terça-feira, 21 de junho de 2022

Indignação

Em 2010, um diplomata francês de 92 anos, Stéphane Hessel, então o único redator ainda vivo da Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, publicou um pequeno livro com o título Indignai-vos. Com mais de dois milhões de exemplares logo vendidos em seu país e edições em muitos outros, esse texto inspirou movimentos como o dos “indignados” na Espanha, em 2011, que encheu as praças desse país gritando aos partidos, deputados e senadores, “vocês não nos representam”, o que levou a uma nova conformação do seu espectro político.

Mas há bastante tempo ouvimos e repetimos, no Brasil, que não basta nos indignarmos diante do que consideramos inaceitável – que é o que hoje, aqui, não nos falta. E que é preciso passar da indignação à ação, se quisermos que as coisas mudem de fato.

No entanto, passar à ação exige muito mais de nós. Exige que deixemos de lado uns tantos prazeres da vida. Exige se dispor a mudar a rotina de vida, abdicar da tranquilidade – os que conseguiram ter esse privilégio – e assumir uma prática de militância por uma causa. Exige que nos unamos a outros “indignados”, para superar as limitações das ações isoladas e aumentar nossa força. Exige aceitar as exigências das ações coletivas e dispor-se a enfrentar as consequências da ação – que em certos casos podem muito duras.

Ora, atender a tais exigências não é assim tão fácil. E acabamos nos deixando dominar por outro comportamento, até para que consigamos sobreviver emocionalmente, o de “naturalizar” o inaceitável. “Acostumamo-nos” com ele, ou seja, com “a vida como ela é”, e tocamos o barco para a frente. E passamos a conviver com o que provocou nossa indignação, até que ela se esmaeça e desapareça, enquanto não surge outra razão para nos indignarmos.

E foi assim que parece termos caído numa armadilha, no Brasil. Mesmo diante de situações em que o insuportável se tornou extremamente pesado, não estamos sendo capazes de nos sentarmos juntos – pelo menos quem não está obrigado a lutar pela pura sobrevivência física – para definir alguns objetivos, medidas e ações em que concentrar nossa força cívica conjunta, ainda que prosseguindo nossas lutas especificas.


Nem agora, diante do desafio imediato de impedir que se crie o tumulto que está sendo preparado para que as eleições nem se realizem, combinado com ataques de todos os tipos ao Tribunal Superior Eleitoral, em sua missão de garantir eleições livres e transparentes. Com isso, podem se frustrar as esperanças de tantos que as viram como saída para nos livrarmos de um presidente que o país não merecia, com todos que constituíram, à sua volta, um verdadeiro bando de oportunistas e malfeitores.

Não estaríamos precisando, nós também, de um apelo como o de Stephan Hessel, conclamando-nos a nos indignarmos – talvez com ainda mais força – mas principalmente a não deixarmos que a naturalização do intolerável esmaeça nossa indignação? Os velhos combatentes da longa luta contra a ditadura de 1964, que ainda estejam entre nós, não poderiam se unir num grito uníssono que fizesse com que essa mensagem penetrasse fundo em nossos corações?

Uma das marcas da campanha eleitoral do atual presidente era o gesto que fazia com as mãos, imitando uma arma. Ao longo dos seus quase quatro anos de mandato transformou esse símbolo em armas e munições de verdade, importadas e contrabandeadas em grande quantidade e distribuídas aos que enganou com mentiras difundidas pelas redes sociais que penetraram nos lares dos desavisados.

Isto torna esse apelo ainda mais urgente, diante de algo pior que pode acontecer, e que está certamente sendo gestado nas mentes doentias do presidente da República e de seus asseclas, se não conseguirem impedir as eleições: diante de resultados que lhes serão desfavoráveis, não terão escrúpulos em provocar o caos. E empurrarão o país para uma tragédia que ele nunca viveu: a do enfrentamento violento entre irmãos. E como somente um dos lados estará armado, esse enfrentamento poderá se transformar em massacre dos que se opõem aos que estão hoje no poder e de todos que eles detestam – como os que já vêm ocorrendo em alguns lugares do Brasil.

Mais ainda, se esse pesadelo vier a ocorrer, teremos que nos preparar para o que coroaria esses planos malignos: uma intervenção militar para reestabelecer a paz social, e a realização do “projeto de nação” dos militares que pretendem ser seus tutores, que tem até a data final de 2035 bem definida, tornado público em ato prestigiado pelo general que hoje ocupa a vice-presidência da República. Para a satisfação da “Casa Grande” e dos que, de dentro e de fora do país, dominam nossa economia e atualmente nossa vida política, pensando somente em lucros. E nos deixando, para depois que tudo isso se realizar, a tarefa hercúlea de reconstrução do que tínhamos conquistado vagarosamente no interregno democrático que estamos ainda vivendo, desde que nos livramos da ditadura militar imposta em 1964.

Temos ainda tempo de escapar disso tudo, ou já é tarde demais? São as questões angustiantes que nos resta colocar. Para responde-las, talvez valha a pena recordar o que fizemos e deixamos de fazer durante o mandato de um Presidente que era o mais despreparado e o menos confiável dos candidatos em 2018, e que tinha sido recusado por 61% dos eleitores, considerados as abstenções, os votos brancos e nulos e os dados ao seu opositor. Um presidente que, quase imediatamente depois de empossado definiu claramente, em evento na Embaixada do Brasil em Washington, o principal objetivo de sua gestão: “Destruir”.

O presidente anterior – que assumira o poder por meio de um autêntico golpe parlamentar-mediático – já tinha iniciado o desmonte de direitos. Ao lhe dar seguimento e o aprofundar, ele logo começou a provocar nossa indignação, e os crimes de responsabilidade que cometia justificaram pedidos de impeachment. Mas deixamos esses pedidos dormirem na mesa da presidência da Câmara. A imagem da crescente pilha de papeis deixou pouco a pouco de nos comover, até os pedidos chegarem a mais de centena e meia, para serem guardados nos arquivos da Câmara.

Como se os autores de cada pedido tivessem considerado que tinham feito o que podiam fazer e que, uma vez protocolados os pedidos, poderiam voltar para suas lutas e afazeres, nem eles nem nós, que os apoiávamos, pensamos que talvez fosse necessário pressionar os deputados, embora sua maioria tivesse sido eleita na mesma onda eleitoral do presidente da República (podemos dizer, como os espanhóis, que não nos representam?). Essa maioria elegeu então, para impedir o impeachment, um dos mais fiéis aliados do presidente, com a tarefa de também apressar o desmonte legislativo do país, como o faz até hoje. E este, para garantir os votos de seus colegas venais, abre-lhes as portas do erário, com operações espúrias como a das “emendas parlamentares”, e até inventando um “orçamento secreto”.

Mas nos acostumamos com tudo isso (com “a política como ela é”) e, aceita a impossibilidade do impeachment, muitas organizações da sociedade civil lançaram juntas uma campanha com o grito “Fora” – que chegou num banner até o pico do Everest – visando o presidente da República. Mas ao se apoiaram em grandes manifestações de rua, seus resultados se viram limitados pela imobilidade decorrente da “naturalização” do que se passava, pelo medo do contagio da Covid-19 nas aglomerações, e pelas dificuldades criadas pelo desemprego.

Diante disso, surgiu outro caminho para afastar o presidente: processá-lo por crimes comuns. Importantes organizações da sociedade civil elencaram então esses crimes em representações ao Procurador Geral da República, encarregado constitucionalmente de defender os interesses da sociedade. E o Senado encaminhou também a ele um longo relatório indicando os crimes do Presidente, após seis meses de trabalho de uma CPI que desvelou, para todo o país, tanto a corrupção no enfrentamento da Covid-19 como a associação mórbida do presidente com a pandemia, com ações e omissões que provocaram muito mais mortes do que a doença sozinha causaria.

Mas o Procurador Geral, que deveria denunciar ao Supremo Tribunal Federal os crimes comuns do chefe da nação, vendo-se em minoria na instituição que chefia usou sua independência funcional para não dar continuidade a nenhuma dessas representações. Caracterizou-se assim, claramente, que ele tinha sido ali colocado para ser uma segunda barreira de proteção do presidente da República, complementar àquela assegurada pelo presidente da Câmara.

Manchou com isso a história e a imagem de todo o Ministério Público, mas este também não conseguiu reagir, nem face ao risco de tornar-se cumplice de seu chefe no crime de prevaricação que cometia. E uma infeliz decisão liminar de um ministro da Corte Suprema em um dos processos nela tramitando – decisão essa ainda a ser ainda convalidada pelo plenário da Corte – garantiu a independência funcional do Procurador Geral, como se ela não fosse limitada pelo menos pela ética. Por sua vez o próprio Senado também não reagiu à altura, diante do total desrespeito a ele com o engavetamento de seu relatório. E nada fez, apesar de autorizado pela Constituição a processar e destituir o Procurador Geral.

Surgiu então na sociedade civil mais uma proposta: pressionar o Senado para que cumpra sua obrigação de afastar esse Procurador Geral. Mas a esta altura também o silêncio do Senado está correndo o risco de se “naturalizar” (podemos dizer que seus membros também não nos representam?), embora a estatura moral do Procurador Geral – tão baixa como a do presidente, mas ambas já “naturalizadas” – esteja se tornando conhecida até fora do país.

Assim, entre os poderes de República o único que parece ainda se negar a se autodestruir – se conseguir não convalidar a liminar que protegeu quem protege o presidente – é o Supremo Tribunal Federal. Mas sua lentidão para agir é aceita por todos, como o é a de todo o sistema Judiciário. O que se agrava com a entrada na Corte de novos ministros visceralmente ligados ao presidente, que já usam regras internas para imobilizá-la ainda mais, quando se trate de questionar o chefe da nação. E enquanto a sociedade em geral não ousa pressioná-la, dentro dela nada emerge que enfrente eficazmente o verdadeiro descalabro que o Brasil conhece, nem nas discussões nas salas de seu belo palácio envidraçado, construído quando a barbárie estava mais distante. Só podemos desejar que esse palácio não desmorone, se o presidente da República, que agride com frequência seus membros até com palavras improprias ao decoro de seu cargo, decidir repetir no próximo 7 de setembro as ameaças ao Supremo Tribunal Federal que já fez nessa data no ano passado.

Enquanto isso, de dentro da sociedade foram surgindo muitas outras ações de resistência – tantas eram as “boiadas” que o governo tentava passar, surpreendendo-nos continuamente. O problema é que cada ação se encerrava em seus objetivos particulares, sem se articularem. E muitas pediam a participação das pessoas somente através de um “sim” de apoio, no celular. Discutíamos tudo isso muito pouco entre nós, isolados que estávamos por causa da pandemia, apesar das novas possibilidades criadas para a intercomunicação à distância. Por seu lado os meios de comunicação, inclusive os alternativos, nos distraiam com análises de jornalistas e especialistas sobre o que se passava e com falas dos líderes políticos. E depois que se esgotou a necessidade de informação e orientação sobre a pandemia, passaram a competir entre si na apresentação de informações e de entrevistas de personalidades, ocupando o tempo que poderíamos usar pelo menos para a reflexão.

Mais recentemente, o espetáculo a nos entreter passou a ser o das espertezas e alianças dos políticos para vencer as próximas eleições. Mas pouco se fala, nas declarações de candidatos e nos seus programas, do que farão para que se firme o pacto civilizatório mais urgente no Brasil de hoje, para que não conheçamos o caos da anomia: que os criminosos, dos mandantes dos crimes aos seus executores, não permaneçam impunes.

Em meio a isso tudo nos indignamos e nos comovemos – no Brasil todo e fora dele – com o brutal assassinato de mais um agente da FUNAI e de um jornalista inglês, pelos predadores da Amazônia que o presidente da República protege e estimula. Bruno Pereira, o agente da Funai, conhecedor profundo da região e persistente em sua missão de defender os indígenas, era suficientemente corajoso para incomodar os bandos que o mataram e, barbaramente, o esquartejaram, a ele e ao jornalista. Querido pelos seus colegas de trabalho e pelos indígenas, cujas línguas falava, só era “malvisto”, como ousou dizer o presidente, pelo próprio presidente e seus apoiadores em seu objetivo de destruição. Dom Philips, o jornalista, experimentado e sereno em seu amor pela Amazônia, fazia com determinação o que todos os seus colegas bem-intencionados gostariam de poder fazer: informar seus leitores do que realmente se passa por detrás dos silêncios criminosos que protegem os que tiram proveito da destruição da natureza e do extermínio dos indígenas.

Que a crueldade do assassinato desses novos mártires da Amazônia aumente a intensidade de nossa indignação – e a força de nossa ação – na dimensão exigida pela gravidade do que vivemos hoje no Brasil.
Chico Whitakerconsultor da Comissão Brasileira Justiça e Paz.

Brasil furado a bala

 


Bolsonaro está sendo bem-sucedido na tarefa a que se propôs. Bravo!

É muito desagradável quando os fatos contrariam o que antes fora imaginado. A Polícia Federal, há 72 horas, anunciou que elucidara o assassinato do indigenista brasileiro Bruno Pereira e do jornalista inglês Dom Phillips. Os dois teriam sido executados pelos irmãos Amarildo da Costa de Oliveira e Oseney da Costa de Oliveira, réus confessos. O crime não teve mandante.

Então, um terceiro homem entregou-se e disse que também participou do crime. E, agora, o Comitê de Crise formado para investigar as mortes identificou outras cinco pessoas que teriam participado da ocultação dos corpos. A confirmar as suspeitas do comitê, somadas às confissões já obtidas, pelos menos 8 pessoas têm a ver diretamente com o que aconteceu a Bruno e a Dom.

Naturalmente, isso reforça a tese de que o crime teve mandantes, um ou mais de um. Não é razoável acreditar que oito pessoas, de repente, sem mais nem menos, ou só porque uma delas tinha motivo, resolveram matar um agente da Fundação Nacional do Índio e um jornalista estrangeiro conhecido por aquelas bandas do mundo. Um mutirão espontâneo, digamos. Não dá para acreditar.


A Amazônia, hoje, é terra de ninguém. Abandonada pelo governo Bolsonaro que estimula sua destruição com a conivência dos militares que sempre disseram defendê-la, a Amazônia profunda é dos desmatadores, contrabandistas, garimpeiros e pescadores ilegais que cobiçam e exploram em proveito próprio suas riquezas. Para eles, Bruno e Philips eram um incômodo.

Bolsonaro está sendo bem-sucedido na tarefa de levar o país a andar para trás. Voltou ao passado na economia, no bem-estar da população, na educação e no meio ambiente, como mostra uma reportagem exemplar da jornalista Cassia Almeida em O Globo, neste domingo. É de dar dor. A fome atinge 33,1 milhões de brasileiros, 14 milhões a mais em pouco mais de um ano.

A produção de bens de consumo duráveis (carros e eletrodomésticos) está igual à de 18 anos atrás. A economista Silvia Matos, coordenadora técnica do Boletim Macro do Ibre/FGV, calculou que somente em 2029 vamos voltar ao maior valor real do PIB per capita, de R$ 44 mil, atingido em 2013, considerando a média de crescimento dos últimos anos do país, em torno de 1,5%.

Na educação, as crianças perderam mais. A evasão escolar na faixa de 5 a 9 anos está igual à de 2012, de acordo com estudo do economista Marcelo Neri, diretor da FGV Social. O país saiu de uma área desmatada de 4.571 quilômetros quadrados em 2012 para 13.235 quilômetros quadrados em 2021. Somente em 2003, o Brasil conviveu com um índice de inflação tão alto como agora.

A passo de caranguejo


O Brasil caminha vigorosamente em direção ao passado
Millôr Fernandes

Tudo é permitido

O poder invisível se expande no Brasil. Trata-se da força descomunal de máfias e grupos que se entranham nas malhas do poder para navegar nas águas das administrações federal, estadual e municipal. Máfias que acabam de perpetrar o mais escabroso assassinato desses tempos turbulentos, a eliminação do indigenista Bruno e do jornalista inglês Dom Phillips.

A Sólon, o legislador grego, foi perguntado se as leis que outorgara aos atenienses eram as melhores. Respondeu: “Dei-lhes as melhores que eles podiam suportar”. E o caso do Brasil? Os nossos legisladores dirão que as leis até são boas, mas o nosso território é uma terra sem leis.

Generaliza-se a sensação de que o País, cuja população armada se expande nas ondas do apoio e benevolência do mandatário-mor, navega nas ondas da impunidade. Madeireiros, mercadores de drogas, seringueiros, devassadores da floresta amazônica, ladrões do asfalto, milícias que dominam morros e favelas, enfim, sanguessugas e trânsfugas de todas as espécies, se espalham.

Alguns, flagrados com a mão na massa, continuam leves e soltos, a confirmar a tese de que o Brasil é, por excelência, o território da desobediência explícita. Nada mais surpreende. O esculacho chegou a tal ponto que uma facção criminosa passou a participar do sistema de transporte privado na capital paulista. E o escritório desse núcleo está dentro do cárcere. Certa vez, ouviu-se uma assertiva do comandante desse império do crime: ora, parlamentares também roubam.


Infere-se que o poder invisível, confortável com a barbárie que consome o País, não tem mais escrúpulos nem receio de mostrar a cara. Coloca-se no mesmo nível do poder do Estado. Para lapidar a pedra bruta do estado de inação em que vive o país, basta as máfias da violência mobilizarem seus exércitos nas ruas e forças de ocupação nos cárceres. Não é de assustar se parcela significativa da população começar a aplaudir a bandidagem da quadra de baixo contra a turma que faz zoeira no andar de cima. Afinal de contas, a passarela da criminalidade e o desfile de impunidade nas antecâmaras do Poder assumem dimensões grandiosas e formas escandalosas.

Corruptos e facínoras, se condenados, ganham o mesmo status perante a lei. A anomia toma conta do País. Vem de longe. Desde os idos da colônia e do Império, fomos afeitos ao regime de permissividade, apesar da rigidez dos códigos. Tomé de Souza, primeiro governador-geral, chegou botando banca. Os crimes proliferavam. Avocou a si a imposição da lei, tirando o poder das capitanias. Um índio que assassinara um colono foi amarrado na boca de um canhão.

Ordenou o tiro para tupinambás e colonos entrarem nos eixos. Mas em 1553 uma borracha foi passada na criminalidade, com exceção dos crimes de heresia, sodomia, traição e moeda falsa. Depois chegaram as Ordenações do Reino (Afonsinas, Manuelinas e Filipinas), que vigoraram até 1830. Severas, estabeleceram a pena de morte para a maioria das infrações, espantando até Frederico, o Grande, da Prússia que, ao ler Livro das Ordenações, chegou a indagar: “Há ainda gente viva em Portugal?”

O fato é que, hoje, entre tensões e panos quentes, o Brasil semeia a cultura do faz-de-conta na aplicação das leis. Uma historinha ilustra nossa cultura: há quatro tipos de sociedade no mundo. A primeira é a inglesa, onde tudo é permitido, salvo o que for proibido; a segunda é a alemã, onde tudo é proibido, salvo que for permitido; a terceira é a sociedade que vive sob as ditaduras, onde tudo é proibido, mesmo o que for permitido; e a quarta é a brasileira, onde tudo é permitido, mesmo o que for proibido. A propósito, os candidatos não estão quebrando a legislação eleitoral, ao promoverem e participarem nesse momento de comícios?

O descalabro se escancara: menos de 5% dos indiciados em inquéritos criminais chegam a cumprir sentença condenatória. De milhares de roubos que ocorrem, por exemplo, na Grande São Paulo, poucos assaltantes são presos na ocasião do delito. Sob esse tecido costurado com os fios da ilegalidade nasce o poder invisível, cancro das democracias contemporâneas.

A esperança se esvai, a fé se enterra, o sonho se apaga no maremoto das amarguras cotidianas.

Os órgãos de investigação e controle até avançam. A Polícia Federal, urge reconhecer, ganha mais qualidade, bastando ver o esforço para a descoberta dos assassinos do Vale do Jaguari. Mas há um longo caminho a percorrer para que o Brasil chegue a um patamar civilizatório de respeito.

É preciso fazer alguma coisa

Escrevo esta canção porque é preciso.
Se não a escrevo, falho com um pacto
que tenho abertamente com a vida.
E é preciso fazer alguma coisa
para ajudar o homem.

Mas agora.

Cada vez mais sozinho e mais feroz,
a ternura extraviada de si mesma,
o homem está perdido em seu caminho.

É preciso fazer alguma coisa
para ajudá-lo. Ainda é tempo.

É tempo.

Apesar do próprio homem, ainda é tempo.
Apesar dessa crosta que cultivas
com amianto e medo, ainda é tempo.

Apesar da reserva delicada
das toneladas cegas mas perfeitas
de TNT pousada sobre o centro
de cada coração — ainda é tempo.
No Brasil, lá na Angola, na Alemanha,
na ladeira mais triste da Bolívia,
nesta poeira que embaça a tua sombra,
na janela fechada, no mar alto,
no Próximo Oriente e no Distante,
na nova madrugada lusitana
e na avenida mais iluminada
de New York. No Cuzco desolado
e nas centrais atômicas atônitas,
em teu quarto e nas naves espaciais
— é preciso ajudá-lo.

Nas esquinas
onde se perde o amor publicamente,
nas cantigas guardadas no porão,
nas palavras escritas com acrílico,
quando fazes o amor para ti mesmo.

Na floresta amazônica, nas margens
do Sena e nos dois lados deste muro
que atravessa a esperança da cidade
onde encontrei o amor
— o homem está
ficando seco como um sapo seco
e a sua casa já se transformou
em apenas local de seu refúgio.
Lá na Alameda de Bernardo O′Higgins
e no sangue chileno que escorria
dos corpos dos obreiros fuzilados,
levados para a fossa em caminhões
pela ferocidade que aos domingos
sabe se ajoelhar e cantar salmos.

Lá na terra marcada como um boi
pela brasa voraz do latifúndio.
Dentro do riso torto que disfarça
a amargura da tua indiferença,
na mágica eletrônica dourada,
no milagre que acende os altos-fornos,
no desamor das mãos, das tuas mãos,
no engano diário, pão de cada noite,
o homem agora está, o homem autômato,
servo soturno do seu próprio mundo,
como um menino cego, só e ferido,
dentro da multidão.

Ainda é tempo.
Sei por que canto: se raspas o fundo
do poço antigo da tua esperança,
acharás restos de água que apodrece.

É preciso fazer alguma coisa,
livrá-lo dessa situação voraz
da engrenagem organizada e fria
que nos devora a todos a ternura,
a alegria de dar e receber,
o gosto de ser gente e de viver.
É preciso ajudar.

Porém primeiro,
para poder fazer o necessário,
é preciso ajudar-me, agora mesmo,
a ser capaz de amor, de ser um homem.

Eu que também me sei ferido e só,
mas aconchego este animal sonoro
que reina poderoso em meu peito.

Thiago de Mello

Uma oportunidade que vamos perder

Períodos eleitorais sempre foram aqui e em toda a parte tempos de agitação e de acirramento de ânimos. Passadas as eleições e verificados os resultados, no entanto, a regra geral sempre tem sido a volta à normalidade e às rotinas da vida, mesmo aqui na tumultuada América Latina. Esta regra tem deixado de prevalecer em alguns de nossos vizinhos, numa antecipação do que pode perfeitamente acontecer também conosco. Um dos enigmas da história do nosso continente é a frequência como os ciclos de liberdade e tirania, crescimento e estagnação, harmonia e conflitos, ocorrem ao mesmo tempo em vários de nossos países. Sem percebermos, muitas coisas indicam que compartilhamos um mesmo destino, mesmo a contragosto.


Algumas eleições no continente permanecem inconclusas. É o caso do Peru, onde a antipolítica levou à Presidência um personagem exótico e despreparado, sem planos nem maioria para governar, cujo único projeto no momento é evitar seu impedimento e conservar-se no poder. No Chile um jovem ex-revolucionário de esquerda, com um discurso sensato, prevaleceu sobre a política tradicional. Seu governo, contudo, está pendente da confirmação, por meio de um plebiscito, de uma nova Constituição que, se entrar em vigor, tornará o país ingovernável para sempre, qualquer que seja o Presidente.

Neste momento a Colômbia, o mais estável dos países do continente até agora, viu a população rejeitar os partidos que tradicionalmente a governavam, para levar ao segundo turno um ex-guerrilheiro e um velho empresário, populista de direita, cuja única proposta para o país é drenar o pântano da política. Todos conhecemos o que resulta destas proclamações. Afinal tivemos Jânio Quadros e Fernando Collor. Quando as sociedades se desesperam elas votam apenas com raiva, com o fígado e não com o cérebro, mesmo sabendo que pagarão sozinhas pelos seus erros.

Como em quase todos os nossos vizinhos, as nossas instituições de política democrática há tempos deixaram de funcionar em proveito da maioria da população. Os partidos políticos não representam nada nem ninguém. São agências com interesses predominantemente privados, embora financiadas com abundantes recursos públicos. No Parlamento, as maiorias sem alma e sem idéias vivem da captura do orçamento público e não mantém a mínima conexão com a sociedade, salvo exceções cada vez menores. Neste ambiente a disputa eleitoral vai se resumir a uma competição entre personalidades e o resultado eleitoral não vai trazer normalidade, harmonia ou novos rumos para o país, apenas o congelamento dos conflitos e da intolerância.

As eleições brasileiras se anunciam como as mais conflituosas de toda a nossa vida democrática, servindo não para arbitrar civilizadamente nossas diferenças, mas, ao contrário, para alargar o fosso que tem separado as pessoas na política. Em alguns aspectos estamos retrocedendo aos tempos mais sombrios da nossa história política, quando a própria existência do estado democrático com razão volta a ser posta em dúvida. A mediocridade das lideranças em atividade criou um vácuo na esfera política, onde passaram a se movimentar atores indesejados, como os militares e os juízes, cuja presença aprofunda os conflitos e atrofia ainda mais as instituições da soberania popular, sem nenhum proveito para o país.

Se as pesquisas de opinião estiverem corretas e se o julgamento político dos brasileiros não se modificar, ficará patente que nosso país não apenas está abdicando de um futuro melhor e diferente, como também está se desinteressando de resolver os imensos passivos que vimos acumulando em todos os campos, como a estagnação da economia, o empobrecimento progressivo da população, a ausência do Estado na segurança das pessoas e na proteção do meio ambiente, a degradação da infraestrutura.

A grande ironia é que as atuais mudanças que estão ocorrendo no mundo abrem neste momento uma janela de oportunidades para o Brasil que poderia mudar nosso destino, se ao menos houvesse a esperança de que as eleições dariam ao país um Governo.
Roberto Brant

A mídia está perdendo a confiança – e a democracia, também

Quando pesquisas sobre a mídia são publicadas, elas geralmente provocam agitação apenas entre jornalistas. Mas a realidade de hoje é tudo menos normal. Por isso, o conteúdo do Digital News Report, do Reuters Institute for the Study of Journalism, que acaba de ser publicado, provavelmente irá alarmar mais pessoas do que apenas profissionais da mídia. O estudo, feito anualmente, registra as tendências do consumo da mídia em 46 países. Elas podem ser resumidas em três pontos.

Primeiro, cada vez mais pessoas estão conscientemente evitando assistir, ouvir ou ler as notícias. No Brasil, são 54%, no Reino Unido, 46%. Nos Estados Unidos, Irlanda e Austrália, mais de 40% dos entrevistados disseram evitar notícias. Uma jovem britânica resumiu a atitude: "Evito notícias sobre política. Elas me fazem sentir tão pequena. Além disso, minhas opiniões não importam de qualquer forma." Muitas pessoas, especialmente os jovens, também dizem que não compreendem o conteúdo das notícias.

Em segundo lugar, a mídia nacional continua perdendo a confiança em muitos países. A maior desconfiança está nos Estados Unidos, onde apenas 23% dizem confiar na mídia. Entre os conservadores, o número é ainda mais baixo, de 14%. Mas há também exemplos encorajadores. Na Dinamarca, por exemplo, 69% confiam na sua mídia, um aumento de quatro pontos percentuais.

Em terceiro lugar, a importância dos meios de comunicação tradicionais está diminuindo. Os jovens, em particular, se informam em grande parte por meio das redes sociais e dos mecanismos de busca. Especialmente na Tailândia, nas Filipinas e no Quênia, as redes sociais são a principal fonte de informação. E o TikTok e o Instagram estão se tornando cada vez mais importantes. Há muito tempo o Facebook está em declínio.


É precisamente a mistura de aversão e desconfiança das notícias que preocupa – mesmo que algumas das razões sejam plausíveis. Depois de dois anos de uma pandemia, quem de nós nunca disse: "Não posso mais ouvir essas porcarias sobre a covid"?

Mas há duas boas razões para continuar a se informar por meio de fornecedores de informação confiáveis – pelo menos enquanto houver interesse na participação democrática. Porque a participação democrática se baseia na troca de argumentos racionais e no debate construtivo sobre qual é o caminho certo a seguir. A participação pressupõe o conhecimento. Não é à toa que uma restrição autoritária dessa participação geralmente é acompanhada da restrição da liberdade de informação.

Não é por menos que a guerra de agressão de Vladimir Putin está associada a uma censura radical. Vozes que chamam esta guerra de absurda e prejudicial para a Rússia são cortadas pela raiz, e protestos são reprimidos. A censura e as crescentes restrições à liberdade andam de mãos dadas. Seja em Hong Kong, na Hungria ou na Polônia.

Isso ocorre porque na maioria das vezes são os meios de comunicação que expõem as mentiras dos governantes. O exemplo mais recente são as falsas declarações do primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, de que não havia promovido festas em sua residência oficial durante o lockdown. (O que mudou, entretanto, é o fato de que qualquer chefe de governo ou primeiro-ministro antes dele teria renunciado por causa disso).

Aqueles que evitam consumir notícias devem estar cientes de uma coisa. O curso do mundo continua mesmo que ele não esteja sendo notado – sejam guerras ou fomes, mudanças climáticas ou inflação. Apenas aqueles que sabem podem fazer a diferença. Aqueles que desviam o olhar, estão enterrando a cabeça na areia. Praticando a autocensura, por assim dizer. E, portanto, estão cegos para o que está por vir.

Mas nós, jornalistas, não somos isentos de culpa por essa tendência. Nossa cobertura não deve se limitar a descrever as coisas negativas. Ela precisa ser cada vez mais orientada para apontar maneiras de fazer do nosso mundo um lugar melhor. Esse tipo de "jornalismo construtivo" está se tornando cada vez mais importante – e, felizmente, está encontrando cada vez mais apoiadores nas redações.

Precisamos fazer com que o nosso mundo, cada vez mais complexo, seja mais fácil de entender. O fato de que cada vez mais jovens estão se afastando do conteúdo por não o entenderem é um sinal de alarme. Precisamos de mais formatos nos quais os contextos sejam explicados de forma simples e cativante.

Se conseguirmos produzir cada vez mais artigos, vídeos ou podcasts explicativos e orientados a soluções, que também sejam divertidos, o Reuters Digital News Report de 2023 poderia trazer resultados um pouco mais otimistas. Se a atual tendência continuar, porém, a democracia estará seriamente ameaçada no longo prazo.
Martin Muno

sábado, 18 de junho de 2022

Brasil encarna o mito

 


Os cinco nomes do marechal

Naquele longínquo 31 de março de 1964, estagiando num jornal, eu sofria com a inexperiência e a timidez. Quando sobreveio o golpe, tomei coragem e perguntei a um político importante quem, ao ver dele, seria o presidente da República. A resposta veio em três segundos: o Exército só aceitará cinco nomes, Humberto Carlos de Alencar Castello Branco.

Para mim, todo golpe é ruim. Abomino todos os regimes de exceção. Mas antes ter um Castelo Branco, que pairava metros acima dos demais, que muitos outros que nada tinham entre as orelhas. Castelo garantia que a intervenção militar seria de curta duração, dois ou três anos para acabar com o comunismo e a corrupção e implantar algumas reformas na economia.

Pouco tempo antes, chegara ao Brasil o brasilianista Alfred Stepan, que iria fazer uma tese sobre os militares. Tornamo-nos amigos até o recente falecimento dele. Stepan admirava Castelo e não tardou a conseguir acesso à alta oficialidade. Mas, sobre a promessa de Castelo de manter o Exército no poder por um curto período, Stepan não acreditava que ele lograsse tal proeza. Outros oficiais-generais lhe haviam dito precisamente o contrário. Não devolveriam o poder aos civis em menos de 20 anos.


Meus leitores, se os tenho, devem estar impressionados com a exatidão da ciência política. Stepan acertara em cheio. Castelo errou redondamente. Fato é, entretanto, que nos 56 anos decorridos desde aqueles diálogos, este campo de estudos que nos orgulhamos em denominar ciência foi posto em xeque pelo menos umas 50 vezes. Por isso insisto em perscrutar o futuro, fazendo entrevistas, revirando estatísticas ou pacientemente observando o voo dos pássaros, como faziam os antigos adivinhos romanos.

No momento, vejo somente tênues indícios de uma intervenção militar, nada além disso, e así quiera Diós que permanezca! Mas cá, na planície, fora da caserna e do governo, volta e meia vemos milhões de energúmenos vociferando por um novo 31 de março de 1964. Tal ideia lhes ilumina a cabeça e os faz saltitar de alegria. Creem piamente que o verde das fardas livrará nosso país de suas mazelas e desavenças. Em seus momentos de maior devaneio, cogitam que alguns tanques nas ruas trariam de volta nossa tradição de ameno convívio, acabariam com as desordens, nos livrariam da corrupção e do paradeiro econômico, da inflação e de tudo mais que nos desengrandece aos olhos do mundo civilizado.

É possível; tudo é possível. Nos espaços siderais da imaginação, tudo é possível. Alguns chegam mesmo a crer que paraísos políticos, uma vez estabelecidos, não se desfazem. Que a uma elite sábia e honrada se segue outra, esquecendo-se de que, na antiga Roma, governantes sábios e justos foram sucedidos por dementes como Nero, Calígula e Cômodo.

O leitor por certo percebeu que estou falando do desvario de umas poucas mentes doentias, confiante em que males de tal ordem não estão a nos espreitar. No fundo, sinto-me despreocupado, mas sentiria um alívio ainda maior se três espectros vez por outra não me atormentassem. Primeiro, sabemos que o Brasil e a América Latina são as mais perfeitas estufas do populismo, e que populismo, por definição, é um modo de agir político sempre propenso a atropelar as instituições. Em todas as latitudes, populistas são aqueles que não encontram conforto nos limites institucionais da democracia e conclamam o que entendem por “povo” para derrubá-la.

Segundo, a oferta de populistas aumentou. Em épocas pretéritas, os portadores de tal DNA populista apresentavam-se um de cada vez, apoiados por meia dúzia de policiais, e os golpes assemelhavam-se a meras operações de despejo. Foi o que se passou na Argentina em 1928, quando o desmiolado general Uriburu derrubou o presidente Yrigoyen e deu início à sucessão de tragicomédias que transformou a outrora próspera nação pampeana na caricatura que dela resta. No rastro da multiplicação de populistas, nós, brasileiros também teremos no dia 2 de outubro uma oportunidade de ouro de também nos transformarmos numa caricatura da quase caricatura que sempre fomos.

Se recaírmos na polarização iniciada em 2018, estará redondamente enganado quem pensar que acordaremos do pesadelo quando a Justiça Eleitoral der por encerrada a contagem dos votos. Se o enredo deste ano for o mesmo de 2018, seremos forçados a recordar que, comparada à situação de hoje, a de 1964 foi apenas um festival de blefes, uma peça de segunda personificada por artistas do gogó: Carlos Lacerda, de um lado, e o indefectível Almirante Aragão, do outro.

Seria tudo muito engraçado se nós também não nos tivéssemos transformado numa caricatura moderna daquela que antigamente já éramos. Hoje, nada mais parece nos impressionar. Pobres sempre fomos, mas, ao fim da Segunda Guerra, não era comum presenciarmos indivíduos disputando uma vaga para dormir debaixo de algum viaduto, ou para chegar primeiro na cata de restos de comida. A própria violência tornou-se mais violenta, gratuita e cruel.

Bolsonaro, um presidente treinado para matar e imune à dor alheia

Sabe quantas vezes Bolsonaro referiu-se pelo próprio nome ao indigenista Bruno Pereira e ao jornalista Dom Phillips desde que os dois desapareceram no último dia 5 e os seus corpos finalmente foram encontrados 11 dias depois?

Nenhuma. Repetindo: nenhuma vez Bolsonaro os chamou pelo próprio nome. Nem mesmo no comentário que fez ao pé da nota oficial da Funai publicada no Twitter lamentando a morte de Bruno. O comentário anódino limitou-se a duas linhas:

“Nossos sentimentos aos familiares e que Deus conforte o coração de todos”.

Familiares de quem? Sabe-se de quem porque o comentário está apenso à nota. Não fosse a morte do jornalista inglês, Bolsonaro não teria lamentado a de Bruno, como não lamentou a de Maxciel Pereira dos Santos, servidor da Funai, assassinado há dois anos.


Bolsonaro usou a expressão “esse inglês” para não dizer o nome de Dom Phillips, e “os dois” ou “ambos” para não dizer o nome deles. Comentou a nota da Funai porque foi aconselhado a fazê-lo por gente preocupada em que ele não ficasse totalmente mal na foto.

O que vai na mente escura e pantanosa do presidente do Brasil? O que o leva a não se importar com a vida dos outros? Verdade que ele foi treinado para matar, como já disse, e quem mata por profissão deve ser mais ou menos imune à dor que provoca.

“Morram os que tiverem de morrer”, ele disse durante a pandemia da Covid ao prescrever cloroquina para os que não quisessem ficar doentes. “Não sou coveiro.” Imitou uma pessoa arfando por falta de ar. Em Manaus, cerca de 30 morreram por falta de oxigênio.

Em 1998, como deputado federal, proclamou:

“Competente foi a cavalaria norte-americana que dizimou os índios no passado livrando-se de um problema”.

Eleito e empossado presidente, debochou:

“Dizem que a Dilma foi torturada e que fraturaram a mandíbula dela. Traz o raio X para a gente ver o calo ósseo. Olha que eu não sou médico, mas até hoje estou aguardando o raio X”.

O que o leva também a enxergar conspiração em tudo e no que não existe? De novo, sua formação militar. Sem inimigos, como os militares estariam prontos para ir à guerra em defesa do seu país? Os nossos não sabem o que é uma guerra há muito tempo.

Então, inventam inimigos internos para combater. Foi assim em 1964, quando suprimiram a democracia porque o comunismo a ameaçava. Contraditório, não? Sob o comando do ex-capitão, parte dos militares vê outra vez a democracia em perigo. Culpa do PT.

Antes de se eleger presidente, os generais tratavam Bolsonaro com o desdém reservado no passado às vivandeiras de quartéis. Agora, o exaltam com entusiasmo (nada a ver com o Viagra). Quem mudou? Os generais ou Bolsonaro? Os generais se rebaixaram.

É coveiro, sim

Em 2020, no auge da Covid, Jair Bolsonaro preferia passear de jet ski a visitar os hospitais abarrotados e solidarizar-se com os profissionais que arriscavam a vida. Enquanto brasileiros morriam por falta de oxigênio, Bolsonaro imitava uma pessoa lutando para respirar. Já então eram-lhe oferecidas vacinas, que ele desprezava em função da cloroquina. E, quando os cemitérios tiveram de abrir covas rasas para comportar milhares, ele celebrou essa tragédia com uma frase: "E daí? Não sou coveiro".

Agora Bolsonaro terá de ser coveiro. Está diante de dois mortos que o mundo não deixará insepultos: o indigenista Bruno Pereira e o jornalista britânico Dom Phillips. Queira ou não, são seus mortos, assassinados pelos exploradores, traficantes e pistoleiros a quem ele entregou a Amazônia. Por "ele", leiam-se Bolsonaro ele mesmo, seu cínico vice-presidente Hamilton Mourão, presidente decorativo do Conselho Nacional da Amazônia, e o ex-ministro Ricardo "Boiada" Salles.

Bruno e Dom foram mortos a tiros, esquartejados, possivelmente incendiados e enterrados na floresta. Não se sabe a que se reduziram seus corpos —ou "remanescentes humanos", como foram chamados pelas autoridades. É insuportável imaginar que dois seres humanos, até há pouco na plenitude de suas forças e virtudes, sejam neste momento material de laboratório e, pior ainda, em Brasília, não muito longe do homem que os responsabilizou pela própria morte chamando-os de "aventureiros" e "excursionistas".

Seja o que tiver restado deles, mesmo que uma unha, terá de ser entregue às suas famílias e sepultado —Bruno, aqui mesmo, e Dom, quem sabe em seu país. Era o que Bolsonaro mais temia: a prova física do crime. A partir de agora, ninguém mais, em qualquer parte, poderá dizer que o desconhece.

Os coveiros da Covid eram heróis. O coveiro da Amazônia pode ser chamado de muita coisa — você escolhe.

Cristão é de morte


Jesus Cristo não comprou pistola porque não existia na época
Jair Bolsonaro

A Amazônia não é brasileira

São tolos e mal informados os que pensam que a Amazônia é brasileira. Não. A floresta não pertence ao Brasil ou Colômbia, Venezuela, Peru, Equador e Guianas. Sua imensidão territorial se estende por estes países e colônias, mas sua importância ultrapassa toda e qualquer fronteira. Parece que vai demorar muito ainda até que se perceba que para salvar o mundo será necessária uma política globalmente estruturada para defender a Amazônia. Pode ser tarde. Por ora, quem tenta proteger a floresta de seus algozes são homens bons como Bruno Pereira e Dom Phillips. E estes são sistematicamente sabotados por governos ou assassinados por pessoas com interesses contrariados.

O que Bruno e Dom buscavam não era uma utopia, um sonho, um ideal. Eles lutavam por uma causa possível. A Amazônia tem solução. A primeira e mais urgente é entender que, embora não se questione as soberanias dos países amazônicos sobre seus territórios, é fundamental que haja participação mundial na defesa da floresta. Participação com recursos, equipamentos e homens. Não se trata de um território qualquer. Ao contrário. A simples busca pelos corpos e do barco de Bruno e Dom mostrou como é intrincada e complexa a região. Tampouco se pode ignorar a sua dimensão.


Países como Brasil, Venezuela e Colômbia, que mal conseguem controlar o crime nas suas grandes cidades, tornam-se ainda mais impotentes diante da enormidade da floresta. Vejam os exemplos do tráfico e das milícias em comunidades como Alemão e Rio das Pedras, ou em Petare, a maior favela venezuelana. A Comuna 13, berço do traficante Pablo Escobar em Medellín, foi durante anos região inexpugnável pelo Estado colombiano. Se até aí os Estados nacionais ou locais são incapazes, imagine na Amazônia.

No caso do Brasil, além da falta de recursos, falta boa vontade do governo federal para agir contra os crimes cometidos na floresta e contra ela. Jair Bolsonaro é o maior incentivador da bandidagem instalada na Amazônia. O presidente defende garimpeiros, madeireiros, grileiros e os que querem expandir a fronteira agrícola para o interior da floresta. O mesmo presidente que defende o marco temporal para reduzir os territórios indígenas e ataca o Supremo dizendo que não acatará sua decisão se ela lhe contrariar.

Foram muitos os sinais em favor dos crimes e de criminosos ecológicos emitidos pelo governo Bolsonaro. Um dos mais eloquentes foi a fala do ex-ministro Ricardo Salles naquela reunião ministerial em que pediu que o presidente aproveitasse que o foco da imprensa estava na Covid para “passar a boiada”, desmontando onde fosse possível o arcabouço legal em favor do meio ambiente. Se grandes criminosos ambientais sentem-se confortados pela política do vale-tudo governamental, o mesmo ocorre com pés de chinelo como os irmãos Amarildo e Dos Santos, assassinos de Bruno e Dom.

Claro que Bolsonaro é culpado por estas mortes pelas razões expostas, mas é evidente também que crimes anteriores contra ativistas como o seringalista Chico Mendes e a irmã Dorothy Stang também devem ser atribuídos à frouxidão dos governos da sua época. O seringalista do Acre foi assassinado por outros dois pés de chinelo, o pequeno agricultor Darly Alves dos Santos e seu filho Darci. O assassinato da irmã em Anapu foi encomendado também por um pequeno fazendeiro que se sentia acima da lei.

Chico Mendes, que virou mártir e hoje empresta seu nome para um órgão do Ministério do Meio Ambiente (ICMbio - Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), morreu no governo Sarney, em 1988. Dorothy Stang foi assassinada ainda no primeiro mandato de Lula, em 2005. Obviamente, Lula e Sarney não estimulavam garimpeiros e madeireiros nem atacavam indígenas. Sarney demarcou 67 reservas e Lula, 79. Mas faltaram a ambos recursos, equipamentos e homens para defender estes territórios e a própria Amazônia. Por isso a importância de abrir a floresta a todos os que estiverem dispostos a trabalhar para salvar o mundo.

sexta-feira, 17 de junho de 2022

Pensamento do Dia

 


Incompetência estratégica

“É uma região inóspita, afastada de tudo”, declarou o vice-presidente Hamilton Mourão, nove dias depois do desaparecimento do indigenista Bruno Pereira e do jornalista inglês Dom Phillips, na Terra Indígena Vale do Javari. Mourão já se disse descendente de indígenas; ele é gaúcho de Porto Alegre, mas seu pai é amazonense. Hoje general da reserva, foi comandante da 2ª Brigada de Infantaria de Selva em São Gabriel da Cachoeira (Amazonas), de 2005 a 2008, e preside há dois anos o Conselho Nacional da Amazônia Legal (CNAL). Deveria saber que na região onde a dupla sumiu vivem mais de 190 mil pessoas. Como assim “inóspita”?


O Conselho Nacional da Amazônia Legal foi reativado em fevereiro de 2020, vinculado à vice-Presidência da República. Originalmente, o órgão foi criado em 1995, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, subordinado ao Ministério do Meio Ambiente, embora nunca tivesse mostrado ao que veio. Tudo leva a crer que devia ter continuado assim: as três missões de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) promovidas pelas Forças Armadas no combate a crimes ambientais na Amazônia consumiram R$ 550 milhões e não reduziram o desmatamento na maior floresta tropical do mundo. Muito ao contrário, só em maio último, foram abaixo 1.180km² de verde, a maior destruição para este mês desde 2016. Essa dinheirama equivale a quase seis vezes o orçamento do Ibama em 2020 para fiscalização e licenciamento ambientais, e gestão da biodiversidade.

Os militares também se aboletam na Funai: eles ocupam as chefias de 19 das 39 coordenações regionais da fundação, contra duas de servidores públicos, como o Bruno Pereira – as demais foram tomadas por policiais militares e federais, ou por funcionários de cargos comissionados. Desde 2017 já se sabia que o crime organizado estava tomando conta da região onde o jornalista e o indigenista desapareceram; *mas de lá para cá, a situação só piorou.

“As duas pessoas entram numa área que é perigosa sem pedir uma escolta, sem avisar efetivamente as autoridades competentes e passam a correr risco, né?”, disse Mourão sobre o episódio. “Se o lugar onde a gente trabalha é perigoso e precisa de escolta armada, tem uma coisa muito errada aí. E a culpa não é nossa”, rebateu a antropóloga Beatriz Matos, mulher de Bruno.

A autoproclamada eficiência militar virou lenda do Boitatá? Como esquecer a desastrosa passagem de outro general, Eduardo Pazuello, pelo Ministério da Saúde, no auge da pandemia de Covid-19? Considerado especialista em logística, esqueceu-se de abastecer os hospitais da capital amazonense com cilindros de oxigênio. Seu, digamos, descuido levou os hospitais da cidade a entrarem em colapso e pelo menos 31 pessoas à morte, em dois dias. Quando foi efetivado ministro da Saúde, em 16 de maio de 2020, o Brasil contabilizava 233 mil casos e 15.633 mortes por Covid-19; ele deixou o cargo em 15 de março do ano seguinte com mais de 11,5 milhões de infectados, e cerca de 280 mil mortos.

Depois de sair do Ministério da Saúde, Pazuello foi designado para chefiar a Secretaria de Assuntos Estratégicos do Executivo. O que nos leva a pensar: será que não é incompetência, mas estratégia? Para Ailton Krenak, não há dúvida: “Quando os sujeitos do governo falam em preocupação acerca da soberania, eles ocultam a má intenção de entregar todo esse território e virar as costas para a morte de Yanomami, a violência contra o corpo de crianças indígenas, o ataque contra lideranças e defensores dos que estão sendo assassinados semanalmente”.

Não é a natureza hostil que oferece perigo no Vale do Javari, mas os invasores e sua ganância, que se espalham como ervas daninhas – com a indisfarçável negligência ou até cumplicidade do poder público. “Vemos agora o último assalto a uma região do mundo com muita riqueza”, reflete Krenak. O que fazer? O autor do best-seller “Ideias para adiar o fim do mundo” aconselha: “A coisa está virulenta. Não se sabe mais de onde pode sair um ataque. Mas a gente vai superar esse momento. Não dá para nos desencorajarmos. Precisamos não cultivar a mentira e não nos associarmos a versões fajutas da realidade”. Que a verdade seja a nossa arma.

Amazônia: holding do crime

Ali tem o Código Penal completo. Na verdade ali virou uma grande holding criminosa. Existe no crime organizado o fenômeno da convergência. Quem extrai madeira ilegal atua junto com o garimpeiro. O trafico de drogas começa a colaborar. O traficante vira madeireiro, o madeireiro vira traficante
Alexandre Saraiva, delegado da Polícia Federal

Dom e Bruno, vítimas de um Estado disfuncional

A Amazônia sempre foi um lugar perigoso para ativistas. Em 1988, Chico Mendes, líder sindical dos seringueiros, foi assassinado a tiros em Xapuri, no Acre. Em 2005, a religiosa Dorothy Stang, ativista social vinda dos Estados Unidos, foi morta em Anapu, no Pará. Outras dezenas de ativistas pagaram com a própria vida por lutarem contra a devastação da Amazônia e por uma sociedade mais justa no norte selvagem do Brasil.

Nesta quarta-feira, o presidente Jair Messias Bolsonaro mencionou Dorothy, dizendo que ninguém culpou o governo do PT pela morte de Dorothy Stang. Ele acha injustas as críticas que está recebendo pelos comentários infelizes que fez sobre Dom Phillips e Bruno Pereira, e pela situação precária de segurança no oeste amazônico.

Para começar, durante os governos de Lula e Dilma, havia SIM muitas críticas de ambientalistas e ativistas sociais em relação a como o governo petista tratava a Amazônia. "Lula e Dilma passarão para a História como predadores da Amazônia", disse Dom Erwin Kräutler, em 2012, se referindo à construção da hidrelétrica de Belo Monte, no Pará. O bispo do Xingu também cobrava o governo petista paraense pelo mau desempenho da Justiça estadual em resolver o caso de Dorothy.

Havia também muita frustração por parte do Movimento Sem Terra pelo lento avanço da reforma agrária na região Norte durante os governos petistas. Mas, por outro lado, o governo Lula teve em Marina Silva uma ministra do Meio Ambiente capaz de fortalecer os órgãos de fiscalização na região. Assim, as altas taxas de desmatamento começaram a cair, a partir do primeiro governo Lula, de quase 28 mil quilômetros quadrados por ano em 2004 para 4,5 mil em 2012.

Havia, naquela época, um discurso forte de vontade de preservar a Amazônia. E de pôr ordem na região. O governo Michel Temer abandonou, então, a preservação da floresta em troca de votos da bancada ruralista. Sem ela, Temer não teria terminado seu mandato. Com Bolsonaro, os ventos mudaram de vez. Desde que ele surgiu no cenário político, passou a espalhar seu veneno verbal contra indígenas, ativistas e movimentos sociais. Ele confunde políticas liberais com liberar geral – para garimpeiros, madeireiros, caçadores e fazendeiros.

A partir de 2018, ano em que Bolsonaro alcançou destaque nacional e se elegeu presidente, as viagens para a Amazônia mudaram. Encontramos garimpeiros sem medo da fiscalização, e, ao mesmo tempo, fiscais com medo dos garimpeiros. Cartazes de apoio a Bolsonaro são onipresentes na Amazônia, ao lado das fazendas onde se desmata e se queima a floresta sem medo de punições. Com o governo Bolsonaro, as multas ambientais se foram, levadas pela boiada.

A Amazônia virou uma terra sem lei. Abandonada pelo governo que deveria pôr ordem lá. Aliás, vale lembrar que Bruno Pereira tinha sido exonerado do seu cargo na Funai depois de organizar uma megaoperação contra garimpeiros. Aparentemente, um governo que se diz conservador e de direita não gosta de conservar nem de pôr ordem.

Assim, quem hoje em dia manda em regiões como o Vale do Javari são grupos criminosos, até internacionais, com narcotraficantes vindos do Peru, da Colômbia e da Venezuela fazendo negócios em terras brasileiras. Cadê o Exército brasileiro, que tanto fala da soberania sobre a Amazônia? Está, aparentemente, ocupado em fiscalizar urnas eletrônicas em vez de combater crimes. Cadê a ordem e o progresso?

Quantas vezes ouvimos o general Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional, denunciar ONGs e ativistas estrangeiros por supostamente quererem roubar a Amazônia. Até suspeitava-se que Heleno teria mandado grampear bispos católicos antes do Sínodo sobre a Amazônia, em 2019. Errou o alvo. Buscou comunistas atrás das árvores, mas não viu os narcotraficantes.

Os inimigos do país não são os bispos, nem os fiscais, nem os ativistas ambientaos ou os indígenas. É o crime organizado, que, sob o governo Bolsonaro, se sente livre para se expandir. Não só na Amazônia, aliás, mas também em cidades como Rio de Janeiro, onde cada vez mais áreas estão sob o domínio da milícia.

O Brasil nunca será uma Venezuela, repete Bolsonaro. Bom, pode não ser uma Venezuela, mas cada vez mais, o Brasil parece estar a caminho de se tornar um narco-Estado como o México ou a Colômbia. Uma terra sem lei.

Dom Phillips e Bruno Pereira lutavam contra essa degradação do Brasil. Tarefa que deveria ser do próprio Bolsonaro e seu governo. Por seus serviços pelo Brasil, Dom e Bruno ganharam nada menos que o desprezo presidencial.
Thomas Milz

quinta-feira, 16 de junho de 2022

Pensamento do Dia

 


Governo parece aceitar uma Amazônia sob domínio de criminosos

No segundo mês de mandato, Jair Bolsonaro mandou avisar que estava declarando "guerra ao crime organizado". O presidente enviou ao Congresso uma mensagem que replicava o marketing da campanha eleitoral e dizia que o governo não teria "pena nem medo de criminoso".

O próprio Bolsonaro faz questão de desmoralizar esse esforço fajuto de propaganda –com os típicos traços de crueldade de seu discurso. Nesta quarta (15), o presidente praticamente responsabilizou o indigenista Bruno Pereira e o jornalista Dom Phillips por terem desaparecido na Amazônia.

Bolsonaro disse que a dupla fazia "uma excursão" pelo Vale do Javari e apontou que os dois ficaram em perigo porque "resolveram entrar numa área completamente inóspita sozinhos, sem segurança". Como se os assassinos não fossem os únicos culpados, ele acrescentou que era "muito temerário" andar pela região sem estar preparado.


O monitoramento da Amazônia é um desafio para qualquer governo, mas Bolsonaro abriu mão de qualquer empenho. Ele reconheceu que grupos criminosos circulam livremente na região e afirmou que Pereira e Phillips podem ter sido mortos porque incomodavam quem pratica atividades ilegais. "Lá tem tudo o que se possa imaginar", disse.

Dias antes, o vice-presidente Hamilton Mourão havia usado o mesmo tom resignado para falar daquele pedaço da Amazônia. "É uma região inóspita, afastada de tudo", descreveu. "Do lado peruano, uma série de ilegalidades acontecem. Do nosso lado, também. As duas pessoas entram numa área que é perigosa sem pedir uma escolta, sem avisar efetivamente as autoridades competentes, e passam a correr risco, né?"

Mourão e Bolsonaro preferiram não lembrar que a ocupação da área pelo crime organizado também é consequência de décadas de ausência do Estado. Um governo que diz defender a todo custo a soberania e a proteção do território parece mais do que conformado em ver a Amazônia como uma terra sem lei.

Na Amazônia, o coração das trevas

O assassinato dos heróis amazônidas Bruno Pereira e Don Philipps (já se deve falar assim) em plena atividade nas investigações que realizavam sobre atividades ilegais nas remotas regiões do vale do Javari no extremo oeste da Amazônia, além da comoção mundial que suscitou, trouxe para nós com evidência solar o projeto de capitalismo pirata que serve de bússola de orientação do governo Bolsonaro, apresentado sem subterfúgios em reunião ministerial de infausta memória nos idos de junho.


Foi nela que se alardeou o programa de desmatamento sistemático da floresta para fins de expansão do agronegócio, abrindo passagem para a boiada, na expressão do seu ministro do Meio Ambiente, na presença patibular da sua ministra da Agricultura, quando também foram ouvidas manifestações escandalosas de teor predatório das nossas instituições e dos valores cultivados por que há de melhor em nossas tradições nacionais.

O que o país e o mundo não sabiam até o desfecho trágico do assassinato dos amazônidas Bruno e Don era que havia homens com têmpera de heróis que, mesmo desprotegidos e desprovidos de recursos, porfiavam em defesa da floresta e dos seus povos enfrentando riscos mortais, denunciando, mesmo que com baixo poder de vocalização à opinião pública, nacional e estrangeira, os crimes de lesa pátria que ali se praticavam.

A execução criminosa deles destampou para horror universal – alguém já lembrou propósito o Coração das Trevas de J.Conrad – a crueldade a que estavam expostos os naturais da região, particularmente os indígenas, objetos da exploração predatória exercida por uma rede de pequenos interesses que estavam na ponta a serviço de grossos interesses capitalistas, envolvendo inclusive setores do narcotráfico e da traficância de armas, em movimentos expansivos que visavam por sob controle grande parte dos imensos recursos naturais ali disponíveis.

A ocupação criminal daquela região não pode ser encoberta pela razão cínica de que ali o Estado estava a léguas de distância, embora ele contasse com um histórico de presença, mesmo que rudimentar, malbaratada que foi pela ação do governo Bolsonaro em sua política de abrir uma estrada real para a passagem de boiadas, pastos, mineração, das madeireiras e tudo que pudesse ser convertido em objeto de lucro pela ação de caçadores da fortuna, agentes da livre iniciativa na linguagem do nosso governante, num capitalismo flibusteiro renomeado com o solene nome de defesa da soberania nacional.

Será desse lugar remoto da floresta que pela ação destemida de intelectuais locais aliados a indígenas e a segmentos da população amazônida, conscientes da necessidade de interlocução com a opinião pública nacional e estrangeira e com círculos universitários, especialmente os vinculados às universidades da Amazônia, que vai ter partida o movimento até então o mais significativo, pela ressonância externa e interna que provoca, na estratégica questão ambiental para a democracia brasileira.

Dali desvela-se a trama que põe a nu as redes dos interesses do nosso capitalismo autoritário, na antiga conceituação do antropólogo Octávio Velho, cujas raízes estiveram e estão radicadas no mundo agrário solidamente defendidas pelos aparelhos repressivos à disposição dos movimentos expansivos do capital entre nós. Emancipar a região das fronteiras amazônicas do crime organizado, protegê-la por um Estado democrático no que pode vir a ser a missão da iniciativa atual do Senado em instituir uma comissão para averiguar o que se passa no vale do Javari, pois que é de lá que deveremos decifrar o projeto sinistro em curso de assentar no país uma nova floração para o capitalismo autoritário.

O trágico episódio que vitimou nossos bravos amazônidas, trazendo para o centro da agenda do mundo civilizado os temas dominantes no cotidiano de resistência em que viviam, é exemplar do papel transformador que a convicção fundada nos ideais de justiça é capaz de operar.

Quem Bolsonaro culpa pela morte de Bruno Pereira e Dom Phillips

Garimpeiros ilegais que roubam a riqueza das reservas indígenas? Ele já foi um deles quando era soldado. Sempre os elogia. Garimpeiros, legais ou ilegais, votam em Bolsonaro.

Pescadores ilegais que contrabandeiam milhares de toneladas de peixes para países vizinhos? O Ibama finge que não os vê. Votam em Bolsonaro, assim como milicianos, traficantes.

Grileiros de terras indígenas demarcadas ou não? Grileiros de quaisquer tipos de terra na Amazônia? Essa gente sabe ser agradecida. Bolsonaro é seu padrinho, e por isso vota nele.

Desmatadores que trabalham para empresas nacionais ou internacionais, não ganham lá grande coisa, mas o que ganham dá para viver? Bolsonaro anistia suas multas. Eles votam nele.

O crime organizado, nacional e transnacional, que hoje atua em boa parte da Amazônia de vez que a presença do Estado é nenhuma? Por que Bolsonaro o culparia? São parceiros.

Descarte-se os militares. São poucos. Os oficiais contam os dias que faltam para sair dali. Sonham com postos no litoral. Dizem que a Amazônia é nossa, mas sabem que não é. Apoiam Bolsonaro.


Vou dar uma pista de quem Bolsonaro culpa pela morte do indigenista Bruno Pereira e do jornalista inglês Dom Phillips, radicado no Brasil há muito tempo, casado com uma brasileira.

Na Flórida, Estados Unidos, depois de pedir ao presidente Joe Biden ajuda americana para se reeleger, Bolsonaro disse ao comentar o 7º dia de buscas aos dois desaparecidos:

“Eles, quando partiram, as informações que temos é que não foi acertado com a Funai. Acontece, né. As pessoas abusam, né”.

Quer outra pista para descobrir a resposta à pergunta sobre quem Bolsonaro aponta como responsável pelo assassinato bárbaro dos dois? Lá vai. Há 48 horas, Bolsonaro declarou:

“Já se levanta o comportamento deles na área, se era querido ou não. Lamento terem saído da forma como saíram, duas pessoas em terras desprotegidas. Tudo tem ali, até pirata”.

Última pista antes da revelação que você intui ou já sabe: ontem à tarde, a poucas horas de agentes federais descobrirem aonde estavam enterrados pedaços dos corpos, Bolsonaro disse:

“Um inglês e um brasileiro que sabiam dos perigos da região. […] Estão me culpando agora. Quando mataram a Dorothy Stang ninguém culpou o governo, era de esquerda”.

Bingo! Sim, Bolsonaro culpou Bruno Pereira e Dom Phillips pela própria morte. Não poderia ter sido mais claro ao dizer por fim:

“Esse inglês era malvisto, fazia muita matéria contra garimpeiros, questão ambiental, então, naquela região que é bastante isolada, muita gente não gostava dele. Ele tinha que ter mais que redobrada atenção para consigo próprio e resolveu fazer uma excursão.”

Fique sabendo o mundo que quem defende a Amazônia corre risco de morrer no Brasil de Jair Messias Bolsonaro.