoje se apresenta como uma alternativa defensiva em relação à hegemonia política, econômica e militar dos EUA.

Nesse quadro, o governo brasileiro tem agido com racionalidade e cautela. Lula e sua equipe têm demonstrado maturidade e competência para lidar com a crise, conversando com empresários e autoridades estadunidenses, buscando circunscrever a contenda ao campo das relações comerciais. A dignidade com que Lula enfrenta esse momento reforçou a sua imagem dentro e fora do país como líder do campo democrático no enfrentamento da barbárie protofascista.

Por outro lado, parte significativa da elite econômica local provou do seu próprio veneno ao apoiar extremistas e não se posicionar firmemente em favor de nossa soberania, permitindo que familiares do ex-presidente e seus aliados agissem abertamente contra o país. Como resultado, os cães estúpidos abanaram o rabo para outro senhor e, destrambelhados, morderam as mãos dos antigos donos.

Vale ressaltar que, embora sob circunstâncias adversas, o governo Lula obteve êxitos extraordinários para quem conta com imensas restrições orçamentárias e com forte oposição no Congresso Nacional, em parte do empresariado e da grande mídia.

Não obstante a pesada herança negativa que recebeu de Bolsonaro, o governo elevou o país da 13ª para a 8ª posição no ranking das maiores economias mundiais. Ao lado disso, o desemprego caiu aos níveis mais baixos já registrados, a inflação encontra-se sob controle, o PIB cresceu mais do que as expectativas das agências especializadas, saímos do isolamento internacional, atraímos investimentos de vulto e abrimos novos mercados para os produtos brasileiros.

Conquistas que vieram ao lado de outras medidas mais urgentes como o atendimento prioritário ao combate ao genocídio que atingiu os Yanomami e a recomposição de ministérios e programas sucateados como foi o caso das pastas da saúde e da educação ou do Programa Nacional de Imunizações, bastante fragilizados no governo anterior.

Apesar das exigências do ajuste fiscal, o Brasil realinhou e colocou de pé programas importantes como o Bolsa Família, o Farmácia Popular, o Mais Médicos, atendeu parte expressiva da demanda reprimida com a realização de mais 14 milhões de cirurgias, está procurando conferir acesso a especialidades médicas a quem necessita. Essa guinada na direção da inclusão foi coroada pela retirada do país do mapa da fome, conforme anunciado recentemente pela ONU.

O enfrentamento desse quadro pode significar uma virada de página nos rumos até aqui trilhados. O país precisa abandonar um modelo econômico qualificado por economistas como uma mistura do fazendão com o cassino. Um modelo predatório, parasitário, extrativista e alinhado com interesses externos. O agronegócio e o rentismo precisam ser regulados na perspectiva de submissão ao coletivo e ao bem comum. Os segmentos produtivos deveriam integrar uma dinâmica econômica centrada no bem-estar da população, na justiça social e na responsabilidade ambiental. Uma dinâmica econômica submetida a um pacto intergeracional positivo e soberano.

A defesa de nossa economia passa pela redistribuição de renda para alicerçar um mercado interno forte, capaz de escoar grande parte do que aqui é produzido. Um mercado mais protegido das oscilações internacionais, apoiado em uma economia verde, incorporando a agroecologia e agricultura familiar ao lado de processos de industrialização sustentável e atentos à mitigação de impactos negativos da atividade produtiva.

Para tanto, é preciso reduzir drasticamente a taxa de juros que dificulta investimentos e castiga a população com ênfase nos mais pobres. Uma taxa de juros que em 2024 abocanhou quase um trilhão de reais, dinheiro suficiente para alterar completa e positivamente a educação e a saúde da população. É preciso rever os incentivos fiscais e evitar que se tornem eternos. Para se ter uma ideia do volume da renúncia fiscal basta observar que, em 2024, a Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil (Unafisco), estimou em R$ 790 bilhões o montante que o país deixou de arrecadar. O Estado precisa se posicionar como um instrumento do processo civilizatório e não como um balcão de negócios de segmentos privilegiados.

É preciso dar terra a quem nela trabalha e moradia digna para todos. É preciso alterar a estrutura tributária que onera o consumo e a produção, protegendo a renda e o patrimônio. É preciso abandonar as políticas de austeridade e os seus componentes recessivos e nocivos ao presente e ao futuro.

O mundo apoia e acompanha com interesse a movimentação do Brasil nessa crise. Preservamos a confiança que o país detém nas mesas de negociação e, sobretudo, não nos deixamos arrastar na lama da indignidade defendida pelo bolsonarismo.

O Brasil lançou mão da sua reserva moral para resistir ao assédio indecente que vem sendo alvo, superando, assim, o fato de governadores dos estados mais ricos e mais atingidos pelo terremoto que assola o mundo não estarem à altura das responsabilidades dos cargos que ocupam. Da mesma forma, a firmeza que faltou aos presidentes da Câmara e do Senado não faltou à minoria governista e a alguns parlamentares de fora da base do governo.

Bolsonaro foi colocado em prisão domiciliar, uma medida cirúrgica de Alexandre de Moraes diante as seguidas provocações daqueles que querem criar o caos onde há lei e ordem.

O país não pode ficar refém de interesses pessoais ou de vendilhões da pátria. É vergonhosa a atitude do Partido Liberal de ocupar, fisicamente e de modo violento, as mesas diretoras do Senado Federal e da Câmara dos Deputados para obstruir os trabalhos do Congresso Nacional, na tentativa de passar por cima de qualquer do decoro parlamentar ou conduta moral, para proteger o ex-presidente do alcance da lei. Um réu, é bom frisar, que está exercendo plenamente o direito à defesa.

Vergonhosa também é a atitude de gente como o deputado federal Carlos Jordy que, em entrevista recente, defendeu medidas na direção de franquear aos EUA ações de repressão, em nosso território, a todos aqueles que as autoridades americanas considerarem como terroristas, abrindo um precedente escandaloso e inaceitável de ofensas à nossa soberania.

Não podemos ficar paralisados por um grupo que se dispõe a barganhar a nossa dignidade em troca de interesses escusos e mesquinhos de uma família e seus aliados que tanto mal fizeram, e fazem, ao nosso povo. Não podemos esquecer os mais de 700 mil mortos pela incúria e pela necropolítica do governo anterior. Não podemos esquecer que essa gente autoritária e perversa jogou mais de 33 milhões de pessoas na fome. Grande parte delas agora resgatadas dessa condição por um governo de frente ampla chefiado que rejeita o caminho do fascismo.

Temos que reconstruir o estrago causado pela estupidez da extrema direita. É hora de varrer o varejo para colocar no lugar da escumalha gente competente e altiva com senso de responsabilidade para com o país. É hora de unir o Brasil em torno de um projeto inclusivo e sustentável de economia. É hora dos verdadeiros patriotas. Não podemos tergiversar na defesa de nossa autonomia e da autodeterminação dos povos. É hora de cerrar fileiras ao lado do governo Lula. É hora da sociedade civil organizada, dos intelectuais, dos cientistas, dos estudantes, dos sindicatos e dos movimentos sociais trabalharem pela ocupação das ruas na luta pela soberania do país e pelo avanço da democracia.

Panaceia

Sam Altman, Elon Musk e outros têm advogado a criação de um “rendimento básico universal” (RBU) como a forma mais adequada de reagir ao desemprego generalizado que, anunciam, terá lugar com a utilização da Inteligência Artificial (IA). Num mundo onde os computadores e robots tudo fazem melhor e mais rápido do que os humanos, as empresas não terão incentivo para empregar pessoas.

Afirmam que o crescimento económico exponencial gerado pela IA permitirá um mundo rico, e que a riqueza será partilhada entre todos via RBU (tributando as empresas na medida da sua utilização da Inteligência Artificial). Utilizam o RBU como um instrumento milagroso, que a todos dará conforto económico e permitirá que cada um se dedique à família, aos interesses pessoais e ao lazer.

O RBU permite, simultaneamente, apresentarem-se como filantropos, preocupados com a estabilidade social, e evitar a discussão e críticas a este futuro que nos apresentam como inevitável e para cuja construção mais e mais recursos são canalizados, sem freio do regulador.


Conhecedores do status do desenvolvimento tecnológico, mas também pressionados pela expectativa dos investidores que têm canalizado milhões para esta odisseia, repetem-nos que este futuro é iminente. E provavelmente será, sobretudo para os mais jovens acabados de formar – afinal, a Google já não contrata programadores juniores.

Mas o que significa um mundo onde uma elite de donos de Big Tech domina os meios de produção e os humanos são dispensáveis (num desvio que nem Marx imaginou)? O contrato social das sociedades democráticas assenta em grande medida na tributação do trabalho. O Estado funciona porque os trabalhadores pagam impostos. Mas e se as receitas do Estado tiverem como origem não o trabalho, mas a riqueza gerada por máquinas? Que incentivos terão os governos para educar a população e garantir que a mesma é saudável?

O risco é que o incentivo seja de apenas redistribuir o suficiente para manter a paz social, gerando um fosso entre a elite tecnológica e todos os demais. Não é um cenário extremo se pensarmos em petroestados. Nos Emirados Árabes Unidos, um sistema de segurança social financiado exclusivamente pelas receitas do petróleo – não existe imposto sobre o rendimento – garante condições de vida mínima a todos os nacionais do emirado. No entanto, os Emirados Árabes Unidos, como a esmagadora maioria dos ditos petroestados (com exceção da Noruega), não têm cidadãos com direitos e deveres, mas súbditos, sujeitos aos caprichos da elite no poder.

O futuro que Sam Altman e Elon Musk nos apresentam parece uma versão tecnológica de uma teocracia, onde a elite não são os religiosos, mas os “technológicos” – uma “technocracia”. Altera-se a fonte de poder, mas mantém-se o resultado.

E se como o risco do fim da democracia e a perpetuação da desigualdade social não bastassem, há que questionar o impacto psicológico e social de um mundo sem trabalho.

O futuro imediato não promete substituir massivamente trabalhos fisicamente duros ou perigosos, mas trabalho intelectual, que consideramos o meio privilegiado para desenvolvermos as nossas competências e virtudes, e, como tal, indispensável ao florescimento do ser humano em sociedade. O trabalho não é apenas um meio de obtenção de recursos financeiros, mas confere um sentido de propósito, permite o estabelecimento de relações humanas e oportunidades de desenvolvimento pessoal.

Importa por isso que o impacto da tecnologia na sociedade não se limite à discussão de uma panaceia – o RBU – e que a sociedade e os políticos promovam a discussão de soluções participativas, por exemplo, via assembleias de cidadãos, onde este tema seja discutido e do qual resultem diretrizes para uma regulamentação efetiva da introdução da IA. Só não ignorando ou desvalorizando os acontecimentos, poderemos assegurar a dignidade do trabalho e uma distribuição mais justa dos rendimentos gerados por esta revolução.

O redescobrimento do Brasil

Quando fui aprovado no exame de admissão no Colégio Padre Felix (espécie de vestibular para ingressar no “ginasial”), recebi um presente inesquecível de minha mãe: o livro História do Brasil para Crianças de autoria do jornalista, escritor, dramaturgo, político e membro da Academia Brasileira de Letras, Viriato Correia (1884-1967), com alguns conselhos que me foram úteis para a nova fase da educação formal e para vida inteira.

Ela foi incisiva: nada de decoreba; você não é um papagaio. Pense! Não se limite a estudar, apenas nos livros adotados pelo colégio; pergunte, não tenha receio da ignorância, aprenda duvidando; consulte o professor, os dicionários, as enciclopédias; mantenha acesa a curiosidade (não esqueço a tonalidade azul da coleção “O Tesouro da Juventude” nele inserido o “O livro dos porquês”); convivi com os personagens de Monteiro Lobato; curti as edições do “Almanaque Tico-Tico”, a primeira e a mais longeva revista para o público infanto-juvenil no Brasil (1911 e editada por 56 anos); os saberes maternos me apresentaram a Castro Alves, José de Alencar, Machado de Assis, Eça de Queiroz, “Os miseráveis” de Victor Hugo, romance que me marcou profundamente.

Pois bem, o resto ficou por minha conta. Sou leitor raso, mas um curioso atrevido. E foi este atrevimento que me levou a prestar atenção ao episódio do descobrimento (ou “achamento”) do Brasil. “A pátria amada” nasceu controversa: resultou da intencionalidade estratégica do reino português em ampliar rotas comerciais e domínio territorial do além-mar ou foi mera casualidade decorrente de fatores climáticos (a calmaria)? Outra questão polêmica resultou da precedência dos navegadores espanhóis (Vicente Pinzón e Diego de Lepe) que costearam o litoral brasileira entre Janeiro e março de 1500 antes, pois, da esquadra de Cabral. Isto rendeu nos anos 50, assinala Eduardo Bueno, um rancoroso “nacionalismo retroativo”, contrapondo historiadores lusos e espanhóis (A Viagem do Descobrimento – Um olhar sobre a expedição de Cabral. Rio de Janeiro: Edição Brasil, 2016)

Coube ao grande historiador Capistrano de Abreu (1853-1927) sepultar a questão em 1900 ao afirmar que o “descobrimento sociológico” do Brasil coube aos portugueses que, lentamente, integraram a terra ao império ultramarino lusitano, demarcando a era das navegações (século XV ao século XVII), o ponto de partida do processo histórico da globalização.


Mal sabiam que o anúncio “terra à vista” era um território gigante de solo fértil e “águas infindas”, segundo Caminha. Não atendia interesses imediatos do apetite mercantilista. Portugal, então, terceirizou o processo colonizador. Donatarias, Governo-Geral que não pouparam a natureza exuberante em ciclos econômicos, deixando um rastro de destruição.

Os estudiosos da evolução histórica do país-continente divergem sobre quase tudo ao interpretar o passado e lançar olhares quanto ao nosso futuro, porém convergem no que diz respeito à diversidade cultural e aos contrastes que marcam a fisionomia socioeconômica do Brasil.

Neste sentido, admitindo, de um lado, a persistência dos contrastes e as falhas estruturais, a exemplo da desigualdade social, de outra parte, o Brasil revela potencialidades capazes de lhe assegurar um excepcional protagonismo na economia do século XXI.

Cabe observar os indicadores de um século atrás (meados da década de 20): população 33 milhões de habitantes; 80% viviam no campo e 70% eram analfabetos; a expectativa de vida, 35 anos; mortalidade infantil registrava a morte de mais de 160 crianças antes de completar 1 ano. Por sua vez o PIB per capita, em valores de hoje, era de US$ 2.400, ancorado numa indústria incipiente e na monocultura do café.

No Brasil atual, a expectativa de vida se aproxima dos 80 anos; a mortalidade infantil chega a 10,4 por mil nascidos: analfabetismo, apesar da precariedade do sistema educacional, gira em torno de 5%; a população urbana representa 88% do total da população; o PIB per capita atual é de US$ 23,2 mil.

Importante salientar que o Brasil dispõe de moeda sólida e uma democracia resistente que enfrentaram e superaram crises superpostas. A propósito, esclareço que não estou contaminado pela “síndrome de Poliana” muito menos afetado pelo personagem do célebre Voltaire na obra “Cândido ou o Otimismo”. Estas constatações servem para apontar em direção ao futuro e a necessidade de um redescobrimento do Brasil. Desta vez, com o que vá mais além e mais fundo do que imaginou Caminha.

Neste sentido, com a autoridade de um dos pioneiros da bioeconomia, agricultura e alimentos na União Europeia e membro fundador, em 2009, do primeiro Comitê Consultivo de Bioeconomia na Alemanha, Christian Patermann (1942) em novembro de 2019 (Guia Exame de Sustentabilidade) assim se referiu ao Brasil: “O reservatório de recursos biológicos do Brasil é imenso. O país tem praticamente tudo. A questão é como explorá-lo de modo sustentável e eficiente”.

De fato, aqui estão sete biomas, verdadeiros tesouros não somente para o equilíbrio ecológico do planeta, sobretudo pelo que unindo o conhecimento tradicional com avanços científicos e tecnológicos oferecem um “capital” adicional à natureza na descoberta de princípios ativos de fármacos e na ampliação revolucionária da sociobioeconomia.

O redescobrimento do Brasil é um futuro que chegou ou está batendo na porta, por exemplo, da nossa biodiversidade objeto do consórcio Genômica da Biodiversidade Brasileira (GBB), liderado pelo Instituto Chico Mendes da Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e o Instituto Tecnológico Vale Desenvolvimento Sustentável (ITV).

Por sua vez, a matriz energética brasileira á uma das mais limpas (45% de fontes renováveis) do mundo e será a base do hidrogênio verde; a nação produtora de alimentos responderá ao furor tarifário com mais produtividade e competitividade; e a “terra à vista” dos colonizadores não distinguiram “as terras-raras” (17 elementos químicos), insumos essenciais para uso em produtos de avançada tecnologia. O Brasil detém a segunda maior reserva mundo desses metais que têm um papel estratégico na economia mundial e na soberania tecnológica.

Faltam, porém, juízo e espírito público.

Deuses, pátrias e famílias

Criado pelo fascismo italiano, o lema “Deus, pátria e família” foi replicado por movimentos e governos de extrema-direita, como o Integralismo no Brasil e o Estado Novo em Portugal. No nosso século, ele ressurge entre adeptos de uma nova Internacional Fascista. Mas de que Deus, de que pátria, de que família se trata?

Se há uma família no mito de origem do Brasil, ela tem um pai português e uma mãe indígena ou africana. E essa miscigenação não oculta a violência colonial que dizimou famílias e nações. Um estudo da Universidade de São Paulo (USP) analisou o genoma de milhares de brasileiros e verificou que, no DNA mitocondrial (herdado da mãe), predomina a ancestralidade indígena ou africana, e no DNA do cromossomo Y (herdado do pai), predomina a ancestralidade europeia.

Para os pesquisadores, os dados atestam a prática recorrente de acasalamentos entre homens europeus e mulheres indígenas ou africanas, resultantes de atos sexuais não-consentidos, somados à mortandade de homens que se insurgiam contra a colonização.


No Brasil atual, a família sob os holofotes é a família Bolsonaro. Após se tornar inelegível pela prática de crimes eleitorais, o patriarca virou réu num processo por tentativa de golpe de Estado, com o plano de matar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o vice-presidente Geraldo Alckmin e o ministro da Suprema Corte Alexandre de Moraes.

Nesta semana, o ministro decretou a prisão domiciliar de Jair Bolsonaro, depois que o réu descumpriu medidas cautelares, com a cumplicidade do filho, o senador Flávio Bolsonaro. Nos Estados Unidos, seu outro filho, o deputado Eduardo Bolsonaro, faz lobby para que o governo norte-americano mantenha tarifas comerciais abusivas contra o Brasil, como forma de chantagem pela libertação do pai.

Há uma ética mafiosa nessa trama que sequestra a coisa pública (Res Publica) em prol da coisa privada (a cosa nostra dos Bolsonaro). Em reação à prisão de Jair, parlamentares bolsonaristas obstruíram os trabalhos no Congresso, exigindo anistia aos golpistas que ameaçaram a democracia brasileira entre 2022 e 2023. Os supostos patriotas agora pedem a Deus para Donald Trump invadir seu país, situando os interesses da família acima da segurança da pátria.

Em Portugal, o deputado André Ventura defende que o ministro Moraes tenha a entrada proibida no país, como ocorreu nos EUA. Embora associado à ditadura, o bordão “Deus, pátria e família” encontra ressonância entre eleitores de Ventura. Mas sua concepção de família exclui as crianças, cujos nomes o deputado expôs no Parlamento, assim como as que seriam afastadas dos pais por empecilhos impostos ao reagrupamento familiar no pacote anti-imigração. São crianças sem alma, como se dizia dos indígenas e africanos que adoravam outros deuses, catequizados pelos jesuítas na gênese da pátria brasileira.

Enquanto não passarmos o slogan fascista para o plural, respeitando a existência de vários deuses, pátrias e famílias, ele vai ser manter como um tripé que sustenta o ódio à diferença e a crise das democracias.

domingo, 10 de agosto de 2025

Pensamento do Dia

 


O ataque ao Brasil pode ser um fator de mobilização

A natureza da agressão dos EUA ao nosso país é claramente intervencionista, política na origem e nos objetivos que persegue. A escandalosa coação ao Judiciário, imiscuindo-se em nossa domesticidade em nível jamais conhecido entre nações soberanas em paz, tanto quanto o “tarifaço”, atingindo em cheio nossa economia e anunciando desemprego, não se encerra em si mesma, pois muito está por vir, e o que nos espera poderá agravar-se se não encontrar a resistência de uma sociedade organizada, apta à mobilização e preparada política e ideologicamente.

Os idos de 2025 olham para 2026.

O projeto trumpista, apoiado pelo grosso da sociedade estadunidense, pelo seu Congresso, pela Suprema Corte, é movimento que visa a fortalecer, ampliar e dar consequência à marcha da extrema-direita em todo o mundo — fantasma que não é de hoje. Ele assombra a Europa, pervade a América Latina e agora volta ao comando dos EUA, mirando o resto do mundo.

A ameaça toma os contornos de fato concreto, corre como rastilho de pólvora; sua relevância muda de qualidade quando passa a ser conduzida pela — ainda — maior potência econômica e militar dos últimos cem anos, ferida pela sua crise interna, acossada pela desindustrialização, assustada com as ameaças à sua hegemonia representadas pela ascensão de uma Eurásia liderada por uma China desenvolvida e em crescimento.


Neste quadro, a lei do mais forte substitui o diálogo; a força se antepõe à persuasão ideológica, que pede tempo para frutificar: a submissão do colonizado aos interesses e à vontade do colonizador. O discurso se mostra ineficiente, e as novas circunstâncias reclamam o retorno do big stick, a doutrina que, no início do século XX, inspirou as relações imperiais dos EUA com a América Latina, nada diversas das relações das grandes potências europeias com suas colônias — e do que foi, entre nós, no Império, a preeminência inglesa.

Não se trata, pois, de mero acaso sua vinculação com a extrema-direita brasileira e, mais precisamente, com o bolsonarismo, hoje um movimento de massa. Muito menos podem parecer desarrazoados os braços dados ao sionismo e a associação ao genocídio do povo palestino. Os EUA levam a cabo verdadeiro bullying contra o humanismo e a paz — valores sempre secundários para o autoritarismo que se transfigura em fascismo, o destino a que sempre nos condena o capitalismo em crise. A ascensão da extrema-direita é, assim, produto do processo histórico, e o Brasil se apresenta, pela sua economia, pela sua população, pelo seu território, pela sua liderança, como peça importante a ser conservada como território de segurança.

A internacional neofascista encontra no Brasil de hoje um espaço de penetração facilitado pelo vira-latismo de nossa classe dominante e pelo excepcionalismo de uma direita entreguista que investe contra a nação — logo ela, que tanto gosta de bater no peito, fazer continência e gritar o amor à pátria, trajando a amarelinha da CBF. Estranha horda de “patriotas”, que faz continência à bandeira dos EUA e, nas passeatas, estende com orgulho a bandeira de Israel, para registrar seu aplauso ao sionismo e a seus horrendos crimes. No plenário da Câmara dos Deputados e nos palanques dos comícios, seus próceres, como o governador de São Paulo, se exibem com o boné da campanha de Trump, onde se lê MAGA — Make America Great Again.

O partido de Jair Bolsonaro expulsa de seus quadros um deputado federal que ousa criticar Trump quando este nos ataca. Que faz aqui — e em Washington — a família do capitão? Que faz aqui a maioria parlamentar que controla o Congresso? Que fazem o PL e seus similares? Que fazem aqui os governadores dos mais importantes Estados da federação? Nada se deve esperar das chamadas elites, do grande capital internacionalizado, de um empresariado rentista sem visão de país e nação.

A burguesia que aqui reside na maior parte do tempo só tem olhos para a constância de seus lucros, e não hesitará em mudar de rumo, ramo ou país — como já anunciaram uma grande metalúrgica gaúcha fabricante de armas e a Embraer, de malas prontas para migrarem para os EUA. A montadora de aviões (erguida e viabilizada, como se sabe, com dinheiro do contribuinte brasileiro) já anunciou investimentos de US$ 500 milhões em suas instalações na Califórnia, para onde pretende levar o projeto do KC-390, apresentado como o maior avião militar já fabricado na América do Sul.

Esta é a resposta do grande empresariado nacional ao tarifaço.
As lideranças empresariais reclamam de nosso governo uma negociação que ele sempre buscou — sem êxito — e exigem que o presidente Lula tome a iniciativa de procurar Trump e, preferencialmente, seja atencioso e prestativo. O conceito de dignidade nacional é ignorado pela elite aqui instalada.
Os EUA, com o tarifaço — mas principalmente com sua justificativa, abusivamente reiterada por Trump — já intervieram na política brasileira. Estamos ainda distantes do ponto de chegada, mas está evidente que a operação em curso olha para o processo político e eleitoral brasileiro. O objetivo é intervir na história, seja invertendo os números do apertado pleito de 2022, seja transformando em sucesso a frustrada intentona de 2023, seja interferindo nas eleições de 2026. Seu alvo é assegurar a consolidação do projeto neofascista, interrompido com a eleição e posse de Lula, eventos fundamentais, mas insuficientes para garantir a consolidação de nossa democracia — tão frágil e tão ameaçada, hoje, não menos que ontem.

Há uma disputa institucional, há um confronto na sociedade, e há a registrar o avanço da extrema-direita, no limite de conquistar uma nova maioria — a nuvem negra que se anuncia desde 2018 e chegou tão perto de se transformar em realidade em 2022. E, porque ganhamos as eleições presidenciais, cuidamos de esquecer que havíamos perdido a disputa na maioria dos Estados e no Congresso.

A resistência neofascista e a intervenção dos EUA indicam o que deverão ser as eleições do próximo ano (uma disputa, a rigor, já iniciada), quando as forças populares enfrentarão um bloco de direita e extrema-direita organizado: como sabemos, não lhe falta base popular, nem o conforto oferecido pelo apoio da maioria dos governadores de Estado, da maioria dos prefeitos municipais, da maioria esmagadora de deputados estaduais e federais, da maioria dos senadores, da velha imprensa, o apoio político e financeiro da Faria Lima e, agora, o apoio ativo, explícito e incondicional dos EUA (que terá faltado ao putsch de 2023).

Um quadro que traz um incômodo sentimento de déjà vu a quem acompanhou as eleições de 1962 e viveu os idos de 1964.

Por contraditório que pareça, contudo, muito passamos a dever aos EUA, ao trumpismo e a esse intervencionismo. Trump escancarou a natureza do imperialismo (inclusive com a manipulação grosseira do conceito de Direitos Humanos, que Washington nunca teve tão pouca moral para invocar). Assim, foram postas na ordem do dia questões descuradas pela esquerda brasileira desde que passou a flertar com o neoliberalismo. Por ingenuidade política, deformação teórica ou mesmo por comodismo, ela supôs estar no poder — e supôs ainda que a conciliação ideológica era o caminho mais simples para nele permanecer. Esqueceu-se de que há uma coisa chamada consciência de classe, valor bem cultivado pela classe dominante. Ideologia não é brinquedo...

Assim, ganhamos, mas com limitadas condições de governança, das quais derivam graves riscos à institucionalidade democrática. A maioria parlamentar de hoje é (e não é preciso qualquer esforço para ver) ainda mais reacionária, obtusa e irresponsável do que aquela que decretou o impeachment da presidente Dilma Rousseff, “corrigindo” o resultado das eleições de 2014. Aprende com as lições da história quem quer.

Na última semana, o chorume neofascista paralisou as atividades do Congresso para protestar contra a decretação da prisão de Bolsonaro, criminoso contumaz. Com isso, o bolsonarismo impediu a votação de ao menos um projeto de interesse da população: a isenção de IR para quem ganha até R$ 5 mil. O deputado Glauber Braga (PSOL-RJ) repudiou a ação do bando, mas ironizou: “Deputados do PL terem se autoimposto a colocação de esparadrapos na boca, eu acho uma boa medida. É uma ação voluntária para contribuir com a paz.”

Lamentavelmente, não se trata de um raio em céu azul o avanço do pensamento e da ação da direita e da extrema-direita. O processo político que nos inquieta seria inviável sem nossa colaboração, ainda que involuntária: a política é produto da luta social, à qual renunciamos, deixando de desempenhar o papel fundamental de vanguarda. Mas, se não nos faltar ânimo, sobrarão condições objetivas de enfrentar o desafio, com a retomada da luta ideológica.

O trumpismo, com sua agressividade tóxica, nos oferece a oportunidade de discutir o interesse nacional, de falar em nação e em nacionalismo, retomar a defesa de nossas riquezas naturais, voltar a falar em imperialismo — pois ele, em lento declínio, arreganha os dentes — e denunciar seu papel corrosivo. É a oportunidade de encontro da sociedade com o país, o despertar da consciência de pertencimento a um projeto comum.

Seremos, afinal, uma nação, e, em torno desse sentimento, poderemos construir uma nova maioria nacional, progressista, apta a enfrentar o maior dos desafios da nacionalidade: a desigualdade e a injustiça social estampadas na segunda maior concentração de renda do mundo.

***

Aviso aos navegantes — Há mouros na costa.

Tem gente com fome 1 — É difícil, e talvez inútil, tentar identificar o que há de mais horrendo e repugnante em um genocídio. Mas o lento assassinato de civis desarmados pela desnutrição forçada choca especialmente. Assim, gravaram-se na memória da humanidade as imagens de corpos esqueléticos dos prisioneiros de Auschwitz — uns ainda vivos, outros jogados em pilhas de cadáveres, como se nem humanos fossem. O horror se repete com o genocídio, em curso, dos palestinos de Gaza, que, além dos bombardeios covardes (assistidos por uma “comunidade internacional” inerte e desmoralizada), enfrentam agora a escassez de remédios, água e alimentos imposta pelo Estado de Israel. E repetidas vezes são atacados pelos terroristas de Tel Aviv quando se aglomeram na busca desesperada de ajuda humanitária! Relembremos Primo Levi: “Destinados a uma morte quase certa, resta-nos uma única opção, que devemos defender a qualquer custo, justamente porque é a última: a de não permitir que nos façam virar um ‘nada’.”


Tem gente com fome 2 — Nesse cenário de horror, deveria ser dada atenção especial ao relatório SOFI 2025, lançado no último 28/07 durante a abertura do UN Food Systems Summit +4, na Etiópia. O documento destaca que, embora o número de pessoas com fome no mundo tenha se estabilizado após o pico da pandemia, ele continua em patamar preocupante: mais de 730 milhões de pessoas estavam em situação de fome crônica em 2024, com Ásia e África concentrando cerca de 90% desse total. Quanto ao Brasil, um ansiado anúncio positivo: o país foi oficialmente retirado do Mapa da Fome da ONU, menos de três anos após haver retornado ao ranking, na longa noite bolsonarista.

Tem gente com fome 3 — Evidentemente, os dados dignos de festejo não podem nos fazer esquecer que a desnutrição ainda afeta milhões de brasileiros, e que o país tem diante de si o desafio de melhorar a qualidade da alimentação do seu povo, hoje repleta de ultraprocessados. Mas essa vitória já mostra um caminho a ser perseguido e aprofundado: a combinação de políticas de incentivo à geração de emprego e renda, manutenção de benefícios como o Bolsa Família e o BPC, e apoio à agricultura familiar. Além do repúdio ao fascismo. O necessário sentido de urgência é dado pelo verso do poeta, multiartista e militante comunista pernambucano Solano Trindade, que adverte: “tem gente com fome”.

Dissuasão e resiliência

A arrogância de Trump ao tentar intervir na política e na Justiça do Brasil não surpreende quem lembra da história. Um pouco antes do golpe de 1964, e depois dele, John Kennedy, Lyndon Johnson e Richard Nixon foram decisivos para a implantação dos anos de chumbo no Brasil, nos quais ocorreram cassações de parlamentares, fechamento do Congresso, manipulação do Judiciário, tortura e prisões. Desde então, nossa dependência diminuiu, mas chegamos a 2025 assustados diante da postura trumpista. O fato: não criamos poder de dissuasão para evitar ameaças, nem resiliência para enfrentar um presidente que ignore nossa força.


Para garantir a resiliência teria sido necessário criar um mercado interno dinâmico, capaz de absorver a produção que os EUA barram com tarifas ou bloqueios. Não o fizemos porque nos negamos a implantar um sistema nacional de educação com qualidade e equidade, capaz de aumentar a produtividade, elevar e distribuir a renda nacional, promover competitividade e inovação, além de dar coesão política nos momentos necessários. Com 10 milhões de analfabetos, apenas 50% dos jovens concluindo o ensino médio — e, destes, no máximo a metade com a qualidade necessária —, ficamos sem a necessária resistência e com a soberania enfraquecida.

Para reduzir a dependência teria sido compulsório diversificar a pauta de exportações, tanto no perfil dos produtos quanto na abrangência dos mercados. Nossa industrialização avançou, mas as exportações seguem ainda concentradas em commodities primárias, minerais ou agrícolas. Nos livramos da forte dependência que o México tem em relação aos EUA, mas 12% das exportações vão para o mercado americano e 28% para o chinês. Quando a África tiver sua própria produção de soja, a China dispensará a demanda por soja brasileira, como outros países fizeram no passado com a borracha, o algodão e o açúcar.

A fragilidade de nossa defesa militar também limita a capacidade de calma diante de ameaças externas, tanto pela fraqueza do armamento quanto pela falta de compromisso patriótico e democrático na formação de nossos soldados. Em 1964, em plena Guerra Fria, oficiais de alta patente diziam: “O que for bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”. Em 2025, Bolsonaro e seus aliados prestam continência à bandeira americana e fazem lobby em Washington contra o Brasil. Sem democracia, nossas Forças Armadas não terão o apoio interno necessário para defender a soberania; sem armas, não terão poder. A dissuasão exige forças preparadas para enfrentar ameaças externas e proteger portos, aeroportos, sistemas de comunicação e integridade territorial. As ameaças de Trump à soberania brasileira põem em risco a cantada cultura pacifista. Não demora e surgirá alguma indecente proposta de reformar a Constituição para revogar o artigo comemorado por todos os humanistas ao proibir definitivamente o uso de armas nucleares pelo Brasil.

Se desejamos dissuadir futuros presidentes americanos e garantir resiliência para enfrentá-los, precisamos ser uma nação democrática e educada, entendendo o mundo e com o necessário conhecimento de ciência e tecnologia, além da economia diversificada, insista-se, e um sistema de defesa preparado. O atual confronto, preocupante, pode ser uma janela de oportunidade para mudanças.

Não acredite nos pessimistas do MAGA sobre comércio

Enquanto um mundo horrorizado assiste à derrocada de uma ordem econômica que lhe trouxe estabilidade e prosperidade por décadas, a pergunta que ouço em cada país é a mesma: por que os EUA, a nação que floresceu tão poderosamente sob este sistema, o está destruindo?

Quando explico que muitos americanos – incluindo o presidente – acreditam que os EUA foram vítimas deste sistema de livre-comércio, a resposta é perplexidade. “Como eles podem não ver o que é óbvio: que eles são os grandes vencedores?”, disse um alto funcionário estrangeiro.

O presidente Trump e o movimento trumpista moldaram essa narrativa com grande sucesso. Mesmo aqueles que se opõem a Trump tendem a admitir que, embora os americanos mais ricos e as maiores empresas tenham tido sucesso nas últimas décadas, a maioria da população viu sua renda estagnar, empregos serem transferidos para o exterior e os padrões de vida declinarem.


Mas nada disso conta a história certa. Mudanças massivas nas políticas públicas que estão transformando o mundo estão sendo feitas com base em uma série de suposições que são anedotas, exageros e mentiras.

O número básico a ter em mente é a “renda mediana”. A “renda média” ( média aritmética de todas as rendas somadas e divididas pelo número de pessoas) é menos reveladora porque as rendas de Elon Musk, Bill Gates e Jeff Bezos elevam essa média. A “renda mediana” é a renda do americano no meio da distribuição de renda: metade do país ganha mais, metade ganha menos.

A medida da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) para a renda familiar mediana disponível nos EUA era maior do que em todas as economias industriais avançadas, exceto uma, em 2021 – maior do que Suíça, Alemanha, Reino Unido e Japão. A exceção é o pequeno Luxemburgo. De fato, a renda familiar mediana disponível nos EUA é cerca do dobro da do Japão.

E, como Noah Smith aponta Os americanos raramente se mudam de lugares onde a economia entrou em colapso em um excelente ensaio, a renda mediana dos EUA não está estagnada, como nos diz a sabedoria popular; ela tem crescido rapidamente ao longo das décadas. Smith observa que a renda pessoal mediana real aumentou 50% desde a década de 1970. Os salários por hora, ajustados pela inflação, aumentaram desde a década de 1990. E os salários por hora do terço mais pobre dos americanos aumentaram ainda mais: cerca de 40%.

Sem dúvida, houve rupturas nas últimas décadas. Essa é a natureza do capitalismo. David Autor e outros descreveram um “choque chinês”, no qual cerca de 2 milhões de empregos foram perdidos, entre 1999 e 2011, como resultado da ascensão da China na indústria manufatureira.

O secretário do Tesouro, Scott Bessent, recentemente inflou esse número para 3,7 milhões. Um ensaio para o centro de estudos conservador American Enterprise Institute contesta esse número e lança dúvidas até mesmo sobre os números mais baixos da pesquisa de Autor.

Mas o ponto principal é que a rotatividade no mercado de trabalho americano é enorme. Hoje em dia, em média, cerca de 30 milhões de trabalhadores do setor privado perdem seus empregos anualmente, e um número semelhante ganha empregos a cada ano. Durante os anos do choque chinês, os EUA ganharam mais de 2 milhões de empregos no total. E esses não eram empregos de baixa remuneração em fastfood.

Veja Flint, em Michigan, e Greensboro, na Carolina do Norte – frequentemente vistas como cidades clássicas devastadas pela perda da indústria. Nas últimas duas décadas e meia, o crescimento real dos salários dos mais pobres aumentou mais de 40% em Flint e mais de 26% em Greensboro.

Isso não é brincadeira. Em 2018, a Brookings Institution analisou 185 condados industriais urbanos que tinham muitos empregos no setor, em 1970, e descobriu que 115 haviam conseguido fazer a transição da indústria, melhorando o bem-estar dos moradores. Apenas 14 dessas comunidades industriais ainda poderiam ser definidas como “vulneráveis”. Lembre-se de que o desemprego nos EUA está próximo do menor nível em 50 anos há mais de três anos.

Em uma economia tão grande e diversa como a dos EUA, sempre haverá lugares em dificuldades. Parte do que torna esse problema mais urgente é que os americanos agora raramente se mudam de lugares onde a economia entrou em colapso em busca de melhores perspectivas.

Como Yoni Appelbaum observa em seu livro Stuck, os americanos costumavam ter alta mobilidade, sempre em busca de melhores oportunidades. Mas, nas últimas décadas, eles permaneceram no mesmo lugar, na esperança de que melhores perspectivas econômicas chegassem até eles.

Appelbaum observa uma estatística impressionante sobre a corrida presidencial de 2016: “Entre os eleitores brancos que se mudaram a mais de duas horas de sua cidade natal, Hillary Clinton teve uma sólida vantagem de 6 pontos porcentuais. Aqueles que moravam a menos de duas horas de carro, no entanto, apoiaram Trump por 9 pontos. E aqueles que nunca haviam saído de sua cidade natal o apoiaram por impressionantes 26 pontos.”

Esses números pintam um quadro diferente da natureza da turbulência política nos EUA. Mudanças e rupturas – causadas pelo capitalismo, pela globalização, pela tecnologia ou, crucialmente, por uma cultura em transformação – produziram enorme ansiedade entre muitos. Há aqueles que consideram essas ansiedades insuportáveis e desejam que o mundo volte a ser o que era antes. Mas – com ou sem tarifas – isso não acontecerá.

Agenda armamentista da extrema-direita ameaça a segurança global

Uma proposta legislativa apresentada recentemente em Portugal pelo partido de extrema-direita Chega deu início a um debate que é crucial sobre o futuro da segurança pública no país. A iniciativa tem como objetivo alterar radicalmente as regras de uso de armas de fogo pelas forças de segurança, propondo a eliminação do seu caráter de “excepcionalidade” e, em certas circunstâncias, tornando o seu uso não apenas permitido, mas quase obrigatório. A justificativa, embalada numa retórica de restauração da autoridade e combate a uma suposta “cultura de hesitação” que fragilizaria a atuação das forças de segurança, ecoa um manual político que transcende as fronteiras portuguesas. Longe de ser uma solução isolada para um problema local, a proposta do Chega é, na verdade, a manifestação portuguesa de uma estratégia global, promovida por políticos de extrema-direita em diversos países como o Brasil, os Estados Unidos e a Itália. Esta agenda partilhada se fundamenta em dois pilares: o empoderamento letal das forças policiais como forma de “melhorar a segurança pública” e a proliferação de armas entre a população civil como um suposto direito à autodefesa.

Contudo, uma análise rigorosa e desapaixonada dos dados empíricos disponíveis revela uma contradição fundamental, que podemos designar como o “Paradoxo da Letalidade”. As políticas vendidas sob a promessa de mais segurança, na prática, acabam por gerar mais violência e morte.

Para compreender a gravidade da proposta do Chega, é preciso dissecar os seus detalhes. O projeto de lei não se limita a dar mais liberdade aos agentes para usarem as suas armas; ele busca redefinir a própria filosofia do uso da força. Ao propor a “eliminação da excecionalidade” no recurso a armas de fogo contra pessoas, o partido pretende normalizar o que hoje é, e deve ser, um último recurso.

A proposta vai mais longe, ao estipular um conjunto de circunstâncias em que o uso da arma se tornaria obrigatório. Um exemplo particularmente alarmante é a situação em que um agente enfrenta um grupo de três ou mais agressores. Esta cláusula ignora a complexidade das situações de confronto, removendo o discernimento do agente e substituindo-o por uma regra automática que pode escalar desnecessariamente um conflito, inclusive com desfecho fatal que poderia ter sido evitado. Adicionalmente, o projeto propõe a dispensa da advertência prévia sempre que esta possa colocar o agente em risco, mais uma vez diminuindo as barreiras para o uso da força letal.

A narrativa que sustenta estas medidas é a de que a polícia portuguesa estaria paralisada por uma “cultura de hesitação”, o que encorajaria a criminalidade e a desordem social. O objetivo declarado é “recuperar a autoridade das forças de segurança”. Esta retórica, no entanto, não se baseia numa análise das necessidades reais da segurança em Portugal, mas sim na importação de um guião ideológico que vê na força bruta a principal ferramenta de governação.

A proposta do Chega não é um fenómeno isolado. Ela espelha, com notável fidelidade, as políticas e discursos de seus homólogos internacionais. Nos Estados Unidos, país onde a atuação das forças de segurança é reconhecida como sendo extremamente violenta e com vários casos de uso excessivo de armas de fogo por policiais, o Partido Republicano tem consistentemente trabalhado para desmantelar as regulamentações sobre uso de armas. Sob a bandeira da Segunda Emenda, governadores como Ron DeSantis na Flórida aprovaram leis de “porte sem permissão” (permitless carry), que eliminam a necessidade de licença e treino para portar armas ocultas em público. A nível federal, senadores republicanos usam manobras regimentais para bloquear qualquer tentativa de controlo de armas, garantindo que a política nacional seja refém de uma minoria pró-armas. Simultaneamente, a administração Trump propõe mudar a lei para permitir que pessoas com antecedentes criminais possam adquirir armas de fogo. A ideologia subjacente é a da liberdade individual absoluta, onde o direito de portar uma arma é visto como uma defesa não só contra criminosos, mas contra uma potencial tirania do Estado, que paradoxalmente existiria através do uso de força policial, com uso de armas de fogo. No Brasil, o Partido Liberal (PL) de Jair Bolsonaro e os seus aliados têm travado batalhas legislativas com o objetivo de conceder uma ampliação das “excludentes de ilicitudes” para uso de armas de fogo por forças de segurança, e também para reverter o Estatuto do Desarmamento. As propostas incluem a possibilidade de uso de força letal por forças policiais em situações de “risco iminente de conflito armado”, sem especificar o que seria enquadrado como tal, a redução da idade mínima para a compra de armas para 18 anos, a expansão do porte para novas categorias profissionais e a contestação de decretos presidenciais mais restritivos, sob o argumento de que ferem a “liberdade individual e a legítima defesa”. Na Itália, a Lega, liderada por Matteo Salvini, promove a flexibilização das leis de armas sob a bandeira da “tradição” e da “cultura”. Uma proposta de lei apresentada pelo partido busca duplicar a potência permitida para armas de “livre venda” (que não exigem licença de porte), facilitando o acesso a armas mais letais para defesa pessoal. Paralelamente, a Lega foi a grande impulsionadora de uma reforma da lei da “legítima defesa”, que visa proteger legalmente os cidadãos que usam armas contra invasores, incentivando, na prática, o armamento residencial. Ao mesmo tempo o governo de Giorgia Meloni aprovou decreto, com apoio da Lega, que prevê uma ajuda de 10 mil euros para integrantes de forças policiais que forem processados por atos de violência cometidos no exercício das suas funções. A convergência é clara: em todos estes casos, a resposta para a percepção de insegurança não é o investimento em políticas de prevenção, inteligência ou coesão social, mas sim a delegação da força letal, seja para o Estado (polícia) ou para o indivíduo (cidadão armado).

A premissa central da proposta do Chega, de que uma polícia mais agressiva e letal gera mais segurança, é frontalmente desmentida pelas evidências empíricas. Estudos rigorosos sobre a atuação policial em contextos de alta violência demonstram que não há uma correlação entre o aumento da letalidade policial e a redução dos índices de criminalidade. 


Um estudo aprofundado sobre a polícia do Rio de Janeiro, por exemplo, concluiu que não só não havia uma associação negativa, como em alguns casos encontrou-se uma correlação positiva: um aumento nas mortes causadas pela polícia estava associado a um aumento subsequente nos homicídios e roubos na mesma área. A violência policial, em vez de dissuadir o crime, acaba por alimentar ciclos de retaliação e desordem, minando a segurança da comunidade. O estudo revelou, no entanto, que a letalidade estava correlacionada com maiores “resultados operacionais”, como a apreensão de drogas e armas, sugerindo que a polícia pode ser incentivada a adotar táticas de confronto para gerar estatísticas de “sucesso”, mesmo que tenha como consequência uma piora do quadro de segurança pública.

A ligação entre o discurso político e a prática policial é direta. Especialistas em segurança pública afirmam que a retórica de líderes que apoiam o uso da força tem um impacto mensurável na letalidade policial. Um exemplo recente em São Paulo, Brasil, ilustra este ponto: sob um governo de “linha dura”, as mortes causadas pela polícia aumentaram 60,2% de 2023 para 2024, revertendo uma tendência de queda que tinha sido alcançada com a implementação de câmaras corporais nos uniformes dos agentes. Esta experiência prova que existem alternativas eficazes e que a aposta na letalidade é uma escolha política, não uma necessidade técnica. Uma polícia mais violenta também corrói a confiança da comunidade, um ativo essencial para a prevenção e investigação de crimes, e agrava as disparidades raciais, uma vez que a violência estatal recai desproporcionalmente sobre minorias.

O segundo pilar da agenda da extrema-direita, o armamento da população civil, também falha redondamente quando confrontado com os dados. A ideia de que um “cidadão de bem” armado dissuade o crime é um mito perigoso.

Um estudo econométrico realizado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública estabeleceu uma relação causal direta: a cada 1% de aumento na circulação de armas de fogo, a taxa de homicídios sobe 1,1%. Os investigadores calcularam que a política de flexibilização no Brasil impediu que o país salvasse 6.379 vidas entre 2019 e 2021. O mesmo estudo descobriu que não há qualquer evidência de que mais armas reduzam os crimes contra o património. Pior ainda, a maior disponibilidade de armas está associada a um aumento de 1,2% nos latrocínios (roubo seguido de morte), pois as armas legais acabam por alimentar o mercado ilegal, tornando os confrontos mais letais.

Nos Estados Unidos, uma reanálise das leis que facilitaram o porte de armas concluiu que, dez anos após a sua implementação, estas levaram a um aumento de 13% a 15% nos crimes violentos. A promessa de segurança revelou-se uma miragem estatística.

Além disso, a narrativa do “cidadão de bem” ignora duas realidades trágicas: a violência doméstica e o suicídio. A arma comprada para proteção contra um estranho torna-se, com frequência, o instrumento de violência dentro de casa. No Brasil, um estudo revelou que 35% das mulheres vítimas de agressão não letal por arma de fogo já tinham registado queixas anteriores de violência, na maioria dos casos contra o seu parceiro ou ex-parceiro. A presença de uma arma transforma um histórico de abuso num potencial feminicídio.

O caso da Suíça, frequentemente citado pelos defensores das armas, é um poderoso alerta. Apesar de uma forte cultura de responsabilidade, o país tem uma das mais altas taxas de suicídio por arma de fogo do mundo. Em 2022, de 220 mortes por armas de fogo, 200 foram suicídios. A disponibilidade de um método altamente letal em casa transforma uma crise impulsiva e potencialmente temporária numa fatalidade irreversível.

A proposta do Chega para armar mais e com menos restrições as forças de segurança não é uma solução inovadora para os desafios de Portugal. É a importação de um modelo político falhado, cujas consequências desastrosas estão exaustivamente documentadas em todo o mundo. A evidência empírica é esmagadora: mais armas e mais poder de fogo nas mãos da polícia e dos civis não criam sociedades mais seguras. Pelo contrário, criam sociedades mais letais, onde os conflitos escalam mais rapidamente para a morte, a violência doméstica se torna mais perigosa e o desespero individual encontra um fim mais definitivo.

O caminho para uma segurança pública robusta e duradoura não passa pela força bruta, mas pela inteligência, pela prevenção e pelo fortalecimento das instituições democráticas. Passa por políticas baseadas em dados, como as que levaram à redução da letalidade policial em São Paulo, e por um controlo rigoroso de armas, como o que foi implementado com sucesso na Austrália e na Nova Zelândia, que, após massacres, baniram armas de assalto e viram as suas taxas de violência armada diminuir drasticamente.

Portugal tem a oportunidade de aprender com os erros e acertos de outros países. Rejeitar a proposta do Chega não é apenas uma decisão sobre uma lei específica; é uma escolha sobre o tipo de sociedade que se quer construir. Uma sociedade que aposta na prevenção em vez da repressão, na coesão em vez do medo, e na evidência em vez da ideologia. A segurança dos portugueses depende de rejeitar o perigoso e falacioso paradoxo da letalidade.