segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

Pensamento do Dia

 


É preciso repensar a política em tempo de incerteza

Estou lendo um livro que estimula a imaginação. Chama-se “O cogumelo no fim do mundo: sobre a possibilidade de vida nas ruínas do capitalismo”. Sua autora é Anna Tsing, e é um trabalho sério de pesquisa coletiva. Algumas conclusões, portanto, não podem ser atribuídas ao livro, mas a meu exercício de imaginar.

Matsutake é o nome de um cogumelo aromático muito valorizado no Japão. Ele sobrevive em áreas devastadas pela indústria madeireira, como no Oregon, e reapareceu em Hiroshima depois da explosão atômica. Esse crescimento inesperado em áreas devastadas faz do matsutake uma inspiração para repensar a política de nossos tempos, marcados pela incerteza: mudanças climáticas, ascensão de Trump, precariedade do trabalho.


Os políticos continuam falando em emprego, estabilidade e progresso. Mas a realidade é de pessoas se virando para sobreviver em situação difícil, que costumam chamar de “o corre”.

No meio do século passado, alguns intelectuais reclamavam da estabilidade, como se fosse uma espécie de prisão. Alguns tinham uma perspectiva revolucionária. Não deixava de ser uma grande certeza sobre o futuro.

Observando a experiência dos catadores de matsutake, vemos como exploram as ruínas e a incerteza. Não deixa de ser também um grande aprendizado ecológico. A indústria explora um produto e, quando o esgota, vai embora deixando todo o resto para trás. Esse resto, na verdade, são vidas que, combinadas com a atividade humana, podem contribuir para uma sobrevivência coletiva.

Essa constatação não significa deixar de lutar para manter a floresta em pé. Mas abre uma grande possibilidade para aproveitar o que ficou para trás, buscar novas associações entre espécies, inventar novos caminhos.

Com essas duas ideias, creio que já poderia iniciar um diálogo em torno de uma nova política. Os partidos tradicionais pensam em crescimento, progresso e estabilidade. Relacionam-se com os trabalhadores precários prometendo emprego fixo. Acham que eles recusam porque estão envenenados pela ideia de empreendimento, de ser seus próprios patrões.

Pode ser que recusem simplesmente porque não acreditam que o sistema ofereça saída estável e que a precariedade seja a melhor forma de sobreviver. Seria preciso um partido do corre, que estudasse sua condição e oferecesse alternativas dentro da incerteza.

Da mesma forma, será necessário um trabalho amplo na área devastada no Brasil, para estudar o que restou, que possibilidade de arranjos produtivos essas formas de vida combinadas podem oferecer. Está cada vez mais difícil acreditar num progresso inclusivo. A tendência é acentuar as diferenças, no impacto da revolução digital. Por mais que se lute contra a destruição ambiental, estaremos sempre diante de terras devastadas, deixadas para trás pela indústria madeireira, pela mineração ou mesmo pela agricultura.

Pensar uma política da incerteza voltada, na economia, para os trabalhadores precários e, na ecologia, para as ruínas do capitalismo talvez seja um caminho realista. De qualquer forma, o livro de Anna Tsing descortina horizontes. Outras ideias podem brotar daí, e isso já é uma grande qualidade de “O cogumelo no fim do mundo”.

O discurso político clássico não pode deixar de prometer crescimento, progresso e estabilidade. Mas pode chegar um tempo em que essas palavras já não façam mais sentido para a maioria da população.

O interessante no trabalho de Anna Tsing é que ela — ao destacar formas de vida que sobrevivem ao capitalismo e suas combinações — não vê um tipo de futuro único, numa só direção:

— Como partículas virtuais num campo quântico, múltiplos futuros espoucam dentro e fora da possibilidade, e a terceira natureza (o que consegue sobreviver ao capitalismo) emerge dentro dessa polifonia temporal.

O progresso condiciona nossa forma de ver o mundo. Emaranhados de vida que sobrevivem à fúria industrial abrem pelo menos uma nova e interessante maneira de olhar para a frente.

Como Trump desorienta a oposição e a mídia

O maior desafio para analistas políticos, jornalistas e governos ao redor do mundo desde que Donald Trump voltou ao poder tem sido diferenciar notícias relevantes de manobras diárias de distração. Trump certa vez pediu a seus principais assessores que pensassem em cada dia de sua presidência como um episódio de um programa de televisão no qual ele derrota seus rivais. Isso implica acumular vitórias – mesmo que meramente simbólicas – e produzir, de forma metódica, notícias bombásticas que lhe permitam pautar a agenda política. Essa estratégia, conhecida como flooding the zone (inundando a área), busca desorientar e atordoar a oposição e a mídia, dificultando a construção de uma resposta eficaz.


Até agora, a tática tem funcionado. Sempre que Trump ameaça anexar territórios estrangeiros, provoca uma previsível onda de indignação. Da mesma forma, o Partido Democrata passou dias, na semana passada, debatendo os riscos de tarifas sobre produtos do Canadá e do México. No fim, Trump recuou, mas conseguiu fazer a oposição perder tempo valioso que poderia ser usado para desenvolver uma estratégia coordenada.

O mesmo ocorreu com suas ordens executivas: Trump assinou mais decretos nos primeiros dez dias de mandato do que qualquer presidente recente em seus primeiros 100. Muitos serão desafiados na Justiça, mas cumprem seu propósito imediato e ilustram a dificuldade da oposição em responder a essa enxurrada de ações.

FUMAÇA. Talvez a maior prova de que a estratégia de Trump está surtindo efeito seja o sucesso do live feed que o New York Times incluiu em sua página principal para acompanhar suas ações. Embora útil, o recurso apresenta um problema fundamental: ao gerar uma cobertura contínua, não ajuda o leitor a diferenciar entre o que é realmente importante e o que é apenas “fumaça” de Trump. Assim, até as declarações mais absurdas ganham ares de urgência.

A ideia de anexar o Canadá, por exemplo, é chocante, mas extremamente improvável de se concretizar. No entanto, ignorar esse tipo de declaração não é uma opção. O impacto da retórica de Trump é real: suas falas inflamam o sentimento anti-EUA no Canadá e reduzem a confiabilidade americana entre aliados, com consequências potencialmente duradouras para a ordem global.

IMPACTO DOMÉSTICO. Embora a maioria das declarações mais polêmicas esteja relacionada à política externa, é provável que suas ações mais duradouras ocorram no cenário doméstico. O governo tem iniciado um amplo desmonte da burocracia federal. Isso inclui incentivos para a saída de servidores de carreira e mudanças estruturais que enfraquecem a capacidade administrativa do governo, envolvendo planos de redução do funcionalismo por meio de programas de demissão voluntária e exonerações direcionadas. Muitos desses programas levarão os quadros mais qualificados, com fácil inserção no setor privado, a saírem do serviço público. Além disso, a decisão de demitir inspetores-gerais responsáveis pela supervisão interna das agências federais sinaliza um movimento deliberado para enfraquecer mecanismos de controle e transparência.

Outro fator é o papel crescente de Elon Musk No governo. Apesar de não ter credenciais de segurança adequadas, Musk tem participado de reuniões estratégicas e influenciado decisões de alto nível. Sua proximidade com Trump levanta questionamentos sobre até que ponto interesses privados estão se sobrepondo à governança institucional, o que pode facilitar tentativas estrangeiras de influenciar processos decisórios internos.

DESAFIO. Apesar de essas questões atraírem menos atenção do que as manchetes diárias sobre declarações provocativas de Trump, seus efeitos podem ser mais profundos. Porém, será um desafio para o Partido Democrata mobilizar a opinião pública em torno dessas questões, vistas como excessivamente técnicas. Da mesma forma, a imprensa continua enfrentando o dilema central imposto pela estratégia de inundação de Trump: reagir imediatamente às provocações diárias ou focar no que realmente importa? O desafio será encontrar um equilíbrio entre resistir à distração proposital e monitorar os impactos concretos da administração. Tudo indica que essa será uma batalha constante ao longo dos próximos quatro anos.

Gaza: uma oportunidade de negócio ou um projeto de desapropriação?

A proposta de Trump não é reconstruir. Gaza não é um projeto de desenvolvimento econômico. Esta é a fase final de um genocídio em câmera lenta — envolto na linguagem dos negócios e da diplomacia.

Um amigo me mandou uma mensagem perguntando se eu tinha assistido à coletiva de imprensa entre Donald Trump e Benjamin Netanyahu. “Felizmente, não assisti ao vivo”, respondi. Levei quase 24 horas para estar no estado de espírito certo para suportar assistir a duas figuras narcisistas no palco, esbanjando elogios uma à outra.

Enquanto eu ouvia atentamente os comentários iniciais de Trump, também percebi os movimentos furtivos dos olhos de Netanyahu em pontos-chave. Com uma expressão presunçosa no rosto, ele repetidamente lançava olhares furtivos para Ron Dermer, o Ministro de Assuntos Estratégicos de Israel, como se silenciosamente o reconhecesse por elaborar as palavras de Trump. Era evidente que o discurso de Trump trazia a marca inconfundível do ministro israelense.

Eu vi Netanyahu, um criminoso de guerra indiciado, explorar habilmente o narcisismo de Trump por meio de bajulação calculada. Suas interações não eram apenas estranhas; eram profundamente reveladoras. O elogio efusivo de Netanyahu foi um movimento calculado, projetado para manter Trump firmemente em seu canto e garantir apoio contínuo às políticas de Israel.

Trump, por sua vez, pareceu mais focado em se deleitar com a admiração do que em lidar com as realidades complexas da destruição israelense de Gaza e das vidas de mais de 2 milhões de seres humanos. Quando ele respondia a perguntas, suas frases eram frequentemente desconexas, cheias de divagações e desprovidas de percepção substancial, destacando sua preocupação com autoelogios.



Desde o momento em que Trump entrou na arena política, Netanyahu reconheceu uma oportunidade de cultivar um relacionamento que serviria aos interesses de Israel. A personalidade de Trump — marcada por um desejo de admiração, um ego frágil e um desejo insaciável de validação — o tornou excepcionalmente suscetível à bajulação. Netanyahu, um vigarista experiente, adaptou habilmente sua abordagem para apelar à vaidade de Trump.

Os comentários de Netanyahu na coletiva de imprensa foram particularmente reveladores. Embora tenha falado longamente sobre a importância do apoio dos EUA a Israel, ele não fez nenhuma menção ao povo palestino ou seus direitos. Esse apagamento não foi acidental; foi uma tentativa deliberada de contornar a ocupação, o deslocamento e o genocídio israelense.

Trump, por sua vez, ofereceu vagas platitudes sobre paz e prosperidade sem abordar qualquer reconhecimento dos palestinos como um povo distinto com direitos legítimos. Embora tenha expressado vaga simpatia pelo sofrimento, ele nunca menciona o direito palestino à autodeterminação, liberdade ou igualdade. A omissão não é acidental; é um movimento calculado para deslegitimar as aspirações palestinas e reforçar a narrativa de que sua situação é meramente uma questão humanitária e não política enraizada em décadas de ocupação e injustiça sistêmica.


O que mais chamou a atenção na coletiva de imprensa foi sua falta de substância. Enquanto a terrível situação em Gaza e na Cisjordânia se torna cada vez mais sombria, nenhum deles ofereceu nenhuma resposta coerente. Em vez disso, eles passaram a maior parte do tempo relatando “conquistas” passadas e reiterando seu comprometimento com um relacionamento que cada vez mais passou a simbolizar apoio unilateral às políticas israelenses.

Uma das propostas mais grotescas de Trump foi sua chamada visão para o futuro de Gaza. Ele falou em criar empregos a partir da destruição que Israel infligiu ao território sitiado, como se a obliteração completa de uma sociedade inteira fosse meramente uma oportunidade de negócios.

Alguém ousaria sugerir que a destruição de cidades europeias nas mãos dos “antigos nazistas” como uma oportunidade de criação de empregos? Que tal a oportunidade de reconstruir os campos de concentração na Polônia? Os sobreviventes teriam aceitado essa narrativa? No entanto, Trump quer que o mundo acredite que o genocídio de Gaza deve ser celebrado como uma chance de “reconstruir melhor” — só que sem as próprias pessoas cuja terra natal é.

Em vez de responsabilizar Israel por sua destruição, Trump quer recompensá-lo. Sua proposta não era sobre reconstruir Gaza pelo bem de seu povo, mas sobre terminar o trabalho que Israel não conseguiu terminar. Afinal, qual melhor maneira de disfarçar o deslocamento forçado do que vesti-lo como “renovação urbana”?

Trump vê Gaza não como uma catástrofe humanitária, mas como um projeto de gentrificação — como um prédio decadente na cidade de Nova York esperando que os incorporadores o invadam e o transformem para seu próprio benefício. A diferença, claro, é que isso não é sobre imóveis — é sobre a destruição sistemática de um povo, sua história e seu direito de existir.

A coletiva de imprensa Netanyahu-Trump foi mais do que apenas um espetáculo embaraçoso; foi uma lição sobre o que acontece quando a liderança é interesse próprio e política performática. Ambos os indivíduos são conhecidos há muito tempo por seu narcisismo e sua disposição de priorizar o ganho pessoal em detrimento do bem público, e o evento de hoje foi um encapsulamento perfeito dessas falhas.

A proposta de Trump não é reconstruir. Gaza não é um projeto de desenvolvimento econômico. Esta é a fase final de um genocídio em câmera lenta — envolto na linguagem dos negócios e da diplomacia.

A sugestão de Trump para novas oportunidades após uma guerra de destruição seria como catar migalhas em um aterro e chamar isso de festa. A ideia de que o genocídio de Gaza deve ser reformulado como uma oportunidade econômica não é apenas obscena — é o projeto final de desapropriação.

Jamal Kanj autor de “Children of Catastrophe" e ”Journey from a Palestinian Refugee Camp to America"

Estamos vivendo uma Nova Inquisição?

Era uma vez a terra das oportunidades, que, em nome da liberdade, calou a ciência. Sob a batuta de Donald Trump, o NIH (Instituto Nacional de Saúde nos Estados Unidos), epicentro mundial de pesquisas biomédicas, transformou-se em palco de medidas que parecem saídas de um roteiro distópico. Pesquisadores foram proibidos de viajar, palestrar ou até mencionar sua profissão – porque, aparentemente, cientistas são subversivos perigosos.

Mas o espetáculo de horror não para por aí. Entre as medidas mais assombrosas, está a instituição de um sistema de delações entre pesquisadores. A ordem é clara: se alguém ousar manter programas de diversidade ou usar “linguagem codificada” para esconder tais iniciativas, é hora de reportar. Caso contrário, as consequências podem ser severas.


Esse ambiente, que mais lembra uma caça às bruxas, tem provocado um efeito paralisante. Conferências canceladas, pesquisas interrompidas e cientistas temendo pela renovação de seus vistos. Até mesmo ensaios clínicos em andamento – que poderiam salvar vidas – estão ameaçados pela burocracia.

A ironia é escancarada: o país que se gaba de premiar o mérito, agora desmantela programas de inclusão e marginaliza a ciência em nome de uma suposta moralidade. Enquanto isso, o atraso na liberação de fundos e na condução de projetos compromete avanços no tratamento de doenças como câncer, diabetes, entre outras – tudo em nome de uma agenda que subestima a inteligência coletiva.

A delação, antes associada a regimes autoritários, basta lembrar do fascismo e do nazismo, agora veste o jaleco branco ou variações do tipo. E o preço dessa política não é apenas a erosão da confiança entre cientistas, mas a estagnação de avanços que poderiam beneficiar toda a humanidade. Num cenário desses, cabe perguntar: quem será o próximo a ser silenciado? Escreva e leia enquanto há tempo!

domingo, 9 de fevereiro de 2025

Pensamento do Dia

 


Indignados

"Outraged" (indignados), de Kurt Gray, é um livro adequado a nossos tempos. O autor se propõe a investigar as razões que nos levam a dividir-nos em relação a questões morais e políticas. Basicamente, ele estuda a polarização.

A tese central de Gray é que o homem foi, ao longo de sua história evolutiva, muito mais presa do que predador. Isso deixou marcas em nosso psiquismo. A mais notável delas seria um instinto moral baseado na ideia de proteção. Todos os nossos juízos morais seriam uma tentativa de proteger a nós mesmos, nossa família, terceiros ou até valores que visam a manter a coesão social.

O que separa defensores e opositores do aborto não seria uma paleta moral totalmente diversa, mas uma diferença sobre quem é a vítima real da loteria cósmica, a mulher ou o feto.

O alvo principal de Gray é o psicólogo Jonathan Haidt, proponente da teoria dos fundamentos morais. Segundo Haidt, nosso instinto moral é composto por cinco ingredientes. A ideia de proteção é só um deles.

O livro me trouxe um insight valioso. Gray é enfático ao afirmar que, dada nossa história evolutiva, estamos condenados a sempre procurar sinais de perigo. Essa tendência, quando opera num mundo cada vez mais seguro e menos intolerante, faz com que nos preocupemos (e nos dividamos) por questões cada vez menos relevantes.

Isso vale tanto para o mundo físico como para o moral. Crianças da minha geração viajavam no chiqueirinho das Variants e jamais cogitariam de usar capacete para andar de skate ou de bicicleta. Um pai que permitir isso hoje pode ser preso.

De modo análogo, enfrentar o racismo algumas décadas atrás era opor-se a leis que negavam igualdade jurídica a todos os cidadãos; hoje discutimos quais palavras causam desconforto psíquico a quais grupos.

O assustador é pensar que, quanto mais avançarmos, mais obcecados por minudências nos tornaremos. Essa, contudo, é a minha visão. Gray é otimista. Ele acha que há formas de superar os piores aspectos de nossas divisões morais.
Hélio Schwartsman

Governo de alma sem corpo encara o público

Despertando na metade do mandato com a palavra comunicação na cabeça, Lula trocou de secretários, Pimenta por Sidônio. Nome com pedigree latino: Caius Sollis Modestus Apollinaris Sidonius foi genro de imperador, bispo, poeta e diplomata competente. Este último atributo é sugestivo para o recém-chegado, pois qualquer tarefa pública demanda hoje jogo de dentro com as cascavéis do entorno partidário e jogo de fora, estilo Garrincha, para driblar a mentira institucionalizada. Duas manhas familiares à capoeira.


Baiano, Sidônio pode até ser esperto em ambas. Mas a comunicação pós-analógica não tem nada a ver com lero-lero diplomático nem com informação verdadeira. Tem a ver com crença. E o que se transforma em convicção não é a qualidade das proposições, mas a solidez do sistema em que aparecem. A força da convicção pode ser maior que a da verdade.

O primeiro meio-ambiente do indivíduo é a própria mente, mas essa "morada" primeira é condicionada por um comum inerente ao meio vital. Aprende-se por confiança na autoridade das fontes (pais, professores). Só que a rede eletrônica cria hoje um meio (vital?) em que algoritmos autônomos abrem caminho para discursos subterrâneos incontroláveis.

Daí uma realidade separada, com lógica e linguagem próprias, sem referências objetivas e sem compromisso com verdade. Nada impede que o falseamento se converta em objeto de desejo, não tanto como mentira deliberada, mas como "psitacismo" ou fala de papagaio, mera repetição do que se ouve. Isso que neoliberais e adictos de redes sociais confundem com liberdade de expressão.

Não erra quem diz que essa é uma visão acadêmica. De fato, se trata de conhecimento familiar a pesquisadores da era pós-analógica. Comunicação sempre foi encontro simbólico de duas partes, portanto, diálogo radical, e não transmissão unilateral de conteúdos de um polo a outro. Voltada para estruturas político-econômicas e velhas utopias, a esquerda jurássica confundiu comunicação com propaganda, desconhecendo sua função, que hoje atende à lógica das sensações, e não dos argumentos. Perdeu o rumo sob o capitalismo financeiro, com a digitalização dos meios vitais. Não que a direita tenha entendido, mas aproveitou: a ignorância torna-se douta à sombra da arrogância dos pretensos donos da verdade.

Assim, dúvidas razoáveis sobre a nova empreitada. O governo tem alma, mas velha, já sem corpo. Sidônio aperfeiçoaria a informação, tirando ministérios da conveniente letargia, falando para além da bolha. Para isso, uma campanha de mobilização democrática nesse instante de realinhamento ou esfacelamento da direita. Com discurso sincero e boa diplomacia, a verdade se mostraria. Analógica, claro. Os epígonos de Caius Sidonius aplaudiriam.

Mas será que a questão é só de bem comunicar? De apenas evitar falhas como a do Pix? Se for, Sidônio, na Idade Média como na Mídia, o que se exige de uma comunicação sensível para as massas é pão, segurança, circo e uma cara (um foco visível), que o governo não tem. E dificilmente terá enquanto refém emparedado pela máquina parasitária de "unidades orçamentárias" (em vez de representantes do povo) chamada centrão, cuja estratégia é a não comunicação, o silêncio da caverna de Ali-Babá.

IA, redes sociais e o resgate da esfera pública como espaço de diálogo


A previsão de que 30% dos postos de trabalho humano podem ser eliminados pela inteligência artificial até 2027, anunciada por Dario Amodei, CEO da Anthropic, dona da IA Claude e principal concorrente do ChatGPT, durante o Fórum Econômico Mundial de 2025 em Davos ressoa como um marco do impacto avassalador da tecnologia em nossas estruturas sociais e econômicas. Como salientado em Davos por Amodei, sem políticas redistributivas e transformações estruturais, a IA intensificará conflitos sociais, expondo a incapacidade das democracias atuais de lidar com as consequências dessa transição.


Contudo, essa previsão não se limita a uma questão de números ou empregos. Ela denuncia o ápice do que Jürgen Habermas chamou de “colonização do mundo da vida”, isto é, a interligação entre “os sistemas dinheiro e poder” que geram patologias que invadem os âmbitos centrais da reprodução social, cultural e psicológica dos indivíduos socializados, desdobrando-se em crises, resistência e inúmeros tipos de protesto.

Habermas, conhecido como o último iluminista, ao longo de mais de 75 anos de trabalho filosófico, argumenta que a democracia tem origem na esfera pública: espaço de deliberação onde cidadãos, embasados na racionalidade comunicativa do mundo da vida, podem construir consensos sobre “as condições para uma vida digna do homem e para a felicidade socialmente organizada”.

No entanto, as grandes corporações tecnológicas, as chamadas big techs, não apenas controlam os fluxos informacionais por meio de algoritmos opacos, mas também sequestram a essência da esfera pública ao assumirem o vácuo deixado pelas antigas mídias e pelos próprios governos. Para Habermas, “a comunicação digitalizada não promove deliberação crítica e reflexiva; ela apenas reforça opiniões ideologicamente convincentes entre os membros de seu próprio público fragmentado”. Como resultado, “fake news não podem mais ser identificadas como tais da perspectiva dos participantes”, perdendo-se a capacidade de deliberação e consenso sob uma base comum de entendimentos, fundamentos da democracia.

Paulo Feldmann, professor da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da USP, destaca que essas empresas possuem um valor de mercado que supera o PIB da América Latina, o que lhes confere um poder desmesurado sobre economias e democracias globais. Para o economista vencedor do Nobel Joseph Stiglitz, esse poder desproporcional das big techs transforma a autonomia estatal em uma ilusão ao mesmo tempo em que distorce processos democráticos.

Ao promoverem a “plataformização da esfera pública”, as big techs moldam comportamentos, reforçam bolhas informacionais e amplificam polarizações, “criando circuitos de comunicação isolados, nos quais grupos reforçam suas próprias crenças de forma dogmática e rejeitam ideias divergentes”. Nesse contexto, fake news e teorias da conspiração ganham força nas mídias sociais, enquanto as plataformas atacam a “imprensa mentirosa”, promovendo a desconfiança na mídia tradicional. Esse cenário torna o público mais vulnerável a narrativas populistas e antidemocráticas, colonizando a esfera pública e o espaço crítico e deliberativo.

Como consequência, Habermas destaca que “os sinais de regressão política são visíveis a olho nu”. A exclusão no sistema de poder e a impotência dos cidadãos minam a legitimidade democrática, o que se constata, por exemplo, no aumento de abstenções, transformando a democracia em um rótulo vazio. A apatia e o desengajamento enfraquecem a esfera pública, criando um ciclo em que governos ineficazes alimentam a alienação cidadã e a crise institucional.

Para Habermas, essa incapacidade de reagir às crises democráticas se deve ao “derrotismo político”, que atinge não apenas a classe política e acadêmica, mas também os próprios cidadãos.

Segundo ele, o fracasso coletivo é alimentado pela falsa crença de que sistemas econômicos e tecnológicos são autônomos e incontroláveis. Isso não apenas cria “políticas paralisantes”, mas também faz com que “a população perca a confiança em um governo que apenas simula a capacidade e a disposição de agir”.

Joseph Stiglitz, vencedor do Nobel de Economia, complementa essa visão. Ele argumenta que “o verdadeiro funcionamento democrático depende da mobilização coletiva da sociedade civil para contrabalançar os interesses especiais”. Stiglitz observa que, “enquanto grupos poderosos estão altamente engajados em moldar políticas públicas para seus próprios interesses, o restante da população frequentemente se desengaja, acreditando que sua participação não fará diferença”. É exatamente essa falta de engajamento da maioria que abre caminho para que grupos poderosos dominem e distorçam a democracia.

A superação dessa crise vai além da regulamentação das big techs ou do aumento da transparência algorítmica. Ela exige uma reinvenção do papel do governo como um facilitador da esfera pública e da democracia deliberativa.

Habermas propõe a criação de “canais facilitadores de comunicação”, que transformem o governo em uma rede social deliberativa — um espaço onde a administração pública não apenas gerencie a sociedade, mas também atue como mediadora de diálogos democráticos e consensos coletivos.

Para tanto, é preciso explorar o potencial emancipatório e democrático das sociedades digitalizadas. Isso inclui a difusão de informações, o empoderamento dos cidadãos, a descentralização e a horizontalidade em formas de auto-organização política e mobilização cidadã. Em vez de perpetuar “ruídos selvagens em câmaras de eco fragmentadas e que giram em torno de si mesmas”, devemos restaurar uma sociedade de interesses comuns, e não uma “sociedade de singularidades”.

Três pilares sustentam esse modelo:

Transparência e acessibilidade total: Governos devem adotar tecnologias que permitam aos cidadãos monitorar, influenciar e contribuir diretamente para as decisões administrativas, com dados claros e abertos.

Deliberação inclusiva: A criação de espaços governamentais dedicados ao diálogo contínuo entre cidadãos, instituições e especialistas, rompendo com a racionalidade estratégica tradicional de mercado.

Autonomia cidadã: Uma gestão de dados bottom-up, priorizando as necessidades dos cidadãos por meio de inputs deliberativos e promovendo a educação tecnológica para capacitar a população a avaliar e atuar com base em informações críticas.

Essa transformação não é apenas uma modernização da administração pública, mas uma redefinição de sua essência – e não dos seres humanos. O governo como uma rede social-pública deliberativa seria o oposto das plataformas dominadas pela lógica de mercado. Ele operaria como um ambiente digital que fomenta o diálogo racional comunicativo, a construção coletiva de soluções e a inclusão de perspectivas diversas.

A previsão de Davos sobre a eliminação de 30% dos empregos humanos até 2027 não é apenas um alerta sobre os perigos da racionalidade instrumental, mas também uma oportunidade para repensar profundamente as instituições democráticas.

Transformar o governo em uma rede social deliberativa não é uma utopia inatingível. É uma resposta necessária — e possível — para resgatar a esfera pública como espaço de diálogo, justiça social e inovação democrática. A última chama iluminista nos inspira a construir uma sociedade que transcenda ideologias e partidos, pautada na liberdade, na diversidade de ideias e no pensamento crítico. Uma democracia verdadeiramente coletiva, onde o bem comum seja definido e vivido por todos, como expressão genuína da humanidade.

O desafio de Gaza contra o apagamento

Desde a Nakba, Israel insiste que escreverá a história da terra entre o Rio Jordão e o mar. Mas os palestinos continuam a provar que Israel está errado.

O retorno de um milhão de palestinos do sul de Gaza para o norte em 27 de janeiro pareceu como se a história estivesse coreografando um dos eventos mais devastadores da memória recente.

Centenas de milhares de pessoas marcharam por uma única rua, a costeira Rashid Street, no trecho mais ocidental de Gaza. Embora essas massas deslocadas estivessem isoladas umas das outras em enormes campos de deslocamento no centro de Gaza e na região de Mawasi mais ao sul, elas cantaram as mesmas músicas, entoaram os mesmos cânticos e usaram os mesmos pontos de discussão.

Durante seu deslocamento forçado, eles não tinham eletricidade nem meios de comunicação, muito menos coordenação. Eles eram pessoas comuns, carregando algumas peças de roupa e quaisquer ferramentas de sobrevivência que tinham após o genocídio israelense sem precedentes. Eles seguiram para o norte, para casas que sabiam que provavelmente foram destruídas pelo exército israelense.

Ainda assim, eles permaneceram comprometidos com sua marcha de volta para suas cidades aniquiladas e campos de refugiados. Muitos sorriram, outros cantaram hinos religiosos e alguns recitaram canções e poemas nacionais.


Uma garotinha ofereceu a um repórter um poema que ela compôs. “Eu sou uma garota palestina e tenho orgulho”, sua voz berrava. Ela recitou versos simples, mas emocionais, sobre se identificar como uma “garota palestina forte e resiliente”. Ela falou sobre seu relacionamento com sua família e comunidade como a “filha de heróis, a filha de Gaza”, declarando que os moradores de Gaza “preferem a morte à vergonha”. Seu retorno à sua casa destruída foi um “dia de vitória”.

“Vitória” foi uma palavra repetida por praticamente todos os entrevistados pela mídia e inúmeras vezes nas mídias sociais. Enquanto muitos, incluindo alguns simpáticos à causa palestina, desafiaram abertamente a visão dos habitantes de Gaza sobre sua suposta “vitória”, eles falharam em apreciar a história da Palestina — na verdade, a história de todos os povos colonizados que arrancaram sua liberdade das garras de inimigos estrangeiros e brutais.

“As dificuldades quebram alguns homens, mas fazem outros. Nenhum machado é afiado o suficiente para cortar a alma de (alguém) armado com a esperança de que ele se levantará mesmo no final”, escreveu o icônico líder sul-africano anti-apartheid, Nelson Mandela,  em uma carta para sua esposa em 1975 de sua cela na prisão. Suas palavras, escritas no contexto da luta da África do Sul, parecem ter sido escritas para os palestinos, especialmente o mais recente triunfo de Gaza contra o apagamento — tanto físico quanto psicológico.

Para entender isso melhor, examine o que os líderes políticos e militares israelenses disseram sobre o norte de Gaza imediatamente após o início da guerra genocida em 7 de outubro de 2023:

Israel manterá a “responsabilidade geral pela segurança” da Faixa de Gaza “por um período indefinido”, disse o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu em uma entrevista à rede ABC News em novembro de 2023.

Um ano depois, o exército israelense reiterou o mesmo sentimento. Em uma declaração, o Brigadeiro General israelense Itzik Cohen disse aos repórteres israelenses que não haveria “retorno” para nenhum residente do norte de Gaza.

O Ministro das Finanças Bezalel Smotrich foi mais longe. “É possível criar uma situação em que a população de Gaza será reduzida à metade do seu tamanho atual em dois anos”, ele disse em 26 de novembro, afirmando que Israel deveria reocupar Gaza e “encorajar” a migração de seus habitantes.

Muitas outras autoridades e especialistas israelenses repetiram a mesma noção como um coro previsível. Grupos de colonos realizaram uma conferência em junho passado para avaliar oportunidades imobiliárias em Gaza. Em suas mentes, eles eram os únicos com uma palavra a dizer sobre o futuro de Gaza. Os palestinos pareciam inconsequentes para a roda da história, controlados, como os poderosos arrogantemente acreditavam, apenas por Tel Aviv.

Mas a massa infinita de pessoas cantava: "Vocês acham que podem se comparar aos livres, se comparar aos palestinos?... Nós morreremos antes de entregar nossa casa; eles nos chamam de lutadores pela liberdade."

Muitos meios de comunicação, incluindo os israelenses, relataram uma sensação de choque em Israel quando a população retornou em massa para uma região totalmente destruída. O choque não termina aí. Israel falhou em ocupar o norte, limpar etnicamente os palestinos de Gaza ou quebrar seu espírito coletivo. Em vez disso, os palestinos emergiram mais fortes, mais determinados e, igualmente assustador para Israel, com um novo objetivo: retornar à Palestina histórica.

Por décadas, Israel investiu em um discurso singular sobre o Direito Palestino de Retorno, reconhecido internacionalmente , às suas casas na Palestina histórica. Quase todos os líderes israelenses ou altos funcionários desde a Nakba de 1948 (a "Catástrofe" resultante da destruição da pátria palestina) ecoaram isso. O ex-primeiro-ministro israelense Ehud Barak resumiu isso em 2000 durante as negociações de Camp David, quando traçou sua "linha de fundo" em qualquer acordo de paz com os palestinos: não haveria direito de retorno para refugiados palestinos.

Como Gaza provou, os palestinos não seguem as indicações de Israel ou mesmo daqueles que alegam representá-los. Enquanto marchavam para o norte, quatro gerações de palestinos caminharam juntas, às vezes de mãos dadas, cantando por liberdade e retorno — não apenas para o norte, mas mais ao norte, para a própria Palestina histórica.

Desde a Nakba, Israel insiste que escreverá a história da terra entre o Rio Jordão e o mar. Mas os palestinos continuam a provar que Israel está errado. Eles sobreviveram em Gaza apesar do genocídio. Eles permaneceram. Eles retornaram. Eles emergiram com uma sensação de vitória. Eles estão escrevendo sua própria história, que, apesar das perdas imensuráveis ​​e inimagináveis, também é uma história de esperança e vitória.

A religião e a violência de mãos dadas na produção de políticos extremistas

Algumas décadas atrás, em um passado recente, muitos pensadores apostavam que o mundo seguiria uma trajetória cada vez mais secular, com menos espaço para a religião nos rumos da humanidade. Mas a história, quem diria, testemunhou um plot-twist: na atualidade, as autoridades de países democráticos resgataram símbolos sagrados para fortalecer sua capacidade de exercer a liderança política. Levou um susto quem imaginava que a imagem do “direito divino dos reis” repousava nas páginas dos livros sobre a Idade Média. A ideia ganhou nova roupagem e hoje veste terno e gravata, nas figuras de presidentes ungidos por Deus, como Donaldo Trump e Jair Bolsonaro, vistos por muitos eleitores como representantes da vontade divina na Terra.

A onda conservadora e fundamentalista, no Brasil e no mundo, de alguma maneira, aponta para uma crise preocupante de legitimidade do Estado moderno e democrático. É como se muitos parassem de acreditar em suas promessas civilizatórias e em sua capacidade de manter a ordem no mundo. Para não se perderem, como boia de salvação, eles acabaram se agarrando nas instituições tradicionais, que existem há milênios, como família, mercado, propriedade privada e religião.


A vida em sociedade, assim como um jogo, depende de regras para funcionar. Se não fossem as regras, o jogo e a vida correriam o risco de perderem o sentido, já que seus participantes ficariam desorientados, sem saber sequer seus objetivos e razões para agir. Por isso a fragilização da estrutura normativa de uma sociedade é facilmente associada ao terror. É um dos nossos medos mais profundos. A desordem impede a vida em sociedade porque a esvazia de sentido. Os grandes tiranos costumam se fortalecer quando o caos está à espreita. Eles se vendem como solução para evitar a ameaça, identificam bodes expiatórios a serem dizimados e assim forjam sua autoridade.

Nas cidades brasileiras, o surgimento de justiceiros, grupos de extermínio, esquadrões da morte, milícias, a violência policial e até mesmo das facções, surgiram como forma de lidar com a ameaça de desordem. Receberam apoio popular e nunca deixaram de existir porque são associadas à produção de obediência em uma sociedade sem regras. A violência pode ser vista como positiva desde que voltada para evitar ou interromper o caos, usada como instrumento de produção de ordem. Muitos preferem conviver em um bairro governado pelas regras previsíveis de assassinos brutais do que se sentirem permanentemente ameaçados pela imprevisibilidade dos roubos. Enquanto o assassino mata bodes expiatórios, como os “bandidos”, causando alívio entre os que estão com medo, os roubos são aleatórios e viver sob a ameaça dos ladrões torna a vida insuportável.

A segunda eleição de Trump, a popularidade do bolsonarismo, o aparecimento de políticos brutos em todos os cantos do mundo, e até mesmo a força de Peixão, um traficante-pastor que exerce a autoridade em cinco favelas no Complexo de Israel, no Rio de Janeiro, acontecem porque eles são vistos como fiadores de uma ordem que está desmoronando. Estão dispostos a matar e ir para a guerra para garantir a ordem de seus mundos. É melhor garantir a ordem possível do que viver sem conseguir programar as ações cotidianas mais básicas e não poder sonhar com o futuro.

Diante do ceticismo em relação ao Estado moderno, racional e legal, valores como os dos Direitos Humanos, que depois da Segunda Guerra orientaram a formação dos regimes liberais e democráticos, também caíram em descrédito. Seus defensores são acusados de serem tolerantes e condescendentes com as migrações e com o avanço do crime. Ao lutarem pela garantia dos direitos individuais, facilitam a “contaminação cultural” dos ocidentais por credos radicais e favorecem a ação dos bandidos contra os “cidadãos de bem”. Ganham popularidade, por outro lado, os políticos que defendem o fechamento das fronteiras, a construção de muros e de prisões, com penas cada vez mais longas, para tirar do convívio as pessoas diferentes, consideradas ameaças potenciais à ordem vigente, e até mesmo o extermínio dos mais perigosos.

A ordem bolsonarista resgata no Brasil sobretudo os valores da sociedade patriarcal, que sobreviveu em torno do mercado e das famílias, comandada por homens brutos, na base da fé, do fuzil e do empreendedorismo. Renasce com a crise da política e com a crítica à modernidade. Favorece, assim, atividades como o garimpo, a grilagem de terra, o desmatamento, a jogatina e as milícias, todas associadas ao espírito empreendedor e guerreiro de homens em busca de enriquecer para vencer. Esse empreendedorismo ilegal se beneficia diante das infinitas e irrastreáveis possibilidades financeiras para lavagem do capital do crime. Do outro lado, as regulações ambientais, financeiras, o controle sobre a letalidade policial, o acompanhamento do dinheiro virtual por meio da Receita Federal, entre outras ações esperadas de uma burocracia moderna, são atacadas e demonizadas por sabotarem a disposição desses homens que se sacrificam para vencer. A ordem do mercado, mesmo ilegal, deve ser preservada para garantir os lucros, enquanto a ordem racional do Estado deve ser obstruída.

Já o tráfico de drogas segue como um inimigo consensual, porque comercializa uma mercadoria que todos temem, associada à loucura e à desordem, à fuga do mundo e da vida em sociedade. Desde que diferentes tipos de drogas passaram a ser amplamente consumidas e celebradas pela cultura urbana e hedonista contemporânea, passaram também a ser vistas como atalho para a anomia. Para lidar com o problema, os políticos declararam guerra contra os traficantes, como se pudessem tirar as substâncias das ruas. Em vez disso, promoveram o terror e a desordem nas favelas e nas cidades. Apesar dos efeitos colaterais perversos dessas medidas irracionais, o debate sobre o tema seguiu interditado, tamanho o medo que desperta. E o dinheiro do tráfico começou a financiar outras atividades ilegais e até formais, entrando na economia e na política.

O tema da ordem e da desordem, nesse sentido, é fundamental para compreender os ânimos políticos atuais, assim como o papel da religião e da violência. Muitas vezes, atiça mais a emoção do que a razão. Numa sociedade em transição profunda, em que estão mudando as formas de trabalho, de família e os papéis de gênero, muitos preferem se agarrar à tradição. A modernidade urbana das grandes cidades, a mistura de povos, a tolerância às diversas orientações sexuais, o protagonismo feminino, tudo passa a ser visto como sinônimo da anomia, o que deixa todos apavorados. Alguns grupos passam a ser responsabilizados pelo caos, como os comunistas, ateus e feministas, dando nome e sentido para a luta.

Ficam, contudo, diversas perguntas no ar: como resgatar a credibilidade do Estado moderno e das políticas públicas? Vivemos um retrocesso civilizatório e caminharemos ribanceira abaixo? Como resgatar a capacidade de produzir uma ordem racional e coletiva? Religião produz paz ou violência? Eu não tenho resposta para nenhuma dessas perguntas. Mas para entender a política contemporânea, por mais estranho que possa parecer, temos que voltar aos estudos de religião e de violência.
Bruno Paes Manso

Líder na transição energética ou nova chance perdida?

A Universidade Johns Hopkins, dos EUA, acaba de publicar um estudo segundo o qual o Brasil poderá ser um dos quatro países do mundo que, em 2050, estarão na liderança da transição tecnológica global necessária para combater o aquecimento global. O primeiro a publicar uma matéria sobre o estudo no Brasil foi o jornal Valor Econômico.

De acordo com o estudo, são sete os setores nos quais o Brasil tem vantagens estratégicas globais que serão decisivas para a transição energética: minerais estratégicos, produção de baterias, veículos elétricos híbridos (que também usam biocombustíveis), combustíveis sustentáveis de aviação (conhecidos pela sigla SAF), fabricação de turbinas eólicas e produção de produtos verdes, como aço de baixo carbono e fertilizantes de baixo carbono.


As grandes diferenças entre o Brasil e os muitos outros países em condições semelhantes no Oriente Médio, África ou Ásia são o grande mercado interno e a base industrial já existente – por exemplo na comparação com outras grandes economias, como a Índia.

A questão é se o Brasil vai aproveitar essa chance.

Porque, em primeiro lugar, o vento global está soprando contra qualquer iniciativa de adaptação à mudança climática. O governo dos Estados Unidos, liderado por Donald Trump, considera a mudança climática uma besteira, e retirou a maior economia do mundo de todos os compromissos voluntários de proteção climática.

Partes da economia americana, como alguns bancos e empresas, já seguiram o exemplo e abandonaram as regras da governança ambiental, social e corporativa (ESG), como são chamados os padrões, regras e práticas que obrigam uma empresa a operar de forma socialmente responsável e sustentável.

No Brasil, é improvável que as coisas sejam diferentes se houver um governo conservador de direita a partir de 2027.

E também o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva não segue um conceito claro de sustentabilidade: em vez de se concentrar totalmente na expansão da cadeia de valor de baterias, desde a mineração das terras raras até a produção de cátodos para baterias, por exemplo, Lula quer agora permitir que a Petrobras produza petróleo no litoral norte do Brasil. Em tempos do "Drill, baby, drill!" de Trump, é provável que as críticas internacionais sejam bem menores.

Provavelmente vai acontecer o que sempre acontece no caso do Brasil: o país não usará suas vantagens e vai desperdiçar mais uma chance. Vai produzir um pouco de energia verde, integrar um pouco de energia sustentável em sua cadeia de valor, mas, ao mesmo tempo, produzir petróleo, operar usinas térmicas e investir numa refinaria para produtos petroquímicos – tudo, claro, a elevados custos, devido à má administração, corrupção e interesses políticos.

"Desenvolvemos nossa indústria tardiamente, perdemos em grande parte a revolução da TI – todas as vezes, o cavalo encilhado passou por nós a galope", comentou comigo, anos atrás, o bioquímico e gestor de fundos Fernando Reinach. Estávamos falando então sobre a posição de liderança global do Brasil em energias renováveis. Embora o Brasil não tenha perdido essa posição de liderança, ele ainda não alcançou de fato todo o seu potencial.

Essa história pode se repetir na transição energética para a mudança climática.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

Pensamento do Dia

 


O plano de Trump para Gaza não vai acontecer, mas terá consequências

O plano de Donald Trump para os EUA "assumirem" e "serem donos" de Gaza, reassentando sua população no processo, não vai acontecer. Ele requer a cooperação dos estados árabes que o rejeitaram.

Eles incluem Jordânia e Egito — países que Trump quer acolher os palestinos de Gaza — e Arábia Saudita, que deve pagar a conta.

Os aliados ocidentais dos EUA e de Israel também são contra a ideia.

Alguns — talvez muitos — palestinos em Gaza poderiam ficar tentados a sair se tivessem a oportunidade.

Mas mesmo que um milhão saísse, cerca de 1,2 milhão de outros ainda estariam lá.

Presumivelmente, os Estados Unidos — os novos donos da "Riviera do Oriente Médio" de Trump — teriam que usar a força para removê-los.


Depois da intervenção catastrófica dos Estados Unidos no Iraque em 2003, isso seria profundamente impopular nos EUA.

Seria o fim definitivo de qualquer esperança remanescente de que uma solução de dois estados fosse possível. Essa é a aspiração de que um conflito com mais de um século pudesse ser encerrado com o estabelecimento de uma Palestina independente ao lado de Israel.

O governo Netanyahu é totalmente contra a ideia e, ao longo de anos de negociações de paz fracassadas, "dois estados para dois povos" se tornou um slogan vazio.

Mas tem sido um elemento central da política externa dos EUA desde o início da década de 1990.

O plano de Trump também violaria o direito internacional.

As já surradas afirmações da América de que acredita em uma ordem internacional baseada em regras se dissolveriam. As ambições territoriais da Rússia na Ucrânia e da China em Taiwan seriam turbinadas.

Por que se preocupar com tudo isso se não está prestes a acontecer — pelo menos não da maneira que Trump anunciou em Washington, observado por um sorridente e claramente encantado Benjamin Netanyahu?

A resposta é que os comentários de Trump, por mais absurdos que sejam, terão consequências.

Ele é o presidente dos Estados Unidos, o homem mais poderoso do mundo — não mais um apresentador de reality show e um aspirante político tentando ganhar as manchetes.

A curto prazo, a interrupção causada por seu anúncio impressionante pode enfraquecer o frágil cessar-fogo em Gaza. Uma fonte árabe sênior me disse que isso pode ser seu "dobre de finados".

A ausência de um plano para a governança futura de Gaza já é uma falha no acordo.

Agora, Trump providenciou uma, e mesmo que isso não aconteça, isso repercutirá profundamente nas mentes de palestinos e israelenses.

Ela alimentará os planos e sonhos de extremistas judeus ultranacionalistas que acreditam que toda a terra entre o Mediterrâneo e o rio Jordão, e talvez além, é uma possessão judaica dada por Deus.

Seus líderes são parte do governo de Netanyahu e o mantêm no poder - e eles estão encantados. Eles querem que a guerra de Gaza seja retomada com o objetivo de longo prazo de remover os palestinos e substituí-los por judeus.

O ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, disse que Trump havia fornecido a resposta para o futuro de Gaza após os ataques de 7 de outubro.

Sua declaração dizia que "quem cometeu o massacre mais terrível em nossa terra vai se ver perdendo sua terra para sempre. Agora agiremos para finalmente enterrar, com a ajuda de Deus, a perigosa ideia de um estado palestino."

Líderes da oposição centrista em Israel foram menos efusivos, talvez temendo problemas futuros, mas ofereceram uma recepção educada ao plano.

O Hamas e outros grupos armados palestinos podem sentir a necessidade de responder a Trump com algum tipo de demonstração de força contra Israel.

Para os palestinos, o conflito com Israel é motivado pela desapropriação e pela memória do que eles chamam de al-Nakba, "a catástrofe". Esse foi o êxodo dos palestinos quando Israel venceu sua guerra pela independência em 1948.

Mais de 700.000 palestinos fugiram ou foram forçados a deixar suas casas pelas forças israelenses. Todos, exceto um punhado, nunca foram autorizados a voltar e Israel aprovou leis que ainda usa para confiscar suas propriedades.

Agora o medo é que isso aconteça novamente.

Muitos palestinos já acreditavam que Israel estava usando a guerra contra o Hamas para destruir Gaza e expulsar a população.

Faz parte da acusação de que Israel está cometendo genocídio – e agora eles podem acreditar que Donald Trump está adicionando seu peso aos planos de Israel.

Só porque Trump diz algo, isso não significa que seja verdade ou certo.

Suas declarações muitas vezes parecem mais manobras iniciais em uma negociação imobiliária do que expressões da política estabelecida dos Estados Unidos.

Talvez Trump esteja espalhando alguma confusão enquanto trabalha em outro plano. Dizem que ele anseia pelo prêmio Nobel da paz.

Os pacificadores do Oriente Médio, mesmo quando não conseguem, têm um forte histórico de vitórias.

Enquanto o mundo digeria seu anúncio sobre Gaza, ele postou em sua plataforma Truth Social seu desejo por um "acordo de paz nuclear verificado" com o Irã.

O regime iraniano nega querer armas nucleares, mas tem havido um debate aberto em Teerã sobre se eles estão agora tão ameaçados que precisam do melhor meio de dissuasão.

Por muitos anos, Netanyahu quis que os EUA, com ajuda israelense, destruíssem as instalações nucleares do Irã. Fazer um acordo com o Irã nunca fez parte de seu plano.

Durante o primeiro mandato de Trump, Netanyahu travou uma longa e bem-sucedida campanha para persuadi-lo a retirar os EUA do acordo nuclear que o governo de Barack Obama assinou com o Irã.

Se Trump queria dar algo à extrema direita israelense para mantê-la feliz enquanto faz propostas aos iranianos, ele conseguiu.

Mas ele também criou incerteza e injetou mais instabilidade na região mais turbulenta do mundo.

Geopolítica digital made in China

Não foi à toa que, enquanto o presidente Donald Trump festejava sua posse, a China surpreendeu o mundo com sua nova plataforma de Inteligência Artificial, DeepSeek. Foi-se o tempo em que os países exibiam sua musculatura por meio de testes atômicos ou manobras militares. A novidade nos arsenais da geopolítica do futuro é a I.A.

Talvez por isso, dessa vez Trump adotou um discurso mais brando contra seus oponentes chineses do que no seu mandato anterior. Preferiu apontar suas bravatas para o México, o Canadá, a Europa e a cambaleante ONU. O Tio Sam nunca foi de fraquejar diante das forças orientais, mas parece hesitante diante da DeepSeek, uma inteligência artificial muito mais avançada do que aquelas criadas nos EUA e na Europa. Para entender melhor esse poder da concorrente chinesa, arrisquei consultar diretamente as opiniões das maiores interessadas no assunto – as próprias I.A. americanas.

Primeiro perguntei à I.A. do Whatsapp o que ela acha da DeepSeek. A resposta foi cautelosa: “… a DeepSeek é um exemplo impressionante de como a I.A. pode ser usada… Sou um modelo de linguagem mais antigo e posso ter limitações em relação à DeepSeek. Por exemplo, a DeepSeek pode ter uma capacidade maior de entender contextos complexos e gerar respostas mais precisas”.

Procurando uma segunda opinião, perguntei ao ChatGPT se a DeepSeek é mais poderosa do que ele. Sua resposta foi elegante: “… a DeepSeek pode ser mais avançada em aprendizado de padrões… é uma ferramenta especializada em análise de dados, buscando insights mais profundos em grandes volumes de informações”. Resumindo, até as I.A. americanas reconhecem o poderio da adversária chinesa.



Contudo, apesar das capacidades dessas ferramentas de inteligência artificial, ainda é indispensável dispormos da opinião de uma boa inteligência natural. Nesse caso, ninguém melhor do que o cientista Silvio Meira, fundador do Porto Digital em Recife (Folha de São Paulo, 03/02/25).

Segundo ele, a DeepSeek é inegavelmente revolucionária e, na verdade, a ferramenta já existia. O que aconteceu agora foi o lançamento inesperado da sua versão turbinada chamada V-3R. Nas palavras do cientista “a nova versão da DeepSeek muda a geopolítica de poder da I.A. de uma vez por todas”. Contudo, isso não significa que a I.A. chinesa vá subjugar a humanidade como ocorre em Matrix, ou em 2001 Uma Odisseia no Espaço.

Ao invés disso, Silvio Meira prefere chamar a nossa atenção para o impacto econômico que a DeepSeek vai causar no mercado hoje dominado pelas americanas OpenAI, Google e Meta. “No final desta década, a I.A. vai agregar ao PIB global, por ano, o equivalente ao PIB do Brasil (mais de US$ 2 trilhões)”. Isso representa um faturamento colossal escapando entre os dedos ianques justamente quando Trump procura mostrar serviço como guardião dos interesses dos ultracapitalistas que o elegeram e agora compõem seu ministério. Para completar, quando Trump resolveu impor tarifas de 10% aos importados chineses, a China revidou não apenas com tarifas de 5%, mas também abrindo uma investigação contra o Google.

Trump inaugurou seu primeiro mandato despejando bombas descomunais na Síria e no Afeganistão para mostrar a que veio. Agora corre o risco de ver explodir em seu colo um artefato digital devastador. Trump é acostumado a ganhar e perder nos negócios, sempre jogando no limite do risco, alternando entre o blefe e a agressividade. Resta saber se, no caso da China, ele vai pagar para ver ou vai esperar o jogo esfriar.

Quem acredita na ameaça de Trump?

Gaza tem uma longa história, em parte explicável pela sua geografia. Se hoje é um “vulcão político” na Antiguidade foi o grande oásis da região, com uma apetecível costa marítima que sempre suscitou a cobiça de vizinhos e de impérios. Chegou a vez de ser disputada pelo “novo império americano”.

Donald Trump vai transformar a mais trágica fase da História de Gaza numa “Riviera mediterrânica”. O método não é inédito mas trágico: implicaria uma gigantesca operação de “limpeza étnica”. A isto voltarei.

Gaza é uma terra saturada de História. Habitada desde data indefinida por cananeus e filisteus, foi cenário de batalhas entre egípcios e assírios. Em 530 a.C. o persa Ciro conquistou a cidade fortificada. Segundo o historiador Jean-Pierre Filiu (História de Gaza, Bertrand, 2024), a cidade foi saqueada por navios macedônios. Em 63 a.C., o território passou para o Império Romano integrado por Pompeu na província da Judeia. No século IV, os bizantinos sucederam aos romanos. Segue-se o domínio do Egito. Entretanto, o seu vinho, vinum gazetum, era muito apreciado na Europa.

Depois de muitas vicissitudes, foi conquistada por um exército árabe, para em 1517 acabar integrada no Império Otomano, cuja ocupação durou até à Grande Guerra de 1914-18.


Gaza era uma estratégica plataforma giratória, com acesso rápido a Alexandria e ao Cairo, a Jerusalém ou Beirute, e provavelmente Istambul. Após a guerra israelo-árabe e a independência de Israel em 1948, a Faixa de Gaza é ocupada pelo Egito, que a administrará até à Guerra dos Seis Dias, em 1967.

Depois desta guerra, a Jordânia abdica da Cisjordânia e o Egito da Faixa de Gaza, inaugurando-se a era da ocupação israelita, que até hoje dura e produziu as tragédias que todos conhecemos.

É esta a Gaza que conhecemos. Em 1948, tinha 80 mil habitantes a que rapidamente se juntaram 200 mil refugiados, a grande maioria da população, que hoje ascende a 2,1 milhões.

Em 2005, Ariel Sharon fez evacuar, manu militari, os colonatos israelitas da Faixa de Gaza. Após o desaparecimento de Sharon, vítima de um AVC, o seu conselheiro Dov Weisglass explicou, numa entrevista ao diário Haaretz, a lógica dessa retirada. “O significado da retirada é o congelamento do processo de paz. Aquilo a que se chama o Estado Palestino, com tudo o que isso implica, foi indefinidamente retirado da nossa agenda. Esta política de ruptura é como o formol. Fornece a quantidade de formol necessária para que não haja processo político com os palestinos.” Acrescentou pouco depois para justificar o bloqueio de Gaza: “A ideia é impor aos palestinos uma dieta, sem os deixar morrer à fome.”

Era a negação nal dos Acordos de Paz de Oslo, solenemente assinados em 1993, por Yitzhak Rabin, Yasser Arafat e Bill Clinton.

Esta lógica foi perversamente ampliada por Benjamin Netanyahu. Foi a “fábrica de um vulcão” e da vertiginosa escalada de violência que terá o seu desfecho no massacre do 7 de outubro, pelo Hamas, e da destruição maciça de Gaza pelas bombas de Israel.

Mas Netanyahu foi cúmplice do Hamas. Em meados de junho de 2007, os islamistas derrotaram e expulsaram de Gaza as forças da Fatah e da Autoridade Palestina que dirigiam o território. Na véspera, disse ao embaixador americano o general Amos Yadlin, chefe dos serviços secretos militares: “Israel ficaria feliz se o Hamas se apoderasse do governo de Gaza porque o exército poderia passar a tratar Gaza como um Estado inimigo.”

Foi pior. Netanyahu fez acordos tácitos com o Hamas para facilitar o seu financiamento a partir do Qatar e confiou no “pragmatismo” de Yahia Sinwar, baixando a guarda na Frente Sul.

Explicou aos deputados do Likud, em 2019: “Quem quiser contrariar a criação de um Estado palestino, deve apoiar a política de reforço do Hamas e da transferência de dinheiro para o Hamas. Faz parte da nossa estratégia: separar os palestinos de Gaza dos da Cisjordânia.” Tudo isto é conhecido, mas vale a pena relembrá-lo.

Os jornalistas que assistiram à conferência de imprensa de Trump ficaram estupefatos. Escreve a italiana Viviana Mazzi no Corriere della Sera: “Fiquei sem fôlego. O chefe da máxima superpotência, que até 5 de novembro era trave mestra da ordem mundial, anunciava a deportação em massa de um povo e a intenção de se apoderar da sua terra.”

As palavras são delirantes. Interrogado sobre o que acontecerá aos palestinos, respondeu: “Fá-lo-emos da melhor maneira possível. Será maravilhoso para os palestinianos, sobretudo para os palestinianos.” Claro que não se referia às delícias da “Riviera mediterrânica”, mas à deportação. À pergunta se mobilizaria tropas americanas, deu a habitual resposta ambígua: “Faremos o que for necessário.”

Os palestinos não quererão voltar a Gaza, explicou. “Aquele lugar tornou-se um inferno”. É sobre este “inferno” e uma “terra queimada” que Trump sonha em promover uma gigantesca operação imobiliária. Que “negócio” terá em mente? Para já, o delírio desmente o pavor da ameaça.

Homem comum

Sou um homem comum
de carne e de memória
de osso e esquecimento.
Ando a pé, de ônibus, de táxi, de avião
e a vida sopra dentro de mim
pânica
feito a chama de um maçarico
e pode
subitamente
cessar.

Sou como você
feito de coisas lembradas
e esquecidas
rostos e
mãos, o guarda-sol vermelho ao meio-dia
em Pastos-Bons,
defuntas alegrias flores passarinhos
facho de tarde luminosa
nomes que já nem sei
Ferreira Gullar

Trump, Musk & Co.: O sonho da dominação mundial

Quando Donald Trump assumiu novamente o cargo de presidente dos EUA em janeiro de 2025, seus apoiadores viajaram de diferentes países para comparecer à cerimônia em Washington DC. Entre eles estavam o presidente da Argentina, Javier Milei , e a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni . Figuras de extrema direita como o britânico Nigel Farage e representantes do partido alemão Alternativa para a Alemanha (AfD) também acolheram o convite.

A extrema direita ao redor do mundo está forjando redes. Um dia antes da posse, o ex-ideólogo chefe de Trump, Steve Bannon, o filho do ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro , um parlamentar do AfD e vários influenciadores se encontraram para trocar ideias. Um influenciador de direita da Alemanha filmou a si mesmo na reunião e comentou animadamente que tinha acabado de receber um convite do embaixador de El Salvador. O movimento está mais ansioso do que nunca para viajar.


É paradoxal que Donald Trump, com sua agenda "América em Primeiro Lugar", tenha se tornado um ímã para ultranacionalistas ao redor do mundo, muitos dos quais costumavam ser abertamente antiamericanos. No entanto, essa aliança global de antiglobalistas só parece contraditória à primeira vista.
Contra a imigração e a sociedade moderna

"Essas redes estão unidas pela rejeição à migração, ao nacionalismo, aos valores familiares tradicionais e ao antiglobalismo", disse Katrine Fangen, professora de sociologia na Universidade de Oslo e especialista em redes transnacionais de direita, em entrevista à DW.

"O objetivo desses movimentos não é apenas ganhar maior influência política. Seu objetivo final é redefinir a ordem ideológica global: eles lutam pelo nacionalismo e pelo conservadorismo social, e contra a democracia liberal."

Além disso, a extrema direita aprende rapidamente com suas experiências em diferentes países. De acordo com o cientista político Thomas Greven, da Universidade Livre de Berlim, estratégias bem-sucedidas em um país são rapidamente adotadas por outros movimentos. Em seu livro The International Far-Right Network , ele analisa como essas táticas funcionam.

"Por exemplo, a estratégia de Bannon de 'inundar a esfera pública com lixo' tem sido extremamente bem-sucedida internacionalmente. Ela envolve sobrecarregar o oponente político com provocações constantes, mentiras, ataques e novas ideias, deixando-o incapaz de reagir", explica Greven. "Hoje, essa tática de comunicação é usada por atores de extrema direita no mundo todo."

Para esses movimentos, a democracia é apenas um meio de chegar ao poder. "A abordagem deles é: quem quer que ganhe a eleição deve governar sem restrições", diz Greven, que chama isso de "democracia hipermajoritária" — ou seja, uma democracia baseada apenas em supostas maiorias.

" Viktor Orbán , por exemplo, diz: 'Fui eleito com o mandato claro de impedir a imigração para a Hungria e não permitirei que instituições europeias, tribunais, organizações civis ou mídia financiada por estrangeiros atrapalhem meu governo.'" Para esses líderes, a dissidência e o compromisso são inaceitáveis.

"A extrema direita acredita que a crescente burocratização, judicialização e supranacionalização impõem muitas barreiras à vontade da maioria", conclui Greven. "É por isso que eles buscam impor essa vontade por meio de uma democracia antiliberal e hipermajoritária."

No início de 2025, a estratégia desses movimentos parece estar dando frutos: Donald Trump foi reeleito nos EUA e em países como Alemanha, França, Reino Unido e Áustria, os partidos de extrema direita continuam ganhando popularidade.

No entanto, o cientista político Thomas Greven acredita que seu sucesso não é inevitável. Muitos desses grupos prosperaram justamente porque nunca precisaram governar, o que lhes permitiu jogar com uma vantagem sobre a oposição.

Greven também aponta que essa aparente unidade esconde profundas fraturas internas. "Se o descontentamento popular e a insatisfação geral dos eleitores forem combinados, a ascensão da extrema direita poderá ser revertida", diz ele.

Mas há uma condição indispensável para isso: que as instituições democráticas continuem a funcionar.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

A extrema direita sequestrou a rebeldia

Há, evidentemente, muitas razões pelas quais pelo menos metade dos eleitores norte-americanos tem preferido Trump nas últimas três eleições. E essas razões provavelmente são muito parecidas com aquelas que levam pelo menos metade dos eleitores brasileiros a continuar optando por candidaturas presidenciais da extrema direita desde 2018.

O que me preocupa, no entanto, é a resistência da esquerda e dos progressistas em se implicar nessa virada eleitoral para a extrema direita, que tem se repetido ao longo desta última década.

"Implicar-se" significa reconhecer que a própria esquerda está errando e que seus erros são parte das razões que alimentam o vertiginoso crescimento do apoio a extremistas, desta vez em conformidade com as regras do jogo da democracia eleitoral.

O que tem sido constante nas promessas de campanha de Trump, no seu discurso de posse, nas suas primeiras ordens executivas e em suas declarações? Duas coisas. Um etnocentrismo sem limites, expresso na retórica radical de colocar os interesses americanos acima de tudo, proteger a segurança nacional, romper com compromissos multilaterais e restaurar o orgulho e a prosperidade do país. E uma promessa direta e sem concessões de desmontar a agenda e a cultura progressista e de esquerda, especialmente no que diz respeito à ideologia e às práticas identitárias.


O que há em comum entre essas duas diretrizes? Uma posição moral baseada na força e na audácia e um líder que se vende como inabalável, sem compaixão, que nunca pede desculpas, recua ou demonstra vulnerabilidade. Esse é um etos vitalista e afirmativo, não há margem para dúvida.

Enquanto isso, para qualquer lado que se olhe, o que os progressistas estão fazendo? Na semana passada, exigiam o desligamento de um sócio de uma editora que se comportou mal com sua mulher há 15 anos. Nesta semana, pedem que uma cantora seja condenada por racismo religioso, proibida de se apresentar e obrigada a pagar uma indenização milionária por ter trocado o nome de Iemanjá pelo de Jesus em uma performance.

Os progressistas estão presos a uma lógica de retaliação e revanche. O que oferecem não é uma nova cultura afirmativa, mas uma ênfase na culpa coletiva e histórica, que reforça a ideia de que o indivíduo está eternamente preso a um passado que o condena. Seu motor é, em grande medida, o ressentimento.

Uma grande parcela da sociedade experimenta o identitarismo como uma moralidade imposta, em que a linguagem deve ser reformulada (novos pronomes, palavras proibidas, vocabulário "neutro") e o passado deve ser reescrito. Direitos considerados básicos passam a ser vistos como privilégios injustificáveis, e o indivíduo deve carregar culpas históricas e sociais que não são diretamente suas.

Quando o politicamente correto é vivido e sentido por milhões de pessoas como uma forma de opressão, a alternativa a ele aparece como libertação. É perfeitamente plausível afirmar que um dos principais atrativos do trumpismo reside na oferta de um vitalismo afirmativo para amplos segmentos da população que se sentem oprimidos por essa mentalidade e suas formas institucionais.

Essa dinâmica se assemelha muito às revoluções morais do passado. Em certo sentido, o trumpismo promete ser para os conservadores o que os movimentos contraculturais dos anos 1960 foram para os progressistas —uma rebelião contra normas repressivas e sufocantes. A diferença é que, agora, a rebelião é contra a esquerda, seus novos dogmas, sua insaciável sede de compensações e cotas.

A extrema direita sequestrou o imaginário da rebeldia, um papel que por muito tempo foi exclusivo da esquerda. Durante o século 20, eram os progressistas que desafiavam normas conservadoras e pregavam a liberdade contra a repressão. Agora, com o politicamente correto transformado na nova ortodoxia cultural, a extrema direita se apresenta como a verdadeira força rebelde.

Isso permite ao trumpismo se vender como um movimento de insubmissos, de gente que não se dobra à patrulha ideológica. E, pelo menos na fachada, isso evoca o "sim à vida" do vitalismo positivo, exalta o impulso, a espontaneidade e o desprezo pelo conformismo social e moral.

Se a esquerda quiser reconquistar o terreno perdido, precisa abandonar a lógica da punição e do ressentimento e oferecer algo mais do que culpa e vigilância moral. Enquanto continuar gritando por mordaças, reparações e humilhações, seguirá entregando à extrema direita o argumento da rebeldia e da liberdade. Mas é claro que continuar pensando que quem vota em Trump é fascista é muito mais consolador.

Ultradireita avança a agenda da 'nova ordem mundial'

Na ocasião da posse de Donald Trump, em janeiro de 2025, fãs do presidente americano vindos de todas as partes do mundo afluíram a Washington para participar do evento histórico. Entre os presentes, estavam o presidente da Argentina, Javier Milei, e a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni. Políticos de ultradireita na oposição, como Nigel Farage, do Reino Unido, assim como representantes do partido Alternativa para a Alemanha (AfD), também se vangloriaram por estar entre os convidados.

A direita radical aproveitou o evento para fazer contatos com seus pares pelo mundo todo. Na véspera, figuras como o filho do ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro, o ideólogo-mor de Trump, Steve Bannon, um parlamentar da AfD e vários influenciadores também se encontraram para trocar ideias. Um influenciador de direita da Alemanha inclusive se filmou no encontro enquanto se gabava de ter recebido um convite do embaixador de El Salvador. O movimento tem uma sede de conexões nunca vista antes.


O fato de justamente Donald Trump ter se tornado um ímã para ultranacionalistas de todo o mundo com sua agenda "America First" é um fenômeno por si só – sobretudo porque muitos deles tendem a ser ideólogos antiamericanos. Mas essa aliança global de antiglobalistas é um paradoxo apenas à primeira vista.
Contra a imigração e uma sociedade moderna

"O que une essas redes é a rejeição da migração, o nacionalismo, as imagens da família tradicional e o antiglobalismo", sumariza a professora de sociologia Katrine Fangen, da Universidade de Oslo, na Noruega

"O objetivo dessas redes não é simplesmente lutar por mais influência política. Seu objetivo final é um realinhamento da ordem mundial ideológica global – elas estão lutando pelo nacionalismo e pelo conservadorismo social e contra a democracia liberal."

E a direita radical está aprendendo rapidamente através da troca de experiências. As estratégias e os sucessos num país são logo adotados por outros movimentos, analisa o cientista político Thomas Greven, da Universidade Livre de Berlim. Ele considera que a extensão da rede da direita radical é algo historicamente sem precedentes.

As táticas são descritas em seu livro Das internationale Netz der radikalen Rechten (A rede internacional da direita radical): "Por exemplo, a estratégia de Bannon 'flooding the zone with shit' ["inundar a zona com merda"] é muito bem-sucedida internacionalmente. Nela, o oponente político é constantemente bombardeado com provocações, mentiras, novas ideias e hostilidade", explica Greven. "Essa estratégia de comunicação agora é usada em todos os lugares por atores radicais de direita."

A relação de seus seguidores com a democracia é instrumental: eles precisam dela para chegar ao poder. "O foco é dizer: quem quer que tenha sido eleito deve ser capaz de governar sem barreiras", explica Thomas Greven. Seu termo para isso é "democracia hipermajoritária", ou seja, voltada exclusivamente para supostas maiorias.

"Viktor Orbán, por exemplo, levanta-se e diz: 'Fui eleito com um mandato claro para manter a migração fora da Hungria, e não quero que instituições europeias, tribunais, resistência da sociedade civil ou qualquer mídia financiada por estrangeiros me impeçam de governar'".

Contradições e concessões são anátema para eles. "Os protagonistas da direita radical estão incomodados com o fato de que, devido à crescente legalização, burocratização e supranacionalização, há obstáculos demais essa vontade da maioria. E esta deve se impor numa democracia hipermajoritária."

Em sua luta ideológica, a direita radical também tem muito dinheiro à disposição. Os doadores mais famosos vêm dos EUA: Elon Musk e os irmãos Koch, empresários bilionários que apoiam a luta ideológica. O bilionário da tecnologia Musk, aliás, não se envolve apenas com dinheiro, mas é, ele próprio, um protagonista da direita radical. Em sua plataforma X, ele se entusiasma com a AfD na Alemanha, apoia a direita radical no Reino Unido e critica os partidos liberais.

Mas não são apenas os doadores privados que apoiam as redes de direita. Rússia e China, por exemplo, também são constantemente criticadas por alimentar as redes populistas de direita para desestabilizar as sociedades liberais.

Entretanto o financiamento por parte dos inimigos declarados da direita radical também ganhou importância, como no caso das verbas da própria União Europeia e de democracias liberais. Na Alemanha, por exemplo, o odiado Estado liberal é o doador mais importante da AfD: em 2021, mais de 10 milhões de euros, ou cerca de 45% dos recursos do partido, vieram dos cofres do Estado.

A explicação é que, numa democracia partidária, o Estado apoia o trabalho das diferentes siglas – e o apoio financeiro aumenta conforme o crescimento delas. "Isso permite que os partidos radicais de direita ampliem seu alcance. Além disso, o Parlamento Europeu, por exemplo, lhes oferece um espaço mais ou menos automático para a cooperação internacional, incluindo recursos adicionais que protegem suas redes", observa a socióloga Katrine Fangen.

Neste início de 2025, a estratégia das redes radicais de direita parece estar funcionando: Donald Trump foi reeleito nos EUA, e os partidos populistas de direita continuam a crescer na preferência dos eleitores em países como Alemanha, França, Reino Unido e Áustria.

Sua ascensão é irrefreável? O cientista político Thomas Greven diz que não. Muitos partidos radicais de direita se beneficiariam do fato de nunca terem tido que governar sozinhos, e sua situação de oposicionistas é relativamente confortável. Além disso, seu sucesso encobre as diversas fissuras de movimentos cuja união, muitas vezes, é apenas superficial, explica o acadêmico.

"Se a discordância nas bases quanto aos conteúdos se unir à insatisfação entre o eleitorado em geral, o sucesso da ultradireita pode ser novamente revertido", argumenta Greven. Mas há um pré-requisito, enfatiza o politólogo: "que as instituições democráticas funcionem".