terça-feira, 21 de janeiro de 2025

Homem vale mais

A política é desumana, porque dá ao homem o mesmo valor que uma vírgula em uma conta. Eu não sou um homem político, justamente porque amo o homem. 
João Guimarães Rosa

Quem poderá deter Donald Trump?

Logo no início de seu mandato, Jair Bolsonaro nomeou José Salim Mattar para o recém-criado cargo de secretário Especial de Desestatização. Fundador da maior locadora de automóveis da América Latina, o empresário se dizia um defensor das ideias liberais e com o tempo se converteu num dos principais doadores de campanha do Brasil - em 2022 ele aportou R$ 2,9 milhões do próprio bolso na eleição, a maioria para candidatos de direita.

A ideia do superministro da Economia, Paulo Guedes, de trazer um empresário de sucesso para comandar a secretaria responsável pelas privatizações era superar as resistências da burocracia, imprimindo ao processo o ritmo e a eficiência próprios do setor privado. Com a venda de estatais e de imóveis da União, Guedes esperava gerar R$ 2 trilhões de caixa até o final do mandato.

Vinte meses depois de tomar posse, contudo, Salim Mattar apresentou sua carta de demissão. Num dos últimos atos de sua fugaz passagem pelo setor público, o dono da Localiza apresentou num powerpoint o fluxograma do processo para a venda de estatais - um emaranhado de caixinhas, cada uma representando um órgão diferente, dentro das quais emergia uma gincana de pareceres jurídicos, avaliações econômico-contábeis e variadas exigências regulatórias e autorizações legislativas.

Acostumado a mandar e desmandar em sua companhia, o empresário sucumbiu diante dos ritos do serviço público, regidos pelos princípios da legalidade, da impessoalidade e da transparência.

Ao tomar posse como o 47º presidente americano, Donald Trump retorna à Casa Branca trazendo como uma das principais novidades a criação do Departamento de Eficiência Governamental, uma espécie de ministério (embora deva funcionar mais como um conselho) destinado a eliminar despesas e regulamentações entendidas como desnecessárias. Para conduzir o órgão, Trump anunciou o empresário e político Vivek Ganapathy e ninguém mais, ninguém menos, que Elon Musk, o homem mais rico do mundo.

Nos últimos anos, Musk se aproximou de Trump e apoiou o Partido Republicano com doações eleitorais que, segundo apuração do jornal Washington Post, passaram de US$ 277 milhões. Com negócios multibilionários nas áreas de inteligência artificial (OpenAI), veículos elétricos (Tesla), exploração espacial (SpaceX) e redes sociais (X), são claros os interesses do empresário sul-africano em estreitar laços com o mandachuva do Salão Oval da Casa Branca.

Por seu turno, ao trazê-lo para sua equipe de governo, Trump acredita na mística de Midas de Elon Musk. Embora herdeiro de uma das famílias mais ricas da África do Sul, Musk multiplicou sua fortuna com inovações disruptivas que, na visão do velho-novo presidente americano, serão fundamentais para reduzir de forma drástica o crônico déficit fiscal do governo e extinguir normas e exigências burocráticas que, na sua visão, são obstáculos à prosperidade do país. Nos “cálculos” de Musk, o novo órgão seria capaz de gerar uma economia de US$ 2 trilhões com o corte de desperdícios, o fechamento de agências governamentais e a demissão de servidores públicos ociosos.

O resultado das eleições americanas veio acompanhado de grandes expectativas, para seus apoiadores e fãs, e muitos temores da parte de todos que não compactuam com suas ideias. Afinal, Trump não apenas volta ao comando da maior potência econômica, bélica e tecnológica do globo, como vem acompanhado de maiorias do Partido Republicano na Câmara e no Senado, além do domínio conservador na Suprema Corte.

Tamanho poder, aparentemente desprovido de contrapesos institucionais, é o que alimenta o ânimo dos trumpistas quanto a uma guinada radical à direita não apenas nos Estados Unidos, mas no mundo todo. No lado oposto, seus críticos questionam quem ou o que poderá deter Donald Trump em seu segundo mandato, contendo os potenciais estragos sobre as instituições multilaterais, os esforços contra o aquecimento global, a desigualdade econômica e a própria democracia.

Do ponto de vista político, há quem deposite suas esperanças na reação da sociedade americana caso Trump extrapole os limites do seu cargo, ou até mesmo numa perda da maioria republicana nas eleições de meio de mandato. Na economia, existem aqueles que acreditam que parte do empresariado americano irá se opor a medidas radicais que elevem os custos de seus negócios ou que gerem reações de outros países, como uma elevação drástica de sobretaxas contra importados (sobretudo chineses) ou uma política de deportação em massa que agrave desequilíbrios no mercado de trabalho.

E aqui voltamos a Elon Musk e aos vários outros empresários e executivos que Trump recrutou para postos-chave de sua gestão. Os paralelos com a experiência brasileira não se limitam às doações milionárias e aos trilhões prometidos de cortes nas despesas públicas. A presunção desses homens de negócios, combinada com o desconhecimento da máquina pública, pode emperrar muitas das ações pretendidas por Trump.

A ver se, também no setor público, Musk e seus colegas conseguirão transformar tudo em ouro - ou, como eles preferem, em criptomoedas.
 Bruno Carazza

Trump e a terra de Murici

Em uma cerimônia que será lembrada como o apogeu da reação política conservadora após anos de hegemonia progressista, o presidente empossado Donald Trump prometeu restaurar um mundo destinado aos fortes.

Segurança de fronteiras com uso das forças armadas, protecionismo comercial, expansão da indústria militar, exploração máxima de fontes de energia poluentes e não renováveis, transferência de recursos de outras nações para os Estados Unidos por meio de tarifas, o fim do politicamente correto (que está sendo classificado como uma antítese da liberdade de expressão), controle da inflação e consolidação de uma área de influência no hemisfério ocidental e, mais especialmente, no continente americano.


Foi um discurso direcionado para o que se chama de “América Profunda”, com forte carga emotiva e nostálgica. Mas também um texto com muitos – e duros – recados para o mundo.

Autolegitimado por um discurso de que o mundo se acostumou a obter vantagens injustas dos EUA, Trump sinalizou que a nova administração abrirá inúmeras frentes de renegociação de tratados e acordos comerciais, colocando os países na defensiva.

O “America First”, nesse sentido, é uma força real de motivação de políticas domésticas e de relações exteriores. Para dentro, capitaliza uma energia eleitoral incrível, que lhe deu maioria na Câmara e no Senado e, para fora, promove um novo balanço das forças a partir do abandono de padrões multilaterais e da negociação individual, que valoriza o peso desproporcional dos Estados Unidos.

Para obter mais vantagens, Trump quer fazer acreditar que seu país não tem um rival à altura. A ameaça de sobretaxar países que tentarem substituir o dólar nas suas transações comerciais – cogitado pelo grupo dos Brics –, passa o recado de que nações não alinhadas não têm a quem recorrer e que passar para a zona de influência da China não é uma opção.

Com a oposição enfraquecida, analistas têm escrito que os principais limites à ação de Trump devem vir de rachaduras internas e do resultado de escolhas erradas que podem ser feitas. Como grupo heterogêneo, haverá divergências entre aliados. Um exemplo é a fala de Elon Musk na qual a política migratória deve abrir exceções para trabalhadores altamente qualificados.

Outra discussão é se a combinação de restrição a imigração, a taxação das importações e estímulos dados à economia por meio do corte de impostos não ampliará o problema da inflação. Além disso, pode-se se perguntar se a atitude agressiva dos Estados Unidos em relação às suas áreas vizinhas não estimulará o expansionismo russo ou chinês.

Por ora, no entanto, essas rachaduras não aparecem e o que chama atenção é a imagem de concentração de poder. A presença de praticamente todos os chefes das Big Techs na posse foi a mais simbólica das fotografias tiradas na posse, mostrando uma corte tecnológica e poderosa em torno do Trump.

Curioso que isso ocorre ao mesmo tempo em que começa em Davos o Forum Econômico Mundial. Para inaugurar o encontro, foi divulgado o relatório anual de riscos que elegeu “desinformação e as notícias falsas” como a principal ameaça ao planeta, acima até da emergência climática.

Trata-se de um período conflituoso entre países, entre grupos sociais, empresas e governos. Não que outros tempos não o fossem, mas há uma diferença neste ciclo político inaugurado junto com Trump. Deixa-se de lado o véu típico das disputas diplomáticas e escancara-se que, hoje, o que vale e a regra da terra de Murici, onde cada um cuida de si.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

Ocasião faz o tirano


Que a tirania de dez milhões se exerça sobre um indivíduo, que a de um indivíduo se exerça sobre dez milhões, é sempre tirania, é sempre uma coisa abominável.

Alexandre Herculano

Como sobreviver a Trump e big techs

Para evitar compras supérfluas, resolvi consertar algumas roupas velhas. Por meio das redes sociais, consegui uma costureira que veio da Baixada Fluminense com sua máquina, trabalhou algumas horas e resolveu tudo.

Fiquei maravilhado com o fato de as redes sociais, além de terem importância comercial, abrirem fontes de renda para milhares de trabalhadores autônomos. Andei pesquisando, e alguns números indicam que cerca de 10 milhões de pessoas geram parte ou toda a sua renda nas redes. Numa pesquisa de 2023, mais de 60% das pequenas empresas brasileiras retiravam parte ou toda a sua renda de plataformas como Instagram e Facebook.

No momento, temos discutido muito o alinhamento da Meta ao governo Trump e a desmontagem de sua estrutura de checagem do material que veicula. Sem dúvida, um tema importante porque trata de questões políticas, democracia, liberdade de expressão, fake news e respeito à legislação nacional.

Vejo essa posição da Meta como uma ponta do iceberg. O fato principal é a existência de uma coalizão de bilionários donos das big techs com o governo dos Estados Unidos. Elon Musk, X, Mark Zuckerberg estão ao lado de Trump numa aventura inédita na História mundial.

De um ponto de vista econômico, que tipo de resistência é possível oferecer a essa nova coalizão?

Países como a China criaram suas redes sociais próprias: WeChat (semelhante ao WhatsApp, com funções adicionais de pagamento e comércio digital), Weibo (similar ao X) e Douyin (TikTok).

A China tem uma perspectiva de controle político, uma visão mais severa de segurança nacional e muita tecnologia. Não é o modelo.

Mesmo com o risco de parecer ingênuo, estou tentando formular algumas ideias que possam nos tornar menos vulneráveis a esse tremendo poder simbolizado pelo novo governo americano e as big techs.

Confesso que estou tateando. No entanto me arrisco a dizer que alguns fatores da luta contra o aquecimento global convergem diretamente para uma pauta de resistência democrática a essa formidável aliança de extrema direita.

O primeiro ponto que poderá nos fortalecer é uma transição rápida no campo da energia. Energia renovável e abundante é necessária não apenas para o crescimento sustentável, mas para amparar um avanço tecnológico. Centros de dados e a inteligência artificial são vorazes consumidores de energia.

O país precisaria de mais satélites. Servem para monitorar o clima, mas também para basear uma estrutura própria de comunicação.

Aliás, nesse contexto tão delicado, redes de comunicação local, intranets, tecnologias off-line, tudo isso poderia ajudar. Assim como poderia ajudar o investimento em infraestrutura descentralizada, diversificação econômica e inovação tecnológica. O Brasil ficaria mais forte formando mais gente em cibersegurança, engenharia de rede e gestão de crises.

Outro aspecto que reduziria a vulnerabilidade é incentivar a produção local para reduzir a dependência das cadeias globais. Sentimos como na pandemia Índia e China tinham mais produtos médicos; na guerra na Ucrânia, corremos atrás de fertilizantes.

Não sei ainda se isso é um programa sensato para tornar o país menos vulnerável. No momento, o único fator que detém os bilionários das big techs é o lucro. O Brasil é um grande mercado. No entanto, em certos momentos, pode ser que, por motivos políticos, queiram dar um xeque-mate. Aí então, o conceito de soberania nacional transcende ao campo simbólico, não depende tanto de juízes do STF, mas sim da base material para começar uma conversa.

Não é preciso criar uma rede social nacional, mas estar próximo disso é um grande argumento: data centers, internet de alta velocidade, tecnologia de inteligência artificial e algoritmos, muita gente especializada e, sobretudo, recursos — tudo isso se acumulando no tempo acaba sendo um fator de dissuasão.

Trump: Um cão que sempre ataca

A partir desta segunda-feira veremos o quanto morde esse cão que late grosso. Será o dia da posse do novo presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, este seguidor do estrategista político da extrema direita (all-right) Steve Bannon, que mandou “atacar sempre”.

Atacar sempre é o que Trump não deixa de fazer, com o objetivo declarado de pôr em prática o lema do aviador Charles Lindbergh, evocado em 1941: “America first”, a América em primeiro lugar.

É postura que implica escolha permanente do inimigo a combater. E o principal é a China, e não mais a extinta União Soviética ou a nova Rússia comandada por Vladimir Putin, hoje tido mais como aliado do que como antagonista.


As ameaças de anexar o Canadá e a Groenlândia, mais a de intervir no Canal do Panamá, por enquanto não parecem mais que latidos estridentes destinados a desviar a atenção de outros alvos prioritários.

Trump alardeia a iminência de uma política fortemente protecionista, que procure cortar as asas da China e dos novos campeões globais.

Será uma política que apresenta lá suas limitações. A China tira, sim, mercado do produtor e emprego do trabalhador dos Estados Unidos quando mantém uma política agressiva de exportações e emplaca um superávit

comercial de quase 1 trilhão de dólares em 12 meses, como em 2024. Mas é esse megasuperávit que também constrói sólida demanda por títulos do Tesouro dos Estados Unidos, a ponto de compor a maior parte das reservas externas chinesas, hoje de US$ 3,2 trilhões. Sem essas compras massivas de treasures pela China, a sustentação da dívida e da política fiscal dos Estados Unidos corre riscos.

Além disso, todas as grandes empresas dos Estados Unidos estão na China e exportam de lá. O poderoso Tycoon da Tesla, de Elon Musk, vem batendo recordes de produção e de exportação de carros elétricos a partir da China. Tirar oxigênio das exportações chinesas acabará por asfixiar também cadeias produtivas em capitais dos Estados Unidos. É mais uma limitação.

Uma política protecionista para valer não prejudicará apenas a China e demais tigres asiáticos. Tenderá a sangrar, também, a produção da União Europeia e dos parceiros comerciais dos Estados Unidos, Canadá e México. Bastará o efeito desse torniquete para lesar a produção e o comércio ao redor do mundo.

Daí os riscos dos efeitos perniciosos da política de Trump também sobre o Brasil. Está para ser avaliado seu impacto sobre as exportações de matérias-primas, especialmente de grãos, petróleo e minérios, que perfazem a maior parte das vendas externas do Brasil.

E deverão aumentar as pressões para que o governo brasileiro ajude a conter a China na expansão da sua Nova Rota da Seda, que conta com a adesão de mais de 145 países.

Enfim, uma coisa é cão que late e outra, cão que morde – e quanto morde.

Posse de Trump é o fim de um mundo

'Estou morrendo. O que peço é que me deixem em paz. Meu ciclo já terminou’, pediu em entrevista ao jornal Búsqueda José “Pepe” Mujica nos primeiros dias de 2025. Dono de uma trajetória que só não comove quem desconhece o significado de pertencer à espécie humana, o uruguaio Mujica sabe estar doente e cansado. Pediu repouso tendo chegado aos 89 anos como fortaleza moral e cívica de um mundo em extinção. E iniciou o merecido retiro poucos dias depois que outra figura de coerência rara — o ex-presidente americano Jimmy Carter — morrera aos 100 anos para só então receber o reconhecimento culposo que lhe fora negado na Casa Branca.

É com esse pano de fundo que assistiremos à volta ao poder de Donald Trump como 47º presidente dos Estados Unidos. Oportuno momento para relembrar um histórico comentário de 111 anos atrás, feito por Sir Edward Grey, à época chanceler do então ainda portentoso Império Britânico. Encostado à janela do palacete que abrigava seu gabinete, profetizou:

— As luzes estão se apagando por toda a Europa. Não voltaremos a vê-las acesas em nosso tempo.

Poucas horas depois, duas divisões do Exército alemão esmagavam a fronteira da Bélgica, dando início à Grande Guerra de 1914-1918, que engoliu cerca de 21,5 milhões de vidas (entre civis e militares). Grey sempre argumentara que a neutralidade não era uma opção viável diante do expansionismo alemão.


Não que o mundo vá acabar a partir de amanhã nas mãos de um triunfal Donald Trump. Mas a posse em Washington pode muito bem servir de data oficial para o fim de “um” mundo — aquele no qual vivíamos, frequentemente às turras, desde o final da Segunda Guerra. Ao complexo militar-industrial de ontem vem se juntar agora o domínio sem fronteiras do complexo tecnoindustrial, cujos plenos poderes ainda estão longe de serem mapeados. E ainda menos, cerceados. Eles lidam com a manipulação e o controle da verdade, este bem cada vez mais fugidio no nosso cotidiano.

Em sociedades decadentes, nas quais a população abre mão de exercer poder político, poder social, interesse cívico ou econômico (outro que o consumismo), a figura do líder de soluções simples parece redentora. Trump prometeu um retorno a uma mítica idade dourada da História americana, que, na realidade, jamais existiu, mas que habita o imaginário de dependentes de redes sociais. Também recebeu consentimento de seus eleitores para descartar grupos destoantes e indivíduos incômodos. Para muitos, inclusive democratas, parte das fulminantes mudanças anunciadas haverá de parecer necessária para desemperrar a ineficiência da máquina do Estado, enquanto a corrosão aos fundamentos do Estado Democrático de Direito permanecerá invisível por largo tempo.

A chacoalhada geral que se inicia encontra terreno fértil neste que já foi batizado de “século antissocial”. O termo — cunhado por Derek Thompson em ensaio na revista The Atlantic — aponta a dissolução da vida comunal pela tecnologia como o fator de maior mudança na sociedade americana no século XXI — uma solidão autoimposta, não a obrigatória dos tempos da Covid-19. Thompson retrata de vários ângulos quanto o cotidiano coletivo foi sendo substituído por “vivências delivery”. Em muitas lanchonetes e restaurantes do país, perdeu-se o contato humano, substituído pela impessoal retirada de pedidos feitos on-line. A socialização vem declinando em níveis que evocam as telas de Edward Hopper. Entre jovens de menos de 25 anos, o declínio de convívio interpessoal fora das redes sociais cresceu em 35%.

Ao contrário das outras espécies, ensina Pepe Mujica, a vida humana, pelo seu próprio desenvolvimento intelectual, permite que tenhamos a consciência de fazer escolhas, de dar um sentido ao viver.

— Sem objetivo, ou uma causa, a sociedade de mercado vai te enquadrar e vais passar o resto da vida pagando contas, pois és essencial para a mecânica do mercado — explicou em entrevista à BBC no ano passado. — Acabas confundindo o ser com o ter.

É nesse terreno fértil a experimentações que Donald Trump assume o poder. O mundo não merecia tamanho retrocesso civilizatório — a era de desagregação social em que vivemos já deveria ser castigo suficiente.

sábado, 18 de janeiro de 2025

De Adolf a Donald

As promessas e ameaças de ­Donald Trump reproduzem episódios já vividos nos labirintos da economia global. Digo reproduzem para exprimir a incompatibilidade do factual imediato com a concepção que advoga a dinâmica das estruturas nas trajetórias das economias de mercado monetário-financeiras capitalistas.

A mais conhecida e dolorosa reestruturação daquilo que, parodiando ­Schumpeter, poderíamos chamar de Ordem Capitalista começou a se desenvolver a partir dos anos 30 e encontrou seu apogeu nas duas primeiras décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial. Essa reordenação foi uma resposta aos desastres provocados pelas “falhas” do mercado autorregulado, agravadas pelo apego dos governos a políticas fiscais e monetárias conservadoras. Essa miopia liberal-conservadora suscitou violentas reações de autoproteção da sociedade assolada por desgraças como o desemprego em massa, o desamparo, a falência e a bancarrota.


Nesse período, a economia mundial foi palco de rivalidades nacionais irredutíveis, que se desenvolveram sem peias, na ausência de mecanismos de coordenação capazes de conter as desesperadas iniciativas para escapar aos danos da crise. As ações particularistas, tomadas em defesa das economias nacionais ou de grupos sociais, revelaram-se danosas para o conjunto. Este foi o caso, no plano internacional, das desvalorizações competitivas que acabaram provocando uma contração espetacular dos fluxos de comércio e suscitando tensões nos mercados financeiros. Tais forças negativas propagavam-se livremente, sem qualquer providência dos governos, imobilizados pelos fetiches do padrão-ouro e do equilíbrio orçamentário. Assim, a economia global mergulhou numa espiral deflacionária que atingiu indistintamente os preços dos bens e dos ativos. Frações importantes das burguesias europeia e norte-americana tiveram de rever seu patrocínio incondicional ao ideário do livre-mercado e às políticas desastrosas de austeridade na gestão do orçamento e da moeda, diante da progressão da crise social e do desemprego.

Não bastasse, assim que a coordenação do mercado deixou de funcionar, setores importantes das hostes conservadoras aderiram aos movimentos fascistas e à assim chamada “estatização” (sic) impiedosa das relações econômicas como último recurso para escapar à devastação de sua riqueza.

Aqui cabe uma reprodução do artigo já publicado em nossa CartaCapital a respeito do recrutamento dos grandes industriais alemães pela liderança nazista. Reunidos por Hermann Goering no Reichstag, os grandes empresários ouviram o chanceler Adolf Hitler. Disse o führer: há que acabar com um regime fraco de Weimar, afastar a ameaça comunista, eliminar sindicatos e permitir que cada empresário fosse o führer de sua própria empresa. O discurso durou meia hora. Quando Hitler terminou, Gustav ­Krupp levantou-se, deu um passo à frente e, em nome de todos os presentes, agradeceu-lhe por ter finalmente esclarecido a situação política. O chanceler deu uma volta rápida em torno da mesa quando saiu. Eles o parabenizaram cortesmente.

A opinião convencional e conservadora insiste em afirmar a “estatização” da economia alemã na era nazista. Alguém mais atilado poderia argumentar que, na verdade, ocorreu uma brutal privatização da política econômica alemã. Malgrado as diferenças históricas, são inequívocas as semelhanças de inspiração entre o programa de Trump e as políticas econômicas dos regimes nazifascistas dos anos 30 do século XX. As semelhanças abrangem a proclamação da primazia do interesse nacional, a privatização do Estado, ocupado diretamente por um comitê de grupos empresariais, e a politização da economia, administrada despoticamente pelo estatal-privatismo, na contramão da “liberdade de mercado”. A onipresença dos poderosos das plataformas e das finanças no gabinete de Trump mimetiza o poder da Siemens e da Krupp na política econômica do III Reich.

Karl Polanyi, em sua obra A Grande Transformação, escrevendo sobre esse momento da história, mostrou como a revolta contra o despotismo do “econômico” revelou-se tão brutal quanto os males que a economia destravada vinha impondo à sociedade. Estudando o avanço do coletivismo nesta quadra, Polanyi conclui que não se tratava de uma patologia ou de uma conspiração irracional de classes ou grupos, mas da emergência de forças gestadas nas entranhas do mercado destravado.

Com o colapso dos mecanismos econômicos, a superpolitização das relações sociais tornou-se inevitável. O despotismo da mão invisível teria de ser substituído pela tirania visível do chefe. O político e a polícia começaram a invadir todas as esferas da vida social, como se fossem suspeitas quaisquer formas de espontaneidade.

Evento escancara plano de dominação evangélica para o Brasil


“Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada pra a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa

Pai, afasta de mim esse cálice!”
(Chico Buarque / Gilberto Gil)


O que parece um simples evento religioso pode esconder muito mais do que se imagina. É o caso do “2º Congresso Internacional Legado Cristão” que acontece neste fim de semana no Memorial da América Latina, na Barra Funda, bairro da capital paulista. Em pauta, temas como família, educação e liberdade sob uma perspectiva cristã.

Embora o evento se apresente como um fórum para promover valores cristãos, há de forma inequívoca a promoção da chamada “teologia do domínio”, que defende a subordinação das esferas pública e privada aos preceitos religiosos.

A “teologia do domínio” é uma doutrina que prega a necessidade de os cristãos assumirem o controle sobre todas as áreas da sociedade, incluindo governo, educação e cultura, para implementar uma nação sob “princípios bíblicos”. Especialistas alertam que essa ideologia ameaça diretamente a laicidade do Estado e a diversidade religiosa, fundamentais em uma sociedade democrática. A adoção dessa teologia por líderes religiosos e políticos no Brasil tem gerado debates sobre os riscos de uma agenda que busca impor valores religiosos específicos a toda a população.

O evento se apresenta como um “congresso para discussão sobre o papel da família, a essência da educação e o significado da liberdade, tudo sob a perspectiva cristã.” E traz, dentro de suas propostas, “um ambiente dinâmico e inspirador, rodeado por pensadores inovadores e líderes visionários.” Este ano o congresso se reúne sob o tema “Unir propósitos e avançar o Reino”.

A “marca” Legado Cristão é um esforço de vários movimentos, atores da sociedade civil, empresas, ministérios que realizam desde o ano de 2024 um congresso anual, mas mantém seminários que acontecem durantes todos os meses em diversos lugares do país, com um único objetivo: disseminar o projeto de “recolocar o Cristianismo nos debates da nossa sociedade para contornar o status quo das ideias hegemônicas desse mundo” a partir de uma tríade que resume todas as ações do “legado”: Família, Educação e Liberdade.

Logo na página oficial de divulgação do Congresso na internet, os organizadores não fazem a mínima questão de esconder os “compromissos” que serão selados no evento, e apresentam uma série de pontos a serem defendidos e divulgados como essenciais na trajetória e no “legado cristão” que o encontro espera deixar. Analisemos apenas alguns deles (são 15 no total).

Apoiar a candidatura política de cristãos
Leia-se aqui apoiar candidaturas fundamentalistas que defendam pautas moralistas e antiestatais (uma das pautas do Congresso é o “autogoverno”). Duas das principais preleções do evento serão realizadas pelo vereador Gilberto Nascimento, de São Paulo, e a deputada estadual em Santa Catarina Ana Campagnolo, ambos conhecidos pela virulência na defesa de pautas da extrema direita. No 1º Congresso, realizado em 2024, uma das principais falas (que inclusive é exposta na página de divulgação do 2º) foi do ex-procurador e ex-deputado federal Deltan Dallagnol. Dallagnol teve o mandato cassado por uma “fraude” contra a Lei da Ficha Limpa ao pedir exoneração do Ministério Público Federal (MPF) 11 meses antes das eleições, enquanto enfrentava processos internos que poderiam levar à sua demissão — e, em consequência, à sua inelegibilidade.

Incentivar jovens a ingressar em cursos-chaves para ocupar posi9ções de influência
A tática de ocupar os espaços, explícita na “teologia do domínio”, é incentivada principalmente para a juventude e aqui ocorre uma das muitas aparentes incoerências do movimento, mas que se justifica pelo “produto final” que é a doutrinação massiva da população brasileira: apesar de defensores ferrenhos do homeschooling (falaremos sobre isso mais tarde), há um incentivo para que jovens estudem e se formem como professores nas áreas conhecidas como de “humanas”, principalmente história e geografia (geografia mais analítica) afim de reverterem os “ensinos comunistas e errôneos”, tanto como nas ciências biológicas, cujo objetivo é contrapor o “ensino ateu” que vai de encontro ao criacionismo “bíblico”. Além, principalmente, do curso de Direito, que é um dos principais alvos do “legado cristão”.

Buscar uma relevância social e dentro do poder público local, regional e até mesmo nacional
Aqui se apresenta mais uma das aparentes incoerências, mas que se trata de uma estratégia muito bem elaborada: ocupar os espaços de poder público para enfraquecer o próprio poder público. Em diversos documentos e falas nas redes sociais e nos eventos, os promotores do “legado cristão” defendem um Estado mínimo e o “autogoverno”, principalmente no que se refere à educação e à cultura (o que favorece o domínio da manipulação e doutrinação para as quais são treinados incansavelmente). Os proponentes do evento são, em sua maioria, inimigos das políticas públicas, principalmente as que buscam o acolhimento e dignidade das minorias de “diversidade” (principalmente comunidade LGBTQIAPN+).

Fortalecer alianças nacionais e internacionais que defendam as liberdades individuais
Em postagem na página do Instagram do evento, uma das principais líderes do movimento no Brasil apresenta de forma efusiva uma matéria publicada recentemente, onde se apresenta um Fundo Cristão formado nos Estados Unidos que gerencia um montante de 20 BILHÕES de dólares, que tem como principal objetivo lutar contra políticas progressistas e da diversidade. Essa já é uma ideia em desenvolvimento no Brasil, a tirar pelos patrocinadores do evento, que é “gratuito”, ou seja, já existe um forte investimento de empresas, empresários, políticos e organizações para a disseminação e fortalecimento dessas ideias fundamentalistas e de dominação evangélica conservadora da política nacional. Estamos em um momento muito delicado.

Envolver-se na divulgação do que é educação domiciliar, sua defesa como direito humano natural tanto no âmbito estadual como nacional
Essa é uma das principais bandeiras do movimento, abraçada pelos principais organizadores: o chamado homeschooling. Nos últimos anos, o homeschooling – ou educação domiciliar – tem ganhado popularidade em diversos países, incluindo o Brasil. A proposta é educar os filhos em casa, sem a necessidade de frequentar uma escola tradicional, “personalizando” o ensino e “protegendo” as crianças de “influências externas.”

Um dos principais riscos do homeschooling é o isolamento social das crianças. A escola não é apenas um espaço de aprendizado acadêmico, mas também de interação e convivência com outras pessoas, fundamentais para a formação de cidadãos participativos e tolerantes . É nesse ambiente que os alunos desenvolvem habilidades sociais cruciais, como trabalho em equipe, resolução de conflitos e empatia. É sempre bom lembrar o que qualquer estudioso de movimentos sectários e separatistas sabe: uma das principais ferramentas de dominação, manipulação e doutrinação, principalmente de jovens é o isolamento. Isolando-o do convívio social e da diversidade humana, cria-se fanáticos fundamentalistas capazes de quaisquer coisas para defenderem suas “causas”.


Engajar comunidades locais de fé na formação integral do indivíduo, tanto como pessoa, quanto como cidadão. Em cada comunidade, um centro de formação
Preste bem atenção nisso: “em cada comunidade, um centro de formação”. O objetivo é fazer com que cada “comunidade local de fé” (igreja) se transforme num “centro de formação”. Mas para formar o que? Exatamente a multiplicação de defensores desse modelo de Estado mínimo, precursores de um neoliberalismo extremo carregado de fundamentalismo religioso que fará os neopentecostais (e seu projeto de poder) parecerem crianças indefesas perto de um sistema muito mais complexo e entranhado na sociedade.

Fomentar o legado cristão cultural nas mídias sociais demonstrando os resultados de sua aplicação ao longo do tempo
Já estamos experimentando um pouco desse “legado cristão cultural” exatamente nas ações de Elon Musk e Mark Zuckerberg em retirar de suas plataformas e mídias sociais o sistema de checagem de fatos. É a “pós-verdade” levada ao extremo. Valerá a “verdade” do grupo que detiver o poder. A prosperarem as ideias, ideais e projetos do “legado cristão” (aqui as aspas são necessárias, pois o Cristo nunca pregou um projeto de poder), é bom que nos preparemos para a total ausência do contraditório, do debate político e a instauração de uma espécie de teocracia bem piorada dos sistemas já conhecidos.

Quem faz a cabeça dessa gente?

Um dos elementos principais para analisarmos os objetivos e processos que esse evento traz a tona é a simples observância de alguns de seus principais palestrantes/pregadores. Principalmente atrelados aos temas que trarão como projeto de pensamento e execução. Como foi dito anteriormente, no 1º Congresso, em 2024 um dos principais oradores foi Deltan Dallagnol. Em eventos diversos da “rede legado cristão” (o Congresso Internacional é apenas o principal evento – outros em “menor escala” acontecem por todo o Brasil e em todo tempo) temos como pensadores Damares Alves a Aaron Pierce (não, não é o ator), executivo da Christian Halls Brasil, uma espécie de difusora de treinamentos em parceria com escolas em todo o Brasil (já atuam em 17 estados). Quais serão então os/as palestrantes do “Legado Cristão 2025”. Vejamos apenas alguns nomes e seus respectivos temas de abordagem:

Irene Squillaci – O legado cristão e seus inimigos no mundo
Pastora boliviana, advogada, conferencista, assessora política e empresarial, autora de “Vencendo a Batalha Eleitoral” e “Destronando o Estado” – este último livro é, segundo a editora: “para quem deseja compreender como o Estado na América Latina e no mundo destrói a economia das famílias por meio de suas políticas públicas. O livro aborda as 3 mentiras do socialismo que enriquecem o Estado enquanto empobrecem as famílias. Com base nos princípios do governo bíblico, encontraremos os princípios aplicados às políticas públicas para enriquecer e libertar as famílias.”

Ana Campagnolo – Acusações contra o cristianismo (desfazendo falácias e revelando a verdade)
Deputada estadual por Santa Catarina. Se apresenta como mulher antifeminista e dispensa maiores apresentações. É conhecida por defender desde 2018 tanto Jair Bolsonaro quanto o “Escola sem Partido”. Segundo matéria da Revista Fórum, “curiosamente, mesmo como defensora aguerrida da ideia de que nenhum professor pode falar nada e se manifestar em algum sentido ideologicamente nas escolas brasileiras, ela ia dar aula usando uma camiseta com o rosto e o nome do então presidente Jair Bolsonaro (PL), e tirava foto com a indumentária e alunos dentro da sala de aula.”

Guilherme Schelb – Construindo um sistema protegido e protetor do legado cristão
Procurador da República, chegou a ser cogitado por Bolsonaro para ser ministro da Educação. Defende abertamente bandeiras comuns a Bolsonaro e à bancada evangélica, como a proibição de que escolas discutam temas como gênero e sexualidade, um dos eixos do Escola sem Partido. Em 2018, Schelb divulgou em sua página no Facebook, a palestra “Marxismo Cultural: risco iminente as igrejas cristãs.”

Dois “workshops” também chamam a atenção:

Lidiane Castilho – NCFCA: Leve esta ferramenta de defesa da verdade para os seus jovens
Segundo o próprio site: “A NCFCA é uma liga de debates e discursos que treina pessoas, famílias e jovens para debaterem usando ferramentas da educação clássica, desenvolvendo sua retórica através de debates e discursos. O objetivo é que eles possam persuadir com suas ideias, sempre fundamentadas em princípios cristãos.”

“Ajudamos adolescentes a aprender habilidades de comunicação do mundo real que os equipam para a vida. Os alunos que se envolvem conosco se tornam palestrantes equilibrados, pesquisadores curiosos e defensores resilientes de uma cosmovisão bíblica. Eles constroem sabedoria e caráter a partir de feedback construtivo e desenvolvem as habilidades de pensamento crítico necessárias para entender e falar em nossa cultura com compaixão e integridade.”

É isso mesmo: a NCFCA é uma formadora de debatedores e oradores/as voltada especialmente para treinamento/formação de adolescentes para defenderem publicamente a cosmovisão “bíblica”.


Gilberto Celetti – APEC: Instituto Bíblico Infantil- um modelo de treinamento apologético para crianças
Não! Você não leu errado. Este workshop tem como objetivo treinamento “apologético” (defesa da fé) para crianças. E a APEC busca parceria para inserção em escolas públicas/privadas através de professores/professoras treinadas para utilizar materiais da própria editora em suas aulas, “ensinando” às crianças princípios “bíblicos”.

No site da APEC, são apresentadas algumas “justificativas” desse trabalho:

“Poderíamos alistar algumas justificativas para isto:

As crianças são naturalmente predispostas ao ensino e na fase escolar elas todas estão prontas para aprender. A influência dos professores, especialmente nos primeiros 4 anos de estudo, é notória.

A ausência de orientação religiosa por parte de seus pais é bem marcante e a aula bíblica na escola acaba sendo a única ocasião para a criança ouvir verdades preciosas que poderão marcar e influenciar toda a sua vida.

O número de crianças (e de famílias, indiretamente) que podemos atingir com a mensagem de salvação é bem grande, o professor evangélico pode alcançar, na escola pública, muito mais do que toda a sua igreja na Escola Dominical.

Outro fator favorável é que, entrando na sala de aula, já encontramos tudo favorável: as crianças sentadas, as carteiras apropriadas, o quadro de giz, etc., oferecendo ao professor um ambiente próprio para o ensino.

APEC são as iniciais de Aliança Pró- Evangelização das Crianças.

A teologia do domínio e os perigos para a democracia no Brasil

Nos últimos anos, a teologia do domínio tem ganhado espaço em setores religiosos e políticos no Brasil, trazendo sérios riscos à democracia. Essa vertente teológica, originada no meio evangélico, prega que os cristãos têm a missão de governar todas as esferas da sociedade – incluindo política, educação, mídia e economia – para estabelecer os valores cristãos como padrão universal. Embora defensores afirmem que o movimento busca “moralizar” a sociedade, a execução dessa teologia ameça o princípio do Estado laico e pode retirar os direitos de minorias religiosas e sociais.

No Brasil, a crescente presença de líderes religiosos em cargos públicos tem sido acompanhada de pautas que promovem interesses específicos em detrimento do pluralismo. Projetos de lei que buscam restringir direitos reprodutivos, influenciar currículos escolares com visões religiosas e limitar direitos LGBTQIA+ são exemplos citados como reflexos dessa teologia. Além disso, a fusão entre religião e política pode polarizar ainda mais a sociedade, enfraquecendo o diálogo entre diferentes grupos.

A resistência a essa influência tem surgido de diferentes setores, incluindo organizações da sociedade civil, acadêmicos e lideranças religiosas que defendem a separação entre Igreja e Estado. Segundo estes, é fundamental reforçar a educação cívica e a conscientização sobre os valores democráticos para impedir que visões teocráticas comprometam os direitos fundamentais de todos os cidadãos. Para muitos, o desafio está em equilibrar a liberdade religiosa com a necessidade de preservar um Estado laico e inclusivo, garantindo que nenhum grupo imponha suas crenças sobre toda a sociedade.
Zé Barbosa Junior, teólogo, pós-graduado em Ciências Políticas e pastor da Comunidade de Jesus em Campina Grande (PB)

sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

Pobreza atinge metade das crianças e adolescentes no Brasil

Mais da metade das crianças e adolescentes brasileiras vivem em situação de pobreza multidimensional, segundo o estudo Pobreza Multidimensional na Infância e Adolescência no Brasil lançado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) nesta quinta-feira.

De acordo com o Unicef, 28,8 milhões de crianças e adolescentes até 17 anos viviam nesta situação em 2023, o equivalente a 55,9% do total. O número, porém, é menor do que o observado em anos anteriores. Em 2017, a pobreza atingia 34,3 milhões de crianças e adolescentes, mais de 6 em cada 10.

A pobreza multidimensional extrema também caiu, de 13 milhões (23,8%) de pessoas, em 2017, para 9,8 milhões (18,8%), em 2023.

A análise considera não apenas a renda das famílias, mas também o nível de educação, acesso à informação, água, saneamento, moradia, proteção contra o trabalho infantil e segurança alimentar.

"A pobreza infantil é multidimensional porque vai além da renda. Ela é resultado da relação entre privações, exclusões e vulnerabilidades que comprometem o bem-estar de meninas e meninos", diz Liliana Chopitea, chefe de Políticas Sociais do Unicef no Brasil, em nota publicada no site da instituição.

"Os resultados deste estudo mostram que o Brasil conseguiu avançar nas diversas dimensões avaliadas, reduzindo a pobreza multidimensional e impactando positivamente meninas e meninos em todo o país", conclui.

Segundo o estudo, que se baseia na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a redução dos indicadores de pobreza foi impulsionada principalmente pela ampliação de programas de distribuição de renda, como o Bolsa Família e o Auxílio Emergencial, instituído em resposta à crise provocada pela pandemia e, a partir de 2022.

Segundo a pesquisa, cerca de 17,9 milhões de famílias eram beneficiárias dos programas no primeiro trimestre de 2022. Esse número aumentou para aproximadamente 21,6 milhões de famílias no primeiro trimestre de 2023.

Em termos absolutos, o estudo mostra que, em 2019, 750 mil crianças e adolescentes saíram da pobreza devido aos programas de transferência de renda. Em 2022, esse número saltou para 2,9 milhões, até crescer mais uma vez para 4 milhões, em 2023.

Com isso, a dimensão renda foi uma das que apresentaram a redução mais significativa de famílias em situação de vulnerabilidade no período analisado. Em 2017, por exemplo, uma a cada quatro crianças e adolescentes de até 17 anos vivia abaixo da linha da pobreza monetária (25,4%), cuja renda familiar era inferior a R$ 355 mensais por pessoa. Em 2023, esse percentual caiu para 19,14%, o que equivale a aproximadamente uma em cada cinco crianças e adolescentes.

O percentual de crianças sem acesso à informação também teve uma mudança drástica no período analisado, caindo de 17,5% para 3,5% no período analisado.

Na dimensão água, o recuo foi de 6,8% para 5,4%. No caso do saneamento o percentual caiu de 42,3% para 38%.

Já em relação a moradia, os valores oscilaram de 13,2% para 11,2% crianças sem condições adequadas de habitação em seis anos.

A insegurança alimentar também teve redução de 50,5% em 2018 para 36,9%, em 2023.

Com relação ao percentual de crianças e adolescentes em trabalho infantil, houve estabilidade, de 3,5% para 3,4%, o que ainda significa que 1,7 milhão de meninos e meninas estão nesta situação.

A organização destaca o impacto negativo da pandemia da covid-19 nesse período. Em 2023, cerca de 30% das crianças entre sete e oito anos de idade não estavam alfabetizadas, em comparação a 14% em 2019, por exemplo.

Apesar das reduções, o país apresenta ainda diversas desigualdades. A pobreza multidimensional entre crianças e adolescentes negros permanece, segundo o estudo, mais alta em comparação com brancos. Enquanto, entre meninas e meninos brancos, 45,2% estão em pobreza multidimensional, entre negros o percentual é de 63,6%.

Há também diferenças geográficas. Dados da pesquisa mostram que a maior parte das crianças e adolescentes que residem em áreas rurais enfrentam privações de direitos. Esse percentual passou de 96,3% em 2017 para 95,3%, em 2023. No caso de áreas urbanas a privação recuou de 55,3% para 48,5%.

A privação ao saneamento básico é o maior destaque, chegando a quase 92% das crianças e adolescentes de áreas rurais, enquanto nas áreas urbanas é de 28%.

"A pobreza afeta mais as crianças e adolescentes justamente porque estão em um momento de desenvolvimento. Qualquer direito que não seja garantido na idade certa pode ter consequências a médio e longo prazo para o desenvolvimento das crianças, e a longo prazo também para a economia de um país", diz Chopitea.
Deutsche Welle

Brasil: um farol para a humanidade na era Trump?

Nos próximos dias Donald Trump assumirá a presidência dos Estados Unidos. O mundo está apreensivo com essa sua volta. O temor não se deve unicamente pelo que aconteceu em seu primeiro mandato (2016/2020), mas principalmente pelas ameaças que ele tem feito nos últimos meses. Entre elas as mais impactantes estão a retirada de seu país do Acordo de Paris para redução das emissões de CO2, o aumento do protecionismo e favorecimento para as empresas norte-americanas dentro dos Estados Unidos, o fim dos controles sobre discursos de ódio e fake news nas redes sociais, a ameaça de invasão da Groenlândia e Panamá e a anexação do Canada.

Os métodos de Trump se caracterizam pela truculência e talvez o mais emblemático seja o que aconteceu em 6 de janeiro de 2021, quando uma turba de mais de 1500 militantes, apoiadores do então presidente, invadiu o Capitólio – o parlamento dos Estados Unidos – para contestar o resultado das eleições do final de 2020, que deu a vitória para Joe Biden. A justiça norte-americana não conseguiu condenar Trump pelo ato, mas condenou sim os invasores, sendo que a maioria destes foi presa. No entanto Trump já anunciou que um de seus primeiros atos como presidente será o de conceder indulto para todos aqueles invasores que ainda estão presos.


Há muito de bravata, mas o fato é que não podemos esperar cenários de paz e tranquilidade pelos próximos anos principalmente porque, ao contrário de seu primeiro mandato, desta vez Trump terá maioria tanto na Câmara dos Deputados quanto no Senado.

O presidente eleito dos EUA em entrevista coletiva recente deixou bem clara a sua insatisfação com o Brasil e manifestou seu desejo em aumentar os impostos sobre os produtos brasileiros vendidos ao seu país. Além disso em dezembro 2023, também Elon Musk, que foi o principal contribuidor da campanha eleitoral de Trump e que irá ocupar um cargo importante em seu governo, teve entreveros com o governo brasileiro e com o STF.

Mas o principal sinal de que nossa vida na era Trump não será fácil foi dada pelo discurso de Mark Zuckerberg no último dia 8. Zuckerberg, que é o CEO da Meta, afirmou que sua empresa não mais fará checagem de fatos em relação ao que é publicado em suas redes sociais, ou seja, Facebook e WhatsApp. Ele segue Elon Musk que, nos Estados Unidos já faz o mesmo com sua rede social, a X, antigo Twitter. Ambos, estão apenas seguindo Donald Trump que há tempos vem dizendo que não vai admitir o que ele chama de “censura nas redes sociais”.

A mudança da postura de Zuckerberg é puramente oportunista e busca a simpatia de Trump, pois em 2018 quando houve uma suspeita de movimentação irregular nas redes sociais às vésperas da eleição para Presidente da República em nosso país, ele próprio colocou a direção do WhatsApp à disposição do STF para que se investigasse o que poderia estar ocorrendo para explicar os milhões de mensagens de ódio contra um dos candidatos.

Nós, brasileiros, também não podemos esquecer que os atentados contra as instituições de nosso país no dia 8 de janeiro de 2023 só aconteceram porque foram insuflados através das redes sociais. E estas agora vêm nos dizer que não deve haver nenhum controle sobre o que publicam! O ministro Alexandre de Moraes diz e reitera que os atentados não teriam ocorrido sem o apoio e suporte dado pelas redes sociais.

Em suma, tempos difíceis se afiguram. Nas questões ambientais, será lamentável a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris, mas nós, no Brasil, estamos fazendo a lição de casa combatendo o desmatamento e usando cada vez mais fontes renováveis para gerar nossa energia. Nas questões econômicas temos aliados importantes como a China e parceiros comerciais em todos os continentes.

Nas questões do fluxo livre de informações, somos um exemplo de um país que pelo menos já tem uma boa proposta de regulamentação das redes para impedir disseminação de notícias falsas e discursos de ódio sendo discutida no Congresso, além de que poderemos contar com o apoio e a aliança da Comunidade Europeia. Ou seja, os tempos serão difíceis, mas temos instrumentos e meios para enfrentá-los.

Os invasores não entrarão em nossa casa


Os invasores não entrarão em nossa casa,
Eles não mexerão em nossas roupas velhas,
Eles não quebrarão o porta-retratos da minha mãe,
Eles não rasgarão nosso Alcorão, nossa Bíblia,
Nem derramarão nosso óleo sobre nossa farinha.
Não, os invasores não entrarão em nossa casa.

Naquela noite, vi meu avô,
Suas mãos acariciando gentilmente a terra
Ao redor de uma pequena oliveira.
Ele prometeu que seu óleo iluminaria o céu da Palestina
Por mil anos.
“Os invasores entraram em nossa casa?”
Ele perguntou.
Eu disse: Não.

Mas naquela manhã, os invasores chegaram —
Um vento frio e cortante.
Suas peles traziam as marcas de tribos distantes,
Suas línguas falavam palavras que eu não conseguia entender.
Eu me movi para frente, apenas um ou dois passos,
E gritei para eles:
"Vocês não entrarão em nossa casa."

Mas eles não se viraram.
Seus olhos, como sombras,
Suas palavras, como ventos inquietos.
Eles passaram por mim,
Mas minha voz permaneceu,
Gritando nas paredes,
Gritando na terra:
Os invasores não entrarão em nossa casa.

Quando os invasores partiram,
A casa estava envolta em fumaça.
O túmulo do meu avô profanado,
Suas pedras sagradas profanadas com palavras estrangeiras.
O corpo da minha mãe estava despedaçado,
Fragmentado em mil pedaços.
Minhas memórias, e todos aqueles que as fizeram,
Pereceram.

Mas a oliveira permaneceu.
Ela cresceu mais forte,
Suas raízes alcançando mais fundo na terra.
Seu óleo iluminou o céu—
Por mil anos.
Ramzy Baroud

O que Jair Bolsonaro e Alice Weidel têm em comum?

Talvez acalme algumas cidadãs e cidadãos mais exaltados eu lembrar que Elon Musk não está se imiscuindo apenas na política do Brasil. Ele não bate de frente só com o juiz Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes ou com o presidente Lula, mas também com políticos britânicos e alemães.

Durante 75 minutos, ele conversou online e ao vivo com Alice Weidel, candidata da Alternativa para a Alemanha (AfD) à chefia do governo alemão. Antes, Musk afirmara repetidamente que esse partido, o mais à direita no espectro político nacional, era o único capaz de salvar o país.

A Alemanha escolherá em 23 de fevereiro seu novo governo, e a AfD ocupa o segundo lugar nas intenções de voto, com 22%. O fato de o americano, dono da plataforma X, estar fazendo propaganda eleitoral de graça para a sigla talvez seja uma infração das leis alemãs. No momento, o caso está sendo examinado.

Mas a conversa foi bem decepcionante. Musk não tem a menor ideia da política alemã, e Weidel mal conseguia controlar os risinhos, tamanha a alegria pelo golpe de publicidade que estava dando. De qualquer modo, a questão não eram conteúdos, mas sim provocar, e mostrar que a AfD é parte de uma rede mundial composta tanto por políticos muito de direita como de multibilionários com marcas globais.
 
No núcleo mais central do "clube" organizado por Musk está não só o presidente americano eleito, Donald Trump, como Javier Milei, o mandatário da Argentina, que não se encaixa em nenhuma categoria.

Quem também gostaria de integrar o clubinho é o clã Bolsonaro, que vem tentando desesperadamente provar que Jair Messias foi convidado de fato para a posse de Trump (e por isso quer que Moraes lhe devolva o passaporte).

Ou seja, são indivíduos que afirmam: A) pertencer à ala anti-establishment e B) ser tratados de modo desleal pela imprensa ou pela Justiça. E, no caso, a alegação de Trump ou Musk de serem anti-establishment soa tão bizarra quanto a de Bolsonaro sobre eleições presidenciais manipuladas.

O ex-presidente brasileiro e seu clã venceram tantas disputas eleitorais nos últimos 35 anos que atualmente a família e seu círculo de amizades se tornaram políticos de carreira e pesam no bolso dos contribuintes. Menos anti-establishment, impossível.

Também Weidel apresenta estranhas contradições: os alemães são "escravos" dos Estados Unidos, afirmava ela apenas dois dias antes da videochamada com Musk – o qual, afinal, também é cidadão americano. Além disso, teria provocado "dor física" na ultradireitista ver quão injustamente a mídia e a política da Alemanha trataram Trump, o amigo de Musk. Mais autoescravização voluntária em relação a americanos como Musk e Trump, não é possível.

Alice Weidel e os Bolsonaros vão, sem dúvida, se entender bem nesse clube. Ambos acreditam, por exemplo, que Adolf Hitler era, na verdade, de esquerda, até mesmo comunista.

Tempos estranhos, estes, e desconfio que as mídias sociais sejam também culpadas por eles estarem cada vez mais estranhos. Quem berra alto e se declara vítima ganha simpatias e eleições. Isso vale tanto para a esquerda como para a direita, por todo lado os ânimos estão exaltados, no momento.

Aqui na minha casa decidimos desconectar as redes sociais imediatamente. Vai fazer bem para a nossa saúde mental. E, de qualquer modo, dinheiro para um Tesla, a gente não tem mesmo.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

Pensamento do Dia

 


Precisamos formar novas frentes para isolar o fascismo

Impressiona a naturalidade com que as sociedades das grandes economias do mundo recebem o que pode ser o fim das democracias gestadas nas revoluções Francesa e Americana. A postura fracassada do “apaziguamento” do Acordo de Munique, como filosofia diplomática na década de 1930, desarmou os espíritos para a resistência ao nazismo, tornando os povos dóceis ao pragmatismo e à traição. A docilidade leniente custou milhões de mortos no Holocausto, nos campos de batalha do mundo inteiro, nas cidades incendiadas da União Soviética e de toda a Europa.

Umberto Eco, em 1998, viu a emergência de um novo projeto fascista, presente nas fragmentações da pós-modernidade, que poderia transferir para os Estados dos países ricos o monopólio político das redes, para a construção de um novo mundo. Este não seria mais uma comunidade de vizinhanças contraditórias, mas uma totalidade — esta sim — do globalismo perfeito. Por meio dela, o modo de vida, a cultura e a política seriam uniformizados pela mentira, construções falsas da “verdade” perfeita e inquestionável.


A articulação do Estado americano com Mark Zuckerberg e Elon Musk — depois das ameaças diretas à soberania do Canadá, Groenlândia, Panamá e México — é a formação de uma Internacional Protofascista que — na recusa da modernidade e no culto da “ação pela ação” — é acompanhada de uma concepção de mundo em que a vida não é uma luta por viver, mas pelo autoaniquilamento humano.

Esse novo Estado “globalista” visa a reorganizar o pacto imperial-colonial num outro nível: com a posse dos territórios por meio do controle político da opinião, com o uso apenas subsidiário da força militar externa. Um sistema apoiado no servilismo manipulado, que se torna voluntário, dos mais explorados, dos aniquilados pela miséria, dos infelizes e sociopatas, bem como de todos os que não foram integrados à vida comum da “normalidade” capitalista. Do ventre das crises do capitalismo nasce o fascismo, não o socialismo da reforma ou da revolução.

Estaremos num momento “decisivo” para o futuro da Humanidade? Desde a adolescência ouvimos essas sentenças. Por isso, nos acostumamos a recusá-las. Pode ser dito, todavia, que, se não for um momento decisivo, é o momento final de um ciclo, no qual o próprio termo “decisivo” perde o seu sentido. Um novo período, no qual a História fará de nós o que ainda não sabemos, mas que será bem pior do que o ciclo do moderno que ora se encerra. A rebeldia do espírito humano poderá vencer?

Dois exemplos a serem recordados para enfrentar essa ameaça. Primeira rebeldia: a de George Steiner, quando lembra o livro de Primo Levi, em que ele destaca o valor necessário “para desejar sobreviver a Auschwitz”, por meio da recordação da escuta do Canto de Ulisses, na “Divina Comédia” de Dante. Segunda: lembrando Aleksander Wat, pensando que poderia suportar o seu recolhimento pelo stalinismo à prisão de Lubianka, quando numa manhã, no princípio da primavera, ouviu à distância um fragmento da “Paixão segundo São Mateus”, de Bach. Duas rebeldias da consciência contra situações aparentemente sem saída.

No outro lado da História, o sentido do humano na modernidade não difere do que John Reed viu na Revolução Russa, para situar-se nos seus acontecimentos épicos:

— De um lado, um punhado de operários e soldados de armas na mão, representando a insurreição vitoriosa, serenos, mas com um aspecto miserável. Do outro lado, uma multidão furiosa, formada pela mesma espécie de indivíduos, que se aglomeravam ao meio-dia nas esquinas da Quinta Avenida, de Nova York, rindo, injuriando, vociferando: “Traidores! Provocadores!”.

O potencial da Revolução iniciava também os movimentos para devorar seus filhos.

As duas placas tectônicas dos últimos três séculos — Iluminismo e Revolução Russa — são agora substituídas por outros cataclismos. As ideias de luta contra os fascismos, bloqueadas pelos algoritmos da dominação, que geram enxames informais do irracionalismo edificado de fora da vida social, por emoções fugazes aceleradas pelo ódio. Vencer significa construir um povo universal, consciente dos perigos da transição climática, das desigualdades sociais e das guerras surdas ou estrondosas a que os países mais ricos submetem o gênero humano. Internamente, isso significa formar novas frentes políticas para isolar o fascismo e os apóstolos de qualquer ditadura civil ou militar.

O que virá com Donald Trump

Os professores estrangeiros contratados por Harvard receberam carta da administração sugerindo que, se tivessem passado os feriados de fim do ano no exterior, tratassem de voltar antes de 20 de janeiro. A influente universidade, considerada a melhor do mundo, teme as medidas anti-imigração prometidas por Donald Trump que, nessa data, assumirá a Casa Branca.

Nos Estados Unidos — e não só ali —, os especialistas especulam como será o segundo mandato que as urnas entregaram ao republicano. Em especial, o que se pergunta é se ele terá musculatura política suficiente para levar a cabo suas extremadas promessas de campanha depois de uma acachapante vitória eleitoral que lhe deu de uma só tacada a Presidência e o controle das duas Casas Legislativas.

Some-se a isso uma Suprema Corte de maioria reacionária para justificar os prognósticos de que muitos dos freios e contrapesos institucionais à concentração de poder no governo federal —típicos da democracia legada pelos pais fundadores— bastem para limitar os impulsos autocráticos desse vocacionado manda-chuva.

A questão não interessa apenas aos yankees, nem se limita à profundidade das mudanças previsíveis nas instituições domésticas e nas políticas públicas, com a passagem do governo federal dos democratas para os republicanos convertidos ao radicalismo de direita.

O cientista político europeu Ivan Krastev entrevistado no podcast "The Good Fight" (A Boa Briga) por Yascha Mounk, seu colega igualmente respeitado, argumentou que a volta ao governo do populista de extrema direita marca um ponto de virada e o início de um novo ciclo político: a Era Trump. Trata-se de mutação nas políticas domésticas e na atuação internacional de Washington, tão profunda e notável como as que caracterizaram a Era Roosevelt ou a Era Reagan, e cujas marcas se prolongaram muito além dos mandatos do democrata (1933-1945) e do republicano (1981-1989).

No plano externo, para além das bravatas e da retórica intimidatória do futuro presidente — ao ver de muitos, bizarra estratégia a fim de extrair benefícios de aliados ou adversários —, cabe perguntar quais poderão ser os efeitos de uma postura mais agressiva e isolacionista e menos comprometida com soluções multilaterais, para a chamada ordem internacional liberal. Esta diz respeito aos arranjos formais e informais que surgiram ao final da Segunda Guerra, organizando as relações entre Estados do ponto de vista dos fluxos econômicos e da segurança, e de acordo com princípios que privilegiavam a negociação em vez da força bruta.

Seus pilares, como se sabe, foram as instituições de Bretton Woods —FMI; Banco Mundial; GATT, que mais tarde daria origem à OMC (Organização Mundial do Comércio); e a constelação de organizações e regimes que formaram o sistema ONU. Com o tempo, outros organismos a ele se juntaram.


Esse conjunto de regras, nem sempre equilibrado, nem consistentemente liberal, é produto do Ocidente democrático e teve nos Estados Unidos um fiador — embora às vezes reticente ou oportunista transgressor de suas normas. Difícil, porém, imaginar seu futuro se, na Era Trump, a América se dedicar a sabotá-lo.

Ordem à desordem...

A escravidão levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras instituições sociais. Não cito alguns aparelhos senão por se ligarem a certo ofício. Um deles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia também a máscara de folha de flandres. A máscara fazia perder o vício da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca. Tinha só três buracos, dous para ver, um para respirar, e era fechada atrás da cabeça por um cadeado. Com o vício de beber, perdiam a tentação de furtar, porque geralmente era dos vinténs do senhor que eles tiravam com que matar a sede, e aí ficavam dous pecados extintos, e a sobriedade e a honestidade certas. Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham penduradas, à venda, na porta das lojas. Mas não cuidemos de máscaras.


O ferro ao pescoço era aplicado aos escravos fujões. Imaginai uma coleira grossa, com a haste grossa também à direita ou à esquerda, até o alto da cabeça e fechada atrás com chave. Pesava, naturalmente, mas era menos castigo que sinal. Escravo que fugia assim, onde quer que andasse, mostrava um reincidente, e com pouco era pegado.

Há meio século, os escravos fugiam com frequência. Eram muitos, e nem todos gostavam da escravidão. Sucedia ocasionalmente apanharem pancada, e nem todos gostavam de apanhar pancada. Grande parte era apenas repreendida; havia alguém de casa que servia de padrinho, e o mesmo dono não era mau; além disso, o sentimento da propriedade moderava a ação, porque dinheiro também dói. A fuga repetia-se, entretanto. Casos houve, ainda que raros, em que o escravo de contrabando, apenas comprado no Valongo, deitava a correr, sem conhecer as ruas da cidade. Dos que seguiam para casa, não raro, apenas ladinos, pediam ao senhor que lhes marcasse aluguel, e iam ganhá-lo fora, quitandando.

Quem perdia um escravo por fuga dava algum dinheiro a quem lho levasse. Punha anúncios nas folhas públicas, com os sinais do fugido, o nome, a roupa, o defeito físico, se o tinha, o bairro por onde andava e a quantia de gratificação. Quando não vinha a quantia, vinha promessa: “gratificar-se-á generosamente” — ou “receberá uma boa gratificação”. Muita vez o anúncio trazia em cima ou ao lado uma vinheta, figura de preto, descalço, correndo, vara ao ombro, e na ponta uma trouxa. Protestava-se com todo o rigor da lei contra quem o acoutasse.

Ora, pegar escravos fugidos era um ofício do tempo. Não seria nobre, mas por ser instrumento da força com que se mantêm a lei e a propriedade, trazia esta outra nobreza implícita das ações reivindicadoras. Ninguém se metia em tal ofício por desfastio ou estudo; a pobreza, a necessidade de uma achega, a inaptidão para outros trabalhos, o acaso, e alguma vez o gosto de servir também, ainda que por outra via, davam o impulso ao homem que se sentia bastante rijo para por ordem à desordem.
Machado de Assis, "Relíquias da Casa Velha"

O poder pelo poder

Que cansaço. Em 2025, Donald Trump, às vésperas do segundo mandato, lembra o Jair Bolsonaro de 2019, que, por sua vez, era a versão jeca do Trump de 2017. Mesmas mentiras, mesmas ameaças, mesmas frases para espantar, mesmas bazófias para otários. Uma coisa é a campanha que engabela os pascácios, outra é transportá-la para a administração. Talvez seja esta a estratégia: enquanto os factoides são discutidos com indignação, as medidas realmente importantes de seu projeto político vão sendo tomadas sem serem percebidas.


Para garantir o ingresso na Casa Branca pela primeira vez, Trump prometeu deportar 11 milhões de imigrantes, construir um muro gigante entre os EUA e o México (pago pelos mexicanos), barrar a entrada de muçulmanos, acabar com "essa bobagem" de aquecimento global, investir no tratamento de saúde mental para evitar assassinatos em massa, reprimir os movimentos negros ("causa de problemas") e declarar aos 35 anos o limite de "vida útil" para as mulheres —depois disso, deviam "sair de cena".

Desta vez, ameaça (de novo) "deportar em massa imigrantes ilegais" (o que ele sabe que não é possível), terminar o muro (do qual só construiu uma fração), taxar os produtos estrangeiros, leia-se chineses, sem excluir os brasileiros, e "perfurar, perfurar, perfurar", inclusive o Ártico, embora este já passe por um estado crítico de degelo. Tudo de novo, daí o cansaço. As novidades são o perdão para os 1.500 criminosos que invadiram o Capitólio no 6/1/2021 e a anexação do Canadá aos EUA e a tomada pela força da Groenlândia e do Canal do Panamá. Grande parte disso é conversa fiada, jogo de cena.

É possível que seus auxiliares, todos com interesse pessoal em questões essenciais, cumpram suas ameaças e passem a boiada. Mas certo mesmo é que, além de seu controle já assegurado da Suprema Corte, Trump irá tentar se reforçar na costura jurídica de instituições que lhe possibilitem eternizar-se no poder.

O poder pelo poder sem saber muito bem o que fazer com ele não é uma fantasia. É um desvio frequente na política. E não é um privilégio da extrema direita.

Brasil poderia melhorar a destinação do seu lixo

Um quilo de lixo por dia. Isso é o que cada brasileiro em média descarta de itens variados como alimentos, plástico, papelão, vidro, metais, roupas e calçados e equipamentos eletrônicos.

É muito lixo. Em 2023, seria o suficiente para encher dois mil estádios do Maracanã, segundo cálculo da Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema).

Naquele ano, o Brasil gerou no total 81 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos (RSU). E apenas parte disso é coletada e vai parar no destino adequado.

Segundo um relatório da Abrema, o país coletou naquele ano 75,6 milhões de toneladas de RSU, das quais 69,3 milhões foram encaminhadas para disposição final, ou seja, 86% do total de lixo produzido.

Do montante encaminhado para disposição final, apenas 58,5% acabaram em aterros sanitários legalizados – um número considerado baixo por especialistas. Os outros 41,5% foram parar em lixões, aterros irregulares, terrenos baldios, ruas, valas, córregos e rios, segundo o levantamento.


A taxa de reciclagem é baixa. Do total de RSU produzido, 8,3%, ou 6,7 milhões de toneladas de material reciclável como papel, plástico, alumínio e vidros, foram enviadas pela coleta pública ou por catadores para o reaproveitamento.
Disparidades regionais

A região Sudeste é a campeã na geração de resíduos, com 452 kg por habitante ao ano, o que equivale a 1,237 kg por habitante por dia. A região é responsável por gerar 39,9 milhões de toneladas anuais, ou metade do total nacional.Na outra ponta, está a região Sul, com 284 kg anuais por habitante, ou 0,779 kg diários. Os dados estão no Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil, da Abrema.

Quando o assunto é coleta, as regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste estão acima da média nacional, com 97,2%, 98,8% e 95,2% dos resíduos coletados, respectivamente. Já as regiões Norte e Nordeste coletaram aproximadamente 83% do lixo produzido, sendo o restante descartado a céu aberto, como em lixões, terrenos baldios e áreas públicas.

"Se compararmos a situação do Brasil com a da União Europeia ou dos Estados Unidos, por exemplo, a geração de RSU é moderada. O problema não é só consumir demais ou de menos, mas sim a responsabilidade com a qual lidamos com aquilo que é consumido, ou seja, a destinação que damos a esses resíduos", pontua Karin Brüning, cientista e ambientalista que atua no ramo de educação ambiental.

Atualmente o Brasil é o quarto maior produtor de lixo plástico do mundo, ficando atrás apenas de Estados Unidos, China e Índia.

Um dos lixões irregulares que acabam servindo de depósito a céu aberto é o do município de Envira, no estado do Amazonas, próximo da divisa com o Acre. O lixão existe há 10 anos e ameaça a terra indígena Cacau do Tarauacá, onde moram 320 indígenas do povo Kulina.

"A presença de lixões irregulares e a baixa taxa de reciclagem são pontos que precisamos melhorar através de campanhas com a população e incentivo público para os municípios investirem na coleta seletiva e na manutenção de aterros sanitários legalizados", diz Pedro Maranhão, presidente da Abrema.

Especialistas apontam que uma união de esforços da população e do governo poderiam solucionar o problema. Mas para isso é necessário que se priorize políticas de redução, reutilização e reciclagem para enfrentar o problema da geração de resíduos sólidos urbanos.

"Um ponto importante é incentivar a coleta seletiva. Criar ecopontos, carros de coleta seletiva e medidas educacionais para a população. Todo esse subsídio de informação, de oferecer facilidades para a separação e direcionamento correto do lixo, faz com que se abram caminhos logísticos para que a sociedade possa direcionar o seu lixo e automaticamente aumentar a reciclagem", diz o biólogo Bruno Reis, especialista em licenciamento ambiental.

Já os resíduos orgânicos, que compõem quase a metade dos resíduos sólidos urbanos, podem ser reciclados por meio da compostagem ou biodigestão, o que poderia produzir biometano ou biogás e reduzir significativamente as emissões de gases de efeito estufa.

Atualmente, menos de 0,2% desses materiais são transformados em gás natural através da decomposição dos resíduos orgânicos depositados nos aterros sanitários brasileiros. Esse gás passa por uma purificação e então dá origem ao biometano.

Dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), apontam que o Brasil tem seis plantas de produção de biometano localizadas em aterros sanitários, número considerado baixo pelos especialistas ouvidos pela reportagem. Essas plantas ficam três em São Paulo, duas no Rio de Janeiro e uma em Fortaleza.

"Precisamos pensar em outras fontes de combustíveis que não sejam o fóssil, uma alternativa viável é justamente investir na produção de biometano a partir dos resíduos sólidos orgânicos. A sua extração é mais econômica e contribui para a descarbonização", acrescenta Maranhão.

Ainda segundo Maranhão, com o melhor aproveitamento da estrutura já existente, incluindo a operação de outras sete plantas que estão em processo de autorização, o Brasil teria capacidade para suprir cerca de 5% da atual demanda nacional por gás natural.

Hoje essa demanda é estimada em 58,4 milhões de Nm³/dia pelo Ministério de Minas e Energia (MME). Esse mercado é formado por diferentes setores econômicos, como industrial, automotivo, residencial, comercial, geração elétrica, por exemplo.

"Para isso, todas as cidades com mais de 320 mil habitantes precisam destinar seus resíduos para aterros sanitários com planta de biometano. Mas para chegarmos a esse patamar é necessário maior investimento na logística desse material", diz.

A produção de biometano funciona assim: após coletado, os resíduos sólidos são encaminhados para a triagem onde os materiais recicláveis como vidro e plástico são separados dos materiais orgânicos.

A parte orgânica então vai para o aterro onde é encapsulada. Os resíduos são enterrados e começam a se decompor, liberando o biogás. Uma tubulação capta esse gás e o encaminha para filtros. Parte do biogás vai para a produção de energia elétrica e outra parte é purificada e transformada em biometano.

Para a outra parte dos resíduos, aquela que é reciclável, investir em cooperativas, formalizar e remunerar os serviços prestados pelos catadores é essencial para estimular a reciclagem. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) aponta que os catadores são responsáveis por coletar quase 90% de todos os materiais recicláveis no Brasil.

"Reciclar faz com que eu traga de volta esses materiais à cadeia produtiva, reduzindo a necessidade de extração de muitos desses produtos da natureza, como o papel por exemplo. Também reduz a necessidade de criação de novos aterros. Lembrando que está cada vez mais difícil encontrar espaços para isso", explica Carlos Alberto Moraes, membro do Comitê Gestor da Aliança Resíduo Zero Brasil.

Fora esses aspectos, a conscientização da população sobre consumo consciente e destinação adequada de resíduos deve ser intensificada desde a infância, seja por aulas na escola ou através de campanhas que estimulem o reaproveitamento.

"Por exemplo, as pessoas podem dar preferência para materiais ou objetos que podem ser utilizados várias vezes, como usar ecobags ao invés de sacolinha de plástico. Ou então, preferir o uso de copos que não sejam descartáveis e assim reduzir ao máximo o descarte e aumentar o reaproveitamento de materiais. Mas essa mudança de hábitos é algo que deve ser condicionado desde a infância", acrescenta Brüning.

A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), instituída pela Lei nº 12.305/2010, estabelece diretrizes para o manejo adequado de resíduos sólidos no Brasil e promove a responsabilidade compartilhada entre governos, empresas e população.

A PNRS prevê ações como a destinação correta dos mais diversos tipos de materiais, coleta seletiva, reciclagem e compostagem de resíduos orgânicos. Além disso, ela prioriza a não geração de lixo e a redução de desperdícios, com o objetivo de reduzir os impactos ambientais, proteger os recursos naturais e fomentar uma economia sustentável.

Apesar de mais de uma década desde sua criação, muitos dos objetivos da PNRS ainda não foram alcançados, como a erradicação de lixões, que deveriam ter sido encerrados até agosto de 2024. A estimativa da Abrema aponta que ainda existem três mil lixões no país.

As maiores dificuldades dos municípios para extinção dos lixões e implantação de aterros sanitários estão relacionadas a carências dos municípios, principalmente de quadros técnicos especializados na área de meio ambiente, para desenvolver projetos e acompanhar a implementação das políticas ambientais, bem como a ausência de taxas e tarifas para custear as despesas de implantação, operação e manutenção dos serviços de coleta e destinação de resíduos.

"É imprescindível que ocorra o fortalecimento institucional dos municípios para gerir os sistemas de resíduos sólidos, como a instituição de taxa de resíduos sólidos e a elaboração de planos de resíduos, bem como o agrupamento de municípios em consórcios para ganho de escala e rateio de custos de infraestrutura e gestão (aterros sanitários, caminhões de coleta, equipe técnica, unidades de tratamento, entre outros)", disse o Ministério do Meio Ambiente e Mudança Climática, em nota enviada à DW. E acrescentou que vem oferecendo apoio aos municípios por meio de programas de apoio e incentivo à reciclagem.

"O governo federal tem apoiado municípios e consórcios públicos em projetos para desvio de resíduos dos lixões por meio da reciclagem, criando as condições adequadas para que se promova a erradicação com a inclusão socioprodutiva dos catadores de materiais recicláveis", acrescenta a nota.

Paralelamente a isso, em dezembro, o plenário do Senado aprovou um projeto de lei que proíbe a importação de resíduos sólidos, como papel, plástico, vidro e metal pelo Brasil. A proposta altera a PNRS e aguarda sanção presidencial. Entre 2012 e 2021, a importação de resíduos sólidos pelo país mais que dobrou, saltando de 4,12 mil toneladas para 8,62 mil toneladas, de acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.