quarta-feira, 8 de maio de 2024

Vida longa para os que fecham os olhos à destruição do meio ambiente

Pela maioria de suas vozes, independente de partidos e de tendências políticas, o Congresso mais conservador e de direita que já tivemos desde o fim da ditadura militar de 64 se diz horrorizado com a tragédia das chuvas no Rio Grande do Sul, e disposto a aprovar todas as medidas que a suavizem e permita a reparação dos estragos.

O mesmo Congresso, porém, por uma das suas casas, o Senado, está para votar um projeto que defende a redução da reserva legal da Amazônia. Por reserva legal, entenda-se o percentual da propriedade que deve ser protegida e preservada. O percentual é de 80%, segundo lei aprovada no governo Fernando Henrique Cardoso.

No começo do governo de Jair Bolsonaro, o de triste memória, o senador Márcio Bittar (União-SC) propôs acabar com a reserva legal em todos os biomas. Isto é: pôr abaixo as florestas no Brasil. Apoiada pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), a proposta, de tão bizarra, não foi adiante. Mas “Bittar Motosserra” não desistiu dela.

Ele agora é relator e deu parecer favorável a um projeto que estipula: no município onde tiver 50% de área pública preservada, a reserva legal poderá ser reduzida à metade. Sim, foi isso o que você leu. Significa que o proprietário de terras poderá desmatar mais do que desmata hoje. Que lhe parece? Está de acordo? Se não estiver, faça barulho.

Há dois anos, as chuvas mataram 242 pessoas em Petrópolis, no Rio de Janeiro. No ano seguinte, 64 perderam a vida em São Sebastião, em São Paulo. Entre final de 2023 e início de 2024, chuvas no Rio Grande do Sul mataram 110 pessoas, mais do que o total registrado em desastres naturais nas três décadas anteriores.

No dia 25 de abril último, os leitores do Correio do Povo, o mais antigo jornal do Rio Grande do Sul, foram alertados de que algo importante estava à sua disposição on-line. O título da notícia dizia:

“Cenário de perigo: RS terá chuva excessiva semelhante aos extremos de 2023, aponta MetSul.”

E a linha de apoio ao título completava:

“Episódio de instabilidade deve ocorrer entre final de abril e começo de maio.”

Ocorreu, e ainda está longe de terminar. Afeta 401 dos 497 municípios do Estado. Está confirmada a morte de 95 pessoas e o número de desaparecidos ultrapassou a casa dos 130. Há quase 160 mil desalojadas, e 40 mil em abrigos. Porto Alegre é uma cidade isolada por ar e terra. É a maior catástrofe da história do Estado.

O nível do Guaíba, na região do Cais Mauá, em Porto Alegre, alcançava 5m23cm no meio da tarde de ontem. Só deve baixar para os quatro metros na próxima terça-feira (14). Acontece que as previsões indicam mais chuvas no fim de semana, e o nível do Guaíba poderá subir se elas forem intensas.

O governador Eduardo Leite (PSDB) disse, e políticos seus aliados repetem, que não é a hora de apontar responsáveis ou discutir as causas das inundações; é hora de socorrer as vítimas. É uma fala de quem se sente culpado, mas não somente ele. A Prefeitura de Porto Alegre não gastou 1 real na prevenção de enchentes no ano passado.

Dados da Agência Espacial Europeia registram que abril de 2024 teve as temperaturas mais elevadas para esse mês já registradas na série histórica. A média global foi de 15,03°C no período, ficando 0,14°C acima do máximo anterior, de 2016. No mês passado, os termômetros ficaram 0,67°C além da média para abril entre 1991 e 2020.

Feito com base em análises geradas por computador a partir de bilhões de medições de satélites, aeronaves, embarcações e estações meteorológicas, os dados mostram que o planeta segue apresentando uma sequência de novos recordes de calor após 2023, que foi classificado como o ano mais quente da história da humanidade.

Estou muito velho para imaginar que poderei ver o planeta pegar fogo, mas esse é o risco que correm meus netos, e os netos deles com razoável certeza se o mundo não tomar consciência do que o aguarda se nada ou só pouca coisa for feita para evitar o Armagedon. Vida longa para os que se negam acreditar no que está à vista.

Copenhague virou 'cidade-esponja' contra cheias

Embora seja uma das rotatórias mais movimentadas do leste de Copenhague, o ar em Sankt Kjelds Plads não é pesado, não tem o cheiro e a textura dos gases de escape. E, em vez do rugido dos motores, a paisagem sonora é caracterizada pelo som melodioso produzido por pássaros.

A rotatória, que é cercada por arbustos e árvores, faz parte de um experimento em grande escala para transformar os espaços públicos da capital dinamarquesa. A ideia é tornar Copenhague mais "habitável", criando locais para os cidadãos se encontrarem e um habitat para a biodiversidade, ao mesmo tempo em que cria engrenagens em uma máquina de controle de enchentes.

Essa transformação foi desencadeada pelos eventos de 2 de julho de 2011, quando Copenhague foi atingida pelo que foi apelidado de "a chuva do milênio".

O aguaceiro maciço causou inundação de ruas e casas. E, sem ter para onde escoar, a água permaneceu por dias. Ratos mortos foram vistos flutuando pela cidade, e uma pesquisa posterior revelou que durante os trabalhos de limpeza um quarto dos trabalhadores do saneamento foi infectado com doenças como a leptospirose. Um deles até morreu.

Nos sete anos seguintes, esse tipo de tempestade começou a se tornar cada vez mais comum, com quatro eventos de "chuvas do século" registrados nesse período. Isso custou à cidade pelo menos 800 milhões de euros (R$ 4,3 bilhões) em prejuízos, deixando claro para os formuladores de políticas públicas que era hora de repensar a capital dinamarquesa.

Nos últimos séculos, o foco do desenvolvimento urbano em lugares como Copenhague foi a criação de "cidades-máquina" que pudessem ser construídas rapidamente e fossem eficientes para habitação, indústria e economia. Mas muitos desses centros urbanos acabaram interferindo no ciclo da água, especialmente aqueles que modificaram leitos de rios ou foram construídos sobre planícies aluviais.

Com o concreto e o asfalto cobrindo áreas antes destinadas à grama e ao solo, a água das chuvas mais fortes ficou sem ter para onde ir. Com muita frequência, isso resulta em enchentes, e cidades do mundo todo estão explorando maneiras de reverter esse tipo de desenvolvimento urbano. E elas fazem isso se transformando em "esponjas" urbanas.

Espaços públicos servirão para reter água

Em outras palavras, essas cidades estão criando espaços e infraestrutura para absorver, reter e liberar a água de forma a permitir que ela flua de volta para seu ciclo.

A China está na liderança, com mais de 60 de suas cidades sendo reformadas e agora incorporando estruturas como biovaletas e jardins de chuva para reter a água. Jan Rasmussen, chefe do "Cloudburst Master Plan" (plano diretor para tempestades) de Copenhague, também viu potencial para a Dinamarca.

"Nossos políticos decidiram que há realmente uma necessidade de escoar a água da cidade muito rapidamente", disse Rasmussen. "Eles perguntaram se poderíamos fazer isso de forma inteligente, se poderíamos expandir o sistema de esgoto. Poderíamos lidar com as chuvas na superfície?"

Tendo estudado projetos de cidades-esponja em todo o mundo, a equipe de Rasmussen pensou na remodelação de cerca de 250 espaços públicos de forma a ajudar na retenção ou redirecionamento de águas pluviais, incluindo parques, parques infantis e a rotatória Sankt Kjelds Plads. A ideia é usar a capacidade natural de retenção das árvores, dos arbustos e do solo e deixar a água pluvial fluir para locais onde não seja destrutiva.

Uma dúzia de lagos que margeiam a rotatória foi então projetada de forma a reter o excesso de água da chuva no caso de uma tempestade. Assim como outros lagos semelhantes espalhados pela cidade e aberturas largas nas laterais de ruas baixas, eles servem para canalizar a água da enchente para uma rede de túneis que está sendo instalada 20 metros abaixo da superfície.

Durante uma chuva "normal", as águas pluviais são direcionadas para o porto por meio desse sistema de drenagem. No entanto, quando há um excesso, como em um cenário de tempestade, uma estação de bombeamento no porto entrará em ação, forçando para o mar a água acumulada nos túneis, criando assim espaço para mais água da chuva e evitando que as ruas sejam inundadas. Essa estação está sendo construída atualmente e estará pronta em 2026.

"Ainda haverá água nas ruas. Quero dizer, elas não ficarão completamente secas. Mas passaremos de um metro [de água de enchente] para no máximo 20 centímetros", disse Jes Clauson-Kaas, engenheiro da Hofor, o departamento de gerenciamento de água responsável pela construção do túnel.
Benefícios de longo prazo

Parte do desafio é conseguir a adesão dos moradores locais. E isso nem sempre é fácil quando se trata de fechar parquinhos infantis ou os parques da cidade por longos períodos para transformá-los em zonas de inundação, ou financiar os planos de adaptação através de uma taxa extra nas contas de água.

Mas Clouson-Kaas diz que equipar para o futuro uma cidade propensa a inundações faz sentido do ponto de vista financeiro. "Perdemos cerca de 1 bilhão com esse único evento [em 2011], mas esperamos que haja vários eventos nos próximos 100 anos. Dizem que a perda potencial pode ser de pelo menos 4 ou 5 bilhões de euros. Portanto, se investirmos 2 bilhões de euros, ainda assim valerá a pena", disse ele.

Copenhague está em posição – financeira e política – de investir nessa infraestrutura agora, em vez de lidar com possíveis danos no futuro. A cidade se tornou um lugar na qual as outras cidades buscam um exemplo para aprender sobre os benefícios de se criar uma esponja urbana.

Ensina a água

A água não resiste. A água flui. Quando coloca a mão dentro dela, tudo o que você sente é carinho. Água não é uma parede sólida, ela não o impedirá. Mas a água sempre chega aonde quer chegar, e nada consegue ir contra a correnteza. A água é paciente. A água que pinga desgasta uma rocha. Lembre-se, minha criança. Lembre-se que é metade água. Se não pode atravessar um obstáculo, dê a volta, como faz a água.
Margaret Atwood

Adaptação climática é uma questão de vida ou morte no Brasil

Ao longo dos últimos anos tem se intensificado os eventos extremos no País relacionados à mudança do clima — secas prolongadas, ondas de calor e chuvas extremas que passam a ser recorrentes em diferentes regiões. Entre 2013 e 2022, de acordo com a Confederação Nacional dos Municípios (CNM), 4 milhões de pessoas no Brasil foram afetadas diretamente por eventos relacionados às mudanças climáticas em mais de 90% dos municípios brasileiros, e o número de vítimas fatais tem aumentado a cada ano. Faltam investimentos e uma política robusta de adaptação.

Atualmente, segundo o Ministério do Meio Ambiente e Mudanças do Clima (MMAMC), 1.038 municípios são mais vulneráveis, e o órgão estuda formas de intensificar ações emergenciais e estruturantes, que passam, por exemplo, pela decretação de emergência para facilitar obras. Ao mesmo tempo, o MMAMC tem se debruçado sob o Plano Clima (2024-2035), que tem como objetivo principal “aumentar a resiliência do país”, articulando 15 planos setoriais e integrando políticas federais e a agenda do clima. Mas o desafio não é pequeno e tem inúmeros obstáculos, como garantia de orçamento, integração entre estados e municípios e participação.

O fato é que quanto mais tempo demoramos, mais vidas podemos perder.
Grandes metrópoles: onde a mudança do clima encontra a desigualdade e o racismo estrutural


Em grandes metrópoles como São Paulo, considerada a área mais suscetível às mudanças climáticas na América Latina, além do número alto de pessoas em áreas de risco, há menos investimentos do Estado nessas mesmas regiões e menos acesso a água encanada, tratamento de esgoto, estruturas para manejo de águas de chuva. Ou seja, racismo ambiental que potencializa não só as chuvas extremas, mas seus efeitos, como as enchentes.

De acordo a Defesa Civil, 750 mil casas estão localizadas em áreas de risco para deslizamento ou desabamento na região metropolitana de São Paulo, resultado direto da falta sistemática de uma política de moradia.

Em Manaus (AM), maior metrópole da Amazônia, o mesmo se repete. Somente a capital tem mais de 600 áreas de risco. Em 2023, durante as chuvas de março, nove casas foram engolidas pelo deslizamento no bairro Jorge Teixeira, zona leste da capital, matando oito pessoas. A ocupação existe há cerca de cinco anos, em área de risco, conhecida pelo poder público. Parte das famílias retornou para as casas após as chuvas, e convive com o risco por não ter condições econômicas de morar de aluguel ou comprar um imóvel em outro local. Essa é a realidade da maioria dos brasileiros que vivem nas áreas de risco pelo país.

Como se não bastasse, o número de ocupações em torno de rios e córregos urbanos tem aumentado 102% em pouco mais de três décadas. Segundo o Mapbiomas, São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza, Manaus e Curitiba concentram a maior parte do problema. Isso mostra que há um descompasso entre as políticas de adaptação e o planejamento da ocupação nos municípios, o que pode fazer com que o número de mortos em virtudes de enxurradas e enchentes, como no Vale do Taquari (RS) em novembro, se torne uma tendência.
Prevenção salva vidas e poupa recursos

Nos últimos dez anos, o país teve mais de R$500 bilhões de prejuízos calculados referentes a desastres provocados por secas e chuvas. De acordo com um estudo da ONU, a cada U$1 em prevenção, se economizava U$7 em recuperação. Ou seja, com a frequência e intensidade desses fenômenos aumentando, investir em estrutura de prevenção e adaptação poderia não só diminuir gastos a longo prazo, como também melhorar a qualidade de vida e risco que correm milhares de famílias.

Prevenir com ampla participação popular de moradores de áreas de risco e suscetíveis poderia ser outro diferencial de uma política robusta de adaptação. Hoje, o Estado tem uma ampla estrutura de monitoramento do Clima, a partir do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e de monitoramento de riscos com o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), mas na ponta, as ações de comunicação e educação ainda ficam a cargo das defesas civis estaduais e municipais, que continuam com pouca estrutura, formação e capacidade de atuação.

Na prática, essa situação faz com que, em muitos casos, conforme ocorreu em São Sebastião, no último 27 de janeiro, mesmo com as sirenes acionadas diante de uma chuva de mais de 100 mm, quase ninguém apareça nos pontos de apoio, ou que a comunicação se dê com mensagens vagas e gerais, como “fique em casa”, o que pode ser a pior situação em caso de áreas próximas a córregos e rios.

O Brasil tem uma oportunidade única — um país continental, desigual, em crescimento, com quase 9 milhões de pessoas em áreas de risco (o equivalente a uma Áustria) —, fazer uma política de resiliência climática e adaptação com participação, transformando as cidades brasileiras para um novo tempo.

'Dane-se o clima'

Quem seriam, no início do século 21, os maiores adversários do partido Alternativa para a Alemanha (AfD), conhecido por suas credenciais neonazistas? A resposta pode surpreender, quando 83 pessoas morrem no sul do Brasil por causa das enchentes: os verdes.

Esses jovens idealistas, que pretendem proteger o país e o planeta dos efeitos das mudanças climáticas, como as enchentes de agora no Rio Grande do Sul, atraem o ódio da extrema-direita no país que foi o berço do nazismo.

“Sim, os verdes são os nossos maiores inimigos”, disse o vereador Lutz Jankus, da cidade de Görlitz, na fronteira com a Polônia, ao jornal britânico The Guardian, em reportagem sobre o crescimento do partido em estados que foram parte da Alemanha Oriental.


Junto a uma manifestação na praça principal da cidade, o vereador admitiu a importância do tema climático, mas por causa da forte alta nos preços da energia. Para seu partido, não se pode resolver tudo com energia do sol ou dos ventos.

“Eu não acredito que a mudança do clima seja produto do homem”, afirmou Jankus. “A mudança do clima sempre existiu”.

Manifestantes da extrema-direita presentes à manifestação, ainda que anônimos, foram mais contundentes diante das câmeras da equipe inglesa. “Clima, clima, clima!”, disse um deles. “Dane-se o clima!”

Os simpatizantes do partido neonazista queixam-se do aumento dos preços da energia e do aumento da presença de migrantes, muitos dos quais justificam sua presença no país pela condição de refugiados do clima.

A alegação não convence a AfD, que também não aceita que a Alemanha pague preço tão alto pela proteção do clima como a desindustrialização e a queda na economia.

O debate pode parecer algo distante da realidade brasileira, especialmente por tratar de estados que fizeram parte da República Democrática Alemã, que até hoje não conseguiram equiparar os índices de desenvolvimento do lado ocidental.

Mas a antipatia a causas ambientais, quando interesses econômicos estão envolvidos, podem facilmente se espalhar por outras regiões e outros países. E podem igualmente contribuir para maior radicalização nas posições políticas.

Basta lembrar que o ex-presidente americano Donald Trump, mais uma vez candidato ao cargo, retirou os Estados Unidos do Acordo de Paris, de proteção ao clima. E que existe forte lobby no próprio Rio Grande do Sul contra a desativação de minas de carvão, ainda usado para a produção de energia.

Enquanto as cenas de inundações ainda são apenas imagens de um país distante, a 11 mil quilômetros de distância, os manifestantes de Görlitz podem, talvez, atribuir menor importância às transformações climáticas que começam a transformar o planeta.

“Que se dane o clima”, como disse um deles. Nas eleições americanas deste ano muitos outros dirão o mesmo. Enquanto manifestantes se preocupam com seus empregos, populistas com senso de oportunismo buscam seus votos.

Nos Estados Unidos, Trump pescou muitos votos há quatro anos junto a eleitores insatisfeitos com a decadência econômica de estados com indústrias desatualizadas. Ele vai fazer o mesmo agora, com a sua permanente defesa do carvão e do petróleo.

A Rússia ainda depende em grande parte de suas exportações de petróleo e gás. A própria Alemanha era grande cliente do gás russo, até a invasão russa da Ucrânia. Agora busca alternativas nem sempre tão baratas, o que preocupa os consumidores-eleitores.

Trata-se de uma equação que envolve alguma negociação entre o presente e o futuro. No presente todos querem seus empregos e seu bem-estar econômico. E o futuro? Pode-se ignorar o problema ao dizer que não há verdadeira ameaça climática.

O debate está aberto. Haverá sempre os que argumentem que os riscos representados por enchentes e outros eventos extremos não são suficientes para prejudicar a economia. Pelo menos não a economia de seus próprios países, especialmente os mais ricos.

Como as áreas potencialmente mais vulneráveis geralmente se encontram em regiões onde estão países em desenvolvimento, pode ser que a maioria das imagens desses eventos extremos só cheguem mesmo aos negacionistas pelas telas de televisão.

A União Europeia, cuja principal economia é a Alemanha, país dos manifestantes de Görlitz, está entre os maiores emissores de gás carbônico, grande responsável pela mudança climática. Nos primeiros lugares estão China, Estados Unidos, Índia, União Europeia e Rússia. Em seguida vem o Brasil.

O clima já contagia a política entre os países democráticos que estão na lista, como os Estados Unidos e os que integram a União Europeia. Mais cedo ou mais tarde o tema também estará no debate político do Brasil.

O Sul, até agora o mais prejudicado pelas enchentes e pela mudança climática, tem apoiado muitos candidatos de direita ligados ao ex-presidente Jair Bolsonaro, conhecido pelo negacionismo em relação à ciência.

O clima estará entre as principais preocupações dos eleitores nos próximos anos? Ainda é difícil prever. O que se sabe, desde agora, é que o tema não deixará as manchetes dos principais meios de comunicação tão cedo.

terça-feira, 7 de maio de 2024

Pensamento do Dia

 


Qual o tamanho do perigo com a ascensão da extrema direita na Europa?

Jordan Bardella, 28 anos, é o novo rosto da extrema direita na França. Comedido, de corte limpo e criado nos subúrbios do norte de Paris, ele recheia seus discursos com referências a Victor Hugo e acredita que “nenhum país tem sucesso negando ou tendo vergonha de si mesmo”.

Essa frase, em um comício recente na cidade de Montbéliard, no leste do país, provocou um coro de “Jordan! Jordan!” de uma multidão que havia feito fila por horas para vê-lo. Gritos de “Patrie” - pátria - encheram o salão. A Bardellamania está no ar.

Bardella, filho de imigrantes italianos e que abandonou a faculdade e se filiou ao partido Frente Nacional (agora Reagrupamento Nacional) aos 16 anos, é o protegido de Marine Le Pen, a eterna candidata presidencial francesa de extrema direita. Moderado no tom, se não no conteúdo, ele também é a personificação da normalização - ou banalização - de um partido que já foi visto como uma ameaça quase fascista à República.

Em toda a Europa, a extrema direita está se tornando a direita, na ausência de qualquer mensagem convincente dos partidos conservadores tradicionais. Se “extrema” sugere algo fora do comum, tornou-se um termo errôneo. Os partidos de uma direita anti-imigração não apenas cresceram, mas também viram as barreiras que antes os mantinham afastados desmoronarem à medida que eram absorvidos pelo arco das democracias ocidentais.

Na Itália, a primeira-ministra Giorgia Meloni, que tem raízes políticas em um partido neofascista, agora lidera o governo mais direitista da Itália desde Mussolini. Na Suécia, o governo de centro-direita depende dos Democratas da Suécia, outro partido com origens neonazistas, em rápido crescimento, para sua maioria parlamentar. Na Holanda, Geert Wilders, que chamou os imigrantes marroquinos de “escória”, venceu as eleições nacionais em novembro à frente de seu Partido da Liberdade, e os partidos de centro-direita concordaram em negociar com ele para formar uma coalizão de governo.

Na França, Bardella, como presidente do Reagrupamento Nacional, está liderando a campanha de seu partido para as eleições de junho para o Parlamento Europeu, uma instituição relativamente sem poder, mas ainda importante por ser o único órgão eleito diretamente com representantes de todos os países da União Europeia.

Justamente porque o Parlamento é relativamente fraco, a eleição é observada de perto como uma medida do sentimento popular desinibido, em que os eleitores registram seu descontentamento com efeitos potencialmente poderosos sobre a política nacional.

Este ano, o aumento da extrema direita em todo o continente parece dramático. As pesquisas mais recentes mostram o Reagrupamento Nacional com uma clara liderança, com cerca de 31% dos votos na França, em comparação com cerca de 16% da coalizão centrista Renaissance do Presidente Emmanuel Macron. Bardella é o único político entre as 50 “personalidades favoritas” da França, de acordo com uma classificação recente do jornal Journal du Dimanche.

O resultado é que os partidos anti-imigração podem ganhar até um quarto das cadeiras do Parlamento Europeu de 720 lugares. Isso poderia levar a um endurecimento das regulamentações de imigração em toda a Europa, hostilidade à reforma ambiental e pressão para ser mais receptivo ao presidente Vladimir Putin da Rússia.

Para a França, isso significa que um partido nacionalista, xenófobo e islamofóbico pode muito bem sair reforçado - aceito, legitimado e eminentemente elegível para altos cargos de uma forma que seria impensável até mesmo uma década atrás.

A França costumava chamar sua barreira à extrema direita de “la digue”, ou seja, a barragem. As comportas agora estão abertas na França, mas também fora dela. O sucessor de Macron em 2027 - ele tem mandato limitado - pode muito bem vir de um partido cujo fundador, Jean-Marie Le Pen, chamou o Holocausto de “detalhe” da história.

Será que esse ressurgimento de partidos com raízes fascistas pode realmente derrubar a liberdade e a democracia europeias? A visão otimista é que eles não são mais do que pálidos descendentes dos tiranos da história, limitados pela existência de uma União Europeia que foi criada para garantir a paz entre seus membros.

Essa é uma visão tranquilizadora. A linguagem desses partidos pode ser menos incandescente do que as invocações de “derramamento de sangue” do ex-presidente Donald Trump, mas, à medida que eles angariam apoio ao fazer dos imigrantes bodes expiatórios e até mesmo se movimentam para bloquear sistemas que poderiam perpetuar seu poder, a ameaça à ordem do pós-guerra parece bastante real.

As lições históricas, ao que parece, desaparecem após três gerações. Os avisos sobre os desastres que engolfaram a Europa do século XX sob os governos fascistas tendem a não ressoar com os apoiadores do século XXI de movimentos nacionalistas xenófobos que não têm nada do militarismo do fascismo nem dos cultos à personalidade de seus líderes ditatoriais, mas são alimentados pelo ódio ao “outro” e por hinos chauvinistas à glória nacional.

O cataclismo coletivo da Europa entre 1914 e 1945 parece história antiga para muitas pessoas, mesmo que o sangue derramado nas trincheiras da Ucrânia evoque imagens daquela época. “Não se pode mais dizer: ‘Isso é mau, porque veja o que aconteceu no passado fascista’”, disse Nathalie Tocci, uma importante cientista política italiana. “É preciso ter um argumento para explicar por que essas ideias são ruins hoje.”

A direita europeia pós-fascista ou fascista light de hoje não é monolítica. Na extremidade mais ameaçadora do espectro está o partido Alternativa para a Alemanha, fundado em 2013 e atualmente com pesquisas de opinião que chegam a 20%. Ele contém cerca de 10.000 extremistas, de acordo com o serviço de inteligência interna do país. Planos de deportação em massa de imigrantes e até mesmo um complô para derrubar o governo foram vinculados a ele.

O Reagrupamento Nacional na França começou em 1972 como a Frente Nacional, criação de Le Pen, que descreveu os Estados Unidos como uma “nação mestiça” e o regime nazista de Vichy na França como “especialmente desumano”.

Quanto à Meloni, ela teve seu início no Movimento Social Italiano do pós-guerra, fundado em 1946 por partidários de Mussolini empenhados em defender o legado do fascismo. O movimento teve vertentes violentas até a década de 1970, mas acabou se dissolvendo e seus líderes se separaram para fundar novos partidos mais moderados, embora ainda orgulhosos de sua linhagem. O símbolo dos Irmãos da Itália é uma chama tricolor, anteriormente usada por um partido neofascista, e sua hostilidade aos imigrantes continua firme.

O caminho para chegar ao poder, ou à beira dele, pela extrema direita tem sido longo. Ao longo dos quase 80 anos do período pós-guerra, as outrora dominantes centro-esquerda e centro-direita - representadas na França pelos socialistas e gaullistas, e na Alemanha pelos social-democratas e democratas-cristãos - viram as bases de seu apoio (sindicatos para a esquerda e a igreja para a direita) se desgastarem gradualmente.

Isso se acelerou com a globalização após o fim da Guerra Fria e com o início da atomização com a chegada do smartphone (esse prodigioso gerador de ansiedade de status), levando a sociedades mais desiguais, mais polarizadas e mais preocupadas. Os bens comuns políticos encolheram. A definição de verdade oscilou. Parlamentos e partidos tornaram-se mais marginais à medida que o peso político foi transferido para a mídia social.

Cada vez mais, com as grandes disputas ideológicas sobre o lugar do Estado na economia resolvidas, a direita moderada e a esquerda moderada começaram a parecer indistinguíveis para muitas pessoas. Eles não tinham respostas para a migração em massa. A classe trabalhadora, que por muito tempo foi a pedra angular do socialismo na Europa, migrou em massa para a direita anti-imigração como uma expressão de frustração com a crescente desigualdade e a estagnação dos salários.

O principal confronto nas sociedades ocidentais não é mais sobre questões internas. É global versus nacional, os conectados que vivem em “algum lugar” da economia do conhecimento versus os esquecidos que vivem “em lugar nenhum” em terrenos baldios industriais e áreas rurais. É aí que reside a frustração, até mesmo a fúria, sobre a qual um Trump, um Meloni, um Wilders, um Le Pen poderiam se apoiar.

As mudanças progressivas nos costumes sociais ofereceram uma nova arma retórica a esses líderes. Para eles, assim como para Putin, tem sido fácil apresentar um retrato simplista do Ocidente das elites urbanas liberais como o local decadente do suicídio cultural, o lugar onde a família, a igreja, a nação e as noções tradicionais de casamento e gênero vão morrer.

“Há um sentimento desproporcional de decepção em nossas sociedades”, disse-me Thomas Bagger, secretário de Estado do Ministério das Relações Exteriores da Alemanha. “Perdemos nossa confiança de que havíamos entendido o longo arco da história e que ele se inclina para a democracia. A Rússia perdeu sua ideia de futuro, e Putin se voltou para o passado. Estamos correndo o risco de cair na mesma armadilha.”

A extrema direita na Europa se moderou e se preparou para governar. Ela abandonou os apelos para deixar a União Europeia - o desastre do Brexit garantiu isso - e para deixar a moeda compartilhada do euro. Ela atenuou, mas não eliminou, o racismo absoluto, mesmo que a islamofobia esteja à espreita por toda parte.

A imigração em massa - cerca de 5,1 milhões de imigrantes entraram na União Europeia em 2022, mais do que o dobro do número do ano anterior - é a questão central por trás da natureza mutável da direita na Europa. Ela é amplamente ressentida, principalmente porque o envelhecimento da população exerceu uma enorme pressão financeira sobre as estimadas redes de segurança social que eles e as gerações anteriores pagaram por muito tempo. Os benefícios que os imigrantes podem trazer para as sociedades com forças de trabalho e bases tributárias cada vez menores são negligenciados. Em vez disso, o foco está nos migrantes que se beneficiam de ajuda financeira.

“Temos que tornar nosso país menos atraente para uma forma de imigração que nos vê como uma máquina de dinheiro social”, disse Bardella. “A vocação da França não é sustentar toda a miséria do mundo! A assistência social e os benefícios para crianças devem ser reservados aos cidadãos franceses.”

De fala mansa e metódica, ele não é um demagogo. Mas em seu último programa eleitoral, em 2022, o Reagrupamento Nacional convocou um referendo para alterar a Constituição da França. Um dos novos artigos propostos dizia: “Os estrangeiros devem respeitar a identidade e o modo de vida da França e não se envolver em atividades políticas contrárias aos interesses nacionais. Sua presença não deve constituir um ônus excessivo para as finanças públicas e o sistema de bem-estar social. A reunificação familiar de estrangeiros pode ser proibida ou limitada.”

O programa também previa a expulsão de imigrantes sem documentos. “Por ser soberano, e o único soberano, o povo francês tem o direito de tomar as decisões consideradas necessárias para se manter”, afirmou.

Outra questão séria que paira sobre esses movimentos é a seguinte: Se eleitos, esses partidos deixariam o cargo?

O primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orban, que está no poder há 18 anos e é aliado de Trump, estabeleceu um modelo para a nova direita. Demonizar os imigrantes e neutralizar um judiciário independente. Subjugar grande parte da mídia de notícias. Criar novas elites leais por meio do capitalismo de compadrio. Energizar uma narrativa nacional de vitimização e heroísmo por meio da manipulação da memória histórica. Afirmar que a “vontade do povo” se sobrepõe aos controles e equilíbrios constitucionais.

O resultado é uma forma de governo de partido único europeu que mantém um verniz de democracia e, ao mesmo tempo, distorce a disputa o suficiente para garantir que ela provavelmente produzirá apenas um resultado.

Na Itália, Meloni propôs uma mudança constitucional que daria automaticamente ao partido com o maior número de votos (atualmente os Irmãos da Itália) 55% dos assentos no Parlamento. Ela diz que isso tornaria os governos italianos mais estáveis, mas seus oponentes temem que isso também possa criar oportunidades para um futuro autocrata.

Seguir o manual de Orban enfrentaria uma forte resistência constitucional na França, com seu forte apego à liberdade e aos direitos humanos, conforme incorporado na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789. Mas se o Reagrupamento Nacional controlasse a presidência e o Parlamento, todas as apostas estariam canceladas.

“A normalização da direita não a torna necessariamente menos extremista”, disse Tocci, cientista política italiana. “Se as restrições diminuírem, talvez com o retorno de Trump como presidente em novembro, Meloni ficará mais do que feliz em mostrar sua verdadeira face. Se Trump e Orban concordarem em forçar a Ucrânia a se render, ela não pensará duas vezes.”

Dito isso, a ascendência da direita não é universal, uniforme ou garantida. A Polônia, por meio de um movimento de protesto, liderou a libertação da Europa do império soviético, culminando com a queda do Muro de Berlim em 1989. No ano passado, em uma eleição em novembro, a Polônia destituiu seu partido nacionalista no governo, o Lei e Justiça, que havia liderado um ataque ao estado de direito. O partido também propagou o ódio xenófobo, retratou o país como eterna vítima e distanciou a Polônia da União Europeia.

“Os poloneses disseram: ‘Temos uma visão mais positiva para colocar no lugar de uma visão sombria da vida humana e nacional’”, disse Bagger, o secretário de estado alemão. “Eles se retiraram da beira do abismo”.

Subestimar a desenvoltura e a resiliência das democracias é sempre perigoso. Mas também é perigoso desconsiderar o inimaginável. Como escreveu Victor Hugo, o amado de Bardella, “Nada é mais iminente do que o impossível”.

Bibi, o santo

Novas acusações são levantadas contra nós, como cometer genocídio e deixar Gaza à fome. Mas que genocídio? Fazemos tudo para evitar danos civis. E que fome? Permitimos a entrada de alimentos e medicamentos em Gaza
Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel

O sangue está nas suas mãos, Netanyahu

Em boa parte do país, milhares de israelenses foram às ruas na noite da segunda-feira para pedir ao governo de Benjamin Netanyahu que concordasse com os termos de um acordo de cessar-fogo que o grupo Hamas, horas antes, anunciou que aceitava.

Pouco mais de 1.000 manifestantes reuniram-se perto do quartel-general da Defesa, em Tel Aviv, enquanto em Jerusalém pelo menos uma centena marchou em direção à casa da família de Netanyahu com uma faixa que dizia: “O sangue está nas suas mãos”.

Duas vezes, a polícia foi acionada para a dispersar um grande protesto na rodovia Ayalon, em Tel Aviv, bloqueada por famílias de cativos em poder do Hamas; tocavam tambores, brandiam cartazes e gritavam a palavra de ordem “Bibi está abandonando os reféns!”

O acordo de cessar-fogo foi proposto pelo Egito e o Catar, com o apoio velado dos Estados Unidos. A resposta de Israel foi o aumento de ataques à cidade de Rafah, no Sul da Faixa de Gaza, para onde, no início da guerra e por ordem de Israel, deslocaram-se cerca de 1 milhão de palestinos.

Órgãos internacionais alertaram para as graves consequências humanitárias e cortes drásticos no fornecimento de ajuda caso prossiga a ofensiva de Israel em Rafah. Nas últimas 48 horas, Israel orientou dezenas de milhares de pessoas a abandonarem a parte oriental da cidade.

“Uma incursão militar em Rafah poderia levar a um banho de sangue devido ao quão densamente povoada Rafah se tornou”, disse Tamara Alrifai, diretora de relações externas da agência da ONU para refugiados palestinos, Unrwa.

As passagens de Rafah e Kerem Shalom – as únicas rotas de ajuda para a Faixa de Gaza – foram fechadas na segunda-feira sem nenhum sinal claro de quando poderão reabrir. Dados da ONU mostram que nenhum caminhão de ajuda humanitária passou por Rafah no domingo.

Segundo o Wall Street Journal, os Estados Unidos atrasaram a venda de milhares de armas de precisão a Israel. A venda atrasada foi de cerca de 6.500 kits de Munições Conjuntas de Ataque Direto (JDAM), que permitem direcionar bombas não guiadas para um alvo.

O secretário de Estado dos Estados Unidos, Antony Blinken, deve apresentar um relatório ao Congresso até amanhã sobre se aceita as garantias de Israel de que está respeitando o direito internacional ao utilizar armamento americano.

Se a conclusão do relatório for de que Israel não respeita, isso aumentará, de um lado, os apelos pela suspensão da ajuda militar americana, e do outro, irritará os conservadores que defendem Israel, bem como os doadores de dinheiro para a campanha de Biden.

O presidente americano tenta se equilibrar numa corda bamba. Cobra o fim da guerra ao mesmo tempo em que renova seu apoio incondicional ao governo de Israel, qualquer que seja ele. Disso se aproveita o governo de extrema-direita de Netanyahu.

Na véspera do Dia em Memória do Holocausto, na semana passada, Netanyahu foi taxativo:

“Se não nos protegermos, ninguém o fará. Não podemos confiar nas promessas dos gentios”.

Está nos dicionários: na tradução cristã da Bíblia, a palavra gentio designa um não-hebreu. Os hebreus estabeleciam uma divisão entre o povo, que definiam como eleito por Deus, e os gentios, posteriormente denominados pagãos. Israel é um Estado religioso que se diz democrata.

A conspiração da ignorância

A realidade não nos tem dado sossego. O mundo avança por caminhos imprevistos. Há muito tempo que a energia motriz das nossas sociedades não é o petróleo, o carvão ou, mesmo, a eletricidade. O combustível com que atestamos a cabeça e o ânimo é a informação. É ela que nos põe em movimento. Com inúmeras formas, a informação chega de todos os lados, catalisada pela internet, multiplicada por mil. Talvez essa avalanche de perspetivas e interpretações, ajude a explicar esta situação. Talvez as extremas guinadas da atualidade noticiosa contribuam para a ideia de que tudo é possível.

Uma pandemia mundial, quem poderia imaginar? Para lá da quantidade considerável de epidemiologistas, tanto profissionais, como amadores, duvido que alguém conseguisse prever o que temos atravessado desde o início de 2020. Perante tal surpresa, não admira que haja quem duvide. Os já famosos negacionistas são gente com uma grande confiança nos seus sentidos, na sua experiência pessoal e nas suas fontes informativas.


Com ou sem pontuação, com ou sem maiúsculas, exprimem-se nas redes sociais e, às vezes, na rádio ou na televisão, naqueles programas que recebem telefonemas do público. Manifestam-se de peito feito, desafiantes, destemidos perante nenhuma ameaça percetível. Quando dizem eles referem-se ao mundo inteiro. Quando expõem ideias sobre a pandemia, o principal argumento que apresentam é de que não viram e não conhecem ninguém que tenha visto.

Suponho que não tenham amigos entre a comunidade de trabalhadores das análises clínicas. Para além desse detalhe, aquilo que me parece mais interessante é esta forma extravagante de analisar e avaliar o mundo: apenas existe aquilo que já se viu e experimentou. Consideremos por um instante a imensa quantidade de assuntos que nunca vimos à nossa frente, mas que acreditamos existir, contamos com eles na nossa conceção da existência.

No entanto, não é possível dizer apenas que não. Sempre que se nega alguma coisa, está implicitamente a afirmar-se o contrário ou uma variação daquilo que se nega. Quando avaliados a partir de outro ângulo, os negacionistas são muito mais afirmacionistas do que se poderia julgar numa primeira e apressada leitura.

Por espantosa ironia, os mesmos indivíduos que nos encorajam a desdenhar daquilo que não testemunhámos, pedem-nos para acreditar em conspirações secretas internacionais, em extraterrestres que ocuparam o planeta e se fazem passar por seres humanos, em seitas satânicas que controlam as elites mundiais, que praticam a pedofilia e se alimentam de sangue para rejuvenescer. Nenhum deles testemunhou realmente estes terríveis factos, apenas os encontraram descritos na internet por alguém que viu, foram-lhes enviados numa corrente anónima de mensagens nas redes sociais.

Ou seja, chegámos ao ponto em que, abertamente e sem pudor, se escolhe aquilo em que se acredita. Basta que exista um fluxo contínuo de “informação” a abastecer e a desenvolver essas ideias e, também, que exista uma comunidade disposta a acolher quem chega, a tratá-lo como um dos seus. Dá um certo conforto acreditar em conjunto, independentemente da crença em causa.

Antes, estas pessoas já existiam. Eram o maluco da aldeia, o excêntrico rancoroso. Agora, a tecnologia deu-lhes a oportunidade de comunicarem, de alimentarem em conjunto a sua mania, criaram associações e federações. E há muitas aldeias no mundo, mesmo muitas, cada uma com o seu maluco.

segunda-feira, 6 de maio de 2024

Salman Rushdie: o triunfo da palavra

Salman Rushdie não acredita em milagres, embora apareçam muitos em seus textos de realismo mágico. Mas foi um milagre ele ter sobrevivido a um ataque de 27 segundos e 15 facadas em Chautauqua, Nova York, no dia 12 de agosto de 2022. A última coisa que seu olho direito viu foi um homem vestido de preto, correndo na plateia em sua direção e desfechando os golpes que o levaram a muito perto da morte.

Rushdie sobreviveu com a mente intacta e escreveu um livro, “Faca: reflexões sobre um atentado”. Além de ter perdido a visão do olho direito, foi gravemente ferido na mão esquerda, no peito, no pescoço e em outros pontos do corpo. Foram 18 dias internado num centro de trauma e muitos dias em seguida num hospital especializado em recuperação em Nova York. Ele não foi salvo apenas pela perícia dos cirurgiões, mas também pelo amor de sua mulher, Eliza (Rachel Eliza Griffiths), filhos de inúmeros amigos e até desconhecidos que se solidarizaram com ele.

O atentado ocorreu 33 anos e meio depois de o aiatolá Khomeini tê-lo condenado à morte, por causa da publicação do livro “Versos satânicos”. Os 18 dias após o atentado foram terríveis. No princípio, por causa da grande quantidade de analgésicos, inclusive morfina, ele delirou sonhando com edifícios em forma de letras do alfabeto. Em seguida, vieram as centenas de incômodos com os próprios ferimentos, em muitas partes do corpo, sobretudo a mão, unidas por pontos de metal, o olho deslocado da órbita.

Nesses momentos, e em todos os outros, Salman teve ao lado a mulher, Eliza, poeta e fotógrafa americana. A coragem e o afeto dessa mulher extraordinária, o próprio Salman reconhece, foram decisivos. Não é fácil alguém se mover escapando de paparazzi, protegido por policiais desconhecidos, sempre em dúvida se aquelas longas lentes fotográficas não poderiam ser um cano de arma disfarçado

No livro, Rushdie descreve muitos procedimentos médicos, a dor da retirada dos pontos, a tristeza de saber que ficaria sem a visão num olho, o medo de ficar cego, uma vez que já tinha problemas nos olhos antes do atentado. Ele chega a descrever até a dor de receber uma sonda para fazer xixi, pois um dos remédios inibiu sua função urinária. Adverte o leitor: se você nunca recebeu uma sonda, procure se manter invicto.

Eu acrescentaria com experiência própria: se perder a invencibilidade, não o faça após ser ferido e preso numa ditadura militar. Torça por enfermeiros amigáveis.

O livro é cheio de referências literárias, menciona até “Memórias póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis. Mas o diálogo mais significativo é com o romance de Milan Kundera “A insustentável leveza do ser”. A vida não tem reprises. Mas Salman, na verdade, ganhou uma segunda chance e a desfruta com felicidade ao lado de Eliza.

A verdade é que amigos morrem, como morreu o escritor Martin Amis; outros sofrem doenças, com paralisia, como Hanif Kureishi; e alguns já estavam com câncer, como Paul Auster, que, por sinal, morreu na semana que passou. Além de todos esses problemas, há as dificuldades no mundo. A guerra contra a Ucrânia, conduzida por um tirano, as perseguições religiosas na Índia, os perigos de retrocesso nos Estados Unidos, com a ideia de supremacia branca e masculina.

Rushdie dedica um capítulo a uma discussão imaginária com o homem que tentou matá-lo, que ele chama apenas de A. Talvez nem precisasse, mas faz uma defesa de sua atuação, até em relação aos muçulmanos, e traça um perfil do terrorista religioso, que acredita em falsos profetas, é solitário e frustrado.

A conclusão é que os escritores têm de continuar escrevendo suas histórias, que ficarão para sempre e contribuem para combater as falsas narrativas nesta era de desinformação. Um poema não detém uma bala. Mas a luta de Rushdie é um exemplo de luta pela liberdade de expressão. No dia em que foi atacado, ele faria uma conferência em apoio aos escritores perseguidos no mundo, para os quais seu amigo Henry Reese, organizador do encontro, criava um espaço amplo de refúgio. O evento — onde o terrorista, um jovem de origem libanesa, criado em Nova Jersey, apareceu com sua fúria assassina — se intitulava “Mais que um abrigo, redefinindo o lar americano”.

Portanto as facadas foram contra todos os escritores perseguidos. Alguns também atingidos diretamente pela lâmina, como o egípcio Naguib Mahfouz, esfaqueado no pescoço em 1994 por um fundamentalista islâmico.

Pensamento do Dia

 


Viva!


Viver é a coisa mais rara no mundo. A maior parte das pessoas limita-se a existir
Oscar Wilde

Nosso tempo

A Osvaldo Alves

I


Este é tempo de partido,
tempo de homens partidos.

Em vão percorremos volumes,
viajamos e nos colorimos.
A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua.
Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos.
As leis não bastam. Os lírios não nascem
da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se
na pedra.

Visito os fatos, não te encontro.
Onde te ocultas, precária síntese,
penhor de meu sono, luz
dormindo acesa na varanda?
Miúdas certezas de empréstimo, nenhum beijo
sobe ao ombro para contar-me
a cidade dos homens completos.

Calo-me, espero, decifro.
As coisas talvez melhorem.
São tão fortes as coisas!

Mas eu não sou as coisas e me revolto.
Tenho palavras em mim buscando canal,
são roucas e duras,
irritadas, enérgicas,
comprimidas há tanto tempo,
perderam o sentido, apenas querem explodir.

II

Este é tempo de divisas,
tempo de gente cortada.
De mãos viajando sem braços,
obscenos gestos avulsos.

Mudou-se a rua da infância.
E o vestido vermelho
vermelho
cobre a nudez do amor,
ao relento, no vale.

Símbolos obscuros se multiplicam.
Guerra, verdade, flores?
Dos laboratórios platônicos mobilizados
vem um sopro que cresta as faces
e dissipa, na praia, as palavras.

A escuridão estende-se mas não elimina
o sucedâneo da estrela nas mãos.
Certas partes de nós como brilham! São unhas,
anéis, pérolas, cigarros, lanternas,
são partes mais íntimas,
a pulsação, o ofego,
e o ar da noite é o estritamente necessário
para continuar, e continuamos.

III

E continuamos. É tempo de muletas.
Tempo de mortos faladores
e velhas paralíticas, nostálgicas de bailado,
mas ainda é tempo de viver e contar.
Certas histórias não se perderam.
Conheço bem esta casa,
pela direita entra-se, pela esquerda sobe-se,
a sala grande conduz a quartos terríveis,
como o do enterro que não foi feito, do corpo esquecido na mesa,
conduz à copa de frutas ácidas,
ao claro jardim central, à água
que goteja e segreda
o incesto, a bênção, a partida,
conduz às celas fechadas, que contêm:
papéis?
crimes?
moedas?

Ó conta, velha preta, ó jornalista, poeta, pequeno historiador urbano,
ó surdo-mudo, depositário de meus desfalecimentos, abre-te e conta,
moça presa na memória, velho aleijado, baratas dos arquivos, portas rangentes, solidão e asco,
pessoas e coisas enigmáticas, contai;
capa de poeira dos pianos desmantelados, contai;
velhos selos do imperador, aparelhos de porcelana partidos, contai;
ossos na rua, fragmentos de jornal, colchetes no chão da costureira, luto no braço, pombas, cães errantes, animais caçados, contai.
Tudo tão difícil depois que vos calastes…
E muitos de vós nunca se abriram.

IV

É tempo de meio silêncio,
de boca gelada e murmúrio,
palavra indireta, aviso
na esquina. Tempo de cinco sentidos
num só. O espião janta conosco.

É tempo de cortinas pardas,
de céu neutro, política
na maçã, no santo, no gozo,
amor e desamor, cólera
branda, gim com água tônica,
olhos pintados,
dentes de vidro,
grotesca língua torcida.
A isso chamamos: balanço.

No beco,
apenas um muro,
sobre ele a polícia.
No céu da propaganda
aves anunciam
a glória.
No quarto,
irrisão e três colarinhos sujos.

V

Escuta a hora formidável do almoço
na cidade. Os escritórios, num passe, esvaziam-se.

As bocas sugam um rio de carne, legumes e tortas vitaminosas.
Salta depressa do mar a bandeja de peixes argênteos!
Os subterrâneos da fome choram caldo de sopa,
olhos líquidos de cão através do vidro devoram teu osso.
Come, braço mecânico, alimenta-te, mão de papel, é tempo de comida,
mais tarde será o de amor.

Lentamente os escritórios se recuperam, e os negócios, forma indecisa, evoluem.
O esplêndido negócio insinua-se no tráfego.
Multidões que o cruzam não veem. É sem cor e sem cheiro.
Está dissimulado no bonde, por trás da brisa do sul,
vem na areia, no telefone, na batalha de aviões,
toma conta de tua alma e dela extrai uma porcentagem.

Escuta a hora espandongada da volta.
Homem depois de homem, mulher, criança, homem,
roupa, cigarro, chapéu, roupa, roupa, roupa,
homem, homem, mulher, homem, mulher, roupa, homem
imaginam esperar qualquer coisa,
e se quedam mudos, escoam-se passo a passo, sentam-se,
últimos servos do negócio, imaginam voltar para casa,
já noite, entre muros apagados, numa suposta cidade, imaginam.

Escuta a pequena hora noturna de compensação, leituras, apelo ao cassino, passeio na praia,
o corpo ao lado do corpo, afinal distendido,
com as calças despido o incômodo pensamento de escravo,
escuta o corpo ranger, enlaçar, refluir,
errar em objetos remotos e, sob eles soterrado sem dor,
confiar-se ao que bem me importa
do sono.

Escuta o horrível emprego do dia
em todos os países de fala humana,
a falsificação das palavras pingando nos jornais,
o mundo irreal dos cartórios onde a propriedade é um bolo com flores,
os bancos triturando suavemente o pescoço do açúcar,
a constelação das formigas e usurários,
a má poesia, o mau romance,
os frágeis que se entregam à proteção do basilisco,
o homem feio, de mortal feiura,
passeando de bote
num sinistro crepúsculo de sábado.

VI

Nos porões da família,
orquídeas e opções
de compra e desquite.
A gravidez elétrica
já não traz delíquios.
Crianças alérgicas
trocam-se; reformam-se.
Há uma implacável
guerra às baratas.
Contam-se histórias
por correspondência.
A mesa reúne
um copo, uma faca,
e a cama devora
tua solidão.
Salva-se a honra
e a herança do gado.

VII

Ou não se salva, e é o mesmo. Há soluções, há bálsamos
para cada hora e dor. Há fortes bálsamos,
dores de classe, de sangrenta fúria
e plácido rosto. E há mínimos
bálsamos, recalcadas dores ignóbeis,
lesões que nenhum governo autoriza,
não obstante doem,
melancolias insubornáveis,
ira, reprovação, desgosto
desse chapéu velho, da rua lodosa, do Estado.
Há o pranto no teatro,
no palco? no público? nas poltronas?
há sobretudo o pranto no teatro,
já tarde, já confuso,
ele embacia as luzes, se engolfa no linóleo,
vai minar nos armazéns, nos becos coloniais onde passeiam ratos noturnos,
vai molhar, na roça madura, o milho ondulante,
e secar ao sol, em poça amarga.
E dentro do pranto minha face trocista,
meu olho que ri e despreza,
minha repugnância total por vosso lirismo deteriorado,
que polui a essência mesma dos diamantes.

VIII

O poeta
declina de toda responsabilidade
na marcha do mundo capitalista
e com suas palavras, intuições, símbolos e outras armas
promete ajudar
a destruí-lo
como uma pedreira, uma floresta,
um verme.

Carlos Drummond de Andrade, "A rosa do povo"

'Responsabilidade também de senadores e deputados que desmontam legislação ambiental'

As fortes chuvas que atingem o Rio Grande do Sul, as mais intensas registradas em território gaúcho em décadas, já deixaram dezenas de mortos, causaram estragos em 300 municípios, romperam uma barragem e desalojaram mais de 80 mil pessoas. Há ainda mais de uma centena de pessoas desaparecidas enquanto o mau tempo já provoca danos em outros Estados do Sul.

Os governos federal e estadual criaram uma força-tarefa e tentam evitar mais mortes promovendo evacuações e retirando pessoas de áreas de risco.

Mas a responsabilidade não é apenas dos governos estaduais e federal, diz Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima (OC), mas também do Congresso — pois as tragédias são resultado da falta de adaptação e de combate às mudanças climáticas, duas áreas onde os Executivos precisam fazer mais e onde o Legislativo têm promovido ativamente retrocessos, na opinião dele.

"A maioria conservadora tem aprovado diversos projetos considerados nocivos para o meio ambiente. Nunca tivemos um Congresso tão dedicado a desmontar", afirma o especialista em políticas públicas à frente do Observatório do Clima, rede de entidades que monitora a questão climática no Brasil.

 


Além disso, segundo Astrini, ações que se limitam às respostas de emergência em situações de crise não são suficientes. Eventos extremos como esse — cada vez mais comuns por causa das mudanças climáticas — não podem mais ser tratados como “imprevistos”.

Embora nem sempre seja possível prever com precisão a intensidade de um evento extremo, já sabemos que eles se tornarão mais frequentes — e quais as medidas que precisam ser tomadas para nos adaptarmos a eles, afirma o especialista.

Modelos climáticos preveem há décadas um aumento de chuvas extremas no sul da América do Sul, incluindo toda a bacia do Prata (formada pelos rios Paraná e Uruguai), lembra Astrini.

“O maior problema que a gente enfrenta neste momento não é a previsão, é a aceitação”, afirma Astrini. “A gente precisa aceitar que, infelizmente, esse é o novo normal. Mas não basta aceitar pacificamente, é preciso aceitar e tomar atitudes.”

“Todo ano o governo do Rio Grande do Sul fica extremamente espantado que as chuvas são intensas. O governo do Rio de Janeiro fica super surpreso quando acontece em Petrópolis. É uma surpresa em São Sebastião (SP), no norte de Minas Gerais, em Recife (PE), no sul da Bahia. Só que acontece que já faz nove anos consecutivos que as médias de temperatura do planeta são as mais quentes já registradas. Não tem mais surpresa. A gente precisa se preparar para isso”, afirma Astrini.

Astrini explica que existem três tipos de resposta possíveis diante da crise climática: a mitigação das causas, a adaptação em preparação para as consequências e a redução de danos diante das tragédias.

“Mitigação é quando você ataca o problema: é quando você interrompe o desmatamento, quando você tira uma termoelétrica de operação, quando substitui uma fonte poluente por uma fonte renovável”, afirma o especialista.

“A adaptação é quando o problema vai acontecer e você começa a adaptar principalmente as populações mais vulneráveis ao problema. Por exemplo, quando tira as populações da área de risco, quando dá mais assistência para um pequeno agricultor lidar com uma seca.”

As ações também são necessárias contra problemas que não necessariamente são causados pelo aquecimento global, embora agravados por ele, explica Astrini.

“Adaptação é também quando você reforça a rede de saúde, porque vão aumentar os casos de dengue, porque o ciclo de reprodução do mosquito vai ficar mais longo por causa de chuvas desproporcionais e do calor prolongado.”

Já lidar com as perdas e reduzir os danos é promover as respostas emergenciais às tragédias.

“Perdas e danos é o que se faz normalmente: desbarrancou, você vai procurar sobreviventes, vai construir casas”, diz Astrini. O problema, na visão do especialista, é que as ações tomadas por autoridades federais, estaduais e municípais tendem a se concentrar apenas nesse terceiro estágio de resposta.

“O pessoal só age quando já está no nível da desgraça”, diz Astrini.

“O dinheiro investido na primeira camada vale muito mais, porque ele evita a adaptação e evita o desastre.”

Ações que estão sendo tomadas tanto pelo governo federal quanto pelo governo estadual e pelos municípios no caso das chuvas no Rio Grande do Sul — alertas da Defesa Civil, evacuação de pessoas de áreas de emergência, restabelecimento de serviços etc — se encaixam no terceiro tipo.

Após a região ser atingida por um ciclone em setembro do ano passado, o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional repassou R$ 82 milhões para o governo do Estado e outros R$ 243 milhões aos municípios gaúchos para lidar com a crise. Segundo reportagem da CNN Brasil, a maior parte do dinheiro foi usada em ações emergenciais, como compra de mantimentos e desobstrução de estradas.

“A gente pode ter a Defesa Civil 30 vezes maior no Rio Grande do Sul ou em qualquer outro Estado. Vai continuar morrendo gente, porque a Defesa Civil vai conseguir salvar a vida de alguém próximo, mas não de todos. Quem salva mais vidas é o planejamento, e no caso dos municípios, o planejamento urbano”, afirma o líder do Observatório do Clima.

Embora o aquecimento global seja um problema em escala mundial, ações de mitigação não são responsabilidade apenas de entidades internacionais e governos nacionais. Elas podem — e precisam — ser alvo também dos governos locais, diz Astrini.

“A mitigação é uma agenda de responsabilidade, não de ganho político. Vou pegar um exemplo aqui no Cerrado, que bateu o recorde de desmatamento nesse último período: mais de 60% de aumento de agosto do ano passado para cá. E quem dá as autorizações de desmatamento são os governos estaduais”, diz ele.

“E há vários outros exemplos, como legislações de licenciamento ambiental mais frouxas nos Estados, a responsabilidade com o saneamento básico, com a transição energética.”

O governo do Rio Grande do Sul não respondeu ao pedido de informações sobre ações de mitigação e adaptação da BBC News Brasil. O governador Eduardo Leite (PSDB) tem dado atualizações diárias sobre as medidas emergenciais tomadas no Estado, que incluem alertas e remoção das pessoas das áreas de risco.
Astrini diz ainda que é preciso lembrar da responsabilidade do Congresso em relação à situação climática que leva à tragédias como a sofrida pelo RS neste momento.

"Deputados trabalham dia e noite para destruir a legislação ambiental do Brasil com afinco. Neste momento estão querendo acabar com a Lei de Licenciamento Ambiental, querem acabar com a reserva legal na Amazônia, querem acabar com as reservas indígenas”, diz Astrini.

Ele se refere a um um projeto de lei que flexibiliza o licenciamento ambiental, permitindo que Estados e Municípios determinem os projetos que precisam ou não fazer uma análise de impacto, entre outras medidas.

Os defensores do PL argumentam que ele “diminuirá a burocracia” e por isso facilitaria o desenvolvimento econômico.

Mas Astrini diz que o projeto não só não resolve o problema da burocracia como pode comprometer metas de desenvolvimento sustentável.

“A gente nunca teve um Congresso tão agressivo nesse esforço para desmontar a legislação ambiental no Brasil”, afirma.

Deputados e senadores contrários a pautas importantes para ambientalistas argumentam que a legislação ambiental atrapalha o desenvolvimento econômico e, em alguns casos, negam dados científicos sobre o aquecimento global ou sobre desmatamento no Brasil.

“Tem dois momentos em que o Congresso ajuda o Brasil na área ambiental: no recesso do meio do ano e no recesso do final”, diz Astrini.

Para Astrini, o governo federal vem falhando na disputa com os deputados e senadores pelas pautas ambientais, embora tenha um bom projeto para a área.

Ele cita, por exemplo, o fato de a bancada governista ter sido liberada para votar em qualquer sentido (em vez de receber a orientação para votar contra) o marco temporal para as terras indígenas.

“A gente nunca teve um Ministério do Meio Ambiente com tanto apoio no governo. É a primeira vez que um presidente fala em desmatamento zero e tolerância zero para desmatadores. Você tem um ministro da Economia que faz conversas sobre o meio ambiente, um Ministério dos Povos Indígenas... Mas mesmo assim as coisas não estão andando como deveriam”, afirma.

Além na tragédia no Sul, há outras notícias negativas na área. O Norte registra número recorde de queimadas de janeiro a maio deste enquanto a greve de servidores dos dois principais órgãos de fiscalização ambiental do país —Ibama e ICMBio— já dura mais de 100 dias.

Para o especialista, não se trata apenas de uma questão de orçamento mais robusto para ministérios da área —que também é importante — mas da capacidade de integrar essa visão em todos os setores.

“Quem causa o problema de emissões do Brasil? São os atores no setor do Ministério da Agricultura. E no Ministério das Minas e Energia. São esses ministérios que têm que ter programas e investimentos para diminuir as emissões de seus setores”, afirma Astrini. “O Ministério do Ambiente pode multar uma área que já foi desmatada, mas para as ações de mitigação você precisa da ação de todos os agentes.”

A BBC procurou o governo federal para falar sobre o assunto, mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem.

O governo, que apesar de não ter maioria no Congresso conseguiu aprovar agendas suas como o novo arcabouço fiscal, não tem “comprado a briga” nas pautas ambientais, opina Astrini.

No caso do marco temporal para as terras indígenas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva até tentou barrar a aprovação da lei que limita a demarcação, mas seu veto foi derrubado pelo Congresso.

A tese do marco temporal é de que apenas áreas ocupadas por indígenas em outubro de 1988, momento em que a Constituição Federal foi promulgada, poderiam ser demarcadas.

Movimentos indígenas questionam a tese porque havia terras que, naquele momento, não eram ocupadas porque seus habitantes originários haviam sido expulsos por invasores. Já os ruralistas alegam que não estabelecer um marco temporal criava insegurança jurídica.

Além de um direito dos povos originários, a demarcação de terras indígenas é considerada por ambientalistas e pesquisadores uma das principais formas de preservação da mata nativa brasileira — hoje as reservas impedem o desmatamento de diversas áreas cujo entorno foi devastado.

Astrini também critica o fato de pautas ambientais terem entrado no cabo de guerra entre o Supremo e o Legislativo, virando parte de uma disputa de poder mais do que uma discussão sobre políticas públicas.

O Senado e Câmara têm entrado em rota de colisão com o STF em diversos temas, em uma disputa sobre os limites de cada poder.

A questão do marco temporal, inclusive, só teve a sua votação acelerada como resposta da bancada ruralista a uma decisão do STF de 2023.

Na época, a Corte rejeitou a tese do marco, que era baseada em uma situação jurídica ambígua. Logo em seguida o Congresso aprovou uma nova legislação determinando a existência de um marco temporal.

“Em algumas áreas, como essa do marco temporal, o Congresso tem usado a questão para atacar os indígenas e o Supremo.”

Além das decisões recentes tomadas pela maioria conservadora do Congresso e de projetos em tramitação, Astrini critica a postura pública de deputados e senadores em relação a temas ambientais.

“São os homens privilegiados, com espaço, que falam com seus eleitores e formam opinião pública. Eles não cansam de repetir que essa coisa de meio ambiente, de regra ambiental, é uma besteira”, diz Astrini. “Mas aí as consequências chegam e a responsabilidade é de quem?”

Para o secretário-executico do OC, esses parlamentares "incentivam quem quer desrespeitar a leis ambientais e prejudicam quem quer fazer certo”. “Então eles têm enorme responsabilidade por situações como essa (no Rio Grande do Sul) e têm que ser cobrados por isso.”

A era das compras

A economia capitalista moderna deve aumentar a produção constantemente se quiser sobreviver, como um tubarão que deve nadar para não morrer por asfixia. Mas só produzir não é o bastante. Também é preciso que alguém compre os produtos, ou os industrialistas e os investidores irão à falência. Para evitar essa catástrofe e garantir que as pessoas sempre comprem o que quer que a indústria produza, surgiu um novo tipo de ética: o consumismo.

A maioria das pessoas ao longo da história viveu em condições de escassez. A frugalidade era, portanto, sua palavra de ordem. A ética austera dos puritanos e a dos espartanos são apenas dois exemplos famosos. Uma pessoa boa evitava luxos, nunca desperdiçava comida e remendava calças rasgadas em vez de comprar novas. Somente reis e nobres se permitiam renunciar publicamente a tais valores e ostentar suas riquezas.

O consumismo vê o consumo de cada vez mais produtos e serviços como algo positivo. Encoraja as pessoas a cuidarem de si mesmas, a se mimarem e até a se matarem pouco a pouco por meio do consumo exagerado. A frugalidade é uma doença a ser curada. Não é preciso olhar muito longe para ver a ética do consumo em ação – basta ler a parte de trás de uma caixa de cereal. Esta é uma citação de uma caixa de um dos meus cereais matinais favoritos, produzido por uma empresa israelense, a Telma:

Às vezes você precisa de cuidados. Às vezes você precisa de um pouco mais de energia. Há momentos para controlar o peso e momentos em que você simplesmente precisa fazer alguma coisa... imediatamente! A Telma oferece uma variedade de cereais saborosos especialmente para você – prazer sem remorso.

A mesma embalagem traz uma propaganda de outra marca de cereal chamada Health Treats:

Health Treats oferece uma porção de grãos, frutas, nozes e castanhas para uma experiência que combina sabor, prazer e saúde. Para uma refeição saborosa no meio do dia, perfeita para um estilo de vida saudável. Um verdadeiro deleite com o sabor maravilhoso de “quero mais” [grifo no original].

Durante a maior parte da história, as pessoas teriam sido repelidas, e não atraídas, por esse texto. Eles o teriam considerado egoísta, indecente e moralmente corrupto. O consumismo trabalhou duro, com a ajuda da psicologia popular (“Just do it!”), para convencer as pessoas de que a indulgência é algo bom, ao passo que a frugalidade significa auto-opressão.

O consumismo prosperou. Somos todos bons consumistas. Compramos uma série de produtos de que não precisamos realmente e que até ontem não sabíamos que existiam. Os fabricantes criam deliberadamente produtos de vida curta e inventam modelos novos e desnecessários de produtos perfeitamente satisfatórios que devemos comprar para “não ficar de fora”. Ir às compras se tornou um passatempo favorito, e os bens de consumo se tornaram mediadores essenciais nas relações entre membros da família, casais e amigos. Feriados religiosos como o Natal se tornaram festivais de compras. Nos Estados Unidos, até mesmo o Memorial Day – originalmente um dia solene para lembrar os soldados mortos em combate – é hoje uma ocasião para vendas especiais. A maioria das pessoas comemora esse dia indo às compras, talvez para provar que os defensores da liberdade não morreram em vão.

O florescimento da ética consumista é mais visível no mercado de alimentos. As sociedades agrícolas tradicionais viviam à sombra terrível da fome. No mundo afluente de hoje, um dos principais problemas de saúde é a obesidade, que acomete os pobres (que se empanturram de hambúrgueres e pizzas) de maneira ainda mais severa do que os ricos (que comem saladas orgânicas e vitaminas de frutas). Todos os anos, a população dos Estados Unidos gasta mais dinheiro em dietas do que a quantidade necessária para alimentar todas as pessoas famintas no resto do mundo. A obesidade é uma vitória dupla para o consumismo. Em vez de comer pouco, o que levará à contração econômica, as pessoas comem demais e então compram produtos para dieta – contribuindo duplamente para o crescimento econômico. Como podemos alinhar a ética consumista com a ética capitalista do empresário, de acordo com a qual os lucros não devem ser desperdiçados, e sim reinvestidos na produção? É simples. Como em épocas anteriores, existe hoje uma divisão de trabalho entre a elite e as massas. Na Europa medieval, os aristocratas gastavam o dinheiro despreocupadamente em luxos extravagantes, ao passo que os camponeses levavam uma vida frugal, cuidando de cada centavo. Hoje, a situação se inverteu. Os ricos gerenciam seus ativos e investimentos com muito cuidado, enquanto os menos abastados se endividam comprando carros e televisores de que na verdade não necessitam.

A ética capitalista e a consumista são dois lados da mesma moeda, uma combinação de dois mandamentos. O mandamento supremo dos ricos é “invista!”. O mandamento supremo do resto de nós é “compre!”.

A ética capitalista-consumista é revolucionária em outro aspecto. A maioria dos sistemas éticos anteriores apresentava às pessoas um acordo muito difícil. Elas recebiam a promessa do paraíso, mas só se cultivassem a compaixão e a tolerância, superassem o desejo e a fúria e controlassem seus interesses egoístas. Isso era difícil demais para a maioria. A história da ética é um conto triste de ideais maravilhosos que ninguém consegue colocar em prática. A maioria dos cristãos não imitou Cristo, a maioria dos budistas não conseguiu seguir os passos de Buda, e a maioria dos confucianos teria causado um ataque de nervos a Confúcio.

Já a maioria das pessoas hoje consegue viver de acordo com o ideal capitalista-consumista. A nova ética promete o paraíso sob a condição de que os ricos continuem gananciosos e dediquem seu tempo a ganhar mais dinheiro e as massas deem rédea solta a seus desejos e paixões – e comprem cada vez mais. Essa é a primeira religião na história cujos seguidores realmente fazem o que se espera que façam. Mas como temos certeza de que, em troca, teremos o paraíso? Nós vimos na televisão.
Yuval Noah Harari, "Sapiens: uma breve história da humanidade"

O urso no meio da sala

Tudo começou com um vídeo do TikTok visto mais de 14 milhões de vezes, da conta Screenshothq, em que se pergunta a oito mulheres se preferiam ficar encurraladas numa floresta com um urso ou com um homem. Sete mulheres respondem “com um urso”. As respostas criaram comoção em muitos homens que não compreenderam as respostas.

Muitas mulheres compreenderam e justificaram porque também fariam essa escolha: se fosse atacada por um urso as pessoas acreditavam, não perguntavam como estava vestida, se disse não, se resisti, se bebi, se denunciei para ficar famosa, um urso não me violaria, não me torturaria, não faria de conta que é simpático, não me perseguiria só porque não dei o meu número de telefone, não me fecharia numa cave, não me violaria sozinho ou em grupo, deixaria o meu corpo tranquilo depois de me ter morto, e ninguém diria que estou a sujar a reputação do urso, ou que nem todos os ursos são assim, etc.

Ora, o clássico “nem todos os homens” tem sido uma das reações frequentes a esta questão, demonstrando que o primeiro instinto de muitos homens é o de defender a sua reputação, identificando-se desde logo com a posição dos agressores e não com a das mulheres que preferem nem sequer ouvir e compreender. Encontramos este tipo de reação em vários outros domínios que têm como fator comum a identificação imediata com as posições de dominação, e não com as perspetivas das vítimas. Exemplo disso é a forma como de cada vez que se fala de racismo até pessoas aliadas da causa não resistem em mostrar a que ponto elas não são assim, a que ponto são antirracistas. Participam numa espécie de concurso de inocência, ao ponto de por vezes caírem no ridículo de compararem os seus comportamentos engajados com o das pessoas vítimas de racismo e de acharem ter legitimidade para explicarem, por exemplo, a pessoas racializadas o que é o racismo e como conduzir a luta antirracista. Da mesma forma que homens explicam a mulheres o que é o machismo ou o verdadeiro feminismo e até no caso em questão como se comporta um urso.

Encontramos este tipo de reação em vários outros domínios que têm como fator comum a identificação imediata com as posições de dominação, e não com as perspectivas das vítimas. Assistimos a este mesmo tipo de padrão nas reações à questão da escravatura e colonialismo, e neste momento, mais especificamente à questão das reparações. A justificação, a relativização e a minimização destes crimes contra a humanidade são muitas vezes motivadas pela identificação com a posição dos opressores, dos criminosos, dos ladrões, dos violadores, e não das vítimas. O argumento tantas vezes utilizado “não se pode ver o passado com os olhos de hoje” é disso uma prova. É porque, para “os olhos” das vítimas, serem violadas, mutiladas, torturadas, separadas das suas famílias, escravizadas, assassinadas sempre doeu, sempre foi horrendo, no passado, no presente, como o será no futuro.

E, aqui, estranhamente, o “nem todos” só parece fazer sentido no presente e esquece-se que de facto no passado “nem todos”. Que houve quem resistisse, quem contestasse a barbárie, a desumanidade, a ilegalidade. Penso, entre tantos outros, no abolicionista Henri Gregoire, a quem já recorri e que escrevia em 1808: “Caluniámos os negros, primeiro para ter o direito de escravizá-los, depois para justificar tê-los escravizado.”

Mas este “nem todo ” do passado não convém agora mobilizar, porque isto quereria dizer que sim, era possível já na altura ver com outros olhos. E, se já era possível ver com outros olhos, isso responsabiliza quem participou nestes crimes contra a humanidade. Nestas questões que parecem ter ficado no passado – sendo que aqui estamos a falar de um tempo ainda mais recente do que o 25 de Abril –, o argumento passa a ser “eu não participei nisto”, portanto “não sou responsável”, “não toquem no meu bolso”, caricaturando o que significam as reparações neste contexto, arrogando-se a autoridade para decidir o que se deve lembrar e o que se deve desmemoriar, esquecendo que no presente ainda existem vítimas, assim como beneficiários individuais e coletivos desse passado. E este urso no meio da sala parece ser bem mais difícil de enfrentar do que o da floresta.

sexta-feira, 3 de maio de 2024

Pensamento do Dia

 


A implosão da mentira

Mentem no passado. E no presente
passam a mentira a limpo. E no futuro
mentem novamente.
Mentem fazendo o sol girar
em torno à terra medieval/mente.
Por isto, desta vez, não é Galileu
quem mente,
mas o tribunal que o julga
herege/mente.

Mentem como se Colombo partindo
do Ocidente para o Oriente
pudesse descobrir de mentira
um continente.

Mentem desde Cabral, em calmaria,
viajando pelo avesso,
iludindo a corrente em curso,
transformando a história do país
num acidente de percurso.
Affonso Romano de Sant’Anna, "A implosão da mentira e outros poemas"

De volta aos trogloditas


A cultura do cancelamento nos embruteceu como sociedade
Wilson Gomes

Incertezas da crise brasileira

O que nos espera lá adiante na história social e política? Tudo indica que, em comparação com o que fomos e com as certezas que já tivemos do que poderíamos ser, nosso lá adiante será a confirmação de uma opção preferencial pelo atraso. Uma opção acidental, por ação e omissão, aos trancos e barrancos de uma história política sem a nervura própria de partidos doutrinários. Em que mais teve voz a incompetência e o oportunismo do que a consciência política propriamente dita.

Essa anomalia chegou ao auge no governo de 2019 a 2022, em que o Brasil foi capturado por um êmulo do Chacrinha, que iniciava seus programas de TV com a advertência: “Vim para confundir”, por meio do desmonte do nosso modesto patrimônio de conquistas democráticas.

Alguns episódios dramáticos de nossa história revelam todo seu sentido nesta atualidade de incertezas. Quando começou nossa decadência? Quando começou o fim de nossa confiança em nós mesmos? Um sinal preocupante de nossa ruína é a persistência de um Brasil bipolar, que estreita nossas alternativas sem abrir-nos a possibilidade de superação democrática de nossas limitações.


Em nenhum lugar do mundo o caminho da história é aberto no rumo do passado. Para ser apenas o que já fomos não é necessário andar para trás. Basta ficar onde já estamos bloqueados desde 1964. O nacional-desenvolvimentismo industrialista, do desenvolvimento econômico com desenvolvimento social, foi revogado pelo crescimento econômico com desenvolvimento social meramente residual. Surgiu a categoria ideológica de “exclusão social”, na verdade inclusão social perversa.

No lugar da urbanização crescente, a urbanização patológica das grandes cidades. No lugar da educação desenvolvimentista, a educação superficial e insuficiente da mão de obra de durabilidade limitada e descartável. É isso que dá entregar um país ao mando do neoliberalismo econômico de periferia.

A direita não tem motivos para se preocupar. Para ela, o poder é o sistema de benefícios subjetivos, próprio da desfiguração do que é propriamente o poder político. A reunião do governo Bolsonaro de 22 de abril de 2020 foi deplorável confissão de pouco caso pelo poder, pelo país e pelo povo brasileiro. Mesmo o dos cúmplices e subalternos do mando, civis e militares. Eles sabem que precisam uns dos outros, dos iguais. Aquilo foi o indício desavergonhado da transformação da nossa decadência em espetáculo.

Mas a esquerda não tem motivos para não se preocupar. Sua missão histórica de levar adiante a construção social e política hoje do Brasil de amanhã vem sendo comprometida por sua fragmentação. E por suas vacilações em relação tanto a urgências sociais e políticas de governo quanto a prioridades sociais, econômicas, educacionais.

Sobretudo sua dificuldade para definir uma coalização política de centro-esquerda que revigore a social-democracia como aliada e dê aos diferentes grupos de esquerda um protagonismo real na política social e na democracia. Que oponha a consciência do presente como história à indigência de concepções que oscilam entre a porta do botequim e o gazofilácio de igreja fundamentalista. Nesse movimento, o protagonismo dos verdadeiros cristãos precisa reencontrar a igreja dos profetas e da comunidade, o da expulsão dos vendilhões do templo.

O processo político não substitui nem precede as outras dimensões do processo social: a cultura, a educação, a ciência, a própria economia. A criatividade minguou. O país vacila numa espécie de indiferença de povo que renunciou ao seu destino.

Hoje, “patriota” é basicamente quem está no rol dos que foram capturados na insurgência de 8 de janeiro de 2023 e estão sendo processados como delinquentes políticos e condenados a longas penas. Inconscientes e alienados, acham que estão cumprindo uma missão de Deus, pois tudo sugere que muitos acreditam que foram chamados por ele a um serviço pela pátria.

A esquerda se fragiliza porque capturada pela armadilha do contraponto com a extrema direita militarizada cuja identidade se apoia num imaginário manipulado. Uma direita que, negação da democracia, não demonstra competência como mediação de superação de impasses políticos da sociedade brasileira.

Em boa parte porque a esquerda se fragmentou no que poderia ter sido diversificação das orientações políticas como expressões da diversidade social de uma sociedade que se desagregava e continua se desagregando. Uma esquerda representativa da pluralidade social e ideológica, mas com dificuldades para desenvolver uma consciência de referência de uma coalização possível de oposição ao totalitarismo e de crítica social do autoritarismo de um capitalismo da menos-valia e do prejuízo.