terça-feira, 15 de julho de 2025

Extorsão, azáfama, mendacidade...

Serão poucas – muito poucas, na verdade – as pessoas familiarizadas com o mundo diplomático e as modernas relações entre as nações em tempos de paz que já tenham visto algo tão rasteiro e vulgar como a carta que o presidente norteamericano, Donald Trump, pretendeu ter enviado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na verdade, a carta não foi endereçada por um chefe de governo a outro, como costuma ocorrer quando padrões de respeito são obedecidos. Foi postada por Trump em sua rede social, chamada Truth Social.


Talvez pior do que o método de endereçamento de uma carta com tantas implicações políticas, diplomáticas e comerciais seja sua forma. Obviamente deselegante, é mal estruturada e de estilo claudicante. Um bom redator se envergonharia de precisar usar maiúsculas para enfatizar alguma coisa. Mais ainda, a carta é mendaz.

Tudo isso parece reproduzir traços essenciais do missivista. Trump é a prova mais clara de que o fato de uma pessoa ser milionária não lhe retira vulgaridade nem lhe confere qualidades. Embora disponha de capacidade política para vencer duas disputas presidenciais na nação mais poderosa do mundo, Trump está longe de ser um estadista. É uma figura tosca, grosseira, autoritária, que não hesita em mentir se a mentira o beneficia.

Sua carta mente. Pior, tem avisos e ameaças graves, como a imposição de taxação de 50% sobre todos os produtos importados do Brasil.

Tudo isso porque, como é necessário para a defesa da democracia, as autoridades judiciais brasileiras estão prestes a julgar os responsáveis pelo golpe de Estado articulado logo após conhecidos os resultados da eleição presidencial de 2022 para manter no poder o candidato derrotado Jair Messias Bolsonaro. Para Trump, o que o Brasil faz com Bolsonaro é uma “caça às bruxas”, que deve acabar “imediatamente”. Esse tema é o começo da carta. Mais abaixo, Trump anuncia a taxa extra sobre produtos originários do Brasil e mente quando diz que o Brasil tem vantagem no comércio com os Estados Unidos.

Um dos idealizadores do movimento Make America Great Again ( Maga) e conselheiro de Trump, Steve Bannon deixou claro o que se pretende com a taxação: “Derrubem o processo contra Bolsonaro e derrubamos a taxação”. É extorsão explícita. Daí, corretamente, o editorial de quinta-feira passada do Estadão dizer (10/7, A3): “Trata-se de coisa de mafiosos”.

Serenamente, o presidente Lula disse que o Brasil poderá recorrer à Organização Mundial do Comércio (OMC), aplicar o princípio da reciprocidade (impor tarifas iguais sobre os produtos dos Estados Unidos que entram no Brasil), ou adotar outras medidas. Mas não agirá sob tensão. O presidente disse que poderá conversar com Trump, embora não veja necessidade disso. No dia seguinte, Trump disse a mesma coisa.

Ao ficar claro que Bolsonaro foi o principal motivo para o gesto diplomaticamente disparatado do presidente norteamericano, os seguidores do candidato derrotado em 2022 começaram a se preocupar.

Tentaram justificar a decisão de Trump como resposta a alguma coisa que o governo brasileiro tenha feito e desagradado à Casa Branca. Mas parecem ter entendido que o fato tende a ser-lhes politicamente nocivo.

Quem mais agudamente percebeu esse impacto, e avaliou que deve ser o mais prejudicado do ponto de vista eleitoral, foi o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. No dia do anúncio das medidas de Trump, Tarcísio parecia ainda sentir-se do lado dos vitoriosos. Subserviente, como se mostrou em janeiro ao usar o boné do Maga quando seu ídolo tomou posse na Casa Branca, Tarcísio elogiou a taxação e culpou Lula. Ouviu do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que um candidato a presidente da República (como Tarcísio pretende ser) não pode ser vassalo.

Mas Tarcísio entendeu que o maior impacto da taxação será sobre a economia paulista. E que o responsável por tudo isso, na verdade, é Bolsonaro. Começou a movimentar-se.

O azafamado governador foi a Brasília, ouviu Bolsonaro, conversou com o chefe da representação diplomática americana dispondo-se a discutir tarifas e, pelo que se noticiou, procurou ministros do Supremo Tribunal Federal em busca de autorização para Bolsonaro viajar aos Estados Unidos e negociar com o governo Trump. Tudo errado. Não compete a governo estadual negociar tarifas internacionais, nem a um cidadão comum, sem direito a passaporte e sob o risco de ser preso, como Bolsonaro, falar em nome do Brasil.

A depender do governo brasileiro, essa poeira artificialmente levantada por Trump e pelos bolsonaristas vai baixar. Em algum momento, o mundo mostrará a Trump que a convivência internacional exige um mínimo de respeito a regras aplicáveis a todas as nações.

O País, então, voltará a pensar no que precisa fazer, a começar pela definição de meios para o ajuste fiscal, como a taxação dos que podem muito e pagam pouco imposto. Essa é uma discussão que não pode mais ser ignorada.

Meus povos

Precisava também de dizer meus povos. Meu corpo não define meu sentimento por inteiro e não pode mandar em minha pertença. Pertencemos por afecto e por fascínio. Somos capturados até sem contar, quando algo se coloca diante de nós e nos cabe de tal maneira que o passamos a ter como medida para todas as coisas, uma espécie de sapato de cristal que vamos calçando nos próprios pés para assumir o que é paixão e o que não vai mais nos conquistar.

Sermos daqui ou dali não obedece ao lugar do corpo. A cultura naturaliza-nos de outro modo e é mestiça. É identidade de um pouco de cada coisa e quem é só de um lugar é pobre porque nenhum lugar é inteiro.


Este não é um retrato de comunidade alguma que exista. É o meu poema que tem que ver sobretudo com o assombro, o preconceito e a maravilha que sobra em alguém que quer sobretudo inventar uma hipótese por imaginação e exuberância. Não é minha intenção fazer antropologia, sociologia ou sequer história. Sou um colector de palavras. Concebo verdades como se fossem sobretudo vocabulares e aceito erros. Coloco-me diante de todas as coisas para catar o poema. É pelo poema, sua violência e seu fascínio, seu absoluto fulgor deitado sobre a realidade, que é pouco, que busco. É sempre pouco, busco muito mais.

Os povos originários do Brasil, como de toda a América do Sul, fascinam-me e eu jamais esquecerei o que me disse o cacique dos Anacés, ali cerca de Fortaleza: vá, e diga ao seu povo branco que um dia chegou aqui para nos matar, que seguimos de braços abertos para o receber como amigos. Ensine ao seu povo que somos amigos. Talvez nunca como então me tenha sentido tão honrado. Abraçaram minha visita, ofereceram-me o mais belo ramo entrançado de uma estranha folha gigante. Fizeram cantos, danças, pintaram os seus rostos, sorriram e pediram paz. Eu senti que não poderia jamais escapar daquele sentimento de urgência que em Portugal, esse futuro sempre europeu, não se sente. É, sim, fundamental que saibamos o impacto do passado no presente. É importante essa consciência para terminar seus efeitos e começar a mais elementar solidariedade. Ao menos, a solidariedade, contra toda a agressão, espoliação e assassinato a que sujeitam ainda os povos originários, esses que são o Brasil original, o Brasil sem as doenças brancas que quase os extinguiram.

Anotei no meu caderno um trecho que imaginei para algum instante no livro, mas que acabou por não ser usado. Sobrou no caderno como um afinador importante para o meu pensamento e esteve sempre presente. Diz: “por toda a parte se chama Brasil. Do baixinho de uma árvore, mesmo raiz, até ao pescoço mais alto, depois da copa, depois até do pássaro, mesmo que voando só na claridade, é chamado Brasil. E na água, movendo e mudando, e seus bichos dentro e ao fundo, a fumaça e o som, é Brasil. Como se não fosse necessário nenhum outro nome. Entoaríamos Brasil e isso seria infinito de significados. O Brasil, coisa tão ávida. Uma espécie de assombração. Um ser em toda a parte ao jeito só da Divindade. O guerreiro branco, imediatamente impedindo a palavra, perguntou: "como tirar o Brasil de sob, de sobre e de dentro de nossas matas, nossos mares, nossos bichos e nossos corpos. Como tirar o Brasil de nossas ideias.”

Imaginei que aos povos encontrados subitamente em suas naturalíssimas comunidades era dito que o tamanho daquela terra estava tomado por um poder absurdo que nomeara tudo a seu serviço. Como poderiam estar ao serviço as matas e as águas grandes da Amazónia, os bichos e os corpos das pessoas que jamais esperaram ver brancos e, sobretudo, terem-nos como donos, autoridades, ferozes companhias, prepotentes assassinos.

Esta é também uma terna História dos negros, mas, como a maioria das feitas pelos brancos, quis muito que sobrasse uma espécie de rasura, a impressão de ausência como se o negro houvesse de ser um elemento usado e deitado ao esquecimento. Julgo que apenas com a morte do meu pai chorei como à escrita de alguns destes capítulos e teve sempre que ver com a figura de Meio da Noite, essa sombra que nunca se ensimesmou o bastante, mas favoreceu seu irmão. Admito que me apaixonei por completo pelo guerreiro desiluminado. Fazer com que o livro seja uma ingrata forma de contar uma história negra é uma crueldade que sinto ser necessária. É necessário atentar como em quase tudo apagamos os negros que foram, afinal, presentes e fundamentais.
Valter Hugo Mãe, "As doenças do Brasil"

De que serve a bondade


De que serve a bondade
Quando os bondosos são logo abatidos,
ou são abatidos
Aqueles para quem foram bondosos?
De que serve a liberdade
Quando os livres têm que viver entre os não-livres?

De que serve a razão
Quando só a sem-razão arranja a comida
de que cada um precisa?
Em vez de serdes só bondosos, esforçai-vos
Por criar uma situação que torne possível
a bondade, e melhor;
A faça supérflua!

Em vez de serdes só livres, esforçai-vos
Por criar uma situação que a todos liberte
E também o amor da liberdade
Faça supérfluo!

Em vez de serdes só razoáveis, esforçai-vos
Por criar uma situação
que faça da sem-razão dos indivíduos
Um mau negócio!
Bertolt Brecht

I. A. – Quem está a pensar?

Em Phaedrus, Platão conta como Sócrates, num diálogo com Phaedrus, alerta para os perigos de uma nova tecnologia – a escrita. Sócrates teme que a escrita, ao contrário de constituir um elixir capaz de exponenciar a sabedoria humana, destrua a memória interior. Sócrates receia que o homem delegue a memória neste sistema externo, perdendo a sua capacidade natural de memorização, a base do conhecimento.

A escrita e a imprensa permitiram-nos preservar o conhecimento, a informação e as ideias. A possibilidade de revisitarmos um conteúdo e sobre ele refletirmos. Liberto da necessidade de tudo recordar, o ser humano concentrou-se na compreensão, fomentando a capacidade de gerar novas ideias. A escrita potenciou a nossa memória.

Os estudos neurológicos demonstram que a criação de memórias depende do nosso envolvimento intelectual e emocional com um dado tema ou evento, da nossa “atenção”. António Damásio, em Sentir e Pensar, explora o tema em detalhe. Porque permanecem intensas as memórias associadas, por exemplo, a experiências especialmente emotivas. Na verdade, a escrita acelerou a aquisição de conhecimento, mas hoje, na era da internet, e em especial da Inteligência Artificial, os alertas de Sócrates parecem premonitórios.


Recentemente, o MIT publicou um estudo a aferir o impacto cognitivo da utilização do ChatGPT. A um grupo de alunos universitários foi solicitada a elaboração, em três momentos distintos, de uma composição. O grupo que não pôde recorrer ao Google nem ao ChatGPT apresentou a maior atividade cerebral e a capacidade de recordar o que tinha escrito. No extremo oposto, o eletroencefalograma realizado aos alunos que utilizaram o ChatGPT mostrava uma atividade cerebral quase nula. Após o teste, os alunos tinham dificuldade em recordar os detalhes e em se assumir como autores das composições. Num quarto momento, aos alunos que tinham utilizado o ChatGPT foi solicitado que a composição fosse realizada sem apoio externo (Google ou ChatGPT). Os alunos apresentaram dificuldades e a sua atividade cerebral manteve-se baixa, nos vários parâmetros. Inversamente, os alunos que não tinham utilizado o Google nem o ChatGPT, e que ora podiam fazê-lo, refizeram a composição, mantendo níveis elevados de atividade cerebral e com resultados positivos na qualidade do trabalho.

As composições foram corrigidas por dois professores de Inglês. Não obstante não serem informados de quais as composições produzidas com apoio do ChatGPT, conseguiram detetar. A gramática era perfeita, mas os temas repetiam-se.
A utilização dos motores de busca já tinha provocado o chamado “Google effect”, mais do que recordar em detalhe uma informação, tornámo-nos peritos em recordar onde podíamos encontrá-la. Ainda assim, tínhamos de gerir grandes quantidades de informação e analisá-la criticamente. Naturalmente, já sofríamos do viés do algoritmo que selecionava os resultados da nossa pesquisa, não com o objetivo de nos esclarecer, mas sim de prever o que consideraríamos mais interessante… assim assegurando mais tempo de visualização. Afinal, Google não é filantropia, é negócio.

Mas ora com o ChatGPT, a resposta é única e direta. Surge nos ecrãs – em segundos – bem construída, eloquente.

Os autores do estudo, naturalmente, concluem que introduzir o ChatGPT em ambiente escolar compromete a aquisição de conhecimentos. Mas não é também assim em ambiente laboral? Ou em sociedade? Desconsideramos análises complexas em prol de respostas simples (ou simplistas). Privilegiamos oradores assertivos. No ensino, temos uma responsabilidade como pais e educadores na seleção e na utilização dos instrumentos tecnológicos. Como profissionais e cidadãos, devemos assegurar que há espaço para a análise e a discussão profunda dos temas e que não somos toldados pela eficiência acrítica, ou apenas pelo poder da palavra, pela capacidade de comunicação. O desafio é utilizar este novo elixir com sentido crítico, para que nos potencie como seres humanos e não nos diminua nem substitua.

A fritura anônima dos trópicos

As ondas de calor sempre foram desastres anônimos. Diferente dos furacões, o calor extremo sequer tem nome. Parte dos climatologistas europeus, com uma dose de humor negro, referira-se às ondas de calor dos últimos anos como Caronte e Cérbero, respectivamente o barqueiro dos mortos e o cão que guarda a entrada do inferno, da Divina Comédia, de Dante Alighieri. 

Kathy Baughman McLeod, diretora do Centro de Resiliência da Fundação Adrienne Arsht-Rockefeller, afirma que nomear e categorizar ondas de calor com base em sua gravidade aumentariam a conscientização sobre os perigos do calor extremo: “O calor, por ser silencioso e invisível, não tem a natureza telegênica desses outros grandes riscos climáticos, como inundações, furacões e incêndios. Por isso está matando mais pessoas do que qualquer outro perigo climático. Precisa de relações públicas e branding“, disse ela. 

No Oceano Atlântico, cerca de 20 tempestades tropicais, em média, são nominadas a cada ano. Em 2022, uma equipe da prefeitura de Sevilha, Espanha, testou a ideia de batizar a onda de calor de Zoe. De acordo com um artigo que a equipe publicou no ano passado, 6% dos residentes pesquisados que conseguiam lembrar o nome disseram que se envolveram em mais comportamentos de segurança contra o calor. 

A França acaba de experimentar seu segundo mês mais quente de junho, marcado por secas e uma onda ainda anônima de calor. As altas temperaturas alteram a agricultura, prejudicam o desenvolvimento dos cereais, queimam plantas, causam sofrimento para os animais e mudam o humor da sociedade com a perda de sono. 

Um estudo publicado em março na revista Nature, traz dados da pesquisa de uma equipe de chineses que estudou o sono de 214.445 participantes durante dois anos, para entender a influência da temperatura média diária no sono. Constataram que quando a temperatura sobe 10ºC a duração do sono durante uma noite diminui em 9,67 minutos, especialmente o sono profundo. 

O sono e a temperatura estão intimamente ligados porque ”os neurônios que regulam a temperatura corporal estão localizados no mesmo lugar que aqueles que iniciam o sono”, explica Armelle Rancillac, pesquisadora do Collège de France. É no hipotálamo, uma pequena região do cérebro do tamanho de uma amêndoa, que muitas funções reguladoras são desempenhadas por meio da produção de neurotransmissores e hormônios. ”Durante uma onda de calor, o corpo monta um sistema de despertar para não subir muito de temperatura; é por isso que vamos ter um sono mais fragmentado“, afirma Rancillac. 

Em Paris, os típicos telhados com declividade para suportar neve permitem pé direito elevado e habitação dos sótãos. Normalmente, esses espaços são usados por empregadas domésticas ou locados para estudantes e jovens profissionais, mas agora estão se tornando verdadeiras torradeiras. A diferença entre a temperatura na entrada de um edifício e seu sótão pode chegar a mais 10 graus, tornando esses espaços inabitáveis. 

Os telhados parisienses são frequentemente revestidos com zinco, um material apreciado por sua durabilidade e fácil instalação, mas que armazena e libera calor fortemente. De acordo com um estudo do Atelier Parisiend’Urbanisme, publicado em outubro de 2022, 78% dos telhados parisienses são recobertos com esse metal. 

Ao sul da Europa, o Mar Mediterrâneo está se revestindo de característica equatoriais, sofrendo, além do aumento de calor, as fortes influências do Sahara. Os furacões são mais constantes, agora chamados de Medicane (paródia de Hurricane), como os que se abateram sobre a Espanha e a Líbia nos últimos anos, ceifando milhares de vidas.  

O desequilíbrio provocado pelo calor extremo, decorrente do agravamento da mudança climática, seja para os ecossistemas naturais ou áreas urbanizadas, ainda não foi devidamente dimensionado e previsto em políticas públicas, seja na América, África, Eurásia ou Oceania.

Exemplo disso foi a nova e intensa seca que surgiu na América do Sul, provocando uma devastação sem precedentes. Aumentou seu perímetro em 2024, potencializada pelo El Ninõ (este sim tem nome), provocando incêndios devastadores no Chile, secando rios no norte do Peru, Colômbia, Venezuela e na Amazônia central. 

Isso desguarneceu as populações que dependiam de transporte e suprimentos por via fluvial. No Brasil o fogo devorou 30 milhões de hectares, uma área maior que a da Itália. 

A seca de 2024, com falta de chuvas, baixa umidade do solo e redução das águas subterrâneas, amplificou incêndios, que se espalharam rapidamente por amplas regiões. O fogo encontrou combustível fácil na vegetação seca, na baixa umidade do ar e com o calor extremo. 

A combustão atingia proporções fora de controle. Ao mesmo tempo, o Sul brasileiro se viu devastado por inundações, quando a umidade continental proveniente dos rios voadores da Amazônia se precipitou de forma concentrada, premida pela barreira da ilha de calor e seca que castigava o interior do continente. 

Tanto a seca extrema do Norte, quanto o dilúvio no Sul, em 2024, merecia ter sido antecipados e nominados.

Proporções de dilúvio ocorreram novamente no Rio Grande do Sul – e surpreendentemente no semiárido Texas. Nos últimos anos choveu no Sahara e os Emirados Árabes Unidos foram palco de fortes inundações. Maior temperatura, mais calor extremo, mais evaporação, mais seca, mais chuva intensa, mais intempestividade. Assim, seguimos, rumo aos impactos inominados dos extremos. 

A COP30 que se realizará em Belém do Pará visa combater esses extremos do desequilíbrio causado pelo aquecimento global. Este tem nome. Também tem nome as grandes corporações petrolíferas e de combustíveis fósseis que provocam mais e mais o aquecimento planetário. 

O Brasil tem nome de árvore. Está dando identidade à COP30 com a figura do Curupira, aquele ser mítico protetor das árvores e dos animais que se transforma em fogo para combater degradadores da floresta – e que tem pés voltados para trás para despistar inimigos. 

Proteger as florestas é a missão ecológica do Brasil, detentor das maiores massas arbóreas tropicais e de biodiversidade do planeta. Sua maior floresta, a Amazônica, está na mira do aquecimento global. Com mais de dois graus de temperatura média global a Amazônia tenderá a fenecer.

Na COP30, o Brasil como o Curupira, terá a missão de combater a degradação que incinera nossas florestas e as expansões globais dos combustíveis fósseis cujas consequências, muitas delas inominadas, se abatem, mais e mais, sobre a sociedade humana.
Carlos Bocuhy

Os gigantes corporativos que alimentam a máquina de guerra de Israel na Palestina

Francesca Albanese, Relatora Especial das Nações Unidas para a situação dos direitos humanos na Palestina ocupada, é um exemplo da noção de dizer a verdade aos poderosos. Esse "poder" não é personificado apenas por Israel ou mesmo pelos Estados Unidos, mas por uma comunidade internacional cuja relevância coletiva fracassou tragicamente em conter o genocídio em curso em Gaza.

Seu último relatório, "Da Economia da Ocupação à Economia do Genocídio", submetido ao Conselho de Direitos Humanos da ONU em 3 de julho, marca uma intervenção sísmica. Ele nomeia e implica, sem hesitar, empresas que não apenas permitiram que Israel mantivesse sua guerra e genocídio contra os palestinos, mas também confronta aqueles que permaneceram em silêncio diante desse horror que se desenrola.

"Economia do Genocídio", de Albanese, é muito mais do que um exercício acadêmico ou uma mera declaração moral em um mundo cuja consciência coletiva está sendo brutalmente testada em Gaza. O relatório é significativo por múltiplas razões interligadas. Crucialmente, oferece caminhos práticos para a responsabilização que transcendem a mera retórica diplomática e jurídica. Também apresenta uma nova abordagem ao direito internacional, posicionando-o não como um delicado ato de equilíbrio político, mas como uma ferramenta poderosa para confrontar a cumplicidade em crimes de guerra e expor as profundas falhas dos mecanismos internacionais existentes em Gaza.


Dois contextos vitais são importantes para entender a importância deste relatório, considerado uma acusação contundente do envolvimento corporativo direto, não apenas no genocídio israelense em curso em Gaza, mas no projeto colonial de Israel como um todo.

Primeiro, em fevereiro de 2020, após anos de atraso, o Conselho de Direitos Humanos da ONU (CDHNU) divulgou um banco de dados que listava 112 empresas envolvidas em atividades comerciais em assentamentos israelenses ilegais na Palestina ocupada. O banco de dados expõe diversas gigantes corporativas – incluindo Airbnb, Booking.com, Motorola Solutions, JCB e Expedia – por ajudar Israel a manter sua ocupação militar e o apartheid.

Este evento foi particularmente devastador, considerando o fracasso consistente das Nações Unidas em controlar Israel ou em responsabilizar aqueles que sustentam seus crimes de guerra na Palestina. O banco de dados foi um passo importante que permitiu que as sociedades civis se mobilizassem em torno de um conjunto específico de prioridades, pressionando assim empresas e governos individuais a assumirem posições moralmente orientadas. A eficácia dessa estratégia foi claramente detectada pelas reações exageradas e iradas dos EUA e de Israel. Os EUA afirmaram que se tratava de uma tentativa do "desacreditado" Conselho "de alimentar retaliações econômicas", enquanto Israel a chamou de "capitulação vergonhosa" à pressão.

O genocídio israelense em Gaza, iniciado em 7 de outubro de 2023, no entanto, serviu como um lembrete gritante do fracasso total de todos os mecanismos existentes da ONU em alcançar até mesmo as expectativas mais modestas de alimentar uma população faminta durante um período de genocídio. De forma reveladora, essa foi a mesma conclusão oferecida pelo Secretário-Geral da ONU, António Guterres, que, em setembro de 2024, declarou que o mundo havia "falhado com o povo de Gaza".

Esse fracasso continuou por muitos meses e foi evidenciado pela incapacidade da ONU de sequer administrar a distribuição de ajuda na Faixa de Gaza, confiando a tarefa à chamada Fundação Humanitária de Gaza, um aparato violento administrado por mercenários que matou e feriu milhares de palestinos. A própria Albanese, é claro, já havia chegado a uma conclusão semelhante quando, em novembro de 2023, confrontou a comunidade internacional por "fracasso épico" em interromper a guerra e pôr fim ao "massacre sem sentido de civis inocentes".

O novo relatório de Albanese vai um passo além, desta vez apelando a toda a humanidade para que assuma uma posição moral e confronte aqueles que tornaram o genocídio possível. "Os empreendimentos comerciais que possibilitam e lucram com a obliteração de vidas de pessoas inocentes devem cessar", declara o relatório, exigindo incisivamente que "as entidades corporativas se recusem a ser cúmplices de violações de direitos humanos e crimes internacionais ou serão responsabilizadas".

De acordo com o relatório, as categorias de cumplicidade no genocídio são divididas em fabricantes de armas, empresas de tecnologia, empresas de construção, indústrias extrativas e de serviços, bancos, fundos de pensão, seguradoras, universidades e instituições de caridade.

Entre elas, estão Lockheed Martin, Microsoft, Amazon, Palantir, IBM e até mesmo a gigante dinamarquesa de transporte marítimo Maersk, entre quase 1.000 outras empresas. Foi seu conhecimento tecnológico, maquinário e coleta de dados coletivos que permitiram que Israel matasse, até o momento, mais de 57.000 pessoas e ferisse mais de 134.000 em Gaza, sem falar na manutenção do regime de apartheid na Cisjordânia.

O que o relatório de Albanese tenta fazer não é apenas nomear e envergonhar os parceiros de genocídio de Israel, mas nos dizer, como sociedade civil, que agora temos um quadro de referência abrangente que nos permitirá tomar decisões responsáveis, pressionar e responsabilizar esses gigantes corporativos.

“O genocídio em curso tem sido um empreendimento lucrativo”, escreve Albanese, citando o aumento maciço nos gastos militares de Israel, estimado em 65% entre 2023 e 2024 — chegando a US$ 46,5 bilhões.

O orçamento militar aparentemente infinito de Israel é um estranho fluxo de dinheiro, originalmente fornecido pelo governo dos EUA e depois reciclado por meio de corporações americanas, distribuindo assim a riqueza entre governos, políticos, corporações e inúmeros contratados. À medida que as contas bancárias incham, mais corpos palestinos são empilhados em necrotérios, valas comuns ou espalhados pelas ruas de Jabaliya e Khan Yunis.

Essa loucura precisa acabar e, como a ONU é incapaz de pará-la, governos individuais, organizações da sociedade civil e pessoas comuns devem fazer o trabalho, porque as vidas dos palestinos devem ter um valor muito maior do que os lucros corporativos e a ganância.
Ramzy Baroud 

segunda-feira, 14 de julho de 2025

Pensamento do Dia

 


Tempos sombrios


Vivemos tempos sombrios, onde as piores pessoas perderam o medo e as melhores perderam a esperança
 
Hannah Arendt

‘As pessoas não sabem mais o que é real'

Quando discursou após receber o Prêmio Nobel da Paz, em 2021, a jornalista filipina Maria Ressa fez uma pergunta: “o que você está disposto a sacrificar em nome da verdade”. Perseguida em seu país, e ainda sob risco de ser presa, Ressa é uma das vozes mais relevantes em defesa da liberdade de expressão, que não hesita em apontar as big techs como a maior ameaça às democracias — como fez em seu livro mais recente, “Como enfrentar um ditador”, lançado pela Companhia das Letras.

Em entrevista ao GLOBO, na semana em que foi homenageada no Prêmio Faz Diferença, Maria Ressa defendeu a regulamentação das redes sociais, expressou sua preocupação com a expansão do uso da inteligência artificial e reiterou o papel do jornalismo como um pilar de nossa sociedade, mesmo em meio aos ataques vindos de todos os lados.

Em seu livro “Como enfrentar um ditador”, você fez uma comparação a uma antiga forma de execução chinesa, a “morte por mil cortes”, e a ação de autocratas que fazem ataques pontuais à democracia, que só são percebidos quando todo o sistema está corroído. Neste cenário, as redes sociais são uma ferramenta a mais para os “cortes” antidemocráticos?

A forma como as redes sociais são moldadas maximizam o lucro, e eles o mantêm rolando a tela com mentiras. Tudo ficou ainda pior depois que Elon Musk comprou o Twitter e o transformou no X. As mentiras hoje se espalham seis vezes mais rápido do que em 2018, e são impulsionadas por medo, ódio e raiva. Elas hackeiam nossa biologia. E essas emoções mudam a forma como vemos o mundo, como agimos e como votamos. As redes sociais tiveram um efeito imediato no mundo na década passada. Em março, o instituto V-Dem, da Suécia, disse que 72% do mundo têm regimes autoritários, um patamar similar ao de 1978. E isso me preocupa: as redes sociais tiraram nossa capacidade de avaliação sem que tenhamos percebido? Afinal, nós estamos elegendo esses líderes não liberais, o mundo está mudado. Então quando citei a “morte por mil cortes” era o que sentia nas Filipinas quando [Rodrigo] Duterte assumiu, ele começou a remover pequenas coisas, como barrar a imprensa no palácio presidencial, dizer que ia banir os jornalistas de outros eventos. Eram pequenos cortes, e você nem liga, mas quando percebe, seu corpo já está sangrando tanto que você está morrendo. Foi o que aconteceu com as democracias ao redor do mundo.


Hoje o grande assunto no meio de tecnologia é a IA, mas rapidamente percebemos como elas podem ser usadas de maneira nociva. Estamos preparados para lidar com ela?

O primeiro nível de contato entre a IA e a humanidade é nas redes sociais. Elas roubam nossos dados, fazem um clone nosso. O Facebook diz que estão usando esse conhecimento para criar um modelo seu, mas podemos trocar essa palavra por “clone”. Relatórios de consumidores apontaram, há cerca de um ano e meio, que as empresas estavam usando cerca de 2,3 mil diferentes conjuntos de big data. Se você é americano, sua privacidade de dados é um mito. Quando a inteligência artificial chega, ela pega nossos clones e se torna o banco de dados principal que é usado para micro segmentação, que é um antigo modelo de publicidade. Ela vende seu ponto mais fraco para uma empresa ou país. Mas o que percebemos é que países e pessoas que buscam o poder usam isso para manipular as pessoas nas plataformas. Nos EUA, por exemplo, nas eleições de 2016, a Comissão de Inteligência do Senado revelou que 126 milhões de americanos foram expostos à propaganda russa. Mulheres, também em 2016, sofreram dez vezes mais ataques do que homens. Isso são as redes sociais.

Uma faceta nociva da IA, os deep fakes, está senda usada para propagar desinformação e minar reputações. Isso é mais um argumento em prol de uma regulamentação mais estrita para o setor de tecnologia?

Com esse tipo de IA, eu tenho um “deep fake” meu vendendo uma criptomoeda. Jamais disse aquilo, mas soa como se fosse eu. Em outro caso, há um vídeo e um áudio meu no qual digo às pessoas com diabetes para que joguem fora a insulina. Jamais disse isso, mas algumas pessoas podem acreditar. Nós não estamos preparados para IA, e por isso deveria haver leis, uma vez que, com a IA generativa, as pessoas não sabem mais o que é real ou não. Por exemplo, um deep fake meu dizendo para as pessoas jogarem fora sua insulina. É uma questão de segurança, não de liberdade de expressão. No mundo real, se você é jornalista e publica uma mentira, enfrentamos questões legais. Por que as big techs não? Por que permitimos que o mundo seja virado de cabeça para baixo para que elas tenham mais lucros?

Dmitry Muratov (jornalista russo e vencedor do Nobel da Paz em 2021) e eu lançamos, em 2021, um plano de ação de 10 pontos, assinado por outros 300 vencedores do Nobel e grupos da sociedade civil, que foca em três pontos. O primeiro é o fim da vigilância por lucro. Os seres humanos precisam de privacidade de informação, e se você quer meus dados, precisa me pagar. A Declaração Universal dos Direitos Humanos tem lugar no mundo virtual. O segundo é o fim do viés codificado. Se você é uma mulher ou pessoa LGBT+, negro ou membro de uma minoria étnica, você será marginalizado online. Esse é o código que está em nossos telefones. E, finalmente, o jornalismo como antídoto para a tirania. O Comitê Norueguês do Nobel disse que, sem o jornalismo, sem liberdade de expressão, a democracia morre. O jornalismo precisa não apenas sobreviver, mas sim desafiar o poder. Nosso dever sempre foi dizer a verdade ao poder.

Na carta em que anunciou tarifas de 50% ao Brasil, o presidente dos EUA, Donald Trump, citou medidas tomadas contra as big techs aqui no Brasil, em uma demonstração de que o chefe da maior economia do mundo está do lado delas. Foi um sinal, esse mais enfático, de que a batalha pela regulamentação será difícil?

O maior problema nos EUA é que discursos violentos foram postos no mesmo patamar da liberdade de expressão, algo que o lobby das big techs pressionou para que fosse assim. Mas não é uma questão de liberdade de expressão, mas sim de segurança. Quando você cria um software hoje, está criando um mundo. Estamos neste momento em um prédio que segue leis para seguir operando. Há uma lei. Uma torradeira nos EUA tem mais regulamentações de segurança do que as big techs têm em seus softwares. A primeira coisa que penso é nos perigos às crianças. O ex-cirurgião-geral dos EUA, que deixou o cargo após a posse de Trump. divulgou dois relatórios, sendo que um deles fala da “epidemia da solidão”, como a tecnologia está nos isolando. Há mais casos de depressão, de jovens tirando as próprias vidas, de distúrbios alimentares. O mundo se move com base em nossas conexões, nossas conexões sociais, e empresas como o Facebook roubaram isso. Se olharmos para o que nos é ofertado nos telefones pelas empresas de tecnologia, veremos que tudo nos encoraja a sermos nossas piores versões. Se você mentir, conseguirá mais alcance e incitará medo, ódio e raiva. Não somos assim. A bondade das pessoas está lá, mas é mais difícil lidar com pessoas mais jovens que ainda estão tentando formar seus valores. Por isso, a segurança em primeiro lugar. Engenheiros civis têm códigos de obras e seguem padrões éticos — os engenheiros de software deveriam estar sujeitos aos mesmos padrões.

Neste contexto, a decisão da Justiça da Romênia de anular a eleição presidencial do ano passado, após alegações de manipulação através das redes sociais, foi um passo positivo?

Absolutamente. Pensemos nas Filipinas, em maio de 2016 Rodrigo Duterte foi eleito presidente, e ele foi eleito pelas redes sociais, o primeiro. Um mês depois houve o Brexit, e também há dados que mostram a manipulação do voto. Ainda em 2016, a primeira vitória de Trump, sobre a qual o Senado dos EUA mostrou, em 2018, os indícios de informações contra americanos. Mas nenhum país teve a coragem de cancelar uma eleição, citando interferência eleitoral, antes da Romênia em dezembro de 2024. Se não tivessem feito isso, teriam eleito um homem sem partido, que fez campanha no TikTok e com amplas evidências de interferência do Kremlin. Essa foi fácil de notar, mas outras, como a morte por mil cortes de nossa independência, de nossa capacidade de escolher, são mais difíceis. Se estamos sendo manipulados, a democracia funciona. Ou essa é a razão pela qual o mundo está caminhando em direção à autocracia e ao fascismo.

Ainda sobre Trump, como você avalia o uso em excesso de ordens executivas, de certa forma quebrando a normalidade democrática? Soa similar ao que você já viu nas Filipinas?

Os pesos e contrapesos da democracia americana foram jogados fora. E isso é um problema porque os EUA eram o farol da democracia. O que acontece por lá é familiar para os brasileiros e também para os filipinos. Digo que nossos países foram do inferno para o purgatório. Foram seis meses para Duterte abalar instituições democráticas, tomando todas as decisões através do Poder Executivo. Ferdinand Marcos, nosso primeiro ditador e que ficou no poder por 21 anos, declarou lei marcial por ordem executiva. Trump também usa ordens executivas. Por isso questionamos como a democracia americano se parecerá, se ela sobreviverá, e o que causará ao mundo. Estamos passando por isso agora. O presidente Lula respondeu a Trump de maneira forte, mas parece que estamos vivendo em um mundo invertido, similar ao que acontece nas redes sociais. Ações estão sendo tomadas com impunidade, de uma forma que jamais aconteceria na antiga ordem. Já disse algumas vezes que a nossa maior batalha hoje é provar que um sistema internacional baseado em ordens ainda existe. Mas temos [Vladimir] Putin [,presidente da Rússia] e [Benjamin ] Netanyahu [, premier de Israel], todas as guerras na África, e CEOs das big techs agindo de forma impune, pegando nossos dados, raspando tudo a ponto de termos um tráfego que não podemos bloquear. Eles não são pessoas reais. Estão apenas raspando o que nós criamos. Isso é impunidade. A impunidade precisa acabar se o Estado de Direito existir, mas aqui está o maior problema deles. Como você pode ter um Estado de Direito se não tiver fatos? Sem fatos, não temos verdades. Sem verdade, não temos confiança. Sem isso, não temos uma realidade compartilhada.

Em relatório em maio, a ONG Repórteres Sem Fronteiras destacou o ambiente nocivo enfrentado pelo jornalismo no mundo, com problemas financeiros, perseguição judicial e criminal e a morte de dezenas de profissionais. Como enfrentar este cenário justamente no momento em que o jornalismo se mostra tão necessário?

Há quase 20 anos o número de jornalistas mortos e presos só aumenta. Ao mesmo tempo, a qualidade da democracia diminuiu. Em dezembro de 2021, eu disse em meu discurso na cerimônia do Nobel que estávamos sobre os escombros do que já foi o mundo. O mundo mudou de forma significativa, em parte por causa da globalização, em parte porque são problemas com os quais já teríamos que lidar. Mas o fósforo que fez tudo pegar fogo foi a tecnologia, que não tem regras claras. Isso me lembrou dos tempos em que o trabalho era novo, as fábricas eram novas e foram necessárias leis para proteger o trabalho das mulheres e de menores. A questão agora é se teremos tempo, e nós estamos diante de um precipício, e muito depende do que cada pessoa em uma democracia fará. Jornalistas têm um papel, e jamais enfrentamos tantos ataques como agora. Nosso modelo de negócios está ameaçado, muitos perderam seus empregos. Há instituições que seguem intactas, o que significa que precisam trabalhar para não serem ainda mais corroídas pela tecnologia. A parte interessante é que temos também a chance de criar. Precisamos fazer perguntas: onde estamos? Como o jornalismo evoluirá? Como será a tecnologia para distribuir o jornalismo? Como escapar do capitalismo vigilante? Como exigir nossos direitos, não apenas para nós, jornalistas, mas também para as pessoas que servimos?

Palavras não bastam diante da tragédia em Gaza

Benjamin Netanyahu retornou como queria de sua terceira visita a Donald Trump: de mãos vazias, sem cessar-fogo nem precisar interromper o esmagamento do que resta de vida possível em Gaza. Como mimo de consolação ao anfitrião, entregou-lhe apenas uma estapafúrdia indicação ao Nobel da Paz, honraria que Trump persegue há anos com cobiça obsessiva. É torcer para Trump não conseguir comprar a honraria num futuro distópico, quando integridade pessoal e valores universais tiverem se tornado sucata.

Por ora, prosseguem sem trégua as duas guerras que o presidente americano prometera encerrar em 24 horas. Se alteração houve nestes sete primeiros meses da era Trump 2, foi para pior, tanto na Ucrânia quanto, sobretudo, no inferno a céu aberto de Gaza.

Dias atrás coube a mais de 170 entidades humanitárias globais finalmente levantar a voz. Entre elas, por ironia, várias laureadas com um autêntico Nobel da Paz, além de um balaio de organizações humanitárias do próprio Estado de Israel, como a Combatentes pela Paz, a Yesh Din, e a Médicos por Direitos Humanos – Israel.

— Hoje — diz o manifesto — os palestinos em Gaza enfrentam uma escolha impossível: morrer de fome ou arriscar ser morto a tiros.


O texto refere-se ao amadorismo selvagem do sistema de distribuição de comida imposto por Israel e Estados Unidos ao castigado enclave, em substituição ao trabalho desempenhado há décadas por entidades internacionais conhecedoras daquela terra e do povo ali confinado.

— É preciso rejeitar a falsa opção entre uma distribuição de comida sob controle militar, mortal, e uma negação total de ajuda — diz a denúncia.

Também faz um chamamento à comunidade internacional para pôr fim ao “cerco sufocante” e à “violação de princípios humanitários” impostos a Gaza.

São palavras em tom edificante, mas são apenas palavras. É baixo o custo individual de apontar para a caçada humana que ocorre à luz do dia em pleno século XXI. Indignar-se, no caso, costuma ser fácil e barato — inclusive neste espaço. Difícil é migrar do conforto da indignação para o patamar mais exigente de correr riscos físicos ou materiais, pessoais ou afetivos, profissionais ou morais em defesa do que aprendemos o que é ser humano.

Enquanto isso, o lado perverso dessa equação dispensa palavras e segue planejando o impensável. Entre outubro de 2024 e maio deste ano, a empresa americana Boston Consulting Group (BCG) participou da elaboração do malfadado projeto “Aurora”, codinome do sistema de distribuição de comida que já resultou em mais de 500 mortos e 4 mil feridos, segundo dados do Ministério da Saúde de Gaza. Diante das cenas de horror terminal em condições degradantes a que os palestinos foram submetidos na busca do que comer, o próprio BCG desligou-se da empreitada.

Mas isso não é tudo. Segundo revelações exclusivas do Financial Times, o grupo também havia elaborado modelos financeiros para o pós-guerra em Gaza, com uma estimativa de custos para a transferência de centenas de milhares de palestinos do enclave. Um dos modelos apresentados ao governo Netanyahu estimou em mais de meio milhão o número de civis que deixariam Gaza, ao custo de US$ 9 mil por cabeça, ou US$ 5 bilhões no total. Outro modelo de “realocação voluntária” inclui um “kit partida” de US$ 5 mil, além de quatro meses de aluguel subsidiado e um ano de ajuda alimentar. Pela estimativa apresentada nesse cenário, 25% da população aceitaria abandonar seu chão, e dois terços desses expatriados jamais retornariam a Gaza.

É espantoso que o governo de um povo tão enraizado em sua história, sobrevivência e apego à terra como o de Israel seja tão míope em relação ao enraizamento de outro povo, o palestino, a sua história e capacidade de sobreviver. Uma coluna só pode ser quebrada se já estiver curvada, diz o ditado.

Voltemos às palavras, no caso nada fáceis, do médico irlandês Michael Ryan, que foi cirurgião de traumatologia por décadas e hoje atua como diretor executivo do Programa de Emergências da Organização Mundial da Saúde. Expressou sua frustração com vozeirão carregado, dirigindo-se a repórteres na sede da OMS em Genebra:

— Estamos a quebrar os corpos e as mentes das crianças de Gaza. É horrendo. Como médico e como quem vê mais de mil crianças mutiladas e milhões de crianças com lesões graves de que jamais se recuperarão, estou com raiva de mim por não fazer o bastante, estou com raiva de vocês e do mundo. Isso tudo é uma abominação.

Imagem justa e veríssima do Congresso

Muito já se escreveu sobre humor, mas nada sobre seu poder antecipatório. Quando Freud diz que se trata de "um dom precioso e raro" (em "O Chiste e suas Relações com o Inconsciente"), adianta que pode ser também álibi para uma verdade que não podia ser expressa. No psiquismo, o inconsciente abre caminho pelo riso, sem o sofrimento dos sintomas, para uma realidade recalcada. Mas antecipar é virtude desconhecida ou deixada de lado.

Oportuno, assim, evocar Justo Veríssimo, personagem do saudoso Chico Anysio nos anos 90, prefiguração hilária de um deputado que abominava desprovidos da sorte, trabalhadores, o povo em geral. "Eu quero que o pobre se exploda!", seu bordão. A criação televisiva ia ao encontro de uma ácida denominação, recorrente na coluna de Stanislaw Ponte Preta (pseudônimo de Sérgio Porto), década de 60: "Depufede".


Isso existia ainda em grau concebível de indecência quando Lula em 1993 resumiu sua experiência parlamentar numa frase lapidar sobre a composição do Congresso: "Uma maioria de 300 picaretas cuidando apenas de seus próprios interesses. E não caíram de paraquedas, foram eleitos". Havia, portanto, bases político-sociais para que o humorismo antecipasse o choque de hoje ante um Congresso, necessário à República, mas por inteiro alienado da representação popular. Representação definida apenas pelo conceito numérico da votação é uma falácia, avessa à real delegação de classe social.

Focado na centralização presidencial, o eleitorado é letárgico frente ao Legislativo. Mas agora o chorume moral do "depufede" chega às narinas populares. E assim surge a Frente Povo sem Medo, que prega a taxação dos bilionários, junto com a redução dos salários de deputados e senadores. Cada Justo Veríssimo embolsa por mês um total de R$ 341.297 (R$ 47.700 de salário, R$ 94.300 de verba de gabinete, R$ 53.400 de auxílio paletó, R$ 5 mil de combustível, R$ 22 mil de auxílio moradia, R$ 59 mil de passagens aéreas, R$ 17.997 de auxílio saúde, R$ 12.100 de auxílio educação, R$ 16.400 de auxílio restaurante, R$ 13.400 de auxílio cultural). Para o eleitor pobre, um salário mínimo de R$ 1.518. Logo, que se exploda.

Mas a questão não se contém nesse mensalão obsceno. A derrama das emendas é tanto rombo orçamentário descontrolado quanto sintoma de surda conspiração contra a governabilidade executiva. Decorre das circunstâncias eleitorais, que seriam em princípio pretexto de reorganização da ordem do Estado. Eleições parlamentares, entretanto, passaram a favorecer a desorganização da ordem liberal, a saber, obstrução da participação democrática a partir da ideia de representação. Assim como os partidos (exceto talvez os pequenos) não espelham fração de classe nenhuma, a eleição de deputados e senadores não constitui forma de democracia direta pelo voto. É autonomia patrimonialista da atividade política.

Deste modo, o poder de legislar, moldado cada vez mais pelo princípio do vazio social, abre-se ao pleno dos interesses pessoais. Emendas sem transparência são mecanismos de reeleição e manutenção de feudos regionais, assim como instrumentos de chantagem contra um Executivo acuado. Nada menos que uma modulação do golpismo permanente, modernizado em 2016. Para Justo Veríssimo se atualizar, só lhe faltam um punhal verde e amarelo nos porões, boné de Trump nos palanques e pitadas de inglês para conspirar lá fora contra o país dos pobres.

Nostalgia do futuro

Podemos ousar sentir nostalgia, saudades do futuro? Ansiar por resgatar no futuro o passado depredado pelo insano progresso? Buscar um futuro ancestral, tal qual o anunciado por Ailton Krenak?

Para incentivar mudanças de comportamento, o Sistema Nacional de Trânsito lançou em 2025 a campanha “Desacelere. Seu bem maior é a vida.”

O Rio Saracura corre debaixo do asfalto da Avenida 9 de Julho em São Paulo e é afluente do Rio Anhangabaú, igualmente canalizado. Enquanto governador, Ademar de Barros construiu uma passagem no Vale do Anhangabaú sob a Avenida São João, conhecida como “buraco do Ademar”. Os bueiros, ao invés de darem vazão às águas das chuvas, davam vazão ao rio, que inundava a passagem subterrânea, rebatizada “banheira do Ademar”. Hoje, São Paulo inteira é uma banheira; os quintais foram todos cimentados, porque terra virou sinônimo de sujeira.

A imagem abaixo, de autoria de Jose Fujocka, resgata o Rio Saracura. Impossível?


Na Coreia do Sul, o Rio Cheonggyecheon, que havia sido coberto por uma avenida de 16 metros de largura, corre hoje a céu aberto. 

Nasci no início dos anos 1950, antes da indústria automobilística se instalar no país. Morava no Bom Retiro, na Rua João Kopke, 108; nas imediações da várzea formada pela confluência dos rios Tamanduateí e Tietê. A poucas quadras do Jardim da Luz, a rua ainda não era asfaltada. Na época das águas, em janeiro, os rios transbordavam e a molecada da região, por algum trocado, atravessava os pedestres de barco de um lado para o outro da rua.

Nos anos cinquenta, São Paulo era toda recortada por trilhos de bondes elétricos. O cobrador andava pelo bonde, segurando as notas, separadas por valor, dobradas de comprido entre os dedos, 1, 2, 5, 10… cruzeiros, formando um leque. Nos bondes abertos, os adolescentes, andando alguns passos atrás do cobrador, conseguiam evitar pagar a passagem. O bonde da Casa Verde, que partia do Largo São Bento, passava pela comercial Rua José Paulino. De noite, na área residencial do Bom Retiro, a criançada brincava no meio da rua, enquanto seus pais arrastavam as cadeiras e ficavam conversando com os vizinhos na calçada.

Em 1954, a Cidade de São Paulo comemorava seu IV Centenário com os lemas “São Paulo não pode parar” e “A cidade que mais cresce no mundo”. Foi então que, em 1956, veio o Plano de Metas, a construção de Brasília, a indústria automobilística e a televisão, que fizeram com que os adultos recolhessem suas cadeiras da calçada e seus filhos do meio da rua.

No início, as pessoas ainda não estavam familiarizadas com os automóveis. Nas escolas, os guardas de trânsito passavam uniformizados pelas salas de aula para ensinar a meninada a atravessar a rua, vermelho, amarelo, verde, “pare, olhe, viva!” E foi uma febre, os automóveis começaram a encher e encher as ruas até conseguirem congestionar toda a cidade.

O Minhocão foi construído durante a ditadura militar, mergulhando a região central da cidade de São Paulo em sombras distópicas dignas de figurarem no clássico Blade Runner. Com o fim da ditadura, o nome do elevado foi alterado de Costa e Silva para João Goulart. Há projetos para transformar definitivamente o elevado em parque público. A prefeitura está pretendendo abrigar automóveis para deslocar “o lixo humano” que habita debaixo do Minhocão. Melhor seria removê-lo de vez e restaurar os jardins que foram removidos para dar lugar ao “progresso”.

Hoje me pergunto, para que tantos automóveis assim? Veja o que você ganha sendo um feliz proprietário de um veículo automotor: Ter que comprar um carro, de preferência um que possa fazer o seu vizinho ficar boquiaberto, de queixo caído.

Arranjar um estacionamento, de preferência coberto.

Licenciar o carro e pagar IPVA anualmente.

Pagar seguro do automóvel, pelo menos contra terceiros.

Encher o tanque regularmente (recomenda-se procurar um posto que forneça combustível não adulterado).

Limpar e lavar o carro.

Trocar o óleo e fazer a manutenção regular do veículo.

Lidar com problemas mecânicos, câmbio, correias, superaquecimento,
 
vazamentos, escapamento, pane elétrica, bateria, pneus etc.

Enfrentar trânsito pesado.

Encarar malcriação de outros motoristas e até de pedestres.

Aproveitar para descarregar a sua raiva do patrão, de seu cunhado e daquele vizinho mal-educado.

Estar sujeito a fechadas, acidentes, consertos, funilaria e pintura do automóvel.
Receber multas devidas e indevidas, que você pode recorrer, mas serão indeferidas.

Aturar vendedores, pedintes e flanelinhas nos semáforos.

Ter que lidar com guardadores compulsórios, às vezes agressivos, ameaças e danificação do veículo.

Correr risco de furto do automóvel, roubo e assalto.

Poluir o ambiente etc. etc.

Na universidade, nos empenhamos para entender a violência no trânsito, decompondo a ordinária taxa de mortalidade por acidentes em dois indicadores, veículos por habitante e óbitos por veículo. Os resultados da nossa pesquisa mostraram que, tanto no Brasil, como no exterior, os poucos automóveis que transitam em regiões com frotas reduzidas também saem matando a esmo, até em maior número. A interação entre veículos automotores e pedestres revela-se um aprendizado que, naturalmente, leva tempo; mas também pode ser induzido por políticas públicas.

De qualquer forma, não seria melhor usar o transporte público e poder contar com os serviços profissionais dos “motoristas particulares”, conversar com os outros passageiros ou simplesmente espairecer despreocupadamente? Se quiser, você também pode ficar ouvindo as conversas descartáveis entre passageiros avulsos e as histórias que rolam entre conhecidos, sair um pouco da solidão reservada aos motoristas sem passageiros e da convivência regular com os seus familiares. Preste atenção e recarregue-se emocionalmente com as expressões e comentários autênticos das crianças. Há motoristas de ônibus que conhecem os hábitos de seus costumazes clientes e chegam a chamar a sua atenção quando, distraídos, no ponto, correm o risco de perder a viagem.

Por fim, vale lembrar que tanto o incremento como a gratuidade no transporte público podem e deveriam ser financiados, via impostos, pelos felizes proprietários dos veículos automotores privados, que, de quebra, vão ficar muito agradecidos em ver o trânsito descongestionado. Passe livre, sem catracas!

Porém, melhor que transporte público é andar de bicicleta; e melhor que andar de bicicleta só mesmo andar a pé, apreciar o entorno, fazer o caminho passo a passo, descobrir uma vila que você nunca tinha notado antes… E você ainda vai ganhar tempo (e dinheiro), porque não vai mais precisar frequentar aquelas academias de ginástica em que as pessoas pedalam e andam em esteiras sem sair do lugar.

Paris, a Cidade Luz, agora é verde. As vagas para estacionamento foram removidas e, desde 2020, foram criados 84 quilômetros de ciclovias. Automóveis são hoje usados dentro da capital em apenas 4,3% dos deslocamentos, ficando atrás das bicicletas (11,2%), transporte público (30%) e, oui, oh là là, jornadas a pé (53,5%)!

sábado, 12 de julho de 2025

Pensamento do Dia

 


Estratégia de Eduardo Bolsonaro é perigosa

Foi bastante arrojada a estratégia de Eduardo Bolsonaro de fazer gestões junto ao Partido Republicano e à Casa Branca para conseguir que os Estados Unidos interviessem na política brasileira e reequilibrassem o jogo de poder institucional, que hoje parece desfavorável aos bolsonaristas.

Quando os frutos desse trabalho se expressaram na forma não de sanções individuais contra ministros do Supremo, mas de duríssimas tarifas contra os produtos brasileiros, os bolsonaristas se viram com um problema: a reação americana não atingia apenas os atores que prejudicam a direita, mas um número grande de empresários e trabalhadores brasileiros.


Logo depois que Trump anunciou as tarifas, a situação, já complicada para a direita, ficou ainda mais difícil quando Eduardo Bolsonaro, em carta com Paulo Figueiredo, explicitamente assumiu a paternidade da medida, talvez por vaidade:

— Nos últimos meses, temos mantido intenso diálogo com autoridades do governo do presidente Trump, sempre com o objetivo de apresentar, com precisão e documentos, a realidade que o Brasil vive hoje. A carta do presidente dos Estados Unidos apenas confirma o sucesso na transmissão daquilo que viemos apresentando com seriedade e responsabilidade.

Com esse documento reivindicando protagonismo na medida, a direita teria dificuldade de, se não criticar, ao menos se afastar da ação de Donald Trump, já que isso implicaria também tomar distância da movimentação de um preeminente integrante da família Bolsonaro.

A primeira reação dos bolsonaristas foi atribuir a Lula a culpa pela medida. O argumento era que os desmandos de Lula haviam provocado a reação dura de Trump em defesa da democracia brasileira. Caberia, portanto, a Lula reorientar o seu governo e sentar-se à mesa para negociar com Trump a suspensão das tarifas.

Mas havia muitos buracos nessa linha de argumentação. Em primeiro lugar, era preciso esquecer que Trump, o secretário de Estado, Marco Rubio e os políticos republicanos não se manifestaram espontaneamente, mas foram insistentemente instados a agir por ativistas brasileiros radicados nos Estados Unidos. Era preciso também confundir a audiência, atribuindo a Lula uma responsabilidade que obviamente era do Supremo. A carta de Trump condena o indiciamento de Bolsonaro e a suspensão de contas em mídias sociais, todas ações tomadas independentemente pelo STF. Por fim, era preciso minimizar o impacto das medidas, que não recai apenas sobre os inimigos dos bolsonaristas, mas sobre largas parcelas da população. Era preciso fazer o público esquecer que um dos principais prejudicados é o agronegócio.

Nas redes bolsonaristas, vimos um bate-cabeças. O governador Romeu Zema disse, primeiramente, que “as empresas e os trabalhadores brasileiros vão pagar, mais uma vez, a conta do Lula, da Janja e do STF”. A reação foi tão forte que em seguida ele se reposicionou, dizendo mais claramente que a tarifa de Trump “é uma medida errada e injusta que precisa ser revista porque penaliza todos os brasileiros — gente que votou contra e a favor do Lula”.

Tarcísio disse primeiramente que “Lula colocou sua ideologia acima da economia, e esse é o resultado”. Depois, foi obrigado a corrigir a rota e afirmar que “as pessoas não querem saber de narrativa, querem ver o trabalho acontecendo para melhorar a vida delas”.

O pastor Silas Malafaia e o deputado Nikolas Ferreira seguiram o mesmo caminho e tiveram de suportar nos comentários a irritação de seguidores protestando contra manifestações que pareciam tomar o partido de quem havia agredido o Brasil.

A medida impopular de Trump veio em bom momento para o governo, cuja base vinha sendo reenergizada com o discurso pela justiça tributária. A manifestação na Avenida Paulista pela taxação dos mais ricos foi renomeada como “Brasil para os brasileiros” e atraiu público expressivo. Pela primeira vez em muitos anos, foi da mesma dimensão que as bolsonaristas.

A manobra desastrada de Eduardo Bolsonaro custará caro. Pôs os aliados de Bolsonaro em situação difícil e gerou revolta em setores amplos da sociedade brasileira. O governo, que vinha de uma mobilização bem-sucedida, receberá impulso adicional. Esses dois elementos combinados podem produzir uma grande onda pró-governo.

Conjuração internacional bolsonarista

Aplicar o direito não é uma tarefa fácil, especialmente quando o peso da lei recai sobre pessoas poderosas ou que têm amigos poderosos. Juízes já foram mortos por condenar mafiosos, em países como a Itália ou a Colômbia; colocados na prisão por não atenderem as determinações de ditadores, como na Turquia ou no Irã; ou apenas afastados de seus tribunais por simplesmente não se curvarem aos poderosos de plantão, em diversas partes do mundo.

O presidente americano vem promovendo há muitos anos um processo de intimidação e subordinação do Judiciário de seu país. A cada decisão contrária aos seus interesses, achincalha magistrados, acusando-os de "lunáticos esquerdistas". Seus apoiadores os ameaçam de impeachment. A juíza Ketanji Brown Jackson, da Suprema Corte, "teme pela democracia dos Estados Unidos".


O ataque ao Poder Judiciário brasileiro, no entanto, consiste num novo capítulo na relação de populistas iliberais contra o estado de direito. Trata-se de uma inusitada tentativa de interferência na Justiça de um outro país.

Na presente escaramuça, o presidente americano acusa o Supremo Tribunal Federal de perseguir Bolsonaro, ameaçando retaliar o Brasil com sua artilharia tarifária. O objetivo é constranger o governo e intimidar o Supremo, que apenas cumpriu sua obrigação de julgar Bolsonaro e golpistas, com base em uma lei aprovada pelo Congresso Nacional e sancionada pelo próprio Bolsonaro.

Outros motivos, como a reunião do Brics, no Rio, ou a decisão do Supremo de aperfeiçoar o regime de responsabilidade das plataformas, também podem ter pesado na decisão americana. Tudo, porém, pode ser apenas uma bravata, para legitimar uma eventual fuga de Bolsonaro, ou mesmo a suspensão das taxas a seu pedido.

A relação de populistas com o estado de direito e as instituições responsáveis pela aplicação da lei são sempre conflitivas. Populistas acusam a Justiça de impedi-los de realizarem a vontade do povo, do qual reivindicam ser os únicos e autênticos representantes. Sob o pretexto de defenderem a democracia, atacam o Estado de Direito.

Conceitualmente, democracia e direito são coisas distintas. À democracia importa, sobretudo, a realização da vontade dos cidadãos. Ao direito, por sua vez, importa a criação de um sistema de regras, que contribua para estabilizar expectativas e conter o arbítrio.

A convergência entre democracia e direito, que resulta na ideia de Estado Democrático de Direito, foi originalmente concebida por Rousseau, ao reivindicar que um governo somente seria legítimo se resultasse da vontade dos cidadãos, expressa por meio de leis. Nesse sentido, os cidadãos apenas seriam autônomos quando fossem capazes de se autogovernar, por meio das leis.

Não é assim que pensam populistas. Para eles, somente a vontade da maioria, expressa pela palavra do líder, importa. Valorizam seus comandos. São avessos à ideia de uma ordem baseada na lei. Difícil entender como pessoas que dizem prezar a liberdade caem na esparrela de populistas.

As ameaças do presidente americano ao Brasil, em defesa daqueles que atentaram contra nosso Estado Democrático de Direito, obrigará nacionalistas, conservadores, além da direita liberal brasileira, a tomar posição: ficarão a favor dos interesses nacionais, das nossas instituições, da agricultura e da indústria brasileira, ou ao lado daqueles que conjuraram contra o Brasil?

O bananinha virou abacaxi para a direita

Eduardo Bolsonaro flopou. Do inglês flop, verbo que virou modinha nas redes. Em bom português, fracassou. E isso era esperado. A inteligência nunca foi o forte desse deputado federal, o mais votado da história do país. Ele foi o principal articulador da bizarra chantagem de Trump contra o Brasil.

Licenciado nos EUA para escapar a investigações e fazer lobby pelo pai, Dudu agora precisa justificar para os bolsonaristas seu tiro de fuzil no pé da direita.

De “bananinha”, um apelido simpático e carinhoso, explicado por sua personalidade divertida e pela extrema lealdade ao pai, Dudu virou um abacaxi. Para a família Bolsonaro, para os candidatos de Bolsonaro nas próximas eleições e para os apoiadores de Bolsonaro, que se sentem patriotários.

Os bolsonaristas não votaram no Trump. Querem um Brasil com s, soberano, e não pretendem adotar a bandeira americana. Não querem perder empregos nem prejudicar o agronegócio ou nossas empresas.


Há quem diga que a carta de Trump a Lula é tão tosca que deve ter sido escrita por Dudu. O deputado faz parte de uma turma que não aprendeu direito o inglês quando fritava hambúrguer nos EUA. E esqueceu o português. Chegou a tuitar uma vez “fundo do posso” em vez de “poço”.

O terceiro filho de Bolsonaro se gaba de ter informações privilegiadas de Trump. “O que posso dizer é que esta (a tarifa de 50%) não será a única novidade vinda dos EUA neste próximo tempo”. O que o bananinha está tramando junto com Trump e seus ideólogos da ultradireita?

Seja o que for, Dudu está sendo “muy amigo” dos bolsonaristas ao unir o Brasil contra a chantagem de Trump. Até o Elon Musk sabe que quem tem amigos como o Trump não precisa de inimigos. Dudu conspira publicamente contra o Brasil, e isso não ajuda os políticos que vestiram o boné MAGA, Make America Great Again.

Uma saia justa para quem um dia sonhou em se tornar embaixador do Brasil nos EUA. Ou alguém esqueceu a campanha do pai coruja? Jair dizia que Dudu seria um “grande embaixador”. Na visita de puxa-saquismo a Trump no primeiro mandato, botou o filho no Salão Oval, em vez do chanceler, por ser “conhecedor das relações internacionais”.

Dudu cometia declarações do tipo: “São bombas nucleares que garantem a paz. Se nós já tivéssemos os submarinos nucleares finalizados, que têm uma economia muito maior dentro d'água, talvez fôssemos levados mais a sério pelo (Nicolás) Maduro, ou temidos pela China ou pela Rússia”. Por Trump também?

Por ser advogado e policial, Dudu também é especialista em segurança pública. Defende para a população “acesso às armas, para que amanhã a gente aqui não fique sob os desmandos de um governo autoritário”.

Desistiu da indicação do pai para a embaixada em Washington. Mas delira, ao supor que pode encurralar o STF e Lula com ajuda do Trump.

Se Lula fosse fã de Napoleão, seguiria sua máxima: “Nunca interrompa um inimigo enquanto ele estiver cometendo um erro”. Mas é demais pedir sabedoria estratégica a nosso presidente, que adora dar pitaco sobre a política interna de outros países, quando lhe convém.

Visitar e defender a peronista Cristina Kirchner, presa por corrupção por ordem da Suprema Corte, foi ruim para Lula. A Argentina é dos argentinos. O Brasil é dos brasileiros.

Por mais que Lula erre (e erra muito em política externa), a turma do Bolsonaro consegue errar bem mais ao ameaçar a soberania do Brasil. O maior radical livre está nos EUA, ajudando a afundar a direita brasileira nas próximas eleições.

Parafraseando o estrategista de Bill Clinton em 1992 (it’s the economy, stupid), agora “é a política, estúpido”.

Uma hora a conta chega, como disse o deputado. E, devido a sua prestimosa contribuição, Eduardo, a conta vai chegar para a direita, não para a esquerda.

Brasil x EUA: a batalha do suco e do Tylenol

Não se fala de outra coisa nos bastidores da economia mundial: o Brasil e os Estados Unidos estão em guerra. Não com bombas, tanques ou discursos no TikTok. É uma guerra moderna, travada com armas de destruição em massa como… laranjas e comprimidos.

Tudo começou quando o Brasil, cansado de ser ignorado nas playlists americanas, resolveu dar o troco: suspendeu a exportação de suco de laranja concentrado. O impacto foi imediato. A Flórida entrou em estado de calamidade pública. Supermercados esvaziaram. Crianças choraram. As aulas paralisaram. E houve quem tentasse beber Tang com gelo de silicone, em protesto.

A bolsa de Nova York caiu 10%. Os investidores, desesperados, tentaram aplicar em vitamina C genérica, mas era tarde demais: o Brasil havia proibido a exportação de acerola e camu-camu e apertado o botão vermelho da frutose tropical. O mel foi para a estratosfera.

Do outro lado da trincheira, o Pentágono econômico dos EUA respondeu com a mesma elegância de sempre: suspendeu a exportação dos princípios ativos que compõem nossos medicamentos.


Foi um corre-corre dos capetas. Em 48 horas, o caos se instalou no Brasil. Farmácias começaram a vender “dipirona gourmet” feita com camomila, cidreira e gratidão. Teve laboratório testando chá de capim santo em cápsulas. E o remédio para dor de cabeça passou a ser chamado de “autoconhecimento em gotas”. Os Pastores mais íntimos de Jesus, Valdomiro e Silas, se abraçaram e pediram proteção ao Filho, porque estavam fazendo muita hora-extra e já haviam desacostumado. Tiveram que vender água do mar para curar do furúnculo a malária.

Nosso correspondente, Argemiro do PIB, ouviu de um analista em Brasília a seguinte frase:

“Se os EUA cortarem o ibuprofeno, vamos ter que voltar pra benzedeira e reza forte. E olha que nem a reza tá barata com o preço da vela.” O despacho com galinha preta estava os olhos da cara. Na falta da picanha e do chopp, esgotados nos fins de semana, o brasileiro voltou a consumir o frango em alta escala. Consumo dos penosos em alta, preço disparando. Ao finalizar a fofoca, Argemiro do PIB, cochichou: vem bronca para os empregos da indústria automobilística e São Paulo vai pirar. São Paulo não para…Sampa pira!

PIB em Pânico, Balança na UTI

As consequências foram sentidas em segundos e o Agro, pilar da economia brasileira, começou a sentir a porrada, nos bolsos e na barriga.
– O PIB brasileiro caiu 2,973% só com a falta de remédio pra pressão.
– O IBOVESPA despencou feito mamão maduro.
– O dólar subiu mais rápido que promessa de político em véspera de eleição.

Nos Estados Unidos, sem suco, o desespero virou manchete: “BREAKFAST BLACKOUT: America’s Orange Juice Crisis”– estampava o New York Times. No Brasil, a capa da Revista Raiva trazia a manchete: “Sem Tylenol, Com Dor e com Amor”.

Diplomacia à Brasileira

Foi então que os dois países decidiram conversar. Numa reunião histórica, a delegação brasileira levou suco natural, pão de queijo e tocou Tom Jobim no ukulelê. Os americanos chegaram com uma caixa de remédios, dois diplomatas da Pfizer e uma camiseta “Eu ♥ o Brasil (mas quero meus remédios)”.

O acordo de paz foi selado:
– O Brasil volta a exportar suco.
– Os EUA liberam os químicos dos remédios.
– E as playlists do Spotify norte-americano agora terão Ângela Rô Rô e um pouco de Zeca Pagodinho por semana.

Moral da História?

No mundo de hoje, ninguém briga com quem fornece o café da manhã ou o alívio para enxaqueca. O Brasil pode ser a terra do samba e da biodiversidade, mas sem os químicos dos americanos, nossa dor de cabeça vira crise diplomática.

E os EUA, gigantescos, podem ter Hollywood, Silicon Valley e 300 tipos de cereal matinal, mas sem a nossa laranja, viram uma nação de gente mal-humorada e com falta de vitamina C. A gripe vai pegar e eles terão que contratar o Bispo Edir Macedo, assoberbado de trabalho, com seus fiéis sofrendo com a coriza.

E o futuro?

Já se especula o próximo capítulo:
– Se o Brasil cortar o café, o mundo entra em colapso. O Nespresso terá suas cápsulas recicladas e a qualidade cairá em demasia. A cevada invadirá e o terêrê não dará vencimento.
– Se os americanos bloquearem as séries, o brasileiro vai ter que rever “Irmãos Coragem”, “O Clone” e “Senhora do Destino”, além de voltar com Chico City e Odorico Paraguassú.

Mas uma coisa é certa: na economia global, as tribos não vivem sozinhas. E quem duvidar, experimente uma ressaca sem suco de laranja… e sem Neosaldina ou Sonrisal.

O Trump, aspirante ao Nobel da Paz, prometeu vir fazer um cruzeiro, no NIMITZ, pelas praias brasileiras e levar a juventude para passear nos seus botes a jato e nos seus jatos invisíveis. Só para divertimento dos colegas brasileirinhos.

Congresso brasileiro gasta mais que o dos EUA e está entre os mais caros do mundo

Com um orçamento este ano no patamar de R$ 15 bilhões, o Congresso Nacional está entre os mais caros do mundo. Levando em consideração o Produto Interno Bruto (PIB), a proporção da alocação de recursos é maior que em outras nações continentais ou perfil demográfico similar, como Índia, EUA e México. Com o fortalecimento do Legislativo, os brasileiros também superam as democracias europeias. Em relação aos americanos, por exemplo, o custo é seis vezes maior.

Somados, Câmara e Senado no Brasil têm custo anual de 0,12% do PIB do país, de acordo com levantamento do GLOBO a partir de dados oficiais. Já os Estados Unidos gastam 0,02% do PIB com suas duas casas legislativas, um sexto da proporção do Brasil. Neste ano fiscal (setembro de 2024 a agosto de 2025), Senado e Câmara dos Representantes americanos têm orçamento combinado de US$ 6,7 bilhões.

A comparação com os EUA é pertinente, segundo especialistas, pelo fato de o país também ter dimensões continentais, adotar o sistema federalista (embora os estados tenham mais autonomia do que no Brasil) e ter duas casas no Parlamento.


]Duas características que inflam o gasto com o Legislativo no Brasil são o grande número de partidos e o tamanho da equipe de assessores que cada parlamentar pode ter à sua disposição, afirma o economista e cientista de dados Thomas Conti, professor do IDP.

— Com mais de 20 partidos políticos, a formação de coalizações majoritárias fica muito mais difícil de se negociar do que em países onde o número de partidos é menor. Como a negociação é difícil, alocar mais verbas para o Legislativo é um jeito indireto de facilitar a negociação, usando verbas como troca por apoio. Quanto aos assessores, no Brasil um deputado pode contratar até 25 assessores. Na Alemanha, o máximo é sete — diz Conti.

O México, que é a segunda maior democracia na América Latina (tanto em PIB quanto em população), também gasta proporcionalmente menos do que o Brasil com seu Congresso: 0,05% do PIB do país, menos da metade da despesa brasileira. Os mexicanos têm uma Câmara e um Senado e adotam o sistema federativo.

Já a Índia está entre os países que menos gasta proporcionalmente em seu Parlamento. A previsão de gastos para o ano fiscal iniciado em setembro de 2025 equivale a 0,004% do PIB indiano.

Historicamente, o país paga salários baixos a seus parlamentares. Um consultor político ligado ao Bharatiya Janata, partido que atualmente governa a Índia, atribui a baixa alocação de orçamento no país à defasagem salarial de parlamentares.

Embora viva um regime considerado por cientistas políticos como cada vez mais autoritário, as eleições do país asiático são as maiores do mundo em número de participantes: 642 milhões de indianos votaram na última eleição nacional realizada no país, em 2024.

Em Portugal, o Legislativo é representado por uma única casa, a Assembleia da República, cujo orçamento para 2025 é de 192 milhões de euros, o equivalente a 0,08% do PIB estimado para o país neste ano. Na Espanha, por sua vez, as duas casas legislativas (Congreso de Diputados e o Senado) têm somadas um orçamento equivalente a 0,01% do PIB espanhol.

— Gastar muito ou pouco com o Legislativo depende daquilo que se entrega ao cidadão e com as características do país. O Brasil é um país continental, com deficiências de infraestrutura e grande população. Ainda assim, os gastos com os parlamentares brasileiros são maiores que o de outras democracias grandes, como Estados Unidos — afirma Gustavo Macedo, professor de ciência política do Insper.

Dados de 2023 do último levantamento da União Interparlamentar, que reúne informações de 181 parlamentos ao redor do mundo, reforçam que o Brasil gasta muito com seu Congresso.

O Brasil era há dois anos o segundo entre 77 países em despesas com o Legislativo: US$ 5,3 bilhões ajustados pela paridade do poder de compra, perdendo apenas para os Estados Unidos (US$ 5,9 bilhões) e muito à frente do terceiro colocado, a Turquia (US$ 1,95 bilhão).

Completam a lista dos dez países com maior orçamento para o Congresso naquele ano Alemanha, México, França, Indonésia, Japão, Quênia e Coreia do Sul. A União Interparlamentar não tem dados mais recentes de nenhum desses países.

Brasil e Estados Unidos, aliás se revezam no topo da lista da União Parlamentar há anos. De 2015 a 2019, o Congresso brasileiro foi o mais caro do ranking, enquanto os americanos ficaram em segundo lugar.

Para Jairo Nicolau, cientista político da FGV, o Brasil gasta muito e mal com seu Congresso:

— O tamanho desse orçamento, bem como o aumento dos parlamentares, não atende a critérios técnicos. Na Câmara, por exemplo, o Brasil tem uma distorção clara na representação de alguns estados que estão sub-representados, como São Paulo, e casos de estados menores com representação bem maior que a que deveriam ter de acordo com sua população.

Um exemplo da distorção, diz ele, é que a Paraíba, estado do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), vai ter dois deputados a mais que o Espírito Santo, a despeito de ambos os estados terem populações similares.

O gasto com o Congresso brasileiro pode aumentar com a recente decisão dos deputados e senadores de aumentar o número de deputados em 18 cadeiras, passando para 531. O projeto aguarda a sanção (ou veto) do presidente Lula.

De acordo com o texto aprovado, ganharão parlamentares Amazonas, Ceará, Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, Pará, Paraná, Rio Grande do Norte e Santa Catarina. As estimativas de quanto representa de aumento de gastos a elevação do número de deputados variam entre R$ 64,8 milhões a cerca de R$ 150 milhões anuais.

Atualmente, cada deputado recebe remuneração mensal de R$ 39.293,32, além de ter direito a imóvel funcional em Brasília ou auxílio-moradia, mesmo para parlamentares que têm imóvel na capital federal. Hoje, o valor desse auxílio é de R$ 4.253 e pode ser complementado com até R$ 4.148,80 mensais da chamada cota parlamentar. O valor da cota a que cada deputado tem direito depende do estado do parlamentar e varia de R$ 36.582,46, para deputados do Distrito Federal, a R$ 51.406,33, para os de Roraima. Além disso, o valor mensal da verba de gabinete é de R$ 133.170,54.

— Na legislação brasileira não há limitações significativas para a capacidade do Legislativo aumentar seu próprio orçamento e definir novos direitos ou privilégios. O Executivo poderia vetar leis nesse sentido, mas como existe uma dificuldade crônica de formar maiorias no Congresso, não é esperado que nenhum presidente tenha capacidade de fazer um veto desses — conclui Conti.