A menina tem pouco mais de dois anos. Está trancada em casa com os pais há dois meses devido à pandemia de covid-19. Sente falta dos amigos da creche, sente falta da sorveteria, sente falta da rua. Mas este não é o problema da menina. Nem é o problema de seus pais. O problema é que a menina tem medo. E não do vírus. Mas daquele que ela chama de “o homem mau”. Tem dificuldade de dormir, quer ficar agarrada à mãe, acorda assustada à noite. A menina tem pesadelos com “o homem mau”. E, quando desperta, “o homem mau” continua lá.
O “homem mau” é Jair Bolsonaro. De todo o medo daqueles que estão ao seu redor, a menina entendeu que o vírus vai ficar do lado de fora, se permanecerem em casa. Mas o homem mau não tem limites. Ele abusa. Invade. Viola. Mata. Os pais criaram uma história, a de que as árvores cresceram e cobriram o prédio, e assim o homem mau não enxerga a casa deles e, como não enxerga, não pode lhes fazer mal. Ela olha com seus olhos imensos, quer acreditar, mas já compreendeu que nem mesmo as árvores podem protegê-la, até porque descobriu que o homem mau também derruba a floresta. Há um novo vilão, e ele não vem dos contos de fadas ou dos filmes da Pixar.
Como ser uma criança e lidar com um vilão que é real, se nem os adultos parecem saber como se defender dele, se nesse conto da realidade ninguém parece saber como parar o vilão real? Se essa história parece não ter outro final que não seja a morte? A menina ainda não tem recursos para nomear o horror de estar num mundo a mercê de um vilão, e também o horror de perceber que nem seus pais, que nessa idade são quase todo o seu universo, podem protegê-la dele. Então, só balbucia: “o homem mau”, “o homem mau”, “o homem mau”. E não dorme.
Eu escuto muito. É minha profissão escutar muito e escutar pessoas de todas as cores, origens e classes sociais. A criança expõe, com os poucos recursos de que dispõe aos dois anos, um pânico que vai muito além dela e se espalha por todas as faixas etárias. Se o mundo vive um momento especialíssimo, o de uma pandemia global que está matando uma parte da espécie humana, nós, no Brasil, estamos sendo violentados dia após dia pela perversão do homem no poder em meio à expansão exponencial de um vírus que pode nos matar e já começou a matar pessoas que amamos. Tenho escutado gente muito diferente entre si afirmando que passou a ter reações físicas diante da imagem de Bolsonaro. Ou da voz. Ou mesmo se outra pessoa pronuncia o nome do presidente do Brasil.
Também acontece comigo. Comecei a sentir náusea diante de qualquer alusão a Bolsonaro. Não o enjoo de quando como um alimento que me faz mal. Mas o enjoo do asco. Sou possuída pelo nojo. Há mulheres que têm essa reação diante do estuprador, quando por alguma razão são obrigadas a vê-lo novamente. Outras pessoas manifestam reação semelhante no convívio com o sequestrador. Outras na presença do torturador. Bolsonaro é tudo isso. Ele tem nos violentado, sequestrado nossa sanidade, nos ameaçado com sua irresponsabilidade deliberada e também nos torturado todos os dias, usando para isso a máquina do Estado.
Somos um país de reféns, e o sequestrador está matando. Ele mata quando boicota as ações de combate à covid-19. Ele mata quando dissemina mentiras sobre remédios sem comprovação científica de eficácia. Ele mata quando contradiz a ciência. Ele mata quando diz que a covid-19 é um “resfriadinho”. Ele mata quando afirma que “o vírus não é tudo isso”. Ele mata quando forja a falsa oposição entre se proteger da doença e “salvar” a economia. E ele pode estar matando literalmente quando vai às ruas estimular outras pessoas a ir para as ruas, quando espirra e aperta mãos com seus dedos lambuzados de ranho, quando manipula celulares alheios, quando faz selfies com seus seguidores, quando pega crianças no colo. Ele mata e tenta dar um golpe quando faz tudo isso em manifestações golpistas contra a democracia, contra o Congresso e contra o Supremo Tribunal Federal. Bolsonaro mata quando, diante de milhares de brasileiros mortos por covid-19, ele zomba, tripudia e debocha: “E daí?”. Como diz Emicida, “eleja um assassino e espere um genocídio”.
Está acontecendo agora. Neste momento. É grande a possibilidade de que, no futuro, Bolsonaro seja julgado pelo Tribunal Penal Internacional e seja condenado por crimes contra a humanidade, como aconteceu com outros perversos antes dele. Pelo menos duas denúncias já alcançaram a corte. Mas, quando isso acontecer, será muito tarde. Poderemos estar todos mortos.
O que vamos fazer agora, já? Ou vamos deixar “o homem mau” nos matar a todos? O que, afinal, vamos dizer às crianças que esperam ser protegidas por nós?
Tenho nojo de Bolsonaro. Cada palavra que contorce sua face ao sair da boca é uma palavra violenta. O homem cospe cadáveres. Seus três filhos mais velhos são suas cópias, numeradas, como ele mesmo diz (zeroum, zerodois, zerotrês…), comprovadamente estúpidos como o pai e também perversos, pelo menos um deles claramente rondando a psicopatia. Precisei escrever um livro para compreender como foi possível eleger o pior humano para a presidência do Brasil. E não paro de seguir tentando compreender. Mas, para além de compreender, é preciso impedir. Nossa emergência é barrar Bolsonaro, porque a cada segundo a pilha de cadáveres aumenta. Não são números “os inumeráveis”, são pessoas que alguém amou.
Temos informação, pesquisa e capacidade de interpretação dos fatos para concluir que Bolsonaro não é uma anomalia, no sentido de que só existe ele. Se fosse assim, seria bem mais fácil. Bolsonaro representa uma parcela dos brasileiros. Não teria sido eleito não fosse esse núcleo que se identifica com ele e o reconhece como espelho. Segundo as pesquisas, Bolsonaro é a expressão de quase um terço dos brasileiros, que o apoiam mesmo em sua política de morte —ou provavelmente o apoiam exatamente pela sua política de morte. Teremos que nos debruçar por muito tempo e com muito afinco para compreender como nos tornamos um país capaz de produzir um tipo de humano tão desprezível e tão violento. Já temos bastante material de pesquisa para começar.
Sabemos também que não é apenas o Brasil. O mundo já produzia pessoas capazes de urrar de prazer diante de execuções de outros seres humanos ou diante de pessoas sendo devoradas por animais na arena antes de o Brasil existir. A história é pródiga em mostrar a massa gritando e pedindo mais sangue, mais dor, mais violência. Os horrores do século 20, como o nazismo, tão em evidência no momento, estão bem próximos de nós. Mas era possível desejar que talvez pudéssemos ter chegado ao século 21 com mais capacidade de lidar com nossa humana monstruosidade, mais aptos a nos proteger de personagens como Bolsonaro.
Por uma série de razões, já presentes no fato de termos sido o último país das Américas a abolir a escravidão negra, a sociedade brasileira tem suas deformações particulares para lidar. Como, por exemplo, a que nos faz um dos países campeões em linchamentos. Uma parcela dos brasileiros gosta de derramar o sangue dos outros, goza com a dor dos outros, traveste seu horror pessoal em moralidade. Amarra uma bandeira do Brasil no pescoço e vai defecar pela boca em praça pública, ameaçando todo o já desorganizado e insuficiente combate ao coronavírus e, portanto, condenando os mais desprotegidos à morte. É o pessoal capaz de buzinar na frente de hospitais, onde pessoas agonizam, e trancar ambulâncias no trânsito. Nós os conhecemos, seguidamente eles fazem parte da família.
Nenhum deles, porém, tinha chegado à presidência. Sempre parava no Congresso. E, então, esse limite foi rompido. O limite em que um Bolsonaro deixa de ser o pária do Congresso, o bufão que garantia sua reeleição como deputado mas não tinha nenhuma influência real, para se converter no presidente do Brasil. E mais: no “mito”. Ele assume o poder e, como anunciou que faria, converte o Governo numa máquina de produção de morte.
Sabemos que Bolsonaro não conquistou essa façanha sozinho. Que ele foi apoiado por parte das elites nacionais, em todas as áreas. Muitos já compreenderam o que fizeram e o abandonaram por medo de contaminar sua biografia com o sangue produzido em quantidades cada vez maiores por Bolsonaro. Hoje quase só restaram os piratas do empresariado, os generais com nostalgia de ditadura, os predadores do agronegócio e os evangélicos de mercado. Não é pouco o que ainda restou. Mas é menos do que já foi. Quem ainda tem o que perder, como Sergio Moro —herói decaído, mas não tanto que não tenha esperança de juntar os cacos—, está debandando. Do sangue, afinal, ninguém escapa. E há cada vez mais sangue nesse governo.
Já escrevi bastante sobre isso, antes e depois da eleição. Os artigos estão disponíveis para quem quiser lê-los. Agora, porém, preciso repetir que Bolsonaro está nos matando. É imperativo agir no modo emergência. Lutar contra Bolsonaro já não é apenas lutar por bandeiras essenciais como justiça social, igualdade de raça e de gênero, equidade na distribuição da renda, taxação das grandes fortunas, preservação da Amazônia e de seus povos. Passamos a um estágio muito mais agudo. Lutamos hoje para nos manter vivos, porque Bolsonaro boicota as ações contra o coronavírus. Bolsonaro não é coveiro, categoria corajosa e digna de brasileiros. Bolsonaro é assassino.
Não podemos lidar com um perverso como se o que ele faz fosse do jogo democrático. Nossa pergunta é clara: como vamos impedir Bolsonaro de usar a máquina do Estado para continuar a matar?
Nossos vizinhos temem por suas fronteiras. O Paraguai já constatou que a maioria de seus casos estão vindo do Brasil. No mundo inteiro o Brasil está se tornando um pária dominado por um pária. Brasileiros já são olhados com desconfiança. Governados por um maníaco, vivemos uma explosão no crescimento da contaminação por covid-19 e ninguém quer o vírus voltando a entrar pela sua porta depois de tanto esforço para tentar controlá-lo. O planeta já começa a enxergar uma tarja de risco biológico na nossa testa. É isso, sim, que pode prejudicar a economia por muito mais tempo.
Prestem atenção em quem está morrendo mais. São os negros, são os pobres. São os presos trancados em viveiros de vírus, numa violação de direitos inacreditável até para os padrões medievais do Brasil. Quem está morrendo mais são aqueles que desde a campanha Bolsonaro trata como matáveis —ou como coisas. O vírus mata cada vez mais nas aldeias indígenas e vai se espalhando pela floresta amazônica. Quando os invasores europeus chegaram, os vírus e as bactérias que trouxeram com eles exterminaram 95% da população indígena entre os séculos 16 e 17. Há chance de que o novo coronavírus produza um genocídio dessa dimensão caso não exista um movimento global para impedi-lo.
Bolsonaro já demonstrou que apreciaria se os indígenas desaparecessem ou se tornassem outra coisa. “Humanos como nós”, nas suas palavras. Humanos vendedores e arrendadores de terra, humanos mineradores, humanos plantadores de soja e de cascos de boi, humanos amantes de hidrelétricas, de ferrovias e de rodovias. Humanos que se descolam da natureza e a convertem em mercadoria.
São os povos indígenas que colocam literalmente seus corpos diante da destruição da Amazônia e de outros biomas. Mas parte dos apoiadores de Bolsonaro, que hoje também lideram campanhas de “abertura do comércio” nas cidades amazônicas, tem matado os indígenas (e também camponeses e quilombolas) à bala. O vírus pode completar o extermínio de uma forma muito mais rápida e numa escala muito maior. Basta fazer exatamente o que Bolsonaro está fazendo: nada para protegê-los e tudo para estimular a ruptura das regras sanitárias da Organização Mundial da Saúde; nada para protegê-los e tudo para estimular a invasão de suas terras por garimpeiros e grileiros. O que está em curso é exatamente isso: um genocídio.
E também ecocídio, porque na Amazônia esses entes não andam separados. Como sabemos, os destruidores da floresta não fazem home office. O desmatamento avança aceleradamente, aproveitando a oportunidade da pandemia. Os alertas cresceram 64% em abril, depois de já terem batido recordes no início do ano. Bolsonaro demitiu os chefes de fiscalização do Ibama que estavam tentando impedir o massacre da floresta. Está militarizando tanto a saúde, ao colocar militares em postos importantes do ministério, quanto a proteção do meio ambiente, ao subordinar o Ibama e o ICMBio ao Exército nas ações de fiscalização. Em toda a região, camponeses, ribeirinhos e indígenas denunciam que os caminhões cheios de árvores recém derrubadas não param de atravessar as estradas vindos da floresta. Eles gritam. Mas quem os escuta?
Bolsonaro está transformando (também) a Amazônia num gigantesco cemitério. Ele é tão perverso que usa a pandemia para matar a floresta e tudo o que é vivo. O presidente do Brasil pode se tornar o primeiro vilão da história que, sem poder nuclear, tem grande poder de destruição. Sem floresta amazônica não há como controlar o superaquecimento global. Sem controlar o superaquecimento global o futuro será hostil para a espécie humana. Se a Amazônia chegar ao ponto de não retorno, do qual se aproxima velozmente, seu território poderá se tornar um disseminador de vírus nos próximos anos. Neste momento, por mais que os demais países promovam ações de controle e fechem suas fronteiras, sem conter o novo coronavírus num país com 210 milhões de habitantes será muito difícil controlar a pandemia no planeta.
É disso que se trata. É real. Aqueles que lavam as mãos, como disse o ator Lima Duarte, “o fazem numa bacia de sangue”. Lima Duarte fez essa declaração após o suicídio de seu colega Flávio Migliaccio, que tirou a própria vida dolorosamente decepcionado com o Brasil e com os brasileiros. Eu iria ainda mais adiante que Lima Duarte. Quem segue com Bolsonaro não está apenas lavando as mãos numa bacia de sangue. Está matando junto com ele. Uma das perversidades do perverso é produzir cúmplices. E é isso que Bolsonaro faz. Não é possível testemunhar o que está acontecendo e seguir com o humano monstro sem se tornar o humano monstro. Não haverá sabonete, álcool gel, desinfetante capaz de apagar esse sangue das mãos dos assassinos, estejam eles na Fiesp, no Congresso ou no Theatro Municipal.
O que vamos dizer à criança de dois anos que denuncia a nossa impotência em protegê-la quando ela pede socorro contra “o homem mau”?
Neste momento, seguidores de Bolsonaro se aglomeram em Brasília. Alegam que estão praticando a desobediência civil. Como tudo o que tocam vira mentira, todas as palavras saem estupradas depois de passar por sua boca, o que fazem nada tem a ver com desobediência civil, conceito caro a tantos movimentos que tornaram o mundo mais justo e igualitário. O que exercitam diariamente é a mais vil obediência ao maníaco do Planalto e também aos seus próprios instintos de morte, ao seu gozo por sangue e pela dor dos outros. O que treinam cotidianamente é a obediência ao seu próprio sadismo e desejo de violência que Bolsonaro libertou pelo exemplo e pela impunidade que desfrutou. Tentam encobrir seus piores instintos com a bandeira do Brasil, da qual também se apropriaram como se o país pertencesse apenas a quem mata o Brasil.
Desobediência civil hoje é ficar em casa apesar do maníaco que manda sair. Desobediência civil é cuidar de todos os outros apesar do perverso que diz “e daí?”. Desobediência civil é desobedecer ao projeto de genocida que está no poder. E para isso é necessário usar os instrumentos de nossa cada vez mais ferida democracia para tirá-lo de lá e impedir que continue matando. É isso ou dizer para a criança de dois anos que somos covardes demais para protegê-la e, depois da palavra o gesto, abrir a porta da casa para a morte.
sexta-feira, 15 de maio de 2020
Triste Brasil
Enquanto o sr. Jair Bolsonaro finge (e mal) ser um presidente da República preocupado com o destino de todos os brasileiros, e não só com o dele e o dos que estão no seu círculo afetivo, o Brasil ultrapassou a marca de 12 mil mortos por covid-19 no início desta semana. Já são quase 178 mil casos confirmados da doença no País, fora a subnotificação.
Autoridades em saúde pública alertam que o ritmo de crescimento do número de óbitos por covid-19 no Brasil é bastante similar ao dos EUA, país que hoje lidera o triste ranking de vítimas fatais do novo coronavírus, com mais de 83 mil mortos. A continuar assim, não é improvável, dizem os especialistas, que o Brasil iguale ou até ultrapasse essa nada honrosa posição, a depender das medidas de combate à pandemia que sejam adotadas no País. A partir da confirmação do primeiro óbito (26/2), o País levou 74 dias para atingir a marca de 10 mil mortes. Os EUA, 73 dias. Embora esta diferença de apenas um dia seja desprezível, conta em desfavor do Brasil o fato de o primeiro óbito nos EUA ter ocorrido mais de um mês antes (22/1). Ou seja, ao que parece, o novo coronavírus matou mais rápido aqui do que lá, por uma série de razões
Em vez de demonstrar empatia e juízo diante de um quadro tão desolador, Bolsonaro reforçou sua opção pela afronta e pela irresponsabilidade. Sem apresentar à Nação qualquer planejamento seguro para a retomada das atividades econômicas, o presidente tornou a vociferar contra governadores que mantêm a quarentena em seus Estados e exigiu, em termos rasteiros, a imediata volta ao trabalho. “O povo tem de voltar a trabalhar. Quem não quiser trabalhar que fique em casa, porra. Ponto final”, disse Bolsonaro à saída do Palácio da Alvorada na manhã de ontem, para delírio da meia dúzia de apoiadores que batem ponto no local.
Autoridades em saúde pública alertam que o ritmo de crescimento do número de óbitos por covid-19 no Brasil é bastante similar ao dos EUA, país que hoje lidera o triste ranking de vítimas fatais do novo coronavírus, com mais de 83 mil mortos. A continuar assim, não é improvável, dizem os especialistas, que o Brasil iguale ou até ultrapasse essa nada honrosa posição, a depender das medidas de combate à pandemia que sejam adotadas no País. A partir da confirmação do primeiro óbito (26/2), o País levou 74 dias para atingir a marca de 10 mil mortes. Os EUA, 73 dias. Embora esta diferença de apenas um dia seja desprezível, conta em desfavor do Brasil o fato de o primeiro óbito nos EUA ter ocorrido mais de um mês antes (22/1). Ou seja, ao que parece, o novo coronavírus matou mais rápido aqui do que lá, por uma série de razões
De acordo com uma projeção feita pelo Instituto de Métricas e Avaliação de Saúde (IHME, na sigla em inglês) da Universidade de Washington, o País deverá chegar a agosto com quase 90 mil mortos em decorrência da covid-19, caso o porcentual de cidadãos que se mantêm em isolamento não aumente. Independentemente dos números projetados, que variam a depender da instituição e da metodologia, é dever do Estado, em todas as esferas de governo, e da sociedade agir, cada um na medida de suas responsabilidades, para evitar que as projeções mais funestas se tornem realidade.
É chocante ver ruas País afora apinhadas de gente, como se um vírus potencialmente mortal não estivesse em franca disseminação. Municípios que decidiram flexibilizar as regras de isolamento observaram um salto no número de casos de covid-19. Não é hora de relaxar. Mínimos descuidos podem ser fatais. “Estou vendo governadores ameaçarem a população com lockdown (bloqueio total). Isso é um absurdo”, reclamou o presidente Bolsonaro. Não é, caso as medidas adotadas até agora pelos governos locais para preservar a saúde das pessoas e a capacidade de atendimento do sistema público de saúde se mostrem ineficazes.
O País já vive as agruras das crises sanitária e econômica sem precedentes na história recente. Incapaz de ajudar, por má vontade e incompetência, Bolsonaro ainda atrapalha ao adicionar ao quadro uma crise política e federativa. O presidente ameaçou processar os governadores e prefeitos que insistem em ser responsáveis e ignoram os decretos inconsequentes que brotam do Palácio do Planalto. A autonomia dos entes federativos para tomar as ações necessárias ao combate à pandemia foi reconhecida pelo STF.
O continente americano ultrapassou a Europa em número de casos confirmados de covid-19. Os EUA têm 1,4 milhão de infectados. O Brasil, quase 178 mil. Os dois países representam 85% dos casos registrados nas Américas. Tamanha concentração de casos não é coincidência. Tanto Donald Trump como Jair Bolsonaro, este praticamente um ventríloquo daquele, desde o primeiro momento desdenharam do potencial ofensivo do novo coronavírus e fazem de tudo para sobrepor seus interesses particulares ao interesse público. Mal ou bem, os EUA já passaram pela fase mais crítica da pandemia. Triste Brasil.
Cai ou vira pato manco?
Jair Bolsonaro parece estar chegando àquele ponto de não retorno da trajetória em que alguns presidentes ou caem e ou viram patos-mancos. Claro, há governantes — ainda bem — que não passam por isso. Mas o presidencialismo à brasileira vive hoje uma espécie de maldição depois de ter expelido do cargo, sob o pretexto da prática de “pedaladas fiscais”, uma presidente da República porque o establishment queria vê-la pelas costas. De lá para cá, mudou a altura do sarrafo no Planalto — e os que foram beneficiários do processo também correm o risco de queda.
Há dúvidas em torno do que fará o procurador geral da República, Augusto Aras, em relação às acusações de Sergio Moro contra Bolsonaro de interferência na Polícia Federal. O vazamento de trechos do vídeo da reunião ministerial em que o presidente fala da proteção aos filhos fez subir a temperatura de tal forma que Aras terá que encontrar uma boa desculpa para arquivar o inquérito. Mas, segundo observadores, pode sair pela tangente, talvez alegando não ter encontrado elementos concretos de crime comum, mas apenas de crimes de responsabilidade, uma questão do Congresso.
Se incluído no conjunto da obra de Bolsonaro, que contempla investigações por envolvimento na disseminação de fakenews e participação em manifestações antidemocráticas, esse caso é mais do que suficiente para deflagrar um julgamento político no Legislativo. Assim como a hipotética denúncia de Aras por crime comum, o processo por crime de responsabilidade teria que ser autorizado por dois terços da Câmara — só que, em vez de ter lugar no STF, o julgamento seria feito pelo Senado, como ocorreu com Fernando Collor e com Dilma Rousseff.
Dilma caiu porque não teve 172 votos na Câmara para barrar o impeachment, diferentemente de Michel Temer, que derrotou duas denúncias por corrução apresentadas pela então PGR, Raquel Dodge. É o que Bolsonaro quer repetir — única razão pela qual se dobrou ao Centrão e passou a distribuir cargos. Pode ser que sim, pode ser que não, dada a volubilidade do grupo nessas horas, quando costuma dar preferência ao poder futuro em relação ao passado. Vai depender da negociação com Hamilton Mourão.
Mas é fato que, a partir de agora, em meio ao drama da pandemia que mata milhares e arrasta o país para a recessão, o sistema político entrou definitivamente no “modo crise”. As acusações ao presidente, e cada passo das investigações, terão centralidade, indicando que Bolsonaro dedicará o resto de seus dias no governo a se defender e articular votos no Congresso — não para aprovar projetos, mas para escapar do impeachment.
Ninguém consegue governar assim. Michel Temer, por exemplo, não caiu mas virou pato-manco, incapaz de governar efetivamente, depois de gastar todas as energias políticas na sobrevivência. É cedo para saber se Bolsonaro cairá ou virará pato manco, mas dificilmente escapará dessas opções. É altamente improvável que, acuado como está, consiga marcar o item “nenhuma das alternativas anteriores” nessa prova, recompondo-se politicamente ou obtendo apoio militar a medidas autoritárias para se manter no poder.
Helena Chagas
Há dúvidas em torno do que fará o procurador geral da República, Augusto Aras, em relação às acusações de Sergio Moro contra Bolsonaro de interferência na Polícia Federal. O vazamento de trechos do vídeo da reunião ministerial em que o presidente fala da proteção aos filhos fez subir a temperatura de tal forma que Aras terá que encontrar uma boa desculpa para arquivar o inquérito. Mas, segundo observadores, pode sair pela tangente, talvez alegando não ter encontrado elementos concretos de crime comum, mas apenas de crimes de responsabilidade, uma questão do Congresso.
Se incluído no conjunto da obra de Bolsonaro, que contempla investigações por envolvimento na disseminação de fakenews e participação em manifestações antidemocráticas, esse caso é mais do que suficiente para deflagrar um julgamento político no Legislativo. Assim como a hipotética denúncia de Aras por crime comum, o processo por crime de responsabilidade teria que ser autorizado por dois terços da Câmara — só que, em vez de ter lugar no STF, o julgamento seria feito pelo Senado, como ocorreu com Fernando Collor e com Dilma Rousseff.
Dilma caiu porque não teve 172 votos na Câmara para barrar o impeachment, diferentemente de Michel Temer, que derrotou duas denúncias por corrução apresentadas pela então PGR, Raquel Dodge. É o que Bolsonaro quer repetir — única razão pela qual se dobrou ao Centrão e passou a distribuir cargos. Pode ser que sim, pode ser que não, dada a volubilidade do grupo nessas horas, quando costuma dar preferência ao poder futuro em relação ao passado. Vai depender da negociação com Hamilton Mourão.
Mas é fato que, a partir de agora, em meio ao drama da pandemia que mata milhares e arrasta o país para a recessão, o sistema político entrou definitivamente no “modo crise”. As acusações ao presidente, e cada passo das investigações, terão centralidade, indicando que Bolsonaro dedicará o resto de seus dias no governo a se defender e articular votos no Congresso — não para aprovar projetos, mas para escapar do impeachment.
Ninguém consegue governar assim. Michel Temer, por exemplo, não caiu mas virou pato-manco, incapaz de governar efetivamente, depois de gastar todas as energias políticas na sobrevivência. É cedo para saber se Bolsonaro cairá ou virará pato manco, mas dificilmente escapará dessas opções. É altamente improvável que, acuado como está, consiga marcar o item “nenhuma das alternativas anteriores” nessa prova, recompondo-se politicamente ou obtendo apoio militar a medidas autoritárias para se manter no poder.
Helena Chagas
Brasil em chamas
Meu conselho de investimento é o de não correr para um edifício em chamas. Neste momento, é melhor deixar o Brasil para especialistas, loucos, oportunistas de longo prazo e aqueles sem outras opçõesArmando Castelar, economista da FGV
O resgate do respeito
Na semana passada, os principais jornais brasileiros publicaram importante artigo pedindo a reconstrução da política externa do país. Assinaram o texto todos os ex-ministros de Relações Exteriores desde o governo Sarney, um notável diplomata e um ex-secretário de Assuntos Estratégicos da Presidência da República.
Com a cacife de quem conduziu a diplomacia nacional nos últimos 28 anos, o grupo critica implacavelmente a destruição de nossa autoridade além-fronteiras, levada a cabo pelo atual governo. E propõe que a atuação do país volte a se pautar pelos princípios que desde muito cedo vertebraram a conduta e a identidade nacional diante do mundo: autonomia frente às nações poderosas, universalismo, multilateralismo e defesa da solução pacífica de conflitos.
Assim como a Covid-19, mais dia, menos dia, este governo passará —e com ele o chanceler que tão bem o espelha na mediocridade e na fúria descerebrada contra as melhores tradições diplomáticas brasileiras. Mas as circunstâncias sob as quais o país terá de reconquistar o respeito alheio posto abaixo pelo obscurantismo serão provavelmente muito diversas daquelas que favoreceram nossa ascensão internacional nas últimas décadas.
As projeções mais razoáveis sobre o estado do mundo pós-pandemia apostam não em mudanças radicais, mas no acirramento de tendências já presentes antes da chegada da peste. Elas parecem apontar para a erosão do que os estudiosos denominaram a ordem internacional liberal --o conjunto de normas, regras e organizações supranacionais de natureza econômica e política, estabelecidas ao término da 2ª Guerra Mundial. As instituições de Bretton Woods e as que surgiram e se multiplicaram no âmbito das Nações Unidas definem sua arquitetura multilateral.
O definhamento do apoio dos Estados Unidos a tais instituições, que Trump não iniciou, mas acentuou —bem como sua preferência por ações unilaterais, além da encarniçada disputa com a China—, as enfraquecem e deslegitimam. Basta ver a campanha xenófoba do presidente americano contra a Organização Mundial da Saúde desde a eclosão da pandemia. Tais organismos decerto não haverão de perecer, mas talvez ofereçam espaço menor para países como o Brasil buscarem reconhecimento e protagonismo.
Nesse ambiente adverso, reconstruir a política externa brasileira demandará mais do que voltar aos princípios consagrados: será imperativo traduzi-los em novas formas de ação. Algo que nem passa pela cabeça do patético chanceler, mas desafia todos quantos aspirem a que o país resgate o respeito internacional perdido.
Maria Hermínia Tavares
Com a cacife de quem conduziu a diplomacia nacional nos últimos 28 anos, o grupo critica implacavelmente a destruição de nossa autoridade além-fronteiras, levada a cabo pelo atual governo. E propõe que a atuação do país volte a se pautar pelos princípios que desde muito cedo vertebraram a conduta e a identidade nacional diante do mundo: autonomia frente às nações poderosas, universalismo, multilateralismo e defesa da solução pacífica de conflitos.
Assim como a Covid-19, mais dia, menos dia, este governo passará —e com ele o chanceler que tão bem o espelha na mediocridade e na fúria descerebrada contra as melhores tradições diplomáticas brasileiras. Mas as circunstâncias sob as quais o país terá de reconquistar o respeito alheio posto abaixo pelo obscurantismo serão provavelmente muito diversas daquelas que favoreceram nossa ascensão internacional nas últimas décadas.
As projeções mais razoáveis sobre o estado do mundo pós-pandemia apostam não em mudanças radicais, mas no acirramento de tendências já presentes antes da chegada da peste. Elas parecem apontar para a erosão do que os estudiosos denominaram a ordem internacional liberal --o conjunto de normas, regras e organizações supranacionais de natureza econômica e política, estabelecidas ao término da 2ª Guerra Mundial. As instituições de Bretton Woods e as que surgiram e se multiplicaram no âmbito das Nações Unidas definem sua arquitetura multilateral.
O definhamento do apoio dos Estados Unidos a tais instituições, que Trump não iniciou, mas acentuou —bem como sua preferência por ações unilaterais, além da encarniçada disputa com a China—, as enfraquecem e deslegitimam. Basta ver a campanha xenófoba do presidente americano contra a Organização Mundial da Saúde desde a eclosão da pandemia. Tais organismos decerto não haverão de perecer, mas talvez ofereçam espaço menor para países como o Brasil buscarem reconhecimento e protagonismo.
Nesse ambiente adverso, reconstruir a política externa brasileira demandará mais do que voltar aos princípios consagrados: será imperativo traduzi-los em novas formas de ação. Algo que nem passa pela cabeça do patético chanceler, mas desafia todos quantos aspirem a que o país resgate o respeito internacional perdido.
Maria Hermínia Tavares
Bolsonaro fala uma verdade
As Forças Armadas estão sim com ele. Os militares o apoiam. Não em bloco uníssono. E não em todas as barbaridades. Mas na essência. Os militares do Planalto estão inebriados com o poder e com a revisão histórica do golpe de 1964 e da ditadura. Só ingênuos insistirão na tese de que os generais podem puxar o tapete vermelho de um capitão inculto, indisciplinado e autoritário ao extremo. Eles se usam mutuamente.
De autoridade os militares entendem. De alinhamento total, também. Detestam que os outros poderes não batam continência para eles. Isso ficou claro nos últimos sete dias. Enquanto o circo pegava fogo em Brasília, passávamos de 13 mil mortos pela covid-19. Estimativa atual é de um morto a cada dois minutos. É nosso o recorde mundial de vítimas entre profissionais da saúde. Triste. Não são soldados que tombam em guerra. Não são mortes inevitáveis. Não podem ser usados como bucha de canhão.
O clímax foi o artigo “Limites e responsabilidades”, assinado nesta quinta-feira pelo vice-presidente da República, general Hamilton Mourão, no jornal O Estado de SP. Mourão é culto e inteligente, ao contrário de seu chefe. Seu artigo começa com uma verdade incontestável: “Nenhum país do mundo vem causando tanto mal a si mesmo como o Brasil”. Segue com um consenso mundial: a esta altura, está claro que a pandemia de covid-19 é uma questão de saúde, social, econômica e política.
Mas em nenhum momento Mourão atribui corretamente a culpa pelas “raias da insensatez”, pelo “caos” e o “estrago da imagem do Brasil no exterior”. Mourão culpa a imprensa. O Judiciário. Os governadores e prefeitos. O Legislativo. As medidas desordenadas de isolamento social. “Enquanto os países mais importantes se organizam para enfrentar a pandemia em todas as frentes”, diz o vice-presidente, no Brasil estamos “entregues a estatísticas seletivas, discórdia, corrupção e oportunismo”. Por que será? Quem é o responsável?
Bolsonaro castra o Ministério da Saúde, faz lobby de remédios condenados por estudos internacionais, briga com governos locais, interfere na Polícia Federal para proteger filhos de investigações. Uma presepada atrás da outra. Ou alguém confia nessa novela de exames médicos de Artur, Rafael, 05 etc? Nem nos EUA de Trump usou-se pseudônimo. Qual brasileiro aprova um líder que, numa semana de recordes de vítimas e lutos, convoca churrasco, pelada, sai de jet-ski e vem falar de “ideologia de gênero”?
O apoio explícito das Forças Armadas é uma das poucas verdades que ouvimos de Bolsonaro. E a verdade dói. É mais um prego no caixão verde-amarelo.
De autoridade os militares entendem. De alinhamento total, também. Detestam que os outros poderes não batam continência para eles. Isso ficou claro nos últimos sete dias. Enquanto o circo pegava fogo em Brasília, passávamos de 13 mil mortos pela covid-19. Estimativa atual é de um morto a cada dois minutos. É nosso o recorde mundial de vítimas entre profissionais da saúde. Triste. Não são soldados que tombam em guerra. Não são mortes inevitáveis. Não podem ser usados como bucha de canhão.
Houve uma escalada do apoio militar. O general Villas Boas elogiou a performance destrambelhada de Regina Duarte, por sua “inteligência, humildade e segurança”. A marcha ao STF com empresários foi acompanhada pelo general Braga Netto, o sorridente no comando das crises. O general Augusto Heleno afirmou que divulgar na íntegra o vídeo da reunião ministerial é “um ato antipatriótico”.
O clímax foi o artigo “Limites e responsabilidades”, assinado nesta quinta-feira pelo vice-presidente da República, general Hamilton Mourão, no jornal O Estado de SP. Mourão é culto e inteligente, ao contrário de seu chefe. Seu artigo começa com uma verdade incontestável: “Nenhum país do mundo vem causando tanto mal a si mesmo como o Brasil”. Segue com um consenso mundial: a esta altura, está claro que a pandemia de covid-19 é uma questão de saúde, social, econômica e política.
Mas em nenhum momento Mourão atribui corretamente a culpa pelas “raias da insensatez”, pelo “caos” e o “estrago da imagem do Brasil no exterior”. Mourão culpa a imprensa. O Judiciário. Os governadores e prefeitos. O Legislativo. As medidas desordenadas de isolamento social. “Enquanto os países mais importantes se organizam para enfrentar a pandemia em todas as frentes”, diz o vice-presidente, no Brasil estamos “entregues a estatísticas seletivas, discórdia, corrupção e oportunismo”. Por que será? Quem é o responsável?
Não, general Mourão, o Brasil não assiste à “usurpação das prerrogativas do Poder Executivo”. O que se ensaia, nas mais altas autoridades, é a usurpação dos valores democráticos e humanos. Faltam limites e responsabilidades a quem jurou obedecer à Constituição. O senhor se calou quando alguém chamou os ministros do Supremo de gângsteres ou coisa pior?
Bolsonaro castra o Ministério da Saúde, faz lobby de remédios condenados por estudos internacionais, briga com governos locais, interfere na Polícia Federal para proteger filhos de investigações. Uma presepada atrás da outra. Ou alguém confia nessa novela de exames médicos de Artur, Rafael, 05 etc? Nem nos EUA de Trump usou-se pseudônimo. Qual brasileiro aprova um líder que, numa semana de recordes de vítimas e lutos, convoca churrasco, pelada, sai de jet-ski e vem falar de “ideologia de gênero”?
Soubemos pela imprensa (sempre ela!) que 73.242 militares receberam indevidamente R$ 600 de auxílio emergencial, num total gasto pelo governo de quase R$ 44 milhões. Muito estranho. Terão de devolver. Mas, por que receberam?
O apoio explícito das Forças Armadas é uma das poucas verdades que ouvimos de Bolsonaro. E a verdade dói. É mais um prego no caixão verde-amarelo.
quinta-feira, 14 de maio de 2020
Um problema que o mundo não tem: Bolsonaro
Essa pessoa estaria “acting out”. A expressão “act out” aparece assim explicada em dicionários especializados, em tradução livre do inglês: comportar-se mal porque você está infeliz ou desconfortável, frequentemente por motivos dos quais você não está consciente.
Em termos psicanalíticos, uma definição de “acting out” é a seguinte: uma mensagem cifrada que os sujeitos endereçam para o Outro, embora o sujeito em si mesmo não é nem consciente do conteúdo desta mensagem, nem mesmo ciente de que suas ações expressam uma mensagem.
Claro, o leitor já imaginou onde queremos chegar: o presidente Bolsonaro tem tudo planejado, age de caso pensado, ou está “acting out”?
É possível encontrar objetivos nas coisas que faz. O principal é manter o poder. O problema é que o poder que encontrou na chefia do governo e do Estado é menor e mais limitado do que ele imaginava. E certamente ele não se conforma com isso.

Reparem a quantidade de vezes que diz: “eu mando”, “eu sou o presidente”. Outro dia, referiu-se a ele como sendo “o chefe supremo”. Lembram-se? Foi quando o presidente se queixou que a Polícia Federal parecia mais preocupada com o assassinato de Marielle do que com a investigação da facada.
Ora, não há chefe supremo numa democracia representativa.
Bolsonaro também não se conforma com o fato de que não é o único ator em cena. Por isso detona ministros que se destacam, abre guerra contra governadores e prefeitos que ocupam espaços e ataca a imprensa que não o segue. Pode parecer estranho, mas o presidente dá sinais de que não se conforma também com o peso e a extensão do noticiário sobre o coronavírus.
Fala-se mais da epidemia do que dele – e fala-se, na imprensa séria, de maneira que não agrada ao presidente. Ele desclassifica a doença, não se importa com os mortos e não se conforma que outros líderes políticos ganhem espaço falando e fazendo o contrário do que ele, Bolsonaro, quer.
E aqui já não estamos no campo do racional ou do consciente. Quando, no dia em que o número de mortos passava de 10 mil, o presidente disse que ia fazer um churrasquinho para 30 pessoas – claramente estava “acting out”.
Não é razoável supor que ele tenha pensado algo assim: bom, o que eu posso dizer ou fazer para derrubar essa notícia? Ou, o que eu posso fazer para provocar e suplantar isso?
É verdade que o presidente desistiu do churrasquinho. Mas não pediu desculpas, nem admitiu que se tratava de um comportamento impróprio. Disse que o churrasco era fake news da imprensa e simplesmente foi passear de moto aquática.
Também não se desculpou pelo “e daí?” – a expressão de desdém pelos mortos que aparece em toda reportagem sobre o Brasil na imprensa internacional. O “e daí?” saiu assim no ato, não planejado. Quando alertado que estava gravado, fez outra narrativa, mas, de novo, sem admitir a impropriedade da primeira.
Temos, portanto, uma sequência de mau comportamento de um presidente inconformado com os limites do poder, assustado com os inquéritos que o envolvem e sua família e seus amigos, com ciúmes dos outros atores políticos e enraivecido com a imprensa séria e independente.
Esse tipo de comportamento prejudica os outros mas também prejudica a pessoa que o pratica. Em certos momentos, a gente pensa: mas o que quer o presidente, provocar sua queda?
É óbvio que ninguém está preparando um golpe contra ele. Mas a frequência com que o presidente fala disso é sinal de que, sim, ele acha que um inquérito no STF é uma tentativa de derrubá-lo.
O que o leva ao “acting out”. O mundo todo tem o mesmo problema: uma pandemia e uma recessão. O Brasil tem isso e mais um problema que o mundo não tem: Bolsonaro.
Falam as cores
O Brasil já teve cinco bandeiras. Datam de 1645, 1811, 1821, 1822 e 1889. Duas como nação soberana. A do Império e a da República. Ambas verde-amarelas. A da República, hasteada pela primeira vez em 19 de novembro. Símbolo da pátria, é data nacional. Mas hino e bandeira, muita gente já tentou mudá-los. Patriotas que neles não veem, expressivo, o que o Brasil reclama. Também na França, querem mudar o hino. A Marselhesa, vejam só.
Um general, deputado federal, defendeu em vão a mudança. Na era da programação visual, com tanto bom desenhista, não faltam sugestões. Respeito à tradição, mantêm-se as cores originais. Com a televisão, o verde e o amarelo conseguiram se impor. Já se cogitou de um toque novo. Um tom mais claro ou mais escuro, questão de matiz. Mas que se mude. Ainda agora há quem deseje modificar o hino. Acabar por exemplo com o berço esplêndido. Pega mal, esse emblema da preguiça.
Cá entre nós, a letra é bem ruinzinha. Um país de altos poetas e essa versalhada na boca das crianças! Já as cores, o caso é aqui mais discutível. Como é que diz o latinório? De gustibus et coloribus non est disputandum. Não se discutem porque cada qual tem a sua cor favorita. Salvo o amarelo, que ninguém quer. Basta ver as bandeiras de todo o mundo. Quem escolheu foi o Debret, aquele francês que veio em 1808 com d. João. No setenário do arco-íris, o amigo da onça foi direto ao amarelo. Cor do ouro (epa!). No seu tempo, século XIX, na Europa o amarelo era falta de sorte. Sabe aquela palavrinha? Quatro letras, começa com a e acaba com r. "Unlucky colour", dizem os anglo-saxões. "Cor do desespero", diz o povo. Falta de graça, diz o gosto geral. No trânsito, manda esperar. No Oriente, anuncia o declínio. No universo infantil, é a cor da bruxa.
No setenário do arco-íris, o amigo da onça foi direto ao amarelo. Cor do ouro (epa!). No seu tempo, século XIX, na Europa o amarelo era falta de sorte. Sabe aquela palavrinha? Quatro letras, começa com "a" e acaba com "r". "Unlucky
colour", dizem os anglo-saxões. "Cor do desespero", diz o povo. Falta de graça, diz o gosto geral. No trânsito, manda esperar. No Oriente, anuncia o declínio. No universo infantil, é a cor da bruxa.
colour", dizem os anglo-saxões. "Cor do desespero", diz o povo. Falta de graça, diz o gosto geral. No trânsito, manda esperar. No Oriente, anuncia o declínio. No universo infantil, é a cor da bruxa.
Palavra que não estou inventando. Tem muita coisa mais, que nem ouso escrever. O subnutrido do Nordeste, pálido, é o amarelinho. A pior epidemia por estas bandas qual foi? A febre amarela. Já o verde é esperança, não é? A última que morre. Agora é ecológico. Mas também quer dizer abalo à vista. Há países em que o verde indica o abismo. Ou a força do destino. Essa história de símbolo e cor é fogo. Verde de raiva, sorriso amarelo, o tiro pode sair pela culatra. Mais uma vez.
Otto Lara Resende (Folha SP, 15/08/1992)
Como perder a guerra

Quem erra na estratégia, perde a guerra. O conceito militar explica muito bem as razões pelas quais o Brasil está sendo derrotado pelo coronavírus a ponto de o epicentro da pandemia se deslocar para o nosso país. O método adotado pelo presidente foi o de povoar as ruas, com a ideia de que os mais fortes se adaptariam à Covid-19 e seguiriam todos em frente, imunes e sem maiores problemas. Esqueceu de pensar no que aconteceria com os mais fracos, leia-se os mais pobres, os idosos e as pessoas com comorbidades.
E faltou combinar com o vírus. Os fortes também morrem.
O darwinismo social de Jair Bolsonaro partiu da premissa de quanto mais as pessoas circulassem, maior seria o contingente com anticorpos para o coronavírus. O objetivo estratégico seria salvar a economia por meio de uma concepção negacionista. Na recusa em aceitar a terrível realidade dos fatos e escapar da verdade, revoltou-se com a ação dos governadores e com a visão do Ministério da Saúde, então sob o comando do ex- ministro Luiz Henrique Mandetta.
O objetivo deveria ser salvar vidas, ganhar a guerra sanitária para vencer também a da crise econômica.
Mandetta adotou a linha recomendada pela Organização Mundial da Saúde. Tinha como eixos o distanciamento social para achatar a curva da pandemia e o fortalecimento do Sistema Único de Saúde. Incentivou a criação de hospitais de campanha e a importação de equipamentos médicos estratégicos, como respiradores.
A política adotada por Mandetta retardou o pico do surto e criou um sentimento de comunhão de destino entre os brasileiros. Mas para ser plenamente vitoriosa necessitava ser assumida por todo o governo, a começar pelo chefe.
O presidente fez de Nelson Teich uma ilha cercada de militares por todos os lados. Criminosamente, a expertise dos técnicos do ministério foi substituída por oficiais jejunos em questões de saúde. O poder de fato, por exemplo, ficou nas mãos do general de divisão Eduardo Bazuello, secretário executivo do ministério.
O manietado Teich não tem forças para enfrentar de peito aberto a estratégia genocida de priorizar apenas a economia. Surpreendido cotidianamente pelas artimanhas do presidente – a mais nova foi decretar como serviços essenciais as academias de ginástica, salões de beleza e barbearias – o ministro viu-se sem chão, sem saber o que fazer. No caso da aquisição de respiradores mecânicos no exterior, simplesmente jogou a toalha. A oferta de ajuda da OMS ficou sem resposta.
Não o culpem por isso. Essa missão exigiria uma articulação governamental, na qual o Ministério do Exterior e o presidente deveriam se empenhar. Mas como fazê-lo se o clã Bolsonaro e o chanceler acreditam no avesso, a ponto de estigmatizarem o principal fornecedor mundial de equipamentos médicos, a China, com suas querelas ideológicas?
O desmanche do Ministério da Saúde gerou um sério problema de gestão. Hospitais de campanha como os de Águas Lindas e de Boa Vista estão prontos há três semanas, mas inativos. O governo federal não consegue passá-los para os estados. De sua parte, o general Braga Neto não disse a que veio em matéria de coordenar ações que levem a atender às necessidades da guerra sanitária. O parque produtivo nacional não foi reorientado para substituir as importações de bens estratégicos para o combate da pandemia.
Nelson Teich não é o principal responsável pelo caos. Quem o produziu foi Bolsonaro.
Reconheça-se, o ministro Teich aos poucos se aproximou da política adotada por seu antecessor e não avalizou a estratégia do presidente. Ao contrário, ao visitar hospitais constatou o colapso do sistema de saúde pública e passou a ser mais assertivo quanto ao isolamento social.
Ao demonstrar, no dia das mães, empatia com os familiares de quem perdeu a vida em decorrência da Covid-19, entrou na linha de tiro do gabinete do ódio. Isso é parte da estratégia do presidente. Assim como ele não desistiu da indicação do delegado Alexandre Ramagem para diretor da Polícia Federal, tampouco desistiu de nomear Osmar Terra para ministro da Saúde.
O que já estava ruim pode piorar muito mais. Bolsonaro virou um “case” de como agir para perder a guerra.
Para onde, a passos acelerados, marcha o nosso país?
Enquanto o ministro Celso de Mello decide se autoriza ou não a liberação, para divulgação imediata e sem cortes, do patético vídeo denunciado pelo ex-ministro Sergio Moro, a democracia, nossa única opção, pela qual os verdadeiros democratas lutaram no passado, até a conquista da Constituição de 1988, apodrece aos poucos e ainda acelera o batimento cardíaco dos que ainda acreditam piamente nela.

O mundo está mesmo revirado, leitor, mas, dentro dele, há um país “sui generis”, que está de cabeça para baixo, cuja responsabilidade maior cabe a um único brasileiro – um ex-tenente do Exército, que passou pela Câmara Federal durante 28 anos, e que, segundo o ex-presidente Geisel, se tratava de “um mau soldado”.
Um presidente despreparado, que não tem condições de liderar o país e que não percebe que a única saída para nossos males está na união entre ele, governadores e prefeitos. Todos eles sujeitos, em primeiro lugar, aos ditames da ciência, que aponta a direção correta, contestada, constantemente, de maneira irresponsável, por ele próprio.
Bolsonaro, enfim, não percebe que só uma liderança efetiva e competente, à frente da Presidência da República, seria capaz de aglutinar não o “centrão”, aquele da “velha política”, que, agora, genuflexo, procura, mas as maiores e melhores cabeças do nosso país.
Embora seja necessária, a divulgação do vídeo completo, que mostra o que aconteceu na inimaginável e indescritível reunião do dia 22 de abril, ocorrida no Palácio do Planalto, dá-nos medo.
Por fim, de repente, surge, no cenário nacional, como novíssimo defensor de Bolsonaro, a “triste figura” do ex-deputado federal Roberto Jefferson, um dos ex-condenados no mensalão, que, de espingarda na mão, sugere ao novo aliado a demissão dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).
Conseguiu ombrear-se com o ministro da Educação, Abraham Weintraub, que, na indescritível e supracitada reunião, sugeriu a prisão de muita gente, inclusive dos ministros do STF.
Aguardemos, com tranquilidade, se for possível, meu caro leitor, os acontecimentos finais da tragédia que um presidente da República, legitimamente eleito pelo voto popular, vem construindo aos poucos. Os familiares de milhares de mortos não se esquecerão dele.
A história o julgará com o merecido rigor.
Ordem bananeira
Os de cima dizem: Rumo à glória
Os de baixo dizem: Rumo à covaBertolt Brecht, "Cartilha alemã da guerra 1937"
Bolsonaro revela sem cortes a face golpista do seu governo
É um governo golpista. Que poderá cair por falta de condições de aplicar o golpe. Mas que se tiver condições para tal, se de fato se sentir ameaçado de cair, tentará dar o golpe.
Não é dedução. Não depende de opinião de quem gosta e de quem não gosta do governo. É fato. Está gravado no vídeo exibido, ontem, na Polícia Federal. Está na boca do presidente.
Golpe não se dá mais com tanques rolando pelas ruas, tropas marchando contra cidades, Congresso fechado, Supremo Tribunal Federal fechado, prisões de opositores do novo regime.
Baionetas caladas calam um Congresso que se deixa emascular pensando evitar o pior. Um twitter do Comandante do Exército foi suficiente para mudar o rumo de uma decisão do Supremo.

O presidente da República e seu governo, pois, são, um perigo à democracia. Só isso bastaria para serem removidos. Ou se continuará esperando que o presidente faça o que alardeia que faria?
Como Donald Trump, Jair Bolsonaro é um aventureiro e um jogador de cartas que aposta alto. Como Trump, é também um presidente acidental. Mas ao contrário de Trump, tem vocação de ditador.
Trump jamais se arriscaria a dizer que só deixará a Casa Branca daqui a quatro anos. Porque sabe que se não for reeleito em novembro próximo, irá para casa. Voltará às cartas e aos seus negócios.
Bolsonaro disse que só deixará o poder em janeiro de 2027. Como se não admitisse a possibilidade da derrota em 2022. Como se ele e a Constituição fossem uma coisa só. Por sinal, já disse que são.
Em 2018, afirmou que só reconheceria os resultados das urnas se vencesse. Há poucos meses, disse ter provas de que a eleição foi fraudada para que não se elegesse direto no primeiro turno.
Cadê as provas? Não apresentou. Era blefe. Mais uma mentira de um presidente censurado no Twitter e no Instagram por mentir compulsivamente. O único presidente, até hoje, censurado.
Não foi o escândalo da invasão do edifício Watergate, onde funcionava a sede do Partido Democrata, em Washington, que fez o republicano Richard Nixon renunciar à presidência dos Estados Unidos.
Nixon renunciou porque mentiu. Um presidente que mente ao país comete pecado mortal nos Estados Unidos. Bill Clinton mentiu quando negou ter feito sexo com uma estagiária da Casa Branca.
A Câmara dos Deputados aprovou a abertura de processo contra Clinton. Faltou um único voto no Senado para cassar seu mandato. Se mentira, aqui, tirasse presidente, Bolsonaro estaria fora.
Manhã desnecessária
Comemorou-se há pouco os 75 anos do fim da Segunda Guerra Mundial e alguns meses antes o armistício que acabou com a Primeira. Representantes dos aliados, vencedores, e dos alemães, derrotados e humilhados, reuniram-se num vagão ferroviário que tinha servido a Napoleão III, perto da cidade de La Capelle, França, para tratar dos termos da rendição. Coube ao marechal Ferdinand Foch, que chefiava a delegação francesa, estabelecer as reparações que seriam exigidas dos alemães. A reunião durou toda a noite e às 5 da madrugada o documento do armistício estava assinado.
O movimento nas áreas de combate costumava começar à luz do dia, havia tempo de sobra para fazer chegar aos oficiais nas frentes a notícia de que a guerra estava oficialmente acabada. O marechal Foch não concordou. Por um capricho sem nenhum sentido prático, apenas pelo prazer da aliteração ou por um apego impensado à exatidão militar, Foch insistiu que o armistício só passaria a valer das onze horas do dia onze do mês onze do ano. Portanto das 5 às onze da manhã do dia 11 de novembro de 1918 a Primeira Guerra Mundial continuou embora não precisasse continuar. Calcula-se que mais de 7 mil soldados morreram entre as 5 e as 11 daquela manhã, e mais de 10 mil ficaram feridos, com gravidade variável.
A Avenue Foch é uma daquelas grandes avenidas que se encontram no “rond-point” do Arco do Triunfo, em Paris. Como são muitas avenidas e elas vêm de todos os lados, você sempre se espanta com a capacidade dos franceses de se cruzarem em torno do Arco sem se tocarem ou sequer se xingarem. Deve haver uma regra que dita quem tem a preferencial no maranhado, mas ela não é evidente para quem não é francês. De qualquer maneira, a Foch é a mais elegante das avenidas, uma bela homenagem ao marechal. Pensar nos que ele matou naquela manhã desnecessária é um pouco como ficar tentando decifrar o trânsito em volta do “rond-point” e perder a paisagem, a beleza do Arco, o louvor a um herói da pátria.
Brasil precisa de novos generais, os três que depuseram estão com prazo de validade vencido
Os três ministros-generais que depuseram nesta terça-feira certamente não assistiram a esse clássico do cinema italiano, de Dino Risi, que o cinesta Martin Brest refilmou em Hollywood e garantiu o Oscar para Al Pacino. Se tivessem assistido, não fariam papel feio ao prestar depoimento na Polícia Federal.
No Planalto, são quatro mosqueteiros, que formam a ala militar – um da reserva (Augusto Heleno), que funciona como líder, e os outros três ainda na ativa (Braga Netto, Eduardo Ramos e Rêgo Barros).
O porta-voz está licenciado com aquela “gripezinha” do Bolsonaro e os outros três tiveram de depor no inquérito que o procurador Augusto Aras move contra o ex-ministro Sérgio Moro por ordem do presidente Bolsonaro, que o acusa de denunciação caluniosa e mais seis crimes.
Ao saber que os três generais iam depor, como testemunhas de defesa de Moro, fiquei pensando nos meus exemplos de militares. Os mais próximos eram o general Antonio Carlos Zamith, meu padrinho de batismo, e seu irmão, general Alberto Zamith, também grande amigo de meu pai. Mais distantes, o major gaúcho Plácido de Castro, o maior herói brasileiro, conquistador do Acre, e o marechal Teixeira Lott, o legalista democrático.
Para mim, quatro exemplos marcantes de militares. E fiquei imaginando como se comportariam se tivessem de prestar depoimento nesse imbróglio bolsonariano.
A meu ver, para qualquer cidadão, é feio dizer coisas assim, interpretando e amoldando os fatos: “O presidente não estava falando sobre relatórios da Polícia Federal, mas sobre relatórios da Abin”; “Em momento algum notei isso”; Não me recordo de nada sobre isso”; “O presidente falava genericamente…”.
O mais incrível é que nenhum dos três mosqueteiros lembrou que naquela reunião Augusto Heleno defendeu Moro e disse que Bolsonaro não tinha direito a relatórios sobre inquéritos da PF. Aliás, nem o próprio Heleno recordou, disse que tinha de rever o vídeo para lembrar o que havia dito, vejam a que ponto chegamos.
Tentei imaginar nessa situação qualquer um dos quatro militares que citei como exemplos. E tenho certeza de que os irmãos Zamith, Plácido de Castro e o general Lott jamais se comportariam assim, saindo pela tangente, como dizem os professores de Geometria.
Em tradução simultânea, perdi a confiança nessa ala militar do Planalto. Mas continuo tendo certeza de que no Brasil há militares que não são assim amoldáveis. Certamente, esses três que depuseram estão com prazo de validade vencido. Deve ser isso.
quarta-feira, 13 de maio de 2020
A agenda da cidadania
Já tratei da renda básica nesse espaço diversas vezes ao longo dos últimos dois meses. Aos trancos e barrancos, o Brasil conseguiu formar um consenso em torno da renda básica emergencial, programa que ainda haverá de ganhar as páginas dos jornais internacionais, hoje chocadas com a boçalidade presidencial. Tornar esse benefício permanente significa dar alguma chance a dezenas de milhões de brasileiros que hoje estão visíveis, posto que diretamente atingidos pela calamidade. Tornar permanente esse benefício representa uma chance ao Brasil de se mostrar novamente pioneiro pragmático de ideias antigas.
Há, nesse momento, muitos estudiosos debruçados sobre o tema da renda básica permanente, tentando desenhar propostas viáveis. São muitos os obstáculos. Eles vão desde a falsa ideia de que pessoas mais pobres, se receberem um benefício como a renda básica, deixarão de trabalhar – tese amplamente derrubada pelos vários estudos empíricos existentes – até as preocupações com o financiamento desse programa. A renda básica permanente, em tese, é mais onerosa do que o Bolsa Família. Contudo, se unificarmos todos os programas sociais do Brasil para financiá-la, há especialistas mostrando que parte significativa do custo seria coberta. Além disso, é sempre bom lembrar que aqueles que menos recebem são aqueles que mais consomem. Afinal, não é dada aos mais pobres a condição de poupar. Sendo assim, a renda básica fomenta consumo e consumo fomenta arrecadação, o que significa que o programa é, por definição, parcialmente autofinanciável.
Mas há outra questão de justiça social que caminha lado a lado com a renda básica: a justiça tributária. O País não pode mais ter uma estrutura que depende de tributação sobre o consumo e produção por serem esses impostos regressivos e empecilhos ao dinamismo e à produtividade de nossas empresas. É hora, sim, de começar a pensar na inversão da pirâmide tributária brasileira, desonerando o consumo e a produção, e onerando a renda e o patrimônio. Há quem diga que onerar patrimônio é contraproducente, pois levará à saída de recursos do País. Trata-se de um equívoco. Patrimônio não é apenas dinheiro no banco, mas imóveis e outros recursos que não são facilmente removíveis. Ninguém vai pôr um edifício debaixo do braço e sair com ele pelo mundo. Ainda que pudesse fazê-lo, para onde o levaria? Para a Europa? Para os Estados Unidos? Nesses países existe tributação de patrimônio e de renda. E neles se discute, hoje, a elevação desses tributos. Para quê? Para que se possa ter uma agenda de cidadania para enfrentar a crise humanitária.
O Brasil não é diferente, não há qualquer particularidade que o impeça de pensar essa agenda. Ao contrário, no Brasil há uma avenida de oportunidade para reduzir as desigualdades profundas e diversas. O Brasil só será diferente se resolver desperdiçar o momento valioso para uma frutífera e esperançosa discussão. A discussão sobre a agenda da cidadania é a única que realmente importa.
Já é outro dia
O segundo vendaval que atravessou a semana transportou o País, machucado por doença e mortes, a outra situação indefinida. Como ficamos depois do depoimento dos três ministros do governo Jair Bolsonaro, em cargos civis e políticos na Presidência, sobre as denúncias do então ministro da Justiça, Sérgio Moro. Já terão tido o seu efeito e será preciso superar a fusão que se tentou fazer de seu desgosto por esta convocação com a adesão das Forças Armadas aos propósitos pessoais do presidente da República.
Pularam o Rubicão e o mundo não acabou, como previam. Os seus desdobramentos, porém, ainda estão embaralhados.
Inspirados por um incendiário contumaz que habita o cerrado, fizeram tempestade em copo d’água. Exagero diante de um termo do jargão convocatório da Justiça, revelando insegurança e o infortúnio de estarem, como únicos avalistas, em um governo de que não se sabe, nem eles, absolutamente nada.
Entregaram o vídeo, que foi visto, deram seu testemunho e a investigação segue. Como ela, também segue procurando seu eixo o movimento dos militares diante de proposta de participação política mais efetiva e adesão incondicional ao presidente.
Baixou a temperatura na área militar, mas ainda há brasas acesas. O presidente Jair Bolsonaro mistura propositalmente os problemas para obter as soluções também misturadas, uma pela outra.
O governo não se curou da aposta no aprofundamento da divisão entre a reserva, os comandos e as tropas.
A intervenção militar que paira como ameaça não encontra ressonância, por enquanto. Os comandos não veem condição de participar de outros projetos que não sejam o combate à pandemia, interna e externamente, e sua sobrevivência. Mas o governo é autossuficiente e o código deste problema já se apagou.
As prioridades das tropas são as mesmas do conjunto do planeta, preservar a vida. É conhecida a posição de Bolsonaro sobre a covid-19, desdenha e desvia o assunto, e mantém sob pressão o comandante Edson Leal Pujol, do Exército.
O ambiente dos quartéis é propício ao contágio e já há mortes. É como se houvesse um confinamento de milhares de pessoas que se alojam, almoçam, dormem, viajam e trabalham juntas. O presidente pretende que sejam destemidos como seus ministros que considera exemplares, a quem dá fôlego e que o fazem rir. Gostaria, certamente, que todos seguissem Weintraub e Araújo. Não é por acaso que se conectaram os dramas da entrega do vídeo e dos depoimentos dos ministros.
O que agride, nesta estirpe mais chegada a Bolsonaro, cuja performance se espelha no mestre de todo o grupo, não é uma questão ideológica ou política. É a ausência de decência. Não se imaginam os militares seguindo uma liderança com este comportamento.
Morrerão por um governo alvo de investigação, imerso em isolamento político, cultural, social, embalado no discurso do achincalhe?
O mais provável, superada a valentia que antecedeu a decisão de depor ao Supremo, é que os ministros passem a viver mais a realidade.
E esta é o aumento das mortes pela covid-19, inclusive nos quartéis, e o presidente Jair Bolsonaro na mão do Centrão.
Constrangimento dos generais
Quanto mais os militares defenderem o governo neste momento, mais eles se misturarão a ele. Isso é do interesse de Jair Bolsonaro, a quem sempre foi benéfico esconder-se atrás dos militares. Mas e as Forças Armadas? O que ganharão negando diariamente, na prática, os valores que dizem defender?Miriam Leitão
Mascaradas
Fosse esta crônica publicada no último final de ano, muitos leitores iriam pensar que eu estaria antecipando o clima da festa da vida: o carnaval brasileiro. Esse rito afim das fantasias, nas quais as máscaras davam licença para todo tipo de comportamento impróprio. Já se disse que se mascarar é a coisa mais próxima da invisibilidade e do anonimato.
Uma experiência, aliás, difícil de ser vivida neste país onde ser famoso, conhecido ou autoridade (obviamente uma máscara) faz com que se tenha licença para ignorar regras. Se eu não sabia com quem falava, agora — com a obrigatoriedade de usar a máscara contra o vírus — existe um anonimato contrário ao nosso estilo de vida. Um estilo que, conforme adiantei em minha obra e nesta coluna, faz com que o abraço e o cheiro — o contato corporal — sejam uma prova de reconhecimento, carinho, afeto e consideração.
A pandemia nos apresenta e atropela com a presença da passagem, do episódico e da transitoriedade. Com um horrível detalhe: o vírus, logo a doença, não tem propósito ou intenção. Ele produz tanto a imensa dor quanto uma prova desagradável de que somos permanentemente rondados pelo infortúnio e pelo aleatório. Apesar dos anúncios de uma superinteligência artificial, nossa capacidade de previsão, mesmo as mais técnicas, está sempre sujeita ao imprevisto e nada do que traz plenitude emocional — amor, felicidade, dinheiro, poder, fama, beleza, inteligência e energia — é permanente. Somos todos, conforme ensinou Freud pelos idos de 1915, sensíveis à severa ausência do permanente e do eterno.
Uma experiência, aliás, difícil de ser vivida neste país onde ser famoso, conhecido ou autoridade (obviamente uma máscara) faz com que se tenha licença para ignorar regras. Se eu não sabia com quem falava, agora — com a obrigatoriedade de usar a máscara contra o vírus — existe um anonimato contrário ao nosso estilo de vida. Um estilo que, conforme adiantei em minha obra e nesta coluna, faz com que o abraço e o cheiro — o contato corporal — sejam uma prova de reconhecimento, carinho, afeto e consideração.
Agora, ninguém deve mesmo saber com quem está falando porque nossas “caras” (em que só mamãe botaria a mão) estão encobertas e escondidas. Além disso, a semi-invisibilidade social cria uma semelhança oculta entre o vírus e um dos seus remédios mais eficazes.
Estamos todos vivendo num mundo um tanto incômodo e obrigatoriamente anônimo com suas drásticas e dramáticas consequências. A mais pungente delas talvez seja a de não poder se despedir dos nossos entes queridos quando eles confirmam a sua transitoriedade e seguem para o túmulo; sobretudo a vala comum, numa brutal e imerecida equanimidade.
É triste demais não estar com um ente amado na sua hora final (que é também um pedaço da nossa); esse que vimos nascer ou que nos trouxe ao mundo demandando lágrimas de felicidade ou de dor, pois tanto as entradas quanto as saídas são inevitavelmente marcadas, tal como a primeira e a última vez.
A pandemia nos apresenta e atropela com a presença da passagem, do episódico e da transitoriedade. Com um horrível detalhe: o vírus, logo a doença, não tem propósito ou intenção. Ele produz tanto a imensa dor quanto uma prova desagradável de que somos permanentemente rondados pelo infortúnio e pelo aleatório. Apesar dos anúncios de uma superinteligência artificial, nossa capacidade de previsão, mesmo as mais técnicas, está sempre sujeita ao imprevisto e nada do que traz plenitude emocional — amor, felicidade, dinheiro, poder, fama, beleza, inteligência e energia — é permanente. Somos todos, conforme ensinou Freud pelos idos de 1915, sensíveis à severa ausência do permanente e do eterno.
Perdemos a nossa inocência e ficamos cínicos e velhos. Nossos entes amados morrem vitimados por um vírus não previsto ou num acidente. De um lado, é uma irreparável perda mas, como remarca Freud, todo luto engendra uma oportunidade de descobrir novos caminhos e outros objetos e sujeitos preciosos. Graças à transitoriedade, a vida e a saúde acabam sendo maiores do que a doença e a morte.
Talvez o nosso dever, como diz outro mestre —Thomas Mann — , seja o de compreender que, sem a passagem e a transitoriedade (essa relativização da eternidade), jamais seríamos humanos. Mais: quando todas as vezes que desejamos superar o humano criando uma fórmula ou um sistema definitivo, abraçamos o vírus da intolerância, do orgulho, da morte e, sobretudo, da injustiça, porque negamos aquilo que só nós, humanos, possuímos: a consciência dolorosa e benfazeja de que, se a beleza passa; o mal, a burrice, a intolerância e a doença também se vão no inevitável desenrolar do tempo — o senhor da vida.
A “mascarada” defensiva não é festiva. É um sinal de perigo, guerra, morte e contágio. Uma espécie de respeito desagradável ao poder inexorável da morte, que é o marco definitivo da igualdade neste mundo. E hoje símbolo da doença mortal que — esperamos — seja como a dor e o prazer, episódica. Como todos nós, comuns ou famosos, fracos ou fortes, com ou sem máscaras, diante da pandemia, que obriga a usá-las; resta buscar a tarefa de vestir e, tanto quanto possível, diminuir a crueza dessa imensa desigualdade constitutiva do Brasil.
A “mascarada” defensiva não é festiva. É um sinal de perigo, guerra, morte e contágio. Uma espécie de respeito desagradável ao poder inexorável da morte, que é o marco definitivo da igualdade neste mundo. E hoje símbolo da doença mortal que — esperamos — seja como a dor e o prazer, episódica. Como todos nós, comuns ou famosos, fracos ou fortes, com ou sem máscaras, diante da pandemia, que obriga a usá-las; resta buscar a tarefa de vestir e, tanto quanto possível, diminuir a crueza dessa imensa desigualdade constitutiva do Brasil.
O que fazer quando morrem tantos ao mesmo tempo? Quando perdemos gigantes da literatura, da música, do jornalismo e da dramaturgia ao lado de pessoas comuns que, no entanto, viveram suas epopeias e sofreram o humano desequilíbrio de felicidade e infortúnio. É dolorosa essa experiência de viver a morte que deveria ser exceção virar uma pavorosa rotina. Quando os mortos ultrapassam a capacidade dos cemitérios, sabemos que a pandemia é, num plano profundo, uma mascarada fúnebre.
Confiante no dispositivo
Muita gente já acreditou nisso no passado. Em 1964, outro presidente, João Goulart, foi levado por uma claque palaciana e sindical a tomar atitudes contra sua natureza de homem tíbio e inseguro, como a de propor reformas "na lei ou na marra", permitir a instabilidade política e insuflar a intranqüilidade nos quartéis. E tudo porque o convenceram de que estava protegido por um "dispositivo militar" organizado pelo general Assis Brasil, chefe da sua Casa Militar.

Segundo o dispositivo, todos os comandos de tropas estavam alinhados com Jango. Os generais A, B e C eram "nossos"; X, Y e Z também; o general K, de São Paulo, era "compadre do presidente"; e Fulano, Beltrano e Sicrano estavam "enquadrados". Tudo nos conformes. Não só as esquerdas acreditaram nisso. A direita também --daí o golpe.
No dia 1º de abril, o golpe marchou, e o fabuloso dispositivo era uma miragem. Seus tanques não saíram, aviões não voaram, navios continuaram boiando. Os generais com que ele contava ficaram em casa, de pijama, ou traíram. O próprio K —Amaury Kruel—, compadre ou não, foi um. O dispositivo existia, mas era o do inimigo.
Bolsonaro já deixou Jango no chinelo em matéria de barbaridades contra a ordem legal. Está confiante em seu dispositivo militar.Ruy Castro
terça-feira, 12 de maio de 2020
Brincando de ser presidente
No mesmo dia em que as principais autoridades do Judiciário e do Legislativo manifestavam pesar pelos milhares de concidadãos mortos e rogavam aos brasileiros que se unissem na luta contra a pandemia, circularam pelas redes sociais imagens do presidente Jair Bolsonaro a passear de moto aquática pelo Lago Paranoá, em Brasília, divertindo-se à beça. A este senhor, que brinca de ser presidente, não basta incitar seus camisas pardas vestidos de verde e amarelo a desafiar as instituições republicanas e a intimidar jornalistas; é preciso tripudiar sobre o sofrimento dos milhares de brasileiros que morreram e dos milhões que ora se encontram em quarentena, abrindo mão de sua vida social e enfrentando as agruras do desemprego e da redução de renda.

E mais: enquanto os governadores e prefeitos lutam para convencer seus governados a ficar em casa, única forma de retardar o colapso do sistema público de saúde – que já se verificou em diversos Estados –, o presidente avisa que vai ampliar, por decreto, o número de atividades consideradas essenciais e, portanto, livres de restrições durante a pandemia. “Vou abrir, já que eles (governadores) não querem abrir, a gente vai abrindo aí”, declarou Bolsonaro, como se a quarentena fosse uma escolha, e não um imperativo. Respeitados especialistas dizem, aliás, que o ideal seria impor desde já o chamado “lockdown”, isto é, a radicalização do isolamento social – o exato oposto do que Bolsonaro defende.
Compreende-se a dificuldade de fazer com que os cidadãos aceitem o isolamento social, o que inclui pôr em risco a própria sobrevivência e a da família em muitos casos. A situação fica ainda mais dramática à medida que a quarentena se estende no tempo. Portanto, é razoável esperar uma progressiva queda na adesão ao esforço coletivo para reduzir o contágio, mas está claro que essa queda tende a se acentuar quando a mensagem das autoridades a respeito da pandemia é confusa e fragmentada.
Se o presidente usa sua destacada posição de principal dirigente da República para, além de debochar dos mortos e dos que estão sofrendo, incitar os cidadãos a ignorar a quarentena imposta por governadores e prefeitos como se fosse desnecessária, não surpreende que muitos o façam. Em vez de inspirar os cidadãos a aceitar a responsabilidade de cada um no enfrentamento da pandemia, o presidente estimula o fracionamento da autoridade – o que, no limite, leva à desobediência e ao caos. Para complicar, o Ministério Público ainda colabora para minar a credibilidade dos governos estaduais e das prefeituras ao criar caso com compras emergenciais de equipamentos médicos, ignorando que, neste momento, eventuais irregularidades, previsíveis numa operação dessa magnitude, são o menor dos problemas diante da urgência urgentíssima.
O enfrentamento desta crise, que caminha para ser a maior da história do Brasil, depende, fundamentalmente, de harmonia entre as diversas autoridades, em todas as esferas, resguardadas as prerrogativas de cada uma, conforme o espírito da Federação. E depende de articulação dedicada entre o presidente, seus ministros, os governadores e os prefeitos, além do Congresso, do Judiciário e do Ministério Público. Obviamente não é fácil, como ficou claro na maior parte dos países do mundo, às voltas com atropelos no combate à covid-19. Mas é muitíssimo mais difícil, quase impossível, quando se tem um presidente que, tal como um adolescente birrento e mandão, é absolutamente incapaz de ver o mundo além do próprio umbigo.
Goebbels, de novo
Há quatro meses, o então Secretário de Cultura do Capitão Bolsonaro, Roberto Alvim, chocou o Brasil com um video em que repetia frases e cenários do satânico ministro da propaganda nazista, Joseph Goebbels. Caiu. Não porque imitou Goebbels. Porque o Capitão não gostava dele. Para o seu lugar, Bolsonaro acertou a mão de novo. Nomeou outra ardente defensora de suas idéias fascistas.
Em lunática e reveladora entrevista à CNN Brasil, Regina Duarte mostrou sua face nefanda, de terror, de deboche pelas vitimas da ditadura, de desprezo por mortos pela pandemia. Não superou o chefe. Chegou perto. Bolsonaro, na intrinseca maldade de sua alma (se é que tem uma) nem defendeu a secretária.
Alienada? Não. Regina sabe o que diz e diz o que pensa. Burra. Fraca. Despreparada. Medíocre. Incompetente. Não faltaram adjetivos nas redes sociais, na reação de artistas renomados. Apontaram nela o "sorriso falso e jocoso, de fantoche e escrava de Bolsonaro", escreveu Fábio Assunção. Mais de 500 artistas lançaram abaixo-assinado repudiando as declarações de cunho nazista.
Não à toa, Goebbels, de novo. Não à toa, lembrei de Lida Baarova, talentosa atriz, de beleza estonteante (não é o caso de Regina, por favor). Aos 20 anos, em 1934, trocou Praga, onde nasceu, por Berlim, e foi sucesso de público e critica logo no primeiro longa alemão. Casou-se com seu parceiro de tela, o ator Gustav Fröhlich, e mudou-se com ele para os arredores de Berlim.
E quem era um dos vizinhos de Lida? Goebbels. O super poderoso ministro nazista, que controlava com mão de ferro toda o setor cultural alemão. Cinema, inclusive. Lida apaixonou-se por aquele homem feio, grosseiro, mas poderoso. O caso se tornou público.
A mulher traida de Goebbels foi a Hitler. Furioso, o ditador genocida exigiu o fim do relacionamento. Acabou ali a carreira de Lida Baarova na Alemanha. Com o fim do regime nazista, foi presa pelos aliados sob acusação de traição. Sua mãe morreu durante interrogatório, sua irmã suicidou-se. Lida morreu na pobreza e no ostracismo, aos 86 anos em Salzburg, em 2000.
A história de Lida é emblemática, arquétipo dos dias de hoje. É prudente que essa gente desprezível que habita "por enquanto" os palácios de Brasilia, na companhia indigna de Regina Duarte, nunca se esqueça: entre o céu e o inferno, a distância é muito curta.
Em lunática e reveladora entrevista à CNN Brasil, Regina Duarte mostrou sua face nefanda, de terror, de deboche pelas vitimas da ditadura, de desprezo por mortos pela pandemia. Não superou o chefe. Chegou perto. Bolsonaro, na intrinseca maldade de sua alma (se é que tem uma) nem defendeu a secretária.
A atriz mergulhou sozinha no mar pútrido de declarações ofensivas à humanidade. O Brasil, onde mais de 12 mil pessoas sucumbiram ao vírus maldito, ouviu a atriz dizer que "a Covid está trazendo uma morbidez insuportável". Regina não é idiota, embora pareça. Como não trazer sombra se todos os dias carregamos córdeis de caixões?
Deslumbradíssima pelo cargo sem poder, sem recursos, sem caneta, sem prestigio, a que se diz Secretária de Cultura contou que não conhecia Aldir Blanc. Não mereceu conhecer. Merece a função que tem. Marchar ao lado de um mentor da ditadura e da tortura cai bem no papel de quem foi a "namoradinha do Brasil" no período mais sangrento de nossa história.
Alienada? Não. Regina sabe o que diz e diz o que pensa. Burra. Fraca. Despreparada. Medíocre. Incompetente. Não faltaram adjetivos nas redes sociais, na reação de artistas renomados. Apontaram nela o "sorriso falso e jocoso, de fantoche e escrava de Bolsonaro", escreveu Fábio Assunção. Mais de 500 artistas lançaram abaixo-assinado repudiando as declarações de cunho nazista.
Não à toa, Goebbels, de novo. Não à toa, lembrei de Lida Baarova, talentosa atriz, de beleza estonteante (não é o caso de Regina, por favor). Aos 20 anos, em 1934, trocou Praga, onde nasceu, por Berlim, e foi sucesso de público e critica logo no primeiro longa alemão. Casou-se com seu parceiro de tela, o ator Gustav Fröhlich, e mudou-se com ele para os arredores de Berlim.
E quem era um dos vizinhos de Lida? Goebbels. O super poderoso ministro nazista, que controlava com mão de ferro toda o setor cultural alemão. Cinema, inclusive. Lida apaixonou-se por aquele homem feio, grosseiro, mas poderoso. O caso se tornou público.
A mulher traida de Goebbels foi a Hitler. Furioso, o ditador genocida exigiu o fim do relacionamento. Acabou ali a carreira de Lida Baarova na Alemanha. Com o fim do regime nazista, foi presa pelos aliados sob acusação de traição. Sua mãe morreu durante interrogatório, sua irmã suicidou-se. Lida morreu na pobreza e no ostracismo, aos 86 anos em Salzburg, em 2000.
A história de Lida é emblemática, arquétipo dos dias de hoje. É prudente que essa gente desprezível que habita "por enquanto" os palácios de Brasilia, na companhia indigna de Regina Duarte, nunca se esqueça: entre o céu e o inferno, a distância é muito curta.
Estado frenético de tagarelice
Assola o país uma pulsão coloquial que põe toda a gente em estado frenético de tagarelice, numa multiplicação ansiosa de duos, trios, ensembles, coros. Desde os píncaros de Castro Laboreiro ao Ilhéu de Monchique fervem rumorejos, conversas, vozeios, brados que abafam e escamoteiam a paciência de alguns, os vagares de muitos e o bom senso de todos. O falatório é causa de inúmeros despautérios, frouxas produtividades e más-criações.
Fala-se, fala-se, fala-se, em todos os sotaques, em todos os tons e decibeis, em todos os azimutes. O país fala, fala, desunha-se a falar, e pouco do que diz tem o menor interesse. O país não tem nada a dizer, a ensinar, a comunicar. O país quer é aturdir-se. E a tagarelice é o meio de aturdimento mais à mão.
(...) Telefones móveis! Soturna apoquentação! Um país tagarela tem, de um momento para o outro, dez milhões de íncolas a querer saber onde é que os outros param, e a transmitir pensamentos à distância.
Afortunados ventos que batem todas as altitudes e pontos cardeais e levam as mais das palavras, às vezes frases inteiras, parágrafos, grosas deleas, para as afogar no mar, embeber nos lameiros de Espanha, gelar nos confins da Sibéria, perder nas imensidades do éter. É um favor de Deus único e verdadeiro. O país pereceria num sufoco, aflito de rouquidões, atafulhado de vocábulos, envenenado de sandices, se a Providência caridosa lhos não disseminasse por desatinadas paragens.
Mário de Carvalho, "Fantasia para Dois Coronéis e uma Piscina"
Fala-se, fala-se, fala-se, em todos os sotaques, em todos os tons e decibeis, em todos os azimutes. O país fala, fala, desunha-se a falar, e pouco do que diz tem o menor interesse. O país não tem nada a dizer, a ensinar, a comunicar. O país quer é aturdir-se. E a tagarelice é o meio de aturdimento mais à mão.
(...) Telefones móveis! Soturna apoquentação! Um país tagarela tem, de um momento para o outro, dez milhões de íncolas a querer saber onde é que os outros param, e a transmitir pensamentos à distância.
Afortunados ventos que batem todas as altitudes e pontos cardeais e levam as mais das palavras, às vezes frases inteiras, parágrafos, grosas deleas, para as afogar no mar, embeber nos lameiros de Espanha, gelar nos confins da Sibéria, perder nas imensidades do éter. É um favor de Deus único e verdadeiro. O país pereceria num sufoco, aflito de rouquidões, atafulhado de vocábulos, envenenado de sandices, se a Providência caridosa lhos não disseminasse por desatinadas paragens.
Mário de Carvalho, "Fantasia para Dois Coronéis e uma Piscina"
Luzes da escuridão
As estrelas nas ombreiras, novamente, voltaram a brilhar mais nos céus do Brasil. Acima de tudo e de todos
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