terça-feira, 10 de maio de 2016
Dilma compôs seu réquiem em Belo Monte

Na quinta-feira, 5 de maio, Raimunda desligou a TV na casa da periferia de Altamira, no Pará. O noticiário local começava a transmitir a inauguração da usina hidrelétrica de Belo Monte por Dilma Rousseff (PT). Era um gesto pequeno, o de desligar o botão da TV. Era o esforço de Raimunda para proteger João da voz da presidente. Deitado na rede, sem movimento nas pernas, ele já não é capaz de proteger a si mesmo. Em Belo Monte, Dilma discursava, ovacionada por uma claque de movimentos sociais, denunciando o “golpe” para tirá-la do poder. Mas a palavra final sobre o legado da presidente não será do Congresso. O réquiem de Dilma Rousseff, no tempo da História, é o silêncio de João da Silva.
No aeroporto de Altamira, Liviane, uma das sete filhas de João e de Raimunda, erguia um cartaz: “De mulher para mulher. Dilma – você me deixou órfã de pai vivo”.
Dilma Rousseff não viu. Ela deu apenas uns poucos passos em terra. Em seguida pegou um helicóptero para o território seguro da hidrelétrica de Belo Monte. A presidente sobrevoou a cidade e o rio. Mas era no chão que o drama se desenrolava.
Se João tivesse escutado o discurso de Dilma, ele saberia qual foi a palavra escolhida pela presidente para definir Belo Monte:
– Essa usina é do tamanho desse povo. É grandiosa. É uma usina grandiosa. A melhor forma de descrever Belo Monte é essa palavra: grandiosa.
As palavras, João descobriu há pouco mais de um ano, podem matar. É por isso que ele não consegue escutar nem “Norte Energia”, a empresa concessionária que materializou a usina no amazônico Xingu. Nem “Belo Monte”. Nem “Dilma Rousseff”. E ninguém conhecerá sua opinião sobre o adjetivo escolhido pela presidente: “grandiosa”.
Quando sua filha escreve, no cartaz que Dilma não leu, que é órfã de pai vivo, ela conta de uma morte que começou em 23 de março de 2015. João era um dos milhares de atingidos por Belo Monte. Ele vivia com Raimunda numa ilha do Xingu, a Barriguda. Nas palavras da Norte Energia e do governo federal, ele era um dos milhares de “removidos”. Mas as palavras não são as mesmas para todos.
Para João, ele foi “expulso”. Naquela data, ele e Raimunda estavam no escritório da empresa esperando o veredicto. João, que trabalhava desde os oito anos de idade, e só na ilha encontrara um lugar sem fome, acreditava receber um valor que lhe permitisse recomeçar a vida, mais uma vez. Mas o preposto da empresa foi taxativo: 23 mil reais. João percebeu ali que, aos 63 anos, estava condenado à miséria. No momento da revelação, ele quis matar o dono das palavras que o esfaqueavam. Mas João da Silva não é homem que mata. Paralisou por inteiro. A fala, as pernas. E teve de ser carregado para fora do escritório. Foi naquele momento que João começou a morrer. Para Raimunda e as filhas, foi naquele momento que João começou a ser “assassinado”.
Mais tarde, quando recuperou as palavras e voltou a dar alguns passos, bem devagar, João disse:
– Se eu fizesse um dano com um grande, um grande lá de dentro, talvez melhorasse para os outros. Eu sacrificava a minha vida, mas a dos outros melhorava. (...) O país brasileiro não tem justiça.
Quando disse isso, João ainda podia escutar as palavras. Agora, já não pode. Em breve, saberemos por quê. Como as três palavras se tornaram proibidas para ele, João não pôde ouvir o que Dilma Rousseff afirmou em seguida:
– Sabemos que essa usina foi objeto de controvérsias. Muito mais pelo desconhecimento do que pelo fato de ela ser uma usina com problemas. As pessoas desconheciam o que era Belo Monte.
Se João não estivesse proibido de escutar, teria ouvido que pessoas como ele “desconhecem” Belo Monte. O que isso faria com João?
O que Dilma Rousseff define como “controvérsias” seriam as 25 ações movidas pelo Ministério Público Federal, uma delas acusando o Estado e a Norte Energia pelo etnocídio – morte cultural – de povos indígenas? Ou a controvérsia seria a mesada de 30 mil reais em mercadorias que as aldeias atingidas receberam por dois anos da empresa, como se o Brasil estivesse fixado no ano de 1500, ao trocar vida por espelhinhos? Ou o aumento de 127% da desnutrição infantil nas aldeias neste período? Ou os milhares de atingidos abandonados em total desamparo pelo seu governo, “negociando” diretamente com a Norte Energia, já que a Defensoria Pública da União só conseguiu alcançar Altamira quando a obra já estava perto da conclusão? Ou todos aqueles que assinaram com o dedo papéis que não eram capazes de ler, mas que os condenavam ao desterro?
Talvez não. É possível que “as controvérsias” citadas pela presidente sejam as delações premiadas de executivos de empreiteiras no curso da Operação Lava Jato. Como dirigentes da Andrade Gutierrez, que teriam afirmado a existência de propinas no valor de 150 milhões de reais vindas de Belo Monte para financiamento de campanhas do PT e do PMDB. Dilma Rousseff não especificou o que entendia por “controvérsias”.
É possível afirmar que a presidente desconhece João. Se o conhecesse, e ele ainda pudesse usar as palavras proibidas, Dilma Rousseff saberia que João da Silva conhece Belo Monte. E que sua mulher, Raimunda da Silva, conhece inclusive o perfume de Belo Monte. Para ela, Belo Monte tem cheiro de queimado. Em 31 de agosto de 2015, a Norte Energia botou fogo na casa deles. Quando Raimunda alcançou a ilha para retirar seus pertences, encontrou cinzas. Um técnico da Norte Energia já tinha dito que a casa dela não era uma casa, mas um “tapiri”. Raimunda sabe que as palavras violentam. E reagiu: “Na sua linguagem ela pode ser tudo isso aí, moço. Mas, na minha, é minha casa. E eu me sentia bem nela, viu?”.
Dilma Rousseff desconhece João da Silva, mas ele a conhece tanto que não pode escutar o seu nome, ou sua voz. Se pudesse, João ouviria mais uma parte do discurso da presidente.
– Quero dizer que esse empreendimento de Belo Monte me orgulha muito pelo que ele produziu de ganhos sociais e ambientais.
No momento em que Dilma discursava, quatro crianças indígenas já tinham morrido de gripe no período de dois dias, entre 29 e 30 de abril. É importante lembrar de seus nomes em tão curta vida: Kinai Parakanã, 1 ano; Irey Xikrin, sete meses; Kropiti Xikrin, 11 meses; Kokoprekti Xikrin, 1 mês e 22 dias. Em documento datado de 1 de maio, o Distrito Sanitário Especial Indígena de Altamira relata a gravidade do surto de síndrome gripal nas aldeias, com a ocorrência de diarreia, especialmente para as crianças de até cinco anos. Assim como a deficiência da estrutura para combater a ameaça à saúde indígena. Mostra também que o quadro se agravou após as comemorações relativas ao Dia do Índio, em Altamira, quando aldeias que ainda não haviam sido atingidas foram contaminadas após a volta dos indígenas da cidade. Naquela semana, a Norte Energia promoveu o I Festival de Cultura Indígena Asurini e Araweté, com a presença de dezenas de pessoas dessas etnias. O surto de gripe em curso foi ignorado nos festejos. As homenagens ameaçam virar morte.
Meias palavras não bastam
Se os sinais de que falta determinação a Temer para não iniciar sua trajetória por onde Dilma acabou a dela vinham pondo nuvens no horizonte, a manobra do STF contra Eduardo Cunha, como de hábito, empurrou para um pouco mais longe a margem do brejo da incerteza em que vamos atolados.
Cunha é o que o Brasil inteiro sabe que é. Mas só metade disso é mencionado em voz alta neste país onde coragem política e honestidade intelectual são mais escassos que água no deserto e, cada vez mais, a única diferença entre os culpados por mamar em privilégios que custam a miséria em que este país está e/ou roubar ostensivamente o dinheiro apartado “para mitigá-la” está em por ou não tudo isso também a serviço de uma conspiração contra a alternância no poder.
Chegou a incomodar muito um Brasil à beira do afogamento a perspectiva de Cunha se vir a tornar presidente na ausência do vice. Mas o caso ficou “resolvido” pela constatação de que, havendo lei que proíbe réus de ocupar a Presidência, o impedimento era ponto pacífico. A outra metade do que o Brasil inteiro sabe que Cunha é mas ninguém tem coragem de afirmar em voz alta, é “o bandido certo, no lugar certo, na hora certa”, ou seja, como o ex-deputado Roberto Jefferson notou com pleno conhecimento de causa no Roda Viva, só ele está à altura do jogo sujo do PT e seus “laranjas” do PSOL e do PC do B para fazer deste país uma imensa Venezuela. Não é por acaso que apesar da perseverança no crime Dilma e ele escapem sempre por entre os dedos tanto da lei penal quanto da política. É que jogam com as mesmas armas, a mesma ausência de limites e o mesmo tipo de vendilhão de “governabilidade”. Só que, pela primeira vez na história deste país, apareceu alguem que usa truques sujos com mais competência que o PT. PSDB e cia. são meninas de colégio de freira perto desse pessoal. A verdade cristalina que precisa ser afirmada claramente, portanto, é que tudo que hoje se sabe sobre Cunha só foi exposto porque ele estava ganhando a parada contra o PT e não porque tenha em sua ficha qualquer coisa que o deslustre mais que todos os petistas presos e por prender ou os renan calheiros da vida atras dos quais o PT se escuda.
Ao atropelar Teori Zavaski que guardava há quase seis meses queixa da PGR contra Cunha a espera de que findasse a contenda no Legislativo em que o Judiciário não devia e nem legalmente podia se meter na noite de quarta-feira, 4, Lewandowski forçou-o a atribuir à ação uma subita “urgência”. O resto “o tempo da política e da mídia” fizeram, como Lewandowski sinalizou ao nega-lo antes que se lhe perguntasse, gerando liminar vazada exclusivamente em adjetivos, sem base técnica que a sustente ou qualquer lei ou esboço de tratamento às consequências que vai produzir. E lá vai um Brasil requerendo reformas pesadas e urgentes de volta para os braços de uma Câmara com 29 “donos” soltos.
O STF que patrocinou a manobra, recorde-se, é o mesmo que, atirou o país às piranhas da “governabilidade” em 2006 quando derrubou a cláusula de barreira dos partidos em 5% dos votos nacionais e 2% em 9 estados arrancada a duras penas do Congresso. Aplicada teria tirado do páreo 22 dos 29 partidos então inscritos no TSE já no 2º governo Lula. Mas a viabilização da política não era o que o PT tinha em vista. Bem ao contrário. De lá para cá, ao atribuir parcelas do Fundo Partidário a cada deputado eleito, junto com o tempo de TV, o STF fixou um “valor nominal” para cada uma dessas “mercadorias”. Na expectativa de minar toda forma de resistência organizada ao seu projeto hegemômico, Lula e o PT, com os préstimos do STF, construíram, portanto, milímetro por milímetro o caos político que está a um passo de destruir o Brasil enquanto saqueavam o Estado para executá-lo.
Declarada a “inconstitucionalidade” de por ordem no bordel da política partidária arrematada pela recente decisão do mesmo STF de submeter os plenários da Câmara e do Senado às “lideranças” em detrimento das maiorias para por o impeachment de volta nas mãos de Leonardo Picciani, o Rei das Pedras da Cidade Olímpica, par perfeito de Renan Calheiros, o “goleiro” do impeachment plantado no Senado, das quais o voto do plenário o tinha tirado, o sucesso das operações comerciais do lulopetismo com vistas ao poder eterno passou a depender, como notou o ministro Dias Toffolli, único a denunciar o penúltimo golpe do STF no sistema representativo brasileiro, de “dialogar” suficientemente com 15 indivíduos num colegiado de 28.
Não funcionou para barrar o impeachment por enquanto, mas essa história ainda não acabou…
O resultado geral é que tudo isso completou a obra de inviabilização do Brasil iniciada com a Constituição de 1988 que, ao consagrar o privilégio outorgado pela baixa política como “direito adquirido” criou a moeda básica com que mestre Lula tratou de comprar seu esquema absoluto de poder contratando a desarrumação absoluta das finanças públicas que a Lei de Responsabilidade Fiscal pisoteada por Dilma conseguiu deter por alguns anos.
O resultado é que não tem jeito simples de consertar o que fizeram com o Brasil. Vai doer. Vai demorar. E muito. A descrição didática de como chegamos a isso, bilhão por bilhão, ainda que evitando o tom revanchista, é parte indescartável do mapa da saída. O tamanho da crise e da dor do povo serão os únicos trunfos de Temer. É a ele e só a ele que um governo de salvação nacional tem de se dirigir com a verdade, nada mais que a verdade, e muito, muito didatismo, negociando ao vivo cada costura política do processo. Se convencer o povo da sinceridade de seu diagnóstico e de seus propósitos, mostrando onde foi parar e para onde deveria retornar o dinheiro desviado da sustentação da economia nacional para a sustentação de um esquema de poder, o Congresso virá atras e estará transferida a quem atrapalhar queira o risco de postar-se à frente das saídas que a multidão dos desesperados comprar como as possíveis.
Cunha é o que o Brasil inteiro sabe que é. Mas só metade disso é mencionado em voz alta neste país onde coragem política e honestidade intelectual são mais escassos que água no deserto e, cada vez mais, a única diferença entre os culpados por mamar em privilégios que custam a miséria em que este país está e/ou roubar ostensivamente o dinheiro apartado “para mitigá-la” está em por ou não tudo isso também a serviço de uma conspiração contra a alternância no poder.
Chegou a incomodar muito um Brasil à beira do afogamento a perspectiva de Cunha se vir a tornar presidente na ausência do vice. Mas o caso ficou “resolvido” pela constatação de que, havendo lei que proíbe réus de ocupar a Presidência, o impedimento era ponto pacífico. A outra metade do que o Brasil inteiro sabe que Cunha é mas ninguém tem coragem de afirmar em voz alta, é “o bandido certo, no lugar certo, na hora certa”, ou seja, como o ex-deputado Roberto Jefferson notou com pleno conhecimento de causa no Roda Viva, só ele está à altura do jogo sujo do PT e seus “laranjas” do PSOL e do PC do B para fazer deste país uma imensa Venezuela. Não é por acaso que apesar da perseverança no crime Dilma e ele escapem sempre por entre os dedos tanto da lei penal quanto da política. É que jogam com as mesmas armas, a mesma ausência de limites e o mesmo tipo de vendilhão de “governabilidade”. Só que, pela primeira vez na história deste país, apareceu alguem que usa truques sujos com mais competência que o PT. PSDB e cia. são meninas de colégio de freira perto desse pessoal. A verdade cristalina que precisa ser afirmada claramente, portanto, é que tudo que hoje se sabe sobre Cunha só foi exposto porque ele estava ganhando a parada contra o PT e não porque tenha em sua ficha qualquer coisa que o deslustre mais que todos os petistas presos e por prender ou os renan calheiros da vida atras dos quais o PT se escuda.

O STF que patrocinou a manobra, recorde-se, é o mesmo que, atirou o país às piranhas da “governabilidade” em 2006 quando derrubou a cláusula de barreira dos partidos em 5% dos votos nacionais e 2% em 9 estados arrancada a duras penas do Congresso. Aplicada teria tirado do páreo 22 dos 29 partidos então inscritos no TSE já no 2º governo Lula. Mas a viabilização da política não era o que o PT tinha em vista. Bem ao contrário. De lá para cá, ao atribuir parcelas do Fundo Partidário a cada deputado eleito, junto com o tempo de TV, o STF fixou um “valor nominal” para cada uma dessas “mercadorias”. Na expectativa de minar toda forma de resistência organizada ao seu projeto hegemômico, Lula e o PT, com os préstimos do STF, construíram, portanto, milímetro por milímetro o caos político que está a um passo de destruir o Brasil enquanto saqueavam o Estado para executá-lo.
Declarada a “inconstitucionalidade” de por ordem no bordel da política partidária arrematada pela recente decisão do mesmo STF de submeter os plenários da Câmara e do Senado às “lideranças” em detrimento das maiorias para por o impeachment de volta nas mãos de Leonardo Picciani, o Rei das Pedras da Cidade Olímpica, par perfeito de Renan Calheiros, o “goleiro” do impeachment plantado no Senado, das quais o voto do plenário o tinha tirado, o sucesso das operações comerciais do lulopetismo com vistas ao poder eterno passou a depender, como notou o ministro Dias Toffolli, único a denunciar o penúltimo golpe do STF no sistema representativo brasileiro, de “dialogar” suficientemente com 15 indivíduos num colegiado de 28.
Não funcionou para barrar o impeachment por enquanto, mas essa história ainda não acabou…
O resultado geral é que tudo isso completou a obra de inviabilização do Brasil iniciada com a Constituição de 1988 que, ao consagrar o privilégio outorgado pela baixa política como “direito adquirido” criou a moeda básica com que mestre Lula tratou de comprar seu esquema absoluto de poder contratando a desarrumação absoluta das finanças públicas que a Lei de Responsabilidade Fiscal pisoteada por Dilma conseguiu deter por alguns anos.
O resultado é que não tem jeito simples de consertar o que fizeram com o Brasil. Vai doer. Vai demorar. E muito. A descrição didática de como chegamos a isso, bilhão por bilhão, ainda que evitando o tom revanchista, é parte indescartável do mapa da saída. O tamanho da crise e da dor do povo serão os únicos trunfos de Temer. É a ele e só a ele que um governo de salvação nacional tem de se dirigir com a verdade, nada mais que a verdade, e muito, muito didatismo, negociando ao vivo cada costura política do processo. Se convencer o povo da sinceridade de seu diagnóstico e de seus propósitos, mostrando onde foi parar e para onde deveria retornar o dinheiro desviado da sustentação da economia nacional para a sustentação de um esquema de poder, o Congresso virá atras e estará transferida a quem atrapalhar queira o risco de postar-se à frente das saídas que a multidão dos desesperados comprar como as possíveis.
Eça e Machado nos previram
“O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Não há princípio que não seja desmentido nem instituição que não seja escarnecida. Já não se crê na honestidade dos homens públicos. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos, abandonados a uma rotina dormente. O desprezo pelas ideias aumenta a cada dia. A agiotagem explora o juro. A ignorância pesa sobre o povo como um nevoeiro. O número de escolas é dramático. A intriga política alastra-se por sobre a sonolência enfastiada do país. Não é uma existência; é uma expiação. Diz-se por toda parte: ‘O país está perdido!’(...) Por isso, aqui começamos a apontar o que podemos chamar de ‘o progresso da decadência’.
Não fui eu quem escreveu isso. Foi José Maria da Eça de Queiroz, em 1871. Esta era a introdução de “As Farpas”, que lançou com Ramalho Ortigão, ainda em Coimbra. Tinha pouco mais de 20 anos quando começou a esculachar em panfletos a mediocridade portuguesa no século XIX, que nos legou esta herança lamentável aqui em casa. Nada mais parecido conosco. Tudo que explode hoje já despontava há cem anos aqui e em Portugal, do qual somos uma xerox administrativa.
Esses textos de Eça, reunidos sob o título de “Uma Campanha Alegre”, foram justamente os primeiros que me caíram na mão. Fiquei deslumbrado com a crítica social e de costumes. Não sabia que isso existia – eu era um menino. Creio que minha vida de jornalista de TV, rádio e jornal foi remotamente influenciada por ele. Eça me dava a alma viva do século XIX, atacando a estupidez endêmica, os sebastianistas de secretaria, os burocratas pulhas, os políticos demagogos, a burrice épica de um Pacheco ou do conde de Abranhos – que fartura! Era uma sociologia ficcional de nosso destino de fracassados. Até hoje, quando vejo a TV Câmara ou a TV Senado, aquelas ricas jazidas de imbecilidades, vendo as caras, frases e gravatas, eu ainda penso: “Será que esses caras aí nunca leram Eça de Queiroz?” Não. Nada. Eles navegam intocados em sua vaidade estúpida, em sua impávida escrotidão.
Eça seria um grande cronista do momento no Brasil. O mundo ficou claro, por meio das personagens de Eça. Ali estavam explicados os arrepios de horror diante do teatrinho pequeno-burguês do Brasil. Já imaginaram como Eça descreveria as dezenas de caras “lombrosianas” que sujaram nossas TVs na hora da votação? Machado de Assis também descreveu a mesquinhez de nossa vida política. Mas Machado era mais sutil na descrição de nossos malfeitos de época. Eça era propositadamente mais “grosso”, digamos.
Entre Machado de Assis e Eça de Queiroz, sempre preferi o português a nosso grande mulato. “Ah... porque o Machado é bem mais sutil!...”, diz-se, comparando-se, por exemplo, Capitu à Luísa do “Primo Basílio” (que o próprio Machado, ciumento, acusou de plágio da “Eugenie Grandet”). “Aaah!... porque o Machado tem mais níveis de significação, mais complexidade psicológica etc.”. É verdade. Hoje, eu também acho. O grande Machado atingiu subtons que Eça nem tentou, por escolha. Machado é mais inglês (Sterne, Dickens); Eça é saído das costelas de Balzac e Zola e funda uma literatura caricatural contra as perdidas ilusões ibéricas, com um riso deslavado, com uma proposital “falta de sutileza” que resulta depois finíssima. Eça cria um realismo quase carnavalizado, sem anseios de transcendência. Machado é mais “nauseado”. Deixa-se envolver por um pessimismo que o claro riso de Eça recusa. O “tipo” eciano não tem grande “complexidade”; mas isso talvez seja o que nossa mediocridade social merece. Ele não cria personagens com uma psicologia sofisticada. Para ele, somos mesmo “tipos”. Como em seu neto Nelson Rodrigues, há nele uma superficialidade “profunda”, muito atual neste tempo em que os valores idealizados caíram no chão. Eça é um escritor político.
Quando comecei a ler Eça, minha vida mudou. Era como se toda a névoa confusa da infância, minha família difícil de entender, vagas tias, rezas, tristes salas de jantar, secos padres jesuítas, tivesse subitamente se dissipado. O primo Basílio chegava com sua vaidade brutal e encarnava os cafajestes brasileiros, o padre Amaro me decifrava a tristeza sexual das clausuras do Colégio Jesuíta, o conselheiro Acácio era a burrice solene de professores e políticos, Damaso Salcêde espelhava centenas de mediocridades gorduchas, Gonçalo Ramirez era o frágil caráter de hesitantes como eu. E vinha Thomaz de Alencar com sua literatice melancólica, vinha o banqueiro Cohen, esperto e corno, flutuava no ar o cheiro enjoado da Titi Patrocínio da “Relíquia”, sem falar no supremo frisson do famoso “minette” do primo Basílio na “Bovary” Luísa. Já imaginaram que circo de caricaturas Eça faria do adunco focinho de Cunha, do Lobão de negros cabelos, do Delcídio de brancos cabelos, da “vaselínica” figura de Renan de novos cabelos, do incorrigível Collor, do jaquetão do Sarney, dos olhinhos do Cerveró e tantas outras carantonhas? Nossos olhos estão mais críticos.
Esse homem foi a maior paixão de minha vida. Com ele aprendi tudo: minha pobre escritura, o ritmo de seu texto, a importância do humor, do sarcasmo e muito sobre nossa ridícula loucura ibérica.
Eu amava-o tanto que – acreditem – me postava na porta do colégio na hora da saída para ver passar um homenzinho da vizinhança ali de Botafogo que era um sósia de Eça. Quem seria? Um bancário, um contador, quem? Tinha o rosto enfezado por um fígado ruim (como o Eça), que lhe franzia a boca num escárnio risonho. Tinha a mesma pastinha de cabelo sobre a testa curta, o olho rútilo, o mesmo bigode, o gogozinho de pássaro, os braços de cegonha, a palidez biliosa. Só lhe faltava o monóculo cravado no olho irônico. Vê-lo passar me encantava como diante de um ressuscitado. Em vez de correr atrás de meninas, eu fazia isso. Pode?
Esses textos de Eça, reunidos sob o título de “Uma Campanha Alegre”, foram justamente os primeiros que me caíram na mão. Fiquei deslumbrado com a crítica social e de costumes. Não sabia que isso existia – eu era um menino. Creio que minha vida de jornalista de TV, rádio e jornal foi remotamente influenciada por ele. Eça me dava a alma viva do século XIX, atacando a estupidez endêmica, os sebastianistas de secretaria, os burocratas pulhas, os políticos demagogos, a burrice épica de um Pacheco ou do conde de Abranhos – que fartura! Era uma sociologia ficcional de nosso destino de fracassados. Até hoje, quando vejo a TV Câmara ou a TV Senado, aquelas ricas jazidas de imbecilidades, vendo as caras, frases e gravatas, eu ainda penso: “Será que esses caras aí nunca leram Eça de Queiroz?” Não. Nada. Eles navegam intocados em sua vaidade estúpida, em sua impávida escrotidão.
Eça seria um grande cronista do momento no Brasil. O mundo ficou claro, por meio das personagens de Eça. Ali estavam explicados os arrepios de horror diante do teatrinho pequeno-burguês do Brasil. Já imaginaram como Eça descreveria as dezenas de caras “lombrosianas” que sujaram nossas TVs na hora da votação? Machado de Assis também descreveu a mesquinhez de nossa vida política. Mas Machado era mais sutil na descrição de nossos malfeitos de época. Eça era propositadamente mais “grosso”, digamos.
Entre Machado de Assis e Eça de Queiroz, sempre preferi o português a nosso grande mulato. “Ah... porque o Machado é bem mais sutil!...”, diz-se, comparando-se, por exemplo, Capitu à Luísa do “Primo Basílio” (que o próprio Machado, ciumento, acusou de plágio da “Eugenie Grandet”). “Aaah!... porque o Machado tem mais níveis de significação, mais complexidade psicológica etc.”. É verdade. Hoje, eu também acho. O grande Machado atingiu subtons que Eça nem tentou, por escolha. Machado é mais inglês (Sterne, Dickens); Eça é saído das costelas de Balzac e Zola e funda uma literatura caricatural contra as perdidas ilusões ibéricas, com um riso deslavado, com uma proposital “falta de sutileza” que resulta depois finíssima. Eça cria um realismo quase carnavalizado, sem anseios de transcendência. Machado é mais “nauseado”. Deixa-se envolver por um pessimismo que o claro riso de Eça recusa. O “tipo” eciano não tem grande “complexidade”; mas isso talvez seja o que nossa mediocridade social merece. Ele não cria personagens com uma psicologia sofisticada. Para ele, somos mesmo “tipos”. Como em seu neto Nelson Rodrigues, há nele uma superficialidade “profunda”, muito atual neste tempo em que os valores idealizados caíram no chão. Eça é um escritor político.
Quando comecei a ler Eça, minha vida mudou. Era como se toda a névoa confusa da infância, minha família difícil de entender, vagas tias, rezas, tristes salas de jantar, secos padres jesuítas, tivesse subitamente se dissipado. O primo Basílio chegava com sua vaidade brutal e encarnava os cafajestes brasileiros, o padre Amaro me decifrava a tristeza sexual das clausuras do Colégio Jesuíta, o conselheiro Acácio era a burrice solene de professores e políticos, Damaso Salcêde espelhava centenas de mediocridades gorduchas, Gonçalo Ramirez era o frágil caráter de hesitantes como eu. E vinha Thomaz de Alencar com sua literatice melancólica, vinha o banqueiro Cohen, esperto e corno, flutuava no ar o cheiro enjoado da Titi Patrocínio da “Relíquia”, sem falar no supremo frisson do famoso “minette” do primo Basílio na “Bovary” Luísa. Já imaginaram que circo de caricaturas Eça faria do adunco focinho de Cunha, do Lobão de negros cabelos, do Delcídio de brancos cabelos, da “vaselínica” figura de Renan de novos cabelos, do incorrigível Collor, do jaquetão do Sarney, dos olhinhos do Cerveró e tantas outras carantonhas? Nossos olhos estão mais críticos.
Esse homem foi a maior paixão de minha vida. Com ele aprendi tudo: minha pobre escritura, o ritmo de seu texto, a importância do humor, do sarcasmo e muito sobre nossa ridícula loucura ibérica.
Eu amava-o tanto que – acreditem – me postava na porta do colégio na hora da saída para ver passar um homenzinho da vizinhança ali de Botafogo que era um sósia de Eça. Quem seria? Um bancário, um contador, quem? Tinha o rosto enfezado por um fígado ruim (como o Eça), que lhe franzia a boca num escárnio risonho. Tinha a mesma pastinha de cabelo sobre a testa curta, o olho rútilo, o mesmo bigode, o gogozinho de pássaro, os braços de cegonha, a palidez biliosa. Só lhe faltava o monóculo cravado no olho irônico. Vê-lo passar me encantava como diante de um ressuscitado. Em vez de correr atrás de meninas, eu fazia isso. Pode?
Dois momentos constrangedores
O ministério inteiro dos notáveis estava perfilado na sala ao lado do gabinete presidencial quando o primeiro-secretário da Câmara atravessou, a pé, a Praça dos Três Poderes, para levar ao presidente Fernando Collor a comunicação de que estava afastado do poder por 180 dias. O chefe do governo, com dignidade, chamou o ministro da Justiça, Célio Borja, para testemunhar sua assinatura no comunicado. Dirigiu-se então para a rampa do palácio do Planalto, de onde acompanhado pela esposa embarcou num helicóptero da FAB para sua residência particular. Uma amarga solenidade, mas impecável e cheia de significado.
Na noite de amanhã ou quinta-feira, bem cedo, irá repetir-se o episódio? Vinte anos atrás as manifestações populares de apoio ao afastamento do presidente foram por ele enfrentadas com altivez, seguindo-se depois a posse de Itamar Franco, cujo curto pronunciamento foi marcado pela esperança de que os benefícios da civilização e da cultura viessem a se estender a todos os brasileiros.
O senador encarregado de participar a Dilma o seu afastamento temporário cumprirá a obrigação em escassos momentos, mas Madame, como receberá o comunicado? Imagina-se que cercada pelo seu gabinete pessoal, mas jamais com o ministério ao lado. A maioria dos ministros escafedeu-se, fugindo da solidariedade necessária. Muitos estarão presentes na posse imediata de Michel Temer, de olho na composição do novo ministério.
Como à ainda presidente se destinará o palácio da Alvorada para o interregno, a pequena distância com o palácio do Planalto não se cumprirá pelo ar. Pequena caravana de limusines cobrirá o percurso, isso se a comunicação não acontecer na própria residência oficial.
Dois momentos constrangedores, de significado comum, mas o de agora vazio de conteúdo. A História só se repete como farsa. Assim como se previa que Collor não voltaria após os 180 dias de suspensão, da mesma forma se imagina que Madame não retornará. As causas são as mesmas: arrogância no desempenho das funções, presunção, truculência e falta de cuidados para com o Congresso, além de acusações de irregularidades no exercício do poder.
A partir de quinta-feira, começam as diferenças. Michel Temer ainda oscila entre as decisões a tomar. Hesita quanto a formar um ministério de notáveis e um bando de urubus impostos pelos partidos sequiosos de usufruir o poder.
Na noite de amanhã ou quinta-feira, bem cedo, irá repetir-se o episódio? Vinte anos atrás as manifestações populares de apoio ao afastamento do presidente foram por ele enfrentadas com altivez, seguindo-se depois a posse de Itamar Franco, cujo curto pronunciamento foi marcado pela esperança de que os benefícios da civilização e da cultura viessem a se estender a todos os brasileiros.
O senador encarregado de participar a Dilma o seu afastamento temporário cumprirá a obrigação em escassos momentos, mas Madame, como receberá o comunicado? Imagina-se que cercada pelo seu gabinete pessoal, mas jamais com o ministério ao lado. A maioria dos ministros escafedeu-se, fugindo da solidariedade necessária. Muitos estarão presentes na posse imediata de Michel Temer, de olho na composição do novo ministério.
Como à ainda presidente se destinará o palácio da Alvorada para o interregno, a pequena distância com o palácio do Planalto não se cumprirá pelo ar. Pequena caravana de limusines cobrirá o percurso, isso se a comunicação não acontecer na própria residência oficial.
Dois momentos constrangedores, de significado comum, mas o de agora vazio de conteúdo. A História só se repete como farsa. Assim como se previa que Collor não voltaria após os 180 dias de suspensão, da mesma forma se imagina que Madame não retornará. As causas são as mesmas: arrogância no desempenho das funções, presunção, truculência e falta de cuidados para com o Congresso, além de acusações de irregularidades no exercício do poder.
A partir de quinta-feira, começam as diferenças. Michel Temer ainda oscila entre as decisões a tomar. Hesita quanto a formar um ministério de notáveis e um bando de urubus impostos pelos partidos sequiosos de usufruir o poder.
A República à mercê do jogo político
A democracia brasileira é conduzida ao bel-prazer daqueles que dão as cartas no jogo político, e se isso ainda não estava claro, ficou explícito após a decisão do presidente interino da Câmara dos Deputados de anular a votação do impeachment de Dilma Rousseff na casa.
O processo foi acolhido pela Câmara dos Deputados sob a regência de Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que declarou guerra ao governo quando passou a ser investigado pela Operação Lava Jato. Assim, Cunha fez o impeachment avançar de forma acelerada e inexorável, e quando o processo já não estava mais em suas mãos, foi afastado da presidência da Câmara e de seu mandato como deputado, por decisão unânime do Supremo Tribunal Federal (STF), acusado de usar o cargo para impedir investigações contra ele.
E, apenas dois dias úteis após a saída de Cunha, seu substituto, o deputado Waldir Maranhão (PP-MA), vira o processo do avesso e anula a votação do dia 17 de abril. Seu principal argumento é que os partidos não poderiam ter interferido no voto dos parlamentares. Ele tem razões pessoais para se queixar dessa prática, pois sofreu retaliação de seu partido por ter votado contra o impeachment.
E todo esse tumulto não deve passar de um susto. Na prática, nada muda. O Senado já anunciou que vai manter o cronograma do impeachment, com votação prevista para esta quarta-feira (11/5). E mesmo que a votação na Câmara venha a ser anulada, uma segunda votação provavelmente teria o mesmo resultado, isto é, a decisão de Maranhão apenas protela o processo.
Tanto os argumentos para a abertura do processo de impeachment quanto para a anulação da votação são fracos e parecem apenas servir de pretexto para satisfazer interesses próprios. Independentemente de se concordar ou não com o processo de impeachment, o que assusta é os rumos da República estarem à mercê das vontades de políticos deste ou daquele grupo.
O que assusta é um processo tão importante como o afastamento de um presidente da República não transcorrer de forma objetiva, neutra e juridicamente fundamentada, mas estar sujeito aos ânimos de quem esteja sentado numa posição-chave, seja um aliado ou um opositor do governo.
E isso dá uma resposta clara àqueles que se perguntam se as instituições democráticas brasileiras são maduras. A resposta é não.
Francis França, editora-chefe da DW Brasil
O processo foi acolhido pela Câmara dos Deputados sob a regência de Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que declarou guerra ao governo quando passou a ser investigado pela Operação Lava Jato. Assim, Cunha fez o impeachment avançar de forma acelerada e inexorável, e quando o processo já não estava mais em suas mãos, foi afastado da presidência da Câmara e de seu mandato como deputado, por decisão unânime do Supremo Tribunal Federal (STF), acusado de usar o cargo para impedir investigações contra ele.
E todo esse tumulto não deve passar de um susto. Na prática, nada muda. O Senado já anunciou que vai manter o cronograma do impeachment, com votação prevista para esta quarta-feira (11/5). E mesmo que a votação na Câmara venha a ser anulada, uma segunda votação provavelmente teria o mesmo resultado, isto é, a decisão de Maranhão apenas protela o processo.
Tanto os argumentos para a abertura do processo de impeachment quanto para a anulação da votação são fracos e parecem apenas servir de pretexto para satisfazer interesses próprios. Independentemente de se concordar ou não com o processo de impeachment, o que assusta é os rumos da República estarem à mercê das vontades de políticos deste ou daquele grupo.
O que assusta é um processo tão importante como o afastamento de um presidente da República não transcorrer de forma objetiva, neutra e juridicamente fundamentada, mas estar sujeito aos ânimos de quem esteja sentado numa posição-chave, seja um aliado ou um opositor do governo.
E isso dá uma resposta clara àqueles que se perguntam se as instituições democráticas brasileiras são maduras. A resposta é não.
Francis França, editora-chefe da DW Brasil
Waldir Maranhão é o haraquiri do modelo podre
A situação do Brasil não está para otimismo. Mesmo assim, uma das frases mais ouvidas do momento é a seguinte: “As instituições estão funcionando.” Será? Há um quê de delírio nessa afirmação. A presença do deputado Waldir Maranhão no comando da Câmara é a penúltima evidência da alucinação coletiva.
Alguém que, em meio à descoberta de que o petrolão é um mensalão hipertrofiado, diante da evidência de que o Estado é saqueado pelos esquemas que o controlam, seduzido pela tese de que o PMDB é o mal menor, informado de que a linha sucessória da Presidência da República está apinhada de malfeitores, desalentado pela constatação de que Waldir Maranhão é o melhor que a Câmara tem a oferecer depois que o STF afastou Eduardo Cunha, ainda consegue conviver com a ideia de que as instituições funcionam ou é um cínico ou é um cego.
O delírio é contagioso. Muito elogiado pela eloquência com que defende Dilma Rousseff no processo do impeachment, o advogado-geral José Eduardo Cardozo convenceu-se de que é uma espécie de Fred Astaire do Direito. Assim como o astro do cinema que dançava até com vassouras, Cardozo imaginou que poderia tirar para dançar Waldir Maranhão, uma espécie de cabide humano que reproduz as ideias que lhe penduram no cérebro baldio.
O resultado da contradança foi o despacho que o mandachuva interino da Câmara assinou para anular a votação em que 367 deputados aprovaram a continuidade do processo de impeachment de Dilma Rousseff. O acinte durou menos de 24 horas. Anunciada pela manhã, a anulação foi ignorada por Renan Calheiros no meio da tarde e revogada no final da noite. Depois de expor o Brasil ao ridículo em âmbito planetário, o cabide se autodesmoralizou com dois documentos. Num, anulou a anulação do impeachment. Noutro, comunicou o rodopio a Renan (veja abaixo os documentos).
Waldir Maranhão deixou Cardozo sozinho no salão depois que seu partido, o PP, ameaçou expulsá-lo. Lambuzada no óleo queimado da Petrobras, a legenda está na bica de ser premiada no provável governo de Michel Temer com a presidência da Caixa Econômica e dois ministérios graúdos — Saúde e Agricultura. E não admite que um filiado com miolos de cabide coloque em risco os negócios.
A anulação do impeachment não foi o primeiro surto de Waldir Maranhão. Ele especializou-se em anular decisões do Conselho de Ética da Câmara, retardando a tramitação do pedido de cassação de Eduardo Cunha, perto de completar aniversário de seis meses. Cada vez que o personagem dá uma de cachorro louco há vergonha em pelo menos 428 consciências. Foi com essa quantidade de votos que o impensável elegeu-se vice-presidente da Câmara. Poucas vezes um desastre político teve tantos cúmplices disfarçados —83,4% dos 513 deputados com assento no plenário da Câmara precisam explicar por que votaram tão mal tão bem.
Ainda não surgiu melhor definição para democracia do que a tirada de Churchill: é o pior regime imaginável com exceção de todos os outros. Com o luxuoso auxílio do Planalto, o Congresso parece empenhado em dar razão a todos os que pregam as alternativas piores. A presença de Waldir Maranhão na direção da Câmara como alternativa a Eduardo Cunha não é obra do acaso. É como se o modelo político brasileiro, apodrecido, tentasse um haraquiri.
Alguém que, em meio à descoberta de que o petrolão é um mensalão hipertrofiado, diante da evidência de que o Estado é saqueado pelos esquemas que o controlam, seduzido pela tese de que o PMDB é o mal menor, informado de que a linha sucessória da Presidência da República está apinhada de malfeitores, desalentado pela constatação de que Waldir Maranhão é o melhor que a Câmara tem a oferecer depois que o STF afastou Eduardo Cunha, ainda consegue conviver com a ideia de que as instituições funcionam ou é um cínico ou é um cego.
O delírio é contagioso. Muito elogiado pela eloquência com que defende Dilma Rousseff no processo do impeachment, o advogado-geral José Eduardo Cardozo convenceu-se de que é uma espécie de Fred Astaire do Direito. Assim como o astro do cinema que dançava até com vassouras, Cardozo imaginou que poderia tirar para dançar Waldir Maranhão, uma espécie de cabide humano que reproduz as ideias que lhe penduram no cérebro baldio.
O resultado da contradança foi o despacho que o mandachuva interino da Câmara assinou para anular a votação em que 367 deputados aprovaram a continuidade do processo de impeachment de Dilma Rousseff. O acinte durou menos de 24 horas. Anunciada pela manhã, a anulação foi ignorada por Renan Calheiros no meio da tarde e revogada no final da noite. Depois de expor o Brasil ao ridículo em âmbito planetário, o cabide se autodesmoralizou com dois documentos. Num, anulou a anulação do impeachment. Noutro, comunicou o rodopio a Renan (veja abaixo os documentos).
Waldir Maranhão deixou Cardozo sozinho no salão depois que seu partido, o PP, ameaçou expulsá-lo. Lambuzada no óleo queimado da Petrobras, a legenda está na bica de ser premiada no provável governo de Michel Temer com a presidência da Caixa Econômica e dois ministérios graúdos — Saúde e Agricultura. E não admite que um filiado com miolos de cabide coloque em risco os negócios.
A anulação do impeachment não foi o primeiro surto de Waldir Maranhão. Ele especializou-se em anular decisões do Conselho de Ética da Câmara, retardando a tramitação do pedido de cassação de Eduardo Cunha, perto de completar aniversário de seis meses. Cada vez que o personagem dá uma de cachorro louco há vergonha em pelo menos 428 consciências. Foi com essa quantidade de votos que o impensável elegeu-se vice-presidente da Câmara. Poucas vezes um desastre político teve tantos cúmplices disfarçados —83,4% dos 513 deputados com assento no plenário da Câmara precisam explicar por que votaram tão mal tão bem.
Ainda não surgiu melhor definição para democracia do que a tirada de Churchill: é o pior regime imaginável com exceção de todos os outros. Com o luxuoso auxílio do Planalto, o Congresso parece empenhado em dar razão a todos os que pregam as alternativas piores. A presença de Waldir Maranhão na direção da Câmara como alternativa a Eduardo Cunha não é obra do acaso. É como se o modelo político brasileiro, apodrecido, tentasse um haraquiri.
Dilma, golpista, faz do cargo privada
Palácio do Planalto não é casa da mãe Joana, auditório do PT ou salão de prostíbulo. A "ocupação" dessa segunda-feira com a camarilha petista, é mais uma esculhambação com o país orquestrada por Dilma Rousseff. Como fechou os olhos aos assaltos aos cofres públicos pelos companheiros petistas, a senhora honesta também não vê a invasão do palácio, propriedade do Brasil, não sua ou de organizações sociais. Até se regala em ter súditos tão fiéis a bom soldo para festejar esse poder de uma rainha louca.
Se não fosse estar sendo acusada das pedaladas fiscais, ainda à beira de deixar a presidência, Dilma comete um crime em flagrante delito ao permitir que hordas mercenárias tome de assalto o palácio.
A defesa do Planalto não é patriotada. Representa o poder máximo de um país. Invasões de palácios só se realizam em golpes. Em lugar nenhum do mundo, mesmo sob ditaduras, palácios presidenciais ou reais serão desrespeitados por bagunceiros, sob a cumplicidade de um chefe de Estado. Seja Barack Obama ou Kim-Jon Il, mesmo que entre suas paredes se trame miséira para o povo, o palácio do Poder representa o respeito que se dá à própria nação e ao representante que lá está.
O gesto de Dilma, ao reiteradamente permitir que o palácio seja palco de suas representações, configura o máximo desrespeito ao país. É o incentivo a que pilantras mascarados de democratas, sem nenhuma representação popular, instalem o caos a favor de uma petralhada corrupta, desonesta e medíocre.
Se tanto alardeia que o impeachment é golpe, deveria ser expulsa a pontapés do palácio só por promover as tais manifestações naquele prédio. E não seria pena máxima, porque não se faz de um prédio de todos um circo de uns poucos canalhas.
Dilma assina a biografia de seus últimos dias no governo como usurpadora e golpista. Está fazendo o diabo como prometeu na campanha para assegurar o continuísmo do desastre. E extrapola todo o respeito que a própria presidência tem que ter com o público. Faz do cargo uma privada para todos os seus desvarios. Merece o que está colhendo.
Se não fosse estar sendo acusada das pedaladas fiscais, ainda à beira de deixar a presidência, Dilma comete um crime em flagrante delito ao permitir que hordas mercenárias tome de assalto o palácio.
O gesto de Dilma, ao reiteradamente permitir que o palácio seja palco de suas representações, configura o máximo desrespeito ao país. É o incentivo a que pilantras mascarados de democratas, sem nenhuma representação popular, instalem o caos a favor de uma petralhada corrupta, desonesta e medíocre.
Se tanto alardeia que o impeachment é golpe, deveria ser expulsa a pontapés do palácio só por promover as tais manifestações naquele prédio. E não seria pena máxima, porque não se faz de um prédio de todos um circo de uns poucos canalhas.
Dilma assina a biografia de seus últimos dias no governo como usurpadora e golpista. Está fazendo o diabo como prometeu na campanha para assegurar o continuísmo do desastre. E extrapola todo o respeito que a própria presidência tem que ter com o público. Faz do cargo uma privada para todos os seus desvarios. Merece o que está colhendo.
Desespero ultrapassa limite
Se vende a imagem de que sairia “lutando” e “com dignidade”, conforme seus assessores espalharam à medida em que seu afastamento se tornou inexorável, Dilma Rousseff apelou a uma farsa perigosa em sua última tentativa de manter-se na cadeira.
Usar o inacreditável Waldir Maranhão como marionete de uma artimanha jurídica que parece ter curtíssima validade e alto poder de disrupção demonstra que o desespero da petista ultrapassou o limite do direito ao esperneio.
O dólar disparou e a Bolsa de Valores despencou, para ficar nos sinais mais evidentes e superficiais da confusão armada. Mas o que fica é algo pior para a imagem do país: o flerte com a baderna institucional.
Pelas informações iniciais da Mesa da Câmara, parece não haver como um recurso desses prosperar, por soberano o plenário.
Fora o óbvio: dizer que 367 deputados votaram contra Dilma com um cabresto imposto pela orientação partidária é despropositado. Há muito a criticar no comportamento dos parlamentares naquele dia 17 de abril, mas certamente ninguém votou com uma arma na cabeça.
Como agravante, Dilma se fez de desentendida em discurso no começo da tarde. Se há alguma tentativa de golpe no país, como choramingam os petistas, ele passa por esse tipo de ação contra a normalidade institucional.
Por estarmos numa República que insiste em sua vocação bananeira, tudo parece possível, e novamente o Supremo Tribunal Federal deverá ser instado a imiscuir-se em questões de outro Poder – desta vez por culpa de um terceiro, o Executivo.
Nessas horas ganha atualidade a famosa frase de um embaixador brasileiro em Paris que é atribuída incorretamente ao presidente francês Charles de Gaulle: o Brasil não é um país sério.
Igor Gielow
Fazendo sua parte
segunda-feira, 9 de maio de 2016
De volta ao real
Tenho dito aqui que o tipo de governo que se instalou no Brasil e em alguns países latino-americanos – como Argentina, Venezuela, Bolívia e Equador – é uma espécie de populismo de esquerda, que de esquerda não tem nada. Tenho dito também que esse populismo – apelidado por Hugo Chávez de socialismo bolivariano – nasceu como uma alternativa ao regime de tipo soviético, que se esgotou e findou na década de 1980.
Ao dizer isso, não afirmo mais do que o óbvio, uma vez que, na origem dessa opção, estava a Revolução Cubana, inspiradora dos movimentos guerrilheiros surgidos em alguns países do continente. Esses movimentos, que naturalmente fracassaram, estão, portanto, na origem do atual populismo, que foi obrigado a desistir da luta e voltar-se para o caminho eleitoral.
Mas, vejam bem, ao traçar tal diagnóstico, não desconheço que esse populismo, para afirmar-se como redutor da desigualdade social, contribuiu para melhorar as condições de vida de milhões de pobres que viviam em condições sub-humanas.
As críticas que faço a esse tipo de regime é que ele, por um lado, se vale do assistencialismo para perpetuar-se no poder e, por outro, conduz os países à debacle econômica por optarem pelo assistencialismo em lugar do investimento produtivo. No fundo, mas de outro modo, incorrem no mesmo erro dos regimes comunistas: desconhecer que o capitalismo, ainda que injusto, é fonte de riqueza e desenvolvimento econômico.
Como já observamos em outra ocasião, esse populismo não é o mesmo em cada um dos países onde se implantou, embora, apesar disso, tenha cometido os mesmos erros em cada um deles e, não por acaso, entrou em colapso quase ao mesmo tempo. Na Argentina, em sua versão kirchnerista, já chegou ao fim e, na Venezuela, está prestes a acabar, ainda que de maneira quase hilariante.
Depois de criar o Vice-Ministério da Suprema Felicidade, Maduro reduziu o trabalho do funcionalismo público a apenas dois dias por semana e quer agora impedir que as mulheres usem secador de cabelo para assim reduzir o consumo de energia...
No Brasil não chegamos a tanto, porque não somos uma terra propícia ao realismo mágico de García Márquez. Não obstante, também aqui o populismo entrou igualmente em colapso, não diria que em função daquele realismo e, sim, do realismo corrupto que, se não é exclusividade nossa, parece que se tornou parte de nossa vida política.
Quem diria, por exemplo, que um partido como o PT, nascido sob o lema do "não rouba nem deixa roubar", fosse implantar no país um dos regimes mais corruptos de nossa história?
Não por acaso, esse é também o regime da mentira. E, se digo que não é por acaso, digo-o porque, em face dos últimos escândalos e de como se comportam os petistas e seus aliados, sou obrigado a acreditar que a mentira é inerente a esse tipo de militância política.
Nunca vi mentir com tamanho descaramento. Diria mesmo que a mentira é um elemento estrutural do procedimento político-administrativo que tem governado o país nestes últimos anos.
Senão vejamos: Lula implanta o mensalão, mente que foi traído e depois mente de novo ao dizer que foi tudo invenção da imprensa. Estoura o escândalo do petrolão, que leva à cadeia gente de seu partido e empresários amigos seus. Mas ele, sem qualquer constrangimento, afirma que se trata de uma conspiração para tirar o PT do poder.
Dilma segue o mesmo caminho, afirmando que o impeachment é golpe, embora tenha usado a grana das pedaladas para se reeleger. E mentiu durante toda a campanha eleitoral de 2014. Ainda assim –ou talvez por isso mesmo– nada evitará que o populismo petista chegue ao fim.
Dilma estará fora do governo. Mas me perguntam : o que virá depois? Pode-se confiar em Temer? Diante disso, minha resposta é a seguinte: também não sei o que virá depois, mas, dificilmente, será pior do que o que aí está. De qualquer modo, é melhor tentar mudar do que manter o que já não deu certo.
Ao dizer isso, não afirmo mais do que o óbvio, uma vez que, na origem dessa opção, estava a Revolução Cubana, inspiradora dos movimentos guerrilheiros surgidos em alguns países do continente. Esses movimentos, que naturalmente fracassaram, estão, portanto, na origem do atual populismo, que foi obrigado a desistir da luta e voltar-se para o caminho eleitoral.
Mas, vejam bem, ao traçar tal diagnóstico, não desconheço que esse populismo, para afirmar-se como redutor da desigualdade social, contribuiu para melhorar as condições de vida de milhões de pobres que viviam em condições sub-humanas.
As críticas que faço a esse tipo de regime é que ele, por um lado, se vale do assistencialismo para perpetuar-se no poder e, por outro, conduz os países à debacle econômica por optarem pelo assistencialismo em lugar do investimento produtivo. No fundo, mas de outro modo, incorrem no mesmo erro dos regimes comunistas: desconhecer que o capitalismo, ainda que injusto, é fonte de riqueza e desenvolvimento econômico.
Como já observamos em outra ocasião, esse populismo não é o mesmo em cada um dos países onde se implantou, embora, apesar disso, tenha cometido os mesmos erros em cada um deles e, não por acaso, entrou em colapso quase ao mesmo tempo. Na Argentina, em sua versão kirchnerista, já chegou ao fim e, na Venezuela, está prestes a acabar, ainda que de maneira quase hilariante.
Depois de criar o Vice-Ministério da Suprema Felicidade, Maduro reduziu o trabalho do funcionalismo público a apenas dois dias por semana e quer agora impedir que as mulheres usem secador de cabelo para assim reduzir o consumo de energia...
No Brasil não chegamos a tanto, porque não somos uma terra propícia ao realismo mágico de García Márquez. Não obstante, também aqui o populismo entrou igualmente em colapso, não diria que em função daquele realismo e, sim, do realismo corrupto que, se não é exclusividade nossa, parece que se tornou parte de nossa vida política.
Quem diria, por exemplo, que um partido como o PT, nascido sob o lema do "não rouba nem deixa roubar", fosse implantar no país um dos regimes mais corruptos de nossa história?
Não por acaso, esse é também o regime da mentira. E, se digo que não é por acaso, digo-o porque, em face dos últimos escândalos e de como se comportam os petistas e seus aliados, sou obrigado a acreditar que a mentira é inerente a esse tipo de militância política.
Nunca vi mentir com tamanho descaramento. Diria mesmo que a mentira é um elemento estrutural do procedimento político-administrativo que tem governado o país nestes últimos anos.
Senão vejamos: Lula implanta o mensalão, mente que foi traído e depois mente de novo ao dizer que foi tudo invenção da imprensa. Estoura o escândalo do petrolão, que leva à cadeia gente de seu partido e empresários amigos seus. Mas ele, sem qualquer constrangimento, afirma que se trata de uma conspiração para tirar o PT do poder.
Dilma segue o mesmo caminho, afirmando que o impeachment é golpe, embora tenha usado a grana das pedaladas para se reeleger. E mentiu durante toda a campanha eleitoral de 2014. Ainda assim –ou talvez por isso mesmo– nada evitará que o populismo petista chegue ao fim.
Dilma estará fora do governo. Mas me perguntam : o que virá depois? Pode-se confiar em Temer? Diante disso, minha resposta é a seguinte: também não sei o que virá depois, mas, dificilmente, será pior do que o que aí está. De qualquer modo, é melhor tentar mudar do que manter o que já não deu certo.
O último tango em Brasília
Naufragados na tristeza hoje veem em desatino, que um erro, um acidente, um desastre foi em nosso destino. Em nossa pobre vida pária, arrependimento. E nada mais.
Acompanhada de seus bacanas comandou o descaminho. Foi inepta, incompetente, e, sabemos, sem brilho. Errou tudo, principalmente onde não podia e não devia. Tarde agora para fazer sentido. Jamais voltará.
Mas se entregou ao jogo, enquanto interessava. Foi num tempo sem grandeza, quando tu, arrogante e imodesta, nos arrastava para pobreza de uma existência sem prazer.
Achava-se poderosa, bacana. A vida sorria em canto. Enquanto nos tratava como otários, brincava com a verdade, como um gato sem piedade que faz o rato padecer.
Hoje teus os olhos ficam cheios de promessas enganosas, dos amigos mentirosos, mercadores da ambição. Trazes na memoria registrada todas as farras do pecado, com delírios de grandeza, que hoje faz pena e tristeza. Tudo enraizado em ideias sem noção.
Nada temos a agradecer-te. Não estamos quites. Julgaremos o que fizeste quem ganhou, e quanto perdemos.
Pelos favores recebidos nós já pagamos muito caro. E se resta alguma conta esquecida em um canto, põe na conta dos otários que sempre te acompanharam.
Em todo este tempo, não houve triunfos. Nem mesmo passageiros. Somente promessas, mentiras, engodo. Por tudo isso passamos.
Que o chefão que te sustenta te acompanhe na jornada, em existência sem passeio, em ambiente sem luxos ou lisonjeio. Que os otários usuais te sigam sempre. Embora nem eles acreditem na tua inocência.
E amanhã, descartada como móvel velho, tua última esperança de retorno morrerá. Quando te faltar um auxílio, poderá somente lembrar o tempo no poder. Nem os amigos ouvirão seus pedidos. Que te digam os otários és uma boa mulher.
Acompanhada de seus bacanas comandou o descaminho. Foi inepta, incompetente, e, sabemos, sem brilho. Errou tudo, principalmente onde não podia e não devia. Tarde agora para fazer sentido. Jamais voltará.
Achava-se poderosa, bacana. A vida sorria em canto. Enquanto nos tratava como otários, brincava com a verdade, como um gato sem piedade que faz o rato padecer.
Hoje teus os olhos ficam cheios de promessas enganosas, dos amigos mentirosos, mercadores da ambição. Trazes na memoria registrada todas as farras do pecado, com delírios de grandeza, que hoje faz pena e tristeza. Tudo enraizado em ideias sem noção.
Nada temos a agradecer-te. Não estamos quites. Julgaremos o que fizeste quem ganhou, e quanto perdemos.
Pelos favores recebidos nós já pagamos muito caro. E se resta alguma conta esquecida em um canto, põe na conta dos otários que sempre te acompanharam.
Em todo este tempo, não houve triunfos. Nem mesmo passageiros. Somente promessas, mentiras, engodo. Por tudo isso passamos.
Que o chefão que te sustenta te acompanhe na jornada, em existência sem passeio, em ambiente sem luxos ou lisonjeio. Que os otários usuais te sigam sempre. Embora nem eles acreditem na tua inocência.
E amanhã, descartada como móvel velho, tua última esperança de retorno morrerá. Quando te faltar um auxílio, poderá somente lembrar o tempo no poder. Nem os amigos ouvirão seus pedidos. Que te digam os otários és uma boa mulher.
Merecíamos algo melhor
Que modo mais sinistro, esse, do PT, de despedir-se de longos 13 anos de poder.
Voltará à oposição depois do fracasso de Dilma, o último presidente que elegeu e reelegeu; da decadência do primeiro, Lula, sob o risco de ser preso por corrupção a qualquer momento; e de ter despencado no ranking dos partidos mais admirados pelos brasileiros.
O PT nunca deu nada de barato. Não daria agora.
Dilma foi abandonada por Lula no palanque do 1º de Maio, em São Paulo. De lá, telefonou para ele três vezes. E ouviu de Marisa que o marido estava afônico e febril. Não podia atendê-la, muito menos comparecer ao ato convocado pela Central Única dos Trabalhadores.
Dilma telefonou para o médico de Lula perguntando se ele estava de fato doente. O médico respondeu que não sabia. Que triste, não?
Queixa-se Lula de Dilma tê-lo abandonado quando a Lava-Jato começou a aproximar-se dos dois. Mais que nunca, era preciso que eles tocassem de ouvido para tentar escapar do juiz Sérgio Moro.
Mas Dilma não estava sujeita a Moro, e sim ao Supremo Tribunal Federal (STF) onde tem amigos. Pouco fez para salvar a face de Lula. E o que acabou fazendo produziu um monumental desastre.
Com a divulgação de uma série de conversas de Lula grampeadas, Moro deixou-o nu na frente do distinto público. E Lula, despido das fantasias concebidas pelo marketing, é muito feio. Sempre foi.
Uma das conversas, a de Dilma com Lula, flagrou a presidente da República avisando ao ex-presidente que um portador lhe entregaria cópia do ato de sua nomeação para Ministro-Chefe da Casa Civil.
Assim, se Moro mandasse prender Lula antes de ele tomar posse como ministro, Lula alegaria que sua nomeação já fora assinada por Dilma, e que, portanto, ele só poderia ser preso por ordem do STF.
Manobra escandalosa para obstruir a Justiça! Que custou a Lula a suspensão de sua posse. E a ele e a Dilma, um pedido do Procurador Geral da República para que sejam investigados por isso.
O Senado, depois de amanhã, aceitará a instalação de processo para julgar Dilma por despesas feitas sem autorização do Congresso. De imediato, ela será afastada do cargo e se recolherá à solidão do Palácio da Alvorada à espera do julgamento.
Assumirá o vice Michel Temer. E Lula seguirá vivendo o pesadelo diário de ser acordado por agentes da Polícia Federal. Que triste, não? Mas merecido.
O país merece líderes e governos melhores. O desafio de Temer é esse. E ele não terá muito tempo para vencê-lo.
Infelizmente, e com razão de sobra, ganha corpo dentro e fora do Congresso a impressão de que nada deverá ser mais parecido com o governo Dilma do que o governo Temer.
Haverá maior racionalidade econômica, ninguém duvida. Mas isso só não basta.
A base de apoio de Temer no Congresso será praticamente a mesma que subtraiu a Dilma tudo o que pôde para depois largá-la de mão.
O governo que está no fim tem nomes citados na Lava-Jato. O governo ainda em fase de montagem também terá. Temer nada vê de negativo nisso. Parece não ter tirado lição alguma da decisão do STF de suspender o mandato de Eduardo Cunha.
Temer cogitou atrair nomes “notáveis” para seu governo. Desistiu, ao que tudo indica. No momento, troca ministérios por votos no Senado para impedir a improvável volta de Dilma ao cargo em um prazo de até 180 dias.
Que triste, não? Merecíamos algo melhor.
Voltará à oposição depois do fracasso de Dilma, o último presidente que elegeu e reelegeu; da decadência do primeiro, Lula, sob o risco de ser preso por corrupção a qualquer momento; e de ter despencado no ranking dos partidos mais admirados pelos brasileiros.
O PT nunca deu nada de barato. Não daria agora.
Dilma foi abandonada por Lula no palanque do 1º de Maio, em São Paulo. De lá, telefonou para ele três vezes. E ouviu de Marisa que o marido estava afônico e febril. Não podia atendê-la, muito menos comparecer ao ato convocado pela Central Única dos Trabalhadores.
Queixa-se Lula de Dilma tê-lo abandonado quando a Lava-Jato começou a aproximar-se dos dois. Mais que nunca, era preciso que eles tocassem de ouvido para tentar escapar do juiz Sérgio Moro.
Mas Dilma não estava sujeita a Moro, e sim ao Supremo Tribunal Federal (STF) onde tem amigos. Pouco fez para salvar a face de Lula. E o que acabou fazendo produziu um monumental desastre.
Com a divulgação de uma série de conversas de Lula grampeadas, Moro deixou-o nu na frente do distinto público. E Lula, despido das fantasias concebidas pelo marketing, é muito feio. Sempre foi.
Uma das conversas, a de Dilma com Lula, flagrou a presidente da República avisando ao ex-presidente que um portador lhe entregaria cópia do ato de sua nomeação para Ministro-Chefe da Casa Civil.
Assim, se Moro mandasse prender Lula antes de ele tomar posse como ministro, Lula alegaria que sua nomeação já fora assinada por Dilma, e que, portanto, ele só poderia ser preso por ordem do STF.
Manobra escandalosa para obstruir a Justiça! Que custou a Lula a suspensão de sua posse. E a ele e a Dilma, um pedido do Procurador Geral da República para que sejam investigados por isso.
O Senado, depois de amanhã, aceitará a instalação de processo para julgar Dilma por despesas feitas sem autorização do Congresso. De imediato, ela será afastada do cargo e se recolherá à solidão do Palácio da Alvorada à espera do julgamento.
Assumirá o vice Michel Temer. E Lula seguirá vivendo o pesadelo diário de ser acordado por agentes da Polícia Federal. Que triste, não? Mas merecido.
O país merece líderes e governos melhores. O desafio de Temer é esse. E ele não terá muito tempo para vencê-lo.
Infelizmente, e com razão de sobra, ganha corpo dentro e fora do Congresso a impressão de que nada deverá ser mais parecido com o governo Dilma do que o governo Temer.
Haverá maior racionalidade econômica, ninguém duvida. Mas isso só não basta.
A base de apoio de Temer no Congresso será praticamente a mesma que subtraiu a Dilma tudo o que pôde para depois largá-la de mão.
O governo que está no fim tem nomes citados na Lava-Jato. O governo ainda em fase de montagem também terá. Temer nada vê de negativo nisso. Parece não ter tirado lição alguma da decisão do STF de suspender o mandato de Eduardo Cunha.
Temer cogitou atrair nomes “notáveis” para seu governo. Desistiu, ao que tudo indica. No momento, troca ministérios por votos no Senado para impedir a improvável volta de Dilma ao cargo em um prazo de até 180 dias.
Que triste, não? Merecíamos algo melhor.
O Ministério da Frustração mostra que nada mudou
Quinta-feira, senão antes, o país conhecerá o ministério de Michel Temer. Já se pode adjetivá-lo como “ministério da frustração”, pelos nomes que vem sendo indicados. São os mesmos, ou seja, representantes de partidos que para apoiar o novo governo disputam as maiores verbas orçamentárias e um sem número de facilidades. Será a festa de legendas grandes e pequenas, bem como de líderes ávidos de mais poder eleitoral e, certamente, financeiro.
Nada mudou. Basta atentar para os nomes dos novos ministros, sem qualquer ligação com as atividades de cada pasta. Notáveis, ou quase, só dois ou três.
Afaste-se a tentação de fulanizá-los, até porque, com as raras exceções, ninguém os conhece. Michel Temer passará pela mesma dificuldade de Dilma Rousseff e, em boa parte, do Lula: a impossibilidade de referi-los nominalmente nas primeiras semanas, muito menos suas qualidades e potenciais. Salvam-se Henrique Meirelles, José Serra e mais quem?
Tudo o que o novo presidente prometeu ou sugeriu desfez-se num festival de fisiologismo explícito em nada diferente dos últimos governos do PT. Os novos ministros, como os anteriores, nenhuma ligação possuem com as obrigações de seus ministérios. Vão nomear, patrocinar favores, senão sinecuras, favorecer grupos capazes de retribuí-los com aumento de patrimônio e influências variadas.
Sequer a promessa da diminuição do número de ministérios o ainda vice-presidente conseguiu manter. Esqueceu as boas intenções de buscar na sociedade os melhores em cada setor. Luminares, nem pensar. De preferência, parlamentares dóceis às imposições de seus partidos.
Em suma, nada de novo no pantanal da incompetência e da avidez. A pergunta que começa a ser feita é sobre quanto tempo vai durar a submissão até que se volte a falar em reforma da equipe ou, com certeza, na perspectiva de um novo impeachment.
Nada mudou. Basta atentar para os nomes dos novos ministros, sem qualquer ligação com as atividades de cada pasta. Notáveis, ou quase, só dois ou três.
Afaste-se a tentação de fulanizá-los, até porque, com as raras exceções, ninguém os conhece. Michel Temer passará pela mesma dificuldade de Dilma Rousseff e, em boa parte, do Lula: a impossibilidade de referi-los nominalmente nas primeiras semanas, muito menos suas qualidades e potenciais. Salvam-se Henrique Meirelles, José Serra e mais quem?
Tudo o que o novo presidente prometeu ou sugeriu desfez-se num festival de fisiologismo explícito em nada diferente dos últimos governos do PT. Os novos ministros, como os anteriores, nenhuma ligação possuem com as obrigações de seus ministérios. Vão nomear, patrocinar favores, senão sinecuras, favorecer grupos capazes de retribuí-los com aumento de patrimônio e influências variadas.
Sequer a promessa da diminuição do número de ministérios o ainda vice-presidente conseguiu manter. Esqueceu as boas intenções de buscar na sociedade os melhores em cada setor. Luminares, nem pensar. De preferência, parlamentares dóceis às imposições de seus partidos.
Em suma, nada de novo no pantanal da incompetência e da avidez. A pergunta que começa a ser feita é sobre quanto tempo vai durar a submissão até que se volte a falar em reforma da equipe ou, com certeza, na perspectiva de um novo impeachment.
Realidade é dura, mas tem cura
Suportar o presente com os olhos abertos é muito pesado. E mesmo sabendo que fechando os olhos não vamos resolver nada, fazemo-lo constantementeAlberto Manguel
Não há plano B
Político não tem crédito, tem débito. Dar cheque em branco, como o voto obrigatório, e confiar em promessas, quando até as de santos falham, viu-se que é perigo na certa. Sente-se hoje o castigo, que veio a cavalo.
Michel Temer está aí para provar. As ruas foram contra Dilma e o PT, mas não imploraram pelo vice. Desejaram mudança constitucional. Na medida do possível, nesta mixórdia brasileira, até que saíram-se bem. Foi o que restou.
Os manifestantes pediram mudança de governo para que não morresse a esperança. E é isso que conta, porque Temer não é Dilma, embora haja tanta semelhança no jeitinho fisiológico de governar. Nem seria possível outra coisa. Afinal são anos de demagogia típica do coronelismo político que deixaram a boca torta.
Há poucas pouquíssimas certezas em tantas incertezas. De momento é de rei morto, rei posto dentro dos protocolos estabelecidos pelo STF. Outra é de que
Temer não é nenhuma Brastemp nem muito menos poste. Vai funcionar como tampão reciclado. Exigir mais é impossível, nem reclamar no Procon por propaganda enganosa.
O vice mostra o insuperável cacoete político de cacique. Quem esperava coisa melhor contente-se com o que está aí. Sequer estadista ou salvador da pátria, Temer foi mais para mordomo sempre assistindo aos governos. Não seria diferente agora investido no executivo.
O resto fica ao Deus dará se Ele ainda for brasileiro ou ter um xodó pela terrinha. De forma que é rezar e esperar para que se consiga um mínimo de governabilidade. Não é o ideal, mas no momento tem que servir. Ainda mais que não se tem plano B para estancar a sangria financeira até 2018.
Michel Temer está aí para provar. As ruas foram contra Dilma e o PT, mas não imploraram pelo vice. Desejaram mudança constitucional. Na medida do possível, nesta mixórdia brasileira, até que saíram-se bem. Foi o que restou.
Os manifestantes pediram mudança de governo para que não morresse a esperança. E é isso que conta, porque Temer não é Dilma, embora haja tanta semelhança no jeitinho fisiológico de governar. Nem seria possível outra coisa. Afinal são anos de demagogia típica do coronelismo político que deixaram a boca torta.
Há poucas pouquíssimas certezas em tantas incertezas. De momento é de rei morto, rei posto dentro dos protocolos estabelecidos pelo STF. Outra é de que
Temer não é nenhuma Brastemp nem muito menos poste. Vai funcionar como tampão reciclado. Exigir mais é impossível, nem reclamar no Procon por propaganda enganosa.

O resto fica ao Deus dará se Ele ainda for brasileiro ou ter um xodó pela terrinha. De forma que é rezar e esperar para que se consiga um mínimo de governabilidade. Não é o ideal, mas no momento tem que servir. Ainda mais que não se tem plano B para estancar a sangria financeira até 2018.
O PT enfraqueceu a esquerda e fortaleceu a direita
O PT tinha um discurso tão mentiroso de esquerda quanto foi mentirosa Dilma Rousseff ao falar nos palanques que a economia do Brasil ia bem e que teríamos um 2015 de progresso e crescimento. O PT se travestiu de esquerda, sem o ser, como foi demonstrado a todos, mas nem todos são bons entendedores. Diante do que o PT fez e ainda achando que se trata de um partido de esquerda, para uma grande massa de pessoas a esquerda é assim mesmo.
Tem uma parte de razão e outra de desrazão a declaração de Frei Betto de que: “Não creio na recuperação do PT, infelizmente. Ele jogou na lata de lixo da história os três capitais simbólicos que o caracterizavam na origem: ser o partido da ética; ser o partido da organização da classe trabalhadora; ser o partido do horizonte socialista para o Brasil, o que traria mudanças estruturais. O envolvimento de alguns de seus dirigentes na corrupção ficará como uma ferida incicatrizável.”
Lula, que é o protótipo e dono do PT, nunca teve ética. Realmente organizou setores da classe trabalhadora com seu discurso populista, mas o PT nunca foi prenúncio de um horizonte socialista para o Brasil. O programa de governo do PT foi sempre eternizar-se no poder, enriquecer com dinheiro ilícito seus principais dirigentes, sumir com quem se interpusesse no seu caminho, como foi o caso de Celso Daniel, e dane-se o futuro.
Pergunte-se a Lula e a seus pupilos o que será do Brasil a longo prazo. A resposta, certamente será como a de John Maynard Keynes, 1883-1946, economista inglês, ao ser perguntado no que resultaria da economia a longo prazo. Keynes respondeu: “A longo prazo estaremos todos mortos”.
A falta de visão e o fanatismo produzem em Frei Betto um sacrilégio, ao dizer que “os governos Lula e o primeiro de Dilma foram os melhores de nossa história republicana”. Significa que até hoje ele não tem um juízo crítico do que foram os governos Lula e Dilma, se em nossa história republicana tivemos Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e Itamar Franco. Até os governos da ditadura militar foram melhores do que os governos do PT.
Lula e o PT, embora nunca tenham sido de esquerda, queimaram todo o filme da esquerda brasileira, que não tem nada a ver com o PT. A única afirmação de Frei Betto que está correta, mesmo porque se torna óbvia, é de que o próximo governo e o próximo Congresso serão de direita. Isso significa que o PT foi o grande garoto-propaganda da direita e mesmo até da extrema-direita, a exemplo do prestígio atual de Jair Bolsonaro, que tem milhões de seguidores.
Tem uma parte de razão e outra de desrazão a declaração de Frei Betto de que: “Não creio na recuperação do PT, infelizmente. Ele jogou na lata de lixo da história os três capitais simbólicos que o caracterizavam na origem: ser o partido da ética; ser o partido da organização da classe trabalhadora; ser o partido do horizonte socialista para o Brasil, o que traria mudanças estruturais. O envolvimento de alguns de seus dirigentes na corrupção ficará como uma ferida incicatrizável.”
Lula, que é o protótipo e dono do PT, nunca teve ética. Realmente organizou setores da classe trabalhadora com seu discurso populista, mas o PT nunca foi prenúncio de um horizonte socialista para o Brasil. O programa de governo do PT foi sempre eternizar-se no poder, enriquecer com dinheiro ilícito seus principais dirigentes, sumir com quem se interpusesse no seu caminho, como foi o caso de Celso Daniel, e dane-se o futuro.
Pergunte-se a Lula e a seus pupilos o que será do Brasil a longo prazo. A resposta, certamente será como a de John Maynard Keynes, 1883-1946, economista inglês, ao ser perguntado no que resultaria da economia a longo prazo. Keynes respondeu: “A longo prazo estaremos todos mortos”.
A falta de visão e o fanatismo produzem em Frei Betto um sacrilégio, ao dizer que “os governos Lula e o primeiro de Dilma foram os melhores de nossa história republicana”. Significa que até hoje ele não tem um juízo crítico do que foram os governos Lula e Dilma, se em nossa história republicana tivemos Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e Itamar Franco. Até os governos da ditadura militar foram melhores do que os governos do PT.
Lula e o PT, embora nunca tenham sido de esquerda, queimaram todo o filme da esquerda brasileira, que não tem nada a ver com o PT. A única afirmação de Frei Betto que está correta, mesmo porque se torna óbvia, é de que o próximo governo e o próximo Congresso serão de direita. Isso significa que o PT foi o grande garoto-propaganda da direita e mesmo até da extrema-direita, a exemplo do prestígio atual de Jair Bolsonaro, que tem milhões de seguidores.
Lula e Dilma, uma farsa em cinco atos
Época houve em que os esquerdistas brasileiros liam muito. Liam só marxismo, mas liam, o que não é dizer pouco. Com o tempo, o hábito desapareceu; a geração atual, pelo que me consta, nem marxismo lê. Lula pertence a uma geração intermediária, mas, por motivos diferentes, tampouco parece ter adquirido o hábito da leitura.
É por isso que as esquerdas atuais desconhecem um dos trechos mais valiosos da literatura marxista: o chamado “testamento político” do grande líder da revolução russa de 1917, Vladimir Ilyich Lenin. No fim de 1922, já muito doente, Lenin decidiu advertir os altos dirigentes do Partido Comunista contra os riscos representados pelo crescente poder de Josef Stalin como secretário-geral, recomendando seu afastamento. Nadia Krupskaia, sua mulher, levou-lhes a carta no início de 1924, mas os dirigentes não deram ouvidos à recomendação de Lenin, decisão que muitos deles acabaram pagando com a vida.
Na mensagem mencionada, Lenin escreveu o seguinte: “A questão da personalidade poderia parecer secundária, mas é uma daquelas coisas secundárias que podem acabar adquirindo uma significação decisiva”. Preocupado com o futuro do partido e da própria revolução, acrescentou que certos traços de caráter de Stalin – notadamente sua “rudeza” e sua tendência a fazer política na base da “malícia” – tornavam perigosa a permanência dele à frente da secretaria-geral. Era preciso substituí-lo naquele poderoso cargo por alguém “mais tolerante, mais leal, mais cordial”, que tivesse “mais consideração por seus camaradas”, que não fosse “tão caprichoso”, etc.
O que tem o testamento de Lenin que ver com a presente conjuntura brasileira, cujo pivô é o impeachment de Dilma Rousseff? Muito simples. O impeachment será o fim de uma farsa cuidadosamente arquitetada, pela qual o Brasil já está pagando, e pagará ainda por vários anos, um preço altíssimo. Um retrocesso econômico terrível e um brutal aumento do desemprego, responsáveis pelo empobrecimento de milhões de famílias que já antes sobreviviam com poucos meios.
Toda farsa que se preze envolve pelo menos dois farsantes; essa a que vou me referir teve Lula e Dilma Rousseff nos papéis principais. Não sei se Lula tem a inteligência que lhe é atribuída, sei apenas que ele faz política com base muito mais numa malícia aprendida e aprimorada nos meios sindicais do que por uma concepção minimamente cívica da vida pública. É acima de tudo um esperto.
A farsa começou lá atrás, quando Lula mandou Dilma Rousseff presidir o Conselho de Administração da Petrobrás. Por que o fez? Três hipóteses me parecem cabíveis. É possível que ele sinceramente acreditasse na competência dela. Ou que a considerasse incapaz de desvendar a teia de corrupção lá instalada. Ou, ainda, por saber que ela a desvendaria, mas não se furtaria a dançar conforme a música.
O segundo momento da farsa foi a eleição de 2010, sobre a qual serei sucinto. Lula tinha uma certeza e um objetivo. A certeza era a de que, com seus próprios recursos, Dilma não se elegeria nem para a Câmara Municipal de Porto Alegre, onde residia. Mas ele, Lula, com mais de 80% de popularidade, dinheiro jorrando da cornucópia da Petrobrás e o marqueteiro João Santana a tiracolo, a conduziria ao Planalto com um pé nas costas. O objetivo era colocar na Presidência uma pessoa que combinasse as virtudes de um poste com as de um cão: a passividade do primeiro e a fidelidade do segundo. De quebra, o chefão petista impediria o surgimento de um rival dentro do partido. Foi docemente constrangida, imagino, que Dilma aquiesceu.
O terceiro momento, é escusado lembrar, foi a campanha eleitoral de 2014. Àquela altura, a catástrofe econômica já comia solta. A questão central era (e continua a ser) a deterioração das contas públicas. Em qualquer país onde as promessas feitas durante a campanha eleitoral sejam levadas um pouco mais a sério, Dilma teria de admitir a inexorabilidade do ajuste fiscal. Mas, hélas!, não admitiu; ao contrário, atribuiu a seu adversário a intenção de fazer o que ela sabia ser inevitável. Explica-se: no leme encontravam-se Lula, João Santana e ela mesma, um trio habituado à malícia e a uma não menos pronunciada prepotência como instrumentos de ação política.
O quarto momento, ainda em curso, mas, felizmente, já na reta final, é o impeachment. Talvez por causa da indisponibilidade de João Santana, preso em Curitiba, a farsa encenada por Lula e Dilma perdeu qualidade. Em que pese sua proverbial esperteza, Lula comportou-se como um jejuno em política. Não percebendo o alcance das manifestações de apoio ao impeachment (e ao juiz Sergio Moro?), pensou que a sociedade brasileira continuaria a acreditar em qualquer coisa que ele dissesse e aceitaria qualquer coisa que fizesse. Instalado numa suíte do hotel Golden Tulip, em Brasília, subestimou o instinto de sobrevivência e, por que não dizê-lo, os brios dos deputados federais, a maioria dos quais ele sempre tratou como “picaretas”. Imaginou que consciência alguma resistiria à força combinada de suas “negociações” com a eficiência de Dilma apressando as edições especiais do Diário Oficial da União. Como se não bastasse, os dois ainda acreditaram que a maioria dos cidadãos e do Congresso Nacional retrocederia ante a tentativa de pintar o impeachment como golpe.
No quinto e último ato, finalmente, Dilma Rousseff desistiu de se apresentar como farsante. Para se segurar no cargo não vacilou em denegrir a imagem do Brasil no exterior, fez discursos tão patéticos quanto reveladores e, no grand finale, decretou “bondades” diversas, ratificando o figurino populista-esquerdoide de sua concepção de política.
Bolívar Lamounier
É por isso que as esquerdas atuais desconhecem um dos trechos mais valiosos da literatura marxista: o chamado “testamento político” do grande líder da revolução russa de 1917, Vladimir Ilyich Lenin. No fim de 1922, já muito doente, Lenin decidiu advertir os altos dirigentes do Partido Comunista contra os riscos representados pelo crescente poder de Josef Stalin como secretário-geral, recomendando seu afastamento. Nadia Krupskaia, sua mulher, levou-lhes a carta no início de 1924, mas os dirigentes não deram ouvidos à recomendação de Lenin, decisão que muitos deles acabaram pagando com a vida.
Na mensagem mencionada, Lenin escreveu o seguinte: “A questão da personalidade poderia parecer secundária, mas é uma daquelas coisas secundárias que podem acabar adquirindo uma significação decisiva”. Preocupado com o futuro do partido e da própria revolução, acrescentou que certos traços de caráter de Stalin – notadamente sua “rudeza” e sua tendência a fazer política na base da “malícia” – tornavam perigosa a permanência dele à frente da secretaria-geral. Era preciso substituí-lo naquele poderoso cargo por alguém “mais tolerante, mais leal, mais cordial”, que tivesse “mais consideração por seus camaradas”, que não fosse “tão caprichoso”, etc.
O que tem o testamento de Lenin que ver com a presente conjuntura brasileira, cujo pivô é o impeachment de Dilma Rousseff? Muito simples. O impeachment será o fim de uma farsa cuidadosamente arquitetada, pela qual o Brasil já está pagando, e pagará ainda por vários anos, um preço altíssimo. Um retrocesso econômico terrível e um brutal aumento do desemprego, responsáveis pelo empobrecimento de milhões de famílias que já antes sobreviviam com poucos meios.
Toda farsa que se preze envolve pelo menos dois farsantes; essa a que vou me referir teve Lula e Dilma Rousseff nos papéis principais. Não sei se Lula tem a inteligência que lhe é atribuída, sei apenas que ele faz política com base muito mais numa malícia aprendida e aprimorada nos meios sindicais do que por uma concepção minimamente cívica da vida pública. É acima de tudo um esperto.
A farsa começou lá atrás, quando Lula mandou Dilma Rousseff presidir o Conselho de Administração da Petrobrás. Por que o fez? Três hipóteses me parecem cabíveis. É possível que ele sinceramente acreditasse na competência dela. Ou que a considerasse incapaz de desvendar a teia de corrupção lá instalada. Ou, ainda, por saber que ela a desvendaria, mas não se furtaria a dançar conforme a música.
O segundo momento da farsa foi a eleição de 2010, sobre a qual serei sucinto. Lula tinha uma certeza e um objetivo. A certeza era a de que, com seus próprios recursos, Dilma não se elegeria nem para a Câmara Municipal de Porto Alegre, onde residia. Mas ele, Lula, com mais de 80% de popularidade, dinheiro jorrando da cornucópia da Petrobrás e o marqueteiro João Santana a tiracolo, a conduziria ao Planalto com um pé nas costas. O objetivo era colocar na Presidência uma pessoa que combinasse as virtudes de um poste com as de um cão: a passividade do primeiro e a fidelidade do segundo. De quebra, o chefão petista impediria o surgimento de um rival dentro do partido. Foi docemente constrangida, imagino, que Dilma aquiesceu.
O terceiro momento, é escusado lembrar, foi a campanha eleitoral de 2014. Àquela altura, a catástrofe econômica já comia solta. A questão central era (e continua a ser) a deterioração das contas públicas. Em qualquer país onde as promessas feitas durante a campanha eleitoral sejam levadas um pouco mais a sério, Dilma teria de admitir a inexorabilidade do ajuste fiscal. Mas, hélas!, não admitiu; ao contrário, atribuiu a seu adversário a intenção de fazer o que ela sabia ser inevitável. Explica-se: no leme encontravam-se Lula, João Santana e ela mesma, um trio habituado à malícia e a uma não menos pronunciada prepotência como instrumentos de ação política.
O quarto momento, ainda em curso, mas, felizmente, já na reta final, é o impeachment. Talvez por causa da indisponibilidade de João Santana, preso em Curitiba, a farsa encenada por Lula e Dilma perdeu qualidade. Em que pese sua proverbial esperteza, Lula comportou-se como um jejuno em política. Não percebendo o alcance das manifestações de apoio ao impeachment (e ao juiz Sergio Moro?), pensou que a sociedade brasileira continuaria a acreditar em qualquer coisa que ele dissesse e aceitaria qualquer coisa que fizesse. Instalado numa suíte do hotel Golden Tulip, em Brasília, subestimou o instinto de sobrevivência e, por que não dizê-lo, os brios dos deputados federais, a maioria dos quais ele sempre tratou como “picaretas”. Imaginou que consciência alguma resistiria à força combinada de suas “negociações” com a eficiência de Dilma apressando as edições especiais do Diário Oficial da União. Como se não bastasse, os dois ainda acreditaram que a maioria dos cidadãos e do Congresso Nacional retrocederia ante a tentativa de pintar o impeachment como golpe.
No quinto e último ato, finalmente, Dilma Rousseff desistiu de se apresentar como farsante. Para se segurar no cargo não vacilou em denegrir a imagem do Brasil no exterior, fez discursos tão patéticos quanto reveladores e, no grand finale, decretou “bondades” diversas, ratificando o figurino populista-esquerdoide de sua concepção de política.
Bolívar Lamounier
É possível comprar um país?
Uma onda generalizada de aquisições de terra percorre o mundo. Grandes investidores estão gastando milhões na compra de terrenos, principalmente para a agricultura e pecuária. Mas o fenômeno levanta dúvidas. Trata-se de um novo colonialismo? Comprar uma parte significativa de um país compromete sua soberania ou as suspeitas que essas operações geram são uma mera desculpa protecionista? A suspensão na Austrália da venda de uma grande extensão de terra — equivalente a 1% de seu território — a um consórcio liderado por uma empresa chinesa é o exemplo mais recente sobre a cautela em relação a esse tipo de negócio.
| Comboio de gado da S. Kidman |
A centenária S. Kidman & Co., que está no centro da polêmica, é especializada na criação de gado para exportação de carne e controla pastagens de cerca de 100.000 quilômetros quadrados (equivalente a um quinto da Espanha). O consórcio liderado pela chinesa Shanghai Pengxin Group, do qual também participam empresas australianas, fez uma oferta pela área, avaliada em cerca de 1,3 bilhão de reais. Mas o Tesouro australiano suspendeu a operação, levantando dúvidas se a oferta atende aos interesses nacionais, devido "à dimensão e importância" desses ativos, que abrigam cerca de 200.000 cabeças de gado. Uma possibilidade seria vender o terreno em áreas menores, porque, segundo as autoridades australianas, nenhum país permitiria que o capital estrangeiro ficasse com tamanha extensão do próprio território. No ano passado, a vizinha Nova Zelândia já havia rejeitado uma oferta semelhante da mesma empresa.
Em países menos ricos, é mais difícil impedir esse tipo de operação. O apetite de Pequim para comprar terrenos é bem conhecido na África, que é de longe a região que mais vendeu parte de seu território a estrangeiros, seguida pela Ásia. Mas quanto de terra foi adquirido em todo mundo para investimentos, agricultura ou criação de gado na última década? Impossível saber exatamente. De acordo com a Land Matrix, uma organização internacional que monitora essas operações, foram fechadas 1.100 transações desse tipo desde 2000. No total, 40 milhões de hectares passaram para as mãos de estrangeiros, ou seja, uma superfície maior do que a Alemanha. Os principais investidores: Estados Unidos, Malásia, Singapura, Emirados Árabes Unidos e Reino Unido. A China ainda não aparece nessa lista, mas é o segundo país mais ativo na compra de terras depois da Arábia Saudita, considerando as operações que ainda estão em fase de negociação.
Em 2008, a Organização das Nações Unidas (ONU) já havia feito um alerta sobre esse novo "neocolonialismo alimentar". Mas a ganância por terras, por vezes, tem um objetivo puramente financeiro. Existem fundos de investimento que incluem a aquisição de terrenos como mais uma forma de ganhar dinheiro, o que, por vezes, pode submeter o cultivo às caprichosas tensões dos mercados (por exemplo, o interesse na promoção dos biocombustíveis resultou em um aumento dos preços da soja). Um exemplo dessa preocupação foi visto recentemente na província canadense de Saskatchewan, que proibiu os fundos de pensão de comprar terras de cultivo da região para evitar "a especulação em Wall Street".
Em países menos ricos, é mais difícil impedir esse tipo de operação. O apetite de Pequim para comprar terrenos é bem conhecido na África, que é de longe a região que mais vendeu parte de seu território a estrangeiros, seguida pela Ásia. Mas quanto de terra foi adquirido em todo mundo para investimentos, agricultura ou criação de gado na última década? Impossível saber exatamente. De acordo com a Land Matrix, uma organização internacional que monitora essas operações, foram fechadas 1.100 transações desse tipo desde 2000. No total, 40 milhões de hectares passaram para as mãos de estrangeiros, ou seja, uma superfície maior do que a Alemanha. Os principais investidores: Estados Unidos, Malásia, Singapura, Emirados Árabes Unidos e Reino Unido. A China ainda não aparece nessa lista, mas é o segundo país mais ativo na compra de terras depois da Arábia Saudita, considerando as operações que ainda estão em fase de negociação.
Em 2008, a Organização das Nações Unidas (ONU) já havia feito um alerta sobre esse novo "neocolonialismo alimentar". Mas a ganância por terras, por vezes, tem um objetivo puramente financeiro. Existem fundos de investimento que incluem a aquisição de terrenos como mais uma forma de ganhar dinheiro, o que, por vezes, pode submeter o cultivo às caprichosas tensões dos mercados (por exemplo, o interesse na promoção dos biocombustíveis resultou em um aumento dos preços da soja). Um exemplo dessa preocupação foi visto recentemente na província canadense de Saskatchewan, que proibiu os fundos de pensão de comprar terras de cultivo da região para evitar "a especulação em Wall Street".
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