domingo, 27 de novembro de 2016

Ruim com ele, pior em ele

Milton Campos, ao renunciar ao ministério da Justiça do governo Castello Branco, produziu uma das maiores lições políticas de todos os tempos, ao reagir ao apelo do primeiro general-presidente para que permanecesse nas funções. Escreveu sobre a diferença entre ele e o presidente, pois dispunha do direito de pedir para sair, por diversas razões e motivos. Castello, não: era o único cidadão brasileiro obrigado a permanecer, quaisquer que fossem as agruras e dificuldades a enfrentar.

Vale o exemplo para o atual presidente. Michel Temer não tem liberdade para saltar de banda. Seu governo pode enfrentar a mais difícil das crises nacionais, colhendo fracassos de toda ordem. A herança recebida no momento em que sucedeu a Dilma Rousseff desanimaria qualquer cidadão. A economia posta em frangalhos, a desorganização verificada em sua base partidária, a incompetência de seus ministros, a falta de apoio nas diversas camadas da sociedade, a péssima repercussão de suas iniciativas políticas – tudo trabalha contra sua permanência no palácio do Planalto.

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O problema é que não pode renunciar, apesar de alguns de seus antecessores tivessem cedido à tentação. Primeiro desafio seria o país aferrar-se ao cumprimento dos postulados democráticos.

Mesmo sem o sonho de instituições acordes com nossas necessidades, haverá que seguir adiante, à espera do que os ventos mudem e soprem um fiapo de esperança em meio à conturbação generalizada.

Quem sabe o Congresso se recicle, alterando a postura de deputados e senadores que só pensam em satisfazer seus interesses? As camadas privilegiadas abram parte de suas benesses para as massas desprotegidas? Os ministros, mesmo se não ficar um só, encontrem o caminho do cumprimento de seus deveres? O próprio Michel Temer talvez vislumbrasse a importância de seguir exemplos, mesmo raros, de como dirigir um governo?

A alienação do Estado

O Brasil está voltando ao que era antes do Plano Real, um caos.

Em 1994, com Itamar Franco presidente e Fernando Henrique ministro da Fazenda, no meio de uma crise desoladora, surgiu uma “vontade firme” de consertar o país. Sobrevivia, naquela época, uma máquina do Estado enxuta e dedicada à pátria. A vergonha era levada a sério.

O “sociólogo” montou uma equipe de meia dúzia de economistas de ponta, sem visar a nichos ou interesses pequenos, como se faz agora. As coisas começaram em seguida a funcionar e gerar resultados práticos. A inflação sumiu, os salários aumentaram, o progresso veio para empurrar a nação.

Se FHC tivesse acatado os caprichos de cada setor, não teria conseguido chegar a uma fórmula de sucesso difuso. No lugar do Real teria um Frankenstein de vida breve, como acontece frequentemente.

A equipe dele trabalhou em silêncio e sigilo, surda aos cantos das sereias.

O Real foi o último, talvez o único, projeto econômico que não se importou com a impopularidade imediata. Colocou a sua frente a estruturação da economia no longo prazo.

James Gallagher, "Lunch Line":
James Gallagher,
Eu era deputado e crítico de Fernando Henrique no início de 1994. Não compreendia o atraso com as medidas que eram reclamadas. Num jantar no apartamento de José Serra, em Brasília, não me convenceu o discurso dele para um grupo de deputados que apoiava o governo Itamar. Eu desabafei em relação aos juros altos que bloqueavam os investimentos no país, à falta de segurança jurídica, ao caos tributário, à miséria do povo. Pediu-me para que o visitasse em seu gabinete no dia seguinte. De lá sai quase convencido de que medidas viriam para aliviar os males terríveis que vivíamos. O resto está na história oficial do Plano Real, que transformou uma republiqueta num Estado respeitado. FHC pode ter todos os defeitos, mas acertou em cheio com o Real.

O plano permaneceria até hoje, sólido e pujante, se a “vontade” que movimentou os primeiros momentos se tivesse renovado, e não se renovou. A inconstância, as alternâncias, os pecados levaram ao que é hoje: uma República em frangalhos, abatida pela crise, pelos desmandos de suas lideranças, dos Parlamentos preocupados em ampliar cinicamente seus privilégios, sem noção da sustentabilidade, do suor da nação e dos sacrifícios que se avolumam sobre o país.

Claro é que o que vai para um Fundo Partidário não se destinará à saúde. É aí nas filas que as pessoas morrem. Algum dos luminares se preocupa com isso?

O ápice dos benefícios proporcionados pelo Real foi desperdiçado na engorda de um Estado burocrático que impede a possibilidade de desenvolvimento sustentável. Há quem defenda que um emprego inútil no Estado acaba com três ou quatro na economia de mercado. Um custo terrível.

Eu, de 1994 até 2002 como deputado federal do mesmo partido do presidente, votado em Betim, cidade da Refinaria Gabriel Passos, uma das maiores do país, em oito anos de governo, não me avistei nem mesmo com um porteiro da Petrobras, que ficava ao lado do meu escritório político. Não se cogitava naquela época a interferência do Legislativo na vida de empresas estatais. A exploração nos domínios públicos se consagrou com Lula, constrangendo interesses difusos e proporcionando rapinas, agora reveladas pelas inúmeras delações premiadas. Nada mais se decidiu objetivamente depois de 2003, daí a insurgência de um “Estado-quadrilha”.

Acabou também (felizmente) a raça de políticos que “rouba, mas faz”, e surgiu (infelizmente) aquela mais despudorada que “rouba, não faz e não deixa fazer”. Explicou um grande empreiteiro, num lampejo de autocrítica, que “ele (empreiteiro) é aquele que, para ganhar dinheiro, faz qualquer coisa, até obras”. Enfim Odebrecht e Andrade Gutierrez, em suas delações, confirmaram o que parecia absurdo e serviu à demolição do Estado.

O patrimonialismo delirante expandiu também para 1,5 milhão as nomeações políticas em todo o país. Os ditos cabides de empregos, pagos pelos contribuintes. Não parou aí, os concursos públicos foram violentados para dar estabilidade aos apaniguados, mesmo sem predicados.

Quem por necessidade ou amor à pátria adentra um ministério, e até o Planalto, encontra um ambiente desvirtuado e sem motivação alguma. Parece aí que o mundo foi criado para servir de contorno aos ministérios e ao Congresso Nacional. Perdeu-se a noção de “servir”.

A distância que separa os Poderes federais, Executivo e Legislativo, da realidade do país é abismal. O Brasil precisa reencontrar a “vontade”, a “honestidade” e a “competência”, até lá não há como se pensar em recuperação verdadeira.

Se você quer ser feliz, saia do Facebook

A recomendação de se desconectar das redes sociais existe praticamente desde o nascimento dos smartphones. A facilidade e o imediatismo para ter acesso a qualquer momento, em qualquer lugar, permite que os usuários estejam permanentemente conectados e provocou diversas formas de vício tecnológico: do medo de ver, através da rede, como os seus amigos se divertem sem você até a nomofobia (medo de sair de casa sem o celular). Agora, um novo estudo do The Happiness Research Institute conclui que, em apenas uma semana, as pessoas que deixam de utilizar o Facebook se sentem mais felizes e menos preocupadas.

Os autores do estudo dividiram os 1.095 participantes em dois grupos. Os do primeiro não deveriam se conectar ao Facebook por sete dias; já os do grupo-controle continuaram usando a rede normalmente. Durante esse tempo, os pesquisadores mediram estados de ânimo como a felicidade, a tristeza, a preocupação, a raiva, o entusiasmo e os sentimentos de solidão e depressão.

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No último dia do experimento, os cientistas perguntaram como os participantes se sentiam. E as mudanças foram evidentes: os que haviam deixado de usar a rede social admitiram estavam mais felizes e menos tristes e solitários. Além dos sentimentos positivos, perceberam um aumento em sua atividade social cara a cara e menos dificuldade de concentração. Também tiveram a sensação de que tinham desperdiçado menos tempo ao longo da semana do estudo.
Em azul, os dados fornecidos pelo grupo-controle; em branco, os do grupo que deixou o Facebook.

Essas conclusões coincidem com as declarações de muitos especialistas de que os usuários das redes sociais só mostram em seu perfil a parte da vida que desejam que os outros vejam: as boas notícias – 61% das pessoas publicam só as coisas boas que lhe acontecem –, as fotos retocadas, o enquadramento pensado e que parece casual... Projetam uma vida irreal que faz com que metade dos usuários tenha inveja das experiências que os demais compartilham em seus perfis. E que um terço sinta inveja da aparente felicidade de seus contatos do Facebook. Segundo os especialistas do The Happiness Research Institute, as redes sociais “são como um canal que só transmite boas notícias, um fluxo constante de vidas editadas que distorcem nossa imagem da realidade”. Assim, o bem-estar dos usuários é condicionado pelo que os demais pensam e pelo número de likes que conseguem no fim do dia.

Uma das dificuldades dos pesquisadores para desenvolver o estudo foi a impossibilidade de controlar se os participantes se resistiam à tentação de entrar no Facebook. Em média, 94% dos usuários visitam seu perfil de maneira automática e rotineira. Por isso, os cientistas pediram que os participantes desinstalassem o aplicativo de seus aparelhos. Apesar dos conselhos e da apresentação voluntária ao experimento, 13% deles não conseguiram passar esse tempo sem entrar no perfil e checar as notificações.

Com respeito às limitações do estudo, os pesquisadores reconhecem que a predisposição pôde ter afetado os resultados. Os participantes eram voluntários – embora designados aos grupos de forma aleatória –, o que poderia significar que, de alguma forma, estavam interessados em deixar de usar o Facebook ou a começar a utilizá-lo por menos tempo. Os resultados podem se dever, em parte, ao efeito placebo: os participantes esperavam se sentir melhor ao se desconectarem.

Essa não é a primeira pesquisa indicando que muitos usuários seriam mais felizes se utilizassem menos as redes sociais. O estudo O Uso do Facebook Prediz uma Diminuição no Bem-Estar do Usuário, realizado em 2013 pela Universidade de Michigan, mostra que os níveis de satisfação com a vida dos participantes diminuiu ao longo da pesquisa com o uso constante do Facebook. Outro estudo, realizado em 2013 pela Universidade Humboldt e a Universidade Técnica de Darmstadt, ambas da Alemanha, concluiu que uma de cada três pessoas se sente mal e mais insatisfeita depois de visitar o Facebook. O estudo, A Inveja no Facebook: Uma Ameaça Escondida para a Satisfação do Usuário, descobriu que isso acontece porque eles sentem inveja, que desemboca em frustração, amargura e solidão.

sábado, 26 de novembro de 2016

O futuro que desconhecemos

As últimas semanas foram tão fartas de ruídos e atritos que ganhou corpo a imagem de um País fora de controle. Não foram poucos os que anteviram o apocalipse, falando em golpe militar, impeachment de Temer, fim da Lava Jato, insurreição popular, “ocupações” sucessivas que sitiariam o sistema.

Alguns fatos alimentaram o catastrofismo. Num dia, 50 direitistas invadem a Câmara dos Deputados falando em ditadura e fechamento do Congresso. Em outro, o ministro da Cultura se demite por não aceitar pressões indevidas do ministro Geddel Vieira Lima, uma gota a mais no oceano de corrupção e tráfico de influência que inundou o País. A denúncia abalou o governo Temer, que preferiu desgastar-se mais um pouco para não pôr em risco sua base parlamentar. O ministro Geddel demitiu-se ontem, mas o estrago já estava feito.

A discussão sobre a PEC dos gastos e a reforma da Previdência incrementa o pessimismo, pois seus efeitos serão certamente dolorosos e impulsionam retóricas finalistas, nas quais o povo pobre é visto como dramaticamente afetado. Para complicar, a economia continua a patinar, o desemprego persiste, o consumo está estagnado, Trump venceu nos EUA e vão começar as delações da Odebrecht. A discussão sobre o caixa 2 mostra a disposição de muitos deputados (de variados partidos, PT incluído) de aliviar crimes como lavagem de dinheiro e falsidade ideológica.

Tudo vai sendo acomodado às pressas na ideia de que golpistas maldosos e políticos hipócritas estão a patrocinar a desmontagem das conquistas sociais e do progresso do País. O cenário não corresponde por inteiro à realidade profunda, mas enfeitiça muitos brasileiros, que se deixam arrastar pelo ativismo frenético ou pelo desinteresse conformista.


Há muita desorientação na parte mais ativa da sociedade. Políticos, partidos, lideranças, intelectuais, ativistas parecem mais interessados em definir a que nicho pertencem do que em criar zonas de entendimento. Faltam-lhes ideias e ousadia, sobram raiva, ressentimento e indignação. Há protestos e ocupações de direita e de esquerda e as diferentes tribos que as protagonizam se consideram iluminadas. Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul são só a ponta de um enorme iceberg. O colapso fiscal dos Estados põe a Federação em crise. Para onde quer que se olhe, o cenário é complicado.

No meio dessa mixórdia de vozes dissonantes, a gigantesca maioria dos brasileiros deseja seguir com a vida sem muitos sobressaltos, mas a essa maioria não é oferecida nenhuma análise fundada em discernimento, serenidade e visão de futuro.

O governo Temer não é pior do que o governo que tínhamos até ontem, ou anteontem. Em certos aspectos, chega até a ser melhor. Está se esforçando para imprimir um pouco mais de racionalidade na gestão pública e nas relações entre Executivo e Legislativo. Carece, porém, de eixo. Sua composição o fragiliza, sustentada que está pela preocupação de evitar divisões na base parlamentar. As circunstâncias não o favorecem: o cenário global é instável, o nacional é uma incógnita. As instituições, ainda que valorizadas, não conseguem domar o País, cuja complexidade é um desafio. Vista de Brasília, a sociedade se mostra distante, quase um borrão no mapa, quando deveria ser a razão mesma do Estado.

O governo caminha sobre o fio de uma lâmina afiada, agarrado exclusivamente a uma meta de ajuste e reorganização das contas. Seu discurso é raso, não comove nem mobiliza. Não parece ter outras políticas, o que o deixa trôpego e vacilante diante de um contínuo turbilhão de problemas, conflitos e ameaças.

Se as coisas estão assim tão desgraçadamente ruins, o razoável é que se reduzissem as polarizações brutas e as simplificações maniqueístas feitas a partir de uma visão grosseira de esquerda e direita, e se buscasse adquirir uma articulação democrática superior que propusesse algo de positivo, com os pés no chão. Poucos, porém, cogitam disso.

Houve quem comemorasse a prisão de Garotinho e Sérgio Cabral, e houve quem se aproveitasse dela para denunciar a “mídia oligopolizada”, bater na PF e na Lava Jato, defender os direitos humanos. Ficou difícil entender a situação. Aplaudir prisões expressa um desejo de vingança. Explorá-las para atacar a Justiça é um erro político.

Demonizar a “mídia oligopolizada” virou clichê em parcela da esquerda. É uma fantasia para processar o que nos desagrada ou atenuar o medo ancestral que nos assusta. Impede que se compreendam a complexidade e o caráter contraditório dos fenômenos midiáticos atuais. Quanto mais se insiste nisso, mais a análise fica ideológica, sem objetividade.

Alguns dos que batem na Justiça, no MP, na PF e na Lava Jato dizem que as operações anticorrupção existem para perseguir o PT. Outros querem simplesmente salvar a pele. Ambos os lados falam em “criminalização” da política e não se importam em defender o indefensável. As denúncias contra o arbítrio, o abuso de autoridade e o desrespeito à integridade da pessoa – que sempre devem ser consideradas com atenção – terminam assim por engrossar um caldo de cultura que esvazia e deslegitima o combate à corrupção.

Pode-se não gostar de Moro, das conduções coercitivas e dos procedimentos de delação premiada, achar que extrapolam o razoável, mas o esforço deveria estar concentrado em avaliar seus efeitos e resultados. Por vias que incomodam alguns, a Lava Jato e outras operações judiciais estão revolvendo as entranhas do sistema político brasileiro, enfiando a faca na relação entre empreiteiras, governos e partidos, desnudando práticas e manobras ilícitas de enriquecimento e financiamento político, mostrando o prejuízo que causam ao País.

Se o sistema político e partidário não sobreviver a essas operações, é porque está tão bichado que não merece seguir respirando. Não deveríamos ter tanto medo do futuro que desconhecemos.

A corrupção da bondade

A política brasileira está tão corrompida, que corrompeu as próprias coisas boas que ela criou. Poucos políticos conseguiram criar um instrumento tão bom quanto João Calmon com sua emenda que determina constitucionalmente a reserva de 18% dos recursos da União para a Educação.

Mas, depois de 34 anos, esta óbvia bondade provocou duas corrupções: o apego a mais recursos, independentemente da eficiência como eles são usados, e o acomodamento político diante do que já está assegurado. Corrompemos a bondade ao distribuirmos recursos orçamentários sem levar em conta os limites determinados pela arrecadação.

Ao cometermos excesso de gastos, corrompemos o valor da moeda. Agora, ao deixarmos abertas as portas para que pressões corporativas consigam elevar gastos, podemos estar corrompendo a determinação constitucional do teto. A bondade fiscal se transformará em crise constitucional.

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Ao pagar às famílias pobres para que suas crianças estudassem, o Bolsa Escola foi uma ideia transformadora e generosa. Foi possível criar renda para quem não tinha, dinamizar o mercado de produtos simples, além de levar as crianças para a escola. Mas, diluído no Bolsa Família, o Bolsa Escola teve seu aspecto educacional descaracterizado.

O resultado atual é um programa que corrompeu a bondade ao fazer-se assistencialista e eleitoreiro. Um instrumento transformador foi transformado em bondade assistencial. Depois de 138 anos da Abolição, a cor da cara da elite brasileira continua branca.

Assim, foi justo e correto adotar a proposta de cotas para brasileiros negros e indígenas entrarem na universidade. Graças ao aumento nas vagas nas universidades, e a programas como Prouni e Fies, houve uma ligeira mudança na cor da cara dos alunos que estão nos corredores das universidades.

Mas, com pouca mudança no acesso às boas universidades para os filhos dos mais pobres, porque a brecha na qualidade da educação de base não diminuiu e até au- mentou. O aumento no número de alunos universitários sem melhorar a educação de base levou a uma queda na qualidade do próprio ensino superior.

A bondade das cotas foi corrompida, porque serviu para escamotear toda a dimensão do problema e terminou acomodando aqueles que desejam educação de qualidade para todos, sem necessidade de cotas. O Brasil tem um dos mais generosos sistemas de previdência, permitindo aposentadorias em idades relativamente baixas, mas os longos anos de aposentadoria inviabilizam a continuação desta bondade, porque o sistema faliu.

A bondade, se for mantida, corromperá as finanças. Há 70 anos, as leis trabalhistas foram uma bondade revolucionária, mas ao não percebermos as radicais mudanças tecnológicas das últimas décadas esta bondade também foi corrompida e se transformou em indutora de ineficiência, desemprego e prejudicial aos jovens.

A própria bondade da democracia foi corrompida ao elegermos governos sem compromisso transformador e tolerarmos a corrupção, além de confundirmos interesses públicos e nacionais com direitos individuais e corporativos. Corrompemos a bondade.

Paisagem brasileira

Ribeirão Mumbaça, José Rosário

A possível leveza

Quando acordei meu anjo me sussurrou que pegasse leve. Procurasse ativamente a possível leveza. Mesmo que fosse só por hoje. Pensei logo no tão bonito poema de Manuel Bandeira, “O impossível carinho”: “Escuta, eu não quero contar-te o meu desejo/ Quero apenas contar-te a minha ternura/ Ah, se em troca de tanta felicidade que me dás/ Eu te pudesse repor/ — Eu soubesse repor —/ No coração despedaçado/ As mais puras alegrias de tua infância”. O impossível carinho tolhia o poeta de dar a quem o amava a possível leveza. — Pode ser essa mesma a essência da leveza que o Anjo me pediu — humildemente! — hoje cedo. Também o Anjo estava triste.

Estudei numa universidade cujo lema — alis grave nil — quer nos ensinar que nada é pesado a quem tem asas. Desejava talvez nos ajudar a deixar virem as asas envergonhadas que se escondem em nós. E atingir a possível leveza no mundo. Esse é um mandamento doce que trago comigo desde então. Mas desaprendi no mundo. E tento reaprender. Foi o que o Anjo me pediu. Mas o mundo, anjo meu, esse em que a leveza aprendida é necessária, anda pesando toneladas desumanas. Não sei botar nos corações despedaçados as mais puras alegrias da infância. Sem as quais a leveza é destroçada pelo que andam fazendo com a vida.


Primeiro seria preciso ter certeza de que a infância dos sem leveza teve alegrias. As de muitos, que conheço, sim. Posso talvez tocá-los com a urgência do Anjo. As de muitos, que não conheço, não. Há os que foram crianças, mas não tiveram infância. Aquele tempo em que o jogo, ao acaso da brincadeira, era inimigo do relógio das obrigações. Quando brincar na rua era o modo certo de estar no mundo. As infâncias atoladas em quartos minúsculos, famílias grandes, fogão apagado, panela vazia, não encontraram na rua ou na escola seu espaço de liberdade. A rua era lugar de tiro, de um lado e outro. A escola, o território da abnegação desassistida, sem meios, o das muito magras esperanças. — Mas mesmo essas crianças jogavam bola de meia e improvisavam bonecas. Enquanto os tiros não decretavam os toques de recolher.

Há também os outros meninos, os das armas. Os que cedo tiveram sangue nas mãos, explorados por adultos que abriam no mundo um curto caminho de poder, de morte aos 20 anos. Vidas poucas, intensas, violentas. Leveza nenhuma. — Será? Em algum lugar muito esquecido do coração? Uma pipa no ar anuncia a polícia. Será que não se lembram de um tempo em que a pipa ensinava a liberdade da asa, para a qual nada é pesado? — Não sei. Queria tanto saber! Porque logo estarão mortos, e a morte, nessas condições, é tudo, menos a leveza. A não ser que Deus os recolha na sua leve mão. Disso não sei mesmo nada.

Não sou dos que atribuem toda a violência daqueles a quem a vida privou de infância à vida má de crianças abandonadas na chuva. Explicação muito fácil, e que tira fora a responsabilidade delas e a nossa nesse abandono. Nem me conto entre os que têm certeza de que menos filhos deteriam a violência. Como se, por mágica, menos crianças diante da panela vazia eliminassem as valas negras, o lixo de vida, a pobreza desesperada. E os tiros. Não, nós os abandonamos. Também não é tudo culpa nossa. Não aprendemos a amar o bastante. É tão difícil o amor. O das crianças sujas. As que cheiram mal.

Chegam às janelas dos nossos carros, que rapidamente fechamos. E também temos razão. Podem estar pedindo comida, podem estar levando relógios. Não se sabe antes. Às vezes ouvimos: “É pra comer, tio...”, e temos medo, e aceleramos o passo. O mundo está violento. Povoado por nós, que amamos de menos, e pelas crianças que não tiveram infância. Como dar a elas as mais puras alegrias de um tempo que não tiveram?

Afastamo-nos depressa, que há perigo na esquina. Alguns de nós levam no coração em fuga a asa inquieta para a qual nada é pesado. O nosso pequeno anjo. Mas anjos, hoje... Temos vergonha da bondade, da possível leveza. Penso no anjo que não tem bem uma hora me pediu — estava triste — que só por hoje fosse leve. Quando me sentei para escrever queria honrar sua tristeza e sua esperança. Afinal, ele se entregou nas minhas mãos. Não deu ordem. (Anjos são doces.) Pediu. Não consegui.

Agora um sabiá urbano, desses que resistem à dominação planetária, pousou na minha janela. E cantou. Sabiás cantaram na minha infância. As mais puras alegrias... Quem sabe voltam? Agora vêm as quatro semanas do Advento. Para quem acredita nisso (para quem não acredita também, de um modo muito misterioso), vai de novo nascer o insistente menino que devia fazer possível o impossível carinho, e levezinha a asa sem peso do amor. Entre o sabiá e o menino pode renascer uma infância. Logo saberemos. Nesse meio tempo, melhor cultivá-la em nós. Ou ele pode, dessa vez, não nos considerar dignos. E ir nascer entre gente melhor.

Marcio Tavares D’amaral 

Temer, refém de si mesmo

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Temer, ao que parece, não entendeu que a principal demanda da sociedade, mais que o próprio saneamento da economia, é a ética. Dispõe-se ao sacrifício, até porque é inevitável, mas não sob a batuta de quem lesou ou age em favor dos que lesaram o país
Ruy Fabiano 

Piano no café

"Stairway to the Stars", com Carmen Cavallaro

VERGONHA!

Saberemos terça-feira a extensão da vergonha oferecida pela Câmara dos Deputados ao país inteiro na forma do projeto de anistia aos crimes praticados por Suas Excelências acima e além da punição a quantos tiverem recebido o Caixa Dois nas últimas eleições. Traduzindo: o projeto do deputado Onyx Lorenzoni anistiava apenas os parlamentares que haviam sido agraciados com recursos distribuídos irregularmente pela Odebrecht. Já era uma vergonha, digna de cadeia, mas a situação ficou mil vezes pior quando os deputados acrescentarem o perdão para quantos cometeram peculato, corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro e similares.

Em suma, a Câmara livrava-se dos execráveis crimes que boa parte de suas bancadas vem praticando para se eleger. O resultado do projeto seria ninguém ser punido, da lista que a empreiteira divulgará nos próximos dias. Todos os crimes estariam alforriados, não apenas os de recebimento de Caixa Dois.

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Quinta-feira, quando a maioria dos deputados preparava-se para aprovar esse monstrengo, PSOL, REDE e PPS insurgiram-se. Ameaçaram recorrer ao Supremo Tribunal Federal, porque tamanha agressão à Constituição poderia levar todos à perda dos mandatos. Assim, preferiram deixar a decisão para terça-feira. O problema é que as bancadas dos demais partidos parecem dispostas a votar esse projeto que as envergonharão. Assim, anistiados, escapariam da punição capaz de reduzir pela metade o número de deputados. Mesmo levando ao fundo do poço a imagem dos representantes do povo.

Continuam na ordem do dia, porém, essas abomináveis iniciativas. Querem os deputados, em maioria, salvar o pescoço. Permanecer no exercício de seus mandatos, mesmo enlameando o pouco que lhes resta de dignidade.

Mas tem mais. Pretendem incluir no malfadado projeto a punição para juízes, promotores, polícia federal e receita federal, sob a alegação de abuso de autoridade.

Não há outra palavra e outro sentimento: VERGONHA!

A minoria no poder

 
Assim, sob qualquer ângulo que se esteja situado para considerar esta questão, chega-se ao mesmo resultado execrável: o governo da imensa maioria das massas populares se faz por uma minoria privilegiada
Mikhail Bakunin

As doações lícitas e as ilícitas

Não é segredo que doação de empresa para campanha política gera graves distúrbios no funcionamento das instituições democráticas. Era tão evidente esse caráter prejudicial do financiamento da política por pessoas jurídicas que o Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu, em setembro de 2015, sua inconstitucionalidade.

A decisão da Suprema Corte modificou o enquadramento jurídico do tema: depois de setembro de 2015, as empresas ficaram proibidas de fazer doações a partidos e a candidatos. Reconhecer essa mudança significa, ao mesmo tempo, afirmar que, antes da decisão do STF, por mais que as doações de empresas gerassem efeitos deletérios na vida pública nacional, elas eram permitidas pelo ordenamento jurídico. Ou seja, era lícito o financiamento da atividade político-partidária por meio das doações de pessoas jurídicas.

O reconhecimento dessa mudança no tratamento legal é de suma importância. Observa-se atualmente uma tentativa de criminalizar todas as doações eleitorais feitas por pessoas jurídicas sob o argumento de que elas causaram graves prejuízos para a vida institucional. Esse movimento é nítido em alguns círculos próximos à Operação Lava Jato.

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É incontestável que as doações de pessoas jurídicas têm efeitos nefastos sobre a vida pública. Tanto é assim que o STF, reconhecendo a incompatibilidade dessa prática com o sistema representativo previsto na Constituição, declarou sua inconstitucionalidade. No entanto, a descoberta desses efeitos deletérios não tem o condão de transformar a licitude de doações pretéritas. O que antes era lícito continua sendo lícito.

Ao mesmo tempo, o que antes era ilícito continua sendo ilícito. Por exemplo, antes de setembro de 2015, os partidos políticos já eram obrigados por lei a contabilizar as doações recebidas. Quem não contabilizasse o dinheiro recebido – a prática de caixa 2 – infringia a legislação eleitoral e submetia-se, assim, às penalidades próprias da Justiça eleitoral. Nesse sentido, é imoral e altamente prejudicial ao bom andamento das instituições democráticas a tentativa de anistiar a prática de caixa 2 em campanha eleitoral. Seria uma indulgência contraproducente com quem voluntariamente desrespeitou as regras do jogo democrático.

Quando políticos manobram para incluir, no pacote anticorrupção discutido no Congresso, uma anistia ao caixa 2 eleitoral, eles estão admitindo explicitamente a existência, no ordenamento jurídico, da tipificação desse crime. Se não houvesse tal tipificação, seria desnecessária qualquer discussão em torno da anistia. A aspiração pela anistia do caixa 2 eleitoral apenas explicita a consciência de sua ilicitude.

A lei vale para todos. Desse princípio decorre tanto a imoralidade da anistia como a imoralidade de tratar tudo como se fosse crime. Além de injusta – pois trataria igualmente situações desiguais perante a lei –, a criminalização indiscriminada de todas as doações eleitorais tem a grave consequência de dizimar a vida político-partidária do País.

Naturalmente, ninguém admite a pretensão de criminalizar todas as doações eleitorais. O discurso é mais sofisticado e parte do bem-intencionado pressuposto de que caberia a quem recebeu as doações verificar a licitude da origem dos recursos recebidos. Ora, tal responsabilidade simplesmente não existe.

Os partidos e candidatos políticos que receberam doações de empresas tinham o dever tão somente de registrá-las conforme os ditames da lei eleitoral. Eventual origem ilícita é responsabilidade de quem doou. Logicamente, outra coisa bem diferente é a pretensão do PT, por exemplo, de alegar que as doações recebidas eram lícitas simplesmente porque foram contabilizadas. Se foram fruto de extorsão ou propina – como apontam as denúncias –, é simplesmente impossível que tenham sido doações lícitas, já que nem eram doações.

Este não é um tema simples e merece um sereno discernimento. Afinal, dele dependem tanto a continuidade da vida democrática do País como o rompimento com a cultura da impunidade.

Temer despertou a oposição extraparlamentar

Na segunda-feira, o PSOL protocolará na Câmara um pedido de impechment contra Michel Temer. Em nota, o partido informou que “a peça terá como base as denúncias do ex-ministro Marcelo Calero, nas quais ele afirma que o presidente da República interveio em favor dos interesses do ministro Geddel Vieira Lima, para liberar uma obra em Salvador”. A iniciativa do PSOL é natimorta. A principal dificuldade do governo não está no Congresso. O que ameaça Temer é o mesmo fenômeno que fez dele presidente da República: a oposição extraparlamentar.

Destinatário do pedido do PSOL, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, avisa que não tem vocação para Eduardo Cunha. Mas ainda que Maia quisesse tocar fogo no circo dirigido por Temer, o impedimento do substituto constitucional de Dilma Rousseff seria sufocado pela maioria parlamentar que acaba de aprovar na Câmara a emenda constitucional do teto dos gastos. Dilma cutucava o Legislativo com o pé para ver se os congressistas mordiam. Temer se jacta de tocar um governo semiparlamentarista.

Em setembro de 2015, quando começou a se insinuar como candidato ao trono, o então “vice-presidente decorativo” Michel Temer declarou que ''ninguém vai resistir três anos e meio com esse índice baixo'' de 7% de aprovação. Antes, ele já havia afirmado que o Brasil precisava de alguém que tivesse “a capacidade de reunificar a todos''. Dilma, de fato, não sobreviveu à revolta provocada pela junção de duas crises: a ética e a econômica. Hoje, Temer é um presidente impopular. Mas dá de ombros: “Não estou preocupado com popularidade.”

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Temer resume assim o seu sonho de ex-presidente: “O povo olhar pra mim e dizer: ‘Esse sujeito aí colocou o Brasil nos trilhos. Não transformou na segunda economia do mundo, mas colocou nos trilhos’.” Para atingir o sonho, Temer oferece aos brasileiros um pesadelo. Decidido a restabelecer a racionalidade econômica, afirma que o Brasil não sairá da “recessão profunda” em que se afundou com a adoção de “medidas doces”.

O presidente tem razão. Mas a tese da socialização dos sacrifícios perde o nexo no instante em que as principais autoridades da República, entre elas o próprio Temer, transformam a vista milionária de um apartamento de luxo de um ministro palaciano em prioridade do governo. De resto, a aceitação de remédios amargos fica mais difícil quando a plateia percebe que o pedaço político do gabinete de Temer vai virando farelo na usina de processamento de desvios éticos da Lava Jato.

Temer compôs um ministério paradoxal. Na área econômica, técnicos respeitados. Na seara política, amigos e aliados contestados. O tapete da administração peemedebista revela-se tão grande quanto o da gestão petista. O problema com as coisas varridas para baixo do tapete é que os presidentes continuam governando em cima do tapete. E os acobertados cheiram mal e se mexem muito. Descobertos, desmoralizam a presunção dos governantes de que comandam uma nação de idiotas.

O brasileiro nunca se importou com a imbecilidade. Mas já não admite ser tratado como imbecil. Sob Dilma, reaprendeu o caminho da rua. Esbaldou-se. Sob Temer, as ruas voltaram para casa. Mas começam a entrar em ebulição. Agendam para o dia 4 de dezembro um ronco contra a corrupção. Hoje, qualquer cidadão com um computador pode fazer chegar a sua raiva aos destinatários. Um ministro de Temer contou ao blog que sente diariamente o hálito quente da internet.

Na trincheira virtual, relatou o ministro, o combate é implacável e desleal. Escondidos atrás de pseudônimos, os descontentes lançam mão de toda a retórica capaz de insultar o interlocutor. O ministro é frequentemente mandado para lugares desagradáveis. Mandam-no, por exemplo, à presença da pessoa que, tendo exercido a profissão de prostituta, lhe deu à luz.

A oposição extraparlamentar não é ideológica. Para esse opositor que grita rente ao meio-fio ou xinga atrás da tela do computador, o problema não é de esquerda ou de direita. O problema é a sensação de que, seja quem for o presidente, haverá sempre meia dúzia por cima, prescrevendo remédios amargos, e milhões por baixo, tendo que engolir o purgante na marra.

Ou Michel Temer enxerga esse novo ator da política ou sua impopularidade será tão intensa que logo começarão a surgir os traidores no Congresso. Se quiser, o presidente pode emitir um sinal de que acordou ao nomear o substituto de Geddel Vieira Lima. Basta que examine bem as circunstâncias, para não confundir um certo homem com um homem certo.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

O único final feliz

Um monte de gente nas redes sociais e até na imprensa profissional, sempre a reboque dos acontecimentos o que é parte constitutiva desta crise, comemora a prisão de dois ex-governadores do Rio de Janeiro em menos de 24 horas como um sinal de que, “agora sim, o país está mudando”. Pra mim pareceu o contrário. Porque agora? Porque só esses dois da longa fila dos acusados no STF que nunca andou? Porque de forma tão arbitrária e espetacular? Não seria, exatamente, porque os 4,2 milhões de brasileiros a quem a lei concede os privilégios que o resto do país inteiro somado não consegue mais pagar resistem furiosamente a entregar ao menos os anéis?

Culpas e culpados há de sobra por aí. O que não dá é pra desmisturar esse episódio da batalha da Assembléia Legislativa do Rio da qual o destino fez protagonista Luiz Fernando Pezão, a criatura de Sérgio Cabral, que inauguraria a fase “quente” da guerra entre o Brasil que mama e o Brasil que é mamado, nem da luta cada vez menos surda entre os poderes Judiciário e Legislativo para, no meio desse tiroteio, manter seus privilégios e prerrogativas “especiais”.

Foi a luta contra a corrupção que trouxe o processo à tona mas a crise do Estado brasileiro é muito maior que a parte dela que pode ser explicada pela roubalheira. Dotar a nação de leis à altura do desafio de controlar esse foco de infecção é uma etapa obrigatória mas o fato é que essa roubalheira toda, por gigantesca que tenha sido, como de fato foi, não quebra um país do tamanho do Brasil. O que nos está matando mesmo são os meios legal e constitucionalmente garantidos de que a casta que se apropriou do Estado se foi armando para colocar-se acima da lei e viver às custas do resto da nação.

Da longa rodada de abusos patrocinados pelo PT o pior foi multiplicar na União e fazer multiplicar nos estados e municípios o numero de funcionários e o valor dos seus salários. Os funcionários para efeito de custo, como se sabe, são eternos. Ao longo desses 10 anos de tiroteio cerrado desde o “mensalão”, essa conta exponencial vem sendo paga por uma economia privada cada vez mais imobilizada pelo caos político. Resultado: mais de 13 milhões de desempregados; 70 milhões de inadimplentes. É um verdadeiro genocídio. E a cada minuto mais se acelera o giro no círculo infernal do desemprego – queda de consumo, arrecadação, e investimento – mais desemprego. Não obstante os salários públicos, mesmo depois que começaram a deixar de ser pagos, continuam tendo aumentos!

Abortada a tentativa de acertar a conta pelo único meio que ela pode ser acertada – o desbaste dos supersalários, das superaposentadorias e da superlotação das folhas de pagamento por gente que entrou pela porta dos fundos – os governadores voltam-se para a única alternativa que resta que é transferir sua massa falida para a União, que tem a prerrogativa de reabrir a impressão de dinheiro falso para pagar despesas correntes como acontecia antes do Plano Real.

A tecnologia e a globalização, entretanto, arrancaram o sistema patrimonialista que se confunde com a nossa história do seu berço esplêndido. O Brasil Oficial não cabe mais no Brasil Real e os dois somados não cabem no mundo globalizado. E não existe a hipótese de sairmos dessa encalacrada sem atacar o problema onde ele de fato está. Não há mais de quem tirar nada senão de quem nada nunca foi tirado. Já está acontecendo, aliás, o que põe aliados novos e poderosos nessa luta: os verdadeiros servidores que já entenderam que só poderão voltar a receber o que merecem em paz se todos receberem apenas o que merecem.


A solução para essa parte do problema decorre automaticamente, aliás, da mera exposição dos números à opinião pública. Quanto maior a indecência do privilégio mais rápido a indignação geral o extingue. Não cabe ao Legislativo, porém, expor os supersalários do Judiciário e do Ministério Público nem vice-versa. Muito menos ao Poder Executivo de um governo interino num país que vem de 300 anos de vícios tolerados onde exigir ou não o cumprimento da lei pode ser mais uma questão de “vendetta” que de justiça. Isso atira o país numa guerra institucional que pode acabar de matá-lo.

Essa função é da imprensa. É exatamente para isso que ela serve e é definida como o “quarto poder” de qualquer republica que aspire à sobrevivência. E o fato disso não ter acontecido ainda mesmo depois que o vaso foi destampado pelo Senado é nada menos que escandaloso.

Já o tratamento do problema maior consiste em criminalizar o privilégio. É essa a receita universalmente consagrada que se materializa tecnicamente na imposição da igualdade perante a lei. Revisada por esse filtro, restaria da Constituição brasileira somente o que há nela de apropriado a uma Constituição que é aquilo que vale para todo mundo, e dos salários públicos apenas o que é justo pagar por eles, descontados o mesmo imposto de renda e a mesma contribuição à Previdência que eles cobram de nós outros.

A corrupção que todos dizem querer combater tem a força que tem porque o que se compra com ela é o poder de outorgar a exceção à lei; o poder divino de resgatar pobres almas do inferno da competição global para a estabilidade eterna no emprego e os aumentos de salário por decurso de prazo que os “concurseiros” buscam como ao Santo Graal. Nem um exército inteiro de juízes e promotores imbuídos da mais santa das iras conseguirá por a corrupção sob controle se continuar existindo a possibilidade de comprar e exercer com ela esse poder divino. Haverá sempre mais juízes e promotores do que eles que, em agradecimento às graças recebidas – que serão sempre as maiores de todas posto que é deles o poder de deixar ou não rolar a farra – cuidarão de dar vida longa ao dono de turno dessa cornucópia.

O único final feliz para a guerra entre o Judiciário e o Legislativo seria, portanto, que o último supersalário morresse sobre o cadáver do último foro especial, o que permitiria ao Brasil passar a tratar seus servidores com a mesma intransigência com que eles o tratam hoje.

Uma batata assa em Brasília

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Conheço muita gente que aprecia o fato de Dilma Rousseff ter sido despejada do Palácio do Planalto e torce para que Temer acerte a mão, mas não conheço ninguém que goste realmente de Michel Temer, ou que manifeste entusiasmo genuíno por tê-lo na presidência da República. Quem foi para as ruas pedir o afastamento de Dilma não foi pedir a posse de Temer. Ele foi aceito porque fazia parte do pacote: na falta de uma decisão do TSE que impugnasse a chapa inteira, saindo a presidente era natural que entrasse o vice, como o menor de dois males.

O único elogio que se ouvia a ele, durante o processo de impeachment, dizia respeito à sua suposta habilidade política, o talento que o teria alçado ao cargo. Não era muito, mas talvez fosse aquilo de que o país precisava: um homem modesto (com muitos motivos para sê-lo, como dizia Churchill a respeito de Clement Attlee), capaz de dialogar e de tomar as medidas necessárias para recolocar a economia nos trilhos.

A cada dia fica mais claro, porém, que a única habilidade política de Michel Temer é convencer os demais da sua habilidade política. Uma pessoa verdadeiramente dotada de habilidade política sabe de que lado os ventos sopram, mas Temer demonstrou completo desconhecimento disso ao tomar posse e nomear um ministério tão pouco diversificado. Uma pessoa verdadeiramente dotada de habilidade política sabe identificar os vespeiros nos quais não se deve mexer, mas Temer cutucou o maior deles, acabando com o Ministério da Cultura e pondo a classe artística em pé de guerra. Uma pessoa verdadeiramente dotada de habilidade política conhece, enfim, os limites do seu poder, e percebe a extensão da paciência dos cidadãos, mas Temer desconhece uns e ignora a outra.

Se tivesse a exata noção da sua impopularidade, e do quanto está abusando da tolerância dos brasileiros, Temer teria demitido Geddel Vieira Lima assim que as denúncias de Marcelo Calero vieram à tona. Em vez disso, promoveu a palhaçada que foi o apoio da base parlamentar ao seu ministro, ato equivalente a uma cusparada na cara da população. Quando aqueles 16 deputados atravessaram a Esplanada dos Ministérios em ato de desagravo a Geddel, declarando o seu apoio “amplo e irrestrito” à atitude imoral de um homem suspeito, o seu governo cruzou a linha da decência, e fez uma declaração pública de falta de princípios. Que se danem a ética e a coisa pública, desde que os negócios dos companheiros fiquem garantidos: em Brasília, todos se entendem.

Rodrigo Maia disse que Geddel é fundamental à articulação política, e que afinal o parecer do Iphan não foi revisto, portanto nada de grave aconteceu; parece que, para ele, tráfico de influência só é crime quando o traficante logra o seu intento. Renan Calheiros dá o fato por superado, uma bobagem de nada. Ao contrário do que eles acham, no entanto, e ao contrário do que afirma André Moura, o líder do governo na Câmara, o caso Geddel não é uma coisa “pequena” e “pontual”. É um escândalo, e é o retrato de tudo o que não suportamos mais ver na política: a corrupção, o compadrio, o uso da máquina do poder em proveito próprio e em detrimento da sociedade como um todo.

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A violência de uma cidade não se expressa apenas no número de assassinatos ou de assaltos que acontecem nas ruas. Ela se expressa também em outras formas de agressão cotidiana aos cidadãos, do trânsito e da poluição a uma arquitetura que evidencia que as leis ou não funcionam, ou não são iguais para todos.

Não há uma só cidade que eu conheça no Brasil em que não haja exemplos concretos desse desvirtuamento da lei, a começar aqui pelo Rio, a começar até aqui pela minha rua, onde entre prédios de 12 ou 13 andares erguem-se dois espigões com o dobro do tamanho dos outros. Basta olhar para eles para ver que funcionários públicos foram corrompidos, licenças foram negociadas por baixo dos panos e a prefeitura fez que não viu. Eles são monumentos à canalhice de um sistema apodrecido, sem ferramentas efetivas de fiscalização.

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Uma empresa que começa uma construção das proporções do famigerado La Vue numa área histórica sem antes ter autorização do Iphan tem certeza absoluta de que vai obter essa autorização — especialmente quando o Instituto dos Arquitetos, a associação de moradores local e o Escritório Técnico de Licenças e Fiscalização estão contra a obra.

O edifício que o ministro Geddel quer ver concluído, e onde comprou apartamento, é uma aberração arquitetônica, um estrago monumental numa paisagem já muito castigada. Qualquer busca no Google por La Vue + Salvador revela as dimensões do desaforo, que ainda por cima tem esse nome cafona dado para impressionar gente colonizada.

Não é apenas o ministro que deve ser investigado no caso. A construtora Cosbat, responsável pela obra, o Iphan da Bahia e a prefeitura de Salvador, que a autorizaram e que são, consequentemente, cúmplices dessa violação, também deveriam responder pelas suas ações.

Mas, né? Prefeitura investigada por causa de prédio irregular? Por causa de licenças suspeitas? Por causa de atentado paisagístico?

Vai sonhando, Cora Rónai, vai sonhando.

Cora Rónai
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E agora, pai?

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Nelson Motta lendo para a filha Graça
Muitas vezes, quando não sei o que fazer diante de uma situação, penso no que meu pai faria. E faço.

Quando eu estava furioso e indignado com injustiças e torpezas, querendo quebrar tudo, ele aconselhava serenidade e tolerância, não como submissão e resignação, mas como prova de superioridade moral e força dos meus argumentos.

Como grande advogado e conhecedor do sistema judicial brasileiro, com todas as suas mazelas e atrasos, sempre me dizia que brigar era o pior negócio, pela perda de tempo e dinheiro, e buscava acordos que contentassem as partes.

Desde pequeno, ele me buzinava que se leva uma vida para construir um conceito — e que basta um erro para perdê-lo. Recuperar um bom conceito custa muito mais tempo e sacrifícios do que construí-lo.

Ele e eu não somos santos, temos muitas falhas e fraquezas, mas entre elas não estão a covardia e a prepotência: “Você tem que ser humilde com os humildes e altivo com os poderosos.”

Tratava empregados melhor do que patrões, sempre nos dizia que qualquer pessoa que trabalhava para ganhar a vida era superior a nós, que só estudávamos e vivíamos às suas custas.

Quando crianças, eu e minha irmã às vezes disputávamos o último guaraná, ou o último pedaço de bolo, e ele lançava a sentença fatídica: “Um divide, e o outro escolhe”. Eram horas contando gotas e grãos para não dar vantagem ao que escolhia, fazendo justiça sem querer.

Ultimamente, tenho solicitado bastante o que seriam as suas possíveis opiniões diante da loucura que se tornou o Brasil, para não sair xingando e distribuindo inúteis coices e cusparadas verbais.

“Calma, meu filho, assim você não vai conseguir nada. Os que te inspiram ódio vão seguir em frente, eles não ligam de serem odiados, e você fica com o ódio lhe envenenando a alma e confundindo seu pensamento.”

A última vez que estive com ele, já com 92 anos e muito debilitado, “de saco cheio de viver”, perguntei-lhe como estava, e ele respondeu: “E você, como está?”.

“Eu estou bem, é você que interessa”.

“Ah, meu filho, ficar velho é uma merda.”

“Mas, pai, não ficar é pior ainda.”

E rimos juntos pela última vez.

Nelson Motta

O que resta de vergonha na Câmara está perto de zero


Ao insistir no sepultamento das bandalheiras vinculadas ao caixa 2 e na invenção de medidas destinadas a intimidar o Judiciário e o Ministério Público, a portentosa bancada dos fregueses da Odebrecht em ação no Congresso confirma que a delação premiada da empreiteira elevou espetacularmente a taxa de cinismo e reduziu a quase zero o pouco que resta de vergonha.

Depois do que houve na madrugada desta quinta-feira, só falta institucionalizar a impunidade perpétua dos parlamentares com um projeto de lei composto de dois artigos:
Art. 1° Nenhum deputado ou senador poderá ser responsabilizado por atos antiéticos, imorais ou criminosos praticados entre o dia do nascimento e a data da morte.
Art. 2° Revogam-se as disposições em contrário.

O Rio de Janeiro continua sendo ... e o Brasil também!

O ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral começou na política como deputado estadual, implacável perseguidor de corruptos e corruptores. Perseguido pelos desiludidos de 2013, que invadiram a calçada de seu refúgio no Leblon, renunciou em 2014, não se candidatou a nenhum mandato público e terminou perdendo sua prerrogativa de foro. Alcançado pelos afiadas garras da Lava Jato, foi preso sob a acusação de ter surrupiado dos cofres públicos R$ 224 milhões. Uma fortuna, hein?

Os investigadores da Operação Calicute, cidade da Índia onde outro Cabral, Pedro Álvares, descobridor do Brasil, conheceu a derrota e teve iniciada a decadência, acreditam que ele operou um “banco paralelo” à sombra de uma empresa transportadora de valores para receber, guardar e distribuir dinheiro vivo para a mulher, Adriana Ancelmo, e a mãe, Magali. E mais uma penca de gatunos amestrados, todos mimoseados com joias, cargos públicos e porcentagens em obras contratadas pelo Estado e outras benesses. Descoberto, localizado e preso, foi fichado e trancafiado numa cela em Bangu. Ainda assim, goza de privilégio inestimável: seus cinco companheiros de cela não são bandidos comuns, que poderiam machucá-lo, mas cúmplices de suas aventuras folgazãs e de suas atuais desventuras.

A forma como lavou dinheiro sujo se assemelha ao dito Departamento de Operações Estruturadas de sua parceira Odebrecht, um sofisticado data center na Suíça. E também reproduz a tecnologia de entesouramento e investimento de uma prática ancestral no Estado que governou. Os bicheiros de antigamente, praticantes do “vale o escrito”, também driblavam os controles fiscais, abrigados sob a definição penal da contravenção, ou seja, quase crime. E frequentavam a fina flor da high society carioca nos melhores salões e, sobretudo, no Sambódromo, dirigindo escolas de samba, coloridas e cultuadas lavanderias de valores. Agora como dantes no quartel de Abrantes, apontadores da loteria popular de Saenz Peña, nome de praça na cidade ex-Maravilhosa, continuam entregando o “prêmio do delegado” e convivendo com crocodilos em piscinas. O furto político era até pouco menos arriscado, mas deixou de ser.

Família Brasil, Luis Fernando Verissimo
Anthony Garotinho, ex-governador lançado na política pelo socialista moreno Leonel Brizola e guia de Cabral em sua ascensão aos cargos de mando no Estado mais charmoso do País, foi pilhado em delito mais antigo do que os pontos de bicho e as bocas de fumo de antanho. Comprar votos foi a forma que a elite dirigente nacional encontrou para compensar a extinção da eleição de bico de pena da Primeira República dos coronéis da guarda nacional. Ao soba de Campos dos Goytacazes repugna a mania de ostentação de seu antigo discípulo. Distribuindo “chequinhos” a necessitados, garantiu a permanência do clã na prefeitura municipal local, a eleição de 11 vereadores e o ingresso de Clarissa, amada filhota dele e da prefeita Rosinha, na Câmara dos Deputados. Obediente ao conselho paterno de ajudar a ex-presidente Dilma Rousseff a ficar no cargo máximo, ela alegou resguardo de maternidade recente para não votar pela abertura do processo de impeachment da madama pela Câmara e seu envio ao Senado. A filha obediente pagou pelo desrespeito ao fechamento de questão do PR, legenda pela qual se elegeu, não sendo expulsa pela ausência, que valeu como voto contra o impeachment da deposta, vulgo Janete, mas, sim, porque ela voltou a contrariar o PR de Waldemar Costa Neto votando contra a PEC do teto dos gastos públicos. A vida, decerto, não lhe ensinou que só se pode gastar o que se ganha.

Como na República de Pilatos dos velhos tempos, “uma mão lava a outra” e a mesma água de enxaguar propinas evitou a sofrência de “meu pai não é bandido”, por ela berrado à porta do Hospital Souza Aguiar, no complexo presidiário povoado por feras enlouquecidas de vingança. Afinal, quando Rosinha foi governadora, ele não chegou a ser secretário de Segurança Pública? Como aquele agente funerário que foi chamado para maquiar o filho de dom Corleone no Poderoso Chefão, haveria alguém a quem pedir socorro. Ocorreu-lhe, então, instruir seus advogados a procurarem a mais jovem ministra do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), com a qual já mantivera contato, Luciana Lóssio. Nomeada pela presidenta afinal deposta, ela poderia evitar humilhação similar à do ex-afilhado e ora desafeto Cabral. As fotos tiradas à entrada deste no presídio para a ficha criminal foram exibidas nos meios de comunicação com estardalhaço idêntico ao dispensado àqueles flagrantes da festa dos guardanapos na cabeça em restaurante de alto luxo em Paris, que Garotinho divulgou em seu blog.

A pressurosa ministra não permitiu que o pai da compreensiva parlamentar passasse sequer uma noite na companhia cruel de antigos desafetos, mais perigosos do que os cinco grã-finos e o colega ex-governador. Dra. Lóssio fora antes advogada de Roseana Sarney, quando esta, derrotada nas urnas pelo adversário Jackson Lago, retomou o posto de governadora do Maranhão, direito do clã inaugurado pelo pai ainda no tempo em que a lei eleitoral dava ao vencido na eleição o cargo que o adversário o houvesse derrotado de maneira ilícita.

Militante petista investida em mandato inviolável, a caridosa magistrada pouco se importou com a divulgação das instruções do réu em questão a seus causídicos, como divulgada fora simultaneamente a investigação aberta pelo Ministério Público Eleitoral sobre denúncia de tentativa de suborno do juiz pelo acusado. O cargo da jovem senhora é vitalício e conta com a proteção automática dos pares. O nobre colegiado apressou-se a soltar uma nota garantindo que todos os seus ministros têm “idoneidade moral” e que as decisões refletem “profundo embasamento teórico”, antes mesmo que qualquer desavisado duvidasse publicamente desses atributos.

Antes de ser solto pela decisão da misericordiosa ministra amiga, o ex-governador protagonizou esperneio registrado por câmeras, ao som da gritaria histérica da mulher e da filha captada por microfones dos meios de comunicação. Piedosos garantistas de quatro costados reclamaram da humilhação imposta ao insigne acusado. Esqueceram-se de que o episódio motivou decisão histórica da jurisconsulta Lóssio. Graças a sua canetada, a piada do “jus sperniandi” (em latim vulgar, direito de espernear) tornou-se jurisprudência na Justiça Eleitoral tupiniquim.

A cena inusitada, a decisão piedosa e o flagrante pornográfico do investimento imobiliário do secretário de governo de Temer (ex-vice da presidenta deposta), ferindo o decoro da paisagem de Salvador, sob a omissão licenciosa do temeroso chefão, ampliam o alcance de constatação de Gilberto Gil. Este outro baiano cantou: “O Rio de Janeiro continua sendo”.

Pelo visto, o Brasil também reproduz a constatação final de George Orwell em A Revolução dos Bichos: “Todos são iguais perante a lei, mas alguns são mais iguais do que os outros”. Quem quer um exemplo? A Comissão de Ética Pública da Presidência começou a votar a decisão se abrirá, ou não, inquérito contra Geddel Vieira Lima, o excelentíssimo padroeiro do espigão: cinco dos sete votos foram a favor e o sexto, José Saraiva, pediu vista para impedir o vexame. Ganhará um docinho de caju de dona Carminha Dantas quem adivinhar quem o indicou para a oportuna sinecura. Pois foi mesmo o fiel escudeiro de Temer – aquele apelidado por Itamar Franco de Percevejo de Gabinete. No fim da tarde da segunda-feira 21 de novembro, pressionado pelos fatos, o próprio Geddel pediu para Saraiva votar pela abertura do inquérito contra ele, o que foi feito por unanimidade. E, assim, confirmou que no governo Temer ele manda parar e seguir. Isso faz com que, como o Rio, o Brasil continue sendo. Sempre e mais o mesmo.

Deus nos acolha e guarde, irmãos sem opa, abandonados neste bordel em cuja parede um quadro de Cristo a tudo assiste e nada fala nem faz para impor a ordem.

José Nêumanne Pinto

Um musical em meio ao lodaçal

Quarta-feira negra

Na semana da “Black Friday”, o Congresso resolveu liquidar parte de seus problemas. A Comissão de Fiscalização da Câmara rejeitou por 17 a 3 um pedido de explicações ao ministro Geddel Vieira Lima, acusado de usar o cargo em proveito próprio. A manobra foi conduzida pelo líder de Temer, e suscitou debate familiar entre deputados: “é tua mãe”, “a prostituta da tua mulher”, “vagabundo”. Pelo que passa em outros plenários, uma pechincha.

Para a base, cada vez mais aliada de si própria, a repetida insistência de Geddel com o ex-ministro da Cultura para que o Patrimônio Histórico (Iphan), a ele subordinado, liberasse a construção de um prédio de 30 andares em área preservada de Salvador não precisa de explicação. Não importa que Geddel tenha comprado apartamento no prédio, nem que seus parentes advoguem em favor da construção junto ao Iphan. Está tudo em casa.

A base de Temer também conseguiu derrubar pedidos de convocação de Geddel em outras comissões. Ao mesmo tempo, o próprio presidente dizia, ao empossar o novo ministro da Cultura, que “com (Roberto) Freire, vamos salvar o Brasil”. Não explicou de quem nem de quê.

Enquanto isso, na Comissão de Ética da Presidência da República, o único conselheiro indicado pelo governo Temer se declarou impedido de opinar sobre o escândalo Geddel. Explicou que decidiu se afastar depois da repercussão de seu pedido de vista sobre o processo do ministro. O conselheiro de ética é advogado da associação das construtoras na Bahia. Obras do acaso.

No dia em que o Supremo autorizou inquérito contra Romero Jucá para apurar se houve crime de corrupção passiva e prevaricação ao defender interesses de empresas que devem tributos, o líder do governo Temer no Senado avisou que a nova anistia para outros sonegadores, aqueles que mantêm dinheiro não declarado no exterior, está pronta para ser votada. Agora, também parentes de políticos poderão repatriar dólares. Chega de discriminação.

O projeto está sendo tocado a jato porque é um “ganha-ganha”: ganham quem tem francos suíços, o Tesouro, governadores e os parentes de políticos que se esqueceram de declarar dólares. Além de ajudar a parentela, espera o governo que a nova lei gere uma receita extraordinária de R$ 30 bilhões em 2017 – que serviria não só para abater o déficit federal, mas também para refrescar a situação desesperadora dos cofres estaduais.

E quem perde? Não seja um estraga-prazeres.

Em outra comissão, deputados pegaram carona no projeto do Ministério Público com medidas para supostamente combater a corrupção e entreabriram uma porta para anistiar crimes de caixa 2 eleitoral e, com sorte, lavagem de dinheiro. Todos os envolvidos dizem que não é bem assim, que o substitutivo ao projeto original não cria brechas. Claro.

Todo esse alvoroço brasiliense, a pressa para aprovar ou reprovar tantas propostas num mesmo dia transformou o Congresso em um mercado de trocas e barganhas maior que o de costume. Em Brasília, a “Sexta-feira negra” caiu na quarta.

Há uma explicação para tanta urgência. A delação de dezenas de executivos da Odebrecht, que até outro dia era a maior empreiteira brasileira, está sendo homologada. É o horror.

Se eles contarem tudo o que sabem, se os procuradores fizeram todas as perguntas que precisam ser feitas, se os magistrados ouvirem a história odebrechtiana sem omissões, fará pouca diferença se houve ou não advocacia administrativa no caso Geddel/Iphan, se o inquérito sobre Jucá no Carf vai andar, e mesmo se deputados conseguirão anistiar o caixa 2.

As delações da Odebrecht têm potencial para zerar o jogo brasiliense, com repercussões em governos estaduais e prefeituras de todo o Brasil. São potencialmente tão devastadoras que, suspeita-se, nem Jesus salva.

Aposentadoria ameaçada

A “verdadeira bomba-relógio financeira” que a auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) encontrou nos regimes de previdência de dezenas de Estados e municípios, como a descreveu o ministro do TCU Vital do Rego, tem alcance muito amplo. Situação análoga à desses regimes foi detectada por auditoria anterior do próprio TCU nas demonstrações financeiras e atuariais de 2.089 fundos de previdência mantidos por governos estaduais e prefeituras, cobrindo 7,6 milhões de segurados (sendo 5,1 milhões de servidores ativos, 1,9 milhão de aposentados e 623 mil pensionistas).

O desequilíbrio dos Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS) – como são chamados os fundos previdenciários dos servidores públicos – de 23 Estados, do Distrito Federal e de 31 municípios pode corroer profundamente as finanças de seus patrocinadores. Se isso ocorrer, haverá graves impactos sobre um quadro fiscal destroçado pelas aventuras dos governos lulopetistas e pela recessão delas decorrente.

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É urgente, por isso, a revisão das regras e das práticas administrativas e financeiras desses fundos, para evitar o agravamento, e até a perpetuação, da crise fiscal que o governo federal vem procurando conter. A persistência do desequilíbrio das contas públicas pode condenar o País à estagnação ou decadência econômica, com dramáticas consequências sociais.

A auditoria do TCU em 55 fundos estaduais e municipais – referendada pelo ministro Vital do Rego, que a relatou, e aprovada pelo plenário da Corte de Contas – mostra que os regimes previdenciários próprios consumiram, no ano passado, 20% da receita líquida dos Estados que os patrocinam. Mantidas as condições atuais, esses gastos alcançarão 28% da receita corrente líquida em 2030, com aumento real de 40% no período.

Segundo o TCU, para que esse aumento não faça crescer o déficit, a receita líquida dos Estados precisaria crescer 8% por ano em valores reais, o que não deverá ocorrer. O déficit já acumulado pelos fundos estaduais equivale a 50% do PIB desses Estados e, pelos fundos municipais, a 10% do que produzem os municípios em que eles operam.

O problema dos Regimes Próprios de Previdência Social de Estados e municípios não se limita a seu notório desequilíbrio financeiro. Regras próprias e sistemas próprios de aferição criados por seus patrocinadores encobrem dificuldades e problemas reais. Como exemplo, Vital do Rego lembrou que a auditoria detectou que o fundo de um Estado registrou superávit atuarial de R$ 1,8 bilhão no fim de 2015. Esse resultado decorreu da aplicação da taxa de juro real de 5,5% sobre as aplicações entre 2009 e 2014 e propiciou a transferência de R$ 1,2 bilhão para o fundo financeiro do instituto estadual de previdência. Na realidade, porém, a remuneração real no período foi de 3,9% ao ano, o que levaria à existência de um déficit de R$ 2,4 bilhões.

Aprovada em maio, outra auditoria do TCU, esta nas contas relativas a 2014 de mais de 2 mil entidades de previdência do setor público, constatou graves riscos para a sustentabilidade desses fundos, bem como a todo o sistema legal em que eles estão amparados. Em 454 planos de previdência do setor público, o déficit já alcançava R$ 48,7 bilhões.

Em três quartos dos fundos, a idade média dos contribuintes era superior a 40 anos. Em pouco tempo, esses contribuintes se tornarão – parte já se tornou – beneficiários, pois, em média, aposentam-se cedo no setor público (em 838 planos, a idade média dos beneficiários era inferior a 60 anos). Não são planos sustentáveis ao longo do tempo.

Nas negociações com o governo federal para obter alguma ajuda financeira que lhes permita enfrentar seus sérios problemas fiscais, os governadores concordaram em elevar de 11% para 14% a contribuição previdenciária dos servidores ativos. É uma medida de difícil concretização do ponto de vista político, mas, mesmo que adotada, apenas aliviará o problema. As regras dos regimes de previdência do setor público precisam ser revistas para assegurar seu equilíbrio atuarial.

A hora dos vazamentos

A lista do fim do mundo não se limita apenas aos 78 executivos da Odbrecht que traficaram propinas com deputados, senadores e ministros de recentes governos do PT e demais partidos. Os sacripantas da empreiteira responderão pela corrupção que promoveram, ainda que venham a ser beneficiados pelas delações em vias de concretizar-se. Punições bem mais consistentes serão exigidas para os políticos envolvidos na trama, ou seja, para quantos receberam dinheiro sujo da Odbrecht para facilitar as atividades da empresa.

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Traduzindo: cada executivo apresentará não apenas um criminoso, mas muitos. Dai a previsão de que perto de 200 políticos serão chamados a defender-se por haver-se enrolado no recebimento de propinas.

Tanto os que detém mandatos eletivos quanto os já postos fora da atividade parlamentar receberão sentenças pelo mau comportamento. Precisarão responder e devolver o que receberam. Os que vierem a ser julgados no Supremo Tribunal Federal por prerrogativa de função e os que foram lançados na vala comum conduzida pelo juiz Sérgio Moro.

A dúvida é calcular o tempo, pois meses passarão até que cada um desses prováveis 200 processos cheguem à sua conclusão. Alguns conseguirão provar inocência, mas a maioria, não. Como tanta gente parece envolvida, tem-se a impressão de vazamentos ganharem rapidamente os meios de comunicação. Bem feito para todos…

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   O poeta Dylan Thomas descreveu Mousehole como o povoado mais bonito da Inglaterra

Finlândia testa a renda mínima social

Enquanto o governo do Brasil se dedica a suprimir direitos sociais a golpes de caneta e cassetete, eis a questão que superaquece os neurônios finlandeses neste cruel inverno nórdico: se o governo der aos cidadãos dinheiro suficiente para pagar as contas do mês, será que eles ficarão em casa jogando a viciante invenção nacional, o Angry Birds? Ou continuarão acordando para trabalhar e fazer coisas produtivas?

O enigma paira sobre o mais novo experimento social projetado pela Finlândia – a introdução de uma renda mínima universal para todos os habitantes do país. Dinheiro livre, sem nada em troca. Não importa se o cidadão é um miserável ou um bilionário. O simples fato de viver na Finlândia daria a ele esse direito.

Louco ou visionário, o plano do governo é pavimentar o caminho para o que os finlandeses definem como o novo modelo de Previdência Social dos anos 2020.

O modelo será testado a partir de janeiro de 2017, com um grupo inicial de dois mil finlandeses. Cada um vai receber do Estado uma renda mínima de 560 euros mensais (o equivalente a cerca de dois mil reais) – isenta de impostos. A ideia é conduzir o teste-piloto durante 2017 e 2018, e produzir uma avaliação dos resultados em 2019.

A proposta da renda mínima universal é substituir todos os auxílios sociais oferecidos atualmente pelo Estado por um único benefício, a ser distribuído igualmente para todos.

Em outras palavras, não haveria mais auxílio-moradia, seguro-desemprego, auxílios para deficientes e nem verbas para estudantes. Estes e outros benefícios atuais seriam em tese desnecessários, pois cada cidadão receberia do Estado, automaticamente, o mínimo suficiente para viver.

Parece paradoxal, mas dar a cada cidadão uma renda mínima pode sair mais barato para o governo do que o sistema atual. Hoje, milhares de funcionários públicos são necessários para administrar uma complexa rede de programas sociais oferecidos pelo Estado de Bem-Estar social finlandês. Já o modelo da renda mínima poderia ser gerenciado por um número bem menor de servidores – já que o sistema enterraria a burocracia exigida para determinar se um indivíduo tem de fato o direito de receber este ou aquele benefício social.

Também soa paradoxal, mas a meta do experimento finlandês também é exatamente promover o trabalho: hoje, conseguir um trabalho temporário, por exemplo, pode significar o corte de diferentes benefícios sociais.

O modelo experimental deste bolsa-família turbinado está sendo articulado pelos estrategistas do Kela, o Instituto Nacional de Seguridade Social da Finlândia, em mutirão com pesquisadores de diferentes organizações do país. Feito o experimento, será possível avaliar se um modelo de Previdência Social sem regras pode resultar em uma sociedade mais feliz, e mais produtiva.

O plano finlandês é pioneiro: um sistema puro de renda mínima universal não existe em nenhum lugar do mundo. Mas a crise financeira internacional, e o consequente aumento da desigualdade social, fazem crescer na Europa os movimentos que defendem a ideia de uma renda mínima universal.

Economistas como Thomas Piketty apontam que a concentração da riqueza aumenta em todos os países desenvolvidos, e muitos alertam que talvez todos tenham que aprender a viver com um significativo e permanente índice de desemprego. Uma grande onda de automação industrial, conforme já previu estudo da Universidade de Oxford, tem o potencial de eliminar até 47% dos postos de trabalho em um futuro não muito distante.

O raciocínio é que, em um mundo no qual apenas uma parcela da população terá empregos tradicionais, será preciso criar um novo sistema de bem-estar social a partir de uma distribuição mais justa da riqueza.

Vários países europeus já consideram a ideia de uma renda mínima universal – na Suíça, a proposta foi rejeitada este ano pela população através de um referendo popular, que é como os suíços gostam de tomar as suas decisões.

Já a Holanda também planeja para o próximo ano um teste-piloto sobre uma renda mínima para todos.

Mas qual seria o valor ideal de uma renda mínima universal? Há controvérsias.

Teoricamente, a renda mínima deve ser suficiente para um cidadão viver de forma frugal. Antes que se possa abrir um debate improvável sobre a questão no distópico Brasil atual, portanto, seria necessário explicar a políticos e juízes brasileiros o que é viver de forma frugal.

O desafio é encontrar o ponto de equilíbrio: um valor baixo demais não resolveria o problema, e um valor muito alto poderia ser um desestímulo ao trabalho.

“A meta do experimento da renda básica universal é ajustar a Previdência Social finlandesa às mudanças na natureza do trabalho, tornar o sistema mais participatório, fortalecer os incentivos ao trabalho, reduzir a burocracia e simplificar o sistema de benefícios sociais de forma a garantir a sustentabilidade das finanças públicas”, diz a literatura oficial sobre o experimento finlandês.

Engana-se, aparentemente, quem acha que uma renda mínima concedida pelo Estado levaria os cidadãos instantaneamente para debaixo do coqueiro mais próximo: diferentes estudos já conduzidos sobre o tema apontam que apenas uma minoria ficaria em casa, vivendo com o mínimo necessário para sua subsistência.

O fato é que, garantida a estabilidade financeira básica, o indivíduo estaria teoricamente livre para fazer o que desejasse – arriscar-se a abrir o negócio com que sempre sonhou, procurar um trabalho mais satisfatório, reduzir a carga de trabalho em troca de maior qualidade de vida, ou caçar ratos no Congresso.

Se não existisse povo...

Os deputados parecem convencidos de que eles não são o problema do país. O país é que se tornou o problema que atrapalha os negócios deles
Josias de Souza
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Valentões e corrupções

Em Brasilia, a Câmara dos Deputados foi invadida por jovens que protestavam contra a corrupção. E pediam a volta dos militares. Já, nas ruas do Rio, outros jovens agrediam, fisicamente, jornalistas que estavam exercendo suas profissões. Inclusive ferindo o repórter Caco Bercellos, da Globo. Para a deputada Jandira Feghali (dilmista do PC do B), os de Brasilia seriam “intolerantes e fascistas”. Só esqueceu de dizer o mesmo daqueles do Rio. Sua terra, gente sua. Estes, para ela, estariam só praticando um protesto legítimo. Que nada, minha senhora. São é dois grupos muitos parecidos. Um à direita, outro à esquerda. Filhos, ambos, da mesma intolerância. Do mesmo passado. Do mesmo autoritarismo travestido em democracia.

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A graça no caso de Brasilia, se isso for graça, é que a crença daqueles valentões se funda numa lenda falsa. De que o Golpe Militar de 1964 era imune à corrupção. Os fatos provam o contrário. Já em 1968, ainda tenra nossa tão feia ditadura, tivemos uma Comissão Geral de Investigações – CGI (Decreto–Lei 359) criada, precisamente, para promover o confisco dos bens adquiridos, de maneira ilícita, no exercício de função pública. Foram tantos casos, envolvendo militares e gente ligada a eles, que era mesmo necessário fazer algo.

Esta CGI tinha poderes (art. 38) para apurar quaisquer atos de corrupção. Sem que se conheça, hoje, as investigações realizadas. Por terem sido incineradas (é o que se diz). Pena. Mas foram muitas. Até porque, caso diferente fosse, e nem razão haveria para criar uma CGI assim. Aqui mesmo, no Recife, acabou famoso um general, diretor de banco do governo, que enriqueceu apostando com um empresário que seus empréstimos seriam liberados. A juros simbólicos. Eram sempre. E ligeiro. Caixinha, obrigado.

A evidencia de corrupção ampla, nesse período, não para por aí. No início de 1969, começava a nascer a Operação Bandeirantes – OBAN. Pensada para ser o braço clandestino dos órgãos de segurança. E responsável por boa parte das torturas e desaparecimentos forçados que se deram, na época. O ato (informal) que celebrou sua criação deu-se em 01/7/69. Contando, inclusive, com a presença de figuras importantes das elites políticas e empresários de São Paulo.

Tanto foi o sucesso (na versão das forças de repressão) desse empreendimento que, em fevereiro de 1970, o major Waldyr Coelho (chefe de Coordenação de Execução da Central de Operações da OBAN) sugeriu, ao Comando do II Exército, a criação de uma OBAN específica contra a corrupção (documento ACE 16.645–70, Arquivo Nacional). Sem sucesso. Tudo como circunstanciamos no Relatório Final que fizemos, na Comissão Nacional da Verdade.

Naquele tempo, a ideia de combater a corrupção se limitava a punir só os que recebiam grana. Sem atingir empreiteiros ou militares que lhes davam cobertura. Talvez porque fossem, todos, velhos companheiros da Ditadura. Hoje é diferente. Nossas prisões, já era hora, passaram a ser frequentadas, também, por donos de construtoras e agentes políticos – que substituíram, na periferia do poder, aqueles militares. Inclusive ministros e governadores. Por enquanto.

Corrupção havia, sim. Muita. Praticada, indistintamente, por civis e militares. No fundo, e infelizmente, por ser um desvio da própria natureza humana. Só que, nos negros anos, não se sabia dos submundos do poder. Porque havia censura. Completa (quase). Enquanto, hoje , temos imprensa livre. Essa é a maior diferença. E ainda bem.

Senhores do mundo

No tempo em que éramos senhores do mundo, ouvíamos The Plattters, bebíamos cuba-libre e as moças se chamavam Maria. Havia Marias de toda parte, assim como havia Maria antes e depois de todos os nomes. Umas eram inexpugnáveis como as Marias dos Anjos, cujo nome recendia a vela acesa e eram sempre piedosas em seus vestidos imaculadamente brancos. Outras, como as Marias do Socorro, acenavam com atenções imprecisas e inquietantes.

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Passaram-se os anos e Maria virou nome de senhora. As mocinhas, como pude ver numa última formatura a que compareci, não se chamam mais Maria e o mundo perde com isso: têm nome que não há como saber de cor, estudam análise de sistema, cálculo infinitesimal, engenharia florestal e nunca, nunca, foram normalistas. Jamais vestiram uma camisa de listas, com tope azul e vermelho; não costuram, não bordam, não cozinham. Não lêem Machado de Assis, e não sabem o que perdem.

Era um tempo em que os namorados andavam de mãos entrelaçadas e os casais – apenas eles – de braços dados. E assim iam todos, aos clubes e cinemas, cada qual ostentando sua condição pela forma como conduziam as Marias. Hoje elas andam de todo modo (e de maus modos); e não sabem o que perdem.

Ah, como eram brancas as Marias daquele tempo! Cultivadas à sombra, expendiam as manhãs de sol nas varandas, ciosas de suas peles leitosas. Agora, ainda não terminaram as geadas e as moças já surgem queimadas, quase grelhadas. Se desvestem por gosto e têm jeito de tira-gosto.

Não há McDonald’s no mundo inteiro que faça um sanduíche como o sanduíche de pernil do Matheus (cuja fartura era um subsídio generoso do estabelecimento às pacíficas madrugadas da Capital), porto seguro dos senhores do mundo, extenuados por suas Marias, após as reuniões dançantes da Faculdade de Arquitetura e os inesquecíveis bailes da Reitoria. A vida – puxa vida! – jamais foi a mesma sem os bailes da Reitoria, de bons hábitos e maus costumes: a virtude dançava na periferia da pista, enquanto a volúpia se comprimia em sincrônicos movimentos no centro do salão.

Não, leitor amigo, isto não é nostalgia. É saudade mesmo: saudade orgulhosa de ter sido senhor do mundo, em tempos que não voltam mais. Quem os perdeu, perdeu.

Percival Puggina