Em 2015, quando o Supremo Tribunal Federal (STF) declarou inconstitucional a doação de pessoas jurídicas para campanhas políticas, houve quem apregoasse que a decisão da Suprema Corte inviabilizaria a democracia. Segundo esses alarmistas, as campanhas eleitorais eram necessariamente muito caras, também por força das dimensões territoriais do Brasil. Sem o dinheiro das empresas, o sistema eleitoral simplesmente ruiria, num verdadeiro desastre democrático.
Agora, transcorrida a primeira eleição nacional sem o financiamento por pessoas jurídicas, ficou claro que tais prognósticos não tinham fundamento. Foi perfeitamente possível fazer campanha eleitoral sem dinheiro das empresas. Com isso, foi enterrado de vez o argumento de que as doações de pessoas jurídicas para partidos políticos seriam um mal necessário, como se o sistema eleitoral precisasse fechar os olhos para as distorções causadas pela interferência de empresas na política - as empresas não têm direitos políticos - a fim de assegurar condições econômicas para a realização das campanhas. As empresas não deram dinheiro e a campanha eleitoral transcorreu normalmente.
Trata-se de uma mudança saudável. O País conseguiu se livrar, sem maiores traumas, de uma interferência que gerava inúmeras distorções na representação popular e abria as portas para a corrupção. Mais do que uma doação de caráter filantrópico ou de promoção de determinados ideais políticos, os recursos econômicos que as empresas destinavam aos partidos políticos representavam um poderoso investimento para a consecução de seus interesses corporativos. A interferência econômica deturpava a política.
As eleições de 2018 revelaram também outro dado muito positivo. Não é apenas do dinheiro das empresas que a campanha eleitoral pode se ver livre. Ela também não precisa ser refém do dinheiro público. Reportagem do Estado mostrou que, na campanha eleitoral deste ano, mais da metade dos candidatos não usou recursos do Fundo Eleitoral. Por exemplo, houve 8.591 candidatos a deputado federal em todo o País. Desse total, 4.817 não receberam nenhum recurso do chamado “Fundo Especial de Financiamento de Campanha”, criado especialmente para destinar dinheiro público às campanhas. Em 2018, o valor do fundo foi de R$ 1,7 bilhão.
Os números do financiamento eleitoral deste ano desmontam a tese da suposta necessidade de dinheiro público para financiar os partidos políticos. Muitos candidatos foram eleitos sem usar dinheiro do contribuinte. Além disso, houve também quem tenha usado bastante dinheiro público na sua campanha e mesmo assim foi rejeitado pelas urnas. Dos recursos públicos que o PT recebeu, o partido destinou R$ 4 milhões à campanha da ex-presidente Dilma Rousseff para o Senado. Ela ficou em 4.º lugar na disputa em Minas Gerais. A candidata ao Senado pelo PSB em Goiás Lúcia Vânia recebeu R$ 3,5 milhões dos cofres públicos para a sua campanha e também não foi eleita.
Na Câmara dos Deputados, foi notório o fracasso de duas candidatas. Danielle Cunha, filha do deputado Eduardo Cunha, recebeu R$ 2 milhões do Fundo Eleitoral e mesmo assim não conseguiu se eleger. Cristiane Brasil, filha do presidente do PTB, Roberto Jefferson, recebeu R$ 1,85 milhão do Fundo, mas não obteve votos para a vaga de deputada federal.
Neste ano, ficou claro que a alegada imprescindibilidade dos recursos públicos para a campanha eleitoral é tão frágil quanto a argumentação a favor das doações de pessoas jurídicas. O sistema eleitoral subsiste muito bem sem essas duas interferências nefastas.
Em 2015, o País deu um grande passo ao proibir as doações de pessoas jurídicas. Cabe agora, com a comprovação empírica de que o dinheiro público não é essencial para a campanha eleitoral, também eliminar o financiamento público, que gera graves desequilíbrios. Os partidos políticos são entidades privadas, que não devem ser sustentadas com dinheiro público. Acabar com o dinheiro público na campanha não é uma utopia e tampouco uma loucura. É um passo plenamente possível, que fortalece o papel do cidadão no processo político.
Se você pensa que viver fantasiado de herói progressista é moleza, está enganado. A vida é dura. Pensa que é só inventar uma mentira charmosa, dessas que funcionam maravilhosamente no Facebook, no Baixo Gávea e na Vila Madalena, e viver disso para sempre? Negativo.
Você terá que ser mais e mais criativo, se superar a cada dia – até chegar às raias da genialidade ao propagar que o WhatsApp ameaça a democracia. Sim, você pode! Mas não pense que é fácil.

Tudo começou quando deu errado o truque de reabilitar os bandidos gente boa do PT lutando contra a ditadura do século passado. Até chegou-se ao milagre de levar ao segundo turno o partido que depenou o Brasil, mas aí o Ibope e o Datafolha – que vinham sendo super legais e parceiros – tiveram que desmontar aquele cenário da vitória final inevitável contra a caricatura da direita, tão bem alimentada por mais de um ano.
Deu ruim, e o jeito foi mostrar a real: Haddad morrendo na praia de novo.
Mas se você é um suposto gladiador da elite cultural, ideias não te faltam. Quem passou mais de ano espalhando fake news do Rodrigo Janot, transformando açougueiro biônico (laranja bilionário do Lula) em denunciante da corrupção generalizada, pode criar outras narrativas espertas.
Foi assim que a cruzada do petismo enrustido foi dar nos costados do WhatsApp. A mensagem é clara: só quem está autorizado a espalhar fake news é veículo de mídia tradicional aparelhado pela narrativa politicamente correta. Ou seja: você só pode veicular notícia falsa se ela tiver sido produzida genuinamente pela sua empresa. Como o WhatsApp não produz notícia, não tem a prerrogativa de espalhar mentira.
Fica combinado assim: Lula ia salvar a democracia de dentro da cadeia e foi impedido por um golpe de estado do WhatsApp. Quem achar a formulação complexa demais, peça ao companheiro Cid Gomes para resumir.
Decidido o novo script dos cafetões da bondade, todos se tranquilizaram e partiram para o bom e velho show de bravura cívica a 1,99. Surgiu inclusive um slogan “ditadura nunca mais”, com um complemento que acabou não circulando, mas nós publicamos a seguir:
Ditadura nunca mais, a não ser uma como a do Maduro, ou a do Ortega, ou a do Kadhafi, ou a do Ahmadinejad, ou a do Saddam, ou a de algum outro amigo do Lula que arranque o couro do povo sem perder a ternura e a simpatia do Roger Waters. O resto a gente não aceita.
E o show tem que continuar. Preocupado com a liberdade de expressão, o grupo de artistas e intelectuais decidido a garantir a qualidade do conteúdo nas mídias e no WhatsApp deveria criar logo uma junta de notáveis para tomar conta disso. Alguns nomes naturais, dado o histórico do movimento, seriam os dos pensadores Nicolás Maduro, Lindbergh Farias, Robert Mugabe e Renan Calheiros.
Para mostrar que quem ameaçar a democracia eles prendem e arrebentam, poderiam difundir com mais intensidade o vídeo do professor Haddad explicando por que Stalin era melhor que Hitler: porque, diferentemente do nazista alemão, ele lia os livros de suas vítimas antes de fuzilá-las. Não é lindo?
Vai ver é por isso que há editores de livros no manifesto democrático em defesa do poste iluminado do PT.
O importante é afirmar, em defesa do estado de direito e das liberdades individuais, que o WhatsApp é golpista – e nós podemos provar. Por exemplo: estava tudo correndo perfeitamente bem na democrática operação de abafar a notícia de que o PT, na sua metamorfose verde-amarela, apagou seu apoio à ditadura pacifista e sanguinária do companheiro Maduro.
Se acabamos de demonstrar que Stalin é um ser evoluído, é claro que está tudo certo com a prática de fazer informações sumirem do mapa e, também, com a consequente ocultação do expurgo.
Aí o que faz o WhatsApp? Espalha essa informação que tinha sido tão bem escondida. É ou não é golpista?
Outra notícia que estava fora das manchetes e esse aplicativo fascista mandou para todo mundo foi a da conclamação do companheiro Boulos à invasão da casa de Bolsonaro. É o tipo da informação irrelevante, considerando que Boulos é ex-companheiro de partido do homem que tentou matar o candidato com uma facada – portanto está todo mundo cansado de saber que o negócio deles é barbarizar geral, nenhuma novidade aí.
O Brasil não sabe o que será o provável governo Bolsonaro. Mas os progressistas de carnaval que cultivaram tão dedicadamente a polarização burra em que o país entrou já sabem o que farão: atiçarão sofregamente a boçalidade para tentar continuar vivendo (bem) como vítimas profissionais."
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| Guernica |
Para a história da aviação. Em Badajoz foi hoje dado nome a uma rua. O motivo, a causa, o pretexto, a razão, ou como se quiser chamar-lhes, já têm mais de cinquenta anos, e muito fortes terão sido para sobreviverem aos olvidos acumulados de duas gerações, justificados estes, em geral, pelo facto de as pessoas terem mais em que pensar. Não direi eu que os habitantes de Badajoz levaram este meio século e picos a transmitir uns aos outros o certificado de uma dívida que um dia teria de ser paga, o que digo é que algum badajoceño escrupuloso deve ter tido um rebate de consciência mais ou menos nestes termos: "Muitos dos que hoje vivem estariam mortos, outros não teriam chegado a nascer." Parecerá um enigma da Esfinge, e afinal é só uma história da aviação.
Há cinquenta e tantos anos, durante a guerra civil, um aviador republicano teve ordem de ir bombardear Badajoz. Foi lá, sobrevoou a cidade, olhou para baixo. E que viu quando olhou para baixo? Viu gente, viu pessoas. Que fez então o guerreiro? Desviou o avião e foi largar as bombas no campo. Quando regressou à base e deu conta do resultado da missão, comunicou que lhe parecia que tinha matado uma vaca. "Então, Badajoz?", perguntou o capitão. "Nada, havia lá gente", respondeu o piloto. "Pois", fez o superior, e, por impossível que pareça, o aviador não foi levado a conselho de guerra... Agora há em Badajoz uma rua com o nome de um homem que um dia teve pessoas na mira da sua bomba e pensou que essa era justamente uma boa razão para não a largar.
Votações expressivas do eleitorado não legitimam investidas contra a ordem político-jurídica fundada no texto da Constituição! Sem que se respeitem a Constituição e as leis da República, a liberdade e os direitos básicos do cidadão restarão atingidos em sua essência pela opressão do arbítrio daqueles que insistem em transgredir os signos que consagram, em nosso sistema político, os princípios inerentes ao Estado democrático de Direito
Celso de Mello, ministro do STF
Não passa semana sem que Jair Bolsonaro, seus filhos ou seus auxiliares pendurem nas manchetes um cacho de declarações polêmicas. O grupo dá frases tóxicas como a bananeira dá bananas. A penúltima esquisitice veio na forma de um comentário do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP). O filho do presidenciável favorito declarou que ''para fechar o STF basta um cabo e um soldado''. Disse também que se o STF impugnar a candidatura do seu pai “terá que pagar para ver o que acontece.” Indagou: “Será que eles vão ter essa força mesmo?'' Ai, ai, ai.
Feita em 9 de julho, a gravação é anterior ao primeiro turno da eleição. Eduardo Bolsonaro dava palestra na cidade paranaense de Cascavel, num curso preparatório para concurso da Polícia Federal. Um dos alunos perguntou se o Exército poderia agir caso o STF impugnasse eventual vitória de Jair Bolsonaro. Um expositor com dois neurônios diria que é impensável uma intervenção do Supremo num processo eleitoral submetido às normas constitucionais. Sobretudo considerando-se que as questões eleitorais estão afetas ao TSE, não ao STF.
O filho do capitão, entretanto, achou sensato injetar no impensável uma dose de inimaginável. Declarou o seguinte: “Aí já está encaminhando para um estado de exceção. O STF vai ter que pagar para ver. E aí, quando ele pagar para ver, vai ser ele contra nós. Você tá indo para um pensamento que muitas pessoas falam, e muito pouco pode ser dito. Mas se o STF quiser arguir qualquer coisa —recebeu uma doação ilegal de cem reais do José da Silva e, então, impugna a candidatura dele. Eu não acho isso improvável, não…”
Após informar que considera ''provável'' o impensável, Eduardo Bolsonaro engatou uma segunda e prosseguiu: ''Cara, se quiser fechar o STF, sabe o que você faz? Você não manda nem um jipe. Manda um soldado e um cabo. Não é querer desmerecer o soldado e o cabo, não. O que é o STF? Tira o poder da caneta de um ministro do STF. Se prender um ministro do STF, você acha que vai ter uma manifestação popular a favor do ministro do STF, milhões na rua? 'Solta o Gilmar, solta o Gilmar'. Com todo respeito que tenho ao excelentíssimo ministro Gilmar Mendes, que deve gozar de imensa credibilidade junto aos senhores.''
O presidente da República representa um símbolo para a nação. Toca-se o hino nacional onde ele se apresenta, hasteia-se a bandeira. Cada ação sua é exposta ao público nas manchetes. Sua vida e a de sua família estão expostas a permanente escrutínio. Dele se espera que evite procedimentos e declarações vulgares. O mesmo vale para os filhos, um deputado e um senador. Na bica de virar chefe de Estado, Jair Bolsonaro ainda não deu demonstrações de que compreende a dimensão do cargo se dispõe a ocupar. Os filhos tampouco servem como referência dos valores que o presidenciável diz representar.
Falta aos Bolsonaro uma noção qualquer de institucionalidade. Ainda assim, recebem votos. Muitos votos. Depois de examinar o comportamento de políticos como eles, que, por serem representantes de parcela expressiva da população, representam o melhor da sociedade, uma dúvida se impõe: a oferta de candidatos é escassa ou o eleitor brasileiro parou de evoluir?
A despeito da existência de um vídeo que não deixa dúvidas quanto ao despautério dos comentários, até Jair Bolsonaro duvidou: ''Se alguém falou em fechar o STF, precisa consultar um psiquiatra.'' Mas o filho Eduardo viu-se compelido a confirmar o inegável: ''Acredito que o vídeo não é motivo para alarde, até porque eu mesmo o publiquei em minhas redes sociais há quase quatro meses. Trata-se de mais uma forçação de barra para atingir Jair Bolsonaro…”
Na campanha presidencial de 2018, se os resíduos psíquicos fossem concretos, não haveria rede de esgoto que bastasse.
Faltando pouco para o segundo turno, está à solta o chato eleitoral. É um personagem que tenta transformar qualquer conversa em discussão política para defender seu candidato. Assim como sempre haverá gente que enfia o dedo no nariz, não há como evitar que ele exista. Pode-se limitar o alcance de sua chateação cortando-se polidamente o assunto. O general Alfredo Malan tinha uma fórmula: “Política e jogo de cartas me dão sono”. (Não era verdade, mas funcionava.)
Há dois tipos de chatos eleitorais.
O primeiro, benigno, é o militante. Ele supõe que sua palavra iluminada pode conseguir um voto para seu candidato. Esse chato pode ser neutralizado com uma simples mudança de assunto. O melhor remédio é deixá-lo falar o tempo que quiser. Interrompê-lo será estimulá-lo.
O segundo chato eleitoral, maligno, quer vender seu candidato, mas há nele algum tipo de insegurança. Fez sua escolha mas busca apoio, cumplicidade.
Esse é o tipo mais desagradável e perigoso, porque precisa de uma discussão. Afinal, só assim poderá se convencer que fará o certo, pois mais gente decidiu como ele. Quanto mais corda recebe, mas enfático ou radical se torna. Nesse caso o culpado pela chateação será quem lhe deu corda. (Trocar ideias com um eleitor de Bolsonaro tem uma complicação exclusiva, pois o candidato não quer debater as suas.
Se nenhum recurso der certo, pode-se recorrer ao truque do deputado Temperani Pereira. Depois de ouvir uma exposição de um colega ele lhe disse: “Sua opinião me deixa incorrobúvel e imbafefe”.
Depois comentou: “Quero ver ele achar essas palavras no dicionário”.
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| Angel Kiyoss (China) |
Nas atuais eleições é notável o uso de mentiras e violência. Muito se discutem o voto eletrônico e as informações falsas veiculadas na internet. Os pronunciamentos de Rosa Weber, presidente do TSE, não amainam as suspeitas sobre a eficácia das medidas contra fraudes e manipulações das notícias. Mergulhados na vida recente, imaginamos enfrentar um fenômeno inusitado, a crise letal do sistema democrático. No entanto, desde a Grécia antiga esse modo de governar beira o abismo. Recordo alguns escritos clássicos de Platão, o maior adversário do governo popular. Eles trazem um diagnóstico válido para nossos tempos.
O povo que segue o palpite de pessoas sem técnica na arte política, segundo Sócrates, só pode ser doente. Em vez da prudência nos assuntos de Estado, ele obedece ditames que pioram as mazelas. Como o milagre é efetuado? Pela demagogia nas assembleias onde dominam a retórica e a lisonja . Em vez de rir ou caçoar dos que mentem e adulam a massa, o povo adoentado os aplaude e os elege para os cargos, submete-se à sua propaganda. Como curar um coletivo insensato? O símile do médico surge depressa em Platão. Para conseguir a higidez dos eleitores, pergunta o personagem socrático: “Eu deveria batalhar contra eles para os fazer melhores, como se fosse um médico? Ou me pôr a seu serviço e em ótimas relações com eles lhes agradar?”.
Com a resposta de seu parceiro, de que o mais avisado seria se pôr à disposição dos eleitores, Sócrates afirma: “Então eu devo lisonjeá-los”. E chega a premonição, pelo próprio filósofo, da sua própria sorte: dizer o verdadeiro à massa que deseja ser enganada é seguir para a morte. A cicuta destina-se aos inimigos de toda demagogia. Contra os políticos, Sócrates descreve a si mesmo como integrante do pequeno número dos estadistas (“talvez o único”, diz ele). Quando falo, minhas palavras não se destinam ao agrado, pois digo “o que é melhor, não o prazeroso”.
Vem a célebre comparação do médico e do mestre-cuca, símile que deveria estar na mente de todos os políticos ou eleitores verdadeiramente democráticos. Um médico é acusado pelo cozinheiro em tribunal de crianças. Como poderia ele se defender das acusações feitas pelo cozinheiro? “Crianças, eis aqui um homem que lhes causa muitos males. Ele esfola até os novinhos, corta ou queima, disseca e sufoca de tal modo que vocês não sabem onde se esconder. Ele obriga a tomar remédios amargos, a ter fome e sede! Ele não é como eu, pois sirvo doces para seu regalo!”. Paralisado, o médico não consegue dizer a verdade: “ Tudo faço para a sua saúde!”. O povo criança adoecida só escuta a lisonja, a mentira. A verdade é-lhe insuportável.
Em tempos de fake news, a maior é dizer que elas surgem com a internet. Seu nascimento se deu quando a linguagem, uma técnica que possibilita a sociedade, foi inventada. A fala revela paixões ou dissimula gestos amáveis em atos agressivos. A política não existe sem mentira, propaganda, demagogia. Da Ágora, onde os únicos instrumentos persuasores eram a boca e o corpo, à televisão e ao WhatsApp, passar adiante o falso é tarefa estratégica de qualquer liderança que reúne massas.
A busca de agradar e mentir chega ao ápice com as práticas de Goebbels, Walter Lippmann e o Agitprop soviético. No tremendo A Língua do Terceiro Reich, Viktor Klemperer mostra a locução diabólica do mundo ideologizado. Quando a mentira se universaliza a doença política atinge o seu grau máximo, a corrupção popular. A massa assassina quem diz algo verdadeiro ou exige disciplina ética e respeito à lei. Chegamos à situação descrita na República (488 aC). O navio do Estado, nave dos loucos, assiste à guerra dos marinheiros pelo comando, sem que nenhum deles tenha saber técnico apropriado. “Eles elogiam e tratam como marinheiro sapiente quem contribui para que obtenham o comando, seja persuadindo o dono do navio ou exercendo violência sobre ele, mas ao que não é capaz disso censuram como imprestável”. O “dono do navio” na democracia é o povo. Para os ignaros movidos pela adulação, o verdadeiro piloto seria inútil.
Platão expõe algo insuportável para as almas democráticas. O certo, num Estado saudável, seria o povo pedir para ser governado, jamais o bom governante implorar o controle. O Estado moderno foi edificado pela burocracia. Nela, o saber técnico toma as decisões e disfarça o desprezo pelas urnas com o uso de propaganda e retórica. Um Parlamento ou rei, diz Max Weber, se tornam frágeis se burocratas não lhes fornecem dados sobre economia e administração. É o “segredo do cargo”. Para vencer semelhante “espírito coagulado” (ainda Weber), na passagem do século 19 para o 20 surgem as políticas do carisma, lideranças de um homem ou partido cuja missão é restaurar todas as coisas corrompidas. Chega a hora do jurista Carl Schmitt com o Führer, que, acima da burocracia, decide sobre o direito, o inimigo e a ditadura. Ele é soberano. Do outro lado, o filósofo G. Lukács exibe fé na revolução proletária internacional que destruiria o aparelho burocrático. À direita ou à esquerda, ambos justificaram tiranias. Hoje a máquina administrativa persiste. O mundo soube em data recente: funcionários detentores dos cargos e do segredo atenuaram iniciativas desastrosas do presidente Trump na política internacional. Mas o engenho da burocracia gera o salvador do povo e sua lisonja para obter, como em Atenas, o apoio do eleitor.
Doutrinas autoritárias ou totalitárias aproveitaram a crítica platônica, nela vendo uma senda para o líder e o partido único. Os ataques de Karl Popper (The Open Society) têm boas razões para recusar a advertência platônica. Mas notemos a demagogia no Estado democrático. Quem nega que as próximas eleições indicarão como vitorioso o político que mais cativar, com mentiras e lisonjas, o maior número de eleitores? Nas urnas, a resposta, não temo adiantar, será uma enorme reiteração do que denuncia o pensador perto de quem “toda a filosofia ocidental não passa de uma nota ao pé da página”. Os votos, na sua maioria, serão em prol do cozinheiro. O médico que se cuide.
A mais recente pesquisa Percepções da Crise, realizada pela Fundação Getúlio Vargas, mostra uma profunda degradação dos sentimentos dos brasileiros em relação ao País.
Segundo o levantamento, com dados referentes a 2017, nada menos que 68% dos entrevistados manifestaram receio de sair de casa à noite. Quando sete em cada dez pessoas não se sentem seguras nem para dar uma volta no quarteirão depois que anoitece, fica evidente que o Estado não está dando as respostas adequadas a essa demanda tão primária dos cidadãos, base de qualquer contrato social digno do nome. Explica também por que a questão da segurança pública está entre as mais candentes destas eleições.
Outro aspecto abordado pela pesquisa que ajuda a compreender o comportamento dos brasileiros na atual corrida presidencial é a atuação dos líderes políticos do País. A desaprovação desses dirigentes é a mais alta da série histórica – em 2017 atingiu 86%, ante 25% em 2010. Além disso, 82% dos entrevistados disseram não confiar no governo, e apenas 14% declararam acreditar na honestidade das eleições.
Esses números, que não causam surpresa diante da avalanche de escândalos de corrupção nos últimos anos, se traduzem numa ampla renovação do Congresso e no protagonismo, nas disputas estaduais e pela Presidência, de candidatos que se apresentaram como “antissistema”.
O estudo sugere que o desencanto com a política e a aflição em relação à segurança se tornaram mais acentuados quando ficou claro que o avanço social dos últimos anos não era duradouro, pois fora baseado em políticas que ignoraram a degradação da situação fiscal do País – quando não colaboraram diretamente para agravá-la. “Tudo se passa como se a melhoria social observada não fosse acompanhada de mudanças econômicas à altura, que oferecessem sustentação a longo prazo”, diz o texto. Resultado: prometeu-se um paraíso de fartura e harmonia enquanto se gestava, por meio da corrupção e da inépcia administrativa, um Estado incapaz de prover serviços básicos na amplitude alardeada.
O caso da segurança pública é particularmente dramático. Com os homicídios superando os 60 mil por ano, a uma taxa de 30 mortes para cada 100 mil habitantes – 30 vezes mais alta que a da Europa –, não admira que a sensação seja de que se vive uma guerra civil no Brasil. Junto com isso, ganha força a presunção de que há leniência por parte das autoridades na atuação das polícias e da Justiça no combate à criminalidade, acrescida da percepção de que os bandidos estão sob proteção – da lei, dos direitos e dos movimentos sociais –, enquanto o cidadão comum se sente abandonado pelo Estado quando precisa se proteger dos criminosos.
Numa sociedade democrática, a segurança – entendida como proteção à vida e à propriedade – não é uma escolha, mas um dever. Se o cidadão não confia na capacidade do Estado para assegurar a integridade daquilo que lhe é mais caro, nada mais natural que despreze tanto as autoridades desse Estado como o sistema de organização política que as colocou no poder. No limite, é a própria democracia que sai desprestigiada.
A consequência é o aprofundamento da perda de credibilidade da classe política para se apresentar aos cidadãos como capaz de oferecer soluções sensatas para os graves problemas da sociedade. Ganham terreno os líderes boquirrotos que prometem acabar com a criminalidade na base da truculência, com um discurso que, no limite, questiona a própria ideia de democracia e de Estado de Direito.
Antes de fazer juízos desabonadores tanto sobre esses líderes como sobre seus simpatizantes, seria mais produtivo para o País refletir sobre como se chegou a esse estado de coisas, a começar pela dilapidação do Estado pelas corporações. Assim, se estão realmente preocupadas com o futuro, as lideranças que verdadeiramente prezam a democracia devem fomentar um compromisso nacional para, em primeiro lugar, sanear as finanças do Estado – condição indispensável para que as demandas sociais mínimas sejam atendidas e, consequentemente, os brasileiros comecem a recuperar a fé no pacto democrático.
Muita coisa pode ser dita sobre a eleição presidencial que chega daqui a pouco ao seu turno decisivo, mas um dos pouquíssimos pontos em que todos estariam de acordo, talvez o único, é que nunca se viu na história deste país uma disputa política que deixasse tanta gente à beira de um ataque de nervos.
Um ou outro dinossauro que estava vivo nas eleições de Getúlio Vargas, em 1950, Juscelino Kubitschek, em 1955, ou Jânio Quadros, em 1960, certamente dirá:
“Não, não me lembro de ninguém, na época, que tenha tido algum surto de neurastenia tão desesperado por causa de eleição como esses que a gente vê hoje todo santo dia”.
Depois disso, houve sete eleições seguidas para presidente — a que elegeu Fernando Collor, as duas de Fernando Henrique, mais as duas de Lula e, enfim, as duas de Dilma Rousseff.
Saiu muita faísca, é claro, houve muito bate-boca e xingatório, e muita mãe acabou sendo posta no meio, mas em geral foi mais gritaria de torcida do que briga com fuzil AK-47 no alto do morro.
Nem Dilma foi capaz de gerar a ira radioativa que explode agora do Oiapoque ao Chuí por causa de Jair Bolsonaro e Fernando Haddad — e olhem que Dilma não é fácil, em matéria de despertar os instintos mais primitivos do eleitorado, como poderia dizer o ex-deputado Roberto Jefferson.
E antes disso, em momentos remotos da nossa história política, será que não teria havido alguma campanha tão enfurecida quanto a atual?
Antes disso, para falar a verdade, não havia eleições que pudessem ser realmente chamadas de eleições; o New York Times ou o Le Monde de hoje jamais aceitariam, por exemplo, a eleição de um Campos Salles ou a de um Washington Luís.
Mais atrás no tempo, então, já se começa a falar no Regente Feijó ou em José Bonifácio — e aí é que ninguém sabe mesmo de absolutamente nada.
O fato é que estamos vivendo momentos sem precedentes de “nervosia” — palavra de uso antigo, mas muito precisa, para descrever essa atmosfera de irritabilidade, impaciência e hostilidade geral que se levanta hoje em dia a cada vez que o cidadão diz que vai votar em Bolsonaro ou em Haddad.
Em geral, as brigas de campanha costumam limitar-se aos próprios candidatos.
Hoje emigraram com mala e cuia para o meio de uma boa parte dos eleitores.
É entre eles, e não nos palanques ou “debates” na televisão, que está havendo agora derramamento de sangue — inclusive de sangue mesmo.
Não é preciso, para acender a banana de dinamite, gritar “Mito!” no meio de um ajuntamento petista, ou vir com um “Lula Livre!” na comissão de frente de um bloco bolsonarista.
O desastre, nesta campanha de 2018, pode acontecer no aconchego do próprio lar.
Você diz que vai votar num ou no outro, e dali a pouco está formado um barraco rancoroso em sua casa, com a súbita troca de ofensas, palavras malvadas e ressurreição de velhos ressentimentos, no que deveria ser um churrascão inofensivo de domingo.
Amigos se desentendem feio com velhos amigos.
Há brigas de pais com filhos, de irmãos com irmãos, de mulher com marido.
Familiares rompem relações, colegas de trabalho viram as costas uns para os outros e se fecham nas próprias trincheiras.
Falar de política, em suma, virou um perigo.
Os rompantes mais curiosos de neurose se multiplicam por todos os lados.
Uma senhora foi notada no Facebook fazendo um anúncio aflito: “Hoje eu tive de dar um bloque na minha tia de 78 anos!”.
Uma jornalista-celebridade de São Paulo denunciou em seu jornal, com a gravidade reservada às notícias de grande impacto, que tinham sido feitas pichações racistas no banheiro de um colégio chique — isso mesmo, rabiscaram a parede do toalete da moçada.
Quem jamais ouviu falar de uma coisa dessas? A dona de um restaurante paulistano teve a ideia de exibir na internet uma foto, tirada junto com a sua equipe, mostrando o dedo do meio para os bolsonaristas.
Amizades intensas formadas nas redes sociais explodem antes que as pessoas tenham tido tempo de se conhecer. Lulistas são chamados de esquerdopatas.
Quem vota em Bolsonaro é fascista — embora 80% dos que fazem essa acusação não tenham a menor ideia do que estão falando.
Não optar nem por um nem por outro, então — não seria uma defesa?
Esqueça.
Nesse caso você será acusado de “isentão”, e muita gente fica irritadíssima quando é chamada de “isentão”.
O ambiente deveria estar bem mais calmo, pois até a véspera da eleição todas as “pesquisas” garantiam a mesma coisa: Bolsonaro perderia para qualquer outro candidato no segundo turno. Mas está dando o contrário.
Aí vira nervosia pura.
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| Tropeiros, José Rosário |
A mundialização é a realidade de hoje. O mundo se tornou uma "pequena aldeia global" onde somos condenados a conhecer tudo, onde o que acontece num canto do mundo tem consequências em todo canto. Mas em lugar de facilitar o encontro entre as pessoas por maior justiça para todos, a mundialização, até o momento, tem aumentado a divisão, cria novos conflitos e a miséria se instala em toda parte, inclusive nos países ricos e industrializados. Ricos sempre mais ricos, pobres sempre mais miseráveis.
Isso não pode continuar. Não é justo! Não é humano!
Ajudem a organizar o mundo de forma diferente. Na partilha e não na competitividade. Na solidariedade, não na busca incessante de interesse de uma minoria de privilegiados.
Lembrem-se: a beleza de uma cidade não está na beleza de seus teatros, na grandeza de seus estádios, de seus jardins, de seus monumentos, no esplendor de sua catedral... A beleza de uma cidade se realiza quando todo mundo tem uma casa digna de ser habitada por pessoas humanas, quando há água potável para todos, a saúde garantida para todos, a possibilidade de frequentar a escola para todos, a possibilidade do lazer para todos, para que o desabrochar da dignidade de cada um possa tornar-se uma realidade viva e completa.
Não fiquem fechados em seus confortáveis escritórios ou nas mansões de suas cidades... visitem as pessoas onde elas estão, onde vivem, onde sofrem, nas favelas, nos bairros populares da América Latina, na África e na Ásia.
A fome dos outros condena a civilização dos que não têm fome.
D. Hélder Câmara
Pobreza não é falta de caráter. É falta de dinheiro
Rutger Bergman
Perde seu tempo quem procura um projeto de governo no horário político da televisão. Em 2014, estava em cartaz a ficção hollywoodiana da chapa Dilma-Temer, patrocinada pelo departamento de propinas da Odebrecht. Na atual temporada, Bolsonaro e Haddad levam ao ar uma espécie de filme de James Bond 100% feito de bandidos —sem um 007 para deter a guerra tecnológica que se alastrou para a trincheira do WhatsApp.
Os planos tenebrosos de Bolsonaro são expostos nos filmetes do PT. Assistindo-os, o brasileiro descobre, por exemplo, que será sugado por uma máquina do tempo. Ela o arrastará para um imenso complexo subterrâneo, situado em algum porão da década de 1970. Ali, hordas de esquerdistas formarão filas defronte de salas de tortura. Dentro delas, monstros com a cara do Brilhante Ustra conduzirão sessões ininterruptas de pancadaria e choques elétricos.
As intenções diabólicas que se escondem atrás de Haddad são denunciadas na propaganda do capitão. As peças revelam a existência de uma sala especial secreta sob os alicerces da Superintendência da Polícia Federal em Curitiba. À frente de um painel eletrônico, Osama bin Lula manipula Haddad por controle remoto. Simultaneamente, o gênio petista do mal reativa o Foro de São Paulo e prepara a conversão do Brasil numa espécie de ‘Cuzuela’, mistura da ditadura de Cuba com o caos autocrático da Venezuela.
Num filme convencional de James Bond, algum solitário 007 irromperia em cena para salvar a humanidade. Com uma pistola implantada num isqueiro, o agente secreto eliminaria os supervilões antes que eles apertassem os botões que farão do Brasil um centro de torturas hipertrofiado ou uma clepto-ditadura. Como 2018 virou um filme sem mocinhos, o medo ganhou novas formas e plataformas.
Em 2014, a marquetagem de João Santana intercalou na televisão notícias falsas sobre rivais e um desfile apoteótico de plantações exuberantes, obras públicas tocadas em ritmo febril, fábricas operando a todo o vapor e povo usufruindo de prosperidade inaudita. Deu em estelionato eleitoral, recessão, desemprego e Michel Temer. O Tribunal Superior Eleitoral fechou os olhos para a lama.
Agora, novamente sob a complacência do TSE, o lodo transborda da TV para o telefone celular. Vem da esquerda e da direita. Na quantidade, a milícia cibernética pró-capitão, anabolizada por um caixa dois empresarial, prevalece sobre a guerrilha companheira. Petistas gritam: “Pega ladrão!”. Bolsonaristas respondem: “Olha quem fala!” E a Polícia Federal, acionada pela Procuradoria, investiga os dois lados.
Podendo fornecer informação, a propaganda política levou ao eleitor mistificação e medo. Desinformado e angustiado, esse eleitor irá às urnas em uma semana. A maioria votará não no candidato preferido, mas no mal menor.
O Brasil não reativará o pau de arara. Tampouco virará uma ‘Cuzuela’. Mas o centro tecnológico de produção de maldades continuará ativo. Restará suportar as consequências do voto e torcer para que a democracia providencie um James Bond em quatro anos. Gente como o cronista Rubem Braga, do tempo em que as geladeiras eram brancas e os telefones pretos, talvez passe a conferir as mensagens que chegam pelo celular com um sentimento de hedionda nostalgia.
Em uma eleição nada parecida com as anteriores, Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT) já falaram mal um do outro até não ter mais jeito. Buscam se mostrar como opostos. E são. Até na forma de divulgar o programa de governo. Bolsonaro libera o dele a conta-gotas, o que é uma prática bastante comum na política de todo o mundo, pois torna possível medir a aceitação ou rejeição de determinada proposta. Haddad apresentou um programa completo, um catatau que aos poucos vai sendo modificado para se adaptar ao pensamento do próprio candidato, visto que o primeiro fora pensado para a eventual candidatura do ex-presidente Lula, como a convocação de uma Assembleia Constituinte.
Como essa é uma eleição carregada de novidades e atipicidades, o brasileiro não deverá ver um debate entre os dois finalistas ao Palácio do Planalto. Pelas redes sociais e pela propaganda no rádio e na TV, os mais de 140 milhões de eleitores tentam entender o que um e outro pensam a respeito de temas que dizem respeito ao cotidiano do cidadão, a exemplo do combate ao desemprego, da melhoria dos serviços públicos de saúde, transporte, segurança, educação e também em relação ao futuro do País. Vamos para a frente ou vamos para trás?
O futuro do País. Essa é uma questão muito importante. Um deles, Bolsonaro ou Haddad, será eleito daqui a oito dias. Terá o escolhido pelas urnas, e essa é a decisão que vale, independentemente de tendências ideológicas, competência para governar o País, pacificar a sociedade? Ou se sentará na cadeira de presidente, no Palácio do Planalto, por um gosto pessoal ou para cumprir uma tarefa partidária?
Eleito em 1989 com uma votação expressiva, Fernando Collor mostrava tanta confiança que, um dia depois da posse, baixou uma medida provisória que confiscou todos os ativos financeiros dos cidadãos que o haviam elegido presidente, o chamado confisco da poupança. Foi uma medida tão drástica e traumática que em 2001 o Congresso aprovou uma emenda constitucional proibindo o presidente da República de editar medida provisória “que vise a detenção ou sequestro de bens, de poupança popular ou qualquer outro ativo financeiro”. Collor assumiu o mandato em 15 de março de 1990. Em 2 de outubro de 1992, sem nenhum apoio no Congresso, e com o processo de impeachment contra ele já instaurado no Senado, foi afastado da Presidência. Em seu lugar assumiu Itamar Franco, que fez um governo de pacificação e salvação nacional.
A construção da governabilidade depende de vários fatores. Um deles é básico: a capacidade que o eleito tem para montar uma equipe de credibilidade, ter o comando sobre ela, mas não centralizar tudo em torno de si, uma base forte no Congresso, diálogo com os outros poderes e com os diversos setores da sociedade. Lula, por exemplo, conseguiu montar uma equipe forte e variada. Ante a desconfiança do mercado buscou no PSDB, com o qual havia disputado o segundo turno da eleição, o seu presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, que construíra a carreira no BankBoston. Seu ministro da Fazenda foi o médico Antonio Palocci, que durante a campanha tivera uma aproximação muito forte com o mercado e com os empresários.
Já Dilma Rousseff foi apresentada como a gestora das gestoras. Sua gestão, no entanto, foi um fracasso. Ela não tinha jogo de cintura para negociar com o Congresso, não gostava de se reunir com os políticos, centralizava tudo e provocava tanto medo físico em alguns de seus ministros que vários preferiam ficar longe do Palácio do Planalto. Como Collor, Dilma sofreu um processo de impeachment e teve o mandato cassado. Talvez a marca maior dela tenha sido a mudança que impôs ao substantivo comum de dois gêneros presidente, trocando-o por presidenta.
A campanha anda radicalizada, mas acostumem-se. A democracia será assim, doravante. Talvez não exatamente desse jeito. Talvez tenhamos candidatos mais bem comportados e elegantes, no futuro.
Mas o fato é que ingressamos na era da democracia digital. Há milhares de pessoas falando o que bem entendem, na internet, sem muita paciência para ouvir o que os outros têm a dizer.
Elas não estão lá muito preocupadas em checar as informações que compartilham ou chegar a um acordo sobre nada. Isso é função da liderança política, dos partidos, do Parlamento. Do lado institucional na política, que agora passou a ser apenas um lado, e não quase toda a política, como foi no passado.
Dito isto, não me surpreendo muito com a estridência do nosso debate eleitoral. Digo apenas que andamos exagerando um pouco. Alunos e professores de uma universidade federal, no sul do país, se dão o direito de suspender as aulas e fazer campanha para “combater o fascismo”. Usam o espaço público sem a menor cerimônia, visto se considerarem donos de algum tipo superior de virtude.
Um articulista aparentemente sério diz estarmos prestes a “viver sob uma intervenção massiva do Estado em todas as esferas de nossas vidas”. Leio outro que assegura estarmos ingressando em mais “vinte e um anos de medo e escuridão”, e pede que aproveitemos para falar agora, pois não se sabe se “ainda teremos este direito quando janeiro chegar”.
A estética do exagero parece ter tomado conta do debate público, mas gradativamente vou percebendo sinais de cansaço. Devagar, percebo muita gente se dando conta que toda esta onda de pavor com a fraseologia de Bolsonaro cedendo espaço a um senso de realidade.
O que um presidente pode fazer, de verdade, contra a vigência de direitos individuais? Emendas à Constituição demandam quatro votações, com quórum qualificado, nas duas Casas. Educação básica compete aos estados e municípios. Segurança ostensiva aos estados. Há um sistema de Justiça independente e uma Suprema Corte ativa e vigilante.
E há liberdade de imprensa, uma sociedade civil organizada e atuante. Numa expressão: estamos longe de ser uma república de bananas, como muitas vezes desconfio que nos veem intelectuais estrangeiros que se especializaram em fazer alertas sobre nossa democracia, em artigos de jornal.
Gradativamente, percebo que a tese do “risco democrático” vai perdendo espaço no sistema político e na intelectualidade mais independente. Vamos, aos poucos, separando o que é realidade daquilo que não passa de retórica de campanha eleitoral (em relação a qual já deveríamos estar vacinados, depois de 30 anos).
O cientista político Carlos Pereira expressou isto com clareza ao dizer que há “risco zero” para nossa democracia, e que, mesmo havendo traços iliberais em ambos lados da disputa política, nossas instituições são fortes e que a “sociedade pega fogo” quando percebe alguma ameaça.
Meu argumento vai nesta direção: a democracia é um surpreendente mecanismo inclusivo, capaz de moderar posições políticas. Muitas vezes subestimado, como nos fez ver Alexis Tocqueville.
É evidente que isto só é verdade quando o sistema de freios e contrapesos funcionam. Quando o custo para o gesto autoritário, por pequeno que seja, é alto. É precisamente este o caso do Brasil atual.
Isto se acentua como efeito de nosso modelo de governabilidade via coalizões, no Congresso. Ele induz à negociação e à composição. Ele obriga ao diálogo, à arte da escuta e da concessão. Ele impõe lentidão à democracia, cria efeitos adversos de cooptação e clientelismo político, alimenta nossa cultura patrimonial.
Mas funciona como um complexo metabolismo de redução do risco democrático.
Agora mesmo, para além da gritaria generalizada que marca a campanha, assiste-se a um discreto processo de realinhamento do sistema político.
A nova composição partidária do Congresso reforçou, na margem, seu perfil liberal e conservador, e não se vislumbra maiores dificuldades para que um eventual governo Bolsonaro forme uma base partidária consistente.
Seu maior desafio será compreender que os mesmos atributos e métodos que produziram sucesso eleitoral não são suficientes para garantir eficiência a seu governo.
Para ganhar a eleição, é perfeitamente racional o rechaço ao sistema político e a retórica antissistema. Para governar, é preciso trabalhar com o sistema. É preciso gerenciar uma ampla base, que deve incluir quase todos os partidos, menos a esquerda tradicional e o PSDB.
Neste quadro, minha aposta é clara: Bolsonaro se revelará, caso eleito, um presidente bastante mais moderado do que a imagem criada a seu respeito. Imagem que ele cuidadosamente alimentou e foi responsável pelo seu sucesso eleitoral (ao menos até o momento).
Sinais desse giro moderado já são evidentes. Paulo Guedes tem se mantido quieto e há um recuo claro na retórica das privatizações. Bolsonaro agora fala em preservar com o Estado o “miolo” da Eletrobrás, e diz que pretende fazer tudo gradualmente.
No tema da reforma da Previdência, assistimos o mesmo movimento. Bolsonaro implodiu qualquer chance do tema avançar no Congresso ainda este ano e sinalizou vagamente que simpatizaria com uma idade mínima de 61 anos para o sistema.
O mesmo se deu na temática social e de segurança. Ele agora fala em uma redução mais contida da maioridade penal, para 17 anos, e acena com uma reforma ampla dos programas de transferência de renda como o Bolsa Família.
É evidente que tudo isto pode não passar de retórica eleitoral. Mas também é verdade que a posição de Bolsonaro não lhe exige fazer grandes concessões.
Uma parte importante do trabalho de quem tenta compreender o mundo da política é enxergar alguns movimentos à frente. O sistema político já se encontra em processo de realinhamento.
Bolsonaro vai gradativamente se mostrando um político mais pragmático do que muitos imaginavam. Se isto é positivo, ou não, vai do juízo de cada um.Fernando Schüler
Em novembro de 1955, depois do “golpe preventivo” do então ministro da Guerra, general Henrique Teixeira Lott, para garantir a posse de Juscelino Kubitschek na Presidência, Otto Lara Resende foi entrevistar Lott para a revista Manchete. Mas o general era ruim de verbo e não estava sabendo contar a história. Daí, Otto, com as informações que apurara, escreveu-a ele próprio como se fosse Lott falando. Lott não se queixou. Ao contrário, adorou. E até passou à história como autor de uma expressão que Otto pusera na sua boca: a do “retorno aos quadros constitucionais vigentes” —querendo dizer que a Constituição era intocável.
Vinte anos depois, em 1975, Carlos Heitor Cony, repórter da mesma Manchete, foi entrevistar o famoso falsário Walmir Vieira Azevedo, autor de grandes golpes em São Paulo. Mas, ao lhe ser apresentado na delegacia, Walmir não quis falar. Cony não se apertou. Inventou tudo e ocupou quatro páginas da revista com a genial “Entrevista de mentira com um falsário de verdade” —sem deixar o leitor saber se o texto era a sério ou não.
Nos anos 60, Millôr Fernandes escreveu uma peça de teatro sobre o bairro boêmio da Lapa. Numa passagem, o valentão Madame Satã enfrenta a polícia de Getúlio Vargas. Bate em 20 soldados e só é levado preso porque o subjugam e amarram a um burro-sem-rabo, do qual sai de cena em triunfo. Essa história nunca aconteceu e a peça não foi encenada. Mas Satã ficou sabendo da passagem e gostou. Anos depois, o Pasquim entrevistou Satã e ele a contou como se fosse verdade. Um dos entrevistadores era o próprio Millôr —que não o desmentiu, para não desapontá-lo. Afinal, Satã acreditava mesmo que tinha batido na polícia.
Essa é a diferença. As fake news inventadas por Otto, Cony e Millôr mereciam ser verdade.
As de hoje fedem à distância e só acredita nelas quem, além do olfato, perdeu a visão.
Não me amolem,
não discutam.
Não sou de esquerda
nem de direita
nem do centro.
Só defendo o direito
de cada um ser filho da puta
conforme o seu gosto
e o seu jeito.
Meses atrás, correu pelo mundo um cartum de um desenhista australiano que teve a ousadia de retratar Serena Williams na final do Aberto dos Estados Unidos, fazendo birra e pisoteando a raquete. O desenho, disseram os iluminados, retratava Serena Williams com traços racistas —lábios grossos, cabelo frisado, ancas generosas.
Fui ver. Confirmei. O desenho era insultuoso. Não por motivos racistas. Mas porque se tratava de uma caricatura. E a caricatura, por definição, amplifica as singularidades físicas de qualquer indivíduo até ao ridículo.
Sei do que falo. Já tive várias caricaturas a imortalizar as minhas feições de Adonis. Em todas elas, por razões misteriosas, a minha testa adquire proporções grotescas, dignas do monstro do dr. Frankenstein (na versão de 1931). É um insulto.
Infelizmente, parece que esses insultos não são mais tolerados quando o alvo do humor pertence a uma qualquer minoria.
Depois do cartum polêmico, li no Diário de Notícias português declarações de dois grandes cartunistas lusos que partilhavam com o leitor a dificuldade crescente em desenharem celebridades negras.
André Carrilho, um gênio que espalha o seu talento pela Vanity Fair e outras publicações semelhantes, confessa que uma caricatura do ator Denzel Washington de 2012 seria impublicável em 2018. (Entre parêntesis: Carrilho é autor da capa do meu primeiro livro de crônicas. Uma caricatura, sim: testa gigantesca, cara pálida etc. e tal.)
O ilustrador Nuno Saraiva concorda com Carrilho: os editores, hoje, só aceitam caricaturas de “negros caucasianos”, ou seja, negros com feições de brancos. Os lábios têm de ser mais finos; o cabelo mais liso; as feições menos africanas etc. etc.
O pensamento politicamente correto pensa que isso é respeito. Não é. É insulto racista: só um racista poderia pensar que negro bom é negro branco.
Outro exemplo? Leio no The Times que os estudantes da Universidade de Kent fizeram uma lista dos trajes que não serão mais tolerados nas festas universitárias.
Pessoal vestido de índio (ou caubói); padre (ou freira); com um “sombrero” mexicano (ou imitando Harvey Weinstein —juro, não inventei; como será esse traje?) será barrado. Tudo em nome da “sensibilidade” das vítimas que essas roupas evocam.
Pelo contrário: quem quiser ser homem das cavernas ou alienígena tem entrada garantida. O primeiro está extinto. O segundo ainda não apareceu. Não há risco de ofensa, pensam os estudantes, acreditando genuinamente que a) eles próprios não são homens das cavernas e b) eles próprios não exibem uma inteligência alienígena quando censuram com histeria puritana.
A primeira vítima do pensamento politicamente correto é o humor. Mas, nessa tentativa de abolir qualquer possibilidade de riso, as patrulhas só conseguem produzir uma nova forma de humor. O fato de ele ser involuntário só reforça a intensidade das minhas gargalhadas.João Pereira Coutinho
A situação do Brasil é preocupante. Além de todos os problemas já costumeiros – miséria, níveis inauditos de criminalidade, poluição, grupos guerrilheiros de “sem-terra” etc. –, os anos perdidos com o país nas garras do petismo nos deixaram uma triste herança de divisão. É coisa sem base alguma na nossa cultura, mas importada, como costuma acontecer, da política americana pelas esquerdas. Foram 12 anos, ou mais (já que a mídia apoia as campanhas do PT desde muito antes de sua subida ao poder, e continua em grande medida a fazê-lo), em que se tentou lançar brasileiro contra brasileiro: pretos contra brancos, pobres contra ricos, ciclistas contra motoristas, “sem-terra” contra fazendeiros, homossexuais contra heterossexuais, e por aí vai.
O modo de fazer política do PT é na verdade a antipolítica, baseando-se na divisão da pólis em grupos identitários que só existem por oposição uns aos outros. Dividir para reinar. Fazendo-se de aliado dos grupos soi-disant minoritários ou mesmo “oprimidos”, o PT deixou uma herança de ódio que teve sua confirmação mais trágica no atentado contra Bolsonaro na semana passada.
O próprio Bolsonaro assumiu, de muito bom grado, aliás, a figura de alvo das investidas petistas, com suas declarações politicamente incorretas e mesmo grosseiras. O horrendo atentado que sofreu, diga-se de passagem, foi justamente em decorrência disso: demonizaram-no a tal grau que um comunista louco achou estar agindo em nome de Deus ao esfaqueá-lo. Independentemente de se houve mandantes no atentado, foi isso que afirmou o criminoso, e não vejo razões para duvidar dele. Há deficientes mentais que incendeiam o Reichstag, ainda que outros lhes ponham o archote na mão. Em outro nível, mas ainda na lista de ataques absurdos com o único objetivo de demonizar Bolsonaro, foi um grande alívio perceber que não foi à frente a grotesca acusação de racismo feita contra ele por conta de umas poucas grosserias proferidas numa palestra ao eleitorado judeu. Aliás, em flagrante contraste com as delirantes acusações de que ele seria nazista (!), este eleitorado o apoia entusiasticamente em grande medida. É até interessante notar que sua assessoria dispensou a UTI aérea do hospital árabe Sírio-Libanês, que já voara a Juiz de Fora logo depois do atentado para pegá-lo, e transferiu-o, em vez disso, para o Hospital Israelita Albert Einstein.

Mas o problema perdura. O próximo presidente herdará um país dividido, um país em que o ódio e a adesão a visões identitárias da realidade (que, repito, só existem por oposição: o preto é o não branco e o antibranco; o homossexual é o não heterossexual e anti-heterossexual; o ciclista é o antimotorista por antonomásia; e por aí vai, nesta bizarra e violentíssima visão de mundo que o PT nos legou) impedem a realização de uma verdadeira política, que é e só pode ser baseada na civilidade comum. Civis e pólis, a origem etimológica da “civilidade” e da “política”, são a mesma palavra em latim e em grego.
Far-se-ia necessário um estadista, alguém que conseguisse voltar a unir o país em torno de um projeto comum, de uma visão comum de pátria em que houvesse lugar para todos, lado a lado, sem oposição. Não há razão alguma para essas oposições identitárias violentas, importadas de uma cultura de origem calvinista e, portanto, dualista, em que a divisão (entre “ganhadores” e “perdedores”, pretos e brancos etc.) é impensada, culturalmente esperada e incontestada. A nossa cultura é outra: aqui somos pelo diálogo, pela tolerância, pela busca do consenso, pela união que a cultura americana não conhece. Importar esta forma americana de fazer uma antipolítica foi não apenas um atentado à própria política, à própria arte do compromisso e da busca de consenso, como um atentado contra a nossa própria cultura brasileira.
E aí é que surge o problema: onde está este estadista? Que eu saiba, em lugar nenhum. Bolsonaro tem a vantagem de, no “nós contra eles” petista, em que o “eles” é o grosso da população, fazer parte deste último grupo. Ele não é, ao contrário do que pregam ad nauseam os petistas e seus aliados, “divisivo”, “racista”, “homofóbico” ou o que quer que seja. Na verdade, costumo dizer que ele poderia ser substituído por um taxista aleatório e ninguém perceberia a diferença. Ele é simplesmente uma pessoa comum, inteligente, com um sistema de valores moldado pela experiência militar e sua ênfase no “rusticismo” – que para os desacostumados pode parecer grosseira –, com uma religiosidade difusa, confusa e desordenada como infelizmente é hoje de praxe, após pouco mais de meio século de mistura entre espiritismo e protestantismo pentecostalista sobre a base católica de nossa cultura. Como já escrevi anteriormente, ele espertamente assumiu no Congresso, quando o discurso único petista parecia invencível, uma postura de “bobo da corte”, em que seus exageros e grosserias o faziam parecer tão absurdo que ninguém o levaria a sério, e usou esse palco para fazer chegar ao grosso da população a percepção de que haveria alguém ali que não havia enlouquecido. O que parecia loucura para os petistas foi percebido como sanidade pelo eleitorado, ou por grande parcela dele. São Paulo Apóstolo aprovaria.
Mas ele não é um estadista. Mais ainda: nem ele nem nenhum de seus concorrentes, de que tratarei brevemente mais abaixo, são estadistas, e muito menos o estadista de que o Brasil precisa. O modo pelo qual ele operou a sua subida à posição que hoje ocupa foi derivado da política divisiva do PT, colocando-se como antítese de todas as teses pregadas por eles. Não é nem de uma antítese nem de uma síntese que precisamos, ao contrário do que prega o materialismo dialético que, em versão pós-moderna, orienta o maquiavelismo petista. Precisamos, ou antes precisaríamos, dada a sua inexistência, de alguém que soubesse se colocar acima dessas divisões, não de alguém que as surfa e as usa de rampa de lançamento, como Bolsonaro fez e faz.
Ainda que ele seja, de longe, o mal menor em comparação com seus concorrentes, uma sua ascensão ao poder só fará recrudescer o discurso divisivo petista, que já conseguiu pregar nele, com sua colaboração entusiástica, o rótulo de inimigo pessoal de cada uma das identidades raivosas. O antipreto, anticiclista, anti-homossexual etc. Em outras palavras, ele não se colocou como inimigo da divisão, sim como componente dela, assumindo a postura de defensor da maioria contra as minorias ensandecidas. Este é um papel necessário no parlamento, mas não pode ser a postura do Executivo. Mas é um papel. Quem desempenha um pode desempenhar outro, se isso lhe for permitido.
Não sei, sinceramente, se sua excelente assessoria conseguiria retirá-lo da posição em que ele mesmo se colocou. Com certeza, o PT e seus aliados (basicamente os partidos de todos os seus concorrentes na campanha presidencial, mais a mídia, mais os professores, sindicalistas, subversivos profissionais etc.) de tudo farão para continuar a mantê-lo nesse papel. Se isso acontecer, o que poderia e deveria ser feito pacificamente por um estadista teria de ser feito de maneira violenta, calando o discurso divisivo e vitimando, como efeito colateral, aqueles que atrelaram a ele a sua própria identidade. Evidentemente, isso só faria fortalecer o discurso vitimista do PT. É uma armadilha da qual Bolsonaro (que, repito, continua sendo o mal menor) teria enorme dificuldade de escapar, por melhores que sejam seus assessores. E ele tem de confiar neles: saiu do Exército capitão apenas, logo, sem ter feito Escola de Estado-Maior. Ele conhece tática, não estratégia. Curto, não longo prazo. Ação local, não ação global. Neste ponto é um alívio que tenha se cercado de generais, mas resta saber o quanto ele os ouviria no Planalto.
E quem são seus opositores?
Ciro Gomes é um coronelzinho nordestino tradicional, com a desvantagem de ser um boquirroto brigão que faz Bolsonaro parecer um modelo de moderação. Que eu saiba, Bolsonaro nunca bateu em quem o xingasse na rua (coisa que vem junto com a carreira política), ao contrário de Ciro. Eleito presidente, Ciro alternaria entre comprar deputados à moda tradicional e brigar com todo o mundo. Decididamente não é o estadista que viria acabar com as divisões plantadas artificial e artificiosamente pelo PT, partido que, aliás, ele apoia. Basta ver suas declarações acerca do presidiário de Curitiba.
Marina é o PT pintado de verde. Qual ser da floresta ignota, levanta-se a cada quatro anos de seu jazigo no meio da selva para assombrar as eleições presidenciais. Eleita, seria uma Dilma em versão 2.0, provavelmente até com direito a discursos desconexos como sua antiga colega de partido. Não dá nem para síndica de prédio, que dirá para estadista. Seu lugar, como o de Bolsonaro, é o parlamento, onde opiniões extremadas – como as suas em relação ao meio ambiente – servem de bússola em votações, sem jamais conseguirem maioria.
Alckmin é a parteira do PCC. Foi ao longo de seu longuíssimo reinado, direto e indireto, sobre o estado de São Paulo que aquela facção criminosa conseguiu dominar os presídios e organizar todas as ações criminosas do Estado, espalhando-se ainda pelo Brasil afora. A diminuição de homicídios devida às ordens do PCC (para não atrair polícia e não interromper as lucrativas ações de roubo, furto e venda de drogas) embelezou as estatísticas e ajudou a esconder o fato de que no seu plantão a polícia judiciária de São Paulo foi quase destruída. É o oposto de um estadista. É alguém que só vê a publicidade, as aparências, e não sabe pensar no médio e longo prazo. Provavelmente conseguiria ser pior que todos os concorrentes, com a exceção do seguinte.
Boulos é um criminoso, que deveria estar preso. De preferência na mesma cela de seu mentor Lula, tomando cuidado para que não acontecesse com ele o mesmo que quase aconteceu com o “menino do MEP”. Ou não. Um filhinho de papai mimado, como Ciro Gomes, com a agravante de ter feito carreira invadindo e depredando a propriedade alheia. Eleito – coisa que não tem chance alguma de acontecer, graças ao bom Senhor Deus –, ele levaria o país no caminho nem um pouco saudável que tomou a Venezuela. Um aspirante a ditador, perigoso e antissocial.
Haddad é uma piada, que saiu corrido da prefeitura de São Paulo depois de ter feito fama ao derramar tinta vermelha pela cidade afora afirmando estar a criar ciclovias. É o segundo poste do Lula. Depois de a Lava Jato ter posto a nu alguns dos horrores e roubalheiras da gestão petista, Lula há de ter voltado aos seus 30% de apoio de que gozava antes de seus publicitários o transformarem em “Lulinha Paz & Amor”. Se tanto. Só aqueles que foram vitimados pela lavagem cerebral petista (ministrada numa escola perto de você, nas aulas que deveriam ser de História, Geografia, Filosofia, Sociologia, Português…) conseguem levar a sério o presidiário barbudo. Destes, alguns passarão a votar no Haddad, por ordens do Chefe. Mas Haddad presidente é algo que provavelmente nem a mãe dele quer de fato. Pobre senhora.
E é por isso que sobra o Bolsonaro. Mas para ganhar ele precisa operar a mágica – que a facada talvez ajude a conjurar – de abrandar a sua persona de “bobo da corte” parlamentar, de parte na disputa entre Fulanos e Beltranos importada pelo PT, e mostrar-se como quem ele verdadeiramente é: não, infelizmente, o estadista de que o Brasil precisa, mas uma pessoa normal. Ele não é um monstro racista, nazista, fascista, saxofonista, o que seja. Ele é simplesmente um brasileiro médio, com um bom talento para perceber o que está no ar. Se ele conseguir, a Presidência é sua. E na Presidência, talvez, quem sabe, um brasileiro médio consiga começar o que há de ser a longa obra de restaurar a unidade do Brasil.
A história mostra que nem sempre a maioria tem razão. Ou, pior, quase sempre não tem. Porque há sempre pouca razão, e muita emoção e sentimentos, nas escolhas das multidões apaixonadas, que se tornam cegas e surdas para tudo que lhes contrarie a crença.
O povo argentino na Plaza de Mayo aplaudindo em delírio a ditadura do bêbado e odiado general Galtieri quando declarou guerra à Inglaterra. A ascensão de Hitler e do nazismo. O tempo do terror na Revolução Francesa.
Collor, o caçador de marajás, incendiando as massas. Jânio Quadros, bebum e mulherengo, defensor da moral e dos bons costumes, chamando JK de corrupto, proibindo o biquíni, e empolgando o país.
Quase sempre discordo da maioria, e agora ainda mais, diante das opções tenebrosas. Seja quem for, no dia seguinte à posse, estarei na oposição.
É um pesadelo imaginar Gleisi Hoffmann, Lindbergh Farias e Vanessa Grazziotin de volta ao poder. A administração e as estatais aparelhadas por sindicalistas. Fundos de pensão saqueados por correligionários. Economistas populistas. E o constrangimento do presidente da República receber ordens da cadeia, como as facções criminosas. Pobre e heroico Haddad. Mas é o que temos, pelo egoísmo e vaidade de Lula, que torpedeou a aliança com o experiente, honesto e preparado Ciro Gomes, o único que seria agregador e competitivo, até pelo estilo agressivo, contra Bolsonaro.
O maior eleitor de Haddad é Lula, e de Bolsonaro é Lula também: o antipetismo massivo desmente qualquer conspiração das elites, da mídia golpista, de Sergio Moro e do TRF-4, para perseguir Lula. A verdade é que o Brasilzão real é conservador, com alguns bolsões liberais, e está muito bravo. Só precisava de alguém que o representasse.
É como o “estado de paixão” amoroso, a pessoa não sabe, mas já está apaixonada, só falta o objeto da paixão, o manequim que vestirá as suas fantasias, e que o tempo e a realidade vão desnudar.
Tristes tempos em que cegos são guiados por loucos rumo ao abismo, diria o Rei Lear.
"Para o jornalista, tudo o que é provável é verdade". Trata-se dum axioma estupendo, como tudo o que Balzac inventa. Refletindo nele, nós percebemos quantas falsidades se explicam e quantas arranhadelas na sensibilidade se resumem a fanfarronices e não a conhecimento dos factos.

Em geral, o pequeno jornalista é um profeta da Imprensa no que toca a banalidades, e um imprudente no que se refere a coisas sérias. Quando Balzac refere que a crítica só serve para fazer viver o crítico, isto estende-se a muitas outras tendências do jornalista: o folhetinista, que é o que Camilo fazia nas gazetas do Porto (...). Eu própria não estou isenta duma soma de articulismos, de recursos à blague, de graças adaptáveis, de frequentação do lado mau da imaginação, de ridículos, de fastidiosos conselhos, de discursos convencionais, de condenações fáceis, de birras imbecis, de poesia de barbeiro, de elegâncias chatas, de canibalismo vulgar, de panfletismo "bom cidadão". Quando não sou nada disso, sou assunto para jornais, mas não sou jornalista.
Agustina Bessa-Luís, "Dicionário Imperfeito"
Consciente de que será muito difícil reverter a vantagem de Jair Bolsonaro (PSL) na disputa pela Presidência da República, o PT decidiu partir para seu "plano B": fazer campanha para deslegitimar a eventual vitória do oponente, qualificando-a como fraudulenta. É uma especialidade lulopetista.
A ofensiva da tigrada está assentada na acusação segundo a qual a candidatura de Bolsonaro está sendo impulsionada nas redes sociais por organizações que atuam no "subterrâneo da internet", segundo denúncia feita anteontem na tribuna do Senado pela presidente do PT, senadora Gleisi Hoffmann, que lançou o seu J'accuse de fancaria.
"Eu acuso o senhor (Bolsonaro) de patrocinar fraude nas eleições brasileiras. O senhor é responsável por fraudar esse processo eleitoral manipulando e produzindo mentiras veiculadas no submundo da internet através de esquemas de WhatsApp pagos de fora deste país", afirmou Gleisi, que acrescentou: "O senhor está recebendo recursos ilegais, patrocínio estrangeiro ilegal, e terá que responder por isso. (...) Quer ser presidente do Brasil através desse tipo de prática, senhor deputado Jair Bolsonaro?"
Como tudo o que vem do PT, nada disso é casual. A narrativa da "fraude eleitoral" se junta ao esforço petista para que o partido se apresente ao eleitorado - e, mais do que isso, à História - como o único que defendeu a democracia e resistiu à escalada autoritária supostamente representada pela possível eleição de Bolsonaro.
Esse "plano B" foi lançado a partir do momento em que ficou claro que a patranha lulopetista da tal "frente democrática" contra Bolsonaro não enganou ninguém. Afinal, como é que uma frente política pode ser democrática tendo à testa o PT, partido que pretendia eternizar-se no poder por meio da corrupção e da demagogia? Como é que os petistas imaginavam ser possível atrair apoio de outros partidos uma vez que o PT jamais aceitou alianças nas quais Lula da Silva não ditasse os termos, submetendo os parceiros às pretensões hegemônicas do demiurgo que hoje cumpre pena em Curitiba por corrupção?
Assim, a própria ideia de formação de uma "frente democrática" é, em si, uma farsa lulopetista, destinada a dar ao partido a imagem de vanguarda da luta pela liberdade contra a "ditadura" - nada mais, nada menos - de Jair Bolsonaro. Tudo isso para tentar fazer os eleitores esquecerem que o PT foi o principal responsável pela brutal crise política, econômica e moral que o País ora atravessa - e da qual, nunca é demais dizer, a candidatura Bolsonaro é um dos frutos. Como os eleitores não esqueceram, conforme atestam as pesquisas de intenção de voto que expressam o profundo antipetismo por trás do apoio a Bolsonaro, o PT deflagrou as denúncias de fraude contra o adversário.
O preposto de Lula da Silva na campanha, o candidato Fernando Haddad, chegou até mesmo a mencionar a hipótese de "impugnação" da chapa de Bolsonaro por, segundo ele, promover "essa campanha de difamação tentando fraudar a eleição".
Mais uma vez, o PT pretende manter o País refém de suas manobras ao lançar dúvidas sobre o processo eleitoral, assim como já havia feito quando testou os limites legais e a paciência do eleitorado ao sustentar a candidatura de Lula da Silva. É bom lembrar que, até bem pouco tempo atrás, o partido denunciava, inclusive no exterior, que "eleição sem Lula é fraude".
Tudo isso reafirma, como se ainda fosse necessário, a natureza profundamente autoritária de um partido que não admite oposição, pois se julga dono da verdade e exclusivo intérprete das demandas populares. O clima eleitoral já não é dos melhores, e o PT ainda quer aprofundar essa atmosfera de rancor e medo ao lançar dúvidas sobre a lisura do pleito e da possível vitória de seu oponente.
Nenhuma surpresa: afinal, o PT sempre se fortaleceu na discórdia, sem jamais reconhecer a legitimidade dos oponentes - prepotência que se manifesta agora na presunção de que milhões de eleitores incautos só votaram no adversário do PT porque, ora vejam, foram manipulados fraudulentamente pelo "subterrâneo da internet".
A notícia de que empresários financiam ilegalmente o envio massivo de mensagens anti-PT via WhatsApp revolucionou o pensamento do Partido dos Trabalhadores sobre as prisões, as delações e o trabalho da imprensa. Em menos de 24 horas tudo o que o partido considerava como afronta ao Estado Democrático de Direito nos quatro anos e meio de duração da Lava Jato passou a ser legal, necessário e urgente.
Em sua primeira manifestação sobre o caso, o presidenciável petista Fernando Haddad disse que o rival Jair Bolsonaro “deixou rastro” que permite vinculá-lo ao esquema de difusão de mensagens. Implacável, Haddad defendeu o uso da prisão como meio de obtenção de confissões. Mesmo que disponha, por ora, apenas de uma notícia da Folha, jornal que o petismo incluía até ontem no rol da “mídia golpista”.
“Se você prender um empresário desses, ele vai fazer delação premiada'', declarou Haddad. ''Basta prender um empresário que vai ter delação premiada e vão entregar a quadrilha toda. Nós estamos falando de 20 a 30 empresários envolvidos nesse esquema. Se prender um, em menos de dez dias a gente vai ter a relação de todos os empresários que estão financiando com caixa dois uma campanha difamatória.”
No petrolão, o PT condena as prisões mesmo quando são precedidas de meticulosos inquéritos. Em junho de 2015, a Executiva Nacional da legenda divulgou uma resolução para manifestar sua preocupação com as consequências do “prejulgamento de empresas acusadas no âmbito da Operação Lava-Jato.”
A manifestação do PT ocorreu cinco dias depois do encarceramento preventivo dos executivos das duas maiores empreiteiras do país: Marcelo Odebrecht, da empresa que leva o sobrenome de sua família, e Otávio Azevedo, da Construtora Andrade Gutierrez. Hoje, sabe-se que ambos estavam lambuzados com o óleo queimado da Petrobras até o último fio de cabelo.
No item de número quatro, o texto da resolução do PT desautoriza prisões como as que Haddad passou a defender: “Se o princípio de presunção de inocência é violado, se o espetáculo jurídico-político-midiático se sobrepõe à necessária produção de provas para inculpar previamente réus e indiciados; se as prisões preventivas sem fundamento se prolongam para constranger psicologicamente e induzir denúncias, tudo isso que se passa às vistas da cidadania, não é a corrupção que está sendo extirpada. É um Estado de exceção sendo gestado em afronta à Constituição e à democracia.”
Dias depois da divulgação da resolução petista, ainda em junho de 2015, a então presidente Dilma Rousseff torpedeou numa entrevista o instituto da delação premiada, incluído numa lei que ela própria havia sancionado. Um dos delatores da Lava Jato, o empreiteiro Ricardo Pessoa, dono da UTC, informara em depoimento que fizera repasses ilegais à campanha de Dilma à reeleição, em 2014. E ela: ''Não respeito delator, até porque estive presa na ditadura militar e sei o que é. Tentaram me transformar numa delatora (…) e garanto que resisti bravamente''.
Não bastasse o ataque a um mecanismo que se revelou vital para o êxito do combate à corrupção, Dilma misturou democracia com ditadura. Deu de ombros para o fato de que a delação que sancionara, longe de assemelhar-se à tortura, é uma ferramenta que a legislação oferece à defesa dos encrencados. É uma oportunidade que o criminoso tem de trocar a confissão por benefícios penais.
No mês passado, o próprio Haddad foi denunciado pelo Ministério Público paulista com base numa delação do mesmo empreiteiro Ricardo Pessoa. Acusaram-no de corrupção, lavagem de dinheiro e associação criminosa. De acordo com a denúncia, Haddad recebeu da UTC propina de R$ 2,6 milhões para pagamento de dívida contraída durante sua campanha à prefeitura de São Paulo, em 2012.
A exemplo de Dilma, Haddad desqualificou o delator. O adjetivo mais brando que utilizou foi “mentiroso”. Em nota, o comitê de campanha do PT esculachou também o Ministério Público: ''Surpreende que, no período eleitoral, uma narrativa do empresário Ricardo Pessoa, da UTC, sem qualquer prova, fundamente três ações propostas pelo Ministério Público de São Paulo contra o ex-prefeito e candidato a vice-presidente da República, Fernando Haddad''.
No episódio das mensagens de WhatsApp, cuja divulgação é atribuída a empresários a serviço de Bolsonaro, o PT é bem mais rigoroso. Trata o noticiário da ex-mídia golpista como elemento de prova: “Reportagem da Folha de S.Paulo desta quinta-feira (18) confirma o que o PT vem denunciando ao longo do processo eleitoral: a campanha do deputado Jair Bolsonaro recebe financiamento ilegal e milionário de grandes empresas para manter uma indústria de mentiras na rede social WhatsApp”, escreveu o partido em texto veiculado no seu site.
Está em jogo agora, segundo o novo conceito do PT, “a sobrevivência do processo democrático.” A legenda tem razão. O surpreendente é que, no ano passado, o PT pediu e obteve no Tribunal Superior Eleitoral o arquivamento da denúncia de abuso de poder econômico praticado pela chapa Dilma Rousseff-Michel Temer na eleição de 2014.
O processo foi arquivado por excesso de provas. Por um placar apertado —4 votos a 3— os ministros do TSE decidiram enterrar evidências vivas de que a Odebrecht pagara com dinheiro sujo da Petrobras o marketing que moeu adversários do PT como Marina Silva e produziu o estelionato eleitoral que reconduziu Dilma e Temer ao Planalto.
Nessa época, o PT não via no financiamento ilegal de campanhas um risco ao “processo democrático”. Fraude mesmo, alardeou a legenda neste ano de 2018, é uma eleição sem Lula, um político preso que o PT tentou, sem sucesso, transformar em ''preso político''. Não é à toa que Jair Bolsonaro está prestes a ser eleito pela maior força política existente no país: o antipetismo. Em matéria criminal, o PT é capaz de quase tudo, menos de oferecer algo que se pareça com um mea-culpa.