quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Bolsonaro é o Brasil de sempre

A derrota do projeto eleitoral de Jair Bolsonaro e Paulo Guedes para a economia brasileira é um fato que se pode aplaudir ou lamentar, mas é incontestável. Definido em linhas gerais como uma ampla e profunda transformação do Estado brasileiro, e a consequente “libertação” da economia para gerar aumento de produtividade e crescimento, era um conjunto de intenções aplaudidas por boa parte da sociedade, antes de ser um plano.

Ficou até aqui muito aquém do pretendido (de novo, pode-se saudar ou lamentar essa constatação) e agora não há mais condições políticas, tempo e, ao que parece, intenção de realizá-lo. Grosso modo, a derrota deve ser atribuída a dois grandes fatores. O primeiro é o fato de que não havia uma estratégia, entendida como adequação dos meios (sobretudo políticos) aos fins (reforma do Estado) dentro de um período de tempo. Perdeu-se tempo precioso elaborando o que seria “nova” política, além da dedicação de Bolsonaro ao que se chama na linguagem militar de “teatros secundários”.

Como consequência, para o “projeto” acabou sendo ainda mais violenta a devastação trazida pelo segundo grande fator: o imponderável da pandemia da covid-19, que destruiu qualquer outro cálculo que não fosse o da sobrevivência política. A brutal crise de saúde pública agravou os males que já existiam: escancarou a incompetência do governo central, aprofundou a miséria, a crise fiscal e abalou uma economia que ensaiava uma recuperação apenas tímida, presa aos limites estruturais de sempre.


Para todos os efeitos o presidente é hoje um personagem político diminuído em seus poderes e com escassa capacidade de liderança, obcecado com a situação pessoal, gradativamente abandonado pelas elites econômicas que apostaram nele e agora fascinado pelas recompensas político-eleitoreiras trazidas pelo assistencialismo emergencial. Como se antecipava, a economia definiria os rumos de Bolsonaro, que agora precisa gastar o que não tem.

Surge com razoável nitidez o caminho após a derrota do “projeto”, e é bem a cara do Brasil “velho” (aquele que nunca deixou de ser). A premente ampla reforma tributária esbarra na incapacidade política de se proceder à eliminação de distorções tais como renúncias fiscais que atendem a vários interesses setoriais antagônicos, além da dificuldade política de coordenar os vários entes da Federação. O Brasilzão de sempre, esse que continua aí, indica que o caminho do menor esforço político nos levará a mais e não menos impostos.

A pretendida reforma do Estado dependia de uma reforma administrativa que atacasse gastos públicos – aumentá-los muito além da capacidade de financiá-los foi um claro consenso da nossa sociedade, como assinalou o ex-secretário do Tesouro Mansueto Almeida. Reforma que sumiu no horizonte. Há um compromisso verbal com a manutenção da âncora fiscal além do período de emergência, mas as nuvens da política sugerem que esse período será estendido para o ano que vem.

Furar o teto de gastos é uma contingência política criada no plano imediato pela convergência entre os “desenvolvimentistas” no Planalto, entre eles os saudosistas do período militar (que convenientemente se esquecem de como aquilo acabou), e a massa do Centrão que enxerga uma oportunidade nos cofres públicos sem fundos. Juros baixos e inflação bem comportada permitirão que essa “estratégia” se mantenha por um tempo razoável, que é o tempo para se programar para uma reeleição. As ambiciosas privatizações e a propalada diminuição do Estado ficam para depois.

Bolsonaro deve ser ajudado por um conjunto de concessões e obras de infraestrutura que movimentarão setores como construção e atrairão investidores, ainda que preocupados com a eterna insegurança jurídica que paira como sempre sobre os negócios. Vai ser indiretamente ajudado também pelos setores modernos do agro negócio que desprezam como o governo fala sobre questões ambientais, mas acham que bem ou mal sobreviverão às pressões internacionais, e seguirão crescendo.

Com a perspectiva real de vacinas que ajudem a controlar o vírus, a tragédia dos milhares e milhares de mortos vagarosamente se acomoda na psicologia coletiva. No jeitão do Brasil de sempre, aquele que Bolsonaro prometeu mudar, sonhando com o que poderia vir a ser, sem conseguir deixar de ser o que é.

Plano para prevenir novas pandemias custaria 2% dos gastos globais com a covid-19

A cada ano do último século, ao menos dois vírus foram transmitidos de animais que eram seus hospedeiros originais para populações humanas. Entre eles estão o HIV, o H1N1, o ebola e, é claro, o novo coronavírus.

E com 2% do dinheiro que o mundo está gastando com a pandemia de covid-19, seria possível criar um programa de prevenção, ao longo de dez anos, para que outros vírus de perigo semelhante ao Sars-CoV-2 não tenham a chance de passar de seus hospedeiros originais para humanos.

Esses são dois argumentos centrais de um artigo científico publicado recentemente na revista Science e assinado por integrantes de diversos centros acadêmicos e de pesquisa, entre eles as universidades americanas Harvard e Duke e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Citando evidências de que o desmatamento e o contato cada vez mais próximo entre humanos e animais silvestres (seja pelo tráfico, caça ou por necessidade alimentar) é o que causa o "salto" do vírus de seu hospedeiro para humanos, os autores dizem que medidas para diminuir essa proximidade são cruciais - e relativamente baratas - para evitar pandemias futuras.

"Os riscos (de infecções) são maiores do que nunca, à medida que associações cada vez mais íntimas entre humanos e reservatórios de doenças na vida selvagem aceleram o potencial de vírus se espalharem globalmente", diz o artigo.

Os cientistas delinearam uma série de estratégias para limitar essas cadeias de transmissão, com investimentos de US$ 22 bilhões a US$ 31 bilhões por ano por uma década, "para monitorar e policiar o comércio de animais selvagens e impedir o desmatamento tropical" e assim "ajudar a prevenir futuras pandemias", segundo a Universidade de Harvard.

O custo seria uma fração dos gastos trilionários em perdas de vida e econômicas da atual pandemia - que podem chegar a US$ 20 trilhões, segundo algumas estimativas. É também um valor insignificante para as nações mais ricas do mundo, argumenta à BBC News Brasil Mariana Vale, professora-adjunta no Departamento de Ecologia da UFRJ e coautora do estudo publicado na Science.



"Nossa proposta, que não está dita explicitamente no artigo (da Science) mas é consenso entre os autores — e estamos produzindo um estudo mais detalhado a respeito —, é de que quem tem que pagar a maior parte dessa conta são os países desenvolvidos, que têm muito a perder", diz a brasileira.

"As perdas dos EUA e da Europa são enormes, e o custo dessa prevenção é muito pequeno, até US$ 30 bilhões. Só em 2019, os EUA gastaram cerca de US$ 700 bilhões no setor militar."

O dinheiro alimentaria um fundo internacional de financiamento de ações de controle de desmatamento, tráfico de animais, biossegurança e vigilância sanitária.

O grande porém é a vontade política de acessar esse dinheiro, aponta Vale, lembrando que o atual governo brasileiro abdicou dos recursos internacionais do Fundo Amazônia - um dinheiro vindo de países ricos e cujo desenho inspirou a estratégia dos cientistas agora — porque não quis se ater às metas de preservação da floresta.

Na prática, desmatamento, tráfico de animais e até mesmo guerras criam o ambiente propício a pandemias porque todas essas ações aumentam o contato dos humanos com animais silvestres, os quais podem hospedar vírus com potencial pandêmico, diz Mariana Vale.

"Geralmente o desmatamento ocorre em fases, começando pelo corte da madeira e pela caça, que já aumentam o contato (das pessoas que entram na floresta) com animais", explica a cientista.

Quanto mais áreas desmatadas, maiores serão as chamadas bordas da floresta: áreas em que comunidades de pessoas passam a viver e a se alimentar perto de animais silvestres, que podem transmitir vírus diretamente para humanos ou para animais de criação desses humanos, como porcos e aves.

Essa dinâmica é especialmente forte em florestas tropicais, pela quantidade de animais selvagens que elas abrigam, explica Vale.

"É batata: você tem desmatamento, tem epidemia (nas populações próximas) logo depois. Há centenas de artigos científicos mostrando isso", diz ela. "A malária de fronteira, por exemplo, é característica de áreas de fronteira agrícola quando ocorrem desmatamentos. (A doença) vem do contato com a floresta."

Outro grande risco pandêmico vem do tráfico de animais silvestres e selvagens, porque toda a sua cadeia — desde a coleta, o transporte, o comércio e o uso desses animais, para consumo ou para estimação — cria possíveis momentos de contágio.

Os Estados Unidos são, hoje, o maior destino de animais silvestres traficados no mundo, principalmente para o mercado de "pets exóticos", diz a pesquisadora. "Uma quantidade gigantesca de animais chega por essa via (ao país), e tem potencial de contágio. Então a redução desse comércio é muito importante."

Guerras e migração forçada também podem criar momentos de contágio, ao forçarem que pessoas fujam para florestas para se proteger e precisem recorrer a animais silvestres para se alimentar, acrescenta Vale.

Um dos artigos acadêmicos citados pelo estudo da Science foi feito em março deste ano e aponta o potencial dos morcegos em causar pandemias.

Seu possível papel em ter sido o hospedeiro original do vírus da Sars-CoV-2 ainda é investigado pela ciência, mas não para por aí. O vírus do ebola e da Síndrome Respiratória do Oriente Médio (Mers) provavelmente também chegaram a humanos por intermédio de morcegos.

"Os morcegos são tidos como uma reserva natural para esses vírus, especialmente coronavírus, que constituem cerca de 31% de seu viroma (vírus presentes em seus corpos)", diz o artigo, feito por pesquisadores de universidades chinesas.

E morcegos têm maior probabilidade de se alimentar em regiões onde vivem humanos quando seus habitats naturais forem destruídos ou degradados, o que nos leva a um perigo que ronda a Floresta Amazônica.

"A Amazônia tem um número enorme de reservatórios (de vírus), por ter uma enorme diversidade: é, por exemplo, a floresta com a maior diversidade de morcegos de todo o mundo", explica Mariana Vale. "E as áreas de contato com humanos têm aumentado enormemente com o avanço do desmatamento."

Florestas tropicais são um foco de contágio justamente porque têm a maior biodiversidade, ou seja, têm muitos mamíferos que podem abrigar vírus perigosos.

"Mas não tem problema se a floresta tiver em bom estado, porque daí a taxa de contato (com humanos) é muito baixa e a possibilidade de transmissão se torna muito pequena", diz Vale.

Justamente por abrigar a maior floresta tropical do mundo, o Brasil "tem um papel muito importante na prevenção de novas pandemias", prossegue a pesquisadora.

"A Amazônia é um local de alto risco — talvez não altíssimo, pelo fato de a população humana ser relativamente pequena ali. Mas, ao mesmo tempo em que o Brasil tem essa responsabilidade, tem também a capacidade de fazer um programa exemplar de prevenção de pandemia a partir da ação ambiental. A gente sabe fazer e tem a capacidade institucional para isso, desde satélites para fiscalização até capacidade de vigilância sanitária."

O artigo coassinado por Vale lembra que o Brasil promoveu "o maior exemplo de redução do desmatamento, entre 2005 e 2012, (quando) o desmatamento da Amazônia caiu 70%, ao mesmo tempo em que a produção da soja, dominante ali, aumentou."

Além disso, essa dinâmica de transmissão favorecida pelo desmatamento se aplica também aos arbovírus, cujo hospedeiro é o mosquito, e que são tão comuns no Brasil — da febre amarela ao zika.

No artigo da Science, os pesquisadores defendem a remoção de subsídios que favoreçam o desmatamento e mais apoio aos direitos indígenas, para conter o desmatamento.

E também a proibição internacional do comércio de espécies de alto risco de transmissão de vírus, como primatas, morcegos e roedores. Nesse aspecto, o artigo defende que se invistam US$ 19 bilhões por ano em programas para erradicar o consumo de carne silvestre na China.

Outros quase US$ 300 milhões seriam aplicados na criação de uma biblioteca da genética de vírus, que ajude no mapeamento de locais de onde possam surgir novos patógenos de alto risco.

A estratégia prevê também investimentos em vigilância sanitária e biosegurança na criação de animais de consumo, que são potenciais intermediários de vírus que atingem humanos, principalmente em áreas próximas a florestas.

"Se tem algo positivo que possa sair desta catástrofe que tem sido a pandemia, espero que seja o entendimento de que a saúde do ser humano depende da saúde do planeta", conclui Mariana Vale. "São camadas e camadas de evidência disso. E mesmo assim a gente não consegue resolver esse problema. A perda de biodiversidade tem consequências enormes."

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Pensamento do Dia

 

Tocar a vida?

“Tá chegando em 100 mil (talvez hoje). Mas vamos tocar a vida e buscar uma maneira de se safar disso daí.” A frase, já inscrita na Enciclopédia Geral da Infâmia que Jair Bolsonaro resolveu compor durante a pandemia do novo coronavírus, foi dita por um presidente serelepe ao lado de um ministro interino da Saúde bonachão na última quinta-feira, numa das lives que ele insiste em impingir a um País traumatizado.

O número que ele previu como quem joga no bicho, depois de com a mesma sem-cerimônia dizer, lá no início da pandemia, que os mortos não chegariam a 800, não chegou naquele dia, mas o vaticínio nefasto se cumpriu neste fim de semana.

A única maneira aceitável de “tocar a vida” para que o Brasil não saia dessa tragédia ainda mais dilacerado em todas as suas dimensões é apontar as omissões, as ações criminosas, os ardis políticos e autoritários e o cinismo que nos jogaram nesse buraco, e apontar e punir em todos os fóruns cabíveis os responsáveis por ela.


A começar por esse presidente que insiste em cuspir na cara daqueles que deveria governar perdigotos de imbecilidade com relação a uma situação que não faz a menor ideia de como ao menos tentar mitigar. Ele olha para a cara de uma Nação em que mais de 3 milhões foram oficialmente infectados e 100 mil perderam a vida e dá de ombros, como se esses números num intervalo de menos de seis meses fossem toleráveis.

Nenhum governante do Brasil, dos mais nocivos que já passaram por aquela cadeira eleitos ou usurpando-a, teve em relação aos problemas que enfrentou ou provocou a desídia de Bolsonaro. Ele nem sequer finge que está tomando qualquer providência.

Jair Messias Bolsonaro mente diariamente ao dizer que o Supremo Tribunal Federal impede o governo federal de coordenar a resposta à pandemia. Deveria ser advertido ou punido pelo próprio STF por isso, pois esta não foi a decisão da Corte. Em um País sério um presidente jamais repetiria essa empulhação sem que fosse admoestado, sequer.

Jair Messias Bolsonaro mente diariamente ao dizer que cloroquina e hidroxicloroquina têm efeito para tratar covid-19. Ele atenta contra a saúde pública ao impor ao Ministério da Saúde acéfalo um protocolo sem nenhum amparo científico indicando esses remédios para casos leves e moderados. Ninguém responsabiliza o presidente e o ministro, o Conselho Federal de Medicina não vai à Justiça, e o tal protocolo anticientífico está em vigor há mais de 3 meses. O STF, o Ministério Público e o Congresso apenas assistem.

Jair Messias Bolsonaro promoveu aglomerações, cumprimentou pessoas depois de tossir e assoar o nariz com a mão, anunciou que estava coronado diante de repórteres e câmeras e tirou a máscara para isso, cumprimentou garis sem máscara já doente. Ele comete essas nojeiras diante de um País enlutado, traumatizado, desamparado. É aplaudido por um grupo de celerados e não é impedido por algum dos muitos encarregados pela Constituição de contê-lo e lembrá-lo de que ele tem de governar, e não mostrar cloroquina para a ema.

Jair Messias Bolsonaro não decretou luto oficial quando os mortos foram mil, cinco mil, dez mil, vinte mil, cinquenta mil, cem mil. Ele assiste a esse número de vítimas, pessoas que tinham vidas, sonhos, famílias e planos como quem acompanha entediado uma partida de futebol comezinha com uma daquelas camisas de time falsificadas que adora envergar.

Jair Messias Bolsonaro condena o Brasil a ser um dos piores países do mundo na chaga da covid-19 e se fia na conta cínica de que os pobres coitados socorridos com auxílio emergencial vão lhe reeleger em 2022, sua única preocupação genuína. E quem deveria responsabilizá-lo assiste a todas essas atrocidades com cara de paisagem.

Faz escuro... e não se revolta

... há muita sombra dentro de nós, sinal de que muitos corpos luminosos deixam de banhar-nos com sua luz, sinal de que nos faltam felicidades, de que muitos pequenos sóis necessários se interromperam em seu caminho até nossos olhos, estes que são, como diz um dos mais belos lugares-comuns, as janelas da alma
Paulo Mendes Campos

 

 

Anormal

Cada data, e lá vamos nós pras redes sociais dar fé pública do nosso amor pra mamãe, pro papai, vovó, vovô, filhão, filhota, neto, neta, melhor amiga/o. E por aí vai.

Agora, sem permissão pra abraços, carinho/afeto em exposição notória até que faz mais sentido. Não importa. A questão não é a circunstância, mas a fé pública daquela porção de amor.

Somos exibicionistas de amores. Está no nosso DNA. As redes sociais testemunham essas tantas celebrações dos - sempre incríveis – celebrados.

Fico aqui pensando, quantos milhares somos nas redes sociais? Milhares de milhares. Em momento de tamanha tragédia humana, seria uma avalanche se, por um tempo, trocássemos nossas paroquiais manifestações de amor por generosa indignação pelos mais de 100 mil mortos da pandemia no Brasil.


Não é normal. Nem consequência natural de uma doença ainda sem remédio, sem vacina. É resultado de muitos erros, muito descaso, da negação da violência do vírus, de desrespeito à ciência e à vida. É desumano.

Assim, sem marcar o horror das mais de 100 mil mortes, que alcançam diretamente 100 mil famílias – além de outras milhares indiretamente -, nos tornamos coniventes com o descaso pela tragédia. Porque é uma tragédia. E a palavra precisa ser repetida. E sentida.

Cadê nossa tão explicitada capacidade de amar demais?

Que porra de amor é esse que não vai além da porta de nossas casas, agora, trancadas?

Cadê nossa indignação?

Mais de 100 mil mortos. Média diária de 1.022 mortos. Alguma mudança de atitude de quem governa? Dos que decidem?

Não é normal. Eles são anormais – no dizer e no agir.

Nada é normal no que vivemos. Não é normal assistir o, ainda interino, ministro da Saúde fazer pose pra dizer que “não é o numero que faz a diferença”. É fé pública no deboche – mais um – com as famílias dos mortos, dos doentes, do nosso medo. Ás vezes, pânico.

Tudo é anormal. Não há novo normal em viver trancada, em temer a respiração do outro, em assistir na TV a contagem diária dos mortos.

Principalmente não é normal realçar os sobreviventes, quando ainda nem sabemos se e com que sequelas seguirão pela vida. Mais fé pública de negação da tragédia.

Normal seria fazer de tudo para evitar mortes, para conter a propagação da doença. Não essa brincadeira de ensaio e erro, de usar ou não a máscara, ou maldita cloroquina e outros inas mais.

Triste o espetáculo que estamos vivendo.

Em contagem antipática, 70% dos brasileiros não mereciam encarar uma pandemia com um governo chulo de tão desqualificado.

Governo que representa o brasileiro mais ignaro, pra quem sentimentos humanitários definem ideologia.

E assim somamos mortos enquanto eles pensam em reeleição, sem nem a preocupação de explicar anos de Queiroz depositando dinheiro vivo em contas bancárias da família presidencial.

Trinta mil reais pagos em dinheiro vivo vira “uma coisinha guardada em casa”, no dizer do filho Flávio, o 01 que, enquanto deputado, guardava essas coi$inhas. Pra despesas corriqueiras. Embaixo do colchão. Certamente.

Deboche com a inteligência alheia. De policiais e promotores inclusive. Declaração de fé pública no nada-vai-acontecer-comigo. Joguinho de cena com “asautoridade” do Rio de Janeiro.

Enfim, somos nós, eles e a pandemia. Eles jogando contra – não a pandemia, mas nós, que seguimos dando fé pública de nosso amor aos nossos.
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Os 100 mil mortos? São só “outros”. Taoquei?

Nós e os outros

Mudou o modo de pensar sobre o SUS. Antes da pandemia, Rodrigo Maia pretendia expandir os planos privados de saúde, “ampliar a base de brasileiros segurados de 40 milhões para 60 ou 70 milhões”, e agora passou a considerar que “tinha uma visão muito pró-mercado privado de saúde, mas a gente vê que o SUS é importante”. O uso do plural (a gente, nós) subentende os que leem e interpretam de modo similar as estatísticas e se preocupam com o atendimento aos doentes. 

Nós somos pessoas orientadas pela Ciência, concordamos com as medidas de isolamento social, com o uso correto de máscaras e com a relevância do SUS. Vemos os mesmos fenômenos e os interpretamos de modo similar, mas nem sempre compartilhamos sentimentos iguais perante a indignidade e a insanidade. O consenso em torno do que seria do Brasil sem o SUS é insuficiente para igualar as expectativas sobre o futuro. Setores empresariais, instados pela declaração do presidente da Câmara sobre o SUS, querem saber: “Como você pensa que podemos melhorar o SUS, mas sem ser radical, né?”. Querem respostas sobre um SUS que não se torne um estorvo, que alavanque os negócios setoriais.


A concordância sobre a omissão e a indignidade subjacentes às mortes causadas pela Covid-19 não iguala expectativas sobre o futuro. No lugar da pergunta — como nós faremos para ter um SUS importante? —, volta-se ao “nós contra vocês”. Erudição embolada com interesse privado resulta na crença: planos privados desoneram o SUS. Um ponto de vista respeitável, mas sem nenhum fundamento científico.

O alegado alívio de demanda para a rede pública jamais ocorreu. No período 2013-2015 (quando houve o maior aumento do número de planos), a assistência suplementar realizou entre 18,5% e 19% do total dos partos. Cresceram os partos realizados pelo SUS e pela assistência suplementar. Incremento nos planos privados não é garantia de retração da procura pelo SUS. Segundo a Pnad-Covid-19, realizada pelo IBGE em maio e junho de 2020, 78,2% e 82,3% dos que buscaram serviços em função de mais de um sintoma de coronavírus a cada mês foram ao SUS (a resposta poderia indicar mais de um local, ou seja, a rede pública e a privada). 

Essas informações não significam que o setor privado é inexpressivo, pode desaparecer, apenas questionam a existência de compartimentos separados num sistema de saúde complexo. Como todos sabem, mas nem sempre é conveniente admitir, uma parcela de quem tem plano usa o SUS, outra paga, além da mensalidade das operadoras, consultas médicas e dentistas particulares. Contratos com efetiva proteção financeira e qualidade assistencial são para poucos. Os transplantes, mesmo para os ricos, dependem do SUS. A comprovação de que planos privados não solucionam problemas do SUS não altera uma vírgula na história, mas talvez contribua para que a explicitação de interesses seja critério obrigatório de credenciamento ao debate.

Reagimos com as mesmas palavras para exprimir a repulsa às injustiças na saúde, dizemos que é preciso pôr fim a tanta abominação. Mas a comoção perante os mesmos fenômenos não desencadeia ações semelhantes. Parte dos indignados sente muito, mas não se interessa pelas causas das diferenças na probabilidade de morrer entre indígenas, negros, pobres e os segmentos sociais com maior renda. Tampouco divulgam a situação de saúde precária dos clientes de planos privados. A pesquisa Vigitel 2018 registrou uma proporção de excesso de peso um pouco mais elevada para clientes de planos de saúde em Fortaleza, Rio de Janeiro e São Paulo do que na população em geral. 

Todos nos indignamos, mas, quando chega a vez de definir como evitar essas atrocidades, as afinidades evanescem. O projeto de planos de saúde com coberturas ainda mais reduzidas e menor preço teve até agora duas versões: a oficial, debatida em comissão no Congresso Nacional, cujo relator foi o deputado Rogério Marinho, e o documento apócrifo noticiado pelo jornalista Elio Gaspari. Ambas foram engavetadas, tinham em comum um “nós” que pretensamente falaria por todos. Um “nós” minúsculo, reunido em torno de argumentos frágeis, indefensáveis. Caso a pergunta sobre o que fazer com a saúde fosse endereçada a um “nós” ampliado, aos familiares dos mais de cem mil mortos, qual seria a resposta? 

terça-feira, 11 de agosto de 2020

O epitáfio que deveria ser gravado nos túmulos das vítimas

São 100.000 vidas perdidas. 100.000 histórias de dor e milhões de lágrimas derramadas. É um número que assusta, entristece e enluta o país. Basta chorar por elas? Não, porque foi uma tragédia anunciada. O dia de silêncio informativo sobre outros temas, que este jornal quis oferecer aos leitores para dedicá-lo à tragédia, deve ser também um grito contra o poder que poderia ter evitado muitas das mortes e preferiu fechar os olhos. Será a história que julgará o silêncio, se não a cumplicidade com essa matança.

Dessa tragédia ficará tristemente na história a frase do presidente Jair Bolsonaro pronunciada em 27 de abril, quando o número de mortes chegou a 5.017. Indagado sobre o que sentia, respondeu com desprezo: “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Sou Messias, mas não faço milagre”. A frase deveria ser gravada, como trágico epitáfio, nos 100.000 túmulos das vítimas.

É verdade que o presidente Bolsonaro, cujo nome do meio é Messias, não poderia fazer milagres. Mas poderia ter cumprido seu dever como representante máximo do país. Poderia pelo menos não ter zombado da tragédia chamando-a de “gripezinha”. Poderia ter nos poupado do constrangimento de zombar dos preceitos da medicina e da ciência respeitados nos outros países, em vez de propagandear remédios sem nenhuma garantia científica de eficácia como se fosse um curandeiro de rua.

Poderia ter nos poupado da humilhação de retirar os ministros médicos do Ministério da Saúde, substituídos por um punhado de militares sem experiência no assunto. Em vez de pedir que suas hostes fossem espiar os hospitais onde pessoas estavam morrendo, poderia ter ido pessoalmente consolar as vítimas e seus familiares. Não fez isso.


Os 100.000 mortos de hoje são um atentado do poder contra as vidas que poderiam ter sido salvas e ensombrecem ainda mais a já desgastada imagem do Brasil no exterior.

É possível que Bolsonaro —se não acabar sentado no banco dos réus do Tribunal de Haia acusado de crime contra a humanidade, como tantas vozes, até de especialistas em direito, estão pedindo− queira tentar ser reeleito em 2022. Nesse caso, é possível que as 100.000 vítimas da pandemia, e as que ainda morrerem até lá, apresentem-se nas urnas eleitorais para sussurrar à consciência dos eleitores: “Não, nesse não!”. O Brasil já chorou o suficiente. Precisa, diante de tantas mortes de inocentes e de tanta política suja, de novos ares de ressurreição.

A esperança daqueles que ainda não perderam o senso de justiça e que respeitam o mistério da morte e da dor, própria e alheia, é que essas 100.000 vítimas e aquelas que, infelizmente, ainda virão não tenham sido sacrificadas em vão. Que elas assombrem os sonhos dos vivos que acreditam ser eternos.
Juan Arias 

Pensamento do Dia

 

Abandonar mitos e entender a história

De um ex-banqueiro, o que se espera é que entenda o mundo do capital, mas Paulo Guedes errou também nisso. Sua fala no Aspen Institute sobre a Amazônia e a questão indígena mostra que ele não se atualizou em assuntos decisivos para entender o mundo de hoje. Além disso, afugenta ainda mais os fundos de pensão e os fundos soberanos. Eles já avisaram que suas normas de compliance limitam investimentos, dos trilhões de dólares que administram, em países que desmatam e ameaçam povos originários.

Guedes tem com o presidente Bolsonaro total afinidade em assuntos como direitos humanos, liberdades democráticas e proteção da Amazônia. Não foi Guedes a convencer Bolsonaro das virtudes do liberalismo econômico, mas o presidente é que o conquistou para seu conjunto de crenças, aliás, incompatíveis com o liberalismo. Eis o paradoxo deste governo. Ele não pode ser liberal, pela simples inadequação desse ideário com o elogio do regime ditatorial, por natureza, inimigo de qualquer liberdade.

Ficou muito mal para o ministro sua sequência de erros conceituais. Como ele é uma autoridade pública, isso prejudica o Brasil. Guedes mostrou desconhecimento do estado atual das coberturas florestais em outros países, sustentou argumentos vencidos e confundiu estoque com fluxo, o que é constrangedor. No caso da floresta, nosso estoque é bom. O Brasil tem uma área considerável de mata preservada. Mas o fluxo é muito ruim. Estamos desmatando a um ritmo crescente nos últimos anos, chegando a 10 mil km2 no ano passado e abandonamos a política com a qual o país reduziu em 80% as taxas anuais de destruição entre 2004 e 2012. A partir daí, o fluxo é contra nós, e piorou muito no governo Bolsonaro. A objetividade e os argumentos sóbrios são mais eficientes para afastar os riscos de o país ser desprezado nas decisões de alocação de recursos. Estamos em um momento de disputa por capital de qualidade.

De um economista não se espera queixa contra as artimanhas da competição. O lógico é que entenda o jogo do capitalismo e não facilite a vida de eventuais competidores. Afirmar que países europeus “usam a desculpa ambiental” para nos barrar não ajuda em nada. O que funciona é não fornecer provas contra nós. E o ministro deu a eles farta munição com o seu destempero.


A frase “vocês mataram seus índios, não miscigenaram” é muito ruim. O ministro não deve desconhecer que aqui matamos também, infelizmente. Extinguimos inúmeras etnias, ameaçamos outras e, neste momento, estamos colocando povos em risco. O governo tem estimulado atividades que agora são mais perigosas do que nunca, e só por ordem do STF foi instalada uma sala de situação para as ações de proteção aos índios isolados.

Outra frase infeliz: “As grandes histórias de como matamos nossos índios são falsas.” Antes fossem mentirosas as histórias que pesam sobre a nossa História. Aimoré, Caeté, Tupiniquim, Tupinambá, Carijó, são tantos os que não podem confirmar a impressão do ministro por não estarem mais aqui. Seus nomes repousam na lista de povos extintos feita pelo IBGE. Ela é longa.

Uma indicação importante de leitura é o livro “As flechas e os fuzis” de Rubens Valente. Ele conta como os militares agiram na época da ditadura contra os índios. São eventos dolorosos como os que vitimaram os Waimiri-Atroari. É difícil saber quantos índios dessa etnia morreram para dar passagem à BR-174. Havia um cálculo de que eles eram 3.000 antes de 1970, quando as obras começaram. Em 1978, havia 350. Valente usou um levantamento feito de avião por indigenistas da Funai e registra que morreram pelo menos 240. Logo na abertura do livro ela fala da morte de um grupo de Kararaô, de gripe, de sarampo, logo nos primeiros contatos nos anos 1960.

Há casos reconhecidos oficialmente. Na Cabanagem, foram massacrados os Tapuia. Na luta contra as Missões, tombaram os Guarani. Uma carta régia decretou a “guerra justa”, no Vale do Rio Doce, contra os Krenak, chamados botocudos. Em 1901, o Exército fez três expedições contra os Guajajara da etnia Tenetehara. O massacre ocorreu em Alto Alegre do Pindaré, no Maranhão.

Abandonar mitos e conhecer a história, mesmo em suas páginas infelizes, não reduz o amor à pátria, apenas nos permite ter uma visão realista e, quem sabe, um compromisso com um futuro diferente e melhor.

É o diabo a cada dia


Dias sujos de crueldade covarde
José Gomes Ferreira, "Dias comuns"

 


Quem está falhando? Governo ou instituições?

Nesse final de semana o noticiário dá conta de que o Brasil ultrapassou a trágica marca de cem mil mortes pelo novo coronavírus. O maior impacto dessa tragédia humanitária tem sido os mais vulneráveis, tanto do ponto de vista das condições de saúde, como socioeconômicas. São pessoas idosas, de classes sociais mais baixas, negros e pardos e portadoras de doenças pré-existentes. A covid-19 expôs de forma cristalina e seletiva a enorme desigualdade social e de renda do país.

Para muitos essa hecatombe sanitária seria evidência de que as instituições brasileiras não apenas não estariam funcionando, mas também de que estariam completamente falidas. Esse diagnóstico, entretanto, peca por atribuir às instituições o que seria consequência das políticas governamentais escolhidas.


Daren Acemoglu e James Robinson argumentam em seu último livro Narrow Corridor: State, Societies, and the Fate of Liberty que desenvolvimento com preservação de liberdades requer equilíbrio entre Estado e a sociedade. O Estado precisa ser forte e poderoso para proteger as pessoas, garantir direitos e proporcionar serviços para seus cidadãos. Mas a sociedade também precisa ser forte, vigilante e atuante, para impedir que o Estado faça mal uso de seus poderes. Para os autores, o “corredor estreito”, gerado pelo equilíbrio dinâmico entre sociedade e Estado, proporcionaria as condições para a emergência virtuosa de uma espécie de “Leviatã algemado”.

O desenho institucional brasileiro que emergiu na Constituição de 1988 criou um Estado forte, dotado de um executivo poderoso, com uma burocracia profissionalizada e meritocrática e organizações de controle (i.e., judiciário, ministério público etc.) independentes. Ao mesmo tempo, preservou um sistema político inclusivo e representativo, capaz de acomodar praticamente todos os interesses da sociedade. Ninguém fica de fora do jogo político no Brasil. Ainda por cima, estimulou o desenvolvimento de uma sociedade livre, complexa e, acima de tudo, vigilante para conter potenciais desvios ou arroubos iliberais de governos de plantão.

O resultante dessa combinação tem sido o desenvolvimento de instituições nitidamente inclusivas, mas não necessariamente eficientes. No livro Brazil in Transition: Beliefs, Leadership and Institutional Change, eu e meus coautores argumentamos que o perfil de inclusão, na realidade, tem sido dissipativo, em que a estabilidade democrática seguida de redistribuição e inclusão social são efetivamente alcançadas, mas também esse processo é acompanhado por distorções e ineficiências. É importante lembrar que esse perfil é o comum em países em desenvolvimento, e não apenas no Brasil.

Mas a existência de dissipação não cancela a natureza transformadora das mudanças que o Brasil tem vivido com o desenho institucional atual. Ou seja, dissipação não significa necessariamente ausência de funcionalidade institucional. Como esse processo ainda está em curso, é muito difícil identificar a parcela que é inclusão efetiva daquela que é dissipação. Depende, essencialmente, do viés da lente do observador. Se favorável ao governo de plantão, enfatizará aspectos que confirmem a inclusão. Já observadores de oposição tenderão a encontrar mais dissipação.

O arcabouço institucional não é uma “camisa de força” que aprisiona os atores políticos. Mas dá os limites. Existe espaço para escolhas de como governar e das políticas que serão implementadas. As dissipações podem ser minoradas ou maximizadas a partir dessas escolhas.

Dizer que as instituições não funcionam é tão ingênuo quanto o seu oposto, ou seja, que as instituições funcionam perfeitamente. As mazelas que o Brasil tem vivido são decorrências de falhas de governo, mas não necessariamente evidenciam uma falha institucional.

As vítimas da irresponsabilidade

O Brasil ultrapassou neste fim de semana oficialmente a marca de 100 mil mortos por covid-19. O número carrega em si uma tristeza imensurável. São 100 mil famílias que não puderam velar seus mortos, enterrados às pressas devido a protocolos de segurança sanitária. Em milhares e milhares desses casos, as famílias não puderam visitar seus entes queridos em seus últimos dias. É uma tragédia inominável.

E, ainda assim, era previsível. Embora tivesse tido tempo de se preparar, já que o primeiro caso de covid-19 foi registrado em São Paulo quando a doença já havia infectado mais de 80 mil pessoas em 40 países, o Brasil reagiu à chegada da pandemia de forma descoordenada e ineficiente, perdendo rapidamente o controle sobre a disseminação do vírus, porque quem deveria estar coordenando os esforços nacionais preferiu fazer pouco caso da pandemia.

O Brasil não poderia ter escolhido presidente mais despreparado para enfrentar uma crise como esta. No início de março, Jair Bolsonaro disse que o poder destruidor do novo coronavírus estava "superdimensionado" e que a imprensa promovia "histeria". Quando a situação na Itália já era crítica, o presidente disse que no Brasil a covid-19 mataria menos de 800 pessoas e que na Itália o número de mortes era alto porque a população era idosa.

Avaliações equivocadas, baseadas em palpites sem qualquer fundamento, como tantas outras que Bolsonaro fez ao longo desses quase seis meses – e por que não dizer de sua vida política. Sua postura negacionista e marcada por um notório desprezo pelo conhecimento científico mantém o país sem um ministro da Saúde desde o dia 15 de maio, quando o segundo ministro na pandemia deixou o governo por discordar do presidente.

No momento em que a epidemia começou a se agravar no Brasil, em vez de reconhecer o próprio erro e começar a trabalhar para proteger a população, Bolsonaro dobrou a aposta: criticou as regras de isolamento social impostas por governadores e prefeitos, incentivou o uso de medicamentos sem eficácia comprovada, promoveu aglomerações e vetou o uso obrigatório de máscaras em escolas e estabelecimentos comerciais e religiosos. Não ajudou e ainda atrapalhou.

Quando o país se aproximava de 40 mil mortes por covid-19, o presidente passou a se esquivar da própria responsabilidade e, de forma covarde, jogou a culpa do alto número de infecções sobre governadores e prefeitos.

E agora o país chora seus mais de 100 mil mortos. Em vez de se solidarizar com as famílias atingidas, o presidente preferiu usar suas redes sociais para destacar o número de recuperados, como se a morte de 100 mil pessoas pudesse, de alguma forma, ser relativizada.

Quantas vidas poderiam ter sido poupadas no Brasil não fosse o discurso ignorante e irresponsável do presidente da República é uma pergunta que pairará sobre a história. E que deve perseguir Bolsonaro e todos aqueles que, por ação ou omissão, o alçaram ao poder.
Francis França

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

A reeleição e a arte de tocar a vida sobre a morte

“Vamos tocar a vida e buscar uma maneira de se safar desse problema”, disse o presidente Jair Bolsonaro, depois de mencionar as quase 100 mil mortes confirmadas até a noite de quinta-feira. Além de agredir o idioma com aquele pronome “se”, ele voltou a exibir uma caixinha de cloroquina e culpou governadores e prefeitos pelo aumento do desemprego. Não especulou sobre quantas pessoas mais teriam morrido se tivesse havido menor empenho no distanciamento social. Disse lamentar as mortes e talvez alguém tenha acreditado nisso. “Tocar a vida”, no caso de Bolsonaro, significa retomar a atividade sem levar em conta o risco sanitário. Durante mais de um ano ele havia ignorado o mau estado da economia, deixando o assunto para seu “posto Ipiranga”. Terá havido uma súbita iluminação, talvez causada por algum vírus ainda desconhecido?

Cuidar da vida significa também cuidar da reeleição. Mortos são excluídos do colégio eleitoral, pelo menos quando a lei prevalece. “Não sou coveiro”, respondeu o presidente ao ser confrontado, numa entrevista, com a mortandade causada pela pandemia. “Empatia”, palavra muito repetida nos últimos meses, parece continuar fora do vocabulário presidencial. Não faltou atenção, no entanto, a negócios e votos.

Políticas emergenciais foram implantadas em dezenas de países, nos últimos meses, para atenuar os efeitos da pandemia. Centenas de bilhões de dólares foram rapidamente canalizados no mundo rico para ações de saúde, apoio às empresas, defesa do emprego e socorro aos pobres. Planos mais modestos foram adotados nas economias emergentes e em desenvolvimento.

Nem os países mais pobres ficaram sem proteção. O Fundo Monetário Internacional (FMI) mobilizou cerca de 1 trilhão de dólares para ajuda. Em pouco tempo foram aprovados desembolsos para cerca de uma centena de países. Parte desses empréstimos provavelmente nunca será quitada, mas isso é parte do jogo. Em todos os casos a ajuda foi vinculada a ações de saúde e de sustentação econômica.


As medidas aplicadas no Brasil são parecidas, em pontos essenciais, com aquelas encontradas em muitos outros países. De modo geral, houve estímulos ao crédito e aumento do gasto público. Esse aumento foi combinado, em alguns casos, com alívio temporário de impostos. Um levantamento dessas políticas foi divulgado há semanas pela OCDE, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico.

A maioria das pessoas, no Brasil e provavelmente em muitos outros países, desconhece esses fatos. Ignora, da mesma forma, o sentido econômico do auxílio emergencial. Essa ajuda é vital para as famílias, obviamente, mas é também muito importante para as empresas, pequenas, médias e grandes, produtoras e distribuidoras de bens essenciais.

A estratégia econômica torna-se interpretável por milhões de pessoas como ato de bondade. Isso facilita faturar politicamente, como se fosse um gesto humanitário, um ato explicável pela mais prosaica racionalidade econômica. Repetido por alguns meses, um auxílio de R$ 600 pode converter-se em fonte de gratidão e de votos. Erros cometidos no combate à doença – e até agravados pelo desprezo à vida de milhares – tornam-se irrelevantes ou invisíveis. Lucra, portanto, quem se ocupa prioritariamente da reeleição em 2022.

Muitos talvez nem tenham percebido os erros e as falhas de liderança, embora possam ter ocasionado a morte de pessoas próximas. Nos Estados Unidos e na Europa Ocidental, onde os programas de ajuda emergencial foram muito amplos, erros no combate à pandemia saíram menos baratos para os chefes de governo. Serão menos dotados de gratidão os europeus e americanos?

Especialmente notável, no caso brasileiro, é o repentino interesse do presidente pela economia e pela sorte dos trabalhadores. Esse interesse, nunca manifestado nos primeiros 14 ou 15 meses de mandato, só apareceu depois de reconhecida a presença do novo coronavírus.

Em 2019 a economia cresceu 1,1%, menos que em qualquer dos dois anos anteriores, mas o assunto jamais pareceu preocupar o presidente da República. No trimestre móvel encerrado em fevereiro os desempregados eram 11,6% da força de trabalho, mais que o dobro da média da OCDE, e a aparente indiferença permaneceu. Ainda em fevereiro, a produção industrial, embora 0,5% maior que a do mês anterior, continuou 0,4% inferior à de um ano antes e 16,6% abaixo do recorde de maio de 2011, no primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff.

A crise industrial vem de longe e se agravou nos últimos oito anos, mas permanece invisível na agenda presidencial e na da equipe econômica. Não se resolverá esta crise com a mera redução de encargos sobre a folha de salários e com a eliminação de direitos trabalhistas, bandeiras do ministro da Economia. Sem cuidar de temas essenciais para a prosperidade do País, o presidente, centrado em objetivos pessoais, pressiona pela retomada imediata dos negócios, mesmo com o risco de mais mortes. Na sua contabilidade, esse deve ser um preço razoável pela reeleição. O lema é tocar a vida sobre os mortos.

Fúnebre marcha dos 100 mil

Desde o início da quarentena escrevo um diário. Nele, apesar da pressa, incorreções e algumas bobagens, analiso os fatos desses meses de coronavírus.

Não sinto tanta necessidade de escrever sobre isto, mais do que faço diariamente. Mas, no momento em que alcançamos a marca de 100 mil mortos, é importante dizer algo fora dos limites. O número redondo lembra-me dos anos 60, quando marchávamos orgulhosamente contra o governo militar.

Os 100 mil de hoje representam também um protesto, só que desta vez contra o descaso e retumbante fracasso de nossa política nacional contra a Covid-19.

O ideal seria sairmos às ruas, os sobreviventes, para protestar por eles. A natureza da pandemia nos obrigou a uma quarentena. Escrevi no diário algumas vezes como isso não apenas entorpeceu nossos músculos, mas mudou a maneira como nos vemos.

O país se transformou num imenso centro espírita, e nós baixamos nos computadores para sessões de conversa que chamamos de lives, mas poderiam também ser chamadas de deads.



Parece que muitos de nós vivem numa parte mal iluminada da eternidade, aparecemos para a conversa, desligamos o aparelho e evaporamos. Não se acaba mais em pizza como antigamente, quer dizer, num descontraído jantar após a reunião, o debate ou conferência.

Leio no livro de Churchill que os piores momentos de nossa vida são aqueles que não aconteceram, aqueles que nos mantiveram preocupados, levaram nosso sono e nunca se apresentaram de fato em nossas vidas.

Isso corresponde ao que diz um personagem de Borges diante da morte: é menos duro enfrentar um perigo do que imaginá-lo e aguardá-lo durante muito tempo.

A Covid-19, nesse sentido, é a pior doença que nunca tive. Certamente há outras mais graves e devastadoras, mas nunca perdi um minuto preocupado com elas.

Os índios no Amapá a consideram uma espécie de doença espiritual, por causa da invisibilidade do vírus. Mas nem por isso deixam de temê-la.

Desde o princípio, luta-se contra a negação do governo. Era apenas uma gripezinha e afirmávamos que, ao contrário, era uma perigosa pandemia. Surgiram os mortos, e o governo achou que seu número estava superdimensionado, diante de todas as evidências de que havia subnotificacão.

Um dos luminares do governo calculou que morreram apenas 800 pessoas e continuou duvidando dos fatos, mesmo quando os mortos já eram 80 mil.

Duvidaram dos caixões, que para eles estavam vazios ou cheios de pedras. Duvidaram do número de covas, vetaram uma dezena de artigos na lei de proteção aos povos indígenas.

Seguimos fazendo lives como ectoplasmas que reaparecem no território virtual para puxar a perna dos vivos que, sem máscara, montados a cavalo, celebravam seu escandaloso idílio com a morte. E daí?

Os tribunais de dentro e de fora do Brasil terão material por muito tempo. A suposição de que essas coisas acontecem e são esquecidas é falsa. Uma política de negação que produziu milhares de mortos, índios, grávidas, é algo que ficará na história e acabará desabando sobre seus autores, por mais velhos e combalidos que estejam no momento em que forem alcançados.

Vivemos num país de curandeiros. Bolsonaro passa seus dias mostrando a cloroquina para todos os seres humanos e animais que encontra pela frente. O ministro da Ciência e Tecnologia gasta 8 milhões para pesquisar um vermífugo chamado Annita, e até audiências foram anunciadas para discutir o poder do alho cru.

E se você perde a paciência, elegância, e pergunta: e naquele lugar, não vai nada? Eles responderão com tranquilidade:

— Algumas doses de ozônio e um cateter bem fino.

Aos poucos vamos saindo da toca, meio ressabiados, contentes em ver quem sobreviveu. Mas a maneira como tratamos a pandemia, as condições de desigualdade em que a vivemos, uns com água e esgoto, outros não, uns com casa confortável, outros espremidos nos barracos, tudo isso coloca em questão o próprio sentido da sobrevivência.

Apesar da solidariedade, do desprendimento dos trabalhadores em saúde, a resposta brasileira à pandemia nos convida a repensar o país.

E responder em conjunto a essa fúnebre marcha dos 100 mil.

Vegetarianos não praticantes

Jonathan Safran Foer escreveu dois dos romances mais inteligentes, surpreendentes e divertidos que li nos últimos anos: “Tudo se ilumina” (Rocco, 2002) e “Extremamente alto e incrivelmente perto” (Rocco, 2005). Depois disso, publicou um livro de não ficção, “Comer animais” (Rocco, 2009), sobre a crueldade da indústria alimentar e as virtudes do vegetarianismo. Recentemente, surgiu no Brasil mais um título de Jonathan: “Nós somos o clima — Salvar o planeta começa no café da manhã” (Rocco, 2020), no qual o escritor americano regressa à sua obsessão preferida: a comida. A tese de Jonathan é de que o mundo tal como o conhecemos está à beira do colapso devido ao aquecimento global, e de que esta tragédia tem sobretudo a ver com a agroindústria.

Sem surpresa, há diversas referências ao Brasil e a Jair Bolsonaro. Jonathan lembra que Bolsonaro fez campanha por um plano para explorar extensões anteriormente protegidas da Amazônia, acrescentando que tal política libertará 13,2 gigatoneladas de carbono, mais do que o dobro das emissões totais dos Estados Unidos. O agronegócio é responsável, segundo Jonathan, por 91% da destruição da Amazônia.


Para o romancista americano, bastaria deixarmos de comer carne e produtos lácteos ao almoço e café da manhã para impedir uma catástrofe maior. Jonathan, portanto, não está a exigir à Humanidade que se converta ao vegetarianismo puro e duro. Pede apenas uma redução no consumo de carne. Não me parece um sacrifício insuportável — é apenas uma questão de bom senso.

Estudei agronomia e silvicultura no Instituto Superior de Agronomia, em Lisboa, há mais de 30 anos. Lembro-me de um professor que já nessa época defendia teses semelhantes às de Jonathan, demonstrando, através de cálculos muito simples, o absurdo energético que representa a criação de gado bovino. Também ele achava que a pecuária industrial iria destruir o planeta. Desde essa época que simpatizo com os ideais vegetarianos, embora, como Jonathan, não esteja disposto a abandonar por completo o consumo de carne. Sou, digamos assim, um vegetariano não praticante. 

O livro de Jonathan, além de discutir questões urgentes, tem o mérito adicional de ser escrito por um excepcional romancista. As pequenas histórias que servem a Jonathan para reforçar as suas ideias, são preciosas peças literárias que, só por si, já justificariam a compra do livro.

A causa vegetariana tem no romancista sul-africano J. M. Coetzee, Prêmio Nobel de Literatura em 2003, outro apaixonado defensor. Coetzee chegou a criar uma personagem, a escritora australiana Elizabeth Costello, que aparece pela primeira vez no romance “A Vida dos animais” (1999), e depois em “Elizabeth Costello” (2002), a qual percorre o mundo palestrando contra a crueldade dos homens para com os outros animais. Costello é uma vegetariana radical, mas com mais sentido de humor do que Coetzee, e isso salva-a. Não sendo os títulos mais interessantes do escritor sul-africano são, ainda assim, bastante bons e, de certa forma, completam os dois ensaios de Jonathan.

O livro de Jonathan, além de discutir questões urgentes, tem o mérito adicional de ser escrito por um excepcional romancista. As pequenas histórias que servem a Jonathan para reforçar as suas ideias, são preciosas peças literárias que, só por si, já justificariam a compra do livro.

A causa vegetariana tem no romancista sul-africano J. M. Coetzee, Prêmio Nobel de Literatura em 2003, outro apaixonado defensor. Coetzee chegou a criar uma personagem, a escritora australiana Elizabeth Costello, que aparece pela primeira vez no romance “A Vida dos animais” (1999), e depois em “Elizabeth Costello” (2002), a qual percorre o mundo palestrando contra a crueldade dos homens para com os outros animais. Costello é uma vegetariana radical, mas com mais sentido de humor do que Coetzee, e isso salva-a. Não sendo os títulos mais interessantes do escritor sul-africano são, ainda assim, bastante bons e, de certa forma, completam os dois ensaios de Jonathan.

Gosto de escritores com causas. Um escritor sem causas não produz literatura, mas entretenimento. Nada contra o entretenimento. Mas nos dias que correm precisamos mesmo é de literatura. 
José Eduardo Agualusa"

Pra frente, Brasil...

 

A nova direita

Nasce e começa a ganhar volume no Brasil a nova direita, uma das estacas do bolsonarismo. O que vem a ser essa tendência, quem a integra e qual a possibilidade de se transformar em força decisiva no arco partidário? Para começar, este país não é seu principal habitat. É o nome de um partido criado em 1918 em Israel, expande-se pela Europa e finca raízes nos Estados Unidos e na América Latina, incorporando fenômenos como autoritarismo, nacionalismo, conservadorismo, populismo e xenofobia, principais eixos de sua identidade.

Por aqui, é diferente da direita clássica que amparou o golpe de 64, apesar de agregar remanescentes, porém sem se comprometer com golpes ou ditadura militar. Há quem pense nisso, mas a nova direita se espelha no conservadorismo, com traços de populismo e autoritarismo. Poderia ser adotada tanto por um ex-integrante das Forças Armadas – Jair Bolsonaro – como por um civil. O importante é o que, não o quem.



Nos Estados Unidos e na Europa, agrupa a defesa nacionalista de produtores rurais e outros segmentos que se sentem prejudicados pela invasão de “alienígenas”, outros centros mundiais de produção barata, como a China, imigrantes que desformam culturas locais com sua forma de pensar e de viver. Nos EUA, o conservador Donald Trump assumiu o ideário. Na Europa, alguns países se retraem ante o fracasso de governantes de esquerda e os efeitos deletérios da globalização.

Na Hungria, Victor Orban ameaça com uma cerca de arame farpado para evitá-los. A islamofobia ganha corpo a partir dos conflitos do Oriente Médio. Na Alemanha, três partidos nazifascistas se formaram. A crise econômica mundial aponta para essa direita, como se fosse o caminho adequado. Ao mesmo tempo, desenvolve-se o ideário da alternância de poder, oxigênio para vitaminar regimes.

No Brasil observamos uma insatisfação desde o topo da pirâmide social até as margens, que ainda elegem governantes segundo o custo/benefício. No meio, estão contingentes que exigem mudança, saturados da carga de impostos, dos serviços precários, da corrupção deslavada, do dinheiro para alguns e escassez para os demais. A nova direita conta ainda com a adesão de micros e pequenos produtores, comerciantes e prestadores de serviço oprimidos por tributos e burocracia.

Representantes da velha direita, saudosos do autoritarismo, encontram no capitão uma janela. Grande parcela prefere a defesa da ordem, da disciplina, do direito de propriedade, contra a baderna e a devastação.

Por aí se estende a nova direita e o posicionamento contra o “status quo”. Seu sucesso dependerá de circunstâncias como alavancagem da economia, melhoria dos serviços públicos – saúde e educação –, atenuação da violência. Fato é que a índole brasileira tende a se afastar dos extremos e a optar pela conciliação, harmonia e paz social. Logo, uma jornada em direção ao meio se apresenta como a melhor solução. Não somos um país beligerante. In médium virtus, a virtude está no meio.

O amanhã poderá nascer com um sol brilhante ou nuvens plúmbeas. Na escuridão, veremos a polarização dos extremos. Na claridade, nossa democracia será revigorada. E mais, a angústia trazida pela pandemia precisa ser sair de nossas mentes. Esse peso terá efeito na balança de 15 de novembro.

Consciência do inconsciente

Existe um inconsciente coletivo, ou melhor, um consciente coletivo, de que a ditadura no Brasil foi boa. Isso foi construído por uma narrativa baseada em fontes militares

Eduardo Reina, autor do livro "Cativeiro sem fim: as histórias dos bebês, crianças e adolescentes sequestrados pela ditadura militar no Brasil"

Vergonha amazônica

Defender-se acusando os críticos por danos idênticos ou piores dos que os seus é arma costumeira de quem não tem explicação para erros deliberados e escandalosos. Na política, o “todo mundo faz” é usual para amenizar delitos como caixa 2 ou a tal da “rachadinha”, apelido que ameniza a apropriação indébita de dinheiro público. Age-se como se o passado abonasse o crime presente e futuro.

Coube ao ministro Paulo Guedes internacionalizar esse perverso conceito. Na tentativa de se livrar das cobranças sobre a desastrosa política ambiental do governo Jair Bolsonaro no fórum promovido pelo Aspen Institute, disse entender a preocupação dos norte-americanos porque “eles desmataram suas florestas” e “mataram seus índios”. E implorou: “sejam mais amáveis como somos amáveis”.

Entre irritação e cinismo, Guedes expôs a desfaçatez do governo que integra. Pela sua perversa teoria, o mundo desenvolvido que cobra do Brasil a preservação da Amazônia e atenção aos povos indígenas não poderia fazê-lo porque, no passado, teria aniquilado florestas e nativos. Uma lógica que impediria, por exemplo, que o Brasil e outros países condenassem a escravidão por ter usado e abusado dela.

O que se quer com esse discurso? Licença para desmatar? Para dizimar índios?


No ano passado, Bolsonaro já havia desafiado europeus, com direito à gafe de trocar a Noruega pela Dinamarca ao divulgar nas suas redes sociais foto de caça de baleias. Tentativa vergonhosa de associar práticas ilegais ao país nórdico que, em retaliação ao desgoverno ambiental brasileiro, anunciara o corte do auxílio milionário ao Fundo Amazônico. Quanto ao desmate, a Europa é hoje o continente com os melhores índices de recuperação de suas matas, com 42% de cobertura florestal, boa parte resultado de mais de 50 anos de recomposição contínua.

Ao expor o país a mais um vexame internacional, Guedes o fez com requintes de crueldade para a já combalida imagem do Brasil lá fora. Um misto de reinvenção da história e mentira deslavada.

Os Estados Unidos desmataram florestas e mataram seus índios. Tentam replantar matas – hoje já refizeram cerca de 30% delas. Mas nunca conseguirão apagar da sua história o extermínio de 18 milhões de nativos.

A conta no Brasil é numericamente muito inferior, mas não menos grave: mais de 2,5 milhões de índios escravizados e mortos nos primeiros 100 anos após o desembarque de dos portugueses e outros quase 1 milhão entre 1900 e 1950. Como o Brasil prefere esconder essa catástrofe, Guedes se sentiu protegido para omiti-la.

Dados do IBGE apontam que a população indígena brasileira hoje gira em torno de 800 mil, quase metade deles aculturados. Com baixa imunidade, mais de 12 mil foram infectados e outros 240 morreram na pandemia.


Nem a tragédia da mortandade de índios nem a do desmatamento acelerado encontrarão guarita na história de governos anteriores e, muito menos, de outros países. Ou seja, além de absurdo, imoral e irresponsável, o discurso do ministro é inócuo, vazio. Só serve para aprofundar a vergonha nacional.

Não há qualquer hipótese de o governo Bolsonaro se safar da responsabilidade pelo desmatamento recorde, pela grilagem amazônica, pelas invasões de terras e apoio descarado e escancarado ao garimpo ilícito.

É patética a tentativa de defender o garimpo em terras demarcadas como direito e até reivindicação dos índios. A lavra a céu aberto, com maquinário pesado, poluindo rios e devastando a floresta, é proibida. Simples assim.

O governo quer mudar esses parâmetros. Como dificilmente conseguirá aprovar uma lei autorizando mineração em terras indígenas, estimula o liberou geral. Não à toa, os alertas de desmate amazônico atingiram números de calamidade, crescendo 34,5% nos últimos 12 meses. O resultado é Bolsonaro na veia – uma droga que faz o país retroceder décadas.

Diferentemente das canalhices políticas, como os vícios do “todo mundo faz” que acabam protegendo safadezas, a regressão na política ambiental pode não ter conserto.

Se confirmada, a rachadinha em favor do então deputado estadual e hoje senador Flávio, filho do presidente, pode ser punida, com ressarcimento aos cofres públicos e pena para os infratores. A floresta nativa abatida e incendiada para dar lugar a pasto e os veios de água poluídos pelos dejetos da mineração exigiriam esforços gigantescos para ser recompostos. Não raro, dão lugar a terrenos desérticos, imprestáveis. Mais: assim como os Estados Unidos não conseguirão jamais se purgar dos mortos do genocídio cometido contra os nativos, o Brasil não ressuscitará seus índios.

O STF parou parcialmente a política anti-indigenista de Bolsonaro. A pressão dos investidores internos e externos também tem funcionado. Mas é preciso marcação cerrada. Do contrário, não haverá desculpa capaz de impedir que os gravíssimos danos de hoje detonem o futuro.

Mary Zaidan

Militares, mensalão, Michelle e milícias

Um agregado das milícias, se não ele mesmo miliciano, pagava contas dos Bolsonaros e punha ainda mais dinheiro na conta de Michelle Bolsonaro, como mostrou a revista Crusoé nesta sexta-feira.

O senador Flávio, o filho 01, enrola-se a cada vez que fala do seu caso com Fabrício Queiroz, motorista, segurança e contato da família com pistoleiros e milicianos, elogiados em público e condecorados pelos Bolsonaros.

Parece tudo tão velho e sabido desde pelo menos 2018. Portanto, é cada vez mais impressionante que o país se acomode a uma família presidencial relacionada com o crime organizado e acusada de fazer seu pé de meia com o furto de dinheiro público à boca pequena, pois sempre foi marginal na política, sem acesso à roubança em grande escala.

Acomodar-se é a palavra a que se deve prestar atenção.

A ameaça hoje mais direta à sobrevivência política de Jair Bolsonaro vem do Supremo Tribunal Federal. Mas no conjunto do Judiciário há um jogo de morde e assopra, de sufoco e alívio. Manipula-se um cabresto para manter o presidente na raia que fica entre o golpe e o impeachment.

 


Os generais, por sua vez, não têm pudor algum de apoiar uma família presidencial associada a agregados da milícia, no mínimo, além de se juntarem às ameaças golpistas do presidente e lançarem manifestos subversivos oficiais.

Negociam eles mesmos o arreglo de Bolsonaro pai com presidiários do centrão, de que faziam troça ainda na campanha de 2018.

Agora mais abertamente do que qualquer casta da alta burocracia, buscam salários maiores, prebendas, aposentadorias gordas, boquinhas para amigos e parentes ou verbas para suas armas. Buscam também reconhecimento, iniciativa que morre mesmo antes mesmo de sair da lama das trincheiras, dados o desastre administrativo, vide o caso do almoxarifado da Saúde, e a apologia de ignorância ou de barbaridades como a tortura.

Parece agora claro que não se pode ter ilusão alguma a respeito do governo militar, do sentido do que fazem os generais do Exército e seus comandados.

Seja pela popularidade restante de Bolsonaro, seja pela possibilidade de cavar rendas, verbas e cargos, “business as usual”, o Congresso acomoda-se ao governo. A cabeça dos lava-jatistas é servida como acompanhamento desse acordão.

Causa cada vez menos escândalo a intervenção de Bolsonaro nos órgãos de controle, que começou no falecido Coaf, passou pela Polícia Federal, estabeleceu-se na Procuradoria-Geral da República e agora pode ser minada de dentro, com a renovação dos órgãos de espionagem.

Rasgou-se a fantasia grotesca de moralidade. Fizeram picadinho do lacerdismo tardio da Lava Jato, o morismo. Tão ao gosto dos Bolsonaros e Queiroz, agora faz-se um rolo a fim de dar um jeito no teto de gastos, teto que era a justificativa limpinha restante daquelas que o establishment e tantos de seus economistas deram para se associar a Bolsonaro.

O presidente precisa de um Bolsa Família para chamar de seu; parte de seus ministros e do centrão quer dinheiro para investimento em obras. Nada disso é possível sem que ao menos se abra um buraco no teto de gastos ou, muitíssimo improvável, se dê um talho imenso no salário dos servidores (“não passará!”).

É a isso que as elites brasileiras se prendem? Uma promessa fiscal precária vale uma sociedade com golpistas, milícia, rachadonas, razia no ambiente e na educação, inércia criminosa na saúde, disseminação da ignorância, de ódio, mentiras sórdidas e vexame diplomático?

Uma palavra agradecida ao governo Bolsonaro

Só quem parece satisfeita com mais de cem mil mortos, a corrupção viva por todos os cantos, é a palavra “descalabro”. Ninguém mais a amava, ninguém mais a escrevia. Ela estava entregue à sanha das traças dos dicionários, abandonada à própria infelicidade por sua decadência e som de bolero. “Descalabro” voltou.

A palavra foi reincorporada aos jornais, na tentativa de exprimir com ênfase polissílaba o estupor nacional. “Vergonha”, “pouca vergonha”, “bando de sem vergonha”, todas essas veemências da língua fracassaram. 


A pobre coitada estava no limbo vernacular, amaldiçoada pelo excesso cafona de seu alvoroço denunciatório. Pior. Carregava a necessidade constrangedora de se fazer acompanhar a cada citação por um outro escorraçado da boa escrita moderna - o infeliz do ponto de exclamação.

Breguerérrima, a dupla “descalabro!” era uma espécie de porta bandeira e mestre sala das escolas de texto ruins. Zero, nota zero. Mas, com a floresta amazônica em chamas e os terraplanistas no poder, ficou claro que para nomear o horror não havia no mercado uma palavra razoável – “negacionistas”, “milicianos” e “assassinos” soavam fracas. “Descalabro” agradeceu a lembrança. Pôs-se às ordens.

Ela parecia para sempre excomungada, junto com o ioiô da Coca-Cola e as perucas Lady, nos almanaques da nostalgia furreca. Está vivinha da silva. Humilde, diz entrar em campo para somar. Ao lado de “não é possível”, “onde vamos parar”, “genocídio” e outras expressões cúmplices do mesmo assombro, quer contar a verdadeira história do país em 2020.

A palavra era a queridinha dos editoriais udenistas da Tribuna da Imprensa (brandida num esquema saia-e-blusa, “descalabro moral”). Nunca desapareceu das páginas. De vez em quando, à sorrelfa, burlava o esquema de segurança do copydesk e dava os ares de sua antiguidade. Surgia em alguma carta de leitor que denunciava o prefeito da cidade e precedia o fecho invariável de “até quando?!”.

“Descalabro” – com o “a” tônico parecendo gritar “pega ladrão” - embute o som de safadeza larga a ser investigada. É a língua afetiva que falava vovó. Ilustra também a crença nacional de que quanto mais sílaba tiver uma palavra, melhor e inconstitucionalissimamente mais culta ela soará. O deputado barroco baiano não saía de casa sem a sua.

Pois aqui, diante dos gastos com quatro milhões de comprimidos de cloroquina, está a “descalabro” de novo. Sempre despenteada, ela põe a cabeça para fora da janela, nem aí para o que vão dizer de sua histeria. Faz a doida, na esperança de que alguém ouça a gritaria que vem do editorial e chame a autoridade competente.

Ao lado de “crime contra a humanidade”, “ignorância” e “quadrilha organizada”, ela reage como pode quando os fatos já não bastam, os cheques na conta da Michele não são suficientes, e é preciso aos observadores do país se boquiabrir com um espanto tão tradicional.

Pode ser muita semântica numa hora dessas, mas “descalabro” tem sido termômetro seguro para medir crises. Quando os mais finos redatores se lembram dela é sinal que a coisa está quedando peluda e urge deixar de lado o bom gosto exigido pelo manual de redação. Sempre foi um “J’accuse” do português ruim, uma pedrada nos vitrais do palácio. Por enquanto, infelizmente, tem a mesma eficácia curativa da cloroquina, esse imenso descalabro.