terça-feira, 15 de novembro de 2016

Ante a onda de populismo nacionalista

Aqui está o novo desafio: enfrentamos a globalização da antiglobalização, a frente popular dos populistas, a internacional dos nacionalistas. “Hoje, os Estados Unidos; amanhã, a França”, tuíta Jean-Marie Le Pen. Uma luta longa e difícil nos espera, em casa e no estrangeiro, e talvez tenhamos que passar o título de “líder do mundo livre” dos Estados Unidos para a Alemanha. Mas os derrotaremos.

A Rússia de Vladimir Putin se parece muito com o fascismo. A Turquia de Recep Tayyip Erdogan está passando rapidamente da democracia autoritária ao fascismo, e a Hungria de Viktor Orban já é uma democracia autoritária. Na Polônia, França, Holanda, Reino Unido e agora EUA devemos impedir que se ultrapasse o limite que separa a democracia liberal da autoritária. No Reino Unido, isso significa defender a independência da justiça, a soberania do Parlamento e o poder imparcial da BBC. Nos Estados Unidos, vamos presenciar o teste mais difícil para um dos sistemas democráticos de controles e equilíbrios mais sólidos e antigos. Embora os republicanos dominem o Congresso e, infelizmente, o presidente Donald Trump possa fazer nomeações políticas fundamentais no Supremo Tribunal, isso não quer dizer que sempre vá conseguir o que quer.

O que vemos em todos esses populismos nacionalistas é uma ideologia que afirma que a vontade expressa diretamente pelo “povo” vale mais que todas as demais fontes de autoridade. E o líder populista identifica a si mesmo (ou a si mesma, no caso de Marine Le Pen) como a única voz desse povo. Quando Trump diz: “Eu sou a sua voz” está usando uma típica frase populista. Igual à primeira página do The Daily Mail quando acusa de serem “inimigos do povo” os três juízes britânicos que decidiram que o Parlamento deve votar sobre o Brexit. Como o primeiro-ministro turco, quando rejeita as afirmações da UE de que, com sua brutal repressão da liberdade de imprensa, cruzou uma linha vermelha, e diz que “o povo é quem traça as linhas vermelhas”.

Quando se examina isso em detalhes, vê-se que “o povo” – Volk seria um termo mais exato – não é, na realidade, mais que uma parte do povo. Trump encarnou à perfeição essa encenação populista em uma frase espontânea pronunciada durante um comício de sua campanha. “A única coisa importante é a unificação do povo”, disse, “porque os demais não contam”. Os demais: curdos, muçulmanos, judeus, refugiados, imigrantes, negros, elites, especialistas, homossexuais, ciganos, cosmopolitas urbanistas e juízes gays e eurófilos. Nigel Farage anunciou que o Brexit era uma vitória para as pessoas normais, as pessoas decentes, as pessoas de verdade: ou seja, que os 48% que votaram nãono referendo não eram nem normais nem decentes nem de verdade.

A história nos ensina algo sobre esses fenômenos, sobre as ondas que surgem mais ou menos ao mesmo tempo em distintos lugares, em distintas variantes nacionais e regionais, mas com características comuns? O populismo nacionalista de hoje, o liberalismo globalizado (o neoliberalismo) dos anos noventa, o fascismo e o comunismo dos anos trinta e quarenta, o imperialismo do século XIX. Talvez nos ensine duas lições: que essas coisas demoram certo tempo para serem resolvidas e que, para fazer com que a onda retroceda (quando são ondas que convém fazer retroceder) é preciso coragem, empenho, consistência, o desenvolvimento de uma nova linguagem política e novas respostas políticas a problemas reais.

Um grande exemplo é a combinação da economia de mercado e o Estado de bem-estar que se desenvolveu na Europa Ocidental a partir de 1945. O modelo, que conseguiu pôr fim às ondas do comunismo e do fascismo, necessitou do gênio intelectual de John Maynard Keynes, a sabedoria de um William Beveridge e a perícia política de gente como Clement Attlee. Além de outros nomes nas diferentes versões adotadas em outros países. De qualquer modo, o desenvolvimento de um novo modelo requer tempo.

Devemos, pois, nos preparar para uma luta prolongada, talvez geracional. Não estamos ainda num mundo pósliberal, mas talvez cheguemos a estar. As forças que movem a frente popular do populismo estão em alta, muitos partidos tradicionais estão debilitados, e não se dá a volta a uma dessas ondas da noite para o dia. Para começar, temos de defender o pluralismo. Também temos de compreender as causas econômicas, sociais e culturais que fazem com que as pessoas votem nos populistas. Temos de buscar – não só a esquerda, mas também os liberais, conservadores moderados e criadores de opinião de todo tipo – uma nova linguagem que atraia, em conteúdo e emoções, esse amplo setor do eleitorado populista que não é irremediavelmente xenófobo, racista e misógino (por exemplo, tratar de não chamá-los de “miseráveis”).

Mas é evidente que a retórica por si só não basta. Quais são as políticas acertadas? São verdadeiramente os acordos de livre comércio e a imigração os que estão tirando postos de trabalho? É a tecnologia? Neste último caso, o que podemos fazer?

No plano internacional, o primeiro desafio é impedir a erosão dos elementos atuais da ordem internacional liberal, por exemplo, os acordos sobre mudança climática que foram tão custosos ou os de livre comércio. Como filosofia, é possível que o presidente chinês, Xi Jinping, dê as boas-vindas a um mundo trumpiano de Estados soberanos fortes, firmes e nacionalistas, mas, na prática, os dois dirigentes precisam estar conscientes de que a volta ao nacionalismo econômico dos anos trinta –Trump, durante a campanha, prometeu tarifas de 45% sobre os produtos importados da China – seria um desastre para todos. A única coisa boa de uma internacional de nacionalistas é que é uma contradição em si mesma.

Temos de confiar em que a política externa e econômica da nova Administração esteja em mãos de pessoas sérias e experientes, por mais repugnância moral que Trump nos cause. Chegou o momento de cobrir o nariz e a “ética da responsabilidade” de Max Weber. Ainda assim, é provável que nos encontremos diante de uma presidência grandiloquente, errática e imprevisível.

Por isso mesmo, as demais grandes democracias do mundo – todas as democracias nacionais da Europa, o Canadá, Austrália, Japão, Índia – precisam assumir uma carga muito maior. Se nós, europeus, pensamos que é vital que os Estados bálticos estejam protegidos contra qualquer possível agressão da Rússia, temos de fazer o possível, por meio da OTAN e da UE, para garantir isso. Não podemos confiar em um Trump que se dedica a elogiar Putin. Se nós, europeus, achamos que é importante que a Ucrânia continue sendo democrática e independente, teremos de nos ocupar de conseguir isso. Dado que o Reino Unido se marginalizou, como consequência de sua própria variante de populismo nacionalista, os eleitores franceses e alemães vão ter uma responsabilidade especial. Se, no final do ano que vem, tivermos na França um presidente Alain Juppé e na Alemanha uma chanceler Angelar Merkel reeleita, é possível que a Europa possa cumprir o papel designado.

A resposta mais digna que vi à eleição de Trump é, de longe, a que Merkel deu. “A Alemanha e os Estados Unidos”, disse, “estão unidos pelos valores da democracia, da liberdade e do respeito à lei e à dignidade humana, independentemente da origem, cor de pele, religião, gênero, orientação sexual ou ideias políticas. Ofereço ao próximo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, uma estreita cooperação baseada nesses valores.” Magnífico.

A expressão “líder do mundo livre” costuma ser ouvida em referência ao presidente dos Estados Unidos, e com frequência em tom irônico. Estou tentado a dizer que a líder do mundo livre, hoje, é Angela Merkel.

A Pantera Cor de Rosa


O que conta é o que se destrói

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Bento Rodrigues (Minas Gerais)
Não é o que construíram. É o que destruíram. Não são as casas. São os espaços entre as casas. Não são as ruas que existem. São as ruas que já não existem
James Fenton, "A german requiem".

Brexit à americana

Alguns meses atrás, a Inglaterra votou pela saída da União Europeia. Foi o Brexit. Depois se arrependeu. Ninguém quis assumir a saída. Hoje o resultado do plebiscito seria diferente.

Agora um fenômeno semelhante aconteceu nos Estados Unidos: Donald Trump venceu as eleições. Ele é um isolacionista. Defende o encolhimento dos norte-americanos em relação ao mundo, a ponto de ter sugerido a criação de um muro na fronteira com o México – e prometido enviar a conta para os mexicanos. Também fez declarações racistas, antifemininas, homofóbicas, xenofóbicas, antirreligiosas. Seu lema é fazer os Estados Unidos grandiosos outra vez. À custa de muita gente, pelo visto.

Há dois aspectos aqui: a retórica de campanha e a personalidade de Trump. Muito do que ele disse, logo será descartado como exagero do calor da disputa, como já aconteceu em relação às piadas machistas que ele contou. Conversa fiada, descartou ele. No entanto, Trump é arrogante, narcisista, cioso de seu sucesso. Encarna bem o tipo “winner”. A frase que o tornou conhecido foi “você está despedido!”, em que ele exercia o papel de mando sem pejo, embora num programa de televisão. Nacionalista extremado, acha que seu país, por ser o mais forte, é também o melhor. Ganhou o jogo da seleção natural. Portanto, suas ideias e seus princípios são os melhores. Essa lógica não tem lógica, mas é usada. E ele acredita nela.

Se apelar para essa pseudossuperioridade, essa agenda de povo escolhido, poderemos ter sérios problemas na ordem mundial. Ameaças à paz poderão ocorrer. Trump, mais do que Putin, me lembra muito o atual presidente da Coreia do Norte, Kim Jong-Un. Além dos horríveis cortes de cabelo, têm em comum o vocabulário de desafio, de guerra. Enquanto Kim fala apenas para manipular seu povo, Trump terá armas de fato à disposição. E, em tese, poder para usá-las.

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Ele, no entanto, se diz isolacionista. Não quer saber do mundo. Vai cuidar de seu país, tirar de lá os ilegais, acabar com o sistema previdenciário, caçar os pouco patrióticos. Veremos.

Todo presidente norte-americano age de maneira mais ou menos igual. O Prêmio Nobel da Paz Obama foi um guerreiro, jogou bomba em muitos lugares, matou inocentes, só não divulgou os números com ênfase. Seus antecessores fizeram o mesmo, com muito barulho na mídia. Trump conta com um Congresso que o apoia, mas não lhe dará carta branca para qualquer ação. Para governar, deverá ceder. Mesmo dentro de seu partido, uma boa parte o rejeitou. Ele, entretanto, não é burro. Saberá negociar.

O mundo está em choque. Bolsas caem, todos se perguntam o que aconteceu, preveem o pior. Trump logo se tornará conciliador. Como empresário, sabe que precisa cativar a mídia, amansar o público, blefar. Depois agirá, e o verdadeiro Trump virá à tona. Trump, em inglês, quer dizer contar bravata. Esperemos que toda a ameaça que agora o mundo sente não passe disso. Uma bravata de mau gosto.

Luís Giffoni 

Política e imprensa em tempos de internet

Convidado a participar de um evento acadêmico sobre a crise política, coube-me, entre outras questões, discutir o impacto das novas tecnologias de comunicação e o papel da imprensa. O convite levou-me a recuperar a introdução que escrevi para um pequeno livro sobre política e jornalismo, editado na virada dos anos 70 para os anos 80, quando os governos militares distribuíam notas secas aos jornais comunicando o que não podia ser publicado. No texto afirmei que a liberdade de imprensa sempre enfrentou ameaças ao longo da História, sobrevivendo a todas elas. Também disse que, por mais que o espírito de liberdade sobreviva sob os mais opressores regimes políticos, as pressões contra ele não desaparecem.

Thought-Provoking Satirical Illustrations by Pawel Kuczynski:
Pawel Kuczynski
Na época em que escrevi o prefácio, a preocupação era com os temas da mentira e da censura, comuns aos períodos históricos em que os jornais são obrigados a divulgar não sua leitura dos acontecimentos, mas sinopses oficiais. Inspirado em Hannah Arendt, lembrei que o problema da mentira é que ela só é eficiente quando o mentiroso sabe a verdade que quer esconder. O campo da política é o do pensamento plural e seu terreno não é o da evidência, dizia ela, mas o do acordo e do consentimento, que pressupõem liberdade, participação, conflito, diálogo e negociação. Como o pensamento político é eminentemente representativo, consentimento sem liberdade é viciado e acordo sem conflito é escamoteação ideológica. Ainda nessa linha de raciocínio, política e jornalismo são atividades que se implicam e só se articulam quando existe um mundo público e, por extensão, um campo para o exercício da liberdade. Quando a hipocrisia, o conformismo e enviesamentos ideológicos se sobrepõem ao vigor moral, à participação e à crença na dignidade humana, é preciso buscar o sentido do espírito de liberdade, que se expressa por independência, combatividade e poder de crítica.

Relendo aquele texto, escrito quando não havia internet e os movimentos sindicais e estudantis recorriam ao mimeógrafo para divulgar opiniões, fica claro que a imprensa exercia um papel que hoje é ameaçado pelas novas tecnologias de comunicação. Em outras palavras, jornais e revistas supervisionavam as fronteiras entre o espaço público e os espaços sociais, entre as conversações e as informações. O espaço público tradicional relegava à sociedade a função de audiência, filtrando informações e opiniões. Com a internet, concebida não para que um emissor se dirija a uma massa acrítica de receptores, mas para facilitar e agilizar as comunicações entre eles, a verticalidade entre jornalistas e leitores vem sendo substituída por novas formas de relações entre o mundo das conversações e o mundo das informações. Dito de outro modo, a verticalidade entre jornalistas e sua audiência cedeu lugar a redes de comunicação que horizontalizaram o espaço público. A internet propiciou assim uma significativa ampliação do espaço público, que cada vez menos é filtrado por jornalistas e políticos profissionais. Como lembra Daniel Innerarity, da London School of Economics, em seus ensaios sobre a política em “tempos de indignação”, não há nenhuma palavra pública imune a críticas, nem autoridades governamentais capazes de impor o silêncio absoluto.

Com as novas tecnologias de comunicação eletrônica, a imprensa enfrenta dificuldades para atuar como ponte entre os leitores e o mundo

No lado positivo, esse processo multiplica o intercâmbio de opiniões e amplia o campo do debate democrático, oferecendo amplas possibilidades para a transformação da política. No lado negativo, ele não é imune a todo e qualquer tipo de risco, como difusão de mentiras e difamações, achaques a reputações, desmoralização de adversários e os perigos da personalização dos conteúdos por parte dos sites de buscadores, como o Google. À medida que esses sites conhecem as preferências dos usuários e se empenham em oferecer serviços sob medida para seus gostos sociais, inclusive notícias e resultados de pesquisas, a internet intensifica de tal modo suas preferências que eles acabam não tendo acesso a opiniões diferentes nem recebendo informações que poderiam desafiar ou alargar, de forma crítica, suas visões de mundo.

Além da horizontalização do espaço público, as redes sociais viabilizadas pela internet são descentralizadas, dada a conectividade entre entidades estudantis, movimentos sociais e coletivos, a proliferação das chamadas organizações de “perímetro aberto – com facilidade de entrar e de sair e com critérios porosos de pertencimento – e o questionamento contínuo das autoridades hierarquizadas do poder público, disseminando, estimulando a ideia de auto-organização. Pelas críticas, controles recíprocos e troca incessante de informações em tempo real, muitos participantes das redes sociais creem na possibilidade de uma vida em grupo sem a necessidade de uma autoridade central – o que tem sido visto nas ocupações de escolas públicas por estudantes do ensino médio.

Quando redigi o prefácio do livro sobre política e jornalismo, o que se esperava da imprensa era que cumprisse de modo equilibrado e responsável o papel de iluminar e enfatizar a importância do mundo público. O que se esperava era que atuasse como um mecanismo de articulação política fundamental ao processo de conversão do pluralismo de valores políticos em decisões coletivas legítimas. Com as novas tecnologias de comunicação eletrônica, a imprensa enfrenta dificuldades para atuar como ponte entre os leitores e o mundo, é certo, ainda que permaneça como memória e espécie de consciência deles. Por sua vez, a internet vai despertando todo tipo de devaneio político – incluídos os mais radicais, como os de inspiração libertária e anarquistas.

Se isso está gerando formas originais e consequentes de experimentação democrática ou se vem estimulando aventuras autoritárias e um ativismo político irresponsável, essa é outra questão.

Paisagem brasileira

Carro de boi, Paulo Daleffi

A agricultura que combate a pobreza é assim

Se 70% de todos os pobres trabalham na agricultura e o mundo tem a meta de erradicar a pobreza extrema até 2030, uma conclusão natural é de que esses camponeses precisam de cada vez mais apoio para aumentar as colheitas e a renda. Mas em que exatamente consiste tal apoio?

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É possível encontrar muitas respostas a essa pergunta enquanto se percorre o interior de Santa Catarina, onde 92% das propriedades são consideradas pequenas (com até 50 hectares). Lá, uma parceria de 30 anos entre o Governo do Estado e o Banco Mundial vem gerando lições que podem ser replicadas em outros países em desenvolvimento.

Na atual fase, o Programa SC Rural, que se estende até junho de 2017, atende a 40.000 pequenos produtores rurais, dos quais 4,800 indígenas e 1,300 jovens. Uma recente avaliação de impacto revela que, em cinco anos, a renda dos beneficiários aumentou 118%, enquanto a dos agricultores não atendidos pelo programa subiu 56%.

Com o que aprendeu em oito meses de um curso para jovens agricultores, Adriano Heerdt conseguiu aumentar a produção de leite, diminuir o custo, melhorar as pastagens e resolver alguns problemas de saúde das vacas de que cuida. A capacitação oferecida pelo SC Rural mistura aulas com atividades práticas, no campo, para levar informações confiáveis a um público que nem sempre tem acesso a educação formal, televisão ou internet.

“Fui aplicando as técnicas que me ensinavam e via que dava certo. Hoje, cada vez mais procuro me aperfeiçoar, porque tudo dá retorno para a gente”, diz Adriano.

A informação sobre melhores práticas, novas tecnologias e oportunidades de mercado hoje é elemento chave para que os agricultores familiares possam competir no mercado de alimentos e aumentar a renda. “Em Santa Catarina, o foco deixou de ser somente em produção agrícola e passou a incluir o agronegócio (ou seja, produção e processamento) e os jovens rurais. Isso deveria ser uma estratégia a seguir no resto do Brasil e no mundo em desenvolvimento”, comenta o economista rural Diego Arias, do Banco Mundial.

Atualmente, cerca de 9,6 milhões de jovens entre 15 e 29 anos vivem da agricultura nos 20 países latino-americanos (2,3 milhões só no Brasil). A cifra regional caiu 20% na última década, segundo o estudo Juventude Rural e Emprego Decente na América Latina, publicado este ano pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO).

O documento explica que, embora pareça haver um “fenômeno de jovens empreendedores rurais que conseguem fazer um negócio decolar”, tal conquista não é fácil. Esbarra nas dificuldades de infraestrutura do campo e requer, entre outros incentivos, programas de orientação e financiamento para esse público.

Foi exatamente esse apoio que Jaqueline Grapiglia, 25 anos, encontrou para expandir os negócios familiares. Quando o pai conseguiu montar uma padaria em casa por meio do SC Rural, a jovem viu a oportunidade de voltar para o campo. Formada em administração e pós-graduada em gestão estratégica, ela também fez o curso de empreendedorismo para jovens, que financia as melhores ideias elaboradas pelos alunos. Como projeto final, criou uma loja de quitutes rurais e agora sonha abrir um café colonial. “O agricultor só vai ficar no campo se tiver perfil para empreender”, aposta Jaqueline.
Inovação

Com tecnologias simples, já dá para aumentar o rendimento, ter um produto de melhor qualidade, trabalhar em menos tempo e poupar a saúde dos agricultores. Imagine, então, o que é possível fazer com radares, drones e equipamentos mais modernos. Tudo isso ajuda os produtores de grande porte a lidar com as mudanças climáticas e poupar os recursos naturais... mas nada está disponível (ainda) para a agricultura familiar.

Por isso, Santa Catarina criou o Núcleo de Inovação Tecnológica para Agricultura Familiar para reunir os pequenos produtores às startups locais e discutir como é possível levar inovação ao campo com escala e custo acessíveis.

“Meu sonho é ver o pessoal usando a nossa tecnologia, que é nacional e nasceu na universidade”, comenta Vitor Miranda, diretor executivo da Q Prime Engenharia, criada na Universidade Federal de Santa Catarina. A empresa está adaptando para os pequenos agricultores uma máquina de secagem de alimentos (muito usada para erva-mate e outras), que deixa o produto mais homogêneo e economiza energia. “Como é complicado chegar até os agricultores porque é muita gente espalhada pelo estado, o SC Rural pode facilitar esse contato”, conclui Miranda.

Andreia e Paulo Colle cuidam de uma beneficiadora de porco
Quando Andreia Colle e o marido tiveram de fechar o próprio aviário, por não terem condições de cumprir as exigências da grande empresa para a qual vendiam, encontraram no SC Rural a chance de recomeçar com um trabalho mais rentável. Com apoio do programa, eles estruturaram e equiparam uma pequena agroindústria de embutidos de porco, de onde saem salames, torresmos, lombos e outros produtos oferecidos tanto no comércio local quanto na merenda escolar das escolas públicas.

Nos últimos quatro anos, também fizeram cursos que, segundo Andreia, ajudaram os Colle a encontrar seu público-alvo, produzir com mais qualidade e a gerenciar o negócio de forma profissional. O próximo desafio: aumentar a quantidade de pontos de venda, mas sem perder de vista o jeito colonial dos itens produzidos pela família.

Outro tema importante na questão do acesso aos mercados é o da infraestrutura local, para que os agricultores possam escoar a produção com mais facilidade. O SC Rural atuou tanto na melhoria de 400 km de trechos de estradas rurais quanto na das telecomunicações do campo.

Mariana Kaipper Ceratti

Deputados agora querem 'desligar' a TV Justiça

Num instante em que algo como quatro dezenas de parlamentares respondem a inquérito no STF apenas no caso do petrolão, os deputados decidiram aprovar uma lei para desligar a TV Justiça da tomada. Querem impedir a transmissão das sessões plenárias da Suprema Corte nos julgamentos de processos penais e civis. A proposta já foi aprovada na Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática da Câmara. Seguiu para a Comissão de Constituição e Justiça. Se for aprovada novamente, seguirá direto para o Senado.


O autor do projeto é Vicente Cândido (PT-SP), amigo dos petistas condenados no julgamento do mensalão, que popularizou, por assim dizer, a TV Justiça. O relator é Silas Câmara (PRB-AM). Sem meias-palavas, ele admite que quer apagar os refletores do plenário do Supremo para evitar os efeitos que as luzes provocam sobre as togas. Alega que as transmissões expõem “as entranhas da Justiça”, mostrando o que chamou de “sensacionalismo exacerbado” de alguns ministros. Para o relator, a superexposição ofende “a imagem, a honra e a dignidade da pessoa humana.”

Onde se lê “pessoa humana”, leia-se “réu”. Silas Câmara desqualifica em seu parecer os defensores da tese segundo a qual o interesse público se sobrepõe ao direito à privacidade que os réus poderiam, eventualmente, reivindicar: “Ocorre que esses militantes da mídia livre se esquecem que a garantia de um julgamento isento e imparcial é um direito humano, que se sobrepõe ao direito de informação, ou seja, o interesse público não pode ser maior do que o direito a um julgamento isento.”

Tomado pelos termos do relatório, os deputados parecem dar de barato que o calor dos holofotes derrete a isenção dos ministros do Supremo. Pior: avaliam que o processo de derretimento começa antes do julgamento:

“O cidadão vem sendo condenado a priori e de maneira covarde pela superexposição na mídia, exposição esta que influencia, também, diretamente no resultado do julgamento per se, ao criar o que podemos chamar, ironicamente, de ‘afã condenatório’ por parte de membros do Poder Judiciário que tenham dificuldade em conter eventuais ‘arroubos’ de vaidade, provocados pela súbita notoriedade conferida pela mídia”.

Ironicamente, a proposta anti-transparência vem à luz num instante em que os processos da Lava Jato são julgados na Segunda Turma do Supremo, sem a transmissão da TV Justiça. Apenas processos que envolvem os presidentes da Câmara e do Senado precisam ser obrigatoriamente submetidos ao plenário do tribunal.

Hoje, a exposição tem sido maior na jurisdição de Sergio Moro, em Curitiba. Ali, não há transmissões ao vivo. Mas o juiz da Lava Jato cultiva o hábito de filmar seus interrogatórios, divulgando-os na sequência. Disponíveis na internet, os vídeos revelam que os cofres do Estado vêm sendo assaltados com método pela quadrilha de oligarcas empresariais e políticos. Quem assiste percebe que o melhor detergente contra esse tipo de sujeira é mesmo a luz do Sol.

Sugestão popular à Receita

Odebrecht: Arrogância deu lugar à humildade

Ao trocar a suprema arrogância pela humildade depois de ter sido condenado a quase vinte nos de prisão, Marcelo Odebrecht decidiu mostrar ao juiz Sérgio Moro o mapa do desvio de 7 bilhões de reais que saíram do propinoduto da sua empresa para políticos e afins. Só o Lula, segundo a ISTOÉ, meteu a mão em 8 milhões de reais, dinheiro que lhe foi entregue ao vivo e a cores pelo próprio empreiteiro. A Dilma, que agora tenta passar imagem de boa samaritana, é citada 16 vezes na delação do ex-presidente da Odebrecht que foi ainda mais longe. Disse que ela pediu dinheiro para sua reeleição em 2014 e que o intermediário do caixa dois foi o ministro Palocci, já preso.

É a maior delação premiada do mundo de uma empresa que fatura mais de 130 bilhões de reais e que durante anos deu as cartas no país. Não só Marcelo, mas também seus 80 executivos abriram o bico para o juiz Sérgio Moro e sua equipe que prometem, em contrapartida, aliviar a condenação de todos eles. Em compensação, Moro revela para o Brasil o maior esquema de corrupção de uma organização criminosa que se trasvestiu de partido político para assaltar os cofres públicos. Assustado com o volume de informações obtido pelos procuradores da Lava Jato que o apontam como o chefe da bandidagem, Lula vociferou contra a Polícia Federal, Sérgio Moro e os procuradores, desafiando-os a mostrar provas da sua participação na quadrilha. Coisa de quem continua acuado.
Marcelo Odebrecht chegou à Polícia Federal do Paraná arrotando prepotência. Imaginava que o dinheiro e o poder iriam comprar a consciência dos procuradores e do próprio Moro, como ainda é comum no Brasil. Antes de ser preso, conversou com a Dilma sobre o interesse que tinha na nomeação do ministro do STJ, Marcelo Navarro Ribeiro Dantas cuja tarefa, ao ser nomeado ministro do tribunal, seria soltar ele e seus comparsas, como denunciou o ex-senador Delcídio do Amaral. O tiro, entretanto, saiu pela culatra quando os próprios pares de Navarro no STJ desconfiaram da armação e bloquearam o habeas-corpus que iria implodir a Lava Jato.

Ao se sentir isolado, Marcelo ainda tentou enfrentar Sérgio Moro. Em alguns depoimentos tratou o magistrado com desdém, menosprezo. Achou que a fortuna, que comprou durante anos políticos e presidentes, dava-lhe o direito à impunidade e a confrontar os investigadores da Lava Jato. Por algum tempo não se deu conta de que enfrentava um lado até então desconhecido da justiça brasileira: um juiz e procuradores sem rabo preso que tinham como objetivo apurar o maior escândalo de desvio de dinheiro de empresas públicas. A ficha de Marcelo só caiu quando o martelo implacável de Moro desabou sobre a sua cabeça, condenando-o à prisão.

Quando for homologado pelo ministro Teori Zavascki até o final deste mês, a delação de Marcelo Odebrecht não deixará pedra sobre pedra. Um dos alvos, como se saberá lá na frente, também é o BNDES que durante os mandatos do Lula e Dilma foi chefiado por Luciano Coutinho. Marcelo Odebrecht contou aos procuradores na delação que Luciano Coutinho e o ex-ministro Guido Mantega eram os intermediários das doações à campanha de Dilma em 2014 que tinham como caixa o BNDES.

As empresas que obtinham financiamento do banco para obras no exterior eram obrigadas a fazer doações ao PT. Lula, o lobista de luxo da Odebrecht, já responde a processo sobre sua influência na liberação desses recursos, mas Coutinho e Mantega ainda conseguem sair de fininho da sala da corrupção até agora. É claro que Lula não agiu sozinho. A aprovação desses empréstimos no exterior teve a participação de Coutinho para liberar o dinheiro para Odebrecht que depois voltava para as campanhas petistas.

Mudar pra valer

O presidente Temer vem, com seu estilo maneiro, empurrando para aprovação a PEC 241 (ou PEC 55), que tem como objetivo a limitação dos gastos públicos e seu congelamento por 20 anos. Sempre que a proposta é criticada ou contestada nos diversos espaços sociais, o próprio presidente Temer tem devolvido como resposta que os que condenam tal medida não tiveram o cuidado de ler seu conteúdo, concebido como único caminho possível de saneamento do orçamento fiscal para que a União possa se reencontrar com a possibilidade de se fazer presente nas responsabilidades básicas e indelegáveis do poder público para com a sociedade.

Contraditório, mas é limitando gastos e congelando suas aplicações por 20 anos que o governo quer se fazer mais eficiente na contraprestação de seus serviços e nas responsabilidades genuínas do Estado, como educação, saúde, segurança e previdência públicas.

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Ninguém em sã consciência pode ser contrário a que se busque, com rigor, a readequação dos gastos feitos pelo poder público, que sustentam irresponsavelmente privilégios todos os dias revelados e nunca coibidos; custeiam aposentadorias injustificáveis, como aquelas de que se tem ciência de funcionários dos Legislativos, do Judiciário em todas as instâncias e das polícias militares dos Estados, todos, como exemplo, em que os absurdos não se limitam apenas aos valores de suas remunerações, mas aos critérios como são concedidas.

As novas gerações em todo o mundo, graças ao avanço da medicina e da tecnologia, viverão mais; além dessa premissa, cálculos atuariais elementares dão conta de que não há como sustentarmos o modelo de aposentadoria que hoje vige no Brasil. Nos Legislativos, nos quais, sabidamente, imperam o abuso e a falta de critério, é possível identificar a forma trapaceira como, para a grande maioria de seus beneficiários, aposentadorias foram construídas. No Judiciário, igualmente. Sempre que comparadas tais remunerações com o conferido a ocupações idênticas na iniciativa privada, constatam-se absurdos revoltantes. E, nas polícias militares, independentemente do Estado da Federação, é possível ver oficiais reformados com menos de 50 anos de idade.

Não há caixa que possa devolver a qualquer de seus beneficiários em aposentadorias muito mais do que recebeu de contribuições. Acrescentem-se ainda os valores de pensões pagos aos cônjuges e descendentes desses aposentados, quando assim justificadas.

Da mesma forma, um senador ou deputado, federal ou estadual não pode se fazer beneficiário de aposentadoria proporcional ao tempo de cumprimento de dois mandatos eletivos, enquanto ao restante da sociedade que trabalha na iniciativa privada se impõe a obrigação de recolhimento de 35 anos de contribuição previdenciária.

Muita coisa tem que ser mudada; a sociedade tem que ir às ruas para exigir justiça nos cortes propostos e que também se operem horizontalmente mudanças profundas nos demais poderes do Estado. A meia-boca, sem atacar na essência, não há como se acreditar em nada. E, pior, estaremos perdendo uma oportunidade histórica de se fazer justiça com o dinheiro público.

Com o fracasso do comunismo e do capitalismo, a solução é o socialismo democrático

Muita gente acreditava que o mundo fosse acabar no ano 2000. A decepção foi grande, porque nada mudou, a população continuou crescendo e passou dos 6 bilhões de habitantes. Mas o que aumentou mesmo foi a pobreza, consolidando uma situação de “brutal desigualdade” que manchou o surgimento do novo milênio, segundo a declaração oficial da Organização das Nações Unidas (ONU). Naquela época, todos já sabiam que o comunismo havia fracassado e não mais existia na Rússia nem na China. Mas esse relatório da ONU no ano 2000 mostrou que também o capitalismo havia fracassado, pois o fosso entre a riqueza total e a miséria absoluta continuou se aprofundando.

Essa tese eu já vinha defendendo desde 1978, quando dirigia a “Revista Nacional”, que circulava encartada em jornais de mais de 20 estados e tinha a maior tiragem da imprensa brasileira. Escrevi naquela época uma série de artigos sob o título “O fim das ideologias”. A repercussão foi intensa, a ponto de provocar discussões formais no curso da Escola Superior de Guerra.

A opção que restou foi o socialismo democrático, que é um mix de capitalismo e comunismo e está demonstrando sua viabilidade como modelo político nos países nórdicos, que já conseguiram chegar a índices satisfatórios de justiça social, qualidade de vida e oportunidades de ascensão para as camadas menos privilegiadas. Trata-se de uma realidade que ninguém pode contestar.

No caso específico do Brasil, que é a oitava economia do mundo e tem a quinta maior população, o que fizemos foi cultivar uma jabuticaba política, criando um regime muito doido, no qual convivem o capitalismo selvagem e o socialismo estatal.

Em entrevista a Mônica Bergamo e Reynaldo Turollo Jr., na Folha, o ministro Luís Roberto Barroso lançou nesta segunda-feira uma interessante frase de efeito, ao se referir ao supersalário de juízes e à apropriação indevida de recursos públicos pelos agentes do Estado.: “O modelo no Brasil não é propriamente capitalista. É um socialismo para ricos”.

Ilustrações sarcásticas criticam a sociedade moderna:
Na verdade, o regime brasileiro nada tem de socialista, mas nada mesmo. Chamar de socialismo o SUS, o Bolsa Família, o ensino público e o Minha Casa Minha Vida, sem a menor dúvida, é um deboche inaceitável. A possibilidade de um estudante pobre entrar numa universidade pública é de apenas 2%. O regime vigente no Brasil é o pior tipo já testado no mundo contemporâneo – um capitalismo sem risco, meramente financeiro, em que os investidores são desestimulados a aplicar recursos em atividades produtivas. Simplesmente investem o dinheiro financeiramente e ficam arrecadando juros sobre juros. São os chamados “rentistas”.
Em seus trabalhos de previsão econômica, há cerca de 150 anos, Karl Marx e Friedrich Engels criaram a expressão “rentier” para denominar o capitalista que não investia em produção, apenas se dedicava a especular.

Daí se originou a palavra “rentista” em português. Marx e Engels previam que a ascensão do “rentismo” derrubaria as atividades produtivas do capitalismo. É exatamente o que está acontecendo hoje no Brasil, que desde o governo do sociólogo ex-marxista Fernando Henrique Cardoso (“Esqueçam o que escrevi”) resolveu inventar o capitalismo tropicalista sem risco, que em poucos anos elevou a dívida pública à enésima potência e causou essa crise sem precedentes.

Não dá para acreditar que FHC tenha lido Marx e Engels. Se o fez, não entendeu nada, porque seu procedimento no governo brasileiro veio apenas a confirmar as previsões da “Teoria da mais valia”, escrita em 1863. E o Brasil, que comprovadamente é o país com maior potencial de crescimento econômico no mundo, está literalmente quebrado.

No meio desse caos, chegam a ser patéticas as críticas a Marx e Engels, pois comumente são atribuídas a esses dois humanistas as atrocidades praticadas por déspotas como Josef Stalin ou Pol Pot. Ora, Marx e Engels eram pacifistas e defensores da liberdade de imprensa, jamais se leu uma única linha deles propondo matar opositores ou censurar jornais.

Está patente que o comunismo não deu certo, mas isso não significa que os dois pensadores estivessem totalmente errados. Pelo contrário. Foi a adaptação de suas teorias que conduziu ao socialismo democrático e à busca do Estado do bem-estar social, que já vigoram nos países nórdicos, enquanto os brasileiros, em termos humanitários, continuam na Idade da Pedra Lascada, com os maiores índices de homicídio do mundo.

O mais importante de tudo isso é lembrar que nada se consegue fora das vias democráticas. Não adianta chamar os militares para ocupar o Planalto e fechar o Congresso. É uma ilusão verdadeiramente obsoleta.

Para olhar para a frente, antes é preciso olhar para trás, estudar os maiores benfeitores da humanidade – os grandes avatares do pensamento filosófico, social e espiritual, que nos influenciam até hoje. Pela ordem de entrada em cena – Krishna na Índia (3 mil anos antes de Cristo); Lao Tse na China (1.300 a.C.); ao mesmo tempo, Moisés no Egito e Oriente Médio (1.291 a.C), Buda na região do Nepal/Himalaia (600 anos a.C.); pouco depois, Confúcio no Nordeste da China (550 anos a.C.); logo em seguida, Sócrates na Grécia (469 a.C.); o próprio Jesus Cristo na Palestina, com a abertura da atual nova Era; e Maomé (570 depois de Cristo).

Para mim, ser comunista é comungar com todos os avatares e compreender a mediocridade dos seres humanos, que 5 mil anos depois de Krishna continuam se deixando levar pelos interesses individuais, ao invés de se curvarem à prevalência dos interesses coletivos. Na nossa era, por enquanto é conveniente seguir o exemplo do socialismo democrático dos países nórdicos, pois o comunismo somente será alcançado daqui a muitos séculos (talvez, milênios). Então, vamos em frente. E que assim seja.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Temer estudante apoia pec do teto ele familia e filho educacao saude e transportes publicos

O galo sumiu

We had 1 rooster that looked like this one. It drove my dad nuts! Every time he entered the barn area the rooster would try jumping on my dad's neck or shoulders. Dad would sometimes carry around a stick to ward him off! lol I don't think we had him for very long.:
Parece que o galo cantou. A gente não ouviu. Nem sabe como é o galo. Ou se tem mesmo galo. Ou se o galo existe. E isto é preocupante.

Já com o ano novo nos encarando, resta aprender com 2016. E entender que o principal ensinamento parece ser que não entendemos nada. Ou quase nada, para ser um pouco generoso.

A vida é assim. Quando a gente não reconhece a realidade, ela nos atropela. E deixa a todos o desagradável de papel de explicar porque as previsões estavam erradas.

A gente parece nunca perder a oportunidade de não aprender. Cultivar a ignorância por vezes parece ser a mais humana das características. Como em retrospectiva tudo sempre faz sentido, todas as narrativas são validas. Basta ser logico. Mesmo que o logico não seja verdadeiro.

O Brexit deveria ter ensinado algo. No mínimo, era razão para a gente perceber que havia algo de estranho no mundo. Ali a surpresa também existiu. Mas não aprendemos. E continuarmos a ignorar os sinais. E veio, para não deixar duvidas a ultima eleição americana. Não deixou duvidas. A maioria quer mudanças. E vota por ela.

O resultado da eleição assusta. Muito. Ganhou um candidato que fez afirmativas absurdas do ponto de vista de valores. É fato. Mas não é somente o resultado que assusta. E olhe que ele assusta muito.

Talvez o que mais assuste seja a incapacidade daqueles que se autonomeados defensores de valores liberais em aceitar qualquer autocritica. Ou melhor, nestes tempos confusos, autocritica, só a favor.

De um lado, acusa-se o eleitor de tudo. E de mais um pouco. Como sua escolha fosse o resultado do atraso, da ignorância. Eleitor seria, neste raciocínio, inteligente somente quando vota como de acordo com as instruções previamente decididas pelo grupo que teria não somente a sabedoria, mas também superioridade moral. Eleitor bom seria eleitor controlado.

Em nome da igualdade, da justiça social, do fim do machismo e da discriminação, do combate ao racismo, contesta-se o resultado da eleição. Ignorando o fato de que, embora indesejável, inconveniente, e até mesmo ruim, o resultado da eleição deve ser respeitado. Sempre.

Melhor seria a autocrítica. Entender o que deveria ter sido ou ser feito de maneira a criar propostas e plataformas que interessem a maioria do eleitorado. Mas isso não é tarefa fácil. Implica reconhecer erros, fazer propostas, entender os outros. E isso é doloroso. E dá trabalho.

Mas talvez ao fim e a cabo da autocritica, emerge um quadro mais positivo. Propostas mais atraentes e ideias mais modernas em plataformas mais inclusivas. E políticos mais conectados com a realidade.
E a gente finalmente vai achar o galo sumido.

Amadeus

Perdemos todos

Médico acha que é Deus. Jornalista tem certeza – e, aqui, mora o perigo.
O descolamento da mídia da realidade, seja por cegueira deliberada ou acidental, seja por partidarismo ou qualquer outro interesse inconfessável, não é um fenômeno “Made in The USA”.
Metrô de Nova York, 1963  (Foto: Jacob Harrisn / AP)
Metrô de Nova York (1963)
Tem a ver com a crise universal do jornalismo, abalado pelo surgimento de novas mídias sem compromisso com a verdade. E só faz mal à democracia e à construção de um mundo menos desigual

O método para tirar milhares de 'sem-tetos' da rua

Por algum tempo, muitos pensaram que o método do psicólogo Sam Tsemberis era absurdo. O modelo que concebeu para ajudar as pessoas que moram na rua há anos consiste em alojá-los em um apartamento. Simplesmente dar moradia a quem estava em pior situação, aos sem-teto crônicos que padeciam de doenças mentais e dependência química. O revolucionário é que não exige que os beneficiários estejam sóbrios ou equilibrados. Isso vem em outra etapa, depois que saírem da rua. Passaram-se 24 anos e sua loucura, o programa Housing First, mudou a vida de milhares de pessoas em dezenas de cidades da América do Norte e da Europa.

Tsemberis, de 67 anos, dá aulas na Universidade de Columbia e dirige a organização com a qual difunde seu modelo, a Pathways to Housing. As ruas da Nova York no final da década dos 1980 lhe mostraram de perto uma máquina assistencial que engolia muitos levando-os ao hospital, à prisão ou aos centros de desintoxicação para depois voltarem ao mesmo buraco de papelão em que tinham sido encontrados antes. Ele trabalhava em um hospital, em um serviço de emergência móvel para atender os sem-teto. “Havia muitos. Saíamos à rua para procurar os que tinham problemas de saúde, gente que tossia sangue, que tinha bolhas nos pés… Muitos melhoravam no hospital, mas o problema é que depois voltavam para a rua. Pensamos: este sistema não serve para nada”, conta em uma cafeteria do centro de Madri, aonde veio apoiar o trabalho da ONG Rais Fundación, pioneira na aplicação de seu modelo na Espanha. “Não queriam ir primeiro ao hospital, nem ao dentista, nem a um tratamento de desintoxicação… Não. Queriam uma casa. Eu pensava: ‘Meu Deus! Uma casa? Não tenho uma casa. Tenho uma clínica, uma van, um sanduíche, um cobertor…’ Uma casa. Assim saí do hospital e comecei minha ONG”.

Na Espanha, a Rais Fundación tem uma rede com 117 moradias em várias cidades e, em um ano e meio de funcionamento, 96% dos beneficiários – que têm em média nove anos de rua – continuam alojados. O custo diário para o Governo é de 34 euros (120 reais), igual ou superior, diz a organização, que o de um serviço assistencial convencional. Os apartamentos estão espalhados por edifícios e bairros comuns, porque se trata de integrar. Só há três condições para entrar: não incomodar os vizinhos, permitir a visita da equipe pelo menos uma vez por semana e, se o antigo sem teto tiver renda, destinar 30% para manter o serviço.

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Miguel Castello
Tsemberis, de origem grega e radicado nos Estados Unidos desde os oito anos de idade, demorou para entender o problema e pensar de forma alternativa. Talvez por isso pareça acostumado ao ceticismo e às críticas que a estratégia desperta, tanto que expõe seus argumentos com um grande sorriso. Explica que, de início, ele também tinha dúvidas: “Eu não sabia se alguém podia realmente se comportar em um apartamento. Isso gera uma ansiedade enorme, porque você fica preocupado pensando: 'Será que ele vai acender o fogo na cozinha?'. E coisas terríveis do tipo: 'O que vai acontecer se começar para ouvir vozes, se fizer mal aos vizinhos?'. Mas você precisa assumir o risco e confiar na pessoa. Fizemos muitíssimas visitas para nos certificarmos de que todos estavam bem”.

O psicólogo também se dedicou a levantar números. Queria provas, não boas intenções. Primeiro, para submeter seu programa à avaliação: “Queríamos saber que não era pior do que continuar levando-os a hospital”. Para convencer os colegas e o poder público: “Depois de um ano, 84% das pessoas que alojamos continuavam nos apartamentos. Genial, mas as pessoas continuavam sem acreditar. Pensavam: ‘As pessoas que você está tratando não estão tão doentes como as que eu atendo. Nova York é diferente de todas as cidades e não funcionará em outras”. A terceira razão é que, com os números, sabem que o Estado está poupando dinheiro: “Se você somar o custo anual dos serviços sociais utilizados para atender alguém em situação de rua (pronto-socorro, ambulâncias, desintoxicação, prisão…), o gasto pode chegar aos 100.000 euros. Se colocá-lo em um apartamento disponibilizado pelos serviços sociais, são 15.000 euros por ano”. O estudo para saber se isso funcionaria foi desenvolvido pela Universidade de Nova York, pago e fiscalizado pelo Governo federal dos Estados Unidos. “Sete anos depois, resultava nos mesmos dados que nós tínhamos. Já estávamos falando de ciência, não de casos pontuais”, explica Tsemberis com ênfase.

O caso dos 70.000 veteranos de guerra sem-teto que havia nos Estados Unidos é um bom exemplo de que o programa funciona. A Casa Branca anunciou que algumas cidades erradicaram o problema e que, em apenas três anos, houve uma diminuição de 36% em todo o país. Mas se seu método tem resultados tão positivos e comprováveis, por que não se generaliza? “Não sei”, admite Tsemberis. Ele acredita que o velho e o novo modelos podem ser complementares. “O antigo detectou que as pessoas na rua sofriam de enfermidades mentais e dependência química, mas se pensou, incorretamente, que era preciso tratá-las antes de lhes dar acesso a uma moradia. Ainda hoje não temos uma cura para esses problemas. Assim, se você esperar que se curem primeiro, muitos nunca serão alojados. O antigo sistema não é de todo inútil: tem sucesso em 30% a 40% dos casos”, explica.

Uma das coisas que o professor diz ter aprendido nesses 24 anos é que, devido à doença mental ou ao fato de estar na rua há tantos anos, quando voltam a morar sob um teto as pessoas recuperam a capacidade de viver de forma autônoma. “Pode haver alguém que acredite que este fotógrafo é um espião soviético e mesmo assim seja capaz de cozinhar, lavar-se e fazer a cama”, diz enquanto gesticula sem parar. “Sobreviveram por anos na rua. Para isso têm que saber quais são os lugares seguros, como cuidar de si mesmos e de suas coisas, como evitar que sejam presos, onde estão os refeitórios… são funcionalidades, assim se foi capaz de subsistir na rua, fazê-lo em um apartamento onde o banheiro está ali do lado e não a duas quadras não será um grande problema”, afirma.

Também recuperam outras coisas. Em um vídeo da organização, um dos beneficiários do programa na Espanha fala em dignidade. “É impressionante”, diz Tsemberis. “Acredito que não somos capazes de nos dar conta do que é não ter casa. Da solidão que isso traz. O mais útil deste programa é a rapidez com que se passa do sobreviver para o viver. Ocorre da noite para o dia. Alguém entra em um apartamento com suas bolsas e, no dia seguinte, tomou banho e dormiu em uma cama, tem uma chave na mão e é como qualquer morador daquele edifício. As pessoas não te olham quando você é um sem-teto. Apesar de se sentir muito exposto, você é invisível. E de repente está morando em um apartamento e seus vizinhos te dizem: ‘Bom dia, como vai?”

Contra o sistema político

Comecemos pelo óbvio, indigitando o truque manjado. Toda vez que passamos na cara de um político profissional a afirmação “não nos representam”, o sujeito reage espertinho, dizendo que não devemos ser contra a política.

Pura malandragem retórica para retirar o foco de cima de si e dos seus, desviando-o para a dimensão geral da política – para assim defender com “nobreza” uma atividade central na vida humana. Mas não há nobreza alguma aí. O que há é a velha e célebre cara de pau de um bando de picaretas sem-vergonha.

Basta comparar. Quando desancamos médicos que lidam com o corpo humano como se este fosse mercadoria, o que acontece? Denunciamos médicos antiéticos, larápios, canalhas, etc., mas ninguém aparece para dizer que somos contra a medicina. Os políticos profissionais, que vivem da lábia e da engabelação, é que tentam fazer esse jogo trapaceiro.

Mas a questão da crise da representação política não vai ser rasurada do horizonte pela retórica trambiqueira desses caras. Desenha-se diante de nós, como nunca antes, a crise geral (definitiva?) do partidocratismo.

Gramsci viu bem, ao dizer que o partido político corre sempre o risco de substituir o movimento real da vida social pelo movimento interno da vida partidária. Com isso, o partido passa a representar principalmente seus próprios interesses – e não os interesses da maioria da população.

Imaginem aqui entre nós, num sistema político apodrecido que, quase de cabo a rabo, não conta sequer com partidos políticos, no sentido verdadeiro da expressão, mas com partidos meramente eleitorais, na acepção mais rasteira que isso possa ter.

Seja como for, a crise representacional parece hoje irreversível nas sociedades democráticas do mundo – e o Brasil não escapa disso. A cidadania está se constituindo atualmente como tendência à autorrepresentação.

Pessoas e segmentos sociais vêm encontrando meios de falar por si mesmos, sem precisar recorrer a mediações, dispositivos ou aparelhos representacionais. E, aqui, sublinhe-se a presença da internet.

Entre o espaço público e o espaço privado, a antiga e mais simples dicotomia de tempos atrás, floresceu o espaço virtual, onde o público e o privado se mesclam em entrelaçamentos promíscuos.

As pessoas passaram a articular suas informações e a ver a possibilidade real de coordenar suas ações. E o quadro é este: quando os políticos dão as costas à sociedade, nada mais lógico, natural e esperável que também a sociedade dê as costas aos políticos.

Imagem do Dia

New Zealand, South Island, Lake Wanaka || I know technically New Zealand is not a part of the continent of Australia, but rather of a mostly submerged continent called Zealandia:
 Lago Wanaka, Nova Zelândia 

A ilha dos tigres

O viajante chinês que deixou o primeiro testemunho escrito sobre esta ilha, no século XIV, deu-lhe o nome de “A ilha dos leões” (Cingapura), mas se enganou quanto ao animal, porque aqui nunca houve leões, apenas tigres, e em grande quantidade, pois até bem avançado o século XIX essas feras ainda comiam os camponeses que se extraviavam por seus territórios.

Esse primitivismo já ficou bem para trás. Cingapura é hoje um dos países mais prósperos, limpos, avançados e seguros do mundo, e o primeiro a ter conseguido, num prazo relativamente curto, acabar com dois dos piores flagelos da humanidade: a pobreza e o desemprego. Nos seis dias que acabo de passar aqui, pedi a todas as pessoas com quem estive que me levassem para conhecer o bairro mais pobre desta cidade-Estado. E aquela maravilha, que pude ver com os meus próprios olhos, é verdadeira: aqui não há miséria, nem amontoamento nem barracos, e sim, em vez disso, um sistema de saúde, educação e oportunidades de trabalho ao alcance de todos, bem como uma imigração controlada que beneficia em pé de igualdade tanto o país quanto os estrangeiros que chegam para nele trabalhar.

Desmentindo todas as teorias de sociólogos e economistas, Cingapura demonstra que raças, religiões, tradições e línguas diferentes, em vez de dificultarem a coexistência social e serem um obstáculo ao desenvolvimento, podem conviver perfeitamente em paz, colaborando umas com as outras e usufruindo igualitariamente o progresso sem abrir mão de suas crenças e costumes. Embora a grande maioria da população seja de origem chinesa (cerca de 75%), os malaios e os indianos (sobretudo os tâmeis), assim como os eurasiáticos cristãos, convivem com ela sem problemas, em um clima de tolerância e compreensão recíprocas, o que, sem dúvida, contribuiu em grande parte para que este pequeno país tenha queimado etapas desde a sua independência, em 1965, para se tornar o gigante que é hoje em dia.

Esse feito extraordinário se deve, em grande parte, a Lee Kuan Yew, que foi primeiro-ministro durante 31 anos (de 1959 a 1990) e cuja morte, no ano passado, reuniu boa parte da ilha em uma homenagem multitudinária. As ideias e as iniciativas tomadas por esse líder, formado na Inglaterra, na Universidade de Cambridge, continuam a orientar a vida do país – o atual primeiro-ministro é seu filho –, e até mesmo os críticos mais severos admitem que sua energia e sua inteligência foram decisivas para a notável modernização desta sociedade. O sistema que ele criou era autoritário, embora mantivesse a aparência de uma democracia; mas, diferentemente de outras ditaduras, nem o autocrata nem os seus colaboradores se aproveitaram do poder para enriquecer, e o Judiciário parece ter funcionado de forma independente durante todos esses anos, punindo severamente os casos – não muito frequentes – de corrupção que chegavam às suas mãos. O partido de Lee Kuan Yew ganhava todas as eleições sem necessidade de fraudes e sempre permitia que uma pequena e figurativa oposição participasse do Parlamento, um costume que continua em vigor, pois são apenas cinco, hoje em dia, os parlamentares de oposição. A imprensa é relativamente livre, o que significa que pode fazer críticas às políticas do regime, mas não defender ideologias revolucionárias, e há leis que proíbem tudo aquilo que seja ofensivo às crenças, costumes e tradições das quatro culturas e religiões que constituem Cingapura. Tal como em Londres, há um Speaker’s Corner em um parque, onde se podem realizar manifestações e fazer discursos contra o Governo, com a única condição de que seus autores sejam cidadãos do país.

O milagre cingapuriano não teria sido possível sem duas medidas essenciais que Lee Kuan Yew – em seus primeiros anos de vida política, ele se dizia socialista, embora adversário dos comunistas – colocou em prática logo depois de assumir o poder: uma educação pública de altíssimo nível, à qual se destinou, durante muitos anos, um terço do orçamento nacional, e uma política habitacional que permitiu que a imensa maioria da população tenha casa própria. Empenhou-se, também, em pagar salários elevados para os funcionários públicos, de modo a, por um lado, desestimular a corrupção na administração pública e, por outro, atrair para os serviços do Estado e para a vida política os jovens mais capacitados e mais bem preparados.

É verdade que Cingapura sempre teve um porto aberto para o restante do mundo, que estimulou o comércio internacional, mas o grande desenvolvimento econômico que o país conheceu não se deveu à sua posição geográfica privilegiada, mas sim, principalmente, à política de abertura econômica e de incentivos ao investimento estrangeiro. Enquanto os países do Terceiro Mundo, seguindo as políticas nocivas adotadas então pela CEPAL, “defendiam” suas economias contra as multinacionais, que eram mantidas à distância, e privilegiavam um desenvolvimento voltado para dentro, Cingapura se abria para o mundo e atraía as grandes empresas oferecendo-lhes uma economia totalmente aberta, um sistema bancário e financeiro eficiente e moderno, além de uma administração pública conduzida por critérios técnicos e sem corruptelas. Isso transformou a cidade-Estado em um “paraíso do capitalismo”, título que não parece envergonhar em nada os seus habitantes, muito pelo contrário. Na primeira vez que estive aqui, em 1978, fiquei encantado ao ver que neste pequeno rincão da Ásia havia uma avenida como a Orchard Street, com tantas lojas sofisticadas como as da Quinta Avenida de Nova York, da rua do Faubourg Saint-Honoré de Paris ou da região de Mayfair, em Londres. O presidente da Câmara de Comércio britânico-cingapuriana, que estava comigo, me disse: “Quando eu era criança, esta avenida que o surpreende tanto era cheia de barracos construídos sobre palafitas e tomada por lama e jacarés”.

É claro que nem tudo em Cingapura é de causar inveja, embora o sejam, com certeza, o seu sistema de saúde, acessível a todos, e suas escolas e universidades modelares, às quais os cingapurianos mais humildes têm acesso graças a um sistema bastante amplo de bolsas e de créditos. Mas é de se lamentar que ainda exista pena de morte no país, assim como o bárbaro castigo do cane (chibatadas) para os ladrões. Buscando atenuar o efeito dessa barbárie, uma pessoa me explicou que “só se aplicam 24 chibatadas no máximo”. Respondi dizendo que, infligidas por um carrasco bem treinado, 24 chibatadas são suficientes para matar, sob o horror da tortura, um ser humano.

Teria sido possível obter a formidável transformação de Cingapura sem o autoritarismo, respeitando-se rigorosamente os princípios da democracia? Estou absolutamente convencido de que sim, com a condição de que houvesse uma maioria do eleitorado que também pensasse assim e desse respaldo a um plano de governo que necessitasse de um mandato claro para levar a cabo as reformas realizadas por Lee Kuan Yew em seu país. Porque, provavelmente pela primeira vez na história, a prosperidade ou a pobreza de um país não são determinadas, em nossa época, pela geografia ou pela força, dependendo exclusivamente das políticas seguidas por seus Governos. Enquanto tantos países do mundo subdesenvolvido, desvirtuados pelo populismo, optavam pelo pior, esta pequena ilha da Ásia adotou o caminho contrário, e hoje ninguém nela morre de fome ou está desempregado involuntariamente, nem se vê impedido de ter acesso à assistência médica se for preciso, quase todos são donos das casas onde moram e, seja qual for a renda da família, qualquer um que se esforce para isso consegue receber uma formação profissional e técnica do mais alto nível. Vale a pena que os países pobres e atrasados levem esta lição em conta.

Não é o que se dizia

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(Bolsa Família) tinha 6 milhões de famílias em 2005 e agora, em 2014, antes de a crise se agravar, já tinha 14 milhões. Aumentou em um período que tinha mais emprego, que a situação econômica não estava tão ruim. Qual é a conclusão a que a gente chega? A questão da redução da pobreza no Brasil não é o que se dizia

Osmar Terra, ministro do Desenvolvimento Social

29,5 mil aderem a manifesto internacional pró-Luila

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Prestes a completar dois meses no ar, manifesto internacional em defesa de Lula na internet obteve menos adesões do que seus organizadores esperavam. Foi lançado em Nova York no último dia 20 de setembro, como parte de uma campanha em que o ex-presidente petista é apresentando no estrangeiro como “pai do Brasil moderno” e vítima de uma “caçada judicial”. Até a madrugada desta segunda-feira (4h36), a peça havia atraído 29.557 adesões (veja imagem no rodapé).

Considerando-se que o movimento pró-Lula é patrocinado pela Confederação Sindical Internacional (ITUC, na sigla em inglês), entidade que diz representar 180 milhões de trabalhadores em 162 países, o número de signatários do abaixo-assinado eletrônico não chega a impressionar. Ao contrário, frustrou seus idealizadores, que, à espera de novas adesões, abstiveram-se de trombetear os resultados.

A ITUC é presidida por João Antonio Felicio, um velho amigo de Lula. Ele é fundador do PT e ex-presidente da CUT. A central sindical brasileira, braço do petismo, mantém no cabeçalho do seu site um link que conduz formulário de adesão à causa de Lula. Não se sabe quantos dos signatários do manifesto em defesa do pajé do petismo são brasileiros. Os organizadores não esclarecem, de resto, se há algum tipo de controle para evitar a duplicidade de adesões.

O documento que acompanha o abaixo-assinado retrata a Justiça brasileira, o Ministério Público e a Polícia Federal como instâncias a serviço de “uma verdadeira caçada judicial” a um brasileiro acima de qualquer suspeita, que “somente a ditadura ousou condenar e prender, em 1980.” Presidente, Lula jactava-se de ter zelado pela autonomia da Polícia Federal e independência do Ministério Público Federal. Réu em três processos, Lula é defendido em manifesto que trata esses órgãos como antros de facciosismo.

“Agentes partidarizados do Estado, no Ministério Público, na Polícia Federal e no Poder Judiciário, mobilizaram-se com o objetivo de encontrar um crime –qualquer um– para acusar Lula e levá-lo aos tribunais”, anota o texto. “Dezenas de procuradores, delegados, fiscais da Receita Federal e até juízes atuam freneticamente nesta caçada, em cumplicidade com os monopólios da imprensa e bandos de difamadores profissionais.”

Quem lê fica com a impressão de que, excetuando-se Lula e seus devotos, o Brasil é 100% feito de cafajestes.

Sem saída e mal pagos

Há alguns anos, fiz uma consultoria para o estado de Rondônia. O governador era o atual senador Valdir Raupp. Eu tinha que fazer um diagnóstico sobre a educação no estado – e propor medidas. Desde o primeiro dia, eu era procurado por gente da educação, que, percebi, não pretendia me auxiliar, mas assuntar o que eu pensava a respeito. Evitei antecipar qualquer conclusão, mas entrevistei muita gente, do secretário de educação a professores e estudantes, pais de alunos, diretores de escolas. Li muitos relatórios e examinei muitas estatísticas.

Conversei duas ou três vezes com o governador – e senti nele sincero interesse em equacionar os problemas da educação estadual. Ele me falou da admiração que sentia pelo Brizola – e por sua obsessão pela educação.

Em quatro meses, apresentei o meu relatório, que, entre outros pontos, sustentava dois pontos:

1 – Fazer os professores voltarem para as salas de aula. Os dados indicavam que mais de 45% dos professores de Rondônia, que estavam na folha da educação, estavam alocados nas diversas secretarias e estatais do estado. Quem leu a carta de Caminha sabe do que eu estou falando. As escolas tinham déficits de professores. O secretário queria fazer um concurso e contratar professores – o que era absolutamente desnecessário.


2 – Estabelecer um amplo plano de reforma das escolas, pois os índices internacionais mostravam que não havia necessidade de novas construções, a não ser em casos específicos. Muitas escolas estavam danificadas, mas também pudessem ser reformadas. Em suma: minha proposta era no sentido de que só se construíssem novas escolas em último caso.

Meus amigos: foi um escândalo. Fiz uma reunião com professores (num auditório, sem ar condicionado!) – e eles só faltaram me linchar. Retruquei duramente, mas os professores mantiveram-se irredutíveis. Um deles, um sujeito gordo e baixo, que se apresentou como cacique de uma tribo qualquer (não lembro), me disse que preferia morrer a voltar para sala de aula. A frase era uma besteira, mas o cacique foi aplaudido. Uma professora pediu a palavra e disse que o marido tinha uma construtora especializada em construir escolas: o que será do meu marido?

Hoje vi estudantes e professores nas galerias da Câmara berrando contra a PEC dos gastos. Em São Paulo, uma passeata (uns 250 sujeitos) gritava contra a PEC dos gastos e da reforma do ensino médio. Esses meninos estudam? Os professores ensinam? Mais importante: os meninos e professores leram as duas PECs, ou apenas seguem os “brilhantes” Molon, Maria do Rosário, Benedita, Feghalli.

Não vejo saída para o Brasil.

Paisagem brasileira

 Terreiro de fazenda, Wilson Vicente

A estupidez é humana

Ignorante, grosseiro, insensível, bruto, desinteligente. O estúpido é a própria manifestação da rudeza da dura palavra que o define, e nos assusta com a dimensão que um ato seu pode tomar de uma hora para outra nos trazendo graves problemas com as suas ações. É assustador ver o mundo povoado de estúpidos, tropeçamos neles nas ruas e em todos os setores – na internet se multiplicam. A estupidez é exclusivamente humana, uma doença maldita que pode ser de estirpe ou transmitida pela ganância e pelo egoísmo

Todo mundo tem a capacidade – e até certo direito – de ser estúpido vez ou outra. A possibilidade de sê-lo em algum momento de raiva e embotamento. Ter surtos de estupidez. Fazer uma quando acorda enviesado, e até sem se aperceber disso. Mas que seja passageiro e, depois de consciente, curado desse mal, até revertê-lo positivamente. Não pode deixar entrar no sangue.

O que anda me afligindo e creio que você, meu querido leitor, também possa estar sentindo o fato grave: estamos assistindo a gigantescos surtos de estupidez humana coletiva. Tipo um estúpidozinho novamente conseguir puxar cordões de outros estúpidozinhos iguais para segui-lo, levantando bracinhos, abanando bandeiras e rabos, dando gritinhos com palavras de ordem que a ouvidos sensíveis soam como bombas. Já vimos filmes assim que pensávamos estar superados – e eles têm um desenrolar “não bom”, “nada bom”.
Uma grande amiga ligada desde sempre a sintonias mais invisíveis e elevadas me conta que alguns mestres estão sentindo e reportando explosões esquisitas, de rompimento de energias estranhas, para assim dizer, simplificando um pouco. Preveem que já estamos passando por momentos espirituais perturbadores, para os quais só podemos escapar se nos prepararmos tentando manter corações abertos e pensamentos positivos. Aí é que está difícil.


Além do mundo invisível da energia, encafifei por identificar a estupidez em vários desses fatos entrelaçados que nos angustiam. Einstein disse que a estupidez humana certamente era infinita, talvez mais até que o próprio Universo, e vemos provas disso quando a nação mais poderosa do mundo elege em seus caminhos tortuosos um de seus mais impressionantes e significativos exemplos, 

Donald Trump. Uma sombra moral que vomita preconceitos e que desenterra o que de mais horroroso pode haver, o moralismo, a intolerância, a incongruência, a divisão, o ódio, as divisões de classe, de gênero, de religião.

Ele quer muros, exclusão. Talvez até nem queira mesmo de verdade tudo isso, mas juntou milhões de pessoas que disseram sim, revelando ao mundo o perigo da estupidez, e o número de contaminados.

O historiador italiano Carlo Cipolla (1922-2000) produziu um conhecido ensaio que estuda o que chama as Leis Fundamentais da Estupidez Humana, e onde as lista com precisão que nos ajuda a saber mais, identificar, e entender porquês. Para ele, alguns estúpidos causam normalmente apenas perdas limitadas, enquanto outros conseguem causar danos impressionantes não só a um ou dois indivíduos, mas a inteiras comunidades ou sociedades.
“Sempre e inevitavelmente cada um de nós subestima o número de indivíduos estúpidos em circulação”;
 “A probabilidade de certa pessoa ser estúpida é independente de qualquer outra característica desta mesma pessoa”;
 “Às vezes uma pessoa estúpida é uma pessoa que causa um dano a outra pessoa ou grupo de pessoas, sem, ao mesmo tempo, obter qualquer vantagem para si ou até mesmo sofrendo uma perda”;
 “A pessoa estúpida é o tipo de pessoa mais perigoso que existe”;
“As pessoas não estúpidas subestimam sempre o potencial nocivo das pessoas estúpidas. Em particular, os não estúpidos esquecem constantemente que, em qualquer momento e lugar, e em qualquer circunstância, tratar e/ou associar-se a indivíduos estúpidos demonstra-se infalivelmente um custosíssimo erro”; “O estúpido é mais perigoso que o bandido”.
Enfim, a liberdade é azul, a fraternidade vermelha, a igualdade, branca. E a estupidez, humana e invisível. Descolorida.
Marli Gonçalves

A República foi proclamada sem povo

O sol não tinha nascido quando um grupo de jovens oficiais do Exército, rebelados contra o primeiro-ministro, Visconde de Ouro Preto, bateram na porta de uma casa modesta, próxima do Campo de Santana. Vinham pedir ao morador que os liderasse, pois faltava um general de desenvoltura política que, à frente das tropas insubordinadas, depusesse o ministério. Sem dormir por toda a madrugada, o marechal Deodoro da Fonseca sofria de dispnéia, respirando mal e até, conforme seus vizinhos, talvez não passasse do dia 15, que nascia. Os boatos eram sobre a dissolução do Exército, substituindo-o pela Guarda Nacional. Também se falava da iminente prisão de Deodoro.

Com muito esforço, e acreditando na boataria, o marechal fardou-se e tentou montar no cavalo baio a ele oferecido. Não conseguiu, ocupando então uma charrete. Tomou o rumo de São Cristóvão, onde se localizavam regimentos dispostos a aderir à rebelião. No meio do caminho, às margens do Mangue, um pequeno riacho, confraternizaram a comitiva do marechal e dois batalhões que deixavam os quartéis, marchando para a sede do ministério da Guerra, onde se encontrava reunido o ministério. Da janela do segundo andar, o primeiro-ministro dava ordens ao ajudante-geral do Exército, marechal Floriano Peixoto, para acionar as tropas legalistas e tomar de assalto os poucos canhões apontados contra o governo. Referiu-se à superioridade dos soldados fiéis, lembrando que na recém encerrada Guerra do Paraguai, em condições muito mais adversas, peças inimigas tinham sido tomadas à baioneta. Floriano, sem posição definida na rebelião, justificou a inação: “é, senhor ministro, mas no Paraguai lutávamos contra paraguaios”.

Deodoro chegou, mandou abrir os portões e agora a cavalo, irrompeu pelo pátio interno, com a tropa entusiasmada gritando “viva Deodoro! Viva Deodoro!” Como gesto peculiar adquirido na guerra, ele saudou a tropa tirando e colocando o quepe por diversas vezes. E gritando “viva o Imperador! Viva o Imperador!”


Naquela hora, já haviam chegado ao prédio do ministério partidários da proclamação da República, como Benjamin Constant, Quintino Bocaiuva, Aristides Lobo e outros, que subiram com Deodoro as escadarias para o salão onde o ministério estava reunido. Ouro Preto não se levantou e ouviu as queixas do marechal, falando na humilhação porque passava o Exército. Ardendo de febre, Deodoro repetiu diversas vezes que o Exército se sacrificara nos pântanos do Paraguai e não merecia o desprezo do governo. Em dado momento, replicou o primeiro-ministro: “Olha aqui, marechal, sacrifício muito maior estou fazendo agora ouvindo as baboseiras de Vossa Excelência!”

Dali para Deodoro anunciar que Ouro Preto estava deposto e preso foi um minuto. Aproximaram-se os republicanos e os militares, quando Benjamin Constant aproveitou para sugerir a Deodoro que melhor oportunidade não havia para proclamar a república, naquela hora. O marechal refugou, lembrou que o Imperador era seu amigo, mas ouviu que se a República fosse proclamada, o país seria governado por um ditador. Ele mesmo.

Quando todos se retiravam, Ouro Preto para a cadeia, Deodoro montou o cavalo baio e saudou de novo a tropa, agora gritando “viva a República! Viva a República!”

Decidiram os militares empreender a “marcha da vitória”, com a tropa desfilando pelas ruas do centro do Rio, com banda de música e a população ainda sem saber porque, já que a República fora proclamada sem povo, quase de madrugada. Foi preciso que à tarde, José do Patrocinio, republicano e vereador na Câmara Municipal, realizasse uma sessão solene participando aos presentes que o Brasil era uma república. A sequência do acontecido fica para outro dia.

A escola da pedrada

Com o impeachment começando a sumir na poeira da estrada, e o país se acostumando a seu novo rumo, vai se impondo a inexorável conclusão: Dilma é que era legal. Pelo menos, a julgar pelo movimento revolucionário dos ocupadores de escolas.

Às vésperas da realização do Enem, a revolução se intensificou. Com invasões a estabelecimentos de ensino em 21 estados, mais o DF (a Federação tem cinco estados alienados), os revolucionários protestam contra o ajuste fiscal proposto pelo governo Temer – PEC 241 – e contra o projeto de reforma do ensino médio.

Como quem ainda lê algo além de disparates no Facebook sabe, a ideia das mudanças no ensino médio visa tornar o currículo menos disperso, aproximando-o dos interesses específicos de cada aluno – enfim, ajudando o estudante a estudar, como acontece em vários dos países mais letrados. Também não é segredo que o projeto é um projeto – ou seja, está colocado para discussão por parte de todos que queiram discutir, pensar e outras ações não tão emocionantes quanto jogar pedra.

Desde que o governo Temer pôs o assunto na pauta, a proporção tem estado mais ou menos em uns 5% de debate e 90% de pedrada (descontando-se uns 5% de isentões – os que têm pedras nas mãos sem a coragem de jogá-las). Se você tentar discutir – no sentido nobre do termo – com algum dos críticos da reforma proposta, provavelmente ele vai gritar que querem acabar com a educação física, tornar o país sedentário e matar todos os inocentes de colesterol alto. Só lhe restará perguntar se o aguerrido interlocutor também não abre mão de moral e cívica.

O maior enigma dessa revolução, porém, está num elemento impressionante: no governo da saudosa companheira Rousseff, essa reforma hedionda já estava em discussão – sem uma única sala de aula invadida por causa disso. Não restam mais dúvidas: Dilma é que era legal.


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Mas tem também a PEC demoníaca, já apelidada por algum discípulo de João Santana de “PEC do fim do mundo”. Um voluntarioso exército propagador, com seus diligentes repetidores nas artes, nas universidades e na imprensa, espalhou que essa PEC aí é para tirar dinheiro da Educação e da Saúde. Alguns vão além, explicando que é uma manobra para beneficiar os banqueiros. Eles só não revelam que o Lobo Mau comeu a Vovó e está prestes a devorar Chapeuzinho porque a criançada revolucionária poderia não suportar tanta crueldade.

A notícia de que a PEC 241 vai tirar dinheiro da Educação e da Saúde não corresponde à realidade dos fatos. Ou, em português mais claro: é mentira. Alguns poderão argumentar que se trata de um mal-entendido, mas estarão equivocados. A turma que espalhou a historinha da PEC do fim do mundo sabe bem do que está falando – e tem plena confiança de que a multidão de inocentes úteis dispostos a repetir a falácia jamais se dará ao trabalho de ler uma linha séria sobre ela. A PEC 241 tem o único e singelo objetivo de tentar começar a arrumar a casa após o cataclismo financeiro da última década. Mas os revolucionários não vão cair nessa: a ruína da Dilma é que era legal.

Se a PEC dos homens brancos, velhos, recatados e do lar passar, a Educação e a Saúde vão ter mais dinheiro. Não é naquele futuro imaginário do pré-sal, vendido pelos companheiros como terrenos na Lua: é do médio para o curto prazo. E mais importante ainda do que a apreciação orçamentária dos setores sociais será, se tudo der miseravelmente certo, a descontaminação da gestão dessas áreas – entregues pelos heróis petistas a seus parasitas de estimação. Aí a ocupação das escolas terá de ser para protestar contra o assassinato da moral e cívica.

Os movimentos de invasão das escolas e paralisação das aulas começou no estado de São Paulo – coincidentemente governado por um partido de oposição à então presidente da República. Ainda com a saudosa Dilma no Planalto, surgiram ocupações no Rio de Janeiro e no Paraná, que apresentavam como causa a resistência ao impeachment, contra o golpe etc. Com essas palavras de ordem caindo de maduras, impôs-se a indignação nacional contra a PEC. E quando a PEC passar, será contra a perseguição à alma mais honesta do mundo.

Até que o Brasil pare de passar a mão na cabeça em quem lhe atira pedra fingindo defendê-lo.