sábado, 22 de fevereiro de 2025

A vez do fascismo

Depois do socialismo fracassar, sem ter gerado igualdade e nem liberdade para os cidadãos; depois da democracia entrar em declínio, na expectativa frustrada de que a representatividade política iria gerar a distribuição de renda pela mediação dos grupos; vem aí agora o fascismo, na autocrática quebra das regras sociais, que também há de falhar. E a razão é simples: todos que lá chegam se locupletam e nada fazem.

Impera o capital.

Os grandes intérpretes do fascismo são Hannah Arendt, De Felipe, e George Mosse.

Os termos “fascismo” e “nazismo”, aplicados aos contextos históricos da Itália e da Alemanha dos anos de 1930 e 1940, são denominações de contextos específicos, mas com fortes similaridades com os eventos atuais. Atualmente, alguns autores têm utilizado o termo “populismo” para estes fenômenos, no que prefiro o termo “fascismo”, mais explanatório de suas causas, enquanto o termo “populismo” é mais uma descrição de seus efeitos.


O fenômeno do “fascismo” tem a sua origem na compressão econômica das classes médias, que, desesperadas, na rejeição de propostas à esquerda e questionamento das lideranças institucionalizadas, passam a dar suporte a líderes radicais, contra as elites tradicionais que supostamente lhes representam; na esperança de que o mundo, mais radical, vai lhes dar a estabilidade que anteriormente experimentaram, e que têm que ter para as suas vidas e criação dos filhos. Esganiçam a voz, a má educação, e a violência, que imperam. Seguem a seus novos líderes como se fosse uma cegueira, no caminho indelével do tentar vir a ser.

Os outcomes históricos podem ser diferentes em forma e intensidade, mas o “fascismo” tem sempre três pontos em comum: as decisões autocráticas, um inimigo interno, e um inimigo externo, como base de sustentação, na corrosão da ordem institucional.

A Alemanha “nazista” é o caso clássico desta expressão. O Acordo de Versailles pós Primeira Guerra Mundial impôs pesadas multas à Alemanha, com a Alemanha emitindo papel moeda em 1922 para pagar suas dívidas, gerando a hiperinflação. O Partido Social Democrata, então, declinou, com a ascensão do Partido Nazista, que chegou ao Parlamento em 1933 com 32% dos votos. O inimigo interno foi atribuído aos “judeus”, e o externo ao “comunismo”. As consequências, todos nós sabemos.

Dados do “World Inequality Report” mostram o declínio na participação do PIB de 1980 para cá pelas classes médias e trabalhadoras, dando suporte a líderes radicais como Bolsonaro, Miley e Trump. Na Europa, as forças extremistas de direita se aglutinam, na orientação do amanhã.

Mas o “fascismo” também falhará. Seus mandantes, em verdade, são somente os representantes do capital, do grande capital, da versão mais extrema, da falta de ideologia, ou ética. O “fascismo” concentrará ainda mais a renda, até a hora em que as hordas enfurecidas que os elegerem se virem contra eles, sem nada mais ter a repor.

Somente má educação “não põe mesa”.

Mas o preço será alto.

Calor escancara desigualdades e flerta com a tragédia

Outrora invisível, o inimigo está mais evidente do que nunca. É implacável o calor extremo que alcança, em particular, o Rio de Janeiro desde a virada do ano. O segundo mês de 2025 nem chegou ao fim, e os especialistas já atestaram a terceira onda de calor da temporada. É fenômeno que impacta a saúde, a mobilidade, a aprendizagem, a atividade econômica. Como de resto, escancara desigualdades tatuadas na sociedade. E flerta com a tragédia.


A Prefeitura do Rio, via secretarias de Saúde, Meio Ambiente e Centro de Operações, elaborou protocolo de enfrentamento ao calorão. O conjunto de alertas e ações tomou forma no ano passado, meses depois da morte, por exaustão térmica, da jovem Ana Clara Benevides Machado, aos 23 anos. Ela sucumbiu à sensação de 60 oC que a cidade experimentou em novembro de 2023, durante o show da mega-star Taylor Swift no Engenhão.

Na ocasião, ficou exposta a desumanidade das condições impostas aos fãs: proibição de entrada com garrafas nas arenas, bem como de oferta gratuita do líquido vital. Prioritárias eram as receitas financeiras dos patrocinadores. O episódio fatal selou a série de normas impostas pela Secretaria Nacional do Consumidor do Ministério da Justiça aos organizadores de eventos de massa. Tem de haver atendimento médico e ambulância, mangueiras para banhar e resfriar a plateia. Foi autorizada a entrada com recipientes para bebidas; tornou-se obrigatória a hidratação gratuita. Água, afinal, é direito, não item de consumo.

Nesta semana, a capital fluminense alcançou pela primeira vez o nível 4 na escala de calor, que varia de 1 a 5. Significa dias seguidos com temperatura de 40 oC a 44 oC. Nenhuma hipótese de chuva. Equipamentos públicos, de naves do conhecimento a bibliotecas e museus, foram indicados como pontos de resfriamento com ar-condicionado, água potável, área de descanso. Distribuidoras saíram às ruas para entregar copos d’água em pontos de grande circulação e calor, como costumavam fazer apenas nas áreas de dispersão do carnaval.

São medidas bem-vindas, necessárias, mas ainda insuficientes. Alunos se manifestaram contra ambientes escolares tornados saunas de aula. Há estudos que confirmam que o calor excessivo é inimigo da aprendizagem, tal como a fome e a violência. Os chamados ao Samu saltaram 45% nos dias de temperatura recorde, segundo a Secretaria estadual de Saúde. Na capital, em 15 dias, houve 2.400 atendimentos em unidades de saúde em razão do calor.

O sistema de transportes aprofunda o inferno, com a combinação de longos trajetos em veículos sem refrigeração, como se ar-condicionado fosse luxo, não necessidade. O sol, de tão forte, fez um trem da Supervia descarrilar após um trilho do ramal Guapimirim derreter sob o calor de 71 oC.

Nas favelas, multiplicam-se as interrupções de energia em decorrência do excesso de carga. A demanda por energia na Região Sudeste bateu dois recordes em um mês, segundo dados do Operador Nacional do Sistema. A Light, concessionária em 31 municípios fluminenses, reportou 1.150 transformadores queimados por sobrecarga em 45 dias deste ano. O consumo adicional na primeira quinzena de fevereiro foi equivalente ao de todo o estado de Roraima.

Na Rocinha, no Alemão, em comunidades da Zona Oeste e da Baixada Fluminense, o emaranhado de fios em curto entra em chamas. Inflama-se pela energia consumida pela avalanche de aparelhos ligados simultaneamente. Prenúncio de castatrofe.

Na favela da Zona Sul, a associação de moradores apelou a comércio e serviços por extintores. A população formou brigadas de incêndio improvisadas para deter o fogo até a chegada dos bombeiros. Homens, mulheres, crianças contam consigo e com Deus, na falta de condições de moradia, infraestrutura adequada, assistência do poder público. Residências ficam mais de 24 horas sem energia. Há casos de pessoas dormindo ao relento, diante da impossibilidade de suportar o calor em imóveis densamente habitados com circulação de ar deficiente.

Até a inflação do ovo se relaciona ao calor extremo. Sim, as galinhas, afetadas, também produzem menos. Hortaliças e frutas historicamente ficam mais caras na temporada. Ainda que anuncie medidas de emergência, o poder público segue devendo. A conta de anos, décadas, séculos de descaso e urbanização mal feita chegou pesada com o calorão. Todo mundo paga, mas os de sempre (pobres, pretos, favelados, subocupados) pagam muito mais. E as chuvas nem deram as caras. Ainda.

Árvores, sinal de atraso

Isso que vou contar foi um goiano que me contou... Aconteceu numa cidadezinha, no interior do estado. Ficava num vale que terminava numa serra no meio de uma verdadeira floresta de mangueiras, jabuticabeiras, laranjeiras e árvores nativas, seculares... As árvores eram tantas que o viajante, no alto da serra, quase não percebia a cidade, no vale. Foi então que um prefeito moderno e dinâmico fez uma campanha entre os moradores para que cortassem as árvores dos seus quintais para que a cidade fosse vista pelos viajantes. E argumentava: “Todo mundo sabe que árvore é sinal de atraso...”.

Rubem Alves, "Pimentas: para provocar um incêndio, não é preciso fogo"

A melhoria imparável

Há muita gente que acha que as minorias — e maiorias — estão a abusar, que se deviam satisfazer com o que já conseguiram

Se tivesse de ser muito abstrato sobre os últimos 100 anos, e dizer numa só frase aquilo que tentámos fazer, comparados com o século anterior, diria que tratamos melhor as pessoas e, para além das pessoas, os animais que não têm a sorte de ser pessoas.

Tratamos melhor quase todos os grupos, a começar pelo maior de todos, que constitui a maioria: as mulheres.

Tratámos melhor as minorias étnicas e sexuais. Tratamos melhor as crianças. Tratamos melhor os trabalhadores, os pobres, os doentes, os emigrantes, os deficientes e os doentes mentais.



Aqui, “melhor” não quer dizer “mais bem” nem “bem”. Quer dizer menos mal. Pode ser apenas reconhecer a existência e deixar viver. Pode ser apenas deixar de perseguir e castigar.

“Melhor” é só uma tendência, mas é uma tendência importantíssima, indo na direção geral de um objetivo ainda muito, muito distante, que é tratar todos os seres humanos da mesma maneira. O resto é a discussão de graus: quem deve avançar à custa de quem, a que velocidade e com que tipo de encorajamento.

Abolir a escravatura, por exemplo, não é um passo positivo. É apenas a eliminação de um passo negativo. Não deu nada aos escravizados: apenas lhes restitui o que lhes foi tirado

Pensa-se que é humano nunca estar satisfeito com o que se tem. Os malandros dos gays, por exemplo, não se contentaram com o já não serem presos por serem gays. Quiseram casar. E depois, quando conseguiram casar, quiseram adotar filhos.

Há muita gente que acha que as minorias — e maiorias — estão a abusar, que se deviam satisfazer com o que já conseguiram. Só falta chamá-las ingratas. E quem chama são aquelas bestas que acham que “deram” essas melhorias básicas que são banais para a maioria dos cidadãos.

Mas essa vontade nem sequer é humana: é mamífera.

Os gatos também são assim: quanto mais camas têm, mais camas querem. Se calhar, são assim todos os animais: quanto mais bem se tratam, mais bem querem ser tratados. É assim que está certo.

Proezas do nazitrumpismo


Deus!, ó Deus!,onde estás que não respondes?
Em que mundo, em que estrela tu te escondes
Embuçado nos céus?
Há dois mil anos te mandei meu grito,
Que embalde desde então corre o infinito…
Onde estás, Senhor Deus?…

Castro Alves – Vozes D’África





Nestes dias de trombadas do agente laranja – as “trumpadas” – é recomendável não tirar o olho da sucessão de atentados trumpistas às instituições republicanas. Pensei em escrever liberais-republicanas. Recuei porque, no momento atual, o pretendido liberalismo político-econômico se transmuta em nazifascismo.

Veja o caro leitor que Elon Musk e os demais ricaços do trumpismo não exibem originalidade. São descendentes de antecessores da mais elevada estirpe. A sociedade norte-americana apresenta uma trajetória marcada pelo liberal-oportunismo consubstanciado no mando e controle do Estado pelos ricaços.

Nos Estados Unidos das últimas décadas do século XIX e no início do século XX, as peripécias financeiras, especulativas e corruptas dos “barões ladrões” levaram a sucessivos episódios de destruição da riqueza e das condições de vida dos mais frágeis. As falcatruas se desenvolveram à sombra de um Estado cúmplice da concorrência darwinista. O Estado deixou-se contaminar de alto a baixo, da polícia ao Judiciário, pela lógica da grana.

Na posteridade da Grande Depressão, do sofrimento popular, FD ­Roosevelt e o New Deal inauguraram tempos de respeito às instituições democráticas e republicanas. Em 1936, na convenção do Partido Democrata, Roosevelt disparou contra “os príncipes privilegiados das novas dinastias econômicas”, que, “sedentos de poder, avançaram no controle do governo, criaram um novo despotismo e o cobriram com as vestes da legalidade. Os mercenários a seu serviço buscaram submeter o povo, seu trabalho e suas propriedades”.

Durou pouco o ethos do New Deal. Nos mandatos de Ronald Reagan e de ­George Bush Father & Son, a promiscuidade era escancarada: difícil dizer se estávamos diante de um governo eleito ou de um escritório de corretagem. Mas os ex-presidentes republicanos não eram exceções. O democrata Bill Clinton protagonizou a façanha de impor os interesses dos “príncipes privilegiados” da alta finança sob os aplausos e o apoio entusiasmado dos endinheirados do planeta.

Reportagem no New York Times assevera que “em menos de um mês no poder, os plutocratas do presidente Trump embarcaram em um esforço violento e sem remorso para impor sua vontade ao Departamento de Justiça, buscando justificar suas ações como a simples reversão da ‘politização’ da aplicação da lei federal sob seus antecessores da era Biden”.

O texto prossegue: “A campanha feroz, executada por Emil Bove III, ex- advogado de defesa criminal do senhor Trump, agora o segundo maior funcionário do departamento, é realizada em público, em tempo real, por meio de uma série de movimentos que ressaltam a intenção do senhor Trump de dobrar a equipe de carreira tradicionalmente apartidária da polícia federal para atender aos seus objetivos”.

Retomo ao que ousei escrever nas generosas páginas de nossa ­CartaCapital. Vou me valer da sabedoria de Herbert Marcuse. Autor do ensaio O ­Estado e o­ ­Indivíduo no Nacional-Socialismo, ­Marcuse considerava a ordem liberal um grande avanço da humanidade. Sua emergência na história submeteu o exercício da soberania e do poder ao constrangimento da lei impessoal e abstrata.

Marcuse também procurou demonstrar que a ameaça do totalitarismo está sempre presente nos subterrâneos da sociedade moderna. Para ele, é permanente o risco de derrocada do Estado de Direito: os interesses de grupos privados, em competição desenfreada, tentam se apoderar diretamente do Estado, suprimindo a sua independência formal em relação à sociedade civil.

No regime nazista, o Estado foi apropriado pelo “movimento” racial e totalitário nascido nas entranhas da sociedade civil. Os tribunais passaram a decidir como supremos censores e sentinelas do “saudável sentimento popular”, definido a partir da legitimidade étnica dos cidadãos. A primeira vítima do populismo judiciário do nazismo foi o princípio da legalidade, com o esmaecimento das fronteiras entre o que é lícito e o que não é.

Os cânones do Estado de Direito impõem aos titulares das funções públicas, particularmente àquele que exerce a Presidência da República, a obrigação da publicidade dos atos praticados, o dever da impessoalidade nos procedimentos e na escolha de ministros e auxiliares. O sistema de regras positivas emanadas dos poderes do Estado, legitimado pelo sufrágio universal, é o único critério aceitável para as decisões emanadas do chefe da nação.

No Project Syndicate, Richard K. Sherwin apresenta declarações do vice-presidente dos EUA, JD Vance. O vice trumpista declarou recentemente que “os juízes não têm permissão para controlar o poder legítimo do Executivo”. Sherwin adverte que “esse tiro, disparado contra o Judiciário Federal, ameaça interromper um entendimento há muito estabelecido de que os tribunais devem ter a última palavra sobre o que as leis significam e exigem. Visto no contexto dos decretos executivos constitucionalmente suspeitos do presidente Donald Trump – como acabar com a cidadania por direito de nascença e desmantelar agências administrativas aprovadas pelo Congresso – o desafio de Vance coloca em nítido relevo a crise constitucional em desenvolvimento nos Estados Unidos”.

Para homenagear Mark Twain, vou reproduzir um dos seus mais instigantes aforismos: “A História não se repete, mas rima”. Asseguro que os maltrapilhos versos do trumpismo rimam com as proezas jurídico-políticas do nazismo de Adolf, o Hitler. Adendo: Não vou mencionar rimas de menor porte, tal como os desastres poéticos de Jair Bolsonaro & família.

Seguem os rastros do passado no presente. Hitler dirigiu-se ao Judiciário em um discurso no Reichstag, em 26 de abril de 1942. Entre outras coisas, disse: “Espero que a profissão jurídica alemã entenda que a nação não está aqui para eles, mas eles estão aqui para a nação… De agora em diante, intervirei nos casos e removerei do cargo os juízes que evidentemente não entendem a demanda do momento”.

No Brasil varonil, os asseclas bolsonaristas de Trump veem nas formalidades do direito um obstáculo ao exercício da moral. Na verdade, nada é mais imoral nas sociedades modernas do que o moralismo dos beldroegas.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

Pensamento o Dia

 


Agenda sionista de Goldstein: endossando a ordem de Trump sobre a África do Sul

A recente visita do rabino Goldstein a Israel e seus elogios ao decreto executivo de Trump sobre a África do Sul destacam seu alinhamento controverso com as queixas dos africâneres em meio aos debates em andamento sobre a reforma agrária.

Do número de faixas erguidas por um pequeno grupo de africaners reunidos do lado de fora da embaixada dos EUA em Pretória, a que mais me impressionou foi um apelo a Donald Trump para “reconhecer a nação branca como Israel foi reconhecido”.

Instintivamente, procurei nas fotos da multidão para ver se Warren Goldstein, que se descreve como o Rabino-Chefe da África do Sul, estava presente para apoiar e endossar o apelo.

Como não consegui localizá-lo na reunião, descobri posteriormente que Goldstein estava em uma de suas missões sionistas ao regime colonial de colonos.

Uma reportagem do IOL revelou que em uma postagem no X no domingo, Goldstein disse que tinha acabado de retornar de Israel, onde se encontrou com “altos funcionários do governo”.

Como Israel está na tribuna do Tribunal Internacional de Justiça (CIJ) sob acusações de perpetrar genocídio e seus principais líderes têm mandados de prisão emitidos pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) por crimes de guerra, talvez não seja surpreendente que Goldstein tenha se abstido de nomear os "altos funcionários do governo" com quem ele alega ter se encontrado.


A declaração do TPI explicando sua decisão de emitir mandados de prisão é crucial para entender a gravidade dos crimes de Israel, o contexto da visita de Goldstein a Israel e seus elogios à ordem executiva de Trump contra a África do Sul:

“Com relação aos crimes, a Câmara encontrou motivos razoáveis ​​para acreditar que o Sr. Netanyahu, nascido em 21 de outubro de 1949, Primeiro-Ministro de Israel na época da conduta relevante, e o Sr. Gallant, nascido em 8 de novembro de 1958, Ministro da Defesa de Israel na época da suposta conduta, têm responsabilidade criminal pelos seguintes crimes como coautores por cometerem os atos em conjunto com outros: o crime de guerra de fome como método de guerra; e os crimes contra a humanidade de assassinato, perseguição e outros atos desumanos.

“A Câmara também encontrou motivos razoáveis ​​para acreditar que o Sr. Netanyahu e o Sr. Gallant têm responsabilidade criminal como superiores civis pelo crime de guerra de dirigir intencionalmente um ataque contra a população civil.”

Além disso, a Câmara considerou que há motivos razoáveis ​​para acreditar que ambos os indivíduos intencionalmente e conscientemente privaram a população civil em Gaza de objetos indispensáveis ​​à sua sobrevivência, incluindo alimentos, água, remédios e suprimentos médicos, bem como combustível e eletricidade, de pelo menos 8 de outubro de 2023 a 20 de maio de 2024.

A Câmara também concluiu que a conduta deles levou à interrupção da capacidade das organizações humanitárias de fornecer alimentos e outros bens essenciais à população necessitada em Gaza.

Nesse contexto de graves crimes de guerra, é desconcertante, mas não surpreendente, notar que Goldstein apresentou um esboço “estratégico” para Israel se envolver com a África do Sul, acrescentando que o “equilíbrio de forças” estava a favor de Israel.

Embora não haja menção no relatório sobre se seu “esboço estratégico” incluía as queixas do AfriForum, a coincidência da visita de Goldstein com a controvérsia desencadeada por elas pode exigir mais detalhes.

Afinal, Goldstein elogiou as ações de Trump contra a África do Sul e teria dito que os sul-africanos deveriam acolher as intervenções do governo Trump nos assuntos do país.

Se o AfriForum foi a faísca que levou Trump a assinar uma ordem executiva suspendendo a ajuda financeira à África do Sul e oferecendo asilo aos africâneres devido à Lei de Expropriação, certamente o fato de Goldstein elogiar a ordem de Trump implica apoio?

No entanto, a decisão de Trump de isolar a África do Sul não passou sem contestação. A premissa de que fazendeiros brancos estavam sendo removidos à força de suas terras foi refutada pelo governo sul-africano, bem como por analistas e uma série de organizações.

O IOL relata que o Ministro das Relações Internacionais e Cooperação, Ronaldo Lamola, reafirmou que a política de reforma agrária do governo – que visa reparar a expropriação de terras da maioria negra antes de 1994 sob o governo da minoria branca – e seu caso de genocídio no TIJ são “inegociáveis”.

Estar em desacordo com as políticas do governo da África do Sul é uma escolha disponível gratuitamente a todos os sul-africanos, diferentemente da punição severa enfrentada pelos palestinos que se opõem ao apartheid israelense.

Os apoiadores sul-africanos da idiotice de Trump, refletida em seu comportamento errático, deveriam tirar lições do ucraniano Volodymyr Zelenskyy que, por sua vez, já teria aprendido com Henry Kissinger que "pode ​​ser perigoso ser inimigo da América, mas ser amigo da América é fatal".

Para sobreviver


A vida não é mais que uma sucessão contínua de oportunidades para sobreviver.

Gabriel García Márquez

Contra a fama

Ser famoso não é bonito.
Não nos torna mais criativos.
São dispensáveis os arquivos.
Um manuscrito é só um escrito.

O fim da arte é doar somente.
Não são os louros nem as loas.
Constrange a nós, pobres pessoas,
Estar na boca de toda a gente.

Cumpre viver sem impostura.
Viver até os últimos passos.
Aprender a amar os espaços
E a ouvir o som da voz futura.

Convém deixar brancos à beira
Não do papel, mas do destino,
E nesses vãos deixar inscritos
Capítulos da vida inteira.

Apagar-se no anonimato,
Ocultando nossa passagem
Pela vida, como à paisagem
Oculta a nuvem com recato.

Alguns seguirão, passo a passo,
As pegadas do teu passar,
Porém não deves separar
Teu sucesso de teu fracasso.

Não deves renunciar a um 
mínimo pedaço do teu ser,
Só estar vivo e permanecer
Vivo, e viver até o fim.

Boris Pasternak 

A mais louca corrida do mundo

Quando eu era criança, nos anos de 1980, adorava um desenho animado chamado Corrida Maluca (em Portugal, A Mais Louca Corrida do Mundo). Dez carros, com seus pilotos pitorescos, disputavam a liderança até a linha de chegada. A Máquina do Mal, do vilão Dick Vigarista e seu cão Rabugento, atirava tachinhas à pista ou dava outro jeito de sabotar os concorrentes. Mas os planos dos malvados sempre fracassavam. Algum carro ultrapassava as armadilhas e vencia a corrida. No fim do dia, o Dick Vigarista lamentava a derrota e o Rabugento ria da própria desgraça.

As histórias infantis são maniqueístas porque os seres humanos não nascem dotados de consciência moral. Precisamos aprender o que é certo e o que é errado. Os mocinhos e vilões são personificações do bem e do mal, que exercem uma função civilizatória. Sentimos alívio quando o Vigarista perde no final. Isso é justo. Só depois crescemos para entender que o bem e o mal são forças presentes em todos nós.


Quando entrei na adolescência, vi uma foto, num livro escolar, de uma pilha de cadáveres muito magros, sem roupas nem cabelos, num campo de concentração nazista. Aquilo era a maldade pura. Cresci num mundo em que havia vilões de verdade: os nazistas. Ninguém duvidava disso, pelo menos publicamente. Todas as pessoas — de esquerda, de direita, progressistas, conservadoras — tinham o bem e o mal dentro de si. Os nazistas eram as exceções que confirmavam a regra. Eram a personificação do mal.

Corta para o ano de 2025.

Elon Musk, o homem mais rico do planeta, profere um discurso e faz a saudação Sieg Heil, duas vezes. Depois, desmente o sentido do seu gesto, indubitável para quem acompanha a aproximação de Musk com o partido alemão de extrema-direita AfD (Alternative für Deutschland).

Donald Trump, o homem mais poderoso do planeta, promete enviar a Guantánamo os “piores dos piores” imigrantes indocumentados nos Estados Unidos. Mas entidades internacionais denunciam que estrangeiros sem nenhum antecedente criminal já foram levados ao presídio, famoso pelas violações aos direitos humanos. (Qualquer semelhança com a criação do campo de concentração de Dachau, que serviu de modelo para os outros campos nazistas, não é mera coincidência.)

Os inimigos já foram os judeus. Hoje, são os imigrantes. A ironia é que isso aconteça no país que se tornou uma superpotência depois de enfrentar Hitler, há menos de um século.

Mas a ascensão de um ideário ultranacionalista e supremacista também ganha força na Europa. Na própria Alemanha, a AfD pode tirar bom proveito do terrível atentado cometido por um afegão em Munique, semana passada. Quantos imigrantes pagarão pelo crime de um? Qual será o preço de se alçar ao poder aqueles que não escondem a simpatia pelo legado de Hitler?

Não se pode negar que a situação global é complexa. Há uma crise a ser enfrentada, de cunho social, econômico, ambiental, migratório. Mas, no fim do dia, nada justifica que os Vigaristas possam vencer a mais louca corrida do mundo.

Os clichês que brasileiros ainda escutam na Europa

"Olá, meu nome é Marco. Eu vivo no Rio de Janeiro. Eu não vou à escola. Pela manhã, procuro restos de comida na lata de lixo. Meu sonho é ser jogador de futebol profissional". É inacreditável, mas esse perfil está num livro didático da Alemanha dirigido a crianças do quarto ano do ensino fundamental.

O caso é muito sério, ainda mais pelo fato de esse exemplo estar num livro usado por escolas públicas, que deveriam estar educando as crianças, e não repetindo e corroborando clichês.

O fato foi denunciado por pais brasileiros que moram em Berlim e causou uma justa revolta. Como resultado, a Embaixada do Brasil na Alemanha também reclamou e a editora da obra, a Mildenberger, disse que suspendeu as vendas dos livros e que iria fazer uma "versão atualizada que seria discutida com a comunidade brasileira". A versão online da obra já foi alterada. Agora, Marco adora esportes e continua sonhando em ser jogador de futebol. Ou seja, melhorou, mas continua sendo um clichê.

"Ah, mas todo menino brasileiro ama esportes e sonha em ser jogador de futebol", dirão alguns. Não, não são todos. O que existe é um estereótipo antigo de que o Brasil é o país do "futebol, do samba e da bunda", quando, na verdade, o Brasil é enorme e diverso.

É fato também que, infelizmente, existem no Brasil crianças que não vão à escola e catam comida no lixo. Mas usar esse exemplo para retratar as crianças do país é um estereótipo preconceituoso, dirigido a países em desenvolvimento como o Brasil.

Por exemplo, você acha que um menino nascido nos Estados Unidos seria retratado como alguém que não vai à escola e se alimenta do lixo? Não, apesar de isso também acontecer lá. E, claro, na Alemanha também existem crianças que vivem em situações de vulnerabilidade.

O caso do livro escolar é revoltante, mas, infelizmente, não é isolado. Brasileiros que moram na Alemanha, e também em outros países mundo afora, continuam lidando com clichês rotineiramente. É absurdo, mas em 2025 ainda existe muito europeu que acha que o Brasil se resume a miséria, samba, bunda, futebol e selva.


Sabe aquela ideia antiga de que toda mulher brasileira é sexy e sabe sambar e que os homens sabem todos jogar futebol? Ela ainda existe.

Nada contra sambistas, jogadores de futebol e ser quente na cama (muito pelo contrário). Tudo contra o fato de o Brasil, para muitos, ainda se resumir a clichês que datam dos anos 60. "Quando entro num táxi, nem falo mais que sou brasileira", diz uma amiga que mora há muitos anos aqui e simplesmente se cansou de ouvir piadinhas e cantadas pelo simples fato de ser brasileira.

"Tem homem alemão que acha que pode passar a mão na gente quando falamos que somos brasileiras", me conta uma moça de 20 e poucos anos.

No caso das mulheres, é ainda mais difícil, porque temos essa imagem da hipersexualização, e por isso somos extremamente objetificadas. Nas lojas, ainda é possível encontrar calcinhas tangas chamadas de "modelo brasileiro", e claro, o Brasil é famoso também pela depilação e a cirurgia Brazilian booty lift (um preenchimento dos glúteos conhecido no mundo todo por esse nome "lift de bunda brasileira").

Mas os clichês e estereótipos vão além dos sexuais.

"Quando a minha irmã visitou a Alemanha pela primeira vez sozinha, nos anos 90, já perguntaram para ela se ela ia para a escola de cipó", me conta uma amiga. É chocante que ainda exista gente que pensa que o Brasil é uma selva, na "civilizada" e "educada" Europa.

Assim como é assustador que ainda haja europeu achando que no Brasil falamos espanhol. "Você pode ajudar minha filha na lição de espanhol?" Eu já ouvi isso de uma mulher teoricamente muito culta e sofisticada. Como pode?

Outro clichê comum (e que acho que atinge os latinos em geral) é o temperamento "quente, passional". Quem me conhece pessoalmente sabe que eu sou uma pessoa inofensiva, que as crianças adoram e que não oferece perigo (risos) mas juro que uma alemã já se referiu a mim da seguinte maneira: "Ela tem uma energia brasileira muito forte e eu me sinto desprotegida diante dela". Eu não estou brincando. Isso aconteceu comigo.

O que é "energia brasileira" é algo que eu ainda não entendi e nem pretendo entender. Já o preconceito, entendi na hora. A "pobre mulher branca europeia" se sentiu "desprotegida" diante da "selvagem". Sem querer, ela reproduziu outro clichê.

Não estou falando que todos os europeus têm essa ignorância e preconceitos em relação ao Brasil e brasileiros, de forma alguma. O que acho importante é a gente reconhecer que esse comportamento ainda existe. E denuncie para que um dia, quem sabe, brasileiros sejam tratados apenas como… pessoas que nasceram num país diverso chamado Brasil.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

Pensamento do Dia

 


Quando entramos em colapso?

Pode-se estranhar a pergunta, uma vez que ouvimos diariamente que a civilização tem avançado e que novas tecnologias nos trarão glórias ainda maiores. A segunda afirmação é questionável, pois todas as novidades trazem aspectos positivos e negativos, raramente devidamente ponderados. A primeira é puramente ideológica, pois não se define nem se mede o “avanço” de uma civilização.

Não obstante, são muitos os casos de antigas civilizações que colapsaram. Será que seus habitantes também e equivocadamente se autodenominavam sapiens? A crença de que “desta vez somos diferentes” é pura propaganda, como resume o dito popular: “quanto maior o pau maior o tombo”!


Eric Cline analisou o colapso simultâneo das “avançadas” civilizações da Idade do Bronze Recente: hititas, egípcios, Grécia micênica, cipriotas e várias outras, todas elas localizadas no mediterrâneo oriental e no que hoje chamamos oriente médio. Como o fato ocorreu no início do século XII AC, é impossível estabelecer uma razão única para explicar o colapso. As evidências arqueológicas mostram com clareza que o processo foi longo, violento e de grande sofrimento. Quais fatores levaram ao colapso?

Vários, cada um com diferentes pesos, conforme o analista. À época a região foi afetada por fortes terremotos, e razões ainda não esclarecidas interromperam a intensa globalização então vigentes, com comércio internacional e grande complexidade nas relações econômicas e políticas. Cartas trocadas – em idiomas há muito restritos a especialistas – entre diferentes faraós e reis mostram cooperação, disputa, alianças, traições, erros e acertos de estratégias comerciais e militares, evidenciando a intensa troca de produtos e ideias.

Outro fator importante foi – pasmem os incrédulos de hoje! – mudança climática! Sim, não só cartas de contemporâneos informavam da seca e da fome; registros de carbono e análises recentes de sedimentos de pólen em lagos e outras estruturas atestam a seca, ou melhor, a mega seca de décadas ocorrida então! Alguma dita “potência agrícola” atual, seja o Brasil, os EUA ou a Ucrânia, resistiria a uma seca de 20, 30 anos ou mais? Como ficaria o “agribusiness” diante de um tal fato? Mesmo sem seca ou mega seca nossas tecnologias e instituições não conseguem acabar com a fome; como se comportarão em tal calamidade? E como reagirá a população faminta?

Muitos dos fatores que levaram ao colapso repetem-se hoje, com maior ou menor força. Um deles é a visão limitada dos líderes, apontado por uns e questionado por outros. Já a civilização atual é dirigida por pessoas que só enxergam e agem em razão do próximo ciclo eleitoral – ou, no caso dos dirigentes corporativos, o resultado do trimestre. Assim, os arqueólogos do futuro, ao analisarem os escombros do nosso mais ou menos iminente colapso, saberão eles dar o devido peso à limitadíssima visão dos que nos governam?

Obscenidade governamental

Havia algo de obsceno no espetáculo de sua ostensiva ganância. Havia algo aterrorizante no rompimento da relação de confiança entre o povo e os representantes políticos que haviam eleito, o povo e o servidor público a quem pagavam para proteger seus direitos fundamentais
Morris West, " Do alto da montanha"

Em defesa do Estado

Sociedades civilizadas dependem das instituições. Quanto mais complexa a sociedade, mais vital são essas instituições. Instituições proporcionam estabilidade, previsibilidade e segurança. Empresas, escolas, universidades e tribunais são instituições. No entanto, as instituições mais importantes são as do Estado. É por isso que a ofensiva de Donald Trump contra o que seus apoiadores de forma enganosa chamam de “o Estado profundo” é tão perigosa. Alguns deles acreditam que o Estado deveria ser servil aos caprichos do grande líder. Outros acham que deveria estar a serviço dos mais ricos. Ambos esses lados concordam que a capacidade do Estado de atender às necessidades do grande público é de pouca importância. Esses pontos de vista são perigosos. Prenunciam autocracia, plutocracia e disfunção.


Em uma importante série de artigos, “Valuing the Deep State” (Valorizando o Estado profundo, em inglês), Francis Fukuyama, de Stanford, examina por que a evisceração do Estado se mostrará tão destrutiva. Fukuyama devotou grande parte dos últimos 20 anos para explicar que “um Estado de alta capacidade, profissional e impessoal, é crucial para o sucesso de qualquer sociedade”, inclusive, notavelmente, as democracias modernas liberais. Esse ponto de vista é abominado por muitos americanos: eles veem o Estado - ou simplesmente o “governo” - como o inimigo.

No entanto, qualquer um que tenha trabalhado na área de desenvolvimento econômico, como eu, sabe que, sem um serviço público neutro, competente e profissional, nada na sociedade realmente funciona. Quanto mais complexa e refinada uma sociedade e economia moderna se torna, mais isso é verdadeiro. Como Fukuyama observa acertadamente, o sucesso extraordinário das economias do Leste da Ásia se deve em grande medida ao fato de que eles entenderam como administrar esse Estado muito antes do que o Ocidente. Ainda mais relevante, ele argumenta que uma “democracia bem-sucedida [...] precisa de um Estado que seja restringido pelo Estado de Direito e pela prestação de contas democrática”.

Nos EUA, a criação de um Estado como esse começou em 1883, argumenta Fukuyama, com a Lei Pendleton, que criou a Comissão de Serviço Civil e estabeleceu critérios baseados no mérito para as contratações e as promoções no serviço federal. Isso é o que o governo Trump - ou, como rotula o historiador Timothy Snyder, o “governo Mump”, para dar o devido crédito ao papel singular desempenhado por Elon Musk - deseja derrubar.

Como explica Fukuyama, o sistema burocrático dos EUA está longe de ser perfeito. O problema, porém, não é, como argumentam os críticos de direita, o fato da delegação de decisões. Alguém imagina que decisões técnicas sobre a segurança das aeronaves ou dos medicamentos, os controles de poluentes perigosos ou a gestão do lixo nuclear deveria ser decidida, em seus detalhes, por parlamentares? Obviamente, decisões desse tipo precisam ser delegadas a especialistas qualificados. A noção de que, em vez disso, elas deveriam ser decididas por pessoas cuja principal qualificação é a lealdade cega ao grande chefe é absurda.

Você não torna um sistema complexo mais “eficiente” cortando-o de forma aleatória. No entanto, você pode, sim, aterrorizar seus funcionários. Portanto, os verdadeiros objetivos são a intimidação e a substituição de servidores públicos genuínos por discípulos

A realidade é que essas “reformas” não têm nada a ver com tornar o governo mais eficiente. O objetivo é, na verdade, tornar “Mump” todo-poderoso. O jogo foi revelado pelo próprio J. D. Vance, segundo o qual, se Trump voltasse a vencer a presidência em 2024, ele deveria “demitir todos os burocratas de nível médio, todos os funcionários públicos do Estado administrativo, substituí-los por nossa gente [...]”. “E quando os tribunais te impedirem, apresente-se diante do país, como Andrew Jackson fez, e diga: ‘O presidente da Suprema Corte de Justiça tomou sua decisão. Agora, deixe-o [tentar] aplicá-la’”. Até aí, portanto, chegou a noção de que os EUA são “um governo de leis, não de homens”. Isso é um golpe.

Esse esforço também não vai transformar as contas públicas. No acumulado do ano fiscal de 2025 até agora, 78% dos gastos federais foram feitos pela previdência social, saúde, defesa, segurança de renda, benefícios para veteranos e juros líquidos. Musk diz que a Doge pode economizar US$ 2 trilhões ao ano. Com gastos de 2024 na faixa de US$ 6,8 trilhões, isso parece absurdo.

Em suma, você não torna um sistema complexo mais “eficiente” cortando-o de forma aleatória. No entanto, você pode, sim, aterrorizar seus funcionários. Portanto, os verdadeiros objetivos, como Anne Applebaum observa, são a intimidação e a substituição de servidores públicos genuínos por discípulos. Os benefícios são claros: isso permitirá que os responsáveis usem os poderes do governo para processar “inimigos”, intimidar jornalistas, espalhar mentiras, ignorar a ciência e atacar governos estaduais e municipais que saiam da linha, se necessário à força. E quanto ao Estado de Direito? Vance já disse o que pensa dessa ideia. O objetivo, então, é transformar os EUA em uma ditadura plebiscitária, na qual o detentor do poder é rei. Essa revolução será compatível com eleições justas no futuro? É preciso ter dúvidas quanto a disso.

Afinal, grande parte de tudo isso será irreversível. Uma vez que a lealdade substitua a integridade e as mentiras substituam a verdade, o caminho de volta será longo. Uma vez que você demita servidores públicos competentes e honestos, com que facilidade você encontrará pessoas similares no futuro? Os serviços de inteligência, os de dados e os de análises científicas dos EUA eram referências mundiais. Quanto disso sobreviverá? Um dos testes para o emprego será se alguém aceita a mentira de que Trump venceu em 2020. Provavelmente, apenas concordarão os carreiristas e os fanáticos do movimento “Maga” (Make America Great Again).

Se o tipo de Estado elogiado por Fukuyama for substituído pelo que se pretende agora, é inevitável o surgimento de uma mistura venenosa de incompetência, predação e corrupção. Entre as características prejudiciais estará o que Daniel Kaufmann, pesquisador sênior da organização sem fins lucrativos Results for Development, chama de “captura do Estado” - a exploração do poder por aqueles que são capazes não apenas de dobrar as regras, mas de criá-las, para seu próprio benefício. Para um país de alta renda, os EUA já estão relativamente capturados. Isso, contudo, está prestes a piorar, agora que as regras de proteção à independência dos funcionários públicos estão por ser abolidas.

O que está acontecendo é destruição, não reforma. Não importa o que tenham dito a eles, os americanos comuns não se beneficiarão do caos. Mas sabemos quem vai se beneficiar.

Não em meu nome: contra a racialização da moralidade

Nas últimas semanas, tivemos uma amostra impressionante do que significa "dobrar a aposta" quando se trata das estratégias de assédio identitário. De costas quentes, agora que uma corte de Justiça afirmou que o racismo é o único crime exclusivo de uma raça –uma vez que só os brancos podem cometê-lo–, militantes identitários começam a se sentir confortáveis para dar uma justificativa biológica e genética à sua glorificação do ressentimento e aos seus atos de revanche.


Primeiro, veio o caso de Maria Rita Kehl, atacada por fazer uma crítica progressista ao peculiar gosto identitário pelo monopólio da fala autorizada, sobretudo quando se trata de veredictos e libelos de condenação. Foi desqualificada por associação genética. A conclusão da turba que a linchou foi que ela carrega um pecado imperdoável: um antepassado. Diferentemente do pecado original religioso, esse nunca será redimido; sua biologia a condena à condição perpétua de penitente.

Na semana seguinte, foi a vez de Walter Salles Jr., denunciado e condenado pelo pecado de nascer branco, portanto, pertencente à linhagem dos escravocratas. Quem o disse com todas as letras foi uma coluna publicada no jornal Estado de Minas. O artigo é um exercício explícito de racialização e essencialização moral. A autora sustenta que, ao olhar para o rosto do cineasta, enxerga apenas "a descendência dos que torturaram, estupraram, açoitaram, mantiveram em cárcere" seus próprios ascendentes.

A lógica subjacente é a de que a moralidade e o caráter de um indivíduo podem ser inferidos de sua linhagem racial ou ancestral, estabelecendo uma equivalência automática entre a cor da pele de Salles, seus antepassados e uma culpa histórica impagável que, por isso mesmo, lhe pertence integralmente. Isso confere à autora o direito imediato e irrevogável de desprezá-lo.

A autora não vê um ser humano, mas um "herdeiro direto da desgraça", um representante não apenas dos escravocratas históricos, mas de toda uma raça e classe social beneficiária do racismo. A responsabilidade pela dor da autora não recai sobre sistemas e estruturas, mas sobre a identidade racial daquele indivíduo singular. Em outras palavras, a descendência biológica de uma pessoa se torna critério suficiente para julgá-la moralmente –exatamente o princípio que fundamenta todo pensamento racista.

Se tomarmos esse artigo como um exemplo do que o identitarismo tem produzido, identificamos claramente algumas de suas consequências mais problemáticas. Primeiro, a atribuição hereditária de culpa e moralidade. O artigo não julga indivíduos por suas ações, mas por suas origens raciais; lógica que historicamente foi utilizada para justificar discriminação e perseguição. Segundo, a demonização de um grupo com base na cor da pele. O indivíduo se resume aos seus traços fenotípicos e à sua ascendência, o que valida o princípio que sustentou a desumanização de grupos raciais no passado. Terceiro, o reforço de um binarismo racial que essencializa todos os conflitos sociais. O artigo apresenta um mundo rigidamente dividido entre opressores e oprimidos, fixos e organizados por raça, onde os indivíduos não valem pelo que fazem, mas pela linhagem racial a que pertencem.

Temos aqui uma versão da teoria da "raça infecta" ou "raça maldita". Salles seria um exemplar dessa raça moralmente degradada em todos os seus ascendentes e descendentes, merecedor, portanto, de todo o nojo, rancor e ressentimento. Cada indivíduo pertencente a essa raça exala o horrível odor da depravação moral de sua estirpe. Kehl e Salles são exemplares de uma raça, não pessoas.

O radicalismo, por mais nocivo que seja, tem uma característica notável em qualquer sociedade onde aparece e prospera: ele precisa ser alimentado. Primeiro, pela condescendência de quem tem legitimidade social, não é radical, mas simpatiza com "alguma coisa" que considera positiva no movimento. Depois, por quem pavimenta o caminho, justificando seus atos e, por fim, legalizando-o. E, nesse papel, professores, jornalistas e intelectuais têm se esmerado.

Tivesse recebido reprovação social em vez de justificativas, complacência e incentivos, dificilmente esse radicalismo teria chegado ao estágio de brutalidade social que, cedo ou tarde, todo extremismo costuma alcançar. Já passou da hora de cada democrata, progressista, pessoa que acredita em direitos humanos e respeito dizer que esse não é o caminho para construir uma sociedade aceitável.

E de afirmar, com todas as letras: "não em meu nome".

Como a mídia digital está (também) redefinindo a aprovação de Lula

Um debate interessante se estabeleceu no Brasil, com cientistas políticos tentando entender os baixos índices de aprovação do governo Lula. Pelo menos duas pesquisas importantes, Quaest e Datafolha, apresentaram índices de aprovação de 31%, em janeiro, e 24%, em fevereiro. Os números chamam a atenção em um contexto de relativa normalidade, sem uma grande crise política ou econômica, de fato, acontecendo.

A ciência política tem interpretado o fenômeno a partir de uma transformação histórica e como algo "estrutural", não de conjuntura. No passado, o apoio político era, em geral, explicado por questões econômicas, isto é, benefícios sociais e aumento da renda eram imediatamente transformados em altos índices de aprovação. Agora, há as questões pós-materiais ligadas às questões culturais e de identidade. No Brasil, o crescimento do protestantismo teria fortalecido a meritocracia e a responsabilidade individual, mudando a perspectiva sobre bens gerados pelo governo. O que antes era visto com gratidão, agora seria percebido como nada além de uma obrigação.


Do ponto de vista da comunicação política, gostaria de acrescentar outro elemento fundamental nessa equação: a transformação do ambiente midiático. A insatisfação sempre foi parte da democracia, mas sua organização e canalização se transformaram radicalmente com a ascensão da mídia digital. Antes, o jornalismo atuava como mediador da insatisfação, selecionando, enquadrando e direcionando as demandas populares. Agora, as mídias sociais e plataformas digitais permitem que a insatisfação flua de maneira mais autônoma, descentralizada e contínua.

Essa nova organização da insatisfação pode ajudar a entender por que a aprovação dos presidentes tem se tornado mais instável e, muitas vezes, mais baixa. Dados do Latinobarômetro mostram que a insatisfação com os governos é uma tendência consolidada na América Latina, onde a maioria dos presidentes enfrenta dificuldade em manter altos índices de aprovação e, principalmente, se reeleger. O tempo das "luas de mel" prolongadas com novos líderes parece ter acabado. Em países como Chile, Equador e Colômbia, presidentes recém-eleitos rapidamente enfrentaram grandes protestos e quedas de popularidade. Nos Estados Unidos, o fenômeno também se manifesta de forma evidente. Pela primeira vez na história moderna, dois presidentes consecutivos não conseguiram se reeleger: Donald Trump e Joe Biden. A popularidade de ambos os líderes foi impactada por um cenário de polarização intensa, amplificado pela dinâmica das mídias sociais.

Historicamente, presidentes no Brasil e nos Estados Unidos terminavam seus mandatos com taxas de aprovação relativamente altas. Dwight D. Eisenhower (59%), Ronald Reagan (63%) e Bill Clinton (66%) deixaram o cargo com forte apoio popular. No Brasil, tanto FHC quanto Lula mantiveram aprovações acima de 40% durante suas campanhas de reeleição. Em contraste, os presidentes na era digital lutam para manter a confiança do público. Donald Trump (34%) e Joe Biden (40%) terminaram com taxas de aprovação historicamente baixas nos EUA, enquanto Jair Bolsonaro no Brasil mal alcançou 38% em seu ano de reeleição, com taxas de desaprovação ultrapassando 50%. A mídia digital não apenas potencializa críticas e crises políticas, mas também redefine o que significa governar sob constante escrutínio público.

O Brasil se encaixa nesse padrão global de insatisfação elevada. A comparação com o passado sugere que os mesmos fatores que antes garantiam popularidade — como estabilidade econômica e benefícios sociais — já não são suficientes para manter altos índices de aprovação. Se o governo Lula enfrenta dificuldades mesmo sem uma grande crise econômica, isso está também relacionado à nova lógica da comunicação digital, que alimenta percepções de crise constante, acelera ciclos de indignação e reduz a paciência da sociedade com seus líderes.

O fenômeno da crescente insatisfação na era digital não significa necessariamente que a democracia esteja em risco, mas sugere que os padrões de governabilidade e popularidade precisam ser reavaliados. Em um ambiente onde a insatisfação não só é mais visível, mas também mais volátil e mobilizável, a política precisa encontrar novas formas de responder às demandas sociais sem depender exclusivamente de ciclos econômicos positivos. Caso contrário, veremos cada vez mais presidentes assumindo o cargo já desgastados, enfrentando aprovações baixas e dificuldades crescentes para manter o apoio popular.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

A guerra

A guerra que aflige com os seus esquadrões o Mundo,
É o tipo perfeito do erro da filosofia.
A guerra, como todo humano, quer alterar.
Mas a guerra, mais do que tudo, quer alterar e alterar muito
E alterar depressa.
Mas a guerra inflige a morte.
E a morte é o desprezo do Universo por nós.
Tendo por consequência a morte, a guerra prova que é falsa.
Sendo falsa, prova que é falso todo o querer alterar.
Deixemos o universo exterior e os outros homens onde a Natureza os pôs.
Tudo é orgulho e inconsciência.
Tudo é querer mexer-se, fazer coisas, deixar rasto.
Para o coração e o comandante dos esquadrões
Regressa aos bocados o universo exterior.
A química direta da Natureza
Não deixa lugar vago para o pensamento.
A humanidade é uma revolta de escravos.
A humanidade é um governo usurpado pelo povo.
Existe porque usurpou, mas erra porque usurpar é não ter direito.
Deixai existir o mundo exterior e a humanidade natural!
Paz a todas as coisas pré-humanas, mesmo no homem!
Paz à essência inteiramente exterior do Universo!

Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa)

Como Trump está transformando os EUA na China dos anos 2000

Quando olho para a enxurrada de decretos e tarifas que o presidente Donald Trump emitiu desde que assumiu a Presidência dos Estados Unidos, tenho medo de estar assistindo à versão da vida real daquele comercial do Conselho de Planejadores Financeiros Certificados que tenta mostrar por que a especialização é realmente importante.

No comercial, um cirurgião entra em um quarto de hospital e conhece sua paciente. Primeiro, o médico a chama de Brenda e ela responde: "É Carol". Em seguida, o médico pergunta: "Então, em que perna estamos operando?" E ela responde: "Você quer dizer braço". O médico, então, tenta afastar sua preocupação dizendo: "Está tudo conectado".

Agora totalmente aterrorizada, a paciente finalmente pergunta ao cirurgião: "Tem certeza de que é um ortopedista?" O médico responde: "Na verdade, sou de Sagitário".

Perdoe meu ceticismo, mas tenho sérias dúvidas sobre o grau em que Trump e sua equipe de cirurgiões orçamentários realmente estudaram não apenas como implementar todos os cortes, tarifas, congelamentos e demissões que eles se apressaram em fazer, mas também os efeitos de longo prazo que eles terão sobre a governança, o comércio e os investimentos americanos como um todo.


De quem é o trabalho que estamos observando aqui? O de um cirurgião ou o de um sagitariano? Estamos vendo o desdobramento de um plano que foi testado e modelado durante meses, com todas as implicações totalmente compreendidas?

Ou o desdobramento de um guardanapo de papel do bar de Mar-a-Lago, com algumas ideias mal elaboradas esboçadas e, em seguida, uma discussão caótica entre Trump, seus assessores e lobistas sobre quais setores serão atingidos e quais serão poupados?

Vou optar pelo guardanapo. É difícil para mim dizer isso de uma maneira melhor do que um editorial do Wall Street Journal, normalmente pró-Trump, intitulado "A Guerra Comercial Mais Estúpida da História", que diz que "Trump imporá tarifas de 25% sobre o Canadá e o México sem nenhuma boa razão".

Mas as tarifas impulsivas de Trump —que ele parece anunciar e suspender por capricho— são sintomáticas de um desafio mais profundo para os fabricantes americanos sobre o qual quero escrever hoje: como as empresas americanas acompanham o ritmo da China nos setores do futuro, como inteligência artificial (IA), chips avançados, veículos elétricos, tecnologia limpa e carros autônomos, quando essas empresas estão constantemente sendo sacudidas por presidentes democratas e republicanos em um mundo em que precisam fazer apostas multibilionárias com cinco anos de antecedência. E elas precisam fazer essas apostas enquanto competem com a China, cujo regime acorda todos os dias e pergunta aos fabricantes "como posso ajudá-los?", além de "vamos ter uma visão de longo prazo juntos sobre como podemos vencer globalmente".

Para entender isso melhor, visitei a sede da Ford Motor em Dearborn, Michigan, na semana passada, para ver como a empresa está competindo com o rolo compressor de veículos elétricos da China. Quase metade das vendas de carros novos na China é de veículos elétricos a bateria ou híbridos elétricos plug-in, e suas empresas controlam cerca de 60% do mercado global desses modelos.

Isso se deve, em grande parte, ao fato de que Pequim fabrica as melhores baterias para carros do mundo, e qualquer montadora dos EUA que queira ser competitiva no setor de veículos elétricos hoje precisa da transferência de tecnologia de baterias chinesas.

Vou repetir um pouco mais devagar: para serem competitivas globalmente nos carros do futuro, as montadoras dos EUA precisam de transferência de tecnologia de baterias da China.

Estamos falando de uma inversão total em relação a 25 anos atrás, quando a China precisava de transferência de tecnologia da General Motors e da Ford para construir carros competitivos internacionalmente.

Esta é a história em poucas palavras. Atualmente, o setor automobilístico é totalmente global. Uma empresa como a Ford precisa equilibrar o desejo de seus clientes por motores de combustão tradicionais, híbridos plug-in ou veículos totalmente elétricos com recursos cada vez maiores de direção autônoma.

Mas ela precisa fazer isso em um mundo no qual a China fez uma grande aposta em veículos elétricos e está perfeitamente satisfeita em ignorar o mercado dos EUA por enquanto e vencer a Ford e outros fabricantes americanos no Brasil, na Indonésia, na Europa e na África.

Portanto, se a Ford ignorar totalmente o negócio de veículos elétricos, ela entregará o resto do mundo para a China —e corre o risco de acordar um dia, daqui a cinco anos, e descobrir que a maior parte do mundo está usando os veículos elétricos do país asiático— e ficará apenas com os EUA.

Para evitar esse desastre, a Ford, assim como outras montadoras americanas, aproveitou os incentivos oferecidos pelo governo Joe Biden para construir grandes fábricas de veículos elétricos e baterias em solo americano.

A Ford está quase concluindo o BlueOval Battery Park, de 1,7 milhão km2, em Marshall, Michigan, que deve iniciar a produção de baterias de fosfato de ferro e lítio (LFP) em 2026 para os seus veículos elétricos.

A instalação é de propriedade integral da montadora —um investimento de aproximadamente US$ 2 bilhões—, mas as baterias que ela produzirá para seus veículos elétricos são baseadas na tecnologia LFP licenciada da gigante chinesa de baterias CATL. Espera-se que sejam criados cerca de 1.700 empregos. Teria sido mais, mas houve uma desaceleração nas vendas de veículos elétricos nos EUA devido à falta de estações de recarga.

A fábrica Marshall foi originalmente planejada para ser construída no México, mas devido aos incentivos de Biden, a Ford a transferiu para o Michigan —exatamente como o sistema deveria funcionar: Dar às nossas empresas automotivas créditos fiscais para produção e consumo até que o setor ganhe escala e possa sobreviver por conta própria. Exatamente o que a China faz.

Mas a Ford precisava de um parceiro chinês para as baterias. Atualmente, nenhum fabricante americano de baterias pode se equiparar às baterias CATL, que carregam mais rápido e vão mais longe.

"Atualmente, os carros estão se tornando dispositivos de transporte digital", disse o CEO da Ford, Jim Farley. E a China está dez anos à frente na fabricação das baterias para esses carros e na criação dessa experiência de direção digital completa, disse ele.

"Portanto, a maneira de competirmos com eles é obter acesso à sua propriedade intelectual da mesma forma que eles precisavam da nossa há 20 anos e, em seguida, usar nosso ecossistema inovador, a engenhosidade americana, nossa grande escala e nossa intimidade com o cliente para vencê-los globalmente. Esta será uma das corridas mais importantes para salvar nossa economia industrial."

Para isso, a Ford também está se preparando para começar a contratar funcionários para a fábrica BlueOval City que, ao preço de US$ 5,6 bilhões, com 14,6 km2, ela está concluindo na cidade de Stanton, no oeste do Tennessee.

O local inclui uma nova instalação de fabricação de veículos elétricos e baterias e um parque de fornecedores, e também oferecerá programas educacionais para "treinamento técnico, educação para trabalhadores já formados e programas de ensino fundamental e médio, incluindo experiências de aprendizagem baseadas no trabalho, com ênfase em Stem [sigla para ciência, tecnologia, engenharia e matemática em inglês]" para "preparar a próxima geração para construir o futuro do veículo elétrico nos EUA".

Parece um plano muito bom. Mas então Trump substituiu Biden no poder.

Pouco depois de tomar posse —e sem nenhuma consulta prévia à Ford ou, aparentemente, a qualquer outra montadora dos EUA— Trump revogou o decreto de Biden de 2021 que buscava garantir que metade de todos os veículos novos vendidos nos EUA até 2030 fossem elétricos.

O novo presidente também ordenou que a distribuição de fundos governamentais não utilizados para estações de recarga de veículos de um fundo de US$ 5 bilhões fossem suspensas e disse que estava considerando eliminar os créditos fiscais para veículos elétricos —justamente o que fez a Ford apostar maciçamente nessas duas novas fábricas.

Este é exatamente o tipo de pensamento míope de parar e começar que nos colocou nessa confusão em primeiro lugar. Meus compatriotas americanos, vocês sabem por que estamos tão atrasados em relação à China em relação às baterias para veículos elétricos? Por dois motivos. Primeiro, a China forma muito mais engenheiros elétricos e de automóveis do que nós. Em segundo lugar, os inovadores dos EUA inventaram a tecnologia revolucionária de baterias LFP da CATL para veículos elétricos, mas a cederam à China.

O jeito americano é: inventar, ignorar, dar um salto para frente com uma administração e depois dar um salto para trás com a próxima. É uma loucura total. Assim como as adjacências de aço, carvão, motores de combustão e trabalho manual criaram um efeito multiplicador no século 20, o ecossistema de veículos elétricos, IA, robótica, baterias avançadas, tecnologia limpa, sistemas de direção autônoma e trabalho mental digitalizado fará o mesmo no século 21. Se os EUA se ausentarem de qualquer parte desse ecossistema, serão deixados para trás.

As tarifas só fazem com que um país ganhe tempo para que suas empresas possam fazer as mudanças necessárias para competir sem muros. A estratégia de Trump é prejudicar as exportações de nossas montadoras com um muro de tarifas e, em seguida, atirar nas costas delas por trás do muro.

Se Trump tivesse bom senso, ele se diria a favor de todos os itens acima — carros a gasolina, híbridos plug-in, EVs totalmente elétricos e carros autônomos. Tudo o que deveria importar para ele é que os americanos comprassem produtos americanos.

Além disso, para garantir que os grandes fabricantes americanos de veículos elétricos pudessem ganhar escala, ele deveria usar o dinheiro das tarifas para fazer o que os "idiotas democratas progressistas" se recusaram a fazer: aprovar um projeto de lei para construir uma rede nacional de transmissão e uma rede de estações de carregamento rápido, para que qualquer pessoa que compre um veículo elétrico nunca precise se preocupar com viagens de longa distância.

É assim que se faz a grandeza dos EUA. Qualquer coisa menor do que isso é fingimento.

Macho Man


O "Líder do mundo livre" uma vez se referiu a um presidente americano que simbolizava a influência global do país, o comprometimento com a democracia e a defesa dos direitos humanos. Os olhos semicerrados deste presidente = suspeita... lábios apertados = raiva, desaprovação... braços cruzados = hostilidade, hostilidade, tudo indica uma direção diferente e preocupante em casa e no exterior. O apelido emergente de Trump: homem-criança "Valentão do mundo livre". 

POR FAVOR, ACEITE NOSSAS DESCULPAS MUNDO.

A futura ordem global com Donald Trump, o novo 'xerife'

As provocações e confrontos que caracterizaram as primeiras semanas do segundo governo Trump afetaram primeiro os países latino-americanos.

As consequências desse estilo de impor seus interesses já estão sendo sentidas na Europa e em outras partes do mundo, não apenas por meio das tarifas que estão sendo impostas, mas também pelo padrão ideológico que o governante em Washington está tentando impor ao mundo inteiro.


"Há um novo xerife na cidade" foi uma das frases que pontuaram o discurso do vice-presidente JD Vance na Conferência de Segurança de Munique no último fim de semana.

Além do fato de que essa metáfora soa um pouco estranha no contexto da história europeia do desenvolvimento do Estado de direito, ela reflete a fraca compreensão da complexidade das relações internacionais na nova administração em Washington.

Tudo se resume ao que tem sido discutido sob o conceito de "política do homem forte", uma prática que também encontrou muita ressonância em países latino-americanos, caracterizados por uma longa tradição de personalismos.

O que o presidente dos EUA e seus vice-marechals estão tentando apresentar é um retorno a décadas passadas, quando a ordem mundial podia ser facilmente controlada por um pequeno grupo de pessoas que tinham o controle de armas de destruição em massa. Agora, essa narrativa parece ter retornado, não apenas no Ocidente, mas em partes mais amplas do mundo, com base em uma ideologia populista e/ou autocrática.

Por outro lado, a experiência democrática, com seus processos mais lentos e complicados, mas especialmente limitada por instituições de freios e contrapesos, não encontra muito eco entre os eleitores, que exigem respostas imediatas e contundentes aos problemas existentes, seja a situação econômica, a criminalidade ou a própria migração.

A pessoa que parece mais propensa a dar essa resposta é o homem forte, que, como o presidente dos EUA, cria a ilusão de que, ao assinar alguns decretos, a realidade já foi mudada.

Na América Latina, há experiências semelhantes que geraram um discurso de “mão de ferro” para resolver problemas com medidas extraordinárias que se justificam com instrumentos drásticos e ilimitados em sua aplicação. Mas o que parece eficaz à primeira vista em nível local ou nacional não necessariamente tem os efeitos desejados em nível regional ou global.

No entanto, os mesmos "homens fortes", independentemente da sua cor ideológica, continuam a gerar a expectativa de que a simples vontade de um governante é suficiente para mudar as coisas. Enquanto os cidadãos acreditarem que os homens fortes são capazes de apresentar atalhos confiáveis ​​para maior segurança e orgulho nacional, não se deve excluir que as maiores ameaças ainda estejam por vir na forma de colapsos das democracias existentes.

Esse padrão de "política de homem forte" é, de muitas maneiras e em múltiplos aspectos, um ambiente hostil para a UE, não apenas em termos de sua presença global, mas também em relação à sua tradicional aliança transatlântica, que agora é percebida não apenas como mais turbulenta, mas também mais fraca em termos de confiança mútua.

O mais desorientador é a substituição da busca contínua de consenso em nível internacional por uma "guerra cultural", cujos protagonistas não se encontram apenas no campo político republicano nos EUA, mas também na presença ideológica de Javier Milei e de muitos outros protagonistas desse estilo no mesmo território europeu.

Em vez disso, há ameaças aos membros do BRICS e outros organismos que poderiam facilitar a presença do Sul Global em nível internacional, o que poderia levar a uma nova marginalização nos tempos vindouros. Não apenas as ameaças de Trump à Colômbia e à República da África do Sul (que atualmente ocupa a presidência do G20) são prova de que as regras internacionais do direito internacional não são mais relevantes e podem ser substituídas pela força de vontade de uma parte contra as outras.

Os tempos benignos das regras e regimes internacionais dos últimos 30 anos já acabaram há muito tempo. Agora parece que chegou a hora de retomar o processo de "queda de braço" para afirmar os próprios interesses e estabelecer regras sensatas para a ordem global. 

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

Pensamento do Dia

 


Ando com vontade de construir um muro à prova de textões que são a derrota do iluminismo

“Não se deixe distrair. Não se deixe perturbar. Não fique paralisado, nem seja engolido pelo caos que o presidente Trump e seus aliados têm propositalmente criado com a quantidade e a velocidade das ordens executivas; pelo esforço em desmantelar o governo federal; pelos ataques performáticos aos imigrantes, às pessoas trans e ao próprio conceito de diversidade; pela exigência de que os demais países aceitem os Estados Unidos como seus senhores; e pela sensação vertiginosa de que a Casa Branca pode dizer ou fazer qualquer coisa a qualquer momento. O objetivo disso tudo é manter o país na defensiva para que o presidente Trump possa seguir adiante na sua busca pelo máximo poder executivo, e para que ninguém possa deter a agenda audaciosa, equivocada e frequentemente ilegal promovida pela sua administração. Pelo amor de Deus, não desligue.”

Esta foi a abertura do principal editorial do The New York Times do sábado passado. Se parece alarmista, é porque é mesmo; e ainda é pouco diante do que está acontecendo lá em cima.

Eu li e achei que era comigo. Eu sou essa pessoa que está farta, que não aguenta mais o ritmo e o caráter dos acontecimentos, que quer distância do mundo e quer se desligar de tudo — não só do governo Trump e de suas consequências, mas também, e sobretudo, do que acontece no Brasil, onde a cada segundo dia o governo faz alguma coisa para botar mais lenha na fogueira e onde o nível de ódio das redes sociais está chegando ao limite do insuportável.

Aliás: é curioso observar que o ódio, nas redes sociais, atende por hate.

O hate tem um ar de bom moço que o ódio não tem; o hate é chique, o hate permite que os haters possam manter uma distância conveniente do seu próprio veneno e não precisem encarar o fato desabonador de que são pessoas odiosas. Hate dá muito engajamento.

“Eu sou contra linchamento” escrevem os alecrins dourados — e tome hate hate hate, lincha lincha lincha. Essa semana sobrou até para uma xícara da Tania Bulhões, primeiro caso de porcelana cancelada de que tenho notícia.

O New York Times tem razão quando implora aos leitores que não desliguem, porque o mal vence habitualmente pelo cansaço; mas é difícil manter a guarda. Não há Rivotril que baste para quem quer pensar fora da caixa ou remar contra a maré num mundo em que apenas acompanhar o noticiário, em silêncio, já tem um custo emocional tão alto.

Ando com vontade de seguir o ideário do próprio Trump e de construir um muro de todo o tamanho. Não em concreto, óbvio, até porque a decoração da casa não comporta essas coisas, mas um bom muro metafórico à prova de notificações, tuítes, textões e vídeos virais de cinco segundos que são a derrota do iluminismo.

Ou talvez quem sabe a solução seja uma abordagem mais enxuta. Em vez de tentar acompanhar o caos, posso me disciplinar e tentar me dedicar a uma única treta por semana, como quem assina um serviço de streaming, mas só vê uma série de cada vez para não se perder. Uma desgraça por dia, sem maratonas. E, nos fins de semana, só programação leve — um escândalo político do outro lado do mundo, um barraco entre celebridades, uma treta gourmet envolvendo quibe de jaca ou pão de fermentação natural.

Cadê aquela xícara?
Cora Rónai

Se alguém não deve 'esquecer nem perdoar', são os palestinos

Uma imagem vale mais que mil palavras: Centenas de detentos e prisioneiros palestinos que foram soltos no sábado são vistos de joelhos, na prisão, vestindo camisetas brancas com uma Estrela de Davi azul e as palavras "não esqueceremos nem perdoaremos". Israel, portanto, os forçou a se tornarem bandeiras ambulantes do sionismo em sua forma mais desprezível. Na semana passada, foram pulseiras com uma mensagem semelhante: "O 'povo eterno' nunca esquece".

Gideão Levy

Em tempos de intolerância, a palavra não oficial é vista como ameaça

Sábado, 23 de junho de 1934. O telefone toca na casa do poeta Bóris Pasternak em Moscou. É a secretária de Josef Stálin, líder supremo da União Soviética pós-revolucionária. O camarada queria dar uma palavrinha. A histórica ligação registrada pela KGB durou cerca de três minutos, e as perguntas formuladas por Stálin vieram de chofre, sem introito:

— O que você acha de Mandelstam?

— O que se fala sobre a prisão dele nos círculos literários?

Stálin se referia à detenção, um mês antes, do também poeta Osip Mandelstam. Autor de um ácido poema contra o líder, Mandelstam o recitara privadamente para um grupo de 14 intelectuais amigos — entre eles, Pasternak. Este último admirava o colega modernista, porém considerava desnecessária e perigosa para todos a crítica a Stálin. Pego de surpresa, o autor de “Doutor Jivago” e posteriormente Nobel de Literatura (1958) conseguiu apenas articular uma resposta genérica sobre o estilo literário de cada um, resposta essa de que se arrependeria o resto da vida:

— Nós somos diferentes, Camarada Stalin. Ele é modernista, enquanto eu sou de outra tendência. Nada posso lhe dizer sobre Mandelstam — respondeu.

— Só isso? Esse é o máximo de lealdade que você demonstra a um amigo? Você é um péssimo camarada, Camarada Pasternak — retorquiu Stálin antes de desligar.

O escritor ainda tentou se reconectar com o ditador para fazer reparos. Em vão. Stálin perdera interesse. Já sabia o que queria. Ademais, o número de telefone criado pela KGB para essa única chamada já não mais existia.

Esse é o tema do livro “Um ditador na linha” (Cia. das Letras, 2024), em que o autor albanês Ismail Kadaré analisa múltiplas versões do telefonema para refletir sobre a relação entre poder e política, totalitarismo e liberdade de expressão, ditador e poeta. Além da fonte primária — a gravação feita pela KGB —, existem outras 12 versões baseadas na memória do que intelectuais russos da época — como Anna Akhmátova, Ilya Ehrenburg e Isaiah Berlin — ouviram do próprio Pasternak.


Por que evocar esse episódio agora? Porque os tempos andam bicudos, e nunca é demais lembrar quanto o mundo atual precisa de um mínimo de retidão moral e intelectual de cada bípede capaz de pensar para além do próprio nariz. No auge da Segunda Guerra Mundial, o escritor americano John Steinbeck garantia a seu editor que todas as bondades e heroísmos do mundo haveriam de ressurgir, apenas para ser novamente derrotados. “Não é que o mal vá vencer”, escreveu ele. “Isso nunca acontecerá, o mal apenas não morre.”

Em tempos de intolerância galopante, a palavra não oficial (seja ela falada, escrita, cantada ou pensada) é vista como ameaça. E, uma vez farejada, é preciso higienizá-la, por subversiva. Levantamento recente do jornal The Washington Post detectou 662 exemplos de alteração no vocabulário de 14 agências federais sob Donald Trump, alterando a comunicação em 8 mil sites do governo. A palavra “diversidade” foi banida, não terá substituto, na esperança, talvez, de assim fazer desaparecer também a comunidade LGBT+, as diferenças de gênero, raça e cor. “Mudança climática” agora atende pelo nome de “resiliência climática”. “Direitos Humanos”, “aumento de desigualdades”, “promoção de justiça social” ou “violação de direitos civis” já estão na linha de tiro. O ideal imaginado de uma América grande, branca e macho?

Já se escreveu aqui que palavras são acontecimentos, elas fazem coisas, mudam coisas, transformam tanto quem as pronuncia como quem as ouve. Governos autoritários ao longo da História sempre procuraram encurtar o vocabulário oficial, simplificar ao máximo as palavras de ordem, os diktats, ucasses ou as ordens executivas de agora.

Em seu livro sobre a emergência de novos autocratas (“Autocracia, Inc.”), a jornalista Anne Applebaum cita um memorando interno do Partido Comunista Chinês intitulado “Sobre o estado atual da esfera ideológica”. O documento de 2013 listava os principais perigos a ser enfrentados pelo presidente Xi Jinping. No topo da lista vinha a “democracia constitucional ocidental”, seguida por “direitos humanos universais”, “independência da mídia”, “independência judicial” e “participação cívica”.

Passados 15 anos desde a circulação desse documento, a China de Xi Jinping já pode se concentrar noutras preocupações, pois, na toada atual, é o próprio Trump que parece estar empenhado em enterrar a democracia constitucional tal qual a conhecemos.

O amanhã dessa distopia em curso nos foi exibido dias atrás em cena no Salão Oval da Casa Branca. De pé e à vontade, envergando boné, capote preto e camiseta, estava a criatura Elon Musk, centro das atenções. Vez por outra ele levantava do chão sua indócil cria de 4 anos, cujo nome de batismo é X Æ A-12, para acomodá-lo nos ombros. Sentado e algo acabrunhado estava o 47º presidente dos Estados Unidos. Novos tempos.
Dorrit Harazim

Cápsula do tempo encontrada no planeta morto


Na primeira era, criamos deuses. Esculpimos-os em madeira; ainda havia madeira naquela época. Forjamos-os em metais brilhantes e os pintamos nas paredes dos templos. Eram deuses de muitos tipos, e deusas também. Às vezes eram cruéis e bebiam nosso sangue, mas também nos davam chuva e sol, ventos favoráveis, boas colheitas, animais férteis, muitos filhos. Um milhão de pássaros voavam sobre nós então, um milhão de peixes nadavam em nossos mares.

Nossos deuses tinham chifres em suas cabeças, ou luas, ou barbatanas, ou bicos de águia. Nós os chamávamos de Onipotentes, nós os chamávamos de Brilhante. Sabíamos que não éramos órfãos. Sentíamos o cheiro da terra e rolávamos nela; seus sucos corriam por nossos queixos.

2. Na segunda era, criamos o dinheiro. Esse dinheiro também era feito de metais brilhantes. Tinha duas faces: de um lado, uma cabeça decepada, a de um rei ou outra pessoa notável, do outro lado, algo mais, algo que nos daria conforto: um pássaro, um peixe, um animal peludo. Isso era tudo o que restava de nossos antigos deuses. O dinheiro era pequeno, e cada um de nós carregava um pouco dele todos os dias, o mais próximo possível da pele. Não podíamos comer esse dinheiro, usá-lo ou queimá-lo para nos aquecer; mas como que por mágica, ele podia ser transformado em tais coisas. O dinheiro era misterioso, e o admirávamos. Se você tivesse o suficiente, diziam, você seria capaz de voar.
Margaret Atwood