domingo, 9 de outubro de 2016

Escoando pelo ralo

O prefeito eleito de São Paulo anuncia a venda de imóveis do município para investir em saúde. O governo do Rio de Janeiro, que já vendeu os royalties futuros, quebrou. O governo federal financiará empresas privadas para implantar o saneamento que as públicas não fizeram. É só falta de dinheiro?

A grande cidade é recente, fruto da industrialização; até então, os problemas urbanos eram restritos. A iniciativa urbanística era dos empreendedores privados, muitas vezes a família dos reis. Foi na reforma de Paris, 1853-70, que o Estado assumiu a cidade como instância pública, responsabilizando-se pelas intervenções urbanísticas, infraestruturas e serviços urbanos. No mundo desenvolvido assim continua.

Nova York, Londres e Tóquio, para ficar nas maiores cidades capitalistas, que, por óbvio, não fazem restrição à iniciativa privada, têm poderosos sistemas públicos de planejamento urbano e de controle dos serviços. Não é o nosso caso.

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No Brasil, passamos do laissez-faire da República Velha para a onipotência discursiva do Estado moderno, no papel. Na vida real, o Estado é atuante só em partes da cidade. Nas outras, sua omissão faz escassear ou inexistir o controle urbanístico, as infraestruturas e os serviços públicos, inclusive o de segurança.

Agora, está na pauta política o financiamento para a privatização de serviços de saneamento. É uma atitude que decorre da situação calamitosa em que se encontram as cidades brasileiras. Contudo, é preciso ponderar.

O saneamento é comumente considerado como água e esgoto. Mas não pode estar dissociado dos resíduos sólidos nem das águas pluviais, que, por sua vez, são relacionados com a urbanização, com a ocupação do território, com as políticas habitacionais e de mobilidade.

Ora, tudo isso é interdependente, pedindo ação coordenada e planejamento. Não é o que temos.

Mas é possível planejar nos tempos da incerteza?

É claro que o modelo do controle total, como queriam os modernos, não se sustenta. Nem é desejável. Justamente pela incerteza é que precisamos de estudo e acompanhamento daquilo que intervém na qualidade da vida urbana. Ante a complexidade da cidade contemporânea, são tais instrumentos que indicam os ajustes para a decisão política consequente. Sem eles, seguimos entregues à discricionariedade de governantes e de seus acordos pouco ou nada republicanos. E como são custosos!

A questão se acentua quando se sabe que, nesta geração, as cidades brasileiras construirão como nunca antes. Só o Rio metropolitano passará de quatro para seis milhões de moradias. (Isso sem crescimento populacional, que não haverá.) É um novo ciclo urbanístico, sem precedente.

Onde se construirão as novas moradias? Como o tratamento dos esgotos será efetivo, no horizonte de 25 anos, se estiver alheio a tal realidade?

Não é questão acadêmica: cidade compacta versus cidade expandida. O modelo atual leva ao espraiamento da cidade. Se nele persistirmos, (como a população não aumentará) os bairros consolidados perderão moradores, logo vitalidade, tornando ociosas as infraestruturas instaladas.

A ineficiência de empresas de saneamento, como no Rio, está associada ao modo como elas atuam, isoladas das demais políticas urbanas e apegadas à gestão corporativo-partidarizada. A eventual privatização superará esta segunda causa; não é pouco.

Mas a consistência de investimentos em programas setoriais de longo prazo depende da organização de sistemas de planejamento urbano e metropolitano para o indispensável redesenho das cidades ante o desafio desse novo ciclo urbanístico. A anunciada abertura de financiamento sugere um estímulo nesse sentido, ao qual possivelmente estará atento o Ministério das Cidades.

É só falta de dinheiro? Falta também Estado nas cidades brasileiras onde ele é insubstituível. E sobra onde é dispensável. Sem estudos consistentes, sem projeto para décadas, as escolhas serão aleatórias — os governantes continuarão tentando vender o que restar, os recursos escorrendo para o ralo.

Sérgio Magalhães

Doenças que atingem mais de 1 bilhão são 'esquecidas'

Enquanto a epidemia do virus zika se espalha para outras partes do mundo, centenas de milhões de pessoas em países em desenvolvimento sofrem de "doenças tropicais negligenciadas", ou DTNs.

Surtos como o de zika, emergência internacional presente hoje em mais de 60 países e territórios, vêm e vão ao longo do tempo e ganham as manchetes da imprensa. Porém, silenciosamente, mais de 1 bilhão de pessoas em 149 países sofrem com as doenças tropicais negligenciadas.

Trata-se de um grupo de doenças tropicais endêmicas, especialmente entre populações pobres da África, Ásia e América Latina.

Reflexo da falta de interesse de autoridades competentes e baixo investimento em pesquisa para tratamento ou cura, essas doenças acabam replicando, em populações atingidas, ciclos de pobreza e desenvolvimento infantil deficitário, além de impactar negativamente taxas de fertilidade, natalidade e produtividade.

Essas enfermidades assumem diferentes formas, e incluem vermes que penetram na pele, parasitas que causam cegueira e insetos que se alimentam de sangue.




A Organização Mundial de Saúde (OMS) reconhece 18 doenças como DTNs: dengue, raiva, tracoma, úlcera de Buruli, bouba, hanseníase, doença de Chagas, doença do sono, leishmaniose, teníase/neurocisticercose, dracunculíase, equinococose, trematodíases de origem alimentar, filariose linfática, oncocercose (cegueira dos rios), esquistossomose, helmintíases transmitidas pelo solo e micetoma.

No Brasil, a DTN que tem maior incidência, em números absolutos, é a dengue, segundo os Médicos Sem Fronteiras. Outra doença preocupante em território nacional é a hanseníase (lepra): o Ministério da Saúde registrou cerca de 28 mil novos casos de infecção em 2015.

Diferentemente da infecção por zika ou ebola - ou da gripe do frango e da Sars, voltando um pouco no tempo -, há pouco risco de as DTNs se espalharem pelo mundo desenvolvido.

Os atingidos se concentram em áreas rurais remotas ou aglomerados urbanos, e a voz dessas pessoas quase não se faz ouvir pelo mundo.

sábado, 8 de outubro de 2016


Os privilegiados 2,1%

Há dois tipos de pessoas que são mandadas à prisão antes de serem condenadas e terem todas as possibilidades de recurso esgotadas. Existem as pessoas presas após uma condenação em segunda instância e existem aquelas que são presas muito antes disso. No julgamento de quarta-feira, o Supremo repetiu sua decisão de fevereiro e reafirmou que a condenação em segunda instância permite o início provisório do cumprimento da pena.

Isso já ocorre em virtualmente qualquer país do mundo e também era o entendimento do Supremo até 2009. Como bem lembrou o ministro Barroso, nossa Constituição exige apenas flagrante ou decisão judicial fundamentada para a prisão. Proíbe que alguém seja considerado culpado antes do esgotamento dos recursos, mas não proíbe que inicie o cumprimento de sua pena.

Paixão

Os tratados internacionais de direitos humanos dizem o mesmo: o réu pode começar a cumprir pena após decisão de segunda instância. Segundo estudo do projeto Supremo em Números, da FGV Direito Rio, publicado com exclusividade pelo GLOBO em 2 de setembro, esse grupo de pessoas representa 0,6% do nosso falido sistema prisional. Se consideradas aquelas com pena menor e que, portanto, iriam para o ainda mais falido regime semiaberto, estamos falando de 2,1% dos presos brasileiros.

E as pessoas presas muito antes da condenação em segunda instância? Representam 40% dos presos. Muitas vezes elas sequer foram sentenciadas na primeira instância. Ou ainda nem foram denunciadas pelo Ministério Público. É muito mais complicado manter presa uma pessoa nessa situação. Mas foi a decisão do Supremo sobre os 2,1% em fevereiro que causou a maior celeuma entre grupos que pretendem lutar por um direito penal melhor.

Em sua grande maioria financiados de forma privada, eles acudiram ao tribunal como nunca fizeram antes quando estavam em jogo questões criminais de impacto nacional. O Supremo acabou tendo que repetir o julgamento de fevereiro. Qual o perfil desses dois tipos de pessoas? Os 2,1% geralmente têm advogados bons, que abusam de todos os recursos disponíveis para atrasar o cumprimento da pena e tentar a prescrição.

Os 40% geralmente são pobres representados pela Defensoria. São esquecidos na prisão mesmo antes de uma sentença. Todos torcemos para que, na próxima vez em que os 40% tiverem seu dia no Supremo, esses grupos privados reservem a eles o mesmo tratamento privilegiado dos 2,1%.

Imagem do Dia

Cachoeira Bigar, na Romênia

Reeleição, adeus

Acabar com a reeleição em todos os níveis, de prefeito a governador e a presidente da República, parece uma aspiração nacional. Menos para os que se encontram no exercício do primeiro mandato, exceção de João Dória Júnior, que antes mesmo de assumir, já afastou a hipótese. No México, nos idos do presidente Lázaro Cárdenas, chegaram a aprovar o princípio de “no reeleciones” até para o Congresso. Entre nós, não pegou nem pegará essa profilática medida, mas não deixa de ser tentador, apesar do risco aberto em favor dos corruptos, que tentariam amealhar num único mandato o dinheiro que levariam para enriquecer em longas carreiras de deputado ou senador.

Proibidas as reeleições para os segundos períodos imediatamente depois dos primeiros, como parece que virá com a reforma política, abre-se um terreno pantanoso. A maioria dos partidários do mandato único, pretendendo levar vantagem em tudo, já sustenta para os cargos executivos e legislativos cômodas prorrogações. Em vez de quatro anos para deputado, prefeito, governador e presidente, por que não cinco? Ou seis? E para os senadores, que tal dez e não oito?

Além de haver a descoincidência de eleições, uma festa para quem gosta de juntar recursos fajutos.

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O regime militar inovou. Castello Branco foi eleito para permanecer dois anos, prorrogou seu mandato por mais um. Costa e Silva era para ficar quatro anos, ficou dois e meio por conta da doença. Garrastazu Médici governou por quatro, três meses e dezessete dias. Ernesto Geisel por cinco anos. João Figueiredo por seis.

José Sarney preparou-se para seis, a Assembleia Constituinte roubou-lhe um. Fernando Collor foi cassado depois de dois e meio, Itamar Franco completou os quatro, mas Fernando Henrique criou o segundo mandato, permanecendo oito anos, através de monumental garfada na memória nacional. Lula idem, ainda que Dilma cumprisse o primeiro e só um ano do segundo. Michel Temer a gente não sabe, o país continua uma caixinha de surpresas. É preciso tomar cuidado.

Irresponsabilidade é ouro


O livre mercado pune a irresponsabilidade. O governo premia
Resultado de imagem para lula nadando em dinheiro chargeHarry Browne

Essa misteriosa reforma agrária brasileira

Há cerca de 20 anos, visitei diversos assentamentos do Incra no sul do Rio Grande do Sul. Alguns tinham barreira no acesso. Ninguém podia entrar sem autorização e a autorização era negada a curiosos. Eu era exatamente isso. Os que visitei estavam praticamente inativos, sem aproveitamento. Quase não se percebia sinal de vida. Em um deles, porém, encontrei animais de pasto e vasta extensão cultivada, prenunciando generosa safra. Pertencia a uma família de vários irmãos, procedentes da região noroeste do Estado, que trabalhavam seus lotes em conjunto. Fui conversar com eles e perguntei o motivo do contraste em relação aos demais assentados. A resposta foi surpreendente - eles plantavam. No entanto, fariam a colheita e iriam embora porque a vizinhança era perigosa. À menor desatenção, eram roubados.

***


Os órgãos destinados à Reforma Agrária no Brasil operam com a terceira geração de servidores. As duas anteriores se dedicaram a fazer a reforma agrária e hoje se beneficiam da aposentadoria. Uma terceira vai tocando o trabalho, olhos no desenvolvimento de suas vidas funcionais. Nada haveria de extraordinário nisso. É o que acontece em todo o órgão público longevo e os órgãos públicos costumam ser longevos. Depois que o Estado abre uma porta ou um guichê, dificilmente essa abertura se fecha. O que torna incomparável a atuação dos órgãos de reforma agrária, hoje convergentes no Incra, é a constrangedora falta de dados sobre aquilo que é objeto de seu oneroso trabalho, oficialmente iniciado há 54 anos com a criação da Superintendência de Reforma Agrária.

Nesse "já longo andar", nosso país optou por ir na contramão da tendência mundial, que é de concentração das propriedades rurais para torná-las mais produtivas e eficientes, com ganhos de competitividade e rentabilidade. Essa tendência, natural e inevitável, reduziu a menos de 5% a população rural dos países desenvolvidos, inclusive nas potências agrícolas com as quais o Brasil compete. Resultado? Maior renda per capita no campo, aproximando-a da renda média do meio urbano.

Para atender a esse projeto de desenvolvimento com farol voltado para o século XIX, o Brasil dedicou à Reforma Agrária uma formidável extensão de terras. "Quantos milhões de hectares?" perguntará o leitor. Pois é, meu caro. Ninguém sabe! Pelo que encontrei enquanto tentava descobrir, trata-se de algo entre 40 e 80 milhões de hectares. Por outro lado, ninguém - ninguém mesmo! - sabe o que acontece nos assentamentos. As perguntas mais naturais da sociedade, que paga a conta da "reforma agrária" e os salários dos servidores ativos e inativos do Incra, não têm resposta. O que produzem essas dezenas de milhões de hectares destinados a resolver o problema social do campo pelo tão ambicionado projeto do MST e seus assentamentos? Os técnicos sequer arriscam palpite. Provavelmente se trata de insignificante fração do que poderia ser produzido se adequadamente aproveitado. Não é por acaso que o Incra aparece, mesmo nos levantamentos do próprio governo, como um dos principais responsáveis pelo desmatamento em certas regiões do país.

Até agora, o que de mais robusto se produziu com essa política foi o MST, com aquele extraordinário suporte que as organizações internacionais a serviço do comunismo dedicam aos que abraçam estratégias e pedagogias revolucionárias. Venderam caro - e, mesmo assim, parcela significativa da sociedade comprou - a ideia de que todo brasileiro nasce titular de um direito natural a receber dos demais um lote de terra para dela fazer o que bem entender, inclusive nada.

Ah, se fosse produtivo o que já se destinou para reforma agrária! Ah se não houvesse o MST, pedagogicamente, ensinado violência, desrespeito à lei e uma ideologia de primatas! Ah, se tivesse sido aplicado em educação junto aos excedentes do meio rural tudo que foi gasto para promover algo cujo resultado não se vê nem se conhece! O Brasil estaria num outro estágio de desenvolvimento socioeconômico, regido com maior racionalidade e paz.

Percival Puggina

Nossa biodiversidade no centro de atenção

São importantes as informações de que o Ministério do Meio Ambiente e outros órgãos se mobilizam diante de notícias que levantam preocupações por alguns ângulos na Amazônia. Uma delas é a de que o desmatamento ali pode estar em tendência de aumento, enquanto outras sugerem estabilização e até queda.

Algumas instituições, entre elas o Sistema Nacional de Estimativas de Emissão de Gases do Efeito Estufa (SEEG) e o Observatório do Clima, apontam para um “sinal amarelo” na área. Após queda de 2005 a 2010, as emissões por desmatamento mantiveram o patamar até 2014: 0,82 bilhão de toneladas de gás carbônico equivalente por ano. Agora, as emissões por desmatamento fariam crescer a preocupação com o compromisso brasileiro de redução de emissões no âmbito da Convenção do Clima. De acordo com os últimos dados, o setor de mudanças no uso da terra emitiu entre 1990 e 2014 cerca de 56 bilhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente, a maior parte por desmatamento em três biomas: Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica (65% na Amazônia). Com diversas ações governamentais, as emissões médias anuais haviam caído 13% em 2014, comparadas com as do ano anterior.

O desmatamento ainda é o principal responsável pelas emissões nacionais, com 42% (amazonia.org, 3/10). Pará e Mato Grosso concentram metade das emissões. Há poucas semanas (Valor Econômico, 4/8) o Ministério Público Federal do Pará começou a investigar esquema de desmatamento que envolveria até empresa de titular de cargo oficial.

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Avanços no desmatamento significam ameaças aos 7 milhões de quilômetros quadrados (60% dos quais em território brasileiro) onde vivem 2,5 milhões de tipos de insetos, dezenas de milhares de espécies de árvores e mais de 2 mil animais entre peixes, anfíbios répteis e mamíferos – fora os desconhecidos. Em estudo recente, pesquisadores na Amazônia apontam estar ali o hábitat de ao menos 12 mil espécies de árvores (Amazônia.org, 25/7).

Várias instituições continuam a pesquisar formatos de valorizar produtos nativos da Amazônia, na tentativa de consolidar caminhos que possam contribuir para a valorização econômica e a preservação do bioma. É o caso do buriti, que vem sendo muito estudado no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) pelo cientista Afonso Rabelo e sua equipe, principalmente na área de doces e sorvetes. Com forte aceitação, da mesma forma que o pato no castamburi (buriti, castanha e tucumã). Ele lembra que só nas feiras de Manaus são comercializados 300 frutos regionais e seus produtos.

Por outro ângulo, a jornalista Camila Faria enfatiza (Eco 21, agosto 2016) que, segundo um grupo internacional de pesquisadores, “a floresta com tipos diferentes de plantas se recupera melhor aos ser submetida a um aquecimento moderado” – e isso é vital para a biodiversidade. Tem também maior potencial de adaptação a mudanças do clima – a Amazônia é um “estudo de caso”. A pesquisa Resilience of amazon forest emerges from plant trait diversityreforça “a importância da preservação da biodiversidade como instrumento de políticas públicas contra o agravamento da crise climática (...). A diversidade vegetal pode permitir que o maior ecossistema tropical do mundo se ajuste a certo nível de mudança climática – árvores que hoje são espécies dominantes, por exemplo, poderiam dar lugar a outras que seriam mais adaptadas às novas condições”.

Também é um bom sinal que se amiúdem estudos sobre a riqueza e a importância nutricional da biodiversidade brasileira. Como é o caso dos peixes, que hoje representam apenas 1,69 quilo no nosso consumo anual por habitante, enquanto os importados chegam a 2 quilos por habitante/ano – e ainda assim 55% do consumo é fora de casa. Compradores em feiras e mercados exigem que o peixe já venha sob a forma de filé.

Segundo o biólogo Fernando Reinach, “cientistas observaram que basta remover 10% da floresta de uma bacia hidrográfica para que entre 20% e 40% da biodiversidade desapareça. E essa perda de biodiversidade aumenta gradativamente, à medida que a região em volta da floresta remanescente é desmatada”. Uma conclusão: “Se queremos preservar 80% da biodiversidade da Amazônia, a fração da área que poderia ser desmatada é significativamente menor que os 20% permitidos hoje pelo Código Florestal”. Ou seja, temos fechado os olhos para um futuro muito problemático para o País; porque uma floresta intacta, localizada numa região onde o desmatamento pode ser de 20% da área total, perde entre 39% e 54% de seu valor como área de conservação da biodiversidade.

Pode ser ainda mais grave se se levar em consideração notícia recente (geodireito, 26/9) de que já haveria “estimativa maior de desmatamento”. Uma revisão do desmatamento entre 2014 e 2015 teria mostrado que o corte raso nas florestas da região alcançou 6.207 quilômetros, ou seja, 6,45% mais que os 5.831 km2 até aqui conhecidos. Essa estimativa reajustaria de 16% para 24% o aumento do corte na Amazônia, em comparação com o período de 2013 a 2014, que foi de 5.012 km2.

Há preocupações vindas também de fora. Uma ONG holandesa quer criar “um corredor gigante de biodiversidade no Brasil, com 2,6 mil quilômetros contínuos e até 40 quilômetros de largura, 10,4 milhões de hectares e 2 bilhões de árvores plantadas” (Estado, 8/9). Outros estudiosos já discutem modelos de desenvolvimento para o Brasil que tenham seu centro em projetos de valorização da biodiversidade e de novos produtos para o mercado que tenham esse ponto de partida.

É também preciso dar muita atenção ao secretário executivo da Convenção da Diversidade Biológica da ONU, o cientista brasileiro Bráulio Dias (Estado, 11/9): o Brasil pode perder o acesso a recursos genéticos para várias áreas se não ratificar o Protocolo de Nagoya, que regula essa matéria.

Filosofou no meio do passeio público

Em 1966, o prefeito Faria Lima lançou um concurso para escolher a melhor arte para as calçadas paulistanas. A vencedora foi Mirthes Bernardes, desenhista da Secretaria de Obras.

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Era um desenho geométrico, com o formato do mapa do estado de São Paulo. A ideia da artista paulista é saudada até hoje – e já lá se vão 50 anos. Com apenas três peças: uma preta, uma branca e a última dividida em diagonal, com uma metade de cada cor, Mirthes Bernardes concebeu um criativo padrão randômico. Nos anos seguintes, a prefeitura começou a pavimentar as ruas e avenidas de São Paulo com essa criação minimalista. Muitas calçadas, tanto de imóveis residenciais quanto comerciais, ainda têm o estado de São Paulo como estampa.

Corta para o Anno Domini de 2016.

Estou bordejando pelo bairro da Vila Madalena, indo do barbeiro a um restaurante durante meu horário de almoço. De um ponto a outro, segundo o GPS do meu celular, não dá 300 metros. Vou enumerando mentalmente os diferentes tipos de passeio público (se é que algum pode ser chamado assim): calçada de cerâmica, de pedrisco, de cimento, de tijolinho, de grama, estilo deck de madeira. 9 entre 10 estão fora de padrão ou com enormes valas.

Como a Vila Madalena é um bairro quase montanhoso, em alguns locais há verdadeiras calçadas-escada. E muitas sem a escada propriamente dita. Há uma espécie de cume e cada um com seus problemas na hora da mobilidade urbana.

Toco nesse tópico, não por falta de assunto, fato tão caro ao gênero crônica. Mas pela recente eleição dos chefes das municipalidades em nosso país.

Não seria o caso de, já no princípio das gestões, repensar um pouco as calçadas?

Sim, eu sei que elas são uma obrigação do dono da propriedade. Mas onde está o padrão proposto pelo Faria Lima? Ou o concurso inédito para criar um novo paradigma? A calçada é o primeiro passo para uma cidade civilizada. Por ela, os bebês flanam em seus carrinhos ao sol, os cães levam seus donos para passear, os food-trucks vendem o seu peixe, os floristas temperam a aspereza do concreto. E, nas madrugadas, o pecado monta suas barracas, posto que a vida não é feita só de virtudes.

A calçada é o oposto do Whatsapp. É nela que os cidadãos se socializam da maneira mais saudável que existe: na base do tête-à-tête. Os SMS, os e-mails são transmitidos ali em ‘real time’ e ainda não inventaram uma forma tão rápida e expressiva de se passar uma emoção. Claro que a violência resvala pelas calçadas. Mas onde não há selvageria? Até na Antártida, onde não existem nem ruas, está presente a brutalidade humana.

Contudo, num ambiente onde nota-se esmero e urbanidade a crueza tende a diminuir. Basta comparar os índices de violência do Capão Redondo aos do Quartier Latin. Obviamente há dezenas de outros fatores econômico-sociais que levam a realidades tão díspares, mas a calçada é um deles.

Carlos Castelo

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Charge O Tempo 07/10/2016

Votando e aprendendo a votar

Não tenho o hábito de comemorar derrota de adversários, porque me lembro de que também já tive as minhas, aritmeticamente, humilhantes. No entanto, o resultado das eleições é uma espécie de confirmação eleitoral do fim de uma época.

Na verdade, o marco inaugural foi o impeachment, que muitos insistem em dizer que foi produto de uma articulação conservadora e dos meios de comunicação. Os defensores dessa tese têm uma nova dificuldade. Se tudo foi mesmo manobra de uma elite reacionária, se estavam sendo punidos pelo bem que fizeram, por que o povo não saiu em sua defesa nas urnas?

Sei que a resposta imediata é esta: a Operação Lava Jato, o bombardeio da imprensa, tudo isso produz uma falsa consciência. Esse argumento é uma armadilha. Nas cartilhas, exaltamos a sabedoria popular. Vitoriosos nas urnas, é para ela que apontamos, a sabedoria popular. De repente, foram todos hipnotizados pela propaganda?


Considero que estas eleições mostraram também uma grande distância entre campanhas e eleitores. No entanto, o declínio geral do sistema político não pode servir de refúgio para esconder a própria derrota.

Em certos momentos da História é difícil delimitar a fronteira entre um movimento político e uma seita religiosa. Mesmo antes do período eleitoral, tive uma intuição do que isso representa. Estava pedalando pela Lagoa, no Rio de Janeiro, e uma jovem com fone no ouvido gritou: “Golpista!”. Saía da natação, era uma bela manhã de setembro, sorri para ela.

Na verdade, estava a caminho de casa para ler o relatório da Polícia Federal sobre as atividades de Antônio Palocci que envolvem os governos do PT. Imaginava o que iria encontrar. Ao chegar em casa pensei nela, na moça com dois fios saindo do ouvido. Se pudesse ler isso que li e tudo o que tenho lido, talvez compreendesse o que é ser dirigido por uma quadrilha de políticos e empreiteiros.

Num raciocínio de rua, pensei ao cruzar com operários da Odebrecht que trabalham nas obras do metrô na Lagoa: esses são gentis, dizem bom-dia.

Bobagem de manhã de setembro, mas uma intuição: enquanto se encarar a queda de um governo que assaltou e arruinou o Brasil como um golpe de Estado, será muito difícil deixar os limites da seita religiosa e voltar à dimensão da vida política.

Há derrotas e derrotas. A mais desagradável é quando não existe uma única voz sensata, dizendo a frase consoladora: o pior já passou.

Quem lê o que se escreve em Curitiba, não só os contos de Dalton Trevisan, mas os relatórios da Lava Jato, percebe que muita água vai rolar.

As eleições não mostraram apenas uma derrota do PT, mas revelaram a agonia do sistema político. Certamente, as de 2018 serão ainda mais decisivas para precipitar a mudança.

Esse é um dos debates que já correm por fora. Às vezes, tocando em aspectos do problema, como o foro privilegiado, o número de partidos; às vezes, discutindo uma opção mais ampla, como a mudança do próprio regime.

Certamente, um novo eixo mais importante de debate se vai travar entre as forças que apoiaram o impeachment. Não são homogêneas, têm diferentes concepções.

A derrocada do populismo de esquerda não significa que não possa surgir algo desse tipo no outro lado do espectro político. Os eleitos de agora têm uma grande responsabilidade não somente com a aspereza do momento econômico, mas também com sua própria trajetória.

Se o sistema político está em agonia, isso não significa que será renovado a partir do zero. A História não começa nunca do zero. Um novo sistema político carregará ainda muitos feridos das batalhas anteriores. E talvez alguns mortos, por curto espaço de tempo.

Creio que o alto nível de abstenção e votos nulos possa fortalecer esse debate. Embora a abstenção elevada seja um fenômeno internacional.

No mesmo dias das eleições municipais no Brasil, a Colômbia votou o referendo sobre o acordo de paz. Abstenção: 62%. Na Hungria, votou-se o projeto europeu de cotas para receber imigrantes. O número de eleitores foi inferior a 50%, invalidando a votação.

Cada lugar tem também suas causas específicas para que tanta gente não se importe com algo que nos parece.

As eleições confirmaram que a qualidade dos políticos representa muito no aumento do descrédito. Mesmo em países com voto facultativo e, relativamente, altos níveis de abstenção, isso parece confirmar-se. Uma campanha como a de Obama atraiu mais gente para as urnas nos EUA.

Depois das eleições começa a etapa em que a superação da crise econômica entra para valer na agenda. Sempre haverá quem se coloque contra todas as reformas e projete nelas todas as maldades do mundo.

Mas entre os que consideram as mudanças necessárias é preciso haver a preocupação de que os mais vulneráveis não sejam atingidos. O instrumento para atenuar o caminho é um nível de informação mais alto sobre cada movimento.

Tenho a impressão de que o Ministério da Educação compreendeu isso na reforma do ensino médio. Outros fatores contribuem para que a discussão seja adequada ao momento. Várias vozes na sociedade já se manifestam a respeito da reforma.

E, além disso, é um tema bastante debatido. Lembro-me de que em 2008 Simon Schwartzman me alertou para o absurdo do ensino médio brasileiro. Defendi a reforma e não me recordo de ninguém que defendesse o ensino médio tal como existe hoje. Por que conter o avanço?

É o tipo do momento em que é preciso esquecer diferenças partidárias. Os índices negativos estão aí para comprovar.

O Congresso pode discutir amplamente o tema, apesar da forma, por medida provisória. Mesmo as críticas sobre a retirada da obrigatoriedade da educação física devem ser consideradas – embora eu ache a educação física facultativa mais eficaz que a obrigatória. E mais agradável para o corpo.

Fernando Gabeira

Petistas se queixam de Lula e cobram a renovação antecipada da cúpula do PT

A tragédia eleitoral que se abateu sobre o PT no primeiro turno das eleições municipais deflagrou um fenômeno inédito: a autoridade de Lula começa a ser questionada por alguns de seus próprios correligionários. Por ora, as críticas soam em ambientes internos. Longe dos refletores, petistas de mostruário acusam Lula de retardar a renovação da direção partidária. O movimento de cobrança começa a ganhar os contornos de uma onda.

Um petista histórico disse ao blog que deve procurar Lula para aconselhá-lo a se afastar da rotina partidária. Avalia que o ex-presidente deveria se dedicar em tempo integral à sua defesa, liberando o partido para apressar a substituição dos seus dirigentes, a começar pelo presidente, Rui Falcão. Afirma traduzir o sentimento de um número crescente de filiados insatisfeitos com o estilo centralizador que Lula imprime à sua liderança.

Os insatisfeitos desejam antecipar de dezembro de 2017 para o início do ano a escolha dos novos dirigentes. Antes da abertura das urnas municipais, falava-se em abril. Agora, uma parte dos descontentes já defende que o calendário seja encurtado para janeiro ou fevereiro. Reivindica-se também o fim do chamado PED, o processo de eleições diretas do PT. Alega-se que esse modelo favorece a corrente majoritária de Lula, Construindo um Brasil Novo.

Nos fundões do PT, critica-se também o rol de nomes cogitados como potenciais substitutos de Rui Falcão. A lista inclui o próprio Lula e duas alternativas endossadas por ele: o ex-ministro e ex-governador da Bahia Jaques Wagner e o senador Lindbergh Farias. Em menor ou maior grau, os três estão sob a mira da Lava Jato. E os petistas desgostosos receiam que, optando por um deles, o partido acabe virando a página para trás.

O Instituto Lula virou velório

O Instituto Lula anda mais deserto que enterro de indigente. Os empresários que patrocinavam o camelô de empreiteiras disfarçado de palestrante estão na cadeia ou usando tornozeleiras. Também se evaporou a fila de reitores interessados em transformar em doutor honoris causa o Exterminador do Plural que nunca leu um livro nem aprendeu a escrever. E os candidatos que faziam o diabo para enfeitar o palanque com o campeão de votos hoje fogem de Lula como o diabo da cruz.

Como até Dilma Rousseff tem mais coisas a fazer, o réu da Lava Jato dispõe de todo o tempo do mundo para conversar com os advogados que todo santo dia dão as caras por lá. O ex-presidente que não é visitado por ninguém acorda e dorme sonhando com algum milagre capaz de livrá-lo da visita à República de Curitiba ─ e com a algum álibi que torne menos penosa a visita ao juiz Sergio Moro. Não vai conseguir nem uma coisa nem outra.

O que já estava muito ruim ficou bem pior nesta semana. O acervo de maracutaias envolvendo o chefão foi ampliado com negociatas produzidas em parceria com seu sobrinho Taiguara Rodrigues. Há poucas horas, o ministro Teori Zavascki anexou o ex-presidente ao balaio dos indiciados no Quadrilhão.

Bom nome. No caso de Lula, quadrilha é pouco. Tudo em que se mete é superlativo.

Desconfie das jabuticabas

A maioria das democracias consolidadas dá início à execução de sentenças penais após a condenação em segunda instância. No Brasil, a regra formal vinha sendo a de esperar o trânsito em julgado, isto é, até que se esgotassem todas as possibilidades de recurso.

Em termos estritamente lógicos, é possível que o Brasil estivesse fazendo o certo, e o resto do mundo relevante, o errado. Mas tendo a desconfiar de jabuticabas. Numa análise probabilística, quando a maioria dos países que "deram certo" fazem de um jeito, e o Brasil, de outro, não é pequena a chance de que sejamos nós que estamos bobeando.

Paixão

Vejo com bons olhos, portanto, a decisão do Supremo, agora com caráter vinculante, que admite a possibilidade de que réus comecem a cumprir a pena de prisão após a confirmação da condenação pela segunda instância. Como os ministros mostraram na sessão de quarta-feira (5), há um apaixonante debate jurídico acerca do alcance da presunção de inocência que pode, a meu ver, resolver-se para qualquer um dos lados. Tanto a posição mais garantista, que exige o trânsito em julgado, como a mais rigorosa, que admite a execução antecipada de pena, são racional e juridicamente defensáveis.

O que me faz pender para a segunda são considerações logísticas. O Brasil já é o país com uma das piores e mais caras Justiças do mundo. Em proporção do PIB, gastamos aqui com Judiciário/MPs/Defensorias cinco vezes mais do que a Alemanha e nove vezes mais do que a França, e é difícil sustentar que obtenhamos um produto de qualidade comparável.

Uma das muitas razões para essa discrepância é que nossas instâncias iniciais não são efetivas, tendo-se tornado pouco mais do que etapas burocráticas de processos que só se resolvem nas cortes superiores. Se queremos uma Justiça menos jabuticaba, precisamos fortalecer a primeira e a segunda instâncias. A decisão do STF caminha nesse sentido.

Começar de novo

A implosão dos grandes partidos, que já deram o que tinham que dar, para o bem e para o mal, pode ser ótima para o Brasil e a democracia.
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O que sobrar deles, as melhores partes, espera-se, poderão se juntar em novos partidos, com novas pessoas, ideias e práticas.
Nelson Motta

PT amadurece decisão de mudar nome e sigla


Repensando o partido - Assista
Após o fracasso eleitoral do dia 2, ganhou força no PT a proposta de mudança de nome e de sigla, para evitar a debandada de militantes do partido devastado pela corrupção. O ex-presidente Lula e dirigentes petistas se assustaram com o resultado das urnas, mostrando que o PT encolheu 63%, e agora avaliam a necessidade de “mudar para sobreviver”, antes que a eleição de 2018 decrete a extinção do partido.

O temor no PT é que sua extinção venha a ser precipitada com a eventual prisão de Lula. Sem ele, o PT acabaria, avaliam dirigentes.

Estimativas internas indicam que em 2018 o PT somente deve eleger 30 deputados federais, se tanto. Hoje são 58, mas elegeu 70 em 2014.

Um obstáculo para o PT mudar de nome é a autoria da proposta: o ex-ministro Tarso Genro, é de facção contrária à de Lula, que o detesta.

Manifesto pacifista

Neste início de milênio, o mundo gasta em torno de um trilhão e meio de dólares com os orçamentos militares, quase a metade pelos Estados Unidos. Ao longo do século 20, num cálculo conservador, os gastos com armas passaram de 50 trilhões de dólares. As guerras produziram, direta e indiretamente, quase 200 milhões de cadáveres, segundo o historiador Eric Hobsbawm. Conclusão: cada cadáver custou 250 mil dólares!

made from human bones by Francois Robert, a statement about the consequences of war:
Francois Robert

Isso mesmo, faça a conta: 250 mil dólares para eliminar uma pessoa. O que é mais barato, matar ou manter a vida? Quantos neste mundo conseguem amealhar 250 mil dólares ao fim de décadas de trabalho? Quantas escolas podem ser construídas com essa fortuna? Por isso, a indústria bélica busca e fomenta conflitos em todo o planeta. Os países perdem, ela sempre sai ganhando. Matar dá muito dinheiro.

Cabe aqui uma pergunta para a espécie que se ufana da inteligência e da civilização: por que ainda preferimos semear a morte que manter a vida?
O convívio - com a aceitação das diferenças inerentes a cada povo e cada cultura - é uma utopia. A violência é a realidade. Agora e sempre?

Imagem do Dia

beautiful....:

A urna eletrônica e a jabuticaba

Nelson Rodrigues diagnosticou o complexo de vira-lata que assola a nacionalidade brasileira. Seu mais perceptível sintoma é dizer que se algo só existe no Brasil e não é jabuticaba, então não serve. A urna eletrônica é característica brasileira e não é jabuticaba, logo...

Em 1970, durante o milagre brasileiro, o partido governista, a Arena, venceu as eleições com facilidade. A partir de 1974, em virtude do influxo econômico decorrente da primeira crise do petróleo, a oposição, abrigada sob a frente denominada MDB, passou a lograr resultados eleitorais cada vez melhores. Em 1978, instituiu-se o “senador biônico”, não eleito pelo povo, o que garantiu à Arena a maioria no Senado.

Charge, humor, Noé, política, Brasil, falsidade, corrupção,:

Durante a gestão do general Figueiredo, a habilidade jurídica do ministro Leitão de Abreu foi extremamente necessária para desenvolverem-se casuísmos destinados a evitar o massacre eleitoral da Arena nas eleições de 1982. Nessa época, ao fim do bipartidarismo correspondeu o surgimento de partidos com numeração nacional, bem como eleições estaduais e municipais simultâneas em todo o Brasil. A coincidência de eleições era necessária porque o voto era vinculado — isto é, o eleitor devia votar em candidatos do mesmo partido, sob pena de ver seu voto declarado nulo — o que garantiria ao PDS, sucessor da Arena, maioria no Congresso.

A criação jurídica do voto vinculado é largamente atribuída ao brilhantismo de Leitão de Abreu.

Essa concepção uniformizadora, como várias outras questões estruturais do Brasil, não foi alterada pela atual Constituição. Conservando a ideia de partidos nacionais, com numeração nacional, ela manteve a coincidência nacional de eleições e a uniformidade nacional dos mandatos quadrienais.

Assim, a cada eleição, o Brasil exibe ao mundo gigantesca manobra militar, verdadeira ordem unida nacional, a qual, reverenciando Leitão de Abreu, bate continência às instituições eleitorais do regime militar. Somente nesse contexto, somente num país tão uniformizado, pode-se usar urna eletrônica. Como tal uniformidade não tem paralelo, é quase impossível aos demais países adotá-la.

A urna eletrônica, sintoma da permanência de instituições políticas do regime militar, é segura e evita as fraudes em papel. Ela não deve ser motivo de sensação do complexo de vira-lata.

A vergonha é não ter ocorrido, desde 1988, reforma política que permita a democratização do Brasil, enterrando de vez as instituições do regime militar.

Rodrigo Lopes e Felipe Deiab 

Que não seja apenas quadro na parede

A moral é o cerne da Pátria. A corrupção é o cupim da República. República suja pela corrupção impune tomba nas mãos de demagogos, que, a pretexto de salvá-la, a tiranizam.
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Não roubar, não deixar roubar, pôr na cadeia quem roube, eis o primeiro mandamento da moral pública
Ulisses Guinarães

'Uma mulher desagradável'

Calma, leitor amigo. Como dizia Chopin, “não me compreenda tão depressa”. Já dava para suspeitar que se trata de Dilma. Só que a frase do título não é minha. Tanto que está entre aspas. É do ex-primeiro ministro de Portugal, Pedro Passos Coelho. E está no novo livro de José António Saraiva, Eu e os Políticos – lançado no último fim de semana, em Portugal, e já esgotado. Saraiva, por quase 30 anos diretor do mais importante semanário de Lisboa, o Expresso, aproveitou as intimidades com políticos importantes da terrinha para entregar amantes, desafetos e indiscrições. Sonho com algo assim no Brasil de hoje. Iria ser divertido.

Ao ver esse livro nas montras, lembrei curiosa historinha que se conta no interior de Pernambuco. Dando-se que um poeta popular escreveu cordel com título Os Canalhas de Gravata. E não vendeu nada. Foi quando um espertinho comprou toda a edição e pôs, com caneta, um acento no último “a”. Passou a ser Os Canalhas de Gravatá. E vendeu tudo. Rápido. Na feira de Gravatá, claro. Afinal, todos temos curiosidade em saber os podres dos outros. Sobretudo políticos. É algo universal.

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Voltando ao livro de Saraiva, no capítulo dedicado a Passos Coelho, consta que, para ele, Dilma seria “Uma mulher presunçosa, arrogante, desagradável, roçando a má educação”. Após o que refere gafes que cometeu por lá. Como a que se deu na reunião ibero-americana de Cádis, em novembro de 2012. Quando Dilma passou horas conversando com o presidente de Portugal, Cavaco Silva, em espanhol (!!!). Comenta Passos Coelho: “Como se não soubesse quem ele era. Cavaco estava estupefato, sem saber o que fazer: Dilma era presidente do Brasil há dois anos e não o conhecia?”.

Noutra passagem, Dilma comunicou que visitaria oficialmente o país em 10 de junho (de 2013). E não, como seria de esperar, para se juntar às comemorações do Dia de Portugal. Qualquer diplomata em princípio de carreira sabe que qualquer outro dia, em função das festas, seria melhor que aquele. É como se alguma autoridade estrangeira quisesse reunir-se, com o presidente do Brasil, em 7 de setembro. Na hora do desfile. Um vexame. Tiveram que arrumar, de última hora, helicópteros para recebe-la. Passos Coelho diz, em tom de galhofa: “Inventamos uma cimeira que não existiu, pois ela não vinha preparada para isso”.

Fosse pouco, assim que saiu do avião, Dilma decidiu reunir-se com membros do PS. Partido que fazia dura oposição ao governo. O que equivaleria, por aqui, a visitar Lula, ou Rui Falcão, antes de reunir-se com Temer. O governo luso ficou arreliadíssimo. Enquanto Dilma, nem aí. E aproveitou para degustar, logo depois, um bom bacalhau no restaurante Eleven. Feliz. Também, amigo leitor, tendo Marco Aurélio Garcia (“Top-Top”) como assessor diplomático, ia querer o quê?...

Eleições. Campeões de originalidade, nessas eleições, foram dois candidatos a vereador. Um anão, cujo lema era “Dos males o menor”. E um cidadão, Antônio Carlos Alves – que, na Justiça Eleitoral, registrou-se como Ninguém. Seu slogan era: “Ninguém merece seu voto”. Verdade pura. Ninguém mesmo. Sobretudo Ninguém.

Navegante da democracia


“A caravela vai partir. As velas estão pandas de sonho e aladas de esperança. Posto no alto da gávea pelo povo brasileiro, espero um dia poder anunciar: “alvíssaras, meu capitão! Terra à vista! À vista a terra ansiada da liberdade!” – com essas palavras, o dr. Ulysses encerrou seu discurso de anticandidato à presidência da República, no plenário da Câmara dos Deputados. Acabara de ser indicado pelo MDB para enfrentar o tonitruante general Ernesto Geisel, imposto pelo Alto Comando das Forças Armadas para substituir o general Garrastazu Médici.

Não ia adiantar nada, pois as eleições presidenciais eram indiretas, pelo Congresso, onde o candidato militar dispunha de ampla maioria, garantida pela Arena, o partido do “sim”, frente ao partido do “sim, senhor”, o MDB. Coube ao grupo mais aguerrido da oposição, os “autênticos”, lançar a proposta da anticandidatura, aproveitando a brecha da lei eleitoral que permitia aos candidatos acesso à televisão e a percorrer o país em campanha.

A primeira decepção veio antes que Ulysses Guimarães começasse a discursar: as emissoras de televisão já posicionadas saíram do ar, por decisão do mais arbitrário dos presidentes da República, o general Garrastazu Médici. Depois, vieram proibições de toda ordem, até de comparecer às praças públicas, ocupadas por cães policiais. Mesmo assim, naquela manhã, com os jornais momentaneamente sem censura, o país tomou conhecimento de uma das mais belas páginas da literatura política do país.

Ulysses Guimarães, presidente do MDB, falou durante uma hora a um auditório de início desanimado, que aos poucos recebia vergastadas de democracia, ouvindo exortações como a anistia aos presos políticos e aos exilados, eleições diretas, liberdade de imprensa, restabelecimento do habeas-corpus e devolução do poder aos civis.

Quando concluiu a oração logo intitulada do “navegar é preciso”, recebeu prolongados minutos de ovações e de entusiasmo. Tornou-se o timoneiro da oposição, entregando-lhe uma nova carta de marear. Enfrentou todo tipo de obstáculos até o restabelecimento da democracia.

Agora que se celebram cem anos do nascimento do maior dos seus combatentes, lembra-se que a travessia terminou onde começou: o dr. Ulisses desapareceu no mar, sem que seus despojos jamais tenham sido encontrados. Ainda navega na lembrança de todos nós.

Tem alguém aí?

Eu achava que detinha algum conhecimento, ao menos o suficiente para conseguir atravessar os dias identificando o terreno onde pisava. Lembro inclusive de ter sido uma criança com ares de veterana, topetuda, mas o tempo passou, a roda girou, e hoje, à medida que os dias se sucedem, mais amadora me sinto. Em algum momento dei uma cochilada e esse breve instante de distração foi suficiente para o mundo fazer um looping e me desalojar. Acordei agorinha e estou me desconhecendo. Não me transformei numa barata, e sim numa moscona — cada um com sua metamorfose. O fato é que não sei de mais nada. Estou nauseada, boiando nesse mar de opiniões contundentes. Quero voltar a pisar em terra firme, mas para isso preciso que alguém me resgate.

Tem alguém aí?

Tem alguém aí que ainda duvide de alguma coisa? Dúvida é a ausência de certeza. Não costumava ser pecado mortal ter dúvida, tínhamos várias e de certa forma era um estado de alerta positivo, nos conduzia à investigação, ao aprofundamento dos fatos e de nós mesmos. Só que para esclarecer as dúvidas era preciso paciência.
"Porque é depois de conhecermos as Estrelas, que passamos a andar pela terra com o olhar virado para o céu.":

Tem alguém aí com paciência? Paciência é a virtude de saber esperar e de ser perseverante. Esperar. Lembra esperar? É, faz tempo. Coisa que não há mais. Não há mais tempo para pensar antes de responder, pensar antes de agir, pensar antes de acusar, pensar antes de ofender. Ninguém dedica nem dois minutos a fim de se portar com civilidade, nem meio minuto para escolher entre o sim e o não. Hesitou, perdeu. Azar o seu.

Tem alguém aí com compaixão?

Compaixão é o sentimento de identificação com quem sofre ou passa por dificuldades. Muito nobre, mas para que serviria compaixão, alguém saberia dizer? Temperar saladas, evitar rugas, ganhar dinheiro? Antigamente servia para temperar amizades, evitar conflitos, ganhar paz de espírito. Pouco lucrativo, entendo.

Tem alguém aí não querendo ganhar nada com isso?

Agride-se. Persegue-se. Humilha-se. Debocha-se. Patrulha-se. Quanto mais se pega no pé, mais se ganha em estatura. Se eu flagro o outro no erro, ponto pra mim. Deixo claro que o bom sou eu. Que o certo sou eu. É a forma mais rápida de se autoelogiar sem dar muito na vista.

O que tenho visto? Muita gente eloquente, inteligente, posicionada, articulada, bem-resolvida, politizada e não aceitando vacilações: julgamento sumário para quem não estiver do meu lado. Em outra encarnação, devo ter tido carteirinha desse clube, mas como eu dizia no início do texto, dormi no ponto, não paguei todas as mensalidades, mosqueei.

Tem alguém aí que não é tão bom? Que não sabe tudo? Que está meio perdido?

Então segura aí, me espera, vou com você. Também não estou me achando.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Como se encher de popularidade

O elemento comum às eleições municipais em todo o país, mesmo nos “grotões”, é o fuzilamento com desonra do “lulopetismo”.

Na conta nacional o partido perdeu 44,8% dos vereadores e quase 2/3 das prefeituras que tinha (de 638 para 256) e foi pouco porque o PT destruiu a obra de vida de uma geração inteira e o pior ainda está por vir. Depois de passar arrasando pelo país real enquanto o baile prosseguia na Corte a ressaca da tempestade começa, finalmente, a atingir seus autores. R$ 10 bi de déficit em junho, 12,8 bi em julho, mais de 20 bi em agosto. Vai em progressão geométrica a chuva de atestados de óbito de empregos e empregadores sobre o “cartório” insuspeitíssimo da Receita Federal. A Lava-Jato, sem querer diminuir a importância da catarse que produziu, foi só um coadjuvante nesta eleição como atesta a performance do PMDB, o co-réu “não sistêmico” dela. O PT foi esmagado mesmo pelo tal “conjunto da obra” de que vinha fugindo como o diabo da cruz.

O lado potencialmente positivo é a inédita janela de oportunidade que a virulência do desastre abre. Ele amarra uns aos outros por uma necessidade básica de sobrevivência todos os prefeitos, governadores e demais atores políticos eleitos domingo ou em campo há mais tempo. Estão todos igualmente falidos e, no extremo a que chegou a causa fundamental dessa falência que é a apropriação do Estado por uma casta que não por acaso constitui o núcleo duro da militância petista, não há meio de sair da situação senão pelo desafio como nunca antes na história deste país do império incontestável do “direito adquirido” que está nos destruindo.


Repete-se a toda hora que “o sistema político brasileiro fracassou”. Essa não é a exata expressão da verdade. O sistema que está aí entregou exatamente aquilo que foi desenhado para produzir. A pedra fundamental em que se apoia é a falsificação da representação política do país real pela compra com dinheiro público dos sindicatos, dos movimentos sociais e dos partidos políticos antes mesmo de se apresentarem aos seus eleitores e simpatizantes. Segue-se, na arquitetura do desastre brasileiro, a blindagem dos governos constituídos pelos produtos dessa primeira distorção subversiva contra qualquer revide de suas vítimas, a não ser com enorme prejuízo imposto a elas próprias como está acontecendo agora. E completa o anel de ferro a decretação da irreversibilidade perpétua de toda e qualquer mamata outorgada pelas criaturas desse caldo de cultura às castas por elas cooptadas para se apropriarem do trabalho alheio sem a obrigação de oferecer nada em troca, que é o tal “direito adquirido” que essa Constituição dita “Cidadã” mas que de cidadania é a antítese, torna pétreo.

Continuar chamando as coisas pelos nomes errados é induzir ao erro de diagnóstico e excluir a mera possibilidade da cura. Daí a importância que “O Sistema” dá à “construção de narrativas” que garantam que toda leitura da realidade será distorcida e do foco absoluto que mantem no controle dos instrumentos de propagação dessas leituras distorcidas.

O que estamos assistindo nesta eleição é a pré-estreia da “disrupção” da hegemonia da “narrativa” distorcida da realidade nacional. Ela continua formalmente prevalecendo nos meios políticos, acadêmicos e artísticos, em parte da imprensa e em muito da internet “organizada” mas o resultado prático produzido pelos seus autores no poder é mais forte que qualquer versão. Agora é de sobrevivência que se trata e quem se puser à frente dela será aplastado como ficou demonstrado domingo.

A conclusão da eleição de 2016 libera o governo interino para expor o problema nacional inteiro. O Brasil está na iminência de se transformar num imenso Rio de Janeiro. Não haverá, muito em breve, dinheiro para os serviços básicos, para salários do funcionalismo nem para as aposentadorias e pensões na União, nos estados ou nos municípios. As três reformas postas sobre a mesa por enquanto são genericamente essenciais mas, como sempre, deus ou o diabo estão nos detalhes. Até onde se ventilou por enquanto, nenhuma põe dinheiro no caixa já, a não ser com mais prejuízo ainda para a mais que periclitante “galinha dos ovos de ouro” pela míngua das já esquálidas infraestruturas física, de saúde e de educação, as únicas que não estão cobertas pela intocabilidade automática que a “Constituição Cidadã” garante a tudo quanto o país oficial conseguir surrupiar aos cidadãos.

A “narrativa” falsa do momento é que as reformas necessárias são “polêmicas” porque requerem “decisões impopulares” dos governantes. O sinal claro desta eleição, no entanto, é que nada pode ser mais popular que fazer o que realmente precisa ser feito, e que quem ousar fazê-lo será carregado em triunfo pelos eleitores. Privatizar estatais feitas para o roubo e reapertar as “frouxidões deliberadas” que foram pendurando multidões de “não pobres” no sistema de assistência à pobreza, “não funcionários” nos quadros do funcionalismo, “não salários” isentos de IR nos mais polpudos salários públicos, “não trabalho” no serviço público; tudo isso garante avalanches de votos e píncaros de popularidade a quem abraça a causa e desanuvia o horizonte futuro mas não desarma a força devastadora do desastre presente. É essa e só essa a parcela do problema sensível à boa gestão que João Dória e outros candidatos vitoriosos venderam e o eleitorado comprou.

Não há como fazer o Estado voltar a um tamanho sustentável e conquistar uma popularidade ainda mais indiscutível senão desmontando os privilégios obscenos que tornam desembestados os números da Previdência que não são os que dizem respeito aos 33 milhões de quase misérias que ela remunera, mas sim os do milhãozinho de “marajás” que pesam sozinhos mais que todos os outros somados. Não há gestão que produza a mágica da necessária união nacional contra isso senão uma quase mágica gestão da política apoiada na arma invencível da verdade.

Os antiglobalistas

Hillary Clinton é a representante dos interesses da “elite globalista”. A acusação funciona como o tema articulador da campanha presidencial de Donald Trump. “Tornar os EUA grandes novamente” — o slogan do candidato republicano sintetiza uma mensagem nacionalista, que se completa com a promessa de proteção dos “empregos americanos”, supostamente ameaçados por imigrantes mexicanos e fluxos de mercadorias importadas da China e do México. Do mirante da Trump Tower, o antiglobalismo aparece como bandeira da ultradireita. De fato, porém, a aversão à globalização é uma partitura compartilhada nos polos extremos do espectro ideológico.

Trump classificou o apoio de Bernie Sanders a Hillary como uma traição aos eleitores da esquerda do Partido Democrata, conclamando-os à retribuição — ou seja, a aderir à sua campanha. São colossais as divergências entre Sanders e o magnata bufão. Entretanto, eles se encontram no coral do protecionismo. Cedendo ao assédio de Sanders nas primárias democratas, Hillary abdicou de sua antiga defesa do Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta), firmado por Bill Clinton, e reverteu sua posição favorável à Parceria Transpacífica, principal iniciativa de diplomacia econômica de Barack Obama. Na campanha eleitoral americana, o único arauto da liberdade de comércio e de investimentos é o caricatural candidato “libertário” Gary Johnson.

Ilustrações bacaníssimas do estúdio Brosmind:
Brosmind
A globalização não é um fenômeno recente. As Grandes Navegações foram seu impulso inicial, na aurora da Idade Moderna. Muito depois, na era industrial, entre as décadas finais do século XIX e a Grande Guerra, os fluxos de investimentos europeus e americanos no exterior configuraram um mercado mundial. Não ocorreu a Karl Marx ou Friedrich Engels, que naquela época fundavam o movimento comunista, produzir uma sentença condenatória da globalização. Os “pais fundadores” pensavam, pelo contrário, que o comércio e os investimentos difundiam a tecnologia moderna e as relações capitalistas de produção, semeando a terra na qual brotaria a árvore do socialismo. A esquerda só se tornou antiglobalista mais tarde, sob a influência de uma interpretação nacionalista do conceito de imperialismo.

A deriva nacionalista da esquerda é uma história essencialmente latino-americana, pontuada pelos flertes recorrentes dos comunistas com líderes populistas de diversas extrações. Hoje, contudo, o estandarte antiglobalista é empunhado também pela “nova esquerda” europeia, que se deixou seduzir pelo culto ao castrismo e ao chavismo. O grego Syriza e o espanhol Podemos traduziram sua aversão à globalização como rejeição à União Europeia, desenvolvendo um “euroceticismo” que se abranda aos poucos, sem desaparecer por completo. Jeremy Corbyn fez campanha contra o ingresso da Grã-Bretanha na Comunidade Europeia em 1975, quando era um jovem militante sindical. No referendo do Brexit, como líder esquerdista do Partido Trabalhista, simulou defender a permanência, posição partidária oficial, mas quase abandonou a cena pública e, nos seus raros discursos, reclamou das regras de livre comércio que formam os pilares da União Europeia.

Na Europa, o antiglobalismo de esquerda manifesta-se, cada vez mais nitidamente, como rejeição à Alemanha. Do lado de cá do Equador, na América Latina, a esquerda enxerga na globalização um veículo para a modernização do “imperialismo americano”. Curiosamente, mesmo se essa preferência tática deve permanecer oculta, uma vitória de Trump ajusta-se bem melhor aos interesses da esquerda que um triunfo da “globalista” Hillary.

Só o trecho “econômico” da partitura do antiglobalismo une os extremos do espectro ideológico. Sanders está proibido de aproximar-se de um Trump que anuncia a deportação de milhões de imigrantes ilegais e a construção de um muro na fronteira com o México. Corbyn não pode ultrapassar a linha divisória que o separa dos “eurocéticos” da direita xenófoba, organizados no Ukip. O Syriza e o Podemos precisam manter distância de partidos antieuropeus de extrema-direita. A acusação da esquerda é contra a livre circulação de bens e capitais, não contra o trânsito de imigrantes.

O antiglobalismo de direita não é apenas nacionalista, como o de esquerda, mas marcadamente nativista. A “nação do sangue”, referenciado na tradição e num conceito rudimentar de cultura, funciona como pedra basilar das correntes direitistas que se erguem contra a globalização. Trump descreveu-se como o “Mr. Brexit” dos EUA: de certa forma, essa é uma boa definição para o porta-bandeira da “nação de colonos”, por oposição à “nação de imigrantes”. No fim das contas, faz sentido a simpatia do magnata em relação a Vladimir Putin, um ídolo dos partidos europeus de ultradireita.

O diagnóstico dos antiglobalistas está fundamentalmente errado. As estatísticas evidenciam que globalização propiciou vastas reduções da miséria na Ásia, em especial na China, na América Latina e na África. Os principais beneficiários desse efeito foram os países mais abertos às correntes de comércio e investimentos. Entretanto, as rápidas mudanças tecnológicas impulsionadas pela globalização aprofundam as disparidades de renda e punem os trabalhadores assalariados das indústrias menos dinâmicas, particularmente na Europa e nos EUA. O antiglobalismo nutre-se desses fortes deslocamentos sociais, que atingem as bases eleitorais históricas dos partidos políticos tradicionais.

O Brexit só venceu porque atraiu os votos das velhas regiões industriais inglesas, antigas fortalezas trabalhistas. Na França, a Frente Nacional herdou parte significativa do eleitorado comunista do passado recente. No mapa do Colégio Eleitoral americano, a chance de Trump concentra-se nos eleitores brancos de baixa renda que tendiam a se inclinar para os democratas. O antiglobalismo de direita é politicamente mais eficiente que o de esquerda.

Demétrio Magnoli

Impressionante barroco

Continuo a ler o que está sendo escrito por aí com toda a desconfiança que as conclusões andam merecendo. Temos 12 milhões de desempregados no país. Alguém aí se deu conta de que isto impacta diretamente a abstenção eleitoral? Ou será que, entre comprar um biscoito de vento para a família e chacoalhar num ônibus lotado em direção à zona eleitoral de sua votação, o pobre cidadão tem alguma escolha? Democracia depende de GRANA, meus caros.

Já para os defensores do “deixa como está para ver como é que fica”, tenho uma péssima notícia: a impressão generalizada de que estas eleições foram muito melhores do que as anteriores já se disseminou por todo o eleitorado. Primeiro porque, na maioria das vezes, ganharam os “certos”, e não os “petistas”. Depois porque não houve sujeira, santinhos e o maldito horário eleitoral de uma hora seguida para nos aporrinhar. Não houve o que assistir.

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Sem o tal “financiamento das grandes empresas”, teve-se a nítida impressão de que, pela falta de agenda e interesses a defender, os políticos não tiveram bala na agulha para distorcer os fatos e as verdades com visualzinho elegante. É lógico que, para os seres pensantes como os que habitam este garboso espaço editorial, tudo o que estou afirmando é relativo e sujeito à críticas. O que estou afirmando, no entanto, não são as minhas convicções, mas as minhas impressões, baseadas no que ouvi dizer durante o pleito e depois dele.

Como publicitário que sou, minha vontade não conta na parada. O que conta é o que se afere. Com institutos de pesquisa avariados pelo pensamento manco das esquerdas e cravando 18% de margem de erro no que afirmam, fica fácil afirmar qualquer coisa, não é mesmo? O que me impressiona é que, quanto mais o eleitorado “se endireita”, mais eu descubro as viúvas vivas desse esquerdismo pixuleco, espalhadas por todo canto.

É por isso que demorou tanto tempo para o PT cair, meus caros. Não é por conta do “presidencialismo de coalisão”. É por conta da “roubocracia da comissão” mesmo. Gente até hoje fascinada pela grana distribuída pelo PT e seus aviõezinhos de quadrilha. Gente que não tem a menor ideia de onde essa grana veio, nem que quebrou o país, nem quantos biscoitos de vento compraria para a família que já comemora um ano de desemprego na fila.

Eleição não é um fim em si; é um começo. Pois vamos ver como começam os novos administradores eleitos. Desconfio que serão muito melhores que o PT no poder e suas pedaladas nas ideias e bolsos alheios. Só isso já conta muito. O PT só tem espaço mesmo na agenda da tevê vermelha da platinada, junto aos “coleguinhas de luta”. Façam suas apostas, amigos. O enterro disso aí que nós estamos vendo está próximo.

Decisão do Supremo pode ajudar brasileiros a perderem complexo de vira-lata

Nelson Rodrigues estava com a razão. Brasileiro tem mesmo complexo de vira-lata. Quer mostrar que é rico, superior, grandioso, e justamente por isso, tudo acaba dando errado. Conseguimos chegar lá, somos o quinto maior país em território e população e a oitava economia mundial, mas isso não significa nada, porque não houve a necessária distribuição de renda nem o apoio aos carentes. Pelo contrário, a riqueza total insiste em conviver com a miséria absoluta, e assim a criminalidade ficou descontrolada, as elites e até a classe média tiveram de passar a viver literalmente atrás das grades.

O pior reflexo desse complexo de vira-lata foi o surgimento dos novos ricos na política e na administração pública, todos eles prosperando à custa do erário ou da “viúva”, como se dizia antigamente. Com o surgimento do PT, houve forte esperança de que isso pudesse mudar, a política fosse moralizada, a exploração dos recursos públicos diminuísse, a vida se tornasse mais simples e igualitária, mas foi apenas um sonho.

Na verdade, o PT de Lula & Cia conseguiu ser pior do que os outros partidos, a decepção hoje é enorme, conforme ficou demonstrado nas urnas pelo número recorde de abstenções, votos brancos e nulos, embora no Brasil votar ainda seja obrigatório.

Para passar o país a limpo, a palavra mágica é “simplicidade”. Em algum ponto da curva, perdemos o rumo do interesse público, que se confunde com o interesse nacional. Governantes, parlamentares, autoridades em geral e até mesmo juízes passaram a se mover em função de interesses meramente pessoais. Não que estivessem corrompidos, na expressão mais rigorosa do termo, mas se deixaram impregnar pelo luxo das mordomias, dos cartões corporativos, dos carrões de chapa branca, dos múltiplos penduricalhos em suas remunerações.

De repente, a simplicidade se perdeu, o complexo de vira-lata passou a prevalecer, é preciso ser cada vez mais sofisticado, viajar para o exterior, ter contas bancárias em paraísos fiscais, e tudo isso na ilusão de ser possível se tornar um cidadão do mundo, sem perceber que isso não existe, é uma quimera, ninguém consegue se despir do passado e de suas origens, a menos que se torne um completo débil mental.

Diante dessa postura decepcionante e constrangedora das elites brasileiras, às quais se incorporaram grotescamente as lideranças políticas e sindicais que antes diziam lutar pelo povo, é fundamental que os milhões de brasileiros que ainda não se deixaram contaminar pelo complexo de vira-lata agora ajudem a repensar o Brasil e educar adequadamente as gerações futuras, para que se dispam dessas fantasias exóticas e passem a valorizar nosso país, nossa terra e nossa gente.

As gerações mais velhas, que ainda estão no poder, fracassaram inteiramente e estão tomando uma lição dos jovens que acreditam na meritocracia, estudaram, fizeram concursos públicos e estão hoje mostrando serviço em três instituições que honram este país – a Polícia Federal, a Procuradoria-Geral da República e a Magistratura Federal.
Precisamos nos esforçar para que o exemplo desses jovens frutifique e se espalhe pela administração pública nos três Poderes, impregnando também os colégios e as universidades. Eles representam o melhor que nós temos, é fundamental que sejam prestigiados.

Nesta quarta-feira, o gigantesco esforço deles quase caiu por terra, no julgamento do Supremo que poderia libertar todos os réus da Lava Jato e outros criminosos desprezíveis, como o ex-senador Luiz Estevão. Por apenas um voto, a Lava Jato foi preservada e milhares de réus que continuavam impunes podem se preparar para cumprir as penas a que já foram condenados.

Portanto, nem tudo está perdido. Os brasileiros têm bons motivos para comemorar.

Imagem do Dia

Ilha de Burano, Itália

O desemprego derrotou o PT

Domingo à noite, já conhecidos os principais resultados eleitorais, fui a um restaurante paulistano daqueles bem ecumênicos. Ali se cruzam políticos, economistas, profissionais liberais, executivos dos setores público e privado, um ambiente que se chamaria de elite intelectual, formadores de opinião, por aí. E sendo São Paulo, há uma clara dominância de tucanos e petistas.

Reparem: no eleitorado, o PSDB tem dado banhos seguidos. Mas o PT ainda é mais forte na elite do que no povão. Bem mais forte. Por exemplo: em eleições simuladas entre alunos de ensino médio em colégios caros da cidade de São Paulo, Fernando Haddad ganhava no primeiro turno. Isso resulta do espírito socialista da juventude — hoje centrado em temas que vão da igualdade de gêneros e racial, até as famosas ciclovias — turbinado por uma verdadeira doutrinação aplicada por professores entre os quais ser do PT é até moderado.

Tudo considerado, caem na esquerda: ciclovias, parada gay, pichação, fechar avenidas aos domingos, atrapalhar tudo que é privado. Vão para a direita: 90 km/h nas avenidas marginais, abrir ruas aos carros, privatizar até cemitérios, ganhar dinheiro.

O Uber é gozado. Sendo uma multinacional americana, deveria ser odiada pela elite/esquerda, mas, sabem como é, quebra um galho, funciona tão bem — melhor deixar pra lá.

Já os funcionários daquele restaurante onde iniciamos esta história votaram quase todos no tucano João Doria — que, aliás, não faz parte do grupo típico de frequentadores. Mais exatamente, os garçons, caixas e cozinheiros votaram contra o PT.

Não, não são de direita. São trabalhadores, por isso são antipetistas. Simples: dois anos atrás, o restaurante tinha o dobro de funcionários. A crise foi cortando cabeças e espalhando o temor entre os que ficavam. Temor e mais serviço, do que, aliás, não reclamavam. Ao contrário, contavam animados que o movimento estava voltando.

A Lava-Jato ajudou a dizimar o PT. Mas se a economia estivesse caminhando bem, como estava na época do mensalão, o povão seria mais tolerante. Até deixaria passar a tese de que roubar era coisa de rico.

O mensalão é dinheiro de troco diante do petrolão. Também era mais difícil de entender, porque os culpados juraram inocência até o fim. Já agora, o pessoal confessa o roubo de centenas de milhões de reais e dólares, ao vivo na TV. E não dá para dizer que roubam mas fazem, ou que roubam para ajudar o partido do povo. Como dizer isso diante de 12 milhões de desempregados, inflação acima de 10% ao ano, perda do poder aquisitivo e colapso dos serviços públicos?

Dilma, Lula e sua turma tentaram dizer que foi tudo culpa da crise do imperialismo. Não colou, lógico, pois os mesmos Lula e Dilma alardeavam que seu governo sabia driblar as crises dos outros. Além disso, os mais ou menos informados viram que, dos países importantes, o Brasil é o único em recessão.

Por tudo isso, vai ser muito difícil a recuperação do PT. O primeiro passo seria reconhecer o equívoco da política econômica aplicada desde o segundo governo de Lula, quando, sob o comando de Dilma, abandonou o projeto de estabilização e pró-mercado herdado de FHC. Mas no debate do PT as primeiras vozes dizem que o partido se perdeu por ter ido demais à direita.

Ora, o partido não se desviou para a direita. Se desviou para a corrupção e para a velha politicagem brasileira — aliás também condenada pelo “não voto” (nulos, brancos e abstenções). Caímos no pior dos mundos: uma política econômica da esquerda falida, a bolivariana, tocada por um partido que aderiu às piores práticas dos velhos políticos.

Momento difícil, portanto.

A eleição deixou mais perdedores do que vencedores. Os eleitores condenaram o PT, a esquerda velha e corrupta, o modo de fazer política que nos atrasa há tanto tempo. Mas não ficou claramente de pé uma nova agenda, a das reformas liberais e pró-mercado.

O prefeito eleito de São Paulo, João Doria, falou dessa agenda. Também a defendeu o prefeito reeleito de Salvador, ACM Neto, campeão de votos.

A questão é saber se foram eleitos principalmente por causa dessa agenda ou se o fator dominante foi a onda anti-PT e antipolíticos. Saberemos ao longo dos próximos meses, dependendo, sim, da atuação desses prefeitos, mas que é limitada e local.

O serviço maior para a saída da crise depende do da atuação do presidente Temer e sua base de deputados e senadores. Sim, daqueles nos quais o povo não votou.

Complicado.

Carlos Alberto Sardenberg

Arrumação

Pat Perry's work captures the idea of having memories staying with us forever. This work shows a woman and an image of tragedy inside her head. #BID #BeforeIDieUA #BIDTucson:
 Pat Perry 
Somos quase esquizofrênicos, temos algum TOC, mania? Pode ser, mas repara quantas vezes você pratica esse verbo por dia. Acordou? Arruma a cama. Arruma a mesa para o café da manhã ou arruma no espelho essa cara amassada. Arruma uma desculpa porque o despertador não tocou ou se arruma toda ou todo para sair.

Se bobear e estiver de mau humor logo pode arrumar uma encrenca – pode até ser enquanto arruma uma vaga para estacionar o carro ou arruma a bolsa que era tanta a pressa que deixou cair aberta, de boca para baixo. Arruma a gravata, dá uma arrumada no cabelo, joga para lá, joga para cá, passa a mão. Arruma essa postura.

Se está indo arrumar emprego, boa sorte, que a coisa está difícil, e neste país já são 12 milhões fazendo a mesma coisa – e taxa de desemprego só é contada em quem sai para buscar, acredita? Imagine se calculassem a realidade – quantas pessoas estão sem trabalho, coisa que também é preciso arrumar.

As mães arrumam seus filhos para mandar às escolas, pensando que depois eles poderão se arrumar na vida. Quando eles saem, elas ficam ali arrumando a cozinha, a coisas, as gavetas, pensando na vida que lhes foi arrumada, se o marido arrumou alguma amante. Ou como vão arrumar o dinheiro para pagar as contas do mês.

Pensa que deveria se arrumar mais, o cabelo, as unhas. Ou se deveria logo arrumar as malas, ou as suas para se mandar, ou as dele, se acabou concluindo que sim, ele arrumou uma amante. Ou apenas para arrumar algum lugar para ir. Arrumar um lugar ao Sol.

Arrumação é coisa contínua, demorada. Algumas precisam ser planejadas com mais tempo, para que não tenham de ser feitas de novo, desarrumadas. Pensa se tem exemplo melhor do que o país em que vivemos, onde esperamos que parem de querer primeiro se arrumar a eles próprios, os que podem mudar as coisas, dão as ordens. Onde arrumar paciência? Onde arrumar esperança?

A hora é essa, de arrumação danada. Fosse um jardim, e o caminho seria o mesmo, o de primeiro arrancar as ervas daninhas, depois limpar a área, preparar a terra, semear, adubar e regar.

É preciso arrumar tempo para pensar sobre isso e fazer pressão.

Câmara discute novo fundo público de eleições: R$ 2.9 bi

Em reunião sobre reforma política, na Câmara, o ministro Gilberto Kassab (Comunicações), presidente do PSD, sugeriu aos líderes partidários a criação de um novo fundo público para financiar as eleições no Brasil. Em anos eleitorais, seriam repassados aos partidos R$ 2,9 bilhões em verbas públicas —o equivalente a quatro vezes o atual Fundo Partidário, orçado em 2016 em R$ 724 milhões.

Líder do PSD na Câmara, o deputado Rogério Rosso (DF) traduziu a novidade: “Não existe mais espaço para a volta do financiamento privado, a sociedade brasileira não vai aceitar isso. O que o ministro Kassab sugeriu foi que, no ano da eleição, fosse criada uma conta alocando recursos para os partidos enfrentarem as eleições.”

Resultado de imagem para fundo de campanha eleitoral
Exposta na presença dos presidentes do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), a ideia de Kassab soou como música aos ouvidos da maioria dos líderes, cujos partidos vivem uma crise de abstinência com a proibição de doações eleitorais de empresas.

Também presente à reunião, o ministro Marcos Pereira (Desenvolvimento), que preside o PRB, declarou-se simpático à proposta do colega de Eplanada. Decidido a votar alguma proposta sobre financiamento eleitoral público até o final do ano, Rodrigo Maia afirmou que será necessário esmiuçar o projeto de Kassab.

Até onde foi possível alcançar o raciocínio de Kassab, o atual Fundo Partidário não deixaria de existir. Assim, em anos eleitorais, os partidos beliscariam os cerca de R$ 2,9 bilhões do fundo novo e os R$ 724 milhões do fundo antigo. Ou seja: a cada dois anos escorreriam para as arcas partidárias algo como R$ 3,6 bilhões em verbas arrancadas compulsoriamente do bolso do contribuinte.

O presidente da Câmara defende que seja debatida também a hipótese de institucionalizar o modelo de lista fechada. Nele, os candidatos a cargos eletivos seriam definidos pelas direções das legendas.

Juntando-se as duas ideias, os dirigentes partidários chegariam a uma mistura do tipo mamão (o direito de vetar candidatos) com açúcar (o dinheiro fácil do Tesouro). E o contribuinte entraria com o bolso num sistema político que, a julgar pela quantidade de votos brancos, nulos e abstenções contabilizadas no primeiro turno da disputa municipal de 2016, ele abomina.