domingo, 22 de maio de 2022

O passado está vencendo o futuro do Brasil

O passado está vencendo o futuro do país em duas frentes. A primeira é a bolsonarista. O projeto de Bolsonaro não só elogia o passado, inclusive o macabro mundo das torturas, como é vazio de propostas para modernizar o Brasil nos próximos anos. Surpreendentemente, a oposição também não consegue se livrar dos problemas pretéritos. Uma combinação de políticas dos rancores com a falta de uma proposta para além do curto prazo gera uma paralisia de ação e de proposição. Neste cenário, as candidaturas movem-se pelo retrovisor, quando a sociedade espera um norte mais amplo para enfrentar os desafios do século XXI.

Bolsonaro é um presidente saudosista, tanto da ditadura militar quanto de um mundo conservador idílico que teria havido no passado, quando o patriarcalismo podia vender uma falsa ideia de harmonia entre todos os grupos sociais. O autoritarismo e a política dos valores radicais se encontram nesse modelo mental. Seus inimigos são a Constituição de 1988, com sua proposta de universalização de direitos por meio de políticas públicas e de democratização do sistema político, bem como as visões mais recentes sobre o meio ambiente, a questão de gênero, a igualdade racial e a maior preocupação das empresas com seu impacto na comunidade - o bolsonarismo critica fortemente o modelo de ESG nas redes sociais.

O projeto bolsonarista tem um referencial em tendências do presente, em especial a visão de extrema direita ao estilo de Viktor Orbán. Mas esse modelo húngaro não apresenta nenhuma ideia relevante sobre como enfrentar os enormes desafios contemporâneos. O mesmo cenário se repete com Bolsonaro: ele não tem nenhuma proposta consistente para resolver os dilemas da educação, da saúde, das questões urbanas, da temática ambiental e, sobretudo, da desigualdade e da pobreza sob os marcos da realidade contemporânea.

O máximo que o bolsonarismo nos apresenta é uma distopia: um mundo dominado pela sociedade completamente armada, por empreendedores que agem como predadores ambientais, por nenhuma garantia de direitos trabalhistas, pela destruição da ciência, pela colonização da escola por doutrinadores religiosos e pela aliança do atraso oligárquico do Centrão com o projeto autoritário de poder eterno da família Bolsonaro. O futuro do Brasil bolsonarista seria como um Mad Max tupiniquim, só que com maior predomínio masculino no comando do caos.

A distopia bolsonarista não é só o mundo caótico que propõe. Ela começa, na verdade, com a ameaça de golpe caso não vença a eleição, ou caso ganhe a Presidência da República e não consiga governar de forma autocrática por conta dos controles democráticos advindos do STF, do Congresso Nacional e da Federação. É importante frisar que o uso de métodos autoritários está no horizonte próximo tanto na hipótese de derrota como na de reeleição. Isso ocorre porque Bolsonaro não vislumbra sair do poder tão cedo nem ter uma oposição que funcione como limitadora de sua autoridade, o que o torna um obstáculo para qualquer futuro alternativo e baseado num projeto mais plural de sociedade, atento às tendências e desafios do século XXI.

Diante desta distopia bolsonarista, a oposição deveria apresentar-se como uma porta para um novo futuro. Só que o passado também tem dominado a estratégia e mesmo a agenda dos oposicionistas, da chamada terceira via ao lulismo. A primeira razão está na força da política do rancor em sua lógica de atuação. Os partidos e lideranças políticas ainda não se recuperam do trauma disruptivo que se iniciou em 2013, a partir do qual grande parcela do sistema partidário desestruturou-se completamente, em especial o centro democrático. Mas, em vez de buscar um novo arranjo, a maioria dos líderes insiste em reforçar as brigas e as animosidades pretéritas, num jogo entrópico em que o passado engole o futuro.

A política do rancor tem sua base primeira dentro dos próprios grupos e partidos políticos. A autodestruição do PSDB é o maior exemplo disso. As mágoas entre as lideranças tornaram inviável ter uma candidatura própria ou coligada com outras legendas, de modo a somar, e não a subtrair. O conflito entre Doria e Aécio é um jogo de soma negativa, ninguém ganha com ele. Sob esta lógica suicida, líderes plumados do partido estão hoje mais preocupados com o espólio depois das eleições - quem vai ser o chefe maior dos tucanos - do que com a forma como será apresentado o partido aos seus eleitores históricos, cada vez em menor número, mas que mereciam mais respeito.

As mágoas internas também estão dentro do lulismo. Mas elas não são apenas a continuação de brigas do passado, embora muitas vezes o sejam, como comprova o imbróglio em Pernambuco e noutros estados. Há um rancor conceitual com a forma pela qual Lula governou em seus oito anos de mandato, num modelo baseado em alianças amplas e, especialmente, em políticas públicas lastreadas em compromissos construídos entre divergentes. Muitos não entenderam e/ou não gostaram da escolha de Alckmin para o posto de vice porque até hoje não compreenderam e/ou assimilaram o modo lulista de governar, preferindo um sectarismo que não tem base na necessidade democrática de lidar e dialogar com uma sociedade heterogênea como a brasileira.

O debate atual está tão eivado de rancores e miopias que não se percebe que, se o melhor da lógica política da redemocratização for recuperado, não há nenhuma contradição na aliança entre Lula e Alckmin. Que os concorrentes reclamem dessa dupla, é explicável pela disputa dos votos. Que os aliados do lulismo reclamem, é porque não entenderam nada da história recente. Bolsonaro é um corte histórico radical porque optou por uma política contra os compromissos entre divergentes, algo que já estava em crise desde o segundo governo Dilma, embora menos por motivos ideológicos e mais por inabilidade e pelo desgaste do modelo político criado na Nova República.

O fato é que nos governos FHC e Lula, durante 16 anos, houve conflitos, mas também acordos importantes e formas de congregar posições diferentes. Para entender esse processo, é preciso ir além do presidencialismo de coalizão. Ambos os presidentes conversaram e negociaram com atores sociais diversos e antagônicos e sempre deixaram uma porta aberta para o diálogo.

Hoje, após quase uma década de tantas brigas que se transformaram em rancores, as forças políticas oposicionistas estão míopes em relação ao significado da distopia bolsonarista. Há lideres políticos e sociais que não apostam numa conversa civilizada entre si porque acreditam ser possível fazer oposição se Bolsonaro vencer. Para esses, sugiro um exercício: pergunte aos movimentos de direitos humanos húngaros e ao financista George Soros se é possível contrapor-se e controlar democraticamente o governo Orbán. A resposta será negativa e deveria iluminar quem se amarrou no passado e poderá assim inviabilizar o futuro do país, de nossos filhos e netos.

Somente será possível evitar a distopia bolsonarista se os oposicionistas conversarem mais entre si e, principalmente, se escolherem Bolsonaro como alvo central de suas críticas, usando o fracasso das políticas atuais como parâmetro de um novo modelo voltado para o futuro do país. Obviamente que cada partido ou força política pode buscar seu caminho próprio, mas quem não entender que o maior desafio histórico do momento é evitar a continuidade do bolsonarismo certamente estará fazendo um jogo contra o Brasil no curto prazo, e em detrimento das próximas gerações, no longo prazo.

Ao fazer da política um jogo de rancores e vetos aos demais oposicionistas, cada grupo neste espectro contribui para o fortalecimento do bolsonarismo. Seria preciso que as candidaturas de terceira via, Ciro Gomes, Janones e Lula dissessem que têm diferenças entre si, mas que aceitam assinar, formalmente, um pacto para evitar tanto o duplo golpe que Bolsonaro pode dar - seja para evitar a derrota, seja para governar autocraticamente -, como a continuidade das ideias perversas presentes nas políticas públicas bolsonaristas, como a destruição do meio ambiente, o sucateamento da educação e da ciência, a desestruturação do SUS e o armamento da população a serviço das milícias políticas e de bandidos.

Mais do que tudo, as candidaturas de oposição precisam se livrar da lógica do passado e apresentar projetos de futuro para o país que dialoguem com três coisas: com as experiências que deram certo no pós-1988 (e elas são pluripartidárias); com a lista de equívocos e desastres promovidos pelo bolsonarismo, para se contrapor a tais políticas; e, por fim, com ideias novas que circulam no mundo e no Brasil sobre os desafios contemporâneos. No lugar da distopia bolsonarista é preciso apresentar soluções que se alimentem de evidências científicas, de práticas bem-sucedidas e replicáveis, além de um ideal de sociedade mais plural e congregador.

Os rancores e os sectarismos não irão vencer o pesadelo bolsonarista. Apenas a apresentação de sonhos coletivos de futuro, por meio de uma perspectiva generosa de conversa com todos os grupos sociais, será capaz de levar o Brasil a um caminho mais amplo de mudanças. E nenhum partido ou candidato oposicionista conseguirá fazer tal transformação sozinho, pois só um oposicionismo plural poderá sepultar a distopia representada por Bolsonaro. É preciso entender isso antes que seja tarde.

sexta-feira, 20 de maio de 2022

Internet transformadora


O drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a detentor da verdade
Umberto Eco

O Governo que não houve

Se você notou que o Brasil perdeu mais 04 anos, certamente está preocupado em recuperar esse atraso. Ocorreu que o governo, não sabendo como haver, de fato não houve.

Imagine, por exemplo, a frustração da torcida do ‘Estado mínimo’, que só herdou incertezas e a desconfiança internacional. Nenhuma reforma neoliberal (administrativa, fiscal ou trabalhista) lhe foi entregue. A Petrobrás, Banco do Brasil e outras joias da coroa continuam estatais.

Por sua vez, a velha-guarda desenvolvimentista não recuperou espaço e influência na gestão pública nem na política econômica. Não demorou para que vissem o “Brasil Acima de Todos” ficar abaixo do “orçamento secreto acima de tudo”.


Também foram surpreendidos os entusiastas de Floriano e de sua ‘República sem democracia’. Sairão desgastados, sem ter visto ordem nem progresso, mas o samba já havia alertado: “não adianta estar no mais alto degrau da fama, com a moral toda enterrada na lama”.

Quem quiser revisitar o caminho que nos trouxe aqui, basta dar uma olhada nas eleições de 2018 (passionais e marcadas pela rejeição dos principais candidatos). Nesses casos, geralmente vence aquele que convencer o eleitor de que ‘não é o outro’.

Dito e feito, venceu quem personificou o herói que selaria o degredo do PT (e nada mais). Para agradar a todos, criou-se um enredo repleto de visões discrepantes de Estado, economia e sociedade.

Expectativas tão difusas, vindas de tantos setores, que seria inviável concretizá-las. Deu tão errado que sequer seu objetivo comum foi alcançado (Lula volta a assombrá-los em 2022, no estilo Conde de Monte Cristo).

No campo administrativo, se o time que subiu a rampa trazia na mala algum modelo de gestão, ninguém viu. A máquina federal só funcionou graças ao piloto automático de sempre (os funcionários concursados).

Sem noção de como governar uma das principais Economias do mundo (com 200 milhões de habitantes e complexidade continental), a demolição tomou o lugar da construção, encarnando o status de obra em si. O que passou ao alcance da caneta foi sumariamente desmontado, sem nenhum plano para o dia seguinte.

Com dificuldade de interpretar o mundo real, o Palácio isolou-se com caçadores de bruxas e mercenários, precarizando a qualidade do diálogo interno e externo (nem os pretendentes iniciais a grão-vizir aguentaram).

Para o povo, sobrou pandemia, desemprego e inflação. A Saúde e a Economia não contaram com instrumentos federais para mitigar e controlar do impacto das crises mundiais.

Ao final, só os descuidistas que frequentam os corredores mal iluminados terão obtido algum proveito ligeiro, passando boiadas às custas da Soberania e da justiça social.

A Ilha da Vera Cruz não resistirá a mais improviso. Nas eleições deste ano tem que haver projeto de País, visão de Estado e programa de Governo, sob risco de mais adiante o Noblat precisar publicar “O Futuro Que Não Houve”.

Comunidade e personalidade

Ao refletir sobre minha existência e minha vida social, vejo claramente minha estrita dependência intelectual e prática. Dependo integralmente da existência e da vida dos outros. E descubro ser minha natureza semelhante em todos os pontos à natureza do animal que vive em grupo. Como um alimento produzido pelo homem, visto uma roupa fabricada pelo homem, habito uma casa construída por ele. O que sei e o que penso, eu o devo ao homem. E para comunicá-los utilizo a linguagem criada pelo homem. Mas quem sou eu realmente, se minha faculdade de pensar ignora a linguagem? Sou, sem dúvida, um animal superior, mas sem a palavra a condição humana é digna de lástima.

Portanto reconheço minha vantagem sobre o animal nesta vida de comunidade humana. E se um indivíduo fosse abandonado desde o nascimento, seria irremediavelmente um animal em seu corpo e em seus reflexos. Posso concebê-lo, mas não posso imaginá-lo. Eu, enquanto homem, não existo somente como criatura individual, mas me descubro membro de uma grande comunidade humana. Ela me dirige, corpo e alma, desde o nascimento até a morte.

Meu valor consiste em reconhecê-lo. Sou realmente um homem quando meus sentimentos, pensamentos e atos têm uma única finalidade: a comunidade e seu progresso. Minha atitude social portanto determinará o juízo que têm sobre mim, bom ou mau. Contudo, esta afirmação primordial não basta. Tenho de reconhecer nos dons materiais, intelectuais e morais da sociedade o papel excepcional, perpetuado por inúmeras gerações, de alguns homens criadores de gênio. Sim, um dia, um homem utiliza o fogo pela primeira vez; sim, um dia ele cultiva plantas alimentícias; sim, ele inventa a máquina a vapor. O homem solitário pensa sozinho e cria novos valores para a comunidade. Inventa assim novas regras morais e modifica a vida social. A personalidade criadora deve pensar e julgar por si mesma, porque o progresso moral da sociedade depende exclusivamente de sua independência. A não ser assim, a sociedade estará inexoravelmente votada ao malogro, e o ser humano privado da possibilidade de comunicar.

Defino uma sociedade sadia por este laço duplo. Somente existe por seres independentes, mas profundamente unidos ao grupo. Assim, quando analisamos as civilizações antigas e descobrimos o desabrochar da cultura europeia no momento do Renascimento italiano, reconhecemos estar a Idade Média morta e ultrapassada, porque os escravos se libertam e os grandes espíritos conseguem existir.

Hoje, que direi da época, do estado, da sociedade e da pessoa humana? Nosso planeta chegou a uma população prodigiosamente aumentada se a comparamos às cifras do passado. Por exemplo, a Europa encerra três vezes mais habitantes do que há um século. Mas o número de personalidades criadoras diminuiu. E a comunidade não descobre mais esses seres de que tem necessidade essencial. A organização mecânica substituiu-se parcialmente ao homem inovador. Esta transformação se opera evidentemente no mundo tecnológico, mas já em proporção inquietadora também no mundo científico.

A falta de pessoas de gênio nota-se tragicamente no mundo estético. Pintura e música degeneram e os homens são menos sensíveis. Os chefes políticos não existem e os cidadãos fazem pouco caso de sua independência intelectual e da necessidade de um direito moral. As organizações comunitárias democráticas e parlamentares, privadas dos fundamentos de valor, estão decadentes em numerosos países. Então aparecem as ditaduras. São toleradas porque o respeito da pessoa e o senso social estão agonizantes ou já mortos. Pouco importa em que lugar, em quinze dias, uma campanha da imprensa pode instigar uma população incapaz de julgamento a um tal grau de loucura, que os homens se prontificam a vestir a farda de soldado para matar e se deixarem matar. E seres maus realizam assim suas intenções desprezíveis. A dignidade da pessoa humana está irremediavelmente aviltada pela obrigação do serviço militar e nossa humanidade civilizada sofre hoje deste câncer. Por isso, os profetas, comentando este flagelo, não cessam de anunciar a queda iminente de nossa civilização. Não faço parte daqueles futurólogos do Apocalipse, porque creio em um futuro melhor e vou justificar minha esperança.

A atual decadência, através dos fulminantes progressos da economia e da técnica, revela a amplidão do combate dos homens por sua existência. A humanidade aí perdeu o desenvolvimento livre da pessoa humana. Mas este preço do progresso corresponde também a uma diminuição do trabalho. O homem satisfaz mais depressa as necessidades da comunidade. E a partilha científica do trabalho, ao se tornar obrigatória, dará a segurança ao indivíduo. Portanto, a comunidade vai renascer. Imagino os historiadores de amanhã interpretando nossa época. Diagnosticarão os sintomas de doença social como a prova dolorosa de um nascimento acelerado pelas bruscas mutações do progresso. Mas reconhecerão uma humanidade a caminho.
Albert Einstein, "Como vejo o mundo"

Percalços de um golpe

"Golpe" é a palavra na ordem do dia. Adquiriu vida maiúscula em língua de políticos e páginas de jornais. Entidade tangível em mesa de bar, reunião de trabalho e almoço de domingo.

Quanto mais se fala, mais cresce a concretude. Antes se aludia ao "fantasma" do golpe, agora se discutem se seus braços são armados e se seu rosto é o presidencial.

Consenso não tem. Discute-se a coisa e seu nome, pois, como em 1889, 1930, 1964, há quem defina a mudança política à força como golpe, como quem a chame de "revolução". Os "revolucionários" atuais se dispõem às armas em nome da "liberdade" de impor o resultado eleitoral. Cantiga ensaiada em falas de presidente e família, de seu círculo político e dos fardados de diferentes forças e patentes.


No debate público, há o setor "não vai ter golpe". São os aferrados à tese de que, mesmo em frangalhos, as instituições democráticas aguentarão o tranco. No outro polo estão os catastrofistas. São os que frisam os perdigotos golpistas a transbordar das escarradas presidenciais.

Ambas as posições, a otimista e a pessimista, se baseiam em declarações. É um indicador, porque não existe golpe se ninguém tem intenção de golpear. Mas entre intenção e ação vai fosso largo e longo. A observação de golpes passados ensina que não é bolinho transpô-lo. Estudos sobre nativos e estrangeiros listam muitos percalços no processo golpista.

Um é que gogó é uma coisa, ação é outra. Pode-se esbravejar e conspirar, mas, ausentes apoios político e militar, fica tudo no reino das histórias infantis, com seus vilões ineptos para concretizar o plano de dominar o mundo. O cão ladra, mas, na hora do vamos ver, podem faltar-lhe dentes para a mordida.

Segundo óbice é organizar o encadeamento de pequeninas ações que, juntas, configuram um golpe. Quem já tentou pôr ordem em mais de duas dúzias de pessoas sabe quanto chove dissenso, imponderabilidade, indisciplina, e até pedra, nas ações coletivas. Coordenar um golpe é desafio em si, requer inteligência dos estrategistas políticos, ingrediente escasso na casa golpista.

Não basta ordenar. Até o plano mais perfeitinho morre na praia, sem remadores para a travessia. Precisa quem tope o risco e, aí, o jogo de lealdades é um poker. Tem legalista que se bandeia no último minuto, mas tem quem combina tudo e some na hora H. E, dado o amadorismo bolsominion, não custa lembrar que é preciso saber executar.

Supondo que o golpe tupiniquim não fosse o fiasco do norte-americano que lhe serve de modelo, os problemas mudariam de nível.

Um seria o reconhecimento internacional. A órbita Putinesca talvez aplaudisse, os governos democráticos, não. A imprensa global, que o mercado lê, cairia de pau na quartelada. Em escala doméstica, o governo golpista careceria de legitimidade entre a metade da sociedade já hoje amuada com o governo, incluído pedaço do PIB.

Haveria oposição obstinada, a não se ser que se fechassem tribunais, executivos estaduais, legislativo e jornais, se prendesse, exilasse ou arrebentasse a quase totalidade das elites cultural e intelectual e boa parte das cúpulas política e jurídica. O antigolpismo uniria os democratas. A resistência tomaria muitas formas, dentro e fora do que restasse das instituições, no país e fora dele, nas redes e nas ruas.

Por fim, ainda que nada desse errado, haveria que governar. E esse, como está bem demonstrado, não é o forte de Bolsonaro.

quinta-feira, 19 de maio de 2022

Pensamento do Dia

 


Jair Berlusconi estrebucha

“Deve fazer uma provocação por dia, tanto melhor se inconcebível e inaceitável. Isto lhe permite ocupar as primeiras páginas e as notícias de abertura da mídia e ser sempre o centro das atenções. Em segundo lugar, a provocação deve ser tal que a oposição seja obrigada a aceitá-la e a reagir com energia. Conseguir produzir todos os dias uma reação indignada das oposições permite se mostrar ao próprio eleitorado como vítima de uma perseguição”.

Ao fim de uma semana em que o presidente Jair Bolsonaro disse que as eleições podem ser “conturbadas”, chamou de “psicopatas” e “imbecis” quem classifica as manifestações em sua defesa de atos antidemocráticos, desafiou quem um dia se arvore a prendê-lo, conclamou o “povo bem armado, que jamais será escravizado” e, por fim, entrou com ação no Supremo contra um de seus ministros por “abuso de autoridade”, a descrição acima parece lhe cair como uma luva.

Data, porém, de quase 20 anos atrás, quando Umberto Eco pôs-se a descrever o modo Silvio Berlusconi de governar. Bem antes de Donald Trump, foi o ex-primeiro-ministro italiano quem antecipou o que viria a ser bolsonarismo no poder. O artigo, escrito em 2003, foi editado em livro que, no Brasil, teve publicação póstuma (“A passo de caranguejo”, Record, 2022).

O bisavô do presidente é de Anguillara, a 256 quilômetros da Milão de Berlusconi. Quando o ex-primeiro ministro estreou na política, a Itália emergia da operação “Mãos Limpas”, inspiradora da “Lava-Jato”, parteira de Bolsonaro. Filho da classe média alta italiana, Berlusconi valeu-se de fortuna, construída com um império de comunicação, para fazer política com o discurso de que não roubaria porque já era rico. Bolsonaro sempre foi político mas chegou à Presidência com o discurso de que não roubaria porque com ele também ascenderiam as Forças Armadas.


A tutela militar logo se esvaiu e Bolsonaro, sem ser dono de um império midiático, valeu-se das redes sociais, incipientes na era Berlusconi, como arma de seu poder. Não só ele, como também seus adeptos, vide Daniel Silveira. Olha só o que Umberto Eco diz sobre eles: “Para criar provocações em cadeia, não é só você que deve falar, mas é preciso deixar o caminho livre para os mais desvairados entre seus colaboradores”.

Bolsonaro hipnotiza a audiência com vaivéns em torno de temas como o da Petrobras, no seu terceiro presidente, todos ameaçados pela mudança na política de preços da empresa, nunca concretizada. Eco também já previra: “A técnica consiste em lançar a provocação, desmenti-la no dia seguinte (“vocês me entenderam mal”) e lançar imediatamente uma outra, de modo que para esta se dirijam as atenções tanto da nova reação da oposição como do renovado interesse da opinião pública”.

Se Emmanuel Macron valeu-se de seu embate com Bolsonaro, personagem proscrito da opinião pública internacional, isso tampouco foi uma novidade. Eco lembra que tanto Jacques Chirac quando Leonel Jospin, ex-presidentes franceses contemporâneos de Berlusconi, se valeram da oposição ao seu modo de governar para ganhar votos: “Prestem atenção, sou uma pessoa de bem, não vou fazer no meu país o que Berlusconi está fazendo na Itália”.

Sobra até uma carícia na auto-estima tupiniquim. Umberto Eco não podia prever, em 2003, que um Bolsonaro se abateria sobre a nação brasileira. Mas, ao comentar as acusações que se faziam contra Berlusconi, acaba por acalmar o complexo de vira-latas de quem se vê como o único povo incapaz de distinguir o conflito de interesse da proteção do presidente aos filhos: “Dá vontade de rir, portanto, quando teimam em sensibilizá-lo falando do conflito de interesses. A resposta que se ouve por aí é que não importa a ninguém que Berlusconi cuide dos próprios interesses se ele prometer que defenderá os interesses deles”.

No berço do primeiro experimento republicano da história, Berlusconi vivia às turras com o judiciário e acabou sonegado por sonegação. Eco, porém, era cético sobre os limites desta estratégia de denunciar o golpismo constitucional. A Itália é aqui: “A esses leitores não vale dizer que Berlusconi modificaria a Constituição, primeiro porque eles nunca a leram (...) Se um artigo da Constituição for depois modificado, para eles é irrelevante”.

O que resta à oposição além dos mais de 140 pedidos de impeachment que fazem a fortuna de Arthur Lira? A reação é necessária senão o mandatário vai tentar elevar a escala das provocações para testar os limites. Pelo menos é o que diz Eco: “Se a opinião pública não reagiu com suficiente energia, isto significa que até mesmo o mais ultrajante dos caminhos poderia ser, com a devida calma, percorrido. Este é o motivo pelo qual a oposição é obrigada a reagir, ainda que saiba que se trata de pura e simples provocação, porque, caso se calasse, abriria o caminho para outras alternativas”.

Se ficar calado é ruim, denunciar a escalada de desvarios tampouco é suficiente. Eco, que cresceu sob o fascismo, rejeitava a designação para Berlusconi ("as redações dos jornais estão abertas"). O que deveria vir depois que o candidato que lidera prometeu "jogar o fascismo no esgoto da história?"

"Suas próprias provocações”, escreveu Eco. A lua-de-mel de Lula e Janja? Eco tem outras ideias: “A capacidade de conceber planos de governo, sobre problemas aos quais a opinião pública é sensível, e de lançar ideias sobre futuras disposições do país, de tal maneira que obrigue a mídia a dar ao menos o mesmo espaço que dá para as provocações de Berlusconi”.

O escritor pregava a união da oposição. Tinha poucas esperanças sobre isso mesmo sem ter conhecido o PSDB. Insistia, porém, que a oposição fizesse a opinião pública perceber um outro modo de governar, nem que, para isso, fosse preciso usar as mesmas armas de Bolsonaro, quer dizer, de Berlusconi. A cobertura do casamento nas redes sociais lulistas foi por aí, mas Eco resolveu contrariar: “Se você diz às pessoas que o governo errou ao fazer isso ou aquilo, elas podem não saber se você tem ou não razão. Se, no entanto, você disser às pessoas que gostaria de fazer isto ou aquilo, a ideia poderia atingir a imaginação e o interesse de muitos, suscitando a pergunta sobre por que a maioria não o faz”.

Corria o segundo de quatro mandatos de Berlusconi quando Eco escreveu. A longevidade de seu poder, que somou nove anos, sugere que os italianos ignoraram os alertas do escritor, morto em 2016. Aos 85 anos, Berlusconi passou, o presidente estrebucha e o noivo aposta no "amor" petista contra o “ódio” bolsonarista. A ver quem faz eco.

País despreparado


O problema não é a tomada de três pinos.
É o deprimente da república
ter um pino a menos na cabeça.

Influencer é alguém com a capacidade
de influir em pessoas com tendência para
serem influenciadas por qualquer um.

Comprei um livro sobre déjà vu.
Ao começar a ler, me deu a sensação
de já ter outro exemplar em casa.

As moscas a gente suporta.
Mas, e essas manchetes
em torno do café da manhã?

Quem se arma até os dentes
tem muito mais chances
de morrer desdentado.

Não se faça de vítima.
Você nem imagina quanta gente
foi vitimada hoje.

Pode ser que o berço
seja esplêndido,
mas o país tá
cada vez mais insone.

Quando o Brasil melhorar,
vai ser um problemaço:
nós não estamos
preparados pra isso.

José Guaraci Fraga

Imbecilidade presidencial



As plataformas e a internet deram voz aos imbecis. Hoje qualquer um se diz especialista
Alexandre de Moraes, ministro do STF

Bolsonaro Cacareco 2.0 fica mais ridículo a cada dia que passa

O segundo turno já começou, Bolsonaro está perdendo e tem medo de ser preso se não se reeleger. É por isso que escalou sua pregação em favor de um golpe militar e fechou-se em copas.

Irrita-se com os que ainda ousam dizer-lhe que não é por aí que ficará no poder. Só ficará se recuperar parte dos eleitores que votaram nele em 2018 e que dizem que não votarão agora.

Ciro Nogueira (PP-AL) assumiu a Casa Civil como “o amortecedor de tensões” entre os Poderes da República. Na prática, desistiu do papel. Bolsonaro quer elevar as tensões, não amortecê-las.


Para isso, está disposto a fazer qualquer coisa. Com a notícia-crime que deu entrada no Supremo Tribunal Federal contra o ministro Alexandre de Moraes, quis transformar juiz em réu.

No país da jabuticaba como coisa nossa, ele pensou que isso seria possível. Apelou para a sorte: quem sabe a relatoria da notícia-crime não cairia no colo de um dos dois ministros que nomeou?

Deu ruim. Por manhas do sistema de sorteio do Supremo, coube ao ministro Dias Toffoli a relatoria do caso. Logo Toffoli, que abriu contra Bolsonaro um dos quatro processos que ele responde ali.

A notícia-crime foi uma das ações mais estúpidas a dar entrada no Supremo. Um estagiário a desprezaria de pronto. Mas assim como não entende de economia, Bolsonaro não entende de lei.

Na verdade, não entende de nada. Diga-se a seu favor que ele só pretendia causar barulho e ganhar tempo para que seus devotos fanáticos elegessem Moraes como alvo nas redes sociais.

O Supremo não lhe deu o tempo desejado. Resta-lhe, portanto, desafiar o ridículo e denunciar Moraes em cortes internacionais. Promete fazê-lo. Vai virar motivo de piada mundo afora.

Não fosse o apoio de militares que não se acanham em desfilar pela Esplanada dos Ministérios, em Brasília, com velhos e fumacentos tanques de guerra, Bolsonaro não passaria de piada.

Uma piada sem graça que a maioria dos eleitores brasileiros em triste hora decidiu alçar à Presidência da República, parte deles com o propósito de evitar a volta do PT ao poder. Um cacareco.

Nas eleições de 1959, um festejado rinoceronte fêmea do Zoológico de São Paulo, chamado Cacareco, recebeu mais de 100 mil votos para vereador. O partido mais votado não chegou a 95 mil votos.

À época, a eleição era realizada com cédulas de papel. Cacareco morreu em 1962. Seus restos mortais repousam no Museu de Anatomia Veterinária da Universidade de São Paulo.

Cacareco 2.0 não terá seus restos preservados em museus, mas deveria, como lembrança do que foi um dia o pior presidente da história do Brasil.

Lixo made in Brazil

 


Lembrai-vos de 1964! Não custa nada

O título da coluna é um trocadilho com o título do livro de Ferdinando Carvalho sobre a atuação do Partido Comunista Brasileiro (PCB), publicado pela Biblioteca do Exército, em 1981. Antes, o general havia escrito duas obras sobre o mesmo tema, porém ficcionais: Os Sete Matizes do Rosa e Os Sete Matizes do Vermelho, ambos em 1977.

Àquela altura, a luta armada contra o regime militar havia sido dizimada, com seus lideres mortos, presos ou no exílio. O PCB estava quase completamente desbaratado e os remanescentes de seu Comitê Central, entre os quais Luiz Carlos Prestes e Giocondo Dias, viviam no exílio. Embora defendesse a via eleitoral como forma de luta principal pela redemocratização, um terço dos seus dirigentes fora assassinado e apenas meia dúzia permanecera no país, na mais profunda clandestinidade.

Entretanto, o que estava em curso era a abertura política, alargada e acelerada pelas sucessivas derrotas eleitorais do regime, cujo projeto de institucionalização como “democracia relativa” já havia fracassado. Batido nas eleições de 1974 e 1978, seria derrotado novamente em 1982, depois da anistia política que trouxera de volta os exilados e às ruas os prisioneiros políticos.

O general João Batista Figueiredo, cada vez mais enfraquecido na Presidência, era desafiado pelos porões do regime, em atentados terroristas cujo desfecho foi a bomba do Riocentro, que explodiu no colo de um sargento e feriu um capitão do Exército ao seu lado. O artefato seria detonado no local onde se realizava um grande show artístico comemorativo do 1º de Maio, com milhares de estudantes e sindicalistas.

Ferdinando de Carvalho fez a cabeça de muitos militares hoje reformados e alguns jovens cadetes e oficiais que voltariam ao poder com a eleição do presidente Jair Bolsonaro (PL) — entre eles o ex-ajudante de ordens do general Silvio Frota, o hoje general Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência.

A matéria prima dos livros é o Inquérito Policial Militar (IPM) nº 7.098 (1964-1966), responsável por apurar as atividades do PCB no território nacional, que coordenou. Muito do que os militares e a direita ideológica brasileira, hoje, falam sobre a esquerda no Brasil são uma reprodução de suas teses, lançadas no começo dos anos 1980 como uma tentativa desesperada de impedir a redemocratização do país.

Domingo, recebi uma ligação do ex-deputado Marcelo Cerqueira, um dos líderes da campanha pela anistia, preocupado com a conjuntura política: “Estou me sentindo em 1963”. Diretor da UNE à época, Marcelo viveu intensamente o processo político que antecedeu o golpe militar de 1964. Emoldurada pela guerra fria, a vitória de João Goulart no plebiscito para restabelecer o presidencialismo derivou para a radicalização, cujo desfecho foi a destituição do presidente da República.


O comício da Central do Brasil, em 13 de março de 1964, no qual Jango anunciou a decretação das reformas de base — que o Congresso havia rejeitado —, serviu apenas para acirrar ainda mais a crise, que desaguaria na sua destituição, em 31 de março daquele ano, com três navios da Marinha norte-americana ao largo do Espírito Santo, prontos para intervir.

Marcelo e o então presidente da UNE, José Serra, hoje senador do PSDB por São Paulo, estavam entre aqueles que tentaram jogar água fria na fogueira, como San Thiago Dantas. Os líderes estudantis chegaram a procurar o marechal Castelo Branco, que até então dizia defender a legalidade, nos esforços de apaziguamento. Mas a rota de colisão entre os militares e Jango já era irreversível. E a maioria da opinião pública acreditava que o país caminhava para o comunismo, o que não era verdade.

O problema era outro. O principal líder do PTB, o partido de Jango, o ex-governador gaúcho e deputado federal Leonel Brizola, queria ser candidato a presidente nas eleições convocadas para 1965, mas era inelegível por ser cunhado do presidente da República. Os candidatos favoritos eram o ex-presidente Juscelino Kubitschek (PSD) e o então governador da Guanabara, Carlos Lacerda (UDN). JK era o candidato da conciliação, Lacerda o do confronto.

O líder comunista Luiz Carlos Prestes articulava a reeleição de Jango, em aliança com o PTB, o que provocou a ruptura da aliança com o PSD, que levara Juscelino ao poder em 1955.

Jango era um estancieiro gaúcho, de viés populista, formado no trabalhismo de Alberto Pasqualini e San Thiago Dantas. Não tinha nada de comunista. Se decidisse apoiar JK, mantendo a aliança de 1955, muito provavelmente não teria ocorrido o golpe militar. Considerado imbatível, Juscelino era visto como um retrocesso pela esquerda, o que foi um grave equívoco. O retrocesso era o golpe militar.

Com sinal trocado, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que lidera as pesquisas para a Presidência, também é visto como um retrocesso por amplos setores da sociedade. Bolsonaro tenta se aproveitar da situação para se manter no poder, mesmo que perca a reeleição, com uma narrativa que nos remete ao ambiente pré-golpe militar de 1964, na percepção daqueles que viveram aqueles momentos. Entretanto, os tempos são outros.

Brasil acima de presidiários

Os problemas do Brasil são muito mais sobre as regras do governo. Conheci quase todos os presidentes brasileiros e acredito que vocês precisam de um jeito de ter um presidente e instituições experientes para evitar que mais presidentes acabem presos
Eric Schmidt, ex-CEO do Google

Comida é insuficiente para 24% dos brasileiros

Uma pesquisa do Instituto Datafolha realizada na semana passada aponta que quase um em cada quatro brasileiros não teve o suficiente para comer nos últimos meses. Para 24% da população, a quantidade de comida disponível em casa para alimentar a família foi inferior à que seria necessária.

Dos entrevistados, 63% apontaram que a alimentação foi suficiente, e 13% declararam que a quantidade de comida ficou acima do necessário.

O Instituto Datafolha ouviu 2.556 pessoas em 181 municípios brasileiros entre a terça (22/03) e a quarta-feira (23/03), em levantamento que tem margem de erro de dois pontos percentuais para cima ou para baixo.

A chamada insegurança alimentar é mais evidente entre os mais pobres, ou seja, para quem tem até dois salários mínimos (R$ 2.424) de renda familiar mensal. Desses, 35% responderam que a quantia de comida é insuficiente.

No entanto, dos entrevistados com renda mensal de dois a cinco salários mínimos (R$ 6.060), 13% também disseram que faltou comida, a mesma constatação para 6% dos que recebem entre cinco e dez salários mínimos (R$ 12.120).

Entre as regiões, o Nordeste é a que mais sofre com a insegurança alimentar: 32% das famílias. A região é seguida por Sudeste, Centro-Oeste e Norte, que empatam com 23%, e pelo Sul, com 18%.

A crise econômica, a inflação, o desemprego e a pandemia podem ser considerados fatores que aumentaram ainda mais a insegurança alimentar no Brasil. Em 2020, por exemplo, um levantamento feito pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan) apontou que a pandemia de coronavírus aumentou o problema da fome no país.

Em 2018, dois anos antes do início da situação pandêmica, assim conceituada em março de 2020, a pesquisa da Rede Penssan indicou que 37% dos domicílios brasileiros estavam em situação de insegurança alimentar. Esse número subiu para 55% ao fim do primeiro ano da crise sanitária.

Entre os que perderam o emprego durante a pandemia, o número de quem considera a comida na mesa insuficiente chega a 38%. Os desocupados – que não estão em busca de trabalho – somam 28%. Entre os trabalhadores autônomos são 26%, e os assalariados sem registro formal, 20%.

Junto com a pandemia, o desemprego e a estagnação econômica, a inflação piorou ainda mais a situação de muitas famílias nos últimos meses.

Em números oficiais, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (IPCA) concluiu que a inflação encerrou 2021 com uma variação acumulada de 10,06% em 12 meses no Brasil, segundo dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 11 de janeiro último.

O ano passado registrou, portanto, a maior inflação desde 2015, quando o índice fechou o ano a 10,67%, bem acima dos 4,52% que haviam sido registrados em 2020.

Tanques e urnas não se misturam

Democracia é “um regime no qual o eleito governa, e o perdedor vai para casa”, de acordo com a definição de Adam Przeworski no livro “Crises da democracia”. Mas, para tal assertiva ser válida, é necessário que os competidores aceitem a legitimidade dos procedimentos. Não parece ser o caso das eleições de 2022. Reportagens recentes mostraram que as Forças Armadas enviaram cerca de 80 questionamentos a respeito do funcionamento das urnas eletrônicas e do sistema de contagem de votos.

A participação das Forças Armadas no processo eleitoral é necessária e salutar em termos de logística. São elas que transportam as urnas aos lugares mais remotos do Brasil profundo. Mas elas não fazem parte do sistema de accountability, uma vez que suas atribuições estão expressamente definidas no texto constitucional. A atração das Forças Armadas para o exercício de um papel que não é de sua natureza é fruto do saudosismo de Bolsonaro em relação a uma época em que urnas e tanques se misturavam.

Bolsonaro é um exemplo claro de crimes de responsabilidade que passaram impunes diante de um Congresso “complacente” e um Supremo Tribunal Federal (STF) “contido”. O peso da função representativa do primeiro não resistiu às benesses da caneta, enquanto o segundo optou por não “usurpar” a competência de outro Poder. Por força dessas circunstâncias, Bolsonaro, que violou a Lei de Segurança Nacional quando participou de atos que pediram o fechamento do STF e do Poder Legislativo, não apenas se manteve no poder, como participará de um pleito que ele mesmo questiona. Bolsonaro certamente foi beneficiado pelas incertezas de dois vetores: em seu lugar seria empossado um general, e quem poderia ocupar as ruas em caso de impeachment.


Numa democracia sadia, tanques e urnas não se misturam. Quando isso acontece, bom sinal não é. Além do mais, soa com muita estranheza cogitar uma apuração “paralela” controlada pelas Forças Armadas, pois até aqui não se sabe se existe um acordo preventivo entre o STF e elas para reduzir a margem para questionamento em caso de derrota de Bolsonaro ou se, de fato, os arroubos do presidente contaminaram a caserna.

O que temos de concreto no momento é que será uma eleição atípica no conjunto de pleitos presidenciais realizados de 1989 para cá, não só pelo grau de beligerância do atual mandatário, mas também pela zona cinzenta que cobre o papel das fardas.

Já foi dito no passado, pelo Doutor Ulysses, que “baioneta não é voto, e cachorro não é urna”. É incrível que isso precise ser lembrado.

terça-feira, 17 de maio de 2022

As coisas fora do lugar

Quando admitiremos, à luz da coleção de fatos robustecida dia após dia, que as Forças Armadas — zelosas de caráter interventor assaltado à Constituição — estão fechadas com Bolsonaro? Num fechamento que não apenas abarca o ataque à credibilidade do sistema eleitoral, mas mesmo se intensifica neste que é ataque à República.

É óbvio que as Forças são usadas pelo presidente. São usadas sob autorização — estímulo — dos comandos militares. Usam-se. Servem-se. Não há submissos num arranjo de poder que configura o governo militar. Todos mui satisfeitos, os fardados comendo na frente — como lembra a reforma da Previdência que o Ministério da Defesa produziu para si.

Há uma sociedade. Os militares estão com Bolsonaro, ativamente, no projeto de golpear a instituição eleitoral — o que, repito, equivale a golpear a República. Fazem isso de barriga cheia. Essa turma tem nome e está no Planalto; ou não fomos informados de que, desde 2019, os helenos e ramos, usando estruturas públicas, GSI inclusive, operam para colher informações que subsidiem as teorias da conspiração disseminadas por Bolsonaro contra as urnas eletrônicas?

Não nos venham com esses papinhos de que militares incomodados (nunca sabemos quem são) estariam, por meio da ascensão do general Paulo Sérgio ao Ministério da Defesa, costurando, com o TSE, um antídoto à sanha corrosiva do presidente. Os fatos contam outra coisa.

Como se comporta o general que dirige o Ministério da Defesa? Agora, ele centraliza a relação com o TSE na esfera da Comissão de Transparência das Eleições. E querem nos fazer crer que isso seria bom sinal; da tentativa de esvaziamento da infiltração militar no tribunal. Pode-se esvaziá-la à vontade doravante. O estrago está feito.


Naquela ocasião, quando Braga Netto escolheu o braço que plantaria no TSE, ainda havia, no modo como se apregoou o currículo do general Portella, alguma preocupação em dar verniz técnico à jogada. Com Paulo Sérgio matando no peito, o que se informa é que nada mais será — nem sequer disfarçadamente — técnico e impessoal. O assunto é político e será tratado pelo general ministro da Defesa, o próprio espalhamento de uma instituição que, sob a leitura pervertida do Artigo 142 da Constituição, age como Poder especial da República, com alcance para intervir.

Quer entender, no mundo real, a dinâmica da queda do general Portella, apeado da tal comissão? Primeiro: cumpriu a missão. Segundo: é alguém ligado a Braga Netto. Há disputas políticas no interior do governo militar. Braga Netto botou seu homem no TSE e foi ser candidato a vice. Rei morto. Rei posto. O rei posto sendo também o que, convidado e legitimado como interlocutor em matéria eleitoral, fala de igual para igual com os Poderes. Para que intermediários? As questões diabólicas, conjunto cuja essência se resume em “a Justiça Eleitoral brasileira é desonesta”, já resultaram. Nunca precisaram de respostas. Agora é só avançar.

É maio de 2022. Vão-se três anos e cinco meses de um governo que sustenta estado permanente de confronto e instabilidade, para o que sempre colaboraram os militares. Não existe, nunca existiu, ministro da Defesa moderado de Bolsonaro. Ou se é moderado, ou se é ministro da Defesa de populista autocrata. Não dá mais para embarcar na de “Paulo Sérgio é o novo Fernando Azevedo e Silva” — até porque Azevedo e Silva jamais foi moderado.

Ou se é ministro da Defesa moderado, ou se sobrevoa, com o presidente, em helicóptero camuflado, manifestação pedindo “intervenção militar com Bolsonaro no Poder”? Isso foi em maio de 2020.

Quem era o comandante do Exército quando Pazuello, general, subiu em carro de som para — em afronta aos códigos militares — discursar em ato de campanha eleitoral antecipada de Bolsonaro? Paulo Sérgio. E o que ele fez? Colocou os seus no devido lugar ou ignorou o regramento e passou adiante a mensagem de que militar podia ser agente político?

Os coturnos estão sobre a mesa da atividade política.

Que norte para a moderação encontra-se na forma e no conteúdo com que o general reagiu à fala do ministro Barroso — observação tão correta quanto atrasada — sobre estarem as Forças Armadas orientadas a desqualificar o sistema eleitoral? Barroso não deveria ter falado. Muito menos deveria ter reagido o ministro da Defesa. Mas ele é agente político cujo “âmbito das competências” há muito deixou de ser sugestão ambígua.

“As forças desarmadas”, como Fachin definiu quem cuida de eleição, não é só sacada esperta. É expressão que coloca, ao menos em palavras, as coisas no lugar, já que um dos componentes que distinguem e fundamentam a jactância militar como Poder interventor é a condição armada. Exatamente uma das razões por que militar não pode se meter em política.

As coisas — as armas — não estão no lugar. Não fingir que estão ajuda.

Brasil do terror

 


Pais contra a educação?

Nunca imaginei que o professor de geografia de esquerda que tive no segundo colegial fosse parte de um plano para implantar o comunismo no Brasil. Nem muito menos os professores de biologia, orientadores e psicólogos que se encarregaram da educação sexual desde o ginásio. Se fossem, não foi um plano muito eficaz. A maioria dos meus colegas não aderiu ao comunismo e não me consta que nem um único seja "contra a família". Boa parte deles, aliás, vota em Bolsonaro.

Imagine que terror ensinar para inocentes crianças de 14 anos que se deve respeitar as diferentes orientações sexuais? Ou que os jovens devem transar de camisinha para impedir ISTs e gravidez? Infelizmente, é justamente esse tipo de conteúdo que está sob ataque cerrado de políticos, líderes religiosos e pais ansiosos pelo Brasil inteiro. É o que mostra o relatório "‘Tenho medo, esse era o objetivo deles’: esforços para proibir a educação sobre gênero e sexualidade no Brasil", publicado pela Human Rights Watch.


Desde 2014, foram 217 projetos de lei (federais, estaduais e municipais) feitos para barrar "doutrinação" em sala de aula e proibir educação sexual e de gênero. Muitos são aprovados e só caem graças ao STF. Isso conta com apoio direto do governo federal, que só se interessa por educação quando é para estimular a caça às bruxas.

Chegamos ao ponto da então ministra dos Direitos Humanos criar um canal direto do governo federal para a denúncia de professores que atentem "contra a moral, a religião e a ética da família". Stalin —para ficar nas referências comunistas— não faria melhor.

Violência doméstica, abuso sexual, ISTs, gravidez indesejada, bullying. São alguns dos males que a educação sexual consegue prevenir e denunciar. Muitas crianças e jovens só se descobrem vítimas de abuso sexual ou violência —no seio da família, na igreja, na própria escola— graças às aulas de educação sexual.

As iniciativas dentro da política formal —governo e Legislativo— são apenas a ponta do iceberg. A perseguição hoje em dia não precisa do governo. Basta um trecho de aula —ou ainda uma proposta de tarefa— fora de contexto, embalada por um discurso de denúncia daquele "absurdo", um influenciador inescrupuloso, um grupo de pais politizado, e o estrago está feito. Professores recebem ameaça de morte por falar sobre métodos contraceptivos ou violência contra a mulher, algo que todo adolescente brasileiro, sem exceção, deveria conhecer. O resultado, apontado pelo relatório: professores ficam intimidados e omitem temas importantes.

O grupo de WhatsApp de pais da turma é uma ferramenta poderosa. É um jeito de os pais se conhecerem melhor, de acompanharem juntos o andamento da escola. Como pai, isso me ajuda. Acompanhar as atividades dos filhos, trocar impressões, conversar com eles, às vezes até criticar ou apresentar contraponto a algo que venha da escola, é contribuir com a educação. E, quando se acredita que algo grave aconteceu, conversar antes de tudo com a direção. Tudo isso contribui com a educação. Tornar esse grupo uma câmara de eco de histeria moral e denúncia é enterrá-la.

Vivemos na sociedade uma crise de confiança, estimulada por aqueles que ganham semeando a desconfiança infundada. A educação de crianças e jovens depende da relação de confiança entre pais e escola. Miná-la com leis de mordaça e com caça às bruxas é fazer dos próprios filhos bucha de canhão de militância política.

O orçamento de carbono e as eleições brasileiras

São dois os maiores desafios enfrentados por nós, humanos, neste século: reverter a dupla degradação, a humana (pobreza) e a ambiental (destruição de biomas).

Propostas para avançar nesse caminho deveriam ser um dos temas centrais nas eleições brasileiras neste ano; isso seria essencial para os brasileiros termos boas chances neste século XXI. Nada disso, porém, tem ocorrido. As conversas versam sobre quem é menos pior, quem se alia a quem, quem diz algo que aliena quem, quem escorrega ou não. Nunca se aborda o fundamental, ou seja, eleger quem para fazer o quê?

Pode-se afirmar sem receio de errar ser elevado o percentual da população que está ciente e preocupada com a persistência da miséria e com as consequências do aquecimento global, além da má qualidade da saúde e de outras necessidades básicas. Mesmo sem ser tema corriqueiro nas conversas entre eleitores, o “orçamento de carbono” pode ser facilmente entendido. Trata-se da quantidade adicional de gases que ainda se pode emitir sem comprometer os objetivos definidos no acordo de Paris. É tema central em conversas de eleitores de vários países.


Muitos países onde a população é majoritariamente pobre, Brasil inclusive, exigem ajuda dos países ricos para reduzir suas emissões. O argumento é basicamente o seguinte: “nosso povo precisa melhorar sua qualidade de vida. Alterar o padrão energético custa caro. Assim, sem ajuda, optamos pelo “desenvolvimento” e não por reduzir nossas emissões”.

Há muitas falhas neste argumento. A primeira delas é considerar “desenvolvimento” como sinônimo de “melhorar a qualidade de vida”. Esse erro afasta muitas opções que, ao mesmo tempo, podem melhorar a qualidade de vida e contribuir para reduzir as emissões. Por exemplo: 1) acabar com o lixo espalhado pelas ruas, rios, campos e cidades; 2) alcançar pontualidade no sistema de transporte coletivo.

Voltando ao orçamento de carbono, o fato é que restam aos humanos apenas 1,3 trilhões de toneladas para ficarmos dentro das metas de Paris. Devíamos emitir bem menos, para ficarmos abaixo do limite. Dada essa condição, o que se pode fazer para conseguir o máximo de melhora da qualidade de vida dos mais pobres, com o mínimo de emissões?

É preciso que se dê à essa questão e a esse orçamento uma importância no mínimo igual à que se dá ao equilíbrio dos gastos públicos, com ou sem teto de gastos. Isso, para dar aos brasileiros que vivem com várias carências uma chance de melhora. De pouco adianta tentar dar-lhes alimentos que serão levados por uma enchente decorrente do mal controle do uso do solo. Ou permitindo construções ao longo dos cursos d’água. Ou desviando recursos com a finalidade de ajudar a eleger os já eleitos.

São problemas concretos os que afligem a maior parte da população brasileira. Só com propostas também concretas será possível encontrar o caminho para tirar o brasileiro da triste situação em que se encontra.

Se reeleito, Bolsonaro dará um chute no traseiro dos seus devotos

Foi assim que fez Benito Mussolini, o Duce da Itália fascista dos anos 20 a 40 do século passado, tão logo se consolidou no poder. “O homem da Providência”, como o batizou o Papa Pio X, expurgou de suas fileiras mais de 100 mil fascistas de raiz, todos sinceros, porém fanáticos, radicais, que atrapalhavam seus planos.

Sem jamais desprezar o emprego da violência, no comando de um Estado policial onde já não havia mais oposição e o Rei era seu maior aliado, Mussolini queria ser reconhecido pelo mundo como um estadista, e foi, até aliar-se a Hitler, ser deposto, virar um governante fantoche e, por fim, ser morto pela resistência italiana.

Morreu fuzilado. Seu corpo, e o da sua amante, foram expostos em uma praça de Milão, onde o fascismo nasceu depois da Primeira Guerra Mundial. Bolsonaro não precisa se preocupar porque essas coisas não acontecem por aqui. Nem mesmo se preocupar em ser preso. Este é o país dos acordos, não de rupturas.

Investigado em quatro inquéritos que correm no Supremo Tribunal Federal, Bolsonaro usa o risco de ser preso para se vitimar e despertar os instintos mais primitivos dos seus devotos, para além dos que se reúnem no cercadinho do Palácio da Alvorada. Para todos, ontem, ele passou recibo do seu desespero.



Talvez tenha sido até aqui o recibo mais escandaloso do primeiro presidente candidato à reeleição da história do Brasil que poderá ser derrotado. “A liberdade é mais importante que a nossa própria vida. Ainda falam que eu vou ser preso. Por Deus que está no céu, eu nunca serei preso”, afirmou Bolsonaro.

O discurso de improviso, recheado de palavrões e de gritos, foi feito diante de empresários em um almoço fechado que marcou a abertura de uma feira da Associação Paulista de Supermercados, na zona norte da capital paulista. Pelo cálculo dos organizadores do evento, compareceram 720 pessoas. Os aplausos foram tímidos.

“Eu não sou fodão, não”, disse Bolsonaro, antes de profetizar que o país terá em outubro “eleições conturbadas”. Segundo ele, “tudo pode acontecer. Podemos ter outra crise. Podemos ter eleições conturbadas. Imagine acabarmos as eleições e pairar, para um lado ou para o outro, a suspeição de que elas não foram limpas?”

“Não sou ditador. Sou uma pessoa que tem responsabilidade com o Brasil”, ponderou, para em seguida dizer que “só Deus” poderá tirá-lo da presidência. “Não adianta ficar inventando canetada”. Deus nada tem a ver com isso. Aos homens, concedeu o livre arbítrio. Aos eleitores, caberá decidir a sorte de Bolsonaro.

Foi Lula quem falou que Bolsonaro não teme o voto eletrônico, teme ser preso. Mas não foi o que Lula disse que fez Bolsonaro exaltar-se. Seu destempero foi tal que ele criticou até parte dos brasileiros por sua ignorância. Costuma ser um mau sinal quando candidato critica o povo:

“Uma parte da população não sabe ver diferença. Olha na ponta da linha o preço na gôndola do supermercado e vota de acordo com o que está vendo, achando que vai voltar o diesel a R$ 3, a lata de óleo a R$ 5″.

É sinal de amadorismo quando um candidato dá munição de graça aos adversário, e Bolsonaro deu antes de voar a São Paulo:

“Falam ‘no tempo dele, o povo vivia um pouco melhor do que hoje’. Lógico que vivia, eu concordo. Não tinha o pós-pandemia, do ‘fique em casa’, economia cheia de coisa, uma guerra, entre outros problemas”.

Lula poderá invocar o testemunho de Bolsonaro de que o povo vivia melhor quando ele governava o Brasil. Por sinal, em 2002, Bolsonaro votou em Lula para presidente. Depois procurou-o para sugerir um nome para ministro da Defesa. Levou um chá de cadeira na Granja do Torto e foi embora sem ser recebido.

Bolsonaro sequer tem se dado o cuidado de poupar os que lhe dão razão e atendem aos seus apelos. A pretexto de defendê-los, chamou muitos deles de “malucos” no último domingo em Brasília:

“Um maluco levanta uma faixa lá: AI-5. Existe AI-5? Tem que ter pena do cara”.

Não “tem que ter pena do cara”. Os “malucos” repetem o que já ouviram de Bolsonaro e dos seus filhos. Ouviram que a ditadura de 64 foi boa, ouviram que ela matou menos gente do que deveria, ouviram elogios à tortura e ao coronel torturador Brilhante Ulstra, e ouviram os ataques à Justiça, como este, o mais recente:

“Só um psicopata ou um imbecil para dizer que os movimentos de 7 de Setembro e 1º de Maio atentam contra a democracia. Quem diz isso é um psicopata ou imbecil”.

Ministros do Supremo e do Tribunal Superior Eleitoral classificaram as manifestações bolsonaristas de 7 de setembro do ano passado e de 1º de Maio deste ano de atentados contra a democracia.