segunda-feira, 7 de junho de 2021

Acorda, Brasil

Urge colocar um cabresto na cabeça do presidente da República, Jair Bolsonaro. E calibrar rápido essas correias para frear o insano galope presidencial em curso. Como demonstrou o engavetamento do processo disciplinar contra o general da reserva e ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, o desfibrilado Alto-Comando do Exército abriu porteira a uma anarquia fardada de cima para baixo. Com as PMs de vários estados já bandeadas como linha de frente do capitão, Bolsonaro sabe que também pode contar com a confraria fortemente armada das milícias, que aguarda apenas a ordem para sair das sombras e atropelar o que resta de Brasil civil e civilizado. Uma pesquisa de julho do ano passado já mostrava que 12% dos policiais militares eram favoráveis à prisão de ministros do STF e ao fechamento do Congresso.

As minudências do “episódio/provocação Pazuello”, desencadeado por Bolsonaro, conseguiram eclipsar por um dia outras constantes nacionais como o descontrole da Covid-19, cuja curva de mortandade aponta para a inimaginável marca de 500 mil vidas descartadas, além de 13 estados com UTIs novamente lotadas e uma CPI que desenterra os porões da (ir)responsabilidade do governo. O desmatamento da Amazônia também acaba de atingir o pior índice para maio desde 2016, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), enquanto a brutalidade policial contra o cidadão comum está cada dia mais escancarada. É um desmatamento institucional de vidas — a humana, a animal, a ambiental, a política —pela força.


Não bastasse, ainda temos a Copa América, rebatizada de Copa das Cepas pelo escritor Ruy Castro. Se é que Copa haverá. A absurda realização do evento deslocado às pressas para solo brasileiro, com a participação de dez seleções e um número indefinido de possíveis variantes do vírus, corre o risco de ter apenas um torcedor desvairado —Jair Bolsonaro. Além,é claro, da quadrilha de sempre — a CBF. O presidente apostou forte no poder anestesiante de uma bola rolando em estádios, com um possível triunfo da seleção canarinho.

Errou feio.

Cinquenta e um anos atrás, outro capitão, o jogador Carlos Alberto, tornara o Brasil o primeiro tricampeão do mundo ao marcar o último gol do histórico 4 a 1 contra a Itália, no México. Naquele junho de 1970, vivia-se aqui a fase mais repressiva da ditadura militar, mas a pátria dos “90 milhões em ação” comemorou como se não houvesse o amanhã da tortura, dos mortos e desaparecidos, do aniquilamento da vida nacional. Naqueles anos sombrios, venceu o “Ame-o ou deixe-o”.

Desta vez, será diferente: essa Copa bolsonarista tem tudo para dar errado. O enjeitado torneio, expelido da Colômbia e da Argentina por motivos diferentes, fará pouso arriscado num país que se arrasta em 79º lugar entre 180 países no ranking mundial de vacinados com duas doses. Somada à notícia de que vários convocados da seleção canarinho, atuantes em times europeus, poderão até desistir de jogar —seja por pressão, precaução ou convicção —, deve ter acendido alerta brabo nos organizadores. Mesmo que o evento seja disputado nos quatro estados acordados, a possibilidade de um desempenho pífio do Brasil agravará o efeito político bumerangue da coisa.

A propensão de Bolsonaro por gerar crises e planejar estultices é deliberada, fruto de sua insegurança conspiratória na Presidência. Impregnado de estratagemas usados à exaustão por Donald Trump, o primeiro presidente dos Estados Unidos a utilizar a expressão “meus generais” e a tentar um autogolpe para manter-se no poder apesar de derrotado nas eleições, o capitão no Planalto já quase oficializou sua estratégia para 2022, caso saia surrado nas urnas: simplesmente invalidar o resultado, convencer seus apoiadores de que houve fraude e convocá-los a mantê-lo no poder somando o uso da força ao caos nacional.

Convém não esquecer que, embora o assalto ao Congresso promovido por Trump não tenha conseguido impedir a posse de Joe Biden em 2021, a ala majoritária do Partido Republicano sustenta até hoje que o processo eleitoral foi fraudado e promete troco nas próximas eleições legislativas (2022) e presidenciais (2024). As conspirações para abalar a democracia nos Estados Unidos são bem financiadas, persistentes e alarmantes. Felizmente, nem todas chegam ao desvario do general da reserva Michael Flynn. Semanas atrás, o ex-assessor de Segurança Nacional de Trump sugeriu publicamente que as Forças Armadas dos EUA dessem um golpe de Estado semelhante ao dos militares de Mianmar, que causou perto de 800 mortes quatro meses atrás.

Tempos brabos, em resumo. Portanto, tempos de o Brasil encarar o pesadelo nacional de olhos bem abertos.

Escárnio, caos e retrocesso

Que o presidente Jair Bolsonaro não tem qualquer apreço por regras, normas, leis é algo sabido. Há mais de 30 anos, a indisciplina colocou fim à sua curta carreira militar lançando-o nos lucrativos braços da política do baixo clero, para a qual carreou a sua prole. De mau militar no passado se tornou um mau político e mau presidente, que insiste em dar maus exemplos.

A obsessão de Bolsonaro em romper regras beira o vício. Por vezes, desfila de motocicleta sem usar capacete, como fez no Acre, carregando o empresário Luciano Hang, e em Rondônia, com o ministro Tarcísio de Freitas na garupa, ambos também sem a proteção obrigatória. Tudo sob os olhos passivos da Polícia Rodoviária. Fanfarrão e sorridente, zomba dos mais de 470 mil mortos pela Covid-19 – de suas famílias e dos exauridos profissionais de saúde que se empenham pela vida – ao expor nas redes sociais vídeos de suas aglomerações, sem máscara, desafiando as normas sanitárias. Prega remédios milagrosos, inventa estatísticas, mente compulsivamente.


É tão avesso às normas que chegou ao absurdo de afrontar as estruturas de seu próprio governo ao estabelecer um gabinete paralelo para tocar os procedimentos de combate à pandemia, todos na contramão da ciência. No vídeo divulgado pelo Metrópoles de uma reunião de Bolsonaro com “conselheiros”, entre eles o deputado Osmar Terra, o mesmo que dizia que a Covid-19 faria menos vítimas do que a H1N1, e a imunologista Nise Yamaguchi, árdua defensora da hidroxicloroquina, o virologista Paolo Zanotto defende, sem qualquer constrangimento, a formação de um shadow cabinet (gabinete da sombra, literalmente).

O nome, importado do Reino Unido, refere-se à prática da oposição de juntar um time para fazer frente ao programa e ações do governo da vez, o que torna surreal uma formação semelhante patrocinada por quem está no poder. A iniciativa bolsonarista só se explica para fugir da publicidade, do Diário Oficial, da obrigação legal de transparência nos atos públicos.

Mas a consagração do desrespeito às regras foi o episódio da não punição do general Eduardo Pazuello, com quem Bolsonaro dividiu palanque no Rio de Janeiro depois de uma motosseata em que usou capacete e, mais uma vez, dispensou a máscara. O presidente premiou a transgressão do ex-ministro da Saúde nomeando-o para um cargo no Planalto, ao seu lado, deixando claríssimo que não aceitaria que ele recebesse nem mesmo um leve puxão de orelha. Foi atendido com a perigosa quebra do regulamento militar, expresso em lei de 2002, baliza da hierarquia e da disciplina.

Ao fazê-lo, o general Paulo Sérgio Nogueira também infringiu o código por “deixar de exercer autoridade compatível com seu posto ou graduação” – item quatro dos 113 expressos na relação de transgressões passíveis de punição. Mais do que se anular como comandante, deixou o Exército de cócoras diante de um presidente que da boca para fora tece loas às Forças Armadas, mas que por elas não nutre respeito algum. Quer apenas manipulá-las a seu bel prazer.

A falação contra as leis faz parte da história de Bolsonaro. Rendeu-lhe votos e continua sendo a chave para assegurar seguidores fiéis. Deputado, notabilizou-se como apologista da tortura. Cuspia na Lei da Anistia, aplaudia o pau-de-arara, a morte de comunistas – o eterno inimigo imaginário -, agradando à minoria carpideira, saudosa dos anos de chumbo.

Presidente, passou a operar cotidianamente para derrotar a legalidade e sujeitar o Estado às suas vontades. E já antecipou que sem voto impresso vai mandar às favas a legislação eleitoral, negando-se a aceitar o resultado das urnas diante de uma eventual – e provável – derrota em 2022. Recentemente, passou a alardear um falso respeito às “quatro linhas da Constituição”, divertindo-se com reiteradas ameaças de romper esse limite, descaradamente em nome do “poder do nosso povo”.

Bolsonaro se lixa para as instituições ou para as quatro linhas que tanto cita. Faz de tudo para detoná-las. Ao mesmo povo que prometia “respeitar” e fazer valer o lema “ordem e progresso”, entrega escárnio, caos e retrocesso.

Zé Bozo e Zé Ninguém

O psicanalista Wilhelm Reich acabou expulso do Partido Comunista alemão depois de publicar seu “Psicologia de massas do fascismo”. Entre outros, o conteúdo desagradara aos soviéticos. O ano era 1933, Hitler chegara ao poder, e Mussolini já realizava suas “motociatas” por cidades italianas. Ambos estimulavam a violência como arma política — ganham o poder pelo incentivo ao ódio, disseminação do medo e construção de fake news. Como Lênin.

A tese de Reich: os fascistas (e nazistas) chegaram ao poder como sintoma da repressão sexual que, praticada desde a infância, leva os adultos a abraçar o autoritarismo. Castrados em seus desejos, reprimirão quem possui outro comportamento, mais libertário. O reprimido precisa da ordem unida para acalmar sua ansiedade, fruto de suas vontades abortadas. Daí clamarem sempre por uma ditadura e darem pouco valor à vida (com a camisa da CBF).

Os cristãos adjetivam aqueles que vivem diferentes de seus conceitos como “pecadores”. Os fascistas, como “comunistas” e “depravados”. Os comunistas classificam seus opostos como… “fascistas”. Não à toa, o pobre Reich foge das tropas nazistas para a Noruega e depois se estabelece nos Estados Unidos, onde é encarcerado por suas ideias (como as narradas acima). Em 1954, o juiz ordena que seus livros sejam destruídos. Em plena Guerra Fria, ele conseguiu desagradar a russos e americanos.


'O Zé Ninguém, que é povo, odeia o povo'

Pena que o Bozo (e o Heleno) vivam afastados dos livros. Saberiam que, décadas atrás, eles e seus seguidores foram catalogados por Wilhelm Reich noutro clássico: “Escuta, Zé Ninguém”. A obra também desagradou ao Malafaia da época (1948) e acabou censurada em muitos países. O Zé Ninguém é o sujeito médio, do bom senso, medianamente inculto; poderia ser o homem comum; é ainda o sujeito que, tudo bem, pode se privar da liberdade e até de ter opinião própria, desde que possa imprimir sua frustração sobre os demais. É também o cara nomeado com pequenos poderes. Frustrado fundamentalista, oprime os amigos e obedece aos inimigos. Se chegou ao poder para salvar o povo, massacrará esse povo. Porque não tem empatia — e daí?

Dá pouco valor à existência, porque afinal a vida terrena é um inferno e, como garantiu o Malafaia de sempre, depois da tempestade vem a bonança ou o paraíso. Com adiantamento de dízimos.

A ascensão do Bozo ajudou a destampar a garrafa onde adormecia o espírito do Zé Ninguém. Perseguido pelo medo da falência sexual, o Zé Ninguém busca apoio (conforto) no confronto, no preconceito ou na encrenca. Também nos meios capazes de escamotear seu medo, como armas, fardas (mesmo que seja a de zelador) e máquinas velozes.

Pipocam diariamente exemplos de pequenos ditadores, aqueles munidos de uma autoridade restrita, porém capaz de azucrinar os demais. Desde o policial que prende o motorista com o carro adesivado em protesto contra as atrocidades do Bozo a outro mané, que processa o cidadão por externar num outdoor sua indignação com a falta de vacina. Alguém aí mentiu? Temos também os senadores da CPI da Covid, machos-alfa diante das mulheres, mas soltando miados fininhos diante do general Pazuello. Covardia.

Ou ainda se esconde na farda de soldadinho para dar os tiros assassinos em Recife contra manifestantes desarmados e pacíficos. Que pediam vacina! Ah, comunistas! De novo: o Zé Ninguém, que é povo, odeia o povo. Tem ódio de seu espelho, em especial quando não reza pelo mesmo credo.

Os sinais emitidos diariamente pelo Zé Bozo servem de guia a seus seguidores. A violência, movida por ressentimentos e frustrações, ocorre imitando a história. Foi assim sob Stálin (gente que entregava o vizinho para roubar sua casa), foi assim sob Hitler (deduragem por inveja pequena).

É onde entra em cena um ogro no papel de diretor da Fundação Palmares. Qual soldado descerebrado, vomita todo o ódio emanado pela chefia contra negros, esquerdistas e pessoas de talento. Pinçado no RH das redes sociais, exerce seu pequeno poder contra quem já é história em vida, como Gilberto Gil ou Martinho da Vila. É um ignorante pago com dinheiro público para tentar destruir aquilo já consagrado pelo público. Mussolini tentou algo igual e acabou no poste. De ponta-cabeça em praça pública.

domingo, 6 de junho de 2021

Pensamento do Dia

 


Missão cumprida: o Exército no governo

O general Paulo Sérgio Nogueira deve ter seus motivos para decidir poupar o general Eduardo Pazuello de qualquer das sanções previstas no Regulamento Disciplinar do Exército (RDE) para quem o transgredir. Mas depois dela, o Exército é menos confiável.

A defesa de Pazuello certamente não pode ser o respaldo do comandante do Exército, pois nega natureza política ao ato do presidente da República do qual participou o general perdoado.

O Exército aceitou uma explicação do general-réu que faz letra morta a máxima consagrada do político americano James Schlesinger, segundo a qual todos têm direito à própria opinião, mas não aos próprios fatos.

Não só o ato que levou Pazuello ao palanque era político, como também é inteiramente política a decisão de seu comandante. Pode ser um recuo tático decidido após uma avaliação da dimensão da crise em caso de uma punição vir a ser revogada pelo presidente da República.


Pode também resultar de uma relação custo/benefício com base na premissa de que punir o general enfraqueceria o presidente da República e, por extensão, fortaleceria o adversário inesperado, Lula da Silva, ameaçando a reeleição de Bolsonaro e o retorno da esquerda ao poder.

Pode ser ainda a inconveniência de arriscar o banquete dos contracheques, engordados pelos mais de três mil cargos militares no governo. Em qualquer hipótese – e em todas elas – Nogueira pode dizer “Missão Cumprida, em nome do Exército.

Com uma decisão política, o comandante do Exército nega ato político ao subordinado e negligencia aspectos sensíveis, como a mensagem de sublevação enviada às tropas não só das Forças Armadas, mas também das corporações militares estaduais que já dão sinais de insubordinação.

O preço político é caro especialmente para as altas patentes que sonharam reescrever a história de 64, cuja versão prevalecente consideram inverídica. A decisão de Paulo Sérgio devolve a desconfiança com relação ao compromisso constitucional dos militares reafirmado inúmeras vezes pelos seus antecessores.

Ocorresse em clima de absoluta normalidade, a exceção feita a Pazuello seria errada e condenável, por ser exceção. Mas antecedida das bravatas presidenciais como a de afirmar e reafirmar que o Exército lhe pertence e de empossar o general infrator em cargo estratégico enquanto seu caso era avaliado, soa como uma submissão envergonhada.

Com “seu” Exército (já se pode tirar as aspas do pronome possessivo), qualquer ação ou atitude do presidente da República, daqui para a frente, constitucional ou não, sóbria ou delirante, justa ou injusta, terá sempre o tom verde-oliva da ameaça implícita.

Depois de uma fala em rede nacional de televisão em que disse jogar “dentro das quatro linhas da Constituição”, Bolsonaro obtém do Exército aval para as Forças Armadas trafegarem na contramão de suas normas internas e da própria Carta Maior.

A confiança civil nas Forças Armadas é menor desde a decisão do comandante do Exército Paulo Sérgio Nogueira. O Exército se curva pela segunda vez a Bolsonaro na ilusão de que é melhor não comprar a provocação e reproduz em Pazuello hoje o Bolsonaro de ontem.

E ainda cabe uma desconfiança: especialistas em contrainformação, os militares que se manifestaram pela punição a Pazuello na mídia poderiam estar apenas emprestando credibilidade a um enredo que precisa sugerir uma análise séria e detida do caso.

Que pode sequer ter havido. Retardar o anúncio de uma decisão de primeira hora pode fazer parte do script.

Brasil e Venezuela irmanados

Os militares daqui estão enfrentando o que os da Venezuela enfrentaram no início do período chavista. Bolsonaro persegue o modelo de Chávez. Ele, como Chávez, quer reduzir o comando dos militares para transferi-lo para a política. Ou seja, para ele
Raul Jungmann, ex-ministro da Defesa

A carnificina bolsonarista

Jair Bolsonaro intensificou seu projeto de golpear as instituições democráticas e impor uma ditadura. Sempre deixou claro, desde a longa carreira parlamentar, que era um adversário do Estado democrático de Direito.

No exercício da Presidência — antes ainda da pandemia — deu inúmeras declarações, no Brasil e no exterior, de simpatia para com as ditaduras e de incômodo com os limites constitucionais estabelecidos ao poder Executivo pela Constituição de 1988. Ao mesmo tempo, foi solapando o aparelho de Estado, minando o que foi edificando, com muito esforço, nos últimos trinta anos.


Deve ser recordado que o Brasil tem uma longa presença autoritária na esfera política. A construção de uma cultura política democrática nunca foi um elemento presente no nosso cotidiano. As veleidades autoritárias sempre estiveram presentes, mesmo em momentos de relativo funcionamento de instituições democráticas. O uso da força rondou a nossa história republicana. O golpismo foi durante décadas uma carta guardada para ser utilizada em momentos de impasses. E desde 1889 inúmeras vezes foi utilizada. O entendimento que, na democracia, é necessário conviver com a diferença, com a pluralidade, com a alternância no poder, com o respeito às instituições, nunca foi compreendido pelas elites políticas. E o povo, no seu mutismo, não compreendeu que reside na democracia a única possibilidade de enfrentamento das desigualdades sociais – isto em um dos Países mais desiguais do mundo.

O ano de 2021 está expondo de forma absolutamente transparente as contradições da democracia brasileira, suas limitações e possibilidades. Só que apresentando uma variável inexistente em outras crises da República: a pandemia. Ela está atingindo o âmago do Estado democrático de Direito. O nazifascismo bolsonarista estabeleceu na morte o foco de sua ação política. O desprezo pela existência humana atingiu o ápice. Como não há guerra externa, restou aos extremistas atacar, pelo negacionismo, os brasileiros. A carnificina sem fim é o objetivo central dos genocidas. Resistir é uma tarefa de sobrevivência nacional.

Como de hábito — e a história republicana tem vários exemplos — a reação é normalmente tardia. Mas quando vêm, chega com força e de forma surpreendente.

As primeiras grandes manifestações de rua, somadas às pesquisas de impopularidade, o agravamento da pandemia, a lenta recuperação econômica, podem interromper a matança antes que seja tarde demais.

Amados bandidos

Um obscuro major das Forças Armadas Angolanas, Paulo Lussaty, foi preso em Luanda, há poucos dias, quando tentava abandonar o país carregando em várias malas mais de 10 milhões de dólares e quatro milhões de euros. O referido oficial, ligado à Casa de Segurança do Presidente da República, terá conseguido transferir para o exterior mais de um bilhão de dólares. 

Sempre que leio notícias como esta penso naqueles filmes ou séries, ao estilo “Casa de Papel”, nos quais um grupo de malfeitores se junta para montar um grande golpe. Estes bandidos são quase sempre gênios da informática. Passaram também muitos anos praticando equitação, esgrima, mergulho, e estudando filosofia, física nuclear e mecânica quântica. Se tiverem sorte, chegam ao final do filme com um milhão de dólares — a distribuir por todos. Quase nunca têm sorte.

Os malfeitores angolanos, esses, roubam um bilhão de dólares sem correrias nem sustos. Não se servem da inteligência e menos ainda da imaginação. Não investem anos a estudar. Não cansam o corpo a treinar artes marciais. Bastam-lhes dois gramas de ousadia e uma alegre e natural falta de escrúpulos.


Bandidos ao estilo da “Casa de Papel” suscitam inevitável simpatia. Admiramos neles a coragem com que enfrentam o tédio de um quotidiano que nos amarra a todos, e a inteligência com que ludibriam as regras do sistema. Ronald Biggs, que fugiu para o Brasil em 1970, após participar no assalto a um trem postal, na Inglaterra, levou no Rio uma existência feliz e festiva. Amados bandidos

Chegou até a tentar carreira como cantor. 

Em Portugal, o criminoso mais amado e respeitado da história atende pelo nome de Alves dos Reis. O português começou a sua carreira de vigarista aos 20 anos, falsificando um diploma de engenheiro que lhe permitiu trabalhar em Angola, onde ajudou a construir e ampliar uma importante estrada de ferro. Quando engenheiros legítimos colocaram em dúvida a segurança de uma ponte desenhada por ele, subiu na locomotiva, acompanhado pela mulher e filhos, e conduziu ele mesmo o trem. Em 1924, falsificou um contrato em nome do Banco de Portugal, com o qual conseguiu mandar imprimir em Londres 200 mil notas de 500 escudos — quase um por cento do PIB português de então. Com parte desse dinheiro fundou um banco em Angola. Preso no ano seguinte, alegou que engendrara todo o esquema com o único objetivo de promover o desenvolvimento de Angola. Ainda hoje há quem acredite nele e o defenda.

Acho mais difícil simpatizar com os atuais bandidos angolanos, que usam o dinheiro de todos para comprar carros e relógios; dinheiro esse que poderia servir para formar médicos e professores, construir escolas, ou combater epidemias. A rainha destes bandidos é Isabel dos Santos, a filha do anterior presidente, José Eduardo, que ainda há pouco era celebrada em todo o mundo como uma grande empresária, a mulher mais rica da África. Mesmo caída em desgraça continua tendo inúmeros admiradores. Basta visitar a sua página no Instagram.

Já não se fazem bandidos como antigamente. Não faltam, contudo, os tolos capazes de os amar.

Bolsonaro e a anarquia militar

A indulgência do comandante do Exército, Paulo Sérgio Nogueira, ao ato de flagrante indisciplina do general Eduardo Pazuello, terá consequências de alto risco para a conjuntura política brasileira. Mas não se pode dar a essa decisão a responsabilidade pela instalação da anarquia entre os fardados. Ela fomenta a anarquia, é certo. Mas o caldo da insubordinação começou a ferver faz tempo.

O marco mais explícito da permissividade nos quartéis deve-se a outro comandante da força, o general Villas Bôas, e seu post ameaçando o STF na véspera da votação do habeas corpus de Lula, em 2018. Na campanha daquele ano, militares da ativa engajaram-se com desenvoltura em exércitos digitais, públicos ou não, a favor de Bolsonaro. Como se sabe, em instituição hierarquizada o exemplo vem de cima.


Também deu mau exemplo o então ministro da Defesa, Fernando Azevedo, quando acompanhou Bolsonaro em sobrevoo de apoio à manifestação contra o Congresso e o STF, que pedia “intervenção militar”. Ao ser defenestrado, em março, afirmou ter preservado as Forças Armadas como “instituições de Estado”. Cinismo ou ingenuidade?

É claro que há nuances e divergências de pensamento entre os militares. Mas essas diferenças não abalam, por ora, o projeto que os trouxe de volta ao poder. Este é um governo colonizado por e para militares, com seus salários, cargos, mordomias, privilégios e outras benesses.

As Forças Armadas carregam a mancha de 21 anos de ditadura, tortura e morte de opositores. Com Bolsonaro, reforçam sua tradição golpista, associam-se ao morticínio de brasileiros na pandemia, afundam-se no pântano da história. Mas não estão sozinhas. Bolsonaro fermenta o caos com a complacência de parcelas da sociedade civil, como o capital financeiro, oligarcas do agronegócio, setores do Legislativo e do Judiciário, mídia, igrejas. A desgraça deste país é uma obra coletiva.

Um torneio na hora errada, no lugar errado

Autocratas gostam de eventos esportivos internacionais. Eles são ótimos para distrair a atenção de crises. A nação se volta em direção a seus supostos heróis, sob cuja luz o governo também gosta de se banhar. Portanto, é compreensível que o presidente Jair Bolsonaro tenha concordado imediatamente quando a Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) lhe perguntou se a Copa América deste ano poderia ser realizada no Brasil a curtíssimo prazo.

A Conmebol estava num dilema. Inicialmente, o torneio seria realizado na Colômbia e na Argentina. Primeiro a Colômbia desistiu devido às manifestações populares por mais justiça social, que foram respondidas com violência assassina pelas forças de segurança. Em seguida, a Argentina também recuou porque o governo avaliou que a pandemia de covid-19 ainda estava fora de controle.

Aflito – o pontapé inicial do campeonato é em menos de duas semanas –, o presidente da Conmebol, o paraguaio Alejandro Domínguez, recorreu ao Brasil. Ele contactou o presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), que por sua vez ligou para Bolsonaro – e em poucos minutos recebeu uma resposta positiva.


O evento chega na hora certa para Bolsonaro. O presidente de ultradireita está mergulhado em uma profunda crise. Seus índices de aprovação são os mais baixos desde que ele tomou posse, e centenas de milhares foram às ruas contra seu governo no sábado passado. O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, é suspeito de estar em conluio com a máfia madeireira. Além disso, uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) expõe todos os dias o fracasso do governo na gestão da pandemia.

Bolsonaro pode ter pensado que, diante da situação atual, não seria uma má ideia ser fotografado com a superestrela Neymar e outros jogadores brasileiros, a maioria dos quais é completamente apolítica.

Os cerca de 500 mil brasileiros que provavelmente terão morrido de covid-19 no país até o início da Copa América não têm qualquer relevância nesse cálculo cínico. Desde o início Bolsonaro negou e minimizou a pandemia. Ele semeou dúvidas sobre as vacinas e fez pouco caso das mortes. Os brasileiros precisam parar de "frescura" e de "mimimi", disse o presidente.

Como resultado, as taxas de infecção no Brasil estão aumentando mais uma vez. Embora 46 milhões de brasileiros tenham recebido pelo menos uma dose da vacina contra a covid-19 (21% da população), uma média de cerca de 1.800 pessoas ainda sucumbem ao vírus todos os dias. Especialistas advertem sobre uma terceira onda de infecções e a disseminação de novas mutações. Para piorar a situação, a pobreza e a fome se espalham rapidamente no país. Cada vez mais cidadãos vivem nas ruas ou dependem de ajuda alimentar.

Mas nem Bolsonaro nem a Conmebol parecem se importar. A federação de futebol tem lutado para melhorar sua imagem desde que dezenas de membros de seu conselho foram investigados por corrupção em 2015. Para a entidade, trata-se de acordos lucrativos de patrocínio e venda de direitos para a transmissão dos jogos na televisão. Bolsonaro, por sua vez, quer passar um senso de normalidade e, de todas as formas, desviar a atenção de sua responsabilidade pelos mortos.

A CPI da Pandemia no Senado revelou que, desde o início da crise do coronavírus, Bolsonaro deixou sem resposta pelo menos 41 e-mails da farmacêutica Pfizer, nos quais a empresa oferecia ao país milhões de doses de sua vacina. Não sem razão, Bolsonaro está sendo chamado de "genocida" pela oposição.

Para Bolsonaro e para a Conmebol é, no entanto, à primeira vista, uma situação em que todos ganham. A confederação salva sua pele, e Bolsonaro desvia a atenção da pandemia. A Conmebol promete jogos seguros: sem espectadores e com delegações totalmente vacinadas dos dez países participantes. Também argumenta – corretamente – que a América do Sul já sedia campeonatos nacionais atualmente, assim como a Copa Libertadores e as eliminatórias para a Copa do Mundo de 2022 no Catar. Por que não a Copa América também?

Mas a entidade esquece que não há motivos para celebrar tal torneio no Brasil ou na América do Sul – a região mais atingida pela pandemia. Se meio milhão de mortos e a ameaça de novas mutações não são motivos para suspender o campeonato, o que mais seria? Assim como a Fifa se tornou cúmplice de regimes autoritários na Rússia e no Catar, a Conmebol está agora se tornando cúmplice de Bolsonaro.

Que ambas as estratégias podem acabar não funcionando no fim das contas, é demonstrado pela oposição generalizada nas redes sociais e também entre os comentaristas da imprensa tradicional brasileira. A Copa América 2021 já foi renomeada para "Covid América" ou "Cova América". É um torneio no lugar errado, na hora errada.
Philipp Lichterbeck

sábado, 5 de junho de 2021

Governo de coices


Ironicamente, o apelido de Bolsonaro na intimidade familiar é "Cavalão". Sabe o que diz quando fala de "quadrúpedes". Não convém discutir com especialistas

A cloroquina está longe de ter sido o pior dos pecados do governo durante a pandemia

Não entendo a obsessão dos senadores da CPI da Covid com a cloroquina. A cloroquina está longe de ter sido o pior dos pecados do governo durante a pandemia. Foi uma aposta equivocada da meia dúzia de curiosos que constituíram o gabinete de crise do Idiota Supremo, mas, a rigor, não é a principal culpada pelo rumo sinistro que a pandemia tomou entre nós.

A CPI não foi instituída para determinar se a cloroquina funciona ou não funciona contra a Covid. Isso já foi estabelecido e, a essa altura, deveria ser página virada. A função da CPI seria, se bem entendi, avaliar ações e omissões do governo. A obsessão dos senadores pela cloroquina a transformou, porém, em palanque para pessoas que disfarçam o charlatanismo por trás de diplomas de medicina.

Não é à toa que que o mundo bolsonaro comemora os depoimentos de Mayra Pinheiro e Nise Yamaguchi como grandes vitórias.

É inacreditável que, em pleno ano de 2021, uma reles fórmula científica se transforme em símbolo ideológico. Nós rimos dos nossos antepassados que acreditavam no benefício das sangrias e tomavam ópio para a tosse, mas como sociedade evoluímos muito pouco de lá para cá.


Escrevi que a cloroquina está longe de ter sido o pior dos pecados do governo não porque o gasto de dinheiro público para a sua fabricação às toneladas seja irrelevante, ou porque não seja inadmissível ver o chefe da nação insistindo em fazer propaganda de remédio ineficaz, ou ainda porque a ideia de um “tratamento precoce” não possa levar a população a uma atitude displicente; mas porque a lista de ações e de omissões do presidente e de seus ministros é maior e mais grave, e é nela que a CPI deveria se concentrar.

Faltaram exemplos, encorajamento, trabalho e seriedade; faltaram cilindros de oxigênio e remédios necessários. Sobraram leviandade e incompetência. 

O Brasil não se ressentiu apenas da falta de vacinas, mas também da falta de compostura, de decoro e de comiseração pelos doentes e pelos mortos. Faltou espírito público onde sobrou deboche.

A pandemia tem sido um período duro para todos os países, mas tem sido particularmente difícil de enfrentar no Brasil onde, além do vírus, precisamos também enfrentar o negacionismo relinchante do palácio.

A foto de Bolsonaro sem máscara no meio dos ianomâmis, na semana passada, é o retrato perfeito da sua falta de cuidado e de respeito com os brasileiros — e chega a ser obscena quando confrontada com a foto feita dias antes, de máscara PFF2, no Equador.

A patafísica para fins genocidas

A Conmebol, dona do futebol na América do Sul, deve saber o que faz ao trazer a Copa América para o Brasil. Seus dirigentes leem jornais e não ignoram que somos o único país do mundo a combater a Covid 19 de forma patafísica.

A patafísica, para quem nunca ouviu falar, é uma escola filosófica entre a física e a metafísica. Ou acima ou abaixo delas, dependendo de seu estudioso estar ou não plantando bananeira. Sua lógica é a do absurdo, sua língua oficial é o nonsense e ela se diz a ciência das soluções imaginárias. Foi fundada pelo francês Alfred Jarry (1873-1907) e, por intuição, muitos já a adotaram para explicar (ou desexplicar) a vida: o tcheco Kafka, o americano Groucho Marx, o romeno Ionesco. Mas o primeiro a usá-la para fins genocidas é o brasileiro Jair Bolsonaro.


No Brasil, bem patafisicamente, o combate à Covid é a favor do vírus. Seu estrategista e líder, o dito Bolsonaro, usa sua condição de presidente da República para expor o máximo de brasileiros ao contágio, exortando-os a ir para as ruas sem máscara, aglomerando-se, arfando e cuspindo-se uns nos outros. Pregou enquanto pôde contra a vacina, sabotou sua importação, desequipou hospitais, sonegou oxigênio e, para apressar desfechos, induziu milhões —induz ainda— a tratar-se com uma droga, a cloroquina, tão eficaz contra a doença quanto o elixir paregórico.

Por tudo isso, admiro a coragem dos jogadores, comissões técnicas, auxiliares e administradores de nove países, além de seus familiares, agentes, amigos e agregados, sem falar nos jornalistas e nos funcionários e dirigentes da própria Conmebol, que virão misturar-se conosco nas ruas, nos estádios e, quem sabe, nas UTIs —se houver vagas nos hospitais, claro.

E quem sairá vencedor de uma possível e, esta, sim, patafísica Copa das Cepas —um vibrante torneio paralelo à Copa América entre as nossas variantes e as trazidas pelos visitantes?

'Não é doença, é fome'

Era junho de 2020 quando a cantora e atendente em padaria Lígia Régia da Silva, de 38 anos, perdeu o emprego. No mesmo mês, o pedreiro Josimar Moraes, 48, foi despejado de casa porque não tinha como pagar aluguel de 600 reais, e passou a catar materiais recicláveis pelas ruas. A pandemia de coronavírus também mudou por completo a vida de Jaqueline Silva Viana, 40, uma cabeleireira que viu os dois salões em que trabalhava como freelancer fecharem no ano passado. Além da perda de renda durante a maior crise sanitária do planeta, há outro desastre que une esses três moradores de Brasília: eles estão doentes de fome. Médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde relatam que, nos últimos meses, têm percebido um aumento no número de pessoas que dão entrada em centros de saúde pública com sintomas que acreditam ser de alguma doença, mas, na verdade, estão famintas. E em plena capital do país, a terceira cidade com o maior produto interno bruto (PIB) do Brasil.

“Todas as semanas, atendo mais ou menos cinco pacientes dizendo que estão doentes, mas, quando examinamos, notamos que, na verdade, não é doença, é fome”, disse a médica Natália, que trabalha em uma unidade de saúde de Sobradinho, cidade-satélite do Distrito Federal. “Em 15 anos de profissão, nunca imaginei que ouviria relatos como os que tenho ouvido ultimamente. Ainda mais em uma cidade tão rica”, completa a profissional. Para esta reportagem, foram ouvidos doze médicos, enfermeiros, gestores e terapeutas que trabalham no Sistema Único de Saúde. Como não tinham autorização do poder público para dar entrevista, seus nomes verdadeiros foram preservados para evitar que sofram punições.

Em São Sebastião, outra cidade-satélite, os relatos são parecidos. “Já atendi paciente que chegou aqui com tontura. Quase desmaiando. Dei o meu lanche da tarde para ele e notei que seu problema era fome, não doença”, conta Marcelo, médico há 22 anos. O mesmo ocorreu em Ceilândia. “Já atendíamos pessoas com alto índice de vulnerabilidade social. Mas, antes, elas diziam que tinham comido duas ou três vezes ao dia. Agora, dizem que, quando comem uma, já se dão por satisfeitas”, afirmou a terapeuta Mariana.


Sem maneira de botar comida em casa, é comum também aparecerem pessoas com crise de ansiedade e pânico. “Imagina você ter crianças em casa e não saber como vai levar comida pra casa? É de deixar qualquer um doente, mesmo. Temos visto muitos casos assim”, diz o agente de saúde Kleidson Oliveira, que há cinco anos trabalha em ONGs que dão assistência às pessoas que vivem nas ruas ou em comunidades pobres da capital brasileira. “Nunca vi tanta gente nas ruas e em condições tão desesperadoras”, afirma.

A situação é resultado do empobrecimento da população brasileira. No ano passado, o Brasil viu disparar o número de pessoas com insegurança alimentar grave ou moderada, 27,7% da população está neste grupo. Significa dizer que cerca de 58 milhões de brasileiros correm o risco de deixar de comer por não terem dinheiro. Os dados são de uma pesquisa feita por cientistas do grupo “Alimentos para a Justiça”, da Universidade de Berlim em parceria com as universidades Federal de Minas Gerais (UFMG) e de Brasília (UnB). O levantamento contou com o financiamento do Governo alemão e foi divulgado em abril.

Desde meados do ano passado, a cabeleireira Jaqueline teve de buscar novas fontes de renda. Passou a lavar roupas para vizinhos e a fazer cortes de cabelo em domicílio. Contudo, como seus clientes também estavam com poucos recursos financeiros, viu o dinheiro minguar. Na semana passada, com três meses de aluguel atrasado —uma dívida total de 2.400 reais— e a despensa vazia, ela caminhou dez quilômetros até um centro de saúde em Ceilândia, onde o filho Ítalo recebe tratamento psiquiátrico. Lá, enquanto o rapaz era atendido pela equipe médica, ela relatou a uma outra profissional que estava se sentindo fraca e um pouco perdida, sem saber o que fazer. O diagnóstico: fome e crise de ansiedade. O nervosismo ocorria principalmente por não saber como proporcionar uma vida digna aos seus dois filhos, de 21 e 11 anos, e um neto, de 3 anos, que dependem dela para viver.

“Me receitaram remédios que nem sempre tem no posto. Preciso de 100 reais para os meus remédios e os do meu filho. Mas como vou comprar, se nem dinheiro pra comer tenho?”, indigna-se. Sensibilizados pela situação, os profissionais da unidade de saúde doaram duas cestas de alimentos para a cabeleireira. Não puderam fazer diretamente, para não vincular o atendimento na unidade à doação. Então, pediram para um conhecido entregar os produtos no dia seguinte na casa dela. Pela primeira vez no mês ela pôde abastecer o armário da cozinha. “Foi uma bênção. Só que a situação é humilhante para quem trabalha e pagas suas contas desde os 14 anos de idade.”

Situação semelhante foi relatada pela cantora Lígia Régia. Além de perder seus shows na noite brasiliense, o carro da família foi roubado com parte dos equipamentos que ela e seu pai usavam nas apresentações. “Somos cantores amadores. Não tínhamos dinheiro para o combustível, quem dirá para seguro do carro. Agora, estamos sem equipamentos e sem comida”, declarou a cantora, que vive com o pai e as duas filhas, de 8 e 3 anos. “Eu tinha dois contratos perto de serem assinados. Não tenho perspectiva de nada mais”.

As campanhas de doações de alimentos que os postos de saúde realizam acabam por ajudar centenas de pessoas que não têm o que comer. Eles angariam apoio de vizinhos da comunidade que se mobilizam para entregar alimentos não perecíveis por meio de agentes comunitários. “Não chega a ser um trabalho organizado. É apenas um alento, um carinho, o único remédio pra fome é a comida”, afirma a gestora Eliza, uma das organizadoras dos programas de arrecadação.

As campanhas, no entanto, atingem apenas os pacientes que têm moradia fixa. Não é o caso do pedreiro e catador de recicláveis Josimar. “Fome? É claro que eu já passei e ainda passo, de vez em quando. Quando comecei a catar latinhas, eu nem sabia pra quem eu tinha de vender. Nos últimos dois meses me estruturei melhor, mas ainda tem dias que não sei se terei o almoço ou a janta”, diz ele em um acampamento em área pública na Asa Norte de Brasília. Raramente recebem doações por lá.

“Ouvi dizer que nos postos de saúde alguns trabalhadores estavam doando cestas. Mas pediram para eu dar um endereço. Como vou fazer isso, se vivemos na rua?”, afirmou ao lado de três filhos (de 5, 7 e 8 anos) e da esposa que está se recuperando de um resfriado e pouco tem ajudado no trabalho. No dia em que a reportagem o encontrou, Josimar teria o que comer. Ele tinha comprado um pacote de arroz, que cozinharia em uma fogueira, e ganhou dez pães velhos de uma padaria do bairro. “Hoje, o dia vai ser tranquilo. Amanhã, eu penso depois. Cada dia tem a sua agonia”.

Pensamento do Dia

 


Exército retoma "padrão Riocentro" de apreço pela verdade

Numa nota vergonhosa, pusilânime, o Centro de Comunicação Social do Exército informa que o comandante da Força, Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, “analisou e acolheu os argumentos apresentados por escrito e sustentados oralmente” por Eduardo Pazuello “acerca da participação em evento realizado na cidade no Rio de Janeiro no dia 23 de maio de 2021”. É incentivo à baderna.

E qual foi mesmo a desculpa de Pazuello para subir no palanque de Jair Bolsonaro? Segundo ele, não se tratava de um evento político-partidário porque o presidente ainda não está filiado a nenhum partido. Maus militares já mancharam a honra de suas respectivas Forças em muitas outras circunstâncias. Ocorre-me uma, em particular, em que nada sobrou além de desmoralização.


Na noite de 30 de abril de 1981, no Riocentro, uma bomba explodiu, por acidente, no Puma GT em que estavam o sargento Guilherme Pereira do Rosário e o capitão Wilson Dias Machado. O primeiro morreu. O segundo se feriu gravemente. Outra bomba explodiu na miniestação elétrica que fornecia energia ao local. O SNI culpou organizações de esquerda —as mesmas que, ora vejam!, promoviam no local um show de resistência em homenagem ao 1º de maio.

O inquérito policial-militar não chegou a lugar nenhum. Reaberto o caso em 1999, o Superior Tribunal Militar chegou à conclusão estupefaciente, no ano seguinte, de que o atentado terrorista praticado pelos dois militares, em associação com outros, estava coberto pela Lei da Anistia. E tudo foi arquivado. Não há espaço para entrar em minudências. Os argumentos eram tão sólidos como os de Pazuello.

Por que apelo a um caso extremo? Porque, mais uma vez, o Partido Militar é sócio do poder. Parcerias sempre carregam tensões. O capitão reformado que, na ativa, chegou a imaginar ataques terroristas a instalações militares em razão de insatisfação salarial, já demitiu nove generais da reserva —em alguns casos, tentando lhes impor a desonra.

E daí? O alinhamento ideológico e as vantagens objetivas dessa sociedade se sobrepõem, então, à própria noção de honra. Ainda que tenha havido descontentamento no Alto Comando —parte dele defendeu com ênfase a punição a Pazuello—, o fato é que todos concordaram em deixar a decisão nas mãos de Nogueira de Oliveira. E ele fez o que fez. Bolsonaro deixou claro que considerava uma afronta pessoal a punição a um auxiliar seu.

Não serão apenas os milhares de mortos desse período que acabarão por pesar nos ombros das Forças Armadas —do Exército em particular. Restará também o óbvio incentivo à indisciplina e à bagunça, de desdobramentos ainda incertos. Militares responsáveis, que estivessem, de fato, empenhados em garantir a lei e a ordem, já teriam mobilizado suas respectivas áreas de inteligência para combater a evidente politização dos quartéis e das PMs —que são, afinal, forças auxiliares do Exército por determinação constitucional.

É certo que não mais haverá golpe militar no Brasil com a plasticidade típica dos tempos em que a América Latina era comandada por gorilas. Mas esse não é o único caminho que leva à destruição da democracia. O ataque criminoso da PM de Pernambuco contra manifestantes pacíficos ainda resta sem explicação. E, no entanto, está plenamente explicado.

As ações subversivas de Bolsonaro estão em curso. A tese de que as instituições são sólidas e podem resistir a esses desaforos está começando a virar mera rotina burocrática. Se crimes contra as instituições e os direitos fundamentais vão se repetindo sem a devida punição, então o poder legal se transforma em mera fachada de cumplicidade.

O ato de que Pazuello participou, de fato, não era exatamente político-partidário. Bolsonaro comandou uma manifestação golpista ao lado do general. Afirmou então: “O meu Exército Brasileiro jamais irá à rua para manter vocês dentro de casa. O meu Exército Brasileiro, a nossa PM e a nossa PRF. É obrigação nossa lutar por liberdade, democracia. O nosso exército são vocês. Mais importante do que o Poder Executivo, Legislativo e Judiciário é o povo brasileiro”.

Por enquanto, temos as urnas.

Bolsonaro já está eleito

Jair Bolsonaro já está eleito. Com ou sem voto.

A decisão do comandante do Exército de poupar Eduardo Pazuello mostra que a cúpula militar imitou o gordinho bolsonarista e subiu no palanque de seu presidente. Se ele ganhar em 2022, leva. Se não ganhar, leva de qualquer maneira.

Na verdade, subir no palanque de Jair Bolsonaro foi o menor dos delitos de Eduardo Pazuello. O que ele fez durante a epidemia foi incomensuravelmente mais danoso para os brasileiros. Isentando-o, o Exército isentou-se de sua própria responsabilidade, sobretudo no que se refere à cloroquina.

Eduardo Pazuello, num jogo combinado, deve ir para a reserva depois da CPI da Covid, abafando a patuscada do Alto Comando. Mas isso não elimina o fato de que os militares já decidiram quem deve ganhar em 2022 – mesmo que ele perca.

O golpe está dado. A dúvida é se haverá um contragolpe.

Sociedade espera acenos do Exército na direção certa

É inegável que a participação do general Eduardo Pazuello, ao lado do presidente Jair Bolsonaro, numa manifestação de motocicletas seguida de comício no Rio de Janeiro, desrespeitou o Regulamento Disciplinar do Exército e o Estatuto das Forças Armadas. O primeiro veda a militares da ativa manifestar-se publicamente “a respeito de assuntos de natureza político-partidária”. O segundo proíbe manifestações de “caráter reivindicatório ou político”.

Ainda assim, o general Paulo Sérgio Nogueira, comandante do Exército, decidiu não punir Pazuello e mandou arquivar o procedimento administrativo instaurado para apurar o caso. “Não restou comprovada transgressão disciplinar”, afirma o comunicado oficial. Aparentemente, depois de consulta entre os 15 generais do Alto-Comando do Exército, Nogueira acatou a alegação da defesa de Pazuello, segundo a qual não se tratava de manifestação política nem partidária, já que Bolsonaro está sem partido.


Não há como aceitar tal argumento, pois era óbvio o caráter político do evento, parte da campanha antecipada de Bolsonaro à reeleição. No alto do palanque, ambos agradeceram entusiasmados o apoio da multidão.

Do ponto de vista da manutenção da disciplina militar, o Exército cometeu um erro. Deveria ter punido Pazuello, nem que apenas com uma advertência formal. É o mínimo que as Forças Armadas costumam fazer em episódios dessa natureza. Basta lembrar o exemplo do então general da ativa e hoje vice-presidente Hamilton Mourão, removido de um cargo de comando depois do discurso em que criticou a então presidente Dilma Rousseff em 2015.

A decisão do comandante do Exército despertou uma preocupação legítima com o tipo de recado que transmite às tropas. Bolsonaro não poupa esforços para tentar sujeitar as instituições da República a seus desígnios. Já desafiou inúmeras vezes o Supremo Tribunal Federal, falou em “meu Exército” e insinuou que usaria a força dos militares para fazer valer as liberdades que julga ameaçadas pelas restrições impostas por governos locais em virtude da pandemia. Não para, também, de emitir sinais de que pretende ficar no poder, ainda que as urnas lhe sejam desfavoráveis em 2022, acenando desde já com denúncias de fraudes que, todos sabemos, são fantasiosas.

Há duas versões majoritárias para explicar a decisão do Exército. A primeira aponta para uma sujeição incondicional do Exército aos propósitos inconfessáveis de Bolsonaro. Essa versão não respeita a posição legalista que os militares vêm adotando de forma inequívoca desde a Constituição de 1988. Por mais confuso que seja o quadro político atual, essa teoria parece carecer de indícios mais concretos.

A segunda versão dá conta de que o Exército teria tentado impedir uma nova crise com o chefe de governo. O atual comandante, Paulo Sérgio Nogueira, chegou ao comando do Exército há dois meses, depois da crise que culminou na queda do então ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, e dos três comandantes das Forças Armadas. Foi escolhido em respeito às normas de antiguidade no Exército e à revelia de Bolsonaro. Dias antes, defendera em entrevista uma política oposta à preconizada pelo presidente no combate ao coronavírus. Punir Pazuello, posição majoritária no Alto-Comando, significaria voltar a enfrentar Bolsonaro de modo explícito e abrir uma nova crise entre ele e o Exército. Nogueira teria preferido a cautela.

Melhor que essa tenha sido a verdade. Assim, a decisão não implica necessariamente que as Forças Armadas tenham se sujeitado ao projeto político bolsonarista. Até porque, num universo de 200 mil militares, há espaço para toda sorte de opinião e posição política.

Seja como for, diante da confusão e das especulações abertas pela absolvição de Pazuello, a sociedade espera agora os acenos na direção certa tanto dos comandantes das Forças Armadas quanto das polícias militares, outro foco de um sem-número de tentativas de mobilização promovidas pelo bolsonarismo.

Para transmitir os recados certos aos quartéis, quaisquer tipos de manifestação em apoio a ideologias ou projetos políticos não podem mais ser tolerados. Atos de insubordinação, menos ainda. Às vésperas de um ano eleitoral, não é aceitável que novos Pazuellos passem incólumes apenas porque se associam de modo incondicional àquele que ocasionalmente ocupa o poder.

Além disso, há cerca de 6 mil militares em cargos de confiança no governo. A possibilidade de envolvimento político de cada um deles é motivo para o Congresso dar mais celeridade ao exame da Proposta de Emenda Constitucional da deputada Perpétua Almeida (PCdoB-AC), que proíbe militares da ativa de ocupar cargos no governo. A presença de Pazuello no comício ao lado de Bolsonaro teria causado menos problema se ele estivesse na reserva. O próprio Exército não deveria poupar esforços para que ele fosse reformado o quanto antes.

As regras que vedam atos políticos aos militares da ativa existem porque preservam a essência da atividade deles: zelar pela ordem, pela democracia, pelas liberdades e pelos princípios constitucionais. Um país que sofreu durante anos as dores de uma ditadura militar conhece muito bem o custo do envolvimento das Forças Armadas na política. Não faz bem para elas. Não faz bem para o Brasil.

Convém não esquecer

Na véspera, dia 12, eu estava em Brasília. De madrugada, Carlos Castello Branco e eu fomos acordar o deputado Márcio Moreira Alves. Ninguém duvidava de que a tempestade ia desabar dentro de algumas horas. Nossa preocupação era saber se o Marcito tinha um esquema de fuga. Claro que tinha. Como apertar as cravelhas do arbítrio sem cair no ridículo? Era o que eu me perguntava, entre tantas interrogações e perplexidades.

Mas o discurso do Marcito era simples pretexto. Os acontecimentos tinham tomado o freio nos dentes, desde que se rompera a ordem constitucional em 1964. O primeiro ato era para durar seis meses e ponto final. Tudo voltaria à ordem democrática. Voltou? Uma ova! Com os freios nos dentes ou não, os acontecimentos conduzem os oportunistas de toda espécie. Chega um ponto em que fica difícil saber quem quer o quê.

O país se divide então entre vítimas e algozes. Muitas e poucos. Entre uns e outros, os espectadores. Há sempre o risco de bancar o Fabrice del Dongo. O herói de Stendhal não sabia que aquele pega-pra-capar era nada mais nada menos do que a batalha de Waterloo. Num país periférico, onde a história passa pelo ridículo sem se chamuscar, o espetáculo é de fato chinfrim. Bom. No dia seguinte, um agourento 13 de dezembro como hoje, só que de 1968, eu saí à noitinha do Jornal do Brasil.

Na praia do Flamengo, o táxi parou. Chovia fininho e triste. Pneu furado. E o carro não tinha estepe. Parece mentira, mas a realidade é inverossímil. Abrigado na porta do prédio, de repente me dei conta de que ali morava o Carlos Lacerda. Era o famoso triplex, de que a Última Hora tinha feito alarde. Subi até a cobertura. Uma empregada me abriu a porta. O dr. Carlos está lá em cima. Lá estava, sim, na bela biblioteca, sentado na cadeira de balanço. Sozinho.

A Frente Ampla tinha sido fechada em abril. O Carlos estava interessado em parapsicologia. Foi o nosso primeiro assunto. Depois, os anjos. Ele e eu, mera coincidência, tínhamos comprado um dicionário americano sobre anjos. Até que caímos na real. Sim, o AI-5. Ele achava que ia ser preso. E foi. O silêncio do telefone me afligia. Mais de uma hora depois, chegou o Renato Archer. Deixei lá os dois na conversa de gente grande. Fui ler o AI-5. Você já leu? Que coisa pífia, santo Deus! E aconteceu. No Brasil.

sexta-feira, 4 de junho de 2021

Bolsonaro esvazia comandante e põe Exército de joelhos

O capitão subiu a rampa com sete ministros militares. O loteamento se espalhou pelos escalões inferiores da máquina pública. Mais de seis mil fardados se penduraram em cargos civis.

Quem não ganhou emprego embolsou vantagens no contracheque. Os integrantes das Forças foram poupados da reforma da Previdência. Além de manter privilégios, arrancaram novos penduricalhos.

No mês passado, uma canetada autorizou militares da reserva a furar o teto constitucional. Alguns generais passarão a receber supersalários acima dos R$ 60 mil por mês.


O presidente nunca escondeu a regra do jogo: para manter as benesses, é preciso se curvar a ele e a seus filhos. No início do governo, o general Santos Cruz tentou contrariar interesses do vereador Carlos Bolsonaro. Puxou a fila dos demitidos antes de completar seis meses no cargo.

Outros oficiais toparam se humilhar para continuar no poder. Foi o caso do general Luiz Eduardo Ramos, chamado de “Maria Fofoca” e “Banana de Pijama” por um colega de gabinete. Ele engoliu os desaforos e foi promovido a chefe da Casa Civil.

Quando o governo começou a dar sinais de derretimento, o capitão elevou o tom das cobranças. Passou a exigir demonstrações públicas de apoio e ameaçou usar tanques contra prefeitos e governadores.

No fim de março, ele criou uma crise militar e derrubou o general Fernando Azevedo do Ministério da Defesa. Agora esvazia o novo comandante do Exército, que assumiu há pouco mais de dois meses.

Bolsonaro montou uma armadilha para o general Paulo Sérgio Nogueira. Levou o ex-ministro Eduardo Pazuello, que é oficial da ativa, para um comício em seu favor. O comandante ficou emparedado: ou punia o subordinado, arriscando-se a ser demitido, ou fechava os olhos para a indisciplina, abrindo as portas para a anarquia militar.

O general aceitou ficar de joelhos para o capitão. Perdeu a autoridade e ainda pode vir a perder o cargo. Basta que ele contrarie a próxima vontade do chefe.

Sem memória , vão-se os valores, ficam as mentiras

Pior que esquecer a história é distorcê-la para avivar o ressentimento.

Distorcer a história é ainda pior do que esquecê-la. O perigoso são as meias memórias que os políticos utilizam para avivar o ressentimento e os medos.

[Os políticos] estão mais preocupados com os custos de suas decisões. Estamos lidando com uma geração de políticos que carecem há muito tempo de uma educação humanista como a que nós tivemos. Não há nada mais trágico do que um homem que perdeu a memória

Peter Brown, autor de ‘O Mundo da Antiguidade Tardia’

Vírus da anarquia militar ganha passe livre nos quartéis

Haverá alguma reação militar à decisão do general Paulo Sérgio Nogueira, comandante do Exército, de arquivar o procedimento administrativo instaurado contra seu colega Eduardo Pazuello, que participou no Rio de manifestação político-partidária ao lado do presidente Jair Bolsonaro?

Improvável. Nogueira poderia ter punido Pazuello com uma advertência oral, ou por escrito, ou com até 30 dias de prisão como previsto no código do Exército. A maioria dos generais do Estado Maior do Exército defendeu uma dura advertência por escrito. Nogueira escolheu a pior alternativa: não fazer nada.


Bolsonaro enquadrou o Comandante do Exército. A partir de agora, e com razão, poderá chamar o Exército de “meu Exército”. E exigir que os militares graduados só se refiram a ele como “o Comandante Supremo das Forças Armadas”. Pazuello ganhou uma nova sinecura no governo. Nogueira desmoralizou sua Arma.

Haverá choro e ranger de dentes entre generais da ativa e da reserva, mas por enquanto apenas isso. Embora tenha ouvido seus pares pelo menos três vezes desde que Pazuello rasgou o Regimento Disciplinar do Exército, cabia a Nogueira, e somente a ele, a palavra final. Na prática, a palavra final foi de Bolsonaro.

O vírus da anarquia militar ganhou passe livre para circular dentro dos quartéis. Se um general da ativa pode ignorar o que está escrito no Regimento Disciplinar do Exército, se o Comandante do Exército pode ignorar a transgressão cometida por um general, por que soldados, cabos e demais escalões não podem?

Eles também são filhos de Deus – ou do diabo.

No Curralzinho da História

Chamar o Bolsonaro de fascista pode até ser um elogio. Verdade. Não se espantem. O fascismo além de todos os erros que cometeu, de toda a ideologia arbitrária, segregacionista e economicamente predadora foi um partido organizado. Havia todo um ritual, patético digamos a verdade, mas era um ritual. Havia uniformes, gestos com os braços e um culto ao Duce que passava longe dos encontros no cercadinho do planalto. Bolsonaro se veste mal, fala mal, não tem preparo nem para ser nem líder fascista. Mussolini enfrentou uma guerra que acabou com o que existia da Itália, levou à morte milhares de pessoas e ele terminou pendurado na Piazzale Loreto , em Milão pelos executado pela Resistência.

Com tudo o que criou e sedimentou- até hoje existe um partido de extrema direita na Itália- acabou pendurado, mas não foi esquecido pela História, apesar de estar no capítulo dos tiranos derrotados. Aliás, se formos ver pela História, quase todos os tiranos acabam derrotados.

Adolf Hitler quase não pintava pessoas nos quadros

Chamá-lo também de nazista é ainda mais forte. Perto de Adolph Hitler, Bolsonaro não seria capaz nem de ser convocado para alimentar o pastor alemão que tomava conta do Castelo na Floresta Negra. O oficial destinado a essa função tinha que passar por um período de preparação rigoroso. Afinal, esses animais mereciam o carinho e o respeito do Führer e isso exigia um atendimento padrão Fifa. Bolsonaro lida com emas e jacarés, quis se apossar de um cachorro perdido e acabou tendo que devolver o cão, mas tem muitos animais irracionais no seu governo.

Devo dizer que isso não seria suficiente para trabalhar no Reich. Hitler formou um verdadeiro império com a ajuda de industriais alemães, juízes e forças armadas para derrotar o capital e a existência dos judeus na Europa. Foi um extermínio que misturou uma decisão econômica e política meio pífias com um sadismo criminoso que fez levantar o apoio de boa parte da Alemanha. Levados pelo medo ou não foi o que aconteceu. Além do espetáculo ser medonho, ele tinha elementos que ajudavam a reunir apoiadores. A motociata do Bozo foi ridícula apesar dele se inspirar em Mussolini que adorava se mover em duas rodas.

Pirotecnia a parte, o governo Bolsonaro é praticamente nada. Dá trabalho, é verdade. O Supremo, o Congresso, a sociedade e agora até a imprensa oficial têm que ficar alertas o tempo todo para impedir que o pior seja feito. Mas é um estilo de governo cafona, primário, desorganizado, elementar, rudimentar e violento. E foi eleito pela doença antipetista inventada e pelo desejo de um neoliberalismo cruel e falido. Prega a morte porque a morte é a única coisa segura que temos. Não precisamos questioná-la. Ela vai acontecer. Isso facilita o raciocínio de quem quase não o usa. A morte tem seu efeito. Ajuda nos números, diminui a divisão, afasta os inimigos. Morrer é um projeto, talvez o que se pareça mais com o italiano e o alemão aqui citados antes. Mas, desculpem-me todos, falta estilo. Estilo cruel, mortal, assassino e doentio. Mas falta. Se isso é bom ou ruim vamos saber daqui pra frente. Começamos bem com o Exército se recusando a punir Pazuello. A hierarquia é uma coisa que os militares prezam muito. Essa sim foi o que podemos chamar de quebra de patente. Os generais obedecendo ao capitão. Já obedeceram a um pintor. Vejam só, a História é danada.

O capitão dobrou os generais. O próximo passo é transformar o Exército em milícia

Se havia alguma dúvida sobre a posição do Exército em relação a Jair Bolsonaro, foi eliminada na tarde desta quinta-feira. Com a decisão de não punir o general Eduardo Pazuello por ter subido ao palanque de um ato de apoio ao presidente, no Rio de Janeiro, o comandante da principal força militar do país demonstra que os generais, afinal, não são capazes de conter o capitão. 

Os regulamentos militares são claríssimos ao proibir a participação de oficiais da ativa em "manifestações coletivas, tanto sobre atos de superiores quanto as de caráter reivindicatório ou político.” Portanto, ao consignar em nota oficial que "não restou caracterizada a prática de transgressão disciplinar por parte do general Pazuello", o comando do Exército passa algumas mensagens à própria tropa e à sociedade brasileira.

Ao Brasil, que não espere do Exército nenhum esforço de proteção à ordem democrática ou ao estado de direito se, do outro lado, forçando os limites, estiver Jair Bolsonaro. Se não foi capaz de contê-lo nem para proteger um pilar básico da força, o respeito a hierarquia e aos códigos militares; se aceitou se humilhar diante do presidente num impasse em que tinha a seu favor uma regra cristalina e inequívoca, não há por que supor que o comandante terá força para fazê-lo quando estiver em jogo alguma questão politicamente difusa, do tipo que se justifica pelas narrativas delirantes de Bolsonaro.

À tropa, o recado é claro. Cabos, soldados, majores, tenentes, coronéis, estão todos liberados para fazer reivindicações salariais, contestar as regras do comando ou mandar às favas o regulamento disciplinar do Exército. A partir de agora é lícito pensar que, se Pazuello pode, eles também podem. As pilhas de processos disciplinares que se acumulam nas mesas dos comandantes podem ser arquivadas ou jogadas no lixo, porque a partir de agora existe uma nova regra: quem tem costas quentes pode promover a anarquia, que está tudo bem. 

Era público e notório que Bolsonaro não aceitava nenhuma punição para Pazuello. E bancou a aposta ao nomeá-lo para um cargo no Palácio do Planalto. 


Em reação a esses movimentos, há dias generais de vários segmentos vinham procurando a imprensa, diretamente ou por meio de interlocutores, para dizer que não havia hipótese de Pazuello não ser punido. Podia até ser uma punição branda. O que não podia era acabar tudo em "pizza", como se apostava entre os recrutas. 

Mas as poucas informações que vazaram sobre a reunião do Alto Comando do Exército, na última quarta-feira, já indicavam que o desfecho do caso seria diferente. Quando um integrante do Alto Comando disse à repórter Jussara Soares que a decisão do comandante seria acatada por todos como uma “decisão do Exército, independentemente da posição pessoal de cada um”, estava claro que os generais entendiam que teriam de se dobrar à vontade de Bolsonaro. 

Agora, não vai faltar quem se apresse a enviar a imprensa recados na direção contrária. Vão dizer que Bolsonaro é, em última instância, o o comandante máximo das Forças Armadas. Dirão ainda que, se ele decidisse revogar a decisão de Paulo Sérgio, o prejuízo à imagem do Exército seria ainda maior. 

O Exército já desafiou a autoridade de outros presidentes para se preservar, quando achou conveniente. Quando Dilma Rousseff exigiu uma punição para o então general Hamilton Mourão, que em 2015 convocou militares para um "despertar patriótico" e para a mudança do status quo, o comandante, general Villas Boas, negociou uma espécie de punição branca e transferiu Mourão de um comando militar para um setor burocrático, sem tropas. Em 2017, quando Mourão novamente desafiou os militares a resolver "o problema político" do país, o presidente da República era Michel Temer, e não houve nenhuma punição.

Um Exército que não obedece a um comando único, em que cada um faz o que quer, já entra na guerra derrotado. Um Exército em que oficiais priorizam interesses políticos e pessoais em detrimento do todo não serve mais ao país. Transforma-se em partido político. E, armado, facilmente transmuta-se em milícia. 

Em última instância, é esse o preocupante sinal enviado ao Brasil pelo desfecho do caso Pazuello. Depois de entrar no governo, o Exército vai se transformando em partido. A continuar assim, o próximo passo é se transformar em milícia. 
Malu Gaspar