domingo, 23 de agosto de 2020

O Brasil vive a banalização da morte?

Há mais de três meses, em 19 de maio, o Brasil registrou pela primeira vez mais de mil mortos em 24 horas em decorrência da covid-19. Desde então, a situação epidemiológica do país, que já soma oficialmente mais de 113 mil óbitos pela pandemia, estabilizou-se em um trágico platô.

Se a situação sanitária parece longe de estar sob controle, por outro lado os discursos são de retomada de economia: há dois meses as atividades vem sendo gradualmente reiniciadas em todo o território nacional, o isolamento social se afrouxa, e está sendo discutida a reabertura das escolas.

Para o antropólogo, cientista social e historiador Claudio Bertolli Filho, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e autor do livro História da Saúde Pública no Brasil, o país vive um cenário de "banalização da morte”.

Ele entende que isso é decorrente de uma dimensão política — a maneira como o governo federal conduziu e conduz a situação —, de uma aceitação social — o discurso de que "demos azar" ou de que quem tem comorbidades iria "acabar morrendo mesmo” —, e por fim, de aspectos culturais.


"O presidente Jair Bolsonaro é fruto da sociedade brasileira que, historicamente, banalizou a morte, desde aquele papo que ‘bandido bom é bandido morto'”, diz Bertolli Filho, à DW Brasil. "Há ainda uma tendência de nossa cultura, para sobrevivermos psicologicamente, a enfrentar o momento pandêmico negando as mortes, mostrando-nos imunes a ela.”

"É quando rejeito pensar que aquele que morreu é parecido comigo e eventualmente poderia ser eu próprio. Quem morreu é ‘o outro', o ‘da periferia', o que ‘tinha comorbidades', o que ‘não seguiu as normas sanitárias'”, exemplifica o acadêmico.

Já para o historiador e sociólogo Mauro Iasi, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e autor de Política, Estado e Ideologia, a sequência diária de mortes, transformadas em estatística, acaba naturalizando-as à população.

"Quando nos vemos diante de um número elevado de mortes, como em um acidente, por exemplo, isso nos choca pela quebra desta aparente casualidade. No caso da pandemia, o ritmo diário das mortes, sua matematização pelas estatísticas, tende a devolver o fenômeno para o campo da casualidade, naturalizando-o”, argumenta ele.

Iasi exemplifica citando as mortes provocadas anualmente pela ação da Polícia Militar no Brasil — 5.804 em 2019. "A rotinização do fato faz com que se banalize o fenômeno, como parte da vida e, portanto, abrindo espaço para sua negação.”

Pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (USP), o jornalista, economista e cientista político Bruno Paes Manso compara a sensação transmitida pelas mortes do coronavírus àquela em relação as vítimas de homicídio no país.

"Os grupos que morrem são vistos como aqueles que, de alguma forma, tinham justificativa para morrer. No caso dos homicídios, são as pessoas ‘que procuraram seu próprio destino'. [Para a opinião pública] a vítima é culpada da morte: são negros, pobres, moradores de periferia, suspeitos de serem traficantes”, comenta. "Existe uma certa ilusão de que as mortes se restringem a determinados grupos vistos pelas pessoas como aqueles que ‘podem morrer'. Isso gera não a banalização, mas uma tolerância a esse tipo de ocorrência.”

Ele acredita em uma lógica um tanto parecida nos óbitos decorrentes do coronavírus. Na racionalização, aponta o pesquisador, a opinião geral é de que a doença não atingiria os próximos, mas sim aqueles vistos como "o outro”: o idoso, aquele com comorbidades, os de alguma forma mais vulneráveis. Este raciocínio é balizado pelo que ocorre nas principais cidades — em geral, os distritos com maior número de mortos estão localizados nas periferias.

"O medo da morte iminente que vem junto com a pandemia mobiliza tanto conteúdos de medo e de desamparo, quanto uma espécie de negação coletiva, já que não existe nenhuma figura real de autoridade, nem na ciência, nem na política, que dê conta de ‘funcionar' como figuras paternas ou maternas que possam cuidar ou proteger contra a morte”, analisa a psicóloga Nancy Ramacciotti de Oliveira-Monteiro, professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). "Até porque, em todo o mundo, por enquanto, ninguém sabe ainda como vencer essa ameaça comum a todos os seres humanos, com exceção da esperada chegada de vacinas."

Ela lembra que o fato dessas mortes serem divulgadas diariamente por meio de estatísticas numéricas também dificulta a "identificação” por parte da população. Isso só não ocorre, pontua a professora, quando as mortes chegam a círculos próximos ou vitimizam alguma celebridade.

Para o psicólogo Ronaldo Pilati, professor da Universidade de Brasília (UnB), o fenômeno não pode ser chamado de "banalização", mas sim de "minimização". Ao recordar da comoção que houve no Brasil quando a Itália registrava cerca de mil mortes em um dia, por exemplo, ele ressalta que era um momento em que os brasileiros estavam "mais atentos e conectados à questão”, já que o mês de março foi quando diversas medidas de quarentena e isolamento social foram implementadas de fato.

"Com o passar do tempo e a maneira ineficiente com que o Brasil enfrentou a pandemia, houve uma mudança de comportamento”, observa. "Não houve enfrentamento coordenado [da questão] e isso confirmou a expectativa de desamparo que o brasileiro tem quando depende do Estado para a resolução de problemas.”

No livro Death Without Weeping: The Violence of Everyday Life in Brazil, a antropóloga americana Nancy Scheper-Hughes relata como mães brasileiras de favelas com altos índices de mortalidade infantil acabam lidando com os óbitos de seus filhos. Para a pesquisadora, a impotência faz com que essas mulheres acabem se conformando com a partida daqueles "mais fracos”, exercendo uma espécie de triagem para favorecer os bebês mais saudáveis, com mais "talento para viver”.

Professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o antropólogo e sociólogo Marko Monteiro concorda que essa sensação é decorrente da desigualdade social brasileira. "Convivemos com a morte historicamente, desde a formação do país, a maneira violenta como foi construída a nação. Nossas ações cotidianas são permeadas por violência”, resume. "A banalização é consequência disso: os números mostram que quem está morrendo mais são as pessoas de áreas periféricas, negras, sem acesso… São os fatores modificáveis.”

"Então temos mecanismos sociais e psicológicos para conviver com essas mortes, que muitos consideram inevitáveis. É a clássica atitude do ‘eu não sou coveiro', do ‘e daí?'… Por que isso ressoa em muita gente? Porque há a ideia de as mortes eram inevitáveis, que essas pessoas morreriam de qualquer jeito”, afirma.

sábado, 22 de agosto de 2020

Estados xipófagos

O atual presidente mergulhou a América na escuridão por tempo demais —muita raiva, muito medo, muita divisão

Joe Biden, candidato democrata à presidência dos EUA 


 

Falta Nabuco

No século XIX, adotamos políticas em favor dos escravos — fim do tráfico, ventre livre, liberdade a sexagenários — sem defesa da Abolição. A maldade no tratamento aos escravos ficou mitigada, mas a barbaridade do regime continuou, amarrando a economia e comprometendo a decência. Em 1888, os abolicionistas venceram a luta pelo fim do sistema escravocrata, mas até hoje mantemos uma trincheira da escravidão: a reserva da educação de qualidade para poucos.

Desde 1980, diversas medidas beneficiam a educação — Emenda Calmon, merenda, livros didáticos, Fundef, Fundeb, PNE-I e II, BNCC, piso salarial — mas ela continua entre as piores e mais desiguais no mundo, emperrando a eficiência da economia e dificultando a justiça social.


Quando imaginamos a tragédia que ocorreria se o Fundeb fosse extinto, em 31/12 próximo, sua prorrogação deve ser comemorada. Mas, ao lembrar que já está em vigor há dez anos, imaginamos que, apesar de alguma melhora, a educação ainda não dará o salto de que precisamos. Devemos parabenizar os que não deixaram o Fundeb acabar e até conseguiram ligeiro aumento de recursos. Parabenizá-los como a Rio Branco, pelo ventre livre; Eusébio de Queiroz, pela proibição do tráfico, Saraiva e Cotegipe, pela Lei dos Sexagenários. Mas nenhum deles foi um Nabuco, e o Fundeb está longe de ser nossa “Lei Áurea do século XXI”: educação entre as melhores do mundo e com qualidade da escola igual para todos.

Para concluir a Abolição, será necessário mais do que leis, uma estratégia com a meta de colocarmos nossa educação entre as melhores do mundo e igual para todos os brasileiros, independentemente da renda e do endereço da criança. Para isso, tratar educação de base como questão nacional, implantarmos um Sistema Unificado Nacional de Educação, com carreira federal para os professores, definição de padrões nacionais para edificações e equipamentos, todas as escolas em horário integral, todas como concessão federal. Uma estratégia educacionista que derrube a última trincheira da escravidão, rompa as amarras ao nosso desenvolvimento e construa justiça social.

Pensamento do Dia

 

As ações estão subindo. Assim como a miséria

Na terça-feira, o índice de ações S&P 500 registrou uma alta recorde. No dia seguinte, a Apple se tornou a primeira empresa americana da história a ser avaliada em mais de US $ 2 trilhões. Donald Trump está, claro, tentando nos convencer de que o desempenho do mercado de ações comprova que a economia se recuperou do coronavírus. Uma pena para os 173 mil americanos que morreram, mas, como ele diz, “essas coisas acontecem”.

Mas a economia provavelmente não está parecendo assim tão bem aos olhos dos milhões de trabalhadores que ainda não conseguiram seus empregos de volta e que acabaram de ver seu auxílio-desemprego cortado. O benefício suplementar de U$ 600 por semana promulgado em março expirou, e a substituição que Trump propôs é, em essência, uma piada de mau gosto.

Mesmo antes do corte da ajuda, a quantidade de pais de família relatando dificuldades para dar de comer aos filhos estava crescendo rapidamente. Esse número com certeza aumentará nas próximas semanas. E também estamos prestes a ver uma enorme onda de despejos, porque as famílias não estão mais recebendo o dinheiro de que precisam para pagar o aluguel e porque a proibição temporária aos despejos, assim como o auxílio suplementar ao desemprego, acabou de expirar.


Mas como pode haver essa desconexão entre a subida das ações e o crescimento da miséria? Os caras de Wall Street, que adoram letras e siglas, estão falando de uma “recuperação em forma de K”: valorização das ações e aumento da riqueza individual no topo da pirâmide, queda da renda e forte sofrimento na base. Mas isto é uma descrição, não uma explicação. O que está acontecendo de fato?

A primeira coisa a notar é que a economia real, ao contrário dos mercados financeiros, ainda está em péssimas condições. O índice econômico semanal do Federal Reserve de Nova York sugere que, embora tenha atingido seu ponto mais baixo alguns meses atrás, a economia ainda se encontra em uma depressão mais profunda do que em qualquer momento da recessão que se seguiu à crise financeira de 2008.

E, desta vez, as perdas de empregos se concentram entre os trabalhadores com salários mais baixos – ou seja, precisamente os americanos sem recursos financeiros para enfrentar tempos difíceis.

Mas e as ações? A verdade é que os preços das ações nunca se ligam intimamente ao estado da economia. Como diz uma velha piada de economistas, o mercado previu nove das últimas cinco recessões.

As ações sofrem, sim, o impacto de crises financeiras, como as rupturas que se seguiram à quebra do Lehman Bros. em setembro de 2008 e o breve congelamento dos mercados de crédito em março. Fora isso, os preços das ações seguem bastante desconectados de coisas como emprego ou mesmo PIB.

E, hoje em dia, a desconexão está ainda maior do que de costume.

Pois a recente ascensão do mercado foi amplamente impulsionada por um pequeno número de gigantes da tecnologia. E os valores de mercado dessas empresas têm muito pouco a ver com seus lucros atuais, muito menos com o estado da economia em geral. Em vez disso, esses valores refletem as percepções dos investidores sobre um futuro bem distante.

Veja o exemplo da Apple, com sua avaliação de US $ 2 trilhões. A Apple tem um índice preço/lucro – a relação entre sua avaliação de mercado e seus lucros – de cerca de 33. Uma maneira de olhar para esse número é dizer que apenas 3% do valor que os investidores colocam na empresa reflete o dinheiro que eles esperam ganhar ao longo do próximo ano. Eles esperam que a Apple seja lucrativa daqui a alguns anos, mas pouco se importam com o que acontecerá na economia americana nos próximos trimestres.

Além disso, os lucros que as pessoas esperam que a Apple obtenha daqui a alguns anos estão especialmente grandes porque, afinal, onde mais elas vão botar seu dinheiro? Os rendimentos dos títulos do governo americano, por exemplo, estão bem abaixo da taxa de inflação projetada.

E a avaliação da Apple na verdade está menos exagerada do que a de outras gigantes da tecnologia, como Amazon ou Netflix.

Portanto, as ações das gigantes da tecnologia – e as pessoas que as possuem – estão em alta porque os investidores acreditam que se sairão muito bem no longo prazo. A economia em recessão pouco importa.

Infelizmente, os americanos comuns obtêm muito pouco de sua renda com ganhos de capital e não podem viver de projeções otimistas sobre suas perspectivas futuras. Não adianta muito dizer ao proprietário do apartamento que você aluga para não se preocupar com sua atual incapacidade de pagar o aluguel, porque você com certeza terá um ótimo emprego daqui a cinco anos. Esse argumento só fará com que você seja expulso do apartamento e jogado na rua.

Então, esta é a atual situação dos Estados Unidos: o desemprego ainda está extremamente alto, em grande parte porque Trump e seus aliados primeiro não quiseram levar o coronavírus a sério, depois pressionaram por uma reabertura antecipada da economia em um país que não atendia a nenhuma das condições para a retomada dos negócios – e até agora se recusam a apoiar estratégias básicas de proteção, como o uso generalizado de máscaras.

Apesar desse fracasso épico, os desempregados ficaram com a cabeça fora da água durante meses graças ao auxílio federal, que ajudou a evitar uma catástrofe humanitária e econômica. Mas agora a ajuda acabou. E Trump e aliados estão encarando o iminente desastre econômico com a mesma seriedade com que encararam o iminente desastre epidemiológico.

Tudo sugere que, mesmo que a pandemia enfraqueça – o que não é, de forma alguma, uma certeza –, estamos prestes a ver um grande aumento na miséria nacional.

Ah, mas as ações estão em alta. Então por que deveríamos nos preocupar?

'Brasil vencendo a Covid', o escárnio


O primeiro compromisso do presidente Jair Bolsonaro na próxima segunda-feira será participar do "Encontro Brasil vencendo a Covid-19", no Palácio do Planalto. O número de mortos pela doença no país superou a marca de 113 mil e o O Brasil já registrou mais de 3,5 milhões de casos confirmados do novo coronavírus.

A Presidência não forneceu mais informações sobre o que acontecerá no encontro, que está previsto para ocorrer das 11h ao meio-dia, será aberto à imprensa e transmitido ao vivo pela TV Brasil.

Nem luto, nem melancolia


Não é a vida que segue. É a morte, que segue em seu macabro trabalho auxiliada pelas hordas daqueles que a amam mais do que a vida. Lutemos para que os arqueólogos do futuro, quando escavarem os restos de nossa civilização não encontrem como nossa principal realização a indiferença.

“Na minha opinião, a desorientação e a paralisia
da nossa capacidade funcional, sob a qual penamos, são
essencialmente determinadas pela circunstância de
não conseguirmos manter a nossa anterior atitude perante a
morte e de ainda não termos achado outra nova”
Sigmund Freud


Mais de três milhões de pessoas infectadas. Mais de cem mil mortos. Os dados são estarrecedores por si mesmos, ainda mais se somarmos a esse quadro macabro os vinte milhões de casos e os mais de setecentos mil mortos pela pandemia no mundo todo. Nossa reação, no entanto, é muito estranha. Parece-nos preocupar muito mais o andamento da vida, a suposta volta a normalidade ou, pior, os efeitos econômicos que podem se desencadear.

Os seres humanos passaram a enterrar seus mortos, segundo os estudiosos, há mais ou menos cento e trinta mil anos, associando ao evento formas ritualísticas e o uso de adornos corporais, urnas, artefatos e rituais fúnebres. Para a famosa antropóloga Margaret Mead, a primeira evidência daquilo que seria a civilização humana poderia ser encontrado no fóssil de um fêmur cicatrizado, uma vez que isso indicaria que o grupo teria cuidado do ferido e não o abandonado para morrer.

Parece haver uma relação entre quantidade e qualidade no que tange a nossa reação diante da morte. A morte de um ser distante costuma nos afetar pouco. Uma quantidade significativa, como em um acidente ou catástrofe, pode gerar uma comoção. No entanto, essa constatação nos deixa ainda mais incomodado uma vez que a atual pandemia parece indicar que em situações em que esse número ultrapassa cifras assustadoras acabamos por ficar diante de uma reação de passividade e negação anestesiante.

A morte nos coloca diante de uma ambivalência. Ela é vista como uma pura casualidade natural, como parte inevitável da existência, mas ao mesmo tempo como ameaça inexorável de destruição da pessoa, como ameaça suprema e aterrorizante. Freud tendia a acreditar que a base de nossa atitude perante a morte residia nessa ambivalência: isto é, um mecanismo de defesa diante de uma ameaça de nossa própria morte que ora a naturaliza como mera casualidade, ora nos serve de artifício para contornar a culpa que advém do desejo inconsciente da morte de outra pessoa. Para ele, tal atitude desdobra-se no culto da separação do corpo e da alma, fundamento de todo comportamento religioso.

Freud acreditava que essa postura seria resultado de um processo civilizatório. Ou seja, seria inexistente no ser pulsional “primitivo” movido por instintos e paixões, em mais uma expressão da premissa freudiana da luta entre instinto (primitivo) e razão (civilização). É, no entanto, essa premissa que leva o pai da psicanálise ao espanto quando se defronta com a atitude dos povos que ele julgava “civilizados” no exercício sistemático da matança na primeira grande guerra. Vejamos em suas palavras:

“Estava-se, pois, preparado para que a humanidade se visse ainda, por muito tempo, enredada em guerras entre os povos primitivos e os civilizados, entre raças humanas diferenciadas pela cor da pele e, inclusive, entre os povos menos evoluídos ou incultos da Europa. Mas das grandes nações da raça branca, dominadoras do mundo, às quais coube a direção da humanidade, que sabia estarem ocupadas com os interesses mundiais, e cujas criações são os progressos técnicos no domínio da natureza e os valores culturais, artísticos e científicos, destes povos esperava-se que saberiam resolver de outro modo as suas discórdias e seus conflitos de interesses.” [Sigmund Freud, “A nossa atitude diante da morte”, Escritos sobre a guerra e a morte (Covilhã: Universidade de Beira Interior, 2009)].

O texto é de 1915 e trata da primeira guerra. Freud morreu em setembro de 1939, no mesmo mês e ano que Hitler invadia a Polônia e dava início à Segunda Guerra Mundial, na qual as nações brancas a quem “coube a direção da humanidade” se mergulhariam de novo numa carnificina organizada a fim de resolver seus problemas na disputa dos “interesses mundiais”. Acreditamos que sua reação diante da Segunda Guerra não produziria no psicanalista o mesmo espanto que a primeira, ainda que o mesmo horror e aversão. Freud era um homem da ciência – e estes, como fica patente na frase apresentada, não são imunes ao preconceito. O traço distintivo é que o cientista não procura esconder os fatos sob o ataque de argumentos e justificativas, mas se propõe a entender aquilo que o confronta de forma incômoda. Diante da eclosão do conflito, Freud sentencia: “A guerra, em que não queríamos acreditar, estalou e trouxe consigo a decepção”.

O problema, portanto, é saber por que que as sociedades “civilizadas” se entregavam à barbárie da guerra. O esforço das ditas nações civilizadas, prescrevendo aos indivíduos que dela participavam “elevadas normas morais”, muitas vezes rigorosíssimos, acabam por impor uma acentuada renúncia à satisfação das pulsões. Imerso nisto que Freud denomina de “cultura”, o homem branco civilizado – contradizendo tudo aquilo que Maquiavel afirmou sobre o fenômeno político moderno – estaria disposto a aceitar a renúncia das “extraordinárias vantagens que o uso da mentira e do engano proporcionam na luta contra os outros homens”. Na guerra, no entanto, os mesmos Estados que se empenham em prescrever normas morais aos seus cidadãos se empenham em matar, mentir e promover o ódio contra outros povos, sobrepondo à condição de estrangeiro a de inimigo.

Para não nos alongarmos em demasia na análise do autor, bastaria dizer que para Freud o que a psicanálise chegou a constatar é que os ditos instintos primitivos não desaparecem no ser civilizado, sendo antes, por assim dizer, canalizados em uma direção positiva. Mais do que isso: que os seres humanos são constituídos de instintos de natureza elementar, ligados às necessidades primordiais que em si mesmos não são nem bons nem maus. Desta maneira, voltamos à ambivalência, isto é, à coexistência numa mesma pessoa de um “imenso amor e um intenso ódio”. E, como sabemos, para a psicanálise esses impulsos frequentemente tomam a mesma pessoa por objeto – daí a ambivalência de amar quem tolhe seu desejo ou odiar quem é objeto de seu afeto.

Não apenas os indivíduos como também as nações se edificam, segundo tal premissa, na renúncia dos instintos em nome da civilização. Ocorre que diante das supostas vantagens de tal conduta a sociedade torna-se o exercício sistemático de repressão dos impulsos fundamentais, forçando a maioria das pessoas a viver, nas palavras de Freud, “muita acima de seus meios”, aceitando formalmente as imposições morais e convivendo na prática com seus impulsos, tornando-se uma pessoa hipócrita. Tal constatação leva a Freud a acreditar que uma determinada sociedade é composta de fato muito mais por hipócritas do que por pessoas de cultura, de forma que chega a pensar se a hipocrisia não seria indispensável à cultura. Quando vemos os horrores da guerra, diante da decepção com que se esperava da conduta civilizada, devemos nos lembrar que aqueles que praticam os horrores, de fato, “não caíram tão baixo como temíamos, porque não tinham subido tão alto, como a seu respeito julgávamos”.

Não apenas o fato de multidões se ocuparem em levar a cabo o horror da guerra, como também a constatação de que há multidões praticando uma espécie de “cegueira lógica” (o termo é do próprio Freud) faz com que cidadãos civilizados e cultos acabem por se apresentar com uma particular “obstinação e credulidade acrítica perante afirmações mais discutíveis”. Intervém aqui a racionalização, não como atitude científica, mas como mecanismo de defesa diante da emergência de impulsos que nos colocam diante de uma situação de ambivalência. Por exemplo, uma vez dirigido meu ódio a um outro povo ou país, o desejo é de sua aniquilação. No entanto, matar milhares de pessoas é moralmente condenável… A menos que se trate de um povo “perigoso”, “encarnação do mal”, munido de “armas de destruição em massa” que podem atingir e pulverizar minha sala de estar e a garagem onde guardo meu carro de último tipo (mas para o qual ainda falta pagar quarenta e oito prestações) – aí sim, se torna justificável jogar bombas, destruir cidades, assassinar milhares de pessoas incluindo crianças. Veja que o próprio Freud estaria disposto a aceitar que a guerra fosse o meio utilizado entre “os povos primitivos e os civilizados, entre raças humanas diferenciadas pela cor da pele e, inclusive, entre os povos menos evoluídos ou incultos da Europa”, mas se espanta quando a beligerância se apresenta como recurso entre os “civilizados”.

Aqui, no entanto, entra de forma abrupta a morte na escala de um horror imensurável. Lembre-se que um dos primeiros mecanismos de defesa seria a naturalização da morte como mera casualidade inevitável, como parte da vida. Assim procedendo, todavia, operamos na verdade no sentido de “eliminá-la da vida”, tentamos “silenciá-la”. A antiga atitude diante da morte não mais nos serve, mas ainda não se desenvolveu uma nova atitude, gerando desorientação e paralisia. A matança em massa só pode ser racionalizada se for radicalmente atribuída a um outro, distante e distinto. No fundo, segue Freud, nos comportamos como se ninguém acreditasse na própria morte, ou, em outras palavras fosse imortal. A morte é uma coisa que atinge os outros.

Guardamos nossa atitude perante a morte para pessoas próximas e queridas, ou para figuras heroicas que representam para nós a interrupção que a morte configura, um aventureiro tentando subir ao cume de uma montanha, um time inteiro de jogadores mortos em um acidente de avião, um navio que se julgava imune a naufrágios. A morte desse outro nos atinge por que nos colocamos catarticamente em seu lugar. A guerra e como veremos a pandemia, não comporta a atitude convencional diante da morte. As pessoas morrem, não como antes, mas aos milhares de forma que não podem ser consideradas acidente ou casualidade.

Apesar de fenômeno distinto por sua natureza, o ser humano não pode reagir a ele a não ser com os meios psicológicos que dispõe. A morte da pessoa amada ou próxima, daqueles com que o indivíduo se identifica, ou mesmo uma abstração qualquer que se coloque no lugar do objeto (como pátria, liberdade ou algum outro valor), produz uma reação que Freud descreve como luto. Em outras palavras, o trabalho psíquico que diante da constatação que o objeto amada não mais existe opera no sentido de retirar todo o investimento libidinal das ligações com este objeto. A noção de trabalho aqui se apresenta uma vez que o psiquismo que tenta caminhar na direção descrita enfrenta na verdade uma forte oposição, pois ninguém abandona o investimento da libido no objeto ainda que agora ausente. Resiste, se afasta da realidade, sofre, pode desenvolver o que Freud denomina de “psicose alucinatória do desejo”. Mas o normal é que a realidade acabe por se impor e o trabalho do luto está feito.

Existiria um outro estado, que parte da mesma situação de perda mas se caracteriza por um profundo esvaziamento do ego e um rebaixamento acentuado da autoestima, estado que Freud nomeia de melancolia. Diferente do luto, no qual o mundo se torna pobre e vazio, na melancolia é o próprio ego que se esvazia levando a quadros de um profundo e doloroso desânimo, a suspensão do interesse pelo mundo externo, uma sentida perda da capacidade de amar, um rebaixamento muito mais acentuado da autoestima levando a autorrecriminação e em casos mais agudos à autopunição. Outra diferença é que na melancolia a perda do objeto parece se deslocar da consciência, ao passo que no luto nada na perda é propriamente inconsciente.

Por mais interessantes que sejam as diferenças entre os dois estados e certamente as implicações clínicas envolvidas, os que nos chama a atenção é que ambos implicam num doloroso processo de desligamento do objeto. Ocorre, diz Freud em um comentário marginal (mas que para nós assume caráter determinante), que tal processo de desligamento envolve um custo psicológico muito grande, de tal forma que: “Se o objeto não tiver para o ego um significado tão grande, reforçado por milhares de laços, sua perda não se prestará a provocar um luto ou uma melancolia.”

A triste constatação que se nos impõe e que remete à primeira parte de nossa reflexão sobre a guerra, é que para boa parte de nossa população romperam-se os milhares de laços e vínculos que os unia aos seus semelhantes. Os outros são apenas isso, outros. Mais que isso, inimigos e ameaças que se tornam objeto do ódio e não da identidade. O país fraturado racionalizou uma guerra interna que dá vazão a um profundo ressentimento, como nos explicou Maria Rita Kehl em Ressentimento (Boitempo, 2020), de maneira que outro pode receber o investimento do ódio e sua aniquilação não se converter na ambiguidade que está na base tanto do luto como da melancolia. Sua morte é somente isso, sua morte, seu desaparecimento. Não diz respeito àquele que odiava, não remete à sua própria morte, nem move sua culpa por desejá-la. É uma radical negação da morte, o exercício supremo de silenciá-la e, portanto, uma brutal afirmação de imortalidade para aquele que a nega.

Não se trata de uma mera fratura política. Como imaginava Freud na defesa de sua desejada civilização, ela só poderia se impor por meio de um longo período de incidência de uma cultura e dos meios de apresentar-se forte o suficiente diante das pulsões primordiais. Mas aquilo que se impõe como civilização, já nos alertava Walter Benjamin, pode se apresentar como barbárie. Uma relação entre seres humanos que se apresenta como uma fantasmagórica relação entre coisas, seres humanos reificados e coisas fetichizadas. Uma sociabilidade em que própria vida não é mais que um meio de vida, em que os outros se degradam em meros meios de realização individual a serem usados e descartados. Não nos surpreende, portanto, que os “milhares e laços” que se obliteram sob o manto mercantil das coisas acabem por fazer com que os outros não tenham um grande significado para muitos e suas morte não os toquem de forma alguma como uma perda.

A pandemia, diferentemente da guerra, parece eliminar os traços incômodos da intencionalidade, da defesa dos sagrados interesses mundiais, da defesa da civilização ou dos direitos de certos povos se afirmarem como direção da humanidade. Na sua objetividade viral ela se espalha e mata, depois se espalha e volta a matar novamente. A racionalização possível é a conhecida casualidade incontrolável, natural e inevitável. O outro que morre é um ser descartável, não por ser o inimigo propriamente dito, mas por não ser aquele que se julga imortal. No início na pandemia da aids muitos a julgavam como um castigo que eliminaria os homossexuais, da mesma forma um rabino ortodoxo afirmou que a atual epidemia era a espada sagrada eliminando os pecadores até ser ceifado por ela. Não nos esqueçamos da “cegueira lógica” e das extraordinárias vantagens que a mentira proporciona na luta contra os outros. Nesse registro se inclui o “vírus chinês”, os remédios milagrosos, a relativização da doença (“gripezinha”, “resfriadinho”), a negação do isolamento, o combate ao uso de máscaras e outras manifestações de irracionalidade (“E daí?”, “É a vida…”)

Mais de três milhões de casos e mais de cem mil mortes. Do meu ser são arrancados milhares de rostos, minhas mãos se tornam invisíveis diante de meus olhos e a noite é tomada por um rio de murmúrios que escapam dos corpos sem vida quando deito em minha cama. Hoje morreu uma pessoa que eu não conhecia, que nunca conhecerei e isso abre em mim um abismo que nem todas as palavras do mundo podem preencher. A indiferença e a negação me apunhalam como uma segunda morte que segue as milhares de mortes e fico com a clara impressão de que a senhora que cobre seu esqueleto com um manto escuro e segura a foice afiada em suas mãos levou muitas pessoas que já não estavam vivas.

Não é a vida que segue, é a morte que segue em seu macabro trabalho ajudada pelas hordas daqueles que a amam mais do que a vida. Lutemos para que os arqueólogos do futuro, quando escavarem os restos de nossa civilização não encontrem como nossa principal realização a indiferença.

“Toda tristeza do mundo
Não cabe em meus olhos
Por isso a derramo neste rio
Para que outros matem sua sede”

Mauro Iasi

Festival de sandices que exaure o Brasil

Este governo é uma fábrica de ideias péssimas. Algumas delas parecem, no primeiro momento, mentira. Taxar desempregado para financiar um programa de emprego e ainda batizá-lo de verde e amarelo. Adiar de 65 para 70 anos a idade na qual o idoso da extrema-pobreza terá direito a receber integralmente o Benefício de Prestação Continuada. Pegar dinheiro do Bolsa Família para financiar propaganda do Planalto. Todas essas ideias já foram derrotadas, felizmente. Mas o que elas têm em comum? Uma insensibilidade social que chega a ser caricata.

A nova péssima ideia, que no primeiro momento pareceu fake news, é a de adiar o Censo para 2022 e usar os recursos para reforçar o orçamento do Ministério da Defesa. O país simplesmente não pode mais atrasar o registro do seu retrato demográfico, de todas as múltiplas informações que só se consegue com o Censo. Ele fica mais urgente porque já foi adiado por um ano, por causa da pandemia, e porque em 2015 não foi feita a contagem da população.

O vice-presidente Hamilton Mourão admitiu que isso está em análise. O IBGE nada tem a dizer oficialmente sobre o assunto. O temor cresce porque, apesar do excelente quadro técnico do IBGE, a atual direção do órgão sofre de excessiva submissão ao Ministério da Economia, como ficou demonstrado no episódio dos cortes no orçamento do Censo. Mourão argumentou que os projetos do Ministério da Defesa estão atrasados. Se a construção de uma fragata for adiada o país não vai naufragar. Mas sem dados para orientar as políticas públicas ficará à deriva.

"Jair e seus anões", Becs (Argentina)

Algumas ideias mostram um governo sem rumo, que atira a esmo. Aliás, como gosta de atirar. Ele decidiu vetar máscaras em comércio, escolas, igrejas. Felizmente o Congresso derrubou. Tentou tirar a obrigatoriedade de cadeirinha de segurança para criança e aumentar a quantidade aceitável de infrações do trânsito. O Ministério da Economia quis adiar a vigência do Fundeb para 2022, o que criaria um caos no ano que vem. O presidente mandou o Exército produzir milhões de comprimidos de cloroquina e o presidente chegou a correr atrás de uma ema para persuadi-la a ingerir a medicação. O Ministério da Justiça fez um dossiê contra policiais que se declaram antifascistas, ato que serve como autodeclaração da tendência política desta administração. Falou-se em reduzir de 8% para 6% o recolhimento do FGTS, tirando do trabalhador para ajudar o patrão. Cada uma que parece duas.

Há ideias que são fixas. A melhor representante dessa categoria persistente é a CPMF. Não há uma proposta que saia do Ministério da Economia que não seja condicionada à criação do imposto de nome não dito, mas de feição fácil de reconhecer.

Quando as sandices são empilhadas e analisadas percebe-se que não há um centro gerador das más ideias. Há método na coisa. O governo segue as modernas técnicas de gestão descentralizada. De cada ponto pode sair maluquice. Essa de trocar o Censo por armamento, por exemplo, não se sabe de onde surgiu. É tão ruim que seu autor não teve a coragem de defendê-la publicamente. Mourão falou porque foi perguntado e deu uma esperança: dependerá do Congresso.

O ex-presidente do IBGE Roberto Olinto definiu a proposta como “escândalo inaceitável” e explicou algo que não ocorreu aos nossos governantes. “Ter o Censo é também fazer a defesa do país”, porque, como explicou à repórter Adriana Fernandes do “Estadão”, “é muito mais estratégico ter o conhecimento do país”. O Brasil muda muito, é complexo, tem enormes desigualdades e carências, e sairá ainda mais desigual desta pandemia. Que cabeça pode conceber a proposta que, como disse Olinto, “rompe qualquer protocolo de produção de estatística mundial de qualidade”?

Muitas das ideias ruins são derrotadas depois de batalhas no Congresso, na Justiça ou no debate público. Mas elas todas juntas mostram que, se vivo fosse, o genial Sérgio Porto, Stanislaw Ponte Preta, poderia reinaugurar o que ele batizou de “festival de besteiras que assola o país”. Hoje, o termo “sandice” define mais precisamente certas ideias governamentais. E em vez de assola, talvez a palavra “exaure” seja mais exata. O país está esgotado de tanto brigar pelo que é óbvio, pelo que deveria estar claro, pelo que já estava garantido. Agora será necessário lutar para que o IBGE faça o Censo. Que insensatez.

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Dilema do Brasil

 

A escolha dos pobres

A divulgação da pesquisa com aumento da popularidade de Bolsonaro não deveria surpreender tanto. A negação da pandemia de coronavírus, para muitos de nós, parecia um fator de desgaste. Mas nem isso colou, pois 47% dos entrevistados consideram que Bolsonaro não tem culpa pelo fracasso nacional diante da pandemia.

O ponto elementar do aumento do prestígio de Bolsonaro é a ajuda emergencial. No início queria que fosse de R$ 200, mas as negociações com o Congresso acabaram elevando-a para R$ 600. Apesar do esforço dos deputados, Bolsonaro capitalizou sozinho essa extraordinária transferência de renda, que salvou muita gente e em alguns pontos do Nordeste melhorou as condições de vida.


Isso tudo, num momento em que discutimos a democracia e seus limites, deveria ser visto com bastante calma. Em primeiro lugar, é comum em todos os estudos da democracia apontar um apoio maior ao governo em regiões que dependem da assistência oficial. Tem sido assim no Nordeste. De modo geral, é a última região onde os governos perdem força.

Os anos em que a esquerda esteve no poder deram-lhe a sensação de que estava selada entre ela e a população mais pobre uma aliança histórica irreversível. Há muita ilusão nessa ideia. Alguns críticos da esquerda afirmam que ela errou por considerar apenas o aspecto fisiológico da aliança, sem avançar na educação política. Pessoalmente, acho que errou apenas ao enfatizar as melhorias no aumento de um tipo de consumo, deixando de lado alguns avanços que seriam vitais para os pobres, como, por exemplo, o saneamento básico.

Uma questão que se coloca para a democracia é até que ponto as limitações econômicas não transformam em fantasia a ideia de que as pessoas escolhem livremente seu caminho. Ou, em outras palavras, enquanto houver pessoas abaixo da linha de pobreza não há escolha para elas senão tentar escapar dela.

As pesquisas fora do Brasil que mostram a decadência da democracia entre gente da classe média e jovens são eloquentes nesse sentido. Em muitos lugares há uma tendência crescente a aceitar um governo autoritário e mesmo uma ditadura militar. Não é a extrema pobreza que produz esse sentimento. Em muitos casos a decadência da adesão democrática se dá apenas porque foi interrompido o processo de melhoria de vida. Em outros casos, os entrevistados dizem que estão bem de vida, mas abandonam a crença na democracia porque uma cidade vizinha ficou pobre ou porque um bairro próximo apresenta altos níveis de violência.

Em síntese, se setores da classe média orientam suas posições por um pressentimento quanto ao futuro, como questionar que pessoas em extrema dificuldade canalizem seu apoio político diante de algo mais essencial, que é a sobrevivência física?

Certamente outras políticas públicas têm peso na vida dos mais pobres. A de saúde é uma delas. Acontece que neste período de pandemia, apesar da corrupção, houve aumento de vagas em hospitais e uma sensação de que a maioria dos pacientes foi atendida. Alguns erros, como a não hospitalização mais precoce, não chegaram a ser sentidos com clareza. Muito menos a incidência maior de mortes em regiões mais pobres foi politizada, uma vez que a vimos com a habitual resignação diante de problemas estruturais.

Outra política que influencia a vida das pessoas mais pobres é a de educação. No período da pandemia o setor ficou congelado. Mesmo a educação privada sofreu o impacto e conseguiu se sair melhor com o trabalho a distância. Mas também essa diferença foi atenuada pelo fato de que nos acostumamos com o desnível estrutural entre o ensino particular e o público.

Um dos pontos que não foram articulados na análise da pesquisa é até que ponto a política assistencial de Bolsonaro será sustentável. Os dados que complementam a análise mostram que há uma previsão de queda de 11% na atividade econômica do segundo semestre. O País poderá com isso entrar em recessão.

Em que bases o governo consegue ser popular numa recessão? Precisaria de muito mais estudo para formular a saída. O único exemplo de governo que se sustenta apesar do avanço da pobreza é o da Venezuela. Ali se combinam dois fatores importantes. Uma parte da população se sente contemplada. E as Forças Armadas, sócias do chavismo e das benesses do governo, são de uma fidelidade até o momento inabalável.

A decisão de destinar mais dinheiro à Defesa do que à Educação e à Saúde revela que o caminho de se associar às Forcas Armadas Bolsonaro adotou desde o início. O que há de novidade é a ajuda assistencial, que ele sempre considerou uma forma de a esquerda comprar votos, passar a ser a principal esperança de sua sobrevivência política.

A esquerda tem dificuldade de aceitar que as massas apoiem a direita por causa da ajuda assistencial. E a direita sempre atacou o Bolsa Família como se fosse algo que entorpecia não só a escolha política, como o desejo de trabalhar e empreender.

Parece que, em certos casos, pouco importa ser de esquerda ou de direita, a história já está previamente escrita.

O esgotamento do milagre

No Brasil republicano, houve dois longos ciclos de modernização do Estado e da economia, ambos em regimes ditatoriais. O primeiro, após a Revolução de 1930, que culminou no Estado Novo, durou 15 anos e se esgotou com o fim da II Guerra Mundial e a redemocratização; o segundo, após o golpe militar de 1964, resultou numa ditadura de 21 anos. Em dois momentos, porém, foi possível realizar ciclos de modernização do Estado e da economia em bases democráticas, durante os governos Juscelino Kubitschek (1956 a 1961), com seu Plano de Metas, e Fernando Henrique Cardoso (1995 a 2002), com o Plano Real.

Como foi a ascensão e queda do “milagre econômico” dos militares? O I Plano Nacional de Desenvolvimento, no governo do general Garrastazu Médici, idealizado pelo ministro do Planejamento João Paulo dos Reis Veloso, pretendia pôr o Brasil entre as nações desenvolvidas no espaço de uma geração. Para tanto, duplicaria a renda per capita do país até 1980; elevaria o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) até 1974, com base numa taxa anual entre 8% e 10%; e elevaria a taxa de expansão do emprego até 3,2% em 1974, além de reduzir a inflação.


A meta foi ultrapassada: o crescimento do PIB, de 1967 a 1973, foi de cerca de 10,2%, e de quase 12,5% entre 1971 e 1973, diante de uma média de 7% no pós-guerra, até o início dos anos 1960. Diante do crescimento da população de 2,9% ao ano, a segunda grande meta, de aumento do PIB per capita à taxa de cerca de 6%, também foi alcançada. Entre 1967 e 1973, população aumentou de 85,1 milhões para 99,8 milhões de habitantes, o produto per capita cresceu à taxa média de 7,2%. O nível de emprego passou “de 2,8% para a ordem de 3,3% em 1973”. Outra “grande meta” era o aumento do investimento fixo bruto em 58% de 1969 para 1973. Entre 1971 e 1973, a formação bruta de capital fixo correspondeu, em média, a 21% do PIB, alcançando 22,4% em 1973. Apenas no período de 1970 a 1973, o aumento real do nível de investimento foi de 62,9% –– novamente ultrapassou a meta estabelecida em 1970.

Tudo isso foi “financiado” pela poupança nacional bruta. Entre 1967 e 1973, a absorção líquida de recursos do exterior foi de apenas 0,8% do PIB, elevando-se um pouco para 1,2%, de 1970 a 1973. Houve excessivo endividamento externo e concentração de renda, porque os salários cresceram a taxas inferiores à da produtividade, porém com ganhos expressivos para a classe média, que cresceu.

Para corrigir essas distorções, no governo Ernesto Geisel foi lançado o II Plano Nacional de Desenvolvimento, que pretendia elevar a renda per capita a mais de US$ 1 mil e fazer com que o PIB ultrapassasse os US$ cem bilhões em 1977. A meta para o quinquênio 1975-1979 era enfrentar a escassez de petróleo e promover novo ciclo de industrialização, alavancado pelo setor produtivo estatal, com implantação de indústrias básicas, sobretudo bens de capital e eletrônica pesada, para substituir as importações e abrir novas frentes de exportação. A agropecuária também teria um novo papel.

O II PND mirava uma sociedade industrial moderna, tendo por núcleo básico a região Centro-Sul. Exigia investimentos de Cr$ 700 bilhões para a indústria de base, o desenvolvimento científico e tecnológico e da infraestrutura econômica. A política de energia seria decisiva para reduzir a dependência do país em relação às fontes externas. Havia um programa de aplicação de recursos no Nordeste, ocupação produtiva da Amazônia e da região Centro-Oeste.

A crise do petróleo e a falta de capacidade de financiamento do setor público, porém, levaram ao colapso o projeto de capitalismo de estado dos militares. Havia muito voluntarismo, o modelo de substituição de importações havia se esgotado com o avanço da globalização, ao mesmo tempo que a sobrevivência política do regime militar era ameaçada pela oposição democrática, apesar da brutal repressão.

Na prática, o projeto de abertura política de Geisel, que teve seu curso no governo Figueiredo, diante das sucessivas derrotas eleitorais dos militares e seus aliados, foi mais bem-sucedido do que o II PND. Os militares se retiraram em ordem para os quartéis, após a eleição do oposicionista Tancredo Neves, um liberal-conservador, em 1985. Entretanto, agora, estão de volta ao poder, na garupa do presidente Jair Bolsonaro. Saudosistas do “milagre econômico”, porém, movem uma guerra surda contra o ministro da Economia, Paulo Guedes, para mudar a política econômica e retomar o velho projeto nacional-desenvolvimentista. Sem chances de dar certo.

Brasil, país infeliz

O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2019 aponta que quatro meninas de até 13 anos são estupradas no país a cada hora. Um levantamento feito pela BBC News Brasil, com base no Sistema de Informações Hospitalares do SUS, do Ministério da Saúde, revela que o país registra uma média anual de 26 mil partos de mães com idades entre 10 a 14 anos. Ainda segundo o levantamento, o país registra, ao menos, seis abortos por dia em meninas de 10 a 14 anos, em média.

Leio essa nota e em seguida leio que o presidente da CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – d. Walmor Oliveira, disse que “interromper a gravidez de uma criança de dez anos, vítima de estupro, “é um crime hediondo”. Outro membro da CNBB, d.Fernando Saburido, arcebispo de Olinda e Recife, declarou que se grave foi o estupro, gravíssimo foi o aborto!

Pois eu duvido que o Papa Francisco concorde com esses bispos. Duvido. Ele tem lutado muito para preservar a nossa Fé e para que o número de católicos não diminua, ao contrário, que aumente. E vem a CNBB e solta uma opinião estúpida dessas?


Sou católica apostólica romana, fui batizada, fiz primeira comunhão, fui crismada, casei no civil e no religioso e tenho um filho que criei nos ensinamentos da Igreja Católica.

Mas diante da reação infeliz da CNBB, que foi incapaz de criticar e condenar os pseudo cristãos que se aglomeraram diante do hospital no Recife, onde estava internada a menina de 10 anos grávida de um estupro cometido por seu tio, só posso desejar que a CNBB vá minguar cada vez mais...

A Igreja Católica excomungou médicos que realizaram um aborto numa menina de 9 anos engravidada pelo próprio pai há uns dois anos. Por acaso se preocupou em excomungar o médico que invadiu o hospital no Recife para pressionar a menina que lá estava prestes a ver finalizado o seu calvário? Por acaso se preocupou em excomungar e lutar para banir para sempre do convívio com a sociedade essa infeliz e extremamente perigosa Sara Giromini, que vazou o nome e os dados pessoais da triste menina?

Neste Brasil onde o analfabetismo, a ignorância e a desigualdade predominam, onde ficamos sabendo do número bárbaro e vergonhoso de meninas violentadas, haveria outra solução sem ser o aborto? Qual seria a alternativa? Orações pelo fim espontâneo da gravidez? Obrigar a criança a ter uma criança e parar de viver sua vida para viver a vida de uma criança que não desejou, cuja chegada não lhe trará amor, mas só dor e infelicidade?

Se os homens engravidassem quantos estariam na porta do hospital no Recife aos berros e atiçando o povo contra os médicos e as enfermeiras que lá se dedicam a salvar vidas? Como não engravidam, só sabem engravidar as mulheres, se dão ao direito de seguir a grotesca extremista, essa indigna Sara Geromini que de uma coisa se assegurou: foi à Caixa receber o auxílio emergencial de 600 reais.

Fé, Esperança e Caridade são as virtudes teologais do catolicismo. E nessas virtudes se basearam as mulheres que se reuniram em grupo para combater os anões morais que urravam palavras horríveis na porta do hospital no Recife. Elas lembravam que o aborto após estupro tem amparo legal no Brasil, que gravidez forçada é tortura e que gravidez aos dez anos pode significar Morte. E insistiam: “Pela vida das meninas e das mulheres. Legaliza. É pela vida das mulheres!”.

Pensamento do Dia

 

Os guizos falsos da alegria

O deus Apolo concedeu à bela Cassandra o dom da profecia, mas dela não obteve a desejada recompensa sexual. O deus, então. puniu-a de uma forma devastadora. Determinou que ninguém mais daria crédito a suas profecias, que passariam a ser ouvidas como manifestações de um repetitivo e infundado pessimismo.

No século 18, ironizando a filosofia de Leibniz, Voltaire criou o Dr. Pangloss, uma Cassandra com o sinal trocado, empenhado em nos convencer de que vivemos no melhor dos mundos possíveis. Na História brasileira, até o limiar da 2.ª Grande Guerra, tivemos muito mais Cassandras que Panglosses, e não por acaso. Ameno em alguns, virulento em outros, nosso cassandrismo foi elaborado por uma plêiade de brilhantes historiadores e ensaístas. Tributário da cultura ibérica, colonizado por Portugal, atrelado à monocultura, o futuro brasileiro pouco ou nada teria de promissor. Sua variante talvez mais aguda foi a formulada por Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil (1936). Para ele, o que nos condenava era nossa incapacidade de construir um Estado digno de tal nome: “A ideia de uma espécie de entidade imaterial e impessoal, pairando sobre os indivíduos e presidindo seus destinos, é dificilmente inteligível para os povos da América Latina”.


No pós-guerra abrimos espaço para um panglossianismo moderado, aderindo ao “desenvolvimentismo” que começava a empolgar todo o Terceiro Mundo. Aceitamos a tese de Raimundo Faoro (Os Donos do Poder, 1958) segundo a qual a herança portuguesa não seria propriamente a inexistência de um Estado. Tínhamos um poder central poderoso, mas patrimonialista. Patrimonialismo, como sabemos, é aquele tipo de organização política em que o rei distribui todos os ativos valiosos e as melhores oportunidades de enriquecimento a seus apaniguados. Melhor que nada, quem não tem cão caça com gato. No mesmo ano, com sua celebrada Formação Econômica do Brasil, Celso Furtado robusteceu substancialmente nosso mirrado panglossianismo. Um poder central capaz de planejar a economia era do que precisávamos para implantar a industrialização substitutiva de importações, que nos conduziria à terra prometida.

E assim fomos em frente, com certos guizos falsos da alegria aliviando nossos sofrimentos. Justiça seja feita, atingimos alguns objetivos importantes, como a expansão do agronegócio. Mas erramos – ou perpetuamos erros monumentais –, como a “industrialização em marcha forçada” do general Ernesto Geisel e a subsequente “década perdida”; a obscena desigualdade social; um sistema de ensino calamitoso; uma situação sanitária indescritível, com quase 50% dos domicílios sem ligação com a rede pública de esgotos e o mosquito Aedes aegypti passeando por toda parte, de São Paulo para cima; e, agora, uma radicalização política estúpida, pano de fundo para uma perigosa deterioração das instituições de governo, nos três Poderes.

A verdade nua e crua é que já não compreendemos o país em que vivemos. Tentamos entendê-lo com base na dicotomia esquerda x direita, enquanto não lhe proporcionamos o merecido sepultamento. Ignorando que, mesmo nos países mais adiantados da Europa, a parcela dos eleitores capaz de balbuciar algo inteligível sobre tal dicotomia não chega a 20%, dizemos, sem nenhum rubor, que Lula é de esquerda (o esquerdista dos sonhos do sistema financeiro) e que Jair Bolsonaro é (OK, não é mais) um liberal de direita. E o coronavírus, é de direita ou de esquerda?

Enquanto nos abeberamos em tais sandices, continuamos a não perceber quantos graves problemas – velhos e novos – se vão acumulando. O papel das Forças Armadas como instituições nacionais, que julgávamos bem estabelecido desde os anos 30 do século passado, começa a perder nitidez à medida que o presidente Jair Bolsonaro convoca numerosos oficiais-generais para cargos administrativos. Para encurtar uma longa história, o fato é que continuamos aprisionados na chamada “armadilha do baixo crescimento”: para alcançar o nível atual da Grécia precisaremos de um crescimento médio anual de 2% em nossa renda per capita.

Nossa obtusidade parece ainda maior quando nos voltamos para o sistema político e para a máquina administrativa. Vituperamos diariamente o patrimonialismo português, não percebendo que ele secretou dois produtos igualmente nefastos. De um lado, a corrupção Odebrecht size. De outro, uma variante “democrática”, o corporativismo generalizado, ou seja, uma infindável trama de interesses estreitos, insuscetível de agregação. O antídoto para o corporativismo é, em tese, o partido político, mas um país ter três dúzias de partidos e não ter nenhum é mais ou menos a mesma coisa. É como somar mais trinta e tantos grupos corporativos aos anteriormente existentes. Parado na “armadilha do baixo crescimento”, é evidente que o Brasil não vai ficar. Se não formos para a frente, iremos para trás, e o cenário do regresso não será para almas frágeis.

O 'gado humano' que Bolsonaro leva ao matadouro

O Brasil superou as 100.000 mortes por covid-19 e, na velocidade atual em torno de 1.000 mortos por dia, poderá chegar aos 200.000 ainda em outubro. E então a Folha de S.Paulo estampa na manchete de 15 de agosto a conclusão da pesquisa do Datafolha: “para 47% dos brasileiros, Bolsonaro não tem culpa pelas 100 mil mortes por covid-19”. Nenhuma culpa. O Brasil tem 21 novos casos/dia por 100.000 habitantes, quando a média global é 3. Mesmo vilões como os Estados Unidos de Donald Trump têm 17 novos casos/dia por 100.000 e a Índia de Narendra Modi, 5. Mesmo com as evidências de negligência intencional e deliberada na relação com a pandemia, que já motivou três petições de crimes contra a humanidade no Tribunal Penal Internacional, a mesma pesquisa já tinha mostrado que Bolsonaro alcançou sua melhor aprovação desde o início do mandato: 37% de ótimo ou bom. A melhora é puxada especialmente pelos mais pobres e pelo Nordeste do Brasil, região onde ele teve menos votos em 2018. A rejeição caiu enquanto o número de mortos explodiu. Por que quase metade dos brasileiros se comportaria como “gado humano”, como tem sido chamada, e aceitaria Bolsonaro conduzi-la alegremente para o matadouro?

A conclusão mais fácil, amplamente difundida nas redes sociais, é a de que as pessoas são burras. E também mal informadas. O auxílio emergencial de 600 reais por mês para os mais pobres devido à pandemia teria feito com que Bolsonaro fosse visto momentaneamente como o capitão dos pobres. A desinformação seria por conta de que o Governo federal foi obrigado pelo Congresso a pagar 600 reais. Bolsonaro não queria passar dos 200. O campo da esquerda, que quase dois anos depois da eleição ainda não foi capaz de fazer oposição efetiva a Bolsonaro, apavora-se porque o Governo emite sinais de que o Bolsa Família do lulismo pode virar o Renda Brasil do bolsonarismo. E, se isso acontecer, Bolsonaro tem mais chances de se reeleger em 2022.

O que é ser burro e o que é ser inteligente, porém, não é uma definição fácil, muito menos simples. Grande parte da população brasileira vive apenas o dia de hoje. Para a maioria, o mês seguinte já é longe demais. A ideia de futuro é considerada um privilégio dos mais ricos, e este é um dado muito importante, porque emancipação política só é possível com pessoas que têm acesso à ideia de futuro. Quando o futuro se torna um privilégio dos mais ricos, e não um direito assegurado a todos, a maioria é condenada ao presente. E o presente é movido por comer ou não comer, ter um lugar para dormir ou ser despejado, manter-se respirando.

A realidade é que os 600 reais do auxílio emergencial garantiram uma renda inédita a pelo menos 65 milhões de brasileiros e suas famílias. E, quando o benefício acabar, o que pode acontecer em seguida, voltarão a ter que se virar com muito menos, num país com um número ainda maior de desempregados e com a recessão se ampliando. Segundo artigo de Mauro Paulino e Alessandro Janoni, diretor-geral e diretor de Pesquisas do Datafolha, “dos cinco pontos de crescimento da taxa de avaliação positiva [de Bolsonaro], pelo menos três vêm dos trabalhadores informais ou desempregados que têm renda familiar de até três salários mínimos, grupo alvo do auxílio emergencial pago pelo governo”.

Vale a pena ressaltar que o que se chama de classe média no Brasil, assim como aqueles que se entendem como classe média, nada têm de média. Em São Paulo, por exemplo, segundo a tabela preparada pelo Nexo, se você ganha 12.000 reais por mês já faz parte do seletíssimo clube do 1% mais rico do Brasil. A tabela tem suas limitações, mas cada um pode calcular sua renda em comparação com o restante da população e ter uma ideia muito aproximada da situação.



O Brasil tem a segunda pior concentração de renda do mundo, conforme o Relatório de Desenvolvimento da ONU: o 1% mais rico concentra 28,3% da renda total do país. Só perde por muito pouco para o Catar, onde a concentração de renda chega a 29%. Este é o tamanho do abismo da desigualdade brasileira. Vale a pena lembrar ainda que os bilionários não são 1%, como se costuma dizer no senso comum —e sim 0,00003% da população global. Mais especificamente 2.153 pessoas como eu e você, que concentram 60% mais riqueza material que quase 7,8 bilhões de pessoas da mesma espécie.

O mundo tem uma pessoa bilionária para cada 3,7 milhões de outras. No Brasil, segundo o último ranking da Forbes, há 45 pessoas bilionárias. Quarenta e cinco. Enquanto isso, a metade mais pobre da população brasileira, cerca de 104 milhões de pessoas, vivia em 2018 com 413 reais de renda mensal. Não há futuro para a maioria com essa desigualdade monstruosa. Só um presente vergonhosamente precário. E o presente vergonhosamente precário é, neste momento, ainda absurdamente precário, mas menos precário com o auxílio emergencial de 600 reais —composto por recursos públicos, mas interpretado como uma benemerência de Bolsonaro.

A redução da miséria e da pobreza, conquistada nos anos dos Governos do PT (e, antes dele, em níveis consideravelmente menores, nos governos do PSDB de FHC), foi imensamente importante, mas suficiente apenas para reduzir a fome e garantir melhorias pontuais, como acesso a bens básicos como geladeira e fogão. Isso, é necessário assinalar, não é pouca coisa. A questão, que já era apontada na primeira década deste século, é que jamais foi suficiente para criar cidadãos, no sentido daquilo que é definido como sujeitos de direitos. Para criar cidadãos é necessário reduzir a desigualdade, o que nunca foi feito de forma significativa no Brasil.

Para diminuir a desigualdade é preciso fazer mudanças estruturais capazes de reduzir os privilégios da minoria mais rica e taxar pesadamente as grandes fortunas. Só assim se garante uma redistribuição mais igualitária da riqueza existente. O Governo mais próximo de um ideário social de esquerda no Brasil, o de Lula, era um governo de conciliação. Lula e principalmente Dilma Rousseff sacrificaram a Amazônia e o Cerrado, assim como bandeiras históricas como a da reforma agrária, para garantir a massiva exportação de matérias-primas durante um momento de crescimento da economia global, especialmente da China. Era a fórmula —limitada, como se viu— para os pobres ficarem menos pobres e, ao mesmo tempo, os ricos mais ricos.

Há muitas definições de cidadania. Eu gosto daquela que define o cidadão como aquele que pode ter a certeza do básico —alimentação, transporte, saúde e educação— e então pode ser capaz de imaginar e criar futuros onde quer viver porque o seu tempo não é devorado pela estrita manutenção do corpo, mas para desenvolver seu potencial para a ampliação do bem comum. Se o mundo é hoje extremamente desigual, o Brasil, com seu tamanho continental e 210 milhões de habitantes, é o exemplo mais eloquente da violência representada pelo sequestro do futuro da maioria da população, reduzida ao esgotamento cotidiano dos corpos para manter-se respirando.

Diante das condições de vida absolutamente precárias da maioria dos brasileiros e do súbito aumento da renda com o auxílio emergencial, o surpreendente não é que a aprovação de Bolsonaro suba durante a pandemia. O surpreendente é que isso seja uma surpresa. Se a reação previsível e lógica dos mais pobres é uma surpresa para parte da população, especialmente no campo da esquerda, quem então são os burros e os mal-informados sobre o que se passa no país?

O boicote intencional de Bolsonaro ao enfrentamento da covid-19 pode ser comprovado por atos documentados no Diário Oficial da União, além de uma comunicação feita deliberadamente para desinformar a população. As pesquisas também provam que são os mais pobres, e a maioria dos mais pobres no Brasil é negra, que morrem mais de covid-19. No Campo Limpo, um dos bairros com Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) mais baixos de São Paulo, a letalidade da covid-19 por 100.000 habitantes é altíssima —52%. Já nos bairros mais ricos, com IDH mais alto, como Pinheiros, a taxa é de 5%. Na maior cidade do Brasil, há 10 vezes mais letalidade por covid-19 nos bairros mais pobres quando comparados aos mais ricos.

Como então é possível que a melhoria nos índices de aprovação do antipresidente seja justamente puxada pelos mais pobres? A resposta também pode ser buscada na precarização da vida. O que chamamos de povo brasileiro é composto, em sua maioria, por pessoas que só vivem porque teimam. A história do Brasil é uma trajetória de espoliação de matérias-primas extraídas da natureza e, no caso da maioria da população, de corpos escravizados e depois brutalmente explorados. O que se transmite de pai e mãe para filhos e filhas é que a sobrevivência não é garantida, ela é arrancada. A morte é normalizada.

A história das famílias mais pobres é uma história em que os filhos mortos são contados junto com os vivos. As mulheres sabem que parte da sua prole pode morrer pelas condições precárias da vida, pela falta de acesso à saúde, à água, a saneamento básico e também a alimentos. Também sabem que morrer por violência é uma probabilidade, especialmente se seu filho for negro, seja pelas balas da polícia, da milícia ou por assalto. Há periferias do Brasil em que você pode bater aleatoriamente em uma fileira de portas e todos terão uma morte ou mais para contar, por violência e/ou por falta de condições de saúde.

A tragédia crônica do Brasil é ter um povo para quem a morte por doenças evitáveis e por violência é normalizada porque foram colocados na condição de matáveis e de morríveis desde a formação do país. Não é um povo, é uma massa de desesperados extremamente criativos que vem resistindo há séculos contra todas as formas de extermínio.

O que quero explicitar é que os brasileiros mais pobres vivem sujeitados a aceitar a perda dos que amam. Esta é uma das faces mais horrendas da desigualdade, mas o horror desta face nunca a impediu de ser aceita como normal, em especial pelos mais ricos, inclusive os que se consideram classe média. Neste sentido, a covid-19 é mais uma forma de morte. Se as outras mortes não são evitadas, por que esperar que um governante evitasse esta?

Para suportar o horror de estar na condição dos que podem morrer por aquilo que não mata os brancos e os mais ricos —ou pelo menos que mata muito menos os brancos e os mais ricos—, uma parcela significativa dos brasileiros atribui seu destino à vontade divina. Pelo menos, neste caso, podem rezar, pagar o dízimo para o pastor, tentar reverter o destino ou, pelo menos, encontrar um sentido para suas tantas perdas numa vontade superior. Numa realidade que parece imutável, o que não se pode entender, como a vontade de um deus, pode ser mais suportável do que a explicação de que a sua vida pouco importa para quem tem seu destino terreno nas mãos.

Assim, a covid-19, tanto quanto as outras doenças, também é considerada culpa de ninguém. Nem mesmo de Bolsonaro, apesar dos seus vômitos públicos de irresponsabilidade. O “E daí?” de Bolsonaro é apenas um degrau a mais, por ter sido dito em voz alta, para o grande “e daí?” histórico, permanente e persistente vivido pelos mais pobres ao longo de gerações e de Governos. Para alguns fiéis de determinadas igrejas neopentecostais, pragas do gênero já estão inclusive previstas na Bíblia. As doenças são em geral uma alegoria com muita ressonância numa população cada vez mais evangélica. A pergunta do Datafolha pode nem fazer muito sentido para uma parcela da população: como assim um presidente vai ter culpa por uma doença? Doença acontece, é fatalidade, quando não enviada por Deus para castigar a imoralidade reinante.

Isso é ignorância? Pode ser. Mas é principalmente sobrevivência, inclusive psicológica. Se você aceitou que a perda e a morte fazem parte do seu lugar no mundo, como fizeram parte antes do destino de seus pais e avós, o que importa é garantir a comida, o gás, o puxadinho para quem sobrar. Garantir os 600 reais. E quando os 600 reais acabarem? O amanhã é longe. Não há futuro para quem foi reduzido ao hoje. Se a maior parte da população está na condição de matável e de morrível —e isso nunca mudou, nem nos melhores anos do governo Lula—, qual é a surpresa no fato de que os 100.000 mortos não impactem negativamente na aprovação de Bolsonaro e que os 600 reais impactem positivamente? De novo, quem são os burros e os mal-informados?

Neste momento, há um debate sobre as variáveis. Bolsonaro cada vez mais se descola da agenda neoliberal de Paulo Guedes, com a qual de fato nunca se importou, era apenas seu passaporte para ter o apoio dos representantes do que chamam de “mercado” na eleição. Rifou meses antes Sergio Moro e a classe média que ele representava, isso quando o próprio Moro já tinha rifado antes sua reputação e levado para o esgoto um pedaço da Operação Lava Jato. A Bolsonaro interessa o poder e a proteção da sua família. E se o poder é o único princípio, nenhum problema em se unir ao Centrão no momento em que se vê acuado pela aproximação cada vez maior das investigações envolvendo Fabrício Queiroz, as rachadinhas no gabinete do filho zeroum e o envolvimento com as milícias do Rio. Há chances consideráveis de que em algum momento próximo Bolsonaro possa mesmo rifar Guedes e se tornar o novo pai dos pobres, fazendo a migração do auxílio emergencial para o Renda Brasil, mirando seus dedos de arminha na reeleição de 2022.

E a oposição? Bem, é preciso entender que quem fez a oposição mais efetiva à extrema direita de Bolsonaro foi a direita. O presidente do Câmara, Rodrigo Maia (DEM), assim como governadores até ontem aliados, como João Doria (PSDB), em São Paulo, e Wilson Witzel (PSC), no Rio de Janeiro. Hoje, com Bolsonaro fazendo os giros necessários para agradar a uma parcela dessa direita, Rodrigo Maia está confortavelmente sentado sobre a pilha de quase 60 pedidos de impeachment e chegou a dizer em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, que não vê Bolsonaro praticando crime nenhum que justifique a abertura de processo de impedimento no Congresso.

No Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, o ministro mais ligado à política partidária de direita e de centro-direita, passou meses batendo duramente no governo. Recentemente, alertou os generais de Bolsonaro sobre o risco de serem atingidos por denúncias de genocídio relacionadas à atuação deliberadamente catastrófica do Governo na covid-19. Dias atrás, porém, assinou uma decisão liminar considerando que Fabrício Queiroz, ex-PM e assessor do senador Flávio Bolsonaro, e sua mulher, Márcia Aguiar, têm o direito de cumprir prisão em casa em vez de na cadeia. Decisão bastante incomum dada a trajetória do casal, ele escondido por meses e ela foragida. Por coincidência —ou não—, a decisão vem num momento em que as investigações por corrupção e envolvimento com milícias chegam mais perto de Bolsonaro, mas ele faz acenos a partidos como o MDB de Michel Temer, seu mais recente conselheiro, que chegou a ser enviado em missão oficial ao Líbano pelo novo amigo.

E a esquerda partidária? Esta não conseguiu fazer oposição efetiva até hoje. Enquanto parte da direita dá sinais de estar se acertando com a extrema direita bolsonarista, o PT não consegue se acertar com a esquerda nem para disputar a Prefeitura de São Paulo nas próximas eleições municipais. Com a ameaça de o Renda Brasil substituir o Bolsa Família na memória da população, os petistas se moveram para estimular a memória do povo. A realidade mostra, porém, que memória curta é questão de sobrevivência para grande parte da população. Num país em que uma renda de 600 reais por mês é a maior alcançada por dezenas de milhões de pessoas numa vida inteira, o que se pode esperar? Vivem como se não houvesse amanhã porque há mesmo grandes chances de não haver.

Se a direita se acertar com a extrema direita, ainda que momentaneamente, o Brasil vai viver uma situação inédita: no pior Governo da história da República, com quatro petições por crimes contra a humanidade perpetrados por Bolsonaro no TPI e mais de 110.000 mortos de covid-19 não haverá nenhuma oposição partidária. Sim, porque a esquerda está ocupada brigando entre si e fazendo oposição a si mesma.

Quando uma parte significativa da população aprova Bolsonaro e diz que ele não tem culpa nenhuma pela covid-19, essa parcela está fazendo a única política que conhece. Graças a essa adesão, Bolsonaro vislumbrou um caminho para ser reeleito e, pela primeira vez, cogita garantir sua popularidade distribuindo renda para os mais pobres. Justo ele, que foi o único presidente da redemocratização que não citou a redução da pobreza num discurso de posse, está revendo sua posição. Quem conseguiu esse feito? Não foi a oposição nem foi a esquerda. De novo e pela última vez: quem são os burros e os mal-informados?

É claro que se trata de Bolsonaro. Se ele vislumbrar outro caminho para garantir a reeleição, salvar sua família —e a si mesmo— das investigações ou para consumar o golpe de forma mais clássica, o Renda Brasil pode desaparecer do horizonte das possibilidades em um segundo. Da mesma forma, se ele mudar de conveniência, os novos amigos podem virar inimigos de novo em menos de 24 horas. No momento, porém, sem combinar entre si, mas combinados pela experiência dos séculos, os que só têm o dia de hoje para viver elogiam o coronel da ocasião, neste caso um capitão reformado que gosta de armas e de bombas, e o absolvem de todos os pecados. Esse cenário de adesão também pode mudar da noite para o dia, caso não exista algum tipo de continuidade do auxílio emergencial.

O mais surpreendente na pesquisa do Datafolha é justamente o outro lado: que, neste Brasil precarizado e povoado por desesperados, 52% da população ache que Bolsonaro tem alguma culpa pelos 100.000 mortos —a maioria— ou toda a culpa —uma minoria. Sinal de que as forças emergentes dos Brasis que seguem avançando pelas fissuras e pelas bordas têm se movido —e muito— por um país em que futuro não seja coisa de rico. Sinal também de que há muitos entre os mais pobres que, contra todas as estatísticas, se recusam a seguir reduzidos à exaustão dos corpos e vêm lutando ferozmente pelo exercício da solidariedade, pela responsabilidade coletiva e pelo direito ao futuro. E esta é uma notícia incrível, que aponta para a resistência.

Ainda um acréscimo: para quem chama os bolsonaristas e também os brasileiros pobres, que neste momento aprovam Bolsonaro, de “gado humano”, um aviso. A boiada, quando é brutalmente empurrada para o matadouro, sofre horrores, esperneia, os olhos parecem saltar das órbitas, se mija de pavor. Tenta desesperadamente escapar.

O que pode salvar o Rio e o Brasil


O telejornal Bom Dia Rio abre minhas manhãs quando quero me informar sobre a cidade e o estado. As notícias exigem estômago forte no desjejum. Fachel, o apresentador, se indigna, cobra, se solidariza com o povo. As denúncias, em cascata pestilenta, obrigam autoridades a se pronunciar. Não conheço bom dia assim em cidade nenhuma do mundo. Vamos rever os destaques.

Preso homem acusado de agredir modelo trans. Lucas Brito Marques, de 24 anos, conheceu a modelo num bar em Copacabana, foram para a casa dela e ali começaram as agressões. Ela ficou com o rosto desfigurado, fratura no maxilar e no nariz, hematomas. Lucas também roubou dinheiro da modelo. 

Filha descobre que pai internado com suspeita de coronavírus no Hospital Salgado Filho morreu há 50 dias e já foi até enterrado. Família diz que recebia mensagens do hospital de que o pai estava bem e estável. “Meu pai morreu no dia primeiro de julho e foi enterrado no dia 5 de agosto. Quem enterrou? Como enterrou, se os documentos dele estão comigo?”. O hospital diz que mandou telegrama para a família. 

Rapaz se queixa de que o tio morreu de AVC no Salgado Filho e a família só foi informada no dia seguinte. “Só agora estou recebendo a notícia da morte de meu tio, que ficou numa gaveta dois dias. A partir do momento em que alguém entra naquela porta (de emergência), nós não temos mais informação. Isso é um absurdo. É revoltante. Paciente tem uma família. Cada um desses brasileiros tem família. E a vida de cada um importa sim”. 


Família de bebê de seis meses, em tratamento de meningite no Hospital Getulinho, em Niterói, diz que a criança sofreu queimaduras dentro do hospital. As imagens chocam. A mãe foi avisada por uma amiga de que havia algo errado com a filhinha Juliana. “Vi que ela estava toda enfaixada. Perguntei a um e outro, ninguém falava. Um disse que eram umas bolhas que foram se alastrando. Aí a médica de plantão disse que contaram uma história bizarra, foi na hora do banho”. 

Do hospital vamos para a favela. Repórter: “A gente está sobrevoando Parque das Missões, em Duque de Caxias. Pessoal acordando, saindo para trabalhar. Olha o que o morador encontra no caminho até o ponto de ônibus. Barricadas e homens fortemente armados com fuzis, armas de guerra, só o porte já é considerado crime hediondo. Veja o rapaz à direita do vídeo. E não tem operação policial. Virou rotina”. Fachel: “Ao cidadão desavisado, prazer, Rio de Janeiro, prazer, cidadão. Não é só Pão de Açúcar, Cristo Redentor, calçadão de Copacabana. Essa é a parte do cartãozinho postal. Rio de Janeiro verdadeiro é isso aí. Todo dia na tela do Bom Dia Rio”.

Idoso preso por pedofilia. Homem de 65 anos organizava orgias com menores. Repórter: “Roberto Sardinha Oliveira foi preso em Campo Grande. Num imóvel em que funcionava um bar. Ele aliciava crianças para praticar relações sexuais em troca de presentes, roupas e dinheiro. Preso em flagrante com uma menina de 13 anos”. 

Homem de 60 anos preso por estuprar menina de 7 anos em Guaratiba. Era o marido da avó da menina. A cena de sexo oral foi flagrada pelo tio. O estuprador negou, disse que a menina escorregou e a cena “acabou acontecendo”. Quem denunciou foi a mãe. Repórter: “Chega a ser difícil noticiar um caso assim tão bárbaro mas isso é crime muito grave”. 

Volta às aulas. Governo do estado já decidiu: rede particular retorna 14 de setembro e pública em 5 de outubro. Pais e professores acham prematura a reabertura. Infectologista alerta que a letalidade no Rio, 86 mortos por 100 mil, é uma das maiores do mundo. “O Rio nunca fez o isolamento social necessário. É ilusão começar a comemorar, porque o patamar de contaminados e mortos só caiu de muito alto para alto”. Na China, a letalidade é de 0,40 por 100 mil e no Rio, 86 por 100 mil! 

Fraude no auxílio emergencial em Campos. Repórter: “Um condenado por tráfico de drogas, preso, já está na quarta parcela do auxílio. Outro, preso por homicídio, recebeu a segunda parcela”. Vinte e sete mil foragidos, condenados por roubos e homicídios, receberam o benefício da pandemia. Um prejuízo mensal de R$ 26 milhões para o povo. 

E ... para terminar... cadê o drone? O Hotel Copacabana Palace reabre com medidas de segurança, higiene. Luxo top no hotel das estrelas. 

Tá tudo errado, gente. Vamos zerar e recomeçar. Que tal uma oposição decente, séria e comprometida? Até os Estados Unidos do abominável Trump têm os democratas Biden e Kamala, apoiados pelo casal Obama e por republicanos antitrumpistas. Que inveja da consciência civil dos americanos. O joelho assassino de um policial no pescoço de um negro provoca a insurreição que o mundo viu. E aqui, nada.

Em nenhum lugar do mundo vejo esse desfile diário de horrores cotidianos. E olha, não adianta desligar a TV. O Bom Dia Rio é realidade na veia. Não só do Rio, mas de todo o Brasil. Tem saída? Sim. Passa por Educação e Saúde, não pelo Ministério da Defesa. Passa por saneamento, infraestrutura, arte e cultura, democratização da tecnologia. Não por mordomias imorais nos Três Poderes. Nossa guerra é pela dignidade de crianças e velhos. Só não enxerga quem não quer mesmo ver. Essa é a nossa única salvação. Vade retro, Damares.

Achamos que caetanear nos redime. É lindo, é odara, eu queria viver no Brasil do Caetano, mas é só uma bolha. Esse país estapeia e desfigura nossa cara. Todo dia. Vamos deixar?