sexta-feira, 21 de outubro de 2022
Os dois riscos à democracia brasileira
A democracia brasileira tem dois riscos pela frente. Um é a possibilidade de recondução do presidente Bolsonaro, cujo projeto de poder é claramente autocrático, com a pretensão não só de prolongar sua estadia (ou da família) no Palácio do Planalto por anos, como também de destruir as instituições criadas pela Constituição de 1988. Trata-se de um problema imediato muito grave. Mas há outro perigo mais profundo que não vem sendo comentado, talvez porque tenhamos vergonha como nação de admiti-lo. É crescente o contingente de brasileiros que adotam condutas e visões autoritárias. Esse é o fundo do poço do qual precisamos falar, urgentemente.
Os dois riscos estão interligados uma vez que a ascensão das ideias que alimentam o bolsonarismo é anterior ao fortalecimento político do capitão. Suas origens advêm do debate realizado no referendo do desarmamento, como me lembrou recentemente Ilona Szabó. Nele, já se via um discurso e uma estética antidemocráticas se desenvolvendo, com o jeito do Ovo da Serpente, para lembrar Bergman.
Por mais de uma década até 2018, num processo que envolveu importação de projetos e muitos episódios que já começavam a questionar a institucionalidade democrática presente na Constituição de 1988, foi gerado o monstro autoritário que se consubstanciou na eleição de Bolsonaro à Presidência da República. Seu governo foi corroendo, tal qual os cupins, várias estruturas democráticas do país.
Bolsonaro manietou os órgãos de controle, acabou com quase todos os conselhos de participação social, criou um modelo de orçamento secreto que domestica o Legislativo em troca de um montante escandaloso de recursos que não pode ser completamente conhecido, cortou as bases orçamentárias da autonomia dos estados e municípios, e, não menos importante para uma democracia, destruiu a lógica de direitos que alimentava as políticas públicas, colocando em seu lugar um modelo ampliado de clientelismo, que chantageia a todo momento o eleitorado.
No momento, o estágio do país é o de uma democracia sob chantagem constante do presidente da República. Algumas estruturas seguraram a marcha mais célere para a autocracia, especialmente o Supremo Tribunal Federal, alguns dos governadores, parcela da sociedade civil e da mídia e, não menos importante, a pressão internacional. Com um segundo mandato, Bolsonaro terá muito mais poder para avançar no seu projeto e será mais difícil - embora não impossível - conter a estruturação de uma lógica mais autoritária nas instituições e na dinâmica social do Brasil.
Esse é o primeiro risco, de caráter imediato, à democracia brasileira. Ele se estrutura sobre três bases de poder. Primeiro, a construção de um projeto autocrático, continuando algumas ações do primeiro governo e criando novos aportes autoritários, como a alteração na composição do STF (ou o seu emparedamento com a ameaça constante de mudança), a redução dos elementos constitucionais limitadores do poder do presidente e, ao final, a criação de uma nova Constituição ou uma modificação profunda dela, contendo elementos do discurso geral conservador - como maioridade penal, ampliação do acesso às armas e alterações na autonomia das escolas e universidades - e o que mais interessa ao clã Bolsonaro: regras de eleição eterna ao pai ou permissão de a família o suceder imediatamente.
Em segundo lugar, há uma base social para tal processo político, lastreado no bolsonarismo, que é o movimento social mais forte do país hoje em termos de capacidade de mobilização. É verdade que ele sozinho está longe de agregar a maioria dos brasileiros. Todavia, os bolsonaristas conseguiram atrair no curto prazo uma parcela bem maior da população, especialmente um eixo mais conservador e outro que está há mais de uma década sem muitas perspectivas econômicas, mas que está sendo atingido agora por um pacote gigantesco e inédito de apoios governamentais - muitas dessas medidas seriam consideradas claramente ilegais se o Brasil estivesse numa democracia normal.
Como última base de poder do projeto está o novo Centrão, uma vez que esse bloco muda de contornos a cada governo para ser o fiel da balança do jogo entre o Executivo e o Legislativo. Mais do que em outros períodos, esse grupo é hoje a coluna vertebral do sistema político e se tornou ainda mais forte com o orçamento secreto, que foi fundamental para a reeleição de vários de seus componentes, dando a eles um lugar destacado na próxima legislatura. É plausível a hipótese de que sempre tiram o máximo dos governantes e pulam do barco quando a crise vem, de modo que mantém seu poder de chantagem. Só que, neste momento, estão ganhando muito e inebriados pelo poder obtido - são seus integrantes que estão propondo à luz do dia as medidas mais autoritárias em prol do fortalecimento do presidente. Por isso, sob as lideranças de Arthur Lira, Ciro Nogueira e Valdemar da Costa Neto, o Centrão não terá pruridos em apoiar um governo autocrático se continuarem com os benefícios econômicos e políticos atuais.
Em outras palavras, o novo Centrão está mais para a Arena da ditadura militar do que para o PMDB dos governos FHC, Lula, Dilma e Temer. É um fisiologismo sobre bases autocráticas que vigora hoje. Claro que sempre pode surgir uma crise econômica ou internacional forte, que fuja do controle do bolsonarismo. Seria o sinal para pular do barco. Mas será possível fazê-lo a tempo de manter-se como relevante no sistema político? Arthur Lira não tem base popular e Bolsonaro tem grande capacidade de destruir novos inimigos, como fez com Doria. Daí vem a pergunta: há algum Teotônio Vilela entre os membros do Centrão?
A hipótese da autocracia está ganhando, a cada dia, contornos cada vez mais fortes, porém, não é líquida e certa. Duas coisas podem evitá-la. A primeira delas é a vitória de Lula. Isso não quer dizer que iríamos do inferno ao paraíso. Um mandato lulista será muito difícil e complexo porque o bolsonarismo tem, no mínimo, quase metade do apoio do país no momento, além de ter deixado muitas bombas pelo caminho, especialmente na economia. De todo modo, se fizer um governo efetivamente de Frente Ampla, Lula poderia liderar o Brasil por essa travessia do deserto, pois tem experiência para isso, além de poder contar com o apoio de diversos setores sociais.
Há ainda a possibilidade de as instituições e a sociedade reagirem ao projeto autocrático que Bolsonaro instalaria num segundo governo. As instituições já estão muito desgastadas e o Senado terá uma composição muito favorável para, por exemplo, fazer o impeachment de ministros do STF. Governadores estarão numa situação fiscal pior e com uma crise social muito forte batendo às portas - no federalismo bolsonarista, o governo federal concentra as decisões mais importantes e passa as responsabilidades e os problemas para os governos subnacionais. E uma oposição derrotada terá menos forças para reagir, até porque houve pouca renovação nos seus quadros políticos.
Sobra a esperança na sociedade. A questão é que uma boa parte dela já está adotando comportamentos autoritários. Cinco elementos podem ser brevemente citados aqui para reforçar essa tese. Primeiro, está aumentando a intolerância social, não só contra ideias contrárias, mas sobretudo no campo religioso. Esse é um terreno perigoso, porque permite um radicalismo capaz de controlar a vida privada das pessoas, permitindo o fanatismo, o pior dos venenos autoritários. Para um país que se gabava da conivência entre os diferentes, esse é o maior retrocesso das últimas décadas.
Outro elemento que alimenta o autoritarismo é o crescimento das fake news nas redes sociais. Está ocorrendo a disseminação em larga escala da mentira, num processo em que a mídia tradicional não consegue convencer parcela grande dos cidadãos sobre o que é real ou não. Soma-se a este ponto um terceiro combustível contra a estabilidade democrática: a crença cada vez maior em soluções messiânicas para problemas complexos. Significa distribuir armas à população para acabar com os criminosos, acreditar que as crianças aprendem melhor em casa e não na escola, ir contra a ciência na questão ambiental e no caso das vacinas.
Há duas últimas questões que ressaltam o enfraquecimento social da democracia. Um é o crescimento exponencial das máfias locais, na Amazônia ou nas milícias urbanas. Sem Estado com monopólio da ordem, não há chances para os cidadãos mais desfavorecidos acreditarem no regime democrático. E, por fim, as raízes profundas da desigualdade brasileira estão se espraiando pela população mais privilegiada do país. As mudanças geradas por 30 anos de implementação dos ideias da Constituição de 1988 resultaram numa reação feroz, que alimenta a visão de que alguns são mais iguais do que os outros. Acirra-se, assim, o preconceito de todos os tipos: racial, de gênero, de origem regional e todos aqueles que humilham os mais vulneráveis. Bolsonaro é quem mais alimenta essa divisão do país, considerando inferiores as mulheres, os negros, os nordestinos, os homossexuais e os favelados.
O bolsonarismo é a vitória final do modelo escravocrata de país, o qual, infelizmente, é apoiado por mais brasileiros do que gostaríamos de admitir. Não há nenhuma chance de qualquer regime democrático dar certo nesse modelo de sociedade.
Os dois riscos estão interligados uma vez que a ascensão das ideias que alimentam o bolsonarismo é anterior ao fortalecimento político do capitão. Suas origens advêm do debate realizado no referendo do desarmamento, como me lembrou recentemente Ilona Szabó. Nele, já se via um discurso e uma estética antidemocráticas se desenvolvendo, com o jeito do Ovo da Serpente, para lembrar Bergman.
Por mais de uma década até 2018, num processo que envolveu importação de projetos e muitos episódios que já começavam a questionar a institucionalidade democrática presente na Constituição de 1988, foi gerado o monstro autoritário que se consubstanciou na eleição de Bolsonaro à Presidência da República. Seu governo foi corroendo, tal qual os cupins, várias estruturas democráticas do país.
Bolsonaro manietou os órgãos de controle, acabou com quase todos os conselhos de participação social, criou um modelo de orçamento secreto que domestica o Legislativo em troca de um montante escandaloso de recursos que não pode ser completamente conhecido, cortou as bases orçamentárias da autonomia dos estados e municípios, e, não menos importante para uma democracia, destruiu a lógica de direitos que alimentava as políticas públicas, colocando em seu lugar um modelo ampliado de clientelismo, que chantageia a todo momento o eleitorado.
No momento, o estágio do país é o de uma democracia sob chantagem constante do presidente da República. Algumas estruturas seguraram a marcha mais célere para a autocracia, especialmente o Supremo Tribunal Federal, alguns dos governadores, parcela da sociedade civil e da mídia e, não menos importante, a pressão internacional. Com um segundo mandato, Bolsonaro terá muito mais poder para avançar no seu projeto e será mais difícil - embora não impossível - conter a estruturação de uma lógica mais autoritária nas instituições e na dinâmica social do Brasil.
Esse é o primeiro risco, de caráter imediato, à democracia brasileira. Ele se estrutura sobre três bases de poder. Primeiro, a construção de um projeto autocrático, continuando algumas ações do primeiro governo e criando novos aportes autoritários, como a alteração na composição do STF (ou o seu emparedamento com a ameaça constante de mudança), a redução dos elementos constitucionais limitadores do poder do presidente e, ao final, a criação de uma nova Constituição ou uma modificação profunda dela, contendo elementos do discurso geral conservador - como maioridade penal, ampliação do acesso às armas e alterações na autonomia das escolas e universidades - e o que mais interessa ao clã Bolsonaro: regras de eleição eterna ao pai ou permissão de a família o suceder imediatamente.
Em segundo lugar, há uma base social para tal processo político, lastreado no bolsonarismo, que é o movimento social mais forte do país hoje em termos de capacidade de mobilização. É verdade que ele sozinho está longe de agregar a maioria dos brasileiros. Todavia, os bolsonaristas conseguiram atrair no curto prazo uma parcela bem maior da população, especialmente um eixo mais conservador e outro que está há mais de uma década sem muitas perspectivas econômicas, mas que está sendo atingido agora por um pacote gigantesco e inédito de apoios governamentais - muitas dessas medidas seriam consideradas claramente ilegais se o Brasil estivesse numa democracia normal.
Como última base de poder do projeto está o novo Centrão, uma vez que esse bloco muda de contornos a cada governo para ser o fiel da balança do jogo entre o Executivo e o Legislativo. Mais do que em outros períodos, esse grupo é hoje a coluna vertebral do sistema político e se tornou ainda mais forte com o orçamento secreto, que foi fundamental para a reeleição de vários de seus componentes, dando a eles um lugar destacado na próxima legislatura. É plausível a hipótese de que sempre tiram o máximo dos governantes e pulam do barco quando a crise vem, de modo que mantém seu poder de chantagem. Só que, neste momento, estão ganhando muito e inebriados pelo poder obtido - são seus integrantes que estão propondo à luz do dia as medidas mais autoritárias em prol do fortalecimento do presidente. Por isso, sob as lideranças de Arthur Lira, Ciro Nogueira e Valdemar da Costa Neto, o Centrão não terá pruridos em apoiar um governo autocrático se continuarem com os benefícios econômicos e políticos atuais.
Em outras palavras, o novo Centrão está mais para a Arena da ditadura militar do que para o PMDB dos governos FHC, Lula, Dilma e Temer. É um fisiologismo sobre bases autocráticas que vigora hoje. Claro que sempre pode surgir uma crise econômica ou internacional forte, que fuja do controle do bolsonarismo. Seria o sinal para pular do barco. Mas será possível fazê-lo a tempo de manter-se como relevante no sistema político? Arthur Lira não tem base popular e Bolsonaro tem grande capacidade de destruir novos inimigos, como fez com Doria. Daí vem a pergunta: há algum Teotônio Vilela entre os membros do Centrão?
A hipótese da autocracia está ganhando, a cada dia, contornos cada vez mais fortes, porém, não é líquida e certa. Duas coisas podem evitá-la. A primeira delas é a vitória de Lula. Isso não quer dizer que iríamos do inferno ao paraíso. Um mandato lulista será muito difícil e complexo porque o bolsonarismo tem, no mínimo, quase metade do apoio do país no momento, além de ter deixado muitas bombas pelo caminho, especialmente na economia. De todo modo, se fizer um governo efetivamente de Frente Ampla, Lula poderia liderar o Brasil por essa travessia do deserto, pois tem experiência para isso, além de poder contar com o apoio de diversos setores sociais.
Há ainda a possibilidade de as instituições e a sociedade reagirem ao projeto autocrático que Bolsonaro instalaria num segundo governo. As instituições já estão muito desgastadas e o Senado terá uma composição muito favorável para, por exemplo, fazer o impeachment de ministros do STF. Governadores estarão numa situação fiscal pior e com uma crise social muito forte batendo às portas - no federalismo bolsonarista, o governo federal concentra as decisões mais importantes e passa as responsabilidades e os problemas para os governos subnacionais. E uma oposição derrotada terá menos forças para reagir, até porque houve pouca renovação nos seus quadros políticos.
Sobra a esperança na sociedade. A questão é que uma boa parte dela já está adotando comportamentos autoritários. Cinco elementos podem ser brevemente citados aqui para reforçar essa tese. Primeiro, está aumentando a intolerância social, não só contra ideias contrárias, mas sobretudo no campo religioso. Esse é um terreno perigoso, porque permite um radicalismo capaz de controlar a vida privada das pessoas, permitindo o fanatismo, o pior dos venenos autoritários. Para um país que se gabava da conivência entre os diferentes, esse é o maior retrocesso das últimas décadas.
Outro elemento que alimenta o autoritarismo é o crescimento das fake news nas redes sociais. Está ocorrendo a disseminação em larga escala da mentira, num processo em que a mídia tradicional não consegue convencer parcela grande dos cidadãos sobre o que é real ou não. Soma-se a este ponto um terceiro combustível contra a estabilidade democrática: a crença cada vez maior em soluções messiânicas para problemas complexos. Significa distribuir armas à população para acabar com os criminosos, acreditar que as crianças aprendem melhor em casa e não na escola, ir contra a ciência na questão ambiental e no caso das vacinas.
Há duas últimas questões que ressaltam o enfraquecimento social da democracia. Um é o crescimento exponencial das máfias locais, na Amazônia ou nas milícias urbanas. Sem Estado com monopólio da ordem, não há chances para os cidadãos mais desfavorecidos acreditarem no regime democrático. E, por fim, as raízes profundas da desigualdade brasileira estão se espraiando pela população mais privilegiada do país. As mudanças geradas por 30 anos de implementação dos ideias da Constituição de 1988 resultaram numa reação feroz, que alimenta a visão de que alguns são mais iguais do que os outros. Acirra-se, assim, o preconceito de todos os tipos: racial, de gênero, de origem regional e todos aqueles que humilham os mais vulneráveis. Bolsonaro é quem mais alimenta essa divisão do país, considerando inferiores as mulheres, os negros, os nordestinos, os homossexuais e os favelados.
O bolsonarismo é a vitória final do modelo escravocrata de país, o qual, infelizmente, é apoiado por mais brasileiros do que gostaríamos de admitir. Não há nenhuma chance de qualquer regime democrático dar certo nesse modelo de sociedade.
A sagrada soberania das nações
No Sudão, apedreja-se uma jovem,
porque Alá é misericordioso.
As muitas pedras que sobre ela chovem
agradam àquele deus meticuloso!
Matar por uma fé disparatada
é bem pior do que morrer por ela.
Destruir uma vida à pedrada
é fazer, da fé, sórdida novela.
Chegámos ao século vinte e um,
consentindo estas atrocidades
à soberania de cada um:
o que se faz na intimidade
bem regulada de cada país
não é coisa onde metas o nariz!
Eugénio Lisboa
porque Alá é misericordioso.
As muitas pedras que sobre ela chovem
agradam àquele deus meticuloso!
Matar por uma fé disparatada
é bem pior do que morrer por ela.
Destruir uma vida à pedrada
é fazer, da fé, sórdida novela.
Chegámos ao século vinte e um,
consentindo estas atrocidades
à soberania de cada um:
o que se faz na intimidade
bem regulada de cada país
não é coisa onde metas o nariz!
Eugénio Lisboa
O apagão da ‘Política’
As eleições costumavam ser um momento de debater visões e projetos em todos os lugares. Era como uma Copa da cidadania. Enquanto os candidatos cumpriam seus roteiros, suas equipes discutiam temas específicos com os setores da sociedade.
Colando da web, a Política é justamente essa “atividade dos cidadãos quando se dedicam aos assuntos públicos com seu trabalho, sua militância ou seu voto”.
Sendo assim, vale indagar se um indeciso consegue hoje identificar num debate de TV o candidato mais preparado para ‘se dedicar aos assuntos públicos’ em 2023. Num primeiro olhar, a agressividade superficial está tão abundante, de parte a parte, que pode distrair o eleitor das questões primordiais.
E não é por falta de assunto, em tempos de emergência climática, guerra na Europa, tensões geopolíticas, crime organizado, desigualdade social, atraso econômico, retrocesso democrático, crise energética, degradação do Estado.
Não se vê uma análise de conjuntura, de contexto, menos ainda de tendências, como era comum no passado. Nos últimos 15 anos, os partidos e a sociedade como um todo se permitiram um apagão político, mostrando desinteresse em ideias, história, utopias ou planos futuros.
Bolsonaro e Lula entendem que o povo já os conhece, dispensando apresentações de programas de governo. No entanto, se os problemas evoluem junto com o cenário, não seria obvio que as soluções também fossem outras?
O diálogo precarizou-se. A estratégia deu lugar à tática frívola. Onde havia militantes, vemos fãs e seguidores. A opinião deu vez ao like e à fake news. Trocamos as lideranças por influencers. O twiter substituiu os movimentos sociais. A política virou reality show. A camisa da CBF é figurino político.
Enquanto isso, 60% dos brasileiros acham importante a religião do candidato. Porém, às vésperas da eleição 70% das pessoas não tinham candidato a deputado e mais da metade nem se lembra em quem votou no pleito passado.
A boa notícia é que a polarização passional nas eleições deste ano trouxe a política de volta às rodas de conversa, às discussões setoriais e às ruas.
Contudo, dessa vez, não bastará o novo governo “consultar a população pelas redes sociais”. Tampouco poderemos nos iludir de que “não precisamos mais de movimentos populares porque o povo está no governo”.
Havia debates entre futuros ministros da economia, da educação etc. A discussão rolava nas universidades, empresas, entidades setoriais, rádios locais, escolas, fosse no campo ou na cidade. Era frequente o debate acontecer entre eleitores comuns, sobre os programas dos candidatos (até mesmo nas residências).
Colando da web, a Política é justamente essa “atividade dos cidadãos quando se dedicam aos assuntos públicos com seu trabalho, sua militância ou seu voto”.
Sendo assim, vale indagar se um indeciso consegue hoje identificar num debate de TV o candidato mais preparado para ‘se dedicar aos assuntos públicos’ em 2023. Num primeiro olhar, a agressividade superficial está tão abundante, de parte a parte, que pode distrair o eleitor das questões primordiais.
E não é por falta de assunto, em tempos de emergência climática, guerra na Europa, tensões geopolíticas, crime organizado, desigualdade social, atraso econômico, retrocesso democrático, crise energética, degradação do Estado.
Não se vê uma análise de conjuntura, de contexto, menos ainda de tendências, como era comum no passado. Nos últimos 15 anos, os partidos e a sociedade como um todo se permitiram um apagão político, mostrando desinteresse em ideias, história, utopias ou planos futuros.
Bolsonaro e Lula entendem que o povo já os conhece, dispensando apresentações de programas de governo. No entanto, se os problemas evoluem junto com o cenário, não seria obvio que as soluções também fossem outras?
O diálogo precarizou-se. A estratégia deu lugar à tática frívola. Onde havia militantes, vemos fãs e seguidores. A opinião deu vez ao like e à fake news. Trocamos as lideranças por influencers. O twiter substituiu os movimentos sociais. A política virou reality show. A camisa da CBF é figurino político.
Enquanto isso, 60% dos brasileiros acham importante a religião do candidato. Porém, às vésperas da eleição 70% das pessoas não tinham candidato a deputado e mais da metade nem se lembra em quem votou no pleito passado.
A boa notícia é que a polarização passional nas eleições deste ano trouxe a política de volta às rodas de conversa, às discussões setoriais e às ruas.
Contudo, dessa vez, não bastará o novo governo “consultar a população pelas redes sociais”. Tampouco poderemos nos iludir de que “não precisamos mais de movimentos populares porque o povo está no governo”.
Elogio da morte
Não sei quem foi que disse que a Vida é feita pela Morte. É a destruição contínua e perene que faz a vida.
A esse respeito, porém, eu quero crer que a Morte mereça maiores encômios.
É ela que faz todas as consolações das nossas desgraças; é dela que nós esperamos a nossa redenção; é ela a quem todos os infelizes pedem socorro e esquecimento.
Gosto da Morte porque ela é o aniquilamento de todos nós; gosto da Morte porque ela nos sagra. Em vida, todos nós só somos conhecidos pela calúnia e maledicência, mas, depois que Ela nos leva, nós somos conhecidos (a repetição é a melhor figura de retórica), pelas nossas boas qualidades.
É inútil estar vivendo, para ser dependente dos outros; é inútil estar vivendo para sofrer os vexames que não merecemos.
A vida não pode ser uma dor, uma humilhação de contínuos e burocratas idiotas; a vida deve ser uma vitória. Quando, porém, não se pode conseguir isso, a Morte é que deve vir em nosso socorro.
A covardia mental e moral do Brasil não permite movimentos. de independência; ela só quer acompanhadores de procissão, que só visam lucros ou salários nós pareceres. Não há, entre nós, campo para as grandes batalhas de espírito e inteligência. Tudo aqui é feito com o dinheiro e os títulos. A agitação de uma idéia não repercute na massa e quando esta sabe que se trata de contrariar uma pessoa poderosa, trata o agitador de louco.
Estou cansado de dizer que os malucos foram os reformadores do mundo.
Le Bon dizia isto a propósito de Maomé, nas suas Civilisation des arabes, com toda a razão; e não há chanceler falsificado e secretária catita que o possa contestar..
São eles os heróis; são eles os reformadores; são eles os iludidos; são eles que trazem as grandes idéias, para melhoria das condições da existência da nossa triste Humanidade.
Nunca foram os homens de bom senso, os honestos burgueses ali da esquina ou das secretárias chics que fizeram as grandes reformas no mundo.
Todas elas têm sido feitas por homens, e, às vezes mesmo mulheres, tidos por doidos.
A divisa deles consiste em não ser panurgianos e seguir a opinião de todos, por isso mesmo podem ver mais longe do que os outros.
Se nós tivéssemos sempre a opinião da maioria, estaríamos ainda no Cro-Magnon e não teríamos saído das cavernas.
O que é preciso, portanto, é que cada qual respeite a opinião .de qualquer, para que desse choque surja o esclarecimento do nosso destino, para própria felicidade da espécie humana.
Entretanto, no Brasil, não se quer isto. Procura-se abafar as opiniões, para só deixar em campo os desejos dos poderosos e prepotentes.
Os órgãos de publicidade por onde se podiam elas revelar, são fechados e não aceitam nada que os possa lesar.
Dessa forma, quem, como eu nasceu pobre e não quer ceder uma linha da sua independência de espírito e inteligência, só tem que fazer elogios à Morte.
Ela é a grande libertadora que não recusa os seus benefícios a quem lhe pede. Ela nos resgata e nos leva à luz de Deus.
Sendo assim, eu a sagro, antes que ela me sagre na minha pobreza, na minha infelicidade, na minha desgraça e na minha honestidade.
Ao vencedor, as batatas!
Lima Barreto, "Marginália"
De volta aos tempos em que vacas vestiam farda e davam golpe
Sabe a última dos militares que voltaram ao poder pelas mãos de Bolsonaro, gostaram tanto que não sairiam de lá tão cedo?
Obedientes por formação, a pedido de Bolsonaro, armaram o maior salseiro para desacreditar o processo eleitoral.
Bolsonaro disse que em 2018 só não se elegeu presidente no primeiro turno porque houve fraude. Os militares concordaram.
Bolsonaro disse que pessoas votaram no número dele e que na urna apareceu o número de Fernando Haddad, candidato do PT.
Os militares disseram que seria possível. E sugeriram fazer uma auditoria nas urnas e no processo de apuração dos votos.
Falaram até em apuração paralela de votos, em simulação de votação com urnas de papel só para testar.
O Tribunal Superior Eleitoral cedeu à pressão deles para não arrumar mais confusão. E agora…
Agora, o general Paulo Sérgio Nogueira, ministro da Defesa, não quer revelar as conclusões da auditoria. Por que? Não disse.
Ou melhor: começou a dizer que não foi bem uma auditoria, que isso e mais aquilo outro.
Não querem admitir que não encontraram falhas. Bolsonaro ficaria irritado. Se ele perder a eleição, como dirá que foi roubado?
Há generais que estão mais para “vacas fardadas”. A expressão foi cunhada pelo general Olímpio Mourão Filho.
Mourão (nada a ver com o atual vice-presidente da República) liderou as tropas que deflagraram o golpe militar de 64.
De Juiz de Fora, Minas Gerais, ele foi direto para o Rio. Ganhou como prêmio a presidência da Petrobras. E mais tarde, afirmou:
“Em matéria de política, sou uma vaca fardada”.
Obedientes por formação, a pedido de Bolsonaro, armaram o maior salseiro para desacreditar o processo eleitoral.
Bolsonaro disse que em 2018 só não se elegeu presidente no primeiro turno porque houve fraude. Os militares concordaram.
Bolsonaro disse que pessoas votaram no número dele e que na urna apareceu o número de Fernando Haddad, candidato do PT.
Os militares disseram que seria possível. E sugeriram fazer uma auditoria nas urnas e no processo de apuração dos votos.
Falaram até em apuração paralela de votos, em simulação de votação com urnas de papel só para testar.
O Tribunal Superior Eleitoral cedeu à pressão deles para não arrumar mais confusão. E agora…
Agora, o general Paulo Sérgio Nogueira, ministro da Defesa, não quer revelar as conclusões da auditoria. Por que? Não disse.
Ou melhor: começou a dizer que não foi bem uma auditoria, que isso e mais aquilo outro.
Não querem admitir que não encontraram falhas. Bolsonaro ficaria irritado. Se ele perder a eleição, como dirá que foi roubado?
Há generais que estão mais para “vacas fardadas”. A expressão foi cunhada pelo general Olímpio Mourão Filho.
Mourão (nada a ver com o atual vice-presidente da República) liderou as tropas que deflagraram o golpe militar de 64.
De Juiz de Fora, Minas Gerais, ele foi direto para o Rio. Ganhou como prêmio a presidência da Petrobras. E mais tarde, afirmou:
“Em matéria de política, sou uma vaca fardada”.
quarta-feira, 19 de outubro de 2022
É surreal que a eleição no Brasil seja um problema
Seria excelente tema para um filme de Luis Buñuel. Um país que viveu o terror e a violência da perda de seus direitos cívicos, que sofreu censura e tortura em pelo menos duas ditaduras e delas se livrou, tem hoje como problema aquilo a que toda democracia aspira: eleições livres em urnas praticamente invioláveis.
Não é surreal — pergunta um lado meu — viver o rito essencial de uma democracia, o processo eleitoral, como um problema?
A resposta exige tato e coragem para explicitar contradições, coisa que poucos, muito menos nós, brasileiros, gostamos de realizar, já que a postura compreensiva exige sair dos nichos que levam a acomodar e adiar questões políticas básicas, esquecendo que, um dia, a fatura chega com inevitável crueza.
A pergunta que ninguém gosta de fazer, mas existe em todo confronto, é a seguinte: quem se confrontará e, mais profundamente, quem tem legitimidade para concorrer. Nélson Rodrigues dizia que o Fla x Flu existia antes da criação do mundo. No seu genial estilo exaltado, chamava a atenção para as oposições binárias que nos seduzem porque, como seres humanos sem programação biológica exclusiva e podendo nos exprimir em múltiplas línguas e hábitos, a dualidade de um Fla x Flu nos leva à polaridade cósmica do bem contra o mal, com a atraente possibilidade de atribuir o mal absoluto ao Flu se você for Fla ou ao Fla se você for Flu.
Não é por acaso que polarizamos e que a dualidade domina nosso universo simbólico, feito de línguas cujo esqueleto é uma escolha arbitrária de sons e sentidos. E que, apesar de termos uma multidão de partidos, no final as escolhas se reduzam a uma dualidade. Trata-se de um Fla x Flu, só que é um jogo que, nos próximos quatro anos, definirá aspectos fundamentais da nossa vida social como um todo, e não apenas num domingo esportivo. Com direito a mais quatro... Ou, quem sabe, e há quem suponha, para toda a História...
Não é surreal — pergunta um lado meu — viver o rito essencial de uma democracia, o processo eleitoral, como um problema?
A resposta exige tato e coragem para explicitar contradições, coisa que poucos, muito menos nós, brasileiros, gostamos de realizar, já que a postura compreensiva exige sair dos nichos que levam a acomodar e adiar questões políticas básicas, esquecendo que, um dia, a fatura chega com inevitável crueza.
A pergunta que ninguém gosta de fazer, mas existe em todo confronto, é a seguinte: quem se confrontará e, mais profundamente, quem tem legitimidade para concorrer. Nélson Rodrigues dizia que o Fla x Flu existia antes da criação do mundo. No seu genial estilo exaltado, chamava a atenção para as oposições binárias que nos seduzem porque, como seres humanos sem programação biológica exclusiva e podendo nos exprimir em múltiplas línguas e hábitos, a dualidade de um Fla x Flu nos leva à polaridade cósmica do bem contra o mal, com a atraente possibilidade de atribuir o mal absoluto ao Flu se você for Fla ou ao Fla se você for Flu.
Não é por acaso que polarizamos e que a dualidade domina nosso universo simbólico, feito de línguas cujo esqueleto é uma escolha arbitrária de sons e sentidos. E que, apesar de termos uma multidão de partidos, no final as escolhas se reduzam a uma dualidade. Trata-se de um Fla x Flu, só que é um jogo que, nos próximos quatro anos, definirá aspectos fundamentais da nossa vida social como um todo, e não apenas num domingo esportivo. Com direito a mais quatro... Ou, quem sabe, e há quem suponha, para toda a História...
“Qual é a questão?”, pergunta o leitor armado de seu voto. É que, para mim, como para muitos outros brasileiros, os candidatos são opostos, mas ao mesmo tempo parceiros. Coadjuvantes históricos, porque foi o governo petista de Lula que colocou no palco Jair Bolsonaro. A pesquisa que não foi feita seria para saber se Bolsonaro teria chance antes do mensalão, do petrolão e das delações premiadas da Operação Lava-Jato.
Bem diferente de um Fla x Flu é o dualismo Bolsonaro x Lula, que tem o potencial de afetar nossas vidas. No caso do futebol, as contradições são bloqueadas. Na política, porém, vale tudo. Assim é que Lula tem como vice um tucano e que Bolsonaro usa como argumento recorrente a antipatia pela impessoalidade da urna eletrônica, numa demonstração óbvia de aversão pelo processo eleitoral democrático.
Lula tem como contrapeso a condenação em todas as instâncias e a prisão. Mas, se ele foi solto por erro de julgamento, Bolsonaro agride rotineiramente as instituições republicanas. Há uma retroalimentação de defesas e acusações, e o temor dos democratas é que tal ambiguidade liquide o ideal de liberdade e igualdade e que legitime o axioma favorito dos radicais, segundo o qual os fins justificam os meios.
Se Bolsonaro e Lula estão dispostos a abandonar a confusão entre ser presidente e ser ditador, é justamente o que me angustia nesta eleição. A polarização tem raiz justamente nas contradições verbalizadas pelos candidatos. Escolher o menos ruim é, na democracia que promete progresso, desanimador.
Tudo é complicado, mas não podemos esquecer que o Brasil brasileiro, do Fla x Flu e dos ideais democráticos, é mais forte que suas contradições e seus péssimos protagonistas políticos.
Bem diferente de um Fla x Flu é o dualismo Bolsonaro x Lula, que tem o potencial de afetar nossas vidas. No caso do futebol, as contradições são bloqueadas. Na política, porém, vale tudo. Assim é que Lula tem como vice um tucano e que Bolsonaro usa como argumento recorrente a antipatia pela impessoalidade da urna eletrônica, numa demonstração óbvia de aversão pelo processo eleitoral democrático.
Lula tem como contrapeso a condenação em todas as instâncias e a prisão. Mas, se ele foi solto por erro de julgamento, Bolsonaro agride rotineiramente as instituições republicanas. Há uma retroalimentação de defesas e acusações, e o temor dos democratas é que tal ambiguidade liquide o ideal de liberdade e igualdade e que legitime o axioma favorito dos radicais, segundo o qual os fins justificam os meios.
Se Bolsonaro e Lula estão dispostos a abandonar a confusão entre ser presidente e ser ditador, é justamente o que me angustia nesta eleição. A polarização tem raiz justamente nas contradições verbalizadas pelos candidatos. Escolher o menos ruim é, na democracia que promete progresso, desanimador.
Tudo é complicado, mas não podemos esquecer que o Brasil brasileiro, do Fla x Flu e dos ideais democráticos, é mais forte que suas contradições e seus péssimos protagonistas políticos.
Sob Bolsonaro, Brasil se afasta de meta de erradicar pobreza
O mundo não conseguirá cumprir a meta estabelecida pela Organização das Nações Unidas (ONU) de erradicar a pobreza até 2030 — e o Brasil apresenta retrocessos sociais que também vão nesse sentido. Esse é o panorama 30 anos após a ONU instituir o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, em 17 de outubro de 1992.
O prognóstico negativo foi confirmado em relatório divulgado no início deste mês pelo Banco Mundial. E encontra eco nos números, segundo os quais a pandemia de covid-19 causou o pior momento desde que os dados vêm sendo monitorados, nos anos 1990, empurrando mais de 70 milhões de pessoas para a linha extrema em 2020. E os prognósticos, com a guerra na Ucrânia e a inflação decorrente do conflito, indicam que esse contingente ficará ainda maior.
De acordo com a instituição, 719 milhões de pessoas atualmente subsistem com menos de 2,15 dólares por dia — o que significa pobreza extrema. E a projeção é que até o fim deste ano 115 milhões a mais estejam nesse limiar da fome.
A linha da pobreza teve o valor mínimo reajustado pelo banco, tendo em vista o aumento dos custos em escala global. Antes, era de 5,50 dólares por dia. Agora é de 6,85. Considerando essa faixa, uma em cada cinco pessoas do mundo está abaixo da linha da pobreza.
O balde de água fria no sonho de acabar com a fome até 2030 tem sua explicação justamente no clima de otimismo dos anos 1990.
"Existia naquele contexto de final de século a expectativa de que o fortalecimento das democracias no pós-Guerra Fria fortaleceria os mercados e promoveria a redução da miséria, através da globalização e do neoliberalismo. Essas pretensões acabaram não acontecendo. Ao contrário, acabaram criando mais desigualdade pelo mundo", avalia o sociólogo Paulo Niccoli Ramirez, professor da Fundação Escola de Sociologia de São Paulo e da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).
No Brasil, o cenário é preocupante. "A queda [dos índices de pobreza] no Brasil foi até 2015", aponta o economista Marcelo Neri, diretor do Centro de Políticas Sociais FGV Social.
Ele se baseia em dados que apontam que, no fim do ano passado, havia um recorde do contingente de pobres no país desde o início da série histórica — 62,9 milhões de brasileiros, ou quase 30% da população, vivendo com renda domiciliar per capita igual ou inferior a R$ 497 por mês (5,50 dólares por dia). O número significa 10,1 milhões pessoas a mais do que no ano anterior, 2020.
O levantamento realizado pelo FGV Social com base nos microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apresenta um quadro nítido e preciso do que ocorreu nos últimos dez anos, início da série histórica. Em 2012, eram 54 milhões pobres no Brasil, número que caiu para 47,6 milhões em 2014, quando voltou a subir. Em 2018, eram 55,1 milhões. E 2021 terminou com o recorde histórico de 62,9 milhões de brasileiros abaixo da linha da pobreza.
Para Ramirez, nesta conta é preciso acrescentar, além do cenário global, os cortes de programas sociais durante os governos Michel Temer e Jair Bolsonaro, ou mesmo a não atualização compatível dos valores destinados a eles. Mas ele também observa que como essas estatísticas se baseiam no ganho diário em dólar, a desvalorização da moeda brasileira significa "o aumento da quantidade de pessoas que entram" nessa desfavorável lista.
Segundo Neri, nos últimos 30 anos, é possível destacar uma série de esforços históricos para a redução desse cenário. Nos anos 1990, havia a famosa campanha empreendida pelo sociólogo Herbert de Souza (1935-1997), o Betinho, com sua organização Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida.
Em 2001, no fim do segundo governo de Fernando Henrique Cardoso, foram implementados os programas Bolsa-escola e Bolsa Alimentação, precursores dos modelos de transferência de renda.
O auge da luta contra a pobreza extrema viria, contudo, na gestão posterior, sob o comando do petista Luiz Inácio Lula da Silva, com o programa Fome Zero e a instituição do Bolsa Família.
"O compromisso [de erradicar a pobreza] veio com o governo FHC, com algumas bolsas, e conseguiu uma expansão eficaz nos governos Lula e Dilma, quando a fome foi de fato extirpada do país e houve um compromisso com a empregabilidade, permitindo que o brasileiro pudesse ter três refeições por dia", comenta Ramirez. "Mas isso ainda não significou o fim da pobreza."
O Bolsa Família unificou e ampliou os programas de transferência de renda então existentes. Em 2014 quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) considerou que o Brasil havia saído do mapa da fome, o programa foi apontado como um dos responsáveis pelo feito.
O programa beneficiava 14,7 milhões de famílias em 2021, quando foi extinto pela gestão Jair Bolsonaro. Em seu lugar, foi implementado o Auxílio Brasil, uma das principais bandeiras eleitoreiras do candidato à reeleição.
Neri avalia que "a política social de cunho assistencial está crescendo em dinheiro, mas perdendo em eficácia operacional", com o domínio de uma "visão oportunista eleitoral e pouco foco na superação da pobreza estrutural". "Anda para trás em relação ao que o Bolsa Família já fazia."
"Hoje [o programa Auxílio Brasil] tem foco eleitoreiro mas provavelmente não [funcionará] depois das eleições", considera o economista.
Ele aponta que há gargalos bastante problemáticos, a começar porque o benefício foi aprovado graças a um Projeto de Emenda Constitucional (PEC), apelidado de "Kamikaze", que colocou o Brasil em estado de emergência até o fim deste ano. Ao contrário do Bolsa Família, portanto, o Auxílio Brasil não é um programa com previsão de continuidade.
Outra questão que vem sendo trazida de forma recorrente por estudiosos é que o Bolsa Família fazia parte de um conjunto de políticas sociais implementadas pelo governo federal. Era condicionado à frequência escolar e vacinação em dia das crianças e caminhava em paralelo com outras medidas, como o projeto Minha Casa Minha Vida, de habitação popular, e melhorias no acesso ao ensino superior, com cotas e programas de financiamento. Também foi um período em que havia ganho real do salário mínimo, com reajustes anuais acima da inflação.
Discussão politizada
Neri crê que no momento qualquer solução fica difícil de ser avaliada, pois "a discussão está muito politizada e volúvel no Brasil". No cenário de campanha eleitoral, o vale-tudo das promessas não permite enxergar o que vem por aí.
"Bolsonaro implementou um pacote de benefícios no fim do mandato, mas não há nenhuma garantia de que serão mantidos ou que teremos orçamento para mantê-los", alerta Ramirez. "Lula carrega o histórico de ter liquidado a fome no Brasil, mas em sua campanha não fica nítido de onde viriam os recursos [para implementar programas do tipo]."
"Infelizmente, esta campanha eleitoral é uma das mais pobres em termos de propostas políticas. Pouco demonstram o que vai ser feito [para erradicar a pobreza] ou como vai ser feito", lamenta o sociólogo. "As pautas morais ganharam fôlego porque debater pobreza tem tido pouca repercussão entre eleitores em um mundo em que o sensacionalismo e os factoides ganham destaque."
O prognóstico negativo foi confirmado em relatório divulgado no início deste mês pelo Banco Mundial. E encontra eco nos números, segundo os quais a pandemia de covid-19 causou o pior momento desde que os dados vêm sendo monitorados, nos anos 1990, empurrando mais de 70 milhões de pessoas para a linha extrema em 2020. E os prognósticos, com a guerra na Ucrânia e a inflação decorrente do conflito, indicam que esse contingente ficará ainda maior.
De acordo com a instituição, 719 milhões de pessoas atualmente subsistem com menos de 2,15 dólares por dia — o que significa pobreza extrema. E a projeção é que até o fim deste ano 115 milhões a mais estejam nesse limiar da fome.
A linha da pobreza teve o valor mínimo reajustado pelo banco, tendo em vista o aumento dos custos em escala global. Antes, era de 5,50 dólares por dia. Agora é de 6,85. Considerando essa faixa, uma em cada cinco pessoas do mundo está abaixo da linha da pobreza.
O balde de água fria no sonho de acabar com a fome até 2030 tem sua explicação justamente no clima de otimismo dos anos 1990.
"Existia naquele contexto de final de século a expectativa de que o fortalecimento das democracias no pós-Guerra Fria fortaleceria os mercados e promoveria a redução da miséria, através da globalização e do neoliberalismo. Essas pretensões acabaram não acontecendo. Ao contrário, acabaram criando mais desigualdade pelo mundo", avalia o sociólogo Paulo Niccoli Ramirez, professor da Fundação Escola de Sociologia de São Paulo e da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).
No Brasil, o cenário é preocupante. "A queda [dos índices de pobreza] no Brasil foi até 2015", aponta o economista Marcelo Neri, diretor do Centro de Políticas Sociais FGV Social.
Ele se baseia em dados que apontam que, no fim do ano passado, havia um recorde do contingente de pobres no país desde o início da série histórica — 62,9 milhões de brasileiros, ou quase 30% da população, vivendo com renda domiciliar per capita igual ou inferior a R$ 497 por mês (5,50 dólares por dia). O número significa 10,1 milhões pessoas a mais do que no ano anterior, 2020.
O levantamento realizado pelo FGV Social com base nos microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apresenta um quadro nítido e preciso do que ocorreu nos últimos dez anos, início da série histórica. Em 2012, eram 54 milhões pobres no Brasil, número que caiu para 47,6 milhões em 2014, quando voltou a subir. Em 2018, eram 55,1 milhões. E 2021 terminou com o recorde histórico de 62,9 milhões de brasileiros abaixo da linha da pobreza.
Para Ramirez, nesta conta é preciso acrescentar, além do cenário global, os cortes de programas sociais durante os governos Michel Temer e Jair Bolsonaro, ou mesmo a não atualização compatível dos valores destinados a eles. Mas ele também observa que como essas estatísticas se baseiam no ganho diário em dólar, a desvalorização da moeda brasileira significa "o aumento da quantidade de pessoas que entram" nessa desfavorável lista.
Segundo Neri, nos últimos 30 anos, é possível destacar uma série de esforços históricos para a redução desse cenário. Nos anos 1990, havia a famosa campanha empreendida pelo sociólogo Herbert de Souza (1935-1997), o Betinho, com sua organização Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida.
Em 2001, no fim do segundo governo de Fernando Henrique Cardoso, foram implementados os programas Bolsa-escola e Bolsa Alimentação, precursores dos modelos de transferência de renda.
O auge da luta contra a pobreza extrema viria, contudo, na gestão posterior, sob o comando do petista Luiz Inácio Lula da Silva, com o programa Fome Zero e a instituição do Bolsa Família.
"O compromisso [de erradicar a pobreza] veio com o governo FHC, com algumas bolsas, e conseguiu uma expansão eficaz nos governos Lula e Dilma, quando a fome foi de fato extirpada do país e houve um compromisso com a empregabilidade, permitindo que o brasileiro pudesse ter três refeições por dia", comenta Ramirez. "Mas isso ainda não significou o fim da pobreza."
O Bolsa Família unificou e ampliou os programas de transferência de renda então existentes. Em 2014 quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) considerou que o Brasil havia saído do mapa da fome, o programa foi apontado como um dos responsáveis pelo feito.
O programa beneficiava 14,7 milhões de famílias em 2021, quando foi extinto pela gestão Jair Bolsonaro. Em seu lugar, foi implementado o Auxílio Brasil, uma das principais bandeiras eleitoreiras do candidato à reeleição.
Neri avalia que "a política social de cunho assistencial está crescendo em dinheiro, mas perdendo em eficácia operacional", com o domínio de uma "visão oportunista eleitoral e pouco foco na superação da pobreza estrutural". "Anda para trás em relação ao que o Bolsa Família já fazia."
"Hoje [o programa Auxílio Brasil] tem foco eleitoreiro mas provavelmente não [funcionará] depois das eleições", considera o economista.
Ele aponta que há gargalos bastante problemáticos, a começar porque o benefício foi aprovado graças a um Projeto de Emenda Constitucional (PEC), apelidado de "Kamikaze", que colocou o Brasil em estado de emergência até o fim deste ano. Ao contrário do Bolsa Família, portanto, o Auxílio Brasil não é um programa com previsão de continuidade.
Outra questão que vem sendo trazida de forma recorrente por estudiosos é que o Bolsa Família fazia parte de um conjunto de políticas sociais implementadas pelo governo federal. Era condicionado à frequência escolar e vacinação em dia das crianças e caminhava em paralelo com outras medidas, como o projeto Minha Casa Minha Vida, de habitação popular, e melhorias no acesso ao ensino superior, com cotas e programas de financiamento. Também foi um período em que havia ganho real do salário mínimo, com reajustes anuais acima da inflação.
Discussão politizada
Neri crê que no momento qualquer solução fica difícil de ser avaliada, pois "a discussão está muito politizada e volúvel no Brasil". No cenário de campanha eleitoral, o vale-tudo das promessas não permite enxergar o que vem por aí.
"Bolsonaro implementou um pacote de benefícios no fim do mandato, mas não há nenhuma garantia de que serão mantidos ou que teremos orçamento para mantê-los", alerta Ramirez. "Lula carrega o histórico de ter liquidado a fome no Brasil, mas em sua campanha não fica nítido de onde viriam os recursos [para implementar programas do tipo]."
"Infelizmente, esta campanha eleitoral é uma das mais pobres em termos de propostas políticas. Pouco demonstram o que vai ser feito [para erradicar a pobreza] ou como vai ser feito", lamenta o sociólogo. "As pautas morais ganharam fôlego porque debater pobreza tem tido pouca repercussão entre eleitores em um mundo em que o sensacionalismo e os factoides ganham destaque."
Ao dinheiro, rezamos!
O mal da província não está só nessas pequenas vaidades inofensivas, o seu pior mal provém de um exagerado culto ao dinheiro. Quem não tem dinheiro nada vale, nada pode fazer, nada pode aspirar com independência. Não há metabolia de classes. A inteligência pobre que se quer fazer, tem que se curvar aos ricos e cifrar a sua atividade mental em produções incolores, sem significação, sem sinceridade, para não ofender os seus protetores. A brutalidade do dinheiro asfixia e embrutece as inteligências.Lima Barreto, "Os Bruzundangas"
Papagaio de Pirata
O cara teve vaga de herói nacional. Parecia, enfrentava o velho melê de políticos e grandes empresários nacionais com propinas e outras larvas. Pois então. Daí começou a derrapar e derrapar. Não parou mais até chegar ao pouco honroso posto de papagaio de pirata – do Coiso.
Mesmo Coiso, a quem ele aderiu de pronto, na eleição de 2018, e que, eleito, usou e abusou dele. Depois, cuspiu o caroço. Pois então. Na noite de domingo 16/10, como humilde e atento papagaio de pirata, o ex-juiz, ex-quase-herói, Sergio Moro, agora senador eleito, passou pano para seu algoz. Apareceu carregando, diligente, pastinha pro candidato, atual PR, no debate da Band/Cultura/UOL e etc..
Até o azedíssimo, jornalista e imortal Merval Pereira, não aguentou tanta papagaice e desamou de Moro. “A presença do Moro, como assessor do Bolsonaro num debate, só mostra uma coisa: o alvo dele sempre foi o Lula”.
Pois então. O que convenceu Merval agora já ficara mais do que evidente, desde que o sujeito Moro trocou a vaga de juiz pelo Ministério da Defesa do governo Coiso. Cargo que vinha acoplado à promessa de vaga garantida no STF.
O recibo da vilanice, com firma reconhecida em cartório, ainda foi reforçado por todo o convercê nada republicano entre o então juiz e seus procuradores, exposto nas gravações da Vazajato. Acusados/processados, que não implicassem Lula em alguma trama lavajatista, não ganhavam direito à delação premiada. E etc, etc. O alvo era o Lula. Ponto.
Mas, vamos lá, até pra vassalagem tem limite. Ou teria, se o vassalo em questão não revelasse certo grau de psicopatia. Os psicopatas, como sabido, não têm qualquer sentimento de vergonha por suas ações. Também não têm de medo de serem descobertos, nem qualquer empatia pelo outro. Vivem fechados na sua razão soberana. E os outros que se lasquem.
Psicopatas costumam ser voláteis, manipuladores e até criminosos – podendo ser assassinos ou só malvados, particularmente, com os mais fracos ou em situação de fraqueza.
Bingo! Moro é volátil como um camaleão que muda e desmuda de pele segundo as circunstâncias. Manipulador? Que o digam seus procuradores de estimação. Seguramente, não tem – nem terá – qualquer vergonha pelo seu vai-e-volta no entorno de Bolsonaro.
Tomou pé na bunda? Precisando, passa borracha no passado – ainda que recente – e retoma a relação como se nada tivesse acontecido. Como se diz lá nas Minas Gerais, o pior tipo de corno é o bravo. Sai fazendo escândalo. Deita falação contra o (a) ex. Mas, invariavelmente, releva. Volta, põe o galho dentro e toca o barco – até o próximo chifre.
Moro no Twitter, em 10 de janeiro de 2022: “Assim como Lula, Bolsonaro mente. Nada do que ele fala deve ser levado a sério. Mentiu que era a favor da Lava Jato, mentiu sobre vacinas, mentiu sobre a ANVISA e o Barra Torres. E agora mente sobre mim. Não é digno da Presidência”.
Pois, desde domingo, 16/10, para o ex-juiz, Bolsonaro deixou de ser mentiroso e passou a ser digno da Presidência. Pintou um clima, entende?
Sem nem ficar vermelho, Moro destronou o Véio da Havan e, ao vivo, na TV, assumiu a presidência da Associação Brasileira dos Papagaios de Pirata – Abrapapi.
Por enquanto, só confirmadíssimo como ASPONE – Assessor de Porra Nenhuma –, volta a bater continência pro capitão, atual presidente. Deve confiar. Os 1,9 milhões de eleitores, que o elegeram Senador pelo Paraná, vão compreender que, para derrotar Lula, vale até enterrar a dignidade em cova rasa e praça pública. Pintou novo clima, entende?
1. Humor nas redes sociais, sobre palavras ditas nos dias de hoje: “Ele não disse aquilo. E se disse, ele não quis dizer. Você não entendeu o contexto. E se entendeu, grande coisa. Outros já disseram coisa pior”.
2. Tombou? A atividade econômica do país registrou queda de 1,13% em agosto na comparação com o mês anterior, de acordo com o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), divulgado na segunda-feira, 17/10, pela autoridade monetária.
Será que a ficção da economia bombando segura até o final da eleição?
3. Ruído em Paraisópolis/SP. Novo morador de São Paulo, parece, o candidato do Republicanos ao governo, Tarcísio de Freitas, ainda não conhecia velho costume da bandidagem, na periferia, de receber com tiros visitas da PM. Desavisado, achou que era com ele?
O secretário de Segurança do estado, general João Camilo, avaliou que os tiros, 50 a 100 metros do comício de Tarcísio, podem ter sido causados por “um ruído” gerado pela presença da PM na comunidade, que ali estava para proteger o candidato.
São Paulo é mesmo difícil pra quem não conhece.
Mesmo Coiso, a quem ele aderiu de pronto, na eleição de 2018, e que, eleito, usou e abusou dele. Depois, cuspiu o caroço. Pois então. Na noite de domingo 16/10, como humilde e atento papagaio de pirata, o ex-juiz, ex-quase-herói, Sergio Moro, agora senador eleito, passou pano para seu algoz. Apareceu carregando, diligente, pastinha pro candidato, atual PR, no debate da Band/Cultura/UOL e etc..
Até o azedíssimo, jornalista e imortal Merval Pereira, não aguentou tanta papagaice e desamou de Moro. “A presença do Moro, como assessor do Bolsonaro num debate, só mostra uma coisa: o alvo dele sempre foi o Lula”.
Pois então. O que convenceu Merval agora já ficara mais do que evidente, desde que o sujeito Moro trocou a vaga de juiz pelo Ministério da Defesa do governo Coiso. Cargo que vinha acoplado à promessa de vaga garantida no STF.
O recibo da vilanice, com firma reconhecida em cartório, ainda foi reforçado por todo o convercê nada republicano entre o então juiz e seus procuradores, exposto nas gravações da Vazajato. Acusados/processados, que não implicassem Lula em alguma trama lavajatista, não ganhavam direito à delação premiada. E etc, etc. O alvo era o Lula. Ponto.
Mas, vamos lá, até pra vassalagem tem limite. Ou teria, se o vassalo em questão não revelasse certo grau de psicopatia. Os psicopatas, como sabido, não têm qualquer sentimento de vergonha por suas ações. Também não têm de medo de serem descobertos, nem qualquer empatia pelo outro. Vivem fechados na sua razão soberana. E os outros que se lasquem.
Psicopatas costumam ser voláteis, manipuladores e até criminosos – podendo ser assassinos ou só malvados, particularmente, com os mais fracos ou em situação de fraqueza.
Bingo! Moro é volátil como um camaleão que muda e desmuda de pele segundo as circunstâncias. Manipulador? Que o digam seus procuradores de estimação. Seguramente, não tem – nem terá – qualquer vergonha pelo seu vai-e-volta no entorno de Bolsonaro.
Tomou pé na bunda? Precisando, passa borracha no passado – ainda que recente – e retoma a relação como se nada tivesse acontecido. Como se diz lá nas Minas Gerais, o pior tipo de corno é o bravo. Sai fazendo escândalo. Deita falação contra o (a) ex. Mas, invariavelmente, releva. Volta, põe o galho dentro e toca o barco – até o próximo chifre.
Moro no Twitter, em 10 de janeiro de 2022: “Assim como Lula, Bolsonaro mente. Nada do que ele fala deve ser levado a sério. Mentiu que era a favor da Lava Jato, mentiu sobre vacinas, mentiu sobre a ANVISA e o Barra Torres. E agora mente sobre mim. Não é digno da Presidência”.
Pois, desde domingo, 16/10, para o ex-juiz, Bolsonaro deixou de ser mentiroso e passou a ser digno da Presidência. Pintou um clima, entende?
Sem nem ficar vermelho, Moro destronou o Véio da Havan e, ao vivo, na TV, assumiu a presidência da Associação Brasileira dos Papagaios de Pirata – Abrapapi.
Por enquanto, só confirmadíssimo como ASPONE – Assessor de Porra Nenhuma –, volta a bater continência pro capitão, atual presidente. Deve confiar. Os 1,9 milhões de eleitores, que o elegeram Senador pelo Paraná, vão compreender que, para derrotar Lula, vale até enterrar a dignidade em cova rasa e praça pública. Pintou novo clima, entende?
1. Humor nas redes sociais, sobre palavras ditas nos dias de hoje: “Ele não disse aquilo. E se disse, ele não quis dizer. Você não entendeu o contexto. E se entendeu, grande coisa. Outros já disseram coisa pior”.
2. Tombou? A atividade econômica do país registrou queda de 1,13% em agosto na comparação com o mês anterior, de acordo com o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), divulgado na segunda-feira, 17/10, pela autoridade monetária.
Será que a ficção da economia bombando segura até o final da eleição?
3. Ruído em Paraisópolis/SP. Novo morador de São Paulo, parece, o candidato do Republicanos ao governo, Tarcísio de Freitas, ainda não conhecia velho costume da bandidagem, na periferia, de receber com tiros visitas da PM. Desavisado, achou que era com ele?
O secretário de Segurança do estado, general João Camilo, avaliou que os tiros, 50 a 100 metros do comício de Tarcísio, podem ter sido causados por “um ruído” gerado pela presença da PM na comunidade, que ali estava para proteger o candidato.
São Paulo é mesmo difícil pra quem não conhece.
O homem de cabeça de papelão
No País que chamavam de Sol, apesar de chover, às vezes, semanas inteiras, vivia um homem de nome Antenor. Não era príncipe. Nem deputado. Nem rico. Nem jornalista. Absolutamente sem importância social.
O País do Sol, como em geral todos os países lendários, era o mais comum, o menos surpreendente em ideias e práticas. Os habitantes afluíam todos para a capital, composta de praças, ruas, jardins e avenidas, e tomavam todos os lugares e todas as possibilidades da vida dos que, por desventura, eram da capital. De modo que estes eram mendigos e parasitas, únicos meios de vida sem concorrência, isso mesmo com muitas restrições quanto ao parasitismo. Os prédios da capital, no centro elevavam aos ares alguns andares e a fortuna dos proprietários, nos subúrbios não passavam de um andar sem que por isso não enriquecessem os proprietários também. Havia milhares de automóveis à disparada pelas artérias matando gente para matar o tempo, cabarets fatigados, jornais, tramways, partidos nacionalistas, ausência de conservadores, a Bolsa, o Governo, a Moda, e um aborrecimento integral. Enfim tudo quanto a cidade de fantasia pode almejar para ser igual a uma grande cidade com pretensões da América. E o povo que a habitava julgava-se, além de inteligente, possuidor de imenso bom senso. Bom senso! Se não fosse a capital do País do Sol, a cidade seria a capital do Bom Senso!
Precisamente por isso, Antenor, apesar de não ter importância alguma, era exceção mal vista. Esse rapaz, filho de boa família (tão boa que até tinha sentimentos), agira sempre em desacordo com a norma dos seus concidadãos.
Desde menino, a sua respeitável progenitora descobriu-lhe um defeito horrível: Antenor só dizia a verdade. Não a sua verdade, a verdade útil, mas a verdade verdadeira. Alarmada, a digna senhora pensou em tomar providências. Foi-lhe impossível. Antenor era diverso no modo de comer, na maneira de vestir, no jeito de andar, na expressão com que se dirigia aos outros. Enquanto usara calções, os amigos da família consideravam-no um enfant terrible, porque no País do Sol todos falavam francês com convicção, mesmo falando mal. Rapaz, entretanto, Antenor tornou-se alarmante. Entre outras coisas, Antenor pensava livremente por conta própria. Assim, a família via chegar Antenor como a própria revolução; os mestres indignavam-se porque ele aprendia ao contrario do que ensinavam; os amigos odiavam-no; os transeuntes, vendo-o passar, sorriam.
Uma só coisa descobriu a mãe de Antenor para não ser forçada a mandá-lo embora: Antenor nada do que fazia, fazia por mal. Ao contrário. Era escandalosamente, incompreensivelmente bom. Aliás, só para ela, para os olhos maternos. Porque quando Antenor resolveu arranjar trabalho para os mendigos e corria a bengala os parasitas na rua, ficou provado que Antenor era apenas doido furioso. Não só para as vítimas da sua bondade como para a esclarecida inteligência dos delegados de polícia a quem teve de explicar a sua caridade.
Com o fim de convencer Antenor de que devia seguir os tramitas legais de um jovem solar, isto é: ser bacharel e depois empregado público nacionalista, deixando à atividade da canalha estrangeira o resto, os interesses congregados da família em nome dos princípios organizaram vários meetings como aqueles que se fazem na inexistente democracia americana para provar que a chave abre portas e a faca serve para cortar o que é nosso para nós e o que é dos outros também para nós. Antenor, diante da evidência, negou-se.
— Ouça! bradava o tio. Bacharel é o princípio de tudo. Não estude. Pouco importa! Mas seja bacharel! Bacharel você tem tudo nas mãos. Ao lado de um político-chefe, sabendo lisonjear, é a ascensão: deputado, ministro.
— Mas não quero ser nada disso.
— Então quer ser vagabundo?
— Quero trabalhar.
— Vem dar na mesma coisa. Vagabundo é um sujeito a quem faltam três coisas: dinheiro, prestígio e posição. Desde que você não as tem, mesmo trabalhando — é vagabundo.
— Eu não acho.
— É pior. É um tipo sem bom senso. É bolchevique. Depois, trabalhar para os outros é uma ilusão. Você está inteiramente doido.
Antenor foi trabalhar, entretanto. E teve uma grande dificuldade para trabalhar. Pode-se dizer que a originalidade da sua vida era trabalhar para trabalhar. Acedendo ao pedido da respeitável senhora que era mãe de Antenor, Antenor passeou a sua má cabeça por várias casas de comércio, várias empresas industriais. Ao cabo de um ano, dois meses, estava na rua. Por que mandavam embora Antenor? Ele não tinha exigências, era honesto como a água, trabalhador, sincero, verdadeiro, cheio de idéias. Até alegre — qualidade raríssima no país onde o sol, a cerveja e a inveja faziam batalhões de biliosos tristes. Mas companheiros e patrões prevenidos, se a princípio declinavam hostilidades, dentro em pouco não o aturavam. Quando um companheiro não atura o outro, intriga-o. Quando um patrão não atura o empregado, despede-o. É a norma do País do Sol. Com Antenor depois de despedido, companheiros e patrões ainda por cima tomavam-lhe birra. Por que? É tão difícil saber a verdadeira razão por que um homem não suporta outro homem!
Um dos seus ex-companheiros explicou certa vez:
— É doido. Tem a mania de fazer mais que os outros. Estraga a norma do serviço e acaba não sendo tolerado. Mau companheiro. E depois com ares…
O patrão do último estabelecimento de que saíra o rapaz respondeu à mãe de Antenor:
— A perigosa mania de seu filho é por em prática idéias que julga próprias.
— Prejudicou-lhe, Sr. Praxedes?
Não. Mas podia prejudicar. Sempre altera o bom senso. Depois, mesmo que seu filho fosse águia, quem manda na minha casa sou eu.
No País do Sol o comércio ë uma maçonaria. Antenor, com fama de perigoso, insuportável, desobediente, não pôde em breve obter emprego algum. Os patrões que mais tinham lucrado com as suas idéias eram os que mais falavam. Os companheiros que mais o haviam aproveitado tinham-lhe raiva. E se Antenor sentia a triste experiência do erro econômico no trabalho sem a norma, a praxe, no convívio social compreendia o desastre da verdade. Não o toleravam. Era-lhe impossível ter amigos, por muito tempo, porque esses só o eram enquanto. não o tinham explorado.
Antenor ria. Antenor tinha saúde. Todas aquelas desditas eram para ele brincadeira. Estava convencido de estar com a razão, de vencer. Mas, a razão sua, sem interesse chocava-se à razão dos outros ou com interesses ou presa à sugestão dos alheios. Ele via os erros, as hipocrisias, as vaidades, e dizia o que via. Ele ia fazer o bem, mas mostrava o que ia fazer. Como tolerar tal miserável? Antenor tentou tudo, juvenilmente, na cidade. A digníssima sua progenitora desculpava-o ainda.
— É doido, mas bom.
Os parentes, porém, não o cumprimentavam mais. Antenor exercera o comércio, a indústria, o professorado, o proletariado. Ensinara geografia num colégio, de onde foi expulso pelo diretor; estivera numa fábrica de tecidos, forçado a retirar-se pelos operários e pelos patrões; oscilara entre revisor de jornal e condutor de bonde. Em todas as profissões vira os círculos estreitos das classes, a defesa hostil dos outros homens, o ódio com que o repeliam, porque ele pensava, sentia, dizia outra coisa diversa.
— Mas, Deus, eu sou honesto, bom, inteligente, incapaz de fazer mal…
— É da tua má cabeça, meu filho.
— Qual?
— A tua cabeça não regula.
— Quem sabe?
Antenor começava a pensar na sua má cabeça, quando o seu coração apaixonou-se. Era uma rapariga chamada Maria Antônia, filha da nova lavadeira de sua mãe. Antenor achava perfeitamente justo casar com a Maria Antônia. Todos viram nisso mais uma prova do desarranjo cerebral de Antenor. Apenas, com pasmo geral, a resposta de Maria Antônia foi condicional.
— Só caso se o senhor tomar juízo.
— Mas que chama você juízo?
— Ser como os mais.
— Então você gosta de mim?
— E por isso é que só caso depois.
Como tomar juízo? Como regular a cabeça? O amor leva aos maiores desatinos. Antenor pensava em arranjar a má cabeça, estava convencido.
Nessas disposições, Antenor caminhava por uma rua no centro da cidade, quando os seus olhos descobriram a tabuleta de uma “relojoaria e outros maquinismos delicados de precisão”. Achou graça e entrou. Um cavalheiro grave veio servi-lo.
— Traz algum relógio?
— Trago a minha cabeça.
— Ah! Desarranjada?
— Dizem-no, pelo menos.
— Em todo o caso, há tempo?
— Desde que nasci.
— Talvez imprevisão na montagem das peças. Não lhe posso dizer nada sem observação de trinta dias e a desmontagem geral. As cabeças como os relógios para regular bem…
Antenor atalhou:
— E o senhor fica com a minha cabeça?
— Se a deixar.
— Pois aqui a tem. Conserte-a. O diabo é que eu não posso andar sem cabeça…
— Claro. Mas, enquanto a arranjo, empresto-lhe uma de papelão.
— Regula?
— É de papelão! explicou o honesto negociante. Antenor recebeu o número de sua cabeça, enfiou a de papelão, e saiu para a rua.
Dois meses depois, Antenor tinha uma porção de amigos, jogava o pôquer com o Ministro da Agricultura, ganhava uma pequena fortuna vendendo feijão bichado para os exércitos aliados. A respeitável mãe de Antenor via-o mentir, fazer mal, trapacear e ostentar tudo o que não era. Os parentes, porem, estimavam-no, e os companheiros tinham garbo em recordar o tempo em que Antenor era maluco.
Antenor não pensava. Antenor agia como os outros. Queria ganhar. Explorava, adulava, falsificava. Maria Antônia tremia de contentamento vendo Antenor com juízo. Mas Antenor, logicamente, desprezou-a propondo um concubinato que o não desmoralizasse a ele. Outras Marias ricas, de posição, eram de opinião da primeira Maria. Ele só tinha de escolher. No centro operário, a sua fama crescia, querido dos patrões burgueses e dos operários irmãos dos spartakistas da Alemanha. Foi eleito deputado por todos, e, especialmente, pelo presidente da República — a quem atacou logo, pois para a futura eleição o presidente seria outro. A sua ascensão só podia ser comparada à dos balões. Antenor esquecia o passado, amava a sua terra. Era o modelo da felicidade. Regulava admiravelmente.
Passaram-se assim anos. Todos os chefes políticos do País do Sol estavam na dificuldade de concordar no nome do novo senador, que fosse o expoente da norma, do bom senso. O nome de Antenor era cotado. Então Antenor passeava de automóvel pelas ruas centrais, para tomar pulso à opinião, quando os seus olhos deram na tabuleta do relojoeiro e lhe veio a memória.
— Bolas! E eu que esqueci! A minha cabeça está ali há tempo… Que acharia o relojoeiro? É capaz de tê-la vendido para o interior. Não posso ficar toda vida com uma cabeça de papelão!
Saltou. Entrou na casa do negociante. Era o mesmo que o servira.
— Há tempos deixei aqui uma cabeça.
— Não precisa dizer mais. Espero-o ansioso e admirado da sua ausência, desde que ia desmontar a sua cabeça.
— Ah! fez Antenor.
— Tem-se dado bem com a de papelão? — Assim…
— As cabeças de papelão não são más de todo. Fabricações por séries. Vendem-se muito.
— Mas a minha cabeça?
— Vou buscá-la.
Foi ao interior e trouxe um embrulho com respeitoso cuidado.
— Consertou-a?
— Não.
— Então, desarranjo grande?
O homem recuou.
— Senhor, na minha longa vida profissional jamais encontrei um aparelho igual, como perfeição, como acabamento, como precisão. Nenhuma cabeça regulará no mundo melhor do que a sua. É a placa sensível do tempo, das idéias, é o equilíbrio de todas as vibrações. O senhor não tem uma cabeça qualquer. Tem uma cabeça de exposição, uma cabeça de gênio, hors-concours.
Antenor ia entregar a cabeça de papelão. Mas conteve-se.
— Faça o obséquio de embrulhá-la.
— Não a coloca?
— Não.
— V.EX. faz bem. Quem possui uma cabeça assim não a usa todos os dias. Fatalmente dá na vista.
Mas Antenor era prudente, respeitador da harmonia social.
— Diga-me cá. Mesmo parada em casa, sem corda, numa redoma, talvez prejudique.
— Qual! V.EX. terá a primeira cabeça.
Antenor ficou seco.
— Pode ser que V., profissionalmente, tenha razão. Mas, para mim, a verdade é a dos outros, que sempre a julgaram desarranjada e não regulando bem. Cabeças e relógios querem-se conforme o clima e a moral de cada terra. Fique V. com ela. Eu continuo com a de papelão.
E, em vez de viver no País do Sol um rapaz chamado Antenor, que não conseguia ser nada tendo a cabeça mais admirável — um dos elementos mais ilustres do País do Sol foi Antenor, que conseguiu tudo com uma cabeça de papelão.
João do Rio
terça-feira, 18 de outubro de 2022
O risco de autocracia está à espreita
Há muito tempo, talvez desde a campanha das “Diretas Já”, a palavra democracia não foi tão falada, escrita, lembrada e exaltada no país com sinais de alerta e doses de preocupação. A defesa do regime democrático tem crescido desde o início desta temporada eleitoral a ponto de ganhar recentemente demonstrações de apoio concreto ao candidato Luiz Inácio Lula da Silva por pessoas influentes, intelectuais e representantes de segmentos da sociedade civil, que até então sequer imaginavam a possibilidade de votar no PT.
A percepção de que há muito mais em jogo do que uma simples disputa eleitoral falou mais alto para aqueles apoiadores de última instância, acentuando a polarização não entre um partido de esquerda e outro de direita, mas entre o bem e o mal. Desde o início, parecia claro que a chamada terceira via teria poucas chances de emplacar e o que se vê nesta reta final é um esforço descomunal de muitos formadores de opinião no sentido de evitar a reeleição de Bolsonaro, encarnado na figura do mal que ele mesmo construiu ao longo do governo.
O presidente nunca deixou de dar indicações claras de descaso relacionadas à educação, saúde, segurança, cultura e meio ambiente, mas foram as suas declarações sobre o processo eleitoral, a configuração da Suprema Corte de justiça e os meios de comunicação que chamaram a atenção para os riscos de o país caminhar para uma autocracia.
A rigor, as falas de Bolsonaro estão dentro do script adotado pela maior parte dos autocratas que nas últimas décadas têm se perpetuado no poder através da captura de mecanismos típicos da democracia, como o voto direto. A mudança de regime político é feita aos poucos. Ao invés de tanques nas ruas, censura explícita, prisão e tortura em massa dos adversários políticos, características das autocracias “tradicionais”, utiliza-se uma retórica calcada na disseminação do medo e em ameaças com apelos populistas.
Como reconhecer um autocrata legalista em ação? Kim Lane Scheppele, catedrática de sociologia e de assuntos internacionais da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, traça o perfil: “Deve-se primeiramente suspeitar de legalismo autocrático em um líder democraticamente eleito quando ele lança um deliberado e sustentado ataque às instituições cuja função é colocar em xeque suas ações ou às regras que lhe impõem limites e deveres, mesmo quando ele age assim em nome do mandato democrático”, diz ela no artigo “Autocratic Legalism” (Legalismo Autocrático), um dos textos de referência para o entendimento do fenômeno que tem ganhado força neste século.
“Os novos autocratas não apenas se beneficiam da crise de confiança nas instituições públicas; eles atacam os princípios básicos do constitucionalismo liberal e democrático porque querem consolidar poder e permanecer na liderança pelo maior tempo possível”. Para atingir o objetivo, valem-se da aparência de que tudo transcorre dentro das quatro linhas da Constituição, enquanto usam o mandato para derrubar os obstáculos que os impedem de governar com autonomia, sem prestação de contas nem riscos de serem investigados. Quando obtêm uma soma confortável de apoios no Congresso ou no parlamento, o processo de reversão definitiva do regime torna-se mais seguro e mais rápido.
Como se sabe, não são poucos os líderes que têm recorrido ao legalismo autocrático para permanecerem no poder via eleições diretas sob o manto de dispositivos convenientes introduzidos no texto da Constituição. Desde Putin na Rússia e de Chávez/Maduro na Venezuela, os exemplos têm se propagado com Orbán na Hungria, Erdogan na Turquia e Duda na Polônia. Para os interessados, o processo de confisco da democracia está bem explicitado no texto “O Caminho da Autocracia: estratégias atuais de erosão democrática”, de estudiosos do Centro de Análise da Liberdade e do Autoritarismo (LAUT) - laut.org.br/o-caminho- da-autocracia/
Apesar da farta documentação das técnicas usadas pelos autocratas “modernos”, a percepção do modus operandi e dos riscos associados à mudança do regime político não está disseminada na sociedade brasileira nem mesmo entre os acadêmicos. Em nome do liberalismo econômico, há uma resistência de importantes segmentos das áreas empresarial e financeira em aceitar os direitos sociais garantidos na Constituição e que só se consegue manter sob um regime democrático pleno sujeito ao escrutínio de instituições independentes.
No fundo, existe uma dicotomia entre a ideia de que a economia evolui melhor quanto menor for a interferência do Estado e os princípios do Estado de Direito liberal que garantem liberdades e direitos individuais para todos. Por exemplo, o objetivo de erradicar a pobreza e reduzir as desigualdades sociais, inscrito na Constituição, só pode ser alcançado com medidas de forte intervenção do governo na economia.
Quanto mais predominante for a defesa do liberalismo ou neoliberalismo econômico, maior será o eco favorável ao autocrata de direita que opera para ampliar o poder de decisão e de fazer cumprir, sem oposição, medidas de apoio a grupos específicos em detrimento dos interesses da sociedade. O refrão “deixar passar a boiada” vai nessa linha. Nas autocracias de esquerda, as liberdades individuais são comprometidas por um Estado onipresente que direciona a iniciativa privada em prol da massa assalariada e subordina a economia de acordo com os interesses de integrantes do governo.
No entanto, é sob o regime democrático que se podem alcançar níveis de desenvolvimento abrangente não apenas sob a ótica social, mas econômica, tendo em vista a possibilidade de expansão das oportunidades individuais que levam ao crescimento do mercado em geral, do consumo e da renda, em benefício de um maior contingente de pessoas e de empresas.
A percepção de que há muito mais em jogo do que uma simples disputa eleitoral falou mais alto para aqueles apoiadores de última instância, acentuando a polarização não entre um partido de esquerda e outro de direita, mas entre o bem e o mal. Desde o início, parecia claro que a chamada terceira via teria poucas chances de emplacar e o que se vê nesta reta final é um esforço descomunal de muitos formadores de opinião no sentido de evitar a reeleição de Bolsonaro, encarnado na figura do mal que ele mesmo construiu ao longo do governo.
O presidente nunca deixou de dar indicações claras de descaso relacionadas à educação, saúde, segurança, cultura e meio ambiente, mas foram as suas declarações sobre o processo eleitoral, a configuração da Suprema Corte de justiça e os meios de comunicação que chamaram a atenção para os riscos de o país caminhar para uma autocracia.
A rigor, as falas de Bolsonaro estão dentro do script adotado pela maior parte dos autocratas que nas últimas décadas têm se perpetuado no poder através da captura de mecanismos típicos da democracia, como o voto direto. A mudança de regime político é feita aos poucos. Ao invés de tanques nas ruas, censura explícita, prisão e tortura em massa dos adversários políticos, características das autocracias “tradicionais”, utiliza-se uma retórica calcada na disseminação do medo e em ameaças com apelos populistas.
Como reconhecer um autocrata legalista em ação? Kim Lane Scheppele, catedrática de sociologia e de assuntos internacionais da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, traça o perfil: “Deve-se primeiramente suspeitar de legalismo autocrático em um líder democraticamente eleito quando ele lança um deliberado e sustentado ataque às instituições cuja função é colocar em xeque suas ações ou às regras que lhe impõem limites e deveres, mesmo quando ele age assim em nome do mandato democrático”, diz ela no artigo “Autocratic Legalism” (Legalismo Autocrático), um dos textos de referência para o entendimento do fenômeno que tem ganhado força neste século.
“Os novos autocratas não apenas se beneficiam da crise de confiança nas instituições públicas; eles atacam os princípios básicos do constitucionalismo liberal e democrático porque querem consolidar poder e permanecer na liderança pelo maior tempo possível”. Para atingir o objetivo, valem-se da aparência de que tudo transcorre dentro das quatro linhas da Constituição, enquanto usam o mandato para derrubar os obstáculos que os impedem de governar com autonomia, sem prestação de contas nem riscos de serem investigados. Quando obtêm uma soma confortável de apoios no Congresso ou no parlamento, o processo de reversão definitiva do regime torna-se mais seguro e mais rápido.
Como se sabe, não são poucos os líderes que têm recorrido ao legalismo autocrático para permanecerem no poder via eleições diretas sob o manto de dispositivos convenientes introduzidos no texto da Constituição. Desde Putin na Rússia e de Chávez/Maduro na Venezuela, os exemplos têm se propagado com Orbán na Hungria, Erdogan na Turquia e Duda na Polônia. Para os interessados, o processo de confisco da democracia está bem explicitado no texto “O Caminho da Autocracia: estratégias atuais de erosão democrática”, de estudiosos do Centro de Análise da Liberdade e do Autoritarismo (LAUT) - laut.org.br/o-caminho- da-autocracia/
Apesar da farta documentação das técnicas usadas pelos autocratas “modernos”, a percepção do modus operandi e dos riscos associados à mudança do regime político não está disseminada na sociedade brasileira nem mesmo entre os acadêmicos. Em nome do liberalismo econômico, há uma resistência de importantes segmentos das áreas empresarial e financeira em aceitar os direitos sociais garantidos na Constituição e que só se consegue manter sob um regime democrático pleno sujeito ao escrutínio de instituições independentes.
No fundo, existe uma dicotomia entre a ideia de que a economia evolui melhor quanto menor for a interferência do Estado e os princípios do Estado de Direito liberal que garantem liberdades e direitos individuais para todos. Por exemplo, o objetivo de erradicar a pobreza e reduzir as desigualdades sociais, inscrito na Constituição, só pode ser alcançado com medidas de forte intervenção do governo na economia.
Quanto mais predominante for a defesa do liberalismo ou neoliberalismo econômico, maior será o eco favorável ao autocrata de direita que opera para ampliar o poder de decisão e de fazer cumprir, sem oposição, medidas de apoio a grupos específicos em detrimento dos interesses da sociedade. O refrão “deixar passar a boiada” vai nessa linha. Nas autocracias de esquerda, as liberdades individuais são comprometidas por um Estado onipresente que direciona a iniciativa privada em prol da massa assalariada e subordina a economia de acordo com os interesses de integrantes do governo.
No entanto, é sob o regime democrático que se podem alcançar níveis de desenvolvimento abrangente não apenas sob a ótica social, mas econômica, tendo em vista a possibilidade de expansão das oportunidades individuais que levam ao crescimento do mercado em geral, do consumo e da renda, em benefício de um maior contingente de pessoas e de empresas.
O homem que lê o tempo
Silvino é o homem que lê o tempo. Quando eu vou saindo do prédio onde moro, sempre lhe pergunto, até mesmo como chiste: levo ou deixo o guarda-chuva? É batata, ele acerta. Em vez de porteiro, insisto, poderia estar na televisão.
Digo que ele é dotado de uma sensibilidade especial para essa questão atmosférica, tal é o índice de acertos. As televisões não sabem realmente o que estão perdendo: ele é o homem do tempo.
Já houve ocasião de estar nublado e Silvino me dizer que não cairia um único pingo. E não chovia mesmo. Ou, pelo contrário, maior solzão. “Tá vendo aquela nuvenzinha? Pode se preparar, vai cair um toró”. Quando menos esperei, choveu.
Certa vez eu lhe perguntei como aprendera a ler o tempo, ele disse não haver mistérios. “O meu pai foi pescador. Eu via ele se preparando para entrar no mar, quando ia pescar. Cuidava de olhar as nuvens. É só olhar para o céu e ver de que lado elas estão vindo”.
Silvino me revelou: se estiver nublado no centro do céu, e o Sol estiver abrindo a Leste, ele vai andar sobre nossas cabeças. Não choverá. Mas, se for o contrário, as nuvens estiverem vindo, cairá água. “O movimento é daqui pra lá”, mostrou.
Dia desses, questionei se ele nunca pensou ser meteorologista. Quis saber o que era, expliquei. “Então, tem que estudar? Dá pra mim não. Sou fraco de leitura”. Não chegou ao segundo grau. Silvino lê somente o básico, o suficiente para trabalhar num condomínio. Mas sabe ler o livro místico do universo que nos circunda.
Outro dia, eu fui saindo para uma caminhada matinal. “Vai chover”. Resolvi dar crédito, voltei para o apartamento. Não quis caminhar debaixo de água. De fato, o tempo fechou, uma boa meia hora de chuva. Desci, para lhe dar os parabéns. Silvino é bem humorado. Conversa vai, conversa vem, saímos das questões climáticas, entramos nas políticas, assunto predileto dos pernambucanos.
Já que Silvino era bom de palpite, quis saber se ele arriscava dizer quem ganharia a eleição para presidente. “Quem vai ganhar, eu não sei. Mas, dizem que Deus é brasileiro. Pois este vai ser um teste bom”. Eu e minha mania de repórter:
– Mas, você acha que Deus vai pender para que lado?
E ele, mais uma vez muito sábio:
– Vamos rezar muito Padre Nosso para que ele não deixe o lado errado ganhar.
Silvino é concreto nas previsões do tempo, mas fugidio nos detalhes políticos. Encerrei o assunto, mas ele acrescentou:
– Desculpe a brincadeira. É que eu acho que Deus já faz a parte dele. A gente é que temos que fazer a nossa.
Assim, com seu jeito de falar, mas com a competência que lhe diferencia. É inteligente, tanto que disse: “O senhor quer saber? Esta é a eleição mais fácil que eu já vi. Os dois candidatos já foram presidentes. Basta que o eleitor avalie quem mais lhe atendeu na hora da precisão”.
Votar é uma questão de leitura e Silvino percebe o mundo a partir das suas experiências. E é neste mundo que ele enxerga a vida. Há pessoas que sabem ler e escrever o bom português, mas são analfabetas na vida. Nisso, Silvino é mestre e doutor. Sabe ler um tipo de texto que somente alguns conseguem decifrar.
Cícero Belmar
Já houve ocasião de estar nublado e Silvino me dizer que não cairia um único pingo. E não chovia mesmo. Ou, pelo contrário, maior solzão. “Tá vendo aquela nuvenzinha? Pode se preparar, vai cair um toró”. Quando menos esperei, choveu.
Certa vez eu lhe perguntei como aprendera a ler o tempo, ele disse não haver mistérios. “O meu pai foi pescador. Eu via ele se preparando para entrar no mar, quando ia pescar. Cuidava de olhar as nuvens. É só olhar para o céu e ver de que lado elas estão vindo”.
Silvino me revelou: se estiver nublado no centro do céu, e o Sol estiver abrindo a Leste, ele vai andar sobre nossas cabeças. Não choverá. Mas, se for o contrário, as nuvens estiverem vindo, cairá água. “O movimento é daqui pra lá”, mostrou.
Dia desses, questionei se ele nunca pensou ser meteorologista. Quis saber o que era, expliquei. “Então, tem que estudar? Dá pra mim não. Sou fraco de leitura”. Não chegou ao segundo grau. Silvino lê somente o básico, o suficiente para trabalhar num condomínio. Mas sabe ler o livro místico do universo que nos circunda.
Outro dia, eu fui saindo para uma caminhada matinal. “Vai chover”. Resolvi dar crédito, voltei para o apartamento. Não quis caminhar debaixo de água. De fato, o tempo fechou, uma boa meia hora de chuva. Desci, para lhe dar os parabéns. Silvino é bem humorado. Conversa vai, conversa vem, saímos das questões climáticas, entramos nas políticas, assunto predileto dos pernambucanos.
Já que Silvino era bom de palpite, quis saber se ele arriscava dizer quem ganharia a eleição para presidente. “Quem vai ganhar, eu não sei. Mas, dizem que Deus é brasileiro. Pois este vai ser um teste bom”. Eu e minha mania de repórter:
– Mas, você acha que Deus vai pender para que lado?
E ele, mais uma vez muito sábio:
– Vamos rezar muito Padre Nosso para que ele não deixe o lado errado ganhar.
Silvino é concreto nas previsões do tempo, mas fugidio nos detalhes políticos. Encerrei o assunto, mas ele acrescentou:
– Desculpe a brincadeira. É que eu acho que Deus já faz a parte dele. A gente é que temos que fazer a nossa.
Assim, com seu jeito de falar, mas com a competência que lhe diferencia. É inteligente, tanto que disse: “O senhor quer saber? Esta é a eleição mais fácil que eu já vi. Os dois candidatos já foram presidentes. Basta que o eleitor avalie quem mais lhe atendeu na hora da precisão”.
Votar é uma questão de leitura e Silvino percebe o mundo a partir das suas experiências. E é neste mundo que ele enxerga a vida. Há pessoas que sabem ler e escrever o bom português, mas são analfabetas na vida. Nisso, Silvino é mestre e doutor. Sabe ler um tipo de texto que somente alguns conseguem decifrar.
Cícero Belmar
Qual é a liberdade defendida por Bolsonaro na campanha
O lema "Deus, Pátria e Família", citado por Jair Bolsonaro em inúmeros discursos desde a sua campanha de 2018, ganhou um quarto elemento na disputa eleitoral deste ano. Os atuais materiais de campanha do presidente usam: "Deus, Pátria, Família e Liberdade".
Na terça-feira, em Balneário Camboriú (SC), ele afirmou: "Temos a obrigação de lutar pela liberdade". Seus apoiadores também citam o termo com abundância. O empresário Roberto Justus divulgou um vídeo no qual se define como um "liberal na essência" e declara apoio a Bolsonaro por ele ser o candidato que "luta pela liberdade individual". Para completar, o atual partido do presidente se chama Partido Liberal (PL).
A defesa da liberdade no bolsonarismo também aparece ligada à flexibilização do acesso às armas e como reação a decisões judiciais que puniram apoiadores do presidente por ataques às instituições democráticas e a ministros do Supremo Tribunal Federal.
Seria o uso do conceito de liberdade pelo presidente compatível com seus constantes ataques à liberdade de imprensa, à separação entre os Poderes e à liberdade de escolhas individuais, inclusive sexuais e de gênero, que fundamentam o liberalismo?
A associação Livres, que promove os valores do liberalismo no Brasil e reúne em seus quadros os economistas Pérsio Arida e Elena Landau, entre outros, afirma que não.
Mano Ferreira, diretor de comunicação do grupo, diz que o liberalismo, uma ideologia política e econômica que teve seu ápice no século 19, é representado no mundo contemporâneo por três pilares: democracia liberal, economia de mercado e sociedade aberta e tolerante. O que se vê na campanha do presidente, segundo ele, é apenas um desses aspectos, o econômico – e, mesmo assim, de forma deturpada.
Ele diz que o melhor teste para avaliar o compromisso de uma pessoa com o liberalismo não é checar se ela defende a própria liberdade ou a de seu grupo, mas a liberdade do outro. Esse preceito é resumido numa frase do historiador abolicionista Joaquim Nabuco (1849-1910), inspirador do Livres, de que é necessário cultivar o "amor da liberdade alheia". O atual presidente não passa nessa prova, afirma Ferreira.
"No discurso bolsonarista, há a evocação da liberdade para defender o grupo do próprio presidente, mas existe pouco compromisso com a liberdade do outro, de quem discorda. O Bolsonaro traz construções como a ideia de que a minoria deve se curvar à maioria ou desaparecer, um tipo de ideia profundamente antiliberal."
Ficam de fora do discurso do presidente, diz, a liberdade de imprensa, a liberdade sexual e de gênero e o respeito à separação de Poderes e ao sistema de freios e contrapesos da democracia liberal, entre outras.
Ele avalia que o primeiro mandato de Bolsonaro ficou muito distante de um governo liberal, com exceções pontuais como a aprovação da Lei da Liberdade Econômica, que reduziu a burocracia para a abertura de empresas, e do marco legal do saneamento, que ampliou a competição no setor.
No geral, diz, a gestão do presidente violou os valores do liberalismo ao "demonizar a divergência" e na sua agenda de políticas públicas, como no Ministério da Educação, na criação e ampliação de benefícios sociais às vésperas da eleição e nos repetidos ataques ao sistema eleitoral que ferem por consequência a liberdade política da população.
O Livres apoiou neste ano 59 candidatos a cargos eletivos, e elegeu um deputado federal, Alex Manete (Cidadania-SP) e dois deputados estaduais, Emerson Jarude (MDB-AC) e Cibele Moura (MDB-AL). Tem ainda um candidato a governador no segundo turno, Pedro Cunha Lima (PSDB-PB), e uma candidata a vice-governadora, Priscila Krause (Cidadania-PE). A associação não se posiciona sobre a disputa ao segundo turno para presidente.
O liberalismo foi utilizado em muitos países nos séculos 18 e 19 como base teórica de movimentos que derrubaram regimes baseado na nobreza e criaram estados mais enxutos, que garantissem a liberdade privada e a segurança dos cidadãos.
No Brasil, esse processo ocorreu de forma peculiar, como um "liberalismo conservador", diz o sociólogo Fábio Gentile, professor da Universidade Federal do Ceará e autor de um artigo acadêmico que analisa a tensão entre liberalismo e autoritarismo ao longo da história do país.
O próprio processo de Independência, cita, foi dirigido por uma oligarquia, que outorgou a nova Constituição. "Não teve uma burguesia que fez uma revolução de baixo e chegou ao poder, criando o Estado e os direitos."
O liberalismo foi um mote da Independência, mas não estruturou um pacto político liberal, nem era associado à ética burguesa da livre iniciativa. Durante algumas décadas, o Brasil teve autodenominados liberais que defendiam a liberdade de ter trabalhadores escravos.
Nessa transição do Império para a República, Gentile afirma que muitos intelectuais e políticos brasileiros consideravam o liberalismo uma ideia "fora de lugar" no país, devido ao seu estágio de desenvolvimento econômico e social, e que o Brasil precisaria de uma "fase autoritária" para avançar.
A associação entre liberalismo e autoritarismo não foi exclusiva do Brasil. Gentile menciona que Milton Friedman, um dos expoentes do neoliberalismo – teoria que atualizou os princípios liberais na segunda metade do século 20 – considerava a realização da sociedade de mercado o objetivo principal, e deu seminários e instruiu autoridades da ditadura de Augusto Pinochet no Chile, que durou de 1973 a 1990.
Diversos chilenos que haviam estudado na Universidade de Chicago nos anos 70 e 80 sob a orientação de Friedman trabalharam posteriormente no governo Pinochet, ficando conhecidos como Chicago Boys. O ministro da Economia brasileiro, Paulo Guedes, estudou nessa universidade na mesma época.
Gentile afirma que a ascensão da direita no Brasil na segunda década do século 21 reproduz a "peculiar convivência de princípios liberais e práticas autoritárias" e inclui alianças entre um líder de perfil autoritário e movimentos neoliberais que não concordam com toda a cartilha bolsonarista, mas o "consideram útil" para seus interesses.
Um exemplo é o apoio a Bolsonaro do governador de Minas Gerais, Romeu Zema, do partido Novo, criado em 2015 para defender o liberalismo no Brasil.
Liberdade versus fantasma do comunismo
Há um outro aspecto que ajuda a compreender o que o presidente tem em mente ao se referir à defesa da liberdade, diz Gentile: a época e o tipo de sua formação acadêmica.
O presidente graduou-se pela Academia Militar das Agulhas Negras em 1977, quando a liberdade era um conceito "abusado" no mundo e no Brasil para se contrapor ao modelo comunista durante a Guerra Fria.
A defesa da liberdade foi um dos motes do golpe militar de 1964, expresso no nome da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, uma sequência de manifestações de rua que antecederam a derrubada do governo do então presidente João Goulart.
Bolsonaro é um defensor da ditadura que governou o Brasil até 1985, e elogiou e homenageou líderes e torturadores do regime militar. "Ele incorporou a teoria do golpe de 1964 como um argumento de libertação do país do inimigo comunista, como um movimento libertador do Brasil. Então, para ele, a liberdade é totalmente compatível com uma ditadura que sufoca quem não está de acordo", diz Gentile.
O presidente e sua campanha à reeleição seguem recorrendo ao fantasma do comunismo para aglutinar apoiadores. Em setembro, antes do primeiro turno, ele disse num comício em Sorocaba que Lula era um "capeta que quer impor o comunismo no nosso Brasil". Nesta quarta-feira, a senadora eleita Damares Alves (Republicanos), afirmou em post no Twitter que o Brasil seria a "última barreira de proteção contra o avanço do comunismo na América".
Na terça-feira, em Balneário Camboriú (SC), ele afirmou: "Temos a obrigação de lutar pela liberdade". Seus apoiadores também citam o termo com abundância. O empresário Roberto Justus divulgou um vídeo no qual se define como um "liberal na essência" e declara apoio a Bolsonaro por ele ser o candidato que "luta pela liberdade individual". Para completar, o atual partido do presidente se chama Partido Liberal (PL).
A defesa da liberdade no bolsonarismo também aparece ligada à flexibilização do acesso às armas e como reação a decisões judiciais que puniram apoiadores do presidente por ataques às instituições democráticas e a ministros do Supremo Tribunal Federal.
Seria o uso do conceito de liberdade pelo presidente compatível com seus constantes ataques à liberdade de imprensa, à separação entre os Poderes e à liberdade de escolhas individuais, inclusive sexuais e de gênero, que fundamentam o liberalismo?
A associação Livres, que promove os valores do liberalismo no Brasil e reúne em seus quadros os economistas Pérsio Arida e Elena Landau, entre outros, afirma que não.
Mano Ferreira, diretor de comunicação do grupo, diz que o liberalismo, uma ideologia política e econômica que teve seu ápice no século 19, é representado no mundo contemporâneo por três pilares: democracia liberal, economia de mercado e sociedade aberta e tolerante. O que se vê na campanha do presidente, segundo ele, é apenas um desses aspectos, o econômico – e, mesmo assim, de forma deturpada.
Ele diz que o melhor teste para avaliar o compromisso de uma pessoa com o liberalismo não é checar se ela defende a própria liberdade ou a de seu grupo, mas a liberdade do outro. Esse preceito é resumido numa frase do historiador abolicionista Joaquim Nabuco (1849-1910), inspirador do Livres, de que é necessário cultivar o "amor da liberdade alheia". O atual presidente não passa nessa prova, afirma Ferreira.
"No discurso bolsonarista, há a evocação da liberdade para defender o grupo do próprio presidente, mas existe pouco compromisso com a liberdade do outro, de quem discorda. O Bolsonaro traz construções como a ideia de que a minoria deve se curvar à maioria ou desaparecer, um tipo de ideia profundamente antiliberal."
Ficam de fora do discurso do presidente, diz, a liberdade de imprensa, a liberdade sexual e de gênero e o respeito à separação de Poderes e ao sistema de freios e contrapesos da democracia liberal, entre outras.
Ele avalia que o primeiro mandato de Bolsonaro ficou muito distante de um governo liberal, com exceções pontuais como a aprovação da Lei da Liberdade Econômica, que reduziu a burocracia para a abertura de empresas, e do marco legal do saneamento, que ampliou a competição no setor.
No geral, diz, a gestão do presidente violou os valores do liberalismo ao "demonizar a divergência" e na sua agenda de políticas públicas, como no Ministério da Educação, na criação e ampliação de benefícios sociais às vésperas da eleição e nos repetidos ataques ao sistema eleitoral que ferem por consequência a liberdade política da população.
O Livres apoiou neste ano 59 candidatos a cargos eletivos, e elegeu um deputado federal, Alex Manete (Cidadania-SP) e dois deputados estaduais, Emerson Jarude (MDB-AC) e Cibele Moura (MDB-AL). Tem ainda um candidato a governador no segundo turno, Pedro Cunha Lima (PSDB-PB), e uma candidata a vice-governadora, Priscila Krause (Cidadania-PE). A associação não se posiciona sobre a disputa ao segundo turno para presidente.
O liberalismo foi utilizado em muitos países nos séculos 18 e 19 como base teórica de movimentos que derrubaram regimes baseado na nobreza e criaram estados mais enxutos, que garantissem a liberdade privada e a segurança dos cidadãos.
No Brasil, esse processo ocorreu de forma peculiar, como um "liberalismo conservador", diz o sociólogo Fábio Gentile, professor da Universidade Federal do Ceará e autor de um artigo acadêmico que analisa a tensão entre liberalismo e autoritarismo ao longo da história do país.
O próprio processo de Independência, cita, foi dirigido por uma oligarquia, que outorgou a nova Constituição. "Não teve uma burguesia que fez uma revolução de baixo e chegou ao poder, criando o Estado e os direitos."
O liberalismo foi um mote da Independência, mas não estruturou um pacto político liberal, nem era associado à ética burguesa da livre iniciativa. Durante algumas décadas, o Brasil teve autodenominados liberais que defendiam a liberdade de ter trabalhadores escravos.
Nessa transição do Império para a República, Gentile afirma que muitos intelectuais e políticos brasileiros consideravam o liberalismo uma ideia "fora de lugar" no país, devido ao seu estágio de desenvolvimento econômico e social, e que o Brasil precisaria de uma "fase autoritária" para avançar.
A associação entre liberalismo e autoritarismo não foi exclusiva do Brasil. Gentile menciona que Milton Friedman, um dos expoentes do neoliberalismo – teoria que atualizou os princípios liberais na segunda metade do século 20 – considerava a realização da sociedade de mercado o objetivo principal, e deu seminários e instruiu autoridades da ditadura de Augusto Pinochet no Chile, que durou de 1973 a 1990.
Diversos chilenos que haviam estudado na Universidade de Chicago nos anos 70 e 80 sob a orientação de Friedman trabalharam posteriormente no governo Pinochet, ficando conhecidos como Chicago Boys. O ministro da Economia brasileiro, Paulo Guedes, estudou nessa universidade na mesma época.
Gentile afirma que a ascensão da direita no Brasil na segunda década do século 21 reproduz a "peculiar convivência de princípios liberais e práticas autoritárias" e inclui alianças entre um líder de perfil autoritário e movimentos neoliberais que não concordam com toda a cartilha bolsonarista, mas o "consideram útil" para seus interesses.
Um exemplo é o apoio a Bolsonaro do governador de Minas Gerais, Romeu Zema, do partido Novo, criado em 2015 para defender o liberalismo no Brasil.
Liberdade versus fantasma do comunismo
Há um outro aspecto que ajuda a compreender o que o presidente tem em mente ao se referir à defesa da liberdade, diz Gentile: a época e o tipo de sua formação acadêmica.
O presidente graduou-se pela Academia Militar das Agulhas Negras em 1977, quando a liberdade era um conceito "abusado" no mundo e no Brasil para se contrapor ao modelo comunista durante a Guerra Fria.
A defesa da liberdade foi um dos motes do golpe militar de 1964, expresso no nome da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, uma sequência de manifestações de rua que antecederam a derrubada do governo do então presidente João Goulart.
Bolsonaro é um defensor da ditadura que governou o Brasil até 1985, e elogiou e homenageou líderes e torturadores do regime militar. "Ele incorporou a teoria do golpe de 1964 como um argumento de libertação do país do inimigo comunista, como um movimento libertador do Brasil. Então, para ele, a liberdade é totalmente compatível com uma ditadura que sufoca quem não está de acordo", diz Gentile.
O presidente e sua campanha à reeleição seguem recorrendo ao fantasma do comunismo para aglutinar apoiadores. Em setembro, antes do primeiro turno, ele disse num comício em Sorocaba que Lula era um "capeta que quer impor o comunismo no nosso Brasil". Nesta quarta-feira, a senadora eleita Damares Alves (Republicanos), afirmou em post no Twitter que o Brasil seria a "última barreira de proteção contra o avanço do comunismo na América".
segunda-feira, 17 de outubro de 2022
O Brasil e o Mito da Caverna
Parte significativa da sociedade brasileira parece ter sido capturada pelo obscurantismo de maneira que a indolência tem conseguido se sobrepor à busca pela verdade. Por mais aterrorizantes, contundentes e ameaçadores que sejam os fatos e as declarações, na maioria das vezes a retórica e a apatia têm prevalecido diante de versões e desmentidos que não se sustentam nem se justificam.
Coisa que lembra —e reveste de atualidade perturbadora— um dos textos filosóficos mais conhecidos da humanidade: O Mito da Caverna ou a Caverna de Platão. A metáfora criada pelo filósofo grego pode ser entendida como uma crítica a quem aceita tudo o que é posto pelo grupo dominante sem questionar a realidade. A filosofia, segundo autores clássicos, é o "amor pela sabedoria, experimentado apenas pelo ser humano consciente de sua própria ignorância".
Considerando que a verdade muitas vezes é dolorosa, até dá para entender certos comportamentos das massas num ambiente dominado pela pós-verdade. O que não dá é para aceitar placidamente o apoio e a complacência de algumas instituições e de setores ditos esclarecidos. Temos acompanhado a falta de compromisso público com direitos constitucionais como a vida, a saúde, a educação, a cultura, a alimentação, a segurança, a moradia —que vêm sendo tratados sem a devida diligência.
O que dizer das acusações infundadas acerca da higidez do processo eletrônico de votação? Das contestações sem embasamento científico para desacreditar as vacinas em plena pandemia? Ou da intolerância religiosa, das violações ao meio ambiente, da violência exacerbada, da insensibilidade em relação aos milhares que morreram de Covid-19, da indiferença com a fome, do descaso com o racismo?
O brasileiro está diante da oportunidade de deixar a caverna. Resta saber se por medo, indiferença, egoísmo, preconceito ou ignorância (tal qual os prisioneiros do Mito de Platão) vai optar por permanecer nas sombras.
Coisa que lembra —e reveste de atualidade perturbadora— um dos textos filosóficos mais conhecidos da humanidade: O Mito da Caverna ou a Caverna de Platão. A metáfora criada pelo filósofo grego pode ser entendida como uma crítica a quem aceita tudo o que é posto pelo grupo dominante sem questionar a realidade. A filosofia, segundo autores clássicos, é o "amor pela sabedoria, experimentado apenas pelo ser humano consciente de sua própria ignorância".
Considerando que a verdade muitas vezes é dolorosa, até dá para entender certos comportamentos das massas num ambiente dominado pela pós-verdade. O que não dá é para aceitar placidamente o apoio e a complacência de algumas instituições e de setores ditos esclarecidos. Temos acompanhado a falta de compromisso público com direitos constitucionais como a vida, a saúde, a educação, a cultura, a alimentação, a segurança, a moradia —que vêm sendo tratados sem a devida diligência.
O que dizer das acusações infundadas acerca da higidez do processo eletrônico de votação? Das contestações sem embasamento científico para desacreditar as vacinas em plena pandemia? Ou da intolerância religiosa, das violações ao meio ambiente, da violência exacerbada, da insensibilidade em relação aos milhares que morreram de Covid-19, da indiferença com a fome, do descaso com o racismo?
O brasileiro está diante da oportunidade de deixar a caverna. Resta saber se por medo, indiferença, egoísmo, preconceito ou ignorância (tal qual os prisioneiros do Mito de Platão) vai optar por permanecer nas sombras.
Alegria, ódio, medo
Um presidente da República em busca da reeleição, que precisa do socorro de um coach preferencialmente amoral, sinaliza o quê? Seu estado de pavor das urnas. Todas as pesquisas de opinião que Jair Bolsonaro gostaria de excomungar teimam em apontá-lo como provável/possível derrotado no segundo turno. Daí o recurso emergencial. Foi com semblante bastante desgrenhado que ele participou de uma live em que havia uma segunda estrela. Era Pablo Marçal, o deputado federal do PROS que obteve quase 250 mil votos no primeiro turno. Apresentado pelo presidente como seu coach particular, Marçal elencou uma série de instruções dirigidas a influenciadores e devotos, a ser seguidas até a reta final. Alguns trechos do que não deveria ter ido ao ar acabaram vazando.
Primeiro, o recurso ao medo de quem tem o que esconder:
—As pessoas vão bater em todos que se levantarem para defender o presidente. Vai ser um por um. Vão revirar a vida de todo mundo... — alertou o coach.
Marçal também engatou numa inevitável menção ao perigo de um apocalipse:
—Vocês estão sendo convocados por mim... É convocação. Pra gente um dia não precisar pegar em arma, pra um dia a gente não ficar louco, pra querer o país de volta...
E para a eventualidade de algum agitador bolsonarista alimentar resquícios de pruridos, garantiu absolvição prévia:
—Este não é o momento para ficar olhando para moral... Não é melhor nesses próximos 15 dias todo mundo suspender a própria reputação para defender esta nação? Colocar sua reputação um pouquinho de lado?
Participaram dessa tertúlia pouco cristã a deputada federal Carla Zambelli, o meteoro mineiro Nikolas Ferreira, o filho Zero Um Flávio Bolsonaro e o ex-secretário de Governo Fabio Wajngarten, cujas reputação, decência e moral há tempos situam-se abaixo de qualquer suspeita.
O medo tem cheiro, cravou a gloriosa romancista Margaret Atwood em 1972. Mas há vários tipos de medo. Um deles — subserviente, acomodado, acovardado à força —foi descrito em histórica carta do dramaturgo tcheco Vaclav Havel ao então secretário-geral do Partido Comunista de seu país, sete anos depois de os tanques soviéticos entrarem em Praga e enterrarem a efêmera primavera democrática que ali se instalara. A carta endereçada ao “Prezado Dr. Husak” desmontava em pedacinhos o discurso oficial de que a nação estava unida e pacificada:
— Comecemos por uma pergunta básica e obrigatória — escreveu Havel — Por que a população age de maneira a formar um impressionante retrato de uma sociedade em total união, que apoia seu governo de forma irrestrita? Para qualquer observador isento, a resposta é evidente: as pessoas estão movidas pelo medo.
Na carta, Havel detalha uma dezena de motivos comezinhos para os tchecos terem se moldado ao regime imposto ao país. Ele esclarece não mais se tratar do medo físico de ser preso, torturado, executado ou deportado, como no início da ocupação. O que o alarmava era a população que vestia a máscara de cidadão confiante, satisfeito, escondendo de si mesma uma percepção coletiva de algum perigo permanente e onipresente. Um medo pouco consciente até de mudança, mesmo que fosse para melhor — todo mundo sempre tem algo a perder, e algo a temer. Esse medo difuso, apontou o dissidente ao “Dr. Husak”, explicava a aparência de uniformidade, disciplina e unanimidade do seu regime e Estado policial. Mas algum dia chegaria ao fim esse apoio, ora amedrontado, ora oportunista, ao governo de “homens sem princípios nem espinha dorsal, dispostos a qualquer ato para manter o poder e privilégios”, escreveu o dramaturgo, sem temor. A História demorou 14 anos para lhe dar razão: no dia 29 de dezembro de 1989, Vaclav Havel tornou-se o primeiro presidente da Tchecoslováquia.
Histórias de resistência democrática têm repique vigoroso no país entrevado de hoje. O desempenho do candidato do Partido dos Trabalhadores, Luiz Inácio Lula da Silva, nas pesquisas sugere que o Brasil democrático de 2022 não pretende esperar 14 anos para interromper a cavalgada autoritária — quatro anos lhe bastam. Por seu lado, o cardápio bolsonarista de incivilidade contém ativos poderosos, por perversos: o ódio como propulsor da ideologia, o escracho como forma de diálogo, a violência como meio de comunicação, a manipulação política da fé.
Por sorte, nada assusta mais o ódio e o medo de mudança do que a alegria da esperança. Alegria e democracia rimam. De qualquer ângulo que se olhe a disputa dos presidenciáveis — nas ruas, postagens, no humor, nos próprios candidatos —, a campanha por um Brasil mais democrático tem veio alegre, enquanto a do adversário tem o peso de uma cruzada messiânica. Certeza mesmo, apenas uma: nenhum dos dois Brasis será eliminado em 30 de outubro.
Primeiro, o recurso ao medo de quem tem o que esconder:
—As pessoas vão bater em todos que se levantarem para defender o presidente. Vai ser um por um. Vão revirar a vida de todo mundo... — alertou o coach.
Marçal também engatou numa inevitável menção ao perigo de um apocalipse:
—Vocês estão sendo convocados por mim... É convocação. Pra gente um dia não precisar pegar em arma, pra um dia a gente não ficar louco, pra querer o país de volta...
E para a eventualidade de algum agitador bolsonarista alimentar resquícios de pruridos, garantiu absolvição prévia:
—Este não é o momento para ficar olhando para moral... Não é melhor nesses próximos 15 dias todo mundo suspender a própria reputação para defender esta nação? Colocar sua reputação um pouquinho de lado?
Participaram dessa tertúlia pouco cristã a deputada federal Carla Zambelli, o meteoro mineiro Nikolas Ferreira, o filho Zero Um Flávio Bolsonaro e o ex-secretário de Governo Fabio Wajngarten, cujas reputação, decência e moral há tempos situam-se abaixo de qualquer suspeita.
O medo tem cheiro, cravou a gloriosa romancista Margaret Atwood em 1972. Mas há vários tipos de medo. Um deles — subserviente, acomodado, acovardado à força —foi descrito em histórica carta do dramaturgo tcheco Vaclav Havel ao então secretário-geral do Partido Comunista de seu país, sete anos depois de os tanques soviéticos entrarem em Praga e enterrarem a efêmera primavera democrática que ali se instalara. A carta endereçada ao “Prezado Dr. Husak” desmontava em pedacinhos o discurso oficial de que a nação estava unida e pacificada:
— Comecemos por uma pergunta básica e obrigatória — escreveu Havel — Por que a população age de maneira a formar um impressionante retrato de uma sociedade em total união, que apoia seu governo de forma irrestrita? Para qualquer observador isento, a resposta é evidente: as pessoas estão movidas pelo medo.
Na carta, Havel detalha uma dezena de motivos comezinhos para os tchecos terem se moldado ao regime imposto ao país. Ele esclarece não mais se tratar do medo físico de ser preso, torturado, executado ou deportado, como no início da ocupação. O que o alarmava era a população que vestia a máscara de cidadão confiante, satisfeito, escondendo de si mesma uma percepção coletiva de algum perigo permanente e onipresente. Um medo pouco consciente até de mudança, mesmo que fosse para melhor — todo mundo sempre tem algo a perder, e algo a temer. Esse medo difuso, apontou o dissidente ao “Dr. Husak”, explicava a aparência de uniformidade, disciplina e unanimidade do seu regime e Estado policial. Mas algum dia chegaria ao fim esse apoio, ora amedrontado, ora oportunista, ao governo de “homens sem princípios nem espinha dorsal, dispostos a qualquer ato para manter o poder e privilégios”, escreveu o dramaturgo, sem temor. A História demorou 14 anos para lhe dar razão: no dia 29 de dezembro de 1989, Vaclav Havel tornou-se o primeiro presidente da Tchecoslováquia.
Histórias de resistência democrática têm repique vigoroso no país entrevado de hoje. O desempenho do candidato do Partido dos Trabalhadores, Luiz Inácio Lula da Silva, nas pesquisas sugere que o Brasil democrático de 2022 não pretende esperar 14 anos para interromper a cavalgada autoritária — quatro anos lhe bastam. Por seu lado, o cardápio bolsonarista de incivilidade contém ativos poderosos, por perversos: o ódio como propulsor da ideologia, o escracho como forma de diálogo, a violência como meio de comunicação, a manipulação política da fé.
Por sorte, nada assusta mais o ódio e o medo de mudança do que a alegria da esperança. Alegria e democracia rimam. De qualquer ângulo que se olhe a disputa dos presidenciáveis — nas ruas, postagens, no humor, nos próprios candidatos —, a campanha por um Brasil mais democrático tem veio alegre, enquanto a do adversário tem o peso de uma cruzada messiânica. Certeza mesmo, apenas uma: nenhum dos dois Brasis será eliminado em 30 de outubro.
Assinar:
Postagens (Atom)
















