segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Esqueletos no armário

Correndo de praia em praia, seguindo a mancha de óleo no Nordeste, tive uma noite livre para pensar na política nacional.

Dizem que é nova política. Não sei se tenho condições de entendê-la. Mas o exame da política de sempre é o critério que tenho para analisar esses fatos. Na minha tosca enciclopédia, dois verbetes dariam conta da fúria de Bolsonaro contra um ciclista e a divisão desse estranho partido que é o PSL: esqueletos no armário e racha, entendido aqui como a cisão num grupo partidário.

Esqueletos no armário podem ser cadáveres reais ou mesmo episódios que governos ou partidos querem ocultar porque a transparência, nesse caso, é indesejável. Fabrício Queiroz é um esqueleto no armário. Há muitas formas de tratar disso. Bolsonaro parece ainda inexperiente no assunto. Ao gritar que Queiroz estava com a mãe do ciclista, ele apenas usou a pior tática: chacoalhar os ossos e chamar a atenção de todos para o esqueleto rangendo contra a madeira.

Esqueletos no armário são corrosivos. Os ultrafiéis não se importam, talvez nem acreditem que essas coisas aconteçam nos bastidores. Há um grupo que simplesmente aceita, com o argumento de que o objetivo é maior e que essas coisas acontecem mesmo em todos os partidos.

Mas essa concordância entra em colapso quando o chamado objetivo maior não se realiza. Manter os esqueletos silenciosos no armário é uma tarefa difícil também a longo prazo. Bolsonaro, diga-se a seu favor, não é dos mais brilhantes na tarefa.

Outro tema que me interessou foi a história de um possível racha no PSL. É o partido de Bolsonaro, e ele disse que é preciso esquecê-lo. Disse ainda que o presidente do partido estava queimado para caramba. É um partido que movimenta milhões. E brigas partidárias, apesar de sua natureza diferente, lembram separações conjugais: quem fica com o quê?

No nosso movimento estudantil, os rachas, quando aconteciam, sempre desfechavam uma disputa em torno do mimeógrafo. Bem mais poético que agora.

Não há grandes divergências ideológicas no PSL. Não há correntes de pensamento definidas. São indivíduos e suas carreiras políticas. Se houvesse espaço, avançaria em outro verbete da tosca enciclopédia: as bancadas eleitas pelo populismo. São heterogêneas, compõem-se de gente que expressa proximidade com o líder, repete um ou outro dos seus slogans, e pronto.

Imagine o que acontece quando se injetam milhões de reais num agrupamento com essa consistência política? Não se trata mais de discutir quem fica com o quê, depois de uma divergência ideológica.

Nesse caso, o dinheiro é a própria razão do conflito. Dinheiro público, pois acabou o financiamento privado.

Nos partidos chamados nanicos, o fundo oficial é uma espécie de vaquinha que alimenta os dirigentes, consegue mantê-los com uma renda pessoal. Mas quando a soma é gigantesca, em R$ 350 milhões, como no PSL, é certo que vão se dilacerar para decidir quem gasta o quê, campanhas vão florescer; outras, submergir.

Sempre tive essa intuição sobre a briga atual do PSL. Temia, no entanto, supersimplificar. Afinal, é possível que tenham ideias. Ganhei um pouco de coragem para enunciá-la porque no momento em que perguntaram a Bolsonaro qual era o problema do PSL, ele respondeu: é o tesoureiro.

No tempo em que, diante da complexidade de governar o país, o problema do partido dominante é o tesoureiro, meu tosco arsenal carece de atualização. Faltam categorias. Esperava que o líder populista entrasse em conflito com sua base pantanosa. Pensei em infidelidade partidária, em choque de egos.

O tesoureiro me escapou. Tesoureiros de partidos costumavam ser presos, em tempos de financiamento privado. Agora, são o objeto de desejo.

A nova política não se cansa de me surpreender. Embora se diga defensora de valores tradicionais e prometa uma volta ao passado num mundo que se transformou profundamente, o seu tema central, no fundo, é o mais prosaico: dinheiro.

Aliás, ele é também a causa do ruidoso esqueleto no armário. Não apenas por ofensas ao ciclista. Os ossos rangem estrepitosamente desde o momento em que Toffoli proibiu a cooperação entre receita e órgãos investigativos. É uma espécie de grito: há alguma coisa errada entre nós; logo, suprimam-se as investigações.
Fernando Gabeira

O amanhã

O conhecido samba-enredo da União da Ilha do Governador, campeão do carnaval carioca de 1978, que intitula a coluna, é de autoria de Paulo Amargoso e João Sérgio, nome desconhecido até da maioria dos sambistas, pois, na verdade, se trata do falecido procurador da República Gustavo Adolfo de Carvalho Baeta Neves, o Didi, também fundador da escola e autor de outros sambas antológicos. Não há carnaval em que suas músicas não sejam cantadas por foliões de todo o país. Naquele ano, na voz de Aroldo Melodia, O Amanhã empolgou as arquibancadas na Marquês de Sapucaí: A cigana leu o meu destino/ Eu sonhei/ Bola de cristal, jogo de búzios, cartomante/ Eu sempre perguntei/ O que será o amanhã?/ Como vai ser o meu destino?”

Era o primeiro desfile de regras rigorosas, o que gerou protestos do compositor mangueirense Angenor do Nascimento, o famoso Cartola: “Isso não é carnaval, é parada de militar”. Mas foi um desfile memorável, principalmente para a União da Ilha, cuja carnavalesca Maria Augusta não imaginava que o samba seria eternizado pelo gosto popular: “Já desfolhei o malmequer/ Primeiro amor de um menino/ E vai chegando o amanhecer/ Leio a mensagem zodiacal/ E o realejo diz/ Que eu serei feliz”. O refrão todo mundo canta até hoje: “Como será o amanhã/ Responda quem puder (bis)/ O que irá me acontecer/ O meu destino será como Deus quiser.”


Nem só de letra e melodia vive uma samba antológico, o contexto é fundamental para que o povo se identifique com a canção. O país vivia uma transição lenta e gradual, o projeto de Brasil potência dos militares havia naufragado. O general Ernesto Geisel amargava o fim do milagre econômico e muita insatisfação popular. A crise do petróleo e a recessão mundial interferiam fortemente na economia brasileira, os créditos e empréstimos internacionais minguavam. Nas eleições de 1974, o MDB havia conquistado 59% dos votos para o Senado, 48% da Câmara dos Deputados e a maioria das prefeituras das grandes cidades. Não havia eleição de prefeitos nas capitais.

Era um ambiente de incertezas. Logo depois do carnaval, eclodiram as greves operárias do ABC. No ano em que União da Ilha do Governador foi campeã, a oposição voltou a vencer as eleições, Geisel acabou com o AI-5, restaurou o habeas-corpus e abriu caminho para a volta da democracia, num processo de retirada em ordem dos militares da política que foi muito bem-sucedido. Era um momento de muitas incertezas e também de esperança. Mais ou menos como estamos vivendo agora, com sinal trocado, pois os militares voltaram ao poder com a eleição do presidente Jair Bolsonaro.

Embora o atual governo mal tenha completado 9 meses, ninguém sabe o que vai acontecer. Há uma tensão permanente entre as instituições. O presidente Bolsonaro protagoniza a radicalização política com uma retórica ultraconservadora. Entretanto, há um calendário e regras eleitorais claras, tudo vai desaguar nas eleições municipais do próximo ano e, depois, em 2022, quando teremos novas eleições gerais. Esse é o leito do processo político democrático. A incerteza maior está na economia. Apesar da iminente aprovação da reforma da Previdência e de um robusto programa de concessões e privatizações, a economia ainda não reagiu como deveria

A receita liberal do ministro da Economia, Paulo Guedes, até agora, resultou num cenário de estagnação, com desindustrialização, altas taxas de desemprego e baixa atividade econômica, apesar da inflação baixíssima e da queda dos juros, que devem baixar ainda mais, para 4,5%, segundo previsões do mercado. A especificidade da economia brasileira não foi bem-equacionada pela equipe de Guedes, formada por especialistas financeiros e técnicos que conhecem bem as finanças públicas, mas não dão conta das relações do governo com o setor produtivo e têm ojeriza à política industrial.

No momento, o governo prepara uma emenda constitucional, chamada PEC Emergencial, com uma lista de medidas duras para serem adotadas por um prazo de dois anos. Não deve mexer no teto de gastos (que limita as despesas à inflação) e deve fazer um ajuste na chamada regra de ouro, mecanismo que impede que o governo faça dívidas para pagar despesas correntes, como salários. O governo também pretende, no próximo ano, aprovar outras mudanças, que chama de PEC DDD: desvincular (retirar os “carimbos”), desindexar (remover a necessidade de conceder automaticamente reajustes) e desobrigar o pagamento de despesas.

Muitos economistas têm dúvidas quanto ao êxito de Guedes, mas nem por isso o presidente Jair Bolsonaro tem um plano B para economia. Ele já disse que vai continuar com o Posto Ipiranga. É uma situação meio inédita, com o real desvalorizado frente ao dólar e a economia quase em deflação. Há sinais de que o modelo liberal clássico não dá conta do recado nesses novos tempos de globalização e revolução tecnológica, assim como havia fracassado o modelo desenvolvimentista social-democrata. No fundo, ao lado do rentismo, o não-trabalho e o não-emprego na nova economia aprofundam as desigualdades, reduzem nosso mercado interno e ampliam as demandas sociais, sem que o governo tenha recursos para cuidar dos mais pobres, investir na educação e e modernizar a infra-estrutura. No atual modelo, além do empreendedorismo, só o capital estrangeiro salva, mas ele ainda prefere outros destinos.
Luiz Carlos Azedo

Imagem do Dia


Monotonia

Um colega redator da Revista do Globo comentando qualquer coisa a meu respeito, diz que deve ter sido bom para mim mudar de ares, pois que "já estava correndo risco de se tornar monótona, comentando sempre os acontecimentos da Ilha do Governador, onde reside". Creio que há um engano nesse reparo do caro colega: não estou correndo risco de me tornar monótona; eu já estou é ficando pau como diabo com estas eternas histórias de ilha e do Ceará, com esta lengalenga infindável em redor do meu quintal. Helás, ninguém se apercebe disso melhor do que eu própria; e bem quisera libertar-me desse círculo de peru onde fico a rondar sem fuga, bicando o mesmo grão de milho. Mas nunca fui pessoa de largos horizontes. Tenho por obrigação o escrever esta crônica todas as semanas, falando do que vejo e de quem conheço; - que hei de fazer se a vida da gente é estreita, estreitos os caminhos por onde anda, poucos em número e em variedade os conhecidos? Aliás, quero crer que o colega ainda se engana em outro ponto: si cette chanson vous embête, o mal não está no assunto da cantiga, propriamente, mas no intérprete. Pode-se jamais sair - já não digo de uma ilha tão grande, mas jamais sair de uma rua ou de uma casa, e até mesmo ficar eternamente contemplando o próprio nariz - e através dele enxergar em massa as galáxias do céu, e jamais ser monótono. A monotonia está é dentro de nós próprios - dentro de mim, para especificar bem.


Tanto é que a tal mudança de ares parece que não me fez benefício de monta; vi tanta coisa, tanta gente, tanta casa, tanta água e tanta terra - e, meu Deus - em que foi que aproveitei? Me comparo com um corrupião da Paraíba que descobri atirado numa gaiola, no Jardim Zoológico de Londres. O bicho desbotado e triste, bicava um pedaço de fruta. Junto dele cantavam passarinhos de nome ilustre, desses que Shakespeare já citava, toutinegras e cotovias, nem sei. Mas não adiantava: quando o corrupião abriu o bico, não cantou de rouxinol nem de melro, como seria de esperar. O que ele soltou foi o velho "sofrê... sofrê!..." angustioso que aprendera ainda no ninho, no brejo paraibano...

Dizem que cada escritor, durante toda a vida, dispõe apenas de dois ou três assuntos. Vive a moê-los no seu moinho, a apresentá-los com roupagens que imagina diferentes, - mas o conteúdo é sempre o mesmo. Eu talvez não tenha dois nem três, só tenho um... E se já estou assim cacete agora, imaginem como não estarei daqui a uns vinte anos, contando, como todo velho, sempre os mesmos casos, sempre os mesmos casos...

*

O que me salva um pouco, talvez, é que neste país - como em quase todo o mundo, não há, como se imagina, o gosto da mudança, da variedade. Nem sei mesmo se seria prudente a ideia de mudanças. O povo não gosta de variedade, o povo gosta é de continuidade. Se não mudo nunca, sou uma quantidade garantida, não lhe dou surpresas, não invento modas - o que é sempre incômodo. O inventor de modas é um fator de insegurança, enquanto o amante da continuidade é fator de paz. Claro que é chato. Mas o futuro é dos chatos.

Não vê o caso de Getúlio? Nunca mudou, desde que o conhecemos. Há vinte anos faz as mesmas coisas, dá os mesmos golpes, repete as mesmas trapaças. A pregação feita para as eleições de 30 é perfeitamente idêntica à que fez para as de 50. Variam ambas na forma, apenas, porque os "negros" que escreveram os discursos não são os mesmos - uns morreram, outros estão velhos demais... Ele não cumpriu o que prometeu em 30 - e sabe-se que não cumprirá também o que prometeu em 50. Mas faz bem ao povo ouvir a mesma história, faz bem rever a velha cara do homem no palácio; o mais forte argumento a favor da recondução do caudilho foi "que já se estava acostumado com ele...".

Fico pois aqui com as minhas velhas histórias, os meus casos repetidos... Água mole em pedra dura... Quem sabe ainda não acabo sendo qualquer coisa neste país?

Rachel de Queiroz ( O Cruzeiro - 25/11/1950)

A direita expõe a sua divisão

O apelo de Onyx Lorenzonni, chefe da Casa Civil da presidência da República, para que a direita permaneça unida só faz sentido como admissão velada de que ela está partida ou prestes a se partir. Ao formular o apelo durante encontro de conservadores promovido no fim de semana em São Paulo, Lorenzoni chegou a chorar.

Ou o ministro é muito emotivo ou a situação da direita brasileira inspira cuidados com menos de 10 meses de governo Bolsonaro. Podem ser as duas coisas. O descolamento do presidente da República da defesa candente que sempre fez do combate à corrupção provocou fissuras em sua base de apoio.


Ao nomear o ex-juiz Sérgio Moro ministro da Justiça e da Segurança Pública, Bolsonaro teve a intenção de reforçar seu compromisso com a luta contra a roubalheira de qualquer natureza e o crime organizado que catapultou o Brasil para a cabeceira da lista dos países mais violentos do mundo. Dela tão cedo sairá.

O Caso Queiroz obrigou Bolsonaro a dar meia volta. Por envolver seu filho Flávio, eleito senador, e as ligações entre a família e milicianos do Rio de Janeiro. Foi um golpe forte nas pretensões do presidente. Embora a investigação do caso esteja suspensa por decisão do ministro Dias Toffoli, ela poderá ser retomada em breve.

Bolsonaro tornou-se cedo demais refém da mais alta Corte de Justiça, pois é isso o que ele é e será até o fim do seu mandato. E o Supremo Tribunal Federal, por meio do seu presidente, conseguiu equilibrar o jogo disputado com um presidente recém-eleito que imaginava ter condições de subjugar os demais poderes.

A maioria dos devotos de Bolsonaro pode ainda não ter entendido o que se passa, mas a parcela menor e mais influente entendeu e não gostou. Daí a aflição de gente do tipo Lorenzoni, os garotos Carlos e Eduardo e o autoproclamado filósofo Olavo de Carvalho. Daí a euforia dos que abandonaram a nau dos Bolsonaros a tempo.

Aspirante a candidato a presidente em 2022, Wilson Witzel, o alucinado governador do Rio, é desde já uma pedra no sapato de Bolsonaro, que disso não cansa de passar recibo. Flerta com o PSL que Bolsonaro fustiga interessado em controlar seu caixa. E tenta tomar dele a bandeira da guerra ao crime.

Pela direita, com o cuidado de distanciar-se de sua ala extremista, trafegam João Doria (PSDB), governador de São Paulo, e o apresentador de televisão Luciano Huck. Moro a tudo observa como se não tivesse interessado. A sucessão de Bolsonaro foi precipitada por ele mesmo à falta de planos para governar.

A nova normalidade

Gérard Araud, ex-embaixador francês em Washington, foi o diplomata que, há tempos, respondeu à infeliz declaração de Jair Bolsonaro de que devia ser “insuportável viver em certos lugares da França”, por causa dos imigrantes. Araud disse apenas: “63.880 homicídios no Brasil em 2017; 825, na França. Sem comentários”. Observador da avalanche populista que gerou figuras como Bolsonaro e Donald Trump, ele deu uma pertinente entrevista a Fernando Eichenbergh, no Globo do dia 6 último. Eis alguns trechos.

“As pessoas de esquerda estão erradas em crer que um populista é um conservador como qualquer outro. Ele governa também contra os conservadores. O populista pisa sobre os próprios princípios da política. Na democracia, há o respeito, você não insulta, não ataca a vida privada. Mas os dirigentes populistas zombam totalmente dessas convicções. E se descobre que, no fim das contas, parte da população não considera isso grave. Torna-se uma nova normalidade.

“Me pergunto o que ocorrerá quando Bolsonaro e Trump desaparecerem da cena política. Tenho dúvida se as coisas voltarão a ser como antes. A primeira lição é a degradação do discurso político.

“O Brasil comete um erro pensando que obterá benefícios ao se alinhar a Trump. Quando Trump diz ‘America first’, significa ‘America alone’. [...] Ele não tem aliados, amigos ou inimigos. Que o filho de Bolsonaro seja embaixador nos EUA, não haverá nenhuma consequência para Trump. Dois continentes estão ausentes da sua política: a África e a América Latina. Nesta, só lhe interessa o México, por causa da imigração, e a Venezuela, pela crise política. Para o resto do continente, é a total indiferença.

“A palavra do especialista não existe mais. E há as mídias sociais. Antes, quatro bêbados em um bar falavam uma bobagem, mas aquilo ficava entre eles. Hoje, falam nas redes sociais e se tornam 4.000 imbecis”.

Ruy Castro

Mal de Parkinson da burocracia

São da mesma natureza os impulsos de gastar tudo ou mais do que se ganha, de esgotar rapidamente a capacidade de armazenamento dos aparelhos e contas digitais na nuvem e o que faz as burocracias incharem. Esses impulsos obedecem à Lei de Parkinson. Seu formulador foi o britânico Cyril Parkinson, sem parentesco conhecido com o médico James Parkinson, descobridor da doença degenerativa. Cyril Parkinson, historiador e escritor, derivou a lei que o faria conhecido no final da Segunda Guerra Mundial, quando um fenômeno no departamento que administrava as colônias britânicas chamou sua atenção. Mesmo com o desmantelamento do império e a perda das colônias, o departamento continuava crescendo e, em pouco tempo, atingiu o dobro do tamanho ostentado no auge da dominação territorial britânica na Ásia e na África. Se não forem contrariadas, observou ele, as burocracias tendem a ocupar todos os espaços e a se expandir, multiplicar suas tarefas e, com elas, seus ganhos e privilégios — na proporção inversa da carga real de trabalho requerida de seus integrantes.



“Os gastos sobem até empatar com as receitas”, diz também a Lei de Parkinson. Essa parte foi levada tão a sério no Brasil que a entronizamos no texto da Constituição de 1988, criando despesas obrigatórias vinculadas à arrecadação. A lei descoberta pelo britânico é incontrastável. Ela nos interessa especialmente agora quando, finalmente, com a entrada na pauta da Reforma Administrativa, vamos enfrentar o desafio de tornar suportável o peso do Estado sobre os ombros de quem investe, empreende e contrata. Pessoas que, na formulação dos economistas clássicos, pagam um preço alto para correr riscos. É evidente por si mesmo que a oferta de empregos depende da disposição desse pessoal de aceitar os riscos de investir. A Reforma Administrativa vai confrontar burocracias federais que, não importa sob quais governantes, incharam seus privilégios na proporção inversa do trabalho requerido delas. As evidências variam conforme a metodologia adotada, mas todos os estudos demonstram o mesmo fenômeno que chamou a atenção do britânico encarregado das colônias. O Ministério da Economia informa que, entre 2001 e 2018, os gastos com o funcionalismo federal cresceram o dobro da inflação no mesmo período. A Pesquisa de Domicílios do IBGE mostra que oito de cada dez burocratas federais estão entre os brasileiros 20% mais ricos. O Banco Mundial revelou, na semana passada, que os funcionários da União ganham o dobro dos brasileiros empregados no mesmo nível na iniciativa privada.

A farra com dinheiro público no Brasil nem de longe é exclusiva dos altos funcionários. Baseado nos seus ganhos, nossos parlamentares são da Califórnia. Não tem ninguém de crachá federal da Tanzânia ou do Haiti. Os parlamentares da Califórnia são os mais bem pagos dos Estados Unidos. Eles ganham o equivalente a 36.000 reais mensais. Os rendimentos deputados federais do Brasil se igualam aos da Califórnia – estado onde, atenção, a renda per capita é seis vezes superior à brasileira. Difícil encontrar distorções mais paralisantes para um país em busca de justiça social.

São muitos os servidores públicos de valor. A maioria é honesta e operosa. Alguns são heróis e ganham aquém de seu merecimento. Como grupo, porém, são detentores de uma regalia rara de se encontrar em regimes republicanos. A reforma será bem-sucedida se conseguir que, ao invés de trabalhar em seu próprio benefício, a burocracia estatal se engaje na criação da “máquina mercado-governo de inovação”, que o Paul Romer, ganhador do Nobel de economia do ano passado, aponta como essencial para a sobrevivência dos países. Cyril Parkinson morreu há 26 anos, no dia 9 de março. Fica a sugestão ao Congresso. Depois de aprovar a reforma administrativa, fazer dessa data o Dia Nacional da Luta Contra o Mal de Parkinson da Burocracia— não precisa ser feriado.
Eurípedes Alcântara

Pensamento do Dia


O capitão quer guerra

Jair Bolsonaro quer guerra. Na sexta-feira, o capitão participou de uma solenidade no Complexo Naval de Itaguaí. Diante de operários e oficiais da Marinha, fez mais um discurso em tom de combate. “Temos inimigos dentro e fora do Brasil. O de dentro são os mais terríveis. O de fora nós venceremos com tecnologia e disposição, e meios de dissuasão”, afirmou.

O Brasil já teve um presidente que se sentia perseguido por “forças terríveis”. Agora é comandado por um ex-militar que vê perigos em toda parte.

A retórica de Bolsonaro expõe uma personalidade viciada em confronto. No último dia 2, no Planalto, ele falou em “dar a vida pela pátria”. “Não nos esqueçamos que o inimigo está aí do lado, o inimigo não dorme”, advertiu.


Em agosto, no QG do Exército, jurou “lealdade ao povo” e conclamou o povo a “marchar para o sucesso”. “Não nos faltam é inimigos como os de sempre, que teimam em ganhar a guerra de informação contra a verdade”, afirmou.

Na ausência de guerras reais, o presidente se dedica a fabricar inimigos imaginários. No início do governo, a ameaça viria dos comunistas, que estão em extinção desde a queda do Muro de Berlim. Em seguida, foi a vez de estudantes, professores, artistas e jornalistas.

Com a onda de queimadas na Amazônia, entraram na mira cientistas e ambientalistas que alertam para os riscos de destruir a floresta. Depois a fúria se voltou contra líderes da centro-direita europeia, como Angela Merkel e Emmanuel Macron.

A pregação contra “inimigos internos” é usadapor todo regime autoritário. Na ditadura brasileira, o conceito fazia parte da doutrina de segurança nacional. Servia para simular um ataque iminente e justificar a repressão feroz aos opositores.

No caso de Bolsonaro, a estratégia se mistura a uma tendência à paranoia. Nos últimos tempos, o capitão passou a enxergar inimigos até nas próprias bases. Personagens como o cantor Lobão e o deputado Alexandre Frota, que o apoiaram com fervor, viraram desafetos do governo. Agora o alvo é o PSL, o partido do clã presidencial. Aliados que resistem à nova cruzada, como o senador Major Olímpio, estão prestes a entrar na lista dos proscritos.

Olho vivo

Em nome da autodefesa se destrói a democracia
Mario Vargas Llosa

Pastiche de direita

A foto de Eduardo Bolsonaro abraçado a um mastro com a Bandeira do Brasil, copiando até o semblante “enternecido” de Donald Trump na mesma pose com a bandeira dos Estados Unidos, é o resumo do que é a direita bolsonarista hoje: um pastiche cafona da alt-right norte-americana, sem consistência filosófica e ideológica nenhuma, que se utiliza de dinheiro público do Fundo Partidário e dos métodos do PT para se financiar e se comunicar e envolta em brigas intestinas justamente pela falta de coesão política.

A semana foi tomada por uma crise provocada pelo presidente da República, que decidiu atirar contra seu partido, o PSL, ao tirar uma selfie com um admirador. A partir daí, ameaçou deixar a legenda, os parlamentares que o seguem ficaram que nem barata tonta sem saber para onde iam, mas, por enquanto, fica todo mundo onde está. E por quê?

Porque o PSL enriqueceu na esteira da febre bolsonarista. É ele, por meio da Fundação Índigo, que financia eventos como a versão brazuca da CPAC, feita sob medida para o filho do presidente e candidato a embaixador posar de especialista em relações internacionais e a plateia saudar Trump a plenos pulmões.

Portanto, a “nova direita” brasileira faz o que a velha política sempre fez: se financia com dinheiro público injetado em partidos sem nenhuma identidade programática, por pura conveniência. Também na semana que passou veio à tona em mais detalhes, por meio de reportagem da revista Crusoé, a conexão entre o comando bolsonarista e uma rede de blogueiros, youtubers, sites de propaganda e milicianos digitais, alguns com polpudos salários em cargos públicos e gabinetes, para fritar ministros, tutelar o presidente, assassinar reputações e plantar fake news.

Também nisso a direita bolsonarista bebe dos métodos da alt-right representada por Steve Bannon, que, a despeito de ter sido afastado pelo papai Trump pelo seu potencial tóxico, é idolatrado pela família e pelos assessores do presidente do Brasil.

Mas Bannon não é a única fonte de inspiração: afinal, foi o odiado PT que inaugurou a engenharia de financiar blogs e sites “alternativos” contra o “PIG”, então chamado por Lula e asseclas de Partido da Imprensa Golpista. Os extremos sempre se encontram num ponto: a demonização da imprensa como forma de banir o contraditório e tentar espalhar seu populismo, seja de direita ou de esquerda.

E o que o Brasil colhe em termos de política externa com sua casta dirigente fazendo cosplay do trumpismo para ficar bem na fita com os Estados Unidos? Na semana que passou o saldo foi um mico monumental. A expectativa de que tanta adulação fosse valer um fast track para a entrada brasileira na OCDE, o clube dos países ricos, sucumbiu diante da realidade pragmática: os Estados Unidos continuarão usando a retórica da boa vizinhança com o Brasil, mas na hora do “vamos ver” vão cuidar dos próprios interesses, sobretudo na pauta econômica e comercial.

Bolsonaro e os filhos vivem a ilusão de que sua chegada ao poder representa uma transformação súbita do Brasil – um País desigual social, econômica, cultural e regionalmente – numa pátria de direitistas empunhando a Bíblia e lendo Olavo de Carvalho.
Vera Magalhães

Irmã Dulce, olha por nós

Irmã Dulce, que estás no céu, agora mais santificada do que nunca, tem piedade dos conterrâneos que aqui deixaste na via crucis do deus-dará, na sagrada provação de remar contra a maré. Perdoa nossas urgências, mãe dos pobres. Tomaste posse ontem, mal te ajoelhaste aos pés dos Deus-pai, e já estou aqui nesta prece pública de socorro. Primeiro da fila, eu mendigo teus canonizados favores e sei, envergonhado, que acelero na contramão de tua suave índole baiana. Desculpa a pressa pagã, anjo bom da Bahia - mas é que tá difícil.

Esta é uma oração cívica, o clamor de quem já não sabia mais a quem rogar salvação e súbito te vê sentada, brasileiríssima, à mão direita da delicada nuvem dos santos católicos. Olha por este teu velho pelourinho. Faz a poesia suprema de lançar sobre todos que aqui ficaram, de preferência hoje ainda, o claro raio de sua mensagem ordenadora.

Sei que o sofrimento é parte da qualificação católica. Carregar a cruz, pagar pelos pecados e só aí então, depois de suportada a dor dos espinhos, provar o mel da aleluia e da suprema delícia da ressurreição. Abrevia-nos, porém, ó bem aventurada dos desvalidos, este momento de implacável suplício que ora nos acomete a honra e apequena a fé. Dá uma força aí.

Eu sei que passaste há bem pouco por aqui, Santa Dulce dos Pobres, e ainda tens no colo o peso dos famélicos que pediam uma palavra de esperança. Continuam todos nas calçadas, tudo como dantes em nossa miséria de séculos - mas há novos problemas.

O Brasil, que desde ontem te tem no altar dos poucos orgulhos nacionais, é um país cada vez mais sozinho, um barracão tosco erigido à glória das mentiras, ao culto do meu pirão primeiro e ao louvor do blasfemo. Já fomos um trecho do hino do Esporte Clube Bahia, aquele do "Ninguém nos vence em vibração". Viramos um samba canção triste do Antonio Maria. Ninguém nos ama, ninguém mais nos quer por perto. 

Eu poderia te poupar, irmã Dulce dos pés descalços, deste estresse cívico de receber uma oração com pedido de urgência logo no primeiro dia em que usas a auréola de santa. Foi mal. Eu poderia seguir a ordem natural das coisas e redigir esta santa petição de súplicas a Frei Galvão, o brasileiro que também teve o êxtase da canonização e está há mais tempo no cargo de santo. Mas, sem desmerecer os milagres do paulista, e há anos deposito minha crença nas suas pílulas miraculosas, eu sei que uma santa baiana entenderá melhor o novo mal que agora nos acomete. Esta oração roga por tua interferência divina.

Os governos mudam, irmã Dulce, e desta vez eles acrescentaram à falta de pão, saúde e bons modos uma calamidade inédita - a falta de alegria. A tristeza tornou-se a grande senhora. Em nome de um Cristo que não é o teu, nem também o meu, ela dá as cartas num país que se arrasta macambúzio pelo breu das tocas. Chama de putas as artistas, quer acabar com o carnaval e vê o rabo do diabo em tudo que, vira e mexe, dá prazer. A morte é rainha. Atira ódio para todos os lados.

Tenho certeza, e aqui me despeço genuflexo, que uma menina baiana vestida no abadá dos santos perceberá o desatino dos tempos - zombam da fé os insensatos - e nos ajudará a todos com a alegria que for possível, na paz dos homens bons, e amém.

sábado, 12 de outubro de 2019

Pensamento do Dia


Sete dias de chabu

Uma semana para o governo esquecer. Nada deu certo. Crise conjugal com o PSL; vazamento de petróleo atropelando as queimadas na Amazônia; denúncias de torturas no presídio do Pará; Censura da Caixa arrolhada pelo Ministério Público; ministro do Turismo convocado pelo Senado para explicações sobre o laranjal; secretário-geral da ONU cobrando calote do Brasil; Trump negaceando apoio à entrada do Brasil na OCDE; campanha do pacote anticrime brecada pelo TCU; afora os sucessivos vexames dos ministros mais adestrados nessa especialidade, as bisonhas bravatas do presidente e as quase diárias patacoadas de 01, 02 e 03.

Ao fundo ou redor, a intranquilizadora, mas não se sabe ainda se virótica, revolta popular contra o presidente do Equador. Sem contar os prêmios Camões e Nobel.

O Camões foi anunciado em maio, mas ao se negar, no meio da semana, a pôr seu jamegão no diploma a se entregar a Chico Buarque em 2020, o presidente se expôs uma vez mais ao ridículo. “Se ele não assinar, será como um segundo prêmio Camões para mim”, rebateu de primeira o premiado autor.

Quanto ao Nobel, os três que dividiram o de Física pareceram escolhidos a dedo para zombar dos criacionistas e terraplanistas que integram o núcleo mais paleolítico e biruta do bolsonato. O da Paz, bem, o da Paz virou quando Greta Thunberg, papa Francisco, Raoni e Lula se firmaram como os mais cotados nas bolsas de aposta, e que só acabou na sexta-feira, com a premiação do primeiro-ministro da Etiópia.

Que fase!

Nem as efemérides da semana contribuíram para aliviar a urucubaca governamental. Logo na segunda-feira, até porque não podia ser noutro dia, um site de notícias lembrou os 85 anos de uma histórica escaramuça nas proximidades da Praça da Sé, cuja exumação foi como falar em corda em casa de enforcado ou em cítricos no Planalto e no Alvorada.

Em 7 de outubro de 1934, anarquistas, comunistas, trotskistas e sindicalistas, aglutinados pela Frente Única Antifascista, quebraram o maior pau com os integralistas no centro de São Paulo, que por ali pretendiam marchar em comemoração ao segundo aniversário do manifesto do movimento, cuja palavra de ordem era o imperativo de um verbo bem ao gosto bolsonarista: “Armai-vos”. Bem armada estava era a polícia, mobilizada para manter a ordem na passeata, da qual resultaram seis mortos e dezenas de feridos. Os integralistas, com suas indefectíveis camisas verdes, escafederam-se, mas sem os braços erguidos, na tradicional saudação nazi-fascista por eles adotada, é claro.

No Jornal do Povo, o libertário gozador Apparicio Torelly, mais conhecido como Barão de Itararé, useiro e vezeiros em tratar os fascistas tupiniquins de “galinhas verdes”, desmentiu a manchete de um diário paulistano – “Integralistas saem correndo” – com uma singela explicação ornitológica: “Um integralista não corre, voa”.

Voavam, corriam, praticavam atentados terroristas (tramaram assassinar Getúlio Vargas duas vezes), ensaiaram um contragolpe no Estado Novo em 1937 e uma intentona em 1938. Pioneiros na criação de milícias no País, um dia sequestraram o Barão, levaram-no a um lugar ermo, próximo à Gruta da Imprensa, na Avenida Niemeyer, zona sul do Rio, onde o despiram, rasparam-lhe a cabeça e o obrigaram a engolir um artigo de sua autoria publicado no jornal A Manha.

O que dizia o artigo de Torelly? Que o marinheiro João Cândido, o líder negro da Revolta da Chibata, e não o almirante Tamandaré, era a grande figura histórica da Marinha.

Integralistas e antifascistas de variada coloração viviam se confrontando em diversos pontos do País, que às vésperas da guerra andava muito mais polarizado do que hoje e sem a válvula de escape das redes sociais. A AIB (Ação Integralista Brasileira) era um MBL com maior poder de arregimentação (chegou a ter um milhão de adeptos), mais audacioso e violento. Defendia um Estado forte, centralizado, de base religiosa, seus integrantes se diziam soldados de Cristo, templários da Pátria e da Família, a mesma farsa retórica dos demagogos e hipócritas de hoje e de sempre.

O que mais me espanta – e há muito queria dizer isso – não são as incontestáveis semelhanças entre o integralismo original (não seu patético ersatz que por aí vaga como alma penada) e o neofascismo chocado pelas galinhas, agora amarelas, que há dez meses chegaram ao poder, mas as suas diferenças. Ou, mais precisamente, o abismo existente entre os ideólogos da AIB e seus, por assim dizer, equivalentes atuais.

Esqueçam os ministros competentes de Getúlio, pensem apenas nos mais graduados galináceos da AIB: Plínio Salgado, Menotti del Picchia, Gustavo Barroso, Miguel Reale, Luís da Câmara Cascudo. E comparem qualquer um deles com o chanceler Ernesto Araújo e os ministros Abraham Weintraub, Ricardo Salles, Damares Alves, Osmar Terra, etc. Ou, quem preferir, com o aiatolavo da Virginia.

Plínio Salgado era catolicão, chauvinista, tão fanático nacionalista que em seu mais badalado manifesto homenageou a anta, o mamífero totem dos tupis, mas era homem inteligente e culto. Leu todos os clássicos das teorias políticas e conhecia bem literatura. Escreveu ensaios influenciados pelo conservadorismo de Alberto Torre e Farias Brito, e um romance, O Estrangeiro, que muito devia a O Selvagem, de Couto de Magalhães, e marcou presença no Modernismo.

Certamente ficaria horrorizado com a crassa e – o que é pior – soberba ignorância de nossas “otoridades”. E, para evitar errôneas atribuições, mudaria o título do Manifesto da Anta.

Irmã Dulce, símbolo de um Brasil que está se esquecendo dos pobres

Irmã Dulce será canonizada no próximo domingo em Roma pelo papa Francisco. Trata-se de um acontecimento duplamente importante e significativo não só para os católicos, já que a religiosa se apresenta como uma série de símbolos do momento que este país vive nos aspectos político, religioso e social. É a primeira Santa do Brasil que não só viveu como também nasceu aqui, em Salvador.

Conhecida popularmente como a “mãe dos pobres”, Irmã Dulce será canonizada por Francisco, o papa de vida mais austera da época moderna. Eleito sucessor de Pedro, despojou-se dos ouropéis do poder, até em sua vestimenta, e preferiu viver em um quarto de hotel em vez dos luxuosos palácios pontifícios. Talvez a isso se deva que a nova santa brasileira seja canonizada tão poucos anos depois da sua morte. A Igreja esperou às vezes séculos antes de declarar alguém como santo.

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O Brasil verá Irmã Dulce na glória dos altares em um momento quase de cruzada religiosa no país, onde a intolerância de alguns grupos de evangélicos extremistas perseguem outras religiões, sobretudo de origem africana. Irmã Dulce nasceu e atuou justamente na cidade com mais negros fora da África e a que melhor mantém suas tradições culturais e religiosas.

Será canonizada durante o Sínodo de bispos sobre os problemas da Amazônia, em plena polêmica do presidente Jair Bolsonaro, católico e rebatizado na Igreja evangélica, com o papa Francisco, a quem o governo brasileiro de extrema direita acusa de intromissão nos assuntos internos do Brasil, por criticar a queima das florestas e o abandono dos indígenas.

A nova Santa da Bahia estará rodeada por políticos brasileiros de todas as tendências neste domingo, na Basílica de São Pedro. A religiosa, intrépida e obcecada com os mais marginalizados da sociedade, dizia: “Meu partido é a pobreza”. Nunca teve escrúpulos em bater à porta dos políticos importantes do seu tempo, mas sempre para suplicar recursos para os mais abandonados, aos quais dedicou sua vida, e às obras por ela criadas exclusivamente para aliviar a dor e a pobreza.

O Brasil terá uma nova Santa que ainda adolescente, órfã de mãe, levava os doentes abandonados nas ruas para a sua própria casa, de família bem de vida, para lhes socorrer. Sua figura de mulher forte e doce ao mesmo tempo, e sua vida dedicada a ajudar a todos os abandonados, é o que faz que hoje, sobretudo os pobres, de qualquer fé, vejam na Irmã Dulce alguém, como me disseram na rua, “que parece que se preocupava com os que mais sofriam”. Pois são esses abandonados pelo poder à margem da sociedade que mais sensibilidade têm para analisar a verdadeira santidade de uma pessoa.

Nos primórdios do cristianismo, não era a Igreja, o Papa, que canonizava as pessoas. Era a própria comunidade cristã que decidia, às vezes já em vida, quem era santo e exemplo para os outros. Consta-me que o papa Francisco gostaria de voltar a essas origens e deixar que sejam as comunidades cristãs que decidam quem teve uma vida que mereça ser exaltada depois da sua morte.

Irmã Dulce, que como religiosa manteve sua visão moderna da mulher liberada que deve participar ativamente na vida pública, é canonizada justo neste momento em que a reivindicação da mulher por seus direitos e peculiaridades, sem discriminações, representa uma das grandes batalhas no mundo e particularmente no Brasil, um dos países com maior número de feminicídios, e que vive um momento de machismo e obscurantismo cultural e religioso.

Os símbolos são uma das grandes criações da inteligência humana. Foram eles que moveram o mundo para o bem ou para o mal. Do Brasil, hoje, onde o poder transformou os pobres e desassistidos em invisíveis, a nova Santa Irmã Dulce é o símbolo de uma nova resistência para recordar ao mundo e sobretudo aos cristãos em geral que são os pobres que acabam julgando o poder.

Conheci Irmã Dulce em julho de 1980, durante a primeira viagem do papa João Paulo II ao Brasil. Foi em Salvador, durante a missa campal do Pontífice. Eu havia viajado no seu avião como correspondente deste jornal na Itália e Vaticano. O Papa, na frente daquela multidão, chamou a religiosa ao altar onde celebrava a Eucaristia, abraçou-a e a abençoou. Os jornalistas estrangeiros não sabíamos quem era aquela freirinha privilegiada que arrastava visivelmente seu desgaste físico. Dela recordo, sobretudo, seu olhar profundo e grave. Seus olhos mais doces devia reservá-los aos invisíveis.

O campo minado da fiscalização ambiental no Brasil

"Elizeu, quero 25 mil pra mim detonar o homem [sic]." A mensagem de áudio recebida por Antônio* no Whatsapp era um aviso de que sua morte estava sendo encomendada. Chefe de fiscalização do Ibama em um estado do Centro-Oeste, ele está há 14 anos no órgão e se acostumou com as intimidações. Porém, afirma que a situação atual não tem precedentes. Seu caso ilustra a situação de fiscais do meio ambiente no Brasil.

Antônio tomou conhecimento da mensagem graças a um informante, em outubro do ano passado. O agente despertou a fúria de criminosos por fazer seu trabalho. Após flagrar um caso de exploração ilegal de madeira em sua área de atuação, ele ordenou a destruição do maquinário de propriedade dos infratores.

Trata-se de uma prática adotada por fiscais do meio ambiente nas situações em que não há formas de apreender os equipamentos. Prevista na Lei de Crimes Ambientais, de 1998, a medida foi regulamentada dez anos depois, por um decreto presidencial que visava a desestimular o crime ambiental.


A frágil estrutura do Judiciário nas regiões que concentram o desmatamento enfraquecia a efetividade da fiscalização ambiental. Pela média histórica, somente 5% do valor cobrado em multas pelo Ibama é efetivamente pago. O procurador da República Daniel Lôbo, que chefia o Ministério Público Federal em Rondônia, assinala a especial importância da prática no contexto de fragilidade orçamentária da autarquia.

"Quando derem estrutura para os órgãos locais retirarem os equipamentos, a melhor alternativa será a apreensão e venda posterior. Remover o maquinário gera um custo ao poder público, de diária e armazenamento no local. Mas, sobretudo, é arriscado. As equipes estão em uma situação de exposição a pessoas armadas”, afirma.

Especialistas consideram que a medida foi determinante para a queda nos indicadores do desmatamento no Brasil. Entre 2004 e 2014, a área desmatada na Amazônia caiu de 27 mil para 5 mil quilômetros quadrados.

Apesar disso, a DW Brasil apurou que, em abril deste ano, os fiscais do Ibama receberam uma orientação interna para interromper o procedimento de destruição de maquinário. A ordem foi repassada de maneira informal pela presidência do órgão.

A determinação coincidiu com a publicação de um vídeo, em abril, pelo senador Marcos Rogério (DEM), de Rondônia, em sua página oficial no Facebook. Nele, o presidente Jair Bolsonaro desautorizava uma ação do Ibama que destruiu caminhões e tratores de madeireiras no estado.

"Ontem, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, veio falar comigo com essa informação. Ele já mandou abrir um processo administrativo para apurar o responsável disso aí. Não é pra queimar nada, maquinário, trator, seja o que for, não é esse procedimento, não é essa a nossa orientação”, disse o presidente.

A reprimenda do presidente da República à atuação do Ibama foi mais um capítulo em uma série de ataques iniciada ainda na campanha eleitoral do ano passado. Em palanques Brasil afora, o então candidato Jair Bolsonaro disparou críticas em série aos órgãos de fiscalização ambiental.

"Não podem continuar admitindo uma fiscalização xiita por parte do ICMBio e do Ibama, prejudicando quem quer produzir”, afirmou durante evento de campanha em Rondônia.

Diferentes agentes ouvidos pela reportagem afirmam que o discurso de Bolsonaro teve um efeito imediato de agravamento da hostilidade dos criminosos, que ficaram cada vez mais à vontade para intimidar o trabalho de fiscalização.

"Foi como colocar fogo nos tambores de gasolina”, avalia Antônio. "A grande diferença desse governo é que, antes mesmo de ele entrar, já começou a ficar complicado para nós”.

Em julho deste ano, um caminhão-tanque que levava combustível para abastecer helicópteros do Ibama em uma operação em Rondônia foi incendiado, no município de Espigão do Oeste. Outros ataques semelhantes foram registrados no mesmo estado, além do Amazonas e Pará.

"O motorista comentou no posto onde abasteceu que prestava um serviço para o Ibama, e rapidamente a informação circulou. Os criminosos têm informantes em toda parte”, conta Antônio.

Ciente da vigilância constante, os cuidados vêm sendo redobrados para garantir a eficácia das operações e a segurança dos agentes. Em áreas urbanas, durante os deslocamentos para as áreas de infração, suas equipes ficam alojadas em postos policiais e levam a própria comida para evitar hotéis e restaurantes.

Na floresta, chegam a ficar acampados por três dias, somente com os alimentos que levam consigo. "O jeito é ficar esperto e agir com o mesmo ritmo, senão não consegue dar flagrante. Eles derrubam pontes e te impedem de avançar”, diz Antônio.

Suas equipes saem das bases do Ibama sem saber o destino. Há alguns meses, o coordenador passou a informar locais diferentes daqueles onde serão realizadas as operações ao lançar as diárias internamente. "Dentro do Ibama, tem gente vendendo informações sobre para onde você vai. É um problema antigo nosso”, denuncia.

Como resultado da vulnerabilidade crescente, muitos agentes optam por deixar de ir a campo ou solicitam transferência para locais menos conflagrados. Há quem dê baixa do serviço por problemas de saúde mental, decorrentes das ameaças.

Por sua vez, servidores de longa data correm para escapar das novas regras previdenciárias. Uma média de 15 servidores têm se aposentado a cada mês — um baque operacional para o Ibama, que não tem concursos desde 2009 e apresenta um déficit de 2 mil funcionários.

Em abril, Ricardo Salles anunciou uma redução de 24% no orçamento anual do órgão, na esteira de cortes de gastos feitos pelo governo em diversas áreas. Verbas do Fundo Amazônia, que garantiam a locação de carros para as operações, também estão ameaçadas.

"Minha equipe de nove pessoas pode ter só duas no ano que vem. Não sei como vamos ter condições de trabalhar”, diz um coordenador. Os efeitos já são sentidos. Em agosto, o MPF no Pará abriu inquérito para investigar a redução do número de fiscalizações ambientais na região nos meses anteriores.

"É uma soma do medo de sofrer represálias pelas destruições com a deslegitimação do trabalho do Ibama. Se o infrator é legitimado pelo governo, não vai ser o fiscal que irá contestar”, avalia um coordenador do órgão. "Além do fato de não haver lideranças legítimas nos estados e na sede”.

A DW Brasil apurou, ainda, que houve risco de boicote por funcionários do Ibama à atuação em apoio à operação de Garantia da Lei e Ordem (GLO) desencadeada pelo governo federal para conter a onda de incêndios criminosos na Amazônia, em agosto. A ação envolvia uma atuação conjunta com as Forças Armadas.

Um grupo expressivo de fiscais entendia o movimento do governo como uma tentativa de salvar o ministro Ricardo Salles no cargo, em meio à crescente pressão internacional.

A iniciativa foi demovida pela coordenação operacional do órgão. Além do compromisso com a sociedade, predominou a tese de que a atuação naquele contexto era fundamental para mostrar ao mundo a importância da atuação do Ibama como órgão especializado no combate a crimes ambientais.

No rescaldo da onda de queimadas, Ricardo Salles nomeou seis novos superintendentes estaduais do Ibama no início de setembro. Até então, 19 das 27 unidades regionais estavam sem representantes, após uma exoneração em massa conduzida pelo ministro em fevereiro.

No Pará, estado que lidera o desmatamento, o coronel da Polícia Militar Evandro Cunha ficou apenas uma semana no cargo. Ele foi exonerado após afirmar que iria cessar a destruição de equipamentos apreendidos em garimpos ilegais no estado.

"O trabalhador merece respeito, e terá o respeito do governo federal. Eu sou soldado e eu sei cumprir ordem, a ordem que recebi foi para parar com isso daí", declarou, durante audiência pública no município de Altamira.

Um quadro de semelhante precarização e vulnerabilidade é observado na atuação do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade). A partir deste mês, apenas dois servidores atuarão sozinhos em cinco Unidades de Conservação de vasta extensão na Terra do Meio, um dos mais importantes blocos para a conservação da sociobiodiversidade do planeta.

"A situação das unidades de conservação da Amazônia é caótica, com algumas unidades à beira de fechar as portas. Faltam pessoas em todos os lugares e para tudo”, constata um servidor do órgão.

O quadro é ainda mais grave na Fundação Nacional do Índio (Funai), que tem um papel indireto na fiscalização ambiental ao atuar na defesa de terras indígenas demarcadas. A autarquia opera com 10% do orçamento desde janeiro. Em algumas unidades, os servidores sequer têm acesso a papel higiênico.

Há um mês, o indigenista Maxciel Pereira dos Santos foi assassinado com um tiro na nuca na região do Vale do Javari, local que abriga a maior concentração de povos indígenas isolados no mundo. Ele atuava junto à Funai há 12 anos. Nenhum servidor do órgão aceitou falar com a reportagem, pelo medo de represálias.
Deutsche Welle

A revolução dos bichos

Trata-se do título de famoso romance ("Animal Farm"). Segundo a Modern Library List, “um dos 100 melhores do Século XX”. Do escritor inglês George Orwell. Mesmo autor do clássico "1984". O livro trata das fraquezas humanas. Tudo começa quando o sr. Jones, proprietário de uma fazenda, esquece de dar a ração diária dos animais. Os jovens porcos Bola de Neve (Snowball) e Napoleão (Napoleon) lideram uma revolta. E os humanos acabam expulsos de lá. Porcos letrados criam 7 mandamentos. Para os animais poucos inteligentes, resumidos em só um: “Quatro patos bom, duas patas mau”. Mais importante é o último: “Todos os animais são iguais”. Só que, aos poucos, o poder inebria os líderes. Napoleão se torna um Ditador. E altera o lema da Revolução, que passa a ser: “Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros”.

Agora descobriu-se, entre os papéis de Orwell, um novo capítulo (não publicado) do livro. Sem que se saiba por que não foi acrescentado, nas edições seguintes. Nele temos que a corrupção se disseminou, com Napoleão, na Quinta dos Animais. A grana, que antes era de todos, passou a ir para o Partido dos Porcos. Ou foi engordar os bolsos da companheirada. O sr. Jones, por vingança (mais que por interesse público), denunciou esses enriquecimentos ilícitos. O MP ouviu. Porcos amigos começaram a ir em cana. Foi quando Napoleão decidiu reagir. E prendeu o sr. Jones. Sob acusação de ter sido visto, em restaurante próximo, saboreando uma galinha. Decidindo o Tribunal que a pena, para tão grave crime contra os animais, era a morte. O sr. Jones argumentou não haver, no CPP (Código Penal dos Porcos), tal crime. Deu em nada. Os Ministros decidiram que eles próprios, a partir de agora, é que fariam as leis. Em cada caso. E o pobre do sr. Jones acabou perdendo (literalmente) a cabeça.

Depois da execução, soube-se de conversas entre os magistrados do caso. No plenário do Tribunal dos Porcos. Um: “Esse tal sr. Jones queria o quê? Prender companheiros porcos? Ficou louco?”. Outro: “É uma lição boa para ninguém mais se meter conosco”. Um terceiro: “A força da Justiça vai pesar, agora, contra quem nos ameaça”. No final da sentença de morte, foi definida uma alteração no lema da Revolução, que passou a ser: “Todos os animais são iguais; mas porcos, e seus amigos, estão acima de todos”. O Presidente do Tribunal, encerrando a sessão, e olhando para as câmaras da TV Justiça com lágrimas nos olhos, sugeriu ainda um complemento, aplaudido freneticamente pelos Ministros presentes: “E porcos não poderão mais ser presos”.

P.S. A notícia desse novo capítulo do livro é falsa, claro.
José Paulo Cavalcanti Filho

Brasil poluído


Bolsonaro briga com Deus e o mundo

Só faltava o presidente brigar com Deus – na pessoa de Irmã Dulce, a nova e primeira santa brasileira. Por pressão evangélica (?!), Bolsonaro não irá à cerimônia de canonização em Roma no domingo. Tampouco irá a Salvador para uma missa em homenagem a ela. Na capital baiana nasceu a freira, que se tornará agora a Santa Dulce dos Pobres por uma vida dedicada aos necessitados.


O presidente, que em breve criará o PES – Partido do Eu Sozinho –, deve mandar o general Hamilton Mourão para acompanhar, em seu lugar, a cerimônia no Vaticano, presidida pelo papa Francisco. O porta-voz da presidência da República, Otávio Rêgo Barros, foi solenemente ignorado nessa mudança de planos. Ele tinha dito que a presença de Bolsonaro em Roma reforçaria “a importância de o Brasil ser um Estado laico”. Ilusão. Não existe porta-voz que resista a Bolsonaro e seus caprichos.

Irmã Dulce, batizada Maria Rita Lopes de Souza Brito, era conhecida como “o anjo bom da Bahia”. Pensando bem, acho ótimo que Bolsonaro não vá a Roma. O papa não merece ser obrigado a recepcionar o presidente brasileiro. Suas piadas grosseiras e de baixo calão não cairiam bem no Vaticano, por mais coloquial que seja Francisco. Nada ali, nem o papa nem a Irmã Dulce nem seu objetivo de vida, tem a ver com o que Bolsonaro simboliza ou pensa.

Cada vez mais o presidente se mostra como é: intolerante, censor, brigão, obcecado por controle, assediador, autoritário. Espalha dissensão e sai dividindo tanto que um dia o resultado será zero. Amigos se tornam desafetos. Aliados se tornam adversários. Tudo por obra de uma personalidade desagradável, histriônica, que se compraz em humilhar e provocar.

Começo a ficar com pena de Huguinho, Zezinho e Luizinho. Ops, Flávio, Carlos e Eduardo. Esse último, coitado, estudou até altas horas da noite para ser sabatinado pelo Senado e não responder só sobre hambúrguer e turismo. “Tenho revisto episódios sobre a história do Brasil, como o que trata da nossa independência passando por Leopoldina, Bonifácio e Princesa Isabel”, escreveu em rede social. Isso aí, Eduardo. Prossegue. Parece, porém, que a embaixada em Washington não passou de história da carochinha, porque ninguém mais fala nisso.

Fico com pena dos três herdeiros, porque podem ter sofrido lavagem cerebral na infância e adolescência. São meros repetidores do pai. Tão brigões quanto. Agressivos. Arrogantes. Ostentam armas. Ofendem. Ameaçam. E por isso os irmãos têm levado pauladas a torto e a direito. O Major Olímpio, líder do PSL no Senado, afirmou que, se Eduardo e Flávio deixarem o PSL, será “um favor que fazem”, e fez um pedido a Carlos: “Não encher o saco”.

Agora, até os Estados Unidos de Donald Trump puxaram o tapete de Bolsonaro, adiando o acesso do Brasil à Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). Só quem entrará agora será, quem diria, a Argentina. E a Romênia. A amizade de Eduardo e Trump, cultivada pelo servilismo sorridente de Bolsonaro e pelas promessas de abrir a Amazônia a investidores americanos, não rendeu os frutos esperados. O Brasil vai ter que esperar quietinho sua vez.

Antes, só podia reclamar de Bolsonaro quem fosse mulher, negro, gay, ativista de direitos humanos, pacifista, índio, ambientalista, artista, professor universitário, cineasta, escritor, cientista, pobre, ateu. E claro, os 13 milhões de desempregados. Para o resto, estava tudo bem. Agora, o presidente resolveu não mais escolher inimigos pela orientação sexual ou viés ideológico. Todo mundo cai em desgraça com ele, até as santas. Só admite por perto os aduladores. E desconfia da própria sombra. Morô?

Uma alma atormentada!

Sente-se cercado de inimigos. Diz que tem inimigos no exterior e aqui, e que os locais são os piores. É por isso que desconfia de todo mundo – da ex-mulher a parentes complicados da mulher atual.

Suporta um emprego que jamais acreditou que poderia ser seu, que jamais quis e que só disputou para ajudar os filhos a se elegerem. Seu sonho era aposentar-se e ir curtir o resto da vida.

É obrigado todos os dias, inclusive nos fins de semana, a decidir sobre assuntos que pouco entende ou que ignora por completo. Que martírio! E ainda zombam da sua falta de conhecimentos.



Nunca gostou de ler. Gostava de palavras cruzadas. Orgulha-se de ter criado algumas e de tê-las visto publicadas. Foi treinado para obedecer, não para dar ordens. E ordens sempre gritadas.

Apesar de viver protegido por dezenas de agentes de seguranças, e de morar num palácio blindado contra qualquer ameaça, guarda um revólver na mesinha de cabeceira da cama ao alcance da mão.

Não tentaram matá-lo uma vez? Por que não tentarão novamente? Seu ofício é contrariar interesses – menos os da sua família. Daí o inseparável colete a prova de balas. Daí o paranoico que se tornou.

Sofre de insônia crônica. Atravessa madrugadas no apertado closet do quarto. Enquanto a mulher dorme e ronca baixinho, ele vasculha as redes sociais para saber o que falam a seu respeito.

Que vida! Que alma atormentada! Por que simplesmente não pede as contas e vai pescar? Desde que não seja em área proibida. Por sinal, onde está Queiroz, melhor pescador do que ele?