Após anos de investigações, denúncias e condenações de políticos ladrões, na Operação Lava Jato, o Brasil dá sinais de que não passava de encanação toda aquela aparente indignação com a ladroagem. A 43 dias das eleições de 7 de outubro, o líder nas pesquisas está preso por corrupção, segura a lanterna das pesquisas o único candidato a presidente que nunca foi político e no Congresso serão 75% reeleitos.
Três institutos parecem ter combinado pesquisas simultâneas em que confirmam os números das outras, elevados, sem qualquer explicação.
Na Câmara, centro de tantos escândalos, estudo indica que 25% dos deputados não serão reeleitos, porque resolveram tomar outro rumo.
A hipocrisia inclui a mentira reiterada diariamente, reproduza até pela “mídia golpista”, que trata um presidiário ficha suja como “candidato”.
Protagonistas da hipocrisia, a própria Justiça “cozinha” sem pressa, porque está sob holofotes, a definição da pretensa candidatura Lula.
Cláudio Humberto
domingo, 26 de agosto de 2018
Nossos heróis e a overdose
É, em resumo, a cova rasa com palmos medida que nos cabe no latifúndio do orçamento federal. Não obstante é ela a única fatia que o governo tem permissão legal para tornar menor quando os “ajustes” se fazem necessários. O Leviatã brasileiro só tem boca. Tudo que entra só sai de lá depois de morto, se e quando a graça recebida não for daquelas que podem ser transmitidas hereditariamente. Só o que a lei permite fazer com os empregados do estado em plena era da disrrupção é trocar as placas por debaixo das quais eles permanecem (literalmente) lotados. Extingue-se este ou aquele ministério, autarquia ou estatal mas todo mundo que recebe por elas ou fica intacto, ou é promovido e aposentado.

A única maneira legalmente aceita de reduzir a velocidade da marcha-a-ré do Brasil dos 27 milhões de desempregados pelo desajuste paralisante da política e das contas publicas é desacelerar os aumentos do funcionalismo. E a única maneira de engatar a marcha adiante é reduzir os gastos com ele. Só que não. O STF e o Ministério Público, os funcionários mais bem pagos e mais bem aposentados da nação, decretaram para si mesmos um aumento de 16,38% com “repercussão geral” no funcionalismo do país inteiro. Como a inflação em 12 meses foi de 2,5% esse multiplicador, que encanta pela minucia decimal, não tem outra referencia palpável senão a necessidade dos ministros da colenda corte de sustentar suas casas de fim-de-semana na Europa e nos Estados Unidos. Mas eles alegam que o país sairá no lucro por recompensar assim “os maiores combatentes da corrupção”..,
A situação nos estados e municípios também é catastrófica. Considerados os “penduricalhos” que eles se concedem mas não consideram para efeito de imposto de renda ou do seu próprio enquadramento no teto constitucional, as despesas tanto com o Judiciário (6% da receita corrente liquida) quanto com os MP’s (pelo dobro dos 2% legais) estão acima do teto em todos os estados da federação. Assim como quase todos os 5570 municípios eles também já gastam mais com aposentados que com funcionários efetivamente servindo nas áreas criticas da educação, da saude e da segurança publica. E como mais de ⅓ do funcionalismo com direito a aposentadorias especiais – cerca de 2 milhões de pessoas – já completou 50 anos e está na bica de passar a receber sem trabalhar, na hipótese mais benigna logo, logo os nossos heróis nos matam de overdose…
O jornalismo vive sob o mesmo dictat de Brasilia: só concorre às tribunas de maior alcance quem não insiste muito em ver o que seus olhos enxergamÉ uma numerália de assustar, mas não o bastante para fazer os brasileiros desistirem do Brasil. O que está empurrando o dólar para a estratosfera, os brasileiros para fora do Brasil e os assassinatos dos que ficam para níveis de selvageria é o fato de tudo isso continuar sendo solenemente ignorado na campanha eleitoral mais decisiva da nossa história, debate após debate, faltando menos de dois meses para o dia da votação. Do jeito que vai atravessaremos a campanha inteira sem extrair dos candidatos um compromisso claro a respeito do que, exatamente, cada um pretende fazer para nos tirar dessa enrascada e evitar essa explosão iminente ou, mesmo, como esperam fazer, todos os que nos prometem a remissão pela educação, que os ultimos habitantes da Terra dispensados de entregar resultados para não perder o emprego preparem a juventude brasileira para o mundo moderno se nem mesmo o medo de perder a eleição é maior que o medo que o Homo brasiliensis (de Brasilia, não de Brasil) aprendeu a ter das corporações que exaurem o estado a ponto de torná-lo ausente de tudo o mais, especialmente de onde ele mais faz falta.
A maioria que se recusa a escolher qualquer dos candidatos, especialmente se somada à parcela dos eleitores que declaram um voto hesitante nos que apenas não tomam posição aberta na defesa de privilégios, estava à espera de alguém que abraçasse francamente a luta contra eles para carregá-lo em triunfo até à cadeira presidencial. E é claro que todos os candidatos empacados na mesmice sabem disso. Mas sabem melhor ainda que faze-lo implica a certeza, ou de ser fuzilado com a própria lei que a “privilegiatura” usa como arma e não chegar vivo à eleição, ou de chegar “lá” mas só para ser condenado a uma paralisia excruciante.
Os presidentes ainda são eleitos pelo voto da maioria mas os políticos temem muito mais as corporações que a massa de eleitores que, assim que deposita o voto na urna, é emasculada e deixa de incomodar. E essa lógica só pode permanecer invertida porque, com as exceções que confirmam a regra, o jornalismo, que é o prumo que tudo deveria referir aos números e aos fatos e, assim, arrastar o debate para o tema do qual depende a sobrevivência dos empregos e da fé na democracia de todos os brasileiros sem condições de comprar uma dacha no exterior, vive sob o mesmo dictat de Brasilia: só concorre às tribunas de maior alcance quem não insiste muito em ver o que seus olhos enxergam. Daí, entre candidatos e jornalistas, para afirmá-lo ou para negá-lo, a parcela mais honesta não ousar mais que cobrar combate à corrupção por fora da lei mas fazendo vistas grossas à perversão desse combate em arma de corrupção e à roubalheira por dentro da lei, e a mais desonesta seguir fingindo que o maior problema do Brasil é saber o “gênero” dos assassinados de ontem e definir em que banheiro nossas crianças devem fazer seu xixi.
Nem sempre a novidade é avanço
Entro em total desacordo com a Light. Para economizar papel, a Light teve que diminuir o tamanho das letras e números. O que, em vez de facilitar a leitura, faz é dificultar, pelo menos para quem não tem mais, digamos, quarenta anos. Para ler a nova conta e seu importantíssimo link que uso para o pagamento on line, tive que me valer dos óculos e de uma lupa!
Foi para o bem do consumidor de energia ou para o bem do bolso da pobre Light? O que é que você acha, leitor?

E quanto aos remédios? Quando a propaganda fala em novos formatos e novas embalagens, já me aproximo com imensa desconfiança. Nos remédios, a nova embalagem quase sempre significa aumento de preço. E o fato de que as caixas, uma vez abertas, não poderão mais ser bem fechadas, pois para abri-las temos que rasgar a tampa, não tem outro jeito. Infelizmente, uso muitos remédios, dos mais variados laboratórios e uma vez aberta uma caixa de um determinado remédio só o que consigo é encostar a antiga tampa na caixinha. Fechar, nunca mais.
Isso só acontece com os remédios? Não, imagine, também com biscoitos, sucrilhos, farinhas, e muitas outras coisas. Tenho um amigo que sempre disse que o progresso industrial de uma nação pode ser medido pelas embalagens fabricadas no país. Eu achava isso engraçado. Já não acho…
O fato é que ao comparar produtos feitos no exterior aos feitos aqui, mais uma vez confirmo que meu amigo está é muito certo. Tomo como exemplo os discos. As caixas de acrílico dos CDs ingleses, alemães ou americanos, mesmo que abertas e fechadas com muita regularidade, duram muitos anos. Já as nossas, coitadinhas… se você ao abri-las não tiver muito cuidado, logo, logo, as tampas vão desmontar e a caixinha ficará inutilizada. O mesmo com os LPs. Tenho ingleses comprados em Londres na década de 60 do século passado que parece que foram comprados ontem o que, para quem ama seus discos, é um prazer que os fabricados aqui no Brasil não permitem.
Mas isso são objetos. Vamos torcer para que os eleitos nas eleições de outubro cumpram melhor a propaganda que os acompanha e que, bem acabados e mais resistentes que nossas embalagens, sejam novidades que sirvam ao Brasil durante um bom tempo e, de preferência, que não nos custem muito caro…
Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa
Um passado que teima em se manter presente
Vivíamos então a época dos pacotes, dos planos econômicos que se propunham a pôr ordem na casa de uma vez por todas e adquiriam o nome de seus autores: depois do Plano Cruzado I e II, o Plano Bresser, Plano Verão (Sarney); o Plano Collor I e II, para chegar ao Plano Real (FHC). Naquela época discutia-se a modernização do País. Tínhamos um ministério para a desburocratização; havia a convicção de que era preciso atrair investimentos externos, privatizar empresas estatais, reduzir a intervenção do Estado na economia, modernizar as relações trabalhistas, investir em infraestrutura, reduzir gastos públicos, reformar a Previdência, controlar a inflação, extirpar a corrupção. Uma agenda semelhante à que temos hoje, a comprovar que as mudanças não foram feitas e, quando feitas, não passaram de remendos. Remendos como as reformas que com grande custo passaram no Congresso em 2017; remendos, pois, ontem como hoje, as intenções de reformar cediam com enorme facilidade às pressões políticas que as desaconselhavam.
No Brasil, quando se chega a um impasse no Legislativo, que sem pudor foge da responsabilidade de decidir matérias controvertidas, todo o talento dos governantes e políticos é usado para remover dos projetos seus aspectos mais onerosos politicamente, postergando sua votação, por mais urgentes, impreteríveis, inadiáveis que sejam, já que “assim como estão não passariam” e “não é prudente desafiar os eleitores” em ano de eleição. O que é difícil fica para mais tarde e para os outros.

Neste ciclo entrópico de “eterno retorno”, desperdiçamos repetidamente o grande recurso de que se dispõe para governar, o tempo – a capacidade de antecipação, o alerta de Nabuco em 1870: “O pouco serve hoje, o muito amanhã não basta”, como relembrou oportunamente editorial do Estado de 21/8, ao tratar do preço pago pela procrastinação das decisões inadiáveis.
Nesta nova reconstituição do ciclo entrópico, saudado com alegria patológica pelos que dançam à beira do abismo, há, contudo, alguns componentes novos, segregados pelo organismo enfermo da Pátria. Desde logo significa um grave agravamento de uma crise muito grave (é preciso ser pleonástico).
Esta crise não surgiu. Foi provocada por aqueles que nos governam. Ela resulta de uma deliberada decisão de apropriação partidária e pessoal dos recursos públicos pelo PT, então na titularidade do governo, e da aliança de partidos eufemisticamente referidos como membros de um “presidencialismo de coalizão”. As características estruturais básicas do governo neste período de 15 anos são as mesmas de três décadas atrás: nossa forma especial de patrimonialismo – o paradigma estrutural do Estado hegemônico – em que tudo o que governo, classe política e organizações sociais fazem emana ou se dirige ao Estado, que se constitui na própria lógica da política no Brasil.
A sobrevivência deste paradigma ao longo dos 500 anos da nossa História se deve ao fato de que os modelos políticos que se sucedem, em resposta às mudanças conjunturais, são com ele compatíveis e os não compatíveis jamais alcançam o poder. Em conformidade com essa realidade histórica, movimentos e partidos políticos de direita, esquerda e de centro podem divergir em tudo, menos na necessidade de se apropriar do Estado para comandar a economia e a política nacional.
O Estado brasileiro, na sua atual condição de funcionamento, preenche quase plenamente uma de suas principais funções, ainda que encoberta por farta retórica ilusionista: a criação de empregos para a classe média e negociatas para as grandes empresas.
Curiosa, mas compreensivelmente, da situação de hegemonia do Estado sempre em crescimento emerge sua dupla condição de força e fraqueza. Força porque chegamos a uma situação em que apenas e tão somente o Estado pode remover o Estado da economia. E debilidade porque, apesar de todo esse poder, será forçado a abrir espaços que hoje ocupa na economia e na administração, por absoluta incapacidade de exercer as funções que acumulou.
Nossos verdadeiros problemas ciclicamente reincidentes não conseguem ser resolvidos porque integram a órbita das atribuições do Estado patrimonialista que ainda mantemos e são consequência inevitável desse paradigma estrutural. A mera menção de alguns deles explica por que não só não são enfrentados, como são agravados pela sua periódica reiteração: 1) Burocracia partidarizada, enorme, excessivamente cara, de baixa competência; 2) déficits permanentes e crescentes sem possibilidade de correção. Cortar despesas é anátema, mas sem cortá-las não há como recuperar a saúde econômica; 3) indicadores de saúde, segurança e educação em angustiante decadência; 4) federalismo inviabilizado, financeiramente quebrado, pela centralização, corrupção e despesas de pessoal; 5) infraestrutura insuficiente, danificada e em grande parte obsoleta; 6) sentimentos de decepção, desesperança e desconfiança da população em relação a classe política, governo, instituições e promessas; 7) centralização da decisão, do financiamento e da execução.
Com esse reduzido, ainda que gravíssimo, rosário de problemas o País se prepara para entregar a responsabilidade para enfrentá-los à nova administração, que, a julgar pelos precedentes, dependerá da mesma ineficiente estrutura política e estatal responsável pela crise em que estamos jogados.
Começo do bom caminho
A conquista das liberdades humanas não se pode realizar no desentendimento ou "guerra" dos sexos, nem no preconceito da superioridade total de um sobre o outro, mas na lealdade, na aceitação das responsabilidades em comum, no sofrimento alegremente compartilhadoJosé Rodrigues Miguéis," É proibido apontar"
Assim é um líder
Sim, o que se sentia, aqui, por Stalin, era uma dessas admirações hediondas. Eu via homens de voz grossa, barba cerrada, ênfase viril. Em cada um dos seus gestos, a masculinidade explodia. E, quando falavam de Stalin, eles se tornavam melífluos, como qualquer «travesti» do João Caetano ou do Teatro República. O que se sentia, por trás desse arrebatamento stalinista, era um amor quase físico, uma espécie de pederastia idealizada, utópica, sagrada. Com as mandíbulas trémulas, uma salivação efervescente, os fanáticos chamavam o Guia de «o Velho». E essa paixão era de um sublime ignóbil.
Já o Czar foi o anti-líder. Há um quadro russo da matança da Família Imperial. (A pintura de lá, tanto a czarista, como a soviética, é puro Osvaldo Teixeira.) Eis o que nos mostra a tela: empilhados, numa bacanal de defuntos, o Czar, a Czarina, as princesinhas, etc., etc. Uns por cima dos outros, e cravejados de balas. Os soldados receberam a ordem e estouraram a cara dos velhos, das mocinhas, dos meninos. Mas não vamos assumir, aqui, nenhuma postura sentimental. Eis o que importa dizer.
Na véspera de morrer, o nosso Nicolau entretinha-se na redação do seu diário. Fazia diário como qualquer heroína da Coleção das Moças. Reparem no anti-líder, no anti-rei no anti-tudo. No dia seguinte estariam à mostra os intestinos dele mesmo, as tripas da mulher, dos filhos, dos sobrinhos, dos netos. Mas ele não teve nenhum sentimento da morte. No jardim havia um «lago azul» como o da nossa canção naval. E, lá, dois ou três cisnes deslizavam mansamente. Um mundo já morria e outro ia nascer. E o Czar estava fascinado pelos cisnes, e a última página do diário era a eles dedicada. Um homem assim teria de ser exterminado a bala ou a punhaladas, como uma ratazana.
Alguém lembrará a figura e o nome de Kennedy. Era um líder que preservava um mínimo de humanidade. Mas não era líder. Lembro-me da babá portuguesa da minha garotinha. Ao ver o retrato de Kennedy gemeu com sotaque: - «Bonito como uma virgem.» Era um líder de luxo, isto é, o anti-líder. Ao entrar na política, o pai, outro aristocrata, deu-lhe um cheque de um milhão de dólares. E mais: - Johnny casou-se com Jacqueline. E a mulher bonita é própria do falso líder. Nem Stalin, nem Hitler, fariam essa dupla concessão ao sentimento e ao sexo. Reexaminem toda a vida de Kennedy: - não foi, em momento nenhum da sua história e da sua lenda, um canalha. E não soube fazer pulhas para juntá-los em torno de sua liderança.
Pensem no pacto germano-soviético. Todos os que o aceitaram ou que ainda hoje o justificam eram e são perfeitos, irretocáveis canalhas. De um só lance, Stalin e Hitler degradaram toda uma época. Eis o que desejo ressaltar: - faltava a Kennedy essa capacidade de aviltar um povo. Ao passo que Stalin fez seu povo à imagem e semelhança da própria abjecção. Mas foi na morte que Kennedy demonstrou a ineficácia e falsidade da sua liderança.
O líder não morre antes, nem depois. O derrame escolheu a hora certa para matar Stalin. Hitler meteu uma bala na cabeça no momento justo em que precisava estourar os miolos. Waterloo aconteceu quando se esgotou a vitalidade histórica da era napoleónica. Se Lênin vivesse mais 15 dias, seria outro Trotski. E Kennedy caiu antes do tempo, morreu quando não tinha que morrer. Imaginem um Cristo morto de coqueluche aos três anos. Não seria Cristo, não seria nada. Kennedy morreu ao lado da mulher bonita. E, de repente, veio a bala e arrancou-lhe o queixo, forte, crispado, vital.
Restava tudo por fazer; o horizonte da reeleição abria-se diante dele. Essa morte antes do tempo mostrou que Kennedy não era Kennedy. O amor que lhe consagramos é um equívoco.
Falo, falo, e não sei bem por que estou dizendo tudo isso. Agora me lembro. Eu disse algo parecido, ontem, num sarau de grã-finos. Não achem graça. Aprende-se muito no grã-finismo, e repito: — certos grã-finos têm um sutil faro histórico, diria melhor, profético. Sentem, por vezes, antes dos outros, o que eu chamaria "odor da História". E um desses estava-me dizendo, num canto, com uma convicção forte: — "Vai haver o diabo neste País." O que era pouco para a minha fome. O grã-fino punha mais gelo no copo. Insinuou: — "Há muita insatisfação." Ainda era pouco. E eu queria saber, concretamente, o que vinha por aí. Perguntei: — "Sangue?" E o outro, cara a cara comigo e um ar de quem promete uma hemorragia nacional inédita: disse e fez um "suspense". Instiguei-o: — "O diabo, como?" E ele, misterioso: — "Você não sente que vem por aí não sei o quê?" Esse "não sei o quê"— "Sangue."
Todavia, o "suspense" continuava. "Sangue", dissera ele. Mas, quem ia derramar o sangue, e que sangue? Ainda olhei para os lados, como a procurar, entre os convidados, um possível Drácula. Quando, porém, o grã-fino falou em «esquerda», a minha perplexidade não teve mais tamanho. Recuei dois passos, avancei outros tantos e perguntei: - "Você acredita na nossa esquerda? Nessa que está aí?"
Ele acreditava. Então perdi a paciência e falei sem parar. Quem ia mudar alguma coisa neste País? A esquerda tem um canalha para exercer uma liderança concreta e proveitosa? Senhoras entraram no debate. Fez-se, ali, uma alegre pesquisa de pulhas.
Mas os canalhas lembrados eram, ao mesmo tempo, imbecis. E o que a História pedia era um crápula com seu toque de gênio. Em suma: não ocorria aos presentes um nome válido. A última palavra foi minha. Disse eu mais ou menos o seguinte: — enquanto a esquerda que aí está não for substituída até seu último idiota, não vai acontecer nada, rigorosamente nada.
Nelson Rodrigues, "O Homem Fatal"
Falo, falo, e não sei bem por que estou dizendo tudo isso. Agora me lembro. Eu disse algo parecido, ontem, num sarau de grã-finos. Não achem graça. Aprende-se muito no grã-finismo, e repito: — certos grã-finos têm um sutil faro histórico, diria melhor, profético. Sentem, por vezes, antes dos outros, o que eu chamaria "odor da História". E um desses estava-me dizendo, num canto, com uma convicção forte: — "Vai haver o diabo neste País." O que era pouco para a minha fome. O grã-fino punha mais gelo no copo. Insinuou: — "Há muita insatisfação." Ainda era pouco. E eu queria saber, concretamente, o que vinha por aí. Perguntei: — "Sangue?" E o outro, cara a cara comigo e um ar de quem promete uma hemorragia nacional inédita: disse e fez um "suspense". Instiguei-o: — "O diabo, como?" E ele, misterioso: — "Você não sente que vem por aí não sei o quê?" Esse "não sei o quê"— "Sangue."
Todavia, o "suspense" continuava. "Sangue", dissera ele. Mas, quem ia derramar o sangue, e que sangue? Ainda olhei para os lados, como a procurar, entre os convidados, um possível Drácula. Quando, porém, o grã-fino falou em «esquerda», a minha perplexidade não teve mais tamanho. Recuei dois passos, avancei outros tantos e perguntei: - "Você acredita na nossa esquerda? Nessa que está aí?"
Ele acreditava. Então perdi a paciência e falei sem parar. Quem ia mudar alguma coisa neste País? A esquerda tem um canalha para exercer uma liderança concreta e proveitosa? Senhoras entraram no debate. Fez-se, ali, uma alegre pesquisa de pulhas.
Mas os canalhas lembrados eram, ao mesmo tempo, imbecis. E o que a História pedia era um crápula com seu toque de gênio. Em suma: não ocorria aos presentes um nome válido. A última palavra foi minha. Disse eu mais ou menos o seguinte: — enquanto a esquerda que aí está não for substituída até seu último idiota, não vai acontecer nada, rigorosamente nada.
Nelson Rodrigues, "O Homem Fatal"
Campanha não prenuncia solução para o Brasil
As eleições porão fim a um mandato turbulento caracterizado por casos de corrupção em grande escala que comprometeram profundamente tanto o setor político como o econômico, protestos maciços de uma classe média prejudicada e insatisfeita com a atitude dos políticos e uma convulsão institucional quase suicida que, entre outros efeitos, teve o polêmico impeachment, em 2016, da presidente eleita Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores (PT).
Mas é necessário alertar que as eleições não são necessariamente o bálsamo que resolverá uma situação complicadíssima. De fato, os sinais observados na pré-campanha não convidam ao otimismo. Primeiro, porque o desencanto do eleitorado com a situação criada deixou um número expressivo de brasileiros sem saber em quem votar, e nem mesmo se vai votar. E não fica atrás o fato de o favorito ser Jair Bolsonaro, um ex-militar que defende posições nacionalistas de extrema-direita e escolheu como companheiro de chapa um general na reserva, defensor da ditadura militar que o país sofreu entre 1964 e 1985. Bolsonaro usa uma estratégia de comunicação – os institutos de pesquisa o consideram o político mais eficaz nas redes sociais – com a qual tem conseguido chegar às pessoas. Os outros candidatos, ancorados em outras fórmulas, têm uma dificuldade adicional quando se trata de divulgar suas mensagens.
A outra circunstância que marca a campanha é a situação do ex-presidente – e por enquanto candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva. Enquanto 12 dos 13 candidatos vão viajar milhares de quilômetros tentando ganhar eleitores e participar de inúmeros debates televisivos, Lula transformou sua cela na sede da Polícia Federal em Curitiba em um escritório onde recebe dezenas de visitas e dá instruções. A estratégia do PT, apoiada no prestígio de um presidente que ganhou duas eleições e colocou o Brasil como modelo de democracia e economia pujante – é fazer seu candidato ficar o mais presente possível mediante imagens de arquivo e distribuição de máscaras nos comícios. A ver até que ponto, numa sociedade marcada pela imagem e pelo imediato, a figura de um candidato ausente será eficaz na hora de ganhar votos. E isso acontecerá pelo menos até que o Tribunal Eleitoral decida sobre a legalidade ou não de sua candidatura. Em qualquer caso, dentro do poderoso partido de esquerda, há vozes que acreditam que a tática do líder veterano está fazendo seu possível substituto, Fernando Haddad, perder um tempo precioso na candidatura.
Por que o PT ainda define o jogo político
A candidatura ilegal do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, condenado e preso por corrupção, reúne quase 40% da preferência dos eleitores, segundo as últimas pesquisas. É provável que o substituto eventual de Lula, Fernando Haddad, tenha menos votos. Mas nenhum analista político sério despreza suas chances. O PT manifesta força no Nordeste, entre os mais pobres e menos instruídos. Como entender tal resistência depois do mensalão, do petrolão e de tudo o mais? Será resultado apenas da figura messiânica de Lula, da inclinação atávica do brasileiro pelo sebastianismo? Ou há algo no petismo que transcende Lula e está enraizado na sociedade? Como, num país de partidos fracos, o PT se distingue a ponto de manter a popularidade, apesar de todos os escândalos e do naufrágio econômico sob Dilma Rousseff? “A ascensão do PT é o fator mais importante a moldar o comportamento político das massas no Brasil desde a redemocratização”, escrevem os cientistas políticos David Samuels e Cesar Zucco em "Partisans, antipartisans, and nonpartisans" ("Partidários, antipartidários e não partidários").
As conclusões deles, embasadas em análises estatísticas, são surpreendentes. Num país que despreza partidos como motivação do eleitor, constataram que mais de 40% dos brasileiros (até 60%) votam segundo simpatias ou antipatias partidárias. “Se quisermos prever como um brasileiro votará na corrida presidencial, basta perguntar de que partido gosta ou não gosta”, dizem. “Sejam quais forem as condições ‘objetivas’, como estado da economia.” Eles classificam os eleitores em três tipos: os que não manifestam preferência partidária (não partidários), os que preferem um partido aos demais (partidários positivos — petistas, peessedebistas ou emedebistas) e os que, mesmo sem preferir nenhum, manifestam rejeição a um em particular (antipartidários, ou partidários negativos). “Os contornos do partidarismo positivo ou negativo no Brasil são moldados sobretudo pelo modo como as pessoas se sentem em relação ao PT”, afirmam. Dois terços dos eleitores partidários são petistas; três quartos dos antipartidários são antipetistas. O partidarismo afeta a psicologia de ambos. Entre petistas, o apoio a um aumento inferior para o salário mínimo subiu de 10% para 60%, ao saber que a proposta era do PT. Partidários do PSDB também manifestam tal viés em suas opiniões. No MDB, não.
O que distingue petistas de antipetistas não é divisão entre “povo” e “elite”, nem diferença de nível econômico, social ou cultural, alto para ambos.
“Petistas e antipetistas têm mais em comum um com o outro que com o não partidário”, escrevem Zucco e Samuels.
Mesmo em questões que separam liberais de conservadores noutros países — como aborto, direitos dos gays ou papel do Estado na economia —, as atitudes dos dois se aproximam. “Não diferem significativamente em posição ideológica numa escala da esquerda à direita.” A diferença, afirmam, está na “visão sobre valor e propósito da democracia, sobre como cidadãos devem se engajar na política e sobre o desejo por mudança social”. O antipetismo, no entender deles, não é movido pela corrupção ou pela incompetência do PT, embora ambas contribuam para alimentá-lo. “Repousa na oposição à transformação política, econômica e social.” Afirmam ainda que o petista tem maior apreço pela democracia como método de mudança, embora não apresentem evidência empírica disso (nem discutam o apoio do PT às ditaduras de Cuba ou Venezuela).
Duas conclusões do livro são notáveis. Primeira: o lulismo representa um problema para o PT. O partido precisa demonstrar que sobrevive sem Lula para convencer o cidadão de que ainda pode mudar a vida dele para melhor. Segunda: ao mesmo tempo que partidos são essenciais à democracia, o partidarismo exagerado pode prejudicá-la. “Sem um sistema partidário forte, representatividade e prestação de contas sofrem. Mas o partidarismo forte traz maior polarização.” E maior risco de rupturas.
Helio Gurovitz
As conclusões deles, embasadas em análises estatísticas, são surpreendentes. Num país que despreza partidos como motivação do eleitor, constataram que mais de 40% dos brasileiros (até 60%) votam segundo simpatias ou antipatias partidárias. “Se quisermos prever como um brasileiro votará na corrida presidencial, basta perguntar de que partido gosta ou não gosta”, dizem. “Sejam quais forem as condições ‘objetivas’, como estado da economia.” Eles classificam os eleitores em três tipos: os que não manifestam preferência partidária (não partidários), os que preferem um partido aos demais (partidários positivos — petistas, peessedebistas ou emedebistas) e os que, mesmo sem preferir nenhum, manifestam rejeição a um em particular (antipartidários, ou partidários negativos). “Os contornos do partidarismo positivo ou negativo no Brasil são moldados sobretudo pelo modo como as pessoas se sentem em relação ao PT”, afirmam. Dois terços dos eleitores partidários são petistas; três quartos dos antipartidários são antipetistas. O partidarismo afeta a psicologia de ambos. Entre petistas, o apoio a um aumento inferior para o salário mínimo subiu de 10% para 60%, ao saber que a proposta era do PT. Partidários do PSDB também manifestam tal viés em suas opiniões. No MDB, não.
O que distingue petistas de antipetistas não é divisão entre “povo” e “elite”, nem diferença de nível econômico, social ou cultural, alto para ambos.
“Petistas e antipetistas têm mais em comum um com o outro que com o não partidário”, escrevem Zucco e Samuels.
Mesmo em questões que separam liberais de conservadores noutros países — como aborto, direitos dos gays ou papel do Estado na economia —, as atitudes dos dois se aproximam. “Não diferem significativamente em posição ideológica numa escala da esquerda à direita.” A diferença, afirmam, está na “visão sobre valor e propósito da democracia, sobre como cidadãos devem se engajar na política e sobre o desejo por mudança social”. O antipetismo, no entender deles, não é movido pela corrupção ou pela incompetência do PT, embora ambas contribuam para alimentá-lo. “Repousa na oposição à transformação política, econômica e social.” Afirmam ainda que o petista tem maior apreço pela democracia como método de mudança, embora não apresentem evidência empírica disso (nem discutam o apoio do PT às ditaduras de Cuba ou Venezuela).
Duas conclusões do livro são notáveis. Primeira: o lulismo representa um problema para o PT. O partido precisa demonstrar que sobrevive sem Lula para convencer o cidadão de que ainda pode mudar a vida dele para melhor. Segunda: ao mesmo tempo que partidos são essenciais à democracia, o partidarismo exagerado pode prejudicá-la. “Sem um sistema partidário forte, representatividade e prestação de contas sofrem. Mas o partidarismo forte traz maior polarização.” E maior risco de rupturas.
Helio Gurovitz
O capital que nunca chega
Para o trabalhador, a sociedade capitalista é um pesadelo sinistro.
Ele a constrói com sangue, suor e lágrimas, para vê-la voltar-se, com implacável brutalidade, contra tudo aquilo que constitui a essência de seus direitos da pessoaHélio Pellegrino
O fundo do inferno
Há um ano, quando se discutiam as normas da eleição, agora em curso, escrevi nesta coluna opiniões que soavam como profecias. Creio que acertei quase tudo.
As regras em vigor agora foram inspiradas pela pedra lascada, aprovadas pelo Congresso em seu favor, permitindo que aqui, em Minas, uma candidatura de um forte candidato, autorizado por seu partido a empreender uma longa campanha de quase dois anos, fosse incinerada por uma decisão exarada pela cúpula do próprio partido.
Marcio Lacerda é a vítima mais injustiçada do Brasil contemporâneo. No momento em que adquiriu consistência, com o apoio de oito partidos, dispostos a fugir em Minas da alternância de PSDB e PT, que deu na falência do Estado, foi tirado do páreo, justamente por se mostrar como ameaça à velha política, aquela dos mensalões e petrolão. Ser uma alternativa foi o bastante para ser expulso.
Em seguida, Jaime Martins, recém-filiado ao PROS na tentativa de fugir de um apoio de seu antigo partido, PSD, ao PSDB, teve o mesmo fim. Mesmo autorizado abertamente a conduzir os interesses “majoritários” da legenda em Minas, no exato momento de herdar a coligação de Lacerda, teve o ilustre Eurípides, presidente de seu partido, surgindo da sombra e vetando sua candidatura. O que ganhou?
Nesse jogo de mata-mata, quem morreu foi a liberdade, tão cara ao eleitor mineiro.
Parece que o motivo do PROS seria não atrapalhar um desconhecido candidato a deputado federal que poderia perder possibilidade de se eleger com 45 mil votos, meta minimalista projetada pelo presidente do PROS. Dá para acreditar?! Difícil, mas oficiosamente o candidato a governador Jaime Martins, com apoio de oito partidos e 50% do tempo de propaganda, dificultaria uma maior participação no bilionário Fundo Partidário, regido pelos votos de deputado federal!
O episódio faz enxergar nos porões das regras a possível locupletação de figuras incrustadas nos nanicos, no baixo clero, que nada faz sem ter algo a faturar. Estamos revivendo em versão moderna o mercado de escravos do século XVIII na orla do porto de Paraty. Foge ao eleitor que um deputado federal eleito rende ao partido verbas de fundos de R$ 13/14 milhões em quatro anos.
Ainda, com os fartos recursos tirados dos contribuintes, se fornece verba para microcandidatos de “dobradinha”. Veja-se em Betim, com seus 260 mil eleitores, foram registradas 51 candidaturas a deputado federal e estadual. Como? Distribuindo para quase todos de R$ 10 mil até R$ 200 mil para serem kamicazes que transfiram alguns valiosos votos para os donos de partidos.
Falta dinheiro para saúde, mas sobra para os eleitos garantirem essa pouca-vergonha.
O efeito direto é a distorção abrupta dos rumos da democracia, e mais o crescimento de uma nova forma de surrupiar os cofres públicos. Constituem-se, como sempre, privilégios, castas e esquemas de assaltos aos bens do país. Perpetua-se nesse ambiente sórdido a corrupção dos picaretas, ora cúmplices na tentativa de aniquilar as cinzas da decência no Brasil.
Provavelmente, se chegará à conclusão de que esta eleição, antidemocrática, construída nos bastidores da velha política, deverá ser considerada a mais suja da fase republicana. Evidencia-se que não vem para garantir um futuro de prosperidade. Acentua cinicamente os erros do passado e castiga o Brasil ao fundo do inferno.
Chamei, em agosto de 2017, a atenção para a necessidade de candidaturas avulsas, expressão máxima da liberdade e da democracia, adotadas como antídoto aos mecanismos políticos nos países mais civilizados. Possibilitariam escantear quem abomina figuras de valor universal e oxigenar o poder. Mas o Congresso preferiu manter o sistema de acorrentados ao interesse dos corruptos. Os partidos são birutas que se enchem no sentido da corrupção e, por isso, precisam centralizar o controle do assalto ao país.
As regras são tão podres, restritivas de um lado e escancaradas de outro, que será nesta eleição a vez de o PCC montar sua bancada, de traficantes possivelmente disfarçados de religiosos de Estados carimbados pela pobreza. Lá o voto é mais fácil.
A catástrofe produzida pelo Congresso estava entre as profecias de 12 meses atrás, quando defendi a via do distritão misto, as candidaturas avulsas e a abolição do financiamento público, instalando-se, assim, limitações e tetos austeros aos gastos de propaganda. A velha política atribui-se uma montanha de recursos públicos para fazer a diferença.
Vivemos há décadas a tirania de partidos “ad delinquerem”, sem qualquer pudor. Apesar de o público não conseguir enxergar a perversidade do fundo partidário eleitoral – alguns bilhões subtraídos da saúde e educação do povo –, contam-se já as vítimas do “mecanismo” criminoso.
Excluindo-se ou limitando-se outras fontes de financiamento e aumentando a dos políticos atuais, gerou-se uma reserva de mercado eleitoral. Figuras de porão, marcadas por um passado desabonador, e outras, vivendo um presente que acumula carga explosiva, entraram em cena nos últimos dias usando as regras sombrias aprovadas um ano atrás, quando esta coluna alertava:
É preciso retirar poder dos caciques e coronéis dos maiores partidos que atuam para matar as propostas de abandalhar as eleições e que mantêm o país como o mais corrupto do planeta.
Fosse o distritão misto apenas para se livrar dos caciques bandidos, ou diminuir sua força, sobrariam vantagens para a nação.
Figuras que chafurdam nas regras obscenas teriam perdas significativas em sua capacidade destrutiva.
O sufrágio se alinharia à vontade popular sem canalizar a manada para o curral. Os eleitos teriam o peso e a legitimidade dos votos recolhidos e não seriam peças nas prateleiras de um dono “mensaleiro” de partido, como Valdemar da Costa Neto, o mais inflamado inimigo do distritão. Voltaria a embaralhar as cartas marcadas de um jogo perdido pelos eleitores. Cartas viciadas para trapacear. Seriam serrados, ainda, os saltos de nanicos que traficam na politicagem como demolidores.
Não permitiria que se chegasse ao Legislativo pela esperteza e capacidade de aglutinar um conjunto de candidatos que, somados, garantem o passaporte de um desqualificado.
Teremos mais dois sofridos meses de enjoo, suor e sofrimento para saber se o Brasil sobreviverá à velha política que o transformou num horror.
As regras em vigor agora foram inspiradas pela pedra lascada, aprovadas pelo Congresso em seu favor, permitindo que aqui, em Minas, uma candidatura de um forte candidato, autorizado por seu partido a empreender uma longa campanha de quase dois anos, fosse incinerada por uma decisão exarada pela cúpula do próprio partido.
Marcio Lacerda é a vítima mais injustiçada do Brasil contemporâneo. No momento em que adquiriu consistência, com o apoio de oito partidos, dispostos a fugir em Minas da alternância de PSDB e PT, que deu na falência do Estado, foi tirado do páreo, justamente por se mostrar como ameaça à velha política, aquela dos mensalões e petrolão. Ser uma alternativa foi o bastante para ser expulso.
Em seguida, Jaime Martins, recém-filiado ao PROS na tentativa de fugir de um apoio de seu antigo partido, PSD, ao PSDB, teve o mesmo fim. Mesmo autorizado abertamente a conduzir os interesses “majoritários” da legenda em Minas, no exato momento de herdar a coligação de Lacerda, teve o ilustre Eurípides, presidente de seu partido, surgindo da sombra e vetando sua candidatura. O que ganhou?
Nesse jogo de mata-mata, quem morreu foi a liberdade, tão cara ao eleitor mineiro.
Parece que o motivo do PROS seria não atrapalhar um desconhecido candidato a deputado federal que poderia perder possibilidade de se eleger com 45 mil votos, meta minimalista projetada pelo presidente do PROS. Dá para acreditar?! Difícil, mas oficiosamente o candidato a governador Jaime Martins, com apoio de oito partidos e 50% do tempo de propaganda, dificultaria uma maior participação no bilionário Fundo Partidário, regido pelos votos de deputado federal!
O episódio faz enxergar nos porões das regras a possível locupletação de figuras incrustadas nos nanicos, no baixo clero, que nada faz sem ter algo a faturar. Estamos revivendo em versão moderna o mercado de escravos do século XVIII na orla do porto de Paraty. Foge ao eleitor que um deputado federal eleito rende ao partido verbas de fundos de R$ 13/14 milhões em quatro anos.
Vivemos há décadas a tirania de partidos “ad delinquerem”, sem qualquer pudorEntre o “aparentemente inexplicável” absurdo, ocorre que um grande partido com fundo de R$ 500 milhões possa comprar 15 segundos de propaganda de um partidinho. As verbas são repassadas à conta da legenda “comprada”, e daí pela rota de notas frias até chegar ao bolso dos donos do nanico montado para enriquecimento de uma fauna de predadores.
Ainda, com os fartos recursos tirados dos contribuintes, se fornece verba para microcandidatos de “dobradinha”. Veja-se em Betim, com seus 260 mil eleitores, foram registradas 51 candidaturas a deputado federal e estadual. Como? Distribuindo para quase todos de R$ 10 mil até R$ 200 mil para serem kamicazes que transfiram alguns valiosos votos para os donos de partidos.
Falta dinheiro para saúde, mas sobra para os eleitos garantirem essa pouca-vergonha.
O efeito direto é a distorção abrupta dos rumos da democracia, e mais o crescimento de uma nova forma de surrupiar os cofres públicos. Constituem-se, como sempre, privilégios, castas e esquemas de assaltos aos bens do país. Perpetua-se nesse ambiente sórdido a corrupção dos picaretas, ora cúmplices na tentativa de aniquilar as cinzas da decência no Brasil.
Provavelmente, se chegará à conclusão de que esta eleição, antidemocrática, construída nos bastidores da velha política, deverá ser considerada a mais suja da fase republicana. Evidencia-se que não vem para garantir um futuro de prosperidade. Acentua cinicamente os erros do passado e castiga o Brasil ao fundo do inferno.
Chamei, em agosto de 2017, a atenção para a necessidade de candidaturas avulsas, expressão máxima da liberdade e da democracia, adotadas como antídoto aos mecanismos políticos nos países mais civilizados. Possibilitariam escantear quem abomina figuras de valor universal e oxigenar o poder. Mas o Congresso preferiu manter o sistema de acorrentados ao interesse dos corruptos. Os partidos são birutas que se enchem no sentido da corrupção e, por isso, precisam centralizar o controle do assalto ao país.
As regras são tão podres, restritivas de um lado e escancaradas de outro, que será nesta eleição a vez de o PCC montar sua bancada, de traficantes possivelmente disfarçados de religiosos de Estados carimbados pela pobreza. Lá o voto é mais fácil.
A catástrofe produzida pelo Congresso estava entre as profecias de 12 meses atrás, quando defendi a via do distritão misto, as candidaturas avulsas e a abolição do financiamento público, instalando-se, assim, limitações e tetos austeros aos gastos de propaganda. A velha política atribui-se uma montanha de recursos públicos para fazer a diferença.
Vivemos há décadas a tirania de partidos “ad delinquerem”, sem qualquer pudor. Apesar de o público não conseguir enxergar a perversidade do fundo partidário eleitoral – alguns bilhões subtraídos da saúde e educação do povo –, contam-se já as vítimas do “mecanismo” criminoso.
Excluindo-se ou limitando-se outras fontes de financiamento e aumentando a dos políticos atuais, gerou-se uma reserva de mercado eleitoral. Figuras de porão, marcadas por um passado desabonador, e outras, vivendo um presente que acumula carga explosiva, entraram em cena nos últimos dias usando as regras sombrias aprovadas um ano atrás, quando esta coluna alertava:
É preciso retirar poder dos caciques e coronéis dos maiores partidos que atuam para matar as propostas de abandalhar as eleições e que mantêm o país como o mais corrupto do planeta.
Fosse o distritão misto apenas para se livrar dos caciques bandidos, ou diminuir sua força, sobrariam vantagens para a nação.
Figuras que chafurdam nas regras obscenas teriam perdas significativas em sua capacidade destrutiva.
O sufrágio se alinharia à vontade popular sem canalizar a manada para o curral. Os eleitos teriam o peso e a legitimidade dos votos recolhidos e não seriam peças nas prateleiras de um dono “mensaleiro” de partido, como Valdemar da Costa Neto, o mais inflamado inimigo do distritão. Voltaria a embaralhar as cartas marcadas de um jogo perdido pelos eleitores. Cartas viciadas para trapacear. Seriam serrados, ainda, os saltos de nanicos que traficam na politicagem como demolidores.
Não permitiria que se chegasse ao Legislativo pela esperteza e capacidade de aglutinar um conjunto de candidatos que, somados, garantem o passaporte de um desqualificado.
Teremos mais dois sofridos meses de enjoo, suor e sofrimento para saber se o Brasil sobreviverá à velha política que o transformou num horror.
sábado, 25 de agosto de 2018
Gente fora do mapa
Corporativismo voraz

Introduzido no Brasil nos anos 1930, e mais especificamente e com maior eficácia na ditadura estado-novista (1937-1945), tornou-se política de governo ou mesmo de Estado. O corporativismo pressupunha que a sociedade deveria ser organizada pelo Estado, por meio de corporações econômicas e de critérios que excluíam a representação eleitoral, os partidos políticos, as ideologias liberais ou socialistas, etc. O Estado, no papel de organizador e regulador da sociedade, teria de garantir a harmonia, a paz social e o progresso – antagonismos sociopolíticos e/ou conflitos entre capital e trabalho não eram admitidos. Getúlio Vargas já em 1931 afirmava que isso seria alcançado na medida em que estivessem reunidos e congraçados “plutocratas e proletários, patrões e sindicalistas, todos representantes de classe, integrados no organismo do Estado”.
Resultado exemplar dessa política foi a decretação da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), em 1943. Inspirada na Carta del Lavoro do fascismo italiano, a CLT foi assentada em três pilares – estrutura sindical, Justiça do Trabalho e legislação trabalhista –, tendo como fundamento o corporativismo. Juntamente com a regulamentação das relações de trabalho se criou um sindicalismo vertical e subordinado ao Estado, delimitado pela unicidade e sustentado por imposto compulsório. Esse arranjo institucional, além de implicar o estabelecimento de mecanismos inibidores da organização e da intervenção autônoma dos trabalhadores e também do empresariado, instaurou direitos de cidadania regulados e restritos, do mesmo modo que acarretou a cooptação de parte expressiva da sociedade civil. Tendo sobrevivido a vários testes históricos, a CLT preserva, ainda hoje, seus elementos essenciais, que persistem reavivados por força de poderes e privilégios, mesmo antiquados ou extemporâneos.
Conformado, ao longo de décadas, de modo sub-reptício, ao modus operandi, o corporativismo foi potencializado nos anos 1980, num momento de explosão de movimentos reivindicativos, em reação à compressão imposta pelo regime ditatorial. Nessa conjuntura, houve até mesmo uma impetuosa radicalização de pleitos corporativos, animada pela emergência de um sindicalismo de resultados vigoroso – processo que culminaria na Constituinte de 1988.
A nova Carta, ainda que tenha abrigado garantias essenciais de cidadania, acabou saturada de privilégios e mercês, travestidos de direitos lídimos, por pressão de corporações muito bem organizadas e poderosas. Dentre as novidades corporativas pode-se ressaltar o direito de sindicalização e de greve do funcionalismo público. Esses preceitos impeliram à sindicalização extensiva de órgãos e instituições – sindicalizou-se tudo: prefeituras, governos estaduais e federal, Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, polícias, fundações, institutos e universidades, agências reguladoras, etc. Até o Itamaraty foi sindicalizado.
Consecutivamente, houve um aumento significativo de movimentos paredistas e ações por demandas particularistas, manifestações em defesa de salvaguardas estabelecidas. O paredismo nos serviços públicos constituiu-se no melhor dos mundos – depois de meses sem trabalhar e sem perdas e danos e quaisquer ônus em seus proventos, o servidor pode receber vantagens como aumento de salário e benefícios vários, mas, em geral, nada ou quase nada repõe. As greves conduzidas por um sindicalismo de resultados audacioso e impelido por um corporativismo voraz, que subsistem de mercadejar o patrimônio e os fundos públicos, têm como propósito capital a maximização de interesses e proventos pecuniários.
O apogeu desse processo de solidificação do corporativismo se deu neste início de século, não por acaso, nos governos chefiados pelo Partido dos Trabalhadores – consorciado com partidos fisiológicos e clientelistas –, que esteve norteado, desde seu nascimento, por interesses e instintos sôfregos. Nesses governos se retomaram muitas das diretivas corporativas do varguismo: a cooptação da sociedade civil, em especial dos sindicatos; a gestão do Estado em consonância com as corporações estatais e privadas; a reatualização do nacional-estatismo, concertado com conglomerados empresariais e categorias de trabalhadores; a execução de políticas públicas adequadas a determinados setores socioeconômicos; as ações legislativas de fomento a interesses particulares em detrimento do público, além de outras orientações similares. Concomitantemente, revigorou-se aquela cultura política sincrética (mescla de corporativismo, clientelismo e patrimonialismo) referida no início. O resultado foi evidenciar e/ou ativar concepções e práticas, entre as quais a promiscuidade entre o público e o privado; apropriação de bens e fundos públicos por corporações estatais ou não; transfiguração da ética da responsabilidade em ética de conveniência.
Sem sombra de dúvida, a perpetuação dessa cultura política, da qual o corporativismo constitui um de seus pilares centrais, é uma questão primordial a ser solucionada pelas forças que objetivam a democratização e a publicização do Estado e sua relação equânime com a sociedade civil e política. Infelizmente, entretanto, os candidatos à direção e gestão do País têm colocado o problema de forma lateral ou mitigada e alguns nem ao menos o aventam.
Robin Hood às avessas
Numa sociedade como a nossa, de capitalismo selvagem, em que há um desencontro radical e desapiedado entre os interesses de ricos e pobres, o poder do Estado defende os ricos e oprime os pobres, milimétrica e sistematicamenteHelio Pellegrino
A doença que mata qualquer saúva
Um sucesso que deveria ser aplicado em campanha de combate à corrupção. Se o fumo mata o fumante, deveria ser lembrado que a corrupção não mata o corrupto, mas sua ação é nefasta contra a cidadania de milhares.
Um só corrupto com mais de R$ 50 milhões guardados em um apartamento provocou um genocídio com a apropriação da milionária propina sem que qualquer familiar ou pessoa próxima fosse atingida pelos danos, mas apenas pelos benefícios. Os milhões embolsados por um governador corrupto e presidiário foram ainda mais avassaladores sem destruição entre os mais próximos. Arrasada ficou toda a população de um estado vivendo na precariedade de serviços essenciais como a saúde.
Alertas desse tipo mostram que o cigarro é um inconsequente trombadinha de morte. Derruba apenas o próprio “bandido”, enquanto o corrupto usufrui, muitos eternamente, dos seus saques inclusive para se blindar das doenças que semeiam com sua ação. Ai de quem estiver na área de alcance de seus sistemas corruptos. Pode contar com a miséria certa, a fome rápida e ainda terá que pagar o caixão.
A campanha contra a corrupção deveria mostrar fotos das suas consequências como crianças esperando desde os primeiros meses de vida um implante, bebês em tratamento em quarto com infiltração e mofo, os doentes pedindo, por misericórdia liberação de remédios para continuarem vivos, aposentados cada vez mais pobres, e a regalia da bandidagem política. Não faltaria o que apresentar como prova de que a corrupção é o câncer em pessoa que mata e esfola como uma ceifadeira.
Luiz Gadelha
Um presidente populista e um jingle alucinante
Ele assustava os líderes tradicionais, mas seduzia o povo, porque mantinha o cabelo desgrenhado, usava terno amarfanhado, com caspas, e comia sanduíche assentado na calçada. Suas atitudes exóticas eram pontilhadas pelo autoritarismo, pela instabilidade emocional e pela egolatria, sendo mesmo indomável quando optava por uma ação. Assim, irritou seus padrinhos, na disputa nacional, quando visitou Fidel Castro, em 29 de março de 1960, recebendo honras de chefe de Estado. O ditador cubano havia assumido o poder apenas um ano antes.
Apesar de suas excentricidades, Jânio Quadros foi eleito no dia 3 de outubro de 1960, com 5.636.623 votos, vencendo o general Henrique Teixeira Lott e Ademar de Barros. Tomou posse em Brasília, recebendo a faixa presidencial de Juscelino Kubitscheck, no dia 31 de janeiro de 1961.
Suas medidas incomodaram muitos setores, porque ele hostilizava o antecessor, provocava impacto na economia popular com medidas draconianas e despertava ironia pela insignificância de algumas sanções. Gerou mal-estar pelas manifestações de desprezo ao Congresso Nacional e pela redução do Orçamento das Forças Armadas. Além disso, condecorou Che Guevara, no dia 19 de agosto de 1961.
Sua renúncia no sétimo mês de mandato foi o fecho da ópera do absurdo, surpreendendo todos. Tratava-se de uma jogada para voltar como ditador se houvesse intensa mobilização popular a seu favor. Isso não aconteceu, e o presidente do Senado, Auro de Moura Andrade, apresentou logo a carta ao plenário, dizendo que a renúncia era um gesto unilateral e Ranieri Mazzilli deveria ocupar a Presidência da República, até que o vice-presidente João Goulart retornasse da China.
Uma visão da campanha
O chamado socialismo do século 21 foi pro espaço. Seus estilhaços caem dentro do território brasileiro, na forma de onda migratória, crise energética, revolta e violência. Logo no Brasil, arruinado por uma experiência de esquerda e hoje governado pelos parceiros eleitorais do PT.
Não sei se isso vai repercutir na campanha eleitoral brasileira. É tudo tão longe. E aqui não temos o hábito de avaliar criticamente o passado. A esquerda comporta-se como se nada tivesse acontecido. Sua proposta nostálgica é uma viagem ao início do século, voltar a ser feliz.

Não se discute o processo de democratização, sua esperança de usar o Estado para a redução das desigualdades, superar por meio de uma ação de governo todos os grandes problemas do País. A própria Constituição foi escrita nessa ânsia de promover a justiça social, com juros limitados a 12% e uma previsão de imposto sobre grandes heranças. Ficou no papel, mas revela um pouco do espírito da época, que acabou encontrando sua maior expressão no governo de esquerda.
Ainda hoje, a ilusão de que o governo vai resolver todos os grandes problemas sobrevive. Os próprios candidatos revelam seus programas, dizem o que vão fazer em cada área, como se estivessem vendendo o serviço que nos prestarão.
Há pouco espaço nesse tipo de discurso para a participação social, exceto consumir bens e serviços. O PT, por exemplo, tende a igualar felicidade ao aumento de consumo. Um bom exercício para seus militantes seria, por exemplo, refletir sobre esta questão: muita gente diz que votaria em Lula, mas quase ninguém, exceto CUT e MST, se mobiliza para tirá-lo da cadeia.
Minha hipótese é de que todos recebem bem a ideia de aumento de consumo, mas poucos se interessam por valores. No caso de Lula, pode até ser que não se movam baseados num valor: o respeito à independência da Justiça. Mas se isso é verdade, como explicar sua opção eleitoral?
Parto da esquerda para avançar no espectro e constato que a maioria dos candidatos se apresenta como alguém que vai realizar inúmeras tarefas, como se estivesse vendendo seus serviços a clientes cuja única missão é comprá-los. Dificilmente mencionam nos debates o papel que destinam à sociedade na grande tarefa da reconstrução. Basta votar certo, isto é, no orador, que tudo se vai resolver a partir do esforço e competência dele.
O interessante, sem querer criticar os candidatos, pois os tempos são duros, é que se apresentam como aspirantes a um cargo e prometem trabalhar bem. Mas não ousam exercer uma liderança, definindo as tarefas conjuntas de governo e sociedade. No momento em que a hipótese de interação aparece na campanha, ela é inadequada e, ainda assim, respondida com a tradicional afirmação: isso é tarefa do governo e não devemos envolver as pessoas.
Refiro-me à proposta de Jair Bolsonaro de liberar a compra de armas. É possível afirmar que não é o melhor caminho, mas com outro argumento: o de que a participação da sociedade deve focar a informação, a autodefesa com a ajuda da tecnologia, celulares, aplicativos.
Sempre vai aparecer alguém para dizer: e se um assaltante entra na sua casa, armado, de que adianta o telefone celular? De fato, nessa circunstância há pouco a fazer. Mas dentro de uma outra perspectiva, câmeras, vizinhos antenados, sistemas de alarme, tudo isso pode fazer um estranho ser detectado antes de entrar numa casa. É apenas um exemplo, até prosaico, para indicar a sensação de lacuna que sinto na campanha.
A sociedade brasileira teve esperanças e ilusões. Elas se perderam no caminho. Mas precisam de alguma forma ser renovadas.Um escritor espanhol costumava dizer que uma sociedade sem esperança e ilusões é como um monte de pedras na beira de um caminho. O que às vezes os candidatos parecem dizer é isto: reconheço seu ceticismo, mas vou trabalhar muito bem e quando concluir minhas tarefas o País estará novamente de pé.
O que a esquerda propõe é renovar as esperanças num projeto fracassado. Por seu lado, a direita nos remete ao dístico da bandeira: ordem e progresso. Ordem com uma política de segurança rígida e progresso por meio de uma economia liberal.
Uma simples frase inspirada no positivismo não é capaz de abarcar a complexidade do momento. Mesmo porque o progresso hoje é visto também com desconfiança, num momento em que as ameaças ao planeta se tornam visíveis. Progresso para continuar ou acabar com a sobrevivência humana.
O próprio conceito de ordem não se limita à segurança pública. A corrupção é uma desordem, o gasto irracional da máquina do governo é outra, assim como obras inacabadas, vulnerabilidade biológica com o colapso da saúde pública.
Reconheço que é muito difícil sintetizar num slogan uma saída para o Brasil. No passado, quando se tratava apenas do progresso, Juscelino nos propôs avançar 50 anos em 5. Tenho a impressão de que agora, num momento eleitoral, é preciso falar de crescimento para 13 milhões de desempregados.
Mas creio que cada vez mais amadurece entre as pessoas a hipótese de que a educação pode ser o motor dessa nova fase nacional. Seria preciso alguém afirmando que, além de suas tarefas presidenciais, nos levaria a uma sociedade mais bem educada, alguém que propusesse essa nova esperança, acreditasse mais na sociedade do que no próprio governo e a liderasse para esse objetivo.
Por enquanto, os candidatos hipnotizam com suas propostas. Não se preocupam em mobilizar, dividir papéis. Nesse sentido, é uma campanha analógica, embora, paradoxalmente, tenha invadido as redes sociais.
Como ela está no começo, merece o benefício da dúvida: são reflexões provisórias.
E o povão nada
Os interesses dos partidos de esquerda – de direita já não falamos – passaram a ser mais importantes do que os interesses da população. E dessa forma não se pode avançarRichard Sennett
Lula pode estrear na TV antes do veto do TSE
Começou a contar nesta quinta-feira o prazo de sete dias para que os advogados de Lula apresentem a sua defesa. O PT não cogita senão consumir o prazo em sua extensão máxima. Portanto, a defesa deve ser protocolada em 30 de agosto. O ministro Luís Roberto Barroso, relator do caso, estará liberado, então, para solicitar a inclusão do julgamento na pauta do TSE.
Barroso sinaliza internamente a intenção de levar o caso de Lula ao plenário do TSE, composto de sete ministros. O blog apurou que a primeira sessão da Corte máxima da Justiça Eleitoral depois do encerramento do prazo oferecido à defesa ocorrerá em 4 de setembro, uma terça-feira, três dias depois da estreia do horário eleitoral, no dia 1º, um sábado. O segundo programa dos candidatos ao Planalto irá ao ar no mesmo dia do provável julgamento.
Ou seja: mantido o calendário, Lula poderá apresentar-se ao eleitorado como candidato oficial do PT em pelo menos dois programas antes do seu provável enquadramento na Lei da Ficha Limpa: no sábado (1º) e na terça (4).
O próprio PT dá como fava contada o veto do TSE a Lula. Condenado na segunda instância do Judiciário a 12 anos e um mês de cadeia por corrupção e lavagem de dinheiro, ele se tornou inelegível. Porém, o petismo se equipou para esticar ao máximo a sobrevida do seu candidato-fantasma.
Até aqui, os petistas celebram o êxito da estratégia. A superexposição proporcionada pela coreografia do registro da candidatura rendeu a Lula uma ascensão nas pesquisas. No mais recente levantamento do Datafolha, o preso amealhou 39% das intenções de voto.
Lula e seus seguidores imaginam que a chance de êxito da transfusão de votos para o substituto Fernando Haddad aumenta na proporção direta da elevação do nível de comoção criado em torno da decisão do TSE. Daí o esforço para empurrar o veredicto com a barriga até onde for possível.
Desta vez, a sucessão será decidida no TSE e no Supremo, e não pelos eleitores
Se os ministros do TSE e do STF seguirem à risca a lei, não há dúvida de que Lula e Bolsonaro estarão alijados da disputa, que se travará entre os outros quatro candidatos principais – Marina Silva (Rede), Ciro Gomes (PDT), Geraldo Alckmin (PSDB) e Alvaro Dias (Pode).
No caso de Bolsonaro, a impugnação tem base constitucional, por ser réu de duas ações penais (injúria e incitação ao crime de estupro), no caso da briga com a deputada Maria do Rosário. E agora vai a julgamento no STF por outra acusação (racismo), pelas referências feitas aos quilombolas em palestra na Hebraica do Rio.
Na impugnação de Bolsonaro, há uma circunstância agravante na jurisprudência do Supremo. É o recente caso do senador Renan Calheiros (MDB-AL), que era o segundo na linha sucessória do presidente Michel Temer, mas ficou proibido de assumir o cargo, por estar na condição de réu perante o STF. Esta é exatamente a situação atual de Jair Bolsonaro, que já responde a duas ações penais e pode ganhar mais uma no julgamento do próximo dia 4, que o candidato do PSL está até tentando antecipar.
Na época do caso Renan, o editor da” Tribuna da Internet” entendeu que o Supremo errou no caso de Renan, porque ser réu não significa ser culpado ou condenado. Porém, examinando melhor a questão, chegou à conclusão de que o STF agiu certo, porque o presidente da República é afastado das funções caso haja denúncia contra ele no Supremo, sendo transformado em réu. E o mesmo deve valer para qualquer sucessor ou aspirante a presidente.
Esta regra, no entanto, é meio mandrake, porque Temer virou réu duas vezes e não foi suspenso das funções, porque a Câmara rejeitou as decisões do STF. Quer dizer, a norma constitucional vale, mas não vale muito…
quinta-feira, 23 de agosto de 2018
Essência do jogo político
Há muita gente tratando como traição aquilo que é a essência do jogo político brasileiro. O noticiário dos últimos dias está repleto de exemplos de caciques políticos que apoiam um nome à Presidência e, ao mesmo tempo, dão palanque em suas regiões a agremiações de adversários do candidato nacional.
É uma ocorrência comum em todas as últimas eleições. É um comportamento que não deveria surpreender nem ser chamado de traição e, no extremo lógico do raciocínio, tampouco mereceria destaque no noticiário. Na verdade, se notícia é coisa inédita então notícia seria se não se registrasse comportamento desse tipo.
Começa pela maçaroca ideológica brasileira, que não comporta definições precisas do que seja a tendência política dos partidos, se é que se pode falar disso. Afinidades em torno de plataformas ou posturas político/ideológicas são muito raras, e pertencem, a rigor, a extremos do espectro. Os partido já eram fracos ainda antes do esfarelamento que sofreram com a Lava Jato e não têm (mesmo o PT) a tal da “fixação estrutural” da qual falam os cientistas políticos, isto é, não se mantêm o que são por um longo prazo de tempo.
Colocados esses pontos sobre a essência do nosso sistema (oportunismo, fragmentação, regionalismos), ele está funcionando exatamente como seria de se esperar. A partir daí, a “esdrúxula” montagem de alianças que defendem gregos num plano e troianos em outro surge, na verdade, como algo coeso e coerente. O jeito com que o Brasil vota nas eleições proporcionais, com ênfase em indivíduos disputando distritos eleitorais muito amplos, incentiva ainda mais a fragmentação de partidos e seu consequente enfraquecimento.
Para eleitores razoavelmente mobilizados ou bem aglutinados em torno de candidaturas, como acontece com o poste que Lula indicar e, do outro lado, com Bolsonaro (cujo grau de consolidação está surpreendendo consultorias de risco internacionais), a questão das “traições” não chega a ser relevante. No ambiente que no momento prevalece de antipolítica, desânimo e desconfiança em relação aos partidos, no qual começa para valer a campanha eleitoral, significa dizer que o extraordinário número dos indecisos ou que se declaram desinteressados em votar vai empurrando para frente a linha do tempo atrás da qual se vislumbram possíveis vencedores.
O preço a pagar por partidos fracos, sistema com a “essência” descrita acima e falta de plataformas verdadeiramente “políticas” são a dúvida e a imprevisibilidade.
É uma ocorrência comum em todas as últimas eleições. É um comportamento que não deveria surpreender nem ser chamado de traição e, no extremo lógico do raciocínio, tampouco mereceria destaque no noticiário. Na verdade, se notícia é coisa inédita então notícia seria se não se registrasse comportamento desse tipo.
Começa pela maçaroca ideológica brasileira, que não comporta definições precisas do que seja a tendência política dos partidos, se é que se pode falar disso. Afinidades em torno de plataformas ou posturas político/ideológicas são muito raras, e pertencem, a rigor, a extremos do espectro. Os partido já eram fracos ainda antes do esfarelamento que sofreram com a Lava Jato e não têm (mesmo o PT) a tal da “fixação estrutural” da qual falam os cientistas políticos, isto é, não se mantêm o que são por um longo prazo de tempo.
No sistema político eleitoral brasileiro a federação cria realidades políticas estaduais diante das quais, sob a ótica dos caciques donos de partidos, faz todo sentido buscar alianças promissoras no plano nacional e combiná-las – ou, melhor dito, e levá-las adiante na campanha – com acertos de importante expressão regional. Note-se que há décadas a coerência de postulados políticos nas alianças é quimera atrás da qual correm apenas desavisados assistindo ao circo – incluindo o PT, que já foi um “partido orgânico”, por seu enraizamento em determinados segmentos sociais.
Neste momento da campanha, o verdadeiro teste pelo qual passa uma candidatura como a de Alckmin, cuja aposta central é a eficácia dos meios tradicionais de se lutar numa campanha eleitoral (TV, dinheiro e parte da máquina pública), é o teste da percepção que caciques desenvolvem das chances de vitória, e não tanto as tais “traições”. Essa percepção reflete, por sua vez, uma atitude bastante comum no grosso do eleitorado, segundo a qual não se joga voto fora, isto é, corre-se de última hora rumo a quem se percebe como eventual vencedor.
Neste momento da campanha, o verdadeiro teste pelo qual passa uma candidatura como a de Alckmin, cuja aposta central é a eficácia dos meios tradicionais de se lutar numa campanha eleitoral (TV, dinheiro e parte da máquina pública), é o teste da percepção que caciques desenvolvem das chances de vitória, e não tanto as tais “traições”. Essa percepção reflete, por sua vez, uma atitude bastante comum no grosso do eleitorado, segundo a qual não se joga voto fora, isto é, corre-se de última hora rumo a quem se percebe como eventual vencedor.
Colocados esses pontos sobre a essência do nosso sistema (oportunismo, fragmentação, regionalismos), ele está funcionando exatamente como seria de se esperar. A partir daí, a “esdrúxula” montagem de alianças que defendem gregos num plano e troianos em outro surge, na verdade, como algo coeso e coerente. O jeito com que o Brasil vota nas eleições proporcionais, com ênfase em indivíduos disputando distritos eleitorais muito amplos, incentiva ainda mais a fragmentação de partidos e seu consequente enfraquecimento.
Para eleitores razoavelmente mobilizados ou bem aglutinados em torno de candidaturas, como acontece com o poste que Lula indicar e, do outro lado, com Bolsonaro (cujo grau de consolidação está surpreendendo consultorias de risco internacionais), a questão das “traições” não chega a ser relevante. No ambiente que no momento prevalece de antipolítica, desânimo e desconfiança em relação aos partidos, no qual começa para valer a campanha eleitoral, significa dizer que o extraordinário número dos indecisos ou que se declaram desinteressados em votar vai empurrando para frente a linha do tempo atrás da qual se vislumbram possíveis vencedores.
O preço a pagar por partidos fracos, sistema com a “essência” descrita acima e falta de plataformas verdadeiramente “políticas” são a dúvida e a imprevisibilidade.
Mistificação
Em resposta a essa patacoada, FHC escreveu que “a maneira que Lula da Silva escolheu para se defender perante o mundo (...) tem de ser contestada”, pois “sua versão da história recente do Brasil guarda escassa relação com a realidade”. Diz também que “o ex-presidente retrata o Brasil como uma democracia em ruínas, na qual o Estado de Direito deu lugar a medidas arbitrárias destinadas a enfraquecê-lo e a seu partido”, o que “não é verdade”.
Depois de descrever as muitas mentiras de Lula sobre o “golpe” contra a presidente Dilma Rousseff e sobre o processo que condenou o petista à cadeia, FHC afirma que “é uma grave distorção da realidade (...) dizer que há uma campanha no Brasil para perseguir indivíduos específicos” e termina com um protesto: “Meu país merece mais respeito”.

Já não era sem tempo. A máquina lulopetista de agitação e propaganda, calejada depois de mais de três décadas destruindo reputações alheias e construindo a mitologia de seu morubixaba, há muito tempo trabalha para convencer a opinião pública no exterior de que o impeachment de Dilma e a prisão de Lula foram parte do tal “golpe” destinado a “reverter o progresso dos governos do PT”, como diz o caviloso artigo do chefão petista. Era mesmo necessário que alguém da estatura de FHC, reconhecido internacionalmente como estadista, viesse a público manifestar seu repúdio mais veemente contra essa campanha de desinformação e má-fé.
Mas o fato é que o estrago está feito. O aparato da seita de Lula para desmoralizar a democracia brasileira no exterior mobilizou tantas frentes que hoje é praticamente impossível tentar conter seus danos por meios tradicionais, como a diplomacia, ou com artigos na imprensa estrangeira.
São artistas, intelectuais, professores universitários e políticos de diversos países, todos convencidos de que Dilma Rousseff caiu em razão de um “golpe” e que Lula da Silva é um “preso político”. Pudera: até uma “greve de fome” os petistas deflagraram para caracterizar o “estado de exceção” brasileiro.
Essa campanha de desinformação não para de dar frutos. No mês passado, por exemplo, o cientista político Steven Levitski, de Harvard, autor do best-seller Como as Democracias Morrem, disse em entrevista ao Estado que o impeachment de Dilma “viola o espírito das leis” e que a exclusão de Lula da corrida presidencial “é algo perigoso a se fazer” – como se, em ambos os casos, a lei não tivesse sido seguida.
O mesmo equívoco, mas numa dimensão muito maior, cometeu o ex-chanceler do México Jorge Castañeda. Em artigo no New York Times, intitulado Por que Lula deve ter permissão para concorrer à Presidência, Castañeda argumenta que “a causa de Lula foi endossada por muitas figuras internacionais ao redor do mundo” e sugere que seu caso se assemelha à perseguição política empreendida pelas ditaduras da Venezuela e da Nicarágua contra seus oponentes. Após dizer que impedir a candidatura de Lula seria marginalizar milhões de eleitores que querem “seu ídolo de volta à Presidência”, ele completa: “As acusações (contra Lula) são tão frágeis, os alegados crimes, tão pequenos, a sentença, tão escandalosamente desproporcional (...) que a democracia deveria se sobrepor ao Estado de Direito” – ou seja, o “desejo” dos eleitores de Lula deveria prevalecer sobre a lei.
Quando prestigiados intelectuais, alguns com boas credenciais democráticas, se deixam encantar dessa forma pelas patranhas de Lula, a ponto de abdicar da defesa do Estado de Direito – que é o pilar da democracia, pois assegura que ninguém, nem mesmo deidades como Lula, está acima da lei –, só resta esperar que a Justiça brasileira não vergue ante essa espantosa histeria coletiva.
Desaforos não se leva para casa
Jogadas políticas temerárias vem sendo feitas à luz do dia e na calada da noite. Alguns riem. O resultado do placar é que aparece diferente para cada plateia. De um lado, os estupefatos que aceitam as provocações e acham que a solução é fechar o tempo de vez, sem entenderem que a História não deve nem precisa voltar atrás aos tempos obscuros, cavernosos e sangrentos vividos, tempos que teimam em negar como se realidade não tivessem sido. Nesse grupo há ainda os crédulos em justiceiros falastrões para quem – os que o criticam – somos analfabetos, sem ter ideia de quantos milhões o são mesmo, sem solução, e que podem votar, mas não podem ser votados para lutar contra isso.

De outro, a jogada mais radical, feita para a torcida única de bandeirinha na mão que acha que só ela sabe o que é que é bom, o que é pobre, miséria, justiça social, arte engajada, e insiste em criar caso até o fim no que não será possível, infelizmente, de forma alguma, que seja executado em paz – essa é a certeza: a candidatura de Lula, o encarcerado que mais recebe visitas que podem ser chamadas de íntimas – sem sexo, e com grande incontinência verbal.
Tapas sequenciais na cara. E ninguém está a fim de virar o outro lado para ser esbofeteado de novo.
Deixe os meninos brincarem – diria um sábio ancião, observando esse caso lá de cima de uma montanha, de onde já não mais precisa descer para votar nesse tutti-frutti absurdo e desconexo de cabo a rabo que se apresentará nas urnas. Diria mais: que eles precisam sempre regar o grupo deles, para não perderem mais do que já perderam nesses últimos anos, os que despertaram do torpor infantil emanando da plantação do canto esquerdo do rio. Jogar para a galera é o que fazem.
Só que os meninos estão justamente brincando com fogo porque querem se queimar, há entre eles muitos que – nem um pouco meninos – sabem ser o choque inevitável e para lá exatamente por isso encaminham a comissão de frente. ONU. ONU? Isso é que é atirar para todos os lados. Nunca os vi mexer o traseiro para situações vexatórias de miserê.
Teremos dias exóticos, ainda mais exóticos, quero dizer, pela frente. Vamos observar. Debates e entrevistas, os mais divertidos. Uma das melhores coisas é lembrar que a maioria das perguntas que uns fazem aos outros e que os jornalistas cutucam não têm o menor interesse de verdade para a gente a resposta, a não ser por futrica. Ver se um vai dar uma bifa na cara do outro; se o efeito do calmante vai passar, se o sangue vai subir, se gravata combina com o terno, que inclusive está tudo muito masculino para o meu gosto, se plantaram ou pintaram cabelo é o que dá a audiência.
E o que é pior, se perguntássemos ou se a conversa girasse apenas sobre as suas propostas para o Governo, seria menos constrangedor o silêncio.
Reflexos no espelho
“Os verdadeiros inimigos do povo — e da democracia — são aqueles que tentam sufocar a verdade [das mensagens] vilanizando e demonizando o mensageiro.” “Os esforços para minar sistematicamente a credibilidade da imprensa são um ataque às nossas instituições democráticas.” “Criticar a mídia, por subestimar ou exagerar nas reportagens ou por entender algo de forma errada, está inteiramente certo. Repórteres e editores são humanos e cometem erros. Corrigi-los é fundamental para o nosso trabalho. Mas insistir em que verdades das quais você não gosta são notícias falsas é perigoso para a alma da democracia. E chamar os jornalistas de ‘inimigos do povo’ é perigoso, ponto.”
Essas frases, tiradas da coluna de domingo último da ombudsman Paula Cesarino Costa, são de editoriais publicados na semana passada por 400 organizações de mídia nos EUA. Foram editoriais em defesa da liberdade de imprensa ameaçada pelo presidente Donald Trump. Para Trump, tudo que não lhe seja simpático é rotulado de fake news e justificativa para ataques aos jornalistas.
Pela primeira vez nos 242 anos de existência dos EUA, discute-se a liberdade de imprensa. Equivale à ciência discutir, de repente, a lei da gravidade. Mas Trump levou a isso. Para encobrir seus malfeitos, ele põe em risco uma cláusula pétrea, base da própria democracia.
Releia agora o primeiro parágrafo e veja se não poderia se aplicar, vírgula após vírgula, a uma defesa contra os ataques do PT e de seus aliados à imprensa brasileira —a “mídia golpista”. Trump e o PT têm isso em comum: não acreditam em notícias que não sejam a seu favor. E, em vez de desmenti-las com fatos, partem para a tentativa de descrédito de toda a mídia.
No caso do Brasil, o PT não está sozinho em sua campanha contra a liberdade de imprensa. Tem um duplo naquele que, no fundo, é seu próprio reflexo no espelho: Jair Bolsonaro.
Essas frases, tiradas da coluna de domingo último da ombudsman Paula Cesarino Costa, são de editoriais publicados na semana passada por 400 organizações de mídia nos EUA. Foram editoriais em defesa da liberdade de imprensa ameaçada pelo presidente Donald Trump. Para Trump, tudo que não lhe seja simpático é rotulado de fake news e justificativa para ataques aos jornalistas.
Pela primeira vez nos 242 anos de existência dos EUA, discute-se a liberdade de imprensa. Equivale à ciência discutir, de repente, a lei da gravidade. Mas Trump levou a isso. Para encobrir seus malfeitos, ele põe em risco uma cláusula pétrea, base da própria democracia.
Releia agora o primeiro parágrafo e veja se não poderia se aplicar, vírgula após vírgula, a uma defesa contra os ataques do PT e de seus aliados à imprensa brasileira —a “mídia golpista”. Trump e o PT têm isso em comum: não acreditam em notícias que não sejam a seu favor. E, em vez de desmenti-las com fatos, partem para a tentativa de descrédito de toda a mídia.
No caso do Brasil, o PT não está sozinho em sua campanha contra a liberdade de imprensa. Tem um duplo naquele que, no fundo, é seu próprio reflexo no espelho: Jair Bolsonaro.
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