sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

O Brasil flerta com a morte

Tenho duas notícias para o jeca, uma ruim e outra boa: a ruim é que, sim, o sórdido lulopetismo agigantou as mazelas brasileiras para se arrumar na vida e se perenizar no poder, mas a súcia se lambuzou tanto – como admitiu aquele compositor baiano de óperas vigaristas, o Jaques – que a única dúvida é se o jeca contemplará a própria extinção política solto ou na cadeia. A boa notícia é que finalmente o técnico veio fazer a conversão do meu fogão para gás encanado.

Lúcido sempre, J. R. Guzzo, mais do que relativizar o impeachment, lembra que o Brasil perambula entre a ausência de governo e a incorporeidade da oposição. Qual a alternativa para, digamos, a prefeitura de São Paulo? O Brasil decente saberá ganhar as eleições municipais? Perguntas objetivas que apontam para a angústia no centro da alma do país indignado: a nossa fome.


O Brasil tem fome de quê? De impeachment, mas não só. Com ou sem impeachment, continuaremos tomando três refeições diárias (quem pode), escovando os dentes, dormindo, ouvindo música e tal, e também tendo de ganhar outras batalhas na luta para fazer deste um país que preste.

É nelas que as eleições municipais se inscrevem e que teriam de ser ganhas mesmo se o impeachment nem assunto fosse. OK, mas o meu, por favor, é com impeachment: aplicar a lei contra um governo ilegal mitigaria a fome de um país esbulhado apontando a importância da legalidade para uma nação minimamente viável.

Por quase uma semana, numa relação baseada nas promessas-desculpas dele e na minha cobrança indignada, eu e o técnico do fogão alcançamos uma espécie de familiaridade, estranhando-nos no país do compromisso cujas hora e data são só uma referência líquida. Apareceu com um jaleco aberto por cima de uma camiseta estampada com a foto do David Bowie e uma calça espacial de… técnicos de fogão fãs do Bowie.

Irresistível. Como detesto resistir ao irresistível, abrandei a manifestação da minha irritação pela demora: Ah, você também gosta do David Bowie? E mantive a naturalidade diante desse Brasil inverossímil e real na figura do técnico-astronauta de mármore no meio da minha cozinha e do auxiliar grave e gorduchoto que me obrigou a pensar no Sancho Pança, numa mistura camaleônica entre Cervantes e o gênio pop.

Dancei, namorei, viajei ao som de Bowie, tendo na alma a fome que nos alimenta e que, se passar, nos mata antes da morte. O Brasil flerta com a morte deixando a súcia lambuzar-se na noite lulopetista inteira; pareceu ter perdido a fome de futuro, de realizar as potencialidades que traz na alma.

Onde a fome da alma dele? Nesta coluna e territórios contíguos, na multiplicação dos indignados, no cerco inelutável conquanto lento da realidade. Meu fogão ficou perfeito e vou preparar um jantar para os amigos mais chegados que terão de trazer a própria cadeira, o que não tem importância nenhuma quando a fome não é só de comida.

Ganha força o impeachment

A charge de hoje é de Laerte; veja galeria de agosto aqui: http://t.co/2ASm9hmvBT
A partir dessa nova onda de delações premiadas há quem se preocupe com a sorte do governo, da presidente Dilma, do ex-presidente Lula e do PT. Só por milagre eles recuperam popularidade e prestígio, mas podem perder mais coisa. A começar pelas eleições deste ano e de 2018, entrando na equação o próprio poder. O impeachment de Madame já não está tão longe quanto há duas ou três semanas. O volume de acusações dessa nova safra de denúncias surpreende pelo envolvimento, a participação e a tolerância de gente antes considerada acima de qualquer suspeita.

Tome-se a entrega da BR Distribuidora ao ex-presidente Fernando Collor pela presidente Dilma. Foi ao vivo, em audiência palaciana. Não há como desmentir a “doação”, confirmada pelo próprio ex-presidente e por Madame.

Nem vale à pena ficar citando as delações personalizadas de Fernando Baiano, Cerveró e outros personagens. Mesmo que estejam ampliando acusações ou até mentindo em determinadas situações, prevalece a natureza das coisas. Políticos, empreiteiros e altos funcionários públicos tem sido condenados e presos por ação da Justiça. O país inteiro toma conhecimento de suas falcatruas e roubalheiras.

Reflexos e consequências surgem inevitáveis. Primeiro o desprezo dedicado pelo cidadão comum aos políticos, mesmo com uns poucos sendo injustiçados. Depois, a descrença nas instituições. Junte-se a falência dos governos, do federal aos estaduais e municipais, e se terá a receita da rejeição, pelo povo, de quantos um dia imaginaram representá-lo.

É preciso prestar atenção no retorno de deputados e senadores a Brasília, no final do mês. Trarão na bagagem o sentimento de repúdio colhido junto às suas bases, até inutilmente dispostos a demonstrar pertencerem a outro universo, mas sabendo da mesma origem. Parece provável que venham menos tolerantes com o festival de corrupção revelado cada dia em maiores detalhes. Traduzindo: o impeachment da presidente Dilma ganhará força, senão bastante para destrona-la, pelo menos suficiente para intimidá-la. Cresce a certeza de que não adianta mais dar o dito pelo não dito e iniciar a ansiada recuperação nacional. Ninguém acreditaria. Nem eles.

O futuro da educação no Brasil

Chegamos ao início de 2016 rodeados e preocupados com uma forte crise econômica vivida pelo país. Um cenário de incertezas ronda a cabeça de todos os brasileiros e dezenas de perguntas permanecem sem respostas. Entre as dúvidas está o desenvolvimento da educação nacional.

No Brasil, todos os governos afirmam que a educação é uma meta prioritária. Ela foi e ainda é utilizada na plataforma eleitoral de todos os partidos. No entanto, a maior parte das promessas feitas durante a corrida eleitoral não é cumprida pelos que assumem o poder.

O desleixo com a educação no Brasil não é tema de debate recente. Em 1932, foi lançado o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, um documento que continha um diagnóstico conciso e propunha ações necessárias para uma mudança drástica no setor de educação. Em 1959, uma nova versão do mesmo manifesto foi feita.

O primeiro Plano Nacional de Educação (PNE) foi pensado em 1962. Apenas 26 anos depois, em 1988, ele foi aprovado pelo Congresso e só em 2001 foi implantado. O PNE continha um conjunto de metas e estratégias para um período de dez anos. O segundo PNE foi aprovado recentemente pelo Congresso.

O que todos esses projetos têm em comum? A resposta é simples: eles não têm sido executados em sua totalidade. O futuro da educação nacional é incerto, mas é possível traçar possíveis caminhos na busca pela excelência e democratização do modelo educacional brasileiro. Para não perdermos em competitividade é preciso formar mão de obra qualificada; para atender as demandas da crescente classe média, que busca oportunidades de um futuro melhor, é preciso garantir a todos o acesso ao conhecimento.

De acordo com pesquisa realizada em 2013 pela consultoria McKinsey & Company, 48% dos empregadores brasileiros consideram a escassez de competências como a principal razão para vagas não preenchidas no nível iniciante. Para melhorar a educação é preciso pensarmos de forma ampla, e também podemos avaliar fórmulas que dão certo em outros países.

No Brasil, o ensino superior público é sinônimo de gratuidade e – não tanto quanto antes – essas instituições são reconhecidas, também, pela sua qualidade de ensino e pelo foco na formação acadêmica. Nos Estados Unidos, entretanto, até as universidades públicas são pagas. Lá, há uma diversidade de instituições voltadas à capacitação profissional de jovens que optam por seguir um caminho menos tradicional e acadêmico e mais voltado para o mercado de trabalho, as community colleges.

Na Europa, em 1999, 29 países aderiram à Declaração de Bolonha, visando estabelecer um padrão para o ensino superior na Europa. Na prática, a Declaração estabeleceu que por lá o ensino superior estaria dividido em três ciclos: o primeiro, com duração mínima de três anos, irá garantir o grau de licença ou graduado; o segundo corresponde ao grau de mestre e deve durar entre um ano e meio e dois anos; e o terceiro ciclo equivale ao grau de doutor. Esse sistema é válido para todos os Estados que aderiram à Declaração, promovendo um ciclo comum entre as instituições e proporcionando a mobilidade dos estudantes e pesquisadores.

Claro que elevar o padrão de qualidade da nossa educação não é só um requisito para a modernização do país e a melhoria das condições de vida dos brasileiros. É um requisito também para a inclusão demandada por uma sociedade desigual. O ensino de qualidade, especialmente no nível fundamental, que é o nível que mais afeta a cidadania, deve ser visto como um compromisso de todos.

Os conteúdos desnecessários em todos os níveis de ensino devem ser substituídos por exercícios que estimulem o pensar, a argumentação, a criatividade e a prática aplicada na resolução dos problemas. Não há outro caminho para o Brasil melhorar, para as ruas serem atendidas, para diminuir o grau de corrupção, para que se elejam políticos e governantes dignos, probos, para melhorar a qualidade do serviço público, da pesquisa, da tecnologia, de tudo no país, se não investirmos na educação de forma intensiva.

Janguiê Diniz

Ano novo, problemas crônicos


Iniciamos 2016 com problemas conhecidos desses meses mais chuvosos: alagamentos, inundações, quedas de barreiras, comunidades isoladas. Apesar de não se ter controle sobre as precipitações hídricas, segundo o Sistema Integrado de Administração Financeira, a cada R$ 1 que poderia ser gasto em prevenção a desastres no Brasil, o Poder Executivo gasta R$ 37 para a recuperação e reconstrução. A grande questão é: Por que, no Brasil, insiste-se em atuar mais na resposta aos eventos, se o valor de reconstrução e/ou reparação após um desastre acaba custando muito mais que a prevenção e a mitigação dos danos dos mesmos? Não investir na redução de risco de desastres no período de normalidade, bem como em prevenção e mitigação de danos, faz com que os problemas ocasionados por eventos de origem natural, como inundações e alagamentos, se tornem crônicos, aumentando a magnitude dos prejuízos econômicos e socioambientais.

Patrícia Sottoriva (Leia mais)

Mais estado, menos Estado

Desde a proclamação da República, o Brasil, em seu próprio nome, se diz uma federação. Começamos com “República dos Estados Unidos do Brasil”, depois passamos a simplesmente “Estados Unidos do Brasil”, e mais recentemente nos assumimos “República Federativa do Brasil”. Mas deixemos os nomes de lado e olhemos para a realidade: seria o Brasil uma federação de fato?

A Constituição Federal de 1988 enterrou qualquer ideia de federação. Na verdade, ela trouxe muitos outros males para o país, mas o assunto é suficiente para uma série inteira de artigos – coisa para um futuro próximo. No tocante ao assunto de hoje, é importante dizer que nossa última Constituição tira autoridade e recursos das mãos de estados e municípios e os centraliza na União, um movimento exatamente oposto ao federalismo.


Num país de dimensões continentais como o Brasil, cheio de diferenças marcantes entre populações e realidades regionais, e com uma diversidade cultural imensa, favorecer um poder central não é, de forma alguma, uma boa solução. Os estragos que podem ser feitos num modelo como esse são do pior tipo, e fazem parte da atualidade brasileira: temos um governo federal inchado, em cujos meandros se instalou uma casta de corruptos, com instituições aparelhadas e uma política econômica equivocada ao extremo. Os estados não têm praticamente como fazer frente a nenhuma decisão do governo federal, pois lhes falta autonomia legislativa, e seus orçamentos dependem de repasses feitos pela União. São como filhos adolescentes, que não decidem nada de importância em casa e vivem sob a ameaça do corte da mesada.

No dia 8 de janeiro deste ano, o governador do estado norte-americano do Texas divulgou um documento extenso e bem fundamentado, cuja nome traduz-se como “Restaurando o Estado de Direito com os estados liderando o caminho”. Nele, o governador Greg Abbott sugere nove emendas à Constituição dos Estados Unidos, todas fortalecendo os estados e tirando poder do governo federal. São elas:

1. Proibir o Congresso Nacional de regular atividades que ocorram exclusivamente em um estado;

2. Exigir que o Congresso Nacional execute o equilíbrio fiscal;

3. Proibir as agências reguladoras e administrativas – e seus burocratas não eleitos – de criar leis federais;

4. Proibir as agências reguladoras e administrativas – e seus burocratas não eleitos – de impedir leis estaduais;

5. Permitir que uma maioria de dois terços dos estados anule uma decisão da Suprema Corte;

6. Exigir uma “supermaioria” de sete juízes para qualquer decisão da Suprema Corte que invalide uma lei democraticamente aprovada;

7. Restaurar o equilíbrio de poder entre os governos federal e estaduais, limitando aquele aos poderes expressamente delegados pela Constituição;

8. Dar aos oficiais estaduais o poder de processar os oficiais federais em cortes federais quando estes agirem além de seus limites;

9. Permitir que uma maioria de dois terços dos estados anule uma lei ou um regulamento federal.

Embora os Estados Unidos tenham uma Constituição muito voltada ao federalismo e os estados possuam bastante autonomia para legislar e para arrecadar, o governo federal americano atingiu níveis de burocracia, dívida pública, intervencionismo e intromissão na vida dos cidadãos que são incompatíveis com uma democracia de verdade. Mas a própria Constituição americana fornece o remédio para tal situação em seu Artigo 5.º, remédio do qual Greg Abbott ameaça lançar mão: uma Convenção dos Estados, capaz de propor e aprovar emendas constitucionais de forma independente. É a democracia acontecendo dentro da estrutura mesma de poder.

A realidade brasileira é bem diferente, e nosso governo federal interfere na vida dos cidadãos em níveis intoleráveis. O isolamento dos poderes em Brasília, o comportamento legislador de nossa suprema corte, a submissão do Congresso Nacional ao Poder Executivo, a fraqueza dos estados e municípios, o desequilíbrio de representatividade entre os cidadãos de diferentes estados, os níveis mundialmente inéditos de burocracia estatal e todos os direitos afirmativos garantidos pela Constituição de 1988, só para citar alguns problemas, são como uma âncora, impedindo o país de avançar social e economicamente.

Onde está o nosso Greg Abbott?

Corrupção e o PT: avalanche de melado

Nos noticiários as TVs apresentam amenidades, acidentes, notícias do exterior, poucas notas políticas. Tudo repetido à exaustão. O Brasil de férias quase não toma conhecimento dos recorrentes assaltos à coisa pública, que vão sendo descortinados por delatores loucos para salvar a pele. Eles vendaram a alma ao “diabo” do PT e agora estão pagando com juros e correção monetária.

Enquanto isto o melado com o qual o PT se lambuzou continua a percorrer distâncias e vai envolvendo figuras do alto escalão governamental. Parece a lama sinistra que se abateu sobre o distrito de Mariana soterrando tudo, matando gente, invadindo lonjuras, contaminando rios, confiscando o azul dos mares. Foi a maior catástrofe ambiental já havida no País, assim como a avalanche de melado da corrupção da era PT não tem comparação com as roubalheiras do passado, tal seu grau de institucionalização e volume.

Interessante é que o autor da frase, “o PT se lambuzou”, ministro-chefe da Casa Civil, Jaques Wagner, agora se encontra lambuzado, sendo que outros ministros comeram também bastante do melado. Pelo menos é o que se lê no O Estado de S. Paulo, de 8 de janeiro de 2016:

“Lava Jato – Além de Jaques Wagner, Edinho Silva (Comunicação) e Henrique Alves (Turismo) são citados em diálogos do empreiteiro Léo Pinheiro, da OAS, condenado a 16 anos de prisão”.

Também é mencionado no respectivo jornal o atual presidente da Petrobras, Aldemir Bendine. Ao mesmo tempo, o notório Cerveró, ex-diretor da Petrobras, menciona Jaques Wagner em algumas grossas, como diria Lula da Silva, maracutaias.

Nada acontece com o presidente de fato, que depôs pela quarta vez na Polícia Federal sobre uma generosa medida provisória que beneficiou um de seus filhos. E enquanto seus outrora “amigos íntimos”, aqueles que privaram de sua intimidade, que festejaram juntos em magníficos banquetes, que se divertiram com Brahma em suntuosas viagens estão vendo o sol nascer quadrado, “o pobre operário” segue indiferente à desdita dos companheiros de partido e “das zelites”. Não sei se esse traço de personalidade é próprio da humanidade como um todo ou mais acentuado em certos indivíduos sem caráter.

Em todo caso, o espertíssimo ex-presidente da República, grande beneficiado da locupletação geral não sabe de nada, não viu nada e, se duvidar, não conhece nenhum imbecil que caiu na esparrela, conforme taxou o senador petista e ora detento, Delcídio Amaral.

Lula da Silva foge dos “imbecis” como o diabo da cruz. Eles podem contaminar seu projeto de poder. Afogá-lo no pote de melado. No momento vislumbra-se apenas um fiozinho de melado a lhe escorrer pela barba. Foi posto por Cerveró que o mencionou quase que de passagem, a lembrar de que até a sorte acaba um dia nesse mundo de finitudes. Nada, porém, de previsões açodadas porque Brahma ou Boi até agora escapou. Ele conta com proteções internas e possivelmente externas, como as do Foro de São Paulo.

Há de se convir que o PT ainda detém força suficiente para evitar males piores. Exemplo disto foi o anteparo do STF que evitou por duas vezes o impeachment de Rousseff, com evidente e indevida intromissão no Legislativo. Ela ficará por mais três anos sem nenhuma condição de governabilidade, fazendo discursos que são peças de propaganda enganosa a se desmanchar na primeira ida das donas de casa ao supermercado. Enquanto isso o País afundará cada vez mais na recessão e na sua insignificância de potência regional sul-americana, a ser suplantada pela Argentina sob a presidência de Mauricio Macri.

Seguem-se outros exemplos do poder petista, como aqueles que tentam torpedear a extraordinária e inédita Operação Lava-Jato. É o caso do chamado desmonte da PF através do corte de R$ 133 milhões no seu orçamento. Foi votado no Congresso, mas tem evidente dedo do Executivo. Outro exemplo foi o da medida provisória assinada por Rousseff, que altera as bases da Lei Anticorrupção. Desse modo, se aprovada no Congresso empresas corruptas poderão fazer acordos de leniência com a CGU sem precisar colaborar com as investigações nem prestar contas ao TCU. Também poderão fechar contratos com o governo e receber verbas públicas. Não faltam também investidas do ministério da Justiça contra o competente e ilibado juiz Sérgio Moro.

Sem dúvida, o PT resiste diante do mar de melado que o submerge. Seu grande teste, porém, será nas eleições municipais desse ano. Se o povo achar que são lícitas as doçuras corruptas do poder, enquanto amarga a inflação, o desemprego, a inadimplência, ótimo para os petistas. Se não Lula terá, em 2018, que pensar em outro plano B.

No passado escolheu José Dirceu, depois Antonio Palocci e deu no que deu. Agora Jaques Wagner era (ou é?) o plano B, mas comeu muito melado. Dilma, a “faxineira”, vai mantê-lo no cargo? Certamente, mas nem tomando banho de ervas e sal grosso, Jaques Wagner, codinome compositor, se livrará do melado.

 Maria Lucia Victor Barbosa

O mundo a partir de casa

É preciso repensar a nossa vida. Repensar a cafeteira do café, de que nos servimos de manhã, e repensar uma grande parte do nosso lugar no universo. Talvez isso tenha a ver com a posição do escritor, que é uma posição universal, no lugar de Deus, acima da condição humana, a nomear as coisas para que elas existam. Para que elas possam existir… Isto tem a ver com o poeta, sobretudo, que é um demiurgo. Ou tem esse lado. Numa forma simples, essa maneira de redimensionar o mundo passa por um aspecto muito profundo, que não tem nada a ver com aquilo que existe à flor da pele. Tem a ver com uma experiência radical do mundo. 


Por exemplo, com aquela que eu faço de vez em quando, que é passar três dias como se fosse cego. Por mais atento que se seja, há sempre coisas que nos escapam e que só podemos conhecer de outra maneira, através dos outros sentidos, que estão menos treinados… Reconhecer a casa através de outros sentidos, como o tacto, por exemplo. Isso é outra dimensão, dá outra profundidade. E a casa é sempre o centro e o sentido do mundo. A partir daí, da casa, percebe-se tudo. Tudo. O mundo todo.
Al Berto (Alberto Raposo Pidwell Tavares, 1948-1997, in "Entrevista à revista Ler-1989)" 

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Dilma susto sentada futuro previsao 2016 entrar com o pe direito homem de muletas aleijado perdeu o pe em 2015

Quem nunca comeu melado

Quando come se lambuza!

Eis uma pérola da sabedoria tradicional, ressuscitada pelo inconsciente do ministro-chefe da Casa Civil, o lulopetista Jaques Wagner, numa entrevista concedida à “Folha de S.Paulo” no dia 3 deste tenebroso janeiro de 2016. Ao lado da entrevista da presidente, no dia 7, elas dão uma medida clara da nossa lambuzagem.


A suprema mandatária do nação — num misto de meditação e descoberta psicológica — admite que “errar é humano!”. Diante do tamanho do axioma, toda incompetência e má-fé, além dos pixulecos cometidos nestes 14 anos de governo do PT, podem ser esquecidos. “Não há coelhos na cartola”, reitera Dilma, repetindo Jaques Wagner, o hoje lambuzado compositor chefe da Casa Civil.

Estamos vivendo um clima de magia. O Brasil deixa de ser o “jambon” de Lima Barreto, para virar o mel de engenho sorvido à indigestão, pelos gerentes-gatunos do lulopetismo em todo o lugar. Esses passes de mágica, contudo, não aliviam. Pelo contrário, dão a toda pessoa responsável uma enorme e nada poética vontade de se matar. Coelhos e lambuzados são hoje, vejam o tamanho da desonra!, os emblemas de um Brasil que se suicida.

Como um estruturalista canhestro, embora pioneiro, não posso deixar de observar que o ditado invocado por Jaques Wagner desvenda os tabus de um governo manifestamente desenhado para o povo mas que, em latência, lambuzou-se como jamais se viu na história do capitalismo no melado do poder, tal como o poder é vivido no Brasil.

Quando um escolado político menciona numa entrevista que “Quem nunca comeu melado, quando come se lambuza”, usando o ditado como uma metáfora para ocultar o comportamento injurioso do governo, ele sem querer entrega o inconsciente do lulopetismo.

Cabe a indagação: como um comentário tão politicamente (in)correto saiu de um petista tão consciente da sua (in)correção? Eis uma entrevista digna de um Pedro Malasartes — esse padrinho de todos os Macunaímas e malandros nacionais — hoje promovidos a canalhas.

Além de ser uma verdade, a invocação do ministro revela — no momento em que escrevo, leio que J. Wagner está envolvido em mais uma familiar troca de pixulecos — um preconceito aristocrático. Ela diz que quem está fora de sincronia com sua posição social lambuza-se. Acaba, como afirma o ministro, reproduzindo “metodologias” fora de lugar.

Comer melado, labuzando-se, tem no nosso vasto almanaque de preconceitos reveladores de um viés hierárquico o claríssimo: “X ou Y — você leitor, define o sujeito — quando não caga na entrada, caga na saída!”

Os ditados bradam por um limite social para quem pode estar no poder. Como os que tudo sabem e, tendo o direito de comer mais do que podem, dão um passo maior que as pernas e lambuzam-se. Na sua folclórica defesa, o ministro admite que o PT assim procedeu e hoje paga o preço por esse descuido depois de 14 anos de poder!

Uma fome insaciável de mel, confirma a falta de modos à mesa. Em política, essa fome insaciável denuncia os que têm “um olho maior do que barriga” típico dos corrompidos. Num caso, querem todo o melado; no outro, quase (espero!) compraram a República.

Lambuzar-se no mel do poder (ou do poder comido como mel) é (e eu tenho afirmado isso faz tempo) uma manifestação do governar à brasileira. O besuntar-se mostra como o poder é usado, abusado e possuído por um grupo que — como “governo” — dele se utiliza como bem entende, familisticamente. Raymundo Faoro acertou na mosca ao falar em “donos do poder”. Entre nós, o poder, como o mel descrito e analisado por Lévi-Strauss nas suas “Mitológicas”, é um poderoso adoçante associado ao mundo sobrenatural.

Os méis ricos em levulose de certas abelhas, possuem — observa Lévi-Strauss no seu livro “Do mel às cinzas” — sabores tão marcantes que se tornam quase intoleráveis. Um gozo mais delicioso de que qualquer um daqueles proporcionados habitualmente pelo paladar e pelo odor perturba os liminares da sensibilidade e confunde seus registros. Já não sabemos mais — como redescobre o nosso Wagner, o “compositor” — se degustamos ou se ardemos de amor. Mas, como contraponto, há também méis alcalinos que são laxantes e perigosos! Produzidos por abelhas “feiticeiras” ou “vamo-nos embora”. Eis uma minúscula amostra da sabedoria de um especialista em olhar distanciado a elucidar o olhar próximo, possessivo e ávido do ministro, que admite como o seu partido queria extrair toda a doçura do poder mas, infelizmente, lambuzou-se.

A metáfora revela-se muito mais correta do que imagina a nossa vã ignorância. O mel de pau, a ser procurado na floresta e o melado de cana produzido por braço escravo nos engenhos baianos são tão gostosos que sobrepujam o comedimento, o pudor e a honestidade. Doces e sedutores eles, porém, melam e grudam, denunciando a sofreguidão dos seus comedores.

Não é, pois, por acaso que o mel natural dos ameríndios tem laços com o jaguar e com o fogo civizatório da cozinha que lhe pertencia. Já em outros mitos, seu paladar extraordinário delata uma insaciedade a ser punida porque ultrapassa os limites da decência.

O mel, como o poder, pune o lambuzado, conforme confirma o ministro lulopetista que hoje entra, como mais um papa-mel, na mira das procuradorias republicanas.

Roberto DaMatta

A velha nova classe média

Não há de ser por acaso que estudiosos da ascensão social iniciada na década passada venham dominando as escolhas para o comando do Ipea, o instituto federal de pesquisa econômica.

A prática, que tornou o instituto uma espécie de analista –e propagandista– oficioso dos feitos sociais brasileiros, começou com Marcio Pochmann, no segundo governo Lula. O economista produziu sucessivos estudos centrados na redução da miséria, da pobreza e da desigualdade até deixar o cargo para se candidatar pelo PT, sem sucesso, à Prefeitura de Campinas em 2012.


Com sua substituição por Marcelo Neri, os textos oficiais passaram a incorporar a "nova classe média", um conceito tão sedutor quanto controverso: para ingressar na categoria bastava uma renda familiar mensal de R$ 291 mensais por pessoa.

A nova ênfase ajudava Dilma Rousseff a conseguir sócios ao centro para o triunfalismo governista. Neri, de perfil liberal, respondia à Secretaria de Assuntos Estratégicos, então ocupada pelo PMDB; estudos sobre o tema tinham patrocínio da Confederação Nacional da Indústria. Calculava-se que novos e velhos integrantes da classe média chegassem a mais da metade da população brasileira – enquanto a popularidade da presidente passava dos 60%.

Jessé Souza, atual chefe do Ipea, foi um dos primeiros a contestar, ainda nos anos de euforia, a tal nova classe média. O sociólogo chama de "batalhadores" (ou "nova classe trabalhadora", expressão também usada por Pochmann) os que melhoraram de renda sem acesso ao capital cultural da classe média tradicional.

Em entrevista a Marcelo Coelho, Souza diz que a classe média dos protestos por moralidade e melhores serviços públicos é iludida por preconceitos contra o Estado difundidos pela classe dominante. Difícil será o governo explicar por que a maioria era sábia quando o aprovava, mas não agora, que o rejeita.

A crise do petróleo é nossa

O Brasil pareceu mais podre do que se imaginava quando ficou mais visível o tamanho da roubança na Petrobras, quando a maior empresa do Brasil se passou ao vexame ruinoso de nem publicar balanço, em novembro de 2014. Há o risco de nova rodada de descrédito grave da petroleira e do Brasil, por tabela.

A venda da participação da Petrobras na petroquímica Braskem talvez seja inevitável, mas é um sinal de desespero. Sem outras providências, trata-se apenas de remendo. Nessa liquidação, a petroleira pode fazer dinheiro equivalente a 1% de sua dívida. Vai vender um negócio neste momento de grande xepa da Bolsa brasileira, aliás participação em uma empresa tecnicamente boa.

Assim, a Petrobras se vira para fechar suas contas até 2017, por aí, como que esperando que passe a tempestade, que as coisas se ajeitem, que a empresa ganhe na Mega Sena, talvez.

O que seria a Mega Sena da petroleira? Dólar em baixa, preços de petróleo em alta, uma ainda mais sobrenatural melhoria do crédito do Brasil, com o que a Petrobras poderia refinanciar sua dívida em melhores condições ou, em caso de milagre dos bons, atrair capital privado.

Caso não ganhe na loteria, o que sobra? Não vai sobrar muito mais o que vender daqui a uns dois anos. Restaria uma capitalização por meio do governo (o governo compra mais ações ou faz alguma gambiarra financeira para colocar dinheiro na empresa). O governo, porém, não tem dinheiro.

O que mais? Demissões, cortes violentos nos custos operacionais. No mais, seria necessário tirar todas as travas de intervenção do governo que fazem a empresa ainda gastar mais do que pode.

A empresa não vai fazer muito mais dinheiro. A produção não vai aumentar tão cedo. Aliás, não se sabe bem como não vai cair, pois haverá corte no investimento justamente na produção.

Os problemas não param por aí. Nunca se sabe se a Lava Jato vai revelar mais imundícies da gangue de chupins. Pior ainda, muito pior, a Petrobras está sendo processada nos EUA. Pode ser condenada a penas pesadíssimas em dinheiro, pode até sofrer limitações operacionais que jogariam seu crédito no lago de chorume do lixão onde já está.

A desgraça da empresa teria ainda consequências para a economia brasileira, diretas e indiretas: no custo do crédito, nas perspectivas de recuperação do investimento, em mais desconfiança de que o governo pode vir a fazer novas lambanças a fim de tentar arrumar a Petrobras.

É preciso ressaltar que a derrocada da petroleira foi um dos motivos do tombo abrupto do país.

O crédito da empresa rolou para o lixo no final de 2014, na ribanceira em que já estava desde o início daquele ano eleitoreiro. A empresa já estava visivelmente no bico do corvo desde fevereiro, quando publicou seu balanço do ano anterior. A ruína financeira estava clara —a exposição dos danos apenas ficou maior, com as revelações da Lava Jato.

O crédito das empresas brasileiras, na prática o custo de tomar dinheiro emprestado, degradou-se quase no mesmo ritmo em que baixava o da Petrobras. Mesmo diante do desastre evidente, Dilma Rousseff não tomou atitude alguma até fevereiro de 2015. A presidente jamais entendeu o que é descrédito e o custo disso. Não há notícia de que tenha aprendido.

Baixa do petróleo põe em xeque 'plano pré-sal'

Em 2007, quando o governo brasileiro anunciou a descoberta das reservas do pré-sal, os preços do petróleo viviam um processo de ascensão surpreendente que teria seu ápice no patamar de US$ 140 o barril, no ano seguinte.

Entusiasmado, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu que o Brasil havia ganhado um "bilhete premiado". "É nosso passaporte para o futuro", disse.

A ideia do governo, na época, era usar essas reservas para impulsionar um projeto de desenvolvimento: parte dos recursos provenientes da exploração do petróleo seria direcionada a um fundo para a educação; além disso, regras de conteúdo local garantiriam o avanço, no país, de diversos setores - da indústria naval ao fornecimento de peças e serviços para a construção de plataformas.

Nove anos depois, a indústria petrolífera brasileira vive uma ressaca desse entusiasmo.

E não apenas em função da operação Lava Jato, que paralisou parte das operações da Petrobras. Ou da alta do dólar, que apertou as finanças da estatal, bastante endividada na moeda americana.

Para completar o que parece ser uma "tempestade perfeita", no início da semana o barril tipo Brent, negociado em Londres, atingiu US$ 30,43 dólares, valor mais baixo desde 2004.

Em Nova York, o barril de West Texas Intermediate (WTI) caiu para baixo da casa dos US$ 30 pela primeira vez desde dezembro de 2003.

E analistas de instituições financeiras como o banco Goldman Sachs não descartam que o produto chegue ao patamar de US$ 20 ainda neste ano, embora muitos também esperem uma gradual recuperação dos preços no médio prazo.

"É um patamar de preços que lança dúvidas sobre as margens de lucro que podem ser obtidas com a exploração do pré-sal e reservas não convencionais mundo afora", opina David Zylbersztajn, ex-diretor geral da Agência Nacional de Petróleo.

"O que fica claro é que o pré-sal nunca foi um passaporte para o futuro nem um bilhete premiado. Foi um erro apostar tantas fichas em um setor que, apesar de extremamente importante e relevante, também é volátil."

Signos do ano novo

O ano novo começa sob alguns signos. O primeiro deles é o signo do impasse, resultante do adiamento para o final de março do debate em torno da abertura de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff. Até lá a discussão será jurídica, na expectativa de que o Supremo Tribunal Federal (STF) defina as muitas dúvidas que pairam sobre o processo.

Ainda na esfera jurídica, veremos os movimentos destinados a afastar Eduardo Cunha (PMDB-RJ) da presidência da Câmara, tema de interesse estratégico para o governo por envolver o impeachment. Cunha terá que se defender no início de fevereiro, logo após o Carnaval.

Nesse momento, também serão escolhidos os novos líderes dos partidos, o que terá repercussão direta na escolha dos membros da comissão que debaterá o impeachment. Já em março, o PMDB definirá se rompe ou não com o governo, e esta é mais uma decisão que interfere no andamento do processo de impeachment.

Os impasses do primeiro trimestre revelam a força do fenômeno da “judicialização” da política brasileira, outro signo destes tempos, caracterizado pelo papel central do STF nas decisões que afetarão os demais Poderes. Nos próximos meses, o Supremo vai ampliar o número de processados na Operação Lava-Jato; decidir se afasta ou não Eduardo Cunha; e definir os procedimentos essenciais para a tramitação do impeachment. Nesse contexto, ganhará importância o debate no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre a eleição de 2014.

O outro signo do início do ano é a ampliação das fronteiras da Operação Lava-Jato. Novos nomes foram incluídos no imenso rol de investigados. Outros nomes, já mencionados, retornaram em novas tramas. O PSDB voltou a ser chamuscado com a informação, agora vinda de mais de uma fonte, de que o ex-presidente do partido, o falecido deputado Sérgio Guerra, recebeu R$ 10 milhões para fazer corpo mole na CPI da Petrobras do Senado, ocorrida em 2009.

Na esfera do governo, preocupa a menção ao ministro Jacques Wagner em conexão com antigas doações de empresas relacionadas ao escândalo do petrolão. Preocupa também a já negociada delação premiada do ex-presidente da Andrade Gutierrez Otávio Marques de Azevedo, envolvido em supostas doações para políticos governistas.

Para esquentar ainda mais o ambiente, outros antigos implicados tiveram sua exposição aumentada. Eduardo Cunha, por exemplo, viu seus sigilos fiscal e bancário e os de sua esposa e filha quebrados pelo STF. O senador Edson Lobão (PMDB) também viveu idêntico constrangimento. Henrique Eduardo Alves, ministro do Turismo, foi mencionado em ligações com a empreiteira OAS.

Lula voltou a depor na investigação da Operação Zelotes e o ministro Edinho Silva, que já tinha sido mencionado em temas relacionados à Lava-Jato, ganhou um “upgrade” em seu envolvimento ao ser novamente apontado como negociador de doações da OAS.

O quarto signo do ano é a questão da economia, que anda mal e nada no cenário indica alguma melhora. O governo reage em câmera lenta a demandas e problemas que acontecem em alta velocidade. Falta consistência na reação, confiança nas ações e, sobretudo, capacidade política para implementá-las. Mercado e empresários estão em compasso de espera e a incerteza está refletida na volatilidade do câmbio e na paralisia de investimentos.

Os quatro signos apontados sugerem um quadro de muita volatilidade, no qual as tendências podem mudar rapidamente. Os contornos da política em 2016 não estão delimitados. Na prática, o segundo mandato de Dilma Rousseff não começou e as dúvidas sobre se vai começar ainda são consistentes.

A briga de foice entre os que querem dominar o mundo já passou

“Petralhas e coxinhas” seriam as novas denominações (por sinal, sem graça e alimentadas pelo ódio) de esquerda e direita. Na realidade, isso também não passa de um pano de fundo que – veja a história, leitor – tem servido aos dois lados, que buscam o poder para, em proveito próprio, nele se eternizar. E o povo, a sua eterna vítima, que se dane.

Por falar nisso, a maior novidade agora é o sucesso da reedição do livro (ou panfleto?) de Adolf Hitler “Mein Kampf”. Na Alemanha, ficou forçadamente fora de circuito desde 1945, há 70 anos.

Christian Hartmann, do respeitável Instituto de História Contemporânea de Munique, disse que não há nenhum interesse em transformar o livro em “produto de exportação”. A verdade, porém, é que ele já é considerado um “best-seller”, que, com toda a certeza, vai correr o mundo, a julgar pelos 4.000 volumes vendidos em poucas horas, recentemente. Dentro de alguns dias, outras tiragens serão oferecidas.

Pelo que já senti, em conversa com amigos, o livro, no Brasil, também fará o maior sucesso. As vendas, aqui, ajudarão a encher as burras dos que bolaram essa ideia macabra. Por isso, não pretendo ressuscitar nenhum defunto, ao reler um livro que andei folheando há muitos anos. Conheço suficientemente a história desse psicopata. Talvez me sinta mais seletivo, tanto em conversas como em leituras, mas, se pudesse, adquiriria os direitos sobre o livro (e as edições) e os enterraria sob os seus restos mortais, se é que um dia esse maluco existiu…

Depois de pensar sobre tudo isso, e ainda bastante preocupado com o destino do nosso país, há anos à deriva, sentei-me diante da televisão, em minha casa, para assistir a alguns dos filmes do faroeste norte-americano (coisa que, nestes tempos bicudos, mais faço hoje), que fizeram história no cinema e nos deixaram boas lembranças.

De carreirinha, vi seis deles, verdadeiras obras-primas do gênero, até que um dos meus netos me lembrou de que, no circuito comercial, já se exibia o último filme do diretor, produtor e roteirista Quentin Tarantino, “Os Oito Odiados”. Nunca gostei dos filmes de Tarantino, com exceção de dois ou três. Um dos últimos, “Django”, exagerado, está dentro dessas exceções. Mas o último, que acabei por assistir numa das nossas salas, haja paciência! Longo, chato e estúpido. Afinal, nem só de técnica e matança (de bom humor?), além da boa música ou do trabalho excepcional de Samuel Jackson, se faz um filme.

Saí do cinema ainda a tempo de ver alguns dos jornais televisivos, que têm sido a maior causa do meu reencontro com os filmes de faroeste. Um horror! Sinto na pele, pelas suas fisionomias um tanto esgotadas, que os nossos profissionais já não suportam mais a exaustão que vai tomando conta de todos. Tudo a que assistimos, diariamente, nos rádios e nas televisões, e, depois, lemos nos principais jornais do país (as redes sociais, por enquanto, não são nem um pouco confiáveis), poderia inspirar – talvez mais violento ainda – um novo filme de Tarantino.

Voltemos depressa aos velhos filmes do faroeste norte-americano. Eles nos fazem esquecer, por exemplo, da pesquisa do Worldwide Independent Network of Market Research (representado aqui pelo Ibope Inteligência), que avaliou a aprovação de dez líderes mundiais: “O nome com maior rejeição, entre os 1.985 brasileiros entrevistados, foi o da presidente Dilma, com 76% de reprovação, contra 21% a seu favor”.

Acílio Lara Resende

Bandidos não merecem benefícios ou a simplicadade acima de tudo

Perguntaram a Milton Campos porque havia perdido para João Goulart as eleições para vice-presidente da República, em 1960. Até que o velho professor de democracia se explicasse, mil versões corriam o país, a mais verdadeira delas de que havia sido traído por seu companheiro de chapa, Jânio Quadros, que na surdina estimulara a dobradinha “Jan-Jan”. Naqueles idos, mesmo apresentados em conjunto, os candidatos a presidente e vice eram votados em separado.

A explicação do dr. Milton foi a mais simples possível, apresentada com humor: “perdi porque o Jango teve mais votos do que eu...”


Falta simplicidade hoje, nessa lambança em que se transformou a política nacional. Desde a criação da delação premiada que ex-presidentes da República, ex-ministros, ministros e agora até Madame, além de deputados e senadores aos montes, sem esquecer governadores,vem sendo citados como envolvidos em atos de corrupção. Todos os dias a Polícia Federal, o Ministério Público e até tribunais fazem vazar para a imprensa listas cada vez maiores de políticos citados pelos delatores, num verdadeiro festival de acusações, muitas até conflitantes. Não há necessidade de apresentarem provas. A vantagem fica com os bandidos já condenados pelos próprios crimes porque recebem benefícios de redução das penas e de prisão domiciliar na medida em que mais importantes personagens venham a acusar.

Dizem a observação e a natureza das coisas que a maior parte dos denunciados terá mesmo metido a mão em dinheiros públicos, tráfico de influência e prestação de serviços vergonhosos. Cabe às estruturas de informação apurar a veracidade do que é referido sem a necessidade de provas, coisa que demanda tempo. Há algo de errado nessa equação, abrindo-se a hipótese da existência de delatores mentirosos ou dispostos a vingar-se de inimigos, desafetos ou antigos sócios. Nesse aspecto é que a lei precisaria mudar.

Primeiro retirando qualquer vantagem dos delatores enquanto não comprovadas as delações. Depois, dar à Justiça prazo fatal e curto para aceitar as denúncias, quando os denunciados deveriam ser afastados das funções que porventura ocupem e impedidos de ocupar outras, eleitorais ou não. Ou receber desculpas do poder público. Por fim, duplicar as penas daqueles flagrados mentindo ou inventando delações.

O que não dá para aceitar é essa enxurrada de acusações verdadeiras ou falsas que inundam o país. Inexiste a figura do cidadão mais ou menos criminoso. Se é, pau nele! Se não é, aplicar o mesmo instrumento no mentiroso. As instituições só perdem nesse emaranhado de denúncias e suposições, por enquanto capazes de beneficiar apenas os declaradamente bandidos.

Carlos Chagas

Escárnio (ou escarro) ministerial

Não vamos dar vacina para 200 milhões de brasileiros. Mas para pessoas em período fértil. E vamos torcer para que mulheres antes de entrar no período fértil peguem a zika, para elas ficarem imunizadas pelo próprio mosquito. Aí não precisa da vacina
Marcelo Castro, ministro da Saúde

Para que serve, afinal, o ensino de História?

Para entender.

Entender por que tivemos habitantes nesse território há milhares de anos e só termos sido "descobertos" em 1500; entender por que havia milhões de habitantes nas primeiras décadas após o tal "descobrimento" e depois disso ficaram restritos a algumas dezenas de milhares; entender por que é comum falar em "descobrimento do Brasil" se não havia um "Brasil""" entender por que os negros e os índios "contribuíram" na formação da sociedade brasileira se, em boa parte da história após o "descobrimento", essas populações formavam a maior parte da população; entender por que Domingos Calabar foi o primeiro "traidor" da pátria se ele viveu em uma época na qual o território que hoje é parte do Brasil pertencia à Espanha e estava sob domínio holandês.

Entender por que D. Pedro I era português e nobre e foi a pessoa que trouxe a "independência" ao Brasil; entender por que, logo depois, ele fecha a constituinte e impõe um texto feito sob encomenda, manda matar seus desafetos, envolve o país em uma guerra inútil com a Argentina, arruína a economia nacional, é praticamente expulso e , até hoje, seu nome é lembrado em um feriado nacional; entender por que seu filho, D. Pedro II, manteve a escravidão por 48 dos 49 anos que governou e, mesmo assim, é conhecido como um sábio; entender por que a República não teve participação popular; por que uma das primeiras medidas do governo de Deodoro foi censurar a imprensa; por que, durante a República Velha, a questão social "era um caso de polícia""" por que Getúlio Vargas é lembrado e homenageado mesmo tendo sido um ditador sombrio e violento na maior parte de seu governo; entender por que, na primeira experiência democrática do país, entre 1946 e 1964, dos cinco presidentes, um se matou, outro renunciou e outro foi derrubado.

Entender por que Castelo Branco assumiu prometendo uma transição rápida e os militares ficaram 21 anos no poder; entender por que a lei de anistia passou, apagando também os crimes dos torturadores; entender por que as Diretas Já não foram nem para votação, depois de milhões de pessoas terem dito "queremos votar pra presidente""" entender por que os planos econômicos de Sarney e Collor não deram certo e ninguém foi responsabilizado por isso; entender por que os preços pagos pelas estatais vendidas no governo Fernando Henrique foram tão baixos; entender por que o PT prometeu um governo ético e caiu na vala comum das transações mesquinhas.

O entendimento é a razão de se ensinar e aprender História. Entendimento que passa a funcionar como orientador em relação ao futuro. Chave de compreensão e definição de posturas. Afinal, estamos no mundo para mante-lo e para transforma-lo. E, para isso, precisamos entender o que se passou até aqui. Como quem chega a um filme começado. Como quem chega atrasado em uma reunião. Como quem não estava prestando atenção e por isso perdeu uma oportunidade importante. A História é esse resgate e, ao mesmo tempo, esse roteiro. Entender o que se passou para compreender a bagunça do presente e balizar as ações. Por que o agir é a razão de existir no espaço público. E o agir é a Política. E para agir é preciso entender. E por isso é que é tão importante o ensino da História. Simples assim.

Daniel Medeiros

Quantos e quais são os avessos de Dilma?

A sequência de medidas provisórias e a nova regulamentação da Lei Anticorrupção, que na prática anulam o sentido do prefixo, que quer dizer contra, revelou a total desistência do mínimo de pudor pelo desgoverno Dilma no findo ano de 2015. A mudança da condição de 50 anos após a morte para 10 para que se lhe permita outorgar o título de Herói Nacional a Leonel Brizola, sem motivo aparente que não o de atormentar o vivo Luiz Inácio Lula da Silva, põe em dúvida a sanidade mental de quem a promoveu. Pois sobram problemas para a chefe do desgoverno enfrentar neste grave momento e não faltava nesta hora aziaga uma decisão sem motivo sério algum em meio à recessão brutal e a um processo de impeachment, que, na verdade, mal começou.

Mas a presidente não desiste de nos surpreender e nos tem propiciado mais do mesmo em seu estilo pouco sagaz e nada sutil, sem lógica e com ousadia imodesta. Há uma semana, seu padrinho Lula lhe ocupou a agenda com oportuno jantar (à véspera de um depoimento de cinco horas à Polícia Federal). E nele exigiu dela entusiasmo e otimismo. A sucessora não se fez de rogada e convidou os setoristas do palácio para um café da manhã, sob a égide de uma exibição de falsas flores do recesso e coroado com um selfie cretino que irradia, do lado dela, um absurdo desconhecimento da gravidade da crise e, do ângulo dos encarregados da cobertura da Corte desapegada aos fatos, um grau similar de alheamento brechtiano da realidade.

O pessedista pernambucano Thales Ramalho cunhou a expressão flores do recesso para definir o truque de políticos espertos de irem a Brasília nas férias para ocuparem tempo e espaço – às vezes com destaque – nos meios de comunicação revelando fatos irrelevantes que no cotidiano do quadro político não tinham como merecer importância. Lula mandou Dilma ser irrealista, ela obedeceu e os repórteres pareciam dizer, sem ligar a mínima para seu público, assolado por falências e desemprego: “Se fui pobre, não me lembro”.

Os semblantes deslumbrados de Dilma com o poder que se esvai e dos jornalistas com a proximidade da glória efêmera e rara contrastam com as notícias da planície, que são de fazer chorar. No congraçamento pré-carnavalesco em pleno recesso da recessão, a presidente festejou vitórias eventuais e inconsistentes no processo do impeachment. Mas, entrementes, o anúncio da inflação de 10,67% em 2015, a mais alta desde 2002, é a pior de uma série de notícias ruins, como o retorno de 3,7 milhões de pobres da classe C às classes D e E. E desolador é que, no “país do futuro” (apud Stefan Zweig), o desemprego de patrícios entre 15 e 24 anos deve ter sido de 15,5% em 2015 – maior do que a média mundial no ano, de 13,1% .

A maior novidade contada por ela agrada a pouquíssimos: deverá reunir-se no café com setoristas em 2017, porque o profeta Lula de Caetés, o vice Temer, que se refestela no poder à sombra, e Madre Marina acham que o impeachment morreu, mas não foi enterrado. As exéquias são previstas para depois do carnaval, época em que a Quarta-Feira de Cinzas terá ares de terça-feira gorda. Ao menos nos salões do palácio onde o escárnio vira orgia do acinte a desafiar cidadania e República, corroídas pelos ratos.

Ninguém achou um só deslize que ponha sob suspeita sua honra pessoal – repete Dilma. Não lhe falem no rombo das propinas da Petrobrás, na capivara de sua protegida Erenice Guerra nem nas dúvidas sobre o comportamento do fiel Walter Cardeal, diretor da Eletrobrás. Para limpar as fichas dos espíritos santos de orelha Jaques Wagner e Edinho Silva madama conta com o pretexto do “vazamento seletivo”, agora comprometido pelo destaque à citação de Fernando Henrique na delação de Cerveró. E com o beneplácito alugado do baixíssimo clero (nas profundezas de pré-sal) da Câmara, liderado por Leonardo Picciani. Só não dá mais é para soltar o líder Delcídio “do” Amaral.

Palavras impressas em papel não têm como ser fiéis a mais uma confissão de probidade feita pela presidente naquele repasto. A frase “tenho clareza de que tenho sido virada dos avessos” é um exemplo cabal da desconexão entre seu discurso e os dicionários existentes. Quantos e quais são os avessos de Dilma? Terá ela mais de um avesso (o lado oposto ao dianteiro) ou quis dizer às avessas (ao revés)?

É impossível adivinhar onde encontrou o plural de uma palavra singular para se eximir da evidência de que deixou tanta gente roubar tanto sem nunca ter percebido. Não dá para entender tal sentido oculto na leitura, ainda que atenta. Para isso há que assistir às pausas súbitas, às sílabas atropeladas e aos aflitos apelos à compreensão dos interlocutores. E isso só é possível vendo-a e ouvindo-a na televisão. O jeito de dizer a frase sem nexo importa mais do que a falta de nexo de sua fala. Pois denota o cansaço desesperado que Dilma expõe ao repetir infindas vezes algo que considera óbvio, mas não consegue comprovar e assim convencer quem tente, sempre em vão, ouvi-la e entendê-la. Da outra ponta da linha, assediado de todos os lados pela crise, o pobre brasileiro só pode ficar mais exausto e mais desesperado do que ela própria.

Dilma disse ainda que ninguém devia aposentar-se aos 55 anos. “Nós estamos morrendo menos. E os jovens estão nascendo mais”, justificou-se. Estas patacoadas estão à altura da transmissão da tríplice epidemia pelo ovo do mosquito, da glorificação da mandioca e da sagração da mulher sapiens. Não querem dizer nada e nada indicam. São somente novas pérolas da língua particular de Sua Excelência, tratada comme il faut por Celso Arnaldo Araújo no livro O Dilmês. Criará um ministério para traduzi-la?

Após ouvir que a CPMF é um problema de saúde pública, o contribuinte a ser assaltado entende perfeitamente que terá de pagar pelo 2016 feliz que Dilma se almeja. Pois sabe que só lhe restará pagar a conta de um problema de saúde pública sem jeito: o desgoverno dela.

Pau nas reservas? Que má ideia!

No final do ano passado, o governo editou uma medida provisória que permitiu ao ministro da Fazenda pagar de uma só vez as chamadas pedaladas fiscais de 2014, usando o dinheiro que o Tesouro Nacional mantém no Banco Central (BC). As pedaladas originaram-se de pagamentos feitos pelos bancos oficiais a beneficiários de programas do governo que não foram devidamente ressarcidos pelo Tesouro na época oportuna.

A maneira natural de o Tesouro obter recursos para ressarcir os bancos oficiais pelas pedaladas seria através da colocação de novos títulos de dívida diretamente no mercado, sem envolver o BC. Em vez disso, o governo editou a medida provisória cancelando leis anteriores que previam que o caixa do Tesouro no BC deveria ser usado preferencialmente para pagar dívida do Tesouro com o próprio BC.

Deste modo, o Tesouro pôde usar o dinheiro que tinha no BC para pagar os bancos oficiais que haviam financiado as pedaladas. Os bancos, é claro, não deixam esse dinheiro parado, sem render juros. Usam o dinheiro para comprar títulos do Tesouro no Banco Central, nas chamadas operações compromissadas. Através delas, o BC recolhe o dinheiro dos bancos e, em contrapartida, repassa a eles títulos do Tesouro, com um compromisso de recompra futura.

Ou seja, quem se endivida com o mercado para pagar as pedaladas é o Banco Central, e não o Tesouro diretamente. Trata-se de uma operação tortuosa, obscura e quiçá inconstitucional.

Agora circula em Brasília a proposta de tentar reativar a economia com a venda das reservas internacionais para financiar um aumento dos gastos do governo. Convém explicar por que isso também não faz qualquer sentido, antes que mais esse atentado contra as finanças públicas do país seja perpetrado.

O BC tem atualmente US$ 373 bilhões de reservas internacionais. Ao mesmo tempo, ele deve US$ 113 bilhões através dos chamados swaps cambiais. Esses são contratos financeiros entre o BC e os bancos, em que o BC troca o principal e os juros em dólar pelo principal mais os juros em reais. O BC tem ganhos se os juros em reais superam a depreciação cambial. Tem perdas se a depreciação supera os juros em reais.

Os swaps cambiais são possíveis porque os bancos entendem que eles estão assegurados pelas reservas internacionais do BC. De fato, eles são uma dedução das reservas internacionais. Diminuindo os swaps das reservas, o valor que fica são US$ 260 bilhões de reservas internacionais efetivas.

As normas prudenciais a respeito da manutenção de reservas internacionais sugerem que elas devam ter um valor equivalente a seis meses de importação, para evitar que o país pare, no caso de uma queda súbita das exportações ou de uma suspensão de créditos externos. Como as importações anuais do país são cerca de US$ 300 bilhões, isso significa que as reservas prudenciais de que necessitamos são iguais a US$ 150 bilhões. Portanto, o excesso das reservas efetivas sobre as reservas prudenciais é igual a 260 menos 150, ou seja, US$ 110 bilhões.

Deste modo, o valor das reservas que o governo poderia em princípio pensar em dispor seria de US$ 110 bilhões, apenas 30% das reservas de US$ 373 bilhões, mas ainda assim um valor significativo.

Considere-se, entretanto, que as reservas são um ativo que o governo adquiriu com a emissão de dívida interna. Para comprar as reservas, o governo teve que vender títulos no mercado interno. O razoável, portanto, seria que a receita obtida com a venda de US$ 110 bilhões das reservas fosse usada para abater a dívida interna. Haveria, nesse caso, uma economia considerável de pagamento de juros por parte do governo.

Supondo que a diferença entre os juros pagos sobre a dívida interna e os recebidos pelas reservas seja de 10% ao ano e que a taxa de câmbio seja igual a R$ 4 por dólar, então a economia anual de juros seria de R$ 44 bilhões de reais (pois: 110 x 0,10 x 4 = 44). Essa seria uma economia que se repetiria todo ano, dependendo da diferença entre os juros internos e externos, ajudando as contas do governo e a rolagem da dívida interna, que seria menor do que antes.

O problema é que querem gastar o dinheiro da venda das reservas não para reduzir a dívida interna, mas para aumentar a despesa do governo, o que é uma péssima ideia.

O pior dos mundos seria usar as reservas para aumentar as despesas correntes do governo, porque estaríamos trocando um ativo valioso por um gasto temporário sem retorno. Se for para despesas de capital, também seria ruim, porque, embora essas despesas aumentem a demanda interna de imediato, não são um impulso que possa se manter à frente, porque as reservas acabariam. A demanda aumentaria num ano, para reduzir-se novamente no ano seguinte. Muito provavelmente, a ponte ficaria pela metade. Perderíamos as reservas e continuaríamos no fundo do poço.

Edmar Bacha

Parece, mas não foi nem é


O PT sempre se vanglorizou de ser um partido de esquerda, comprometido com as causas sociais, defensor intransigente dos trabalhadores e principalmente com a moralidade política. Foram precisos 13 anos no governo para mostrar que era e é Denorex.

O primeiro caminho foi seguir pela direita com os mesmos métodos dos demagogos, abastecido pelo fisiologismo. Saudou vitórias sociais que foram mais gigantescas, às vezes incomensuráveis, apenas nos discursos. De tanto repetir a mesma ladainha, acabou multiplicando as conquistas de boca.

Conseguiu alimentar milhões, mas abasteceu muitíssimo bem poucos com milhões que alimentariam outros milhões de bocas.

Esteve sempre com os trabalhadoreds, é certo. Irrigou com dinheiro público as centrais sindicais e sindicatos para o bem da pelegada dirigente. O dinheiro não faltou para defenderem o partido e seus políticos através do bolsa manifestação ( transporte grátis, R$ 50 mais pão com mortadela) como esmola para desempregados. Assim ampliou o emprego no país.

Ainda agora, sempre defensor intransigente dos pobres, cortou dinheiro da educação, da saúde, do Bolsa Família e até vai cobrar mais dos que pagam menos o Minha Casa Minha Vida. Medidas contra os pobres de quem se diz seu defensor na Terra.

É que moral política nunca teve. Adepto da mentira, o partido se fez na imoralidade. Com os conchavos, distribuiu a bel-prazer cargos, aparelhou os governos (porque não está só no Planalto), comprou o que podia e não podia. Corrompeu até o diabo para assegurar seu continuísmo.

Aquele dinheiro para ajudar o pobre a enfrentar a crise gerada pela roubalheira, nem morto. Onde já se viu os emergentes petistas voltarem ao esgoto de onde saíram?