sábado, 17 de fevereiro de 2024

Veados e caranguejos

Andrelândia é uma cidadezinha do Sul de Minas, daquelas que poderiam perfeitamente ser o cenário de uma bucólica novela das 7 (no tempo em que novelas das 7 eram bucólicas). O casario colonial se espalha, como as contas de um rosário, em torno da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Porto da Eterna Salvação (é assim que o hino municipal descreve a enorme praça ovalada, mais parecendo uma nau) no centro histórico daquela que um dia foi a Vila Bela do Turvo.

A meio caminho entre Ibitipoca e São Thomé das Letras, Andrelândia não ostenta a natureza intocada de uma nem os toques sobrenaturais da outra. Mas tem algo que a faz única: um bipartidarismo próprio, que — para o bem e, principalmente, para o mal — sobreviveu aos mais de 150 partidos políticos da nossa História.


Nas cédulas e nas urnas eletrônicas, as siglas podiam ser UDN, PR, PL, PSD, PTB, PCdoB, MDB, Arena, PSDB, Novo, PT; na cabeça do eleitor, o voto seria nos veados ou nos caranguejos.

Esta é outra peculiaridade, e remonta ao século XIX, quando um grupo se insurgiu contra a hegemonia do Partido Liberal e fundou o Partido Republicano do Turvo. Os eleitores do primeiro, tradicionalistas, perderam terreno. Andaram para trás, viraram caranguejos. Os do segundo, dando saltos adiante, se autodenominaram veados — e desde então Andrelândia deve ser o único lugar em que esse termo tem uma acepção ideológica.

Emulando as mesquinharias da política nacional (em que Bolsa Família vira Auxílio Brasil para depois voltar ao nome original — que já era um rebranding dos vários programas de transferência de renda de outro governo), as obras dos veados eram abandonadas nas administrações dos caranguejos, e vice-versa. Como a resultante das forças dos que saltavam para a frente e dos que andavam para trás é nula, a cidade estagnou.

O Brasil é uma grande Andrelândia, aprisionado no modelo binário (e eventualmente paradoxal) em que se muda o rótulo, mas os ingredientes permanecem os mesmos. Lá, os veados — outrora reformadores — se acomodaram no PMDB; e foram os tucanos que acolheram os conservadores caranguejos. Mais ou menos como, noutra escala, os “progressistas” defendem estatização, protecionismo, censura — enquanto “reacionários” propõem liberalismo econômico (e um golpe de Estado, de vez em quando).

O mais ilustre dos andrelandenses, o historiador José Murilo de Carvalho (ocupante por quase 20 anos da cadeira 5 da Academia Brasileira de Letras) escreveu que os quatro pecados capitais do Brasil eram a escravidão, o latifúndio, o patrimonialismo e o patriarcalismo. Poderia ter incluído um quinto: o maniqueísmo. Esse que faz com que, em 2024, ainda sejamos divididos entre fascistas e comunistas — categorias do início do século XX, ressuscitadas como espantalhos.

Nesta semana, o apresentador Luciano Huck foi xingado no Xuíter por compartilhar um artigo pró-democracia. Como se sabe, só quem é esquerdista desde criancinha pode — mesmo apoiando ditaduras e terroristas — se considerar um humanista, um democrata.

É o mal de pertencer a uma fauna limitada a cervídeos e crustáceos, que insiste em negar a diversidade, a nuance, a complexidade, a possibilidade de convergência.

Quem souber como superar o estágio de veados x caranguejos em Andrelândia talvez tenha a chave para destravar o Brasil.

Quem cata suas latinas é trabalhador?

Não importa como você decidiu comemorar seu Carnaval. Se decidiu cair na folia, lá serão eles e elas, os catadores de latinhas. E quem olhou com atenção para as ruas cidades das brasileiras nestes quatro dias, viu que "Carnaval é cheio de cor, mas só uma cata latinha". Essa frase do artista A Coisa Ficou Preta estampou um post que circulou muito nas redes sociais mais progressistas do país, traduzindo aquilo que já sabemos quase que "intuitivamente", mas que foi confirmado por estudos do IPEA: os catadores são, na sua maioria, homens e mulheres negras.

É isso, nem mesmo a festa momesca e a transcendência que ela provoca consegue alterar ou suspender a realidade: quem recolhe as toneladas e mais toneladas de latinas tem uma cor específica, e não usa glitter.


Em artigo publicado no portal Mundo Negro em 12 de fevereiro de 2024, Priscila Arantes sublinhou questões fundamentais que acompanham a relação intrínseca entre catar lixo, a pertença racial desses sujeitos e as péssimas condições de trabalho em que eles estão. Dois em cada três catadores se autodeclararam negros ou pardos.

A precariedade é pouco para definir as condições de trabalho a que são submetidos (tanto aqueles que se organizam em associações e cooperativas, como os que trabalham de forma autônoma) e, se isso não bastasse, nos últimos anos a renda mensal de catadoras associadas caiu significativamente . Atualmente, muitos desses trabalhadores não conseguem tirar nem R$ 300 por mês, catando a mesma quantidade de lixo que, há três anos, eles rendem um pouco mais do que um salário mínimo .

De acordo com o Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis ​​(MNCR), estamos falando das condições de vida de aproximadamente 800 mil pessoas, que são diretamente responsáveis ​​por 90% da reciclagem de lixo no Brasil.

As pessoas cujo trabalho permite que o custo da reciclagem de alumínio caia pela metade, são as mesmas que, embora organizadas em cooperativas e tendo contratos celebrados com algumas prefeituras do país, não têm previsão de quanto receber, e muitas vezes estão sujeitas a condições de trabalho que coloca sua saúde em risco por causas ocasionais, como a falta de equipamento adequado para trabalhar.

O mais perverso disso tudo, é que vivemos numa era em que o princípio da sustentabilidade está em voga. Ainda bem. Afinal, é fundamental revisarmos os padrões de consumo e descarte das últimas décadas.

Mas, como sublinhado por Anita Cristina de Jesus, chefe da Divisão de Sustentabilidade, Acessibilidade e Inclusão do TRT-4 do Rio Grande do Sul, esse processo não pode simplesmente desconsiderar as questões que norteiam a vida dos catadores e catadoras, como se eles apenas fizeram parte do cenário que compõe o processo de reciclagem. Antes de mais nada é preciso enxergar esses homens e mulheres naquilo que são: trabalhadores.

Essa vem sendo a luta da maior parte dos catadores e catadoras, principalmente aqueles que atuam no MNCR, como Alexandro Cardoso, o Alex Catador, importante liderança do movimento que recentemente concluiu uma etnografia na qual analisa e humaniza a vida e o trabalho dos catadores.

Um estudo que vale a pena ser lido, para que não esqueçamos do estigma histórico que acompanha pessoas negras e pobres que trabalham com a coleta de lixo e dejetos (lembremos que por muito tempo eram escravizados que faziam tais atividades), mas também para lembrar que , embora estejamos atualizando uma coisa bacana e importante, não temos muita ideia de como e onde esse processo se dá.

Sendo bem francos: a parte mais substancial do trabalho dos catadores é invisibilizada, e aquela que parece acaba gerando compaixão, mas não nos mobiliza muito: o máximo que fazemos é sermos educados e solícitos ao entregar as latinhas nas mãos desses homens e mulheres.

Tudo isso para dizer o óbvio: um projeto sustentável que não leva em consideração o trabalho e a critério por condições minimamente dignas dos catadores é falho em sua essência. Sustentabilidade que descarta pessoas, principalmente pobres e negras, é apenas outro nome para racismo ambiental.

Antes que nosso planeta seja a ponto de tornar uma vida humana insustentável, famílias de catadores podem morrer de fome. Uma contradição trágica que diz muito sobre o nosso tempo, e que exige que as ações do Estado, mesmo quando bem-intencionadas, devam colocar os direitos dos trabalhadores em primeiro lugar na formulação de políticas públicas sobre reciclagem.

Pois é, todo Carnaval tem seu fim. E precisamos decidir para onde vai o lixo que produzimos nele e em todo o restante do ano.

A sorte é que caminhos já foram traçados. E um bom começo é enxergar, escutar e aprender com os trabalhadores que vêm coletando nosso lixo há tanto tempo.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

Ataque israelense a Rafah será uma catástrofe humanitária sem precedentes

A única coisa que podemos fazer agora é pedir, implorar, chorar: não entre em Rafah. Um ataque israelita a Rafah será um ataque ao maior campo de refugiados do mundo. Irá arrastar o exército israelita para a prática de crimes de guerra de uma gravidade que nem eles próprios conseguiram alcançar. Neste momento é impossível invadir Rafah sem cometer crimes de guerra. Se as Forças de Defesa de Israel (IDF) invadirem Rafah, a cidade se tornará uma casa funerária.

Existem actualmente cerca de 1,4 milhões de pessoas deslocadas em Rafah, algumas das quais se refugiam sob sacos de plástico convertidos em tendas. A Administração dos EUA, suposto guardião da lei e da consciência israelita, condicionou a invasão de Rafah a um plano israelita para evacuar a cidade. Tal plano existe e não pode existir, mesmo que Israel consiga inventar alguma coisa.


É impossível transportar um milhão de pessoas totalmente indefesas, algumas das quais já foram deslocadas duas ou três vezes, de um lugar “seguro” para outro, lugares que sempre se tornam campos de extermínio. É impossível transportar milhões de pessoas como gado. Nem mesmo o gado pode ser transportado com tanta crueldade.

Também não há lugar para evacuar estes milhões de pessoas. Na devastada Faixa de Gaza não há mais para onde ir. Se os refugiados de Rafah forem transferidos para Al-Mawasi, como as FDI proporão no seu plano humanitário, Al-Mawasi tornar-se-á palco de um desastre humanitário como nunca vimos na Faixa.

Yarden Michaeli e Avi Scharf relatam que toda a população da Faixa de Gaza, 2,3 milhões de pessoas, deverá ser evacuada num espaço de 16 quilómetros quadrados, aproximadamente o tamanho do Aeroporto Internacional Ben-Gurion. Toda Gaza no espaço do aeroporto, imagine.

Amira Hass calculou que se um milhão de pessoas for para Al-Mawasi, a densidade populacional será de 62.500 pessoas por quilómetro quadrado. Não há nada em Al-Mawasi: nem infra-estruturas, nem água, nem electricidade, nem habitação. Só areia e mais areia, para absorver o sangue, o esgoto e as epidemias. Pensar nisto não só faz gelar o sangue, mas também mostra o nível de desumanização que Israel atingiu no seu planeamento.

Sangue será derramado em Al-Mawasi, como foi recentemente derramado em Rafah, o penúltimo porto seguro oferecido por Israel. O serviço de segurança Shin Bet encontrará um oficial afiliado ao Hamas que terá de ser eliminado lançando uma bomba de uma tonelada no novo acampamento. Vinte espectadores, a maioria crianças, morrerão. Correspondentes militares nos contarão, com olhos brilhantes, sobre o maravilhoso trabalho que as FDI estão fazendo para liquidar o alto comando do Hamas. A vitória total está próxima; Mais uma vez, os israelitas ficarão satisfeitos.

No entanto, mesmo através desta alimentação forçada, a opinião pública israelita deve despertar, e com ela a Administração Biden. Esta emergência é mais grave do que qualquer outra durante esta guerra. Os americanos devem bloquear a invasão de Rafah com acções e não com palavras. Só eles podem deter Israel.

O sector consciente da comunidade israelita procura outras fontes de informação além das estações daqui, que são “doces para os soldados” e que se autodenominam canais de notícias. Assista a imagens de Rafah em qualquer canal estrangeiro – você não verá nada em Israel – e entenderá por que ela não pode ser evacuada. Imaginem Al-Mawasi com os dois milhões de pessoas deslocadas e compreenderão como proliferam os crimes de guerra.

No sábado, o corpo de Hind Hamada, de seis anos – ou Rajab, em alguns meios de comunicação – foi encontrado. A menina ficou famosa em todo o mundo após os momentos de terror que ela e a família viveram no dia 29 de janeiro diante de um tanque israelense – momentos que foram registrados em um telefonema com o Crescente Vermelho Palestino, até que os ataques cessaram. terror de sua tia. Todos os oito membros da família morreram.

Hind foi encontrada morta no carro queimado de sua tia em um posto de gasolina em Khan Yunis. Ela ficou ferida e coberta pelos sete cadáveres de seus familiares; sangrou até a morte antes de poder sair do veículo. Hind e sua família responderam ao apelo “humanitário” de Israel para evacuar. Quem quiser mais milhares de Hinds, que invada Rafah, cuja população será evacuada para Al-Mawasi.

A cultura do celular e a morte do homem simples

O novo sujeito social e político da sociedade pós-moderna é simbolizado pelo telefone celular. Social porque a sociabilidade dos seres humanos dele depende cada vez mais. Político porque por meio dele a política deixou de se apoiar na mediação de ideias sobre o bem comum para se tornar um processo político mediado por uma coisa portátil. Um esvaziamento da política que a vem tornando um novo meio de dominação, o da mentira verossímil.

Portátil porque o usuário pode levá-lo no bolso. Mas, em vez de ser levado, é ele que leva o seu dono, dono que se tornou instrumento do objeto que usa, objeto de seu objeto.


Essa não é a única nem a mais significativa anomalia que mediatiza e demarca nossa situação social, que define os marcos de nossas condutas, que empobrece nossos horizontes, que engendra um modo social de ser em que não somos, nem pessoas nem cidadãos.

Claro que é impossível desconhecer a importância que o celular tem na vida cotidiana de todos nós. Já não podemos viver sem ele. Mas é ele, também, um dos instrumentos de um número significativo de invisibilidades desta sociedade. É por aí que somos dominados, amansados, enganados e induzidos a ser e fazer o que não queremos nem devemos.

A vacina defensiva contra ele é a consciência socialmente crítica, que não deve ser confundida com a polarização ideológica que dominou e domina a situação política brasileira. Com exceções notáveis, direita e esquerda criaram uma cumplicidade reprodutiva e imobilista no sentido de se tornarem reciprocamente úteis e necessárias. Criaram um sistema.

Historicamente, a sociedade se move para solucionar necessidades sociais conscientes, o que depende de busca de saída no objetivamente possível. O destino histórico da sociedade não sai do bolso do colete nem do militante nem do reacionário, nem do silêncio nem do berro. Daí só sai alienação e bloqueio.

O Brasil desse sistema de dominação é completamente falso.

A pós-modernidade tem o símbolo complementar no dedo indicador, que digita, mas não pensa. O cérebro já não tem prontidão para reconhecer diferenças sociais significativas e desafiadoras. As dos processos interativos que mobilizem o ser humano para que se humanize naquilo que faz e seja um construtor social da realidade.

Para confirmar o nome dos dedos de minha mão e escrever este comentário, levei menos de meio minuto e recebi de volta mais de 4 milhões de informações sobre “dedos da mão”. Para conferir o que eu já sabia.

Só que, diferente do que acontecia quando eu era criança e adolescente, em que eu colhia ideias na própria memória como colhia goiabas na goiabeira. E colhia apenas o que ia usar e comer. Na busca de uma única informação, o celular me permite colher milhões de informações inúteis em meio minuto, pelas quais eu pago.

O sistema econômico que dá sentido às funções desse instrumento se tornou um sistema produtivo de informações, mas improdutivo de realidades funcionais e mesmo materiais.

De famílias de lavradores caipiras e artesãos de fábricas, desde muito pequeno aprendi a fazer coisas úteis com minhas próprias mãos. Aos 7 anos de idade, eu já fazia meus próprios brinquedos. O primeiro presente de Natal, de que me lembro, foi um joguinho de ferramentas de carpinteiro, para criança, pois meu pai me queria carpinteiro, uma tradição de família.

Aquele brinquedo me fazia feliz. Meu celular e tudo que ele significa e pode não me fazem feliz. Eu clico na tecla para receber aquilo de que preciso e ele me traz de volta não só milhões de informações que não preciso. Mas milhões de informações que me privam das referências da consciência social e política e me dizem que o mundo em que vivo é um mundo de incerteza e perigo. Já não é um mundo de saber, esperança e alegria. O homem simples está morrendo.

A cultura do dedo indicador nos tira a alegria da dúvida criativa, o prazer de imaginar e da imaginação, ao nos tornar apenas instrumentos de um imaginário fabricado por algoritmos.

Algo pouco notado, ela libertou satanás das profundezas do inferno, o inimigo da nossa luta pelo bem, pela liberdade e pela esperança. Ela libertou o medo e o transformou num poder. Satanás tem mais presença nos púlpitos de igrejas do que o próprio Deus. Porque é em nome dele que Deus passou a existir. Os templos deixaram de ser o lugar do sagrado para ser apenas um lugar de refúgio. O mero lugar da espera apocalíptica, a negação do hoje e do atual em nome do quimérico e falso.

Ele não é um ser de fora do mundo. O deus pós-moderno é manipulador, dissimulado, satânico, que fala no bem para implantar o mal. Cuja missão é a de criar o novo sujeito social da nulificação da pessoa, a multidão sem rumo.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

Pensamento do Dia

 


E ao pó retornamos...

Só quem experimenta uma boa velhice medita sobre o pó. A poeira — na juventude feita de estrelas e, na idade ou temporada final, uma espécie de segundo tempo ou parágrafo derradeiro de um belo livro — é puro e seco pó.

Esse tal “sujo” que na nossa cultura tanto preocupa mães e esposas dispostas a manter suas casas imaculadamente limpas, sem um “pingo de sujeira” ou “um traço de pó”. Pó que embaça móveis e louças e revela ao visitante uma “dona de casa” incompetente ou preguiçosa, o equivalente moral antiquado do marido que, mesmo vagabundo, teria de bancar o “trabalhador”. Traço importante até hoje no simbolismo pouco estudado do nosso congênito populismo.

Exceto na cabeça duvidosa de alguns jurisconsultos, não pode haver convivência entre o sujo e o limpo, assim como o pó impede que alguma coisa brilhe ou fique de pé. O pó é aquela parte menor de tudo o que foi alguma coisa.


Ele tem uma solidez enganadora, porque não se pode botar o pó em pé, do mesmo modo que não se podem cortar a água ou o ar. O pó é a divisão da divisão, é o átomo do “sujo”. Livros sagrados, que a IA certamente desmontará, dizem que viramos pó. Mas um lado meu resiste — ou, melhor e mais honestamente, duvida...

Sei apenas que estou pautado e aprisionado pelas cinzas-pó desta Quarta-Feira de Cinzas, que são o resultado do vale-tudo programado do carnavalesco que passou.

A cinza é o símbolo dominante ou central — como diria o saudoso Victor Turner (que viu um carnaval carioca e niteroiense comigo) — de arrependimento e expiação de culpas. Nestes nossos tempos enigmáticos e inseguros, esquecemos que, quando havia profetas, e não salvadores da pátria, as cinzas dos mortos eram postas num saco e espalhadas na cabeça do arrependido culposo que, desse modo dramático, incluindo rasgar suas próprias vestes, clamava publicamente por comiseração a Deus.

Hoje dizem que Deus acabou ou não tem importância, porque sua onipotência, onipresença e onisciência será superada pela IA. Mas o pó e as cinzas nos esperam, como decretam sem nenhum pudor esses antiquados, reacionários, os velhos rituais. Solenidades feitas de gestos lentos, realizados obrigatoriamente com a mão direita, elas mostravam sua força precisamente pela entrega absoluta, como determinam tanto a fé quanto o amor, no sofrido rito expiatório de reentrada na rotina, depois de um tempo vivido em pecado...

Confesso que recebi cinzas na testa depois de alguns carnavais antigos. Pior. Confesso que não estava arrependido nem um pouco porque havia ficado abraçado à minha linda e doce namorada, tão trêmula quanto eu naquela brecha licenciosa que — puxa vida! — o carnaval abria e encorajava. Eu não era bem eu. Era um marinheiro de um filme colorido, e ela não era bem ela. Era uma ciganinha de lábios pintados que lambuzavam o branco do meu falso uniforme, dando-lhe realidade. Aquele real inescapável que só acontece nas dores mais pungentes e nos mais belos sonhos.

A carne existe com a dura realidade do mundo. Mas o pecado ou o abuso da carne têm seu começo depois da descoberta e manejo do fogo. Junte carne e fogo, e você tem muito mais que um churrasco. Você tem o gosto, o sabor, a gula, a fome, o deleite do comer e do englobar. O gozo de ser canibalizado pela carne cozida que nos torna humanos e, eventualmente, humanos com o direito ao deleite de gozar com nossa carne.

Não seria exagero dizer que ainda estamos no campo delimitado pelas regras que separam a necessidade do exagero.

Mas o fato permanente — sem o qual não seríamos capazes de conhecer as cinzas do dia de hoje — tem tudo a ver com a lembrança do pó, como admoestava o Senhor Deus a Adão, depois do pecado:

— Lembra-te de que és pó e ao pó voltarás!

Covid ainda mata mais do que dengue

No Brasil, ainda morre muito mais gente de Covid do que de dengue. Não, não se quer menosprezar o surto de dengue ou qualquer doença. Os alertas de autoridades sanitárias e profissionais de saúde devem ser levados muito a sério. Não o serão.

Trata-se apenas de um mote para lembrar de como morremos aos montes de doenças e barbaridades antigas, estúpidas, evitáveis e ignoradas. De homicídio, morriam 117 por dia em 2022. Devem ter sido 110 em 2023, na projeção do Ministério da Justiça. Mesmo assim, o Brasil ainda estaria perto do topo do ranking mundial da morte, de taxa de homicídio.

Morremos de doenças causadas pelo HIV: 31 por dia em 2022. De doença de chagas, aquela causada por um parasita carregado pelo barbeiro: 11 por dia.

É um lembrete conveniente para este início de ano do que, para católicos e simpatizantes, um dia foi o começo de um período especial de reflexão e introspecção, a Quaresma. Agora, o Carnaval nem acaba, propriamente.

No último mês, morreram POR DIA 31 pessoas de Covid no Brasil. É a média das quatro semanas epidemiológicas contadas até 3 de fevereiro, dados do Ministério da Saúde. Nas últimas 52 semanas, um ano, morreram 12.844.

Em 2023, se foram 1.094 pessoas por causa de dengue. Foi o maior morticínio causado pela doença desde ao menos 2000. Em 2024, até 12 de fevereiro, atualização oficial mais recente, eram 75 os mortos de dengue. Até dia 3 de fevereiro, a Covid levou 963.

As doenças são muito diferentes, claro, embora se difundam por causa do nosso primitivismo geral. Isso quer dizer também: por causa de ignorância, que é a vontade de não saber, de não se informar e de ter "opiniões". Por causa do nosso individualismo obsessivo, selvagem; da avacalhação; da opressão da miséria.

Muita gente ainda não se vacinou contra o coronavírus. Muita gente ainda oferece criadouros para o Aedes aegypti: água parada. Muita cidade gasta milhão com show de música e não tira o lixo e os focos de Aedes. O óbvio.

A Covid está sendo esquecida em parte por um motivo cruel e desumano, evidente já no pior da epidemia: leva os mais velhos, os já mais doentes, o que aliás era um tema da propaganda necrófila do governo das trevas, 2019-22. Mais de 80% dos mortos deste ano tinha 60 anos ou mais. A dengue manda mais para o hospital crianças de 10 a 14 anos, dizem as autoridades. Por isso, receberiam primeiro as vacinas escassas.

Não esquecemos apenas da Covid.

Quando criança, no auge da ditadura militar, lia impressionado que pessoas morriam de doença de Chagas, ou de esquistossomose e padeciam de cisticercose. O livrinho escolar ilustrava o assunto com pessoas com cara de Jeca Tatu vivendo em uma tapera de barro. A propaganda da ditadura dizia que o "progresso" nos livrava daquele "atraso", enquanto ocorria um surto censurado de meningite. Os militares nunca decepcionam.

Pois então. Em 2022, dado mais recente disponível, morreram 4.028 pessoas de doença de Chagas, quase o quádruplo das vítimas da dengue naquele ano (segundo o Datasus). Morre uma pessoa por dia de esquistossomose, ao menos. Etc.

Afora micropaíses e ilhas de América Central e Caribe, a taxa de homicídio no Brasil apenas é menor do que a de África do Sul, Venezuela, México, Mianmar e Equador; meio que empatamos com a Colômbia. Os dados são os compilados pelo Escritório das Nações Unidas (ONU) sobre Drogas e Crime, mas as fontes são diversas e um tanto imprecisas.

Como um país antidesenvolvimento autêntico (subdesenvolvido é eufemismo), nos acostumamos a males novos sem lidarmos com os antigos. Não nos preocupamos com essa sempiterna acumulação primitiva, por assim dizer, de deseducação, desigualdade, ineficiência e desumanidade.

Era só para lembrar.

Bolsonaristas amam a democracia, mas não gostam de conviver com ela

O Brasil é um país tão apaixonado pela democracia que boa parte da população e da sua elite política considera aceitável que seja dado um golpe de Estado para salvá-la. Tem tanto horror e ódio à ditadura que considera razoável abolir violentamente o Estado de Direito para evitar a ditadura do Poder Judiciário.

A proposta de "acabar com a democracia para salvar a democracia" não é uma pilhéria de Carnaval, infelizmente. É apenas mais uma evidência de nossa capacidade de acolher e alimentar crenças contraditórias.

Quem disse que 42,2% dos brasileiros acham que as investigações judiciais contra Bolsonaro são uma perseguição política injusta foi uma pesquisa Atlas Intel da semana passada, feita no rescaldo da operação Tempus Veritatis; 40,5% divergem.


Curiosamente, a mesma pesquisa indicou que 46,5% acreditam que Bolsonaro planejou um golpe de Estado. E que, se o presidente tivesse declarado um estado de sítio para limitar os poderes do STF e convocar novas eleições, 36,3% da população o apoiariam, enquanto 41,3% não o fariam.

Essa dinâmica sugere que, embora as pessoas estejam convencidas de que Bolsonaro planejou um golpe de Estado, essa percepção não é considerada tão grave a ponto de justificar investigações e processos. É pura perseguição política.

No cerne da questão, está o fato de termos uma profunda devoção pela democracia enquanto ela é em nossa cabeça uma nebulosa de ideias e valores. Como conceito, a democracia é como amor de mãe, crianças meigas, crepúsculos e veleiros ao poente —objetos de encantamento e reverência.

Assim, nada é mais mobilizador do que os apelos para proteger a democracia ou os lamentos que proclamam sua perda iminente. Nesse sentido, quimeras como "a ditadura do Judiciário" ou "o fascismo que está aí", bem como teorias da conspiração, como "a fraude eleitoral", cumprem as mesmas funções: emocionar as massas, provocar um sentimento de ultraje e justificar qualquer ação a partir desse ponto.

Eu aprendi ainda criança na escola que a Revolução havia salvado a pátria do comunismo. Se o golpe bolsonarista não tivesse fracassado, uma nova geração teria aprendido como o mito salvou a democracia dos "ditadores de toga" e dos "ladrões" que teriam vencido uma eleição fraudulenta. A democracia precisou, novamente, ser resgatada dos seus inimigos.

Os conspiradores que se reuniram com Bolsonaro para construir "um plano B" ao processo eleitoral democrático falavam de uma suposta fraude em andamento como se estivessem mencionando a parede ou a mesa sob seus braços. Tratavam-na como algo concreto, palpável, indiscutível, mesmo que, como admitiram, não tivessem meios de comprová-la. Era uma questão de fé.

A sinceridade da crença ou a conveniência da convicção não importam, contudo, pois todos os "considerandos" da minuta do golpe apontavam para o dogma compartilhado: a democracia precisava ser protegida das urnas do TSE.

No bolsonarismo, democracia está vagamente relacionada à vontade do povo depositada no líder carismático, autorizando-o a governar como queira em seu nome.

E pelo tempo que for necessário enquanto o vínculo orgânico entre o povo e o seu líder perdurar. Métodos para aferir e medir a real vontade popular, expressa em votos, são considerados problemáticos, pois é sabido que as elites do poder trabalharão para não perder o poder e irão certamente trapacear.

Em teoria política, acabei de descrever não uma democracia, mas uma autocracia de base populista. Mas uma vez que muitos estiverem convencidos de que democracia é isso, e de que tudo mais é abuso e usurpação do poder do povo, começa-se a entender por que golpes de Estado para salvar a democracia se tornam uma proposta aceitável.

Da mesma forma, compreende-se por que, no universo mental do bolsonarismo, a democracia liberal é uma inconveniência. Os três poderes (para que três se o líder escolhido poderia governar melhor sozinho?), as obrigações de que o Executivo preste contas e responda por suas decisões (deixem o homem trabalhar), a divisão de prerrogativas, os constrangimentos dos princípios e direitos fundamentais (como assim não se pode prender quem chama o líder de pequi roído?), nada disso faz sentido para eles.

Da democracia, gostam muito, mas não dos constrangimentos que ela impõe, das obrigações de transparência e prestação de contas, do rito de eleições regulares e livres, da liberdade de se divergir de quem governa. Tudo na democracia lhes é um estorvo, exceto a ideia de democracia, pela qual são capazes de tudo, até de um golpe de Estado.

Deixe-os comer sujeira

Nunca houve qualquer possibilidade de o governo israelense concordar com uma pausa nos combates proposta pelo Secretário de Estado Antony Blinken, muito menos com um cessar-fogo. Israel está prestes a dar o golpe de misericórdia na sua guerra contra os palestinos em Gaza – fome em massa. Quando os líderes israelitas usam o termo “vitória absoluta”, querem dizer dizimação total, eliminação total. Os nazistas em 1942 fizeram sistematicamente passar fome os 500 mil homens, mulheres e crianças no Gueto de Varsóvia. Este é um número que Israel pretende ultrapassar.


Israel, e o seu principal patrono, os Estados Unidos, ao tentarem encerrar a Agência das Nações Unidas de Assistência e Obras aos Refugiados da Palestina no Próximo Oriente (UNRWA), que fornece alimentos e ajuda a Gaza, não só estão a cometer um crime de guerra, como também está em flagrante desafio ao Tribunal Penal Internacional (CIJ). O tribunal considerou plausíveis as acusações de genocídio apresentadas pela África do Sul, que incluíam declarações e factos recolhidos pela UNWRA. Ordenou que Israel cumprisse seis medidas provisórias para prevenir o genocídio e aliviar a catástrofe humanitária. A quarta medida provisória apela a Israel para que garanta medidas imediatas e eficazes para fornecer assistência humanitária e serviços essenciais em Gaza.

Os relatórios da UNRWA sobre as condições em Gaza, que cobri como repórter durante sete anos, e a sua documentação sobre ataques indiscriminados israelenses ilustram que, como disse a UNRWA, “as ‘zonas seguras’ declaradas unilateralmente não são nada seguras. Nenhum lugar em Gaza é seguro. ”

O papel da UNRWA na documentação do genocídio, bem como no fornecimento de alimentos e ajuda aos palestinos, enfurece o governo israelense. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu acusou a UNRWA após a decisão de fornecer informações falsas à CIJ. Sendo já um alvo israelense há décadas, Israel decidiu que a UNRWA, que apoia 5,9 milhões de refugiados palestinos em todo o Médio Oriente com clínicas, escolas e alimentos, tinha de ser eliminada. A destruição da UNRWA por Israel serve um objetivo político e também material.

As acusações israelenses, sem provas, contra a UNRWA, de que uma dúzia dos 13 mil funcionários tinham ligações com aqueles que levaram a cabo os ataques em Israel em 7 de Outubro, resolveram o problema. Viu 16 grandes doadores, incluindo os Estados Unidos, o Reino Unido, a Alemanha, a Itália, os Países Baixos, a Áustria, a Suíça, a Finlândia, a Austrália, o Canadá, a Suécia, a Estónia e o Japão, suspenderem o apoio financeiro à agência de ajuda humanitária, na qual quase todos os palestinos em Gaza dependem de comida.

Israel matou 152 trabalhadores da UNRWA e danificou 147 instalações da UNRWA desde os ataques do Hamas e outros grupos de resistência em Israel, em 7 de outubro, que mataram cerca de 1.200 israelenses. Israel também bombardeou caminhões de ajuda humanitária da UNRWA.

Mais de 27.708 palestinos foram mortos em Gaza, cerca de 67 mil ficaram feridos e pelo menos 7 mil estão desaparecidos, provavelmente mortos e enterrados sob os escombros.

Mais de meio milhão de palestinos – um em cada quatro – estão a passar fome em Gaza, segundo a ONU. Os palestinianos em Gaza, 1,7 milhões dos quais foram deslocados internamente, carecem não só de alimentos suficientes, mas também de água potável, abrigo e medicamentos. Existem poucas frutas ou vegetais. Há pouca farinha para fazer pão. As massas, juntamente com a carne, o queijo e os ovos, desapareceram. Os preços do mercado negro para produtos secos, como lentilhas e feijões, aumentaram 25 vezes em relação aos preços anteriores à guerra. Um saco de farinha no mercado negro passou de US$ 8,00 para US$ 200 dólares.

O sistema de saúde em Gaza, com apenas três dos 36 hospitais de Gaza parcialmente a funcionar, entrou em colapso em grande parte. Cerca de 1,3 milhões de palestinos deslocados vivem nas ruas da cidade de Rafah, no sul do país, que Israel designou como “zona segura”, mas que começou a bombardear. As famílias tremem sob as chuvas de inverno sob lonas frágeis em meio a poças de esgoto bruto. Estima-se que 90 por cento dos 2,3 milhões de habitantes de Gaza foram expulsos das suas casas.

“Desde a Segunda Guerra Mundial, não houve nenhum caso em que uma população inteira tenha sido reduzida à fome extrema e à miséria com tanta rapidez”, escreve Alex de Waal, diretor executivo da Fundação para a Paz Mundial da Universidade Tufts e autor de “Mass Starvation: A História e o Futuro da Fome”, no Guardian. “E não há nenhum caso em que a obrigação internacional de acabar com isso tenha sido tão clara. ”

Os Estados Unidos, anteriormente o maior contribuinte da UNRWA, forneceram 422 milhões de dólares à agência em 2023. A separação de fundos garante que as entregas de alimentos da UNRWA, já escassas devido aos bloqueios de Israel, serão em grande parte interrompidas até ao final de fevereiro ou início de março.

Israel deu aos palestinos em Gaza duas opções. Vá embora ou morra.

Cobri a fome no Sudão em 1988, que ceifou 250 mil vidas. Há marcas em meus pulmões, cicatrizes por estar no meio de centenas de sudaneses que estavam morrendo de tuberculose. Eu era forte e saudável e lutei contra o contágio. Eles estavam fracos e emaciados e não o fizeram. A comunidade internacional, tal como acontece em Gaza, pouco fez para intervir.

O precursor da fome – a subnutrição – já afeta a maioria dos palestinos em Gaza. Aqueles que passam fome não têm calorias suficientes para se sustentar. Em desespero, as pessoas começam a comer ração animal, grama, folhas, insetos, roedores e até mesmo terra. Eles sofrem de diarreia e infecções respiratórias. Eles rasgam pedacinhos de comida, muitas vezes estragados, e os racionam.

Logo, com falta de ferro suficiente para produzir hemoglobina, uma proteína dos glóbulos vermelhos que transporta oxigênio dos pulmões para o corpo, e mioglobina, uma proteína que fornece oxigênio aos músculos, juntamente com a falta de vitamina B1, eles ficam anêmicos. O corpo se alimenta de si mesmo. Tecido e músculo são desperdiçados. É impossível regular a temperatura corporal. Os rins pararam. Falha do sistema imunológico. Órgãos vitais – cérebro, coração, pulmões, ovários e testículos – atrofiam. A circulação sanguínea fica mais lenta. O volume de sangue diminui. Doenças infecciosas como a febre tifoide, a tuberculose e a cólera tornam-se uma epidemia, matando milhares de pessoas.

É impossível concentrar-se. Vítimas emaciadas sucumbem ao retraimento mental e emocional e à apatia. Eles não querem ser tocados ou movidos. O músculo cardíaco está enfraquecido. As vítimas, mesmo em repouso, encontram-se em estado de virtual insuficiência cardíaca. As feridas não cicatrizam. A visão fica prejudicada com a catarata, mesmo entre os jovens. Finalmente, assolado por convulsões e alucinações, o coração para. Esse processo pode durar até 40 dias para um adulto. Crianças, idosos e doentes morrem mais rapidamente.

Vi centenas de figuras esqueléticas, espectros de seres humanos, movendo-se desamparadamente num ritmo glacial pela árida paisagem sudanesa. As hienas, acostumadas a comer carne humana, costumavam matar crianças pequenas. Fiquei sobre aglomerados de ossos humanos esbranquiçados nos arredores de aldeias onde dezenas de pessoas, fracas demais para andar, se deitaram em grupo e nunca mais se levantaram. Muitos eram os restos mortais de famílias inteiras.

Na cidade abandonada de Maya Abun, morcegos pendiam das vigas da destruída igreja missionária italiana. As ruas estavam cobertas de tufos de grama. A pista de pouso de terra era ladeada por centenas de ossos humanos, crânios e restos de pulseiras de ferro, contas coloridas, cestos e tiras de roupas esfarrapadas. As palmeiras foram cortadas ao meio. As pessoas comeram as folhas e a polpa de dentro. Corria o boato de que a comida seria entregue de avião. As pessoas caminharam durante dias até a pista de pouso. Eles esperaram e esperaram e esperaram. Nenhum avião chegou. Ninguém enterrou os mortos.

Agora, à distância, vejo isso acontecer em outra terra, em outro tempo. Conheço a indiferença que condenou os sudaneses, sobretudo os dinkas, e hoje condena os palestinos. Os pobres, especialmente quando são negros, não contam. Eles podem ser mortos como moscas. A fome em Gaza não é um desastre natural. É o plano mestre de Israel.

Haverá estudiosos e historiadores que escreverão sobre este genocídio, acreditando falsamente que podemos aprender com o passado, que somos diferentes, que a história pode impedir-nos de sermos, mais uma vez, bárbaros. Eles realizarão conferências acadêmicas. Eles dirão “Nunca mais! ” Eles se elogiarão por serem mais humanos e civilizados. Mas quando chegar a hora de falar abertamente sobre cada novo genocídio, com medo de perder o seu estatuto ou posições acadêmicas, eles correrão como ratos para as suas tocas. A história humana é uma longa atrocidade para os pobres e vulneráveis do mundo. Gaza é outro capítulo.

Batalhas pela memória

Israelenses estão com um problema de relações públicas.

Você, leitor, já ouviu falar nas Vésperas Efésias? Em 88 a.C., o imperador Mitrídates 6º, do Ponto, ordenou o assassinato de cidadãos romanos e aliados que viviam em cidades da Ásia Menor. Nem mulheres e crianças teriam sido poupadas. Estima-se que entre 80 mil e 150 mil morreram.

Imagino que esse massacre, um dos muitos da história, não o comova muito. Ele ocorreu há mais de 2.000 anos e, por alguma razão, descontamos o passado. Somos quase imunes às carnificinas muito antigas, nos importamos moderadamente com hemoclismos recentes e reagimos com vívida emoção aos massacres presentes. Está na programação de nossas mentes, ainda que a diferença temporal seja difícil de explicar filosoficamente. Por que a morte de uma pessoa há 2.000 anos valeria menos que a de uma morta há 80 anos?
O problema de Israel é que o tempo está passando. Foi sob o impacto do Holocausto nazista que a ONU aprovou, em 1947, o plano de partilha da Palestina que viabilizou o Estado judeu. Mas a memória viva do Holocausto, que ainda chegou à minha geração através das histórias de meus avós e tios-avós, vai aos poucos se apagando. Os registros históricos sempre podem ser consultados, mas o aspecto afetivo desaparece. Reportagem recente do New York Times mostra que é crescente o número de jovens judeus americanos que se identificam com a causa palestina.

Faz sentido. As histórias de injustiças cometidas contra palestinos estão ocorrendo ao vivo e numa era de hiperconexão. E quanto mais mortos as operações militares israelenses deixarem em Gaza, mais esse efeito se materializará. Ainda que não haja paralelo entre o que fizeram os nazistas e o que fazem os israelenses, civis palestinos estão morrendo aos borbotões.

Que a carnificina em Gaza sirva ao menos para viabilizar o Estado palestino. Sem ele, Israel jamais encontrará uma paz sustentável.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

É o clima, estúpido

"The Earth Transformed", de Peter Frankopan (Oxford), é uma obra importante. Ela coloca o clima como personagem central da história humana. Uma das figuras que mais aparecem ao longo das mais de 700 páginas do livro é Enos, a sigla para El Niño-Oscilação do Sul, um fenômeno relativamente regular, mas que pode ter grandes repercussões sobre a temperatura e a hidrologia do globo.


Humanos gostamos de nos imaginar como algo distinto da natureza, mas esse é apenas um viés —e bem tolo. Somos e sempre seremos parte dela. O clima sempre nos afetou. É até possível que o Homo sapiens tenha desbancado outros hominínios como o H. neanderthalensis devido a mudanças climáticas. Uma hipótese é que sobrevivemos –e eles não— não porque éramos mais adaptados para enfrentar os tempos frios que atingiram a Europa 35 mil anos atrás, mas mais simplesmente porque éramos em maior número.

Variações climáticas e ecológicas às vezes influíram em nossos destinos como agentes principais e sempre ao menos como coadjuvantes. O aquecimento registrado entre 200 a.C. e 100 d.C., por exemplo, ajudou Roma a obter melhores colheitas e tornar-se um império. O resfriamento entre 1100 e 1800 explica a maior prevalência de ataques a judeus devido a "preços altos" de comida. E há mais. Gêngis Khan teve o sucesso militar que teve porque a maior umidade nas estepes favoreceu a formação de seu exército.

O trabalho de Frankopan foi possível por causa de uma série de desenvolvimentos tecnológicos recentes que nos permitem estabelecer com precisão os padrões climáticos em diferentes tempos e lugares. Antes, esse tipo de variação só entrava para a história se algum autor percebesse a mudança enquanto ela ocorria e resolvesse registrá-la.

A moral da história é que dinâmicas ecológicas já extinguiram vários grupos e civilizações. Só sobraram os que souberam adaptar-se. Teremos muito trabalho nas próximas décadas.

A própria extinção

Falar de amor enquanto a mata chora/É luta sem flecha, da boca pra fora/Tirania na bateia, militando por quinhão/E teu povo na plateia/ vendo a própria extinção
Samba-enredo de Salgueiro, em homenagem ao povo Yanomami

Plantar árvores está trazendo água limpa para uma nação tropical

Dominga Reynoso abriu a torneira enferrujada e barulhenta acima da pia da cozinha. Não saiu nada, nem uma gota. Até os canos, que geralmente gorgolejavam em antecipação, permaneceram em silêncio. Reynoso e os seus vizinhos, que vivem em Santo Domingo, capital da República Dominicana, ficariam sem água corrente durante 22 dias – uma ocorrência cada vez mais comum na montanhosa ilha caribenha de Hispaniola, que o país partilha com o Haiti.

Historicamente, o país tem dependido de abundantes fontes naturais de água, que são livremente acessíveis a entidades públicas e privadas. Ao longo do século passado, no entanto, essa oferta esteve ameaçada. O aumento da procura por parte das indústrias turística, mineira e agrícola significou que resta menos para a população local.

“O crescimento económico e populacional está a exercer grande pressão sobre os recursos hídricos tradicionalmente abundantes da República Dominicana”, afirma Chloe Oliver Viola, especialista sénior em abastecimento de água e saneamento do Banco Mundial. “São urgentemente necessários reformas e maiores investimentos para garantir a utilização sustentável e o abastecimento seguro de água às empresas e às famílias.”

Décadas de desmatamento para dar lugar ao pastoreio de gado , desastres naturais como furacões que destroem sistemas e infraestruturas de esgoto já frágeis e má gestão dos recursos hídricos fizeram com que o país enfrentasse uma crise hídrica nunca vista antes, diz Francisco Núñez, do Caribe Central diretor da The Nature Conservancy, uma organização sem fins lucrativos especializada na conservação da água e da terra. “Estamos passando por uma seca severa”, diz ele. "Os animais têm morrido e as colheitas falharam. Construir uma barragem para conservar o abastecimento de água não é suficiente – precisamos da natureza para fornecer água, precisamos de voltar ao ecossistema e reconstruí-lo desde o início."

Em 2011, Núñez ajudou a lançar um projeto multinacional denominado Parceria Latino-Americana de Fundos de Água , trazendo milhões de dólares de financiamento de conglomerados como o maior engarrafador mundial de refrigerantes, para investir em projetos de água nas regiões da América Latina e do Caribe. A parceria estabeleceu 24 fundos de água em toda a região, formando um conjunto de diretrizes para definir padrões e melhores práticas para cada fundo.

Núñez, que nasceu e cresceu na República Dominicana, liderou dois fundos hídricos em seu país natal – um para restaurar três bacias hidrográficas na região de Santo Domingo, e outro no alto das montanhas, na bacia hidrográfica do Yaque del Norte, o mais longo rio no país. O objetivo dos fundos de água é simples, diz Patricia Abreu, chefe do Fundo de Água de Santo Domingo: “concentrar-se em soluções baseadas na natureza que contribuam para alcançar a segurança hídrica para o futuro”.

Para conseguir isso, os projetos têm aumentado as copas das árvores, garantindo que a água é gerida de forma eficiente, fornecendo água limpa às comunidades locais e trazendo capacitação económica sustentável e de longo prazo às zonas rurais – através de indústrias ambientalmente benéficas.

A bacia do rio Yaque del Norte abriga uma produção agrícola significativa, além de ser a segunda maior área metropolitana do país, o que tem levado ao aumento da tensão entre os usuários da água. “Como Estado insular, somos muito vulneráveis ​​às alterações climáticas”, acrescenta Abreu. “E os efeitos estão alterando a forma como o ciclo da água funciona.”


De toda a água da Terra, apenas 0,5% é água doce disponível para uso industrial, agrícola e doméstico. Esta água encontra-se em aquíferos subterrâneos, lagos de água doce e rios – áreas vitais para o abastecimento de água mundial e que estão sob ameaça de desflorestação, degradação de habitats e expansão das cidades. Embora a América Latina tenha o maior número de fontes de água do mundo, 36 milhões de pessoas na região não têm acesso a água potável.

Núñez e Abreu estimam que a seca está em curso desde 2015, embora haja falta de investigação científica no país quando se trata de questões ambientais. “É um desafio enorme”, diz Abreu. “Como país, precisamos de obter melhores dados sobre as nossas fontes de água – tanto as águas superficiais como os aquíferos subterrâneos. descobrir como abordamos as ameaças de um sistema degradado."

Grande parte do trabalho da The Nature Conservancy tem sido em torno da recolha de dados, da educação e do envolvimento de todos os utilizadores de água – desde serviços públicos a empresas privadas e comunidades agrícolas rurais. “Nosso objetivo é envolver todos e educar todos sobre a importância de conservar e administrar adequadamente a água”, diz Núñez. "Este modelo consiste em todos se unirem para trabalhar no mesmo objetivo."

O trabalho da organização começa logo no início do ecossistema da bacia hidrográfica, a 3.030 km (10.000 pés) na cordilheira da Cordilheira Central, também conhecida como Madre de las Aguas (Mãe das Águas). Cerca de 80% da população do país depende da água desta área, que também é a fonte do Yaque del Norte.

A reportagem desta história foi conduzida enquanto o escritor estava em outra missão. A viagem incluiu um voo de regresso (emissões de CO2 de 530kg), mas como não era o objetivo principal da viagem, não contabilizamos as emissões. As emissões digitais desta história são estimadas em 1,2g a 3,6g de CO2 por visualização de página. Saiba mais sobre como calculamos esse valor aqui.

A terra, que costumava ser coberta por uma vegetação verdejante, está agora gravemente degradada, com estradas cortando a paisagem seca, despojada de árvores nativas e fortemente pastoreada pelo gado. “Agora existe um entendimento de que se quisermos resolver a crise hídrica, precisamos reconstruir as bacias hidrográficas”, diz Núñez.

A equipe começou a abordar pequenos agricultores que vivem nestas áreas rurais e montanhosas com uma proposta: a The Nature Conservancy ajudaria a plantar culturas de café ou de cacau – ambas as plantas ajudam a prevenir a erosão do solo, o que leva a uma melhor retenção de água na bacia hidrográfica. Eles também são altamente valiosos economicamente; o país é um grande exportador de cacau orgânico de comércio justo . Plantar uma cultura valiosa significa que o dinheiro está a ser trazido para estas zonas rurais e é mais provável que os agricultores se apeguem a essa cultura.

Além do plantio de café e cacau, a organização semeia outras plantas para abrigar essas culturas e ajudá-las a crescer – prática conhecida como agrossilvicultura. Descobriu-se também que a técnica melhora a resiliência à água , à medida que as árvores retiram água do solo e a liberam na atmosfera na forma de vapor por meio de um processo chamado transpiração, que leva à precipitação local.

Os agricultores também são treinados em como monitorar a terra, auxiliando na coleta de dados vitais que são enviados à The Nature Conservancy, ajudando a informar projetos futuros e a observar o progresso. “Os técnicos vieram e nos deram cursos e palestras sobre como plantar cacau”, diz Digno Pacheco, agricultor participante do projeto Santo Domingo. “Aqui nesta pequena cidade não há muito trabalho. E vemos os benefícios de empreender este projecto de cacau porque no futuro poderemos colher cacau, mais pessoas poderão trabalhar e a nossa situação económica poderá melhorar”.

No início foi difícil convencer os agricultores, diz Núñez, pois havia pouca confiança em programas externos e pouca compreensão sobre como funcionavam as bacias hidrográficas. Demorou meses para convencer o primeiro grupo, mas agora “temos uma lista de espera”, explica. “Os agricultores veem o desempenho dos seus vizinhos com o nosso programa e querem inscrever-se!” Os agricultores são compensados ​​pela plantação de árvores nas suas terras agrícolas e a The Nature Conservancy fornece as sementes e fertilizantes. Até o momento, nenhum agricultor desistiu do projeto.

O projecto visa impactar as bacias hidrográficas que produzem água para consumo humano, agrícola e eléctrico, o que beneficiaria mais de 60% da população do país, melhorando o abastecimento de água nas comunidades urbanas e rurais e aumentando o saneamento e o tratamento de resíduos. O projeto também treinou 370 dominicanos em práticas de conservação de água e restaurou 8.000 acres (3.237 hectares) de ecossistemas produtores de água.

“Não existe plano B quando se trata de água”, afirma Abreu, que viu em primeira mão como a gestão da bacia hidrográfica nas montanhas pode impactar positivamente as pessoas da cidade – como Dominga Reynoso. “A segurança hídrica é muito importante para meios de subsistência sustentáveis, para a saúde humana e para o desenvolvimento económico em países como o nosso”, afirma. Até 40% dos agregados familiares gastam 12% do seu rendimento em água engarrafada, enquanto seis em cada 10 agregados familiares urbanos relatam um abastecimento de água intermitente. Mais de dois terços utilizam garrafas ou tanques para armazenar água para consumo diário.

A qualidade da água é tão importante quanto a quantidade disponível, destaca Walkiria Estévez, diretora do projeto Yaque del Norte. Os residentes em zonas atingidas pela pobreza relatam repetidamente a descoloração da água e os odores das torneiras geridas pelo governo, o que os deixa em risco de contrair doenças graves , incluindo a cólera. Dois terços das residências dominicanas não têm ligações de esgoto que tratem as águas residuais, o que leva à contaminação das águas subterrâneas, concluiu uma análise do Banco Mundial em 2021. Na capital, que tem o maior índice de água tratada, apenas 28% é tratada.

“É um problema que realmente precisávamos resolver”, diz Estévez, “e por isso começámos a construir zonas húmidas artificiais para tratar naturalmente águas residuais em áreas rurais e suburbanas para as comunidades”.

A Nature Conservancy construiu até agora 23 zonas húmidas nas bacias hidrográficas de Yaque del Norte, Nizao, Ozama e Haina, sendo que a maior delas trata o esgoto de 1.500 famílias. Esses sistemas de filtragem natural, construídos com camadas de areia e cascalho e plantas nativas como o vetiver, reduzem os poluentes em até 98% sem usar qualquer tipo de produto químico ou eletricidade, de acordo com a The Nature Conservancy. A água é absorvida pelas bacias escavadas manualmente e escoada por uma tubulação depois de filtrada pelas camadas de sedimentos. A água então volta para os rios ou é usada para irrigar projetos comunitários de cultivo de culturas de pequena escala.

Após a construção das zonas húmidas, 300.000 metros cúbicos (10,6 milhões de pés cúbicos) de águas residuais são agora tratados todos os anos, desviando a água contaminada dos rios, que muitos habitantes locais ainda utilizam para recolher água para lavar roupa, cozinhar, tomar banho e limpar. A zona húmida mais recente foi construída numa escola e a equipa treinou professores para utilizarem o ecossistema artificial para educar os alunos sobre ambiente e ecologia.

O Banco Mundial emprestou recentemente ao governo da República Dominicana 43,5 milhões de dólares (35,4 milhões de libras) para expandir e melhorar o abastecimento de água potável e os serviços de saneamento em dois municípios na costa norte do país. O projecto visa fornecer serviços de tratamento de águas residuais a 90.000 pessoas e acesso a água potável a 105.000 pessoas – 12.700 das quais serão ligadas a um abastecimento de água pela primeira vez.

O governo começou a avançar com reformas políticas para resolver o quadro fragmentado que actualmente abrange os recursos hídricos, a irrigação e os serviços de saneamento, e que está na origem da má gestão da água. (Um relatório do Banco Mundial de 2021 descreveu o sector da água e do saneamento como preso num “ciclo vicioso”.) Além disso, o governo propôs a criação de uma Autoridade Nacional da Água para definir directrizes para a gestão dos recursos hídricos. Em 2023, o governo lançou um programa para melhorar a eficiência dos fornecedores estatais de água.

Enquanto o governo promove as suas reformas legislativas de cima para baixo, Abreu continua a lutar pela água no terreno. “O mais importante para mim é a forma como integramos todos no país, para nos unirmos e cooperarmos para um objectivo maior”, diz ela. “A recolha de dados é importante, mas estamos a traduzi-los em projectos abrangentes que podem realmente responder ao desafio da segurança hídrica.”

E os resultados sugerem que a abordagem funciona. Os terrenos que passaram por uma cuidadosa restauração são totalmente diferentes das áreas intocadas: árvores saudáveis ​​e com folhagem plena pontilham a paisagem; os riachos são fluidos e claros, com vegetação margeando as margens; a grama verdejante cobre as colinas. É uma grande melhoria em relação às condições secas e áridas que Abreu e a sua equipa enfrentaram há uma década.

Nos próximos 10 anos, esperam duplicar o seu impacto, expandindo-se para mais 15 comunidades, ajudando outras 6.000 pessoas a terem acesso a água potável e restaurando outros 12.000 acres (4.856 hectares).

sábado, 10 de fevereiro de 2024

Pensamento do Dia

 


O banimento dos idosos

Estudo recente, da Universidade Federal de Minas Gerais, mostrou que há no país quase 24 mil idosos vivendo nas ruas, quase 10% de todas as pessoas que estão nessa condição. O número delas, entre nós, aumentou sete vezes nos últimos dez anos. Estamos, portanto, em face de uma tendência na demografia etária dos brasileiros.

É compreensível que seja difícil explicar essa anomalia social. Em parte porque a busca das causas prováveis tende a ser a das mais simples, mais óbvias ainda que menos prováveis, não as invisíveis.

Chama atenção que diferentes estudos sobre moradores de rua tendam a identificar como causa de sua situação de abandono os chamados defeitos de caráter, como alcoolismo e droga. Ou seja, nessa perspectiva, a culpa é da vítima.


O que, na verdade, nada explica. É muito mais fácil culpar o frágil pelos problemas sociais que protagoniza do que buscar causas, e não culpas, na própria estrutura social e em suas disfunções, num país em que as irracionalidades da economia se expressam como anomia social.

As sociedades são relacionais, tramas de causas recíprocas, tanto no que dá certo quanto no que dá errado, tanto em relação ao rico quanto em relação ao pobre. No caso de São Paulo, na chamada cracolândia, a incidência da marginalização decorrente do uso de drogas sugere o protagonismo da classe média. Observei isso na cracolândia da rua Helvétia, há alguns anos.

Caso em que se pode levantar a hipótese legítima de que o viciado desses ajuntamentos é alguém que busca a sociabilidade coletiva da rua porque é ela não excludente.

Ela se dá fora dos mecanismos de controle social dos diferentes grupos sociais de pertencimento e de referência. Como a família e a vizinhança e outros grupos de orientação social comunitária e afetiva.

Pessoas repelidas e reprimidas pela sociabilidade individualista dos agrupamentos formais, societários, os do indivíduo e não os da pessoa. Os do sujeito da cultura da produção lucrativa e não os da cultura do afeto.

As dificuldades do morador de rua para permanecer na sociabilidade da família parecem provir do fato de que a família em boa parte se tornou complemento e instrumento do sistema produtivo e lucrativo, isto é, da racionalidade econômica e não mais exclusivamente da afetividade social.

Sociologicamente, efeitos socialmente desorganizadores da vida em família, em muitos casos, não contam com a reação afetiva, compensatória e reintegradora do grupo familiar. Em boa parte porque os laços de família estão significativamente mediados e abalados pelo primado de relações de interesse.

A afetividade familista permanece na estrutura familiar, especialmente dos mais velhos em relação aos mais novos. E só residualmente presente, porque no sentido oposto e negativo, antissocial, dos mais novos em relação aos mais velhos. Avós tendem a ser muito mais generosos no acolhimento e proteção a netos e filhos do que os mais novos em relação aos mais velhos.

Isso tem muito a ver com as cada vez mais limitadas condições de vida das famílias. Com o chamado arrocho salarial dos anos iniciais da ditadura militar, o salário de duas pessoas em cada família tornou-se necessário para cobrir o que antes um único salário cobria. Aqui, isso tornou-se estrutural. Essa dificuldade desenvolveu um egoísmo peculiar nas gerações mais jovens, em começo de vida adulta, mesmo na família.

Mas não só nem principalmente isso. O sistema econômico, cada vez mais, tem transformado o trabalhador em matéria-prima da produção ao privá-lo dos meios de sua própria reprodução social, ao consumi-lo. E nele negar o meio de realização do capital. É um equívoco político supor que, na teoria das classes sociais, o trabalhador se explica apenas pela produção e não, também, pelo consumo de bens e serviços, condição da reprodução do capital.

É significativo que em São Paulo, o estado mais rico, estejam 40% dos idosos moradores de rua do Brasil. Entre as anomalias e contradições do sistema econômico brasileiro está a do banimento de seres humanos para os espaços de deterioração social, como os define Lewis Mumford.

O idoso de rua é o ser humano que chegou ao limite da procura de reintegração no mercado de trabalho. Da crescente dificuldade para conseguir emprego, o tempo cada vez maior de desemprego entre um emprego e outro define o ritmo da dessocialização do idoso no grupo familiar e na sociabilidade do trabalho, os vínculos sociais cotidianos mutilados pelo desemprego.

Sobram-lhe a necessidade de ressocialização para um modo de vida, um cotidiano marginal e não integrativo, na referência social dos grupos de rua a do viver de restos, ele próprio reduzido a resto da condição humana.

Sempre tragédias



O sistema esvazia nossa memória, ou enche a nossa memória de lixo, e assim nos ensina a repetir a história em vez de fazê-la. As tragédias se repetem como farsas, anunciava a célebre profecia. Mas entre nós, é pior: as tragédias se repetem como tragédias.
Eduardo Galeano

A trama da desatenção

‘Eu não sei dizer, nada por dizer, então eu escuto’ — diz a bonita letra musical. Podia ser frase de psicanalista à espera de um sinal do inconsciente, em meio ao jorro de falas do analisando. Mas também um canto retraído e perplexo do sujeito atual, diante dos absurdos que o cercam. Afinal, dizer o quê? Como se a palavra já tivesse morrido, tamanha sua inocuidade. E o escritor, enquanto nada articula, escuta sua alma discutir a função e a utilidade da escrita. O dilema paralisante pode ser injusto com os que precisam manter o espírito aceso por ideias que os ajudem a encontrar sentido para suas perplexidades.


Será o escritor capaz de atender à expectativa, emergir da banalidade e articular ideias instigantes, ressuscitando a palavra — como na arte que se afasta ou distorce a realidade para, em seguida, desvelar suas nuances? Pois bem. Uma conspiração mundial estaria em curso — anônima, inconsciente, coletiva. Mas, ao mesmo tempo, como se houvesse um desígnio subterrâneo, um projeto intencional, tão efetivo que se expressa em sua universalidade automática. Com a cumplicidade das vítimas. A estratégia é deixar todos os indivíduos desatentos. É uma conspiração da desatenção, de manter os seres entorpecidos — mesmo aqueles que, na superfície, parecem resistir e criticar.

Sabemos muito bem dos meios usados para esse fim, todos os desfrutamos diariamente — aliás, acertaram em cheio, nos oferecendo preencher a incurável falta que nos habita. Não temos consciência de que aspectos a trama nos impede de enxergar e pensar, e esse é um dos êxitos de sua ação. Ela se alia a nosso dispositivo inato de negação da realidade frustrante. As questões podem ser as mais íntimas do ser, familiares, ou também as mais próximas da sociedade, da política e do planeta. E tais questões se agravam à medida que aumenta a desatenção individual e coletiva. A grande esperteza da conspiração é nos convencer, enquanto isso, de que seus meios foram feitos para aumentar o entretenimento, o conhecimento, a democracia e a comunicação.

Enquanto acreditamos que tudo se resume a essa dimensão positiva, a boiada da pulsão inata destrutiva vai passando e carrega consigo a deterioração da civilização que se infiltra de forma sorrateira. Ela expande a barbárie das guerras, agrava os riscos climáticos, produz soluções políticas com líderes extremos, em meio a conflitos sociais e disparidade de renda cada vez maior. Entre os mais lúcidos, cresce de forma assustadora o sentimento de que não é possível fazer nada — muito menos escrever alguma coisa. A máquina do mundo roda guiada por mãos invisíveis, com engrenagens anônimas, desígnios sinistros autônomos que já escaparam do alcance voluntário, mesmo de seus criadores e das esferas de maior poder.

O sentimento de impotência substitui o idealismo, e um realismo conformista e utilitário ocupa o lugar que outrora era do romantismo. Salve-se quem puder nesta feira moderna. Aqui, o convite é sensual, e a distância já morreu — numa livre citação da profética música do saudoso Som Imaginário. E a curiosa contradição é que, numa sociedade cada vez mais dispersa e desatenta, que tudo esquece, os indivíduos ainda lutem, na esfera mundana — às vezes de forma desesperada —, por conquistar atenção e lembrança, mesmo que seja por aqueles 15 segundos fugidios de fama. Mas a cultura da desatenção, da ausência de foco e do esquecimento de tantas questões cruciais de uma sociedade provoca nos sujeitos desnorteados o sentimento de desamparo e orfandade. A História já mostrou qual é o risco político desse virtual cenário.

A polarização política e a polarização social

A polarização política que inquieta especialistas por sua persistência não é o mesmo fenômeno da polarização social. Faz diferença a dimensão afetiva, em que episódios de vida são mais reveladores do que conceitos. Assim, um indivíduo convicto do momento de "pacificação" decide aproximar-se do vizinho percebido como pacato, respeitoso, mas de quem se diz votar no lado violento. Na afabilidade da piscina condominial, aborda-o com tato, a resposta é tranquila: "Sim, sou bolsonarista, mas do bem". Acrescenta: "Isso existe".

O fato é real, recente, ao pé-da-letra. Vale cotejá-lo com um outro, relativo ao zap-grupo, também declaradamente bolsonarista, de uma mesma profissão pública. Um deles posta uma mensagem segundo a qual importante figura da República teria sido flagrada com cocaína. Ninguém acredita, porém. Não é verossímil para o perfil em questão. Depois de alguma ponderação, o autor admite ser fofoca. Arremata: "Mas daria uma excelente fake news".

Os episódios estão ligados por um grau peculiar de complexidade. O primeiro, benigno pela singeleza da confirmação, é ao mesmo tempo contundente pela admissão lógica de que trafega numa esfera oposta ao bem, mas com excepcional isenção própria. O segundo parte de autodeclarados liberais econômicos, respeitáveis em público, porém com inequívoca malignidade em seu caldeirão privado de veneno emocional: um bunker de linchadores virtuais.

É provável que o wokismo, transformado em terrorismo intelectual do politicamente correto, gere um ressentimento exasperado em frações de classe de leitura escassa, passageiras de ego-trips. Confundindo com política o avanço de um novo tipo de controle social por normatizações moralizadoras, abrem-se à fascistização das redes. Haverá quem possa se expressar em termos racionais. Mas o gozo vertiginoso da fake news consiste em surfar na onda irrefletida da ignorância e do falseamento.

Apesar do voto implícito, não é mesmo de política que se trata. Eleitoralismo é hoje a fibrose do corpo social, problema de saúde cívica. Não faz sentido ser bolsonarista, é como dizer "eu sou o que já era". Ou seja, jornal de ontem, agarrado a nome como a um balão murcho, resto de uma festa (da Selma?) que deu chabu. Senão, identidade de bolha, fixada num polo sem geografia humana. Daí uma comoção primitiva, pré-política, aparentemente inconsequente.

Mas cada indivíduo é um mínimo múltiplo comum: um é multi. O vizinho talvez acredite pertencer a outra espécie humana, aspirante a algo ausente no horizonte social. Afinal, o próprio governo acaba de anunciar um plano de industrialização com metas "aspiracionais", sabe-se lá o que seja isso. Já o zap-grupo, entubado na máquina da mentira, o que demanda mesmo é oxigenação cívico-cultural.

Quem matou Karl Marx

Não seria exagero afirmar que a desigualdade social anda meio fora de moda nos últimos tempos. O assunto ganhou projeção principalmente a partir dos anos 1960, no auge do debate mundial pós-guerra sobre a independência das últimas colônias europeias do ‘terceiro mundo’ e fortalecido pela multiplicação de organismos multilaterais, ongs e estudos acadêmicos.

Enquanto isso, na América Latina o debate foi abafado durante a epidemia de ditaduras ao longo de três décadas, recobrando o fôlego nos anos 1980 com a redemocratização da maior parte dos governos da região.

Nessa época, mundo afora, pensadores progressistas deram destaque ao agravamento abissal da desigualdade de renda e concentração de riqueza, alavancado pela globalização financeira e produtiva da economia e turbinado por um consumismo insaciável.

Na verdade, o assunto da pobreza como expressão da injustiça social já era debatido desde o final do século XVIII, associado principalmente às formas de exploração do trabalho e ao imperialismo internacional, que aqui e ali resultaram ora em revoltas sociais, ora na humanização do capitalismo liberal. Em 1912 o matemático italiano Conrado Gini anunciou seu Índice de Gini, que media a distância entre pobres e ricos.

As duas guerras mundiais embolaram o meio de campo dessa discussão, que ainda enfrentou resistências políticas expressivas durante a chamada guerra fria. Contudo, o debate da desigualdade social chegaria à virada do milênio de vento em popa. Exemplo disso, é a publicação do IDH Índice de Desenvolvimento Humano, idealizado pelo indiano Amartya Sen nos anos 1990.

O século XXI chegou repleto de esperança e novas ideias. O Fórum Social Mundial estava no auge, com suas edições em Porto Alegre atraindo palestrantes como o pensador Noam Chomsky e o recém-eleito presidente Lula. Autores como Boaventura Sousa Santos, Viviane Forrester, Naomi Klein e Paul Singer pregavam que outro mundo era possível. Manifestações como a batalha de Seattle e outras na Europa contra a OMC davam o tom o movimento antiglobalização.

No entanto, numa direção oposta, o atendado de 11 de setembro contra as torres do WTC desencadeou a guerra ao terror, reeditando uma espécie de macarthismo (no estilo quem não estiver com o capitalismo está contra ele), muito bem representado pelas invasões do Iraque e do Afeganistão e as execuções de Bin Laden dentro do Paquistão e do general iraniano Soleimani em Bagdá.

O efeito foi como um balde de água fria nos movimentos, ativistas e organizações que atuavam no enfrentamento das desigualdades sociais, que tocavam na ferida aberta das diferenças sociopolíticas entre os países do norte e do sul do mundo, o que poderia ameaçar ainda mais a liderança geopolítica dos países ricos naquele período.

Nesse cenário, desencadeou-se uma fragmentação das causas sociais em temas diversos, como aquecimento global, opção de gênero, direito à cidade, raça e cor, segurança alimentar, justiça climática, entre outros.

Sem desconsiderar a importância desses enfoques para o desenvolvimento humano e a sustentabilidade da natureza, é preciso retomar o foco primordial sobre a questão política central de todos esses problemas da humanidade, seja como causa, seja como consequência: a desigualdade social.

E agora, Jair?

(Com licença de Carlos Drummond de Andrade)

E agora, Jair?

A festa acabou,
a luz apagou,

o povo sumiu,
a noite esfriou,

e agora, Jair?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, Jair?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, Jair?



E agora, Jair?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio — e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
Jair, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, Jair!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, Jair!

Jair, para onde?
Ricardo Noblat