sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Pixuleco toma ponte de Sampa

O Antagonista publica, em primeira mão, 
as apavorantes imagens da mutação atômica de Pixuleco

A culpa é da bola

Num acesso de modéstia e autocrítica, a presidente Dilma confessou a três jornais que seu grande erro foi ter “demorado muito para entender a gravidade da crise”.

Mas como costuma acontecer com pessoas tão seguras de si e imersas em suas certezas, a modéstia da presidente não é tão modesta e nem a autocrítica tão autocrítica assim.

Bola Brasil (Foto: Arquivo Google)

Vocês pensam que ela pediu desculpas? Ora…

Há de haver um culpado por ter induzido tão brilhante formuladora e gestora econômica a um equívoco tão lamentável.

Embora até o mais distraído dos analistas econômicos de qualquer banco- isso para não falar da pobre Sinara Polycarpo, demitida do Santander por “não entender porra nenhuma de Brasil” (segundo a elegante avaliação do ex-presidente Lula) - percebessem a gravidade da crise, a presidente, absorta em outras enormidades, não teve tempo de preparar-se para a - ôpa! - surpresa.

Todos se prepararam, menos ela e Mantega (que, timidamente balbuciou que sabia, sim, de alguma coisa, mas falou tão baixo que quase ninguém ouviu). Ela porque estava ocupada contando lorotas em palanques para poder se reeleger, ele porque é um burocrata obediente e disciplinado.

Claro que nessa autocrítica - ma-non-troppo - era infalível que sobrasse para alguém, algum inimigo externo, algum fator superveniente, algum ente estranho, alguma ameaça vinda do exterior, pois não há governo dito de esquerda- seja da autêntica, seja da falsificada- que prescinda de um fantasma exterior em quem jogar todas as culpas.

Dilma diria eu errei com minha política de incentivar o consumo com subsídios e desonerações escolhidas a dedo que aumentaram brutalmente o custo fiscal? Jamais. A culpa é da crise externa, do subprime, da voracidade do sistema financeiro, da crise de 29, da queda do preço das commodities, da crise da Bolsa de Xangai, da queda do preço do petróleo e de todos os abalos passados e futuros que o capitalismo sofreu e que ainda venha a sofrer.

Pois a presidente que na campanha eleitoral dizia que a proposta da oposição de reduzir os ministérios para cortar gastos era “uma grande cegueira tecnocrática”, mandou um ministro dar uma coletiva dizendo que o governo “está pensando em cortar 10 dos 39 ministérios”. Quais? Quando? Onde? Para economizar quanto?

Aí vocês estão querendo saber demais.

É verdade que enquanto os cortes de gastos vão sendo fantasiados em banho-maria, o maior déficit primário mensal da história era anunciado (7,22 bilhões de reais em julho) e os arautos da desgraça pouca é bobagem começavam a fazer circular, pela milionésima vez, a ideia de ressuscitar a CPMF, o eterno pronto socorro de governos na pindaíba.

Sabe-se que Lula e Dilma juntos aumentaram em 129 mil o número de servidores públicos, que chegou a 615 mil, e que criaram 32 mil novos cargos e funções de confiança, chegando a um total de 99 mil. O mesmo ministro que anunciou o hipotético fechamento de 10 ministérios, disse que poderiam ser cortados uns mil cargos de confiança- dos 32 mil novos que foram criados.

Ou seja: a penúria do Tesouro é concreta, os cortes de gastos são hipotéticos. E mesmo que se concretizem serão pífios. Os empregos vão se esvaindo, a perspectiva de recessão estende-se para 2016, a produção industrial continua capengando, a arrecadação caindo, os gastos crescendo e a senhora presidente vem dizer que seu único erro foi ter demorado a perceber a gravidade da crise?

No meio de todo esse cenário tenebroso, o governo não encontra a saída de seu labirinto, a popularidade da presidente anda ao rés do chão, mas os últimos bastiões do governismo delirante ainda são capazes de repetir que a culpa de tudo é de gente que não gosta que pobre ande de avião.

Não é de chorar?

A pior crise do governo Dilma é a de confiança!

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É evidente que o Brasil vive uma grave crise econômica, e os números de déficit primário divulgados nesta quinta não deixam a menor dúvida a respeito. Não é menos evidente que o país vive uma crise política, iniciada, sejamos precisos, com o desmoronamento do modelo supostamente distributivista do PT, que se ancorava no incentivo ao consumo, que era garantido por fatores alheios às virtudes do petismo. A Lava-Jato veio tornar tudo muito mais grave.

É certo que a recessão estaria aí mesmo sem a tal operação; é claro que o desemprego estaria em alta; é claro que os juros estariam nas estrelas; é claro que a inflação em 12 meses estaria roçando os 10%. E não seria menos clara a indignação das pessoas.

Ocorre que a Lava-Jato veio, digamos, arrematar esses sinais explícitos de incompetência com as safadezas explicitadas. Aí, meus caros, a mistura ficou mesmo explosiva.

Essa seria, então, a hora de testar um líder — ou uma líder. E, aí, como se diz em Dois Córregos, a porca torceu o rabo. Não havia liderança nenhuma no Palácio do Planalto. Longe de se mostrar um fator de estabilidade, Dilma resolveu ser uma alimentadora de problemas.

E eis que se plasmou, então, uma crise que é pior do que a econômica e a política: a crise de confiança. Não me refiro a aspectos subjetivos, de cunho existencial. Os agentes econômicos e políticos precisam olhar para quem está no poder e saber ao menos o que essa pessoa NÃO VAI FAZER.

O episódio da CPMF evidencia que não há clareza nem sobre isso.

Eis aí. Dilma merece ser deposta por todas as transgressões à Lei 1.079. Mas vai acabar caindo porque, no fim das contas, ninguém confia nela.

A cegueira da governança


Príncipes, Reis, Imperadores, Monarcas do Mundo: vedes a ruína dos vossos Reinos, vedes as aflições e misérias dos vossos vassalos, vedes as violências, vedes as opressões, vedes os tributos, vedes as pobrezas, vedes as fomes, vedes as guerras, vedes as mortes, vedes os cativeiros, vedes a assolação de tudo? Ou o vedes ou o não vedes. Se o vedes como o não remediais? E se o não remediais, como o vedes? Estais cegos. Príncipes, Eclesiásticos, grandes, maiores, supremos, e vós, ó Prelados, que estais em seu lugar: vedes as calamidades universais e particulares da Igreja, vedes os destroços da Fé, vedes o descaimento da Religião, vedes o desprezo das Leis Divinas, vedes o abuso do costumes, vedes os pecados públicos, vedes os escândalos, vedes as simonias, vedes os sacrilégios, vedes a falta da doutrina sã, vedes a condenação e perda de tantas almas, dentro e fora da Cristandade? Ou o vedes ou não o vedes. Se o vedes, como não o remediais, e se o não remediais, como o vedes? Estais cegos. Ministros da República, da Justiça, da Guerra, do Estado, do Mar, da Terra: vedes as obrigações que se descarregam sobre vosso cuidado, vedes o peso que carrega sobre vossas consciências, vedes as desatenções do governo, vedes as injustças, vedes os roubos, vedes os descaminhos, vedes os enredos, vedes as dilações, vedes os subornos, vedes as potências dos grandes e as vexações dos pequenos, vedes as lágrimas dos pobres, os clamores e gemidos de todos? Ou o vedes ou o não vedes. Se o vedes, como o não remediais? E se o não remediais, como o vedes? Estais cegos.
António Vieira (1608 - 1697) 

Pagando os excessos

CPMF mae filho castigo quatro palavrao dilma imposto

Que o Brasil estava quebrado, rumo à desintegração, era fácil de entender ao longo de 12 anos marcados por aumentos sistêmicos de custeio da máquina pública, muito acima do crescimento do Produto Interno Bruto.

Em qualquer época há quem ganha e quem perde.

Nos primeiros meses de 2015 todos os setores produtivos (menos a agricultura) sofreram, e continuam sofrendo, queda histórica de atividades, turbinada pelo denominado ajuste fiscal.

No comando das medidas que aumentam impostos e juros apenas se conseguiu diminuir a arrecadação da União, dos Estados e dos municípios ampliando absurdamente a dívida pública, das empresas e do cidadão. Nada do que estava nos anúncios iniciais vem se realizando, e as previsões do período de crise se dilatam a cada semana. Já se pensa em mais três ou quatro semestres. Quer dizer, a fórmula não deu certo. O conteúdo da panela não dá para ser servido.

Precisa recomeçar com novos ingredientes. Temos aí, assim, a recessão em nível estúpido.

Na condução disso tem um grupo de financistas emprestados pelos maiores bancos e chefiado por Joaquim Levy (Bradesco). Fecharam-se indústrias, lojas, vagas de trabalho em volume assombroso, os setores estruturantes da economia em agonia, criando-se uma camada glacial de desempregados. Em contrapartida, o sistema bancário nacional, especulativo, contabilizou o semestre mais rentável desde a época do Descobrimento.

A presidente, que no seu primeiro mandato abusou de medidas eleitoreiras e frívolas, tentou corrigir com outro excesso, em sentido contrário, de ortodoxia e apertos. Acreditou nos banqueiros. Mais, acreditou que a vara pode se dobrar indefinidamente sem quebrar.

Sabia-se (aqui escrevi centenas de vezes nos últimos dez anos) que a economia não aceita desaforos, que as contas econômicas precisam manter o norte da “sustentabilidade” e do equilíbrio. Sem ele, é a ruína. Amanhã, depois de amanhã, levará à ruína uma família, uma empresa, um país.

Doze anos de mágicas e pedaladas, represando rombos gerados por conta de desperdícios, corrupção e equívocos gigantescos. O comércio se expandiu com as importações, possibilitadas pela moeda artificialmente valorizada, que condenou a indústria nacional a encolher e zerar sua competitividade. Perder ainda possibilidade de renovação e de inovação.

Verbas bilionárias se vaporizaram no petrolão. O país não alcançou a autossuficiência energética de baixo custo. Investiu tudo que não podia na miragem de um petróleo que, ao contrário de aumentar de preço e chegar a US$ 200 por barril, despencou para um valor abaixo de US$ 40. A esbórnia do pré-sal arrebentou a Petrobras; a ressaca é dura, e, para manter as contas da estatal, continua-se importando grande volume de gasolina, mais barata que o petróleo que se extrai e se refina do pré-sal.

O ajuste nunca se deu atacando as ineficiências, tapando ralos e rachaduras do sistema. A galinha dos ovos de ouro, o setor produtivo, que mantém uma estrutura socioeconômica de pé, gerando empregos e arrecadação, foi a mais prejudicada.

A palavra para compreender a crise em que se afundou o governo Dilma: EXCESSO.

Excessos em todos os sentidos, nas previsões absurdamente deslumbradas, nas medidas perdulárias do primeiro mandato. Incapacidade de compreender o momento, de tomar medidas corretas. Depois outros excessos no ajuste econômico, uma overdose que está colocando o Brasil em agonia.

Os ministros escalados, se não forem incompetentes, são mal-intencionados, servem apenas aos bancos que os empregam.

No primeiro mandato a presidente abusou das “comadres da Alvorada”, Miriam Belchior (ex de Celso Daniel), Ideli Salvatti, Gleisi Hoffmann e Graça Foster. Esse grupo ditou a política que arruinou o sistema energético nacional, já debilitado pelo antecessor, Petrobras e Eletrobras estão quebradas, e as contas sendo pagas a caro preço em tarifas insuportáveis para a maioria da população e das empresas. Inventaram as comadres descontos mirabolantes nas tarifas de luz, confisco de hidrelétricas, escolhendo no menu de medidas mais desestruturadoras possíveis. Vários setores que dependem de energia elétrica foram levadas sumariamente a fechar as portas e milhares de vagas. Nenhuma medida compensatória foi proposta. Ainda a maioria dos empréstimos do BNDES financiou os larápios do petrolão e se perdeu na corrupção que deixou para trás um punhado de cinza.

Embora Dilma se encontre a enfrentar o pedido de impeachment que a classe média pede nas ruas das metrópoles, indignada com as roubalheiras, poderá ser atingida e atropelada apenas quando o desemprego e as dificuldades chegarem à mesa das classes menos abastadas. E já começou a chegar.

Acreditar que as medidas de Levy tenham capacidade de consertar a crise é pouco provável. Mas, tanto para Dilma como para quem possa sucedê-la, precisará manter claro que se aumenta arrecadação e o desenvolvimento não com torniquete e burocracia, mas preservando a capacidade de produção e de trabalho.

A forma de sair da desgraça em que precipitou está no plano de “conversão ambientalmente correta, do fóssil para o renovável”, ainda na limpeza do ar, das águas e do planeta Terra, do Brasil em especial. Exatamente o contrário do que representam pré-sal e escolhas que serviram de pretexto para o maior esquema de corrupção do planeta.

Uma enorme dificuldade também deriva da ocupação dos ministérios e das estatais por figuras sem expressão, à disposição de planos de poder partidários, sem compromisso com a nação.

O momento requer grandes lideranças, motivação patriótica, união e propostas de superação. Circunstâncias difíceis e complicadas tanto pelos atores no palco quanto pela visão voltada apenas ao poder, ao interesse de setores isolados.

A presidente vem perdendo credibilidade e, por consequência, autoridade para exercer o papel de mediadora da crise. Os excessos a fragilizaram, e corrigir-se está ficando cada dia mais árduo.

Diário de um brasileiro

O brasileiro convive bem com o escândalo moral.
Os ladrões infestam os salões de luxo,
os Bancos estouram, os banqueiros
são cumprimentados com reverência,
o Presidente do Congresso chama o senador
de bandido, sim senhor, vossa excelência.

O Presidente diz pela televisão
que “é preciso acabar com a roubalheira
nos dinheiros públicos”.
As pessoas das cidades grandes
vivem amedrontadas, qualquer
transeunte pode ser um assaltante.
As meninas cheiram cola. Depois
vão dar o que têm de mais precioso
ao preço de um soco na cara desdentada.

O brasileiro convive com o escândalo
como se fosse o seu pão de cada dia,
com uma indiferença letal.

Como se dormir na casa com um rinoceronte,
mas rinoceronte mesmo,
fosse a coisa mais natural do mundo,
chegando a cheirar a camélias.

O povo, um dia.
Do povo vai depender
a vida que vai viver,
quando um dia merecer.
Vai doer, vai aprender.
 Thiago de Mello

Demagogia generalizada

Quando Marx afirmou que a história da humanidade é a história da luta de classes, repetia a ideia maluca de Rousseau, formulada quase 100 anos antes, de que o homem era naturalmente bom, mas se corrompeu pela instituição da sociedade e da propriedade privada. Desde então, a doutrina marxista ganhou ares axiomáticos e praticamente todo formador de opinião concorda com ela. Esse pensamento é reproduzido não só na academia, mas também na cultura: literatura, cinema, novelas, programas de tevê.

Dias atrás, assistindo a um famoso programa dominical, fui surpreendido por um quadro interessante. Quatro artistas – desses que fazem novelas – convidaram quatro crianças beneficiadas por um projeto social da emissora em parceria com a Unesco para terem contato com a profissão que desejam seguir. Foi lindo ver o olhar daquelas crianças, vislumbrando a possibilidade de fazer aquilo com que sonham. Uma delas, com 7 anos e um desejo impetuoso de ser médica, vibrou ao presenciar a realização de um ultrassom. Possibilitar esse contato muitas vezes é decisivo para um indivíduo. Mostrar aonde seu esforço pode levá-lo é um exercício de motivação incomparável. Parabéns aos envolvidos.

Porém, na semana seguinte, o programa convidou quatro crianças de condição social elevada para visitar projetos sociais. E o maniqueísmo ideológico estava formado.

O problema não foi a ação em si, mas o discurso implícito. Da boca dos artistas, essas crianças foram convidadas a “viver uma experiência nova”. Uma delas ouviu: “eu tenho certeza de que esse lugar vai mudar a sua vida”. E a outra disseram que teria contato com crianças que, como ela (?), “sonham com um futuro melhor”. Pensei: que mundo é esse onde crianças ricas não sabem mais o que são crianças pobres? Na minha infância isso era a coisa mais normal do mundo. Tive amigos ricos e amigos favelados.

Antes da falência do ensino público – bingo! – e do isolamento dos ricos por causa da violência – bingo! –, era comum ricos e pobres estudarem e brincarem juntos. Fato é que, apesar de as crianças de condições sociais muito díspares estarem cada vez mais separadas hoje, essa não é a realidade absoluta. Qualquer família que melhora um pouco sua renda coloca os filhos em escolas particulares, onde eles têm contato com crianças mais ricas (e com melhor ensino, claro). Eu mesmo, que sou negro, professor de escola pública e no programa fui curiosamente representado pelas crianças assistidas pelo projeto social, tenho filho em escola particular. E grande parte da população está dentro dessa média que o discurso ignora. Por que reforçá-lo, então?

Em seu livro 'Os intelectuais e a sociedade', o economista americano Thomas Sowell lembra-nos de que, em geral, os formadores de opinião favorecem-se de “crenças abstratas que são comuns entre os intelectuais, os quais podem ter pouco ou nenhum conhecimento de primeira mão sobre os indivíduos, as organizações ou as circunstâncias concretas envolvidas”. E que, “além do mais, tais atitudes não são somente disseminadas para muito além das fileiras da intelligentsia, mas se tornam base de políticas, leis e decisões judiciais”. Bingo! Esse discurso favorece a própria intelligentsia e o governo, que dele se aproveita para criar seus programas sociais que, apesar de não resolverem os problemas, lhe geram o bom e velho capital eleitoral.

Paulo Cruz

Ninguém confia mais no governo Dilma Rousseff

Nas mesas de bar, nas filas de supermercados, nos consultórios médicos, na Esplanada dos Ministérios, em todos os lugares a que se vá, a sensação é uma só: ninguém confia mais no governo Dilma Rousseff. Mesmo os petistas mais aguerridos admitem que a atual administração criou um clima tão ruim que não se sabe se o país conseguirá suportar, por mais três anos, conviver com um cadáver insepulto.

A desconfiança não nasceu por acaso ou por implicância gratuita com a presidente. Ela é fruto exclusivo de um governo marcado pela incompetência e pela arrogância.

Dilma e vários de seus ministros desrespeitaram regras básicas da economia, plantaram e colheram inflação, destruíram as contas públicas, minaram a credibilidade do Banco Central, cederam a lobbies poderosos e, pior, detonaram uma crise política que paralisou o Brasil. Tudo, é claro, regado à corrupção que destruiu a Petrobras e foi desvendada pela Operação Lava-Jato.

Já em 2014, com Dilma candidata à reeleição, a desconfiança começava a fincar raízes no país. As empresas, mais conscientes dos problemas criados pelo governo, pisaram no freio e suspenderam os investimentos. Passaram a temer que o país mergulhasse em uma profunda recessão e fábricas que haviam sido ampliadas se tornassem um sorvedouro de dinheiro, devido à queda nas vendas. Estavam mais do que certas.

Do lado dos consumidores, porém, a sensação de bem-estar construída nos anos anteriores impedia que muitos percebessem que o governo estava levando o país para o atoleiro. A renda ainda cresceu forte em 2014, as negociações salariais garantiram bom reforço nos contracheques e o desemprego era apenas uma ameaça.

Muita dessa falsa visão de que tudo estava indo bem foi estimulada pelo Palácio do Planalto por meio de incentivos ao consumo que quebraram o Tesouro Nacional. Foi em cima desse quadro ilusório, que Dilma fez o diabo para se reeleger.

Quando 2015 chegou, o desastre estava consumado. A população se deu conta de que havia sido vítima de um estelionato eleitoral. Mas já era tarde. Restou aos consumidores a fatura da enganação: aumentos superiores a 50% na conta de luz, reajustes dos combustíveis, inflação de quase 10%, renda corroída, juros abusivos e desemprego nas alturas — somente nos primeiros sete meses deste ano, pelo menos 500 mil empregos com carteira assinada foram fechados.

Diante desse quadro, reconhece o economista Sílvio Campos Neto, da Consultoria Tendências, não há como se falar em retomada da confiança, que está nos níveis mais baixos da história, tanto entre as empresas quanto entre os consumidores. Não neste ano, nem em 2016. “A sociedade está muito pessimista. Sabe que a recessão na qual o país está mergulhado será pesada, com consequências ruins, como o aumento do desemprego”, explica.

Na avaliação dele, ainda que o nível da atividade volte a melhorar em meados do ano que vem, levará tempo para que o mercado de trabalho se recupere. “Com um índice de desocupação elevado, mesmo que a inflação caia um pouco, é difícil ver a população mais otimista. As pessoas não conseguem ficar felizes quando o bolso não vai bem”, acrescenta.

As bombas maiores: divórcio entre as urnas e as ruas

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As pessoas têm a tendência de ver apenas as bombas mais próximas e ignorar aquelas escondidas, que ameaçam o futuro. As bombas do momento são a corrupção, que joga estilhaços de vergonha sobre todos os políticos (especialmente dos partidos no governo), e o descrédito de um governo que errou na economia, faltou com a verdade na campanha e descumpriu promessas. Apesar disso, o governo vê apenas as bombas imediatistas que ameaçam o equilíbrio fiscal.

A crise política, econômica e moral que atravessamos parece impedir a percepção das bombas que ameaçam o futuro mais distante. Ficamos presos às bombas da corrupção, da inflação, do descrédito da presidente e dos políticos em geral, não vemos as outras bombas.

A dívida dos Estados e dos municípios, já em fase de explosão, mesmo assim ainda é relegada. A explosão de gastos públicos, face às limitações da já imensa carga fiscal, destroçará as contas públicas. Nossos entes federados estão atravessando a linha que separa dificuldades fiscais conjunturais da falência estrutural, com suas consequências sobre os serviços públicos e os salários dos servidores. A Previdência explodirá em algum momento não muito distante, trazendo sacrifícios devastadores sobre a população mais velha do país e penalizando os jovens.

A pobreza – sobretudo depois de ter sido escondida pelo marketing governamental dos últimos anos, afirmando que ela teria sido transformada em classe média porque, endividando-se, consegue comprar alguns equipamentos domésticos – está explodindo na miséria da falta de educação, saúde, segurança, mobilidade. A violência urbana é uma bomba que explode como uma guerra civil de proporções gigantescas, matando quase 60 mil brasileiros por ano.

Nossa má educação e o consequente atraso na ciência e na tecnologia, que nos deixam cada dia mais atrasados em relação ao resto do mundo, são a bomba que impedirá nosso ingresso no mundo do conhecimento que caracteriza a economia e a sociedade.

O endividamento das famílias pode explodir, inviabilizando nosso sistema financeiro aparentemente sólido e sacrificando a vida de nossa população. A incapacidade de gestão que caracteriza o Estado brasileiro dos últimos anos ameaça o crescimento de nossa economia e o bom funcionamento de nossa sociedade. A baixa poupança de nossas famílias, empresas e governo é uma bomba que impede os investimentos necessários à construção de uma infraestrutura eficiente, ao crescimento da economia e ao aumento da produtividade de nossa indústria. O desemprego é uma bomba trágica de grandes proporções. A bomba do consumo de drogas corrói famílias e anula o potencial de dezenas de milhares de jovens.

Mas a maior das bombas é a despolitização do debate entre grupos políticos sem visão nem propostas, presos às pequenas bombas do presente, sem a percepção das grandes em andamento: o divórcio entre as urnas e as ruas, entre os políticos e o povo, está explodindo no colo da democracia.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Sucesso entre a criançada

LULECO PW

Missa de réquiem celebrada pelo defunto

Certas coisas, só no Brasil. Estamos assistindo a missa de réquiem celebrada pelo próprio defunto. No caso, foi o governo que morreu, e o celebrante é a presidente Dilma. Não dá para entender como Madame fornece, dia a dia, mais argumentos para seu sacrifício. Ainda agora pediu ao Tribunal de Contas da União mais quinze dias para responder às acusações de haver extrapolado a Lei de Responsabilidade Fiscal e maquiado contas que não poderia. A presidente já havia conseguido quinze dias de prorrogação. Outro tanto seria exagero inexplicável, mas o Advogado Geral da União solicitou. Ontem, veio a recusa da maioria do plenário daquela corte, óbvia derrota do governo, capaz de fazer supor que no julgamento do mérito, repita-se o placar.

Não havia ao lado de Dilma um só assessor capaz de alertá-la para ficar quieta, sem endossar o pedido considerado abusivo? O objetivo final é é evitar a rejeição das contas

Aproxima-se a hora de o TCU decidir, e se as contas da campanha de 2014 forem consideradas irregulares, caberá ao Congresso pronunciar-se. Como pena máxima, se assim for decidido, estará a perda de mandato.

A conclusão é de que Dilma forneceu argumentos para sua degola, mesmo não se tendo certeza do julgamento final do Tribunal de Contas da União ou da disposição do Congresso de sacrificá-la. A imagem, realmente, é da missa de réquiem celebrada pelo defunto, porque da reeleição até agora, a presidente tem incorrido numa série de erros fundamentais. Negou de pés juntos que vivíamos uma crise econômica, jurou que inexistiam razões para a volta da inflação. Prometeu que não reduziria o número de seus ministros. Desautorizou o ministro da Fazenda, no qual depositara ilimitada confiança, anulando uma série de iniciativas adotadas por Joaquim Levy e depois tornadas sem efeito. Obrigou-se a engolir a renuncia do vice-presidente Michel Temer da condição de coordenador político. Suas relações com o Lula se deterioraram, ao tempo em que ao menos numa votação o PT posicionou-se contra ela. Foram várias suas derrotas no Congresso, culminando com o desembarque do presidente da Câmara. Numa palavra, graças à chefe do governo, piora a cada dia sua já instável segurança.

Apesar de haver ficado para o final de janeiro a recomposição ministerial, com a extinção de dez ministérios, um conselho tem chegado à presidente Dilma, daqueles praticados por Tancredo Neves quando compunha sua equipe: “jamais nomeie quem não puder demitir”.

À falta do que fazer, Dilma inventa de reformar o seu governo


Quem pedia a Dilma uma reforma ministerial? Lula, não. Ele é contra uma reforma ministerial nas atuais circunstâncias. Acha que ela só trará desarranjos. Disputas entre partidos. E ao fim e ao cabo, insatisfação generalizada.

Michel Temer, o vice-presidente da República e presidente do PMDB, pensa como Lula. Seu partido deixou de acossar Dilma atrás de mais vagas no ministério. Parece conformado com o que tem. Por que despertar o apetite do PMDB?

O PT sempre quer mais vagas no ministério. Mas não pode reclamar das que tem – 11 vagas. É o partido com maior número de ministros. Seria até capaz de se sentir atraído por uma reforma se for para ocupar mais espaço. Para perder? Não tem graça.

Se perguntarem a Gilberto Kassab, ministro de Cidades, se o seu PSD daria conta de mais ministérios, logicamente ele responderá que sim. Mas não espera ganhar novos ministérios. É novo em Brasília. Prefere ir com calma. Jamais.

Carlos Lupi, presidente do PDT, não reivindica mais ministérios. Quer ter somente o prazer de trocar Manoel Dias, ministro do Trabalho e seu correligionário, por outro nome mais sensível aos pedidos dele, Lupi. E está de bom tamanho.

Dilma anunciou que extinguirá 10 dos 38 ministérios. O que conseguiu? Que seus aliados entrassem em pânico com medo de perder os que têm. Em pânico também deixou os 22 mil ocupantes de cargos de livre nomeação ao dizer que dispensará mil deles.

Procedeu assim para quê? Para ser louvada por uma mixaria de economia? Não será. Para recuperar alguns pontinhos de popularidade? Esqueça. Para ser apontada como incoerente já que há pouco tempo chamou reforma ministerial de “panaceia”?

Durante a campanha do ano passado, toda vez que Aécio Neves ou Marina Silva falava em enxugar o governo, Dilma provocava: “Vão cortar o quê? O ministério da Igualdade Racial? O da Mulher? O dos Direitos Humanos”?

É razoável supor que nenhum desses será cortado por ela. E então? Cortará o das Relações Institucionais responsável pela coordenação política do governo? Tudo bem. Está vago. Não fará falta. E mais o quê? Acabará com o da Micro e Pequenas Empresas?

Desempregará Guilherme Afif Domingues, ministro a quem tanto considera e disso faz alarde? Sei. Adiante. Juntará os ministérios do Desenvolvimento Agrário com o da Agricultura? Faz sentido. Seria de fato recomendável.

Só que o da Agricultura representa o agronegócio. No outro está o Incra, um latifúndio do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra. Quero ver no que daria tal mistura. E o Ministério da Pesca? Desempregará o ministro que é filho do senador Jáder Barbalho?

Turismo? Pode ser incorporado por algum ministério mais encorpado da área econômica. E o que será do ministro Henrique Eduardo Alves, ex-presidente da Câmara dos Deputados pelo PMDB, indicado para o cargo por Eduardo Cunha?

Quanto ao ministério do Gabinete de Segurança Institucional: Dilma detesta o general que o ocupa. Não despacha com ele por birra. Portanto... Portanto, nada. Os militares não gostarão de perder o ministério. O da Defesa já é comandado por um civil.

Estão tendo uma ideia da encrenca que Dilma arranjou para si? Como se ela não tivesse tantas outras encrencas para administrar.

'Erro de avaliação' caro aos pobres

Dilma comendo mosca
Mas, se a crise moral ignora ideologias, a crise econômica tem endereço certo. A presidente Dilma assumiu que o Governo falhou ao demorar a perceber que a situação do país era mais grave que imaginavam. E quem mais sofre as consequências deste “erro de avaliação” são como sempre os que dependem diretamente dos humores do mercado, ou seja, os pobres, aqueles que um dia o PT prometeu transformar a vida. A recessão que se anuncia longa – ampliada pelas fortes turbulências na China – promove a dissolução dos poucos, mas importantes, avanços sociais conquistados na última década. A Classe C, outrora emergente, vê-se acossada pelo desemprego e pela inflação, pela piora dos já péssimos serviços oferecidos nos sistemas de educação, saúde e transporte, pela violência que sitia os bairros das periferias das cidades. Mas quem se importa com isso?
Luiz Ruffato 

O resgate do jornalismo

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Num mundo cada vez mais rápido, em que as informações se disseminam por múltiplos meios –graças ao tablet, ao celular e às mídias sociais-, o jornal tem futuro. Mas é preciso fazer a lição de casa.

O jornalismo, fustigado pelo protagonismo da internet, foi raptado pela perda de qualidade do conteúdo, pelo perigoso abandono de sua vocação pública e pela sua equivocada transformação em produto mais próprio para consumo privado.

Impõe-se resgatar o entusiasmo do “velho ofício”. É urgente investir fortemente na formação e qualificação dos profissionais. Sem jornalismo público, independente e qualificado, o futuro da democracia é incerto e preocupante.

A sobrevivência dos meios tradicionais demanda foco absoluto na qualidade de seu conteúdo. A internet é um fenômeno de desintermediação. E que futuro aguarda os meios de comunicação, assim como os partidos políticos e os sindicatos, num mundo desintermediado? Só nos resta uma saída: produzir informação de alta qualidade técnica e ética.

Apostar em boas pautas -não muitas, mas relevantes- é uma saída. É melhor cobrir magnificamente alguns temas do que atirar em todas as direções. O leitor pede reportagem. O lugar do repórter é na rua, garimpando a informação, prestando serviço ao leitor e contando boas histórias. Elas existem. Estão em cada esquina das nossas cidades. É só procurar.

Há um modelo a ser seguido? Nas experiências que acompanho, ninguém alcançou a perfeição e ninguém se equivocou totalmente.

O perceptível é que os jornais estão lentos para entender que o papel é um suporte que permite trabalhar em algo que a internet e a rede social não fazem adequadamente: a seleção de notícias, jornalismo de alta qualidade narrativa e literária. É para isso que o público está disposto a pagar. Também na internet.

A fortaleza do jornal não é dar notícia, refém do factual. É se adiantar e investir em análise, interpretação e se valer de sua credibilidade.

Para mim, o grande desafio do jornalismo é a formação dos jornalistas. Se você for a um médico e ele disser que não estuda há 25 anos, você se assusta. Mas há jornalistas que não estudam nada há 25 anos.

O jornalismo não é só rotativa ou tecnologia: o valor dele se chama informação, talento, critério. Por isso é preciso investir em jornalistas com boa formação cultural, intelectual e humanística - pessoas que leiam literatura, sejam criativas e motivadas. E, além disso, que sejam bons gestores.

As competências são demasiadas? Talvez. Mas é o que nos pede um mundo cada vez mais complexo e desafiante.

Jamais vi nosso país ser dissecado em público e com afiada disposição

Jamais vi nosso país, como se fosse um cadáver putrefato, ser dissecado em público e com afiada disposição de extirpar e punir a corrupção que se apossou dele há muitos anos. Mesmo assim, embora ciente, como você, leitor, dos tumores que surgem a cada dia, não é fácil, repito, tomar posição em meio a esse indevassável cipoal de subterfúgios e mentiras em que se meteram os envolvidos, políticos ou não. De uma coisa, porém, tenho certeza: não se pode aceitar, em nenhuma hipótese, como solução para a grave crise sob a qual sucumbimos, qualquer tentativa de golpe contra nossas instituições democráticas, duramente conquistadas ao longo dos últimos 25 anos. Da minha parte, não teria saúde para suportar mais uma porretada dentre tantas que foram desferidas contra minha geração. Não quero enumerá-las, mas apenas dizer que assisto a esse trágico filme há mais de meio século. Um horror!

Nada disso, porém, tem a ver com o péssimo governo da presidente Dilma, que, desde o início do primeiro mandato, tanto política quanto economicamente, traçou o que seria o seu fim, mas, sobretudo, o que seria o início do segundo – um desastre, simplesmente. Um enorme desastre, que, de maneira nenhuma, pode ser imposto aos brasileiros, que, desde junho de 2013, descobriram o palco das ruas.

Depois, então, dessa sua última entrevista, concedida a três jornais brasileiros, quando, ao tentar fazer um mea-culpa nada convincente, para não dizer mentiroso – “Errei ao ter demorado tanto a perceber (no ano passado) que a situação era mais grave” –, anunciou inútil corte de ministérios, a presidente perdeu até mesmo o respeito a que lhe deveria pelo honroso cargo que ocupa. Na realidade, ao dizer que errou, acolheu, tardiamente, o conselho do ex-presidente Fernando Henrique, embora, na entrevista, o tenha considerado “solução fácil”.

Quando, em 2014, rejeitou a proposta da oposição de reduzir, substancialmente, o número de ministérios, a presidente deu o seguinte troco, ao exclamar assim: “Quero saber qual ministério e quem vai fechar! Essas secretarias poderiam ter outro status? Poderiam. Não perceber a importância do status é uma cegueira tecnocrática!”. Pois bem. A presidente Dilma passou a ocupar, com honra e gala, o primeiro lugar da lista de “cegos tecnocráticos” (ou mentirosos tecnocráticos?).

Mas a nova presidente Dilma, a do mea-culpa retardatário, se superou mesmo ao afirmar que ficou “completamente surpreendida” quando soube que militantes do PT se envolveram no megaesquema de corrupção descoberto na Petrobras. E disse isso depois de defender o ex-presidente Lula: “Não acho correto o que fazem com ele. Quero manifestar em alto e bom som que não concordo. Acho que tentam diminuí-lo, tentam envolvê-lo. Passam de todos os limites”.

O ex-presidente Lula, que Dilma defende, é o mesmo que, depois de se dizer traído no episódio do mensalão (“por práticas inaceitáveis das quais nunca tive conhecimento”), apresentou várias versões: tratou-o como tentativa de golpe contra o seu governo, como farsa, para, depois, afirmar que o mensalão foi invenção da oposição.

Estamos diante de quatro alternativas: da renúncia (um gesto de grandeza que a presidente, a meu ver, jamais terá); da desaprovação, pelo TSE, das suas contas de campanha; da desaprovação, pelo TCU, das contas do seu governo; ou, enfim, da sua desastrosa permanência na Presidência por três anos e quatro meses.

A última precisa, mais que tudo, da ajuda de Deus.

A 'patriota'

O maior patriotismo é dizer ao seu país quando está se comportando de maneira desonesta, tola, perversa
John Barnes

A caixa-preta do PT

Lula e Dilma fizeram explodir em seus mandatos o total de funcionários na administração pública federal. Juntos, os dois contrataram 129.641 servidores concursados (elevando o total para 615.621). Já o pessoal em cargos, funções de confiança e gratificações aumentou em 32.052 (para 99.850; +30%).

Depois de qualificar como "lorota" o plano da oposição na campanha eleitoral para reduzir ministérios, Dilma anuncia sem detalhamento que pode eliminar dez deles (de 39). E mil cargos de confiança. Ou seja, cortaria só 3% dos mais de 32 mil novos cargos do tipo que ela e Lula criaram.

Cerca de 75% de tudo o que entra no caixa do governo federal hoje sai diretamente para o bolso de funcionários públicos, aposentados e beneficiários de programas sociais. O governo acaba atuando, portanto, como um simples controlador de uma "grande folha de pagamentos". Entrou, saiu.

O motivo de tantos ministérios, sem que haja mais dinheiro livre para suas ações, seria um mistério não fossem eles usados apenas politicamente. Onde o pouco dinheiro livre que entra normalmente abastece aliados.

No caso de algumas pastas ligadas às áreas sociais, como a do Desenvolvimento Social, há funções claras, como averiguar se crianças do Bolsa Família vão à escola e postos de saúde. Nos da Saúde e Educação, também.

Mas não parece razoável tantos funcionários e cargos novos para lidar com apenas 25% do dinheiro que sobra da arrecadação depois dos repasses diretos.

O aumento, desproporcional aos avanços do país, é mais uma caixa-preta dos quase 13 anos do PT.

As nomenclaturas para cargos, funções de confiança e gratificações (47) são cifradas e herméticas, sem dar pistas do que toda essa gente faz, segundo documento enviado à Folha pela ONG Contas Abertas. Da quantidade de ministérios e relevância, até Dilma agora reconhece a excrescência.

O total de servidores concursados em massa é justamente uma das maiores dificuldades hoje para se reduzir despesas. Assim como fazer cortes nas 75% das despesas que são parte da "grande folha de pagamento".

Consultado, o Ministério do Planejamento argumenta que as contratações a partir de 2003 "atendem às necessidades da administração pública, adequadas às condições orçamentárias e ao cenário econômico do país".

Como sabemos, as "condições orçamentárias" e o "cenário econômico" requerem cortes profundos no momento. Eles poderiam ter sido iniciados há dez anos, quando Dilma ministra da Casa Civil qualificou como "rudimentar" proposta do Ministério da Fazenda para um plano de ajuste fiscal de longo prazo.

Coisa que a presidente quer fazer agora, de uma hora para a outra. Em condições bem mais adversas.
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Sobre a crise, Dilma disse nesta semana que no final de 2014 "não tinha indícios de uma coisa dessa envergadura". Na melhor das hipóteses, a presidente é mal informada.

Pixuleco 171, o herói inflável

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Lula ficou revoltado com Pixuleco, um boneco inflável de 12 metros de altura que apareceu em Brasília nas manifestações do dia 16. Pixuleco é uma caricatura de Lula com roupa de presidiário e a inscrição "13-171" (leia mais em Personagem da Semana). A sátira motivou uma nota oficial do Instituto Lula, afirmando que o ex-presidente nunca fez nada de errado e só foi preso na ditadura militar por defender as liberdades. Nunca antes um ex-presidente da República polemizou com um boneco inflável - que veio desinflar o mito de Lula. E, quando isso se consumar, acabará a bateria da marionete que governa o Brasil.


Lula está indignado, porque a indignação é seu disfarce perfeito. Um dia ele já se indignou de verdade, mas, quando notou que o figurino do injustiçado chorão lhe dava poderes mágicos, não vestiu mais outra roupa. Lula manda no Brasil há 12 anos e continua se queixando da opressão - fórmula perfeita para eleger uma oprimida profissional, que luta dia e noite contra uma ditadura encerrada 30 anos atrás.

Hoje, há quem diga que essa ditadura foi profética ao prender Lula: atirou no que via e acertou no que ainda não existia. É evidentemente uma piada. O autoritarismo militar não tem graça, e Lula não estava destinado a ser o Pixuleco 171.

Quem lhe reservou esse destino, quase sem querer, foi ele mesmo.


Lula não se enrolou por banditismo. Se enrolou por mediocridade. Foi muito pobre e, ao se aproximar do poder, mais forte do que o impulso de combater a pobreza foi o instinto de se vingar dela. Vingança pessoal, bem entendido. Não resistiu aos convites do poder como status, como ascensão social. Quem conviveu com ele nos primeiros anos de palácio se impressionou com os charutos, os vinhos caros e demais símbolos de riqueza. Um ex-operário fascinado pela opulência dos magnatas. Isso não costuma dar certo. Não para um político.

Luiz Inácio da Silva é um cara simpático, engraçado. Não tem o olhar demoníaco de um Collor, que exala prepotência e crueldade. Mas, assim como a imensa maioria dos companheiros petistas, tem uma noção visceral de sua mediocridade. Os companheiros morrem de medo de sua própria covardia. Daí o desespero com que se agarram às tetas do Estado, com a forte desconfiança de que não serão capazes de mamar em outra freguesia. Talvez até alguns fossem capazes - Lula muito mais do que Dilma, por exemplo mas eles mesmos não acreditam. E não pagam para ver. Ou melhor: pagam para não ver.

E pagam bem. A República do Pixuleco é possivelmente um dos mais formidáveis sistemas de corrupção da civilização moderna - se é que se pode chamar isso de civilização. Um sistema montado sobre um trunfo infalível em sociedades infantilizadas e sentimentaloides: a chantagem emocional. Lula da Silva chora, e os corações derretidos ficam cegos para tudo - inclusive para o saque a seus próprios bolsos. O Brasil está sendo roubado de forma obscena há 12 anos pelos coitados, e não se sabe mais quantos exemplares de Joaquim Barbosa e Sergio Moro serão necessários para o país enxotar o governo criminoso.


A Lava Jato já evidenciou: as campanhas presidenciais de Lula e Dilma foram abastecidas com dinheiro roubado da Petrobras. Enquanto Lula batia boca com o boneco inflável, explodia a confissão de Nestor Cerveró sobre o uso de propina do navio-sonda Vitória 10 000 para a campanha de Lula em 2006. O próprio Instituto Lula que foi visto polemizando com o Pixuleco é uma central de arrecadação de cachês milionários do ex-presidente, oficialmente para palestras pagas por grandes empreiteiras - as mesmas que ganham obras no exterior graças ao lobby do palestrante.

Não é que o impeachment de Dilma seja uma saída legítima - ele é a única saída legítima, se os brasileiros ainda quiserem salvar suas instituições da pilhagem desenfreada. A legalidade no país leva todo dia um tapa na cara das trampolinagens companheiras sucessivamente reveladas e expostas, escatologicamente, à luz do sol. Dilma é a representante oficial da pilhagem - e só os covardes duvidam disso.

Se o Brasil tiver vergonha na cara, cercará o Congresso Nacional e o "encorajará" a fazer o que tem de ser feito. Se ficar em casa chupando o dedo, talvez o país tenha de ser libertado por um boneco inflável.

Os porcos, entre nós

"A revolução dos bichos", publicado em agosto de 1945, faz 70 anos. Minha filha leu-o, avidamente, aos 11. No fim, anunciou o desejo de ler a “parte 2” – e ficou decepcionada quando informei-lhe que isso não existe. George Orwell não era um propagandista: no encerramento de sua alegoria, os porcos (os bolcheviques) já não se distinguem dos humanos (os capitalistas). A continuação que minha filha queria apareceu, porém, numa falsificação da CIA. O agente Howard Hunt comprou secretamente os direitos de adaptação cinematográfica e produziu uma versão em desenho animado. Nela, a trama ganha outro desfecho: os animais tomam de assalto a casa da fazenda ocupada pelos porcos e, com essa segunda revolução, libertam-se finalmente. Propaganda e verdade — os dois termos acompanham a trajetória de Orwell, conferindo-lhe atualidade.

Orwell aprendeu menos com os livros que com a vida. Dias na Birmânia, publicado em 1934, é uma narrativa de descoberta do imperialismo. Mas, para o jovem policial numa província da Índia Britânica, imperialismo significava algo mais decisivo que um conceito político e econômico. A sua revolta pessoal dirigia-se contra a “sujeira do Império”: os hábitos dos colonizadores. Naqueles “dias”, um tempo empapado pela ideia de raça, Orwell tatuou, entre os nós dos dedos, símbolos usados pelos birmaneses.

A jornada de libertação prosseguiu no East End londrino e na Rue du Pot de Fer, em Paris, depois da conversão do policial em escritor. Na pior em Paris e Londres, de 1933, que retoma o fio tecido por Jack London meio século antes, é o resultado de sua experiência nos pardieiros, entre os miseráveis. Nele, Orwell registra a presença de chineses, lascares de Bengala, dravidianos do Ceilão e sikhs do Punjab. Uma passagem menciona a beleza das mulheres e especula que seria fruto da “mistura de sangue”. Ele procurava a verdade, uma humanidade compartilhada, e jogava fora a armadura da “pureza racial”.

O “ato de um idiota” – assim, num restaurante de Paris, Henry Miller crismou a decisão de Orwell, seu companheiro de mesa, que já estava a caminho de engajar-se ao lado dos republicanos espanhóis antifranquistas. Miller era um cínico incorrigível; Orwell, um moralista e um asceta. Lutando na Espanha, de 1938, conta uma história clandestina, proibida, enterrada sob os espessos sedimentos de propaganda do comunismo oficial, que ganharia novos e pungentes detalhes no Memórias de um revolucionário, de Victor Serge, publicado apenas em 1951. Operando sob ordens de Moscou, o Partido Comunista Espanhol (PCE) preferia combater os anarquistas e trotskistas reunidos no Partido Operário de Unificação Marxista (Poum) a fazer a guerra contra as forças franquistas.

“Aquela foi a primeira vez que eu vi uma pessoa cuja profissão era contar mentiras — a não ser que você inclua os jornalistas”, escreveu sobre um gordo agente soviético baseado em Barcelona que se dedicava a difamar os militantes do Poum, classificando-os como espiões. Orwell temia, mais que tudo, o “evanescimento” do conceito de verdade objetiva no mundo, destroçado pelas campanhas de propaganda partidária. Desse temor, nasceram A revolução dos bichos e 1984, obras cujo foco não é tanto a política, mas a linguagem política e sua degeneração.

Os porcos estão vivos – e entre nós. Os comunistas, primeiro, e os nazistas, em seguida, descobriram que a verdade objetiva é uma película fina, vulnerável aos golpes de uma propaganda sistemática organizada em torno de vetores abstratos, mas de fácil compreensão. “Trabalhadores” versus “exploradores”, “alemães” versus “judeus”, “nacional” versus “estrangeiro”, “povo” versus “elite”, “nós” contra “eles”: a partição de uma realidade complexa em polos antagônicos bem simples é capaz de produzir o milagre da substituição do fato pela versão. A lição da propaganda partidária do totalitarismo difundiu-se no mercado da política, inspirando a gramática e as fórmulas utilizadas no marketing eleitoral. “É tudo culpa de FHC”: ao mentiroso, as batatas.

A difamação de Orwell ganhou tração no pós-guerra, logo após sua morte, por iniciativa do Grupo de Historiadores do Partido Comunista Britânico, que contava com figuras como Maurice Dobb, Cristopher Hill, Eric Hobsbawm e Edward P. Thompson. Eles não o perdoavam pela sua crítica implacável aos intelectuais de esquerda que, colocando um sinal de igual entre democracia e fascismo, tinham oferecido suporte ao Pacto Germano-Soviético de 1939.

A operação difamatória funcionava menos como vingança e mais como uma queima de arquivo. Nas vésperas da guerra, os intelectuais comunistas britânicos distribuíram panfletos celebrando a aliança entre Stalin e Hitler. Crismar Orwell com a marca do traidor era um expediente destinado a incinerar os textos perigosos, lavando as reputações dos “amigos do povo”. Thompson, em especial, consagrou-se à missão purificadora. Aproveitando-se da circunstância de que um homem morto não pode retrucar, recorreu simplesmente à mentira, acusando-o de ser “obsessivamente” sensível à “menor insinceridade” da esquerda, mas surdo e cego à “desumanidade da direita”. A ideia era relegar o alvo ao esquecimento, o exílio mais pesado para um escritor.


No fim, Orwell triunfou. É bem certo que os porcos ainda estão entre nós – continuam a se confundir com os humanos e, inclusive, se multiplicaram. Entretanto, a condenação ao exílio não funcionou. A revolução dos bichos, recusada por diversos editores britânicos e americanos que se curvavam aos interditos da esquerda oficial, converteu-se numa das obras definidoras do século 20. É uma obra especial, capaz de encantar uma criança de 11 anos que nunca ouvira falar da Revolução Russa, de Stalin, dos Processos de Moscou, da Guerra Civil Espanhola e de toda essa pilha de cadáveres insepultos nos campos de guerra das utopias ideológicas.

É tudo ou nada


Tendo passado a ser inaplicável porque, de uma maneira ou de outra, todo mundo está “fora” dela, a lei converte-se de instrumento de garantia da paz em arma de guerra.

Relatórios trocados entre as instâncias do Judiciário a que estão afetos os brasileiros “especiais” dão conta de que há pelo menos 52 políticos com mandato investigados no “petrolão”, isso sem contar a presidente da Republica que presidiu o Conselho de Administração da Petrobras ao longo de todo o período em que ela foi saqueada e o seu antecessor.

Aqui no mundo dos mortais, a Operação Lava-Jato já vai pela 18a rodada, com nomes até então tidos como poderosos sendo impiedosamente “arrastados pela Medina”. Dois anos de pressões surdas do populacho, da imprensa, da Polícia Federal e dos “lobos solitários” do Poder Judiciário não foram suficientes, porém, para que a incolumidade dos integrantes da lista dos “de cima” fosse nem de leve arranhada enquanto todos se mantiveram em silêncio sobre o que sabem uns sobre os outros.

Mas bastaram uns poucos gestos de desafio ao governo e à hegemonia da velha guarda da banda mais podre do Congresso que lhe dá sustentação para que, em menos de duas semanas, o rebelde passasse, de “nunca mencionado” a diretamente denunciado por um delator e a réu formalmente acusado pela promotoria por corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro e o mais que é habitual no pacote.

Não existe, é verdade, qualquer indício por leve que seja, de que ele esteja menos incurso nesses crimes que todos os demais membros da lista dos 52 e tantos outros que nem chegaram a entrar nela. Mas ainda assim é impossível negar, pela sequência dos acontecimentos, que esta nunca tenha sido a razão para ele abrir solitariamente a fila dos “arrastados pela Medina” da turma “de cima”.

É esta a síntese do paradoxo brasileiro: quando o Brasil honesto cogita festejar uma “vitória da justiça” o outro comemora mais uma vitória do crime … e os dois estão certos. É o vácuo institucional absoluto.
Dois artigos publicados nesta página na semana passada compõem o pano de fundo. Em “Corrupção como forma de poder”, Jose Arthur Giannotti retraçava o reto alinhamento do PT com a tradição leninista de conquista do poder desde o assassinato de Celso Daniel até este ponto, conquista esta que se dá, na releitura do lulismo, pelo recurso sistemático à arma da corrupção (mas não só a ela). E isto para concluir que a situação chegou a tal ponto que a ação dos “lobos solitários” que animam a Operação Lava-Jato e seus apoiadores ganhou os contornos de “um movimento político” que congrega todos quantos, dentro ou fora do âmbito do estado, por terem profissões ou modos de vida dependentes da existência de instituições democráticas, sentem que elas desaparecerão para sempre se o PT conseguir levar a cabo o seu projeto.

O que o professor esqueceu de mencionar com a devida ênfase é que a mesmíssima asserção é verdadeira para o lado contrário: a vitória final da corrupção é um imperativo de sobrevivência para os mestres de um estilo de “fazer política” e uma vasta pletora de modos de viver e “vencer na vida” aqui fora que desaparecerão para sempre ou mofarão na cadeia se caminharmos em direção ao Império da Lei sem mais exceções ou adjetivos. E não há que subestimá-los porque são estes — os de dentro e os de fora do universo estatal — que estão no poder.

Não é, portanto, apenas a ameaça de enfrentar a tiros a massa dos brasileiros indignados feita pelo presidente da CUT de dentro do Palácio de Dilma Rousseff que confirma a radicalidade dessa aposta sem volta. A sequência de acontecimentos que leva até esta primeira “vitória da lei” contra um integrante da lista dos “de cima”, que não pode ser explicada senão com a mistura e a alternância nos papeis de “mocinho” e “bandido” de personagens até então tidos como “acima de qualquer suspeita”, indica que gente muito mais poderosa que esta que vocifera nas ruas vestida de vermelho sabe que está jogando tudo nesta parada.

A mesma manobra que faz justiça a Eduardo Cunha põe fora do alcance dela o famigerado Renan Calheiros, o único brasileiro com certificação de corrupto passada por uma das quatro grandes agências internacionais de auditoria. A sequência de reuniões secretas no Porto entre réus e juízes do “petrolão”; a recondução por uma presidente ameaçada de impeachment do titular do posto máximo da promomotoria pública; a súbita recuperação de memória de um delator; o “leite-de-pato” do TCU nas “pedaladas” presidenciais; a elevação de Renan Calheiros, que já tinha sido salvo uma vez em troca da desmontagem da Lei de Responsabilidade Fiscal, à função de porteiro do impeachment, agora também pelo STF; o engavetamento da impugnação das contas de campanha do PT pelo TSE; a nomeação para o STJ do apadrinhado do senador que relatará os processos do núcleo político do “petrolão” não é uma mera série estatisticamente trilionária de coincidências, é o “mapa” das forças inimigas.

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Modesto Carvalhosa, em artigo publicado também nesta página, alertou a nação para o fato de que a mesma quadrilha que seguiu impávida assaltando o país de dentro das prisões e de cima dos bancos dos réus do “mensalão” e do “petrolão”, acaba de apresentar projeto de lei na Câmara, a ser votado até o final deste mês, que altera a Lei Anticorrupção para permitir que as 29 empreiteiras e fornecedoras do “petrolão” voltem a contratar com a Petrobrás e demais entes públicos. Agora, por cima de tudo, Joaquim Levy passa a ser, oficialmente carta fora do baralho, dispensa-se a diplomacia de Michael Temer e reabre-se a distribuição de dinheiro público a quem for bonzinho com o PT no que resta da economia privada. É o “mapa” das forças auxiliares que se quer cooptar aqui fora.

Não tem mais volta. Escolha o seu lado. Reduzido às proporções que o Brasil pôde medir pelas “manifestações” de 5a feira passada e rolando nos escombros de uma crise que facilita a conflagração do país, o PT dobra a aposta na corrupção e no assalto final às defesas democráticas da nação. Agora é tudo ou nada.

Fernando Lara Mesquita