sábado, 8 de março de 2025

Trump, Gaza e a política do espetáculo

Max Weber, em sua teoria sobre os tipos de dominação, descreveu a autoridade carismática como aquela sustentada na devoção quase religiosa a um líder. Essa forma de poder se fortalece em tempos de crise, quando um político se apresenta como um Messias, a única figura capaz de restaurar a ordem e guiar seu povo rumo à redenção. Donald Trump encarna esse modelo com perfeição: ele não se vende como um político tradicional, e sim como um salvador, alguém que os Estados Unidos — e, agora, o mundo — não podem dispensar.

Como qualquer líder carismático que se alimenta do caos, Trump prospera na tragédia. A guerra no Oriente Médio, com suas cenas de horror e destruição, tornou-se para ele mais do que um tema geopolítico; virou um trampolim para reafirmar sua imagem. Seu papel na pressão para que o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu aceitasse um acordo de cessar-fogo em troca de reféns foi relevante. Mas seu verdadeiro objetivo não é a paz — é a autopromoção, como fez ao expulsar recentemente o presidente da Ucrânia, Volodimyr Zelensky, da Casa Branca.


Enquanto o mundo ainda sente o impacto brutal dos ataques de 7 de outubro e das atrocidades cometidas pelo Hamas, incluindo o assassinato da família Bibas, celebrado por terroristas, Trump não está interessado em justiça, reparação ou soluções reais. Da mesma forma, ignora deliberadamente as violações de direitos humanos cometidas pelo governo de Netanyahu.

Desde o início da ofensiva israelense, Gaza se tornou um campo de morte. Com bombardeios sistemáticos a áreas civis, ataques a hospitais e bloqueio do fornecimento de água, eletricidade e ajuda humanitária, Israel tem sido amplamente acusado de crimes de guerra. A destruição da infraestrutura essencial não visa apenas o Hamas — ela empurra milhões de palestinos para uma crise humanitária sem precedentes. Mesmo diante de ordens da Corte Internacional de Justiça para permitir ajuda à população civil, o governo israelense segue sua campanha, resultando em mais de 46 mil mortos, segundo autoridades locais, incluindo milhares de crianças.

Mas Trump não condena esses abusos — ele os instrumentaliza. O sofrimento real de palestinos e israelenses não importa para ele. O que importa são os slogans e como a tragédia pode ser convertida em capital político.

Foi assim que surgiu seu vídeo altamente produzido por Inteligência Artificial generativa, publicado na Truth Social, promovendo uma visão fantasiosa: uma “Riviera em Gaza”. A cena é quase surreal. Uma trilha sonora épica embala imagens de praias paradisíacas, enquanto um coro canta “Trump vai te libertar”. No centro da encenação, o bilionário Elon Musk distribui notas de dólares, como um magnata benevolente, pronto para erguer um paraíso capitalista sobre os escombros da guerra.

Mas por trás do espetáculo midiático, há algo muito mais sombrio. Trump sugeriu abertamente que os palestinos deveriam deixar Gaza, uma posição que, segundo o Artigo 2 da Convenção sobre Genocídio de 1948, configura limpeza étnica. Expulsar mais de dois milhões de pessoas de suas casas não apenas viola o direito internacional, mas cria um desastre humanitário de proporções catastróficas. Para onde iriam esses refugiados? Quais seriam as implicações políticas e econômicas para os países vizinhos, já sobrecarregados com décadas de deslocamento forçado? Essas questões não interessam a Trump. Seu discurso não trata de reconstrução nem de paz — trata de marketing político.

A guerra já deixou um saldo devastador. Em Gaza, 1,8 milhão de pessoas passam fome e quase toda a população foi deslocada. Enquanto isso, 250 reféns israelenses foram sequestrados pelo Hamas, muitos submetidos à tortura — por vezes televisionada e celebrada. Enquanto Netanyahu avança com sua ofensiva indiscriminada e violações do direito internacional, Trump usa a tragédia como uma ferramenta de campanha. Ele não está preocupado com os mortos, mas com como pode transformar a guerra em um trampolim para seu próprio retorno ao poder.

Trump governa por meio da atenção que consegue atrair. Ele não precisa estar certo — ele só precisa ser o assunto. Seu modus operandi segue a lógica da “sociedade do espetáculo”, descrita por Guy Debord: uma realidade onde imagens, emoções e narrativas substituem os fatos concretos. Seu vídeo sobre Gaza é um exemplo perfeito. Um projeto absurdo, mas que gera manchetes, distrai da complexidade do conflito e, acima de tudo, mantém seu nome no centro da conversa.

E essa é a verdadeira estratégia. Criar polêmicas e jogar declarações inflamadas ao vento, sabendo que qualquer reação — crítica ou aplauso — apenas reforça sua presença no debate. Ele já fez isso antes, ao transformar crises internas em armas contra a imprensa, o judiciário e seus opositores.

E, agora, usa o Oriente Médio para se consolidar como um líder global, alguém que, na mente de seus seguidores, poderia resolver conflitos internacionais como se fossem episódios de um reality show.

Como Weber descreveu, a dominação carismática mina as instituições democráticas porque substitui o compromisso com a lei pela lealdade cega ao líder. Trump segue essa cartilha com precisão cirúrgica: desacredita a mídia, ridiculariza seus adversários, menospreza instituições e se coloca como o único capaz de salvar não apenas os Estados Unidos, mas o mundo. O problema é que essa ilusão de grandeza não se mede em votos ou likes — mede-se em vidas humanas.

sexta-feira, 7 de março de 2025

Pensamento do Dia

 


'Capitães da Areia' continua a retratar o Brasil, 88 anos depois

O livro "Sobre o Romance Social: Ideologia e Significação em Capitães da Areia", de autoria de Leandro Lima Ribeiro, mestre em Linguística e Semiótica, lançado no final de 2024, analisa a linguagem e os significados da obra Capitães da Areia, de Jorge Amado, publicada em 1937. Segundo Ribeiro, o Brasil vive uma realidade muito semelhante à década de 1930 por conta da ascensão da extrema direita. Em sua obra, Jorge Amado conta a história de um grupo de crianças que morava em um trapiche e vivia pelas ruas de Salvador. “A partir daquele contexto que a gente vivia durante a pandemia [de 2020], de muitas pessoas em situação de rua, que chegaram até mesmo a falecer, eu pensei por que não trazer Capitães da Areia para os dias de hoje e entender ele a partir dos mesmos problemas que o Jorge Amado aponta em 1930, que continuam escancarados?”, diz Leandro Ribeiro.

De acordo com o pesquisador, por muito tempo, o romance foi ignorado pelo meio acadêmico, que considerava que seu viés político-partidário era mais importante do que a estética do texto e que, por isso, era uma literatura panfletária e de baixa qualidade. Já Leandro Ribeiro explora essa linguagem que se dizia ser desimportante: “a gente, obviamente, não desconsidera a ideologia, mas a nossa preocupação é compreender a semiótica, a significação e sua importância”, explica.

A narrativa de Jorge Amado traz trechos de jornais fictícios para representar a opinião da elite de Salvador, que dizia que os garotos eram “meninos assaltantes e ladrões que infestam nossa urbe”, segundo escrito na obra. Jorge Amado produz seu romance em um sentido contrário, colocando as crianças como sujeitos políticos, em mazela e abandonados, lutando por sua sobrevivência. Logo após o lançamento de Capitães da Areia, centenas de exemplares do livro foram queimados em praça pública pela Comissão de Busca e Apreensão de Livros da ditadura do Estado Novo, acusados de serem “propagadores do credo comunista”, como publicou o Jornal da Bahia.

- Acho [Capitães da Areia] uma obra que representa bem o Brasil da década de 1930 e o de hoje. A nossa configuração atual é muito parecida, porque a gente vê uma guinada da extrema direita adentrando os espaços, essas visões retrógradas. Ninguém pode ser diferente, todo mundo tem que seguir uma agenda moral e civilizatória à risca, e o que diverge disso, é sancionado.

Leandro Ribeiro defendeu o mestrado em Semiótica e Linguística Geral em 2022, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Agora, está no programa de doutorado na mesma área e com o mesmo orientador, Antônio Vicente Pietroforte. O pesquisador estuda, atualmente, a carnavalização da linguagem.

O estudo de Leandro explora as ideias e os papéis sociais em Capitães da Areia, que se apresentam de maneira oposta ao senso comum. O conceito de liberdade das crianças, por exemplo, não está relacionado com bens materiais, mas sim com a liberdade das ruas e com o poder de se esquivar das normas sociais. O especialista chama isso de carnavalização da linguagem, “que é a ótica do reverso. As dicotomias que a nossa cultura judaico-cristã nos impõe, como bom e mal, Deus e demônio, céu e inferno, é tudo ao reverso. Não existe só céu e inferno. Por que não pensar em um terceiro termo, em um outro modo de ser?”. De acordo com o especialista, o carnaval não está apenas nas festas, mas também na cultura brasileira, nas obras e nas expressões artísticas.

Outra questão que o pesquisador apresenta é a semântica de Exu, que explica como os capitães da areia são vistos pelos outros. Exu, entidade da umbanda e orixá do candomblé, é designado socialmente como parte de uma religião inferior e, ao mesmo tempo, causa medo e é chamado de demônio. As crianças passam por um estigma semelhante: são invisibilizadas, pois estão às margens da sociedade, e são (ultra)visibilizadas, termo criado por Leandro, já que são consideradas como ameaça por essa mesma sociedade. Leandro Ribeiro acrescenta que, de certa forma, toda a população de rua, negra e periférica e, também, as pessoas LGBTQIA+ passam por essa estigmatização.

O pesquisador destaca o papel da universidade de trazer visões diferentes sobre questões que parecem certezas, mas que não são, e para solucionar questões sociais e desfazer preconceitos. “O ensino, a pesquisa e a extensão devem ser voltados para a formação de cidadãos críticos e com autonomia intelectual”, diz. Ele afirma que apenas o conhecimento é capaz de transformar a sociedade e abrir espaço para novas possibilidades.

A narrativa de Jorge Amado lida constantemente com o emocional das personagens e, portanto, do leitor. Para analisar esse aspecto, Leandro Ribeiro escolheu o Sem-Pernas, tanto por ser a personagem que mais o sensibilizou, quanto por sua história ser diferente das outras crianças. Sem-Pernas desejava ter o carinho de uma família, por mais que isso fosse contrário ao conceito de liberdade do grupo. Quando percebe que não é possível, ele cria um sentimento de ódio contra a vida, chamado de cólera. O processo é tão violento que o garoto tira a própria vida.

O ódio de Sem-Pernas se inicia no momento em que ele entende que não possui os direitos humanos básicos e começa a ter a percepção de que não é um ser humano como os outros “e, portanto, ele recorre ao único direito possível, que é o direito à morte. Eu venho da periferia e a gente sempre lembra dos nossos amigos que brincavam conosco durante a infância e que perderam a vida, se entregaram à violência, à criminalidade, às drogas. Acho que ele representa muito bem isso”, relata o pesquisador.

Um censo realizado pela prefeitura de São Paulo em 2022 registrou que há 3.759 crianças e adolescentes em situação de rua na cidade. Deles, 80% mantém vínculos familiares e está nas ruas para gerar renda e ajudar a sustentar suas famílias, diferente da história de Jorge Amado, em que os jovens são órfãos.

Questionado, Leandro Ribeiro afirma que as questões problemáticas da infância na rua que aparecem em Capitães da Areia estão sendo mascaradas, mas permanecem. O especialista explica que o romance retrata a experiência de viver nas ruas por um lado relativamente positivo, mas que há questões negativas que perduram, como a criminalidade, a prostituição, sobretudo a infantil, e o uso de drogas. “É por isso que é uma encruzilhada, porque você fica diante dela e não sabe para onde vai”, complementa Leandro. Segundo ele, “o discurso da esfera pública começa a dizer que é melhor a criança desempenhando aquele papel [de sustentar a família] do que roubando ou matando, só que o problema em si não é superado”.

Tanto fez que agora tanto faz?

“São todos iguais”, “este rouba, mas ao menos faz”, “só querem é tachos”, “é preciso dizer umas verdades”, “só quem não trabalha é que tem tudo de mão beijada, a mim nunca me deram nada”, “já não se pode dizer nada”, “isto só lá vai com um Salazar em cada esquina”, “este país não se governa nem de deixa governar”.



“É preciso estabilidade política”, “se o País não cresce, nunca vai ser possível aumentar salários”, “os portugueses não querem eleições”, “não se pode dar tudo a todos”, “é preciso chamar os técnicos, afastar os políticos”, “vamos nomear uma comissão independente, um grupo de trabalho, chamar a sociedade civil”, “ele é bom porque é independente, não veio dos partidos”.

Estas frases soam familiares? Quantas vezes as ouvimos todos já no café do bairro, na banca de hortaliças no mercado, no restaurante mais caro, na caixa de comentários do jornal ou no Twitter, numa conferência ou num estúdio de televisão, num táxi ou à porta da escola dos miúdos?

Todas estas frases, de uma maneira mais polida ou mais boçal, traduzem o mesmo sentimento: uma enorme impotência. São frases que nos dizem que não há nada a fazer, porque não há alternativa. São frases que nos põem no nosso lugar, no lugar dos que se indignam, mas não têm força para mudar nada. São frases que mostram que precisamos de um ser iluminado, de um técnico, de um especialista, de um D. Sebastião. São frases que nos dizem para desistir, porque nunca faremos a diferença. São frases de quem já nada espera ou de quem acha que a única coisa que tem a fazer é esperar.

Frases como esta andam por aí há muitos anos. Acho que as ouvi toda a minha vida e já não vou para nova. Mas cada vez se repetem mais, como um muro que se ergue à nossa frente. Elas ganham a força que nós vamos perdendo.

São frases perigosas porque, cada uma à sua maneira, ajudam a que olhemos para a democracia como um instrumento obsoleto. Ouvi, esta semana na rádio, um ouvinte desiludido sentenciar por fim: “O povo português não tem maturidade para viver em democracia”.

Eu entendo o ouvinte. Depois de muitos anos a levar com estas frases, ele conclui que faz parte de um povo que não tem as qualificações mínimas para exercer o direito à sua autodeterminação. Já não é só a democracia que tem falhas (porque as tem), somos nós que não estamos à altura dela. Somos politicamente desqualificados.

Quem já tenha lido sobre o que passou na Primeira República sabe o quanto, a dada altura, os jornais se encheram de artigos a glorificar a ditadura. E não faltam razões para o fazer.

Nada é mais estável do que uma ditadura. Sob uma ditadura, não há crises políticas nem escândalos. Não é porque não estejam uns quantos a roubar e a ser corrompidos (sabemos bem que é o regime mais corrupto de todos), mas nunca saberemos ao certo quem nem como e seguramente não seremos incomodados com notícias sobre corrupção, nepotismo e tráfico de influências. Haverá corrupção, nepotismo e tráfico de influências, mas não se escreverá uma linha sobre isso nem se abrirá um processo, a menos que os crimes tenham sido cometidos por quem já não interessa ao regime e, nesse caso, também nunca saberemos se os acusados são ou não culpados, porque também deixará de haver julgamentos justos.

Imaginem o sossego! Acabam-se as notícias sobre casos, casinhos e megaprocessos. Acabam-se mesmo as notícias. A não ser aquelas que sirvam para exaltar as virtudes do ditador e do seu regime. Uma limpeza! Acaba-se com aqueles jornalistas ofegantes e comentadores maledicentes. Ninguém faz perguntas e ninguém chateia. Claro que se formos vítimas de uma injustiça nos vai custar talvez um pouco não a poder denunciar. Mas quem se importa com isso? Temos sempre o Tik Tok e o Instagram e o X e o Facebook, que lá falamos sem filtros. Ou será que não? Será que nos podem apagar comentários, bloquear a conta, tornar-nos invisíveis manipulando o algoritmo?

Não importa. Ao menos vai tudo a eito. Limpamos o pântano. Cortamos a direito com uma motosserra. E nós, os nacionais puros, os trabalhadores, os que não temem porque não devem, teremos tudo aquilo de que precisamos. Ou será que não? Como faremos se o plafond do seguro acabar quando nos chega o cancro? Como conseguiremos viver na velhice se alguém declarar que a Segurança Social é um Esquema de Ponzi? Como estudarão os nossos filhos se os preços dos colégios dispararem por já não haver escola pública?

E isso que importa? Viverão os mais fortes. E quem são os mais fortes? Somos nós, os vencedores. Aqueles que agora vivem tolhidos pelo inconveniente da crise política, que só não ascendem aos píncaros da fortuna porque são obrigados a pagar impostos, os que têm de levar com a maçada de votar.

Que chatice que é votar. Para que é que querem saber a nossa opinião? Que esbulho que é pagar impostos! Quem é que pode achar boa ideia contribuir com uma parte do seu trabalho para que todos possam ter acesso a saúde, educação, justiça, pontes e estradas. Mas se tudo isso falha, estamos a pagar para quê? Sim, falhará alguma coisa por agora, mas podemos dizer que falha sempre? E daquela vez em que a nossa mãe foi assistida por ter um cancro? E quando precisámos de recorrer ao centro de saúde ou à escola? Bem, não interessa. Havemos de ser dos que prosperam e não precisam do Estado para nada. E se não formos, é porque somos uns falhados e merecemos morrer.

E morrer, já se sabe, tem pelo menos uma enorme vantagem: não precisamos de ir votar.

'Vamos sorrir. Sorriso'”

A citação do título é da brasileira Eunice Paiva, esposa de Rubens Paiva, deputado demitido pela ditadura militar que oprimiu o Brasil de 1964 a 1985. Ele foi retirado de casa, torturado e assassinado no quartel do Exército em 1971, mas sua família só conseguiu obter a certidão de óbito após 25 anos de dura luta. A história real de Eunice e sua família é contada no longa-metragem de Walter Salles Ainda Estou Aqui , vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional. A vitória, celebrada (quase) como a final de uma Copa do Mundo no Brasil em meio a uma catarse carnavalesca , encontra hoje cinco crianças sem o corpo do pai para enterrá-lo; para um país com um presidente de centro-esquerda encurralado pela extrema direita, em grande parte um defensor dessa mesma ditadura; Nenhum dos cinco autores identificados foi punido, uma demora que já permitiu que três deles morressem sem responder pelo crime; a corrosão mundial da democracia, que ficou explícita numa cerimónia de Óscar sem qualquer crítica contundente ao horror diário praticado por Donald Trump e Elon Musk , como se os artistas abdicassem da sua responsabilidade pública e espontaneamente colocassem uma mordaça. A covardia parece ser uma das crueldades extras do novo fascismo.

Muitos esperam que o apoio e as comemorações da vitória unam, ao menos por um momento, um Brasil profundamente dividido, onde a possibilidade de diálogo foi rompida. Mas, como Eliana Paiva, uma das filhas, relembrou em entrevistas, o filme é sobre um assassinato brutal. E de um corpo insepulto. O que aponta para muitos outros corpos não enterrados.


Ao contrário de países como a Argentina, o Brasil não processou os crimes da ditadura militar. A falta de responsabilização, que até hoje permite que torturados encontrem seus torturadores na padaria da esquina, está no DNA da extrema direita representada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro e na tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023. O premiado filme, que traz a memória a um país que optou por apagá-la, é mais um pequeno ato de resistência. “Vivemos em uma época em que a memória está sendo apagada como um projeto de poder, então criar memória é extremamente importante”, disse o diretor aos repórteres após a cerimônia.

A campanha do Oscar — e antes dela outros prêmios, como o Goya de melhor filme ibero-americano e o Globo de Ouro de melhor atriz para Fernanda Torres, que interpreta a protagonista Eunice Paiva — estourou bolhas e já levou mais de cinco milhões de brasileiros às salas de cinema. Infelizmente, isso não se traduz em mais horror contra os torturadores e assassinos, que continuam agindo contra os negros pobres nas favelas e periferias do Brasil, nas delegacias e prisões.

O filme de Walter Salles merece todos os prêmios, mas seu sucesso de público mostra que as elites brasileiras (e mundiais) ainda têm mais facilidade de se identificar com uma família branca, de classe média, com uma mãe de cinco filhos dedicada ao lar e à família. Investigações da Comissão Nacional da Verdade revelaram 434 mortos e desaparecidos, a maioria deles brancos. A ditadura exterminou pelo menos 8.000 indígenas.

Para ser eficaz, a memória não pode ser seletiva. Eunice Paiva entendeu que as desigualdades também estão presentes na esquerda progressista. Após a violência contra sua família, ela se formou em direito e trabalhou por muitos anos para proteger os povos indígenas e seus territórios na Amazônia.

“Vamos sorrir. “Sorria” é um mantra de resistência. Eunice Paiva escolheu a vida, e essa é a escolha mais revolucionária, aquela que todos devemos fazer neste momento em que a democracia e o futuro humano no planeta estão sob ataque.

A mentira como verdade

O principal canal de Donald Trump para disseminar mentiras chama-se Truth Social —Confederação da Verdade ou algo assim. É a rede social fundada por ele em 2021, destinada a disparar textos, posts e arquivos para os lorpas americanos. Mas, se a extrema direita acha que essa tática de fazer da mentira a verdade é de sua invenção, engana-se. Foi usada com grande sucesso pela União Soviética de 1917 a 1991, através de seu jornal oficial, Pravda, editado pelo Partido Comunista com a função de encobrir os crimes do Estado. Pravda, em português, quer dizer verdade.

Em "1984", romance de George Orwell, a mentira era também a especialidade do Ministério da Verdade, órgão dedicado a "corrigir" periodicamente a história, falsificando informações e convertendo antigos heróis em inimigos do regime. Seu slogan era "Quem controla o passado controla o futuro. Quem controla o presente controla o passado". Seu modelo era o mesmo Pravda, que apagava das fotos os velhos revolucionários que tinham se voltado contra Stalin.

Outra tática dos comunistas era inverter o sentido de certas palavras. Os países-satélites da URSS no Leste Europeu, tristes ditaduras subjugadas a Moscou, eram chamados de repúblicas "populares" ou "democráticas". O povo a que elas se referiam era o Comitê Central do Partido Comunista local, que supostamente o representava. Da mesma forma, na Alemanha, o nazismo era uma abreviatura de "nacional-socialismo". Não tinha nada de socialista, mas a palavra ajudou-o a consolidar-se.

Corromper palavras é típico dos autoritários de qualquer cor política. Bolsonaro e seus esbirros, adeptos da ditadura militar que asfixiou o Brasil por 21 anos, têm o cinismo de gritar por "liberdade de expressão" —liberdade que querem usar justamente para suprimi-la se voltarem ao poder. É o mesmo cinismo com que dizem "o Brasil acima de tudo" enquanto municiam Trump para afrontar a soberania brasileira.

O perigo não está só na mentira, mas, pior ainda, na mentira como verdade.

quarta-feira, 5 de março de 2025

Pensamento do Dia

 


A implosão da mentira

Mentiram-me.
Mentiram-me ontem e hoje mentem novamente.
Mentem de corpo e alma completamente.
E mentem de maneira tão pungente
que acho que mentem sinceramente.

Mentem sobretudo impunemente.
Não mentem tristes,
alegremente mentem.
Mentem tão nacionalmente
que acho que mentindo história a fora
vão enganar a morte eternamente.

Mentem, mentem e calam
mas nas frases falam e desfilam de tal modo nuas
que mesmo o cego pode ver a verdade em trapos pelas ruas.
Sei que a verdade é difícil e para alguns é cara e escura,
mas não se chega à verdade pela mentira
nem à democracia pela ditadura.

Evidentemente crer que uma flor nasceu em Hiroshima
e em Auschwitz havia um circo permanentemente.

Mentem, mentem caricaturalmente,
mentem como a careca mente ao pente,
mentem como a dentadura mente ao dente
mentem como a carroça à besta em frente,
mentem como a doença ao doente,
mentem como o espelho transparente
mentem deslavadamente como nenhuma lavadeira mente ao ver a
nódoa sobre o rio
mentem com a cara limpa e na mão o sangue quente,
mentem ardentemente como doente nos seus instantes de febre,
mentem fabulosamente como o caçador que quer passar gato por
lebre

e nessa pilha de mentiras a caça é que caça o caçador
e assim cada qual mente indubitavelmente.

Mentem partidariamente,
mentem incrivelmente,
mentem tropicalmente,
mentem hereditariamente,
mentem, mentem e de tanto mentir tão bravamente
constroem um país de mentiras diariamente.
Affonso Romano de Sant’Anna

O sueco

Os problemas do Brasil, as mesquinharias de nossa vida pública, a miséria fundamental de nosso povo, todas essas coisas de repente cansam e desanimam uma pessoa sensível. Evandro Pequeno encontrou uma solução: “Eu sou um sueco em trânsito.”

Não saber de nada, não entender uma palavra do que estão dizendo e escrevendo por aí, não ter nada a ver com nada, não se sentir responsável por nada (muito menos pela famosa dívida externa), não ter vergonha de nada: ser um sueco em trânsito.

E, se possível, como Evandro fazia, tocar fagote.

Rubem Braga, "Recado de primavera"

O que Orwell pensaria da briga de Trump e Zelenski?

Quem leu "1984", de George Orwell, lembra-se do ambiente de permanente vigilância e opressão, do medo e da lavagem cerebral, da novilíngua e do Grande Irmão. Mas em geral esquece a lição de geopolítica que o romance encerra.

Em "1984" há três blocos. O primeiro, dominado pelos Estados Unidos da América, é a Oceânia, e inclui todas as Américas mas também as Ilhas Britânicas. O segundo bloco é a Eurásia, dominado pela União Soviética e que vai, como o ex-presidente Dmitri Medvedev gosta tanto de dizer ainda hoje, de Lisboa a Vladivostok. O terceiro é a Lestásia, e é dominado pela China, incluindo o Extremo Oriente e parte do Sudeste Asiático.

Donald Trump não leu "1984". Mas o mundo de que ele gosta é quase igual ao do romance. Há três potências que têm supersoberania: ele, Vladimir Putin e Xi Jinping. Os outros que se adaptem. As redes sociais, os algoritmos e a inteligência artificial tratam da hipervigilância. E a democracia dissolve-se num permanente espetáculo narcísico.

Foi em 1948 que George Orwell escreveu "1984" (o título é uma mera inversão do ano em que estava). O romance foi o seu diagnóstico de pesadelo para o mundo que antevia antes de morrer, no ano seguinte. Mas também em 1948 Orwell escreveu um ensaio político, que quase ninguém leu, no qual expunha o seu otimismo da vontade em relação à alternativa política ao mundo que temia.

Esse ensaio tinha por título "Sobre a Unidade Europeia" e desenhava a proposta de uma federação continental, com um forte viés socialista democrático, uma sociedade pluralista e de bem-estar que assegurava a sua independência por meio da integração de países médios e pequenos. A construção da unidade europeia era a forma de evitar o esmagamento do continente entre o imperialismo do Kremlin e o da Casa Branca, que acabaram por dividir a Europa a meio.

Pergunto-me como teria Orwell visto aquele vergonhoso momento de agressão verbal de Trump e seu vice, J. D. Vance, a Volodimir Zelenski, no Salão Oval, na semana passada. Por um lado, creio que não teria ficado surpreendido, ele que uma vez escreveu que "se quereis uma visão do futuro, basta imaginar a imagem de uma bota a pisar um rosto humano, para sempre".

Ele entenderia que a brutalidade para o novo fascismo do século 21, tal como para o original do século 20, é uma parte essencial da natureza política do movimento, não apenas um subproduto.

Por outro lado, Orwell ficaria ainda mais assustado, porque o que está em cima da mesa agora não é Trump e Putin dividirem a Europa a meio, mas partilharem-na entre si. E ficaria ainda mais preocupado porque os instrumentos tecnológicos de vigilância que existem hoje são ainda mais perigosos do que aqueles que ele imaginou para o seu romance.

Perante isso, o que fazer? O episódio do Salão Oval teve ao menos a vantagem de deixar claro perante os europeus que a sua unidade não é apenas uma ideia bonita, mas uma necessidade prática.

Os desafios atuais transcendem as fronteiras da Europa. Faz sentido hoje reinventar o mundo livre, e incluir todas as democracias que ainda não soçobraram, para reformar as Nações Unidas e refazer a globalização. Para grandes males, grandes remédios.

Trump abandonar Ucrânia evoca pacto de 1938 com nazistas

"Não posso deixar de me perguntar: já estivemos aqui antes? Tchecoslováquia, 1938. Temos um agressor às nossas portas, com a intenção de tomar território que não é dele. E os negociadores [...] já estão entregando suas fichas de barganha antes mesmo de as negociações começarem. Essa é uma tática desastrosa. E estamos caminhando a toda velocidade para o desastre."

Essas observações foram feitas em fevereiro por Kaja Kallas, ex-premiê da Estônia e atual alta representante da União Europeia para Exterior e Segurança, durante a Conferência de Segurança de Munique.

O local do discurso não poderia ser mais simbólico: a poucas centenas de metros do prédio no qual, há 86 anos, líderes da França e do Império Britânico assinaram o Acordo de Munique, que marcou o clímax da política de apaziguamento dos anos 1930, quando potências ocidentais concordaram em ceder a ambições territoriais da Alemanha nazista na esperança de que isso serviria para evitar um novo conflito mundial.

Como parte do acordo, em 1938, líderes franceses e britânicos decidiram abandonar aos nazistas a antiga Tchecoslováquia (hoje dividida entre República Tcheca e Eslováquia), permitindo que o regime de Adolf Hitler anexasse, sem luta, parte considerável do país da Europa Central. Em nenhum momento os tchecoslovacos foram ouvidos, enquanto as potências da época decidiam seu destino.

No entanto, longe de satisfazer os nazistas, o acordo foi rapidamente rasgado por Hitler, que, bastante reforçado pelo domínio do novo território, anexou o restante da Tchecoslováquia e depois voltou seus olhos para a Polônia, dando início à Segunda Guerra Mundial. Entre os tchecos, o acordo ficou conhecido como "A traição de Munique". E para vários líderes se tornou um paradigma de que a política de apaziguamento, quando aplicada a regimes expansionistas e agressivos, está fadada ao fracasso.

"Como historiador e político, a única coisa que posso dizer hoje é: Munique nunca mais”, disse o premiê polonês Donald Tusk, na mesma conferência em fevereiro de 2025, ecoando a visão da estoniana Kallas.

Os dois políticos do Leste Europeu não estavam apenas citando um acordo que é considerado um dos maiores desastres da história da diplomacia, mas também manifestando temor de que a história possa se repetir agora com a Ucrânia, há três anos está sob ataque da Rússia sob Vladimir Putin.


Tusk e Kallas evitaram mencionar nomes, mas entre os participantes da conferência estava claro que o temor era que os EUA, desde janeiro novamente sob o comando de Donald Trump, reencenassem o papel dos britânicos e franceses em 1938, abandonando os ucranianos frente aos russos.

E, ao longo de fevereiro, o temor entre os europeus apenas foi reforçado. Trump revelou que havia começado a conversar diretamente com Putin, e negociadores americanos e russos se reuniram na Arábia Saudita para falar sobre a guerra – os ucranianos e seus aliados na Europa não foram convidados.

Em seguida, Trump declarou que não achava "importante” que o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, participasse das negociações, e começou a condicionar a continuidade da ajuda militar e financeira dos EUA aos ucranianos à assinatura de um bilionário acordo de exploração mineral, classificado por alguns analistas como uma "extorsão”. Posteriormente, chamou o líder ucraniano de "ditador" e fez elogios a Putin.

A virada na posição americana ficou mais clara quando representantes do governo Trump começaram a falar abertamente em pressionar os ucranianos a fazerem concessões territoriais ao Kremlin para pôr fim ao conflito – atualmente, os russos ocupam 20% do território ucraniano.

"Esta guerra precisa acabar e isso exigirá concessões territoriais", pontificou Mike Waltz, conselheiro de Segurança Nacional da Casa Branca, nesta segunda-feira (03/03), horas antes de a Casa Branca suspender novos pacotes de ajuda aos ucranianos. Ao mesmo tempo, acrescentou que "isso exigirá concessões russas em termos de garantias de segurança".

No entanto, como lembram historiadores, Hitler também ofereceu em 1938 ao então premiê britânico Neville Chamberlain garantias semelhantes de que se contentaria com uma fatia da Tchecoslováquia, antes de ocupar completamente o país e direcionar suas tropas para outros alvos.

"Em comparação com as concessões de Donald Trump a Vladimir Putin, até mesmo a política fatal de apaziguamento de Neville Chamberlain em relação a Hitler parece um realismo corajoso e baseado em princípios. Afinal de contas, Chamberlain, então primeiro-ministro britânico, estava tentando evitar uma grande guerra na Europa. A manobra de Trump, por outro lado, ocorre quando a guerra já está em andamento”, apontou o historiador britânico Timothy Garton Ash, em artigo publicado no semanário alemão Die Zeit.

Entre 1933 e 1938, o regime nazista de Adolf Hitler adotou uma política rearmamento e de violação de tratados assinados pela Alemanha na esteira da derrota na Primeira Guerra Mundial. Vários desses passos, como a remilitarização da região ocidental alemã da Renânia em 1936, e a anexação da vizinha Áustria em 1938, provocaram pouca comoção entre a França e o Império Britânico.

Na segunda metade de 1938, Hitler começou a voltar suas atenções para a região montanhosa dos Sudetos, uma fatia da Tchecoslováquia com 3 milhões de habitantes, na maioria de etnia alemã, e que representava 25% do território do país. Sob Hitler, que via a Tchecoslováquia como um estado "artificial" e "fraudulento", a propaganda nazista começou a inundar a Alemanha, denunciando que os alemães dos Sudetos estavam supostamente sofrendo atrocidades nas mãos dos eslavos tchecoslovacos. Os nazistas então começaram a deslocar tropas para a fronteira.

Criada em 1918, após o colapso do Império Austro-Húngaro, a Tchecoslováquia era oficialmente aliada da França e possuía relações amistosas com os britânicos. E a região dos Sudetos, que estava na mira de Hitler, era peça primordial da estratégia de defesa tchecoslovaca, possuindo uma rede reforçada de fortalezas e bunkers. O país possuía ainda um dos parques industriais mais formidáveis da Europa.

No entanto, franceses e britânicos decidiram não agir para defender a Tchecoslováquia. Diante das ameaças de Hitler, o então premiê britânico Neville Chamberlain solicitou uma reunião com o ditador, na esperança de que se encontrasse uma solução diplomática para evitar a guerra. Uma série de encontros entre ambos se sucedeu em setembro de 1939.

Historiadores apontam que Chamberlain era motivado tanto pelo trauma da participação britânica na Primeira Guerra Mundial, quando seu país perdeu mais de 800 mil soldados, quanto pelo temor de que suas tropas ainda não estivessem prontas para um novo conflito.

Os encontros culminaram numa reunião final em Munique, na Baviera, com a assinatura de um acordo entre a Alemanha nazista, a Itália fascista, a França e o Império Britânico. Em troca de garantias de paz, Hitler recebeu sinal verde para anexar os Sudetos.

Em nenhum momento das negociações os tchecoslovacos foram ouvidos. O mesmo ocorreu com a União Soviética, que à época também era aliada da Tchecoslováquia. "Sobre a gente, sem a gente”, dizia sobre Munique um slogan tchecoslovaco da época. Chamberlain voltou a Londres no fim de setembro de 1938 afirmando que o acordo garantia a "paz para o nosso tempo".

Houve alívio no Império Britânico e na França de que os países teriam evitado se envolver numa guerra, mas também surgiram críticas. As principais vieram de Winston Churchill, que viria a suceder a Chamberlain como premiê em 1940, quando- resumiria a política de apaziguamento como um homem que "alimenta um crocodilo” na esperança de que o animal "vá comê-lo por último".

Apesar do discurso triunfal de Chamberlain, seria uma questão de poucos meses para os nazistas rasgarem completamente o acordo. Horas após a assinatura, o próprio Hitler manifestou ao seu círculo próximo que aquela seria a última vez em que aceitaria participar desse tipo de conferência, e repetidamente expressou desprezo pelos esforços franco-britânicos.

"Nossos inimigos são homens abaixo da média, não são homens de ação, não são mestres. Eles são pequenos vermes. Eu os vi em Munique", disse o ditador nazista em 1939 a um grupo de generais.

No fim da primeira quinzena de março de 1939, meros cinco meses após a conferência, Hitler enterrou qualquer ilusão de que pretendia garantir o restante da integridade da Tchecoslováquia, ao convocar o então presidente, Emil Hácha, e forçá-lo, num encontro marcado por ameaças e intensa pressão, a aceitar a ocupação do restante do território.

Sem as fortificações dos Sudetos e abandonado pelas potências ocidentais, Hácha capitulou. As tropas nazistas ocuparam sem luta o território em 16 de março. Boa parte do país foi renomeado "Protetorado da Boêmia e da Morávia”, enquanto a fatia eslovaca foi transformada num estado-cliente da Alemanha nazista e confiada a um grupo de fascistas-católicos eslovacos.

Pouco menos de seis meses depois, em setembro, Hitler, sem precisar se preocupar com uma ameaça militar da Tchecoslováquia e com seu exército reforçado por armamentos produzidos pela indústria pesada do novo território anexado, voltou seus olhos para a Polônia, ordenando a invasão do país. Desta vez, no entanto, a França e o Império Britânico reagiram. Era o início da Segunda Guerra Mundial, que só terminaria em 1945, deixando mais de 50 milhões de mortos.

Mais de 80 anos depois do Pacto de Munique, o historiador americano Timothy Snyder apontou que, se a Tchecoslováquia tivesse resistido em 1938 e recebido assistência dos franceses e britânicos, o século 20 teria sido bem diferente.

"Se os tchecos resistissem, e os franceses, os britânicos e talvez os americanos começassem a ajudar, haveria um conflito, mas não haveria uma Segunda Guerra Mundial”, disse o historiador em entrevista ao jornal The Guardian em 2024. "Em vez disso, quando a Alemanha invadiu a Polônia em 1939, ela estava invadindo a Polônia com a indústria de armamentos tcheca, que era a melhor do mundo. Estava invadindo com soldados eslovacos. Estava invadindo a partir de uma posição geográfica que só conquistara por haver destruído a Tchecoslováquia.”

Snyder traçou ainda paralelos com a situação atual da Ucrânia: "Se os ucranianos desistirem, ou se nós desistirmos da Ucrânia, então será a Rússia fazendo guerra no futuro. Será a Rússia fazendo guerra com tecnologia ucraniana, numa posição geográfica diferente. Nesse ponto, estaremos em 1939. [Mas] estamos em 1938 agora. Na verdade, o que os ucranianos estão nos permitindo fazer é estender 1938."

Oscar 2025: Meio século numa noite

Entre a noite em que Walter Salles recebeu o Oscar, em Los Angeles, e o dia, no Rio de Janeiro, em que Rubens Paiva foi sequestrado pela ditadura militar do seio da sua família, passaram-se 54 anos, um mês e dez dias. Nesse tempo, Eunice e seus cinco filhos enfrentaram tudo à espera do corpo que não veio. Hoje o país está imerso nessa história como se ela tivesse acontecido ontem. Não esquecer foi a grande virtude do Brasil. Tornar a história conhecida do mundo foi o maior prêmio que o filme deu a nós e à democracia brasileira. A estatueta de “Ainda estou aqui” chega no momento exato em que precisamos dela.


Assisti à cerimônia do Oscar com minhas netas mais novas, Manuela, 13, e Isabel, 11. Quando Rubens Paiva morreu, o pai delas, Vladimir, não havia nascido. Elas viram o filme, falam com intimidade sobre Eunice, Rubens e seus filhos, como se os conhecessem. O fio que trouxe a história até nós foi tecido, primeiramente, pelas mãos de Eunice. Depois, pela literatura de Marcelo Rubens Paiva. Por fim, pelo cinema brasileiro. Mais de cinco milhões de pessoas viram o filme, incontáveis famílias conversaram sobre esse tema nos seus encontros. Isso não é pouco num país em que o desmonte da memória é uma estratégia para escapar dos temas incômodos.

Depois do seu breve e discreto discurso, em que jogou luz sobre Eunice e as Fernandas, Walter Salles, na sala de imprensa, alertou para a fragilidade da democracia, “tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos”. E foi ao ponto central. “Vivemos um momento em que a memória está sendo apagada, como um projeto de poder, então criar memória é extremamente importante.”

Fernanda Torres não ganhou o Oscar de melhor atriz e, das seis indicadas, ela é a melhor. A história exigia uma interpretação com sensibilidade e maestria técnica. Ela construiu a personagem com delicadeza. Neste tempo em que acompanhou a caravana “Ainda Estou Aqui” até o palco do Dolby Theater, o Brasil esteve em diálogo constante com Fernanda Torres. Ela conta que a mãe, a monumental Fernanda Montenegro, a orientou sobre como interpretar tragédias gregas. Com mais intensidade do que desespero, porque o sofrimento será longo. Foi o que ela fez na sua Eunice. “É uma família normal, mas enfrentando algo como Antígona, algo do tamanho de um destino grego, uma tragédia grega”, disse ela em uma de suas entrevistas.

Fernanda Torres volta ao Brasil coberta de glória após ter sido, como ela definiu, “abduzida por uma nave espacial para uma realidade paralela”. Ela fez por merecer nosso amor. Moveu-se no palco do mundo com uma naturalidade que nos orgulhou. Não se deslumbrou, não esqueceu a personagem e sempre lembrou do seu país. Numa de suas melhores entrevistas, disse que o Brasil tem pena de que o mundo não nos conheça. Nas ruas desse carnaval, o espírito lúdico e irreverente usou a Fernanda Torres como seu principal motivo para brincar.

Isso não conflita com a carga emocional da história contada no filme. Foram muitos os mortos e desaparecidos durante a ditadura militar. Ulysses Guimarães, no momento constituinte da democracia, escolheu Rubens Paiva como o símbolo da sociedade que venceu os facínoras.

A Lei da Anistia pela qual Eunice lutou nos trouxe de volta quem fazia falta ao país, mas foi envenenada pela imposição da impunidade dos criminosos. A luta pelo direito dos povos indígenas ganhou musculatura com a sua militância jurídica e política, mas requer cada vez mais vigilância.

“O nome dela é Eunice Paiva”, disse Walter Salles ao receber o prêmio visto por um bilhão de pessoas. Como é forte essa história. O marido é preso e seu corpo desaparece por ação do governo. Eunice volta para a faculdade, se forma em Direito, educa os filhos, se une às lutas do seu povo, espera 25 anos por uma certidão de óbito, mantém acesa para o país a memória do marido até que a sua memória se esvai. Seu filho, atingido por um acidente que o deixa numa cadeira de rodas, resgata toda a história com a sua envolvente literatura. O cinema brasileiro leva o drama às telas no exato momento em que o horror volta a rondar o país. Selton Mello, que dá vida ao personagem cujo corpo foi sonegado à família — de novo a tragédia grega nos lembra do direito sagrado de as famílias enterrarem seus mortos — disse que entendeu nessa caminhada que o filme era o “corpo de Rubens Paiva”. Como disse Fernanda Torres ao receber o Globo de Ouro: “Que história, Walter!”.

Nação, Democracia e uma certa ideia de refúgio

Há uma frase atribuída ao escritor inglês Samuel Johnson, nascido no início do século XVIII, que correu mundo, sendo citada até por Vladimir Lenin, o líder da Revolução Russa de 1917. Ela diz o seguinte: "O nacionalismo é o último refúgio dos calhordas". Ou seja, o ditador manda matar, manda torturar, desdenha as instituições, rouba ou deixa roubar, mas é um nacionalista. Está desculpado. Ama o seu país e ponto final.

Mas… de que nação estamos mesmo falando? De uma nação sem povo, só com hino e bandeira, muito provavelmente. Aí reside justamente a calhordice. Vários ditadores apelaram para essa fórmula, uma espécie de "mata, mas ama". Benito Mussolini, Juan Perón, Muammar Gaddafi são alguns desses ditadores. Quase todos acabaram mal. A vida deu o troco. Alguns políticos de várias partes do mundo pegaram carona nessa fórmula, com uma certa adaptação. Ou seja, procedem chantageando a população, querendo fazer crer que a polarização é inerente a toda e qualquer situação eleitoral e que, se ele, o bem-aventurado, perder as eleições, o seu amado país vai mergulhar nas trevas. Ou de uma forma menos metafórica: resvalar para uma ditadura, pura e simplesmente. Trata-se de uma atualização ou até "enriquecimento" da frase do pensador inglês, que poderia ficar assim: "a Democracia como último refúgio dos calhordas". Democracia nenhuma merece.


Estamos diante de uma espécie de etapa superior da calhordice. Não há vida útil sem o nosso herói e não dá para imaginá-lo fora do poder. E os calhordas têm uma atração toda especial pelo poder.

Quem procede dessa maneira geralmente não possui projeto algum, além da sua própria perpetuação nas esferas de dominação.

Triste, mas real. Quem perde com isso é a Democracia, que vive de alternância, seriedade e transparência. Toda vez que a polarização se instala, aumenta - aí sim - o risco de aventuras autoritárias. Estamos vendo isso em muitos lugares. Todo cuidado é pouco. 
Ivan Alves Filho

O legítimo herdeiro de Bolsonaro saúda o povo e pede passagem

É por isso que Bolsonaro cogita lançá-lo candidato a presidente da República no próximo ano, uma vez que poderá estar preso e impedido de concorrer. Afinal, quem puxa aos seus não degenera, embora já possa ter nascido degenerado.

Tarcísio de Freitas (Republicanos), militar e engenheiro por formação, costuma usar as redes sociais para comemorar feitos de brasileiros em competições internacionais. Do tenista João Fonseca, campeão do ATP de Buenos Aires, ele disse:

“É mais um talento brasileiro despontando para o mundo, carregando as cores da nossa bandeira”.

Durante as últimas Olimpíadas, a ginasta Rebeca Andrade e a judoca Beatriz Souza, ambas medalhistas de ouro, também foram homenageadas por Tarcísio, que ontem parabenizou a escola de samba Rosas de Ouro, campeã do carnaval paulistano.


Mas sobre o primeiro Oscar conquistado pelo Brasil com o filme “Ainda estou aqui”, que conta a história do desaparecimento do ex-deputado Rubem Paiva à época da ditadura militar de 64, não se leu nem se ouviu até aqui uma única palavra de Tarcísio.

O mesmo comportamento tiveram outros governadores bolsonaristas, como Romeu Zema (Novo), de Minas, Ratinho Júnior (PSD), do Paraná, e Jorginho Melo (PL) de Santa Catarina. Ronaldo Caiado (União Brasil), de Goiás, aplaudiu o o filme.

Os bolsonaristas de destaque silenciaram ou só abriram a boca para criticar o filme. Bolsonaro sempre defendeu a ditadura militar e, quando deputado federal, mantinha em seu gabinete uma foto do torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra, de triste memória.

Brilhante Ustra foi comandante do DOI-CODI do Exército em São Paulo, onde morreram debaixo de pancadas diversos oponentes da ditadura. Ao dar seu voto pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT), Bolsonaro invocou Brilhante Ustra.

O legítimo herdeiro de Bolsonaro, porém, não titubeou em criticar o filme, e foi além. Atacou duramente Eunice, a viúva de Rubens Paiva, símbolo da resistência democrática ao regime militar, e ameaçou o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal.

Em linha com o pensamento do pai e desconectado com a verdade, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), o Zero Três, devoto confesso de Donald Trump, escreveu nas redes sociais:

“Insurgir-se contra uma ditadura inexistente é fácil, rende bastante bajulação da ‘elite’ plutocrata, superficial e niilista. Difícil é ter coragem para se insurgir contra a ditadura real, que está por aí prendendo mães de família, idosos e trabalhadores inocentes. Ah…, isso exige fibra moral e coragem para arcar com os altos custos envolvidos”.

E acrescentou, pomposo e arrogante, como se falasse para a História:

“Esse silêncio, de vocês, cúmplices, não será quebrado. Mas o nosso, com toda firmeza moral, eu quebro, estou disposto a arcar com esse custo: Alexandre de Moraes, iremos punir você. Acredite, você irá pagar por toda maldade que cometeu, custe o que custar”.

O pai deve ter babado de satisfação com o garoto que, no passado, quis ser embaixador do Brasil em Washington, e que agora poderá sucedê-lo como líder da extrema-direita.

terça-feira, 4 de março de 2025

Pensamento do Dia

 


Melhor ser 'fraca'

Costuma dizer-se que as democracias são frágeis. Mas ainda bem que são, porque fortes são as ditaduras!
Bruno Vieira Amara

'O Conto da Aia': 40 anos da distopia de Margaret Atwood

Em 1985, Margaret Eleanor Atwood publicava O Conto da Aia (Handmaid’s Tale) no Canadá, pela Editora McClelland and Stewart – distopia que receberia diversos prêmios literários de relevo internacional nos anos seguintes. Não será por mera coincidência que em março deste ano (2025), a série homônima televisiva levará ao ar a sexta e última temporada da história protagonizada por June Osborne.

Para quem não está familiarizado com o enredo do romance, a elite de Gilead (vasto território localizado em partes dos outrora Estados Unidos) submete um grupo de mulheres à condição de gerar filhos para casais de Comandantes e Esposas. As Aias são coagidas mediante variadas formas de violência: física, emocional e psicológica. Na residência de cada família, encontram-se as Marthas (a dar conta do inesgotável trabalho doméstico) e os Guardiões (que servem especialmente aos mandos e desmandos dos Comandantes).

Como o topônimo sugere, a vida em Gilead é pautada pelas escrituras (o nome do território remete ao Gênesis). Estruturado de modo rigorosamente hierárquico, esse regime patriarcal e fundamentalista conta com a severa cumplicidade das Esposas e a tirânica intervenção das Tias (instrutoras/supervisoras que, aparentemente, ensinam como as Aias devem se portar, ao frequentar tais propriedades) e Olhos (observadores cuja função é reportar desvios de conduta aos Comandantes). Destituídas de sua antiga identificação civil, as Aias são chamadas pelo nome do Comandante a que estão subordinadas. Para citar apenas um exemplo, Offred nomeia uma Aia pertencente a Fred = Of Fred, de Fred.

O que está por detrás dessa história que evoca o período inquisitorial? Como a escritora reconheceu em mais de uma ocasião, o desejo de produzir ficção deve seu tanto a obras literárias que leu e releu desde a infância: O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë (1847); Nós, de Evgéni Zamiátin (1924); Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley (1932); O Zero e o Infinito, de Arthur Koestler (1940); A Revolução dos Bichos e 1984, de George Orwell (publicados respectivamente em 1945 e 1949), entre outros. Graças à coletânea Alvos em Movimento (traduzida e lançada no Brasil em 2023), que reúne vários textos críticos da autora, essas e outras informações estão ao alcance do público leitor interessado.

Comparado às distopias de Huxley e Koestler, Atwood supõe que o romance 1984 lhe “pareceu mais realista, provavelmente porque Winston Smith era mais parecido” com ela – tanto por conta de seus atributos físicos, quanto pelo fato de o protagonista sobreviver “em conflito com as ideias e o estilo de vida proposto para ele” e, dentre outras ações, “escrever seus pensamentos proibidos em um caderno em branco e secreto, deliciosamente tentador”.

De algum modo, as obras de George Orwell acompanharam Margaret Atwood ao longo da vida, pois, ele “passou a ser um modelo direto” para a escritora “no verdadeiro 1984”, ano em que ela começou a redigir o próprio romance, narrado por June. A autora desejava “escrever uma distopia da perspectiva feminina – o mundo segundo Julia, por assim dizer. Mas isso não faz de O Conto da Aia uma ‘distopia feminista’.” A despeito da diferença de enfoque, Atwood ressalta diversos paralelos entre 1984 e O Conto da Aia, tanto por conta dos regimes totalitários, quanto pela perversa utilização da linguagem por reduzidos grupos formados por sujeitos megapoderosos (quase todos hipócritas).

Um dos excertos mais reveladores do drama por vir se encontra no terceiro capítulo da segunda parte (“Compras”). Nele, Offred descreve a parte externa da residência dos Waterford: “O jardim é o domínio da Esposa do Comandante. Olhando para fora por minha janela com vidro inquebrável, com frequência a vejo nele, os joelhos sobre uma almofada, um véu azul atirado sobre as abas largas do chapéu de jardineiro, uma cesta ao lado com podadeiras e pedaços de barbante para amarrar as flores no lugar. Um Guardião destacado para servir o Comandante faz o trabalho pesado de cavar, a Esposa do Comandante dá instruções, apontando com sua bengala”.

Afora a simbologia das cores (Aias usam vermelho; Esposas vestem azul), o fato de as Esposas manterem as “flores no lugar” parece aludir à condição das próprias Aias, cuja indumentária (em branco e vermelho) leva a protagonista a associá-las a tulipas. Dentro ou fora da residência dos Waterford, o clima é de opressão quase absoluta. Na ausência do Comandante – que passa a maior parte do tempo fora de casa devido a compromissos políticos –, o regime doutrinário de Gilead repercute com desmedida violência sob a batuta de Serena Joy.

A questão é que, antes mesmo de integrarem a casa de uma família, as Aias passam maus bocados no Centro Raquel e Lia, liderado com mãos de ferro pela Tia Lydia. Após o “treinamento” das Aias, a residência para onde elas são levadas se revela como um ambiente igualmente inóspito, onde as Esposas reproduzem o autoritarismo de seus maridos. Nem mesmo as saídas diárias para fazer compras oferecem maior sensação de liberdade, pois as Aias percorrem o trajeto em duplas, de maneira que uma vigie as palavras, os gestos e as atitudes da outra.

Por esses e outros motivos, O Conto da Aia ultrapassa em muito o que se espera da chamada “literatura de entretenimento”. Como sugere a autora, trata-se de uma “ficção especulativa” que estimula a reflexão e, em certa medida, alerta-nos sobre a propagação de pseudoargumentos extremistas empunhados por homens e mulheres de suposta boa-fé. Feito o lembrete, suspendo a palavra e reforço o convite para que os leitores experienciem a poderosa distopia de Margaret Atwood.

A nossa metade não humana

Cerca de metade das células do nosso corpo não são humanas. Pertencem a bactérias, fungos, vírus e outros seres invisíveis aos nossos olhos — o microbioma.

Desconfio que a melhor parte de alguns humanos é a sua metade não humana. Outros talvez não sejam bons (ou felizes) porque têm um mau microbioma. O microbioma influencia o nosso comportamento através do eixo intestino-cérebro. Certas bactérias intestinais produzem dopamina, serotonina e outras substâncias que ajudam a regular o humor e a ansiedade. Um microbioma desequilibrado pode provocar situações de ansiedade e depressão. No limite, até doenças neurodegenerativas.



A cada avanço do conhecimento, a arrogância humana recua — ou deveria recuar. Não somos o centro do Universo. Somos parte dele. Não estamos apartados da natureza. Somos a natureza. Não somos uma forma de vida superior. Somos a conjunção harmoniosa de inumeráveis formas de vida.

Os avanços da ciência parecem confirmar o que muitas filosofias antigas já sugeriam. Por exemplo, que a ideia do eu é falsa, uma teimosa ilusão — algo defendido desde há longos séculos pelo budismo.

O animismo — essa cosmogonia ou visão do mundo, desenvolvida por povos indígenas em diferentes regiões do planeta, da África às Américas, passando pela Austrália — também defende a ideia de que o ser humano é um organismo coletivo, uma comunidade, uma constelação de vidas. Mais uma vez se comprova a extraordinária atualidade de muitas culturas consideradas arcaicas, que, durante séculos, a “modernidade ocidental” desprezou e humilhou.

Se alguns dos nossos estados emocionais, e até eventuais decisões, resultam da atividade de vírus e bactérias, organizados em vastas e complexas redes, então somos menos seres individuais e muito mais um produto do diálogo e da interação. O que nos define não é tanto uma identidade única, uma alma singular, mas sim a relação dinâmica entre múltiplas forças biológicas, sociais e ambientais. Admitindo que a nossa identidade pode ser moldada por uma infinidade de minúsculas criaturas, isso significa que é fluida — ou seja, estamos, a cada instante, nos tornando outros.

Não sou hoje quem fui ontem, nem serei amanhã quem sou agora, porque o meu microbioma mudou, o meu corpo mudou, as minhas conexões e experiências mudaram. Além disso, a minha capacidade para apreender a realidade também vai mudando.

Esta ideia parece-me mais libertadora do que assustadora. Em vez de nos agarrarmos a uma identidade fixa, imutável, seríamos mais felizes se fôssemos capazes de aceitar que a mudança é parte essencial do que significa ser humano — ser vivo. Assim como o microbioma, a identidade é um equilíbrio dinâmico, um jogo festivo entre diferentes formas de experimentar a vida. A identidade faz-se caminhando. Somos seres em mutação.

Fernando Pessoa ficaria feliz com esta conclusão. “Sou mais variado que uma multidão de acaso”, escreveu o poeta: “Sou mais diverso que o universo espontâneo,/ Todas as épocas me pertencem um momento,/ Todas as almas um momento tiveram seu lugar em mim.”

'2025 pode ser como 1968 e 1989: um ano em que a história uda e nada mais é mais como antes'

Há anos em que o mundo passa por alguma mudança fundamental e convulsiva.

Um deles foi 1968, marcado pela invasão da União Soviética à Tchecoslováquia, a revolta estudantil em Paris, e protestos contra a Guerra do Vietnã nos Estados Unidos.

Outro foi 1989, ano do massacre da Praça da Paz Celestial, da queda do Muro de Berlim e da implosão do império soviético.

Eu vivenciei cada um destes acontecimentos e, a partir desta perspectiva, me parece que, após apenas algumas semanas, 2025 pode ser um ano deste tipo: um momento em que os pressupostos básicos sobre a maneira como nosso mundo funciona são colocados no triturador.

Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, cada um dos 13 presidentes americanos anteriores a este segundo mandato de Trump defendeu, pelo menos da boca para fora, um conjunto de princípios geopolíticos fundamentais. Entre eles, que a própria segurança dos Estados Unidos dependia de proteger a Europa da Rússia, e os países não comunistas da Ásia, da China.

Trump mudou essa abordagem. Ele diz que está colocando os interesses dos Estados Unidos em primeiro lugar, antes de qualquer outra coisa. Na maioria das vezes, isso se resume à questão de quanto custa para os Estados Unidos proteger a Europa e a Ásia da Rússia e da China, respectivamente.


Isso, por si só, é muito difícil para os países aliados dos EUA, especialmente na Europa. Mas se torna muito mais difícil devido à própria personalidade de Trump. Nenhum presidente dos EUA nos tempos modernos, nem sequer Richard Nixon, deixou suas características pessoais influenciarem suas políticas como Trump faz.

"Ele é como Luís 14", me disse um diplomata americano aposentado, referindo-se ao pretensioso rei Sol da França.

Críticos como este acreditam que Trump é incrivelmente vaidoso e, ao mesmo tempo, incrivelmente sensível. Como resultado, os indicados para cargos que o cercam, pessoas como Elon Musk e J.D. Vance, talvez pensem que sua posição depende inteiramente do quanto eles o elogiam e apoiam suas opiniões.

Quando o presidente Trump afirma, sem nenhuma evidência, que o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, é corrupto e tem um baixo índice de aprovação, Musk vai mais além: ele acrescenta que Zelensky é desprezado pelo povo ucraniano, e está se alimentando dos cadáveres dos soldados ucranianos.

Ninguém no círculo de Trump hoje, ao que parece, vai tossir discretamente e dizer: "Presidente, talvez o senhor devesse considerar voltar atrás nessa declaração".

A julgar por seu mandato anterior, podemos ter certeza de que cada uma das pessoas ao seu redor sabe como ele detesta que discordem dele. Elas também sabem que muitos eleitores apoiam incondicionalmente a abordagem de Trump, e sentem que estão financiando a segurança em um continente distante.

Ele se comprometeu a acabar com a guerra na Ucrânia até a Páscoa. E tem toda razão quando diz que o presidente russo, Vladimir Putin, está interessado nisso.

Embora as tropas russas estejam avançando lentamente no leste da Ucrânia, graças ao seu enorme número, suas perdas humanas são imensas.

Se a guerra continuar, a Rússia pode ter que recorrer ao recrutamento obrigatório, o que seria perigosamente impopular, e poderia até desestabilizar o regime de Putin. Tudo o que Trump diz sobre alcançar a paz é música para seus ouvidos.

John Bolton, o nada subserviente conselheiro de segurança nacional de Trump durante seu primeiro mandato, disse outro dia que o Kremlin deve ter estourado um champanhe quando ouviu sobre o plano de paz do governo Trump. Sem dúvida, pareceu um momento histórico — não apenas em Moscou, mas em todo o mundo.

Putin apoiou claramente a ideia de que Trump realmente venceu a eleição de 2020. Pode não ser verdade, mas Putin sabe que Trump favorece qualquer um que apoie sua visão das coisas.

Por que, em contrapartida, Trump e as pessoas que o cercam pegaram tão pesado com Zelensky? Em parte, deve ser porque Zelensky não faz obedientemente o que pedem a ele, como voltar à mesa de negociações e fechar um acordo para que os Estados Unidos possam ter acesso a minerais essenciais da Ucrânia.

Ao mesmo tempo, Trump entende que Zelensky é o elo mais fraco do trio formado por Estados Unidos, Rússia e Ucrânia — e pode ser pressionado de uma forma que Putin não pode. Quanto mais pressão for exercida sobre Zelensky, mais rápido será o acordo de paz.

Trump nunca parece, pelo menos em público, demonstrar muito interesse nos detalhes de qualquer acordo. O que importa para ele é o acordo em si, mesmo que a Ucrânia e seus aliados acreditem que seja claramente injusto, e permita que a Rússia volte em uma data futura e recomece a guerra.

Diplomatas britânicos e alemães que eu conheço ficaram furiosos com a forma como Trump agiu para levar a Rússia à mesa de negociações. "Ele tinha duas cartas importantes na mão", afirmou um deles. "A primeira era o isolamento da Rússia. Putin teria feito muitas concessões para poder participar das negociações com os Estados Unidos — só que Trump não insistiu em nenhuma concessão. Ele simplesmente o deixou sentar (na mesa de negociações) e começar a falar."

A outra carta, segundo o diplomata, era insistir que a Ucrânia deveria ter permissão para aderir à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). "Trump poderia ter discutido sobre isso, e extorquido todos os tipos de acordos de Putin, antes de finalmente dizer: OK, a Ucrânia não vai entrar para a Otan neste caso." Nas capitais europeias, há a sensação de que ele jogou fora estas duas cartas essenciais antes mesmo de as negociações começarem, sem nenhuma condição prévia.

No entanto, alguns diplomatas europeus com experiência em política americana já estão advertindo seus governos de que esse período monárquico na presidência de Trump, em que seus assessores acatam suas opiniões (ele literalmente se referiu a si mesmo como um "rei" na semana passada), não vai durar muito.

Atualmente, Trump tem o controle de um Congresso maleável e de uma Suprema Corte conservadora — mas daqui a apenas 20 meses, em novembro de 2026, haverá eleições de meio de mandato nos Estados Unidos.

Há sinais de que a inflação está começando a subir no país, e é bem possível que haja gente suficiente afetada para querer punir o partido Republicano de Trump nas urnas.

Se ele perder o controle de uma ou de ambas as casas do Congresso, o poder que ele tem no momento de fazer aprovar todos os planos e políticas, por mais controversos que sejam, vai diminuir.

Mas muita coisa pode acontecer nos próximos 20 meses. O expansionismo de Trump pode encorajar a China. Uma grande guerra comercial internacional, desencadeada pelas tarifas de Trump, pode começar. E parece provável que a União Europeia se torne política e economicamente mais fraca do que nunca.

Fechar um acordo de paz na Ucrânia nos termos da Rússia será algo totalmente novo para os Estados Unidos. Na grande maioria das negociações desde 1945, a Rússia teve dificuldades para conseguir o que queria devido à força econômica e militar americana.

Agora, Putin, que tomou a decisão onerosa de invadir a Ucrânia há três anos, parece que vai se safar, e prosperar.

Se isso acontecer, então 2025 será de fato lembrado como um ano chave: um momento em que a história do mundo mudou, e nada mais foi como antes.

John Simpson

Uma lição de dignidade

Acho que a discussão entre Zelensky, Trump e Vance na Casa Branca vai ficar na História e até na Mitologia como uma lição de dignidade.

Falamos muito em bullying mas faltam-nos exemplos que se possam ensinar.

No caso de Zelensky, temos um dois contra um, em que os dois são quem mais manda no país mais rico e poderoso do mundo. Têm a faca e o queijo na mão. E estão em casa, na sede desse poder.

Pode até dizer-se que não são dois, antes três contra um. Porque também está presente o imperador da Rússia, exultando com o serviço que lhes prestam os imperadores americanos.


Nos pesadelos dos ucranianos, muito antes da invasão russa, a figura que mais aparece é um monstro bicéfalo, em que uma cabeça é a do pistoleiro do Oeste e a outra é do pistoleiro do Leste, ambas cheias de apetite para comer tudo o que a Ucrânia tem.

Na Casa Branca, este horror tornou-se tricéfalo – e Zelensky não estava a dormir. Ninguém acredita que Trump e Vance eram anfitriões.

Ninguém acredita que não saibam as regras mais elementares da educação. Não há no mundo uma única sociedade, do passado ou do presente, tribal ou cosmopolita, em que Trump e Vance não tenham sido as duas pessoas mais malcriadas, mal-formadas e mal comportadas de toda a história da humanidade.

Perante aqueles dois broncos inchados, Zelensky não pestanejou.

Foi buscar força a todos os ucranianos que morreram por causa da invasão russa. Foi buscar força ao fato de estar em guerra, comparando essa violência e esse medo à mera truculência verbal daqueles dois pavões obesos à frente dele.

O homem pequenino mostrou que não se curva – e que foi por não se curvar que a Ucrânia continua a lutar contra o monstro que o invadiu.

O homem pequenino e vestido de preto fez pouco daquelas fatiotas empoderadas, daqueles cabelos esticados, daquelas gravatas intermináveis que escondem tanto a barriga como uma fila de cabras esconde os Alpes.

Deu-nos uma lição de dignidade que jamais será esquecida.
Miguel Esteves Cardoso

segunda-feira, 3 de março de 2025

Pensamento do Dia

 


"Empatia', moda dos tempos

Essa questão da “empatia” é uma história que as pessoas contam para se sentirem bem consigo próprias. Não muda rigorosamente nada na vida das pessoas pelas quais dizem sentir empatia. “Ah, condoo-me com o sofrimento do outro.” E então?! E depois disso? Caímos quase no cliché do “coitadinhos dos pretinhos…”. Isso serve exatamente para quê? Para anunciares que és uma pessoa muito empática? O que muda na realidade?
Bruno Vieira Amaral, escritor português 

Tempos de Trumpulência

Hora de lembrar José Ingenieros, em seu monumental O Homem Medíocre.

A vulgaridade, ele nos ensina, só floresce quando as sociedades se desequilibram em prejuízo do idealismo. “É a renúncia do pudor do ignóbil… os homens vulgares ousam denominar ideias a seus apetites, como se a urgência de satisfações imediatas pudesse ser confundida com a ânsia de perfeições infinitas”.

Fixemos, agora, nossa visão sobre o arrogante governante, de topete alourado, que comanda a Nação da maior democracia ocidental. O que se distingue em suas feições, acentuadamente caracterizadas para parecer um feroz leão do planeta Terra, urrando para assustar aliados, impor medo aos adversários e apagar o simbolismo representado pela estátua da Liberdade, com seu facho iluminando o sonho de uma Pátria livre e democrática para milhões de imigrantes?

Tempos de truculência! Tempos de Trumpulência!

Tempos de mercantilização de valores.

Cidadania?

Você, imigrante, quer ganhar um título de cidadão americano? Pois se dirija ao nosso balcão de negócios e aproveite os descontos. Hoje, o título está custando 5 milhões de dólares. Se não possuir essa grana, providencie com urgência seu êxodo da terra americana, sob pena de ser deportado.

Em menos de dois meses, desde 20 de janeiro passado, quando Donald Trump tomou posse, a Pátria americana ganha novos contornos. Está deixando de ser o berço dos valores espirituais – o direito de ir e vir, o livre debate entre os contrários, a livre expressão – para se transformar num grande balcão de negócios.

Ingenieros volta a lembrar: “os países são expressões geográficas e os Estados são formas de equilíbrio político. Uma Pátria é muito mais que isso, e é outra coisa: sincronismo de espíritos e corações, têmpera uniforme para o esforço, e homogênea disposição para o sacrifício, simultaneamente na aspiração à grandeza e no desejo da glória. Quando falta esta comunhão de esperanças, não há, nem pode haver Pátria. É preciso que haja sonhos comuns, anelos coletivos de grandes coisas”.

E o que se vê na terra dos americanos? O refrão nos bonés vermelhos: fazer a América grande novamente. Como? Deportando milhões de imigrantes? Vendendo títulos de cidadania para imigrantes que tenham 5 milhões de dólares para comprá-los? Anexando o Canadá, cujo primeiro-ministro, Justin Trudeau, acaba de ganhar o título de governador do 51º Estado dos EUA? Querendo puxar a Groelândia para o balcão de negócios? Ora, nosso território não está à venda, replica o governo da Dinamarca.

Será que o desprezo e o deboche do senhor Donald sobre seus aliados europeus contribuirão para engrandecer a América? Será que escantear a Ucrânia nas negociações de paz com a Rússia, quando é a própria Ucrânia que luta contra o invasor, é um gesto de respeito à soberania das Nações? As leis de outros países podem ser jogadas no lixo pelo impetuoso governante norte-americano? Traduzindo: empresas americanas, que operam no Brasil, não devem respeitar os ditames legais do país, com registro de seus negócios e de seus dirigentes?

“Fazer a América grande novamente” requer decisões como a de retirar os EUA da Organização Mundial da Saúde, e também retirar o país do Acordo de Paris sobre mudanças climáticas?

Como é possível que o empresário mais rico do mundo, o senhor Elon Musk, detenha poder para ordenar a milhões de americanos que respondam a seus emails, dando conta do que fazem, sob pena de irem para o olho da rua? O senhor Musk, com seu gesto de levantar o braço direito, com a palma da mão aberta, em clara alusão ao nazismo, se não é membro oficial do governo, pode dar ordens aos funcionários públicos? Pode participar de reuniões com os secretários do Governo Trump? É legal que um homem de negócios tenha acesso a dado sigilosos dos americanos? Todas essas perguntas remetem à outra indagação: será que o senhor Trump considera a Casa Branca e as instituições nacionais como extensão de seu resort Mar-a-Lago, em Palm Beach?

O fato é que o mundo vive um momento borrascoso. A comunidade mundial está assombrada com a avalanche de decretos assinados pelo senhor Donald Trump, que, tempos atrás, ficou famoso, com o programa de TV “The Apprentice” (O Aprendiz), do qual era apresentador.

Até quando o freio do bom senso fará o 45º e o 47º presidente dos Estados Unidos da América cair na realidade e deixar de rugir, como o rei dos animais, ameaçando o planeta? Seus eleitores continuarão a lhe dar apoio ou repetirão o dito que marcou sua imagem: “você está demitido”?

O crime na legalidade

No que se tornou uma das passagens mais importantes de "O Poderoso Chefão", a família Corleone decide que um de seus garotos precisa levar uma vida correta, longe do crime, formar-se em direito e se tornar um advogado para, se for o caso, defendê-los na Justiça. É o que os americanos chamam de "go legit", entrar na linha, legitimar-se. Os criminosos descobriam que, quanto mais se infiltrassem formalmente na sociedade, menos precisariam de usar a metralhadora. Enxergaram longe.


Não sei o grau de enraizamento do crime organizado na sociedade dos EUA, mas, no Brasil, as facções criminosas já lucram mais com certas atividades comerciais —compulsórias para os usuários— do que com o tráfico. Entre essas atividades, contam-se o comércio paralelo de gás, energia elétrica, transportes, combustíveis, lubrificantes, cigarros e bebidas, extração e produção de ouro, construção de imóveis em terrenos ocupados, golpes pelo celular e, num resquício das velhas práticas, roubo de cargas e furto de celulares. Atrevem-se até a operar atividades legais, como postos de gasolina e usinas de etanol.

Essas informações estão num relatório do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Segundo ele, o crime já é também o principal empregador da região amazônica —controla o território, a população e uma das principais atividades da região, a pesca. Uma rápida espiada num mapa prmite constatar o quanto do Brasil está em suas mãos. E a defesa legal desse complexo não se limita aos vendedores de sentenças nos tribunais. Estende-se a vereadores e deputados.

Todos os governos brasileiros —repito, todos—, da redemocratização para cá (foi quando o crime começou a se organizar) são culpados por isto. Ocupados com suas políticas de desenvolvimento, nacional ou próprio, fizeram vista grossa a um processo que crescia bem sob seus narizes.

É besteira continuar trocando tiros nos morros. O criminoso pode estar no escritório vizinho ao nosso.

​Turismo, para que te quero?

O turismo é a indústria mais depredadora e com maior impacto de sempre. Com esta afirmação não quero pôr em causa a mais importante e significativa atividade económica, social e cultural do nosso tempo.

É nesta altura do ano que a Europa (agências de viagens, operadores e turistas) corre às principais feiras onde o turismo para 2025 se vende e compra. A regra é só uma: o máximo (do que quer que seja) pelo mínimo (custo). Ninguém acredita que a atual bolha vai crescer infinitamente, como se nada fosse, sem rebentar como todas as outras; apesar disto, por cá, mantemo-nos eufóricos com os sucessivos recordes de número de turistas, dormidas, receitas, etc., como se não houvesse amanhã e este fosse igual.

A alma de Veneza perdeu-se, a cidade converteu-se num parque temático tipo Disneylândia onde chineses vendem a outros chineses, por um euro, máscaras venezianas fabricadas na China. Um exército de dezenas de milhões de turistas por ano torna a cidade dos sonhos românticos um inferno e os poucos venezianos que restam estão saturados e desiludidos. Os voos baratos e os cruzeiros levaram à extinção da cidade e as autoridades italianas não sabem o que fazer.


Por cá ainda estamos longe deste desolador cenário, mas vamos no “bom” caminho, Lisboa que o diga, onde todos os dias se ouve o grito: “Olhe, desculpe eu vivia aqui.” Na verdade, já se torna complicado passear nos caminhos da encantada Sintra. E o que nos fica? Muito pouco.

Por muito que custe admiti-lo, o turista vive apenas o imediato: o objetivo é viajar cada vez para mais longe em menos tempo com a intensidade máxima, cumprindo o “quanto mais, melhor”. Acresce ainda que, depois da viagem em low cost, o turista no destino exige e consome sem limites – “faz e leva o que quiseres desde que pagues”, o quanto basta para o nosso contentamento. Acresce ainda que turismo, além de persistir na sazonalidade, é profundamente assimétrico; enquanto os clássicos destinos estão saturados, o Portugal vazio permanece vazio à espera de alguns turistas. Esta é a perfeita indústria insustentável.

Enquanto nada se passa, a expectativa é a de continuar a crescer no mesmo contexto (como se nada se alterasse…) e bater os números do último ano. Ora, como em tantas outras matérias, enquanto é tempo, o País deve refletir estrategicamente sobre o turismo que quer; para todos os efeitos, qualquer coisa melhor do que o presente.

Apesar de alguma degradação ecológica, sempre negada pelo Ministério do Ambiente, e exagerada por ecologistas, Portugal goza de um conjunto de patrimónios únicos e de grande valor, positivamente distintivos quando comparados com a concorrência. Entre eles, destaca-se o património natural, que nos dá uma enorme riqueza, não quantificada e ignorada. Aqui, sim, está o nosso valor distintivo, pois temos uma geobiodiversidade única e há muito perdida na Europa.

Podemos e devemos estruturar produtos turísticos que abranjam franjas do mercado de alto valor e baixa pegada ecológica, exatamente o contrário do que hoje temos. Todos os nossos vizinhos, concorrentes, e também origem de grande parte dos nossos turistas, têm mais grandiosos castelos e palácios, igrejas e monumentos romanos, árabes ou gregos. Mas Natureza temos nós melhor.

No que respeita aos principais desafios, já os sabemos e lemos muitas vezes: combate à sazonalidade, valorização do património e da cultura, desconcentração da procura, qualificação e valorização dos recursos humanos, estímulo à inovação e ao empreendedorismo, e envolvimento da população e dos atores locais. Como não?