terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Uma guerra particular

Me segura que vou ter um troço. Esta é uma frase cômica, talvez muito vulgar para um tema clássico como a política externa de um país. No entanto, ela me parece adequada para definir os passos de Bolsonaro neste primeiro ano de governo.


Ele começou questionando a relação com a China, o nosso maior parceiro comercial. Os chineses não podem comprar o Brasil, dizia. Com o tempo, a turma do deixa-disso o convenceu de que as relações com a China são necessárias. Os próprios chineses, do alto de muitos séculos de experiência, estavam tranquilos. Hoje, Bolsonaro já fala de um futuro comum com a China.

Bolsonaro resolveu transferir a embaixada do Brasil em Israel para Jerusalém. De novo, a turma do deixa-disso o convenceu de que não era oportuno. O filho Eduardo insiste na tese. Isto indica, pelo menos, que na próxima geração de Bolsonaros no poder a transferência pode ocorrer. Isso leva tempo e depende das urnas.

Bolsonaro disse a Trump que o ama. Sua ideia era se alinhar totalmente com os Estados Unidos. De novo, a turma do deixa-disso alertou: calma, é preciso se aproximar sim, mas com cautela.

Ele achou que os Estados Unidos indicariam o Brasil para a OCDE. Pensava que isto viria de uma hora para outra. Os americanos indicaram a Argentina, pois já tinham compromisso anterior com o vizinho. Trump vai cumprir a promessa. Mas no seu tempo. Por enquanto, fala em taxar aço e alumínio do Brasil sem, ao menos, telefonar para Bolsonaro.

Por falar em Argentina, Bolsonaro criticou a escolha popular e disse que aquilo iria se tornar uma nova Venezuela. Resolveu que não iria à posse de Alberto Fernández. Em seguida, designou um ministro. Voltou atrás e disse que não iria mais ninguém. De novo, a turma do deixa-disso entrou em campo. Bolsonaro atenuou seu discurso e resolveu enviar o vice, general Mourão.

Nem sempre foi possível segurar Bolsonaro. Às vezes, ele teve um troço, como no momento em que divulgou o vídeo do golden shower. Sua ideia era mostrar como o mundo estava perdido.

Bolsonaro de novo teve um troço quando foi criticado por Macron e ofendeu Brigitte, a mulher do presidente francês.

No campo da política ambiental, aí sim não foi possível contê-lo. Ele não consegue entender a preocupação mundial com a Amazônia, muito menos com o aquecimento do planeta.

Mesmo contido em vários momentos, continuou tendo um troço, dessa vez acusando Leonardo DiCaprio de financiar as queimadas na Amazônia. Em seguida, investiu contra Greta Thunberg: pirralha, pirralha.

Bolsonaro não entende a influência crescente da juventude. Ainda mais quando é encarnado por meninas. Ele mesmo disse que fraquejou quando fez a filha, depois de tantos varões na família.

Mercenários

O Brasil foi um mercenário, que prometeu só fazer os esforços de redução das emissões, do desmatamento e das queimadas, se os países ricos pagarem para que se faça isso a Amazônia é de nossa inteira soberania.
 
Mas soberania implica em responsabilidade. Não posso dizer que sou soberano, mas só cuido daquilo que eu sou soberano, se alguém me pagar 
Marina Silva, ex-ministra do Meio Ambiente

Política é missão, não profissão

A política não é um fim em si mesmo, mas um sistema-meio para administrar as necessidades do povo. Logo, é uma missão, não uma profissão. Aristóteles ensina que o cidadão deve servir à polis visando ao bem comum. Ao se afastar dessa meta, dá lugar à corrupção, pois “se desvia do objetivo e passa a governar de acordo com seus interesses”.

Por conseguinte, a política não deve ser escada para promover pessoas ou facilitar negócios. O sistema político desenvolve a capacidade de responder aspirações, transformar expectativas em programas, coordenar comportamentos coletivos e recrutar para a vida pública quem deseja cumprir uma missão social.

Utopia? Pode ser, mas deve servir de inspiração. Infelizmente, entre nós, a política tem sido tratada como bom negócio. Longa tradição. Ao criar e doar 14 capitanias hereditárias a donatários entre 1534 e 1536, d. João III plantava a semente do patrimonialismo. De posse da terra, os donatários podiam até transferi-las para os filhos, mas não vendê-las. Capitania virou possessão, propriedade.


Hoje, parcela dos nossos representantes considera espaços públicos como feudos. Assim a política se transforma num dos melhores negócios da Federação. O caminho: primeiro, conquista-se o mandato; a seguir, a política vira instrumento de intermediação no mercado de 27 Estados (com o DF). São estruturas, cargos e posições nas esferas federal, estadual e municipal.

Um negócio com cerca de 150 milhões de consumidores, o contingente eleitoral. Para chegar até eles, um candidato gasta bons trocados (custo médio hoje entre 12 a 15 reais por eleitor), a depender do cargo, de vereador a presidente da República.

Candidatos ricos bancam suas campanhas. A maior parte recebe recursos do fundo partidário ou doações. Para 2020, o fundo partidário deve ser em torno de R$ 2,5 bilhões. PSL e PT, os dois maiores partidos na Câmara, devem receber as maiores fatias. Numa campanha despende-se entre três a quatro vezes mais do que a quantia apresentada aos Tribunais eleitorais. Poucos se elegem com somas pequenas.

Dessa moldura, surge a pergunta: se a campanha política é tão dispendiosa e se candidatos gastam mais do que ganham, por que o empenho para assumir a sacrificada missão de servir ao povo? Ou há muito desvio entre o espírito cívico de servir e o sentido prático de se servir?

Arriscado inferir sobre o comportamento dos políticos, pois parcela atua de maneira nobre. E acaba sofrendo injustamente críticas por desvios cometidos por alguns.

Onde brota a corrupção? Começa pelo costume do superfaturamento. Obras públicas geralmente recebem um dinheiro a mais, que paga achacadores e engorda campanhas no círculo vicioso do lamaçal, hoje devassado pela Operação Lava Jato. Mas há sempre uma fresta, uma vez que em postos chaves estão os indicados pelos políticos.

Portanto, há um PIB informal formado por recursos extraídos das malhas da administração nas três instâncias federativas. Sanguessugas predadoras escondem-se em parcela do corpo político para sugar as veias do Estado brasileiro.

Dinheiro e poder são as vigas da vida pública, mas começam a soçobrar nesse início de ciclo da ética e da transparência.

Bolsonaro aparece em HQ do Batman identificado como Bozo

Perfil satírico de Bolsonaro diz 'Se dependesse de mim,
todo cidadão de bem teria uma arma de fogo em casa
O presidente Jair Bolsonaro talvez seja o primeiro brasileiro a aparecer em uma história do Batman. Mas, neste caso, ele foi retratado como um vilão, mencionado como uma figura que promove a violência.

Uma nova edição de série "The Dark Knight Returns" traz em uma das páginas a imagem de um perfil fictício do Twitter, com a foto de Bolsonaro, identificado pelo nome 'JM. Bozo'.

Abaixo do retrato de Bolsonaro, em inglês, a suposta mensagem tuítada pelo perfil: "Se dependesse de mim, todo cidadão de bem teria uma arma de fogo em sua residência".

Publicada pela DC Comics, esta edição da revista foi escrita pelo renomado roteirista Frank Miller e ilustrada pelo premiado artista brasileiro Rafael Grampá.

E Bolsonaro não está sozinho na edição, cujo título é "The Dark Knight Returns: Golden Child": o presidente americano Donald Trump aparece repetidas vezes.

Na trama, que é a quarta sequência do clássico "The Dark Knight Returns", manifestantes protestam na cidade de Gotham contra a possível reeleição de Trump quando são atacados por uma multidão vestida de Coringa.

A situação só é controlada quando a Batwoman aparece na cena e ajuda no combate aos agressores pró-Coringa (associados a simpatizantes de Trump).

Na mesma página, o quadrinho faz críticas a cobertura da imprensa e mostra as manchetes de um jornal, a "Gotham Gazette", com os títulos: "Manifestantes selvagens trazem caos para Gotham" e "Vândalos infelizes com a campanha de reeleição destroem e queimam a cidade".

Há também um blog, "True News", que diz que um cidadão de Gotham, vestido de palhaço, é "atacado subitamente por manifestante".

Ao lado desses quadros, aparece a referência ao presidente do Brasil com uma reprodução do perfil fictício no Twitter de JM. Bozo.

Observando o desaparecimento do Cerrado

Com o carro em movimento, sem tirar os olhos do mapa na tela do celular, Sérgio Nogueira, pesquisador da Universidade Federal de Goiás (UFG) indica o ponto exato da parada. No local, zona rural de Pium, oeste de Tocantins, uma estrutura grande de metal está construída sobre o solo vermelho, agora exposto.

Foi dali que partiu, em maio último, um alerta de desmatamento captado pelos satélites do Deter, Sistema de Detecção do Desmatamento em Tempo Real, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Seis meses depois do alerta emitido, não há resquício do cerrado. A mata nativa foi substituída por um armazém de grãos.

A área entrou na conta do desmatamento do cerrado em 2019. O levantamento divulgado nesta segunda-feira (16/12) pelo Inpe estima que 6.484 quilômetros quadrados foram devastados de agosto de 2018 a julho de 2019. O número é 2,26% menor que o desmatamento verificado no período anterior, porém ainda alto e muito próximo ao valor absoluto medido em 2018, que foi de 6.634 quilômetros quadrados.

Sérgio Nogueira não conhecia esse dado quando foi a campo no interior do Tocantins, semanas antes da divulgação. Parte do trabalho dele, na verdade, é inspecionar a qualidade do sistema de monitoramento do Inpe: ele integra o grupo independente do Laboratório de Processamento de Imagens e Geoprocessamento (Lapig), da UFG, que visita áreas apontadas como desmatamento e também revisa os dados no laboratório.

A expedição pelo Tocantins foi a última das quatro realizadas com o objetivo de produzir uma nova avaliação sobre a qualidade dos dados do Deter e Prodes. No total, foram 367 visitas – ou inspeções - em áreas de desmatamento apontadas pelos satélites nos estados da Bahia, Maranhão, Piauí, Tocantins e Goiás.

A primeira análise produzida pela UFG, que se concentrou em dados de derrubada da mata processados de 2000 a 2017, apontou uma alta precisão. "A acurácia global do Prodes e do Deter no cerrado corresponde a 93,4% por meio da inspeção visual”, detalha Nogueira.

É comum, durante as visitas de campo, se deparar com restos de árvores derrubadas e madeira queimada no terreno. Em outros locais, onde o desmatamento apontado ocorreu há mais tempo, plantações de arroz, soja e pasto para gado são dominantes.

Tocantins lidera o ranking de alertas emitidos pelo Deter desde 2017 para o cerrado. Segundo a plataforma MapBiomas, que refina dados coletados em diversas fontes, dos 768 alertas de desmatamento identificados de janeiro a setembro deste ano no estado, 710 não tinha autorização para derrubada da mata. São mais de 92% de ilegalidade.

Desde 1970, o cerrado brasileiro já perdeu quase metade de sua área original, segundo levantamento de 2018 da ONG WWF. Estima-se que apenas 8% do cerrado estão hoje de fato protegidos do avanço do desmatamento. Há alguns anos, um estudo publicado na revista Nature pelo Instituto Internacional para a Sustentabilidade (IIS) já alertava que, se a destruição avançar nessa toada, o cerrado brasileiro pode ser testemunha da maior perda de espécies vegetais da história.

Andrea Scheide, auditora do projeto Prodes Cerrado, integra a expedição. No Inpe, ela revisa o trabalho dos intérpretes, como são chamados os profissionais que identificam e delimitam no mapa a área desmatada vista pelo satélite. Nenhum dado é divulgado sem que os auditores internos façam essa leitura crítica.

A partir de 2018, o monitoramento da perda do cerrado passou a ser anual, seguindo os moldes do Prodes Amazônia. A dificuldade de fazer a diferenciação da imagem gravada pelo satélite, porém, é maior: no cerrado, segundo maior bioma do país, há grandes variações na vegetação, incluindo campos naturais que parecem pastos e mata um pouco mais densa.

"É importante participar dessas expedições para confirmar os desmatamentos que vemos por satélite e entender melhor como as paisagens naturais aparecem nas imagens captadas”, explica Scheide, que trabalha com sensoriamento remoto há 21 anos.

Foi a primeira vez que ela viu ao vivo os murundus, formações com árvores de baixo porte que se agrupam em círculos por planícies. "Na imagem de satélite, murundu parece uns pontinhos pintados com canetinha”, comenta Scheide.

Campos de murundu são cada vez mais raros. A substituição da vegetação por plantações de arroz foi flagrada em vários momentos da visita de campo em Tocantins.

"De maneira geral, o bioma vem sofrendo uma pressão muito grande da agropecuária e dos sistemas de plantio comerciais e extensivos. Dentro dessa proposta de monitoramento, além da preservação de áreas importantes para biodiversidade, existem questões que vão muito além”, diz Raquel Trevisan, bióloga. "É de extrema relevância conhecer o que se tem aqui”, comenta sobre o papel do cerrado.

O cerrado é considerado o berço das águas do país. É na área desse bioma que nascem rios importantes para abastecimento de vários setores, como os que integram as bacias do Tocantins-Araguaia, do São Francisco e do Prata.

"Manter a vegetação do cerrado é crucial para manter a qualidade e quantidade dessas águas que vão abastecer essas bacias”, pontua Cláudio Almeida, coordenador do sistema de monitoramento do Inpe, sobre a vigilância por satélites.

Desde que o cerrado se transformou na região mais importante do país para produção de grãos, como soja, a partir da década de 1970, metade da vegetação original desapareceu.

"É importante monitorar o cerrado também para a agricultura brasileira”, comenta Almeida. "O cerrado tem um peso fundamental para produção de divisas, de emprego, produção de riqueza, então precisamos entender muito bem para onde a agricultura está expandindo, qual impacto que isso tem até para preservar essa agricultura, preservar em termos de manter a quantidade de água para irrigação, manter calendário de chuvas na região e também garantir que essa produção respeita critérios de sustentabilidade”, ressalta.

Deutsche Welle

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Pensamento do Dia


Brasil tenta bloquear acordo, mas discussões terminam em compromisso por metas mais rigorosas

As mais longas negociações climáticas da história das Nações Unidas finalmente chegaram ao fim em Madri e deixam como primeiro resultado um acordo de compromissos - ao mesmo tempo em que postergam decisões importantes para o encontro do ano que vem.

Quase 200 países participaram da Cop-25 (conferência do clima da ONU). Exaustas após madrugadas seguidas de negociações, as delegações presentes no encontro conseguiram chegar a um acordo sobre a questão crucial de aumentar a mobilização global por cortes nas emissões de carbono e endurecer metas.

Segundo o pacto, todos os países precisarão apresentar novas promessas climáticas na próxima grande conferência prevista para o ano que vem em Glasgow.

Mas soluções para outras questões controversas, incluindo os chamados mercados de carbono (a possibilidade de países que emitem menos carbono 'venderem' créditos de CO2 às nações mais poluentes) foram adiadas até a próxima reunião.

Chegando até a bloquear o acordo temporariamente, o Brasil foi um dos principais obstáculos à assinatura do documento - cuja assinatura foi atrasada em 2 dias.


Após dois dias e duas noites extras de negociações, delegados presentes na conferência definiram um acordo que prevê a apresentação de metas novas e mais ambiciosas de cortes nas emissões de carbono para o encontro que acontecerá em Glasgow.

Todos os países presentes deverão dar respostas efetivas ao vácuo entre o que os cientistas dizem ser necessário para evitar mudanças climáticas perigosas e as medidas tomadas atualmente - que no ritmo em que estão levariam o mundo a ultrapassar o limite para mudanças irreversíveis já nos anos 2030.

Apoiado pela União Europeia, o estímulo a metas mais ambiciosas teve a oposição de países como Brasil, Estados Unidos, Índia e China.

No entanto, o acordo conseguiu ser assinado prevendo que as nações mais ricas tenham que provar que cumpriram suas promessas sobre mudanças climáticas nos anos anteriores a 2020.

Na avaliação dos opositores, os países europeus pressionam os mais pobres, enquanto não fazem o trabalho "dentro de casa".

O Brasil tentou retirar dois parágrafos do documento final da conferência que prevêm estímulo a estudos sobre a relação entre os oceanos e o solo com as mudanças climáticas.

Pressionado por países como Chile, Rússia, Argentina, Austrália, Tuvalu e Belize, além da União Europeia, o Brasil acabou recuando e permitiu que os temas estivessem na redação final. A relação entre oceanos e solos com a urgência climática é respaldada por diversos artigos científicos publicados recentemente.

"O resultado desta Cop25 traz sentimentos mistos e está bem longe do que a ciência nos diz ser necessário", disse Laurence Tubiana, da Fundação Europeia do Clima e um dos responsáveis por arquitetar o Acordo de Paris.

"Países importantes que precisavam ser ativos em Madrid não atingiram as expectativas, mas graças a uma aliança progressista de pequenos países insulares, europeus, africanos e latino-americanos, nós conseguimos o melhor resultado possível, contra a vontade dos grandes poluidores", afirmou.

O acordo foi aplaudido por alguns ativistas. "As regras frágeis pautadas pelo mercado que foram defendidas por Brasil e Austrália e poderiam sabotar os esforços pela redução de emissões foram para a gaveta e a luta vai continuar na Cop-26 em Glasgow", disse Mohamed Adow, do grupo Power Shift Africa.

Muitos dos presentes ficaram insatisfeitos com o pacote final.

Para eles, o resultado não reflete a urgência sobre o tema. Ao mesmo tempo, os negociadores mostram satisfação por, ao menos, terem conseguido manter o processo de luta contra as mudanças climáticas vivo após as longas e complexas discussões de Madrid.

Registros de temperaturas desde o século 19 mostram que a temperatura média da superfície da Terra cresceu 0,8ºC nos últimos cem anos. Quase 0,6ºC desse total ocorreu nas últimas três décadas.

Os 20 anos mais quentes já registrados ocorreram nos últimos 22 anos, liderados pelo período entre 2015 e 2018.

Ao redor do planeta, o nível médio do mar cresceu 3,6 mm por ano entre 2005 e 2015. A maior parte dessa mudança ocorre em razão da expansão térmica da água do mar. Com o aumento da temperatura dela, as moléculas se tornam menos densas, levando ao aumento do volume do oceano.

Mas a redução da massa de gelo nos polos tem sido considerada o principal fator nessa tendência. A maioria das geleiras em regiões temperadas do mundo e ao longo da península da Antártida está diminuindo.

Desde 1979, imagens de satélite mostram um declínio dramático na extensão de gelo no Ártico, a uma velocidade de 4% por década. Em 2012, essa faixa atingiu seu patamar mais baixo, que é 50% menor que a média entre 1979 e 2000.

A camada de gelo na Groenlândia tem passado por um derretimento recorde nos últimos anos. Se todo esse gelo derreter, elevaria os níveis do mar em 6 metros.

Dados de satélite mostram que a camada de gelo oeste da Antártida também está perdendo massa, e um estudo recente indicou que o lado leste da região, que não tem apresentado qualquer tendência de aquecimento ou resfriamento, pode ter começado a perder massa nos últimos anos.

Mas cientistas não esperam mudanças drásticas. Em alguns lugares, a massa pode inclusive crescer, já que o aumento da temperatura pode levar à produção de mais neve.

Os efeitos das mudanças climáticas também podem ser vistos na vegetação e nos pastos. Eles incluem mudanças nos ciclos de vida das plantas, como uma floração antecipada, e alterações nos territórios ocupados por animais.

Há vários graus de incerteza sobre o tamanho do impacto do aquecimento global. Mas as mudanças decorrentes dele podem levar à escassez de água doce, a uma transformação radical da capacidade global de produzir alimentos, além do aumento de mortes por inundações, tempestades, ondas de calor e seca.

Isso ocorreria porque estima-se que as mudanças climáticas devem aumentar a frequência de eventos climáticos extremos, ainda que seja muito difícil associar qualquer evento isolado ao aquecimento do planeta como um todo.

Cientistas preveem mais chuvas em geral, mas apontam um risco maior de seca em regiões afastadas do litoral. Tempestades e aumento do nível do mar devem levar também a mais inundações. Haveria, no entanto, alta variação desses fenômenos ao longo das regiões.

Países mais pobres, que são menos preparados e equipados para lidar com mudanças bruscas, podem sofrer mais com as transformações.

Há previsões também de extinção de animais e plantas incapazes de se adaptar à mudança rápida do habitat, e a Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que a saúde de milhões de pessoas pode ser ameaçada pelo avanço da malária, de doenças transmitidas pela água e da desnutrição.

Com o aumento do CO₂ emitido na atmosfera, há um avanço da captura desse gás pelos oceanos, o que torna a água mais ácida. Esse processo contínuo pode representar grandes problemas para os recifes de coral do mundo, pois as mudanças na química impedem que os corais formem um esqueleto calcificado, essencial para sua sobrevivência.

Modelos gerados por computador são usados nos estudos das dinâmicas do clima terrestre e levam a projeções sobre mudanças de temperatura.

Esses cenários variam em torno da "sensibilidade climática", a exemplo do peso de cada elemento (como o CO₂) no aquecimento ou no resfriamento. E mostram diferenças no modo com que esses "feedbacks climáticos" podem ocorrer.

O aquecimento global causará algumas mudanças que provavelmente levarão a mais aquecimento, como a liberação de grandes quantidades de metano dos gases de efeito estufa à medida que derrete o permafrost (solo permanentemente congelado encontrado principalmente no Ártico). Isso é conhecido como feedback positivo sobre o clima.

Mas feedbacks negativos podem compensar o aquecimento. Vários "reservatórios" na Terra absorvem CO₂ como parte do ciclo do carbono - o processo pelo qual o carbono é trocado entre, por exemplo, os oceanos e a terra.

A questão é: como eles vão se equilibrar?

Meritocracia e desigualdades sociais

As causas das grandes manifestações populares, recentemente, no Equador, no Chile, no Líbano, no Iraque, na Checoslováquia e em Hong Kong, que abalaram governos e instituições, são complexas, mas não há dúvida de que boa parte dos protestos se origina no aumento da desigualdade de renda que está ocorrendo no mundo todo.

Esse é também um dos temas centrais das eleições presidenciais dos Estados Unidos no próximo ano. Apenas 0,1% dos americanos – cerca de 300 mil pessoas, numa população de mais de 300 milhões – controlam 20% da riqueza nacional. A renda dessas pessoas nos últimos 40 anos cresceu muito mais rapidamente que a renda do restante da população.


O fosso entre ricos e pobres está aumentando não apenas nos Estados Unidos, como também no Chile, na Argentina, entre outros países, como o Brasil, conforme mostram dados recentes do IBGE. A desigualdade econômica, porém, é apenas parte do problema: desde os primórdios da civilização, 10 mil anos atrás, existem aristocracias que governam e se beneficiam do trabalho da população: as famílias imperiais da Antiguidade, os senhores feudais da Idade Média e o sistema colonial vigente até o século 20. Em todos esses sistemas, o mérito foi uma consideração secundária diante das relações de sangue, favoritismo e corrupção.

A Revolução Francesa, de 1789, extinguiu a monarquia e implantou o regime republicano, que abriu caminho para a emergência dos mais capazes, escolhidos pelo mérito. As vantagens da meritocracia foram compreendidas pelo rei Luís XV, da França, antes da revolução. Ele criou, em 1760, uma escola militar para treinar oficiais oriundos de famílias que não pertenciam à nobreza. Foi nela que Napoleão Bonaparte, vindo de uma província secundária como a Córsega, se distinguiu e iniciou sua meteórica carreira militar, o que então era raro.

A meritocracia para o serviço público foi introduzida na Inglaterra em 1830 e um dos sucessos indiscutíveis da colonização da Índia pelos ingleses foi a organização de um excelente serviço público, que dura até hoje.

Surgiram, contudo, recentemente nos Estados Unidos teorias de que a causa dos problemas da desigualdade de renda é a nova aristocracia de superdotados e supercapacitados, que substituiu a velha aristocracia do “sangue”, isto é das grandes famílias do passado, como Vanderbilt, Carnegie e Rockefeller. Os novos bilionários, como Bill Gates (Apple), Mark Zuckerberg (Facebook), Jeff Bezos (Amazon) e outros, passaram a ser membros da aristocracia do país. As universidades de elite como Stanford, Harvard, MIT, nas quais estudaram, estariam, portanto, alimentando a concentração de fortunas.

Mais ainda, os filhos desta nova aristocracia, que são excepcionalmente bem preparados para a corrida da meritocracia, reproduzem o que se chama de “casta hereditária”. Nessas universidades, a maioria dos estudantes vem efetivamente de famílias ricas.

Essas ideias se originaram na noção de que na Inglaterra o sistema educacional perpetuava o domínio da aristocracia nas posições do governo por meio dos egressos das grandes universidades, como Oxford e Cambridge, às quais as classes menos favorecidas não tinham acesso.

Um educador inglês de tendência socialista, Michael Young, escreveu em 1958 uma sátira sobre os efeitos que o sistema educacional vigente poderia ter no futuro. Na época os jovens de 11 anos eram submetidos a exames que mediam o seu QI (quociente de inteligência) e de acordo com seu desempenho eram encaminhados para os diferentes tipos de escolas: os melhores para as universidades, os piores para escolas profissionais para a indústria, o comércio e a agricultura.

A tese fundamental de Young é que faz sentido escolher pelo mérito as pessoas mais adequadas a uma atividade específica (como pilotar aviões ou dirigir uma empresa de energia), mas permitir que elas constituam uma nova classe social que não deixa espaço para outros é um absurdo.

A sátira de Young faz uma caricatura do que poderia acontecer no futuro: uma revolução populista que destrói o governo aristocrata criado pela meritocracia. Seu livro é da categoria das “distopias”, como o filme Metrópolis, de Fritz Lang, os livros Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, e 1984, de George Orwell, que imaginaram um futuro em que elites privilegiadas controlavam completamente a sociedade e exploravam o resto da população.

É evidente, hoje, que as previsões da distopia de Young não se concretizaram. O controverso QI como único critério para alocação de crianças em escolas foi abandonado, já que é obvio que ele poderia variar ao longo do tempo, bem como as qualificações e predicações das pessoas. Competição e esforço individual têm papel importantíssimo no sucesso das pessoas, e não apenas o seu QI.

Outras experiências de “engenharia social” foram tentadas, também sem sucesso: os comunistas, após a revolução russa de 1917, aboliram os exames de seleção (vestibulares) nas universidades, abrindo suas portas aos “filhos dos trabalhadores”. Passados alguns anos o próprio Lenin se deu conta de que a construção do socialismo precisava de técnicos competentes e reintroduziu a meritocracia.

Meritocracia não é a causa das desigualdades econômicas que existem atualmente em muitos países, o que pode e deve ser resolvido pelo sistema de taxação das grandes fortunas. Os problemas que enfrentamos hoje se originam das características do capitalismo do século 21: a tecnologia moderna, largamente baseada na informática, depende muito mais de pessoal superqualificado do que o sistema industrial do passado – mineração, siderurgia, transporte e produção de bens de consumo –, que exigia grande quantidade de mão de obra e de materiais, ao passo que a informática depende fundamentalmente da inteligência que se cultiva e desenvolve nas universidades.

Reza forte

O pobre continua pobrezinho, mas percebe movimentações que poderão ter desenvolvimentos propícios a uma descida na hierarquia de indigência para a qual foi atirado. Reza aos santinhos todos para que as suas impressões não o enganem 
Isabela Figueiredo 

No país do 'tá ok', a língua ficou furreca

O sujeito pode ser um estroina boquirroto, merecedor de piparotes e petelecos, mas, quando disparou a malcriação do "pirralha", ele fez com que eu imediatamente me lembrasse de "pixote", "pirroto", "traquina", "fedelho", e seguisse assim, viajando feliz.

São palavras supimpas. Estão lá, quietinhas no cemitério dos dicionários, e de vez em quando precisam vir aqui fora, numa página de jornal, tomar uma fresca e mostrar quão serelepes, doidivanas e bacanas ainda o são.

Salve a picurrucha e demais peraltas ressuscitadas a partir da declaração do xumbrega mequetrefe.

Um texto que se pretende moderno tem medo dessas estripulias. Acha datado demais e se pela de medo de soar muquirana. No lugar de trãchã, sonha-se cool. Qual tatuado transgênero escreveria "maçaroca" para resumir o Brasil?

Encafifado com a multidão de cognitivos no bojo dessas palavras, o intelectual deixa de lado as lindas sirigaitas do vernáculo. Elas só reaparecem como paralelepípedos, quando um tosco de poucas leituras, totalmente marmota, se vale da tradição oral dos mais velhos e esculacha como pirralha a espoleta sueca do meio ambiente.

É uma pena, mas desse forrobodó eu não abro mão. Como se fosse um passeador de cachorros, saio sempre com essas espevitadas que conheci na infância. De pura fuzarca, pelo prazer da coqueluche semântica, dou um saracoteio com elas pelas páginas dos livros e jornais. Elas se fazem songamongas, eu tiro uma chinfra.

Exibo-as, todo pimpão, vaidoso em lhes reconhecer o borogodó intrínseco. São minhas concubinas, durmo com elas. Nenhuma lambisgoia, muito menos patusca. Zero de borocoxô feeling. Inzoneiras. São senhoras dignas de poderem ter sido, quem sabe?, a musa daquela frase de um também desengavetador de teteias: "Outro dia", escreveu Mário Quintana, " uma palavra tirou a roupa e ficou nuinha pra mim".

Está cada vez mais próximo o dia em que palavras assanhadas, assim como as galochas, serão estrovengas escangalhadas, coisas de senhores caquéticos desatualizados com a contemporaneidade. O mundo está rápido demais para que se espere alguém terminar de pronunciar a palavra "catiripapo". "Inconstitucionalissimamente", por exemplo. Com a sua capacidade de ser ao mesmo tempo pompa e palavrão, seria perfeita para resumir o Brasil de hoje - mas quem ousaria? Não há tempo para tamanho esquartejamento de sílabas.

Neste momento de prezo ao tatibitate, uma start-up pesquisa nova geração de emojis. Eles não divulgarão apenas os sentimentos, se alguém está macambúzio ou estupefato. O emoji será a gramática do futuro, dará o recado do que vai na língua de cada um como se fosse uma abreugrafia digital. A palavra, principalmente a rechonchuda, esse maravilhoso pandemônio polissílabo, terá a mesma importância que o Durma Bem no enfrentamento do mosquito da dengue. Flopou.

A urticária também parecia ser companheira eterna do homem na Terra - e nunca mais foi diagnosticada. Qual o último médico que receitou vermífugo?

Essas palavras se empanturravam de letrinhas, pacificavam as índoles como se banhadas em camomila afetiva. Eram parrudas. A língua, sem preconceitos, metia-se onde não era chamada e lambia-lhes sovacos, cocurutos e demais idiossincrasias. Todas as palavras cabiam na boca do brasileiro. Aos poucos, foram desidratadas, trocadas pela urgência do "pq", "ñ", "tbm", "blz", "brs" e demais necessidades de se viver em estado de tweet. No país do "tá ok", a língua foi atrás. Ficou curta. Deu ruim. Furreca.

domingo, 15 de dezembro de 2019

'Fóssil colossal'

Definitivamente, não se pode dizer que 2019, primeiro ano do governo Jair Bolsonaro, tenha sido positivo para a imagem do Brasil no exterior. O presidente atribui o mau momento à mídia, às esquerdas, a uma espécie de propaganda negativa sistemática. Mas será que é isso mesmo?

Na sexta-feira, em Madri, a Conferência do Clima da ONU (COP) conferiu ao Brasil o prêmio “Fóssil Colossal”, que, como o próprio nome diz, é uma ironia com os piores desempenhos na proteção do meio ambiente. É dramático, porque o Brasil despencou de um extremo a outro: de líder mundial de proteção para alvo de chacota.


No mesmo dia, a prestigiada revista Nature incluiu o professor Ricardo Galvão entre os cientistas do ano. E quem vem a ser? O presidente do Inpe que foi demitido e humilhado publicamente depois de Bolsonaro achincalhar os dados do instituto sobre desmatamento. E, veja bem, os novos dados coletados pelo próprio governo confirmaram depois o quanto o Inpe estava certo.

Em meio a essa sucessão de vexames, o presidente bateu boca num dia com a ativista adolescente Greta Thunberg – a quem chamou de “pirralha” – e no dia seguinte ela surgiu, toda poderosa, como personagem do ano e da capa da revista Time. O presidente bem poderia ter passado sem mais essa.

Apesar de tudo, os dados que estão para ser consolidados vão confirmar que, em 2019, o Brasil manteve o desempenho nas importações e só perdeu um pouco nas exportações. E por questões pontuais: a má performance da Argentina, um dos maiores parceiros, e a epidemia do rebanho suíno da China, que reduziu muito a necessidade de soja para alimentar os porcos. Descontados esses infortúnios, o desempenho é considerado bom, estável, e pronto a crescer.

E, afinal, o que é melhor para o Brasil? Os Estados Unidos e a China – as duas maiores potências – manterem o clima de beligerância e os ataques mútuos, ou efetivarem o acordo de paz?

Há controvérsias, mas parece prevalecer a avaliação de que é muito melhor para todo o mundo, literalmente, e para o Brasil, particularmente, que os dois gigantes se entendam, porque isso garante equilíbrio mundial, estabilidade, segurança e estanca a previsão de queda do crescimento global.

Quanto mais economia, desenvolvimento, comércio, melhor, muito melhor do que vantagens eventuais que a agricultura brasileira possa ter com a guerra. Ok. Se a China deixa de comprar produtos agrícolas norte-americanos, a tendência é de que desvie o foco para os brasileiros. Mas isso é pontual, residual, restrito a um único setor.

Ainda no cenário internacional, o Brasil perdeu e os EUA ganharam com o excesso de reverência de Bolsonaro a Donald Trump. E, no regional, o pedido de refúgio do ex-presidente boliviano Evo Morales vai consolidando a Argentina como o novo polo da esquerda sul-americana, depois que a Venezuela virou pó. A Argentina polo da esquerda e o Brasil da direita não é um cenário tranquilizador.

Apesar disso, Bolsonaro e Fernández têm trocado recados apaziguadores e promessas de pragmatismo nas relações comerciais e diplomáticas em termos mais abrangentes. Espera-se que sim, mas lembrando que Bolsonaro é Bolsonaro e que o kirchnerismo é o kirchnerismo.

Por fim, 2019 registrou ataques de Bolsonaro a Macron, sua mulher, Fernández, Bachelet, Greta, Leonardo Di Caprio, ONGs e aos povos do Chile e do Paraguai (ao enaltecer Pinochet e Stroessner), além de ter gerado temores, no mundo desenvolvido e nos nossos parceiros tradicionais, sobre as políticas indigenista, ambiental, cultural, educacional e de direitos humanos. Aos olhos do mundo, o Brasil anda para trás.

Imagem do Dia

Amsterdam (Holanda)

Brasil precisa priorizar as quase 1 milhão de famílias vivendo na pobreza sem Bolsa Família

Em fevereiro de 2017, um estudo divulgado pelo Banco Mundial defendia que o Brasil precisava aumentar seus gastos com o programa Bolsa Família para evitar que milhares de novas famílias passassem a viver na pobreza durante a recessão econômica, quando milhares perderiam seus empregos. A previsão se mostrou correta: no mês passado, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) informou que, em 2018, chegou a 13,5 milhões o número de brasileiros vivendo abaixo da linha da extrema pobreza - 4,5 milhões a mais que em 2014.

Na definição global do Banco Mundial, é considerado em situação de extrema pobreza quem dispõe de menos de US$ 1,90 por dia, o que equivale a aproximadamente R$ 140 por mês. Já a linha de pobreza é de rendimento inferior a US$ 5,5 por dia, o que corresponde a cerca de R$ 406 por mês.

Esta semana, os números mostraram mais uma evidência do retrocesso social: em 2018, o país o caiu uma posição no ranking mundial do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), divulgado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), referência mundial em medida de bem-estar da população.


Responsável por coordenar os programas de desenvolvimento humano do Banco Mundial para o Brasil, o argentino Pablo Acosta defende que, quase três anos depois do alerta, o governo precisa priorizar o socorro às famílias que vivem na pobreza, mas ainda não foram atendidas com o benefício.

"Há quase 1 milhão de famílias, não temos o número exato, mas quase um milhão de famílias que se qualificam para o Bolsa Família, mas ainda não estão no programa. E a razão principal isso é porque havia um orçamento fixado no começo do ano e não se pode permitir que mais gente entre. Então, uma das recomendações, não apenas nossa, mas de muitos outros, é de que realmente precisamos priorizar incluir essas famílias no programa, porque elas são elegíveis", afirmou Acosta, doutor em Economia e especialista em proteção social e mercado de trabalho.

Na visão do Banco Mundial, em períodos difíceis para a economia, as políticas redistributivas como os programas de transferência de renda se revelam ainda mais importantes. O Bolsa Família atende às famílias que vivem com renda per capita de até R$ 89 mensais, e com renda entre R$ 89,01 e R$ 178 mensais. De acordo com o Ministério da Cidadania, em setembro, o programa atendeu 13,5 milhões de famílias, somando um valor total de R$ 2,5 bilhões. O benefício médio foi de R$ 189,21.

Pelas regras do banco, é missão da entidade trabalhar diretamente com o governo de cada país membro; por esse regulamento, o ministro da Economia é o governador responsável pelo seu país no conselho de diretores do Banco Mundial, o que exige interação constante entre os técnicos em reuniões e encontros, explica Acosta.

"Tudo o que fazemos é dedicado a apoiar a economia e o desenvovimento do país, e isso requer constantes discussões e interações em diferentes níveis de poder, não só em nível federal, mas também com alguns Estados e municípios".

O executivo elogia que, de uns tempos para cá, a pauta social tenha crescido no debate político, tanto em iniciativas do Executivo quanto trazidas pelo próprio Congresso.

E diz que, para se tornar uma economia rica, o Brasil precisará priorizar o investimento nas pessoas, em especial para educar melhor os jovens para serem trabalhadores mais produtivos. Mais que reduzir o custo para a contratação, como prevê o programa Verde Amarelo, lançado pelo governo do presidente Jair Bolsonaro, é preciso melhorar a qualidade da educação e dar mais treinamento para que eles consigam lugar no mercado de trabalho.

"Acreditamos que é um dos fatores mais importantes, ter uma população educada e um trabalho produtivo. E isso, basicamente, é investir em pessoas".

O que só Bolsonaro sabe sobre o caso Marielle?

O universo tem mistérios que jamais vamos entender. Um deles é essa mania que Jair Bolsonaro tem de oferecer matéria-prima para os que tentam, sem sucesso, entender os seus mistérios. O que leva o presidente a parar o carro oficial na frente do Palácio da Alvorada para despejar sobre microfones e gravadores uma frase como essa? "No caso Marielle, outras acusações virão. Armações! Vocês sabem de quem".

Sem dar nome aos bois, Bolsonaro soou como se apontasse a língua para Wilson Witzel. Isso porque, em outubro, o presidente acusou o o governador do Rio de Janeiro de "vazar informações" e "manipular" as investigações sobre o assassinato de Marielle Franco para incriminá-lo.

Naquela ocasião, irritado com uma reportagem da Rede Globo, Bolsonaro disse que, 20 dias antes da veiculação da notícia, recebera de Witzel a informação de que um porteiro havia enfiado seu nome no inquérito sobre a execução de Marielle Franco. Witzel desmentiu Bolsonaro. O porteiro se desdisse em novo depoimento. E ninguém falou sobre o assunto novamente.

De repente, Bolsonaro volta à carga para anunciar novas "armações". Na mesma aparição, o presidente disse a apoiadores que foram ao portão do Alvorada para festejá-lo que seu governo apresenta resultados, "apesar de grande parte da imprensa" da "gente do mal".

Ora, um presidente que diz coisas definitivas sobre um assassinato —vêm aí novas armações contra mim—, mas não define muito bem as coisas, não precisa de imprensa ou de gente malévola para se enrolar. Bolsonaro tropeça na própria língua. Parece atormentado pela síndrome do que está por vir. E o país se pergunta: O que só Bolsonaro sabe sobre o caso Marielle?

A pirralha raivosa e os patriarcas

O presidente Jair Bolsonaro foi o primeiro a ventilar seu ressentimento à menina Greta, “é só uma pirralha”, disse ele. Trump retrucou “Greta precisa controlar sua raiva”. Parece ser mesmo insuportável aos patriarcas olhar uma menina miúda, de olhos firmes, e serem obrigados a silenciar-se diante de um “how dare you?”. A pergunta não é sobre como eles ousam desqualificá-la pela juventude, pelo gênero ou pela deficiência — é mais abstrata e impessoal: Greta provoca-os sobre como ousam ocupar o poder e ignorar o justo para a humanidade.

Greta ousou tanto que está na capa da prestigiosa revista Time — é a pessoa do ano. Há quem a descreva como líder, personalidade ou ativista. O melhor de todos os títulos é exatamente o mais simples: é a pessoa do ano para o mundo. Uma pessoa “com uma mensagem”, como ela mesma se define. Mas a política não é um espaço plural para as mulheres, e menos ainda para as meninas com deficiência. Desqualificar o pensamento de Greta é um gesto naturalizado pelo capacitismo entranhado na misoginia: uma menina com autismo não pode ser alguém com ideias razoáveis. Por isso, até mesmo o título pessoa lhe é espoliado pela deficiência — a pessoa com deficiência é reduzida ao que falta ou excede em seu corpo. No seu caso, o autismo ameaça a legitimidade de apresentar-se em público sem sofrer desqualificações pela juventude ou pela neurodiversidade.


Gente bem-intencionada repete o coro de que Greta seria uma marionete, uma alegoria para a participação de jovens na política de adultos. É verdade que Greta não é uma cientista de jaleco branco com publicações internacionais sobre os efeitos do aquecimento global. É só uma menina que fincou os pés na porta do parlamento sueco em greves sistemáticas da escola. “Algumas pessoas dizem que eu deveria estudar para ser uma cientista climática, pois poderia ‘resolver a crise climática’. Mas a crise climática já foi solucionada”, diz ela, em um sarcasmo sobre seu lugar de mensageira da certeza — se não há dúvidas científicas sobre a crise climática, o que faltam são mensageiras do jargão científico. Ela é uma delas.

Se rejeitar o título de marionete a aproxima da experiência de outros jovens engajados em questões políticas, Greta enfrenta uma jornada muito particular de desqualificação: é interpelada pela deficiência. Sua resposta ao ódio capacitista é apropriar-se do diagnóstico médico do autismo como uma “dádiva”, uma singularidade existencial que movimenta seu estranhamento sobre o senso de normalidade do mundo. Acompanhá-la exige um descentramento de quem se sente interpelado por ela: sua epistemologia é binária, seus discursos são breves como seu senso de urgência, suas alegorias sobre a crise climática seguem seus sentimentos de finitude do planeta. Os que rejeitam ou se sentem incomodados pela interpelação de Greta se unem e, em coro, esbravejam “pirralha raivosa”.

Como Greta, nós também acreditamos que “vivemos em um mundo estranho”. Para nós, o mais estranho é que a rejeição ao debate político não se dá por argumentos, mas por “cancelamento” ou “apagamento” de pessoas. Há uma personificação do ódio — é a menina com deficiência que se torna o alvo de quem ignora a crise climática. O mesmo ocorre com defensores de causas feministas, anti-racistas ou de direitos humanos — são pessoas ameaçadas por ousarem desafiar a normalidade de uma ordem política desigual. O cancelamento dos mensageiros da democracia é uma das características do esvaziamento do político pelo ódio e, mais temerosamente, como diria Hannah Arendt, um forte sinal de fumaça das políticas fascistas de banalidade do mal.
Debora Diniz, pesquisadora da Universidade de Brown/ Giselle Carino  diretora da IPPF/WHR

Pensamento do Dia


Pororoca de ilusões

“Outros povos podem ser felizes ou desgraçados por obra de estranhos. Os povos democráticos são os únicos que têm o bem e o mal feitos por suas próprias mãos” - J. F. Assis Brasil, político gaúcho, 1893

Nunca vi, mas posso imaginar a beleza do vagalhão, do grande estrondo que se forma na foz do Rio Amazonas quando aquele enorme curso d’água colide com as águas de outros rios.

A pororoca é um fenômeno real, maciço e formidável, que qualquer pessoa pode perceber a grande distância; uma difícil metáfora, portanto, para o nosso momento político, permeado muito mais por ilusões, incongruências, movimentos erráticos e até por desatinos que por ações organizadas e efetivas. O mais comum no curso da História brasileira é as forças políticas se contraporem de forma previsível, uma tentando ser pragmática e racional, obediente aos requisitos da economia, e a outra se deixando levar por (ou adotando como tática) algum delírio populista, de fundo emocional, religioso ou ideológico.

Penso, no entanto, que o Brasil atual se afastou daquele cenário tradicional e nada faz crer que retornará tão cedo à normalidade. Afastou-se – excetuado, naturalmente, o esforço do ministro Paulo Guedes no manejo da economia – em vista da linha divisória que se estabeleceu entre duas tribos alucinadas: petistas versus bolsonaristas.


Para bem apreender a referida mudança parece-me imprescindível remontar à eleição de 2018, na qual a maioria dos eleitores votou numa das duas principais alternativas com o único intuito de evitar a outra.

Os partidos ditos “de centro” naufragaram porque imaginaram poder navegar em seus frágeis barquinhos oratórios, não percebendo o portento vagalhão que se avizinhava. Claro, o embate das duas rejeições não se formou no vácuo. Constituiu-se no caldo de cultura de hostilidade a tudo e a todos que ganhou corpo em função da situação econômica, da maré montante da violência, da deslealdade de certas autoridades no tocante a suas respectivas missões institucionais e, não menos importante, dos fatos trazidos a público pela Operação Lava Jato. Este último aspecto merece breve reflexão. Não é raro uma sociedade reagir negativamente a uma grande mudança em razão do desconforto e do mau humor que ela engendra – refiro-me aqui à constatação de que a corrupção se alastrara por todo o corpo político, contaminando os três Poderes e grande parte do meio empresarial –, não obstante tal mudança ser o ponto de partida para um importante avanço na vida pública.

Comecei falando de duas grandes ilusões. Para delinear a ilusão petista seria útil remontar às origens do Partido dos Trabalhadores, relembrar a desconjuntada composição de seus quadros e seu idílico “socialismo por construir” – esboço de uma ideologia evocativa das catacumbas. Parece-me, porém, suficiente frisar que a unidade e o dinamismo daquela imensa maçaroca repousava sobre um fato deveras estapafúrdio: a devoção quase religiosa a um líder populista, Luiz Inácio Lula da Silva, que nunca levou a sério qualquer projeto de País, empenhando-se tão somente, e em tempo integral, em levar avante sua pequena Realpolitik. Paradoxalmente, a condutibilidade atmosférica do petismo deveu-se desde sempre a seu descompromisso com políticas consistentes de crescimento e a sua rasa fundamentação intelectual.

Deixo para os pesquisadores de opinião e para os psicólogos sociais a tarefa de descrever as antenas que levaram Jair Bolsonaro a captar e personificar a crescente dilaceração da sociedade brasileira de alguns anos para cá. Não posso eximir-me de dizer algo sobre o governo Bolsonaro, que em poucos dias concluirá seu primeiro ano, mas adianto que dificilmente terei algo de novo a dizer a esse respeito. O que primeiro salta aos olhos é o bifrontismo do governo. De um lado, a área econômica, sob o comando de Paulo Guedes e de Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central, trabalhando com afinco e coesão, numa direção que me parece correta. Do outro, uma acentuada cacofonia, da qual o próprio presidente participa com notável intensidade. O presidente tem dito e repetido que economia “é com o Guedes”, ficando ele, o presidente, com o restante. Nesse aspecto, penso que o presidente se equivoca redondamente, uma vez que tal distinção inexiste na prática governamental. Ajustar as contas públicas, atrair investimentos e repor a economia nos trilhos do crescimento é uma operação complexa, que exige a colaboração de todos os setores do Executivo, em colaboração com os outros dois Poderes, orientando-se o conjunto no sentido de estabelecer a estabilidade e previsibilidade do “ambiente de negócios”.

Ora, com todo o respeito, sou obrigado a registrar que o presidente fala muito mais do que deve, intervindo de forma errática em diversos temas que não lhe dizem respeito. Falta-lhe, evidentemente, a chamada “liturgia do cargo”, ou seja, a sobriedade, o comedimento e a imparcialidade sem os quais a mais alta magistratura não funciona a contento. No contexto atual, o papel do presidente precisa ser muito mais o de um pacificador que o de um incitador de conflitos.

Mas qual será, no essencial, a grande ilusão bolsonarista? É, a meu juízo, sua incapacidade de enxergar o Brasil numa perspectiva histórica mais dilatada. A melhor ilustração dessa deficiência é ter o presidente colocado na estratégica área da educação um técnico aplicado, mas que não dá indícios de conhecer os entraves que a paralisam. Sabemos todos que o Brasil ainda se digladia com a chamada “armadilha da baixa renda”. Se nosso anseio de retomar o crescimento do PIB se mantiver na faixa de 2% a 3% ao ano, levaremos pelo menos 25 anos para dobrar nossa renda per capita. Não é exagero afirmar que tal cenário beira o insustentável.

Tortura a céu aberto

A tontura da fome é pior do que a do álcool. A tontura do álcool nos impele a cantar. Mas a da fome nos faz tremer. Percebi que é horrível ter só ar dentro do estômago
Carolina Maria de Jesus

Que democracia é esta?

Vejo, com frequência, pessoas duvidando de que estamos em um regime democrático, com um olhar crítico e cético sobre os partidos políticos, onde um grupo de caciques, quase todos com relações promiscuas com o grande capital – principalmente em períodos pré-eleitorais – dominam o jogo político. Como é possível confiar em tais mecanismos de representatividade, diante de tanto descalabro? Ou então lançam dúvidas sobre o poder judiciário: “Ah! Esse STF, sempre tomando decisões ao sabor de interesses inacessíveis para nós, pobres mortais!” Isto, sem falar na brutal desigualdade social que, impermeável ao tempo, singra em nossa história, qual uma nave dos insensatos, parindo, geração após geração, uma população de desassistidos, com destino já selado pela inacessibilidade ao ensino de qualidade, principal mecanismo para romper os grilhões da vulnerabilidade social.

Democracia, um valor universal – principalmente após a queda do Muro de Berlim – é o legado cultural de uma nação. O nosso é um legado de valores políticos, marcado por regimes autoritários, capitalismo de compadrio, que vê o Estado como mais um patrimônio para suas estratégias empresariais, onde a corrupção é a palavra-chave para implementá-las, cavando, de forma profunda, a perversa vala das desigualdades.

E nós, cidadãos comuns, com seu cotidiano ocupado pelo trabalho, os impostos e a família, qual é o nosso papel nesse negócio chamado democracia? Ironicamente, somos sujeito – quando damos forma à classe política, por meio do voto – e objeto, ou vítima, se preferirem, quando temos nossas vidas – do nascimento até a morte – afetadas por decisões dessa elite política que escolhemos para nos governar. E por que países como Noruega, Suécia e outros, como as grandes democracias europeias, nos parecem funcionar tão bem? A resposta, se é possível resumir em uma variável, vem da formação da cultura política de seu povo, forjada a ferro e fogo, tendo o cidadão no centro do processo decisório, e o Estado menos vulnerável ao acossamento das elites. Isso não cai do céu, é uma conquista permanente!


Com as manifestações de rua de junho de 2013, algo de muito importante começou a acontecer. Setores da sociedade civil foram às ruas marcar, de forma violenta, sua insatisfação contra o status quo. Depois, na esteira da Operação Lava Jato, vieram as manifestações em favor do impeachment de Dilma, dando, de quebra, espaço a extrema direita. O bolsonarismo é uma onda antidemocrática que, surfando nas ondas do antipetismo, chega ao poder com o que há de mais abjeto em um sistema político: a intolerância à diversidade humana e o uso da violência contra tudo aquilo que lhes é diferente. Estes dois atributos são seus principais “recursos intelectuais”.

A este fenômeno – a guinada abrupta do eleitorado saltando de um petismo corrupto para uma direita neomedieval-, dei o nome de “o pêndulo da irracionalidade”.

Foram nossas escolhas que moldaram este cenário de extrema dificuldade para o ambiente democrático. As instituições estão sendo testadas no limite, e caberá a nós, eleitores, fazermos as escolhas que ajudem a quebrar essa danosa polarização entre lulistas e bolsonaristas, substituindo a paixão irracional que dividiu o país pela racionalidade – fazendo uso da razão para distinguir onde estamos sendo capturados pela falsas narrativas ideológicas – elevando a qualidade das nossas escolhas nas próximas eleições.

Sim, vivemos em plena democracia, nossa democracia, brasileira como a feijoada e a jabuticaba, com todas as severas limitações de eleitores e líderes, e um Estado oneroso, ineficiente e corporativista, os quais, em conjunto a fazem funcionar. E será com ela que teremos de seguir nossa história, pois sem ela instala-se o caos e a barbárie do autoritarismo, já experimentado por nós, décadas atrás. No autoritarismo, fenecem os valores civilizatórios, os partidos e a sociedade civil são esmagados pelo peso da bestialidade humana, concentrada na mão do tirano.

Os 3 Cs do populismo: Crise, corrupção e cinismo

“Considera-se usualmente que as Democracias morrem pelas armas, em golpes de estado e revoluções. Hoje em dia, contudo, é mais provável que sejam lentamente estranguladas em nome do povo.” (The Economist, 29.08.2019)

Um pouco por todo mundo, incluindo Portugal, tem emergido uma panóplia de “novos” partidos políticos, uma parte dos quais de natureza claramente ‘populista’.

O populismo corresponde a posições políticas que enfatizam a ideia do ‘povo’, um grupo ‘virtuoso’ e ‘moralmente bom’, contrapondo-o a uma ‘elite’ (política, mas não só) considerada corrupta e centrada na maximização do seu bem estar/ interesse. Os partidos populistas são frequentemente liderados por figuras carismáticas que se apresentam como a ‘voz do povo’, explorando cinicamente a insatisfação do cidadão comum .


Três fatores têm contribuido para a emergência desta ‘onda’ populista que está a minar os regimes democráticos: 1) a crise económica e financeira; 2) as circunstâncias económicas individuais, designadamente o desemprego e a precariedade do mercado de trabalho; 3) a percepção de uma corrupção crescente.

A mais recente crise económica e financeira convenceu grande parte dos eleitores de que estariam a ser governados por ‘elites’ desinteressadas, incompetentes e egoístas, mais preocupadas em ‘salvar’ os bancos e o sistema financeiro em geral do que preservar os empregos e o nível de vida do cidadão comum. Adicionalmente, diversos estudos (1) mostram que na Europa o desemprego tem sido uma razão fundamental da votação em partidos populistas de direita. Finalmente, o aumento da corrupção percecionada tem igualmente gerado uma perda de confiança na ‘elite’ política. No mais recente inquérito mundial da Ipsos MORI (2), os políticos surgem como o grupo profissional menos confiável do mundo. Os inúmeros e aparentemente infindáveis escândalos que envolvem os partidos incumbentes, abrangendo toda a latitude do espectro político, têm gerado uma insatisfação com a ‘elite’ política e, consequentemente, o surgimento de novos partidos populistas.

Os populistas aproveitam e cavalgam nesta onda crescente de ressentimento. Ainda que uma grande parte dos populistas façam parte do tal grupo de ‘ricos’ e ‘poderosos’, eles satirizam as ‘elites’ incumbentes de forma hipócrita/ cínica e, frequentemente, incoerente.

É da mais elementar honestidade intelectual reconhecer que nem todo o ‘povo’ é virtuoso e moralmente imaculado, assim como nem toda a ‘elite’ é corrupta e desinteressada. O grande problema do populismo é que as atitudes cínicas/ sarcásticas/ hipócritas corroem e desintegram as instituições democráticas que levaram décadas ou séculos e erigir.

Como afirmou Winston Churchill, “ninguém acredita que a democracia é perfeita ou onisciente. Na realidade, a democracia é a pior forma de governo, à exceção de todos os outros já experimentados ao longo da história.”

Aurora A. C. Teixeira