quinta-feira, 25 de outubro de 2018

O velho e bom jornalismo tem no contraditório sua principal virtude

Estas linhas poderiam morrer aqui, nesta primeira. Poderia preenchê-las com a transcrição do que disse Merval Pereira em sua coluna em “O Globo” de anteontem, 23.10 (“Retórica de guerra”). Merval disse tudo. Fez homenagem ao velho e bom jornalismo, que tem no contraditório sua maior virtude. Mas quero deixar aqui algumas palavras.

O deputado mais votado da história do país, Eduardo Bolsonaro, filho do candidato a presidente pelo PSL, sobre o fechamento do STF disse algo que jamais poderia dizer, mas o tratamento recebido da mídia não foi o que ela deu a vários petistas (a começar por Lula), que têm feito afirmações gravíssimas contra o Supremo Tribunal Federal.

Os “tempos sombrios” que já estamos vivendo se devem, principalmente, ao antipetismo e à decepção com o PSDB, nossa social-democracia tupiniquim. Dói-me dizer isso, pois fui dos que mais se entusiasmaram quando de sua criação. Os dois são os maiores responsáveis pelo surgimento e pela provável eleição do ex-capitão, que, de fato, não está preparado para governar o país. Poderá aprender governando. PT e PSDB (com ênfase sobre o primeiro) se restringiram a pensar em seu projeto de permanência no poder, e não no bem do país.

Agora, com a vitória previsível de Jair Bolsonaro, a pergunta que nos resta é uma só: como ficaremos todos a partir de 2019? Pergunta igual fez o jornalista Fernando Gabeira em seu artigo em “O Estado de S. Paulo” de 19.10.2018. Não tenho resposta a minha pergunta. Fico com a do Gabeira: não temo (amém!) pela democracia brasileira, mas é bom que permaneçamos em alerta, como o escoteiro.

Espero que, a partir do próximo domingo, à noite, Bolsonaro, se for eleito, chegue à conclusão de que, até aqui, a tarefa que lhe pareceu difícil foi a mais simples. A mais espinhosa, sem dúvida, será presidir um país de 206 milhões de habitantes que, por livre escolha, elegeu, em 1988, a democracia como seu encantado sonho. Sua missão: uni-lo e pacificá-lo na liberdade. Esta deve ser a mais importante de todas as tarefas. Os radicais de direita que o escolherem pensando noutra coisa, vale dizer nas bravatas que deixou escapar (não só durante a campanha), poderão se frustrar. Muitos o deixarão. Outros poderão juntar-se aos radicais da esquerda... Suas ideias suicidas não terão vez. Na cata de votos, que o ex-capitão tenha sido só esperto.

Só depois da posse de Jair Bolsonaro na Presidência da República (se ele chegar lá…), quem sabe na divulgação dos nomes que o ajudarão a governar, ficaremos sabendo o que realmente pretende o ex-capitão, que, ao longo de três décadas como parlamentar, soube bravatear. Espera-se que tenha aprendido como funciona nossa democracia, que tem defeitos, mas tem qualidades, e que respeite nossa Constituição. Não me atrevo a apostar, desde já, em seu retumbante fracasso. É coisa de quem gosta de sofrer por antecipação. Aos mais céticos, que nunca enxergam a esperança, sugiro uma revoada sobre os 13 anos e pico de governos do PT. Ou sobre o desabafo de Cid Gomes.

Discordo do físico Rogério Cezar de Cerqueira Leite. A opção por Bolsonaro não significa escolher a barbárie; a opção por Haddad não significa escolher a civilização. Bolsonaro é um risco, mas a permanência do PT no poder também representaria risco para o país. A maioria dos eleitores quer seu distanciamento para que reflita bastante sobre a derrota que deverá sofrer e sobre os graves erros que cometeu.

A alternância no poder poderá cuidar do país.

Por que votarei nulo

Defendo a democracia liberal, caracterizada pelo respeito às liberdades individuais, entre elas a liberdade de expressão, a conquista do poder pelo voto popular e a possibilidade real de alternância de poder. 

Do ponto de vista econômico, sou adepto do livre mercado e favorável à existência de alguma rede de proteção social, bem como de políticas que facilitem o acesso à educação.

Com base nisso votei em João Amoêdo, do Novo, no primeiro turno das eleições presidenciais e irei anular meu voto no segundo turno.

Tenho criticado com certa frequência o programa econômico de vários candidatos, precisamente por não estarem de acordo com o que acredito ser o melhor para o país.


Isso é mais nítido no caso de Fernando Haddad (e do eliminado Ciro Gomes), cujas propostas, se implementadas, nos levariam a um desastre como o vivido recentemente em razão da Nova Matriz Econômica, cuja responsabilidade, é claro, é de Dilma Rousseff e do PT.

No caso de Jair Bolsonaro, como pude expressar na semana passada, as críticas não são relacionadas diretamente ao programa econômico (que, de qualquer forma, é para lá de vago), mas ao que acredito ser a baixa probabilidade de adesão do candidato a uma plataforma realmente liberal, expressa, entre outras coisas, na privatização das estatais que ele considera “estratégicas”: Petrobras, Eletrobras, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal (o resto é perfumaria).

Hoje, porém, quem escreve não é o economista, mas o cidadão que acredita no modelo de democracia breve e imperfeitamente descrito no primeiro parágrafo. Nesse quesito, ambos os candidatos deixam muito a desejar.

Elogios à ditadura militar, louvor a um conhecido torturador e outras manifestações do mesmo calibre tornam impossível, para mim, votar em Bolsonaro. Simplesmente não cabem no meu credo, mesmo que fosse possível acreditar em sua conversão ao liberalismo econômico e à austeridade fiscal.

Quanto a Fernando Haddad, bem, em nome da transparência, fomos colegas de mestrado (e, não, ele nunca “colou” de mim, nem do Naércio Menezes), eu o considero um amigo (não sei se a recíproca é verdadeira, mas espero que sim) e uma pessoa de bem. Representa, todavia, forças políticas cujo compromisso com a democracia me convence ainda menos que o liberalismo econômico de Bolsonaro.

Aqui me refiro tanto a propostas concretas (“adormecidas” no segundo turno) —na linha da convocação de uma constituinte e manobras pouco disfarçadas de controle da mídia— como ao histórico do PT, inclusive sua recusa descarada em aceitar decisões do Judiciário. 

Sua autocrítica não vai além do lamento de não terem conseguido controlar instituições como o Ministério Público, a Polícia Federal e as Forças Armadas, além, é claro, de “democratizar a mídia”.

Isso sem se esquecer do “guerreiro do povo brasileiro”, o condenado José Dirceu, que recentemente proclamou que o partido pretendia “tomar o poder, que é diferente de ganhar uma eleição”.

Que me desculpem os amigos que pretendem votar no Fernando em nome da defesa da democracia, mas um partido com tais posições não tem nenhum comprometimento com a causa democrática, além de usá-la como trampolim para “tomar o poder”.

Só me sobra, portanto, anular o voto e torcer para que na próxima eleição apareçam candidatos com posicionamentos mais próximos aos meus, de preferência com reais chances de serem eleitos.

Boa escolha a todos.
Alexandre Schwartsman

Quem paga a conta?

Quando se verifica a situação das contas estaduais, é o caso de perguntar: por que tantos políticos disputam o cargo de governador com tanto empenho? O diagnóstico é simples: há pelo menos cinco anos, a despesa com pessoal (ativos e inativos) cresce acima das receitas; há mais tempo ainda, os governos estaduais foram irresponsavelmente estimulados pelo governo federal a tomar empréstimos para tocar obras caras e que não dão retorno, como os estádios da Copa; vários Estados estão simplesmente dando o cano nos clientes e nos seus credores. A coisa chega ao ridículo: o governo de Minas foi processado para devolver à Toyota uns 500 carros que havia comprado e não pagou. Quer dizer, estava na pior e ainda saiu comprando carros novos.

A situação é mais dramática em Minas, Rio e Rio Grande do Sul, mas nada menos que 16 Estados estão gastando com a folha um valor acima dos limites de prudência definidos pela Lei de Responsabilidade Fiscal.


Numa situação assim – despesas crescendo acima das receitas, com endividamento já elevado – não tem outra saída: aumentar impostos, cortar gastos e renegociar dívidas.

E o cara quer se eleger para isso? – pergunta o leitor de bom senso.
Mas bom senso não é exatamente a coisa mais bem distribuída entre políticos. No caso, os pretendentes a governador acham que não vão pagar as contas. Acham que vão empurrar tudo para os credores, em especial o governo federal.

Considerem o caso do Rio de Janeiro. É o único Estado que está em processo de recuperação fiscal. Com isso, o governo fica dispensado de pagar o serviço da dívida por três anos, enquanto coloca em prática um programa de ajuste que inclui corte de gastos, controle geral de despesas e privatizações para fazer caixa e abater dívidas. Inclui também a proibição de reajustes salariais enquanto durar o programa – o que é uma medida óbvia.

É para esse programa que devem caminhar outros Estados, se o governo federal, patrocinador dos acordos e principal credor, quiser mesmo fazer o ajuste fiscal.

Nenhum candidato a governador se comprometeu com isso, nem os mais atrapalhados. Ao contrário, no Rio, o candidato Witzel acha que o pagamento da dívida deve ser estendido pelo prazo de … 100 anos. Eduardo Paes não gostou da privatização da Cedae, condição necessária para o prosseguimento do programa de recuperação.

Em Minas, que necessita urgentemente do programa e tem boas estatais para vender, os dois candidatos colocaram restrições á privatização.

Em resumo, o presidente eleito tem um problema próprio: a reforma da previdência, de longe a maior despesa, e crescente, da União. Só com os aposentados do INSS, o governo federal compromete quase 50% do gasto total. Com pessoal, mais uns 25%. E o Congresso eleito, pelas primeiras análises, não é propriamente reformista.

Em compensação, o Congresso é sempre amplamente favorável a medidas que facilitem a vida financeira dos Estados, onde se encontra a clientela de deputados e senadores. O Judiciário também tem uma tendência a espetar contas no orçamento federal, incluindo as suas próprias demandas.

Assim, os governadores aliados do presidente eleito vão tentar negociar na base da conversa, da troca de apoio, aquelas coisas. E os de oposição podem escolher a via do Judiciário. A demanda básica será a mesma: empurrar dívidas para Brasília e arrumar uns trocados a mais. Isso para um governo federal cuja dívida bruta caminha na direção dos 100% do PIB.

Assim, a nova equipe econômica terá que fazer dois ajustes fiscais: o seu, da União, e aqueles dos outros, dos Estados.

E para quem a União pode mandar a conta?

Adivinhou: o contribuinte, que pagará na forma de impostos e cortes na prestação de serviços públicos.

Claro, a alternativa responsável está posta: para o governo federal, reforma da previdência, contenção dos gastos com pessoal e muitas, muitas concessões e privatizações para recuperar o investimento. Na relação com os Estados, o governo federal não tem como evitar uma renegociação de dívidas, mas deve exigir contrapartidas efetivas dos governadores;

A ver. Mas os sinais não são bons.

Cabo eleitoral de Bolsonaro, Lula lava as mãos

Veio à luz uma nova carta atribuída a Lula. Nela, o presidiário petista revela-se desnorteado: “Fico pensando, todos os dias: por que tanto ódio contra o PT?'' Prestes a entrar para a história como principal cabo eleitoral de Bolsonaro, Lula escreve como se não tivesse nada a ver com o que chama de “aventura fascista”. Ainda não se deu conta de que nada, no seu caso, tornou-se uma palavra que ultrapassa tudo.

Lula acha que fez muito bem ao país e à sua gente. “Tenho consciência de que fizemos o melhor para o Brasil e para o nosso povo.” Ainda não enxergou no espelho um culpado pelo antipetismo que impulsiona Bolsonaro. Lula avalia que o fato de ter sido tão extraordinário “contrariou interesses poderosos dentro e fora do país.” Os contrariados “tentam destruir nossa imagem, reescrever a história, apagar a memória do povo”, queixou-se.


Para o missivista de Curitiba, o impeachment de Dilma foi culpa do alheio. “Juntaram todas as forças da imprensa, com a Rede Globo à frente, e de setores parciais do Judiciário, para associar o PT à corrupção. Foram horas e horas no Jornal Nacional e em todos os noticiários da Globo tentando dizer que a corrupção na Petrobras e no país teria sido inventada por nós.” Não ocorreu a Lula a hipótese de o PT ter sido associado à corrupção pelo excesso de roubo.

Condenado em primeiro e segunda instância, Lula já teve pedidos de liberdade negados pelo STJ e também pelo STF. Pesquisa do Datafolha constatou que 59% dos brasileiros acham que o pajé do PT deve permanecer preso —51% na tranca da Polícia Federal, 8% em prisão domiciliar. Mas o DataLula, movido por auto-critérios, chegou a conclusões diferentes: “Todos sabem que fui condenado injustamente, num processo arbitrário e sem provas, porque seria eleito presidente do Brasil no primeiro turno.”

Lula precisa encontrar o sósia que transformou o antipetismo numa força política imbatível na temporada eleitoral de 2018. Está entendido que alguém muito parecido com o líder máximo do PT plantou nos seus dois mandatos as raízes do mensalão e do petrolão. É evidente que um sósia de Lula privatizou a Petrobras, entregando-a ao conluio que reuniu burocratas políticos e empreiteiros numa pilhagem jamais vista.

Não há dúvida: um impostor vendeu Dilma ao eleitorado como supergerente impecável. É óbvio que o embusteiro, fazendo-se passar por Lula, aceitou que empreiteiras financiassem com verbas sujas seus pequenos confortos —o tríplex na praia, a reforma no sítio.

A tese da existência de um sósia de Lula é, por ora, a mais confortável para o petismo. A alternativa seria admitir que tudo o que está na cara não passa de uma conspiração da lei das probabilidades contra um inocente. Um inocente que, tendo se convertido injustamente em cabo eleitoral de Bolsonaro, lava as mãos. E tenta sumir com o sabonete.

“Por que tanto ódio contra o PT?”, pergunta Lula aos seus botões, que não respondem, pois desenvolveram uma ojeriza por petistas. “Se há divergências entre nós, vamos enfrentá-las por meio do debate, do argumento, do voto”, sugere o presidiário, recusando-se a ver os detalhes: as divergências que elevaram a rejeição ao PT já não comportam a partícula “se”. Elas existem e são profundas. Hospedeiro da revolta, Bolsonaro dá de ombros para o debate. Ainda assim, um pedaço do eleitorado se dispõe a votar nele.

Ora, a exemplo de Haddad, o capitão chegou ao segundo round pelo voto. E as pesquisas indicam que é pelas urnas que a “aventura fascista” pode ser alçada ao Planalto no domingo. Se quiser, Lula pode continuar tentado ajustar os fatos à sua filosofia de para-choque de caminhão. Mas o melhor seria localizar rapidamente o sósia que deixou o PT sem para-choque e sem nexo. Cartas escritas com o propósito de fazer a plateia de boba já não encontram material.

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Gepeto da nova era


Filosofia

Você quer mesmo saber
como a vida se levar?
Pois é… primeiro viver
e depois, filosofar…

Diz que é rico… Pode ser…
Mas pode ser que não seja…
Ser rico… é apenas poder
fazer o que se deseja…

Nessa eterna e dura lida
renasço a cada momento
lavando as dores da vida
no rio do esquecimento…

Onde o sonhar de outra idade?
A fé que tive, e perdi?
Hoje… chego a ter saudade
daquele … que já morri…
J.G. de Araújo Jorge

Sem debater crise fiscal, candidatos apostam em propostas populistas no final da campanha

A campanha presidencial deste ano começou com a promessa dos candidatos de discutirem uma solução para a grave crise fiscal. Ficou na promessa. O tema não só foi deixado em segundo plano, como os candidatos partiram para propostas populistas nesta reta final da eleição.

Em busca de avançar no eleitorado nordestino, Jair Bolsonaro (PSL) propôs um 13º para os beneficiários do Bolsa Família. Já Fernando Haddad (PT) prometeu, para reconquistar eleitores perdidos para seu adversário, reajustar em 20% o valor pago pelo mesmo programa. Foi além: disse que, se eleito, o gás de cozinha não custará mais do que R$ 49.

Enquanto isso, as equipes dos candidatos do PSL e do PT não tratam das medidas que terão de adotar para reduzir o desequilíbrio das contas públicas, que irão registrar no ano que vem o quinto déficit consecutivo. O rombo em 2019 está projetado em R$ 139 bilhões.


Se não for enfrentado, o país não irá retomar o crescimento sustentável, essencial para reduzir o desemprego que atinge mais de 12 milhões de brasileiros.

O Orçamento da União só prevê um total de cerca de R$ 30 bilhões para bancar o pagamento dos benefícios do Bolsa Família.

A promessa de Jair Bolsonaro vai elevar o orçamento do Bolsa Família em R$ 2,5 bilhões. Ideia lançada em busca de conquistar mais eleitores num território petista, a região Nordeste, única em que o candidato petista bate o do PSL. E a proposta de Fernando Haddad, lançada neste fim de semana na busca de uma reação nesta reta final da campanha, pode custar R$ 6 bilhões.

Enquanto isso, o mercado prefere fingir que não está vendo a onda populista nesta reta final de campanha e vai aguardar o dia depois da eleição para testar as propostas dos candidatos na área econômica. Aposta que vai prevalecer a liberal de Jair Bolsonaro e se dá por satisfeito. A conferir.

Esquerda fetiche

Sempre desconfiei de artistas com pautas políticas. Continuo desconfiando: artista falando de política é puro marketing. Recentemente, tivemos um exemplo no show do Roger Waters e sua “inserção” no debate político brasileiro. Sua crítica é puro fetiche gourmet.

Artistas assim (existem vários exemplos nacionais e internacionais, mas não vou citá-los, você os conhece bem) ganham rios de dinheiro sendo “progressistas”. Trata-se de uma espécie de gourmetização da crítica política, propício a shows de rock and roll.

O mundo da arte, do audiovisual e da cultura é um dos mais violentos e antiéticos da face da Terra. Quem discordar, mente ou desconhece o assunto.


A informalidade e o “capitalismo selvagem” que regem esse campo de negócios é reconhecidamente agressivo. Jovens, e pessoas em geral, são frequentemente explorados em larga escala quando tentam entrar nesse mercado de trabalho. Além de serem mal pagos.

Seja música, seja cinema, seja teatro ou afins, muito do que os artistas criticam no mundo do “capital” à sua volta é prática comum nesses mesmos campos de negócios. Entre a vaidade e a vocação ao abuso, os artistas (não todos, é claro) são menos confiáveis do que a “velha política”.

Outro fator importante é o desconhecimento em mínima profundidade dos temas menos clichês da política contemporânea —que é uma selva densa de problemas sem soluções.

As críticas levadas a cabo por esses artistas são mais marketing profissional e pessoal deles do que propriamente conhecimento instalado sobre esses temas.

O que Waters sabe da realidade brasileira (ou mesmo de outro tópico constantemente tratado por ele, a saber, o conflito israelo-palestino) que não seja fruto da sua própria e distante bolha ideológica ou dos jargões “progressistas”? O que ele sabe que não seja fruto da construção de uma imagem de consumo associado a este mesmo vago conceito de “progressista”?

Há um pacote ideológico que alimenta o marketing de artistas há muito tempo, começando pelo “Che suave”.

O conceito de cognição política, crescente no tratamento do comportamento dos eleitores e agentes políticos em geral, cai bem aqui.

Antes de tudo, um profissional que se dedica (mesmo que, competentemente, do ponto de vista artístico) a música, dificilmente conseguirá reunir tempo e ferramentas específicas para construir um mínimo repertório para realizar uma cognição política minimamente consistente.

Projetar imagens de crianças da África em shows de rock and roll é o que há de mais banal em marketing da própria banda. Aquilo que, de certa forma, era “raiz” em artistas como John Lennon, hoje não passa de estilo “nutella” em bancas milionárias.

Voltando a cognição política, conceito que demonstra a quase incapacidade de profissionais dedicados a política em, de fato, compreender de forma minimamente consistente o mundo político contemporâneo para além do mimimi ideológico, quase nos leva ao impasse cético nas análises de temas políticos, principalmente depois que as mídias sociais trouxeram a superfície a fala de milhares de pessoas que antes eram mudas, e não passavam de objeto de fantasia idealizada por parte desses mesmos profissionais da análise política.

Parte do transtorno e da desorientação que vivemos hoje quando pensamos na democracia não advém da redução da participação popular nas opiniões políticas, mas da saturação aguda dessa mesma participação.

Estamos afogados na “soberania popular” tagarela nos últimos anos. E isso não vai mudar porque as ferramentas de comunicação tendem a dispersar cada vez mais essa tagarelice (que Alexis de Tocqueville, em 1835, já apontava no seu “Democracia na América”).

E venhamos e convenhamos, a música de Waters é grandiosa, mas dizer que “we don’t need no education...” (nós não precisamos de educação) é, como já apontou o psiquiatra inglês Theodore Dalrymple, coisa de adolescente bobo.

Resistir ao fascismo sempre foi, de fato, urgente. Mas, é bom lembrar que o fascismo sempre gostou de grandes surtos coletivos regados a palavras de ordem e multidões.
Luiz Felipe Pondé

terça-feira, 23 de outubro de 2018

O direito ao dissenso

 Assim como a alternância de poder, o direito ao dissenso é um dos pilares da democracia. Devido a isso, os ex-presidentes Collor de Mello e Dilma Rousseff foram afastados do poder — um renunciou antes de ser julgado, outra teve o impeachment aprovado pelo Congresso. E é graças ao direito ao dissenso que o deputado Jair Bolsonaro, a seis dias da eleição, é o franco favorito no segundo turno da disputa pela Presidência da República. Sua eleição, porém, caso ocorra, não será um cheque em branco. Nem o seria se houvesse vencido logo no primeiro turno.


Num ambiente empesteado pelas fake news e pelo ódio ideológico, o discurso de Jair Bolsonaro (via celular) aos manifestantes que o apoiavam na Avenida Paulista, no centro de São Paulo, e em outras cidades do país, corroborou as preocupações quanto à possível vocação autoritária de seu governo e os riscos que isso poderia oferecer à democracia no Brasil. Embora conhecida, a retórica radical do candidato vinha sendo suavizada, mas no domingo recrudesceu.

Bolsonaro adotou um tom ameaçador, num discurso duro, com o objetivo de agradar aos manifestantes, que não condiz com as responsabilidades de um candidato a presidente da República de um país democrático. Ameaçou os seus adversários com a prisão e o exílio, uma atribuição que lhe foge completamente, um dia depois de virem a público declarações infelizes de seu filho Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), dizendo que é possível fechar o Supremo Tribunal Federal (STF) com a mobilização apenas de um cabo e um soldado.

Por muito pouco, o capitão reformado não exumou o velho bordão do regime militar após o Ato Institucional nº 5: “Brasil, ame ou deixe-o!”. Disse: “Essa turma, se quiser ficar aqui, vai ter que se colocar sob a lei de todos nós. Ou vão para fora ou vão para a cadeia. Esses marginais vermelhos serão banidos de nossa pátria”. Há duas interpretações para essa frase. A primeira: os adversários que respondem a processos ou cumprem pena na Lava Jato, como ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, como qualquer cidadão brasileiro, têm direito ao devido processo legal, mesmo com os direitos políticos cassados. A segunda é mais preocupante: a esquerda brasileira é tratada como inimiga do Estado, o que representa uma ameaça às liberdades democráticas.

Bolsonaro é uma alternativa de poder. Como tal, gera expectativas de toda ordem. Por isso mesmo, tem responsabilidades que ultrapassam a de um candidato preocupado em agradar exclusivamente aos seus partidários ideológicos. Tanto isso é verdade que não venceu as eleições no primeiro turno, depende do apoio de uma parcela da sociedade que não o tinha como preferência e optou por outros candidatos. A deriva desse eleitorado para sua candidatura não é uma lei irrevogável de gravidade; se algo pode mudar os rumos da campanha é o medo de que seu governo leve de roldão o Estado de direito democrático.

Outra preocupação tem a ver com o equilíbrio entre os poderes. Engana-se quem pensa que um presidente da República pode tudo. Nosso presidencialismo é muito contingenciado pelo equilíbrio entre os poderes. Ainda que o novo Congresso venha a ter forte representação do PSL, a maior bancada eleita é dos “vermelhos”, cuja legitimidade está fora de discussão. O Congresso sempre será mais representativo do que qualquer presidente da República, pois foi eleito pelo conjunto da sociedade. Finalmente, há que se considerar o poder instalado, o Judiciário, que tem um papel moderador, segundo a Constituição. Pois é o Judiciário que está sendo afrontado e intimidado nesta reta final da eleição, ainda que para isso tenha contribuído bastante as chicanas que o PT vem promovendo, sistematicamente, desde que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi condenado e preso. O Supremo Tribunal Federal (STF), tem razão o deputado Eduardo Bolsonaro, tem só uma caneta. Mas representa a espada da Justiça.

Retórica de guerra

A declaração do deputado Eduardo Bolsonaro sobre fechar o Supremo Tribunal Federal (STF) é absurda e irresponsável, e se torna muito mais grave por se tratar do deputado federal mais votado da história do país, com 1.814.443 votos, e filho do provável eleito à Presidência da República, Jair Bolsonaro.

Estamos vivendo “tempos sombrios”, como adverte o ministro do Supremo Marco Aurélio Mello. Tempos de retórica política leviana e agressiva. Tudo isso constrói um ambiente perigoso, que deve ser rechaçado por todos.


O presidente do STF, ministro Dias Toffoli, disse em nota que “atacar o Poder Judiciário é atacar a democracia”. É justamente esse o conceito que deve prevalecer, independentemente de quem faça o ataque, e da maneira que for. Mas essa agressividade antidemocrática na retórica da nossa política não começou agora.

O ex-presidente Lula, atualmente preso em Curitiba por corrupção e lavagem de dinheiro, há muitos anos investe na retórica do “nós contra eles”, e estimula uma luta política que não respeita os adversários nem as instituições do país. Encontrou agora pela frente um populista de direita sem papas na língua, como ele, e o ambiente político do país ficou perigoso.

O deputado petista Wadih Damous, muito ligado a Lula, já disse explicitamente, há quatro meses, num vídeo postado em sua página no Facebook: “Tem de fechar o Supremo Tribunal Federal”. O deputado reclamava do ministro do STF Roberto Barroso, que, em julgamentos recentes, fora contra as posições da defesa de Lula.

Também o ex-ministro José Dirceu, outro condenado em liberdade condicional, falou recentemente em entrevista ao portal de notícias do Piauí 180 graus que “é preciso tirar todos os poderes do Supremo”. O ex-ministro também disse que é preciso mudar o nome da Corte. “Não sei por que chamam Supremo. Deveria ser só Corte Constitucional”, declarou.

Dirceu defendeu ainda que “Judiciário não é poder da República, é um órgão, mas se transformou em um quarto poder. Se o Judiciário assume poderes do Executivo e do Legislativo, caminhamos para o autoritarismo”.

A oito dias do julgamento do ex-presidente Lula no Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4), quando foi confirmada sua condenação e, consequentemente, decretada sua prisão, a presidente do PT, senadora Gleisi Hoffmann, disse ao site Poder 360 que, para Lula ser preso, “vai ter que prender muita gente, mais do que isso, vai ter que matar gente”.

Essa retórica de guerra havia sido inaugurada pelo próprio ex-presidente Lula. Alguns exemplos: no dia 20 de outubro de 2014, durante um ato de apoio à reeleição da presidente Dilma Rousseff em São Paulo, o ex-presidente voltou a um de seus passatempos prediletos, criticar a imprensa. Dessa vez, citou os nomes de Míriam Leitão, jornalista do GLOBO e da GloboNews, e William Bonner, editor-chefe e apresentador do “Jornal Nacional”, na Rede Globo.

Em outro ato, dessa vez no Teatro Oi Casagrande, no Rio, Lula voltou a ameaçar a mídia com o controle social, censura que o PT tentou diversas vezes nos governos Lula e continua sendo um ponto de seu programa hoje. Disse que a mídia teria que “trabalhar” para que ele não voltasse ao Poder, porque, quando voltasse, teríamos que nos preparar para a regulação.

Citou-me pessoalmente, dizendo que eu pedia sua prisão todos os dias, mas que teria que me preparar. Já em discurso no auditório da ABI, em fevereiro de 2015, em ato ironicamente chamado de apoio à Petrobras, Lula foi além do que já dissera, e afirmou: “Quero paz e democracia, mas também sabemos brigar. Sobretudo quando o Stédile colocar o exército dele nas ruas.”

Em agosto do mesmo ano, no salão nobre do Palácio do Planalto, na presença de cerca de mil integrantes de movimentos sociais ligados ao governo, o presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Vagner Freitas, radicalizou ao discursar em apoio à presidente Dilma Rousseff, alertando estar preparado para barrar qualquer tentativa de tirá-la do poder. “E isso implica, neste momento, ir para as ruas entrincheirados, com armas nas mãos, se tentarem derrubar a presidenta.”

Gente fora do mapa


Vencer e convencer

Mais difícil, mais humano e mais belo que vencer, é convencer.

Vencer está ao alcance dos animais, convencer, não...

O cupim consegue vencer a viga poderosa que sustenta o telhado. Parece incrível como bichinho tão pequeno consegue devorar por dentro madeira tão grossa. Numa briga de galos, o vitorioso deixa o colega e irmão galo vencido, de crista rasgada, de pescoço ensaguentado, não raro estrebuchando pelo chão e morrendo... Gato vence rato. As piranhas sangram e matam mesmo animais grandes como o boi e são capazes de liquidar tranquilamente uma criatura humana...



Claro que o homem também sabe vencer. Vence-se uma partida de damas ou de xadrez. Vence-se um jogo de futebol. Quem é mais forte, derruba e vence um adversário - pode até matá-lo e esfolá-lo...

Quando se diz que um Povo perdeu a guerra e outro venceu, isto quier dizer que quem venceu tinha razão e venceu porque teve a ajuda de Deus para vencer? De modo algum.

E hoje, não raro, é possível vencer uma guerra, e rrasados podem sair não só quem foi vencido, mas o próprio vencedor da guerra.

Quando os Pais, em casa, sem ouvir possíveis razões dos filhos, cortam qualquer discussão, e resolvem e decidem, por vezes esmagando a meninada, vencer, venceram mas não convenceram.

Em uma discussão, quando há quem tenha vozeirão mais forte, quiem sabe, maior poder dialético, não raro amigos que aplaudem, pode haver vencedores, sem que os vencidos saiam convictos...

Não se contentem em vencer. Tenham como desafio permanente convencer e não apenas vencer.

É evidente que em lugar de convencer posso ser convencido. E naão é vergonha nenhuma mudar de ideia, de posição, de ponto de vista, de conduta, se me convencerem de que estou enganado e que havia caminho melhor a seguir...

Para vencer numa discussão, vale o grito, vale até a ameaça... Para convencer, o ideal é que mão se trate de sofisma, o ideal é que ninguém queira me convencer, enganando-me,enrolando-me.

Para convencer, o ideal é que a pessoa esteja convicta, tenha calma, saiba apresentar os argumentos, saiba ouvir, reconheça toda a parte da razão que haja no adversário...

Lembram-se de terem vencido? E lembram-se de terem convencido?

Quem convence nem deve cantar vitória. A rigor, quem vence é a Verdade, é a Justiça. Quando muito, devo alegrar-me de ter ajudado meu Irmão a ver mais claro, a ver que eu estava vendo e ele não.

Experimentem a alegria de trocar sempre mais o vencer pelo convencer.

Estejamos todos, sempre mais, a serviço da verdade, da justiça e do amor. Aceitemos ser convencidos. E quando nos convencerem fiquemos humildes, não apenas por fora... A humildade que só existe por fora, é farisaica e triste. Quando nos couber convencer, tenhamos humildade por fora e por dentro... E alegremo-nos de ter servido à verdade, o que o mesmo que servir a Deus.

Dom Hélder Câmara

No tempo da mentira universal

O tempo das verdades plurais acabou. Agora vivemos no tempo da mentira universal. Nunca se mentiu tanto. Vivemos na mentira, todos os dias
José Saramago

Tempo de 'lacrar' a era da irresponsabilidade

Nesta eleição, contra quase tudo e quase todos, o povo brasileiro, promoveu uma grande faxina eleitoral. Se lamentamos a preservação de certos mandatos, simbolizados pelos de Renan Calheiros, Jader Barbalho e Ciro Nogueira, é forçoso reconhecer que sempre haverá eleitores com tais imagens e semelhanças. Por outro lado, três em cada quatro colegas da trinca sinistra foram devolvidos à planície. E muitos à justiça dos homens.

Diversos indicativos deste pleito sugerem haver chegado ao fim a era da irresponsabilidade. Até o indulgente e leniente STF será atingido com mudanças no seu perfil. Nos próximos quatro anos, duas ou três substituições por aposentadoria o conduzirão a alterações significativas. Isso poderá levar, entre outras consequências, à maior valorização da colegialidade e à coibição do uso abusivo de prerrogativas individuais por seus membros.

A era da irresponsabilidade quebrou o país. Impulsionado pela influência positiva de um ciclo de crescimento da economia mundial, o petismo fez explodir a despesa pública. Já no fim do ciclo, para preservar a bolha da aparente prosperidade geral, o próprio gasto das famílias passou a ser estimulado. Consequências: recessão, êxodo de investimentos, 14 milhões de desempregados, dívida da União próxima do PIB anual e, em julho deste ano, 63,4 milhões de brasileiros com contas atrasadas! São produtos da falta de juízo que casou o keynesianismo de alguns economistas de esquerda com o insaciável populismo eleitoreiro do petismo.

Simultaneamente, o aparelho estatal brasileiro, que já era tamanho XL, passou para a categoria XXL. Povoadas por companheiros, criaram-se 41 novas estatais. Na década petista anterior a 2015, o funcionalismo federal cresceu 28%. Contrataram-se centenas de obras que permanecem paralisadas. A irresponsável Copa de 2014, de tão má memória, desencadeou uma gastança altamente comissionada por todo o país (entre elas as famosas “obras da Copa”). A insanidade atingiu seu ápice com a simultânea realização dos Jogos Olímpicos que deixam reminiscências na crise do Rio de Janeiro e nas já ruinosas instalações esportivas.

A era da irresponsabilidade é um mostruário de lições penosas que – espera-se – tenham cumprido função pedagógica. O Estado brasileiro assumiu um peso insustentável. Também para ele falta dinheiro porque todo item de despesa criado pelo poder público adquire uma espécie de dimensão imanente da eternidade. Subsistirá até a ressurreição dos mortos. Daí a contenção de gastos. Daí, também, os crescentes bolsões de miséria salarial e material em serviços voltados ao atendimento da população nas áreas de segurança, saúde e educação. Simultaneamente, bem à moda da casa, preservam-se no aparelho de Estado núcleos de opulência que, por pura “coincidência”, correspondem aos centros de poder e decisão. Claro.

A mesma sociedade que, nos limites do possível, promoveu sua lava jato eleitoral precisa, agora, cobrar dos futuros detentores de poder todas as providências necessárias para “lacrar” em definitivo a era da irresponsabilidade.
Percival Puggina

Deixem o povo votar em paz!

Há três anos, o Partido dos Trabalhadores (PT) recorria à votação popular que escolhera Dilma Rousseff e Michel Temer para evitar a punição da primeira e a ascensão do segundo por descumprimento da lei, exigindo provas cabais dos crimes, desqualificando delações premiadas e fazendo pouco do Judiciário. Agora, seu candidato, o ventríloquo Lula encarnado no boneco Fernando Haddad, quer anular mais de 49 milhões de votos do adversário, Jair Bolsonaro, do PSL, com base numa notícia de jornal, sem nenhuma comprovação factual, de prováveis riscos que correriam as instituições após sua eventual posse. Seria um golpe se não fosse só mero delírio, talvez tremens: coisa de bêbado que conversa com poste, conforme a piada do capitão reformado e deputado de direita.

Vamos aos fatos. Em 2014, Dilma Rousseff e Michel Temer foram eleitos sob o peso do maior “disparo” de futricas (termo do português vulgar para definir a expressão, definida por Donald Trump e adotada pela esquerda colonizada como bandeira, fake news). Antônio Palocci, coordenador da campanha da primeira eleição do poste Dilma em 2010, contou em delação premiada que esta, por ele coordenada, custou R$ 600 milhões e a segunda, de 2014, R$ 800 milhões. Total: R$ 1 bilhão 400 milhões em propinas. Neste dinheirão não estão computados os milhões em dinheiro vivo empregados para corromper o candidato e chefe da entãosoi-disant oposição, Aécio Neves (PSDB-MG), segundo foi delatado por executivos de duas grandes empresas beneficiadas pelo populismo petista: a empreiteira Odebrecht e o grupo que se tornou o maior produtor e vendedor de proteína animal do mundo sob os auspícios do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o J&F. E parte não desprezível do montante denunciado financiou a sórdida campanha feita contra Marina Silva, da Rede Sustentabilidade, acusada de cúmplice de banqueiros em assaltos à mesa do trabalhador brasileiro.

O PSDB, então já sócio da continuação do governo petista sob o vice do PMDB guindado ao poder pelo impeachment, Michel Temer, acusou os adversários de fraude. Na metade do mandato da chapa vencedora, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), sob Gilmar Mendes, absolveu-a. Conforme o atento relator do processo, ministro Herman Benjamin, não por falta, mas, na certa, “por excesso de provas”. Para alívio dos tucanos, que compartilharam do governo Temer, mas depois tentaram livrar-se do peso de sua impopularidade, o vice que virou chefe ainda tem mais dois meses e meio de mandato a cumprir até entregar o bastão na corrida de obstáculos ao vencedor do segundo turno da eleição, em 1.º de janeiro de 2019.

Durante todo este processo eleitoral a Nação convive com a ameaça do PT de que “eleição sem Lula é fraude”. Mas como o ex-aliado Cid Gomes, senador eleito pelo PDT no Ceará, avisou aos berros aos militantes aliados: “Lula está preso, babaca!”. Ainda assim, o TSE foi conivente com a divulgação de várias rodadas de pesquisa eleitoral que colocavam o preso condenado por furto e lavagem de dinheiro na liderança da preferência popular. Pregou no deserto quem, como o autor destas linhas, avisava que as pesquisas falseavam a verdade, porque o desapreço, para usar um termo módico, da população pelo taumaturgo de Caetés já superava, e muito, a devoção dos asseclas tornados devotos em capelinhas erigidas no mundo para culto dos grupos remanescentes do que restou da esquerda mundial.

No meio do processo, a indignação majoritária contra os 13 anos e meio de desgovernos de Lula e de seu poste sem luz Dilma descobriu a lanterna no fim do túnel no único candidato que atendia aos pré-requisitos básicos para a mudança: o capitão reformado e deputado federal Jair Bolsonaro. Afinal, só ele tinha chance de disputar o trono presidencial contra o PT, suas viúvas e seus aliados públicos ou secretos. Era também o único que não tinha motivos para se queixar de perseguição dos policiais retos, promotores probos e juízes honestos da primeira e da segunda instâncias responsáveis pela devassa e pelo julgamento do maior escândalo de corrupção da História: o mensalão, que continuaria como petrolão. E, last but not least (por último, mas não por menos, ou menas, como prefere fletir o padim Lula), o Quixote disponível para atacar o predomínio das bandeiras com as quais a esquerda conta agora para esconder o fiasco monumental da “luta de classes” de Marx e Engels, Lenin e Stalin: escola com partido, ideologia de gêneros e ecologia contra economia, entre outras.

Desde 2013, as manifestações espetaculares nas ruas, com a bandeira vermelha trocada pelo pavilhão verde-amarelo nos protestos contra “tudo o que está aí”, sinalizavam nessa direção, resultando no verão de 2018 com a moda do “não reeleja ninguém”. Mas os chefões partidários, ciosos da necessidade de garantir a própria impunidade com o foro de prerrogativa de função e outros privilégios, cercaram o forte da resistência com os escudos e armaduras de sempre: voto cativo da miríade da promiscuidade dos 35 partidos de aluguel autorizados pela tolerante “Justiça Eleitoral” (conforme ficou provado na Operação Lava Jato, quase todos), financiamento público bilionário de suas campanhas e o adiamento, se Deus permitir, para sempre da cláusula de barreiras para pôr fim à farra.

Com a aceitação pelo TSE da farsa do candidato oficial cobrindo a cara com a máscara do presidiário, então, o eleitorado em geral concluiu que a opção não seria entre pobres e ricos, direita e esquerda, democratas e nostálgicos da ditadura, mas, sim, entre o capitão e o ladrão. E ela passou a ser entendida e estendida a todos que não querem mais viver sob o jugo do PT, acostumados a FlaXFlu, rinhas de galo e queda de braço.

O PT e Lula foram escorraçados em vários Estados no segundo turno e só não o foram no primeiro da presidencial mercê de ajudas de Ciro Gomes, que queria ser terceira via e teve de se contentar com o terceiro lugar, e de Geraldo Alckmin, que quis encarnar a democracia, mas foi só um anestesista incapaz de ressuscitar a velha política, ao exumá-la. Os outros não tiveram sequer votos suficientes para povoar este parágrafo.

Outra evidência está aí à mão e me envergonho de ser o primeiro a chamar a atenção, de tão lógica que é. Convido os que tremiam de pavor quando viam Lula liderando as pesquisas enquanto o TSE não lhe dava o merecido pontapé no traseiro a me responderem a duas questões. Primeira: se o candidato real do PT disputaria na condição de favorito, por que Fernando Haddad aposentou a máscara de barba que adotou para conquistar os votos dos súditos dele? Segunda: será mera coincidência a rejeição ao candidato fake do PT ter ficado um ponto dentro do terreno da inviabilidade (51,4% na pesquisa CNT-MDA), à medida que cresce o conhecimento do eleitor de sua conexão com o que realmente disputa?

Diante do abismo, Haddad/Lula apelou para duas asas coladas no escolhido com cera, como Ícaro. A primeira é a sombra da ditadura. A eleição virou disputa entre a maioria de eleitores fascistas, neofascistas ou até nazistas contra democratas, representados por signatários de manifestos da “boa causa” e defensores de políticos e burocratas acusados de crime de colarinho-branco. O professor de Ciências Políticas da Universidade Federal de Pernambuco Jorge Zaverucha escreveu sensato artigo no Globo, no sábado, intituladoHisteria, reduzindo essa teoria a pó com dados da História, e não da ficção populista da tigrada. Resumo-o numa sentença simples e lógica: “Bolsonaro sabe que, em caso de golpe, pode perder o emprego, pois um general da ativa tomaria as rédeas do poder”.

Agora o PT apela para o tapetão a partir de uma notícia de jornal dando conta de que os mais de 49 milhões de eleitores no primeiro turno foram levados a esse “desatino” pelo disparo de WhatsApps financiado por caixa 2 de empresas engajadas no antipetismo, que ameaça tomar o poder pelo voto. Em sua coluna diária na Folha de S.Paulo, Hélio Schwartsman escreveu no sábado 20 o seguinte: “Mentiras, rumores e boatos sempre assombraram eleições. A novidade agora é que, com as redes sociais, eles circulam com muito mais rapidez e atingem muito mais gente. Em algumas circunstâncias, quando a disputa é apertada e a corrente de desinformação surge nos últimos instantes, fake news podem definir o resultado do pleito. Não devemos, porém, atribuir poderes mágicos à manipulação eleitoral”.

Mistificação e desespero. Ora, ora, deixem o povo votar em paz!

Brasil de domingo


Bolsonaro precisa parar de industrializar o ódio

Jair Bolsonaro e seu círculo de filhos e colaboradores produzem declarações que poderiam ter sido planejadas no Quartel General do petista Fernando Haddad, que se empenha em pregar no adversário-capitão as pechas de miliciano e golpista. A poucos dias da eleição que testará a confiabilidade das pesquisas que o colocam sentado na cadeira de Presidente da República, Bolsonaro não consegue produzir nada além de raiva.

Respira-se na campanha um ar eletrificado. Versão nacional de Donald Trump, Bolsonaro diz que as urnas eletrônicas estão sujeitas a fraudes. Seu vice, o general Hamilton Mourão, sonha com uma Constituição redigida por sábios. E um de seus filhos, o deputado Eduardo Bolsonado, diz que “pra fechar o STF basta um cabo e um soldado.”

Embora declare estar “com uma mão na faixa”, Bolsonaro comporta-se não como um futuro presidente, mas como um soldado. No domingo, discursou num telão para uma multidão de apoiadores concentrados na Avenida Paulista. Prometeu ''uma limpeza nunca vista na história desse Brasil''. Categórico, declarou: ''Vamos varrer do mapa esses bandidos vermelhos do Brasil''.

Bolsonaro ainda não notou, mas tem inimigos mais perigosos à sua frente: uma crise fiscal sem precedentes, uma economia anestesiada e 12,7 milhões de desempregados. Perder uma eleição é fácil. Difícil é saber vencer. O primeiro passo é parar de industrializar o ódio.

As palavras já eram

Hoje as torturas são chamadas de “procedimento legal”, a traição se chama “realismo”, o oportunismo se chama “pragmatismo”, o imperialismo se chama “globalização” e as vítimas do imperialismo se chamam “países em via de desenvolvimento” . O dicionário também foi assassinado pela organização criminosa do mundo. As palavras já não dizem o que dizem ou não sabemos o que dizem
Eduardo Galeano

Divisão no Judiciário

A eleição presidencial cristalizou uma divisão política e ideológica na cúpula do Judiciário.

Parte dos juízes entende ser necessário agir de imediato contra qualquer iniciativa do Executivo ou do Legislativo que contenha laivos de uma visão autoritária, com potencial ameaça à ordem democrática.

É nesse contexto que ocorreram as duras reações dos ministros do Supremo Celso de Mello e Alexandre de Moraes, ontem, sobre a “fórmula” para fechar o STF, apresentada pelo ex-policial e deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP).

Moraes abandonou a habitual discrição e pediu em público um inquérito contra o deputado, filho do candidato presidencial líder nas pesquisas. Levantou a suspeita de crime de incitação a golpe de Estado, previsto na Lei de Segurança Nacional.

Outros integrantes do comando do Judiciário seguem por trilha distinta. Ofereceram ao candidato Bolsonaro uma ponte para o futuro. Ela lhe permitiria irradiar as ideias sobre a regressão nos direitos civis nos tribunais federais e superiores.

Se as negociações avançarem, é provável que a proposta de Lei de Diretrizes Orçamentárias para 2020 contenha uma reserva para criação de novos tribunais federais.

Assim, o novo governo teria espaço para nomear quase uma centena de juízes na segunda instância e nos tribunais superiores. As escolhas, obviamente, obedeceriam à afinidade com um plano conservador nos costumes e liberal na economia.

Nessa conversa, até agora, rebarbaram-se os custos políticos e o bolso de quem paga a conta. Abstraiu-se o fato de que o Brasil mantém a Justiça mais cara do planeta.

O Judiciário consome 1,3% do Produto Interno Bruto. Significa despesa anual de R$ 364 (US$ 91) no bolso de cada um dos 208 milhões de habitantes. Esse nível de gasto com a Justiça só existe na Suíça, cuja população é 25 vezes menor e tem renda cinco vezes maior.

A perspectiva de poder aumenta o custo do antiliberalismo de Jair Bolsonaro.

As eleições e a crise

A sociedade brasileira ainda não se deu conta da gravidade e da profundidade da crise em que o País se encontra e dos desafios que o novo governo deverá enfrentar. As demandas internas são semelhantes às que tiveram influência decisiva nas eleições americanas, na Argentina, na Colômbia e no México: descontentamento generalizado com a corrupção em todos os níveis, com a crescente violência, a pobreza e desigualdade entre as pessoas e regiões.

A percepção da injustiça (enquanto muitos trabalham, outros continuam a roubar), da falência do Estado (que cresceu muito, aumenta impostos e oferece serviços ineficientes), da desordem pública (com a desobediência às leis), do custo e do tempo perdido com a burocracia crescente, entre outros fatores, gerou o clima que, como em outros países, fez com que os eleitores “ficassem contra tudo que está aí”. As preocupações se concentraram sobretudo na necessidade de estabilidade econômica, austeridade fiscal e governança da administração pública. A nossa carga tributária é uma das maiores do mundo, a economia permanece fechada e a desindustrialização afeta todos os setores. O País dividido entre “nós e eles”, a classe política, o Congresso e mesmo o Judiciário com baixo nível de aceitação pela opinião pública expuseram as flagrantes deficiências do governo.


Na campanha eleitoral deste ano os candidatos pouco enfocaram esses temas, tampouco demonstraram liderança política clara que pensasse e atuasse com visão de futuro para indicar os caminhos do crescimento e do emprego. Alguns temas passaram longe das preocupações dos candidatos. Defesa, política externa, comércio exterior e meio ambiente deveriam ter estado entre os itens prioritários das agendas, até pelo impacto que têm sobre a soberania do País, para a voz do Brasil no cenário internacional, para a indústria e para o emprego e a tranquilidade do cidadão.

O Brasil está em situação extremamente desfavorável para alcançar um lugar relevante e de peso diante de um mundo em rápida transformação e cada vez mais imprevisível: perdemos poder e influência, isolamo-nos dos principais fluxos dinâmicos do comércio e da economia mundiais, seguimos atrasados em termos de absorção e geração de inovação e tecnologia, além do fato de nos últimos 20 anos termos crescido bem abaixo da média global.

Nesse quadro de desalento, aumentam as frustrações e os mais pessimistas se apressam a decretar que o Brasil fracassou como Nação, como povo, como sociedade, como Estado e como governo. Mais pobre, com mais de 13 milhões de desempregados e com um nível de conflito social nunca visto, o Brasil está sem uma liderança que tenha visão de futuro e ponha o interesse nacional acima de tudo.

As eleições de 7 de outubro deram uma última oportunidade à sociedade brasileira para, pensando no País, acima de interesses pessoais ou político-partidários (o que é difícil, convenhamos, no atual cenário), escolher um candidato que pudesse comprometer-se com uma agenda de modernização, propondo reformas profundas na economia, na política e na sociedade. Que representasse uma mudança de mentalidade e tivesse uma visão de médio e longo prazos. Que se comprometesse com uma reforma do papel do Estado, a começar pela redução de gastos, diminuição do número de ministérios, pelo fim dos privilégios (mordomias, carros e residências oficiais) das corporações e pelo corte do número de cargos públicos nos três Poderes. Que tivesse de fato tolerância zero com a corrupção em todos os níveis e promovesse medidas para acelerar a aplicação da lei, dentro dos princípios democráticos. Que se comprometesse com a simplificação da vida dos cidadãos e das empresas, executando uma política que eliminasse o peso crescente da burocracia. Um governo que realmente se dedicasse a melhorar os serviços públicos, tão deficientes e precários nos campos da educação, da saúde e do transporte.

A crise agravou a polarização e o sectarismo. A sociedade brasileira, na sua maioria, votou com raiva contra a política, o PT e o establishment. Prevaleceu a vontade de soluções radicais para coibir a violência e a corrupção. Ganharam os extremos populistas e desapareceu o centro moderado.

Qualquer decisão dos eleitores, no segundo turno, terá um impacto profundo na vida política, econômica e social do País, com efeitos sobre a próxima geração. A dar crédito aos programas de governo apresentados e às declarações em entrevistas e nos debates pelo rádio e pela televisão, a sociedade brasileira vai decidir entre um modelo com o Estado forte, com a revogação das reformas conseguidas nos últimos dois anos, com uma economia fechada, ou vai optar, pela primeira vez, por uma direita que tentará aprovar uma agenda ultraliberal, com a redução do papel do Estado e a abertura da economia, e medidas conservadoras na área dos valores e costumes, que poderão acentuar a tensão com as minorias.

Nos dois casos, o País poderá ser conduzido para a radicalização e o autoritarismo, com um possível choque com o Congresso e o Judiciário. Por isso foram positivas as recentes declarações de Jair Bolsonaro e de Fernando Haddad no sentido do fortalecimento da democracia, da crítica à violência baseada em raça, crença ou sexo, pela liberdade de imprensa e com o chamamento para o fim da polarização interna.

O futuro presidente da República não terá alternativa senão seguir a trilha da moderação, na tentativa de evitar o agravamento do “nós contra eles”. O candidato que perder terá de reconhecer, dentro das regras democráticas, o resultado das urnas e ajudar a pôr fim à campanha de descrédito contra o Brasil no exterior.

Se esse caminho não for seguido, começaremos escrever a crônica de mais uma crise política e econômica anunciada.

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Imagem do Dia


Direita volver, esquerda volver

Parece inacreditável que ainda exista em nosso país essa discussão inútil a respeito de esquerda ou direita, como se vê na disputa entre os candidatos presidenciais Jair Bolsonaro e Fernando Haddad. Os dois termos parecem ter-se originado durante a Primeira República Francesa, quando, no verão de 1789, a Assembleia Nacional se reuniu em Paris e dela participaram conservadores, opostos a qualquer mudança e a qualquer diminuição dos privilégios da nobreza; liberais, favoráveis a um governo representativo; e radicais, que preconizavam igualdade e liberdade.


O anfiteatro tinha a forma de ferradura, não por refletir a burrice de alguns, mas porque acomodaria melhor os conservadores, à direita do presidente, os radicais à esquerda e os liberais ao centro. Naquele momento mágico da Revolução Francesa, que influiu de forma perene no mundo ocidental, ganhou expressão a malcheirosa palavra ideologia, com a divisão entre nós e eles, esquerda e direita.

Hoje os direitistas proclamam, talvez com alguma razão, que nunca se viu um governo de esquerda dar certo, prosperar e melhorar economicamente a vida das pessoas, “porque a esquerda não sabe governar”. E argumentam que a própria China só deu certo e cresceu a partir do momento em que volveu à direita e adotou a economia de mercado, passando a pagar melhor ao funcionário que produzisse mais.

Já os esquerdistas parecem ter ficado escravos da pregação marxista, que chegou a convencer e a empolgar milhões de pessoas. Marx, aquele filósofo sonhador, fora seriamente contaminado pelas ideias de Engels, para quem o Estado tenderia a desaparecer e acabaria colocado num museu de antiguidades, ao lado da roda de fiar e do machado de bronze.

Marx sonhava e pregava que a violência na sociedade capitalista nasce da privação econômica e que, dando ao homem alimentos, roupas e abrigo suficientes, a necessidade de recorrer à força declinaria. Quando a sociedade sem classes tiver sido atingida, dizia aquele admirável sonhador, desapareceriam não apenas as diferenças de classe, mas também as diferenças nacionais. E finalmente o próprio Estado deixaria de existir. Assim como o capitalismo, as divergências criadas pela burguesia também desapareceriam, e todos os homens passariam a viver como irmãos.

Esses argumentos foram bastante sedutores, a ponto de no princípio do século passado convencerem milhões de pessoas, em quase todos os países, principalmente a elite intelectual. Entre nós, essa embriaguez política ganhou feição própria e em determinado momento, com a renúncia de Jânio Quadros, levou à luta a classe trabalhadora, menos privilegiada. Operários e soldados, cabos e sargentos, passaram a exigir reformas de base, defendidas pelo presidente João Goulart e Leonel Brizola, com o erro grave (e fatal) de pregar até mesmo o desrespeito à disciplina nas Forças Armadas.

Realmente, de forma ostensiva e desafiadora cabos e sargentos passaram a divergir publicamente de seus oficiais e isso difundiu o medo de que o País mergulhasse de cabeça numa ditadura de esquerda. As forças conservadoras, chamadas de “direita”, despertaram bem assustadas e começaram a sugerir, quase como exigência, a intervenção das Forças Armadas, o que acabou sendo feito sem nenhuma delicadeza (ao contrário, havia tanques e canhões nas ruas).

Daí vieram dias sombrios, às vezes chamados de tempos de chumbo, com atos terroristas de jovens inconformados, estimulados por políticos, e repressão nada piedosa das forças militares que dirigiam o País. Após alguns anos de turbulência, militares de feição liberal passaram a discutir uma forma de devolver o poder aos civis, mas, naquela altura, jovens inconformados e de índole violenta cometeram o equívoco de jogar uma bomba no quartel do II Exército, em São Paulo, fazendo em pedaços um recruta de 18 anos que no momento estava de sentinela. O soldado se chamava Mário Kozel Filho, católico praticante, que talvez nem soubesse o que vinha a ser esquerda e direita, muito menos reformas de base.

O incidente levou a cúpula militar a concluir que seria desastroso devolver o País “a esses loucos” e por isso o domínio das Forças Armadas permaneceu ainda por vários anos. Agora, com o aparecimento político de Jair Bolsonaro, disputando a Presidência da República, todo esse passado de confronto entre civis e militares passou a ser relembrado, como se isso representasse “a direita” ou “o fascismo”.

Sempre houve um parentesco bem próximo entre as doutrinas totalitárias, ou seja, comunismo, fascismo e nazismo se amoldam bem no mesmo rótulo. Nessas doutrinas, o domínio da maioria por uma elite minoritária parece inconcebível, mas tem-se verificado repetidamente.

Na pirâmide social, torna-se absurdo que uma minoria permaneça no topo e a maioria resulte esmagada na base, muito mais ampla. Nossos vizinhos venezuelanos, por exemplo, estão feridos na base, enquanto a minoria totalitária de Nicolás Maduro parece governar com ódio do povo e, a exemplo do que ocorre em Cuba, subjuga e deixa anestesiada a maioria, que o detesta.

Graças às instituições em pleno funcionamento, com imprensa livre e independente, não haverá lugar em nosso país para radicalismos de esquerda ou de direita, nem para que o Brasil se transforme numa Venezuela. A nossa vocação e a nossa predestinação são para uma República de verdade, com liberdade de expressão e respeito aos contrários.

Ademais, ainda que os nossos governantes não tenham demonstrado a eficiência necessária para melhorar a qualidade de vida dos mais pobres, forçoso é concluir que a vontade da maioria tem prevalecido e as escolhas têm sido realizadas com liberdade.

As prisões mentais

Lula está preso, meu caro. Repito a frase de Cid Gomes que ecoou na rede, suprimindo a palavra babaca. Não por correção política. A palavra iguala a estupidez à vagina. Apenas para lembrar, com humildade, como certos sentimentos estão arraigados em nossa cultura e emergem de nosso subconsciente.

A líder da direita francesa, Marine Le Pen, afirmou que algumas frases de Bolsonaro são inaceitáveis na França. Mas não o foram no Brasil.

Humildade aqui significa reconhecer que mudanças culturais levam tempo para se consumar. Não são como uma ponte destruída pela chuva que se reergue rapidamente. Nem mesmo uma nova capital que pôde ser construída no Planalto. Às vezes, atravessam gerações.

Lula está preso. É natural que o PT não aceite isso. Mas a forma de recusar foi chocar-se diretamente com a Justiça, tentar dobrá-la com manifestações, apoio externo e uma inesgotável guerra de recursos legais.

Compreendo que isso era visto como uma forma de acumulação de forças. Mas, na verdade, também acumulou rejeição.

Quando Haddad foi lançado, cresceu rapidamente exibindo a máscara de Lula. No segundo turno, a máscara envelheceu como o célebre retrato de Dorian Gray.

Mas o período que se abre agora será de tanto trabalho, que talvez não tenhamos mais tempo para nos patrulharmos. São tempos complexos, que demandam mais humildade ainda.

Num debate em São Paulo, depois do primeiro turno, confessei como o processo me surpreendeu. As pesquisas indicavam uma grande vontade de renovação. Quando os partidos se destinaram quase R$ 2 bilhões para a campanha, concluí que a renovação seria mínima.

Apesar de ter feito algumas campanhas no território digital, minha reflexão ainda se dava no quadro analógico. A renovação, cuja qualidade ainda é discutível, aconteceu. Com R$ 53 milhões, Meirelles teve menos votos do que o Cabo Daciolo, um exemplo de como os velhos parâmetros foram para o espaço.

As próprias pesquisas que tanto critiquei no passado porque achava que favoreciam Sérgio Cabral, hoje as vejo com nostalgia. Existe informação na pergunta clássica em quem você vai votar.

Mas, para detectar tendências, é preciso um oceano de dados e capacidade de análise. As pesquisas envelheceram, sem que muitos se dessem conta. Mas não apenas elas envelhecem, num mundo em que a inteligência artificial avança implacavelmente.

E é nesse mundo que teremos de navegar. A situação econômica internacional não é favorável como no passado. Nos artigos em que trato de alguns de seus aspectos, começo sempre com o paradoxo: os Estados Unidos, que lideraram uma ordem multilateral, decidiram abandoná-la. Será preciso mais do que nunca acertar os passos aqui dentro. Isso significa gastar menos, fazer reformas.

Quando estava na Rússia, os primeiros protestos contra a reforma da Previdência foram abafados pelo oba-oba da Copa do Mundo. Soube que agora a popularidade de Putin caiu 20 pontos precisamente por causa dela. Em outras palavras, a vida não é nada fácil para quem precisa reformar o Estado e fazer um ajuste fiscal.

Nesse futuro tão nebuloso que nos espera, a tese do quanto pior melhor é atraente, no entanto, pode ser também um novo erro de avaliação.

Quando ficamos muito concentrados nos problemas internos, perdemos um pouco de vista nossa inserção internacional. A imagem do Brasil lá fora mudou. O próprio Bolsonaro começará seu mandato como um dos presidentes mais rejeitados pela imprensa planetária. Ele terá de moderar sua retórica. E quem faz oposição precisa tomar consciência da situação delicada em que o país entra.

A sobrevivência da democracia não está ameaçada. Mas algumas escoriações podem empurrá-la para o viés autoritário que hoje cresce no mundo.

As fake news, por exemplo, sempre existiram, mas hoje têm um peso maior, pelo alcance e velocidade. Utilizá-las sem escrúpulos e denunciá-las no adversário apenas confirma o pesadelo moderno da decadência da verdade.

É muito difícil chamar à razão a quem se considera o dono dela. Os intelectuais condenam as escolhas populares, mas, às vezes, não percebem a sede de sinceridade que há por baixo delas. Pena.

Missa de sétimo dia

Aqui, em agosto de 2016, escrevi o seguinte: “A Nova República apaga-se na bruma do passado —mas nenhum sistema político alternativo surgiu para substituí-la. Temer (...) é um gerente de ruínas.” Nessa, acertei: o velório da Nova República deu-se no primeiro turno das eleições. Mas errei, e feio, sobre a forma de que se revestiria o ato fúnebre: seis semanas atrás, escrevi que, “no turno final, a rejeição a Bolsonaro elege qualquer adversário”. De fato, pelo contrário, a descida do caixão até seu túmulo será acompanhada pelos acordes da vitória de Bolsonaro. Diante de nós, sobra a missa de sétimo dia: um esforço para desvendar como chegamos ao ponto de eleger o candidato que cultua o sistema anterior à Nova República —isto é, a ditadura militar.
Sem qualquer ordem hierárquica, sugiro algumas causas para o desfecho:

1) A implosão do PSDB. O sistema político da Nova República estabilizou-se ao redor da disputa entre PSDB e PT. Desde o fim do ciclo do Plano Real, os tucanos perderam a capacidade de formular uma plataforma popular — e foram batidos em quatro eleições consecutivas. O colapso terminal deu-se com a desmoralização de Aécio Neves, na “operação Joesley Batista”. Bolsonaro tornou-se o desaguadouro do voto antilulista que, antes, se inclinava para os tucanos. O PSDB, tal como o conhecemos, está morto.

2) A deslegitimação geral da elite política. Sob Lula, o “presidencialismo de coalizão” degenerou no “presidencialismo de cooptação” (apud FHC). A devassa da Lava-Jato esclareceu os mecanismos de corrupção sistêmica que envenenam o sistema político. Na sequência, uma “fase 2” da Lava-Jato, conduzida como projeto de poder corporativo por Janot e pela ala jacobina do Ministério Público, destruiu o que restava de credibilidade na prática da política. Bolsonaro encarnou, no plano imaginário, a antipolítica.

3) A pedagogia petista do “nós” contra “eles”. O lulismo converteu as disputas eleitorais em guerras de extermínio. O adversário deixou de ser um parceiro na divergência democrática para se transformar no “inimigo do povo”, no “fascista”, no quintacoluna a serviço do imperialismo. No ápice desse teorema, em 2014, Marina Silva foi pintada como agente dos banqueiros numa conspiração destinada a esvaziar o prato de comida dos pobres. Pelas mãos de Bolsonaro, o ácido corrosivo voltou-se contra o PT. A tempestade de insultos bolsonaristas, acompanhada de torrentes de fake news, encontra um eleitorado habituado à linguagem exterminista. Depois da missa, o Brasil precisará reaprender a conversar.

4) A configuração da eleição como plebiscito sobre Lula. A narrativa petista do “golpe parlamentar” e da “perseguição judicial” confluiu para a estratégia da candidatura de Lula. A máscara do ex-presidente sobre o rosto de Haddad completou o percurso, impondo aos eleitores um veredicto sobre o lulismo. Mas o lulismo nunca foi majoritário, como atestam as quatro eleições consecutivas, entre 2002 e 2014, que exigiram segundo turno. Bolsonaro aceitou, agradecido, o desafio de comprovar a existência de uma maioria disposta a rejeitar um quinto mandato lulista. O PT foi expulso do Centro-Sul do país. A tardia, confusa, tentativa do PT de girar para o centro após o primeiro turno não funcionou. Junto com os funerais da Nova República, encerra-se o ciclo lulista.

5) Bolsonaro é inculto, como Lula — mas, como Lula, não lhe falta inteligência política. Nos EUA e na Europa, a direita nacionalista identificou nas senhas da imigração e do terrorismo os pulsos eficazes para ativar um eleitorado atemorizado diante do futuro. Bolsonaro traduziu os códigos para as circunstâncias da crise brasileira, apertando as teclas da violência urbana e da corrupção. Seu discurso eleitoral explode a gramática política da Nova República. Ninguém, no centro ou na esquerda, encontrou antídotos para as toxinas bolsonaristas.

Donald Trump ou Rodrigo Duterte, o populista que preside as Filipinas à frente de esquadrões da morte? Provavelmente, nem um nem outro. Mas isso só saberemos ao certo depois da missa.

Pensamento do Dia

Pawel Kuczynski

O fim do começo e um samba da Paulinho da Viola

O país vive mais um daqueles momentos que, supunha-se, teriam ficado nos livros de história, os quais, pelo jeito, pouca gente lê. Trata-se de mais um daqueles períodos de desacertos, governados pela insensatez e pela incapacidade de diálogo; estimulados por uma incompetência acelerada, uma histeria progressiva. Circunstâncias que denunciam a desigualdade e a dissintonia de informação, verdades e valores entre os indivíduos.

Mais um período difícil que, também, figurará nos livros de história do futuro que, insiste a esperança, as novas gerações lerão e aprenderão, tomando consciência e conhecimento da fragilidade dos pactos sociais, escapando desses ciclos de humores alternados que, ora enxergam em qualquer liberdade a anarquia; ora, na procura de toda ordem, o Santo Ofício — como demarcou, certo dia, Sérgio Buarque de Holanda.


Enfim, de acordo com as pesquisas, a eleição chega à sua última semana praticamente definida, com a vitória de Jair Bolsonaro. A distância do deputado para o petista Fernando Haddad gira em torno de 18 pontos percentuais e, ainda que o Brasil seja o “país dos fatos improváveis”, é, com efeito, pouco provável que não resulte na eleição do ex-capitão. A eleição chegará ao fim, mas o conflito talvez se encontre apenas no fim do começo.

O cenário de continuidade parece se armar: Fernando Haddad e seus partidários tentam ainda uma última reação, se abraçando à matéria publicada na Folha de S. Paulo, que dá conta de um esquema entre empresários aliados a Bolsonaro, que teriam financiado a difusão de Fake News, pelo WhatsApp, o que a lei eleitoral veda.

São movimentações de última hora que, independente de gravidade, tendem a influenciar pouco a maioria que parece já ter se definido por Jair Bolsonaro. Seus eleitores mostram-se, mais que tudo, contrariados com o PT e essa contrariedade é, hoje, a maior força política do país, o antipetismo. Provavelmente, apenas o PT não percebeu isso.

Jair Bolsonaro e seu grupo, evidentemente, negam envolvimento com o caso. E a Folha, para além da denúncia, ainda não apresentou provas mais contundentes que hipóteses baseadas no ditado italiano “se non é vero, é ben trovato”. É do conhecimento geral que milhões de Fake News, com efeito, inundaram o WhatsApp e há, nas redes, vídeos de diálogos de empresários admitindo o dispêndio de recursos com a campanha bolsonarista. Ainda assim, nada disso pode ser entendido como algo mais que indícios, e até aqui não compõem prova.

O caso seguiu para avaliação e manifestação do Tribunal Superior Eleitoral e para investigação da Polícia Federal. O mais provável é que não dê em nada, até o dia da eleição pelo menos. Mas, o certo é que ficará guardado como um peso sobre o novo presidente e será, inevitavelmente, explorado por sua oposição. É do jogo. E fossem os outros os perdedores, não fariam o contrário.

Todavia, fatos assim são de mau presságio. Mais uma vez, o derrotado tenderá a não aceitar o resultado do pleito, como foi o caso de Aécio Neves, em 2014. Configura-se uma situação que acalentará a continuidade da crise, o que prejudicará a necessária pacificação do país. Mais uma vez: o fim da eleição será apenas o começo de uma crise ainda maior?

Ações de um lado despertarão a reação do outro. Quando as instituições mostram-se incapazes de conter ânimos, a tentação pelo uso da força é quase irrefreável. Dá-se a esse processo político e social o nome de “escalada”. Num otimismo tanto forçado quanto necessário, espera-se que o país não chegue a esse ponto. Ainda assim, é preciso ter conhecimento do potencial do contexto.

Acresce a isto que, no furacão da crise política, será muito mais difícil manter o foco na economia. A dispersão de energia dificulta a boa articulação e o andamento de reformas. E enquanto a questão econômica não for aplacada, a crise política não será mitigada. É um círculo vicioso. O mesmo “não ata nem desata” que envolve o país desde 2014 e que nos trouxe aqui.

O futuro governo, qualquer que seja, terá muitas dificuldades, pois os dois candidatos e as circunstâncias que os envolvem não parecem dados nem à humildade da derrota, nem à grandeza da vitória. O discurso de “unidade nacional” será palavras ao vento se não começarem a atuar políticos hábeis com capacidade de diálogo e negociação entre os campos políticos que se formaram.

O país precisará de bombeiros, que isolem focos e anulem incendiários. Espera-se que o discurso da vitória do eleito, no domingo, seja de bom senso, boa vontade e sabedoria, ouvindo o outro lado; compreendo a diversidade social e política do país como natural e legítima; que aceitos seus argumentos, “não altere o samba tanto assim”. Dos derrotados, que façam “como o velho marinheiro que durante o nevoeiro leva o barco devagar”.
Carlos Melo