quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

PT, 35 anos, um pesadelo


O mundo está desabando sobre a cabeça dos petistas, com os níveis de aprovação da presidente indo para o ralo. Mesmo assim Lula faz cara de paisagem

Três décadas e meia após sua fundação, o Partido dos Trabalhadores, que prometia sonhos e veio a luz para “ser diferente de tudo o que está aí”, passou a entregar pesadelos.

Aquele militante que vendia estrelinhas, distribuía panfletos na rua e gritava “Lula lá” evaporou-se. Foi substituído por uma massa amorfa e acrítica. Ou foi cooptado, usufruindo hoje das delícias do poder.

O sonho transformador deu nisso. Em doze anos no Planalto, o PT agarrou-se à máquina do Estado. Tornou-se uma força retrógrada que tudo faz, e fará, para não perder seus privilégios.

A democracia interna deu lugar a um sistema caudilhesco de poder.

Até aqui estamos apenas diante de um processo de envelhecimento precoce de quem se pretendia diferente. E é hoje um partido pobre de ideias e com as piores práticas possíveis, que se alimenta do patrimonialismo e do clientelismo.

O processo de transmutação do Partido dos Trabalhadores foi muito maior do que isto.

Institucionalizou a corrupção, comprou partidos e parlamentares e se apropriou do patrimônio dos brasileiros. Deu uma interpretação própria ao mote “o petróleo é nosso”.

Para se perpetuar no poder, os petistas promoveram o maior estelionato eleitoral do país. Como se vivessem num mundo de conto de fadas, fizeram vistas grossas para a tempestade que se formava. Resultado: jogaram o país numa gigantesca crise política, moral e econômica.

Coletivizaram o pesadelo. A inflação invadiu o lar dos brasileiros que já começam a sofrer as consequências da “quimioterapia” aplicada pelo novo ministro da Fazenda, escalado para tentar consertar os danos causados nos governos Lula e Dilma.

A crise da Petrobras está longe - e põe distância nisso - de chegar ao fundo do poço.

O mundo está desabando sobre a cabeça dos petistas, com os níveis de aprovação da presidente indo para o ralo. Mesmo assim Lula faz cara de paisagem, puxa a orelha dos outros e produz novas pérolas, como dizer que, na dúvida, deve se confiar no “companheiro Vacari”. Ou afirmar que o xis do problema foi a transformação do PT “em um partido igual aos demais”.

São as manjadas táticas do líder petista que procura sempre nivelar todos por baixo. Não, os outros partidos não são iguais ao PT. Não consta, por exemplo, que a Rede de Marina Silva, o PSB de Eduardo Campos ou o PSDB de Aécio Neves, Mário Covas, FHC, Geraldo Alckmin ou José Serra tenham feito da roubalheira um método de governo.

E generais petistas de dez estrelas oferecem soluções mágicas. Proliferam teorias conspiratórias. De seu blog de legalidade duvidosa, José Dirceu prega a formação de uma frente para “defender a Petrobrás” e combater o “centrão” que estaria se formando no parlamento. E Tarso Genro repete a tese da “refundação do PT”.

Como diz o pensador italiano Giordano Bruno: “Que ingenuidade pedir a quem tem poder para mudar o poder”.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Melhor que Lula lidere uma grande reforma do Estado

Há momentos históricos em que o melhor é que cada força política ou social se esqueça por um momento de ser Governo ou oposição
Seria interessante saber o que o carismático ex-presidente Lula da Silva pensa sobre o momento crítico vivido pelo Brasil e como está disposto a agir. O melhor para ele seria tentar voltar ao Governo? Com ele, especialmente em seu primeiro mandato, o país se tornou objeto da inveja mundial. O Brasil era um sonho atingível.

Uma vez Lula teve razão com seu mantra “nunca neste país”, porque era verdade que o Brasil nunca tivesse estado mais visível sob as luzes do mundo, transpirando esperança e possibilidades.

O que sentiria Lula vendo que aquele Brasil, que não deixa de ser uma potência econômica por seus recursos naturais e humanos, com uma posição central no continente, vive momentos de desencanto e desinteresse pela política, começando pelo seu próprio partido, o Partido dos Trabalhadores (PT), que, em frase sua, fundou “para ser diferente” e que hoje vive sua maior crise de credibilidade, sendo igual ou mais que qualquer outro em relação a deslizes éticos? Será verdade que já pediu para que ponha em marcha a máquina de sua reeleição?

É fácil atribuir a Lula coisas que ele provavelmente não diz nem pensa. A prova dos nove seria saber, por exemplo, quais são suas autênticas relações com sua discípula, Dilma Rousseff, a qual hoje querem apresentar como alçando voo sem necessidade do sopro de seu criador, e até contra ele.

Há quem tenha chegado a dizer com certa graça que é possível que nem mesmo Lula saiba o que pensa de Rousseff, nem o que gostaria dela neste momento, se transformá-la no bode expiatório de toda esta inquietação que agita os brasileiros ou se seria melhor ajudá-la a não fracassar, para que não se pudesse um dia dizer que ele errou ao apresentá-la como a “melhor candidata” e sucessora sua, como “a mãe que cuidaria do Brasil”.

Difícil também saber o que Lula pensa sobre a renovação ou refundação do PT, já que sempre se disse que o partido não existiria sem ele, nem ele sem o partido. Isso continua a ser verdadeiro?

O ex-presidente se tornou — ou foi tornado — no contrário do bode expiatório, papel esse que cabe mais a Dilma.

O ex-sindicalista continua sendo visto, com razão ou sem ela, como o curinga, a carta mestre que permite ganhar qualquer aposta. Daí o movimento “Volta Lula”, lançado não apenas pelo PT, mas por milhões de eleitores que seguem vendo-o como salvador da pátria.

Difícil saber se é correta a notícia publicada pelo jornal Folha de S.Paulo, segundo a qual Lula já teria dado sinal verde aos seus para lançarem sua candidatura, sem que se diga que foi ele que deu a ordem.

Se o Governo Rousseff fracassar e se fizerem necessárias novas eleições antes de 2018, não há dúvida de que o grito “Volta Lula” se fará mais forte. Lula é muito Lula e mantém ainda forte credibilidade e grande poder de mobilização, em especial nas classes menos escolarizadas do país, e paradoxalmente, também entre empresários e banqueiros e outros integrantes das chamadas elites.
Leia mais o artigo de Juan Arias 

Favelas poderiam servir de modelo para cidades do futuro


Uma cidade em que as pessoas caminhem mais e dirijam menos. Uma cidade em que a vontade da comunidade seja respeitada e considerada no planejamento urbano. Parece um sonho distante?

Para um dos ambientalistas mais respeitados da Grã-Bretanha, esses elementos já estão presentes em favelas brasileiras e poderiam ser um exemplo para as cidades-verdes do futuro.

"Precisamos ser mais sensíveis à forma como as comunidades querem viver junto", diz o físico britânico (nascido na África do Sul) sir David King, presidente do grupo de inovação urbanística Future Cities Catapult.

"É um processo de construir comunidades, não destruí-las. Construir um ambiente em que as pessoas encontrem seus vizinhos, trabalhem com eles em projetos comunitários", afirma ele, em entrevista à BBC Brasil.

Mas isso não significa que as favelas sejam um modelo em todos os sentidos. O que King defende é a adoção de duas de suas mais desejáveis características: a forma de auto-organização das comunidades, evitando o planejamento "de cima para baixo", e distâncias que podem ser vencidas a pé.

King também traça um paralelo entre as favelas e as cidades medievais. Ele defende que uma cidade planejada "do zero" a partir do modelo de favelas e cidades medievais se aproximaria de Barcelona - e seria o oposto da capital econômica do Texas, Houston.

'Estou aqui pra quê? Pra derrubar FHC'


Foi esse o grito de guerra golpista que varreu a Esplanada nos Ministérios, em Brasília, em abril de 1997. O PT – e suas sublegendas, como os jurássicos PC do B, a UNE (alguém ainda se lembra dela?) e o MST – continuavam sem aceitar o resultado do primeiro turno das eleições de 1994.

Os mais velhos ainda se lembram: Lula e seus “petelhos” alegavam que o Plano Real não passava de um estelionato eleitoral.

Lula e seus “petelhos”, que denunciam hoje o golpismo, foram os que mais defenderam a derrubada da Constituição durante os oito anos do mandato de FHC. Nem os gorilas mais reacionários do golpe de 1964 chegaram a tanto.

Dois meses depois, ainda em 1997, Gilmar Mauro, outro comissário do povo do MST, insistia: “Tem que derrubar o presidente, o vice e uma tropa de safados que está lá em Brasília.”

Um mês depois, José Rainha Jr. garantia: “Se o governo não tomar jeito, cai.” Em seu delírio, ele jurava que as Forças Armadas não teriam coragem de atirar “quando todo mundo for para as ruas”.

Também em julho de 97, outro celerado do MST, João Pedro Stedile, surtaria e confundiria o Planalto com o Palácio de Inverno, na Petrogrado de 1917: “É preciso descobrir bandeiras mágicas para mobilizar o povo e rebelá-lo contra o governo, como fizeram os bolchevistas com pão, paz e terra’ que implantaram o comunismo na URSS.”

Mas foi o comissário do povo Tarso Genro que iniciou a pregação aberta do golpismo, em janeiro de 1999, quando propôs que Fernando Henrique renunciasse e enviasse emenda constitucional ao Congresso, convocando nossas eleições presidenciais.

Ele repetiria essa proposta em outro artigo na imprensa e teria apoio do comissário Lula: “Se FHC não pode cuidar do desemprego e não pode fazer o país voltar a crescer, que peça as contas”.

Em sua coluna em O Globo, Márcio Moreira Alves registraria as lamúrias de uma insuspeita viúva do golpismo, o líder do PC do B, deputado Haroldo Lima. Segundo eles, os militares “deveriam encontrar uma maneira democrática e urgente de, sem golpe, defender a pátria ameaçada”.

O jornalista encerrou sua coluna com esta afirmação: “No passado, sempre foram os políticos de extrema-direita que bateram às portas dos quartéis. Agora, as vivandeiras são comunistas. É um sinal lamentável de podridão ideológica”.

Foi em meados de 1999 que a proposta golpista saiu às ruas: Lula, os “petelhos” e suas sublegendas anunciaram a Marcha dos 100 Mil sobre Brasília com o lema “Fora já, fora daqui, o FHC e o FMI”.

Isso levou o hoje senador Aloysio Ferreira Nunes a perguntar: “Fora FHC? O que é isso? É interromper um mandato popular legitimamente conquistado com uma diferença de 15 milhões de votos.”

Em setembro de 1999, a esquizofrenia da oposição “petelha” chegou ao auge. Sem estar dentro de uma camisa de força, Gilmar Mauro do MST, vomitou: “Pela nossa vontade, teria que fazer uma limpa e convocar eleições gerais imediatamente. Fecha o Congresso, fecha a Presidência e convoca eleições”.

Já em setembro, o Grito dos Excluídos, em Aparecida, proclamava: “Ou o governo muda a política econômica ou nós mudamos o governo.”

Candidato a vice-presidente, junto com Lula, nas eleições de 98, Leonel Brizola enlouqueceria em janeiro de 2000: “Se fosse juiz num tribunal que julgasse Fernando Henrique, numa luta, num confronto entre esquerda e direita, votava por passar fogo nesse sujeito.”

Paradoxalmente, foi um, até então, respeitável jurista, Fábio Konder Comparato que revelou sua vocação para ser o Pol Pot tupiniquim. Em março de 2001, numa entrevista para o jornal do MST, ele propôs a formação de “tribunais populares” para julgar o governo FHC. Só não falou em pelotões de fuzilamento e em campos de trabalho forçado.

Como negam hoje o que pregaram ontem, Lula e os “petelhos” denunciam agora o golpismo contra Dilmandona Ruimsseff. 
Tadeu Afonso

A Petrobras não é o governo


O objetivo dos eleitores deveria ser defender a Petrobras, protegê-la da mera instrumentalização política
A popularidade da presidente Dilma Rousseff (PT) despencou nos últimos dois meses: o número dos que consideram seu governo ruim ou péssimo saltou de 24% para 44%, revelou a mais recente pesquisa do Instituto Datafolha.

Nem mesmo durante os protestos que abalaram o país em 2013, a popularidade da presidente atingiu um nível tão baixo. Isso mostra como o auge que atingiu a crise da Petrobras – com desvio de recursos bilionários, segundo investigações ainda em andamento conduzidas pelo Ministério Público e pela Polícia Federal – está sendo vinculado à figura da presidente.

Especula-se até a possibilidade de impeachment de Dilma Rousseff por improbidade administrativa. O espaço que tais especulações têm ganhado na mídia brasileira pode levar à interpretação errônea de que se trata de um passo lógico no saneamento da empresa que o brasileiro tanto identifica com seu país.

Afinal, o eleitor sabe que a saída de Graça Foster e de cinco diretores do comando da estatal não é suficiente para resolver os problemas da Petrobras. Será preciso muito mais para recuperar a credibilidade perdida.

O novo presidente, Aldemir Bendine, até então presidente e membro do Conselho de Administração do Banco do Brasil, não poderá fazer simplesmente tabula rasa. Em época de desaquecimento econômico internacional e de baixo preço do petróleo, ele terá ainda que sanar os problemas na gestão dos contratos denunciados pelas investigações anticorrupção. Ou seja: nem a Petrobras tem como recomeçar do zero, nem a conjuntura é propícia a uma rápida recuperação.

Contudo, reduzir o saneamento da Petrobras à dimensão política seria um erro, tanto para o Brasil como democracia quanto para a Petrobras como empresa.

De fato, estatais frequentemente são exploradas para atender a fins políticos; e seus tomadores de decisões sabem que, em caso de emergência, o dinheiro público estará lá para cobrir as perdas.

Para os críticos, uma ocasião oportuna para retomar o velho argumento de que a solução para a Petrobras seria uma privatização completa.

Mas isso seria simplificar demais o problema. Da mesma forma como seria errado instrumentalizar a crise da estatal para explorá-la apenas politicamente. Não resolveria o problema de ninguém.

Naturalmente é salutar o simples fato de um esquema de corrupção tão pérfido e nocivo vir à tona e ser investigado, e de seus acusados serem julgados e condenados. Também é perfeitamente correto cobrar da líder do Executivo que comunique tudo o que sabe, assim como incentivar que faça uso de seu poder como instância de controle. Isso deveria ser evidente.

Porém, como disse a própria presidente, é preciso punir as pessoas, não a empresa. Só assim seria feita justiça aos milhares de profissionais capacitados que transformaram a Petrobras em uma das maiores empresas petroleiras do mundo, atuante em 17 países, e com uma receita anual de mais de 300 bilhões de reais.

O objetivo dos eleitores deveria ser defender a Petrobras, protegê-la da mera instrumentalização política. Só assim ela será capaz de executar as mais que urgentes reformas, necessárias para tirá-la da lama ideológica em que se encontra.

Rodrigo Rimon Abdelmalack, editor-chefe da DW Brasil

Na falta de água, não falta cara de pau


O ilusionismo das palavras não vivifica a terra crestada no fundo das represas
Os governos agora, só agora, vão tomar medidas contra a escassez hídrica, popularmente conhecida como seca. Anuncia-se um festival de obras e consequentemente dinheiro saindo pelo ladrão no superfaturamento. Com a torneira fechada na Petrobras, eis aí uma boa cisterna para se recolher uns milhõezinhos de trocado como compensação. Enquanto não armam os canteiros de obras, se vire o mundo que nenhum deles é Raimundo.

A ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, até revelou a grande novidade de se fazer "parcerias republicanas", pomposo nome tirado de cartolas de marketing, para dar água ao povo. Está se vendo pela expressão que os governos não pouparão esforços para engambelar mais uma vez; tirar o deles da reta e mandar que reclamem com São Pedro, esse Cristo da politicagem.

Os governos assim prometem que serão abertas as bicas dos cofres públicos para jorrarem bilhões para os mananciais de sempre: as empreiteiras e bolsos políticos. Até lá, quando Deus quiser e os governos deixarem, haverá enfim água a custo bem mais elevado para o usuário pagar com juros astronômicos. Até lá, quando enfim serão inauguradas as tais obras, o povo que se dane.

Folhear o noticiário é um bom exercício para se livrar da culpa que mídia e governos querem impingir ao usuário, o eterno réu dos crimes dos governos. Ninguém é mais perdulário por ficar uns minutinhos a mais no banho, não escovar os dentes com apenas um copo de água, nunca pensar em recolher a água de chuva, ou não reutilizar a água da máquina de lavar para limpeza geral. As medidas que querem impor ao usuário, como castigo ou punição sem crime, são as que os governos nunca se impuseram por mero desinteresse.

Há 22 anos não se constroem reservatórios no Sudeste, região que produz 23% do PIB brasileiro. Esse novo polígono da seca seria a segunda maior economia da América do Sul só perdendo para o Brasil. Dinheiro nunca faltou, e para roubalheira nem se fala.

Sabiam há 12 anos, segundo especialistas, que haveria um grande período de seca, afetando reservatórios de abastecimento e hidrelétrico. Nada se foi pensado, pois não existe plano B, nenhuma medida tomada, porque racionamento é impopular, tira votos. Deu no que deu.

Nem ao menos fizeram o dever de proteger a população, obrigando as empresas a usarem sistemas de reuso - na quase totalidade não o fazem -, nem que proibido que fosse tirada água dos rios à vontade pelas indústrias. A lista é grande do que poderiam fazer, e não fizeram. Só na Assembleia de Minas (veja aqui) serão arquivados 45 propostas de contenção ao desperdício e conservação da água no Estado, apresentadas nos últimos quatro anos. A maior parte referente à economia a ser feitas por lava-jatos, postos de combustível e estacionamentos, indústrias e até mineradoras brigadas a implantar um sistema de bombeamento que permitiria o retorno para o território mineiro de, no mínimo, 50% do volume de água utilizado no processo de transporte do minério.

Os governos brasileiros, em particular do Sudeste, neste caso, são culpados de omissão, imperícia, negligência e imprudência, que estão no código jurídico. Sem falar na roubalheira para pintarem que estão fazendo o que nunca fizeram nem nunca farão.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Melancolia brasileira no Carnaval


O que sentem neste momento os trabalhadores decentes e sacrificados ao ver desfilar esta procissão de políticos emplumados saqueando o país?
Em menos de dois meses os brasileiros parecem ter passado da euforia ao desengano. É o que revelam os números de pesquisa do Datafolha, que mostram uma tomada de consciência nova e surpreendente do momento político e econômico vivido pelo país. Os cidadãos negam sua confiança na presidenta da República, Dilma Rousseff, e em seu Governo, reduzindo-a a 23%, meses apenas depois de a terem reeleito. Cerca de 70% já não se sentem próximos a nenhum partido.

Há momentos na história de um país — neste caso, o Brasil — em que é difícil analisar um processo de transformação tão rápido porque nele se misturam diferentes fatores e imponderáveis. E é nessas circunstâncias que substantivos e adjetivos se tornam insuficientes para expressar o que arde no coração das pessoas. Precisamos recorrer mais que nunca à semântica, porque as palavras, já banalizadas e despojadas de seu significado original, não bastam.

Dizer que o Brasil vive uma crise é dizer pouco ou talvez nada. Ressaltar que os brasileiros, depois de seus dias de glória, estão hoje preocupados com todo este rosário de notícias negativas, oferecidas a cada momento pelos meios de comunicação, como os escândalos de corrupção, a crise econômica, a perda de confiança nos governantes e a desilusão com a classe política em geral, também não diz tudo.

Que palavra extrair do dicionário para explicar o que palpita neste momento na maioria dos brasileiros, que começam a ver, incrédulos, como são fustigados pela falta de água, de energia, de esperança no futuro, pelo medo de perder o que têm e até o emprego?

Como definir o que sente a grande massa dos trabalhadores honrados, das pessoas e famílias decentes, dos que ainda não perderam os valores essenciais da vida e desejam inculcá-los em seus filhos, enquanto veem desfilar a trágica procissão de corruptos de alto coturno, os que até ontem se acreditavam intocáveis e para quem a mentira é somente um jogo permitido aos grandes?

Em rápida sondagem entre amigos e desconhecidos pertencentes a diferentes classes sociais, e depois de ter lido por estes dias centenas de cartas dos leitores enviadas aos jornais, tanto em papel quanto digitais, e dezenas de análises de cientistas políticos e sociólogos, atrevo-me a dizer que os brasileiros neste momento, mais que raiva e rebeldia, sentem este tipo de tristeza, já analisada por gregos e romanos, chamada melancolia, que Freud analisou como um “processo de luto sem a perda do objeto”.

A melancolia, analisada ao longo do tempo, é um vocábulo polissêmico, com muito significados, mas todos eles giram em torno de um mesmo conceito, que engloba de uma vez tristeza, cansaço, amargura, falta de entusiasmo e também desinteresse.

E tem um gosto amargo como a bile, à qual os antigos se referiam para descrever o estado de ânimo melancólico.

Até quase nada de tempo os brasileiros estavam convencidos de que sua vida iria melhorar. De repente se deparam com um futuro incerto, com anúncio de recessão econômica e com uma indústria em crise, demitindo milhares de trabalhadores.

O confisco da verdade


Quem disse: “(A recente campanha eleitoral foi) a mais suja. Aquela em que nossos adversários utilizaram as piores armas para tentar nos derrotar. Tentaram fraudar a vontade política da maioria, usando todos os seus recursos de comunicação para manipular, distorcer e falsear”?

Aécio Neves? Fernando Henrique Cardoso? Dilma? Lula?

Claro, Lula, no aniversário de 35 anos do PT. Quem mais ousaria tanto?

A metamorfose ambulante, como um dia Lula se apresentou, teve a cara de pau de dizer mais. Do tipo:

- O PT nasceu para ser diferente. A verdade é que foi o governo deles que tentou destruir a Petrobrás. E foi o nosso governo que a resgatou, retomou os investimentos que levaram à descoberta do pré-sal e fizeram da Petrobrás a maior produtora mundial de petróleo entre as empresas de capital aberto.

Sobre a corrupção na Petrobras, nem um pedido de desculpas.

Como a vingança veio a galope, Lula, Dilma e o PT foram obrigados a amargar, um dia depois de se reunirem em Belo Horizonte, os resultados da primeira pesquisa de opinião pública aplicada, este ano, pelo Datafolha.

Leia mais o artigo de Ricardo Noblat

Lula diz que há um golpe em marcha para depor Dilma. Bobagem!
O golpe já foi dado. Por ele, Dilma e o PT ao encenarem a farsa eleitoral do ano passado.

O 40° do covil

Perde é quem não sabe bater. A política é ao mesmo tempo a sublimação e o exercício da violência
João Santana, marqueteiro-mor do Planalto

A espada de Dâmocles que ameaça os brasileiros

O Brasil dos nossos dias vive como Dâmocles, personagem da mitologia grega que, homenageado pelo imperador Dionísio em um banquete, viu, ao olhar para cima, que uma espada pendia sobre sua cabeça, sustentada por um fio de seda. Apavorado, devolveu o lugar de honra que ocupava ao imperador. Mas aquele fio não era frágil como parecia: era o fio da responsabilidade, que arrebentaria quando a autoridade não a tivesse mais. E o cara era assim como um ex-Luiz ou Dona Dilma…

Nós, brasileiros, estamos por um fio. Vejo-me e a todos nós como passageiros de uma escuna invadida e dominada por piratas que saqueiam nossas riquezas, e nós, tomados de ira, reagimos apenas votando ferozmente… Sei não, mas acho que está passando da hora de quebrar o pau… Mas como? Na unha? Sim, enquanto as temos… E não me venham com essa história de que estou atiçando fogo. Se pudesse, eu não atiçaria, tacava… E, assim, talvez corresse o risco de ser presidente, mesmo sendo alfabetizado.

Gente, o pior dos cegos é aquele que não quer enxergar. Depois de mensalão e petrolão, histórias que não terão fim, virá coisa pior neste crescendo de desgraças que nos acomete. Parece que a natureza mostra que alguma coisa não está certa. Agora até água nos falta. E o Velho Chico sendo transposto, o que pode ser uma provocação tipo eleição de Renan, que o PT, às vezes, o tem como “o bom ladrão”…

E Dona Dilma, que não se assusta com a situação que ela mesma criou? E quem comprou ação da “roubobrás” com dinheirinho do Fundo de Garantia? Isso é perversidade… E os servidores públicos, que só deixarão pensão integral se morrerem até dia 28 de fevereiro? E a água? Sim, a água vai faltar porque ninguém fez nada para guardá-la, armazená-la.

juscelino fez Três Marias, mas, depois dele, não fizeram a barragem do rio Formoso 12 km a montante de Pirapora como programado. E ficou assim. Agora nem tico nem taco, nem água para gerar energia, muito menos, ou nada, para regularizar o leito do rio.

Aqui, em Minas Gerais, no governo de Francelino Pereira, quando o ex-deputado Carlos Eloy era secretário de Estado de Obras Públicas e a Copasa estava vinculada à secretaria, formou-se uma grande equipe dirigente da empresa, presidida pelo competente engenheiro Willian Penido, para equacionar o abastecimento de água da nossa capital e da região metropolitana. Tivesse tido sequência esse estudo de ampliação da captação do rio das Velhas e do rio Manso, não estaríamos sujeitos a morrer de sede.

Naquele tempo, foi realizada, apenas, a primeira etapa do rio Manso, cuja água passaria pelo anel hidráulico da Copasa e, juntamente com o ribeirão Serra Azul entrariam através de Betim e Contagem. O rio das Velhas viria para Belo Horizonte através dos bairros de Lourdes, Savassi, Centro etc. O problema é que, hoje, a Copasa só quer saber de lucro, água é problema de São Pedro, que, parece, anda puxando um ronco, assim como o povo brasileiro.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Adereço para o Brasil


Falência geral


Toda imprensa repercute pesquisa veiculada pela “Folha de S. Paulo” dizendo que a popularidade da presidente Dilma caiu de 42% em dezembro para 23% nessa semana. Atribuem tal retrocesso de sua popularidade às investigações do rombo na Petrobras e outros escândalos menores, onde foi mais tímido o produto do furto. Associam também essa baixa à mudez temporária da presidente. Desde que assumiu seu segundo mandato, Dilma Rousseff encastelou-se e tem evitado a imprensa ou qualquer outra forma de exposição, em razão da consciência que tem de sua inabilidade na expressão e no trato das relações políticas.

Somam-se os problemas que se acumularam num mesmo momento, muito acima da conta e para os quais sua equipe parece não ter ainda remédios disponíveis. A Dilma que venceu as eleições contra tudo e contra todos desabou-se em pouco mais de três meses. Quase foi à lona.

O Brasil está absolutamente perdido e sem direção de qual modelo econômico poderá se valer para alavancar sua manutenção. Fala-se em manutenção da máquina, do que já está aí a postos. Propor-se desenvolvimento seria um luxo, diante de tantos desacertos que comprometeram nossas perspectivas para os próximos anos. As opções disponíveis nos garantirão ficar de pé. Já não bastam os expedientes ou medidas menores, que funcionaram em períodos passados e que agora seriam paliativos sem qualquer efeito.

O sentimento demonstrado nas pesquisas divulgadas pela imprensa, ampliado pelos grupos derrotados nas últimas eleições e pelo interesse de alguns setores da produção, tudo isso conjugado, vem ajudando a consolidar nossas dificuldades. Ninguém quer passar uma borracha nesse quadro de escândalos, de corrupção, de roubalheira que vitimou a maior empresa brasileira e uma das maiores petroleiras do mundo, a Petrobras.

Ninguém em sã consciência espera que as grandes empreiteiras e fornecedores que alimentaram esse processo não sejam punidos, tenham seus diretores processados, julgados e presos se assim for a decisão da Justiça. Todos queremos o desfecho que se dará a esses processos, mais ou menos previsível se não acontecerem desvios de conduta ou manobras muito bem engendradas pela defesa desses que se apoderaram de tanto dinheiro. Espera-se ainda que a delação premiada não absolva de culpa os corrompidos, aqueles que decidiram em função da paga dos que os corromperam. São ladrões e como tal têm que ser tratados.

Dizer que a presidente conhecia completamente o que passava na Petrobras parece um exagero. O Brasil e seus problemas são muito grandes, diante inclusive da gigante Petrobrás. Nossas dimensões são continentais e o que precisamos de empreender, com a notória e absoluta falta de controles da máquina e dos recursos públicos, é transferir à iniciativa privada o máximo de responsabilidades que o Estado brasileiro hoje acumula. A corrupção, somada à ineficiência e precariedade gerencial do setor público, é tamanha que temos que reconhecer isso como saída. Não temos capacidade de gestão. O Estado, o público no Brasil são a “casa da mãe Joana”.

A corrupção vai seguir existindo, vigorosa, haja vista a participação que tiveram grandes grupos econômicos no custeio das últimas campanhas políticas, de todos os candidatos importantes, independentemente das posições que ocupavam esses mesmos candidatos. A prestação de contas oficial feita à Justiça Eleitoral é pública; é só ver. E, dizem, ainda tem o “por fora” de cujos montantes ninguém fala. Nenhum candidato recebeu tais somas para não devolver em favores, obras, interesses.

Temos que mudar o jogo enquanto é tempo. Já se furtou muito. Estamos atrasados.

A culpa é de todos nós com mandato

Se quiserem falar em impeachment devem propô-lo para todos que têm cargo eletivo, sem exceção. Se alguns merecem por ação e erro, outros por omissão ou incompetência

As forças no governo não estão dando a atenção devida aos riscos da insatisfação geral e crescente falando em impeachment. Continuam cometendo erros depois de erros, paralisando o País e irritando a população que já demonstrou estar no limite da insatisfação.

Mas aqueles que defendem impeachment, antes mesmo de haver razão clara para isso, não estão dando atenção ao que aconteceria: não pensam nos meses do processo, nem na radicalização que ocorrerá nas ruas de um lado e do outro, não olham quem tomará o lugar da presidente e quais seriam os conselheiros do novo presidente, não levam em conta o sentimento de desconfiança dos eleitores na democracia, ao saberem que o voto deles não tem mandato certo, pela segunda vez em 24 anos.

Pior, os que estamos descontentes e temos cargos de liderança e responsabilidade pública percebemos os riscos, sabemos das dificuldades de mais quatro anos à deriva e não queremos os riscos da interrupção do mandato, mas parecemos alheios, omissos ou impotentes para influenciarmos nas necessárias mudanças que permitam ao País retomar o rumo e a democracia, esperar a data certa para mudar dirigentes dentro dos prazos eleitorais vigentes.

Por esta nossa incompetência ou conivência, se quiserem falar em impeachment devem propô-lo para todos que têm cargo eletivo, sem exceção. Se alguns merecem por ação e erro, outros merecem por omissão ou incompetência.

O certo é que aqueles no governo, especialmente a presidente, dialoguem com seus críticos, percebam seus erros e busquem novo rumo para o País, e os que lhe opõem aceitem que ela tem um mandato, ofereçam e exijam alternativas. Mas se isso não acontecer, e a tormenta popular ocorrer, que sejam interrompidos todos os mandatos.

Como senador, vou continuar tentando influenciar na reorientação do País, mas se fracassar não tenho porque ser poupado. Embora a culpa seja de apenas alguns que estão no poder, especialmente a presidente, seus conselheiros, o PT e demais partidos próximos, a responsabilidade é de todos nós que temos mandato e responsabilidade.

Atual há 70 anos


5 de maio de 1945

Qualquer partido pode realizar qualquer programa, se as circunstâncias o permitem. Se não, não. Nenhum faz a felicidade do povo. Qualquer permite realizar o “progresso” social, se tal for possível, independente da colaboração partidária. A sociedade continua a mesma: uma caverna de ladrões, ou por outra, uma minoria privilegiada vivendo a expensas de uma maioria espoliada.
A espoliação da maioria, levada livremente a cabo, favorecida até pelos poderes públicos e em grande parte realizada por esses mesmo poderes, toca ao auge no Brasil deste momento. O afã de lucro, a ânsia de enriquecer de um dia para o outro, não deixa o mínimo escrúpulo na consciência dos industriais, açambarcadores, câmbio-negristas, advogados administrativos, capitalistas em geral e toda a caterva desumana da minoria gatuna que medra sob a proteção das leis. É com verdadeiro sadismo que essa corja espolia e rouba a pobre, a paupérrima população brasileira, talvez a de mais baixo padrão de vida em todas as civilizações.
Eduardo Frieiro (1889-1982)

Balançam as estruturas do poder público



Os números são trágicos e não só para o governo e sua chefe, destacando-se o mais contundente deles: em dois meses a popularidade de Dilma Rousseff caiu de 42 para 24%. O precipício ficará mais fundo se acrescentarmos que 77% dos consultados pelo Datafolha opinaram que a presidente sabia dos escândalos na Petrobras.

Importa, mais do que as causas, prospectar as consequências. A queda determinará mudanças no comportamento da presidente e do governo? Parece que não, pois certamente os baixos índices de avaliação de Dilma já eram detectados faz mais do que sessenta dias. Longe de ir adaptando posturas, conceitos e programas, ela nada fez, como não fará, em termos de alteração de posturas e de rumos. O diabo é que se mantiver as diretrizes rejeitadas pela opinião pública, mais despencará. A forma imperial de dirigir o país, julgando-se dona de todas as verdades e instância decisória única, é a responsável maior pela débâcle.

Como, pelo jeito, nada vai mudar, vale concluir que a rejeição agora constatada se transformará em repúdio. Depois, em indignação. Menos pela hipótese de imediatas manifestações virulentas nas ruas, mais pelo sentimento de desprezo da sociedade diante de quem deveria conduzi-la – o lógico é aguardar a ruptura. Continuam atuais as palavras do então presidente da Câmara, Ibsen Pinheiro, às vésperas da defenestração de Fernando Collor da presidência da República: “O que o povo quer, esta casa acaba querendo”.

Vai crescer no Congresso e fora dele a proposta do impeachment de Dilma, possibilidade cada vez menos distante, ainda que por enquanto inviável. Uma fagulha que seja, por exemplo causada pela lista do procurador-geral, poderá acender o rastilho até o barril de pólvora.

O grave na última pesquisa do Datafolha está na extensão até outras instituições do repúdio à presidente Dilma e ao seu governo. Ainda mais na iminência da divulgação do nome de deputados e senadores, mesmo os não reeleitos, mais ex-governadores, ex-ministros, empresários e altos funcionários acusados de envolvimento na lambança da Petrobras. Balançam as estruturas do poder público, como efeito da pesquisa que atingiu a presidente e seu governo, julgados ruins ou péssimos por 44% dos cidadãos ouvidos. Tivesse a consulta chegado a todos os governadores e prefeitos, não apenas a Geraldo Alckmin e Fernando Haddad, os resultados seriam quase os mesmos. Do Congresso, nem se fala. Sequer o Judiciário escaparia, apesar de mais preservado desde o mensalão e frente às expectativas do petrolão. Mesmo assim, o conjunto da obra dos tribunais e juízos inferiores não parece edificante. Sobram o Ministério Público e a Polícia Federal, insuficientes para sustentar as estruturas do poder público.

Carlos Chagas

domingo, 8 de fevereiro de 2015

E ninguém mais fala

Os fundos de pensão estão no centro da corrupção na política brasileira. O governo Lula descobriu os fundos de pensão. Em vez de demolir o núcleo de corrupção ali já existente, decidiu usá-lo
Roberto Mangabeira Unger, em 2005, mas depois seria ministro de Lula e agora de Dilma

Jamais visitou um poço de petróleo


Vamos que na véspera de uma decisão qualquer, o Neymar se contunda ou até se negue a entrar em campo. Caberá ao Dunga encontrar um substituto à altura, mas como reagirá a torcida caso ele convoque o Marcelinho, craque do basquete sem a menor intimidade com o futebol?

É o que acontece com a presidente Dilma no papel de técnico. Para presidir a Petrobrás, foi buscar Aldemir Bendine, presidente do Banco do Brasil. É claro que como no basquete e no futebol, joga-se com uma bola, mas são diversas as regras e características dos dois esportes. No mínimo, o Marcelinho vai querer jogar com as mãos e estranhará o tamanho do gol quando se aproximar da área adversária…

A substituição de Graça Foster na presidência da Petrobrás evidencia, uma vez mais, o descontrole, a falta de critério e a incapacidade do nosso Dunga do palácio do Planalto. Dilma não consegue formar uma equipe, e quando anuncia alguma escalação, deixa óbvia a confusão. Bendine por ser bom na aquisição de bancos estrangeiros, até mesmo na facilitação de crédito para os fregueses do Banco do Brasil, mas, em matéria de petróleo, confunde pré-sal com salamaleque. Terá carta-branca para que? De que forma irá recuperar a imagem da esfrangalhada empresa estatal, se jamais visitou um poço de petróleo?

Mais esse episódio mostra o pantanal em que o governo se meteu sem a menor possibilidade de recuperação. Afunda cada vez mais nas próprias contradições, primeiro comprimindo, depois aumentando preços e impostos. Suprime direitos trabalhistas, entrega-se à chantagem dos partidos e colhe derrotas no Congresso.

Dona das verdades absolutas, a presidente imagina-se imperatriz da nação, instância suprema de todas as decisões. Não consegue dialogar com os sindicatos nem com o empresariado. As bases de seu partido encontram-se em franca rebelião, ao tempo em que as forças aliadas comportam-se como adversárias. A inflação sobe, o PIB desce, ao tempo em que a fatura dos desatinos vai para onde sempre foi: as massas e a classe média. A sombra do racionamento de água e de energia só não assusta mais do que o desemprego. Convenhamos, algo necessita ser feito, mas o quê?

O exemplo do que fazer talvez venha do Vaticano. Diante da inoperância de um Papa sem condições de exercer suas funções, mas sem ânimo para enviá-lo ao Criador mais cedo do que dispõe os Sagrados Desígnios da Providência, os cardeais decidiram eleger outro. Ambos convivem, ainda que apenas um venha tentando, até com sucesso, recolocar a Igreja em seu caminho.

Não há provas?


Querem criminalizar o dinheiro honesto que o partido arrecadou. Não há nenhuma prova contra o partido
Lula, ex-presidente do Brasil

Errar calado e por calar-se

Avaliação negativa saltou de 24% em dezembro para 44% em fevereiro 
Um sintoma inconteste da impopularidade de uma pessoa é a impopularidade de suas atitudes. Um amigo comentou recentemente que esse é o quadro atual de Dilma, com um agravante: se fez assim, está errada; se fez assado, também; e erra ainda que deixe de fazer.

O momento de pôr em curso decisões impopulares é agora, não só porque a conjuntura pede, mas também porque é começo de mandato. Se as coisas melhorarem depois de 2016, terá valido a pena no cômputo eleitoral.

Reclamar da incoerência com o que se vendeu durante a campanha do ano passado é inútil. Compensa mais chorar abraçado ao travesseiro para ver se se conquistam alguns pontos na escala da tosca maturidade política.

Acontece que a situação da presidente está difícil até jogando em casa. Da parte dos tucanos e amigos, que se recusaram ao diálogo e a oferecer a outra face, era de se esperar a postura crítica tão firme como superficial: “Dilma não mudou? Avisamos que as preferências dela tendem a afundar o país”. “Dilma mudou? Estão vendo como ela mentiu na campanha?”

Já do seio petista vem o jato de impopularidade mais importante. A escolha de ministros como Joaquim Levy e Kátia Abreu abriu feridas no partido, somando-se a esses perfis pouco afeitos aos companheiros a decisão de pôr o pessoal do Lula para fora do Planalto. Foi Marta quem pôs a boca no mundo e expôs o cisma.

Na economia, o fato de Levy ser e agir como um “Chicago Boy” de pedigree não surpreende, assim como a repercussão de sua ortodoxia dentro do “PT de raiz”. Novidade é termos um ministro da Fazenda com, aparentemente, autonomia para além de mero agente da “chefa”. A que distância irá essa corda?

Entre os petistas que andam torcendo o nariz, Levy é comparado à gestão Palocci no primeiro ano do governo Lula. Quando 2003 ainda estava pela metade, foram lançados livros, artigos e manifestos de intelectuais e militantes insatisfeitos com a condução da Fazenda e frustrados diante das imensas expectativas inspiradas pela ascensão do líder operário. A diferença para a situação de agora é que, na circunstância passada, as esperanças eram realmente enormes. Já hoje a falta de expectativas é que pode sentenciar um futuro menos próspero.

O que Dilma precisa para que alguma coisa que faça seja encarada como positiva é se comunicar. Quando ela venceu, em 26 de outubro, discursou pregando a reconciliação. Parecia o primeiro passo para um novo ciclo, uma transição da gerente para a estadista. Ficou só parecendo, e a impressão só se esmaece.

O país enfrentará dias difíceis, de racionamento, escassez, talvez de desemprego. É papel do chefe de Estado vir a público nesses casos e falar, justificar suas escolhas, explicar por que um passo supostamente para, trás é o melhor caminho para dar dois a frente depois. Se ela não fizer isso, mais do que a suspeita de soberba, estará confirmada sua inaptidão em fazer política aos melhores modos republicanos.

João Gualberto Jr.

'Na dúvida, fique com o companheiro'

Lula busca reabilitar lealdades valendo-se do credo que sempre inspirou o PT. Nele, os companheiros pairam acima de tudo. Da verdade, da Justiça, do país
A prática não começou na Presidência da República. Desde sempre, ainda quando o voo de alcance máximo eram as prefeituras, o PT tratou o Estado como uma ação entre amigos. No Planalto, a coisa descambou: ampliou-se a rede de companheiros, multiplicaram-se os esquemas de financiamento, pulou-se de milhares para milhões.

Sem o charme de outrora e vendo tudo desmoronar, o partido agarra-se ao desgastado chavão do perseguido. Difícil que dê certo diante do poço sem fundo de lama em que se meteu.

Nem Lula garante o êxito da estratégia.

Ainda que encante o público interno com a sua fala sempre sedutora, Lula não consegue mais transformar água em vinho.

Transfere para os adversários os pecados cometidos pelos governos petistas e repete a ladainha de atribuir denúncias que enojam o país e escancaram os métodos espúrios do partido a uma tentativa da mídia de criminalizar o PT. Na comemoração dos 35 anos da legenda, chegou ao desplante de indicar um “ritual” da mídia contra o partido: na quinta-feira, boato; na sexta, denúncia; no domingo, massacre.

Fala como se a delação premiada de ex-diretores da Petrobras indicados por seu governo, dando conta de que o PT abocanhou nada menos de US$ 200 milhões da estatal, fosse invenção da imprensa. Como se partisse da mídia a negativa de auditores externos de assinar o balanço da petroleira, tamanho o rombo. Como se os condenados no Mensalão fossem inocentes.

Nega fatos como o crescimento do país perto de zero - até negativo no caso da indústria - ou a inflação de 7,14% nos últimos 12 meses. Meras invencionices de jornalistas.

Sem qualquer pudor, Lula compara medidas duras que terão de ser tomadas para tirar o país da UTI à quimioterapia e radioterapia às quais foi submetido. Como se a doença da economia não tivesse sido provocada pelo governo Dilma Rousseff, mas por um câncer de origem desconhecida.

A galera vai ao delírio. Mas Lula e o PT precisam mais do que isso. Necessitam da mágica, do condão que o ex não mais tem.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

A frase mais cretina do ano


Estão repetindo o mesmo ritual que vejo nesse Brasil desde 2005, quando começaram as denúncias que eles chamaram de Mensalão
Lula, ou o Flagelo de Garanhuns 

Vitória de Pirro


A luta apenas começou. E a vitória deles foi com gosto de derrota, pois sabem que vem chumbo grosso por aí
Após a batalha de Ásculo, o rei Pirro, ao felicitar seus generais depois de verificar as enormes baixas sofridas por seu exército, teria dito que com mais uma vitória daquelas estaria acabado. Desde então, a expressão "vitória de Pirro" é usada para expressar uma conquista cujo esforço tenha sido penoso demais. Uma vitória com ares de derrota.

Eis a sensação dessa vitória apertada de Dilma na reeleição. O Brasil está claramente dividido. A máquina estatal foi colocada a serviço do projeto de poder do partido. Houve denúncias de crime eleitoral, claro terrorismo com os dependentes dos programas assistencialistas, ameaça aos funcionários públicos. As baixarias usadas pela campanha da presidente, antes contra Marina e depois contra Aécio Neves, entrarão para a história como as mais sórdidas da nossa democracia.

Bem que Dilma tinha avisado que faria “o diabo” para vencer. Fez mesmo. E metade do país — a metade mais esclarecida e honesta — ficou estarrecida com o que viu. Nunca antes na história deste país se apelou tanto. O Brasil foi segregado. O “nós contra eles” virou o mantra daqueles que tentam monopolizar o discurso em defesa dos pobres, mas atendem, na verdade, aos interesses de uma elite corrupta e carcomida.

Os velhos caciques nordestinos celebraram, assim como Maluf e os mensaleiros presos na Papuda. O tirano Fidel Castro também deu pulos de alegria, assim como Nicolás Maduro. Kirchner, que vem destruindo a Argentina de forma acelerada, talvez com inveja da capacidade destrutiva do camarada venezuelano, foi outra que vibrou com a reeleição.

As urnas deram um resultado legal, apesar de denúncias de fraude que deveriam ser averiguadas. Mas qual a legitimidade de uma vitória tão apertada conquistada somente com base nas táticas mais pérfidas e imorais que existem? É uma vitória que colocou boa parte da classe trabalhadora de luto. Aqueles que pagam as contas do populismo petista. Aqueles que não suportam mais tantos impostos, tanta demagogia, tanta roubalheira.

A presidente Dilma falou em união em seu discurso de vitória, mas soa muito falso, não convence. Como ignorar todo o racha fomentado durante sua campanha indecente? Fingir que nada ocorreu é impossível. O país chega completamente partido ao meio por obra do próprio PT, que sempre precisou de inimigos e jamais colocou os interesses nacionais acima do seu projeto de poder.

Além disso, Dilma terá a verdadeira “herança maldita” agora pela frente. Não dará mais para culpar o governo de FHC ou a “crise internacional”, que faz os nossos pares emergentes crescerem o dobro da gente com a metade da taxa de inflação. O que vem por aí — e não será nada bonito de se ver — será colocado totalmente na conta da “presidenta”. Não haverá mais bodes expiatórios.

A economia, hoje estagnada, vai piorar ainda mais. A inflação, hoje muito elevada, vai subir ainda mais. O desemprego vai subir. A Petrobras, hoje pilhada, será finalmente destruída. E a roubalheira vai seguir seu curso, com a metade dos eleitores cúmplice, conivente. As conquistas sociais estarão em risco, e talvez a esquerda finalmente aprenda que não há dicotomia entre pobres e ricos, entre social e economia.

Nossas frágeis instituições serão testadas ao limite. Dilma herda um escândalo jamais visto, com evidências de desvios bilionários na maior estatal do país, e com o doleiro do próprio partido afirmando que ela e Lula sabiam de tudo. Se a denúncia for confirmada, um processo de impeachment não está descartado. Collor, hoje aliado do PT, caiu por muito menos.

Metade do Brasil finalmente acordou. Os anos de lulopetismo serviram ao menos para isso: despertar a indignação daqueles que são obrigados a pagar a fatura da irresponsabilidade, da incompetência e da corrupção do PT. Estamos cansados. Estamos de luto.

Leia mais o artigo de Rodrigo Constantino 

Chegou a hora

Muitos países latino-americanos continuam obstinadamente olhando para o outro lado quando se trata de pôr em marcha reformas fiscais que incrementem a arrecadação taxando de forma significativa os rendimentos mais elevados. Isso traria consigo não só o avanço na adoção de políticas redistributivas como sustentaria estruturas mínimas de Estado que continuam ausentes, e que vão desde ter uma administração pública recrutada profissionalmente segundo critérios de independência, mérito e competência até lograr o monopólio da violência legítima, sem deixar de lado sua liderança fundamental em questões do bem-estar onde a educação ocupa um lugar estelar. Finalmente, é a hora de formatar grandes pactos de Estado nos quais caibam não só as forças políticas, mas setores sociais e econômicos minimamente representativos

Governo Dilma-2 caminha para a autodestruição


O que já está ruim sempre pode piorar. A Petrobras e o país amanheceram de pernas para o ar nesta quinta-feira.

Ao mesmo tempo em que a Petrobras ficava sem diretoria, após a renúncia coletiva da véspera, e sem ninguém saber o que será feito dela amanhã, a Polícia Federal está fazendo neste momento, nove da manhã, uma nova operação em quatro Estados, com mandados contra mais de 60 investigados na Lava-Jato, entre eles o tesoureiro do PT, João Vaccari Neto.

Pelo ranger da carruagem desgovernada, a oposição nem precisa perder muito tempo com CPIs e pareceres para detonar o impeachment da presidente da República, que continua recolhida e calada em seus palácios, sem mostrar qualquer reação.

O governo Dilma-2 está se acabando sozinho num inimaginável processo de autodestruição.

A presidente teve todo o tempo do mundo para pensar em soluções para a Petrobras, desde que esta grande crise estourou no ano passado, mas só se dedicou à campanha pela reeleição e à montagem do seu novo ministério. Agora, tem apenas 24 horas para encontrar uma saída, antes da reunião do Conselho de Administração, que precisa nomear a nova diretoria amanhã para não deixar a empresa acéfala.

É duro e triste ter que escrever isso sobre um governo que ajudei a eleger com meu voto, mas é a realidade


Pois não é que, em meio aos enormes desafios que seu governo enfrenta em todas as áreas da vida nacional, apenas 36 dias após o início no segundo mandato, Dilma encontrou tempo para promover a primeira mudança em seu ministério trazendo de volta o inacreditável Mangabeira Unger, folclórico ideólogo que queria construir aquedutos para transportar água da Amazônia para o sertão do nordeste, como lembrou Bernardo Mello Franco?

Isolada, atônita, encurralada, sem rumo e sem base parlamentar sólida nem apoio social, contestada até dentro do seu próprio partido, como estará se sentindo neste momento a cidadã Dilma Rousseff, que faz apenas três meses foi reeleita presidente por mais quatro anos?

Ou, o que seria ainda mais grave, será que ela ainda não se deu conta do tamanho da encrenca em que se meteu?

É duro e triste ter que escrever isso sobre um governo que ajudei a eleger com meu voto, mas é a realidade. É preciso que Dilma caia nesta realidade e mude radicalmente sua forma de governar, buscando e não arrostando apoios, ouvindo pessoas fora do seu núcleo palaciano, como prometeu no discurso da vitória, antes que seja tarde demais.

Por um desses achaques do destino, foi marcada para amanhã, em Belo Horizonte, a abertura das comemorações dos 35 anos da fundação do PT, um partido que vi nascer e que vive hoje a pior crise da sua história, 12 anos depois de ter chegado ao poder central.

Está previsto um encontro reservado do ex-presidente Lula com a presidente Dilma. Cada vez mais distantes nos últimos meses, o que um terá para falar ao outro? Pode ser que a conversa comece com esta pergunta, que todos os petistas estão se fazendo: "Pois é, chegamos até aqui. E agora, camarada?"

Vida que segue.

Ricardo Kotscho

Ações Preferenciais Partidárias


O custo alto das campanhas eleitorais levou, também, à arrecadação desenfreada de dinheiro para as tesourarias dos partidos políticos. Não por coincidência, a antes lucrativa sociedade por ações, Petrobras, foi escolhida para geração desses montantes necessários à compra da base aliada do governo e aos cofres das agremiações partidárias
Gerson de Mello Almada, vice-presidente da construtora Engevix, preso em Curitiba 

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

O silêncio político e o silêncio bíblico


O silêncio não é uma flor fácil desta sociedade marcada pelo barulho e pelo estrondo, a dos eufemismos e das mentiras. Existem, no entanto, silêncios e silêncios. Há quem prefira o silêncio diante das ruidosas ameaças dos adversários, e quem o exerça para deixar a vingança nas mãos dos deuses. Neste momento complexo, em que o Brasil parece atravessar um perigoso deserto econômico, ético e social, sacudido por fantasmas de recessões e traições políticas, é estranho o silêncio das duas mulheres que há poucos meses travaram um duelo na disputa pela presidência da República.

Hoje, essas duas mulheres (Dilma Rousseff, de quem se disse que “ganhou perdendo”, e Marina Silva, que teria “perdido ganhando”) estão envoltas em um curioso silêncio. Naquele duelo, ganhou a luta a ex-guerilheira Rousseff, convencida por seus assessores e conselheiros de que só se livraria de Marina destruindo-a politicamente. A ambientalista foi assim apedrejada com as mentiras da propaganda eleitoral, que a apresentaram como um lobo feroz, disposta a tirar a comida da mesa dos pobres para dá-la aos ávidos banqueiros. Os pobres, que sabem como é amarga a fome, assustaram-se e abandonaram a heroína ambientalista apresentada como uma fera voraz das florestas. Hoje, passado o estrondo das palavras da disputa eleitoral, ambas essas mulheres de garra e que não desgostam do poder enfronharam-se no silêncio.

A presidenta Dilma passou seu primeiro mês de mandato sem falar. Quando o fez, suas palavras curiosamente surpreenderam pelos silêncios, pelo que não disse. Para falar na abertura do Congresso, preferiu enviar um representante. Não se ouviu ali sua voz. Ninguém sabe ainda o que ela pensa, por exemplo, do que prometeu nas eleições ou do que acusou os seus adversários naquela ocasião – e que hoje parece estar ela mesma levando a cabo.

O país de suas palavras-silêncio parece distante da realidade das pessoas comuns. Silencia sobre os problemas que abarrotam a mídia sobre a crise econômica, energética, hídrica e de ética na política frente ao tsunami de corrupção na Petrobras que, para ela, é difícil enxergar. Ninguém ainda se atreve a apostar, por exemplo, quanto tempo a presidenta levará para se livrar do espinho chamadoJoaquim Levy, que nomeou para sanear a economia.

Seu silêncio – enquanto pede que falem seus ministros, os mesmos que ontem obrigava a se manterem calados – deve ter um motivo político que, por enquanto, prefere não revelar. Fica, entretanto, cada dia mais claro que o Brasil que Dilma Rousseff segue desenhando não corresponde ao real. Nem sequer ao de seu criador e tutor, que hoje mais parece seu opositor. Lula está, dizem, mais assustado com os rumos do país e sua política que a calada presidenta.

Marina Silva, depois de ter perdido a batalha presidencial, também se cobriu com um estranho silêncio. Mas se o silêncio de Dilma parece político, o de Marina tem contornos bíblicos. É o que alguns chamam de “silêncio dos deuses”.

Acusada de sonhadora e pouco pragmática por seu estilo apocalíptico de defender a ecologia, Marina, filha da selva, observa em silêncio o descalabro ao qual o desprezo pelo meio ambiente está conduzindo o Brasil, que caminha para uma crise sem precedentes de falta de água e energia.

Durante a campanha, Marina bradou contra a velha política, a dos métodos fisiológicos de conceber a partilha do poder, que não leva em conta nem a ética das personagens, nem seu preparo técnico para estar à frente da governabilidade do país.

Também foi tachada de sonhadora porque, com suas exigências éticas, nunca conseguiria, se chegasse ao poder, ter uma maioria que lhe permitisse governar.

Hoje, Dilma acaba de ser derrotada no Congresso por uma maioria que está desmoronando, incapaz de continuar unida e fiel porque a velha política criticada por Marina está esgotada e necessita de uma renovação profunda, como demonstram Espanha e Grécia.

A farta lista de políticos corruptos ou corruptores do escândalo da Petrobras investigado no caso Lava Jato (que será divulgada após as alegrias do carnaval) deverá fazer sorrir tristemente a ambientalista, acusada de querer um Governo em mãos de políticos que fossem, se não santos, pelo menos decentes e não ladrões.

Leia mais o artigo de Juan Arias

Só dois para levar o sacolão?


Estamos à deriva


A saída não é jogar o comandante ao mar, nem o comandante ficar aferrado ao leme, sem reconhecer seus erros, indeciso e sem saber para onde levar o imenso barco

A leitura da imprensa e as conversas com as pessoas passam a sensação de que o País está à deriva, sem um rumo conhecido.

Os dados caóticos da economia, provocados por medidas irresponsáveis ao longo dos anos, apesar de todos os alertas esnobados pela euforia das ilusões criadas; a decepção com as mensagens otimistas que não se verificam em relação ao Pre-Sal, a Copa, os programas sociais; a perplexidade e a vergonha com a corrupção generalizada, com os escândalos repetidos, com os bilhões roubados, com a irresponsabilidade como a Petrobras, a Eletrobras e outras estatais foram administradas; o inconformismo com a traição da mudança radical do discurso eleitoral e para as medidas dos ajustes poucos dias depois.

Tudo isso passa a sensação de à deriva.

Mais grave é que não se vê alternativa. O governo está apenas começando depois de doze anos, sem a lua de mel de um novo mandato e com a perspectiva de ainda quatro longos anos.

E o Congresso, para onde a opinião pública deveria estar olhando em busca de um rumo, está demonstrando um total descaso com a crise, despreparado para enfrentar os desafios da história, perdido entre brigas menores, com um presidente que nesse momento crítico abre mão de seu papel de coordenador das forças parlamentares e prefere assumir a chefia de uma facção partidária a seu serviço.

A deriva termina provocando a tormenta no mar do povo indignado com a corrupção, a incompetência e o autoritarismo. Parece que as lideranças continuamos ignorando as mobilizações de 2013, sem percebermos que o povo que foi às ruas está esperando que uma faísca provoque mobilizações ainda maiores e com propósitos mais radicais.

O Brasil precisa encontrar um rumo por meio de um diálogo de suas lideranças que entendam a gravidade do momento, percebam a deriva em que estamos . O primeiro passo deveria ser dado pela presidente da república. Ela precisa fazer uma autocrítica, parar com a euforia, sair do marketing, pedir auxílio inclusive à oposição. E percebendo-se sinceridade e seriedade, todos devemos dialogar.

A deriva não leva a bom destino. Mas a saída não é jogar o comandante ao mar, nem o comandante ficar aferrado ao leme, sem reconhecer seus erros, indeciso e sem saber para onde levar o imenso barco chamado Brasil.

Cristovam Buarque 

A parte que cabe a Dilma e Lula


Dinheiro da corrupção pode ser localizado e, em parte, devolvido. Já as perdas, digamos, técnicas vão ficar por conta do povo
Quem começou o roubo na Petrobras, os políticos ou as empreiteiras? Para quem não tem nada a ver com isso, não faz diferença. Mas para quem está no rolo, pode fazer a diferença entre uma pena maior ou menos severa. Quem sabe até uma absolvição? — a esperança é livre aqui.

A versão dos políticos — no caso, do PT, PMDB e PP, principalmente, e de gente do governo Dilma — joga a culpa principal no cartel das empreiteiras, que existiria desde muita antes de os petistas chegarem ao poder. Fazendo combinações entre si, distribuindo as obras em reuniões secretas, acertando os preços, as empreiteiras dominavam de tal modo o negócio das grandes obras no Brasil que não havia saída senão, digamos, render-se a elas. Era isso ou não tocar os empreendimentos.

Sendo assim os fatos, com as empreiteiras se refestelando com os preços superfaturados, por que não tirar algum troco para a nobre tarefa de financiar atividades políticas? E atividades de partidos que visavam à nobre causa do povo — até muito justo, não é mesmo? Se isso for crime, dizem os autores dessa teoria, pelo menos é menor do que a montagem da quadrilha, quer dizer, do esquema.

A versão das empreiteiras é o inverso. Políticos dos partidos dos governos Lula e Dilma teriam montado uma máquina de fazer dinheiro para financiar eleições, de modo que não pagar propina e não entrar no esquema significava perder todas as obras.

E se as regras do jogo eram essas, se o preço seria mesmo elevado para pagar a caixinha política, por que não superfaturar um pouquinho mais para atender aos nobres interesses dos acionistas? Este seria um crime menor do que a montagem original da quadrilha etc.

No meio desses dois poderosos lados, sempre sobrava algum para executivos das empreiteiras e da estatal. Na verdade, alguns milhões.

Digamos que haja aí boa matéria para os advogados dos dois lados, mas, para a gente — cidadãos, contribuintes, eleitores, acionistas privados da Petrobras — não tem sentido algum. O gestor da coisa pública — para ficar bem solene — tinha que simplesmente chamar a Polícia Federal tão logo soubesse do esquema. Sem contar que, para o pessoal do PT, haveria aí um ótimo tema para atacar os seus antecessores no governo federal, aqueles neoliberais.

A mesma coisa vale para os donos das empreiteiras. Sabendo da quadrilha, que chamassem a polícia. Por que uma empresa eficiente, dona de tecnologia de primeira, precisaria se sujeitar a esse tipo de esquema que favorece a picaretagem?

Leia mais o artigo de Carlos Alberto Sardenberg

Alerta de monja


Corrigindo o erro é que se aprende. Mais do que perder ou ganhar eleições é saber agir na hora certa para beneficiar o maior número de seres. Administração pública precisa administrar também as privadas



Ladrões assaltaram a Petrobras e desestabilizaram o governo


Em política, aliás na vida em geral, não basta ver o fato. É preciso ver no fato: qual o seu conteúdo mais amplo do que o aparente, suas implicações, seus reflexos que às vezes se alonga no tempo. Refiro-me, como está no título, às ações conjuntas de um bando de ladrões que, além de roubarem bilhões (em dólares e reais), contribuíram, com os assaltos praticados, para desestabilizar politicamente o governo.

Não pode ser outra a interpretação dos capítulos em série que vêm manchetando os jornais, cujo desfecho ocorreu na tarde de terça-feira, quando, enfim, a presidente Dilma Rousseff anunciou a demissão de Graça Foster e a substituição de toda a atual diretoria da Petrobrás. Graça Foster não esperou o período pedido pela presidente e renunciou juntamente com cinco diretores, os quais não foram nominados.

A desestabilização do governo ficou caracterizada em dois fatos adicionais à demissão de Graça Foster: Dilma Rousseff, encarregou o ministro Joaquim Levy e Alexandre Tombini, presidente do Banco Central, de procurarem no mercado nomes capazes de substituir Graça Foster. Isso acreditando que ela, Graça Foster, fosse permanecer por mais algum tempo. Isso de um lado. De outro, a troca da diretoria da Petrobrás só deveria ocorrer depois da publicação do balanço da empresa devidamente auditado. Sim, porque o que foi publicado há uma semana foi na verdade um relatório. No qual Graça Foster calculou em aproximadamente 88 bilhões de reais o prejuízo ocorrido em consequência da corrupção desenfreada que fez submergir a estatal abalando seriamente o Planalto.

A meu ver, a demissão não deveria estar condicionada à publicação do balanço, pois se tal não fosse feita, a nova diretoria teria que fazê-lo obrigatoriamente. Neste caso, focalizando de forma mais exata os prejuízos causados pelo maremoto da corrupção e seus efeitos na reavaliação dos ativos da empresa. Foi convocada uma reunião para sexta-feira do Conselho de Administração. O afastamento de Graça Foster teve repercussão colossal, mas não altera a análise a respeito do abalo que o governo sofreu nos seus alicerces. Principalmente porque o país não conhecia em sua história roubos praticados em série, reunindo tantos atores, como os que houve na Petrobrás.

E ninguém sabia de nada? Nenhum ex-diretor tinha conhecimento do que se passava? Para sublinhar pelo menos a omissão, vale recordar uma frase de Einstein: o que existe aparece. As ações desabaram na Bovespa, proporcionando um verdadeiro paraíso para os especuladores que, agora, encontraram a “sorte” de usarem argumentos para forçar a queda dos papéis, comprá-los a preços baixos e, no lance seguinte, revendê-los a preços mais altos. Para identificar a manobra financeira, legal mas não moral, basta verificar suas presenças nos pregões. Como sempre. Porém, este é outro assunto.

O essencial é concluir que, em todo esse redemoinho, Dilma Rousseff perdeu parcelas de seu poder político. Pois, assim não fosse, não delegaria a Joaquim Levy e Alexandre Tombini a tarefa de pesquisar no mercado nomes capazes (e capacitados) de assumir a maior empresa brasileira. Ela mesma o faria. Afinal de contas, a responsabilidade de nomear é sua. Aliás, intransferível.