quinta-feira, 18 de abril de 2024

Pensamento do Dia

 


Um vilão de James Bond estreia na política

O magnetismo dos filmes de James Bond desapareceu na fuligem das estrelas. As pernadas do 007 descansam no passado. O tipo criado por Ian Fleming, que pedia seu dry martini a bordo de um smoking da cor da noite ou de um summer de alta alvura, perdeu o elã.

Não que não tenha sido bom. Era divertido o modo como ele se apresentava para a dama fatal: “Bond, James Bond”. Em dois minutos, os dois se beijariam e em seguida se perderiam entre um salto de paraquedas e um tiro de pistola com silenciador. Só depois de incontáveis piruetas por terra, mar e ar é que o casal teria direito a um happy-end. Caliente. Estávamos no período da guerra fria e o espião que tinha licença para matar nos presenteava com amores escaldantes. O espectador médio daquela época torcia pela manutenção do establishment e vibrava quando James e a namorada se atracavam entre lençóis depois de salvar a humanidade, o planeta, o capitalismo e a dinastia Windsor da destruição completa.

Os vilões, coitados, se despedaçavam e ninguém se compadecia de sua sina. Superempreendedores biliardários sem princípios, os bandidões mobilizavam ciência, força bruta e recursos infindos para sujeitar o mundo inteiro aos seus caprichos – e, no fim, morriam espetacularmente numa explosão atômica sacrossanta. O satânico Dr. No, o não menos satânico Auric Goldfinger e tantos outros saíam perdendo. Subornavam, chantageavam, extorquiam e perdiam. Recrutavam exércitos particulares, manietavam governos e perdiam. Transformavam seu dinheiro em poder e seu poder em opressão – e perdiam de novo. As plateias exultavam. Tomavam partido do mocinho.

Hoje, as diversões públicas são outras. As massas apressadas mudaram de assunto, deixaram o cinema para lá, preferem se entorpecer com substâncias sintéticas para melhor chacoalhar ao ritmo de pancadões repetitivos (seu mantra não tem palavras, somente estrondos compassados) e votam em autocratas pirados. Quanto à sétima arte, esta sobrevive na condição de excentricidade de intelectuais envelhecidos.


No entanto, a despeito do desprestígio dos velhos blockbusters de 007, algo daquele velho script voltou a marcar presença entre nós: o modelo dos vilões que faziam as vezes de antagonistas do espião saiu das telas e, agora, comparece à chamada “vida real”. Desta vez, com sucesso. Eles vencem e colhem todos os louros de ouro. O espectador médio, que é o eleitor médio, mudou de lado, num cavalo de pau desnorteante.

As plateias de hoje, carregadas de ressentimento porque a democracia não lhes entregou as delícias prometidas, apedrejam o que julgam ser a política oficial. Querem ver o sistema incendiar. Aplaudem de joelhos os magnatas que sabotam a ordem pública. A seus olhos, ganância, prepotência e vaidade são virtudes cívicas. A diversão sádica é o critério da legitimidade. A política foi engolida pelo entretenimento sombrio.

Você quer um sintoma? Elon Musk. Muito se tem escrito nos jornais para descrever o psiquismo do empresário que saiu da África do Sul para fazer a América. Seu compromisso é com o show performático, não com a coerência. Alguns dizem – com acerto – que ele faz negócios na China e nunca deu um pio sobre a ditadura que existe lá. Na outra ponta, quando se trata do Brasil, o mesmo rapaz alardeia que a nossa democracia é uma ditadura (consta que tem planos de fazer uns negócios esquisitos por aqui). Age assim e leva a melhor. É o influencer dos influencers.

Elon Musk parece um personagem fugido daqueles filmes de antigamente, mas extrapola. Lembra de longe o fictício Gustav Graves, de 007, um novo dia para morrer, que usava o negócio de satélites para assustar países resistentes a suas pretensões maníacas. Tem o physique du role de um antagonista de Sean Connery. As suas ações reais, contudo, sobrepujam a imaginação de Ian Fleming. Dono de um exibicionismo extremista, quer ter supremacia sobre o mundo inteiro e quer as glórias do espetáculo.

Não satisfeito, quer ficar high. Tem prazeres narcísicos em ter poderes narcísicos e, em seu hedonismo consumista, põe a contracultura a serviço do capital. O Wall Street Journal noticiou recentemente que executivos e conselheiros da Space X e da Tesla, duas de suas companhias, andam preocupados com a quantidade de drogas consumidas pelo chefe (LSD, cocaína, ecstasy, cetamina e cogumelos psicodélicos, entre outras). Foi com esse doping corporativo que o sujeito estreou na política brasileira.

Politiqueiros de segunda, destes que não sabem a diferença entre ficção e realidade (ou entre propaganda e informação, ou entre mentira e verdade), dedicam a Elon Musk uma sabujice despudorada. Afirmam aos brados que o pobrezinho sofre perseguições indizíveis de temíveis funcionários públicos. Veem nele o símbolo universal da liberdade.

Mas, gente do céu, liberdade de quê? De abusar de seu incomensurável poderio econômico para interferir na institucionalidade de um Estado que não é o dele? De ser infantil e truculento de um só golpe (de Estado)? Haja farsa. James Bond, que era um lacaio do império britânico, tinha mais integridade.

A 'Economia da Atenção' e a captura da vida

Estamos enfrentando uma convergência de crises cruzadas e que se aplificam reciprocamente: a catástrofe ambiental, a desigualdade explosiva e o caos financeiro que bloqueia os recursos necessários para enfrentar os dramas. O problema principal não é a crise em si, mas sim nossa incapacidade de enfrentá-la. Quantas COPs já tivemos? O que está acontecendo com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável? As proclamações ESG [responsabilidade ambiental, social e de governança, no jargão do “capitalismo verde”] ajudam? A questão central é a crise de governança, nossa dificuldade em nos organizar. A política dos governos, instituições internacionais e corporações continua focada em apontar culpados – sempre os outros – e não em construir soluções. Em relação à cidadania, o esforço principal tem sido manter nossas mentes ocupadas com temas secundários. A síndrome do “não olhe para cima” apoia-se na grande indústria de atenção.

Como as coisas mudam rápido. Sempre tivemos fofocas de família, trabalho e vizinhança, e a missa dominical para nos manter na linha. Depois surgiram as falas dos governantes no rádio, uma forma de comunicação em massa. Mais tarde, a TV, a internet, e depois a bagunça global: “Se perguntarmos ao ChatGPT sobre as principais tecnologias que impulsionam essa revolução, ele mencionará Inteligência Artificial (IA) e aprendizado de máquina; robótica e automação; Internet das Coisas; impressão 3D; blockchain; realidade virtual e aumentada; redes 5G; computação quântica; big data e cibersegurança.”

Dizer que tudo isso é de tirar o fôlego é um comentário preciso. Nossa atenção é invadida por todos os sentidos, estamos grudados em todos os tipos de telas. Posso tentar ler um artigo sensato sobre um assunto que me interessa, mas vou ter pequenas telas aparecendo, estorvando meus esforços para me concentrar. Não são interesses econômicos tentando chamar minha atenção para coisas úteis: é a batalha econômica pelo meu tempo. E não é apenas a Revolução Industrial 4.0, é outro sistema. A conectividade em massa e global está gerando uma nova civilização. Não são General Motors ou Toyota que estão no centro das corporações mais valiosas do mundo: Apple, Microsoft, Alphabet, Amazon e algumas outras gerenciam o que ouvimos e vemos. Estão criando, com informações privadas invasivas uma nova economia de atenção.


Essas corporações, por sua vez, são controladas pelos gigantes de gestão de ativos: a BlackRock, por exemplo, gerencia 10 trilhões de dólares, enquanto o orçamento federal dos Estados Unidos está na ordem de US$ 6 trilhões. BlackRock, Vanguard e State Street gerenciam ativos próximos ao valor do PIB dos EUA. Alta tecnologia, informação e dinheiro se uniram.

Nós somos a parte receptora do negócio. Éramos cidadãos, de certa forma. Nos tornamos mDAUs (usuários médios diários monetizáveis), a unidade de conta usada nas negociações de compra do Twitter por Elon Musk. O Relatório de Economia Digital da Unctad 2021 nos dá a imagem geral:

“As maiores plataformas – Apple, Microsoft, Amazon, Alphabet (Google), Facebook, Tencent e Alibaba – estão investindo cada vez mais em todas as partes da cadeia global de valor de dados: coleta de dados por meio de serviços de plataforma voltados para o usuário; transmissões de dados por meio de cabos submarinos e satélites; armazenamento de dados (centros de dados); e análise, processamento e uso de dados, por exemplo, por meio de IA. Essas empresas têm uma vantagem competitiva de dados resultante de seu componente de plataforma, mas não são mais apenas plataformas digitais. Elas se tornaram corporações digitais globais com alcance planetário; enorme poder financeiro, de mercado e tecnológico; e controle sobre imensos volumes de dados relativos a seus usuários.”

O relatório destaca que estamos indefesos diante desse novo poder de dominação, reconhecendo que “as instituições globais atuais foram construídas para um mundo diferente, o novo mundo digital é dominado por intangíveis, e são necessárias novas estruturas de governança” para enfrentar os “interesses concorrentes associados à captura das rentas oriundas do uso de tecnologias digitais e dados… Com os dados e fluxos transfronteiriços de dados crescendo em proeminência na economia mundial, a necessidade de governança global está se tornando mais urgente.” Discutem-se medidas: empresas que fazem chamadas indesejadas pagariam multas de até 20 milhões de dólares os usuários da internet poderiam limitar a aparição de caixas de consentimento de cookies pop-up.Sim, isso está sendo discutido…

Quem paga por essas fortunas enormes geradas no topo, nas corporações de alta tecnologia e redes sociais? Nós, é claro, e o mecanismo-chave é o marketing, uma palavra claramente insuficiente para a manipulação da atenção da humanidade em escala global. Os custos do marketing fazem parte do preço que pagamos por cada produto ou serviço. Pagamos para nos convencer. Eles se infiltram em tudo o que estamos fazendo, interrompendo-nos frequentemente para dizer que estão nos oferecendo este filme ou programa de graça, quando os custos estão incluídos nos preços. “A Johnson & Johnson é outra marca mundialmente famosa que fabrica medicamentos, produtos de higiene e equipamentos médicos. Hoje é um dos mercados mais competitivos. Em 2017, a empresa gastou 27,7% de sua receita em marketing.” O marketing se tornou uma indústria enorme na maioria dos setores.

Ele tem sido tão pervasivo que passamos a considerá-lo natural. Não é. Isso nos custa muito dinheiro nos preços que pagamos. Mas a distração permanente que criam, a fragmentação do nosso tempo de atenção, é outro custo. A lógica é absurda, pois quanto mais uma empresa gasta em marketing, mais as outras empresas no campo têm que gastar, e a cacofonia resultante é o que temos que assistir e pagar. Na verdade, para as coisas de que preciso, vou obter informações – não marketing. E para as coisas de que não preciso, ficaria feliz em ser deixado em paz. Somos idiotas por ter que ouvir ou ver as mesmas mensagens centenas de vezes, e com uma música boba?

Com as novas tecnologias, cada dólar investido em marketing atinge bilhões de pessoas a um custo per capita muito baixo (os mDAUs). Mas o custo total e, em particular, a manipulação resultante, são enormes. Quando trabalho no meu computador ou celular, não posso me mover sem ter que aceitar cookies ou autorizar qualquer coisa que me pedem – ninguém tem tempo ou paciência para ler as longas páginas de letras pequenas descrevendo o que estamos autorizando. Isso levou à enorme indústria de informações privadas que sustenta o marketing comportamental. Por engano, comprei um produto kosher no supermercado, apenas para ser inundado com mensagens de turismo para Israel. E todos sabemos que a última coisa que o mundo precisa é mais consumismo.

A ProPublica mostra o marketing da indústria de armas: “É crucial destacar que os fabricantes de armas também usam as ferramentas do Google para rastrear a atividade dos visitantes em seus sites e segmentar usuários com anúncios enquanto navegam em outros sites e aplicativos. Os sites de fabricantes de armas, como Glock, Daniel Defense e Sig Sauer, usam produtos do Google chamados Floodlight e Spotlight para facilitar esse processo, que é chamado de retargeting. Os anunciantes geralmente pagam um prêmio pelo retargeting, já que esses anúncios têm mais chances de levar a uma compra ou outra ação. O Google permite o retargeting de anúncios de armas quando são colocados por meio de um de seus parceiros de troca de anúncios e acabam em um site que aceita anúncios de armas, de acordo com Aciman do Google.”

A última coisa de que precisamos é de mais armas. Mas o negócio da indústria global de atenção é chamar o máximo de atenção possível, para ganhar mais dinheiro com anúncios, independentemente do que os anúncios estejam promovendo. A pandemia de alimentos ultraprocessados é impressionante. “Produzida por um punhado de empresas multinacionais, a comida ultraprocessada é criada para ser barata de produzir e transportar, com substâncias derivadas industrialmente substituindo ingredientes mais caros e garantindo longos prazos de validade. Também é projetada para nos fazer comprar mais – algo essencial em um sistema onde as empresas precisam continuar crescendo para satisfazer seus acionistas a cada trimestre. O consumo global está aumentando rapidamente, especialmente em países de renda média.”6

Esta é a nossa escolha? O The Guardian sugere que culpemos as empresas, não os consumidores. Precisamos de informações sérias, especialmente considerando os dramas que enfrentamos. Isso interessa ao jornalismo? “Além disso, o negócio do jornalismo é uma indústria cada vez menos lucrativa. A maior parte da receita vem de anúncios digitais veiculados em sites de notícias. Então, em vez de vender notícias aos consumidores, é o tempo e a atenção dos consumidores que estão sendo vendidos aos anunciantes. Além disso, alguns dos melhores conteúdos estão trancados atrás de paywalls baseados em assinatura.” Isso faz sentido?

Um exemplo simples do que o jornalismo deveria estar discutindo: “Mais de um bilhão de adolescentes e mulheres sofrem de subnutrição (incluindo baixo peso e estatura), deficiências em micronutrientes essenciais e anemia, com consequências devastadoras para suas vidas e bem-estar.”8Bem, isso não obtém o máximo de mDAUs nos algoritmos. Nos EUA, três corporações, Amazon, Google e Facebook, são responsáveis por 50% do mercado publicitário, dois terços digital.

A convergência da conectividade global com interesses comerciais e políticos gera manipulação em escala industrial. Robert Reich lembra:

“O principal acionista da Warner Brothers Discovery é John Malone, um magnata do cabo multibilionário. (Malone foi um dos principais arquitetos da fusão da Discovery e da CNN.) Malone se descreve como ‘libertário’, embora circule nos círculos republicanos de direita. Em 2005, ele detinha 32% das ações da News Corporation de Rupert Murdoch. Faz parte do conselho de diretores do Instituto Cato. Em 2017, doou US$250 mil para a posse de Trump. Malone disse que quer que a CNN seja mais parecida com a Fox News porque, em sua visão, a Fox News tem ‘jornalismo real’. Com suave ironia, Thomas Piketty comenta que ‘o controle da quase-totalidade das mídias por alguns oligarcas dificilmente pode ser considerado a forma mais elaborada de imprensa livre’.”

A espiritualidade forte, tão generalizada no mundo, dificilmente poderia escapar de seu uso comercial e político. Nos EUA, a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias detém um fundo de doações de US$134 bilhões. A ProPublica mostra que “a aprovação de candidatos políticos por líderes do púlpito tornou-se cada vez mais ousada, agressiva e sofisticada nos últimos anos.” No Brasil, o movimento episcopal com TVs e acesso online resultou em fortunas, mas, acima de tudo, leva a um impressionante showbusiness religioso que impulsiona agendas comerciais e políticas.

Não devemos subestimar a absorção do tempo de nossas vidas – é nosso ativo não renovável mais importante – pelos videogames. Bilhões de usuários, entretenimento móvel, atingindo diferentes gerações (a idade média é de 38 anos) predominantemente masculino (59%), o setor realmente nos pega pelos olhos. Aqui novamente encontramos Amazon, Apple, Google, mas também Tencent e outros na Ásia. O uso se tornou obsessivo para tantos, nos afastando da cultura, da arte, da criatividade e do tempo livre para deixar nossa atenção vaguear.

Esta breve visão geral visa chamar nossa atenção precisamente para a questão-chave: estamos perdendo o controle sobre nossa atenção, e isso significa o tempo e o sentido de nossas vidas. Max Fisher, em seu livro The Chaos Machine: how the social media rewired our minds and our world [“A máquina do caos: como as redes sociais reconfiguraram nossas mentes e o nosso mundo”], trouxe uma descrição detalhada do grau de controle que o sistema permite: “O fato de eles terem conseguido analisar e organizar bilhões de horas de vídeo em tempo real, e depois direcionar bilhões de usuários pela rede, com esse nível de precisão e consistência, foi incrível para a tecnologia e demonstrou a sofisticação e poder dos algoritmos.”

O progresso tecnológico é positivo em si mesmo. A revolução digital abre enormes oportunidades para a humanidade, mas não nas mãos das gigantes corporativas. A atenção é o elemento-chave do que somos, do que escolhemos ser. Gosto de deixar minha mente vagar um pouco, e um sistema global que direciona nossas mentes de acordo com os interesses globais se tornou um enorme desafio a enfrentar. “Livre para Escolher”, foi o que Milton Friedman pensou que estava sendo criado. Saiam das minhas costas. E posso sugerir o que vocês podem fazer com seus cookies?

Mais saúde

Mousam Ray/Bird Photographer of the Year, 'Comportamento das Aves'.

Precisamos de mais pássaros e flores nas cidades. Isso também é saúde
Marcia Chamea (Fiocruz)

O mito da riqueza do petróleo

Venezuela (119º), Nigéria (161º), Angola (150º), indonésia (112º), Iran (78º), Cazaquistão (67º), Iraque (128º), Brasil (89º) e México (77º) são países que extraem e exportam petróleo há anos, e suas populações continuam, na maioria, paupérrimas. Números entre parênteses indicam suas posições, entre 190 nações, no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), medida preferível ao PIB para indicar a qualidade de vida da população. Na “riquíssima”, esbanjadora, autocrática e misógina Arábia Saudita, o IDH é elevado, mas 33% vivem com menos de US$5,00/dia, enquanto na Costa Rica, carente de petróleo, fica na 62ª posição no IDH, é de 20% a proporção nessa condição.

Sem os antolhos que os lobbies petrolíferos colocam em nós, bastam os dados acima para ver que a riqueza decorrente da exploração do “ouro negro” é um mito; ele enriquece, e muito, uma pequena minoria, cuja dinheiro lhes permite definir políticas públicas. Dada essa força, usam a mentirosa promessa de melhorar a condição humana para forçar a continuidade da sua exploração, negando a consequente degradação!


Enquanto isso, continuam cada vez mais graves a destruição ambiental e humana decorrentes da queima de combustíveis fósseis e da busca por mais e mais PIB: recordes de calor quebrados sucessivamente; custos crescentes dos eventos extremos; metade hoje, mais amanhã, da população mundial com falta d’água; a insuspeita OCDE estima que, sem radical mudança de rumo, em duas décadas a temperatura média do planeta terá subido entre 3ºC e 6ºC; a poluição do ar compromete até o cérebro da maioria das crianças em todo o planeta, e as empresas de petróleo seguem ganhando subsídios da ordem de US$10 milhões/hora, globalmente, de acordo com o FMI.

Com todos esses e muitos outros sinais, como seguir explorando combustíveis fósseis e perseguindo aumentar o PIB? Argumentar que queimar mais petróleo vai tornar a vida melhor é fechar os olhos às evidências e à ciência e, ainda, acelerar a hecatombe.

Nas últimas seis ou sete décadas as novas tecnologias e as políticas públicas que buscam o crescimento do PIB aceleraram a degradação ambiental, multiplicaram a renda dos milionários e pouco ou nada melhoraram a vida de mais dos mais de 70% de humanos, que continuam “pobres”. Nesse quadro, e com essas tendências, não se pode esperar “progresso” – no sentido de vidas “melhores” para a maioria – senão alterando objetivos e políticas.

O Brasil, com energia mais limpa que a média e grandes reservas ambientais, deveria e poderia se engajar de maneira mais efetiva na construção do novo e cada vez mais necessário mundo. Mais que “enriquecer”, no sentido de aumentar o PIB, consumir mais e gerar mais lixo, há que promover outros objetivos: renda mínima para todos, maior igualdade, prevenir doenças, melhor alimentação, mais tempo livre e oportunidades de interação social, ambientes urbanos mais confortáveis, para citar uns poucos.

Outro, essencial, é aprofundar cada vez mais a democracia, com crescente participação popular na definição dos usos dos recursos disponíveis.

Relaxe


Países ricos também são corruptos

“Em uma sociedade cada vez mais orientada para o desempenho, as métricas são importantes. O que medimos afeta o que fazemos”, argumentou o relatório de 2008 da Comissão sobre a Mensuração do Desempenho Econômico. “Se tivermos as métricas erradas, nos esforçaremos pelas coisas erra das.” A comissão desafiava a primazia do PIB como métrica do desenvolvimento. Mas a mesma observação aplica-se à corrupção, que é convencionalmente - e de forma enganosa - medida como um problema unidimensional.

Os índices globais de corrupção, incluindo o Índice de Percepção da Corrupção (IPC), da Transparência Internacional, e o Índice de Controle da Corrupção, do Banco Mundial, atribuem uma pontuação única aos países. Estas métricas mostram consistentemente que os países ricos são “muito honestos”, enquanto os países pobres são “altamente corruptos”. Por exemplo, o IPC de 2023 classifica o Reino Unido (pontuação 71) como o 20º país menos corrupto do mundo, muito mais honesto que a China (42) e o Brasil (36). A maioria dos utilizadores do IPC, incluindo imprensa, empresas e analistas, interpretam estes números como um fato.


Mas serão os países mais ricos realmente menos corruptos que os mais pobres? Métricas unidimensionais como o IPC obscurecem o fato de que variedades qualitativamente diferentes de corrupção não podem ser reduzidas a uma única pontuação. Estas métricas também subestimam sistematicamente aquilo que chamo de “corrupção dos ricos” - que tende a ser legalizada, institucionalizada e ambiguamente antiética - em oposição à “corrupção dos pobres”.

Nos países pobres, a corrupção assume formas claramente ilegais, como o roubo de recursos públicos e a aceitação de propinas. Nos países ricos, pelo contrário, muitos acreditam que o problema não existe mais. Em “The Quest for Good Governance”, Alina Mungui-Pippidi conclui até que as economias avançadas tenham atingido um estado final de “universalismo ético”, no qual “a igualdade de tratamento se aplica a todos”. Em suma, o Ocidente rico é honesto.

Mas em virtude da ascensão do populismo nas democracias de renda alta, em grande parte uma reação contra as vantagens descomunais desfrutadas pelos ricos e politicamente ligados, o “universalismo ético” parece mais ilusório do que real. Como revelou o “New York Times” em 2020, metade dos contratos governamentais do Reino Unido para fornecimentos médicos durante a pandemia foram para “empresas geridas por amigos e associados de políticos” por meio de uma “via VIP” especial.

Como, então, o IPC classificou o Reino Unido como o 20º país menos corrupto? A pontuação não se baseia em pesquisas realizadas internamente pela Transparência Internacional, mas em uma combinação de vários inquéritos de terceiros. Quase todos esses vêm de organizações ocidentais, como a Economist Intelligence Unit, e tem uma forte tendência de depender das respostas dos executivo empresariais ocidentais.

Além disso, a formulação dessas pesquisas é muitas vezes vaga. Por exemplo, o Anuário Mundial de Competitividade, uma das fontes do IPC, apresenta aos executivos empresariais uma grosseira escolha binária: “Suborno e corrupção: existem ou não existem”. Não admira que o IPC mostre que os países ricos são “muito honestos” ano após ano, mesmo quando os seus cidadãos comuns discordam.

Reconhecendo que não havia alternativas a essas métricas convencionais, apesar das inúmeras críticas (inclusive do próprio criador do IPC), testei o Índice de Corrupção Desagrupado (ICD). Assim como o IPC, o ICD é uma métrica de corrupção baseada em percepções apresentadas em pesquisas. No entanto, divide a corrupção em quatro variedades: pequenos furtos (extorsão por agentes de rua), grandes roubos (desvio por parte de políticos), dinheiro rápido (pequenos subornos para superar obstáculos burocráticos ou assédio) e acesso ao dinheiro (grandes recompensas em troca de exclusivos e lucrativos privilégios, como contratos e resgates financeiros).

Métricas unidimensionais subestimam sistematicamente a “corrupção dos ricos”, que tende a ser legalizada, institucionalizada e ambiguamente antiética, em oposição à “corrupção dos pobres”

Embora as três primeiras variedades de corrupção - as endêmicas nos países pobres - sejam descaradamente ilegais e diretamente prejudiciais, o acesso ao dinheiro pode ser ilegal (como no caso do suborno) ou permissível (como no caso do financiamento de campanhas). Métodos sofisticados de aquisição de privilégios podem envolver instituições inteiras em que nenhum indivíduo é corrupto. Por exemplo, a lavagem de dinheiro, para a qual Londres é um centro conhecido, pode envolver a movimentação de fundos sem problemas através das fronteiras e de instituições financeiras respeitadas. Nos EUA, os bancos gastaram coletivamente bilhões de dólares fazendo lobby por regulamentações frouxas, o que levou à crise financeira de 2008, mas apenas um banqueiro foi indiciado.

O ICD utiliza uma pesquisa original de especialistas para avaliar todos os quatro tipos de corrupção. Uma esclarecedora comparação é entre EUA e China. Os EUA são menos corruptos do que a China em geral, mas a diferença é menor na categoria de acesso ao dinheiro, o tipo de corrupção dominante em ambos os países. Notadamente, a pontuação dos EUA em termos de acesso ao dinheiro é mais elevada do que a de países de rendimento mais baixo. Se nos baseássemos apenas em pontuações agrupadas, concluiríamos que os EUA são honestos. Mas uma vez desagregadas, podemos explicar o apelo das promessas populistas de “drenar o pântano”.

Ainda mais interessante é que prevalecem diferentes formas de acesso ao dinheiro nos EUA e na China. Numa comparação baseada na aceitação de subornos por meio das redes pessoais de políticos, a China domina claramente. No entanto, quando recorremos às práticas de “portas giratórias” e à captura regulamentar através de lobby, os EUA lideram.

Em suma, o acesso ao dinheiro nos EUA é principalmente institucional, enquanto o problema na China ainda está enredado em relações pessoais que envolvem suborno e pilhas de dinheiro escondido. A China não é necessariamente mais corrupta do que os EUA, mas sua corrupção tem certamente uma qualidade diferente.

Mensurar mal a corrupção não é mero detalhe técnico. Fundamentalmente, reforça a mensagem ilusória, hipócrita e muitas vezes eurocêntrica de que os países de renda elevada alcançaram um estado duradouro de pureza ética. Na realidade, a corrupção evoluiu à medida que os países enriqueceram, tornando-se mais sofisticada e imperceptível.

Precisamos continuar combatendo a “corrupção dos pobres”. Mas, ao desagregar a corrupção, as democracias capitalistas também podem voltar sua atenção urgentemente necessária para alguns dos seus problemas mais prementes, incluindo o aumento da desigualdade, o declínio da confiança pública no governo, e o que a administradora da USAID, Samantha Power, chama de “corrupção moderna”. Superar esses desafios exige medi-los com precisão, em vez de fingir que não existem.

Lugar de idosas é na rua tentando mudar o mundo

Quando imaginamos manifestantes indo às ruas para tentar mudar o mundo, a primeira coisa que vêm à cabeça são grupos de jovens idealistas, estilo, como diria a música "cabelos soltos, gente jovem reunida". Afinal, historicamente, são os jovens que puxaram manifestações para mudar a sociedade.

Isso aconteceu, por exemplo, nos movimentos de Maio de 1968 na França, nos protestos contra a guerra do Vietnã nos Estados Unidos e também na luta contra a ditadura no Brasil. Esses movimentos tinham simpatizantes mais velhos também, claro, mas foram liderados principalmente por estudantes.

Jovem costuma ser mais rebelde mesmo (e isso pode ser ótimo). Mas, nos últimos anos, há algo de novo no front (ou de velho, literalmente): são as pessoas mais velhas (em sua maioria mulheres) que saem às ruas se manifestar pelo clima, contra os preconceitos e contra o fascismo.


Semana passada, tivemos um exemplo da força desses movimentos capitaneados por senhoras. Em uma decisão histórica, o Tribunal Europeu de Direitos Humanos (TEDH) deu ganho de causa a uma ação movida por um grupo de senhoras que luta pelo clima, a Idosas pela Proteção do Clima. O tribunal reconheceu que a Suíça viola os direitos humanos ao falhar em tomar medidas para controlar as emissões de gases de efeito estufa.

O processo foi movido por cerca de 2 mil senhoras. Elas disseram que idosos correm um risco especial de morrer durante as ondas de calor e exigiram uma decisão que reduzisse as emissões de combustíveis fósseis muito mais rapidamente do que o planejado.

Mas elas não protestam só por elas, claro.

O curioso (e bonito) é que provavelmente muitas delas já estarão mortas quanto o mundo for atingido pelos piores efeitos da tragédia climática. Mas o idealismo ensina que não se luta só por si. Elas querem que o mundo sobreviva para seus netos e para os humanos em geral.
Ícone Jane Fonda

Uma das manifestantes pelo clima mais famosas do mundo é minha ídola Jane Fonda, de 86 anos. Em 2019, ela chegou a ser presa algumas vezes por protestar pelo clima em frente ao Capitólio, em Washington. Na época, ela alugou um apartamento e se mudou para a capital dos Estados Unidos só para protestar.

Em 2022, ela teve que dar um tempo dos protestos por razões de saúde, quando descobriu que estava com câncer. Mas já voltou à luta. "Quando eu fui para Washington protestar e fui presa, não me sentia mais deprimida. Toda vez que eu ajo, a esperança vem", disse ela numa palestra realizada mês passado no SXSW, o maior encontro de tecnologia e inovação do mundo.

Na Alemanha, a organização de idosas Omas Gegen Rechts (Vovós contra a Extrema Direita) é famosa e costuma estar sempre presente em protestos contra a extrema direita e o fascismo. O grupo foi criado em 2018 e está espalhado por todo o país: de metrópoles como Berlim a cidades pequenas.

Na Alemanha, a gente encontra as Omas em manifestações no inverno, quando os termômetros marcam números negativos e em caminhadas embaixo de chuva. Elas estão sempre lá. É incrível.

E não são só elas que vão para as ruas. Nas grandes manifestações contra o fascismo que aconteceram na Alemanha em janeiro deste ano, milhares de idosos estavam presentes, até mulheres de muita idade que carregavam cartazes se denominando "as bisavós contra o fascismo". Eu brinco que, quando me aposentar, vou entrar para o Omas Gegen Rechts. É piada, mas tem um pouquinho de verdade. Acho que faz todo sentido usar o tempo livre na aposentadoria para lutar por essas causas importantes.

No Brasil, não existem grupos organizados só de senhoras, mas quem foi em manifestações anti-Bolsonaro, por exemplo, percebeu a grande quantidade de idosos presentes, principalmente, de novo, mulheres.

Minha melhor amiga mora no Rio de Janeira e é ativista de esquerda e pelos Direitos Humanos. Ela reclama constantemente da falta de "jovens" em manifestações – no caso, falamos daqueles que têm entre 20 e 40 anos. "O pessoal não vai. Eu e meus amigos somos sempre os mais jovens", diz ela, se referindo a pessoas na casa dos 50 anos. Pude confirmar que isso é verdade nas vezes em que estive com ela em protestos. Em manifestações no Rio de Janeiro, os cabelos brancos imperam.

Claro, nem todos os idosos são assim. No Brasil, sabemos que muitos idosos foram para portas de quartéis após a derrota de Jair Bolsonaro para pedir um golpe de Estado. Na Alemanha, os mais velhos também tendem a ser mais conservadores do que os jovens.

Segundo um levantamento divulgado pelo jornal alemão Die Welt após as eleições locais de Berlim em 2023, o partido conservador União Democrata Cristã (CDU) foi o preferido entre os eleitores nas faixas etárias de 45 a 59 e entre os que têm 60 anos ou mais. Já a maioria dos jovens votaram no Partido Verde.

Sim, na hora do voto, a maioria dos mais velhos são conservadores. Mas as avós pelo clima e contra a extrema direita mostram que nem todos são assim. E, mais ainda, elas dão exemplo de que não basta votar, é preciso ir às ruas também. Muitos jovens têm muito o que aprender com os mais velhos. Seus avós podem te ensinar, inclusive, a se rebelar.

Se a morte de palestinos não é genocídio, o que é?

O meu antigo chefe, Chuck Schumer, líder da maioria no Senado, disse corajosamente o que Joe Biden temia dizer: “Os civis palestinos não merecem sofrer pelos pecados do Hamas e Israel tem a obrigação moral de fazer melhor. Os Estados Unidos têm a obrigação de fazer melhor.”

A violência em curso, observou Schumer, ameaça não apenas as vidas dos palestinos, mas também a segurança do povo judeu em todo o mundo, ao alienar aliados globais consternados com o derramamento de sangue. Se Benjamin Netanyahu se recusar a desistir, concluiu, os EUA devem começar a “moldar a política israelita utilizando a nossa influência” – o que obviamente inclui aspectos militares, diplomáticos e económicos.

O que levou Schumer a uma interferência tão sem precedentes na política interna de Israel foi a terrível devastação humanitária infligida a Gaza. Quer se acredite ou não que ocorreu genocídio, a taxa de mortalidade em Gaza igualou ou excedeu a de três outros casos recentes que os presidentes dos EUA chamaram de “genocídio”.


Os americanos podem rejeitar tal comparação alegando que Israel está a responder em legítima defesa ao terrorismo. Mas provavelmente não têm consciência de que, historicamente, a grande maioria dos genocídios , ao contrário do Holocausto, foram igualmente respostas a ataques rebeldes ou terroristas – incluindo nos três casos mais recentes.

Em Darfur, em 2003, o rebelde Exército de Libertação do Sudão lançou ataques surpresa que mataram centenas de soldados sudaneses e fizeram outros reféns. O Sudão respondeu visando aldeias não-árabes em Darfur, acusadas de apoiar e acolher os rebeldes. Do final de 2003 ao início de 2004, as forças governamentais e as milícias associadas mataram até 10.000 civis por mês e deslocaram cerca de 2 milhões de civis, causando mais mortes por privação . Em setembro de 2004, a administração de George W Bush declarou a violência como “genocídio” .

Na província de Rakhine, em Mianmar, em 2017, o Exército de Salvação Arakan Rohingya matou guardas de fronteira e lançou ataques terroristas que mataram mais de 100 civis e fizeram outros reféns. Mianmar respondeu atacando áreas muçulmanas suspeitas de apoiar os rebeldes. No final daquele ano, os ataques do governo mataram cerca de 7.000 civis durante o mês mais intenso do conflito e deslocaram mais de 1 milhão. Em 2022, a administração Biden declarou formalmente Mianmar culpado de “genocídio” .

A China, desde a década passada, reagiu a anos de ataques terroristas em Xinjiang, detendo em campos de reeducação pelo menos 1 milhão de civis – principalmente uigures de etnia muçulmana – e interferindo na sua reprodução. Mesmo na ausência de massacres governamentais, a administração Donald Trump declarou em janeiro de 2021 que as ações da China constituíam “genocídio”.

Nos três casos, os governos estrangeiros alegaram estar a responder em legítima defesa aos ataques terroristas perpetrados pelos rebeldes, que por sua vez afirmaram que os seus ataques foram motivados por opressão anterior. O governo dos Estados Unidos, em cada caso, declarou a resposta ao terrorismo um genocídio porque prejudicou desproporcionalmente os civis.

Este padrão repete-se agora no Oriente Médio. Em 7 de outubro de 2023, o Hamas atacou Israel a partir de Gaza, matando mais de 1.100 soldados e civis e fazendo mais de 200 reféns, o que justificou como uma resposta a décadas de expulsão, ocupação e opressão. Israel retaliou atacando Gaza de forma tão indiscriminada que quase 20 mil palestinianos, principalmente civis, foram mortos só durante os primeiros dois meses. Em janeiro, um responsável dos Esatados Unidos confirmou que “mais de 25 mil civis foram mortos”. Autoridades de Gaza dizem agora que o número de vítimas ultrapassa 33 mil pessoas. O próprio Netanyahu admitiu 28 mil mortes.

Pergunte-se: se um combatente do Hamas estivesse escondido sob um bloco de apartamentos de judeus em Israel, as Forças de Defesa de Israel destruiriam todo o edifício para matá-lo?

A taxa de mortalidade de civis em Gaza por Israel é aproximadamente equivalente à de Darfur, e mais elevada do que nos outros dois casos recentes, todos os quais o nosso governo rotulou de “genocídio”. Os ataques de Israel também deslocaram a grande maioria dos mais de 2 milhões de civis de Gaza, uma inundação humana semelhante ou superior à dos outros casos. As restrições de Israel à ajuda humanitária infligiram o maior risco de fome em qualquer parte do mundo em décadas, segundo a ONU.

A violência de Israel é claramente excessiva relativamente aos seus objetivos compreensíveis de punir e debilitar um grupo terrorista, como pode ser ilustrado por comparação. Em 2017, os EUA atacaram e derrotaram o Estado Islâmico no Iraque e na Síria – que detinha muito mais território, incluindo cidades densamente povoadas – mas a taxa de assassinatos de civis nos EUA foi inferior a um décimo, 500 por mês, no máximo.

Porque é que Israel tem como alvo blocos de apartamentos e bairros inteiros quando procura apenas um ou um punhado de membros do Hamas? Tal como no Sudão, em Mianmar ou na China, a resposta não é apenas a dissuasão, mas também a desumanização. Pergunte-se: se um combatente do Hamas estivesse escondido sob um bloco de apartamentos de judeus em Israel, as Forças de Defesa de Israel destruiriam todo o edifício para matá-lo? Claro que não, mas fê-lo em Gaza porque as vidas palestinas estão desvalorizadas.

Não me dá nenhum prazer fazer essas observações. Eu sou judeu. Meus pais fizeram Aliyah para Israel, onde meu irmão nasceu e onde ainda tenho dezenas de parentes. Não sou antissemita nem me oponho à existência de Israel. Mas fatos são fatos.

Ironicamente, muitos dos que agora defendem a retaliação de Israel em Gaza eram anteriormente opositores veementes de respostas semelhantes ao terrorismo por parte do Sudão, Mianmar e China – a que chamavam genocídio. Espero que eles pensem sobre isso.

Alan J Kuperman

quarta-feira, 17 de abril de 2024

A política no pântano

Na cerimônia do Oscar, o apresentador Jimmy Kimmel rebate uma crítica de Trump: "Já não está na hora de você ir para a cadeia?". Se avaliada em termos tradicionais, seria resposta moralmente arrasadora a um ex-presidente americano, novamente candidato, bancando papagaio de pirata online no evento de teledifusão mundial que é a maior premiação cinematográfica dos EUA.

Hoje, o cardápio trumpista de política despreza a moral, a vergonha própria e prospera na metabolização da repulsa dos adversários, mais do que na afeição dos adeptos, pois esse é o combustível do seu ódio.

O pragmatismo postula que nossas verdades, ou pelo menos aquilo em que acreditamos, são hábitos bem-sucedidos de ação. O senso comum costuma pensar a partir desse princípio, e até mesmo os grandes explicadores da vida social se inspiram numa tradição intelectual, se não bem-sucedida, muito debatida. Mas a conduta democrática não decorre de ideias reguladoras com prescrições normativas como provas de verdade. Decorre, sim, de formas de vida variadas, nas quais se pode ou não acreditar, a depender do lugar de fala.


São elas que, em sua novidade, apontam para uma lógica de vida diferente da velha política, insuficiente frente à complexidade sócio-histórica, assim como ao afloramento no plano social dos aspectos sensíveis das ações humanas. A dignidade do agir público e a compreensão do que é politicamente humano têm sido avaliadas pela linguagem do compromisso com as classes desfavorecidas. Isso é inerente à tradição de pensamento progressista que subsiste em círculos intelectuais, mas estaria desaparecendo até mesmo do senso comum liberal.

Por um lado, os militantes neoliberais e a mídia sempre trabalharam para desqualificar movimentos populares de ampla abrangência social. Por outro, a nova realidade é terreno pantanoso onde chafurda a ultradireita, sem se sustentar na história (daí, o abismo da sociopatia), mas agarrando-se aos próprios cabelos num movimento insensato, sem anseio de emancipação humana.

Hungria, Rússia, Estados Unidos, Coreia do Norte, Argentina, Venezuela, Nicarágua, Portugal, lista ainda incipiente, são lugares mais visíveis da crise dos sistemas de poder e das mudanças associadas à falência da sociedade política tradicional. Em cada um deles a massa falida e as oligarquias pactuam com uma forma sociopata de liderança.

Natural o destaque de Trump, por se localizar no centro do Império o seu pântano particular. Ali fica claro que moralidade não é mais nenhum motor político e que a racionalidade do avanço tecnológico pode ser parceira do irracionalismo cívico. Mas a pergunta de Kimmel ao histrião, válida para outros, mostra que algum bom senso continua vivo.

Que tamanho terá esse monstro amanhã?

"Davam duas horas para suspender uma conta, ou teríamos multas pesadas". Antes do surgimento das tecnologias digitais, podia-se falar livremente, em qualquer lugar, sobre pessoas e coisas. As palavras despareciam no ar. Hoje, entretanto, não é bem assim. Os olhos e ouvidos das redes sociais registram tudo. As intenções são detectadas, decodificados ou reproduzidos rapidamente por cidadãos conectados pela tecnologia digital. Eles superam, no mundo, a casa dos 5 bilhões de pessoas . No Brasil são mais de 100 milhões. Nesse universo, os discursos não só ganham sentidos, como instigam ações. O filósofo francês Michel Foucault, não propriamente um usuário da internet, advertia: palavras são símbolos vivos, geram ação e criam realidades.


A consideração é elucidativa para essa contenda entre Elon Musk, proprietário do Twitter (X), e Alexandre de Moraes, um ministro do Supremo Tribunal, do Brasil. O embate entre os dois reverbera ideias expandidas digitalmente na consciência dos cidadãos . Vêm da livre circulação das palavras e das armadilhas discursivas que nelas se escondem. Pela dimensão que alcançam, o que está no submundo da etimologia não fica ignorado das redes digitais , sobretudo os enunciados absurdos .

A burrice não é tão generalizada como se quer acreditar. A reação ampla e imediata nas redes chega a assustar os emissores empoderados da esfera do Estado. Fragilizados diante do cidadão digital, não conseguem se esquivar da tentação de cercear a liberdade de informar e de pensar . O alargamento das reverberações contestatórias nas redes sociais , chegam a desqualificar sujeitos, autoridades e ideias tidas como impróprias ou "fakes" .

No campo da política , há no mundo uma disputa hegemônica para apropriação das novas tecnologias que alargaram competências e a compreensão do cidadão comum. Vista como virtude, ao mesmo tempo, constituiria uma ameaça. Os militares brasileiros chegaram a recusar a entrada da internet no Brasil, hoje controlada na China - nosso pretenso modelo político -, na Rússia, em Cuba e países com perfil similar . Criaram uma secretaria de tecnologia vinculada à Presidência da República para gerar e administrar uma política tecnológica exclusivamente nacional, até então algo rudimentar.

Digitalmente, o Brasil parara no tempo. Não havia por aqui massa crítica capaz de erigir aqueles propósitos de cunho nacionalista. Nesse ínterim, as novas tecnologias expandiram-se, e o uso da internet evoluíu num ambíguo confronto entre o controle e a proibição, dentro do escopo da liberdade de pensamento e de informação . As pesquisas e tecnologias fortaleceram a tal ponto a sociedade civil, que ela terminou derrubar governos, como aconteceu nos países árabes do norte da África.

Nosso atual destemido Presidente da República e sua "entourage" parece deglutir a questão, como um Macunaíma, ao pretender retomar essa linha autoritária. "O País não precisa da inteligência artificial", porque é suficientemente inteligente para dar resposta ao que necessita. Anunciou que irá assinar nos próximos dias um ato de regulação da IA no Brasil, e que o governo já cogita de algo digital próprio.

Tudo bem, mas certamente um conteúdo com essa origem pode significar o controle da informação. Para começar, o Presidente vê no Brasil apenas dois polos políticos : "Esquerda e Direita", que chamou de "Nós e Eles". Os substratos aderem naturalmente . Difícil acreditar que isso seja fruto de confusões mentais discursivas ou de insuficiência intelectual . O "Nós e Eles" não é uma declaração apenas intempestiva, surgida no calor da hora. Nela brota o futuro de um governo centralizado perene, um partido único proletarizado, conforme explicou José Dirceu.

O problema é como essa futurologia vai se materializar? A democracia nunca conseguirá construir um regime desses no Brasil. O "Nós e Eles" é uma espécie de mantra que alimenta, infelizmente, um ódio, uma linha demarcatória das diferenças entre as pessoas na sociedade voltadas para o bem ou para o mal . Uma mensagem dessas ignora a história, e não se preocupa com as consequências .

É complicado explicar o ódio gerado por uma aparente e ingênua declaração, que induz a um distanciamento entre as pessoas de uma comunidade , produzindo facções de amigos e inimigos. O ódio, como método, é o sentido oculto no enunciado, contido até em desleixadas declarações sobre a busca pela paz e a democracia. A introdução dessa diferença social exige um emissor com coragem e desfaçatez para mentir e agir. Instalado carismaticamente tende a se perpetuar, como o peronismo, na Argentina; o maoísmo, na China; ou o stalinismo, na Rússia. São realidades , segundo Foucault, criadas pela palavra . Caminha-se, portanto, em direção a uma nova ética na gestão pública.

Nem Nietsche suportaria tanta ousadia .Todos os que mentem estão conscientes de que o fazem. São perfis recorrentes. Insistem em fazê-lo também por dois motivos : um patológico e o outro, porque , nas suas fantasias existenciais, vem nesse caminho uma forma de se estabelecer no cenário. A mentira e o ódio juntos trazem também em sua própria configuração matrizes do contraditório, identificadas e exploradas pelas redes sociais . Na verdade, é tudo grosseiramente óbvio nesse politicamente correto.

Se o ódio e a mentira, simbolizados nas palavras, desmascaradas nas redes digitais , não são suficientes para sepultar narrativas, resta a censura que surge na cabeça de ineptos governantes . E é assim que a Nação assiste estupefata , essa discussão entre um ministro do STF e o dono de uma plataforma digital, sentenciada a apagar opiniões de políticos e jornalistas . Musk expande seus negócios explorando a liberdade de informação. O cidadão ministro à busca de legitimidade para suas belicosas atitudes anticonstitucionais. São verdadeiras monstruosidades em curso . A persistirem, resta a pergunta: de que tamanho será esse monstro amanhã?

Este é Elon Musk

Um empresário estrangeiro bilionário, comanda aqui no Brasil a oposição à democracia e à soberania popular e busca aliados estrangeiros, em países próximos, para fazer sua guerra contra a soberania do Estado, a República e a ideia de nação, que esteve na raiz do nosso processo constituinte. E o faz apoiado por uma malta fascista, aliada ao que tem de pior no neoliberalismo autoritário, inimigo dos direitos fundamentais e da soberania popular. Este é Elon Musk.

A ideia de Elon Musk é instituir um novo tipo de Estado, através de uma estrutura privada de poder soberano, que possa corroer os valores democráticos – por dentro e por fora da estrutura normativa do Estado instituído – privando-o do seu poder soberano legitimado pelas eleições democráticos, para criar um sistema criminoso de poder privado que controle a República, de fora para dentro, sem ocupação territorial de caráter militar.


Erik Olin Wright busca, na parte conclusiva do seu livro Análise de classe –abordagens, uma resposta para o dilema “se a classe é a resposta, qual é a questão?” – formulando a pergunta específica: “como as pessoas, individual e coletivamente, situam subjetivamente a si e aos outros, dentro de uma estrutura de desigualdade.” É uma pergunta axial para nos situar hoje na nova estrutura de classes e “não-classes” do capitalismo financeiro turbinado pelas novas tecnologias, globalizado pelo consumismo desigual e exasperado.

Elon Musk e Karl Marx percorreriam o mesmo caminho com propósitos de dar respostas com sentidos e ideais diferentes. Marx diria que pela luta política entre as classes – pacífica ou armada, segundo o Marx que se lê – deveríamos conquistar um estado de extinção das classes, numa sociedade pautada pela igualdade com o reconhecimento das diferenças. Elon Musk diz – como Javier Milei – que é preciso uma geleia geral, sem Estado e sem classes estruturadas, para que a sociedade só reconheça os sujeitos como indivíduos em luta para meritoriamente serem mais desiguais.

Parece irônico colocar num mesmo texto a influência na realidade, de dois práticos e pensadores tão diferentes. Mas não será, se pensarmos que Marx é o principal herdeiro do iluminismo do século XVIII e Elon Musk é hoje o principal agitador e “influencer” do fim do humanismo burguês. Este, ao mesmo tempo em que destrói as heranças humanistas ilustradas, promove uma estética da decadência, que encarna – com a sua idiotia provocativa e o seu talento pervertido – a ideia de monetizar a canalhice como valor agregado à sua ousadia performática.

A experiência de Elon Musk como CEO, chanceler e líder de um novo poder soberano global, que se ergue no horizonte da história contemporânea, não é apenas o novo traçado de uma epopeia fascista libertina, hoje apelidada de “libertária”, mas é, sobretudo, a promessa de uma nova etapa – na época da dissolução do projeto imperial-colonial tradicional – que se encaminha para outro patamar de poder do capital financeiro global, no atual sistema-mundo.

Elon Musk concebe uma linha política, como um agente especial das mudanças tecnológicas e informacionais da grande pirataria do capitalismo, como representação informal de novos entes soberanos. Diferentes e distantes dos estados modernos, formados até agora, o Estado de Musk é o “estados-fluxo”, sem pátria e sem pruridos humanistas: Estado total global de natureza privada, que esmaga as agências públicas que fizeram as normas de poder do Estado de direito.

Estes Estados desafiam a genética do Estado de direito – nacional e social – pela captura da opinião na ditadura do mercado e que tem no seu limite tanto a guerra quanto a ditadura militar como seu recurso derradeiro. A naturalização da violência, o fim de qualquer proteção social e a multiplicação do Estado-polícia, face ao rebaixamento do que resta das funções públicas do Estado, são o seu caminho.

Elon Musk encarna o fato de que há uma outra realidade em marcha, onde os conceitos de pátria, nação e solidariedade, serão soterrados por estes novos gerentes, pilantras do capitalismo em crise, cheios de “brilho” nos momentos mais excitantes da sua vida, para quais não importa nada: miséria, famílias destruídas, crianças assassinadas, jovens mortos de fome, trabalho precário e noites de inverno sem calor. Nada lhes importa.

O que lhes importa é a próxima cotação das bolsas e como os idiotas e patéticos editoriais da desumanidade dos grandes órgãos de imprensa verão sua conduta desafiadora da ordem democrática, para negociar com eles os resultados da monetização da mentira industrialmente produzida nas catacumbas das redes.

A alarmante naturalidade com que a grande imprensa trata a pirataria de Elon Musk contra as democracias do continente, na Bolívia dizendo que seria ótimo um golpe de Estado para que o país possa ser colonizado para entregar seu lítio, no Brasil atacando os poderes da República, o presidente do Supremo e subvertendo a luta política para transformá-la num canil raivoso de protagonistas da direita fascista, ele, Elon Musk, passeia um oceano de delírios como um agente estrangeiro de um Estado sem pátria.

A síntese que Elon Musk representa é a seguinte: seu poder deixado “livre” terá como resultado a implementação de uma soberania de “novo tipo”, cuja ordem normativa será apenas um fluxo digital e comunicacional, combinados numa sequência de redes de empresas – reais e virtuais – em cujos “nós” inteligentes estarão os comandos da nova soberania privada, aceita como se fosse um Estado Nacional invasor que já dominou o território.

segunda-feira, 15 de abril de 2024

Relatório liga crimes no Cerrado a gigantes da moda europeus

Até chegarem nas vitrines de gigantes como Zara e H&M, calças, bermudas, camisetas e meias de algodão deixam para trás um rastro de desmatamento, grilagem de terras e violação de direitos humanos no Brasil. Para o consumidor, as peças parecem acima de qualquer suspeita: a maioria estampa um selo de produção sustentável.

A denúncia faz parte do relatório Fashion Crimes da organização Earthsight, publicado na quinta-feira. Ao longo de um ano, uma investigação detalhada focou nos negócios que conectam as lavouras do Brasil, quarto maior produtor da commodity no globo, às marcas europeias.

A ONG analisou o caminho percorrido por 816 mil toneladas de algodão com a ajuda de imagens de satélite, registros de envios de mercadoria, arquivos públicos e visitas às regiões produtoras.

Segundo o relatório, essa matéria-prima foi destinada especialmente a oito empresas asiáticas que, entre 2014 e 2023, fabricaram cerca de 250 milhões de itens para as lojas. Muitos deles, alega a investigação, abasteceram marcas como H&M e Zara, entre outras.

"É chocante ver estas ligações entre marcas globais muito reconhecidas, mas que, ao que tudo indica, não se esforçam o suficiente para ter controle sobre estas cadeias de fornecimento, para saber de onde vem o algodão e quais tipos de impacto ele provoca", diz Rubens Carvalho, chefe de Pesquisa sobre Desmatamento da Earthsight, à DW.


O problema, afirma a ONG baseada no Reino Unido, está na origem da matéria-prima. O algodão exportado sai principalmente do oeste da Bahia, região imersa no Cerrado brasileiro muitas vezes desmatado ilegalmente para ampliar o cultivo. Em alta, o corte desta vegetação dobrou nos últimos cinco anos, segundo monitoramento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Dentre os casos analisados no relatório, está o grupo SLC Agrícola. Fundado em 1977 no Rio Grande do Sul, o grupo diz ser responsável por 11% do algodão brasileiro exportado (safra 2019/2020).

O estudo da Earthsight também diz que, nos últimos 12 anos, estima-se que 40 mil campos de futebol de Cerrado tenham sido destruídos dentro das fazendas do SLC. Em 2020, a empresa, que também planta soja, foi apontada como a maior desmatadora do bioma, calculam pesquisadores do Chain Reaction Research.

Em 2021, o SLC se comprometeu junto a fornecedores com uma política de desmatamento zero. Um ano após a promessa, um relatório da Aidenvironment identificou o corte de 1.365 hectares de Cerrado dentro das propriedades que cultivam algodão, o equivalente a 1.300 campos de futebol. Quase metade estava dentro da reserva legal.

Uma consulta feita pela Earthsight no banco de dados do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) mostra mais de R$ 1,2 milhão de multas aplicadas por infrações ambientais desde 2008 nas fazendas do grupo no oeste da Bahia.

Uma das acionistas da SLC é a britânica Odey Asset Management. Em 2020, em uma entrevista para o diário britânico Financial Times, o fundador da empresa disse que arcar com as penalidades ambientais no Brasil era algo corriqueiro como "pagar multas de trânsito".

Questionado, o grupo afirmou por meio de nota à DW que "todas as conversões de área com vegetação nativa da SLC seguiram os limites estabelecidos por lei". Especificamente sobre a área desmatada em 2022 apontada no relatório da Aidenvironment, a empresa diz que a destruição se deu por "um incêndio natural, não ocasionado para a abertura de novas áreas para produção".

Sobre as multas aplicadas pelo Ibama, a SLC Agrícola diz ter recorrido administrativamente de todas as autuações. "As multas que foram objeto de recurso estão em tramitação e não houve, até o momento, um julgamento definitivo", diz a nota.

Outro grupo analisado em detalhes é o Horita, original do Paraná e atuante na Bahia desde a década de 1980. Dentre as várias denúncias feitas pela Earthsight está a chamada grilagem verde: imposição de reservas legais, ou áreas de preservação de propriedade privada, em zonas onde vivem comunidades tradicionais. A manobra impede que famílias realizem atividades de subsistência e, nos piores casos, permaneçam nas terras.

O conflito fundiário entre as famílias geraizeiras, como se identificam essas comunidades tradicionais na região, e fazendeiros data de 1970. Na década seguinte, a companhia Delfin Rio compra terras e registra o empreendimento como Agronegócio Condomínio Cachoeira do Estrondo. Segundo a Associação de Advogados de Trabalhadores Rurais do estado (AATR), o grupo Horita é um dos sócios do complexo de fazendas.

Em 2017, as famílias geraizeiras da zona rural de Formosa do Rio Preto, no oeste baiano, ajuizaram uma ação contra a Estrondo por grilagem de terra e ganharam, em caráter liminar, a posse coletiva de 43 mil hectares que o empreendimento dizia ter comprado. A maior parte está no coração da Matopiba, zona de expansão do agronegócio que integra os estados de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, habitada há mais de 200 anos pelos geraizeiros.

Issa Gira, de 67 anos, planta algodão há vários anos em Burkina Faso, mas continua lucrando menos de um dólar por dia. Toda a família tem de ajudá-lo na lavoura, inclusive o garoto da foto. O consumidor final nem toma conhecimento das precárias condições em que vivem essas pessoas.

Após a colheita, os agricultores de Burkina Faso trazem o produto para os postos de coleta na vila mais próxima. Antes disso, uns ajudam os outros a comprimir o algodão em grandes fardos, para pesá-lo. "Ninguém se preocupa com o cultivo, o primeiro elo da cadeia de produção de roupas", adverte o fotógrafo.

Mais de quatro milhões de pessoas trabalham na produção de algodão em Burkina Faso. O algodão é a segunda matéria-prima burquinense mais valiosa, depois do ouro. A Sofitex é uma das três empresas no país que compram o algodão dos agricultores e lhes dá empréstimos. A Sofitex exporta cerca de 540 mil toneladas de algodão por ano. 

"Os subsídios do Ocidente para a produção de algodão levam a dumping nos preços, causando altos prejuízos aos países pobres", afirma Franko. Para ele, a produção de algodão e de roupas nos países pobres é só outra forma de colonialismo. "As pequenas empresas muitas vezes trabalham como contratadas de empresas maiores. O aluguel é caro para os trabalhadores, por isso eles também dormem no local."

Trabalhadoras cortam tecido em uma fábrica em Daca, Bangladesh, coração mundial da indústria têxtil barata, onde elas ganham em média 2,20 euros por dia. Empresas como H&M, Walt Disney e Lidl têm seus produtos fabricados aqui. A região foi manchete em 24 de abril de 2013, quando o prédio Rana Plaza desabou, causando a morte de 1.129 pessoas.

"É difícil falar de condições justas de produção mesmo em marcas caras", diz Franko sobre esta foto, que mostra trabalhadores romenos. "As condições de trabalho nas fábricas de roupas da Romênia são muito melhores que na maioria dos países asiáticos e africanos, mas os salários, de no máximo 200 euros, ainda são extremamente baixos, em certos casos menores que na China. E essa é a União Europeia!".

A indústria da moda passa por uma estagnação em termos de tendências. Por isso, muitas peças de roupa podem ser usadas por mais tempo. Mesmo assim, a cada ano são vendidas mais de 80 bilhões de peças em todo o mundo. A má qualidade e o baixo preço facilitam o descarte. Só nos Estados Unidos surgem a cada ano mais de 15 milhões de toneladas de lixo têxtil.

"O algodão tem uma história obscura, e, na minha opinião, os problemas decorrentes de seu comércio nunca foram resolvidos", lamenta o fotógrafo Jost Franko. Embora se fale muito disso, os consumidores parecem não se preocupar: "Acho que é mais fácil fechar os olhos. Os problemas têm raízes profundas e não são só da indústria têxtil."

Fashion Revolution é um movimento global que exige maior transparência, sustentabilidade e ética na indústria da moda. A semana em que se lembra o desabamento do Rana Plaza em Bangladesh foi declarada Semana da Revolução da Moda, com a campanha #whomademyclothes, em que o consumidor é encorajado a questionar "Quem fez minhas roupas" e exigir maior transparência na cadeia de produção de têxteis.Foto: www.fashionrevolution.org.

Em 2019, a Operação Faroeste da Polícia Federal revelou um conluio do alto escalão do magistrado baiano para favorecer fazendeiros na mesma região. Segundo o Ministério Público Federal (MPF), um esquema de compra de sentenças teria movimentado cifras bilionárias em disputas de terras e tinha participação de magistrados, empresários, advogados e servidores públicos. Walter Horita, um dos fundadores do grupo, é um dos réus no processo, ainda em julgamento.

Um dos magistrados acusado de vender sentença para grileiros, segundo a Operação Faroeste, atuou na ação que julgava a posse coletiva dos geraizeiros. Segundo a AATR, a liminar a favor das comunidades só passou a ser cumprida após o afastamento e prisão do juiz.

Procurado pela DW, o Grupo Horita declarou nesta quarta-feira que "aguardará a divulgação do relatório para qualquer nova manifestação, para além das que já foram proferidas pelo seu departamento jurídico, em resposta às acusações da ONG".

"Todas as alegações negativas contra o Grupo Horita constantes da Carta da Earthsight, datada de 23/08/2023, como supostos 'achados', não correspondem à verdade", diz um trecho da resposta enviada à ONG.

Durante a investigação, a Earthsight seguiu a rota de 816 mil toneladas de exportações de algodão que saíram da SLC Agrícola e Grupo Horita entre 2014 e 2023 para os principais destinos: China, Vietnã, Indonésia, Turquia, Bangladesh e Paquistão. Com base em dados que permitem rastreio – o que não ocorre no caso chinês –, as pistas levaram a oito fabricantes de roupas na Ásia.

Todas as intermediárias identificadas (PT Kahatex, na Indonésia; Noam Group e Jamuna Group, em Bagladesh; Nisha, Interloop, YBG, Sapphire, Mtmt, no Paquistão) fornecem produtos acabados a marcas como Zara e H&M, segundo aponta a ONG.

"O algodão que associamos aos abusos de direitos à terra e ambientais na Bahia tem certificação Better Cotton. Essa iniciativa falhou em impedir que este algodão chegasse aos consumidores preocupados", afirma o relatório da Earthsight.

Criada em 2009 pela indústria e outras organizações, incluindo a WWF, a iniciativa criou um selo para atestar a origem da matéria-prima no intuito de garantir qualidade e respeito ao meio ambiente. No Brasil, segundo dados da Better Cotton, há 370 fazendas certificadas em parceria com a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa).

Em 2018, uma análise feita pela Changing Markets Foundation, organização que visa alinhar mercados a padrões de sustentabilidade com sede na Holanda, sobre certificadoras apontou problemas na Better Cotton. "Em geral, os padrões para o algodão certificado são baixos e aplicam-se apenas ao início da cadeia de abastecimento de algodão. Considerar o certificado uma garantia de sustentabilidade é enganoso", dizia o levantamento.

A Better Cotton, sediada em Genebra, disse à DW que acaba de concluir uma auditoria aprimorada feita por terceiros das fazendas envolvidas e que precisa de tempo para analisar as conclusões e implementar mudanças, caso sejam necessárias. "As questões levantadas [pelo relatório] demonstram a necessidade premente de apoio governamental na abordagem das questões trazidas à luz e na garantia de uma implementação justa e eficaz do Estado de direito", diz o e-mail da iniciativa.

À DW, a H&M afirmou que "as conclusões do relatório são altamente preocupantes" e que encaram a questão com muita seriedade. "Estamos em estreito diálogo com a Better Cotton para acompanhar o resultado da investigação e os próximos passos que serão dados para fortalecer e revisar seu padrão", respondeu a varejista, também por e-mail.

A Zara disse à DW que leva "as acusações contra a Better Cotton extremamente a sério" e exige que a certificadora compartilhe o resultado de sua investigação o mais rápido possível.

"Além disso, solicitamos com urgência as providências tomadas pela Better Cotton para garantir a certificação de algodão sustentável nos mais altos padrões", disse a varejista por meio de nota.

Na quarta-feira, a Inditex, proprietária da Zara, exigiu mais transparência da Better Cotton após anúncio da divulgação do relatório para esta quinta. A Inditex enviou uma carta à iniciativa com data de 8 de abril, pedindo esclarecimentos sobre o processo de certificação e progressos em práticas de rastreamento de cadeias produtivas. A Inditex não compra o algodão diretamente dos fornecedores, mas as empresas produtoras são auditadas por certificadoras como a Better Cotton.

Para Rubens Carvalho, da Earthsight, responsabilizar os europeus é parte da solução para acabar com o desmatamento e violações de direitos nos centros produtores de commodities, como o Brasil.

"O algodão ainda é pouco regulamentado nos mercados europeus. Eles precisam regular seu consumo e desvinculá-lo de impactos negativos ambientais e humanos. É preciso uma regulamentação séria, que puna em caso de descumprimento. Isso aumenta a pressão sobre os produtores", defende Carvalho.
Nádia Pontes

Musk é o garoto-propaganda da taxação global dos super-ricos

No livro "Power and Progress", Daron Acemoglu e Simon Johnson mostram como a excessiva confiança de empresários em suas próprias visões pode produzir grandes desastres. Citam o caso de Ferdinand de Lesseps, diplomata francês responsável pela construção do canal de Suez.

Com a confiança inflada, Lesseps convenceu investidores a construir o canal do Panamá no fim do século 19, apesar das condições adversas e perigosas do novo terreno. O projeto falhou sob sua supervisão, com muitos trabalhadores feridos ou mortos.

Esse parece ser o caso de Elon Musk. Reportagem do jornal The New York Times de 2022 retrata-o como um magnata que "age por impulso e acreditando que está absolutamente certo". Sua fortuna o torna ainda mais perigoso.

Ao adquirir a plataforma Twitter, ao final de 2022, Musk fechou o capital da empresa para evitar a pressão que sofre dos acionistas na Tesla (fora o elevado número de mortes registradas nos veículos "autônomos"). Empresas de capital fechado não precisam divulgar resultados trimestrais nem se sujeitam à regulação ostensiva de autoridades.

Sem essas amarras, Musk fez do Twitter um passatempo que lhe custou US$ 44 bilhões, sendo US$ 12,5 bilhões em dívida bancária. Musk demitiu metade dos funcionários e deu passe livre ao discurso de ódio e à desinformação na plataforma. A queda na captação de novos usuários e no faturamento da empresa levou o fundo de investimento Fidelity —que investiu US$ 300 milhões na operação— a estimar perda de 71% do valor da X Holding desde sua aquisição.

Bilionário falastrão e engajado politicamente em causas próprias, Musk tem usado seu novo brinquedo para ameaçar governos, promover criptomoedas e desafiar anunciantes no X. De onde vem tanto poder?

A fortuna de Elon Musk —estimada em US$ 195 bilhões— é maior que o PIB de mais de 130 países em 2023. Ademais, ele detém um complexo industrial em setores estratégicos: transportes terrestre e aeroespacial, telecomunicações e inteligência artificial. Tais poder e influência geram preocupações.

A Nasa alertou sobre a exposição de tecnologia e informação críticas ao controle da SpaceX e da Starlink. Outros países já emitiram alertas similares e estão trabalhando para substituir o sistema de posicionamento global (GPS) dos EUA por similares nacionais (na Rússia, Glonass; na União Europeia, Galileo; na Índia, IRNSS; na China, Beidou/BDS). Até quando o Brasil vai dormir no ponto?

Além disso, a Tesla já perdeu a liderança no mercado de veículos elétricos, com a implacável avalanche de carros chineses. Musk agora pede proteção tarifária e se esbalda nos pesados subsídios e incentivos do governo dos EUA, que permitiram à Tesla reduzir seus preços.

Se somarmos a tudo isso a promessa de taxação global dos lucros das grandes corporações —a Tesla não paga um centavo de tributo federal, por registrar seus lucros em paraísos fiscais—, há motivos de sobra para Musk salivar pelo retorno de Donald Trump.

É nesse contexto que se dão os ataques contra Alexandre de Moraes. O Brasil vem fechando portas às suas investidas —com a revisão dos contratos que beneficiavam a Starlink e a perda da mineradora canadense Sigma Lithium para a chinesa BYD, o país se torna o lugar ideal para testar um mote da campanha presidencial de Trump. Lá, como aqui, a morosidade do Legislativo em definir o marco regulatório das redes sociais deixa à Suprema Corte a deliberação sobre o tema. Daí nasce a alegação de que o Judiciário viola a liberdade de expressão.

Além da regulação das mídias digitais, o caso Musk revela a necessidade de os Estados nacionais desenvolverem suas tecnologias críticas (como satélites e outras tecnologias da informação) e, sobretudo, a urgência de limitar o acúmulo de riqueza dos bilionários.

Musk é o garoto-propaganda do imposto mínimo global. Que seus ataques ao Judiciário brasileiro unam as nações em torno dessa inadiável agenda.
André Roncaglia

Algoritmo da morte: IA gerou 36 mil alvos humanos a eliminar na Faixa de Gaza

Até pouco tempo atrás o jornalismo independente da revista on-line +972, com sede em Tel Aviv, era pouco conhecido fora das fronteiras do Oriente Médio. Publicada em língua inglesa desde sua fundação, em 2010, ela tem direção e corpo editorial composto de israelenses e palestinos. Seu nome esdrúxulo deriva do código de telefonia usado tanto para Israel como para a Cisjordânia ocupada. No espectro ideológico que estraçalha a profissão, a +972 pode ser definida como francamente de esquerda. É respeitadíssima junto a entidades internacionais de jornalismo investigativo e inversamente incômoda para o governo de extrema direita de Benjamin Netanyahu. Sobretudo em tempos de guerra.

Em novembro último, quando a +972 publicou um inquietante relato sobre o afrouxamento das normas militares que permitiam o bombardeio de alvos não militares por parte das Forças de Defesa de Israel (FDI), houve pouco alvoroço mundial. Uma lástima, pois a investigação, assinada pelo veterano Yuval Abraham, se baseava no depoimento inédito sob sigilo de sete integrantes da ativa e da reserva dos serviços de inteligência israelenses — todos com atuação direta na campanha contra Gaza.



Agora, nos primeiros dias de abril, Abraham e a +972 voltaram à carga, em conjunto com o site em hebraico Sichá Mekomit (Chamada Local). Sempre alicerçado no testemunho de oficiais das FDI, a investigação detalha o funcionamento de dois sistemas de inteligência artificial usados na retaliação militar ao traumático ataque terrorista sofrido em 7 de outubro. O primeiro, batizado “Lavender” (Lavanda), elabora listas de alvos inimigos a ser assassinados na Faixa de Gaza, praticamente sem verificação humana. De que forma? O software analisa informações recolhidas sobre a maioria da população de Gaza (2,3 milhões), monitorada em permanência por Israel, e avalia a probabilidade de cada um ser agente do Hamas. Ao mastigar características de agentes terroristas conhecidos por Israel, o programa busca semelhanças na população. Disso brota a lista de alvos potenciais para assassinatos, produzida pelo algoritmo. As autorizações para o bombardeio passaram a ser quase automáticas, roubando em média 20 segundos de atenção humana.

O segundo programa desenvolvido para a ação militar contra Gaza tem nome com interrogação: “Onde está papai?”. Destina-se a rastrear alvos para bombardeá-los especificamente em casas, apartamentos ou propriedades rurais familiares. “Não estávamos interessados em matar agentes do Hamas apenas quando estivessem em instalação militar ou em confronto”, explicou um dos entrevistados. “Ao contrário. Como primeira opção e sem hesitação, as FDI bombardeavam o alvo em família.” O que explica o altíssimo índice de mulheres e crianças despedaçadas e o apagamento de famílias inteiras.

Segundo entrevistados ouvidos na reportagem, o comando militar de Israel tomou a decisão fatal de tolerar a morte de 15 a 20 civis palestinos para a eliminação de cada militante de pouca relevância. O “dano colateral”. Quando o alvo inimigo fosse um oficial graduado do Hamas, a tolerância aumentava para cem civis mortos. Ou mais. Para eliminar o comandante da Brigada Central de Gaza, Ayman Nofal, o Exército autorizou, segundo a reportagem, um dano colateral de 300 pessoas. Foi uma carnificina e tanto no campo de refugiados de Al-Bureij naquele 17 de outubro. “As regras naquela fase inicial e feroz da campanha eram muito lenientes”, contou um dos informantes. “Arrasavam-se quatro edifícios inteiros, mesmo sabendo que o alvo estava em apenas um — se é que estava. Era muito louco.”

Tão louco que, antes da pressão mundial para a matança ser suspensa, as FDI trabalhavam com margem de erro de 10% nos alvos humanos marcados para morrer. Um horror. Os critérios da “Lavender” eram fluidos, mudavam a toda hora. Funcionários da Defesa Civil de Gaza ou pequenos burocratas deveriam ser considerados militantes do Hamas? Ou simpatizantes? E quem já pertenceu ao grupo, mas se desligou? Um único denominador comum foi mantido com rigor: os alvos primários sempre deveriam ser homens, pois nem a ala militar do Hamas nem o grupo terrorista Jihad Islâmica Palestina tem mulheres em suas fileiras.

Foi nessa toada que a inteligência artificial gerou um catatau de 36 mil alvos humanos a ser eliminados na Faixa de Gaza, o que explica a criminosa mortandade indiscriminada das seis primeiras semanas da guerra: mais de 15 mil palestinos mortos, quase metade do total de 33 mil vítimas computadas até agora. Sem falar no uso maciço das “bombas burras” de arrasa-quarteirão (sem componentes de precisão), responsáveis por danos colaterais infinitamente mais graves que mísseis guiados. “Não é aconselhável desperdiçar bombas caras com pessoas sem importância”, explica um dos ouvidos na investigação.

Recomenda-se a leitura na íntegra dessa investigação. Um Estado militarizado e de vanguarda tecnológica, em que algoritmos calculam em escala industrial quem deve morrer, precisa ser chamado à razão. A sorte de Israel é ter cidadãos dispostos a jogar luz sobre a desumanidade.

Fascismo e democracia: o verme na maçã

Em 1967, em uma conferência realizada em Viena, Theodor W. Adorno apresentou ao seu público observações de uma notável relevância para o nosso tempo, apesar das enormes diferenças que nos separam daquela época. Embora o fascismo oficialmente tivesse colapsado, as condições para os movimentos fascistas, ele afirmou, ainda estavam ativas na sociedade. O principal culpado era a tendência de concentração de capital, uma tendência ainda prevalente, que continua a criar “a possibilidade de desclassificação, de degradação, de camadas sociais que, de acordo com sua consciência subjetiva de classe, eram totalmente burguesas e desejavam manter seus privilégios e status social, e até mesmo reforçá-los”. São os mesmos grupos burgueses que estão caindo de categoria os que desenvolvem um “ódio ao socialismo ou ao que eles chamam de socialismo, ou seja, não culpam a sua potencial desclassificação a todo o aparato que o provoca, mas sim àqueles que adotaram uma posição crítica em relação ao sistema em que, em outra época, os membros desses grupos possuíam um certo status, em todo caso, de acordo com concepções tradicionais”.

Nessas breves linhas, Adorno condensou várias ideias-chave da teoria crítica. Para ele, o fascismo não é um acidente da história, nem uma aberração; ao contrário, opera dentro da democracia e é contíguo a ela. É, usando uma metáfora comum, um verme dentro da maçã, que apodrece a fruta por dentro, invisível a olho nu. Como uma antologia sobre a Escola de Frankfurt diz: “Um dos temas principais da primeira Escola de Frankfurt era que era impossível traçar uma linha clara entre os extremos do fascismo político e as patologias sociais mais cotidianas do capitalismo burguês no Ocidente”. Isso também significa que o fascismo não precisa ser um regime completo. Na verdade, poderia ser uma tendência, um conjunto de orientações e ideias pragmáticas que funcionam dentro das democracias. Nas observações de Adorno também está contida a afirmação de que o capitalismo desdobra tendências para a concentração de capital e poder (uma ideia pouco surpreendente para um marxista, que até mesmo os não marxistas teriam dificuldade em refutar). Adorno ainda não tinha testemunhado a forma espetacular como o capital concentrado conseguiria capturar processos eleitorais democráticos. Ele se referia, portanto, à dinâmica de classes que a concentração de capital criava dentro das sociedades liberais. Essa dinâmica ameaçava constantemente degradar as mesmas classes burguesas que antes tinham contribuído para o sistema capitalista e se beneficiado dele.

É importante notar que Adorno enfoca a burguesia (uma mistura de segmentos das classes alta e média) e não o proletariado como agente desse novo fascismo. Ecoando uma tradição da sociologia que considerava o fascismo como a expressão do medo da “mobilidade descendente”, Adorno sugere que a mesma classe que tinha e ainda tem privilégios é a que apoiará quando esses privilégios estiverem ameaçados. Assim, a perda de privilégios parece ser uma motivação-chave para apoiar líderes antidemocráticos. (Nas eleições de 2016, o apoio a Donald Trump foi maior entre os grupos de alta e média renda. As pessoas com renda muito baixa eram mais propensas a apoiar Hillary Clinton.) O desejo de manter o privilégio ou o medo de perdê-lo é, como sugere Adorno, uma força motriz da política em geral e da política fascista em particular.

O terceiro ponto – talvez o mais significativo (pelo menos para o meu argumento) – contido nas sucintas observações de Adorno sugere que a identificação com o fascismo tem suas raízes em certos modos de pensar sobre as causas (como pensamos sobre por que as coisas são como são) e em certos modos de atribuir culpas e responsabilidades. A classe burguesa degradada não culpará o próprio sistema capitalista pela concentração econômica que mina sua perda de status e privilégio. Em vez disso, atribuirá a culpa àqueles que criticam esse mesmo sistema. Mesmo em sua concisão, Adorno nos faz entender que tentar dar sentido ao seu mundo social é como estar dentro de uma câmara escura, uma imagem invertida do mundo exterior. Continuando com a tradição marxista da crítica à ideologia, Adorno identifica aqui um processo cognitivo muito importante em ação no protofascismo: a incapacidade de compreender a cadeia de causas que explicam a própria situação social. A percepção do mundo social, sugere Adorno, pode ser distorcida de forma fundamental. Os burgueses (e provavelmente outras classes) não podem identificar corretamente as causas de suas perdas e, portanto, não podem se unir àqueles que, mesmo não defendendo exatamente seus interesses, ao menos questionam o sistema responsável por sua degradação.

Em poucas palavras, então, Adorno avança uma hipótese sobre a persistência das tendências fascistas em nossas sociedades, devido tanto aos processos econômicos de acumulação e concentração de capital quanto a certos modos de pensamento distorcidos ou incompletos, que são encontrados especialmente nas maneiras como construímos a causalidade, nas formas como tornamos inteligíveis os eventos e como atribuímos as culpas, apontando para o que, em outro contexto, Jason Stanley chamou de uma ideologia viciada. Uma ideologia viciada, como Stanley a define em How Propaganda Works [Como a propaganda funciona], priva os grupos do conhecimento de seus próprios estados mentais, escondendo sistematicamente seus interesses. Quais são os verdadeiros interesses de uma classe ou grupo de pessoas, é claro, não são autoevidentes. Todo juízo a este respeito será feito com base em certos pressupostos por parte do pesquisador que distingue entre interesses verdadeiros e falsos, reivindicando para si uma certa autoridade epistêmica. Quando se tenta compreender o mundo social, assumir essa posição de autoridade epistêmica parece inevitável. Como cidadã, não acredito nas teorias divulgadas por QAnon e outros grupos conspiratórios; fazer de conta que sua visão de mundo é equivalente àquela apresentada em um jornalismo investigativo é uma forma de má fé. O pensamento, qualquer tipo de pensamento, contém apagamentos, deslocamentos, erros e negações. Recuperar essas negações e esses apagamentos ainda é a vocação da análise crítica da sociedade.


A ideia da Ideologiekritik tem sido criticada abundantemente, mas os acontecimentos políticos recentes sugerem que não podemos facilmente renunciar a ela. Há aqueles que argumentam que a Ideologiekritik frequentemente é realizada de má fé (criticando os outros mas não a si mesmo), ou que concede demasiada autoridade ao pesquisador, ou que, qualquer que seja a escolha que uma pessoa faça, sempre será racional porque seu pensamento reflete seus objetivos. De fato, a análise sociológica deveria respeitar as razões que os cidadãos têm para manter suas opiniões e escolhas: não deveria zombar ou desconsiderar, mas em uma época em que florescem teorias conspiratórias extravagantes que obstruem os processos democráticos de formação de opinião, não podemos mais nos permitir supor que todos os pontos de vista são iguais ou igualmente informados; tampouco podemos nos permitir ignorar as manipulações da opinião que são urdidas por uma classe política cada vez mais sofisticada, extraordinariamente versada nas diversas artes de manipulação da opinião e do boato. O poder dessas artes de manipulação se desacoplou graças à rápida transmissão de informação nas redes sociais. Assim, contra nossa vontade, devemos retornar à ideia da Ideologiekritik: quando se trata de dar conta da realidade, nem todas as ideias são iguais.

Uma ideologia estará viciada se cumprir as seguintes condições: se contradiz os princípios básicos da democracia enquanto os cidadãos realmente desejam que as instituições políticas os representem; se suas políticas concretas (por exemplo, ao pretender representar as pessoas comuns e, no entanto, favorecer políticas que dificultam enormemente o acesso à propriedade habitacional) entram em conflito com seus princípios ideológicos ou objetivos declarados; se desloca e distorce as causas do descontentamento de um grupo social; e se é alheia ou cega para os defeitos do líder (por exemplo, para a corrupção em benefício próprio ou sua indiferença ao bem-estar da nação). No entanto, deve ficar claro que não são apenas os apoiadores dos protofascistas populistas que caem nesta armadilha cognitiva, neste ponto cego. Existem muitos exemplos de casos assim. Jerome McGann argumentou, por exemplo, que a poesia romântica negou as condições materiais em que foi produzida através de evasões ou apagamentos. Os comunistas franceses que acreditavam no regime comunista soviético durante a década de 1950, quando já podiam conhecer a capacidade assassina de Stalin, são um exemplo não menos contundente de uma ideologia viciada.

Seguindo o pensamento de Adorno, o fascismo continua operando no seio das sociedades democráticas porque aqueles que são prejudicados pela lógica da concentração econômica não conseguem unir os pontos de sua cadeia causal e, de fato, podem se opor àqueles que trabalham para desmascará-la, criando assim um antagonismo curioso entre aqueles que se propõem a denunciar desigualdades e injustiças e aqueles que as sofrem. Esse antagonismo tornou-se uma característica-chave de muitas democracias ao redor do mundo. A questão da ideologia viciada é especialmente relevante atualmente porque em todos os lugares, e especialmente em Israel, a democracia está sob o assalto do que Francis Fukuyama chama de populismo nacionalista, uma forma política que mina as instituições democráticas por dentro e que, portanto, permite que os atores mais poderosos da sociedade – as corporações e os grupos de pressão – usem o Estado para satisfazer seus próprios interesses em detrimento do demos, que se sente curiosamente alienado das instituições que historicamente garantiram sua soberania. Como afirmam os cientistas políticos Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, as democracias não morrem apenas por golpes militares ou outros eventos tão dramáticos. Elas também morrem lentamente.

O populismo é uma das formas políticas que assume essa morte lenta. O populismo não é fascismo em si, sim uma tendência fascista, uma linha de força que exerce pressão sobre o campo político e o empurra em direção a tendências regressivas e predisposições antidemocráticas. Uma enorme quantidade de pesquisas tem tentado explicar o surgimento dessas tendências fascistas. Alguns o explicam pela globalização da mão de obra, que deixou a classe trabalhadora em uma situação precária; outros apontam para uma mudança nos valores culturais à qual o populismo é uma reação. A falsa consciência ou ideologias viciadas também são explicadas pela transformação dos meios de comunicação, que em muitos países foram consolidados e comprados com a intenção explícita de mudar a “agenda liberal” da imprensa dominante.

Na França, por exemplo, o empresário multimilionário Vincent Bolloré é proprietário de várias redes de televisão, incluindo a Cnews, canal de notícias 24 horas que promove uma agenda decididamente de direita. Bolloré foi apontado como o promotor da campanha do populista de extrema-direita Éric Zemmour. Outro exemplo é o bilionário norte-americano de origem australiana Rupert Murdoch, que possui centenas de meios de comunicação em todo o mundo – incluindo a máquina de propaganda que é a Fox News nos Estados Unidos – e foi acusado de usá-los para apoiar seus aliados políticos. Em Israel, por sua vez, o jornal gratuito Israel Hayom, financiado por um magnata do cassino já falecido, exerce uma enorme influência política. Portanto, a concentração de capital em todo o mundo teve o efeito de criar armas formidáveis para distorcer a consciência.

Junto com esse crescente controle da informação, a globalização da economia deixou as classes trabalhadoras em uma situação precária. As políticas globalistas de Bill Clinton, como a assinatura do Tratado de Livre Comércio da América do Norte (Nafta), provocaram a ira de muitos eleitores da classe trabalhadora; o presidente do sindicato dos trabalhadores de energia foi citado dizendo: “Clinton nos ferrrou e não vamos esquecer disso”. As classes trabalhadoras não se sentem mais representadas pela esquerda e até questionam a capacidade desta de articular seus interesses, um fato que reflete a implosão da ideologia social-democrata em todo o mundo, e talvez até o esgotamento do liberalismo. A combinação desses fatores explica por que, em alguns lugares, estamos testemunhando o surgimento de tendências fascistas; ainda não é um fascismo pleno, mas uma mentalidade que certamente o predispõe.

Foco aqui em um aspecto desse complexo cenário: a percepção do mundo social através de quadros causais sociais defeituosos, ou seja, explicações viciadas dos processos sociais e econômicos. As palavras “defeituoso” ou “viciado” podem parecer desconfortavelmente próximas de “falso” e podem parecer nos levar de volta às armadilhas epistemológicas e morais da Ideologiekritik. No entanto, “viciado” deve ser diferenciado de “falso” porque não exclui ou nega o pensamento e o sentimento dos cidadãos. Contém a possibilidade de que, embora não seja perfeito, o pensamento não seja falso, mas apenas viciado. Não é falso no sentido de que contém a marca de uma experiência social real que o analista deve recuperar. Essas marcas produzem razões que precisam ser compreendidas e reconhecidas.

Presto muita atenção a essas razões, como fica evidente nas várias entrevistas que conduzi com pessoas que aderem a visões de direita, populistas e ultranacionalistas, nas quais tentei compreender a coerência interna de seus pontos de vista para questionar onde e como os pensamentos sobre nosso ambiente social são distorcidos. Concentro-me nos quadros causais (como explicamos nosso mundo social) e nos modos como afetam profundamente a cognição e o comportamento político.

Se quisermos entender por que motivo alguns quadros podem chegar a distorcer nossa percepção do mundo social, por que motivo somos incapazes de nomear corretamente um mal-estar real, devemos levar o pensamento de Adorno a novos patamares e captar mais firmemente do que ele a interconexão do pensamento social com as emoções. Apenas as emoções têm o poder multifacetado de negar a evidência empírica, moldar a motivação, transcender o próprio interesse e responder a situações sociais específicas. Assim, sigo a sugestão da socióloga sueca Helena Flam, de investigar a influência das emoções na macropolítica e “mapear as emoções que sustentam as estruturas sociais e as relações de dominação”. A política está repleta de estruturas afetivas sem as quais não seríamos capazes de entender os modos como ideologias viciadas se infiltram nas experiências sociais dos atores e moldam seu significado.