domingo, 10 de agosto de 2025

O ataque ao Brasil pode ser um fator de mobilização

A natureza da agressão dos EUA ao nosso país é claramente intervencionista, política na origem e nos objetivos que persegue. A escandalosa coação ao Judiciário, imiscuindo-se em nossa domesticidade em nível jamais conhecido entre nações soberanas em paz, tanto quanto o “tarifaço”, atingindo em cheio nossa economia e anunciando desemprego, não se encerra em si mesma, pois muito está por vir, e o que nos espera poderá agravar-se se não encontrar a resistência de uma sociedade organizada, apta à mobilização e preparada política e ideologicamente.

Os idos de 2025 olham para 2026.

O projeto trumpista, apoiado pelo grosso da sociedade estadunidense, pelo seu Congresso, pela Suprema Corte, é movimento que visa a fortalecer, ampliar e dar consequência à marcha da extrema-direita em todo o mundo — fantasma que não é de hoje. Ele assombra a Europa, pervade a América Latina e agora volta ao comando dos EUA, mirando o resto do mundo.

A ameaça toma os contornos de fato concreto, corre como rastilho de pólvora; sua relevância muda de qualidade quando passa a ser conduzida pela — ainda — maior potência econômica e militar dos últimos cem anos, ferida pela sua crise interna, acossada pela desindustrialização, assustada com as ameaças à sua hegemonia representadas pela ascensão de uma Eurásia liderada por uma China desenvolvida e em crescimento.


Neste quadro, a lei do mais forte substitui o diálogo; a força se antepõe à persuasão ideológica, que pede tempo para frutificar: a submissão do colonizado aos interesses e à vontade do colonizador. O discurso se mostra ineficiente, e as novas circunstâncias reclamam o retorno do big stick, a doutrina que, no início do século XX, inspirou as relações imperiais dos EUA com a América Latina, nada diversas das relações das grandes potências europeias com suas colônias — e do que foi, entre nós, no Império, a preeminência inglesa.

Não se trata, pois, de mero acaso sua vinculação com a extrema-direita brasileira e, mais precisamente, com o bolsonarismo, hoje um movimento de massa. Muito menos podem parecer desarrazoados os braços dados ao sionismo e a associação ao genocídio do povo palestino. Os EUA levam a cabo verdadeiro bullying contra o humanismo e a paz — valores sempre secundários para o autoritarismo que se transfigura em fascismo, o destino a que sempre nos condena o capitalismo em crise. A ascensão da extrema-direita é, assim, produto do processo histórico, e o Brasil se apresenta, pela sua economia, pela sua população, pelo seu território, pela sua liderança, como peça importante a ser conservada como território de segurança.

A internacional neofascista encontra no Brasil de hoje um espaço de penetração facilitado pelo vira-latismo de nossa classe dominante e pelo excepcionalismo de uma direita entreguista que investe contra a nação — logo ela, que tanto gosta de bater no peito, fazer continência e gritar o amor à pátria, trajando a amarelinha da CBF. Estranha horda de “patriotas”, que faz continência à bandeira dos EUA e, nas passeatas, estende com orgulho a bandeira de Israel, para registrar seu aplauso ao sionismo e a seus horrendos crimes. No plenário da Câmara dos Deputados e nos palanques dos comícios, seus próceres, como o governador de São Paulo, se exibem com o boné da campanha de Trump, onde se lê MAGA — Make America Great Again.

O partido de Jair Bolsonaro expulsa de seus quadros um deputado federal que ousa criticar Trump quando este nos ataca. Que faz aqui — e em Washington — a família do capitão? Que faz aqui a maioria parlamentar que controla o Congresso? Que fazem o PL e seus similares? Que fazem aqui os governadores dos mais importantes Estados da federação? Nada se deve esperar das chamadas elites, do grande capital internacionalizado, de um empresariado rentista sem visão de país e nação.

A burguesia que aqui reside na maior parte do tempo só tem olhos para a constância de seus lucros, e não hesitará em mudar de rumo, ramo ou país — como já anunciaram uma grande metalúrgica gaúcha fabricante de armas e a Embraer, de malas prontas para migrarem para os EUA. A montadora de aviões (erguida e viabilizada, como se sabe, com dinheiro do contribuinte brasileiro) já anunciou investimentos de US$ 500 milhões em suas instalações na Califórnia, para onde pretende levar o projeto do KC-390, apresentado como o maior avião militar já fabricado na América do Sul.

Esta é a resposta do grande empresariado nacional ao tarifaço.
As lideranças empresariais reclamam de nosso governo uma negociação que ele sempre buscou — sem êxito — e exigem que o presidente Lula tome a iniciativa de procurar Trump e, preferencialmente, seja atencioso e prestativo. O conceito de dignidade nacional é ignorado pela elite aqui instalada.
Os EUA, com o tarifaço — mas principalmente com sua justificativa, abusivamente reiterada por Trump — já intervieram na política brasileira. Estamos ainda distantes do ponto de chegada, mas está evidente que a operação em curso olha para o processo político e eleitoral brasileiro. O objetivo é intervir na história, seja invertendo os números do apertado pleito de 2022, seja transformando em sucesso a frustrada intentona de 2023, seja interferindo nas eleições de 2026. Seu alvo é assegurar a consolidação do projeto neofascista, interrompido com a eleição e posse de Lula, eventos fundamentais, mas insuficientes para garantir a consolidação de nossa democracia — tão frágil e tão ameaçada, hoje, não menos que ontem.

Há uma disputa institucional, há um confronto na sociedade, e há a registrar o avanço da extrema-direita, no limite de conquistar uma nova maioria — a nuvem negra que se anuncia desde 2018 e chegou tão perto de se transformar em realidade em 2022. E, porque ganhamos as eleições presidenciais, cuidamos de esquecer que havíamos perdido a disputa na maioria dos Estados e no Congresso.

A resistência neofascista e a intervenção dos EUA indicam o que deverão ser as eleições do próximo ano (uma disputa, a rigor, já iniciada), quando as forças populares enfrentarão um bloco de direita e extrema-direita organizado: como sabemos, não lhe falta base popular, nem o conforto oferecido pelo apoio da maioria dos governadores de Estado, da maioria dos prefeitos municipais, da maioria esmagadora de deputados estaduais e federais, da maioria dos senadores, da velha imprensa, o apoio político e financeiro da Faria Lima e, agora, o apoio ativo, explícito e incondicional dos EUA (que terá faltado ao putsch de 2023).

Um quadro que traz um incômodo sentimento de déjà vu a quem acompanhou as eleições de 1962 e viveu os idos de 1964.

Por contraditório que pareça, contudo, muito passamos a dever aos EUA, ao trumpismo e a esse intervencionismo. Trump escancarou a natureza do imperialismo (inclusive com a manipulação grosseira do conceito de Direitos Humanos, que Washington nunca teve tão pouca moral para invocar). Assim, foram postas na ordem do dia questões descuradas pela esquerda brasileira desde que passou a flertar com o neoliberalismo. Por ingenuidade política, deformação teórica ou mesmo por comodismo, ela supôs estar no poder — e supôs ainda que a conciliação ideológica era o caminho mais simples para nele permanecer. Esqueceu-se de que há uma coisa chamada consciência de classe, valor bem cultivado pela classe dominante. Ideologia não é brinquedo...

Assim, ganhamos, mas com limitadas condições de governança, das quais derivam graves riscos à institucionalidade democrática. A maioria parlamentar de hoje é (e não é preciso qualquer esforço para ver) ainda mais reacionária, obtusa e irresponsável do que aquela que decretou o impeachment da presidente Dilma Rousseff, “corrigindo” o resultado das eleições de 2014. Aprende com as lições da história quem quer.

Na última semana, o chorume neofascista paralisou as atividades do Congresso para protestar contra a decretação da prisão de Bolsonaro, criminoso contumaz. Com isso, o bolsonarismo impediu a votação de ao menos um projeto de interesse da população: a isenção de IR para quem ganha até R$ 5 mil. O deputado Glauber Braga (PSOL-RJ) repudiou a ação do bando, mas ironizou: “Deputados do PL terem se autoimposto a colocação de esparadrapos na boca, eu acho uma boa medida. É uma ação voluntária para contribuir com a paz.”

Lamentavelmente, não se trata de um raio em céu azul o avanço do pensamento e da ação da direita e da extrema-direita. O processo político que nos inquieta seria inviável sem nossa colaboração, ainda que involuntária: a política é produto da luta social, à qual renunciamos, deixando de desempenhar o papel fundamental de vanguarda. Mas, se não nos faltar ânimo, sobrarão condições objetivas de enfrentar o desafio, com a retomada da luta ideológica.

O trumpismo, com sua agressividade tóxica, nos oferece a oportunidade de discutir o interesse nacional, de falar em nação e em nacionalismo, retomar a defesa de nossas riquezas naturais, voltar a falar em imperialismo — pois ele, em lento declínio, arreganha os dentes — e denunciar seu papel corrosivo. É a oportunidade de encontro da sociedade com o país, o despertar da consciência de pertencimento a um projeto comum.

Seremos, afinal, uma nação, e, em torno desse sentimento, poderemos construir uma nova maioria nacional, progressista, apta a enfrentar o maior dos desafios da nacionalidade: a desigualdade e a injustiça social estampadas na segunda maior concentração de renda do mundo.

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Aviso aos navegantes — Há mouros na costa.

Tem gente com fome 1 — É difícil, e talvez inútil, tentar identificar o que há de mais horrendo e repugnante em um genocídio. Mas o lento assassinato de civis desarmados pela desnutrição forçada choca especialmente. Assim, gravaram-se na memória da humanidade as imagens de corpos esqueléticos dos prisioneiros de Auschwitz — uns ainda vivos, outros jogados em pilhas de cadáveres, como se nem humanos fossem. O horror se repete com o genocídio, em curso, dos palestinos de Gaza, que, além dos bombardeios covardes (assistidos por uma “comunidade internacional” inerte e desmoralizada), enfrentam agora a escassez de remédios, água e alimentos imposta pelo Estado de Israel. E repetidas vezes são atacados pelos terroristas de Tel Aviv quando se aglomeram na busca desesperada de ajuda humanitária! Relembremos Primo Levi: “Destinados a uma morte quase certa, resta-nos uma única opção, que devemos defender a qualquer custo, justamente porque é a última: a de não permitir que nos façam virar um ‘nada’.”


Tem gente com fome 2 — Nesse cenário de horror, deveria ser dada atenção especial ao relatório SOFI 2025, lançado no último 28/07 durante a abertura do UN Food Systems Summit +4, na Etiópia. O documento destaca que, embora o número de pessoas com fome no mundo tenha se estabilizado após o pico da pandemia, ele continua em patamar preocupante: mais de 730 milhões de pessoas estavam em situação de fome crônica em 2024, com Ásia e África concentrando cerca de 90% desse total. Quanto ao Brasil, um ansiado anúncio positivo: o país foi oficialmente retirado do Mapa da Fome da ONU, menos de três anos após haver retornado ao ranking, na longa noite bolsonarista.

Tem gente com fome 3 — Evidentemente, os dados dignos de festejo não podem nos fazer esquecer que a desnutrição ainda afeta milhões de brasileiros, e que o país tem diante de si o desafio de melhorar a qualidade da alimentação do seu povo, hoje repleta de ultraprocessados. Mas essa vitória já mostra um caminho a ser perseguido e aprofundado: a combinação de políticas de incentivo à geração de emprego e renda, manutenção de benefícios como o Bolsa Família e o BPC, e apoio à agricultura familiar. Além do repúdio ao fascismo. O necessário sentido de urgência é dado pelo verso do poeta, multiartista e militante comunista pernambucano Solano Trindade, que adverte: “tem gente com fome”.

Dissuasão e resiliência

A arrogância de Trump ao tentar intervir na política e na Justiça do Brasil não surpreende quem lembra da história. Um pouco antes do golpe de 1964, e depois dele, John Kennedy, Lyndon Johnson e Richard Nixon foram decisivos para a implantação dos anos de chumbo no Brasil, nos quais ocorreram cassações de parlamentares, fechamento do Congresso, manipulação do Judiciário, tortura e prisões. Desde então, nossa dependência diminuiu, mas chegamos a 2025 assustados diante da postura trumpista. O fato: não criamos poder de dissuasão para evitar ameaças, nem resiliência para enfrentar um presidente que ignore nossa força.


Para garantir a resiliência teria sido necessário criar um mercado interno dinâmico, capaz de absorver a produção que os EUA barram com tarifas ou bloqueios. Não o fizemos porque nos negamos a implantar um sistema nacional de educação com qualidade e equidade, capaz de aumentar a produtividade, elevar e distribuir a renda nacional, promover competitividade e inovação, além de dar coesão política nos momentos necessários. Com 10 milhões de analfabetos, apenas 50% dos jovens concluindo o ensino médio — e, destes, no máximo a metade com a qualidade necessária —, ficamos sem a necessária resistência e com a soberania enfraquecida.

Para reduzir a dependência teria sido compulsório diversificar a pauta de exportações, tanto no perfil dos produtos quanto na abrangência dos mercados. Nossa industrialização avançou, mas as exportações seguem ainda concentradas em commodities primárias, minerais ou agrícolas. Nos livramos da forte dependência que o México tem em relação aos EUA, mas 12% das exportações vão para o mercado americano e 28% para o chinês. Quando a África tiver sua própria produção de soja, a China dispensará a demanda por soja brasileira, como outros países fizeram no passado com a borracha, o algodão e o açúcar.

A fragilidade de nossa defesa militar também limita a capacidade de calma diante de ameaças externas, tanto pela fraqueza do armamento quanto pela falta de compromisso patriótico e democrático na formação de nossos soldados. Em 1964, em plena Guerra Fria, oficiais de alta patente diziam: “O que for bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”. Em 2025, Bolsonaro e seus aliados prestam continência à bandeira americana e fazem lobby em Washington contra o Brasil. Sem democracia, nossas Forças Armadas não terão o apoio interno necessário para defender a soberania; sem armas, não terão poder. A dissuasão exige forças preparadas para enfrentar ameaças externas e proteger portos, aeroportos, sistemas de comunicação e integridade territorial. As ameaças de Trump à soberania brasileira põem em risco a cantada cultura pacifista. Não demora e surgirá alguma indecente proposta de reformar a Constituição para revogar o artigo comemorado por todos os humanistas ao proibir definitivamente o uso de armas nucleares pelo Brasil.

Se desejamos dissuadir futuros presidentes americanos e garantir resiliência para enfrentá-los, precisamos ser uma nação democrática e educada, entendendo o mundo e com o necessário conhecimento de ciência e tecnologia, além da economia diversificada, insista-se, e um sistema de defesa preparado. O atual confronto, preocupante, pode ser uma janela de oportunidade para mudanças.

Não acredite nos pessimistas do MAGA sobre comércio

Enquanto um mundo horrorizado assiste à derrocada de uma ordem econômica que lhe trouxe estabilidade e prosperidade por décadas, a pergunta que ouço em cada país é a mesma: por que os EUA, a nação que floresceu tão poderosamente sob este sistema, o está destruindo?

Quando explico que muitos americanos – incluindo o presidente – acreditam que os EUA foram vítimas deste sistema de livre-comércio, a resposta é perplexidade. “Como eles podem não ver o que é óbvio: que eles são os grandes vencedores?”, disse um alto funcionário estrangeiro.

O presidente Trump e o movimento trumpista moldaram essa narrativa com grande sucesso. Mesmo aqueles que se opõem a Trump tendem a admitir que, embora os americanos mais ricos e as maiores empresas tenham tido sucesso nas últimas décadas, a maioria da população viu sua renda estagnar, empregos serem transferidos para o exterior e os padrões de vida declinarem.


Mas nada disso conta a história certa. Mudanças massivas nas políticas públicas que estão transformando o mundo estão sendo feitas com base em uma série de suposições que são anedotas, exageros e mentiras.

O número básico a ter em mente é a “renda mediana”. A “renda média” ( média aritmética de todas as rendas somadas e divididas pelo número de pessoas) é menos reveladora porque as rendas de Elon Musk, Bill Gates e Jeff Bezos elevam essa média. A “renda mediana” é a renda do americano no meio da distribuição de renda: metade do país ganha mais, metade ganha menos.

A medida da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) para a renda familiar mediana disponível nos EUA era maior do que em todas as economias industriais avançadas, exceto uma, em 2021 – maior do que Suíça, Alemanha, Reino Unido e Japão. A exceção é o pequeno Luxemburgo. De fato, a renda familiar mediana disponível nos EUA é cerca do dobro da do Japão.

E, como Noah Smith aponta Os americanos raramente se mudam de lugares onde a economia entrou em colapso em um excelente ensaio, a renda mediana dos EUA não está estagnada, como nos diz a sabedoria popular; ela tem crescido rapidamente ao longo das décadas. Smith observa que a renda pessoal mediana real aumentou 50% desde a década de 1970. Os salários por hora, ajustados pela inflação, aumentaram desde a década de 1990. E os salários por hora do terço mais pobre dos americanos aumentaram ainda mais: cerca de 40%.

Sem dúvida, houve rupturas nas últimas décadas. Essa é a natureza do capitalismo. David Autor e outros descreveram um “choque chinês”, no qual cerca de 2 milhões de empregos foram perdidos, entre 1999 e 2011, como resultado da ascensão da China na indústria manufatureira.

O secretário do Tesouro, Scott Bessent, recentemente inflou esse número para 3,7 milhões. Um ensaio para o centro de estudos conservador American Enterprise Institute contesta esse número e lança dúvidas até mesmo sobre os números mais baixos da pesquisa de Autor.

Mas o ponto principal é que a rotatividade no mercado de trabalho americano é enorme. Hoje em dia, em média, cerca de 30 milhões de trabalhadores do setor privado perdem seus empregos anualmente, e um número semelhante ganha empregos a cada ano. Durante os anos do choque chinês, os EUA ganharam mais de 2 milhões de empregos no total. E esses não eram empregos de baixa remuneração em fastfood.

Veja Flint, em Michigan, e Greensboro, na Carolina do Norte – frequentemente vistas como cidades clássicas devastadas pela perda da indústria. Nas últimas duas décadas e meia, o crescimento real dos salários dos mais pobres aumentou mais de 40% em Flint e mais de 26% em Greensboro.

Isso não é brincadeira. Em 2018, a Brookings Institution analisou 185 condados industriais urbanos que tinham muitos empregos no setor, em 1970, e descobriu que 115 haviam conseguido fazer a transição da indústria, melhorando o bem-estar dos moradores. Apenas 14 dessas comunidades industriais ainda poderiam ser definidas como “vulneráveis”. Lembre-se de que o desemprego nos EUA está próximo do menor nível em 50 anos há mais de três anos.

Em uma economia tão grande e diversa como a dos EUA, sempre haverá lugares em dificuldades. Parte do que torna esse problema mais urgente é que os americanos agora raramente se mudam de lugares onde a economia entrou em colapso em busca de melhores perspectivas.

Como Yoni Appelbaum observa em seu livro Stuck, os americanos costumavam ter alta mobilidade, sempre em busca de melhores oportunidades. Mas, nas últimas décadas, eles permaneceram no mesmo lugar, na esperança de que melhores perspectivas econômicas chegassem até eles.

Appelbaum observa uma estatística impressionante sobre a corrida presidencial de 2016: “Entre os eleitores brancos que se mudaram a mais de duas horas de sua cidade natal, Hillary Clinton teve uma sólida vantagem de 6 pontos porcentuais. Aqueles que moravam a menos de duas horas de carro, no entanto, apoiaram Trump por 9 pontos. E aqueles que nunca haviam saído de sua cidade natal o apoiaram por impressionantes 26 pontos.”

Esses números pintam um quadro diferente da natureza da turbulência política nos EUA. Mudanças e rupturas – causadas pelo capitalismo, pela globalização, pela tecnologia ou, crucialmente, por uma cultura em transformação – produziram enorme ansiedade entre muitos. Há aqueles que consideram essas ansiedades insuportáveis e desejam que o mundo volte a ser o que era antes. Mas – com ou sem tarifas – isso não acontecerá.

Agenda armamentista da extrema-direita ameaça a segurança global

Uma proposta legislativa apresentada recentemente em Portugal pelo partido de extrema-direita Chega deu início a um debate que é crucial sobre o futuro da segurança pública no país. A iniciativa tem como objetivo alterar radicalmente as regras de uso de armas de fogo pelas forças de segurança, propondo a eliminação do seu caráter de “excepcionalidade” e, em certas circunstâncias, tornando o seu uso não apenas permitido, mas quase obrigatório. A justificativa, embalada numa retórica de restauração da autoridade e combate a uma suposta “cultura de hesitação” que fragilizaria a atuação das forças de segurança, ecoa um manual político que transcende as fronteiras portuguesas. Longe de ser uma solução isolada para um problema local, a proposta do Chega é, na verdade, a manifestação portuguesa de uma estratégia global, promovida por políticos de extrema-direita em diversos países como o Brasil, os Estados Unidos e a Itália. Esta agenda partilhada se fundamenta em dois pilares: o empoderamento letal das forças policiais como forma de “melhorar a segurança pública” e a proliferação de armas entre a população civil como um suposto direito à autodefesa.

Contudo, uma análise rigorosa e desapaixonada dos dados empíricos disponíveis revela uma contradição fundamental, que podemos designar como o “Paradoxo da Letalidade”. As políticas vendidas sob a promessa de mais segurança, na prática, acabam por gerar mais violência e morte.

Para compreender a gravidade da proposta do Chega, é preciso dissecar os seus detalhes. O projeto de lei não se limita a dar mais liberdade aos agentes para usarem as suas armas; ele busca redefinir a própria filosofia do uso da força. Ao propor a “eliminação da excecionalidade” no recurso a armas de fogo contra pessoas, o partido pretende normalizar o que hoje é, e deve ser, um último recurso.

A proposta vai mais longe, ao estipular um conjunto de circunstâncias em que o uso da arma se tornaria obrigatório. Um exemplo particularmente alarmante é a situação em que um agente enfrenta um grupo de três ou mais agressores. Esta cláusula ignora a complexidade das situações de confronto, removendo o discernimento do agente e substituindo-o por uma regra automática que pode escalar desnecessariamente um conflito, inclusive com desfecho fatal que poderia ter sido evitado. Adicionalmente, o projeto propõe a dispensa da advertência prévia sempre que esta possa colocar o agente em risco, mais uma vez diminuindo as barreiras para o uso da força letal.

A narrativa que sustenta estas medidas é a de que a polícia portuguesa estaria paralisada por uma “cultura de hesitação”, o que encorajaria a criminalidade e a desordem social. O objetivo declarado é “recuperar a autoridade das forças de segurança”. Esta retórica, no entanto, não se baseia numa análise das necessidades reais da segurança em Portugal, mas sim na importação de um guião ideológico que vê na força bruta a principal ferramenta de governação.

A proposta do Chega não é um fenómeno isolado. Ela espelha, com notável fidelidade, as políticas e discursos de seus homólogos internacionais. Nos Estados Unidos, país onde a atuação das forças de segurança é reconhecida como sendo extremamente violenta e com vários casos de uso excessivo de armas de fogo por policiais, o Partido Republicano tem consistentemente trabalhado para desmantelar as regulamentações sobre uso de armas. Sob a bandeira da Segunda Emenda, governadores como Ron DeSantis na Flórida aprovaram leis de “porte sem permissão” (permitless carry), que eliminam a necessidade de licença e treino para portar armas ocultas em público. A nível federal, senadores republicanos usam manobras regimentais para bloquear qualquer tentativa de controlo de armas, garantindo que a política nacional seja refém de uma minoria pró-armas. Simultaneamente, a administração Trump propõe mudar a lei para permitir que pessoas com antecedentes criminais possam adquirir armas de fogo. A ideologia subjacente é a da liberdade individual absoluta, onde o direito de portar uma arma é visto como uma defesa não só contra criminosos, mas contra uma potencial tirania do Estado, que paradoxalmente existiria através do uso de força policial, com uso de armas de fogo. No Brasil, o Partido Liberal (PL) de Jair Bolsonaro e os seus aliados têm travado batalhas legislativas com o objetivo de conceder uma ampliação das “excludentes de ilicitudes” para uso de armas de fogo por forças de segurança, e também para reverter o Estatuto do Desarmamento. As propostas incluem a possibilidade de uso de força letal por forças policiais em situações de “risco iminente de conflito armado”, sem especificar o que seria enquadrado como tal, a redução da idade mínima para a compra de armas para 18 anos, a expansão do porte para novas categorias profissionais e a contestação de decretos presidenciais mais restritivos, sob o argumento de que ferem a “liberdade individual e a legítima defesa”. Na Itália, a Lega, liderada por Matteo Salvini, promove a flexibilização das leis de armas sob a bandeira da “tradição” e da “cultura”. Uma proposta de lei apresentada pelo partido busca duplicar a potência permitida para armas de “livre venda” (que não exigem licença de porte), facilitando o acesso a armas mais letais para defesa pessoal. Paralelamente, a Lega foi a grande impulsionadora de uma reforma da lei da “legítima defesa”, que visa proteger legalmente os cidadãos que usam armas contra invasores, incentivando, na prática, o armamento residencial. Ao mesmo tempo o governo de Giorgia Meloni aprovou decreto, com apoio da Lega, que prevê uma ajuda de 10 mil euros para integrantes de forças policiais que forem processados por atos de violência cometidos no exercício das suas funções. A convergência é clara: em todos estes casos, a resposta para a percepção de insegurança não é o investimento em políticas de prevenção, inteligência ou coesão social, mas sim a delegação da força letal, seja para o Estado (polícia) ou para o indivíduo (cidadão armado).

A premissa central da proposta do Chega, de que uma polícia mais agressiva e letal gera mais segurança, é frontalmente desmentida pelas evidências empíricas. Estudos rigorosos sobre a atuação policial em contextos de alta violência demonstram que não há uma correlação entre o aumento da letalidade policial e a redução dos índices de criminalidade. 


Um estudo aprofundado sobre a polícia do Rio de Janeiro, por exemplo, concluiu que não só não havia uma associação negativa, como em alguns casos encontrou-se uma correlação positiva: um aumento nas mortes causadas pela polícia estava associado a um aumento subsequente nos homicídios e roubos na mesma área. A violência policial, em vez de dissuadir o crime, acaba por alimentar ciclos de retaliação e desordem, minando a segurança da comunidade. O estudo revelou, no entanto, que a letalidade estava correlacionada com maiores “resultados operacionais”, como a apreensão de drogas e armas, sugerindo que a polícia pode ser incentivada a adotar táticas de confronto para gerar estatísticas de “sucesso”, mesmo que tenha como consequência uma piora do quadro de segurança pública.

A ligação entre o discurso político e a prática policial é direta. Especialistas em segurança pública afirmam que a retórica de líderes que apoiam o uso da força tem um impacto mensurável na letalidade policial. Um exemplo recente em São Paulo, Brasil, ilustra este ponto: sob um governo de “linha dura”, as mortes causadas pela polícia aumentaram 60,2% de 2023 para 2024, revertendo uma tendência de queda que tinha sido alcançada com a implementação de câmaras corporais nos uniformes dos agentes. Esta experiência prova que existem alternativas eficazes e que a aposta na letalidade é uma escolha política, não uma necessidade técnica. Uma polícia mais violenta também corrói a confiança da comunidade, um ativo essencial para a prevenção e investigação de crimes, e agrava as disparidades raciais, uma vez que a violência estatal recai desproporcionalmente sobre minorias.

O segundo pilar da agenda da extrema-direita, o armamento da população civil, também falha redondamente quando confrontado com os dados. A ideia de que um “cidadão de bem” armado dissuade o crime é um mito perigoso.

Um estudo econométrico realizado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública estabeleceu uma relação causal direta: a cada 1% de aumento na circulação de armas de fogo, a taxa de homicídios sobe 1,1%. Os investigadores calcularam que a política de flexibilização no Brasil impediu que o país salvasse 6.379 vidas entre 2019 e 2021. O mesmo estudo descobriu que não há qualquer evidência de que mais armas reduzam os crimes contra o património. Pior ainda, a maior disponibilidade de armas está associada a um aumento de 1,2% nos latrocínios (roubo seguido de morte), pois as armas legais acabam por alimentar o mercado ilegal, tornando os confrontos mais letais.

Nos Estados Unidos, uma reanálise das leis que facilitaram o porte de armas concluiu que, dez anos após a sua implementação, estas levaram a um aumento de 13% a 15% nos crimes violentos. A promessa de segurança revelou-se uma miragem estatística.

Além disso, a narrativa do “cidadão de bem” ignora duas realidades trágicas: a violência doméstica e o suicídio. A arma comprada para proteção contra um estranho torna-se, com frequência, o instrumento de violência dentro de casa. No Brasil, um estudo revelou que 35% das mulheres vítimas de agressão não letal por arma de fogo já tinham registado queixas anteriores de violência, na maioria dos casos contra o seu parceiro ou ex-parceiro. A presença de uma arma transforma um histórico de abuso num potencial feminicídio.

O caso da Suíça, frequentemente citado pelos defensores das armas, é um poderoso alerta. Apesar de uma forte cultura de responsabilidade, o país tem uma das mais altas taxas de suicídio por arma de fogo do mundo. Em 2022, de 220 mortes por armas de fogo, 200 foram suicídios. A disponibilidade de um método altamente letal em casa transforma uma crise impulsiva e potencialmente temporária numa fatalidade irreversível.

A proposta do Chega para armar mais e com menos restrições as forças de segurança não é uma solução inovadora para os desafios de Portugal. É a importação de um modelo político falhado, cujas consequências desastrosas estão exaustivamente documentadas em todo o mundo. A evidência empírica é esmagadora: mais armas e mais poder de fogo nas mãos da polícia e dos civis não criam sociedades mais seguras. Pelo contrário, criam sociedades mais letais, onde os conflitos escalam mais rapidamente para a morte, a violência doméstica se torna mais perigosa e o desespero individual encontra um fim mais definitivo.

O caminho para uma segurança pública robusta e duradoura não passa pela força bruta, mas pela inteligência, pela prevenção e pelo fortalecimento das instituições democráticas. Passa por políticas baseadas em dados, como as que levaram à redução da letalidade policial em São Paulo, e por um controlo rigoroso de armas, como o que foi implementado com sucesso na Austrália e na Nova Zelândia, que, após massacres, baniram armas de assalto e viram as suas taxas de violência armada diminuir drasticamente.

Portugal tem a oportunidade de aprender com os erros e acertos de outros países. Rejeitar a proposta do Chega não é apenas uma decisão sobre uma lei específica; é uma escolha sobre o tipo de sociedade que se quer construir. Uma sociedade que aposta na prevenção em vez da repressão, na coesão em vez do medo, e na evidência em vez da ideologia. A segurança dos portugueses depende de rejeitar o perigoso e falacioso paradoxo da letalidade.

Lula peitou Trump, e acertou em cheio – por enquanto

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva apostou alto – e saiu-se surpreendentemente bem até agora. Embora os Estados Unidos tenham taxado as exportações brasileiras em 50%, o maior valor na comparação global, a Casa Branca poupou quase metade dos bens, sujeitos à tarifa mínima de 10% imposta em abril.

Sendo assim, a estratégia de Lula pode ter valido a pena. Diferentemente da maioria dos chefes de governo ao redor do mundo, o ex-sindicalista não reagiu às ameaças tarifárias de Trump com bajulação, concessões unilaterais ou subserviência precipitada, e sim com críticas claras. Chamou as ameaças de Trump de "chantagem inaceitável" e declarou: "Não é um gringo que vai dar ordem a este presidente da República."

Porém, mal houve espaço para negociações. Trump havia combinado sua ameaça de tarifa recorde com exigências políticas: o Brasil deveria suspender imediatamente o processo judicial ao qual o ex-presidente Jair Bolsonaro responde por envolvimento em uma tentativa de golpe de Estado. Mas o governo brasileiro não podia e nem queria atender a essa demanda.

Foi por isso que Trump reagiu na semana passada com duas medidas mais duras. A primeira foi o sancionamento do ministro do STF Alexandre de Moraes, relator do processo na Corte contra Bolsonaro e enquadrado na Lei Magnitsky – instrumento dos EUA geralmente reservado a ditadores e seus cúmplices. Ao mesmo tempo, Trump anunciou a imposição do tarifaço recorde, embora com uma extensa lista de isenções.

Por causa do tarifaço americano, economistas esperam que o Brasil deixará de crescer, no máximo, 0,4%. No fim das contas, a economia brasileira é extremamente fechada e a conjuntura não depende tanto do comércio exterior, como é o caso da Alemanha ou do México, por exemplo.

Ainda assim, tenho minhas dúvidas. Acho que o Brasil e os EUA estão só no início de um confronto, e que ele seguirá escalando. Desde a semana passada, a espiral de medidas se acentuou. Depois que Bolsonaro foi posto em prisão domiciliar, o Departamento de Estado americano agora ameaça com mais sanções. E o ministro Moraes não parece se deixar intimidar pelas ameaças de Trump, de modo que novas retaliações podem estar a caminho. É provável que Bolsonaro seja condenado nos próximos meses. Por isso, Trump continuará de olho no Brasil – pelo menos até as eleições de 2026.

Há temas conflituosos de sobra além de Bolsonaro: a cooperação econômica crescente do Brasil com a China; o papel de Lula no Brics, bloco que reúne adversários dos EUA como Rússia, China e Irã; as importações de diesel e fertilizante da Rússia; a atuação do judiciário brasileiro contra empresas americanas de tecnologia, como o X, para citar alguns exemplos.

Os cenários para novas escaladas são sombrios. Trump poderia usar a Lei Magnitsky para, sob o pretexto de repelir uma ameaça à nação, sancionar outros políticos, juízes e membros do governo brasileiro. Também poderia vetar a emissão de vistos a brasileiros, ou anular vistos existentes.

Até agora o Brasil sempre esperou passar despercebido por Trump, ser visto como insignificante demais em comparação aos parceiros comerciais ou concorrentes de peso dos EUA, como a Europa, a China ou o Japão. Mas essa esperança se desfez no ar. Mais uma vez, o Brasil se vê subitamente no olho do furacão.

As intermitências da morte

Gaza, Nagasaki, periferias do Brasil. Quem dera a morte cansasse e, como a personagem do livro de José Saramago que dá título a esse texto, simplesmente abandonasse seu propósito. O dia amanhece e nenhum tiro atravessa um corpo palestino, nenhuma arma da polícia assassina um corpo preto, a memória nuclear japonesa se dissipa. No livro, a imortalidade é uma crise. Hospitais lotados, funerárias falidas, a igreja perdida sem paraíso. Então vale a pergunta: se ninguém morre, só resta transformar a vida?

O genocídio na Palestina dilacera, acumula mais de 60 mil mortos em um território de escombros. O chão que os pés pisam cultiva a memória de um povo, traduz parte de sua identidade. Esse laço foi trucidado pelo sionismo. Em mais um ato de crueldade que a história não perdoará, o exército israelense fuzila aqueles que tentam se aproximar da comida. ‘Eu morreria por um pacote de farinha para meus filhos’, disse um homem em Gaza.

O Washington Post fez um longo obituário infantil, do total de vidas ceifadas pela extrema-direita de Israel, quinze mil são crianças. Uma delas era Ayloul Quad, de sete anos. Era “a criança mais bonita que já vi na minha vida, por dentro e por fora”, disse sua tia Hiba Muqdad. “Nós caminhávamos pela rua e ela se recusava a comprar qualquer coisa, sabendo que outras crianças na rua não tinham o que comer.”, diz um trecho da reportagem. Mas no processo de desumanização do outro no Ocidente, Ayloul não é uma criança. Talvez você tenha um filho ou filha, sobrinha ou sobrinho. Não pense no sofrimento deles em Gaza.


“Oitenta anos se passaram, mas nada mudou”, disse Terumi Tanaka, um sobrevivente da bomba atômica em Nagasaki. A explosão. Depois, o silêncio carbonizado. O horror rasgou tudo a 4.000 °C. Sobreviventes se arrastaram pelos destroços como zumbis de urânio. “Havia centenas de pessoas sofrendo em agonia, sem poder receber qualquer tipo de atendimento médico”, recordou Tanaka.

Ainda me impressiono com a impessoalidade das bombas. “Fat Man” e “Little Boy” parecem ter nascido por geração espontânea. Quando lembrados, Harry Truman, então presidente dos EUA, e a equipe de Oppenheimer são meros passageiros das circunstâncias. Tudo leva a crer que não havia escolha, mesmo com a guerra em seu epílogo. Ficam entre esquecidos ou perdoados. A história é contada pelos vencedores e ainda rende Oscars. O filme sobre os sobreviventes de Hiroshima será estrelado por DiCaprio?

No final de julho, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgou os dados do Anuário de Segurança. Os feminicídios bateram recorde. Os assassinatos de crianças e adolescentes aumentaram em 2024 e 19% deles envolveram policiais. Comemora-se a queda nas mortes violentas, que recuaram 5,4%. São 44.125 vidas perdidas em uma guerra civil que o país teima ignorar, porque o maior número dos mortos são negros e negros são como os palestinos, que são como os zumbis da bomba.

São jovens a maioria deles, a maioria deles negros, alvejados ao deixar o trabalho, ao sair do baile, ao fazer compras em um supermercado, ao andar de carro ou simplesmente caminhar em seu bairro. Mas também em confrontos com o tráfico. Esses jovens não podem viver? Há que lembrar o alerta, que já virou clichê insistente, de Darcy Ribeiro. Era preciso construir mais escolas para que não se construíssem mais presídios no futuro. Virou post amarelado.

Há muito em comum nestes três desastres. Todos seriam evitáveis. A Segunda Guerra se aproximava do fim; Israel poderia sufocar o Hamas com inteligência – sem falar no cessar-fogo que deveria ser decretado há meses; a polícia teria que tratar os pobres como cidadãos e não como ameaças. O Brasil deveria carregar menos armas.

60 mil, 44 mil, 200 mil. Números e mais números que ocultam crianças, pais, mães, tias, tios, sobrinhos. Minha ideia inicial era fazer associações com o livro de Saramago, mas o texto do português, com suas frases sem fim e diálogos contínuos, tem uma saborosa ironia, fazem da filosofia a amiga do riso. Foi impossível acercá-lo. Na obra, em certo momento, a morte volta e seus escolhidos começam a receber cartas, avisando a chegada do inevitável. Em Gaza, essas cartas cortam o ar a todo instante; em Nagasaki, caíram do céu; no Brasil, dobram qualquer esquina periférica. A morte não cessa, a vida sangra e grita sobrevivências.

sábado, 9 de agosto de 2025

Pensamento do Dia

 


O fim das guerras

A concepção dialética de história tem como um de seus elementos centrais a categoria da contradição, entendida como a força motriz responsável pela jornada da civilização. Ela envolve ideias, valores e circunstâncias coletivas opostas causadoras de transformações sociais, políticas e econômicas. Sua expressão concreta é o antagonismo, o qual diz respeito à cizânia, ao conflito direto entre forças sociais assentadas em ideologias alternativas, ao choque entre grupos que possuem interesses divergentes. Confrontos entre classes, protestos, revoltas e guerras se mostram como exemplos típicos.

Em relação às guerras, sabe-se que, ao longo do tempo, elas se manifestaram de formas distintas. Na Antiguidade, reis e imperadores comandavam tropas compostas por soldados profissionais, mercenários contratados e grupos de civis. Na Idade Média, os cavaleiros – guerreiros montados, seguidores de um código de ética – apareciam como os grandes protagonistas, seguidos por fileiras de soldados a pé, mercenários e agrupamentos de camponeses. Na Modernidade, as forças armadas nacionais emergiram como os principais atores das hostilidades extensivas, travadas em inúmeras batalhas e campanhas. Já no período contemporâneo, os conflitos envolvem Estados, governos, sociedades, grupos paramilitares, exércitos privados, insurgentes e milicianos.

Um conjunto de fatores tem sido responsável pelo surgimento das guerras. Dentre eles podem ser citados a disputa pelo poder, isto é, grupos que almejam o controle do Estado ou grandes potências que visam obter a liderança de uma região ou do mundo; o interesse econômico que agrega a fruição de bens, riquezas, recursos estratégicos, a obtenção de territórios, o domínio de mercados e a aniquilação de competidores rivais; a imposição ideológica muitas vezes causadora da exterminação cultural de um grupo ou povo e as rivalidades étnicas e religiosas que podem provocar o extermínio de conjuntos populacionais.

É do conhecimento geral que as guerras têm permeado a história humana desde épocas remotas até os dias que correm. A lista delas aponta que há mais de 2.500 anos antes de Cristo até a presente data ocorreram muitas dezenas de conflagrações, além de múltiplas outras que continuam em andamento na atualidade. Dentre as mesmas emergiram as de curta duração como a das Malvinas entre Reino Unido e Argentina que durou dez semanas, as de média duração como a da Coreia do Norte contra a do Sul que se estendeu por quatro anos e as de longa duração como a dos Cem Anos entre França e Inglaterra. Apareceram também as que mais provocaram mortes tais como a Segunda Guerra Mundial com mais de setenta milhões, a dos Três Reinos na China com aproximadamente 36 milhões e a Sino-Japonesa com vinte milhões de falecidos.

Além da extensão e da letalidade, existem outros critérios classificatórios, como o desenvolvimento da conflagração, a intensidade do confronto, a abrangência do conflito, as causas do embate e as armas estratégicas utilizadas na contenda. Uma classificação amplamente aceita e utilizada é aquela baseada no critério da sucessividade, composta por cinco categorias: primeira, segunda, terceira, quarta e quinta gerações. Observa-se que as guerras de segunda e terceira gerações podem ser consideradas modernas, enquanto as de quarta e quinta são vistas como pós-modernas, segundo estudiosos do tema.


Entretanto, qualquer uma dessa guerras acarreta outros efeitos sociais negativos afora o número de óbitos, os quais tendem a perdurar por muito tempo e comprometer diversas gerações. Podem ser mencionados o deslocamento de contingentes populacionais, a fragmentação de comunidades, o aumento da violência e da criminalidade, a destruição de infraestrutura essencial, o exacerbamento da pobreza e da desigualdade social, o comprometimento educacional do povo, a violação de direitos humanos e a estigmatização e discriminação de grupos envolvidos. Agregue-se a este rol os elevadíssimos gastos financeiros das contendas. Apenas para ilustrar, estima-se que a reconstrução da Ucrânia após a conflagração com a Rússia deverá custar aproximadamente 1 trilhão de dólares.

Por sua vez, muitos indivíduos poderão ser afetados pelo denominado transtorno de estresse pós-traumático que atinge cerca de 20% do conjunto de pessoas que testemunharam ou vivenciaram um evento chocante e provocador de ferimentos e ameaças de morte. De um lado tem-se os veteranos de guerra, que sofrem com sonhos angustiantes, sentimento de culpa, dificuldades de concentração e surtos de irritabilidade. Do outro tem-se o impacto na saúde mental da população, haja vista que uma grande proporção de indivíduos desenvolve vários tipos de comportamentos que atrapalham seus atos diários tais como depressão, ansiedade e insônia.

Apesar dessas nefandas consequências deve ser lembrado que as guerras proporcionam repudiáveis vantagens ao desenvolvimento econômico. Além das obras de restauro, aparecem o estímulo à indústria de equipamentos militares e de armas que lucrou 12 bilhões de euros em 2022, a inovação tecnológica, os contratos governamentais com empresas privadas envolvedores de somas elevadas, a obtenção do controle de recursos naturais valiosos, a mobilização da força de trabalho com a redistribuição de empregos e recursos humanos e o impulso ao consumo e à produção interna devido ao possível incremento do nacionalismo.

Parece indubitável que a grande maioria das pessoas deve ser favorável à proposta do término das guerras por causa dos efeitos perversos que exibem. Entrementes, há muita gente visceralmente contra às mesmas que considera utópica a possibilidade de eliminá-las da vida em sociedade. Acreditam que é uma suposição imaginária, de natureza irrealizável e de acordo com a concepção original de utopia, isto é, a descrição de uma sociedade quimérica possuidora de peculiaridades altamente almejáveis, quase perfeita para a convivência entre pessoas, onde ocorre o desfrute da liberdade individual com respeito aos direitos dos outros, a aceitação e a valorização da diversidade e da inclusão, o império da justiça social garantidor dos recursos e serviços básicos e o predomínio da harmonia social, ou seja, o respeito, a empatia e a colaboração entre todos os membros da coletividade.

Existem outros motivos da descrença. A força do realismo pragmático induz os indivíduos focarem seus empenhos em soluções práticas e imediatas. O medo às mudanças de relevo tende a causar resistências. Aparece desconfiança aos ideais quiméricos se advindos de uma possível associação com regimes políticos totalitários. A formulação das utopias por grupos sociais específicos inclina-se a fortalecer a crença do não atendimento a todos os segmentos da sociedade. As questões utópicas podem parecer muito distantes dos problemas enfrentados no presente. A multiplicidade de utopias que falharam nas tentativas de implementação resulta em desilusão e ceticismo.

Esquecem, entretanto, que ideias utópicas podem vir a se materializar haja vista que várias delas já se concretizaram. A história registra que algumas comunidades conseguiram se estabelecer e funcionar a contento com base em valores específicos assumidos pelos seus integrantes tais como os Quakers, os Shakers e os Amish. Países escandinavos como Suécia, Noruega e Dinamarca possuem sistemas de bem-estar social robustos, altos níveis de igualdade, acesso universal à saúde e educação e proeminente qualidade de vida. Propostas como as cidades-jardim idealizadas por Ebenezer Howard no século passado, destinadas à vivência harmônica entre pessoas e natureza, influenciaram o planejamento urbano em vários recantos do planeta, promovendo a integração entre áreas rurais e urbanas, incremento de espaços verdes e aparecimento de comunidades sustentáveis. A denominada sociedade digital oferecedora de tecnologia para promover a colaboração e a inclusão está se estabelecendo de forma célere com o advento de plataformas de coadjuvação, redes sociais e iniciativas de código aberto.

É importante realçar que estas concepções não se transformaram em realidade de maneira rápida. E só se tornaram viáveis porque foram mantidas no decorrer do tempo, permaneceram vivas, se conservaram em estado de potência, persistiram acalentadas. Infere-se, portanto, que a criação e o cultivo de ideias utópicas, por si mesmas, são fundamentais para o possível advento de modificações na vida em sociedade em momentos oportunos.

Ademais, elas são dotadas de um significativo poder para instigar críticas, inspirar ações e mobilizar as pessoas com base em visões do futuro. Possuem então um elevado valor político. De fato, as abstrações imaginosas funcionam como uma fonte de esperança, motivação e incentivo às pugnas relativas a mudanças na sociedade; ajudam a feitura de questionamentos a determinadas circunstâncias evidenciando falhas e injustiças; estimulam o debate sobre valores e ética na vida comunitária; auxiliam na construção de narrativas voltadas para a construção de políticas sustentáveis e inclusivas; tendem a enriquecer o discurso político pela abertura de espaço à pluralidade de ideias.

Este valor político já foi devidamente testado. Veja-se o caso do Manifesto Comunista, de 1848, escrito por Marx e Engels. Ele inspirou uma série de revoluções na Europa conhecida como a Primavera dos Povos, exigente de direitos democráticos e reformas sociais. Levou os bolcheviques liderados por Lenin a derrubarem o governo da época e estabelecerem o regime comunista. Incitou movimentos trabalhistas nos séculos XIX e XX em várias partes do continente europeu e da América do Norte promovendo a luta por direitos trabalhistas e melhores condições de vida. Inspirou movimentos sociais e revoluções na América Latina, tal como a cubana liderada por Castro e Guevara. Influenciou países africanos e asiáticos na luta contra o colonialismo, especialmente em Angola e Vietnã.

Outras proposituras utópicas contribuíram para a ocorrência de mudanças sociais. Os instauradores da Comuna de Paris em 1871 colocaram em prática o recurso da autogestão e o respeito aos direitos dos trabalhadores os quais influenciaram movimentos socialistas e comunistas em várias partes do mundo. O socialismo de Fourier assentado nos falanstérios, coletividades autossuficientes promotoras da igualdade e harmonia social, infundiram diversas experiências comunitárias e ações cooperativas no decorrer dos últimos dois séculos. O projeto da Aldeia de Auroville em 1968 na Índia, uma espécie de comunidade internacional, é voltado para a busca da paz entre pessoas de diferentes origens e culturas. A Ecovila de Findhorn na Escócia busca a concretização de uma vida sustentável, a proteção do ambiente e o estabelecimento de relações sociais mais justas e colaborativas. O movimento feminista assentado na igualdade entre homens e mulheres está conseguindo estipular direitos reprodutivos e paridade no local de trabalho.

Dada sua elevada importância, infere-se que o pensamento utópico deve ser devidamente cultivado pelos indivíduos — tanto no âmbito da educação formal quanto da informal —, sendo possível recorrer a diversas estratégias para esse fim. A título de ilustração, podem ser mencionadas: a análise de iniciativas comunitárias bem-sucedidas, a criação de cenários futuros, a capacitação de pessoas para que se sintam aptas a promover mudanças, a formação de redes de apoio entre aqueles que compartilham visões alternativas, a realização de debates sobre questões sociais e políticas, e a reflexão crítica sobre as realidades atuais e as possibilidades de sua transformação.

Exclusive esta sugestão educacional cabe continuar a análise do tema do fim das guerras, relembrando seu caráter utópico conforme anteriormente mencionado. Porém, é preciso ir além do que foi aludido porquanto existem outras razões que alimentam esse caráter. Uma quantidade elevada de pessoas acredita que a violência é uma parte inevitável da natureza humana. O lucro proveniente da indústria bélica pode dificultar a busca por soluções pacíficas. Diferenças culturais, religiosas e ideológicas tendem a tornar desafiadora a construção de uma paz duradoura. A predominância de desigualdades e injustiças atrapalha o estabelecimento da concórdia. Rivalidades e desconfiança persistentes entre países podem perpetuar a ideia da inevitabilidade dos conflitos. A percepção de ameaças globais inclina-se a gerar uma mentalidade de defesa por meio de conflagrações.

Sem dúvida, essa intelecção quimérica, majoritária e profundamente arraigada, configura-se como um dos maiores óbices à consolidação da conciliação e à tentativa de pôr fim às guerras. Entrementes, há numerosas pessoas empenhadas em impedir e encerrar os conflitos, pois acreditam firmemente nessa possibilidade. Destaca-se, nesse contexto, o esforço dos integrantes da ONU voltado à prevenção da eclosão de confrontos bélicos. Vale ressaltar que a organização desempenhou um papel de grande relevância na contenção de certos conflitos, como na mediação da crise dos mísseis de Cuba, em 1962, entre Estados Unidos e União Soviética; na arbitragem entre as Coreias do Norte e do Sul, entre 1950 e 1953; e na atuação diante da delicada situação entre Geórgia e Rússia, em 2008. 

Também atuou de modo eficaz contra o agravamento e a escalada de prélios. Em 1965, facilitou a ocorrência de um cessar-fogo entre a Índia e o Paquistão e outro, em 1973, na guerra do Yom Kipur envolvendo egípcios, sírios e israelenses. Prevenção da escalada de tensões entre Libéria e Serra Leoa na última década do século passado. Estabilização da Libéria em 2003, após anos de guerra civil, por meio de um acordo de paz e realização de eleições democráticas. Acordo de Paz de Ouagadougou, em 2007, durante a guerra civil na Costa do Marfim. Libertação do Kuwait junto ao fim do conflito com o Iraque nos anos de 1990 e 1991. Promoção do processo de paz na guerra civil de El Salvador entre 1980 e 1992.

Pessoas comuns e não apenas os membros da ONU também podem com vislumbre de êxito, atuarem contra, evitarem o exacerbamento e a ascendência das contendas violentas. Essa tarefa tem cabido aos denominados cidadãos ativos ou civicamente engajados. São indivíduos que abandonam a rotina e o conforto da esfera privada, isto é, do trabalho e da família, para exercerem atividades no espaço público, tais como ruas, praças, meios de comunicação e redes sociais, em defesa não só de seus interesses, mas, principalmente, em benefício das coletividades local, nacional e internacional, por meio do trabalho voluntário, atos de boicote, campanhas filantrópicas e muitas outras ações mobilizadoras.

Ressalte-se que a prática da cidadania ativa encontra respaldo em distintas ideologias políticas, mesmo quando divergentes entre si. O liberalismo, embora incline-se fortemente para a democracia representativa, também a contempla no âmbito da democracia direta, por meio de instrumentos como plebiscitos, referendos, projetos de iniciativa popular e o recall de mandatos. O comunitarismo valoriza o trabalho voluntário, as campanhas de sensibilização e as ações filantrópicas em nível local. Já os defensores da democracia radical enfatizam a atuação dos movimentos sociais, voltados à promoção de transformações diversas no interior da sociedade. Por sua vez, os seguidores do marxismo tendem a favorecer a democracia participativa como meio de controle popular sobre os governantes e como estratégia para a instauração do socialismo.

Dentre os recursos disponíveis aos cidadãos ativos destacam-se os movimentos sociais, ou seja, as ações conjuntas sustentadas por grupos organizados da sociedade que pugnam por diversas causas tais como a paridade entre homens e mulheres, a defesa do meio ambiente e o direito à terra. Esses expressivos e longevos movimentos que emergem em resposta a insatisfações e demandas de grupos existentes na coletividade mais ampla podem apresentar uma organização formal ou espontânea, serem dotados de estruturas hierárquicas ou descentralizadas, perdurarem ou se desfazerem no decorrer do tempo. Entretanto, os mesmos se revelam como expedientes poderosos de mudança e de resistência.

Uma enorme quantidade de movimentos sociais já se manifestou no passado e continua ocorrendo no presente em todas as partes do mundo. Na atualidade, existem alguns que se revelam como os mais importantes e persistentes. O Black Lives Matter, nos Estados Unidos que luta contra a violência e o racismo sistêmico enfrentados por pessoas negras tem estimulado protestos em inúmeras nações. O LGBTQIA+ busca direitos iguais e aceitação para indivíduos de todas as orientações sexuais e identidades de gênero. O Fridays For Future, mantêm o foco na pugna das mudanças climáticas. Organizações de povos originários lutam contra a exploração de suas terras e buscam maior reconhecimento e respeito por suas tradições. Grupos antifascistas agem em resposta ao aumento da extrema direita com suas rejeitáveis ideologias.

Muitos movimentos sociais se mostraram exitosos, pois alcançaram os objetivos pretendidos. O favorável aos direitos civis nos Estados Unidos na década de cinquenta do século passado, liderados por Luther King e Rosa Parks, foi contra a segregação racial e culminou na aprovação da Lei dos Direitos Civis e da Lei de Direito ao Voto, que garantiram direitos iguais para todos os cidadãos estadunidenses. A partir do início do século XX, grupos feministas foram conseguindo relevantes conquistas como o direito ao voto, o acesso à educação e ao mercado de trabalho e a diminuição das diferenças salariais com os homens, inclusive em países desfavoráveis às mulheres, como a Arábia Saudita onde elas estão cada vez mais presentes nos setores da educação, saúde, finanças, diplomacia e forças armadas. Agrupamentos combatentes da corrupção no Brasil contribuíram significativamente para a emergência da Operação Lava Jato a qual trouxe à tona escândalos de deperecimento que afetavam a política e a economia do país e a mobilização da sociedade civil bem como a pressão popular resultaram em mudanças na legislação sobre ela.

Especificamente em relação às guerras sabe-se que vários deles apresentaram efetividade. Alguns frearam o possível surgimento delas. A mobilização Anti-Apartheid na África do Sul, assentada na resistência pacífica e na desobediência civil, liderada por Mandela e Tutu ajudaram bastante a acabar com o apartheid sem uma guerra civil em larga escala. As manifestações pacifistas na Europa durante os anos sessenta e setenta do século passado, lapso da guerra fria, contra a proliferação nuclear e a militarização contribuíram muito para evitar um conflito nuclear. O Movimento de Independência da Índia na década de 1940, sob o comando de Gandhi e pautado na bandeira da não-violência contra o colonialismo britânico impediu a emergência de um confronto armado de elevada proporção.

Outros impediram o andamento e favoreceram o desenlace delas. Nos estados Unidos, a oposição à Guerra do Vietnã cresceu significativamente na década de 1960 e início de 1970. Agregados de ativistas, estudantes, veteranos de guerra e cidadãos comuns realizaram protestos em massa, marchas e outras ações em diversas cidades envolvendo milhares de pessoas. A constante divulgação de informações sobre os bombardeios, as mortes de civis e os demais horrores da conflagração contribuiu bastante para a formação de uma opinião pública contrária à intervenção militar. Por sua vez o aumento da pressão levou a uma mudança na postura de políticos e militares que resolveram reduzir o número de soldados em combate e, posteriormente, tomaram a decisão de proclamar seu término.

A Guerra de Kosovo em fins da década de noventa colocou em ação organizações não governamentais e grupos de direitos humanos que mobilizaram a opinião pública mundial. Denunciaram a violação de direitos humanos e a limpeza étnica, as quais foram decisivas na geração de pressões sobre governos e organismos internacionais. Outras manifestações como o apoio humanitário favorável à promoção da paz, a realização de fóruns e conferências buscadores de soluções diplomáticas, as propostas de reconciliação entre as comunidades sérvias e albanesas e as exigências de justiça para as vítimas de crimes de guerra se integraram às anteriores e acorreram o desfecho do conflito.

Outrossim, existem aqueles que caminham de forma paralela em apoio e revigoramento às exteriorizações contra a guerra. As vultosas e persistentes mobilizações benfazejas ao desarmamento merecem ser citadas. O Control Arms Coalition, uma liga global sediada nos Estados Unidos, inclui múltiplas organizações da sociedade civil e trabalha para propiciar o controle de armas em nível internacional. A Ceasfire Campaign, do Reino Unido, busca ativar a opinião pública e influenciar políticas para reduzir a prática da violência com armas visando garantir a segurança comunitária. Precisam ser mencionadas também os favoráveis à paz. Na Síria, grupos de ativistas tentam promover soluções pacíficas e diálogos intercomunitários, buscando evitar uma escalada do conflito e facilitar a reconciliação. A Liga Internacional de Mulheres Pela Paz e liberdade persiste lutando por liberdades políticas, econômicas e sociais, direitos das mulheres, justiça racial e supressão das armas no mundo.

Observe-se que a real possibilidade do encerramento das guerras traz consigo o factível ocaso das forças armadas. A esse respeito vale recordar que há alguns séculos elas começaram a surgir junto com o aparecimento dos estados nacionais com a finalidade essencial de defendê-los pelo uso da violência. Com o passar do tempo e por causa do irrefreável processo de civilização, se sujeitaram e continuam se sujeitando à uma série de mudanças a partir de sua configuração original. No momento estão enfrentando o curso de um salto qualitativo rumo a uma organização agregada, isto é composta por humanos e robôs. Em seguida deverão encarar outro salto qualitativo que as transformarão em uma legião de androides de aparência humana movidos pela inteligência artificial. A manifestação dos confrontos circunscritos aos batalhões de autômatos poderá favorecer o surgimento de uma gigantesca falange de cidadãos ativos firmemente comprometidos com a efetiva e ininterrupta situação de paz em todos os recantos do planeta.

Ademais, cabe acrescentar que este segundo salto qualitativo tende a se revelar como o último momento da guerra cinética tal como vem se manifestando. Veja-se que as operações psicológicas, eletrônicas, cibernéticas e econômicas se encontram em andamento. Entretanto, uma outra forma de conflagração poderá aparecer, qual seja, a realizada no metaverso, isto é, o universo pós-realidade, o ambiente multiusuário perpétuo e persistente que funde o mundo físico com a simulação digital, a convergência das dimensões concreta e virtual. Com efeito, se a tecnologia continuar sua pujante trajetória atual e as pessoas viverem muito tempo de suas vidas no metaverso as pugnas poderão se estender para ele envolvendo as operações mencionadas como um sexto e talvez o derradeiro domínio, pois o primeiro foi a terra, o segundo a água, o terceiro o ar, o quarto o espaço e o quinto o ciberespaço.
Antônio Carlos Will Ludwig

Colapso no futuro

Eles navegam em sua distância intermediária de órbita terrestre baixa, sua visão a meio mastro. Pensam: talvez seja difícil ser humano, e talvez seja esse o problema. Talvez seja difícil fazer a transição entre pensar que seu planeta está seguro no centro de tudo e saber que ele é, na verdade, um planeta de tamanho e massa mais ou menos normais, girando ao redor de uma estrela mediana num sistema solar em que tudo é mediano numa galáxia de tantos outros, incontáveis, e a coisa toda vai explodir ou colapsar.

Samantha Harvey, "Orbital"

O parvo, o pavão e o ocaso da teoria política

Os idiotas vão tomar conta do mundo; não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos
Nelson Rodrigues

Dizem que na Suprema Corte norte-americana, na qual os juízes são vitalícios, existe uma regra pela qual se um membro muito idoso começa a dar sinais de que está perdendo sua capacidade de julgar, cabe ao segundo membro mais velho avisá-lo que é hora de se aposentar. Mesmo no âmbito do senso comum, se alguém comete algum desvario, alguém por perto pode alertá-lo, repreendê-lo ou, de alguma forma, avisá-lo de que sua atitude ou comportamento não é aceitável.

Entretanto, quando o alucinado inadequado é um Presidente da República parece que não existe esta prática saudável. Qualquer um em um posto de saúde, diante de alguém que entrasse tentando impedir a aplicação de uma vacina, ou pregando os poderes salvadores de um remédio inadequado, o desmentiria de pronto e, se fosse um ser agressivo e claramente parvo, poderia, inclusive chamar um segurança. No entanto, quando um certo presidente miliciano fez exatamente isso, insistentemente, no quadro de uma pandemia mortal, apesar das reações de gente da ciência, do jornalismo mais ou menos sério e do bom senso, parecia que, pelo cargo, devia-se à figura maligna uma espécie de respeito ao direito de dizer e fazer besteiras.

O atual presidente dos EUA especializou-se em dizer e fazer sandices. Vestiu-se com as vestes da rainha louca de Alice e começou a taxar a tudo e a todos, sem disfarçar a falta total de sentido das medidas, jogando taxas de 50%, 100%, baixando para 10% ao sabor do acaso. Indagado por uma repórter sobre qual a fórmula usada para chegar a esta ou aquela taxa, o presidente pavão começa por dizer que não há uma fórmula matemática, mas uma medida baseada no bom senso. O mesmo bom senso que taxou uma ilha onde só tem pinguins, grandes economias aliadas, países pobres, como ameça a países beligerantes ou retalização política a regimes considerados hostis.

Um reporter norte-americano nos explicou que a base para a tal teoria de que o problema dos EUA seria o déficit nas transações comerciais com o mundo viria de um senhor chamado Peter Navarro, encontrado pelo coordenador da campanha de Trump numa busca sobre autores de teoria econômica no site da Amazon. Diante da precária sustentação dos argumentos principais da teoria do déficit pelo autor, surge com frequência a citação a um certo Ron Vera, o qual, como se veio a descobrir, não existe. Trata-se apenas de um alter ego de Peter Navarro, que ele diz ter criado simplesmente como “um recurso estilistico”.

Vejam só, uma professora que corrigisse um trabalho escolar que lançasse mão de um tal recurso criativo teria riscado a folha com caneta vermelha e alertado o estudante de que aquilo não se deve fazer. Em qualquer uma de nossas tão atacadas universidades, qualquer orientador teria advertido o senhor Peter Navarro que isto não seria aceito, e caso chagasse à banca esse senhor teria sido reprovado. Do mesmo modo, qualquer editora séria que fosse informada de tal recurso criativo teria recusado a publicação. No entando, não apenas esse farsante embasa uma teoria sem fundamento que sutenta uma política insana, como se tornou Conselheiro Senior para o Comércio e Manufatura da maior economia do mundo.

Diante desse quadro, temos que rever alguns conceitos caros à teoria política. Devemos acrescentar à definição weberiana de Estado, como monopólio do uso legítimo da força em um determinado território, que seu mandatário tem o monopólio do uso legitimo de sandices. John Locke, Montesquieu, Rousseau, cada um ao seu modo, na origem do mundo burguês em luta contra o Absolutismo, buscavam maneiras pelas quais o poder do Estado não se impusesse aos indivíduos e à sociedade, fosse pelas leis, pela divisão de poderes, por um sistema de pesos e contrapesos, ou ainda pela mítica “soberania popular”. Bom, parece que na fase burlesca da decadência do mundo burguês nenhuma engenharia política consegue evitar que um desqualificado aventureiro assuma o comando de uma nação. Não estamos falando de casos isolados: Trump nos EUA; Bozo no Brasil; um comediante na Ucrânia; o burlesco Berlusconi na Itália; um Milei na Argentina; Erdogan na Turquia.

Vejam, não se trata apenas da constatação folclórica de que o bobo da corte governa; acredito mesmo que as vestes do palhaço sirvam mais à farsa do Estado do que os ternos sérios dos burocratas. Não tem nada de engraçado nesses miseráveis, eles são a expressão pura do mal, da perversidade, da violência e da ignorância. Governam nações e seus arsenais atômicos, produzem guerras e milhares de mortes, praticam genocídios, riem na cara da pobreza, da miséria, da fome, enquanto destroem o planeta. A plateia aplaude e pede bis.

O mais insano é que a sociedade e seus membros civilizados, que reconhecem o caráter bizarro dos governantes, aceitam como normal e legítimo o uso do cargo por um insano perverso. Trata-se os parvos e pavões em posse de mandato com respeito, suas medidas são discutidas como se nelas houvesse alguma lógica, negocia-se com eles, buscando a adequação às chamadas novas condições do mercado como se nada de anormal estivesse acontecendo. Alice assustada segura sua xícara de chá vazia, entre a lebre louca e o chapeleiro maluco, e se propõe a negociar.

Maquiavel inaugurou a teoria política moderna afirmando que não seria possível compreender a moral do príncipe como a moral do cidadão — deste último se espera que não minta ou mate, mas o príncipe não só pode como deve saber usar da mentira e da violência a serviço da preservação do poder. Aqui, também, devemos atualizar as bases da teoria política. Aos mandatários do poder político do Estado são permitidos sandices e desvarios que não se espera ver no povo e nos cidadãos.

Parece que a sociedade capitalista em sua fase terminal e decadente vai encontrando sua forma política adequada.

Um museu de grandes novidades: Onda da extrema-direita continua

A ascensão da extrema-direita no Brasil é um fenômeno que se insere em um contexto global de polarização política, evocando paralelos históricos e preocupações quanto à estabilidade democrática. A extrema-direita no Brasil supera o carisma individual de sua maior liderança, Jair Bolsonaro, mesmo com sua inelegibilidade e várias investigações criminais, as ideias e valores que mobilizou permanecem vivos. A atual transição do campo conservador está esmagando o que havia da direita centrista, radicalizando esses grupos e jogando-os para o espectro mais agudo do reacionarismo. Essa onda do chamado neofascismo fez emergir novas lideranças e novas formas de abordagem política, ampliando sua base de apoio e garantindo sua continuidade por ainda bastante tempo.

O enfraquecimento de Bolsonaro não implica o fim desse novo ciclo da extrema-direita. A figura do ex-presidente, antes central, hoje convive com um movimento fragmentado que se reorganiza em torno de agendas comuns, surfando sempre na insatisfação popular difusa, que antes era canalizada pela figura do ex-presidente, agora se pulveriza, permitindo a emergência de líderes regionais e setoriais. Nomes como Tarcísio de Freitas, Ronaldo Caiado e Nikolas Ferreira ilustram a diversidade dentro da direita.


Tarcísio, com um discurso mais tecnocrático, tenta angariar credibilidade institucional e midiática; Caiado investe em pautas conservadoras ligadas principalmente ao agronegócio; e Nikolas, que tenta encarnar um moralismo radical, difundido em redes sociais, tornando-se popular em parcela importante da juventude. Essas e outras lideranças ampliam a gama de apelos ideológicos, mantendo coeso o núcleo conservador.

As redes sociais continuam sendo o principal veículo de mobilização da extrema-direita no país. Narrativas simplistas e emocionais, reforçadas por algoritmos e notícias sabidamente falsas, criam bolhas ideológicas antagônicas ao debate racional e avessas aos fatos reais. Segundo dados do Relatório de Digital News Report (2023), 62% dos brasileiros acessam notícias principalmente por redes sociais, o que facilita a disseminação de desinformação, essa dinâmica amplia a polarização e dificulta o diálogo, permitindo que a extrema-direita se fortaleça mesmo sem um líder centralizado.

Os traços culturais dos brasileiros, como autoritarismo, nacionalismo e conservadorismo, são alicerces históricos sobre os quais a extrema-direita constrói seu discurso e unifica sua base. Esses valores, consolidados ao longo de séculos, preparam o terreno para a aceitação de soluções políticas simplistas e autoritárias, presente desde a colonização e reforçado pela ditadura militar, o autoritarismo alimenta a crença de que lideranças fortes e centralizadoras enfrentam melhor as crises. O nacionalismo, por sua vez, cria um senso de pertencimento e um furor ufanista exacerbado, contrapondo os destinos da nação aos supostos inimigos da pátria, sejam esses internos ou externos.

O discurso autoritário encontra legitimação em uma memória coletiva falsa que aponta para governos antidemocráticos como solução de todos os problemas. A busca por respostas imediatas a problemas complexos, somada a um crescente moralismo conservador, revitalizado e turbinado principalmente no centro das igrejas evangélicas brasileiras, que valorizam um suposto modelo de família tradicional e combatem pautas progressistas, reforça a ideia de uma ordem social natural, respaldando a manutenção do abismo social. Outro aspecto importante é o discurso que justifica ações anti-institucionais em nome de um pragmatismo supostamente necessário, essa lógica corrói o respeito às instituições e legitima comportamentos contrários ao Estado Democrático de Direito. Esse simplismo político faz ressoar soluções autoritárias na sociedade brasileira, predisposta historicamente a aceitar retóricas salvacionistas.

A força da extrema-direita brasileira não está isolada, integra um cenário mundial de fragmentação política, instabilidade econômica e desconfiança nas elites tradicionais, nesse sentido, o passado oferece ensinamentos valiosos. A ascensão do fascismo na Europa dos anos 1930 ocorreu em meio a crises econômicas, descontentamento popular, uso intenso de propaganda política, supressão de liberdades civis e perseguição a minorias. Tais condições, resultantes em parte do colapso econômico pós-1929, ecoam na atual conjuntura mundial. A retórica do inimigo interno, o apelo à segurança e a hostilidade às diferenças encontram ecos no presente. O alerta histórico torna-se, assim, ainda mais urgente.

O encorajamento à violência, o desrespeito às decisões judiciais e o estímulo à polarização extrema tencionam a democracia brasileira e mundial. Assim como no passado, discursos autoritários podem resultar na erosão de liberdades civis e na fragilização das instituições, criando um ambiente propício ao surgimento de regimes autoritários. Como uma das maiores democracias do mundo, o Brasil exerce influência além de suas fronteiras, a forma como o país lida com o avanço da extrema-direita interessa à comunidade internacional, seja para reforçar valores democráticos, seja para evitar o contágio autoritário.

Enquanto a extrema-direita se consolida, a esquerda enfrenta dificuldades. A falta de renovação de lideranças, a incapacidade de dialogar com demandas concretas como segurança e emprego, e a ausência de inclusão mais ampla de temas emergentes enfraquecem sua capacidade de conter a maré ultraconservadora. Mesmo com a relevância da figura política do presidente Lula, a esquerda carece de novas lideranças capazes de dialogar com as periferias, interior do país, além dos jovens e os trabalhadores precarizados. A sucessão não pode depender de uma única figura carismática. Para se contrapor à extrema-direita, a esquerda precisa articular suas pautas e sua comunicação com soluções para a vida cotidiana. Um projeto que una igualdade, segurança, oportunidades e respeito à diversidade pode recuperar apoio popular, tornando-se um antídoto contra o autoritarismo.

Além dos partidos, outras esferas da sociedade precisam se mobilizar. Mídias independentes, ONGs, movimentos sociais, universidades, igrejas progressistas, sindicatos e instituições como o Judiciário e o Ministério Público, além dos democratas em geral, sejam esses centristas ou os que ainda restam na direita, todos desempenham um papel-chave no fortalecimento da democracia. A tarefa fundamental será fiscalizar o poder, promover debates qualificados, garantir direitos fundamentais e construir pontes entre atores diversos, esses setores formam uma barreira contra o avanço do autoritarismo.

O Brasil encontra-se em um momento decisivo, a ascensão da extrema-direita, alimentada por valores culturais enraizados e pela tensão global, ameaça a democracia. O paralelo com os anos 30 do século passado destaca o perigo real de retrocessos institucionais e a necessidade de uma mobilização ampla e contínua para além da esquerda. Aprendendo bastante com os erros dos estadunidenses, que trouxeram de volta ao comando do seu país, um autocrata com viés fascista, que ao retornar ao poder veio ainda mais truculento e avalizado abertamente pela plutocracia local, esperemos que o Brasil fique distante desse exemplo.

O fortalecimento das instituições, o engajamento da sociedade civil, a ação de lideranças comprometidas com o diálogo e a manutenção de uma frente ampla nos diversos setores da sociedade são fundamentais para evitar a deterioração democrática. Cabe ao país decidir se abraçará soluções autoritárias e simplistas ou se, ao contrário, reforçará os alicerces de uma democracia inclusiva, plural e resiliente. Essa questão começará a ser respondida no próximo pleito eleitoral nacional.

O brasileiro de fabricação ideológica

Não basta nascer no Brasil para ser brasileiro. Aos poucos, vamos sendo outra coisa que ainda não sabemos o que exatamente é. Cada vez mais, muitos nascidos no Brasil gostariam de ter nascido em outro país. As demonstrações nesse sentido avolumam-se. Agora mesmo, nas manifestações direitistas e antipatrióticas na avenida Paulista, em favor de réus de crimes políticos contra o Brasil, muita gente abraçada à bandeira americana, a aplaudir Trump, o presidente americano que nos vê como fundo de seu quintal.

Já não somos um país verde e amarelo, apenas amarelo, com a camisa da seleção brasileira, bolsonarizada. A esfera azul é hoje uma bola de futebol. Torcemos pelo time, mas não pela pátria. Um traidor da pátria anexou-se ao quintal da Casa Branca e conspira contra a economia brasileira e contra as instituições brasileiras.


O condomínio familiar de poder que se instalou mais no Palácio da Alvorada do que no Palácio do Planalto, em governo anterior, que mais morou e mais desgovernou do que outra coisa, conspira contra o que somos. Contra aquilo que nos tornamos à custa de privações e de determinação, de vontade de vencer. O capitalismo brasileiro do nacional-desenvolvimentismo derrubado pelo golpe de Estado de 1964.

Desde que, em 1942, o imaginativo Walt Disney, depois de uma vinda ao Brasil, inventou o brasileiro ideológico, tendo como parceiro o Pato Donald, o depressivo personagem da família do Tio Patinhas, um brasileiro criado na prancheta começou a nascer. Para nos anexar nos marcos ideológicos da geopolítica que estava sendo gestada durante a Segunda Guerra Mundial, a de nova concepção de colônia e de sujeição política.

Dei-me conta disso nestes dias difíceis. Interesso-me há anos pelo familismo anômalo do milionário infértil da mítica moedinha número 1, quando publiquei num jornal de Porto Alegre “Tio Patinhas no centro do universo”. Um texto para compreender o capitalismo inacabado e inacabável da periferia do planeta. Escrito numa tarde chuvosa de sábado, correu mundo.

Trata de seres imaginários. Todos ligados por parentesco suposto e não real, seres castrados. Vinculam-se como tios e primos. Nenhum é pai ou mãe. Uma família de agregados pelo afã de dinheiro, que nunca logram obtê-lo. Num mundo em que só o trabalho cria, não trabalham. Fazem de conta.

De certo modo, nasce um modelo da nova classe média, a do consumo, já longe da classe trabalhadora que lutou pela ascensão social como justa recompensa pelo trabalho. Aquela concebida por um dos grandes empresários brasileiros, industrial, agrícola e financeiro, Antônio da Silva Prado, um pai da abolição da escravatura em 1888.

Nesse mesmo ano, no Senado do Império, fez um discurso emblemático em favor do trabalho livre. No lugar do negro caçado a laço e escravizado, o do tráfico negreiro, o imigrante do trabalho livre disposto a vir para o Brasil pela possibilidade de se tornar proprietário de sua própria terra e dono de seu próprio trabalho.

E explicava o imigrante: “Se o colono for morigerado, sóbrio e laborioso, fará pecúlio e se tornará dono de terra”.

Nessa síntese, a ética do trabalho do que deveria ser o fundamento de um capitalismo brasileiro. Não há capitalismo sem técnicas de inclusão social de quem trabalha. Não há capitalismo com exclusão social e desemprego.

John Maynard Keynes, professor em Cambridge, teorizou sobre isso em sua teoria do emprego e renda que daria origem ao Estado do bem-estar social, integrativo.

Vivi e testemunhei alguns dos benefícios dessa concepção de desenvolvimento econômico com desenvolvimento social quando fui pesquisador visitante e professor da Universidade de Cambridge. Margaret Thatcher tentou acabar com isso. A nova direita estava nascendo. Chegaria aqui, a de um capitalismo do qualquer um que só quer ganhar e não quer distribuir.

O neoliberalismo econômico criou o fascismo bolsonarista e deu-lhe a cara da dupla ideológica Zé Carioca e Pato Donald. O pato da dupla é um pato mesmo, um parvo, e o carioca é um malandro que ensina o tolo Donald a tomar cachaça.

É o que querem nos tornar como gente de segunda classe da era Trump. Bajuladores, brasileiros de faz de conta e pseudo-americanos de coisa nenhuma, tirados de casa repentinamente e despachados de volta para o Brasil todas as semanas, em aviões lotados. Brasileiros fora do lugar, sobras demográficas. Excesso de contingente.

O Estado americano não gosta de nós. Fomos amansados. Gostamos da subalternidade. Temos um lambe-botas nos fundos da Casa Branca.

Não é estranho, portanto, que haja quem vá à rua para aplaudir e bajular atos antibrasileiros de Trump contra nossa economia e nossas instituições democráticas.

Ascensão e queda dos Estados Unidos

Arnold Toynbee, em “A Study of History”, diz que as civilizações surgem através das “Elites Criativas”, que formatam o projeto de uma nação, que se dissolve à frente quando perdem a capacidade de adaptação às novas circunstâncias que se vão apresentando.

Roma nasce em 753 aC, segundo os valores da “virtude” romana, da força, da dignidade, da austeridade, e da perseverança. A República é constituída em 509 aC, com o Império a partir de 27 aC. Roma desvirtua-se na sucessão dos Césares. A partir de 180 dC, Roma se deteriora, caindo em 476 dC. Edward Gibbons, em “The History of the Decline and Fall of the Roman Empire”, diz que a pergunta não é por que Roma caiu, mas por que demorou tanto a cair. Caiu pelas Guerras Civis e a deterioração das finanças para se manter as províncias. Demorou a cair porque não havia um Império suficientemente grande em suas proximidades que o confrontasse. O Cristianismo substituiu a cultura romana, ajudando a sua dissolução. A Europa entra na Idade Média, enquanto o Império Romano do Oriente em Constantinopla, a Pérsia e a China prosperam.


Os Estados Unidos nasceram da Revolução Americana, de 1775 a 1783. Os “Pais da Nação” fundaram o país dentro dos princípios das teorias liberais de Adam Smith e outros, da liberdade que gera o consenso, e do mercado que gera a prosperidade. A partir de 1880, os Estados Unidos tornaram-se superavitários na balança de pagamentos, predominantemente negativa a partir de 2010. Durante a Segunda Guerra Mundial, o PIB dos Estados Unidos aumentou +69%; Inglaterra +15%; França -49%; Alemanha -19%; Itália -39; Japão -22%. Em 1960, o PIB dos Estados Unidos representava 40% do PIB mundial, caindo para 26% em 2024; China hoje com 17%; União Europeia 17%; países do BRICS somando 29%. Adicionalmente, os dados do World Inequality Report mostram que as classes médias têm sido comprimidas desde 1980, possibilitando o surgimento de líderes radicais de direita, na deterioração social, e no arrobo das decisões. Hoje, os Estados Unidos vão contra os fundamentos da nação, da liberdade política e da economia de mercado. que fizeram o país crescer. Decai a grande nação.

O declínio das civilizações e grandes nações é geralmente acompanhado por guerras. Como diz Maquiavel, “o homem chora mais a perda de seu patrimônio do que a morte de seu pai”. No caso do “Império Britânico”, a Inglaterra perde importantes colônias a partir de 1850; Canadá em 1867; Austrália em 1901; Nova Zelândia em 1907; África do Sul em 1910. Devido ao crescimento e expansão da Alemanha e do Império Austro-Húngaro no início dos anos de 1900, a Inglaterra e a França impõem tarifas sobre os seus produtos. A Primeira Guerra Mundial eclode em 1914 em Sarajevo. Em 1917, o Tratado de Versailles impõe multas à Alemanha que chegam a 80% de seu PIB, com a emissão de papel moeda pela Alemanha em 1922 e geração da hiperinflação. Segue-se o crescimento do Partido Nazista e a Segunda Guerra Mundial.

O problema é que hoje temos a bomba atômica.