quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

Emendas dominam a política com mais de R$ 80 mi por dia

Em 1º de fevereiro o comando do Congresso será trocado e muito provavelmente Hugo Motta (Republicanos-PB) e Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) vão assumir as cadeiras de presidente da Câmara e do Senado, respectivamente.

Toda renovação pressupõe alguma esperança de mudança, mas sempre há exceções.

Motta deve ser o mais jovem presidente da Câmara da história —ele tem 35 anos—, mas já está em seu quarto mandato na Câmara e chega ao cargo pelas mãos de Arthur Lira (PP-AL), o atual ocupante do posto. Alcolumbre volta ao cargo que ocupou de 2019 a 2021 e após emplacar em seu lugar o hoje presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG).


Retomando ao segundo parágrafo desse texto, então, nada indica sinais de renovação. Isso apesar de haver um modelo que exigira uma ampla rediscussão de seu formato e volume. As conhecidas emendas parlamentares.

Reportagem de Mateus Vargas mostrou que de 2020 a 2024 os 594 deputados federais e senadores destinaram 150 bilhões de verbas federais para obras e investimentos em seus redutos eleitorais. Isso representa uma média de mais de R$ 80 milhões por dia, todos os dias. Úteis, sábados, domingos, dias santos, feriados.

Os valores se quadruplicaram em relação a igual período anterior, o que transformou a maior parte dos parlamentares em vereadores de luxo cujos mandatos são consumidos em sua quase totalidade na gerência da bolada com ministérios, prefeituras e lobistas.

As emendas assumiram nos últimos anos o protagonismo do dia a dia do Congresso.

É impressionante que o modelo tenha atingido essa magnitude, consumindo cerca de 20% das despesas discricionárias do governo federal. Mais impressionante é a transparência ausente ou precária, além das incontáveis suspeitas de corrupção.

Motta e Alcolumbre não dão qualquer sinal de mudança e mesmo que tivessem tal disposição, seria improvável obterem algum apoio no "chão de fábrica".

Fevereiro, que poderia trazer ventos de mudança, tende a trazer os mesmos ventos de sempre —dessa vez, a renovada ameaça de retaliação ao governo, que na visão do mundo legislativo, está por trás das decisões trava-emendas do ministro do STF Flávio Dino

Abrindo as janelas de um novo tempo

Volto, depois de alguns dias de descanso, com muitas dúvidas e um pouco de esperança. Hora de grande reflexão: tenho cumprido o meu dever neste 2025 que ainda não mostrou a cara? Como viverá o planeta com um Donald Trump se fazendo de imperador, ameaçando anexar o Canadá, tornando-o o 52º Estado americano e, mais, querendo comprar a Groenlândia? Quem vai dirigir o país da maior democracia ocidental, a partir de 20 de janeiro próximo, é um bilionário que ameaça o planeta com ideias estapafúrdias. A Europa vai suportar isso? China e Rússia, o que farão para impedir essa ambição? As guerras entre Ucrânia e Rússia terão um fim? Israel continuará a reagir contra seus inimigos no Oriente Médio? A faixa de Gaza continuará a ser alvo de bombardeios? E os países da América Latina seguirão na curva da direita ou da esquerda?

As interrogações ganham volume. Tempos de turbulência, novos ciclos de medo e de paisagens mortuárias nos aguardam. A par das tensões que viveremos nesse segundo tempo do governo Lula III, quando o jogo da economia, apitado pelo árbitro Fernando Haddad, será disputado entre os times da gastança e da poupança. A vereda por onde devemos passar é estreita, daí o esforço para não sermos engolidos pela batalha que se travará na arena econômica. Os grupos internacionais já estão pulando fora do nosso chão, temerosos de verem seus volumosos investimentos escorregarem nas mãos inábeis dos nossos financistas.


Querem um conselho? Vamos a ele: não gastem mais do que devem poupar. Saibam administrar quando e como abrir o cofre. Sob a lembrança de que Sua Excelência, Luiz Inácio, prometeu, quando se assentou na cadeira central do Planalto pela terceira vez, realizar o melhor governo de toda a história republicana. Olhe o tempo, senhor presidente. A partida está no 52º minuto.

Mãos à obra. Ao lado da prudência na escolha de novos integrantes do seu Ministério, urge, presidente Lula da Silva, adotar a virtude da moderação, tão importante nesses tempos agressivos que estamos presenciando. Sabe-se que o senhor desconfia muito dos conselhos que chegam aos seus ouvidos. Mas abandone, paulatinamente, o tom palanqueiro e evite usar imagens que tendem a causar polêmica, como esta dos homens brasileiros que preferem amantes às esposas. Claro, sua intenção não foi a de enaltecer o adultério, mas a índole nacional levou o caso para o foro da fofoca. Não exagere, não rompa os limites de sua autoridade, desfrute livremente de sua linguagem, mas contente-se com o estritamente necessário, sem arroubos e extravagâncias que acabam roubando o estoque de bom senso. A intemperança, dizia Montaigne, é “a peste da volúpia”.

Evite, ainda, cair na sela da pavonice, muito comum nos tempos de desfiles canhestros para chamar a atenção de espectadores e ouvintes. Os idos de Luís XIV, que desfilava em Versailles em seu cavalo branco adornado de diamantes, já se foram. O Brasil de 2003 até que propiciava momentos de Estado-Espetáculo, onde o ator principal podia desfilar vaidades e virtudes. O senhor, afinal de contas, subiu ao cume da montanha, trilhando um tortuoso caminho, que começou na base da pirâmide. E os brasileiros ansiavam vê-lo como se comportaria no comando do transatlântico nacional.

Seu estilo de governar, de falar e se comportar foi bem observado pela plebe e pelas elites. Até 2011. Oito anos e oito dias. O Brasil de hoje é outro, mesmo continuando com as amarras do passado. Dessas observações, sai mais uma sugestão. Tenha cuidado com a imagem plástica que o “novo comunicador” do Lula III, Sidônio Palmeira, tentará construir. Publicizar em demasia um ente público, seja um indivíduo, seja uma organização, é construir um castelo na areia.

Atente, também, para o valor da humildade, que ganhou de André Comte-Sponville, filósofo francês, a definição: “a humildade é a virtude do homem que sabe não ser Deus”.

Tempos de dureza, de polarização intensa e continuada entre seus exércitos e os de seu opositor, um capitão que nunca foi bem-visto nas Forças Armadas, tempos de ódio, com a arena cheia de opostos se matando. É hora de criar um contraponto à desdita. Procure viver de modo mais leve, suave, evitando rompantes, atitudes tresloucadas, viagens longas. Cuide de sua saúde.

E não menospreze o vozeirão do imperador global, que já fez uma ameaça, mesmo leve, ao Brasil. O senhor Donald quer o trono do planeta. Seja justo. E o leme do Itamarati deve seguir os ajustes sob a égide do pragmatismo.

“Ainda estamos aqui”, disse o senhor, em sua fala por ocasião do evento que lembrou dois anos da barbárie que assolou os Três Poderes, em Brasília. Temos que comemorar com orgulho a espetacular performance de nossa atriz Fernanda Torres, no magistral filme de Walter Salles sobre a vida do ex-deputado e engenheiro Rubens Paiva. Esse filme é um pilar de conscientização para bloquear a tirania.

Viva!

Em suma, presidente Luiz Inácio Lula da Silva, busque se guiar pela deusa de olhos tapados, Têmis, aquela que o senhor avista de sua sala no terceiro andar do Palácio do Planalto, e que é desenhada com uma balança e dois pratos em equilíbrio, que apontam para o estado da ordem e da igualdade. Ao seu lado, o senhor tem uma conselheira. E parceira. A primeira-dama, Janja, é, pelo que se intui, uma luz que ilumina seus passos.

Não se deixe envolver pelas doses de ódio que continuam a emergir nas ondas de intensa polarização política. Nietzsche anunciava: “o que fazemos por amor se consuma além do bem e do mal”.

O Grande Ruído


Nada há de mais ruidoso - e que mais vivamente se saracoteie com um brilho de lantejoulas - do que a política.
Eça de Queirós

Eles continuam aqui

No evento para lembrar o 8 de janeiro, o presidente Lula disse "nós, democratas, ainda estamos aqui", mas depois de 40 anos de democracia, eles, os golpistas, também estão aqui: tanto militares que ameaçam de fora, quanto civis que enfraquecem a democracia por dentro. Apesar de nada ter a ver com os crimes do passado, a atual geração de militares ainda tem sintonia com aqueles que sequestraram Rubens Paiva. Mais ameaçador que isso, a maioria dos parlamentares não parece ter sintonia com os líderes que lutaram contra a ditadura desejando construir um futuro democrático para o país, os parlamentares de hoje apodrecem a democracia.


Ao assistir a Fernanda Torres recebendo o prêmio de melhor atriz do ano no Golden Globe, vi Eunice e milhares de outras mulheres que passaram pelo que ela sofreu: maridos, filhos, irmãos e amigos desaparecidos. Lembrei de Dilma Rousseff e Miriam Leitão e de centenas de mulheres que sofreram elas próprias prisão e tortura. Vi milhares de homens e mulheres que sofreram durante a brutalidade ditatorial. Lembrei também dos milhões que não perderam a vida, nem foram presos, mas atravessaram 21 anos da história sem participação democrática, sem ver o país caminhar na direção do desenvolvimento rico, justo, sustentável, distribuído, livre. Mas também lembrei que já temos duas vezes mais tempo de democracia do que tivemos de ditadura e ainda não enfrentamos as questões fundamentais para a construção do Brasil que queremos e nosso potencial permite.

Não enfrentamos a questão militar: nossos soldados ainda aprendem que nada daquilo ocorreu, ou o que ocorreu teria sido necessário para salvar o país e que é sua obrigação patriótica, se necessário, recusar resultados das urnas de eleitores equivocados ao escolherem líderes políticos incompatíveis ou corruptos. Foi esse aprendizado que fez com que, por pouco, não tivéssemos tido em 2023 outro golpe, repetindo 1964. Mas a questão militar não é a única nem a mais forte ameaça à democracia: nossos políticos civis e partidos não estão sendo instrumento de consolidação da democracia.

Imaginei o que Rubens Paiva e todos os outros milhares de lutadores que deram a vida pensariam se assistissem como funciona hoje o democrático Congresso Nacional, sem tutela militar, mas usando dezenas de bilhões de reais do dinheiro público para atender a volúpia por voto ou mesmo por aumento da fortuna pessoal. O que pensariam ao ter dado a vida por uma democracia que, no lugar de eliminar, ampliou privilégios, mordomias, vantagens; aumentou a extensão, o tamanho e a tolerância com a corrupção, ao ponto de a honestidade passar a ser motivo de galhofa.

Foi importante acabar com a censura que impedia escrever e publicar livremente, mas, depois de quase meio século, a democracia não eliminou a mais absoluta forma de censura que pesa sobre os 10 milhões de brasileiros adultos analfabetos, incapazes até de reconhecer a própria bandeira; aumentamos o número de universitários, mas pouco fizemos para universalizar a educação de base, não construímos um sistema nacional de educação de base com a qualidade e equidade necessárias ao progresso econômico e à justiça social. Foi fundamental abrir as cadeias, mas, para justificar a democracia, é preciso também derrubar os muros dos condomínios. A partir de 1990, reduzimos a penúria com transferências de renda mínima e com o SUS, mas até hoje não definimos uma estratégia para quebrar a obscena concentração de renda e abolir a vergonha do quadro de pobreza. Em 1994, conseguimos construir uma moeda estável, mas até hoje não conseguimos equilibrar nossas contas públicas devido ao corporativismo, ao imediatismo, à demagogia, à irresponsabilidade e à falta de espírito patriótico.

Fernanda Torres e Walter Salles nos despertam para o que sofremos simbolizado no Rubens, o quanto lutamos simbolizado na Eunice e o quanto ainda estamos devendo a eles e a todos os outros que lutaram pela democracia. Eles nos fazem gritar que "ainda estamos aqui", mas não estamos dizendo "para que estamos aqui": porque, para consolidar a democracia política, é preciso consolidar a democracia social. Fernanda nos deslumbra e orgulha, mas também nos alerta e provoca. O presidente Lula deveria convidar os comandantes e cadetes das Forças Armadas para assistirem ao filme Ainda estou aqui no cinema do Palácio do Planalto para superarmos os traumas do passado, mas também convidar aos parlamentares para assistirem a filmes que mostram o Brasil que estamos construindo: sugiro Grande Sertão, de Guel Arraes.

Brasil precisa finalmente punir militares golpistas

"Não é maravilhoso que os jovens estejam finalmente descobrindo o que aconteceu na ditadura militar?": uma amiga me mandou essa mensagem comemorando o fato de que, nas redes e nas conversas, os jovens (e boa parte da sociedade brasileira) estão revoltados com os crimes praticados na ditadura militar, período horroroso da história que se seguiu ao golpe de 1964.

Isso acontece por causa do sucesso do filme "Ainda estou aqui", que conta a história da família do engenheiro e deputado federal Rubens Paiva, morto na tortura e "desaparecido" em 1971. O filme, baseado no livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva, filho do engenheiro, e dirigido por Walter Salles, colocou o Brasil cara a cara com a ditadura. Que coisa boa ver todo mundo lembrando do passado e muitos jovens curiosos sobre essa "página infeliz da nossa história".

É extremamente necessário que estejamos olhando para a ditadura e conversando sobre isso. Em quase todas as entrevistas, Marcelo e seus familiares, assim como o elenco do filme, repetem: "É preciso lembrar para que não se repita".

É verdade. E isso nunca foi tão óbvio. O país não rememorou o suficiente, jamais puniu os militares e banalizou a ditadura. E por isso quase sofreu um golpe militar de novo. O plano golpista foi revelado semana passada pela Polícia Federal e mostra que um grupo que incluiria o ex-presidente Jair Bolsonaro teria planejado dar um golpe de Estado no Brasil em dezembro de 2022. Além de tomar o poder por meio da força e dos tanques, segundo o relatório da PF, eles pretendiam assassinar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, seu vice, Geraldo Alckmin, e o ministro do STF Alexandre de Moraes.

A Polícia Federal indiciou Bolsonaro e mais 36 pessoas por tentativa de golpe de Estado, abolição violenta do Estado democrático de Direito e formação de organização criminosa. Dos 37 indiciados, 25 são militares. Entre eles estão Augusto Heleno, general da reserva, que foi capitão na ditadura militar e ministro de Segurança Institucional do governo Bolsonaro, e Walter Braga Netto, também general da reserva e ex-ministro da Defesa e candidato a vice na chapa de Bolsonaro. A mesma operação prendeu preventivamente cinco pessoas. Quatro delas eram militares.

Ou seja, no ano em que todos falam sobre ditadura, soubemos que escapamos por pouco de outro golpe militar ao estilo do de 1964.

Como chegamos a isso? Em parte, porque por muito tempo, os horrores da ditadura foram deixados embaixo do tapete e muitos absurdos foram banalizados. Os militares golpistas e os torturadores de Rubens Paiva (e de muitos outros brasileiros) foram anistiados em 1979 e até hoje seus familiares desfrutam de generosas pensões. Segundo levantamento do portal UOL, só os torturadores de Rubens Paiva ganham cerca de R$ 1,8 milhão por ano de pensão.

Além de não haver punição, os horrores foram totalmente banalizados.

Entre os bolsonaristas mais radicais, virou quase moda usar uma camiseta com o rosto e o nome de Carlos Alberto Brilhante Ustra, um dos piores torturadores da ditadura e ex-chefe do DOI-Codi, uma casa dos horrores. Em 2016, na noite do impeachment de Dilma Rousseff (a ex-presidente foi barbaramente torturada na ditadura), Jair Bolsonaro, então deputado federal, dedicou seu voto a "Carlos Alberto Ustra, o terror de Dilma Rousseff". Sim, ele glorificou um torturador e fez piada com a tortura de Dilma em pleno microfone, com transmissão em rede nacional. De novo. E nada aconteceu. Ficou por isso mesmo. Deu no que deu. O fã de torturador queria, segundo a PF, dar um golpe junto com os militares.

E agora? A única alternativa decente para que o país não se torne definitivamente um antro golpista é que todos os envolvidos nos planos antidemocráticos e terroristas paguem criminalmente pelos seus crimes, independentemente de patente, de cargo político que já ocuparam ou do número de seguidores que têm nas redes sociais.

Se isso não acontecer, ficaremos presos para sempre nesse ciclo do horror, onde os governos têm medo de punir os militares e "desagradar as tropas". Como disse Marcelo Rubens Paiva em entrevista para a DW, "nós sempre vivemos nessa espécie de chantagem dos militares contra nós, os civis, que deveriam ser quem manda naqueles que têm armas."

É verdade. Há anos e anos o país vive com medo dos militares e pisando em ovos para que eles "não se chateiem". O Brasil precisa, finalmente, quebrar esse ciclo abusivo. Chega de varrer os crimes dos militares para debaixo do tapete. É preciso lembrar e punir para que o horror não se repita para sempre.
Nina Lemos 

Vamos discutir o Brasil

“Tinha razão aquele velho brasileiro que, escandalizado com a futilidade dos nossos debates políticos, lembrava a conveniência de, ao lado do Congresso Nacional, organizar-se uma comissão permanente de brasileiros de boa vontade, sem outra preocupação que a prosperidade e a grandeza da Pátria, para o fim de estudar e resolver os grandes problemas políticos de nossa terra. O Congresso ficaria para as parolagens inúteis, para os bate-bocas apaixonados, para as exibições teatrais (...).” Nada mais atual do que o comentário publicado no jornal O Estado de S. Paulo em 23 de novembro de 1935.



Nos dias que correm, a divisão e a polarização da sociedade brasileira dificultam e influenciam a discussão e o debate sobre os múltiplos aspectos das questões nacionais. O foco de debate reproduzido pela mídia tradicional e pela mídia social reflete aspectos importantes da economia, da política, das questões sociais, das questões identitárias, as reformas estruturais, a relação entre Executivo, Legislativo e Judiciário, as questões ambientais e de mudança de clima, a violência e a corrupção. São raramente analisados os impactos relacionados com o cenário global (guerras, nacionalismo, protecionismo, geoeconomia e uso da força, inovação, inteligência artificial, entre outras) sobre a economia e a política nacionais.


Discute-se tudo, mas pouco ou quase nada sobre o Brasil. É quase inexistente hoje o pensamento sobre o Brasil como país, e não como palco de disputas ideológicas e partidárias. A ausência de lideranças no governo, no Legislativo, no Judiciário, na classe política, nos setores industriais e agrícolas contribui para a discussão fatiada, sem a preocupação mais geral de pensar o Brasil em primeiro lugar, em um mundo em grandes transformações, e sem reconhecer as mudanças ocorridas nas últimas décadas no País e no seu entorno geográfico (América Latina e do Sul), relevantes para uma análise objetiva. Está mudando a economia global, a ordem internacional, a geopolítica, o meio ambiente e a mudança de clima, a inovação tecnológica se acelerou e a inteligência artificial criou desafios na área civil e militar, a geoeconomia e a segurança nacional são as forças do momento. Qual o impacto dessas transformações sobre o Brasil? Quais as decisões estratégicas, internas e externas, que terão de ser adotadas para o Brasil responder a esses desafios?

Como tentar reduzir as vulnerabilidades e aproveitar as oportunidades que se oferecem na nova ordem econômica e mundial? Como enfrentar as novas e as tradicionais ameaças à soberania, ao desenvolvimento e à segurança do País?

A radicalização da política interna, na minha visão, torna difícil, neste momento, a discussão sobre um projeto para o Brasil. Na impossibilidade de se chegar a um acordo em torno de um projeto nacional por diferenças ideológicas e político-partidárias, torna-se necessário preencher essa grave lacuna do ponto de vista estratégico. Não existe nenhum documento oficial (e poucos de origem na academia) que pensem o Brasil no contexto global e que tenha sido discutido com a sociedade civil.

Chegou a hora de começar a discutir o Brasil e tentar colocar os interesses nacionais permanentes acima de visões setoriais, como fazem todos os principais países do mundo, com uma visão de médio e longo prazo. O documento Uma Estratégia para o Brasil – O Lugar do Brasil no Mundo, preparado pelo Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice), procura contribuir para um debate que está atrasado, mas que se faz necessário (interessenacional.com.br). Não se trata de um documento elaborado a partir das políticas do governo de turno nem com viés ideológico ou partidário. Necessariamente genérico, sempre com uma visão estratégica e não conjuntural, o trabalho trata dos objetivos nacionais, do lugar do Brasil no mundo, sinaliza as prioridades e vulnerabilidades de uma potência de médio porte emergente que tem um peso no cenário internacional como oitava economia global, com um território continental e mais de 210 milhões de habitantes. O documento vai além da Estratégia Nacional de Defesa e da Política Nacional de Defesa, produzidos pelo Ministério da Defesa, que refletem posições nacionais, mas de um ponto de vista setorial.

Durante o ano de 2025, serão promovidos encontros virtuais e presencias para discutir o trabalho e suscitar o debate sobre uma estratégia para o Brasil, do ponto de vista interno e externo, com uma visão de médio e longo prazo. Com isso, se pretende começar a focalizar o Brasil em primeiro lugar, em um novo mundo, em complemento ao debate interno conjuntural de todos os problemas políticos, econômicos e sociais nacionais.

O Irice, com o apoio do Portal Interesse Nacional, organizará uma série de encontros para sensibilizar a sociedade civil para esse debate. Serão buscadas parcerias com as Comissões de Relações Exteriores e de Defesa, da Câmara e do Senado, com os partidos políticos, com instituições civis e militares, públicas ou privadas, empresariais e acadêmicas, além de formadores de opinião na mídia social que possam se interessar.

Vamos discutir o Brasil acima de interesses ideológicos e partidários.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2025

'Nós morremos, para que eles possam viver'

Quantas horas você consegue sobreviver sob os escombros da sua própria casa? Duas, três ou até seis horas?

Aqui em Gaza, somos forçados a suportar uma maratona de ficarmos presos sob os escombros.

Lara, Yara e Naama suportaram períodos de tempo inimagináveis: seis, oito e dezesseis horas, respectivamente.

Merecemos ter o peso de nossas próprias casas nos esmagando, nos sufocando enquanto lutamos para sobreviver?

Essas horas são realmente nossas ou ainda estamos presos sob os escombros de nossas próprias vidas?

Em Gaza, quando uma casa é bombardeada, a defesa civil e os civis correm para salvar os sobreviventes.

No entanto, até mesmo a defesa civil foi alvo da ocupação israelense. Como isso foi permitido pelo direito internacional?

Aqueles que ainda estão vivos sob os escombros também não estão morrendo?

Nós nos sacrificamos mil vezes para que outros possam viver. Mas mesmo quando são resgatados, algo dentro deles morreu.


A família Zaqout no campo de Nuseirat foi alvo, e a família inteira ficou presa sob os escombros. Lara, que tem seis anos, e Yara, que tem dezesseis, sobreviveram milagrosamente depois de mais de oito horas sob os escombros.

Yara relembra: “Lara costumava dormir ao meu lado antes do bombardeio. Costumávamos dormir em paz até que o míssil chegou, o que foi como um pesadelo da minha vida.”

Acordei e encontrei o teto da nossa casa sobre meu peito, e tudo o que havia para respirar era ar cheio de poeira.

Tantas perguntas correram na minha cabeça — eu morri? Onde estou? Onde está minha família? Minha mãe, meu pai e Lara?

Gritei, mas não saiu nenhum som, desmaiei e acordei com o corpo todo coberto de sangue e lágrimas.

As vozes da defesa civil, vizinhos e parentes gritavam: “Há sobreviventes?” Como posso responder?

Tentei muito, mas nenhum som saiu. Tentei tocar Lara, mas não a encontrei ao meu lado. No entanto, ouvi-a gemer.

Vozes de fora começaram a sumir e desaparecer.

O som de alguém lá fora dizendo: "Há uma mão se movendo sob o teto", me dá esperança; esta é Lara.

Todos trabalharam incansavelmente para resgatar Lara e, ao verem minha mão, tentaram me puxar para fora, mas sem sucesso.

Eles não conseguiram quebrar o teto porque eu estava embaixo dele. Eles tentaram por horas, e depois de oito horas de pesadelo, eu saí.

Oito horas se rendendo à morte diversas vezes.

Oito horas vivendo um pesadelo que eu queria poder apagar da memória dela.

Sim, fui resgatado e gostaria de não ter sido!

Qual foi o custo?

“Saí com deficiências e uma pélvis quebrada, meu corpo encharcado de sangue e seus ossos quebrados visíveis sob a carne”, disse Yara.

Esse incidente aconteceu meses atrás, mas Yara ainda revive o pesadelo toda vez que fecha os olhos.

Rita, uma mãe de 27 anos, estava morando no Egito, mas veio a Gaza para visitar sua família e seus três filhos apenas dois meses antes da guerra começar.

Eles estavam todos dormindo no meio da casa.

Sua irmã Farah insistiu que eles não dormissem naquele dia e prometeu Nescafé. Eles estavam relembrando suas memórias de infância.

De repente, a casa foi envolta em um brilho alaranjado de um foguete, e suas vozes foram silenciadas quando o prédio de cinco andares desmoronou em um único andar.

“Achei que estava morta e desisti”, diz Rita.

Mas aqueles dedos inocentes e pequenos de seu filho Ryan a tocaram e a trouxeram de volta à vida. “Mãe, acorde, mãe, acorde.”

“Meus irmãos não acordaram”, Ryan grita e pede ajuda.

Os irmãos de Rayan não sobreviveram, mas a voz e o toque inocentes de Ryan lhe deram forças para continuar lutando.

“Não se preocupe, minha pequena, eu estou viva.”

A Defesa Civil conseguiu resgatar Ryan, Rita e sua irmã, Farah, mas o resto da família morreu.

A espera mais longa de nossas vidas foi esperar para sermos resgatados dos escombros, torcendo para sermos encontrados antes que o oxigênio acabasse ou que sucumbissemos aos ferimentos.

Muitos morreram enquanto esperavam por ajuda porque a ocupação israelense tem como alvo a defesa civil e as ambulâncias.

Sem equipamentos adequados, a defesa civil enfrenta um desafio intransponível.
Donya Abu Sitta

Trump e a volta do 'imperialismo ianque'

Por definição, o imperialismo ocorre quando uma nação promove uma expansão territorial, econômica e/ou cultural sobre outra nação pela força. A colonização da África, da Ásia e da Oceania, que se iniciou na segunda metade do século XIX, representou o auge do imperialismo. Em termos atuais, pode ser empregada no caso da invasão da Ucrânia pela Rússia, por exemplo. Segundo o historiador Eric Hobsbawm, essa forma de neocolonialismo representou a ocupação de 25% das terras do planeta.

O revolucionário russo Vladimir Lênin, que liderou a Revolução de 1917 e fundou a antiga União Soviética, porém, associava o imperialismo ao estágio monopolista do capitalismo. “Essa definição compreenderia o principal, pois, por um lado, o capital financeiro é o capital bancário de alguns grandes bancos monopolistas fundido com o capital das associações monopolistas de industriais e, por outro, a partilha do mundo é a transição de uma política colonial que se estendeu sem obstáculos às regiões não apropriadas por nenhuma potência capitalista para uma política colonial de posse monopolista dos territórios da Terra, já inteiramente repartida.”

Com o fim da antiga União Soviética, que havia se transformado de uma força anticolonialista, sobretudo na Ásia e na África, numa potência imperialista na Europa Oriental, essa visão perdeu relevância. Com o fim do colonialismo, a integração das diversas regiões do globo por meio do desenvolvimento dos transportes e das comunicações ultrapassou os modelos nacional-desenvolvimentistas que nela se baseavam, sobretudo a partir de a China adotar o capitalismo de estado e emergir como nova potência econômica mundial.


A globalização “liquefez” a sociedade industrial e elevou a modernização a um novo patamar, com impacto direto no modo de vida de todas as pessoas. Forçou os governos a adotarem políticas de integração à economia mundial para não apenas arcar com as suas consequências mais danosas. No Brasil, a globalização intensificou-se a partir da segunda metade do século XX, com a maior inserção do país no mercado econômico global, sobretudo a partir do governo Collor de Mello, em 1990. A tentativa de retomar um projeto nacional-desenvolvimentista, durante o governo da presidente Dilma Rousseff, resultou no colapso econômico que a levou ao impeachment, em 2016.

Entretanto, a integração das cadeias produtivas globais e o multilateralismo, que pareciam pautar a globalização, sobretudo a partir da formação da União Europeia, passaram a ser fortemente questionados pelos Estados Unidos, a partir da emergência da China como segunda economia mundial. Quem controlará o comércio global, cujo eixo se deslocou do Atlântico para o Pacífico? Esse tipo de disputa entre o Reino Unido e a Alemanha, uma potência marítima e outra continental, foi uma das causas de duas guerras mundiais no século passado.

O velho “imperialismo yankee” parece estar de volta. No seu primeiro mandato, o presidente Donald Trump deu um cavalo de pau na política externa norte-americana em relação á China e ao multilateralismo, estratégia que foi mantida pelo democrata Joe Biden, que deu sequência à reorganização das suas cadeias de produção.

Agora, às vésperas de tomar posse, Trump choca o mundo com uma visão geopolítica expansionista que vai muito além da “guerra comercial” com a China. Seu America First promove políticas que prioriza a soberania dos EUA e a redução de sua dependência em termos de comércio e manufatura. A OTAN, a ONU e a OMS são estorvos econômicos e políticos. Tratados comerciais como antigos aliados, como a NAFTA, também.

A rivalidade com a China tende a desaguar numa nova corrida armamentista. Trump tudo fará para conter o crescimento da influência tecnológica e econômica chinesa, sobretudo na infraestrutura e nas comunicações. Em contrapartida, tende a se aproximar de líderes autocráticos como Vladimir Putin (Rússia), Kim Jong-un (Coreia do Norte) e Mohammed bin Salman (Arábia Saudita).

Antes mesmo de tomar posse, estressou as relações com a OTAN, com declarações sobre a anexação do Canadá e a compra da Groelândia, ao mesmo tempo em que pressiona os demais países a aumentarem seus gastos com defesa. Trump pretende apoiar a anexação dos territórios Palestinos por Benjamin Netanyahu e forçar uma aproximação de seus aliados árabes com Israel. Ao mesmo tempo, tende a largar de mão o Afeganistão e a Síria.

Sua política em relação à América Latina pode provocar nova crise humanitária, sobretudo no México, com o fechamento da fronteira e a expulsão em massa de imigrantes. As sanções econômicas e políticas contra os regimes da Venezuela, Nicaragua e Cuba serão ampliadas e a ameaça de retomada à força do Canal do Panamá se insere no contexto da disputa com a China pelo controle do comércio do Atlântico com o Pacífico.

A política energética de Trump é uma ameaça ambiental ao planeta, com a exploração doméstica de petróleo e gás por meio da fraturação hidráulica. Os EUA vão se retirar novamente do Acordo de Paris sobre o clima. Tudo isso está associado a um novo complexo tecnológico nas áreas de infraestrutura, comunicações, militar e espacial, num novo ciclo histórico, não apenas conjuntural.

Mudanças na Meta irão instaurar uma tirania da maioria


Imagine um hospital, reconhecido por tratar os casos mais complexos de doenças raras. Até ontem, as decisões sobre diagnósticos e tratamentos eram tomadas por uma equipe de especialistas — médicos, cientistas e profissionais dedicados a estudar cada caso com precisão. Porém, o CEO do hospital decide inovar e substituir a sua equipe técnica por um palanque, onde qualquer visitante pode opinar quais procedimentos adotar com os pacientes. Não importa o nível de conhecimento, experiência ou responsabilidade, cada opinião conta igualmente para definir o que será feito.


A mudança é apresentada como um marco da democracia e inclusão. Afinal, quem melhor para decidir do que “o povo” sobre o que é científico e o que não é? Porém, em menos de um plantão o caos se instala. Pacientes passam a ser tratados com métodos duvidosos e grupos organizados começam a influenciar decisões, combinando de subir no palanque para promover ideias milagrosas e descartar tratamentos comprovados. Os resultados? Diagnósticos errados, tratamentos inadequados e vidas em risco, tudo sob a justificativa de “mais espaço para o debate”.

Apesar de absurdo, é exatamente com a frase de “mais espaço para o debate” que a Meta, companhia de Mark Zuckerberg e controladora do Facebook, WhatsApp, Instagram e Threads, decidiu substituir as agências de checagens especializadas por um mecanismo de “Notas da Comunidade”, onde os próprios usuários decidem o que é verdadeiro ou falso, votando em uma enquete sobre a relevância e veracidade das informações. Agora pense naquele seu conhecido ou parente que discorda totalmente de você, você realmente acha que ela vai deixar a emoção e a polarização de lado para simplesmente dizer que a sua fala é verdadeira e a dele é falsa? E você? Conseguiria deixar a sua visão de mundo de lado para validar friamente a fala de um político que você discorda?

Quando milhões de pessoas, muitas sem qualquer preparo técnico, passam a decidir sobre temas complexos como ciência ou medicina, por exemplo, as decisões deixam de ser guiadas pela busca pela verdade e passam a refletir o que é mais popular ou conveniente. Pior ainda, grupos organizados podem manipular essas Notas para reforçar narrativas falsas, mobilizar um grupo de 10, 20, ou 30 pessoas para moldar a opinião pública ou deslegitimar informações confiáveis.

Em alguns casos, teorias da conspiração e desinformações prometem curas milagrosas, como no caso do uso do dióxido de cloro (ClO2), o qual propõe suposta “cura do autismo”, uma desinformação recorrente e nociva à sociedade e que já resultou em danos letais. Essa mesma mentira, por exemplo, poderia receber um selo de “verdadeira” a partir de uma Nota da Comunidade que contasse com votos suficientes de usuários bancados pelo lobby do dióxido de cloro, ou que fossem parte de um grupo de venda clandestina de produtos químicos no Telegram.

Se seria impensável confiar a vida de pacientes a decisões tomadas sem critério em um hospital, então por que aceitar que a integridade das informações que consumimos seja entregue a um sistema tão vulnerável de enquete pública? Essa mudança, apresentada como progresso, é, na verdade, um convite para uma tirania da maioria, onde o caos e a mentira ganham pelo volume.

Após a aquisição do atual X (antigo Twitter) por Elon Musk, a plataforma implementou, em maio de 2023, as Notas da Comunidade, permitindo que usuários adicionassem contextos a tweets potencialmente enganosos. No entanto, o sistema mostrou-se suscetível à captura por grupos com agendas específicas. Uma investigação revelou que as Notas da Comunidade foram manipuladas por grupos organizados, expondo usuários ao ódio e permitindo o uso político da ferramenta. A falta de transparência sobre quem são os usuários envolvidos no processo de avaliação e a ausência de critérios claros de admissão no programa contribuíram para essa vulnerabilidade.

A implementação das Notas da Comunidade também gerou controvérsia entre perfis públicos e meios de comunicação, os quais frequentemente tiveram suas publicações corrigidas erroneamente por usuários anônimos. Além disso, durante as eleições presidenciais nos Estados Unidos, diversas postagens contendo informações verificadas sobre procedimentos de votação foram alvo de Notas da Comunidade que propagavam teorias da conspiração sobre fraude eleitoral. Essas notas, baseadas em informações falsas ou enganosas, criaram confusão entre os eleitores e minaram a confiança no processo democrático.

E ainda, um estudo revelou que aproximadamente 96% de todas as notas de checagem de fatos contribuídas pela comunidade não foram exibidas ao público por não atenderem aos requisitos de consenso definidos pelo algoritmo, resultando em mais de 30.000 notas não exibidas. Em outras palavras, quem decide qual Nota vale é a própria plataforma, com base em critérios próprios. Um prato cheio para pautar a opinião de acordo com o que quiser. Tais notas omitidas são selecionadas pelo próprio algoritmo do X, o qual utiliza critérios opacos para decidir quais notas são relevantes ou adequadas para publicação. A falta de transparência sobre os parâmetros de elegibilidade das notas gera questionamentos sobre a imparcialidade do sistema e abre margem para potenciais vieses, já que os usuários não têm como verificar ou contestar a lógica por trás das decisões algorítmicas. Esse processo contraria a promessa de um sistema mais democrático e acessível, enfraquecendo a confiança dos próprios usuários na ferramenta.

Em outra frente, um levantamento do MediaWise descobriu que menos de 10% das notas criadas pelos usuários acabaram publicadas em postagens ofensivas. Os números são ainda menores para tópicos sensíveis como imigração e aborto, pois o algoritmo escolhe sem regras explícitas quando permitir ou não as Notas da Comunidade. Pesquisadores descobriram que, mesmo que as Notas da Comunidade viessem a ser democráticas em sua distribuição (o que não são), a maioria das postagens no X recebe a maior parte do tráfego nas primeiras horas, mas pode levar dias para que uma nota do Notas do Comunidade seja aprovada e visível para todos. Em outras palavras, sua resposta não vem a tempo de enfrentar desinformações nocivas às pessoas, especialmente envolvendo saúde pública e perseguições virtuais.

Não bastasse implementar as notas da comunidade, a Meta também anunciou que passará a permitir conteúdos antes proibidos por serem considerados discriminatórios ou potencialmente nocivos. A empresa justificou a decisão sob o argumento de que tais mudanças promovem “mais espaço para o debate” em questões culturais e políticas. Entre as alterações, está a permissão de postagens que classifiquem gays e trans como “doentes mentais”. Além disso, usuários agora poderão defender sem restrição da plataforma, por exemplo, que mulheres não são aptas para alguma profissão intelectual, só por serem mulheres, ou que pessoas trans não devem ser professoras, desde que baseiem essas opiniões em crenças religiosas. A Meta também ampliou o escopo para discussões sobre exclusões baseadas em gênero em contextos como banheiros, escolas e papeis no exército, alegando que essas questões fazem parte de debates sociais amplos.

Essa decisão não apenas contraria avanços históricos na proteção dos direitos humanos, mas também desafia marcos legais de países como o Brasil, onde o Supremo Tribunal Federal (STF) equiparou a homotransfobia ao crime de racismo. Ao ignorar essas legislações, a Meta demonstra desprezo pela dignidade das pessoas afetadas e pela soberania das nações em que opera. A justificativa de que tais discursos podem ser permitidos por se basearem em crenças religiosas apenas transforma dogmas em ferramentas de discriminação. Argumentos como esses, ao invés de enriquecer o debate público, promovem a segregação e reforçam estruturas de poder.

O impacto dessas mudanças transcende o plano digital, alcançando as vidas reais das pessoas que são alvo desses discursos. Permitir que gays, trans e mulheres sejam tratados como sub-humanos inferiores em discussões públicas normaliza práticas de discriminação em todos os níveis da sociedade. Por fim, o argumento de “liberdade de expressão”, frequentemente usado para justificar essas mudanças, revela-se falacioso. Seu uso para justificar ataques e desumanização de minorias viola os princípios de igualdade, dignidade e da própria liberdade de expressão daqueles que nada mais estão fazendo do que expressar a sua identidade. Sob a lógica de que todos os discursos devem ser permitidos, a Meta negligencia o fato de que certos conteúdos possuem o potencial de incitar violência e discriminação, perpetuando violências reais fora das redes.

Por fim, se já haviam banalizado o conceito de “liberdade de expressão” para distorcer a realidade e lucrar com mentiras, agora tentam banalizar até mesmo o conceito de “democracia” para instaurar uma tirania da maioria, reduzindo fatos e conhecimentos científicos a enquetes de um tribunal de anônimos na internet. Ao retirar as agências de checagem de fatos e o jornalismo comprometido dessa atuação especializada, fica no lugar um mecanismo muito menos democrático, em que usuários serão selecionados por um algoritmo oculto para reproduzir a opinião que a própria plataforma quiser dar destaque. Pode parecer The Black Mirror, mas só nos resta refletir: estaremos preparados para uma “IA-Cracia”, onde meia dúzia de big techs decide, com seus algoritmos enviesados, o que é verdade e o que não é?

sábado, 11 de janeiro de 2025

Donald Trump, um imperialista do século 19

Depois de fazer campanha com a política de acabar com as guerras, estabelecer a paz, colocar os EUA em primeiro lugar e isolar o país do mundo, Donald Trump decidiu esta semana ressuscitar o imperialismo do século 19. Em coletiva de imprensa, ele ponderou sobre a possibilidade de tornar o Canadá um Estado e tomar a Groenlândia e o Canal do Panamá, sem descartar o uso de força militar.

Os líderes republicanos, que Trump treinou apenas recentemente para denunciar a antiga política externa de expansionismo e internacionalismo de seu partido, rapidamente mudaram de opinião e adotaram a nova linha, e agora estão elogiando a visão grandiosa e o pensamento de Trump. Onde isso vai parar?

Alguns dizem que estamos de volta à “teoria do louco” da política externa, que postula que é bom para o presidente, às vezes, parecer imprevisível, até mesmo irracional, porque isso deixa os adversários desprevenidos. Vale a pena lembrar que Trump tentou essa jogada em seu primeiro mandato, mais obviamente com Kim Jong-un, da Coreia do Norte.

Ele começou ameaçando-o com uma guerra nuclear (“fogo e fúria como este mundo nunca viu antes”) e depois mudou abruptamente para um romance com cartas de amor. Nada disso funcionou. A Coreia do Norte continuou a construir seu arsenal nuclear, a realizar testes de mísseis (após uma breve pausa) e a ameaçar seu vizinho do sul.


O acadêmico Daniel W. Drezner observa que muitas pesquisas concluíram que o criador da teoria do louco, Richard Nixon, não produziu nenhum resultado positivo em seus esforços para se parecer louco e desequilibrado.

A conversa sobre transformar o Canadá em um Estado parece ser trollagem, direcionada ao primeiro-ministro do país, Justin Trudeau, de quem Trump não gosta. Mas isso forçou até mesmo os políticos trumpistas, como Doug Ford, o primeiro-ministro de Ontário, e o líder do Partido Conservador, Pierre Poilievre, a reagir com firmeza.

Durante a campanha de 2016, a retórica desagradável de Trump sobre o México ajudou o candidato mais antiamericano nas próximas eleições daquele país, Andrés Manuel López Obrador, a subir drasticamente nas pesquisas. Da mesma forma, Trump pode incentivar um maior antiamericanismo no Canadá desta vez.

O foco de Trump no Panamá e na Groenlândia tem algum fundamento. O Canal do Panamá é um dos grandes pontos de estrangulamento marítimo do mundo. Mas as autoridades panamenhas o administraram com responsabilidade e profissionalismo e de forma alguma trataram mal os EUA – como até mesmo o conselho editorial do Wall Street Journal reconheceu recentemente.

Também não há nenhuma evidência direta de influência militar chinesa no canal ou na zona do canal, como afirma Trump. A China está aumentando seus laços econômicos com a América Central e a América Latina, mas a maneira mais fácil de ajudar Pequim a expandi-los ainda mais seria Washington fazer um esforço desastrado para colonizar o lugar. Isso levaria a ataques nacionalistas contra os EUA no Panamá e reavivaria os temores do neoimperialismo americano em todo o continente.

A Groenlândia está se transformando em um lugar crucial, em grande parte devido às mudanças climáticas, que ironicamente Trump chamou de “farsa”. O derretimento das calotas polares abrirá novas rotas marítimas oceânicas entre a Europa e a América do Norte, e a Rússia e a China tentarão ativamente ganhar influência nessas novas vias marítimas.

É – e deve ser – política americana impedir os esforços de ambas as nações rivais para expandir sua presença econômica e militar na região. Mas os EUA não precisam adquirir a Groenlândia para fazer isso. O país já tem todo o acesso à ilha que deseja. Washington tinha uma série de bases durante a 2ª Guerra e a Guerra Fria. Uma delas permanece até hoje e é operada pelas Forças Espaciais.

De fato, a Dinamarca tem ajudado ativamente no novo interesse dos EUA na Groenlândia. Há alguns anos, a ilha (que é governada de forma semiautônoma) quase fez um acordo para aceitar o financiamento chinês para um conjunto de novos aeroportos. O Pentágono pediu à Dinamarca que convencesse os groenlandeses a cancelar o acordo. O governo dinamarquês foi bem-sucedido, substituindo grande parte do financiamento chinês pelo seu próprio.

Trabalhar com a Dinamarca tornou os esforços dos EUA mais eficazes. Da mesma forma, empresas americanas, incluindo uma financiada pelo fundo Breakthrough Energy Ventures, apoiado por Bill Gates e Jeff Bezos, dono do Washington Post, estudam se a Groenlândia poderia ser explorada para obter alguns de seus ricos suprimentos minerais. Isso não mudaria em nada caso a ilha fosse americana.

Os EUA têm sido influentes em todo o mundo porque conseguiram persuadir os outros a agir não apenas em seu interesse próprio, mas em nome de valores mais amplos, como paz, estabilidade, regras e normas que ajudam a todos. É por isso que o governo americano conseguiu fazer com que 87 países condenassem imediatamente a guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia. É por isso que muitos dos vizinhos da China se aliaram aos EUA.

Na coletiva de imprensa, Trump propôs se livrar da “linha artificialmente traçada” entre o Canadá e os EUA. É claro que isso é exatamente o que o presidente russo, Vladimir Putin, diz sobre a fronteira entre Rússia e Ucrânia. E aquilo que o presidente chinês, Xi Jinping, fala sobre a divisão entre China e Taiwan. Estamos entrando é um mundo que torna a Rússia e a China grandes de novo.

Fareed Zakaria

Como Odorico Paraguaçu: populistas têm criado realidades alternativas

Odorico Paraguaçu, o prefeito da fictícia Sucupira, sempre de paletó impecável e discurso inflamado, era obcecado por inaugurar um cemitério. A promessa gerava desconfiança, mas também muitos aplausos. O cemitério, contudo, nunca ficava pronto. Entre anúncios e cerimônias frustradas, Odorico mantinha o povo enredado em uma realidade distorcida.

Sucupira, a cidade fictícia de Dias Gomes em O Bem-Amado, é um presságio das dinâmicas que hoje emergem nas redes sociais e suas hipérboles. Anne Applebaum, na revista The Atlantic, ilustrou esse fenômeno com o caso de Calin Georgescu, um ambientalista romeno que trocou o ativismo por uma narrativa populista e conspiratória.



Com vídeos nadando em lagos gelados e invocando Deus, Georgescu alimenta o imaginário do povo romeno. Alegando que a Romênia estava sob controle de potências estrangeiras e elites secretas, galvanizou seguidores que se sentiam marginalizados, transformando-se em um símbolo de resistência contra uma opressão fabricada. Sua força, como a de Odorico, residia em oferecer uma visão alternativa da realidade.

O uso de promessas vazias e narrativas alternativas não apenas perpetuava a liderança de Odorico, mas criava uma realidade paralela que mantinha seu domínio político.

Nem precisamos nos perguntar qual seria o estrago de Odorico hoje, tendo acesso às redes sociais. Estamos sentindo o estrago na pele.

Líderes populistas criam realidades alternativas para deslegitimar elites intelectuais e se blindar da responsabilização política. Nessas realidades, as críticas da mídia ou do Judiciário não corroem sua popularidade. Ao contrário, servem como prova de autenticidade para seus seguidores. Essa inversão de lógica fortalece o líder, enquanto a propaganda amplifica crenças equivocadas, resultando em políticas públicas prejudiciais e corroendo a confiança nas instituições.

Em Sucupira, Odorico utilizava a promessa do cemitério como elemento central dessa mesma estratégia: críticas não o enfraqueciam, mas reforçavam seu domínio. A ficção de Sucupira e a realidade de Georgescu convergem para mostrar como líderes transformam o que deveria ser crítica em ferramenta de autenticidade, substituindo fatos por fantasia e fortalecendo suas posições em um cenário cada vez mais distorcido.

A recente decisão da Meta de interromper programas de checagem de fatos nos EUA mostra que aceitamos realidades fabricadas. Sem checagem de fatos, o realismo fantástico político continuará a florescer.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

Pensamento do Dia

 


Você ouve nossos gritos?

À medida que o inverno se instala em Gaza, lembro-me de uma época em que a estação tinha um significado diferente. Naquela época, o inverno era uma época de reuniões familiares — noites longas e aconchegantes, bebendo "sahlab", nossa bebida quente favorita, e nos aconchegando em volta do aquecedor, enrolados em cobertores quentes. Passávamos a noite conversando, jogando UNO e outros jogos de cartas. O som da chuva enchia meu coração de alegria, e eu corria para fora com meus irmãos, correndo sob as gotas de chuva, sentindo o frescor em nossos rostos. O cheiro terroso de petrichor enchia o ar, nos lembrando do frescor da natureza depois da chuva. Aqueles eram momentos simples e queridos — o inverno parecia uma estação de calor, amor e união.

Agora, acordo com o som da chuva, meu coração pesado de tristeza. O inverno chegou completamente em Gaza. O frio já começou. Deitado na cama, vestido com roupas quentes, coberto com dois cobertores e cercado pelas paredes da minha casa, ainda sinto o frio se infiltrando. Meu coração dói enquanto me pergunto: como meu povo, vivendo em tendas, consegue sobreviver a esta estação amarga? Com ​​cada gota de chuva, meus pensamentos estão com eles — encharcados, seu único abrigo é um pedaço frágil de tecido. Muitas dessas tendas são armadas perto do mar de inverno rigoroso e implacável.


Em Gaza, este inverno não é apenas frio; é uma luta pela sobrevivência. As pessoas estão lutando contra o frio cortante, sem roupas adequadas ou aquecimento. Há poucos dias, meus primos — que perderam a casa e agora estão vivendo em uma tenda de refugiados — foram ao mercado em busca de roupas quentes, apenas para voltar de mãos vazias, chocados e desanimados com os preços exorbitantes. Quando um pijama fino e leve custa US$ 95, como alguém pode pagar por aquecimento?

O que pode parecer insignificante em outros lugares — pegar um resfriado ou ficar molhado — é uma ameaça à vida aqui, especialmente para crianças e idosos. Esses grupos vulneráveis ​​sofrem profundamente, sem acesso a tratamento ou medicamentos, pois os hospitais de Gaza mal funcionam. Já sobrecarregados, eles não conseguem oferecer cuidados nem para as doenças mais básicas.

A higiene também se torna quase impossível, aumentando o risco de doenças. Vivendo em tendas sem acesso a água morna, as pessoas não podem tomar banho ou se limpar adequadamente. Para as mães, lavar roupa se torna ainda mais extenuante no inverno, pois as quedas de energia em Gaza — que agora se estendem por mais de 400 dias — as impedem de usar máquinas de lavar. Em vez disso, elas lavam as roupas à mão com água gelada.

Apesar do sofrimento físico, é a dor psicológica que corta mais fundo — a visão de mães assistindo seus filhos chorarem de fome durante noites longas e frias, ansiando por comida que se tornou quase impossível de encontrar. Mesmo enquanto escrevo estas palavras, estou morrendo de fome, não tendo comido nada por muitas horas.

Os moradores de Gaza há muito tempo dependem dos serviços da UNRWA para alimentos e remédios, incluindo cupons de alimentos fornecidos pelo WFP, UNICEF e UNRWA. Mas a proibição imposta por Israel à UNRWA restringiu a entrada de ajuda em Gaza, exacerbando uma situação já terrível.

A fome está se enraizando, e parece um pesadelo sem fim. O preço da pouca comida disponível é inacreditável. Um único saco de farinha agora custa mais de US$ 300. Como alguém pode pagar por isso? Mesmo se pudéssemos, a farinha geralmente está infestada de insetos e gorgulhos, tornando-a inutilizável. As padarias que antes serviam como uma tábua de salvação agora estão fechadas, incapazes de obter suprimentos. O pão — o mais básico dos alimentos — se tornou um luxo que poucos podem pagar. A fome tomou conta de nossas vidas, deixando-nos em desespero, sabendo que amanhã provavelmente trará mais do mesmo, ou pior.

Sobrevivemos com uma refeição por dia, e mesmo isso parece uma bênção. Mas as longas noites de inverno tornam isso mais difícil, pois as pessoas dependem do “Takaya” — uma distribuição de alimentos beneficente — que fornece apenas pequenas porções, mal o suficiente para encher um estômago vazio. Esses Takaya geralmente começam às 11h, deixando as famílias sem nada para alimentar seus filhos pelo resto do dia. O frio nos morde, e a fome torna isso ainda mais difícil de suportar.

Olho para as crianças — pálidas, magras e exaustas de fome e frio. Vejo famílias esperando em filas intermináveis, segurando recipientes vazios, na esperança de encontrar comida. Imagino o quanto mais elas podem suportar, o quanto mais qualquer um de nós pode suportar. Essa realidade brutal é uma luta diária, com famílias buscando alternativas ou contando com ajuda insuficiente para alimentar seus filhos. A escassez de alimentos limpos e acessíveis não é apenas um desafio; é uma crise que ameaça a sobrevivência de uma população já vulnerável.

O inverno em Gaza não é mais uma época de calor e união. É uma estação de solidão e isolamento. A parte mais cruel desse sofrimento é o silêncio de um mundo que observa de longe, mas não faz nada. À medida que as noites frias se estendem, o isolamento também se estende. Os moradores de Gaza não estão apenas lutando contra a fome e o frio, mas contra a dor profunda de estarem isolados, tanto física quanto emocionalmente, do resto da humanidade. Nessa reclusão forçada, nos perguntamos: alguém realmente ouve nossos gritos?

Ritos de ano novo

No período colonial, o ano novo começava no dia 25 dezembro. Documentos oficiais, como as atas das câmaras municipais, mudavam a indicação numérica do ano no dia de Natal. Escrevia-se 24 de dezembro de 1580, por exemplo. E, na ata seguinte, 25 de dezembro de 1581.

Lentamente, concepções relacionadas com a passagem de ano enquanto marcação da passagem do tempo, enquanto tempo litúrgico e histórico, foram sendo corroídas, envelhecendo aos poucos.

Minha geração viveu e sofreu a angústia de mudanças rituais na marcação do tempo, que a colocaram em face da consciência de protagonista de um tempo sem volta, o tempo do fim e da finitude. A criança como personificação do avesso e do invisível, do novo contido no que é velho e morre.


Por isso, o dia de ano novo tinha um significado antropologicamente particular. Foi o que notei até 1947, para minha geração o último ano novo da tradição de que, com a molecada de meu bairro operário e de minha rua, vivi a função reveladora do novo que decorre do fim e último.

Na véspera do ano novo, as famílias se preparavam para o ritual que no dia seguinte, bem cedo, se processaria através das crianças. Aí pelas 7 horas da manhã, a criançada, já de café tomado, saía pela rua de sua casa, eventualmente por trechos iniciais de ruas vizinhas, batendo de portão em portão.

Quando o dono ou a dona da casa aparecia lá no fundo do corredor lateral, o que vinha da cozinha, fingindo surpresa e estranheza, a criança gritava “Feliz ano novo”, mal sabendo ela própria o que aquilo significava. A pessoa lá do fundo devolvia: “Feliz ano novo pra você também”.

Já com a mão no bolso da calça ou do avental, dirigia-se ao portão e dava para a criança uma moeda. Os mais pobres tiravam uma moeda de um tostão (dez centavos) ou de 200 réis, que ainda circulava, e a davam à criança.

A dádiva desapontadora podia ser de alguém que era reconhecidamente pobre. No caso dos que davam pouco porque sovinas, a notícia corria entre a criançada no minuto seguinte. O pão-duro ficava difamado. O azar decorrente viria com certeza. Era só esperar.

Muitos sovinas evitavam expor a sovinice porque o augúrio da criança tinha uma função ritual e mágica, nunca confessada, mas reconhecível nas formalidades que a cercavam.

As crianças eram socializadas na economia moral de definição do valor extraeconômico da economia, do dinheiro e das mercadorias. Uma moeda de 50 centavos era uma dádiva razoável. Já circulava a moeda pesada de 1 cruzeiro, com o mapa do Brasil de um lado e o número 1 bem grande do outro. Era moeda que deixava qualquer um feliz.

As crianças tinham sua própria “teoria econômica” para determinar o tamanho do seu reconhecimento ao doador generoso, que assim criava fama imorredoura, que passava de um ano para outro.

No dia de ano novo, até às 10 horas, com seus votos de porta em porta, na verdade as crianças cumpriam um rito de renovação do caráter comunitário das relações de vizinhança.

Com o tempo, compreendi esse aspecto daqueles procedimentos. No dia a dia meu irmão e eu atravessávamos a rua, abríamos o portão da casa dos avós e íamos diretamente para a cozinha ou para dentro da casa, pedíamos a bênção e lá ficávamos.

No dia de ano novo, não. Agíamos como estranhos à casa e à família. Meu avô, padrinho de meu irmão, dava-lhe uma nota de 10 cruzeiros, coisa que nem sabíamos o que era. Sendo nota de papel-moeda, era coisa de adulto, não de crianças.

Para elas, moeda era coisa para quem ainda não crescera. Aquele valor excepcional da nota desfazia para ele o rito de estranhamento e o integrava num relacionamento de proximidade parental com o avô-padrinho, seu pai putativo.

Para mim, no entanto, uma moeda era dádiva de recompensa simbólica pelos votos propiciatórios. A dádiva era retribuição do adulto à criança, uma troca. Mas negadora do que era próprio do dinheiro porque desigual na função renovadora das relações sociais e do seu caráter comunitário, aquilo que não se compra, apenas de troca.

Diferentemente do que ocorre no mundo da mercadoria e do dinheiro, em que a troca igualiza os desiguais e as desigualdades, a troca do voto pela dádiva no ano novo era rito que confirmava a desigualdade de quem dava e de quem recebia.

Nas diferentes culturas, crianças da primeira infância são o anômalo porque ainda não são membros da sociedade, à espera de quando se integraram no repetitivo das relações sociais.

Como observou Marcel Mauss, em clássico estudo sociológico sobre a magia, as crianças conservam os dons e poderes próprios dos socialmente não integrados. Elas não sabem, mas a sociedade lhes atribui a condição de porta-vozes das incógnitas do novo, do futuro e do diferente. O prenúncio.

Neurociência e Marketing: A urgência de uma ética aplicada

É indiscutível que, enquanto indivíduos, estamos inevitavelmente inseridos na condição de consumidores, sendo grande parte das nossas ações diárias intrinsecamente associadas a práticas de consumo. Essa realidade traduz-se numa constante exposição a um fluxo avassalador de estímulos publicitários, oriundos de múltiplos canais e disseminados numa velocidade vertiginosa.

Surge, assim, uma questão de profunda relevância: de que forma o nosso cérebro processa tamanha quantidade de informações? O que explica a retenção de apenas uma fração diminuta deste conteúdo? E, mais intrigante ainda, quais os fatores que nos levam a privilegiar uma marca em detrimento de outra?

O cérebro humano, inquestionavelmente, representa um dos campos mais desafiantes e insondáveis da ciência contemporânea. A sua complexidade intrínseca reflete-se na singularidade de cada mente, onde padrões de comportamento frequentemente desafiam os princípios da lógica e da racionalidade.


É deste encontro entre a neurociência e o marketing que emerge um novo e promissor domínio científico: o neuromarketing. Esta disciplina, situada na intersecção entre o conhecimento aprofundado do sistema nervoso e as estratégias comerciais, configura-se como uma ferramenta há muito aguardada por profissionais da comunicação e especialistas em comportamento do consumidor.

O cérebro humano, inquestionavelmente, representa um dos campos mais desafiantes e insondáveis da ciência contemporânea. A sua complexidade intrínseca reflete-se na singularidade de cada mente, onde padrões de comportamento frequentemente desafiam os princípios da lógica e da racionalidade

Enquanto campo multidisciplinar, a neurociência dedica-se ao estudo sistemático do sistema nervoso, integrando áreas como anatomia, biologia molecular, genética e psicologia. O progresso alcançado neste domínio tem sido notável e amplamente reconhecido. Simultaneamente, o conceito de neuromarketing, introduzido por Ale Smidts, procura compreender de forma rigorosa as influências neurológicas dos estímulos de marketing no comportamento do consumidor, permitindo uma otimização das estratégias comunicacionais e a conceção de campanhas mais eficazes e direcionadas.

Desde as primeiras explorações realizadas em 2002, o neuromarketing consolidou-se como uma abordagem central no estudo da relação entre estímulos publicitários e decisões de consumo. Contudo, como acontece com muitas áreas emergentes da ciência, este campo não está imune a controvérsias éticas. A utilização imprudente ou oportunista de tais ferramentas levanta sérias preocupações, uma vez que possuem o potencial para manipular o comportamento humano de forma pouco ética ou mesmo prejudicial.

A necessidade de estabelecer limites éticos é incontornável! É imperativo que este campo seja regulado com rigor, promovendo um debate abrangente sobre as implicações dos avanços nas ciências da mente e nas tecnologias associadas ao marketing.

Embora o conhecimento científico sobre o cérebro humano ainda se encontre numa fase incipiente, é crucial que a sua aplicação prática seja guiada por princípios éticos que assegurem o progresso social e a proteção da dignidade humana.

Com o contínuo avanço da neurociência e a expansão do seu âmbito de aplicação, mergirão inevitavelmente novas e complexas questões éticas. É plausível imaginar um futuro em que se obtenha um controlo sem precedentes sobre as preferências, emoções e comportamentos humanos. Tal cenário exige uma reflexão profunda sobre os limites aceitáveis para tais práticas.

O desafio ético que se apresenta é inescapável. É imprescindível que esta temática permaneça no centro de um diálogo interdisciplinar e que se definam fronteiras claras para garantir a liberdade de escolha do consumidor. Apesar das diferenças nos ritmos e objetivos de ciência e sociedade, o progresso sustentável só será alcançado quando ambas se complementarem de forma harmoniosa.
Maria Nascimento Cunha

Sem noção de sua importância ao votar

Na virada de 1999, vários órgãos nos EUA foram convidados a listar os americanos mais admirados, influentes ou importantes do século 20. Saíram centenas de nomes, famosos ou nem tanto, todos dignos de admiração. Mas houve unanimidades, pessoas sobre as quais não restava a menor dúvida, representantes do que de melhor o povo americano poderia produzir. Eis algumas.
O jurista Oliver Wendell Holmes (1841-1935), o advogado Clarence Darrow (1857-1938), o educador John Dewey (1859-1952), o arquiteto Frank Lloyd Wright (1867-1959), a conferencista Helen Keller (1880-1968), o presidente Franklin Roosevelt (1882-1945), o fundador do A.A., Bill W. (1895-71), o dançarino Fred Astaire (1899-1987), o inventor da vacina contra a pólio Jonas Salk (1914-95), o jazzista Louis Armstrong (1901-71), a antropóloga Margaret Mead (1901-78), o pediatra Benjamin Spock (1903-98), a atriz Bette Davis (1908-89), a ativista Rosa Parks (1913-2005), o compositor Stephen Sondheim (1930-2021), o boxeur Muhammad Ali (1942-2016). Sim, eu sei, faltou este ou aquele, favor completar.


São pessoas que nos acostumamos a amar e a identificar com os EUA, e nos fazem perguntar como um país que produziu gente dessa qualidade pode ser tão cruel em política externa, primitivo em relações raciais e dado a metralhar inocentes em escolas. Como se explica? A resposta é: talvez eles não sejam os EUA. Mas, se eles não são, quem será? Uma amiga que, em jovem, morou durante um ano com uma família do Idaho, num programa de intercâmbio, me forneceu a descrição.

Os EUA são exatamente esse homem do Idaho, 40 anos, branco, casado com mulher "do lar", quatro filhos, casa própria, três carros. Planta, compra ou vende batatas, que é o negócio da região. Sai para caçar no sábado e vai com a família à igreja aos domingos. Não lê nada, só vê esportes na TV e às vezes toma cerveja com os amigos. Admite negros ou latinos, mas só na sua lavoura. Nunca saiu do Idaho, exceto para os vizinhos Utah e Wyoming. Não tem a menor ideia de que seu voto para presidente pode afetar o equilíbrio do mundo.

Vota em Donald Trump

quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

Pensamento do Dia

 


Deserto loteado


Pelo preço de um carro usado, o governo israelense está atualmente distribuindo lotes de terra no deserto de Negev.

Kim Legzie

As ‘big techs’ e o fascismo

Agora ficou escancarado. Depois do pronunciamento que Mark Zuckerberg divulgou na terça-feira, anunciando que cerrará fileiras com Donald Trump para combater os projetos de regulação das plataformas, projetos que ele qualifica de “censórios”, não dá mais para disfarçar. Seguindo o exemplo de Elon Musk, dono do “X”, antes conhecido como Twitter, Zuckerberg subiu na carroceria do caminhão extremista do trumpismo, sem pejo, sem molejo e com sacolejo. A Meta saiu do seu armário de silício para entrar no fanatismo desvairado.

Eram favas contadas? Sim, eram. Mais cedo ou mais cedo ainda, a maquiagem escorreria. E escorreu. Está tudo na cara. Agora, ninguém mais pode alegar que a desinformação e os discursos de ódio propagados industrialmente pelo maquinário da Meta fossem acidentes de percurso. Não. Promover o trumpismo e todo o seu ideário – ou todo o seu bestiário – não foi um efeito colateral, mas a finalidade do conglomerado monopolista global comandado por Mark Zuckerberg. Detalhe: no seu vídeo, que foi manchete ontem em jornais do mundo inteiro, ele aparece de camiseta preta. Ato falho? Ou intencional?


A Meta, detentora do WhatsApp, do Facebook e do Instagram, tem um poder de fogo – a metáfora belicista vai de brinde – considerável, um pouquinho maior do que o deste jornal, por exemplo, ou de todos os diários brasileiros somados, ou mesmo de todos os diários do planeta. Estamos falando de companhias cujo valor de mercado se conta na casa dos trilhões de dólares. São as famigeradas big techs. Uma a uma, elas deixam cair a máscara de isenção, de objetividade e de compromisso com os fatos e mostram sua natureza essencial: são usinas de propaganda e manipulação a serviço do autoritarismo. Não têm e nunca tiveram nada a ver com educação ou conhecimento.

Falando em big techs, as coisas não estão melhores nos domínios da Amazon, de Jeff Bezos. No sábado, a ilustradora Ann Telnaes, ganhadora do Prêmio Pulitzer, anunciou sua demissão do The Washington Post, hoje controlado por Bezos. Ann Telnaes acusou o jornal de censurar um cartum em que ela criticou a subserviência dos bilionários a Donald Trump. Na charge, é possível reconhecer, entre os magnatas que se dobram ao novo presidente dos Estados Unidos, a fisionomia assustadiça do dono da Amazon. O Post vetou. Foi outro sinal tenebrosamente ruim de que os bilionários da maior democracia do mundo deixam para lá os compromissos com os fundamentos do liberalismo e se vergam à truculência.

Truculência é a palavra, embora gasta. Barbárie é a palavra, embora puída. Trump não tem nada a ver com o tal “sonho americano” ou com os chamados “pais fundadores” da federação que, mais de dois séculos atrás, deu origem ao Estado mais poderoso do nosso tempo. Trump é um fascista extemporâneo, tardio e piorado.

O adjetivo “fascista”, que antes os estudiosos procuravam evitar para não incorrer em anacronismos e imprecisões conceituais, acabou se impondo. É preciso dar nome às coisas. Recentemente, o grande historiador americano Robert Paxton, um dos que resistiam a empregar a palavra, reviu sua posição e admitiu: o que está acontecendo nos Estados Unidos precisa, sim, ser qualificado como fascismo, ainda que com as cautelas metodológicas de praxe. O que se passa por lá é mais, muito mais, que um soluço autoritário, e as big techs estão no cerne da inflexão. Mais do que correias de transmissão instrumentais, elas são o laboratório que sintetiza a mentalidade obscurantista, as pulsões violentas, os vetores do ódio, a intolerância, ou, sejamos precisos, o fascismo em suas roupagens pós-mussolínicas.

As ambições de expansionismo territorial em que Donald Trump tem insistido de forma escandalosa vêm confirmar essa caracterização. Lembram, de longe, ou nem tão de longe assim, a velhíssima categoria de “espaço vital”. A promessa de ocupar países vizinhos ou longínquos para ampliar o poder é marca registrada do bonapartismo do século 19, do nazismo do século 20 e, agora, do trumpismo do século 21. Desta vez, as big techs são a alma e a arma do negócio: estão para Donald Trump assim como o cinema e o rádio estiveram para Adolf Hitler. Com uma distinção, apenas: elas são mais determinantes hoje do que o cinema e o rádio foram naquela época.

A partir de agora, o debate sobre “moderação de conteúdo”, “agências de checagem”, “educação midiática” e “combate às fake news” ficará em segundo plano. Ficou patente que as big techs não querem mais falar disso. Com ninguém. Elas querem substituir a era da informação pela era da desinformação, pois sabem que sua única chance de seguir no gigantismo depende da vigência de ordens autoritárias, com viés totalitário. Assim como a imprensa só pode prosperar na democracia, as plataformas sociais só poderão crescer na tirania. É uma questão de vida ou morte. Para elas e para cada um de nós. O que elas precisam garantir para viver no luxo em que se arrancharam, sem prestar contas a ninguém que não seja Trump, é o que nós, cidadãos (ao menos até aqui), precisamos combater para não morrer.

Cinco minutos depois do ataque aéreo

Gaza
Em Pilsen,
na Estrada da Estação, número 26,
ela subiu ao terceiro andar
onde as escadas eram tudo que restava
da casa inteira.

Abriu a porta de par em par
e contemplou o céu,
de pé sobre a borda.

Pois foi naquele lugar
que o mundo acabou.

Depois
trancou tudo com muito cuidado
para que alguém não roubasse

Sírio
ou Aldebarã
da sua cozinha;
desceu para o térreo
e se acomodou
para esperar
que a casa se erguesse de novo
que o marido ressurgisse das cinzas
e que as mãos e os pés das crianças fossem de novo postos no lugar.

Foi achada de manhãzinha,
dura como pedra,
pardais bicando suas mãos.

Miroslav Holub

Dos golpistas à tentativa de golpe

Envelheceram mal as apostas de profetas da democracia risco-zero. Desde 2018, esse grupo de missionários tenta acalmar a cidadania brasileira sobre riscos à democracia, entendida como máquina de contagem de votos independente de qualquer outro atributo que dê a esses votos um lastro genuíno de autogoverno coletivo e liberdade pública.

Desde avaliação da personalidade de Bolsonaro, tarefa que a ciência política nunca autorizou politólogo a fazer em nome dela, ou da afirmação de que "democracia modera", conclusão a que a história política nunca permitiu chegar em nome dela, ou da sacada de que Moro seria um "dique" ao presidente, até a máxima da catatonia analítica "instituições estão funcionando", foram muitas tentativas de apaziguar o "alarmismo".

Sempre equivocadas, o tempo as transformou em caricatas. De golpistas na Presidência à tentativa de golpe e plano de assassinato, os alertas de risco não eram tão extravagantes e clarividentes assim.


A psicanálise foi mais realista e arguta. O psicanalista Luiz Meyer, na Folha de junho de 2020 ("Por que haverá golpe"), antecipava tentativa de golpe não como dúvida de cientista político mergulhado em planilha de dados, mas como determinação psíquica inexorável. Não tratava do golpe como hipótese, nem tinha a ambição sabichona de cálculo de riscos. Quis apenas explicar por que o ímpeto golpista não era brincadeira:

"Não estamos diante de um bufão histriônico que bate bumbo na praça de uma pequena cidade do interior. O número que encena é a expressão da criança intolerante, assombrada pela cadeirinha, que se apresenta como o redentor que vai borrar todos limites e limitações. Encurralado por uma mente que serve a criancinha com quem está identificado, que não aceita nem suporta modalidade alguma de ‘cinto’, ele precisa criar um mundo em que todas as cadeirinhas sejam destruídas".

O dia 8 de janeiro de 2023 serve como alerta simbólico sobre muitas coisas. Primeiro, a fragilidade constitutiva do regime democrático. Mesmo que se possa explicar por que algumas democracias são mais estáveis e longevas que outras, não temos ferramentas tão potentes para determinar riscos com precisão. Porque, em grande medida, são intangíveis.

Segundo, aprendemos outra vez as consequências de se tratar a delinquência militar brasileira pela via da covardia e da leniência. Terceiro, demonstra o poder de corrosão cívica da indústria de desinformação, elevado a patamar desconhecido por tecnologia capaz de individualizar perfis e customizar a manipulação. E tem gente que acha que uma rede gerida por algoritmo determinado por plutocrata equivale a praça pública. E que esse poder corporativo tecnológico agradaria a Adam Smith e Stuart Mill.

Quarto, a imensa confusão sobre o conceito de liberdade de expressão, transformada vulgarmente em arma pré-civil de ataque às precondições sociais da liberdade.

O 8 de janeiro simboliza, finalmente, que o STF tem responsabilidade e oportunidade de corrigir um dos erros constitucionais mais vergonhosos de sua história: o entendimento de que a Lei de Anistia o impede de julgar crimes contra a humanidade. Desde 2011, ação sobre o tema dormita na gaveta de Dias Toffoli (ADPF 153). Flávio Dino começou a enfrentar essa dívida: decidiu que desaparecimento de corpo é crime permanente.