segunda-feira, 25 de março de 2019

Os garotos venceram taokey?

Arrastem as correntes os derrotados – ministros militares, políticos dos mais variados partidos e a mídia em geral. Contra fatos, argumentos não passam de chororô. É fato que os garotos Bolsonaro venceram todos aqueles que queriam vê-los distante da boca do palco do governo do pai.

O sinal mais poderoso da vitória dos garotos acendeu ontem dentro e fora da Casa Branca durante a visita do presidente Jair Bolsonaro ao seu modelo de perfeição, o presidente Donald Trump. E só não viu quem não quis. Tanto viu o ministro Ernesto Araújo, das Relações Exteriores, que teve um chilique.

No salão oval da Casa Branca, uma vez esvaziado dos jornalistas barulhentos, foi o deputado Eduardo Bolsonaro quem ficou ao lado do pai para testemunhar sua conversa com Trump e com seus principais assessores. Ernesto foi dispensado de ficar. Para atenuar sua humilhação, disseram-lhe que foi Trump que quis assim.

Nos jardins da Casa Branca, depois que Bolsonaro fez votos para que Trump se reeleja nas eleições do próximo ano, o presidente americano retribuiu a gentileza apontando na direção de Eduardo, festejando sua presença ali, e elogiando seu trabalho em prol de melhores relações entre os dois países.

Eduardo é assumidamente uma tiete de Trump. Já foi visto em um resorts do presidente em Las Vegas para participar de uma reunião da seção local do Partido Republicano. Seu inglês foi muito elogiado. No ano passado, desfilou em Nova Iorque com um boné de campanha onde pedia um novo mandato para Trump.

Foram amigos americanos de Eduardo que lhe sopraram a ideia de Bolsonaro visitar a sede da CIA. Eduardo soprou nos ouvidos do pai. Ambos fissurados em Coca-Cola, na Disneylândia e em calças jeans, concordaram em visitar a sede da CIA. Só eles sabem o que disseram e o que ouviram por lá. O ministro Sérgio Moro também sabe.

A retaguarda da nova família imperial brasileira ficou por aqui aos cuidados do vereador Carlos Bolsonaro, responsável pelo que o pai escreve ou compartilha nas redes sociais. Carlos voou do Rio para Brasília e foi visto em despachos não só no Congresso como também no Palácio do Planalto onde emprega amigos e informantes.

Quanto aos outros irmãos, Flávio, o senador, permanece ocupado com os seus e os rolos de Queiroz. E Renanzinho, além de continuar namorando todas as meninas – menos uma – do condomínio onde o pai tem casa, agora se dedica a aprimorar a pontaria numa academia de tiros. São vencedores também.

Tem que melhorar isso, viu?

Jornais, revistas, emissoras, etc. ficam sem público porque estão ruins. O resto é pura invenção
J.R.Guzzo

O governo na escuridão

Discutir pesquisas é catar pelo em ovo. Não leva a nada. Por isso, tentar apequenar pesquisa do Ibope sobre o governo, sob o argumento de que os institutos erraram durante a campanha eleitoral, é chover no molhado.


Paradigmas do marketing foram para o lixo na última campanha, incluindo organizações de pesquisa, mas é visível o arrefecimento da imagem presidencial. Por quê? Ora, não houve ainda fato relevante para sustentar o otimismo com o governo do capitão.

Vejamos o que acontece. O presidente usa o tom da campanha, fustiga adversários e puxa o cordão de apoiadores; formou uma equipe com nomes polêmicos; não se vê uma campanha popular para explicar a reforma da Previdência; a parceria com bancadas temáticas fecha portas para indicações políticas; o ruído provocado por três polos de comunicação – o familiar, o do porta-voz Rêgo Barros e o da Secom, do general Santos Cruz – todos esses fatores desgastam a imagem presidencial.

A lua de mel de uma nova administração dura de quatro a seis meses. Temos ainda bom tempo para que se fazer uma análise mais apurada do ciclo governamental. Mas o declínio é visível por algumas razões.

Primeiro, falta uma ideia/ação capaz de entusiasmar os eleitores. Há um amplo e denso pacote de programas a passar pelo Congresso. Mas a articulação política é fraca. O presidente, por sua vez, reacende ânimos nas redes. Dá a entender que continua em palanque. O núcleo familiar causa barulho, com destaque para o caso Fabrício Queiroz, ex-assessor do então deputado Flávio no RJ; Carlos aprecia a guerra continuada. E o deputado Eduardo se credencia como um “co-chanceler”, despertando ciúmes do titular Ernesto Araújo.

Os canais com o Congresso parecem entupidos. Bolsonaro evita governar com os braços presos ao presidencialismo de coalizão, fechando espaços para indicações políticas. Nem Paulo Guedes consegue convencer deputados sobre a reforma. O governo tem até gosto para ver aprovada a Previdência. Se não ocorrer, o clima será de escarcéu.

Dificuldades aumentarão. Fraco, o governo enfrentará as oposições e os próprios aliados. Fato é que a identidade do governo ainda não se firmou. Tateia na escuridão – é esta a impressão que passa. O ultraconservadorimo funciona como marca da administração, presente em pautas como escola sem partido ou ideologia de gêneros. Agrada aliados, mas gera contrariedade.

As tragédias de Brumadinho (MG) e os assassinatos de jovens em Suzano (SP) baixaram uma sombra de desalento e medo. Armar a população é uma questão polêmica, com alas a favor e contra. A educação vive uma balbúrdia. Foi demitida a terceira indicada como secretária-executiva. O ministro Vélez não sabe se fica ou sai.

A prisão do ex-presidente Michel Temer gera nebulosidade. O instinto de sobrevivência dos políticos entra em alerta. Juiz e promotores antecipam seu julgamento com inferências pesadas. Desfaz-se o clima propício à aprovação da Previdência. O governo se perde na escuridão. A visão de que o avião governamental começa a perder altura na decolagem parece correta. Até Rodrigo Maia, peça-chave na engrenagem, recua alguns passos. Acende-se o sinal amarelo.
Gaudêncio Torquato

Sem árvore, o Brasil torra

“O som selvagem da motosserra nunca silencia onde quer que árvores ainda sejam encontradas crescendo”, escreveu J.R.R. Tolkien, o filólogo e autor de “O Senhor dos Anéis”, em carta datada de 30 de junho de 1972, no ano interior à sua morte. Nisso, e ao classificar as máquinas que queimam combustíveis fósseis de “motores de combustão inferna” (um trocadilho com “interna”), o criador dos hobbits ainda é uma voz profética. Afinal, é bem possível que o tal som selvagem nos carregue um pouquinho mais para perto do Inferno nos próximos 30 anos.


Chame-me de alarmista se assim o desejar, gentil leitor, mas um estudo publicado na semana que passou por cientistas brasileiros aponta justamente nessa direção calorosa (no mau sentido). Ao analisar como o desmatamento tem afetado o clima local no Brasil e no mundo, eles calculam que uma derrubada sem freios pode aumentar a temperatura média do país em 1,45°C até 2050. Como já disse aquele sábio do jornalismo esportivo, 2050 é logo ali, amigo.

Repare que eu disse “clima local” ali em cima. A análise, que está na revista científica de acesso livre Plos One, levou em conta não a quantidade de gases causadores do aquecimento global emitidos pelo desmatamento —algo que vai para a atmosfera e acaba afetando a temperatura média do mundo todo -, em certa medida. No lugar disso, o estudo considera as mudanças climáticas de pequena escala geradas quando uma área antes florestada perde sua cobertura de árvores.

A equipe do estudo, que inclui Gisele Winck, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), e Jayme Prevedello, da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), explica didaticamente que o efeito climático local das florestas depende principalmente de duas variáveis.

A primeira é o albedo –grosso modo, uma medida de quanto o solo reflete ou absorve a luz. A folhagem escura das florestas corresponde a um albedo relativamente baixo, que absorve a radiação solar e, portanto, tende a esquentar.

Entretanto, é preciso a considerar a segunda variável, a evapotranspiração –grosso modo, a maneira como as florestas “suam”. E, nesse caso, a seta aponta para o outro lado: ao transpirar, as florestas refrescam mais a superfície da Terra do que a vegetação mais aberta, como pastagens.

Com esses princípios em mente e com dados sobre cobertura florestal e clima no mundo todo, Winck, Prevedello e seus colegas se puseram a fazer as contas. Acabaram concluindo que a presença de florestas tem efeitos variados dependendo da região do mundo onde se encontram.

Nas regiões tropicais e, em menor grau, nas zonas temperadas, florestas tendem a ter um efeito local de ar-condicionado, diminuindo a temperatura. Perto dos polos, a situação se inverte – basicamente porque, quando não há a folhagem escura da mata, temos chão coberto por neve, que tem um albedo elevado – o branco, afinal de contas, reflete toda a luz solar.

Bem, como você sabe, moramos num país tropical (a parte do “abençoado por Deus e bonito por natureza” tem ficado menos verossímil). Pelos cálculos da equipe, se o desmatamento não for controlado com seriedade, enfrentaremos o calorzinho nada agradável descrito acima daqui a 30 anos. Parece-me uma razão mais do que suficiente para botar uma focinheira nas motosserras selvagens.

domingo, 24 de março de 2019

Contra a velha política surge uma nova balbúrdia

Há algo de suicida no comportamento de Jair Bolsonaro. O doutor Paulo Guedes, homem forte da Esplanada, informa que, sem a reforma da Previdência, sobrevirá o Apocalipse. O governo só dará certo, portanto, se entregar a reforma. Na Câmara, exigem-se 308 votos. Para obtê-los, é preciso adotar três providências: dialogar, dialogar e dialogar. Mas Bolsonaro prefere fazer cara de nojo. Se continuar agindo assim, Dilma Rousseff vai acusá-lo de plágio.

Bolsonaro escolheu governar no mundo das redes sociais. É muito parecido com o País das Maravilhas. Ali, quem ousa mostrar o mundo real é acusado de conspirador. É isso o que está acontecendo com Rodrigo Maia. Grão-tuiteiro do reino, Carlos Bolsonaro foi ao país do cristal líquido para instruir os navegadores a cortarem a cabeça do presidente da Câmara. Após intensa refrega, Maia aconselhou Bolsonaro, o pai, a dedicar mais tempo à Previdência do que ao Twitter. Foi como se o deputado ecoasse Alice: "Vocês não passam de um baralho de cartas".

No país de Alice, a honestidade de Bolsonaro tornou-se uma virtude negativa. À medida que seu governo vai penetrando o caos legislativo, o presidente vai enumerando os mandamentos de sua honra. Todos começam com não. Coisas assim: Não colocarei bandido no ministério, não farei o toma-lá-dá-cá, não farei concessões à velha política, não isso, não aquilo.

No gogó, tudo soa muito lindo. Entretanto, no mundo das coisas práticas, um presidente que se escora no vocábulo da negação fica muito parecido com o sujeito que leva a família ao restaurante, acomoda-se numa mesa e, na hora de pedir a comida, enumera para o garçom todos os pratos que não deseja experimentar. A família volta para casa com fome e o filho do meio vai às redes para falar mal do estabelecimento.

Não existe velha nem nova política. Existe a boa política e a cleptopolítica. A Lava Jato demonstrou que, nos últimos anos, o índice de corrupção não aumentou no Brasil. Continua nos mesmos 100%. O presidente faz bem em tomar distância do modelo em que a governabilidade é obtida na base do "uma mão suja a outra". Mas é uma tolice negar a evidência de que não há política sem escambo.

É natural que os congressistas sejam portadores de demandas do seu eleitorado. Bolsonaro dispõe de uma vacina capaz de imunizá-lo contra a radioatividade da formação de consórcios partidários. Basta comunicar aos integrantes da sonhada maioria parlamentar: "Não me peçam nada que subverta o interesse público. No meu governo, não se toma e não se dá nada que não possa ser exposto na vitrine".

Fora disso, a retórica do combate à velha política não serve senão para abrir o caminho que conduz a uma nova balbúrdia. Jair Bolsonaro e sua dinastia sempre poderão correr às redes sociais para acusar o Congresso de bloquear as propostas do governo. Mas já ficou entendido que esse tipo de fuga serve para criar crises, não para evitar o Apocalipse de que fala Paulo Guedes.

Está no ar a barafunda Bolsonaro

Jair Bolsonaro superou as marcas de impopularidade de seus antecessores no início do primeiro mandato. Com viés de piora, esse desempenho deve-se em parte a um processo de autocombustão, mas nem tudo pode ser atribuído a Bolsonaro. Ele teve a ajuda de ministros civis e militares.

Resolveram fazer uma reforma da Previdência. Poderiam ter seguido a sugestão do economista Paulo Tafner, fatiando-a. Mandariam primeiro o corte dos privilégios dos marajás e depois cuidariam dos miseráveis. Resolveram juntar as duas brigas. Vá lá.


É elementar que a profissão e a Previdência dos militares nada têm a ver com as dos servidores civis. Poderiam ter separado as duas questões. Não só juntaram os debates, como decidiram botar no combo um projeto de reestruturação da carreira militar, coisa que não tem nada a ver com a Previdência.

Todas essas decisões embaralham o debate e dificultam a aprovação de algo parecido com o projeto original do governo. Como alguma reforma haverá de ser aprovada sempre se poderá cantar vitória. Afinal, Fernando Henrique Cardoso e Lula também fizeram reformas da Previdência. Nenhum deles atritou-se com o presidente da Câmara.

A barafunda vai além da reforma. O ministro Sergio Moro resolveu peitar Rodrigo Maia com mais uma de suas jeremíadas. Tomou umtranco e ficou em paz. Durante a visita de Bolsonaro a Washington, o ministro das Relações Exteriores foi humilhado, um filho do presidente disse que os brasileiros que vivem nos Estados Unidos sem documentação são “vergonha nossa” e o condestável da Economia informou que gosta de Coca-Cola e da Disneylândia. (Quem passava dias sozinho na Disney era o professor Mário Henrique Simonsen, mas ele nunca anunciou isso a uma plateia de empresários.)

Se tudo isso fosse pouco, Bolsonaro disse na Casa Branca que acredita “piamente” na reeleição de Donald Trump. Sentiu cheiro de banana e foi procurar a casca para escorregar. Os dois presidentes que mais ajudaram a ditadura brasileira foram Lyndon Johnson e Richard Nixon. Um encantou-se com o marechal Costa e Silva, o outro com Emilio Médici. Ambos foram eleitos com memoráveis maiorias e acabaram naufragando. Amaldiçoado, Johnson desistiu da reeleição. Acuado, Nixon renunciou. Os presidentes brasileiros não disseram coisa parecida. Trump nunca teve a força de qualquer um desses antecessores.

A Lei de Murphy diz que, se uma coisa pode dar errado, errado ela dará. O governo do capitão parece disposto a enriquecê-la: Se uma coisa pode dar certo, trabalham para que dê errado.

Brasil sem privilégios


'Mito' liberal era fake news

A campanha de 2018 fabricou um novo Jair Bolsonaro. Ele se dizia convertido ao liberalismo, embora admitisse não entender nada de economia. Ao ser questionado sobre algum tema concreto, escapava com um gracejo: “Vou perguntar lá no Posto Ipiranga”. Era uma referência a Paulo Guedes, anunciado como futuro ministro da Fazenda.

O aval do banqueiro bastou para convencer o mercado. Com os parceiros habituais em apuros, empresários e investidores arrastaram todas as fichas para a candidatura do “Mito”. Agora eles começam a se perguntar se fizeram a aposta certa.


Nos últimos dias, Bolsonaro indicou que não está tão empenhado em entregar o que prometeu. “Eu, no fundo, não gostaria de fazer a reforma da Previdência”, disse, na quinta-feira. Ele acrescentou que seria “irresponsável” não mexer nas aposentadorias, mas a primeira frase foi a que soou mais sincera.

Não é só com palavras que o presidente mostra a que (não) veio.

Na quarta-feira, ele levou ao Congresso um projeto de reforma para as Forças Armadas. Em vez de cortar privilégios, incluiu benesses como o reajuste dos soldos e o aumento da gratificação no fim da carreira. Até o líder do PSL, Delegado Waldir, reclamou do truque.

“Não tem como explicar esse tratamento diferenciado”, resumiu. O episódio mostra que Bolsonaro continua a pensar como chefe do sindicato dos militares. Sua versão liberal era fake news de campanha, assim como o kit gay, a ameaça comunista e a conspiração para fraudar as urnas eletrônicas. Na viagem ao Chile, o presidente deu novos tiros contra a reforma.

Questionado sobre a prisão de Michel Temer, culpou os “acordos políticos em nome da governabilidade”. Os parlamentares entenderam o recado: ele não está disposto a fazer concessões para mexer nas aposentadorias.

Com o ambiente político em chamas, o segundo-filho Carlos Bolsonaro resolveu jogar mais gasolina na fogueira. “Por que o presidente da Câmara está tão nervoso?”, provocou nas redes sociais, referindo-se à prisão de Moreira Franco.

O ex-ministro é sogro de Rodrigo Maia, que passou uma descompostura no chefe do clã:

“Ele precisa ter mais tempo pra cuidar da Previdência e menos tempo cuidando do Twitter”. Há duas semanas, o ministro Guedes disse que só faltariam 48 votos para aprovar a reforma. A declaração irritou líderes partidários, que traçam um cenário muito mais complicado. A paciência do mercado também começou a se esgotar, mas quem comprou o “Mito” em 2018 sabia estar diante de um papel de alto risco.

Só 'vontade de Deus' não basta

Cada dia que passa é um dia a menos que o governo tem para articular sua base com vista a aprovar a reforma da Previdência, mas o Palácio do Planalto e seus operadores políticos parecem longe de compreender a urgência do problema. As advertências de deputados e senadores ao governo deixaram de ser apenas murmuradas e passaram a frequentar discursos e entrevistas em que as queixas são expostas de maneira explícita. Hoje parece haver um consenso segundo o qual o presidente Jair Bolsonaro precisa mudar o modo como negocia o apoio para a reforma, sob o risco, cada vez mais concreto, de ser derrotado.


A questão central é que os parlamentares que apoiam a reforma e se dispõem a liderar o esforço por sua aprovação estão cada vez mais descontentes com o fato de que o próprio Bolsonaro não se apresenta para defender com vigor a proposta. Não são poucos os que temem arcar sozinhos com o ônus político da reforma enquanto o presidente hesita ante a natural impopularidade do tema – quinta-feira passada, por exemplo, Bolsonaro disse que, “no fundo, não gostaria de fazer a reforma da Previdência”, embora reconheça que seja necessária.

O fato é que Bolsonaro parece raciocinar ainda como deputado, condição que o tornaria mais suscetível à pressão de suas bases, e não como presidente, que deve governar para o conjunto da sociedade, com coragem para tomar medidas que podem eventualmente desagradar a seus eleitores.

A julgar pela desorganização de sua articulação política – até mesmo um dos filhos do presidente, o vereador carioca Carlos Bolsonaro, diz ter sido designado para fazer contatos com deputados em nome do pai –, soa otimista a previsão oficial de que a reforma da Previdência possa ser votada ainda no primeiro semestre e de que faltariam pouco menos de 50 votos para aprová-la, como disse o ministro da Economia, Paulo Guedes.

O governo dá a impressão de apostar que Bolsonaro, por ter sido eleito pela “vontade de Deus”, como disse na recente visita aos Estados Unidos, aprovará no Congresso todas as pautas de seu interesse sem necessidade de negociação. Não é o que pensam, contudo, os principais parlamentares empenhados na aprovação da reforma. Para esses políticos, só a “vontade de Deus” não basta quando se trata de convencer três quintos da Câmara a aprovar uma emenda constitucional, especialmente a que endurecerá as regras para a aposentadoria.

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, por exemplo, alertou que a Casa “não tem 320 liberais” e que será preciso convencer até 280 deputados que não foram eleitos com a agenda da reforma da Previdência.

Se já não seria tarefa simples mesmo para experimentados articuladores, essa empreitada tende a ser muito mais complicada se o governo não se dispõe a fazer política. Até deputados da chamada bancada evangélica têm reclamado da falta de diálogo. Ademais, quando o presidente da República se reúne com parlamentares para ouvir reivindicações com vista a obter apoio à reforma e em seguida vai às redes sociais se queixar de que “a velha política” está “querendo nos puxar para fazer o que eles faziam antes”, manda uma mensagem ambígua sobre sua disposição para negociar.

Ao dar a entender que todas as demandas dos parlamentares são fisiológicas, o presidente colabora para criar um clima de fricção com o Congresso. Não surpreenderá se alguns dos parlamentares que hoje colaboram abertamente com o governo para costurar apoio à reforma da Previdência passarem a ficar reticentes, à espera de um suporte mais explícito do presidente. O próprio presidente da Câmara, Rodrigo Maia, ameaça abandonar a articulação se continuar sob ataque das milícias virtuais bolsonaristas e dos filhos de Bolsonaro, sob o olhar complacente do pai.

Não basta a Bolsonaro dizer que a aprovação da reforma da Previdência vai acontecer só porque seu governo adotou “uma maneira diferente de negociar”, em que “o sentimento patriótico e a busca do consenso são fundamentais”, como escreveu em artigo publicado no jornal Valor. Como deveria saber qualquer iniciante na vida política, apelos patrióticos podem até animar eleitores e militantes, mas não costumam ser suficientes para arregimentar apoio no Congresso, ainda mais quando o presidente da República pede votos a favor, mas age como se fosse contra.

Deserto de ideias

Qual é o projeto do governo Bolsonaro, fora a Previdência? Fora o projeto do ministro Moro? Não se sabe. Qual é o projeto de um partido de direita para acabar com a extrema pobreza? Criticaram tanto o Bolsa Família e não propuseram nada até agora no lugar. Criticaram tanto a evasão escolar de jovens e agora a gente não sabe o que o governo pensa para os jovens e para as crianças de zero a três anos. O governo é um deserto de ideias
Rodrigo Maia, presidente da Câmara .

Reflexões sobre um voto a mais

A Lava Jato fez cinco anos com impressionantes números internos e grandes repercussões na política continental, algo que não se destaca muito aqui, no Brasil. Mas na semana do aniversário sofreu uma derrota: por 6 votos a 5, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que crimes conexos ao caixa 2 vão para a Justiça Eleitoral.

Os políticos acusados de corrupção terão um alívio. A Justiça Eleitoral não está aparelhada para investigar, dificilmente colherá provas. Alívio maior ainda é saber que, mesmo com excesso de provas, como no julgamento da chapa Dilma-Temer, ela decide absolver.


Há um novo marco adiante: a votação da prisão em segunda instância. Se o grupo que resiste à Lava Jato vencer, trará alívio não só para investigados, como também para os presos.

A Lava Jato vinha de uma semana difícil com a história da fundação que usaria R$ 2,5 bilhões para combater a corrupção. Era dinheiro da Petrobrás a ser devolvido ao Brasil pelos Estados Unidos. Os procuradores compreenderam rápido que era melhor recuar da ideia e deixar que o dinheiro seja usado de acordo com prioridades democraticamente definidas. Mas os adversários souberam aproveitar o tropeço.

O ministro Gilmar Mendes chegou a afirmar que havia intenções eleitorais na decisão dos procuradores de usar o dinheiro contra a corrupção. E levou o nível da tarde ao de um programa do Chaves, chamando os procuradores de gentalha.

Creio que os ministros perceberam que derrotar a Lava Jato ia custar a todos uma certa oposição social. E de fato houve reação nas redes e na rua. Algumas reportagens indicavam que era uma reação de bolsonaristas contra o STF. Penso que transcende um grupo determinado.

Dias Toffoli compreende que está diante de uma situação grave. As sessões são públicas, a rede comenta e ataca os ministros. No entanto, sua reação de determinar inquérito no Supremo e escolher um delegado para conduzi-lo deu a impressão de estar com medo e isolado.

Com medo porque, de fato, o nível de agressividade aumenta, até com posições que fariam Rui Barbosa virar no túmulo: acabar com o STF. Isolado porque o Supremo é um órgão superior, existem estruturas judiciárias próprias para isso. Por que desprezá-las? Elas só desenvolvem inquéritos sobre acusações específicas, não uma hostilidade difusa contra os ministros.

Na verdade, Toffoli deu uma carteirada. Como em toda carteirada no Brasil, no princípio as pessoas ficam meio surpresas. Em seguida, pensando bem, conseguem ver as coisas nas dimensões legais.

O inquérito determinado por Toffoli pode ser contestado legalmente e, sobretudo, no campo político. Até que ponto procuradores e parlamentares que preparam uma CPI da Lava Toga não podem interpretar isso como uma tentativa de intimidação?

Não será o fim do mundo entregar os crimes conexos ao caixa 2 à Justiça Eleitoral, muito menos acabar com a prisão após julgamento em segunda instância. Se vão fazer isso, aguentem o tranco, sem apelar para saídas autoritárias. Quem anda pelas ruas não ouve críticas ao STF apenas de seguidores de Bolsonaro. Há algo mais amplo e potencialmente agressivo. E se a reação for essa que Toffoli lançou, as coisas podem ficar muito piores. Em vez de as pessoas lutarem contra juízes que veem apenas como cúmplices dos políticos, eles vão ser vistos também como autoritários e antidemocráticos.

Algumas previsões eleitorais temiam passos autoritários do governo. O Supremo e o Parlamento seriam contrapesos democráticos. Se o próprio Supremo avança o sinal, aumenta uma percepção de insegurança. Não creio que os parlamentares se vão intimidar.

O caminho escolhido por Dias Toffoli agrava a situação. Abre-se uma perspectiva para uma luta mais áspera ainda. Já chegamos ao nível do programa vespertino Chaves com a gentalha, gentalha de Gilmar. No programa, gentalha é um achado; no diálogo institucional, uma barbárie.

A Lava Jato continuará com apoio popular. A entrada de Sergio Moro no governo ainda é uma incógnita. Ela é baseada no propósito de ampliar o trabalho da operação, levá-la além dos seus limites com um conjunto de leis e uma nova atitude do Executivo. Todavia não é garantido que os parlamentares respaldem majoritariamente suas propostas. E parece haver no governo uma luta interna com potencial desagregador. As notícias que vieram de Washington, sobretudo a entrevista de Olavo de Carvalho, revelam uma linguagem também corrosiva, em especial quanto aos militares.

Se a maioria ocasional entre os ministros prevalecer e derrotar de novo a Lava Jato, certamente haverá reações. Toffoli mostrou-se um pouco sem norte nesta primeira etapa. Se insistir nesse tipo de resposta, tende a sair enfraquecido.

Uma nova derrota da Lava Jato também terá repercussões no Congresso e, pelo que ouço, o tom lá contra alguns ministros do STF tem a mesma carga emocional das ruas. Uma CPI da Lava Toga tem o potencial de trazer uma grande pressão, criar tensões institucionais. A luta ainda está longe do desfecho, mas vejo que pode ser áspera, com os políticos estimulados pelas ruas. O aspecto delicado é que ela tem o potencial de pôr em confronto, ainda que parcialmente, duas instituições com que contávamos como contrapeso democrático.

Será preciso muita maturidade para avançar daqui para a frente, máxime neste momento crucial de luta entre diferentes maneiras de tratar a corrupção. Não deveriam ser tão excludentes. Quando um ministro se coloca como inimigo da Lava Jato, perde a isenção, propõe, na verdade, um duelo com a maioria da sociedade e parte substancial do Congresso.

Tomar sucessivas decisões impopulares com um estilo de briga de botequim é uma escolha. O próprio STF, instituição destinada a resolver conflitos, transformou-se num núcleo conflitivo. Uma fábrica de crises entre um e outro chá.

Paisagem brasileira

Mariana (MG), Roberval Cunha 

Em nome de Deus

A vulgaridade que se espalha por todos os cantos passou a invocar o nome de Deus como se fosse um produto nas prateleiras dos supermercados. Não se trata sequer do ignorante, mas respeitoso temor reverencial de séculos atrás, quando os raios e trovões faziam tremer por ser “a ira divina”. Agora se invoca Deus a granel, na política ou no dia a dia, até para os atos mais diabólicos...

Quando, porém, o papa e a Igreja Católica buscam estudar e analisar a progressiva degradação do planeta, muitos se esquecem de que a vida é a obra suprema. O próximo sínodo dos bispos sobre a Amazônia, a realizar-se em Roma, é o exemplo concreto da preocupação que deveria abarcar toda a sociedade, não apenas os católicos e os luteranos tradicionais, mas, mesmo assim, é atacado.

A devastação da Amazônia é um horror concreto, agravado nas últimas décadas pela mineração e pelo desmatamento predatórios, que competem entre si sobre quem degrada mais… A região em que chovia todos os dias (e as reuniões se marcavam para “antes” ou “depois” da chuva) agora já padece de seca, numa antevisão do deserto. A maior bacia hidrográfica do planeta abrange nove países sul-americanos e os bispos da região (não só do Brasil) analisarão ações e estratégias para enfrentar o que se agrava a cada dia com o desmatamento e com rios e igarapés contaminados pelo mercúrio da mineração.

No Brasil, porém, o ministro Augusto Heleno, do Gabinete de Segurança Institucional (sucessor do antigo SNI dos tempos ditatoriais), está preocupado com o sínodo e o considera uma afronta ao governo Bolsonaro e à própria soberania do Brasil. “Nós não damos palpite sobre o Deserto de Saara ou o Alasca”, disse, adiantando que o governo pretende neutralizar as conclusões que surjam do sínodo...

Por que “neutralizar”, se a reunião será em outubro e nem se sabe o que recomendará?

Convocado pelo papa Francisco em 2017, um ano antes da eleição de Bolsonaro, o sínodo é uma reunião interna da Igreja e só a ela cabe definir os próprios rumos. O bispo de Marajó, dom Evaristo Spengler, um dos relatores do encontro (junto a prelados de outros oito países) lembra que a Igreja “não pode ser neutra ou impassível” diante de um crime causado pela visão de lucro fácil. Está em risco um exuberante bioma que se estende das montanhas do Peru, junto ao Oceano Pacífico, até o Atlântico.

O ministro do Gabinete de Segurança Institucional foi comandante militar na Amazônia brasileira e hoje é a figura mais influente do governo, mas se equivocou ao não entender a missão da Igreja. Amar o planeta não será, antes de tudo, amar a humanidade? No equívoco teve até a companhia de alguns que – alheios à realidade interna da Igreja – fantasiaram situações ou divisões há muito inexistentes no catolicismo ou entre os membros do Conselho Mundial de Igrejas.

O sínodo sobre a Amazônia será, de fato, o desdobramento concreto da encíclica Laudato Si’, do papa Francisco, sobre “os cuidados com a casa comum”, nosso planeta. Lançada em maio de 2015, é o mais importante documento do século. Profundo, analítico e didático, alerta sobre a responsabilidade de cada um na vida no planeta. Denuncia a horda brutal da cobiça que, alegando um falso “progresso”, entende que a natureza é algo a destruir e malbaratar, a desrespeitar e odiar. E que tudo, até o horror, é válido em nome do lucro...

A encíclica deu nova dimensão à luta pela preservação ambiental. Ao superar as ribombantes frases declaratórias dos governos e governantes, saltou dos discursos para a consciência dos indivíduos, a partir do conceito de vida.

O meio ambiente surgiu (ou ressurgiu) como tema teológico, ligado umbilicalmente à vida na Terra ou à nossa existência e ao que nos rodeia. Anos antes, em 2008, o papa Bento XVI havia definido quatro novos “pecados capitais” – a poluição ambiental foi um deles, ao lado da manipulação genética, das drogas e da exploração econômica que provoca a desigualdade social.

Mas na voraz sociedade de consumo (que naturalmente nos conduz ao hedonismo e ao prazer) a ideia de “pecado” já não tem a profundidade de séculos atrás. Hoje, se não somos capazes de dominar os sete pecados capitais da tradição bíblica – gula, luxúria, avareza, ira, soberba, vaidade e preguiça –, como incorporar os quatro apontados no século 21?

A encíclica sobre “os cuidados com a casa comum” abriu nova reflexão a respeito da responsabilidade não só dos governantes ou dos empresários, mas de cada um de nós em torno da vida no planeta. O sínodo busca encontrar caminhos para concretizar o que a encíclica aponta.

A Igreja não é um ente etéreo. Historicamente, está comprometida com a defesa da vida. Aquilo que a teologia chama de eternidade é, em essência, a manutenção da vida tal qual foi estabelecida pelo Deus criador, seja ele qual for – o “fiat lux” da Bíblia ou o “big-bang” da ciência.

Só há eternidade se houver o planeta. Sem ele, é o nada!

Afinal, por que defender o meio ambiente apenas nas grandes conferências de chefes de Estado e, logo, relegar as palavras a plano inferior?

A Eco-92, realizada há 27 anos no Rio de Janeiro, elaborou a Agenda 21 como cartilha a adotar no novo século para nos salvar da hecatombe próxima. Em 2012, também no Rio, nos 20 anos da reunião anterior, nova reunião de cúpula dos chefes de governo reiterou a advertência, sem que o essencial houvesse mudado. O aquecimento global continuou, sem medidas urgentes de reversão.

Agora, porém, quando o sínodo dos bispos sobre a Amazônia busca saídas para mitigar e extirpar o horror numa região sensível do planeta, há quem use até “o nome de Deus” para se opor à iniciativa...
Flávio Tavares

Bolsonaro sem noção

Movem-se as placas tectônicas da política brasileira, e pode vir daí um terremoto de vastas proporções. A reforma está com problemas pela desarticulação do governo, e o presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia, que é (ou era) o grande aliado para dar andamento à aprovação da reforma da Previdência, acha que essa desarticulação faz parte de uma estratégia do próprio Bolsonaro, que só sabe governar na base da confrontação.

Para o presidente da Câmara, o presidente Jair Bolsonaro “não tem noção, nem da gravidade da situação, nem da importância de governar com o Congresso numa democracia”. Há uma diferença entre governar como o PT fazia, e como a Angela Merkel (chanceler alemã) faz, destaca o Rodrigo Maia. “Eu vou continuar atuando a favor da reforma da Previdência, mas não em nome do governo”. Maia diz que quem tem que atuar dentro do Congresso é o articulador político do governo, o Onix Lorenzoni. E, especialmente, o próprio presidente Bolsonaro.

“Eu não tenho capacidade para conseguir os votos necessários para aprovar a reforma. Posso até, pelo meu convencimento, arranjar uns 50, 60 votos. Mas faltarão mais cerca de 250, que o governo vai ter que buscar”. Para tanto, ressalta Maia, tem que fazer política, e isso eles não querem fazer.

“Querem ficar com o bônus de serem os protetores do povo, e o Congresso assumirá o ônus de ter aprovado uma matéria impopular, embora necessária”. O governo Bolsonaro, desde o início, tenta se desvencilhar da dependência do Congresso, o que é um contrasenso num regime necessariamente de coalizão em que o presidente nunca tem a maioria parlamentar, mesmo que tenha a maioria popular.

Nos Estados Unidos, o candidato, como Trump, pode ser eleito pelo Colégio Eleitoral e perder na votação popular. Em regimes como o nosso, nem sempre acontece que um presidente popular tenha o apoio da maioria no Congresso, mas não consegue governar sem ele. Aconteceu com Collor, com Dilma e está acontecendo com Bolsonaro.


Com a agravante para Bolsonaro de que sua popularidade está em decadência muito antes de terminar do período de graça dos governos. Nos 100 primeiros dias, o presidente eleito historicamente conseguia tudo no Congresso. Não mais. Além disso, o governo, em campanha permanente, queima suas pontes com potenciais aliados porque só se interessa em cultivar a parte do eleitorado que o elegeu, a que fala mais diretamente a seus valores conservadores.

O presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia, que se dispunha a ajudar na aprovação da reforma da Previdência, está recuando sua defesa para fazer frente a uma série de ataques, uns provocados por inexperiência, como o do ministro Sérgio Moro; outros, propositais para incensar os radicais bolsominions nas redes sociais.

O vereador Carlos, o filho 02, que se distrai fazendo política no twitter, publicou no Instragam, no dia da prisão de Moreira Franco, sogro de Rodrigo Maia: “Por que o presidente da Câmara está tão nervoso?”, numa clara insinuação irônica. E retuitou uma mensagem do ministro Sérgio Moro com críticas indiretas a Maia.

Moro enviara de Washington uma mensagem pelo WhattsUp reclamando que Rodrigo Maia havia criado uma comissão para analisar o projeto anticrime do governo juntamente com outros projetos já em tramitação na Câmara, inclusive um que foi coordenado pelo atual ministro do Supremo Alexandre de Moraes. Considerou isso o descumprimento de um suposto acordo.

Rodrigo Maia, de fato, deixou o projeto para entrar na pauta no segundo semestre, pois acha que discutir os dois, esse e o da Previdência, ao mesmo tempo vai dispersar os votos. E combinou a estratégia com Bolsonaro. O presidente da Câmara mandou a resposta, exigindo que Moro o respeitasse como presidente do Poder Legislativo.

O ministro da Justiça, Sérgio Moro, retrucou no twitter, que foi replicado por Carlos Bolsonaro: "Talvez alguns entendam que o combate ao crime pode ser adiado indefinidamente, mas o povo brasileiro não aguenta mais.".

Maia desabafa: “Se o filho do presidente me ataca publicamente, e ele não faz nada, quer dizer que pensa como o filho”. O governo não quer a reforma da Previdência, especula Rodrigo Maia. “Ou melhor, quer, mas jogando a responsabilidade para o Congresso. Bolsonaro posa de bonzinho, e nós somos os contra o povo”.

A era dos reptilianos

Estes são tempos de lagartos. Basta olhar ao nosso redor: a Austrália recusou-se a dar o visto ao polêmico David Icke, negacionista do Holocausto e criador de teorias conspiratórias sobre reptilianos humanoides. Icke daria palestras sobre governantes reptilianos, manipulação e controle mental governamental.

O YouTube anunciou há menos de dois meses que mudará seus algoritmos para que deixem de recomendar tantos vídeos de teorias da conspiração. O Facebookb acaba de anunciar a contratação do Newtraly e Maldita.es para combater as notícias falsas em sua plataforma. A agência France Presse também estenderá à Espanha seu acordo de verificação com o Facebook, que já tem em outros 15 países. A BBC decidiu vetar em seus debates as pessoas que defendam posições negacionistas em relação a teorias que têm um consenso científico universal. A Netflix mostra, no documentário A Terra É Plana, um dos fenômenos contemporâneos que está se expandindo com maior rapidez: os terraplanistas.

Parece, então, que aceitamos que estamos cercados de teorias conspiratórias e que elas representam enormes perigos sociais e políticos. Como chegamos até aqui em tão pouco tempo? Quando nos acostumamos com histórias de conspiração que agora é necessário deter?


Como Chris French explicou à BBC News, as teorias conspiratórias “são transversais em termos de classe social, gênero e idade”, e pressupõem a falácia de que os dois lados de uma disputa científica, social ou política devem ter a mesma veracidade. Se somarmos a isso que uma teoria conspiratória tem, como norma, a capacidade narrativa de criar padrões regulares, podemos compreender que sejam objeto de sedução. Nosso presente parece ter acelerado o poder das conspirações: são cada vez mais frequentes as ideias tóxicas sobre elites que controlam o mundo ou planos delirantes para a introdução de migrantes de origem muçulmana com ajudas governamentais.

Até muito recentemente, pressupunha-se que a bucha de canhão para as teorias da conspiração era uma massa uniforme de ignorantes e caipiras capaz de sucumbir às mais absurdas teorias sem nenhuma base em relação à origem do universo, à mudança climática, ou ao atentado das Torres Gêmeas. Mas um artigo recente de Julia Ebner no The Guardianalertou sobre os perigos para a democracia que representam não apenas as teorias conspiratórias, mas também sua construção material, seu arcabouço. Ebner citou o exemplo da comunidade Qanon, que começou no fórum 4chan, e com claros paralelos com as redes de ação de movimentos de extrema direita como o a Liga da Defesa Inglesa e o Pegida. Nos últimos tempos, Qanon cooptou manifestações dos coletes amarelos e promoveu as campanhas da linha mais dura pró-Brexit. O relatório The Battle for Bavaria (A Batalha pela Baviera), do Institute for Strategic Dialogue, do qual Ebner fez parte, usa um estudo de caso: as eleições bávaras. Nele se detalha como a comunidade internacional de extrema direita se mobilizou, principalmente a favor da ultradireitista Alternativa para a Alemanha, e revelou quais são as novas comunidades transnacionais de extrema direita que emergem na Europa e como participaram ativamente da eleição da Baviera, difundindo teorias de conspiração e desinformação com aliados transatlânticos.

Ebner explica como, ao injetar narrativas conspiratórias nesses movimentos, seus membros podem aproveitar as redes existentes e alterar sua direção política. Uma tática usada é combinar hashtags conspiratórias com as de campanhas virais e temas que são trending topic nas redes. O ruído que gera é suficiente para distorcer a percepção pública.

Talvez se deva deixar de entender essa narrativa de desinformação como algo antropologicamente curioso, típico de uma massa desinformada risível, e entender que se trata de um exercício de tentativa e erro. Se se é capaz de criar canais para que alguém pense que um reptiliano bebe o seu sangue e controla o seu voto, ou que vivemos em um gigantesco terrário, é muito mais fácil de implantar e naturalizar que os imigrantes recebem mais ajudas do Estado do que o resto, ou que a mudança climática é uma enorme teoria da conspiração.

Teremos que fiscalizar essas narrativas, e também verificar quão reais são as tentativas das grandes plataformas de detê-las. Por exemplo, dois dos grandes criadores de conteúdo do YouTube, Logan Paul e Shane Dawson, publicaram vídeos flertando com teorias da conspiração – o terraplanismo e a orquestração dos incêndios na Califórnia. O vídeo de Dawson ultrapassou 62 milhões de visitas. Diante da pergunta do The Verge ao YouTube sobre se as novas regulamentações anunciadas pela empresa seriam aplicadas a esses vídeos, o YouTube não esclareceu sua decisão. Mas respondeu que ao vídeo sobre terraplanismo não será acrescentada informação refutando a teoria.

Oh, sim. Estes são tempos de lagartos.
Luzia Lijtmaer

quinta-feira, 21 de março de 2019

Brasil e a anorexia presidencial


Problema de Sergio Mora é Bolsonaro, não Maia

Prestes a completar três meses na capital da República, Sergio Moro começa a se dar conta de que Millôr Fernandes é que estava certo: "Em Brasília, o vento que passa, os perfumes que chegam com a primavera, a própria prima Vera, tudo o que se vê, se sente e se respira, conspira." Pouco afeito às mumunhas do Executivo, Moro não consegue farejar a própria execução.

Moro trocou a 13ª Vara Federal de Curitiba pelo Ministério da Justiça porque estava "cansado de tomar bolas nas costas" Achava que seu trabalho na Lava Jato "era relevante, mas tudo aquilo poderia se perder se não impulsionasse reformas maiores, que não poderia fazer como juiz". As bolas continuam pingando no seu costado. E começou a levar caneladas.



No planeta da Lava Jato, Sergio Moro era o magistrado todo-poderoso. E Rodrigo Maia, o "Botafogo" da planilha da Odebrecht. No universo brasiliense, Moro é o patrono de projetos anticrime e anticorrupção. Maia, o dono da pauta da Câmara. Em Curitiba, Moro mandava prender. Em Brasília, ele é aprisionado no labirinto legislativo.

Até outro dia, Moro divulgava conversas alheias para atear fogo no circo. Hoje, libera autogravações para tentar evitar que o façam de palhaço. Na madrugada de quarta-feira, enviou áudio para o celular de Maia pedindo pressa na votação dos seus projetos. Ele está "trocando as bolas", ironizou Maia, antes de chamar o ex-super-juiz de "funcionário do presidente Bolsonaro".

Maia deu de ombros para Moro: "Ele conversa com o presidente Bolsonaro e, se o presidente Bolsonaro quiser, ele conversa comigo. Eu fiz aquilo que eu acho correto. O projeto [de Moro] é importante. Aliás, ele está copiando o projeto direto do ministro Alexandre de Moraes [do STF]. É um copia e cola. Não tem nenhuma novidade, poucas novidades no projeto dele."

Na noite de quarta, Moro levou os lábios ao trombone em novo áudio, dessa vez dirigido às arquibancadas. Nele, insinuou que Maia conspira contra o interesse público e pediu respeito à sua figura e aos seus projetos. Mesmo quem não entende nada de política consegue enxergar as politicagens que escapam à perspicácia de Moro.

O nome do problema de Sergio Moro é Jair Bolsonaro, não Rodrigo Maia. Daí a frase: "Ele conversa com o presidente e, se o presidente quiser, ele conversa comigo". O pacote de Moro migrou da vitrine para os fundões da loja porque Maia e os líderes partidários querem. Mas o movimento não ocorreria com tamanha facilidade sem o aval tácito de Bolsonaro. Tudo em nome da reforma da Previdência.

Os fantasmas só aparecem para quem se apavora com eles. Antes de engrossar a voz no áudio sobre Maia, Moro tremeu duas vezes. Numa, concordou em transferir a criminalização do caixa dois do pacote principal para um projeto anexo, mais fácil de ser esquecido. Noutra, dobrou os joelhos diante da exigência de Bolsonaro para que desnomeasse Ilona Szabó.

Ficou entendido o seguinte: aquele ministro sem forças para nomear uma conselheira gabaritada para um conselho reles da pasta da Justiça não era o velho Moro, mas um ex-Moro. Em política, tem gente que faz, tem gente que manda fazer e tem gente como o ex-Moro, que apenas pergunta: "O que está acontecendo?"

Da felicidade

Sempre que vejo nos noticiários da política e dos negócios alguns daqueles com quem tive 20 anos, pergunto-me se os nossos 20 anos terão sido um sonho ou se, como temo, é a mesquinha, quando não sórdida, actualidade que é um pesadelo dos nossos 20 anos.

Olhando agora alguns deles ninguém diria que tiveram um dia 20 anos. Mas tiveram. Eu vi. Eu estava lá. Cantei com eles as mesmas canções. Jurei com eles pelas mesmas palavras desmesuradas, acreditei com eles nas mesmas coisas essenciais. Que aconteceu para que alguns de nós tivessem desertado tão facilmente e por um preço tão baixo, transformando-se naquilo contra que tiveram 20 anos e falando agora cinicamente de si mesmos como se falassem de estranhos?

Dante colocá-los-ia, como aos anjos que não foram rebeldes nem fiéis a Deus e pensaram só em si próprios, à porta do Inferno. Eu não sou, porém, tão severo. Personagens (como todos, de um modo ou de outro, somos) de uma tragédia medíocre, a da "vidinha", às vezes dói-me vê-los a tanta falta de escrúpulos à venda sem haver quem a compre. E pergunto-me: não serão eles, no fim de contas, os mais sólidos e mais fiéis, não terão sido, afinal, os únicos que compreenderam e aceitaram?
Manuel António Pina

Bolsonaro corteja, Trump recompensa

Será este o início de uma grande amizade masculina entre o presidente americano Donald Trump e o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro? É possível que Trump esteja descobrindo seu amor pelo maior país da América do Sul?

Já faz tempo que o presidente brasileiro flerta com o dealmaker na Casa Branca. Mas Bolsonaro não é um latin lover – ele seduz com notícias falsas, não com charme. Depois do encontro com Trump, ficou claro que não houve faíscas reais durante a visita.


Ainda assim, Bolsonaro assinou um acordo para a operação conjunta da base de Alcântara, de lançamento de foguetes e satélites, com os Estados Unidos. O contrato, que prevê lucros de milhões de dólares para o Brasil, ainda precisa ser ratificado pelo Congresso brasileiro. Além disso, Bolsonaro conseguiu fazer com que Trump se pronunciasse publicamente pela inclusão do Brasil na Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Esse balanço não impressiona. Sinceramente: por que Trump deveria se entusiasmar com o admirador brasileiro? Porque ele reproduz as frases vazias do americano, como um papagaio? Porque, como Trump, ele condena as mudanças climáticas e a globalização? Porque ele calunia e tuita também?

Bolsonaro parece ter percebido que suas tentativas de flerte na Casa Branca não causaram mais do que tapas amigáveis nas costas e palavras de estímulo. Por isso, ele aproveitou a oportunidade para um curto encontro com Steve Bannon, o estrategista-chefe afastado do governo Trump.

A gafe diplomática vai ricochetear no casca-grossa político Trump. Faz tempo que o presidente dos EUA se apaixonou por outro sul-americano: há meses, ele se derrete pelo autodeclarado presidente interino da Venezuela, Juan Guaidó.

Bolsonaro fez de tudo para conquistar a afeição de Trump. Desde sua posse em janeiro deste ano, ele anunciou que vai transferir a embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém. Também tinha a intenção de deixar o Pacto Global de Migração das Nações Unidas e o Acordo de Paris pelo clima. E, durante sua visita aos EUA, Bolsonaro anunciou o fim da exigência de vistos para entrada de cidadãos americanos no Brasil.

Com exceção da última medida, os anúncios se revelaram promessas vazias. Bolsonaro e seu chanceler Ernesto Araújo precisaram tomar conhecimento de que uma embaixada brasileira em Jerusalém poderá significar o fim do lucrativo comércio de carne "halal" com o mundo árabe. E que uma saída do Acordo do Clima de Paris poderia levar ao abandono das negociações de um acordo de livre-comércio entre a União Europeia e o mercado comum sul-americano Mercosul.

Olhando mais de perto, é uma demonstração de força verbal que se esconde por trás da aparente afinidade entre Washington e Brasília. A união ideológica exibida por Trump e Bolsonaro não dissimula que os interesses em comum dos dois países são poucos.

Primeiro exemplo: Venezuela. Ainda que Trump e Bolsonaro celebrem seu ódio comum ao "socialismo do século 21" e que queiram se livrar do governante Nicolás Maduro, não conseguem encontrar uma estratégia de ação comum. Para Bolsonaro, o apoio a uma eventual intervenção militar na Venezuela é tabu – são especialmente os numerosos militares no seu governo que nunca permitiriam uma aventura do gênero.

Segundo exemplo: a China. Por que o Brasil deveria atuar na campanha anti-China dos americanos se isso pode prejudicar as relações com seu maior parceiro comercial? Afinal, o Brasil exporta mais do que o dobro de produtos para o chamado Império do Meio do que para os EUA.

Terceiro exemplo: livre-comércio. Os Estados Unidos fecharam acordos de livre-comércio com onze países latino-americanos. O Brasil não faz parte deles. O motivo: as gamas de produtos dos dois países não se complementam. Pelo contrário: no mercado mundial, são concorrentes na produção de carne, soja, milho e automóveis.

"America First" e "Brasil acima de tudo" – os antiglobalistas Trump e Bolsonaro apostam em atuações unilaterais em vez de na cooperação internacional. Sua cegueira ideológica leva para um beco sem saída na política externa. Para a comunidade internacional, esta é uma boa notícia, já que a realidade complexa freia os dois populistas de direita.
Deutsche Welle

Pensamento do Dia


Brasil cai quatro posições no ranking de felicidade da ONU

Finlândia, Noruega, Dinamarca, Islândia e Suíça competem pelo primeiro lugar no ranking mundial dos países mais felizes, que a ONU inclui todos os anos em seu Relatório Anual da Felicidade. A edição de 2019 foi publicada nesta quarta-feira, 20 de março, coincidindo com o Dia da Felicidade, e o vencedor se repete: a Finlândia é, pelo segundo ano consecutivo, o país mais feliz do mundo para as Nações Unidas. Já o Brasil perdeu quatro posições, passando do 28º lugar para o 32º em relação à última edição.


Este relatório leva em conta variáveis como o Produto Interno Bruto, a assistência social, a expectativa de vida, a liberdade, a percepção de generosidade, a corrupção e a qualidade de vida dos imigrantes. É preparado pela Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável – um órgão de pesquisa multidisciplinar ligado à ONU –, com a colaboração de fundações e centros de pesquisa, e inclui dados dos últimos três anos.

A parte superior da tabela deste estudo permanece inalterada: os 10 primeiros países do ranking são os mesmos há anos, embora com algumas mudanças de posição. A Noruega, por exemplo, que havia sido a primeira no relatório de 2017, caiu para o segundo lugar em 2018 e o terceiro em 2019. Este ano, o segundo lugar é para a Dinamarca. O último, para o Sudão do Sul, um país devastado por uma guerra civil que já dura cinco anos e pela fome. No total, o relatório avalia 156 países.
Tecido social e liberdade

A Finlândia, que geralmente está entre os três primeiros deste estudo, lidera a classificação há dois anos. Segundo o relatório, os países que ocupam as primeiras posições "tendem a ter pontuação alta na maioria das variáveis consideradas fundamentais para o bem-estar: renda, expectativa de vida, apoio social, liberdade, confiança e generosidade". A Finlândia, diz o relatório, "continua sua tendência de alta nas pontuações, consolidando o primeiro lugar".

Entre as razões que fazem da Finlândia o país mais feliz do mundo para as Nações Unidas está a qualidade de sua educação, seu sistema de saúde, expectativa de vida (embora a Espanha o supere: 83 anos em comparação com os 82 da Finlândia) e conscientização sobre a desigualdade.

A Finlândia é um dos países com a menor diferença salarial entre homens e mulheres, de acordo com o último relatório do Fórum Econômico Mundial. Além disso, como a maioria dos países nórdicos, tem uma longa licença-paternidade que pode durar até seis meses.

Em termos de treinamento, a Finlândia ainda tem a melhor educação primária, segundo o Fórum Econômico Mundial. Além disso, é o terceiro país do mundo em termos de qualidade do ar e o país com mais florestas na Europa. 

Presunção

O homem julgaque suas deblateraçõessoam como liçõese que seus intestinossoam como violinos.
Raul Drewnick

Vélez, Iolene e a degraça do futuro da nossa educação

"Uma educação baseada em princípios é uma educação baseada na palavra de Deus”, explica a senhora no vídeo. “Onde a geografia, onde a história, a matemática vai ser vista sobre a ótica de Deus, numa cosmovisão cristã. Então o aluno vai aprender que o autor da história é Deus. O realizador da geografia é Deus. Deus fez as planícies, Deus fez os relevos, Deus fez o clima. O maior matemático foi Deus. Ele começa a palavra lá em Gênesis, no primeiro dia, no segundo dia, no terceiro dia... Então para os alunos, por exemplo os menores, de primeiro ano, todo o contato que eles têm com a matemática já é no Livro de Gênesis. Então é toda a disciplina do currículo escolar organizada sobre a ótica das escrituras”.

A senhora que diz essas coisas, com esse português, com essas preposições e com essa concordância, é uma certa Iolene Lima, de quem, até outro dia, e por todos os motivos, ninguém tinha ouvido falar. Há seis dias, porém, Iolene foi indicada à Secretaria Executiva do Ministério da Educação por Ricardo Vélez Rodriguez, e desde então muita gente perdeu o sono — a começar pelo próprio ministro, que com certeza já não dorme bem há umas duas semanas, e que, segundo o noticiário, corre agora o risco adicional de ver a sua nomeada rejeitada pela Casa Civil.


Não encontro palavras publicáveis para descrever minha reação ao vídeo da senhora Iolene. Talvez porque eu venha de um tempo em que o Ministério da Educação era tido como um ente superlativo, habitado por pessoas que tinham intimidade com o idioma e com a educação; ou talvez porque venha de um tempo em que o estado pelo menos se pretendia laico.

Também pode ser que o meu assombro venha do fato de estarmos em 2019, e de eu ainda acreditar que 2019 vem depois de 2018, 2017, 2016... ou 1950, 1837 ou 1340.

As declarações de Iolene seriam pitorescas se não fossem catastróficas, e se não representassem tão vivamente o fundamentalismo religioso e a abissal ignorância que se vê em tantos setores e níveis do governo. A confirmação ou não da sua nomeação é indiferente, até porque as eventuais objeções feitas ao seu nome não foram motivadas pelo seu discurso, mas sim por ser protegida do já defenestrado Ricardo Roquetti.

O verdadeiro escândalo não é que Iolene seja guindada à Secretaria Executiva do Ministério da Educação. O verdadeiro escândalo é que trabalhe lá, e isso ela já faz desde janeiro, como diretora de capacitação técnica, pedagógica e de gestão de profissionais na Secretaria de Educação Básica. O verdadeiro escândalo é ter um ministro que comunga das suas ideias, e que a considera apta a orientar educadores.

A essa altura, e há quantos anos, quantas Iolenes já não ocupam cargos por toda a parte, por todos os ministérios, voando nas asas da bancada evangélica? Quantas Iolenes já não estão espalhadas pelo país, a começar pelo Rio de Marcello Crivella?

Pessoas não acontecem ao lado das outras por acaso, não aparecem do nada em cargos importantes. Iolenes se cercam de outras Iolenes (ou de Damares, ou de Ernestos Araújos).

Vélez é Iolene: essa é a desgraça do nosso futuro.

Gente, isso não é normal

Não é normal que um presidente da República do Brasil se desmanche em elogios escancarados ao presidente da República de outro país, ou ao Chefe de Estado que acaba de visitar. Os elogios devem ser protocolares, discretos, quando nada para que não fique a impressão de que foi subserviente, ou de que se comportou simplesmente como um jeca.

Não é normal que um presidente da República do Brasil, ao cabo de uma viagem ao exterior, seja apontado pela imprensa estrangeira como um bajulador do anfitrião. Presidentes da República do Brasil já foram criticados pela imprensa internacional por outros motivos – uns por chefiarem governos ditatoriais, outros por se revelarem incompetentes, mas não por isso.

Não é normal que um presidente da República do Brasil interfira em assuntos internos do país que visita desejando a quem o recepciona que se reeleja, ou dizendo com todas as letras que acredita em sua reeleição. E se ela não acontecer? Como poderá contar no futuro com a boa vontade do novo governo que ele mesmo desejou que fosse derrotado?

Não é normal que um presidente da República do Brasil, em visita a outro país, faça declarações tão repulsivas contra seus compatriotas forçados um dia a deixarem o local onde nasceram à procura de melhores condições de vida. E que chegue ao ponto de afirmar que apoia a construção de um muro para separar o país que visita dos seus vizinhos.

Não é normal que um presidente da República do Brasil, em visita a outro país, deixe seu ministro das Relações Exteriores em posição subalterna para valorizar a presença de um dos seus filhos, parlamentar reeleito, cada vez mais influente nas decisões de política externa tomadas por seu pai, e fã de carteirinha do presidente do país visitado a ponto de merecer suas deferências.

Por fim, não é normal que um presidente da República do Brasil, em visita a outro país, peça para conhecer a sede de uma das maiores agências de espionagem do mundo, famosa ao longo de sua história por financiar golpes contra presidentes legitimamente eleitos, e manter bases secretas no exterior onde tortura presos políticos. Definitivamente, não é normal.

Se nenhuma dessas coisas é normal, seria possível engoli-las caso o resultado da visita configurasse um retumbante êxito – mas não. Por tudo conhecido até aqui, o visitante concedeu muito mais do que obteve. Dizem seus devotos que a boa química estabelecida entre ele e seu anfitrião dará preciosos frutos. O futuro a Deus pertence. O Deus do visitante sequer é o mesmo Deus do visitado.

quarta-feira, 20 de março de 2019

Organograma presidencial


Bolsonaro com Trump: só faltou pedir autógrafo

Jair Bolsonaro realizou um sonho. O presidente não disfarçou a emoção ao despontar ao lado de Donald Trump nos jardins da Casa Branca. Parecia um garoto diante de um ídolo do futebol. Só faltou pedir autógrafo.

É normal que líderes de nações amigas troquem gentilezas em público. Bolsonaro foi muito além do protocolo. Disse que sua admiração pelos EUA aumentou depois da eleição de Trump. Imitou chavões do anfitrião, que costuma acusar os críticos de difundir “fake news”. Depois afirmou que acredita “piamente” na reeleição do republicano.

“Obrigado. Eu concordo!”, gracejou Trump. A declaração pode causar problemas ao Brasil se o Partido Democrata voltar ao poder em 2020.

Na véspera, Bolsonaro escolheu a Fox News para uma entrevista exclusiva. Apesar da proximidade com o governo local, a emissora não poupou o convidado. “Nunca ninguém emulou tanto o presidente Trump como o presidente do Brasil”, resumiu. O brasileiro foi apresentado como um político de “extrema direita”, que manteria “intensas relações familiares com policiais corruptos e gangues paramilitares”.

Para afagar o aliado, Bolsonaro elogiou a ideia de erguer um muro na fonteira com o México. Depois afirmou que “a grande maioria” dos imigrantes “não tem boas intenções nem quer fazer bem ao povo americano”. Ontem ele tentou corrigir a frase, que ofendeu milhares de brasileiros. “Peço desculpas aí”, disse.

O presidente voltou a apequenar o Itamaraty na visita. Ele levou o filho Eduardo para a conversa com Trump no Salão Oval, enquanto o ministro Ernesto Araújo ficou do lado de fora. A escolha reforçou a ideia de que o Brasil tem um chanceler decorativo. Quem manda na diplomacia é o Zero Três.

No front comercial, Bolsonaro trocou vantagens concretas por promessas que podem ou não se realizar. Ele abriu mão de benefícios na OMC, retirou os impostos da importação de trigo americano e liberou o lançamento de foguetes na Base de Alcântara. “Economizaremos muito dinheiro”, festejou Trump, enquanto o brasileiro sorria a seu lado.

Quem muito alardeia, algo esconde


O inimigo é a mente gramofone, concordemos ou não com o disco que esta sendo tocado no momento
George Orwell, "Como morrem os pobres"

Pobres pagam mais pela água do que ricos

A ONU divulgou nesta terça-feira seu relatório mundial sobre o desenvolvimento dos recursos hídricos, que destacou que mais de 2 bilhões de pessoas não têm acesso a uma fonte adequada de água potável e que um número ainda maior, 4,3 bilhões, não têm saneamento básico.

"Melhorar a gestão dos recursos hídricos e fornecer a todos o acesso a água potável e saneamento seguros e acessíveis financeiramente são ações essenciais para erradicar a pobreza, construir sociedades pacíficas e prósperas e garantir que 'ninguém seja deixado para trás' no caminho rumo ao desenvolvimento sustentável", afirma o texto divulgado pela Unesco e intitulado Não deixar ninguém para trás.

De acordo com o documento, estudos internacionais mostram bons retornos sociais e econômicos de investimentos em serviços de água, saneamento e higiene.

O relatório alerta que um futuro de crescente escassez é previsível, o que trará efeitos negativos para a economia global. Até o ano 2050, 45% do Produto Interno Bruto (PIB) global e 40% da produção mundial de grãos serão ameaçados por danos ambientais e falta de recursos hídricos.

O uso de água tem aumentado cerca de 1% ao ano em todo o mundo. A taxa deve se manter estável até 2050, quando a demanda representará um acréscimo de entre 20% e 30% em comparação aos níveis atuais, puxada pelos setores industrial e doméstico. Hoje mais da metade da população mundial não tem acesso a água limpa e saneamento.

Na América Latina e Caribe, afirma o relatório, milhões ainda vivem sem fonte adequada de água potável, enquanto um número ainda maior não dispõe de saneamento. Esses grupos estão concentrados nos cinturões de pobreza das periferias de muitas cidades.

Segundo a Unesco, em muitos países da região, a descentralização deixou o setor de abastecimento e saneamento fragmentado, "composto por inúmeros prestadores de serviço, sem reais possibilidades de alcançar economias de escala ou viabilidade econômica" e sob a responsabilidade de municípios sem recursos e incentivos necessários para abordar a complexidade do problema de forma efetiva.

Mesmo na Europa e nos Estados Unidos, 57 milhões de pessoas não têm encanamento em casa e 36 milhões não têm saneamento básico, afirmou a diretora-geral da Unesco, Audrey Azoulay, na apresentação do estudo. Entre outros, comunidades do Canadá e da Índia têm desvantagens severas, já que 40% delas possuem apenas água potável de qualidade baixa, o que acarreta consequências para a saúde.

Além disso, mais de 2 bilhões de pessoas vivem em países com "alto estresse hídrico" – onde mais de um quarto da água disponível é consumida. Estudos recentes apontam que mais de 50 países são afetados por estresse hídrico e que em alguns deles cerca de 70% dos recursos já estão sendo usados.

Assim, grandes reservas são consumidas e a disponibilidade de água chega ao limite. Mais de 20 países são afetados, incluindo Egito e Paquistão.

Um fardo maior para os pobres

O título do relatório da Unesco se refere a um aspecto chave do levantamento: a desigualdade do acesso. Pessoas que são pobres ou sofrem discriminação social têm maior probabilidade de ter acesso limitado a água e saneamento adequados, observou o relatório.

Como exemplo de grupos desfavorecidos e que experimentam desigualdades "na garantia de seus direitos humanos a água potável e saneamento seguro", o documento cita pessoas que sofrem discriminação por causa do sexo, idade, etnia, religião, além de minorias de outra natureza, como indígenas, migrantes e refugiados. No entanto, a pobreza é o fator de destaque.

Segundo o editor-chefe do relatório, Rick Connor, casas urbanas ricas com água encanada tendem a pagar muito menos por litro de água, enquanto pessoas pobres que moram em favelas muitas vezes precisam comprar água de caminhões, quiosques e outros fornecedores, gastando cerca de 10 a 20 vezes mais.

"A percepção errada é que eles não têm água porque não podem pagar por ela — e isso está completamente errado", disse Connor à Fundação Thomson Reuters.

Quase metade da população que consome água potável de fontes desprotegidas no mundo vive na África Subsaariana, onde apenas 24% dos habitantes têm acesso a água potável segura.

Diante dos resultados do relatório, Ulla Burchardt, do Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD) e membro da comissão alemã na Unesco, afirmou que a Alemanha pode fazer mais.

Embora o país esteja no caminho certo no âmbito da garantia dos direitos à água, "somos parcialmente responsáveis pelos grandes problemas em outras regiões do mundo, como a importação de algodão ou de carne bovina, cuja produção pode demandar uso intensivo de água", declarou Burchardt.

"A garantia de acesso à água e ao saneamento são direitos humanos", disse ela. "Mas bilhões de pessoas não têm esses diretos concretizados", completou.

Deutsche Welle

Os canhoto e o plausível

Sempre fui canhoto e somente agora, com 82 anos, é que virei um canhestro ambidestro, usando a mão direita para sustentar o peso da minha velhice. Parafraseando Sartre, a aparência, conforme amavelmente me afirmam, é razoável; mas a essência (que é minha) vai se aguentando como pode.

O fato concreto é que me entendo como canhoto. Usar a mão e o pé esquerdos é imanente ao meu ser porque não me foi ensinado. Pelo contrário, o que tentaram fazer comigo foi corrigir-me, tratando meu canhotismo como um defeito. “Robertinho é canhoto...”, diziam resignados e para espanto meu os pais, avós e tios. Meus irmãos e amigos — porém, submetidos às mesmas opressões daquilo que chamamos de “processo de socialização” ou de “civilização”, que nos mandava calar a boca e a descobrir que “criança não tem vontade” — achavam bacana os meus surpreendentes chutes de esquerda.


Na escola primária, fui assediado por colegas por ser um eterno novato chamado de “mata!” ou “da mata...” e por meus professores por escrever com a minha mão certa que, aprendi, era errada. Um dia, levei uma reguada na mão esquerda. Um acontecimento que o velho em mim enxerga como importante mas pequeno, diante das outras pauladas que ganhei na vida depois de “grande”.

Os eventos chocantes ocorridos numa escola — lugar destinado ao compreender, explicar, valorizar e afirmar a transmissão de ideais ou valores entre gerações, nisso que chamamos de “educação” — nos põem diante do absurdo. Eles nos confrontam com uma plena ausência de plausibilidade moral. Pois quando a agressividade e a violência assassina dos tiros substituem a paciência e a sabedoria das palavras, rompem-se as rotinas. O súbito sumiço do regular nos leva a uma busca desesperada de rumo dentro de nós mesmos.

Em outra parte do mundo, entretanto, num país que no nosso modo reacionário de pensar seria, por definição, melhor e “muito mais civilizado do que o Brasil”, ocorre algo do mesmo teor em mesquitas. Em templos islâmicos que, tal como na escola e na universidade, se busca minorar o sofrimento e se salientam a esperança e a fé num mundo melhor.

Esses rompimentos violentos de rotinas — fundados na ignorância, crueldade, radicalismo, negação absoluta da realidade, má-fé e agressão em todos lugares mas, acima de tudo, nos países permanentemente tidos como modelares e “civilizados” — deveriam nos levar a duvidar, ou ao menos questionar, se realmente existe alguma comunidade imune aos dilemas humanos; se alguma religião, regime econômico ou político resolveu de modo cabal os problemas decorrentes dos valores, hábitos e rotinas instituídos, os quais reprimem e entram em conflito entre si.

Tudo indica que não há neste mundo humano, reiteradamente programado e reprogramado, nenhuma receita infalível de felicidade e plenitude além e aquém das que continuamos a seguir tenaz e honestamente. Em nome de Deus, ou debaixo da nobre crença de compreender, rejeitar, aceitar, corrigir e ter o equilíbrio e a coragem para começar de novo...

Se não conseguimos entender um canhoto, como engavetar nas nossas mentes duas guerras mundiais, Hiroshima, Nagasaki, inúmeros conflitos locais e uma permanente “guerra fria”?

Estimado leitor, pare para pensar o seguinte: essas imensas irracionalidades geopolíticas que levaram à morte planejada e legitimada de milhões de vidas transformam em brincadeira de criança o que, transtornados, assistimos com horror em Suzano e na Nova Zelândia.

Não é fácil descobrir como o incrível progresso da tecnologia digital pode, ironicamente, transformar-se num filme de terror. Isso para não pensarmos no aquecimento global, cujos efeitos mostram com uma clareza alarmante como amor e morte estão profundamente relacionados.

A mim me surpreendem as afirmações de que a violência não faz parte da tradição brasileira quando sabemos que o Brasil nasceu e cresceu debaixo da escravidão negra combinada com aristocracia branca. E sem até hoje dar valor à vida intelectual e aos locais onde tal empresa se realiza: as escolas, os museus e as universidades onde as gerações se encontrem para o confronto e para uma indispensável interdependência, esse conceito básico do processo de humanização.

Neste sentido, a ausência de motivos claros para a bestial agressividade ocorrida em Suzano e outros lugares nos obriga a saber mais sobre nos mesmos.

O mal-estar da civilização invocado por Freud em 1930 chega sem aviso prévio. Como uma bofetada ou uma irônica traição. Resta-nos afirmar que o entendimento deve preceder o julgamento e que a compreensão deve ter e ser a prioridade.