segunda-feira, 4 de março de 2024

Como Israel perdeu a sua 'vitória total' em Gaza

A “vitória total”, ao que parece, é algo como o equivalente israelita ao Santo Graal do Rei Artur. O cálice, sagrado e mágico, com o suposto poder de conceder ao seu detentor força, riqueza, honra e estatuto – e no caso israelita, muitos legisladores da coligação que poderão manter os seus assentos no Knesset – desapareceu.

Todos estão em busca do Graal da vitória – o exército e o governo, os partidos e facções, a direita e a extrema direita, os indiciados e os suspeitos. Eles estão procurando e não conseguiram encontrar. Há pouco mais de cinco meses, parecia estar ao seu alcance, mas a sua estupidez afastou-o.

Isto foi no dia 8 de outubro, um dia após o ataque às comunidades fronteiriças de Gaza (ou talvez na noite de 7 de outubro), quando Israel entrou em guerra, não só com os terroristas do Hamas, mas uma guerra total.

O porta-voz das Forças de Defesa de Israel, um robô falante, relatou naquele dia sobre “milhares de vítimas em Gaza – 426 alvos atacados, túneis, infraestruturas militares, dezenas de edifícios terroristas [nada menos] com 10 andares de altura, e mais e mais. A Força Aérea iniciou nesse mesmo dia a sua campanha de morte e destruição que não teve interrupção até hoje.

Assim, em 36 horas, sem um pingo de preparação e planeamento, sem qualquer ideia sobre qual era o seu propósito ou uma estratégia de saída, Israel embarcou numa guerra selvagem – uma guerra ditada pela bílis, delírios de grandeza, um ego ferido e a sua nudez. expor. Um país são não iria para uma guerra assim. É assim que você conduz um linchamento.

No dia seguinte, 9 de Outubro, o Ministro da Defesa Yoav Gallant anunciou um “bloqueio total” de Gaza – nem água, nem comida, nem eletricidade, nem medicamentos chegariam até lá. Este foi o momento em que nos privamos para sempre da “vitória total”.


Se Israel tivesse demonstrado um mínimo de bom senso, teria contido as suas paixões violentas. Ter-se-ia baseado na moderação demonstrada por Golda Meir após o massacre de Munique, pelo presidente dos EUA, George Bush, após o 11 de Setembro e até mesmo pelos iranianos, que respondem com um lacónico “responderemos no momento e no lugar apropriados” após cada “assassinato” israelita. ” ou outra operação contra eles.

Se tivéssemos agido corretamente, Israel teria se encontrado na sua posição favorita de todos – a vítima, o perseguido, o sofredor, o infeliz. E desta vez, para variar, também teria havido bastante justiça nisso. O mundo inteiro teria sentido a nossa dor e nos inundado de amor. Teríamos sido convidados com prazer para a Eurovisão . O Hamas teria sido considerado um mal absoluto; Israel, o melhor absoluto.

Mas Israel não é dado ao bom senso. Seus instintos levaram a melhor novamente. Era mais importante estimular o ego, distrair todos do desastre, deliciar as massas com uma grande dose de vingança. Não é assim que você alcança a “vitória total”, mas sim como você adquire a marca de Caim.

E à medida que a montanha de cadáveres palestinianos e de casas arruinadas cresce cada vez mais, também cresce a marca de Caim na testa de Israel. E quando atingimos dezenas de milhares de vítimas, mais de metade das quais crianças e mulheres, Israel juntou-se ao clube dos países condenados ao ostracismo, marcados e leprosos, alvo de indignação, protestos e sanções, um país indesejável na sociedade educada.

Hoje, não podemos sequer sonhar com a “vitória total” (na verdade, qualquer vitória) decorrente deste mal ou ainda mais desta estupidez.

E o auge do grotesco é que o “Estado Judeu”, que durante anos se irritou com o silêncio do mundo cruel durante o Holocausto, está agora a exigir em voz alta que o mundo se mantenha quieto e não interfira no nosso trabalho.

Dia infame

A última entrega de alimentos da ONU aos famintos da cidade de Gaza fora no dia 23 de janeiro. Perto de 250 mil civis palestinos vagavam entre as ruínas de suas vidas passadas havia 37 dias e 37 noites. Todo vestígio de comando ou estrutura administrativa havia sido erradicado pelos bombardeios e pela ocupação militar israelense. Mais de 1 milhão de famílias já haviam sido desterradas a fórceps para o sul. Os que permaneceram formavam um amontoado humano em meio ao nada, sem amanhã. O fundo do poço era ali: muitos alimentavam os filhos com ração animal, enquanto cães igualmente errantes se alimentavam de pedaços de carne humana entre destroços.

Foi nessas condições que Gaza chegou às primeiras horas da madrugada de quinta-feira, 29 de fevereiro deste ano bissexto. Dia infame.


Quando 39 caminhões da agência humanitária UNRWA foram percebidos adentrando a principal via litorânea, a notícia rastilhou na escuridão desértica. E o comboio que deveria levar a preciosa carga até o depósito de abastecimento, para distribuição in loco, se viu cercado por massas esfomeadas. Como não saquear?

— Trocamos a alma por um saco de farinha — resumiu o médico palestino Yehia Al Masri no New York Times.

A 250 metros de distância havia dois tanques israelenses; e um pouco mais adiante, uma base avançada das forças de ocupação. Foi das armas desses militares, segundo porta-vozes do próprio comando israelense, que partiram os disparos. Teriam sido “defensivos, só ocorreram porque a multidão se moveu de forma a colocar em perigo os soldados”. Não para o resto do mundo, nem para boa parte de judeus não radicalizados pelo desgoverno Netanyahu. A extinção de vidas que já dura quase cinco meses é consequência do ódio — ódio ao palestino. Palestino terrorista ou palestino civil, de esquerda ou de direita, homem, mulher ou criança, esse estorvo de gente que teima em se dizer palestino nem sequer deveria existir.

Ao final do dia sangrento em que se misturaram mortos a tiros, sufocados na multidão e atropelados pelos caminhões em fuga, restaram indagações cruciais. O comando militar de Israel divulgou imagens de vídeo feitas por drones, sem áudio, em que se percebe claramente haver cortes, edição — dos fragmentos divulgados não constam imagens anteriores ao momento em que as massas humanas se põem a correr para longe dos caminhões. Há pessoas se arrastando no chão, buscando proteção ao abrigo de muros. Fugiam do quê?

A fuzilaria virou gatilho para desencadear cobranças, pedidos de investigação e acusações por parte de aliados históricos de Israel, repentinamente mais impacientes com Netanyahu que os países-irmãos árabes. Por ora, o presidente francês Emmanuel Macron é quem está em situação mais confortável, tem direito a arroubos tonitruantes. Ele é o único chefe de Estado que, desde o final do ano passado, tem um porta-helicópteros anfíbio da Marinha ancorado no litoral de Gaza, atendendo a feridos da invasão israelense. Também são franceses os aviões que despejam sobre Gaza suprimentos que nem sempre chegam a quem mais precisa deles — toda guerra, assim como a paz, tem seus atravessadores. Mas ao menos tentativas são feitas.

Nem isso o governo de Joe Biden tinha coragem de tentar até semana passada. Compreende-se: é de fato incongruente conciliar uma ação humanitária dos Estados Unidos para palestinos, quando estes são estraçalhados por armamentos israelenses financiados por Washington. Por três vezes desde o atentado terrorista do Hamas contra Israel, a embaixadora dos EUA na ONU ergueu o braço para votar no Conselho de Segurança. Por três vezes desde o atentado terrorista do Hamas contra Israel, a embaixadora dos Estados Unidos na ONU ergueu o braço direito para votar no Conselho de Segurança. Nas três vezes ela, Linda Thomas-Greenfield, vetou as diferentes propostas de cessar-fogo em Gaza, começando pela do Brasil. Receberá julgamento da História semelhante ao do ex-secretário de Estado do governo George Bush que forneceu dados falsos à ONU para favorecer a invasão do Iraque pelos americanos em 2003.

Quantos civis palestinos não precisariam ter morrido nestes quatro meses e 27 dias sem cessar-fogo? Quantos mais morrerão de fome, doenças, pisoteados ou a tiros antes que o mundo, envergonhado, force Israel a parar a insânia? Já são perto de 30 mil (e 70 mil feridos), segundo dados do Hamas que até mesmo o governo Biden aceita — mesmo número de soldados ucranianos mortos em dois anos de guerra. Melhor nem pensar por enquanto no que escondem os escombros de Gaza.

P.S.: Recomenda-se aqui um pequeno livro de grande utilidade para abrir mentes desarmadas, interessadas no viver alheio: “Tornar-se Palestina”, de Lina Meruane. Nascida no Chile e residente em Nova York, a escritora de ascendência palestina convida o leitor a acompanhá-la na compreensão do que é ser palestino. Para quem não quer perder tempo com introitos, pode começar a viagem no capítulo II. Será uma viagem civilizatória que não necessita de concordância. Basta ser humano.

Os malabaristas

O convívio intenso e longo com o poder gera poderoso efeito narcotizante. Transforma seres mortais, pessoas simples e humildes, gente com histórias iguais a de seus semelhantes, em “divindades”. A que se deve essa distorção? À armadilha do falso retrato, da autocontemplação, que prende os homens públicos à paisagem de Narciso, aquele que foi condenado pelos deuses a se apaixonar pela própria imagem. Como conta a lenda, ele tomou-se de amores pela imagem quando se contemplava nas águas transparentes de uma fonte. Obcecado pelo reflexo, Narciso não mais se afastava da água, definhando até a morte.


O Brasil está recheado de narcisistas, pessoas fascinadas pelo próprio brilho, um brilho ilusório, porque muitas perderam poder, não o orgulho. Que tipo de mal os narcisistas cometem contra si mesmos e contra a sociedade? O maior dos males é a inação, a inércia, a perda do sentido de realidade. Presos no simulacro do poder, exibem um prestígio falso, que frequentemente conduz ao ócio. Aliás, praestigium, do latim, significa nada mais nada menos que artifício, ilusão, malabarismo. Os malabaristas da política, conscientes ou não, acabam promovendo a mistificação das massas, fazendo-as crer que seu discurso é a ação, o verbo é tão importante como a verba, a palavra é a extensão da verdade. O falatório no oceano da política é intenso. Cada qual com sua onda.

O brasileiro tem predileção pela cultura oral, uma das tradições mais ricas do país. Um passeio pela monumental obra do insuperável Luís da Câmara Cascudo, potiguar boêmio, bonachão e denso, que produziu a mais fecunda obra sobre a cultura popular brasileira, nos propicia abrangente visão. A tradição de oralidade penetrou profundamente nas veias, mentes e corações da representação política, a ponto de se atribuir, por muito tempo, a grandeza dos homens públicos não aos projetos e feitos empreendidos, mas ao domínio do verbo no palanque ou na tribuna parlamentar.

Duas historinhas mostram as faces da peroração tradicional da política. A primeira é a do baiano, embevecido com a retórica complicada, cheia de palavras difíceis de seu candidato, em um comício numa pequena cidade interiorana. Não se cansou de bater palmas, concluindo categórico: “não entendi nada do que o homem falou, mas falou bonito; vai levar meu voto”. A segunda historinha é a do candidato a deputado, que, arrebatado, enérgico, espumando de civismo, discorria sobre o valor da liberdade. Argumentava que um povo livre sabe escolher seus caminhos, seus governantes, eleger os seus representantes, fazer as melhores escolhas. Para entusiasmar a multidão, levou um passarinho numa gaiola, que deveria ser solto no clímax do discurso.

No momento que julgou oportuno, puxou o passarinho da gaiola, e com ele na mão direita, gritou para a massa: “a liberdade é o sonho do homem, o desejo de construir seu espaço, sua vida, com orgulho, sem subserviência, sem opressão; Deus (citar Deus é um recurso muito usado) nos deu a liberdade para fazermos dela o instrumento de nossa dignidade; quero que todos vocês, hoje, aqui e agora, comprometam-se com o ideal do homem livre. Para simbolizar esse compromisso, vamos aplaudir a soltura deste belo canário, que vai ganhar o céu da liberdade”. Ao abrir a mão, viu que esmagara o passarinho, sem perceber a mão contraída. Quanta decepção. A frustração por ter matado o bichinho acabou com a euforia e as vaias substituíram os aplausos. Um desastre. É sempre assim quando não se controla a emoção. O discurso político atira, frequentemente, na razão.

Juntando-se, então, o narcisista e o demagogo, o verborrágico e o reizinho cheio de empáfia, obtém-se a receita do perfil que pretende ser o modelo de representação das massas. É a junção do ruim com o péssimo, de Narciso com Justo Veríssimo, canhestro personagem do saudoso Chico Anísio. Quando essa moldura aparece na parede, a política volta a ser aquilo que Paul Valéry mais temia: “a arte de impedir que as pessoas cuidem do que lhes dizem respeito”. Nesses tempos de redes sociais, de surgimento de novas fontes de poder, de intercomunicação entre os influenciadores da sociedade, urge ter cuidado. O discurso com firulas pode arruinar os atores. Não se engana mais como antigamente; os atores são flagrados quando escondem o lixo debaixo do tapete; ou, ainda, quando a maquiagem expressiva procura disfarçar a deficiência do pensamento.

Criar adornos populistas nas falas de palanques, carregar passarinhos em gaiolas para soltá-los em comícios, enfim, enfeitar o verbo com dribles linguísticos já não puxam a aclamação das multidões. Promessas mirabolantes não entram na cachola do eleitor. Esse é um alerta para o ano eleitoral em curso.

sexta-feira, 1 de março de 2024

Vale a quantidade

Se matamos uma pessoa, somos assassinos. Se matamos milhões de homens, celebram-nos como heróis.
Charles Chaplin

Estratégias de sobrevivência em Gaza

O dia havia amanhecido com a notícia de que o presidente dos EUA, Joe Biden, esperava um cessar-fogo iminente entre Israel e o Hamas, mas a maioria da população na Faixa de Gaza não conseguia pensar em nada além de em preparar algo para comer no café da manhã.

"Antes da guerra, costumávamos comprar pão, agora nós fazemos o nosso", disse a jornalista Aseel Mousa, de 26 anos.

A BBC passou o dia acompanhando a vida de algumas pessoas em Gaza — enquanto vasculhavam os mercados em busca de alimentos, trabalhavam em hospitais superlotados e tentavam manter os filhos entretidos.

Houve períodos em que ficamos sem notícias dos nossos contatos — as mensagens enviadas permaneciam com apenas um tique no WhatsApp, e os telefonemas caiam direto na caixa postal.

O conflito Israel-Hamas eclodiu em 7 de outubro do ano passado, quando homens armados do Hamas se infiltraram no sul de Israel, matando mais de 1,2 mil pessoas e fazendo outras 253 reféns.

Aproximadamente 130 reféns ainda estão sendo mantidos em Gaza — e não é possível falar com eles. Os familiares em Israel ficam à espera, sem qualquer ideia das condições em que estão sendo mantidos.

Pelo menos 29.800 palestinos foram mortos, segundo o Ministério da Saúde de Gaza, administrado pelo Hamas.


5h: Em Rafah, Sami Abu Omar, de 59 anos, acorda cedo depois de uma "noite difícil".

"Qualquer pessoa nesta situação precisa se acostumar a dormir apenas por uma hora a uma hora e meia", diz ele, descrevendo o som dos bombardeios.

Depois de sair da tenda, ele faz uma oração e segue para um centro de distribuição, onde vai servir sopa de lentilha a famílias desalojadas.

7h: Na cidade de Deir al-Balah, a enfermeira Rewaa Mohsen troca as fraldas das duas filhas pequenas. Uma delas nasceu dois dias antes da guerra.

Ela conta que todos os dias agora segue a mesma rotina de tentar sobreviver e cuidar das crianças. Depois de trocar as fraldas, ela prepara o café da manhã.

9h: Também em Deir al-Balah, a estudante de Medicina e médica voluntária Nagham Mezied, de 22 anos, tira uma foto do seu café da manhã.

Ela costumava comer às 6h, mas recentemente vem postergando a refeição para tentar evitar ficar com fome no fim do dia. O prato desta manhã chama-se mankouche — queijo, ervas, pimenta e azeite no pão.

"Isso é tudo que como até de noite, se tivermos sorte de fazer outra refeição, caso contrário, isso é tudo até amanhã."

9h30: O advogado Mosa Aldous caminha por Rafah depois de uma noite agitada em sua tenda. "Estava muito frio", diz ele.

Ele avista longas filas em busca de água e comida, mas sua atenção nesta manhã está voltada a encontrar conexão com a internet.

"Agora estou a dois quilômetros da minha barraca, tentando encontrar sinal, mas ainda está muito fraco. Estou andando devagar, devagar, cada vez mais distante da tenda", afirma.

11h: A jornalista Aseel Mousa também está em Rafah, mas num apartamento. Ela "aproveitou a oportunidade" para trabalhar um pouco pela manhã, depois de descobrir que tinha energia elétrica e conexão com a internet.

Agora, ela está fazendo pão com a mãe. "Pegamos lenha, acendemos o fogo, preparamos a massa, dividimos em porções, deixamos crescer. É isso que estamos fazendo agora. Esse processo leva pelo menos três horas", diz ela.

11h: Por volta mais ou menos do mesmo horário, há uma comoção em Rafah, quando o advogado Mosa Aldous vê ajuda sendo entregue de avião. Uma multidão se reúne na praia.

"De repente, ouvimos um barulho alto no céu, então saímos e vimos grandes aviões lançando paraquedas com ajuda", ele conta.

11h30: De volta ao centro de distribuição de alimentos, Sami Abu Omar avisa que quatro panelas grandes de sopa já foram servidas.

"Hoje está nublado e pode chover em breve. Nossas mães, quando o tempo fica assim, fazem sopa de lentilha, então preparamos também para os desalojados, para que se sintam mais em casa", explica.

12h40: Aseel Mousa e a mãe terminaram de fazer o pão, que comeram com feijão enlatado e ovos.

"Não estava bom, não gosto de comida enlatada, mas é isso que está disponível em Gaza", ela diz.

"Eu costumava comer queijo e torrada de manhã, mas agora esse tipo de comida não está disponível. Então não foi bom. Mas o pão estava perfeito porque eu e minha mãe o preparamos."

No passado, Aseel recorda que pedia para entregar o café da manhã em seu escritório: rolinhos de canela ou outro tipo de doce.

Ela deixou o laptop na casa de um vizinho que tem painéis solares para conseguir carregá-lo. Ela faz isso todos os dias.

14h30: A enfermeira Rewaa Mohsen está tentando manter a filha mais velha entretida.

"Ela tem os primos para brincar. Também tem brinquedos", diz ela por mensagem no WhatsApp. "Tentamos mantê-la ocupada para que não ouça as bombas."

Ela planeja tirar uma soneca em breve com as duas filhas.

14h40: De volta a Rafah, o advogado Mosa Aldous conta que desistiu de tentar encontrar uma conexão de internet. Em uma ligação cortada, ele avisa que está novamente com sua família na tenda. A ligação cai.

15h30: A expectativa de Rewaa de tirar uma soneca não sai conforme o planejado. Ela envia um vídeo da filha com os olhos arregalados olhando para a câmera e adiciona um emoji sorridente.

"Ela recusa o leite engarrafado. Dei um pouco para ela no primeiro mês, e depois disso não estava disponível, por isso ela depende do leite materno", escreveu.

"Minha mãe e minha única irmã foram mortas em novembro, e não tenho ninguém para me ajudar com elas [as filhas]."

16h13: No Hospital dos Mártires de al-Aqsa, onde é voluntária, Nagham Mezied faz uma reflexão sobre as "duras realidades da guerra".

"Transbordando de pessoas desalojadas em busca de abrigo — (o hospital) se tornou um refúgio para aqueles que perderam tudo: suas casas, seus entes queridos, sua sensação de segurança."

Ela diz que as doenças estão se espalhando — e que eles enfrentam escassez de equipamentos e suprimentos básicos.

16h37: Rewaa manda uma foto do seu almoço — frango com pimentão e azeitonas. Ela diz que os ingredientes custaram mais de US$ 40. Vai ser a última refeição que ela vai fazer hoje.

"Somos abençoados por podermos nos dar ao luxo de duas refeições. Algumas pessoas não conseguem pagar por nenhuma", diz ela.

Enquanto alimenta as filhas, ela também pensa em como o aumento dos preços está afetando a vida da família.

A filha mais velha usa as mesmas roupas de quando a guerra começou. E ela se esforça para conseguir pagar pelas fraldas.

17h17: Aseel, a jornalista, relembra como sua vida era antes.

"Antes da guerra, neste horário, eu costumava voltar do trabalho para casa, depois relaxava na cama e conversava com a minha mãe sobre como havia sido meu dia. Agora, não é apenas tédio — é ansiedade e tensão o tempo todo", diz ela por mensagem no WhatsApp.

"Agora vamos preparar o almoço, que vai ser ervilha em lata, porque não tem nada fresco. Na verdade, só comemos comida enlatada."

19h45: A médica voluntária Nagham Mezied terminou seu turno há algumas horas.

Ela sonha em tomar um banho quente "para aliviar o cansaço do dia", mas não tem gás nem água.

Ela se prepara para fazer o jantar — provavelmente grão de bico e fava enlatados — e depois vai dormir.

"O dia em Gaza termina cedo porque não temos internet nem eletricidade -- não temos nada para fazer. Tentamos dormir cedo e descansar um pouco, caso a noite traga bombas e terror."

Em legítima defesa, Israel atira em multidão de palestinos famintos

Palestinos famintos de Gaza foram os culpados pela morte de mais de 100 deles, soube ontem à noite pelo Jornal Nacional. Foi assim, segundo um porta-voz militar do governo de Israel: uma multidão atacou caminhões com comida que davam entrada na Faixa de Gaza, e muitas pessoas acabaram atropeladas, feridas e mortas.

Eram pessoas famintas, que sobrevivem a duras penas comendo cactos e vendo os filhos desnutridos. Em mais de quatro meses de guerra, chegaram a entrar em Gaza cerca de 500 caminhões por dia com comida, água, remédios e combustível. Ultimamente, o número caiu para 50, e há dias que Israel os impede de entrar.

Instalada a confusão, o que o Exército de Israel fez para restabelecer um mínimo de ordem? Primeiro, tanques e drones atiraram para o alto em sinal de advertência. Veja só: não adiantou. Ou porque os palestinos estão com muita fome a ponto de não se assustarem com tiros, ou porque são indisciplinados.

Aí, com todo o cuidado, os soldados de Israel atiraram na direção dos pés dos palestinos, com a preocupação de não provocar uma tragédia, contou o porta-voz do governo de extrema-direita do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Mas, acredite e veja como são os palestinos: continuaram avançando sobre os caminhões.

Quem seria capaz de ignorar os tiros de advertência do mais poderoso Exército do Oriente Médio, primeiro para o alto, depois na direção dos pés sem os quais, ou com eles feridos, qualquer pessoa para de andar e cai? Vai ver que só palestinos são capazes de uma proeza como essa. Foi, porém, o que aconteceu. O que fazer?


Então os soldados de Israel, segundo a versão oficial do governo de Israel, naturalmente sentiram-se ameaçados. Quem não se sentiria? Afinal, o alvo da multidão poderia não ser só os caminhões, mas também os tanques e os soldados que os cercavam. Os drones, não, porque seria impossível derrubá-los, a não ser com armas.

Ali, no cenário do conflito, fora as tropas de Israel, ninguém tinha armas. Essa é uma característica desta guerra: de um lado, um exército armado até os dentes, dispondo das mais modernas armas do arsenal dos Estados Unidos e de países europeus; do outro… Bem, o outro lado não tem Exército, a não ser um grupo de terroristas em fuga.

Se os tiros para o alto, e depois para os pés, não detiveram a multidão, os soldados de Israel atiraram na multidão. Correr o risco de serem mortos por uma multidão desarmada? E se parte dela escondesse armas? Mata-se também com as mãos. Portanto, é o que concluo, foi um ato de legítima defesa dos soldados de Israel, e ponto final.

Ponto final, ainda não, porque o presidente da França, Emmanuel Macron, saiu logo a escrever no X, ex-Twitter:

“Expresso a minha mais veemente condenação destes tiroteios e apelo à verdade, à justiça e ao respeito pelo direito internacional”.

De todo modo, Macron foi prudente. Ele falou em tiroteios, mas não apontou culpados. Até Israel admite que atirou na multidão. Mas, se mais tarde ficar provado que Israel acertou ao atirar? Acertou no sentido de que não lhe restava outra coisa a fazer, não no sentido de acertar nos palestinos? Como se vê, Macron é um estadista.

Joe Biden, presidente dos Estados Unidos, ainda foi mais prudente do que Macron. Agências de notícias informaram de imediato:

“Biden diz que ataque de Israel a palestinos dificulta cessar-fogo”.

Que mais ele poderia ter dito no calor da hora? Momentos antes, seu principal assessor para assuntos militares, em depoimento a uma comissão do Congresso, admitiu a morte de 25 mil mulheres palestinas. A fala dele foi gravada, embora a Casa Branca tenha, mais tarde, tentado corrigi-la, mas sem sucesso.

Israel é o grande porta-aviões dos Estados Unidos no Oriente Médio, afirmou Biden à época em que era senador. Não só por isso, mas também por isso, Israel dita parte da política externa americana. Os Estados Unidos acabam fazendo o que Israel quer. Não há sinais de que isso mudará um dia. A matança em Gaza não cessará tão cedo.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

A raiva que borbulha no mundo contra Israel e os Estados Unidos

Com receio de não se reeleger, Joe Biden, presidente dos Estados Unidos, antecipou, enquanto tomava um sorvete em Nova Iorque, que a guerra Israel x Hamas poderá ser suspensa até o início da próxima semana.

Horas depois, Israel e o Hamas anunciaram que não é bem assim. Disseram a mesma coisa o governo do Catar, mediador de qualquer tipo de acordo, e um porta-voz da Casa Branca.

Biden vive a ser corrigido pelos que o cercam. A idade produz estragos na sua imagem. Outro dia, chamou Vladimir Putin, o presidente russo, de um grande “filho da puta maluco”. A Casa Branca informou que não era isso o que ele quis dizer.

No início da guerra, depois que o Hamas o invadiu, Israel mandou que os palestinos do Norte da Faixa de Gaza se mudassem para o Sul, sob pena de serem bombardeados e mortos. Foram bombardeados mesmo assim.

Metade dos palestinos mudou-se correndo para o Sul. Destruída grande parte do Norte de Gaza, agora Israel manda que os palestinos que se mudaram para o Sul voltem às pressas para o Norte. Por quê?

Porque Israel está pronto para invadir o Sul. Mas por que não invadiu o Sul primeiro? Porque o Sul da Faixa de Gaza sempre foi reduto eleitoral de líderes do governo de extrema direita de Israel, comandado por Benjamin Netanyahu.

Era preciso dar algum tempo para que os colonos israelenses estabelecidos no Sul de Gaza dali pudessem sair, ou proteger-se. Voto não tem preço. Vale mais do que vidas, se for o caso.


Quando Lula diz que Israel comete um genocídio, está certo. Genocídio é a eliminação de um povo, ou a tentativa de. Foi o que fez com os judeus durante a 2ª Guerra Mundial a Alemanha nazista de Hitler.

Lula não usou a expressão Holocausto, mas foi como se tivesse usado. Quem mandou dizer:

“O que está acontecendo na Faixa de Gaza com o povo palestino não existiu em nenhum outro momento histórico. Aliás, existiu. Quando Hitler resolveu matar os judeus”.

O número de palestinos mortos na atual guerra, e até aqui, já ultrapassou a casa dos 30 mil, a maioria mulheres e crianças. Sem contar os mortos soterrados sob escombros de imóveis.

Não entra um caminhão com ajuda humanitária na Faixa de Gaza sem autorização do governo israelense. Em certo período, mais de 500 entravam por dia. Hoje, só 50 ou 60. Dá para nada.

Os caminhões levam comida, água, remédios e combustível. A ONU adverte que o mundo assiste a uma tragédia que não tem data para acabar. Israel diz que não tem mesmo data para a guerra acabar.

Por causa de sua política externa excessivamente pró-Israel, Biden arrisca-se a perder o voto árabe e o voto dos jovens indignados na difícil parada que tem pela frente para derrotar o ensandecido Donald Trump.

Thomas L. Friedman, um dos principais colunistas de opinião do New York Times, o mais importante jornal do mundo, escreve:

“Passei os últimos dias viajando de Nova Delhi para Dubai e Amã e tenho uma mensagem urgente a transmitir ao presidente Biden e ao povo israelense: estou vendo a erosão cada vez mais rápida da posição de Israel entre as nações amigas – um nível de aceitação e legitimidade que foram meticulosamente construídas ao longo de décadas. E se Biden não tomar cuidado, a posição global da América irá despencar juntamente com a de Israel.

Não creio que os israelitas ou a administração Biden compreendam plenamente a raiva que borbulha em todo o mundo, alimentada pelas mortes de tantos milhares de civis palestinos, especialmente crianças, com armas fornecidas pelos Estados Unidos. O Hamas tem muito a responder por essa tragédia humana, mas Israel e os Estados Unidos são vistos agora como impulsionadores dos acontecimentos e recebem a maior parte da culpa”.

Pensamento do Dia

 


O mal-estar da globalização

Quando se trata de guerra — de violência e fúria que fulminam pessoas e formas de vida —, todo comentário é discutível e potencialmente ofensivo. Feita a primeira vítima, fica difícil chegar à última.

Nas razões convocadas pela guerra, quando ela emerge como um sujeito — uma instituição com direitos tão profundos quanto justos e desumanos do agredido ou do agressor —, o conflito armado tem enorme vigor. Isso porque ele chama a promessa de finalização de uma injúria ou etapa histórica. Quem não se lembra daquela guerra que acabaria com todas as guerras?

Se o mundo fica melhor sem judeus, muçulmanos, católicos, puritanos, materialistas, índios... — eu esgotaria um volume com exemplos —, então há o remédio de tomar Jerusalém, exterminar subversivos e catequizar índios e todos os que não são como nós. Se não admitimos o outro como alternativa e classificamos as alternativas como erros, ignorância, pecado, primitivismo, doença ou deformação, legitimamos seu extermínio porque, nesse caso, o aniquilamento é cura, livramento e progresso. Algo, valha-me Deus, que está na base de todo etnocentrismo e dos anacronismos.


Todo conflito desvenda exclusivismos que não podem ser tomados como modelos absolutos. Ao equiparar a reação de Israel ao que o povo judeu sofreu, Lula fez mais do que cometer um engano. Tocou num tabu. O tabu do “povo eleito” sujeito justamente por ser, como anotou a antropóloga Mary Douglas, o “Cordeiro de Deus”, vítima de todas as infâmias. Como ela desvenda, há uma dialética apurada entre pureza e perigo.

Nada é mais dilacerante do que o terrorismo, que na área da comunicação surge como uma diarreia de fake news e lembra a bruxaria dos povos tidos como primitivos. O terror é uma pavorosa metáfora das desmedidas diferenças de riqueza e poder entre povos. Num sentido preciso, o terror é uma expressão extremada do “poder dos fracos”, um tipo de força dos que perderam até mesmo seu espaço de vida, como é o caso das duas guerras que testemunhamos e estão na base do mal-estar globalizado.

O mal-estar atual é mais atroz do que o freudiano. Para Freud, a questão era o embate dos instintos contra o etos civilizatório; ao passo que o nosso resulta do ajustamento entre uma consciência global (que demanda igualdade) e a perspectiva das nações imperiais.

O paradigma pejorativo do “West and the rest” mudou porque o “West” corre o risco de também pertencer a esse “resto” condenado à marginalidade. O global torna mais difícil manter hierarquias geopolíticas. Nosso mal-estar não diz respeito somente a rivalidades entre nações, religiões, línguas e culturas. Hoje, tem como foco uma referência implacável: a Terra.

Um planeta que, se o estilo de vida dos países hegemônicos for globalizado, pode se exaurir ou — mais apavorante que isso — explodir num conflito nuclear deflagrado por algum Doutor Fantástico que já deixou o cinema.

Violência gera violência que só pode ser mitigada pelo bom senso capaz de deter os drones que matam pelo computador sem nenhuma piedade. Antigamente existiam “campos de batalha”. Nos antigos tempos modernos, essas zonas eram as fronteiras entre países que passavam de vizinhos e parceiros a inimigos. As trocas de bens, serviços e palavras realizadas entre fronteiras são substituídas pelos fuzis dos soldados. A Guerra de 1914-18 teve esse perfil e, embora brutal, nela ainda havia um elemento de cruel humanidade, porque os inimigos se enxergavam e viam suas bravuras e temores.

Hoje, estamos perdidos pelo excesso de comunicação e pelos diabólicos poderes da tecnologia aplicada a ganhar poder e dinheiro. Desse tanto falar sem escutar que, já advertia Lévi-Strauss, faz perna com a intriga, o terrorismo e o golpe. Do mesmo modo que o esquecer denuncia a ausência de diálogo consigo mesmo.

Autodestruição assistida

Muitas críticas justas já se fizeram ao capitalismo, de um ponto de vista ético, em sua tendência de produzir pobreza e concentrar riqueza. Mas raramente se fala sobre o capitalismo como um sistema autodestrutivo que, para existir e gozar de boa saúde, tem de estar num processo de crescimento constante: mais empregos, mais trabalho, mais devastação da natureza, mais monóxido de carbono no ar, mais lixo – seis bilhões de quilos de lixo por dia! –, mais exploração dos recursos naturais, mais florestas cortadas, mais poluição dos mananciais… Até quando a frágil bolha suportará?
Rubem Alves

O capitalismo consegue resolver a crise climática?

“Agora o negacionismo climático se tornou uma espécie de tatuagem tribal da extrema direita.” A frase é do jornalista Claudio Angelo, coordenador de política climática do Observatório do Clima, rede com mais de 90 organizações no Brasil com essa agenda. O OC, como a organização é carinhosamente chamada, foi uma das vozes mais críticas à política de desmonte do sistema nacional de meio ambiente promovida nos anos de governo Bolsonaro.

A metáfora de Angelo pode ser transposta a três inquietações contemporâneas. A primeira diz que os sacrifícios exigidos pela descarbonização da economia abrirão oportunidades e novos empregos, mas também deixarão gente sem renda e perspectiva, e, por isso mesmo, pesam nas urnas.

A pauta verde não costuma eleger políticos. A crise climática é complexa e difícil de comunicar. Enfrenta discursos negacionistas sem compromisso com a verdade e de gente que habita Terras planas. “Não é simples um político se levantar para essas questões. Esses temas, de fato, não dão muita visibilidade e muitos estão apanhando por conta de hastear bandeiras de diversidade, inclusão e meio ambiente”, concorda Carlo Pereira, CEO do Pacto Global da ONU no Brasil.


Na sua visão, contudo, trata-se de um dos vários espinhos da transição e, como tal, vai transmutar. “Há uma questão geracional muito forte, e entendo que este é o último fôlego de um conservadorismo para muitos destes temas.”

Pereira constata que, ao que parece, o Acordo de Livre-Comércio UE-Mercosul “acabou de ser implodido, muito devido aos agricultores europeus. Estamos em uma fase forte de protecionismo dos países, pela crise e inflação”, reforça. A mudança é difícil de acontecer quando eleitores sentem que suas necessidades básicas estão sendo, em alguma medida, ameaçadas. “Vimos o adiamento de algumas legislações. É de fato um momento sensível.”

No início de fevereiro a União Europeia derrubou metas ambientais mais ambiciosas. A Comissão Europeia, braço executivo do bloco, recuou para atender a protestos de agricultores disseminados pelo continente no início do ano, com longos comboios de tratores circulando pelas capitais europeias.

Assim foi deixado de lado, ao menos provisoriamente, o plano para reduzir pela metade a utilização de agrotóxicos em 2030. “Tornou-se um símbolo da polarização”, reconheceu Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia. “Nossos agricultores merecem ser ouvidos”, reforçou. “Muitos se sentem encurralados em um canto”. No mesmo dia também foi descartada a meta recomendada para cortar emissões agrícolas de gases-estufa. Ursula von der Leyen reconheceu que a agricultura europeia tem que transitar para um modelo mais sustentável de produção. Fez uma autocrítica: “Talvez não tenhamos defendido esse ponto de vista de forma convincente”.

A retirada desses dois pontos da pauta tinha endereço e data: a eleição do Parlamento Europeu, em junho. Pesquisas de opinião indicam que a extrema direita pode conquistar muitos assentos e se tornar uma força política importante em grandes economias do bloco. A eleição presidencial de novembro nos Estados Unidos tem o republicano Donald Trump, que retirou os EUA do Acordo de Paris, como nome forte. Em 2024, pelo menos quatro bilhões de pessoas em mais de 40 países irão eleger líderes - é o ano eleitoral mais importante do século, porque ocorre em um momento crucial para o mundo enfrentar a crise climática. “ Com eventos climáticos cada vez mais extremos e frequentes, não há como a população não perceber que, cada vez mais, os eventos afetam sua própria existência. Isso irá se reverter como uma demanda à classe política”, diz Pereira. É como se diz: a mudança virá, pelo amor ou pela dor.

A frase do início da coluna toca em uma segunda preocupação global, a que o multilateralismo anda a passos lentos enquanto a crise climática cresce exponencialmente. O mundo se compromete a distanciar dos combustíveis fósseis - a grande mensagem da COP28, a conferência do clima da ONU que aconteceu em Dubai, em dezembro -, depois de 31 anos de regime climático internacional. A promessa é feita sem prazos, arrancada nos malabarismos da linguagem diplomática, enquanto empresas de petróleo planejam abrir novas frentes de exploração.

O terceiro ponto é menos pragmático: o capitalismo consegue responder à crise do clima? A reunião dos ministros de finanças do G20 nesta semana, em São Paulo, procura encontrar soluções e direcionar fluxos financeiros para alvos menos danosos ao ambiente.

O mundo, contudo, segue mais desigual do que nunca e são os mais pobres quem mais sofrem com a crise climática. Em 2023, os investimentos mundiais em descarbonização somaram US$ 1,3 trilhão, mas só 6% desse valor foi destinado à América Latina, disse Mark Carney, enviado especial da ONU para Ambições Climáticas e Soluções durante a primeira edição do Fórum Brasileiro de Finanças Climáticas, em São Paulo. O grande volume de recursos foi investido na China, nos EUA e na União Europeia. O dinheiro que promove a nova economia global é gasto em países ricos ou na maior (e muito atenta) potência emergente do mundo.

Gente ignorante ganha eleição

É quase irresistível não fazer piada sobre os participantes da manifestação convocada por Jair Bolsonaro. Tudo tão caricato, mas o que vimos é mais alarmante do que cômico. Em público, integrantes do governo Lula ironizaram, enquanto o presidente reconheceu que foi "grande". Pelo menos temos um adulto na presidência.

Tanto faz se foram 185 ou 700 mil, era gente para dedéu na rua, sem falar de lives que reuniram mais de 200 mil pessoas e da mobilização nas redes, na quantidade de artigos, muitos desmerecendo o significado do ato, além dos que se lambuzaram em etarismo, racismo e elitismo. Por mais engraçado que seja, as senhoras que entoam Geraldo Vandré devem acreditar que lutam pela democracia e talvez estejam dispostas a pegar em armas para defendê-la da ditadura em que acreditam viver. O nível de dissonância cognitiva é grande, mas produzir meme não dissolve essa massa antidemocrática.

Tratar o bolsonarismo como um movimento de elite em 2024 é puro elitismo. Mais fácil personificar a extrema-direita como a velha loira botocada do que reconhecer que Bolsonaro conquistou o voto de gente preta e pobre, que deu as caras na Paulista. Tratá-los como coadjuvantes, numa manifestação em que os endinheirados só participaram porque não querem voltar a dividir o avião com os menos afortunados, é classismo. É enxergá-los apenas como massa de manobra e não como cidadãos atuantes na política. O Brasil é conservador e se encontra muito mais nas bandeiras autoritárias do bolsonarismo do que nas pautas de gente que desfila sua Birken em Santa Cecília.

Não sei se a esquerda morreu como esquerda, como afirma o filósofo Vladimir Saflate, mas anda muito distraída e ensimesmada com o fato de ter voltado ao poder, sem reconhecer que venceu uma eleição dificílima e que talvez o verdadeiro segundo turno seja o de 2026. Como vimos em 2018, gente ignorante e caricata ganha eleição.

sábado, 24 de fevereiro de 2024

Pensamento do Dia

 


'Orgulho' de sangue

Cemitério de Gaza em ruínas pelos tanques israelenses
Estou pessoalmente orgulhosa das ruínas em Gaza. Que daqui a 80 anos todos os bebês possam contar aos seus netos o que os judeus fizeram quando assassinaram suas famílias, os estupraram e sequestraram seus cidadãos!
May Golan, ministra da Igualdade Social de Israel


Vidas interrompidas

Roberto Bolaño publicou um estranho livro (A literatura nazista na América, Companhia das Letras), que não é “sobre” literatura (é “pura” literatura), não versa sobre nazismo (é bem mais complexo que isso), não trata somente de tipos literários – naquele sentido do típico de György Lukács – mas de situações análogas ao conservadorismo e ao nazifascismo, com escritores imaginários e títulos inventados. O livro é, de certa forma, uma metáfora dos nossos tempos de fascismo, manipulação ideológica e de cansaço da democracia liberal, provocado pelo domínio das redes com os monstros que ressurgem no fim das utopias.

Eis alguns de Roberto Bolaño: Luz Mendiluce, que “afundada no desespero tem aventuras com personagens portenhos da pior espécie”, publica um corajoso poema “Com Hitler fui Feliz”; o escritor brasileiro (inventado) Amado Couto, que escrevia contos “que nenhuma editora aceitava, depois foi trabalhar nos esquadrões da morte”; a incrível poetisa Daniela Montecristo, que descreve um IV Reich feminino com sede em Buenos Aires e campos de treinamento na Patagônia, que desfilam inverossímeis, mas críveis, quando desperta na nossa memória.


Quando a realidade é dura demais os sonhos fenecem, as utopias cansam. As paisagens se tornam só molduras de recuperação da história que não se revela. A realidade – dura demais – é um tormento que ora se torna uma reportagem insensata do espírito, ora uma obra de arte pendente de uma cumplicidade do leitor com o autor. Estes às vezes não se conectam, pois compõem um elo idêntico ao que viceja entre um comprador atônito pelos preços e um vendedor desesperado por uma saída na sua vida sem rumo.

Certa vez um amigo aleatório me disse que o fascismo, no plano da pura subjetividade, era o tormento que conjugava bilhões de irritações que paulatinamente corroíam o espírito humano e instalavam uma espécie de antivírus, que imunizava as pessoas, tanto para receberem, como para darem solidariedade e empatia. Javier Milei e Benjamin Netanyahu, propagadores desse antivírus, são neoliberais, populistas e violentos, dotados de um ódio extremo ao humanismo das Luzes.

Basta lembrar – por exemplo – que Javier Milei é contra a educação pública gratuita e que não se importa de, não só semear a pobreza e a ignorância, mas também de matar as pessoas de fome, para salvar o “mercado” e o “ajuste”. Basta lembrar também que Benjamin Netanyahu afirmou, com todas as letras, que “Hitler não pretendia matar os judeus” e também se comprometeu de fazer (e faz) uma chacina em Gaza e que – compromisso cumprido – vai ser lembrada por muitas gerações.

Além disso, Benjamin Netanyahu usou, demagogicamente, o Museu do Holocausto para tentar exercer o monopólio da dor de todo um povo, num gesto especial de provocação extremista, visando encobrir – na atenção da imprensa mundial – os crimes de guerra que vem cometendo contra a comunidade Palestina em Gaza. E mais: o fez querendo dizer que Lula não se importava com a barbárie do Holocausto. Mentiroso, fascista e manipulador.

Alega a chancelaria israelense que as expressões usadas por Lula para se referir ao Holocausto ofenderam a sensibilidade judaica no mundo inteiro, o que pode ser verdade, mas como as palavras podem ser interpretadas por dentro das dores adquiridas na história de quem disse – como Benjamin Netanyhau – que Hitler “não queria matar os judeus”, deveria, ser mais comedido para respeitar o luto coletivo de Gaza e as dores do seu próprio povo.

Os assassinatos da ação terrorista de 7 de outubro contra Israel seriam – para a direita israelense – a motivação dos assassinatos em massa na Faixa de Gaza, mas o que pretende a violência desmedida do Estado de Israel é a legitimação da expansão colonial-imperial, que se sucedeu – processualmente – após os Acordos de Oslo “sob os olhos do ocidente.”

A tese de Enzo Traverso em “Las nuevas caras de la derecha” (Clave Intelectual, Siglo Veinteuno, p. 33) sustenta que classificar alguém como “populista” diz mais a respeito a quem utiliza o conceito do que aquele que é imputado como tal. É que a palavra se tornou uma “casca vazia”, mais propriamente uma gigantesca “máscara” de manipulação política e de exercício de dominação mental.

A categoria política populismo, diz Enzo Traverso, passou a ser uma arma de combate político que é apontada para estigmatizar aversários. Dizer que alguém é populista é o mesmo que dizer que esta pessoa não pode desvendar o conceito que está por trás do massacre social do neoliberalismo. Já foram classificados como populistas, Nicolas Sarkozy, Lula, Bernie Sanders, Hugo Chavez, os Kirchner, Donald Trump, Matteo Salvini, Melanchón, Evo Morales e Jair Bolsonaro, o que no fundo – prossegue Enzo Traverso – indica que, mais além da “elasticidade e ambiguidade”, o conceito que é usado sem nenhum critério deve ser atentado – em especial – para o sentido do seu uso.

Já é muito evidente que quem usa a “ofensa” contida na palavra “populismo” pretende, preliminarmente, dizer o seguinte, independentemente de quem for o adverso: estou longe da social-democracia, acho o Estado Social uma besteira e o humanismo democrático – que pode verter, ou não, por dentro de uma política populista – não pode ser respeitado como “política pública”. O anátema do populismo funciona então como um esconderijo de quem não quer ou não sabe que ele já se tornou uma barreira oportunista da ignorância.

Observemos como os comentaristas neoliberais da grande imprensa fazem este jogo, que requer, ao mesmo, tempo aproximação e distanciamento de figuras de centro como o Lula, e toleram – muitos deles – também Jair Bolsonaro como um ex-chefe de Estado que errou, mas quis o bem do país. Observem que eles não aceitam chamar Benjamin Netanyahu de criminoso de guerra ou de “assassino em série”, ou de populista sanguinário operando na política internacional do globalismo militarizado.

Mas existe uma máscara elementar da razão para o mercado, que está na base deste comportamento atrabiliário dos que usam o populismo por dentro do rastro do ódio do fascismo militante. Aldous Huxley afirmava que “a máscara é a essência” como “casca vazia” como desinformação ou como atestado de preguiça mental que dispensa fundamentação: quem usa a palavra populismo contra outrem – pensam os seus usuários – apenas defende a modernidade e a “liberdade” e quem sofre “acusação”, está excluído de ser ouvido sobre o futuro.

Uso a palavra populismo, neste texto, para emitir juízos sobre quem – para atacar adversários ou inimigos – manipula palavras, recursos e situações históricas, para conquistar de forma irracional as mentes do seu povo, visando exercer o poder pela guerra em nome da falsificação da nação.

O uso das palavras ou a sua supressão, num debate de grande envergadura moral e política, como na recente polêmica sobre as palavras de Lula sobre os crimes de guerra que estão sendo cometidos pelo governo de Israel – em nome de seu Estado – não fez em nenhum momento que Benjamin Netanyahu fosse apontado como um perigoso assassino em série, nem como um chefe de Estado populista que preza a guerra, não a paz.

William Faulkner estava vivendo em Nova Orleans quando conheceu Sherwood Anderson (1876-1871), que foi trabalhador braçal – militar que entrou em guerra – funcionário de editoras e depois de agências de publicidade, que se tornou um dos grandes mestres do conto americano. Romancista e poeta, foi paradigma de toda uma geração de escritores que se projetaram na literatura americana do Século XX.

Nas ruas em longas caminhadas, o escritor “maduro” que era Sherwood Anderson, sem o saber conversava com quem seria uma figura exponencial da literatura mundial e que iria se tornar um escritor mais imponente do que Anderson: este escrevia duramente pela manhã para depois conversar, caminhar e beber, com o então obscuro William Faulkner. As caminhadas um dia cessaram, o que gerou um episódio magno do acaso e da ironia, já contado como paródia do nascimento de um romancista.

Um dia Sherwood passa pela residência de Faulkner – que se ausentara há alguns dias dos passeios conjuntos – para perguntar por que ele, William Faulkner, desaparecera, quando ouviu dele uma resposta inesperada: “Estou escrevendo um livro”. “Meu Deus!“ – disse Sherwood Anderson e foi embora. A Sra. Anderson alguns dias depois encontra Faulkner na rua e lhe dá um recado, sobre o dito livro (Soldier’s Pay) – em produção: “ele disse que se não tiver que ler o manuscrito dirá ao seu editor para aceitá-lo”. “Feito!”, disse o futuro Prêmio Nobel de Literatura, que assim se assumiu como escritor profissional. Vida e imaginação.

“A vida desprovida de imaginação não oferece histórias para contar” (…), sem ela os tempos difíceis não encontram as palavras capazes de despertá-los do passado sonolento”, escreve Maria Rita Kehl, apresentando um belo livro de contos e memórias de Flávio Aguiar (Crônicas do mundo ao revés, Boitempo). Num dos melhores momentos da obra o personagem, como se fosse o autor conversa com um vendedor em Abidjan, na Costa do Marfim, que quer lhe vender algo. Surpresa.

Não se trata, como parecia, de uma ampola de vidro e um caco de espelho, mas do que residia na intimidade destes objetos: uma história de amor e de destino, que acompanhava o “caco” e a “ampola” que se instalariam no canal da memória do escritor, prometendo um pequeno vínculo com a história.

Nestes fragmentos da história não estão os vírus do fascismo, nem o fim da imaginação. Não são fragmentos, como as falas de Benjamin Netanyahu, que geram os ódios às utopias e desatam as tormentas do mal. Estas não estão no livro de Roberto Bolaño ou nas conversas simples entre William Faulkner e Sherwood Anderson. Não estão no fim da história, mas no tecido do seu recomeço permanente, que vai mais além das armas e dos ritos assassinos do poder dos que – viciados em guerras e mentiras – querem normalizar as vidas interrompidas.

Como disse William Faulkner, quando recebeu o Prêmio Nobel em 10 de novembro de 1950: “Considero que o homem não só haverá de resistir, mas também de prevalecer. E é imortal não por ser o único entre os animais que está dotado de uma voz inextinguível, mas pelo fato de possuir uma alma, um espírito capaz de compaixão sacrifício e resistência”. Neste momento é onde está Lula contra a guerra de extermínio e pela compaixão de William Faulkner.

Lula e Netanyahu

Matéria no Jornal “The Guardian” cita que, em 1982, depois de assistir cenas do bombardeio de Beirute, o presidente Ronald Reagan, dos Estados Unidos, ligou para o primeiro-ministro Menachem Begin, de Israel, e disse: “Isto é um Holocausto”. Duas horas depois, segundo o jornal, o bombardeio estava suspenso. Do ponto de vista histórico, Reagan, tanto quanto Lula, podem ter exagerado na dose, não na essência política.

Há quatro meses, o governo de Benjamin Netanyahu despreza estatísticas e imagens que mostram a mortalidade e a destruição em Gaza. Arrogantemente ignoraria fala do Lula repetindo a condenação ao Hamas e alertando para a tragedia humanitária dos constantes bombardeios, invasão e assassinatos de civis, crianças, mulheres.

Ao forçar a dose, por descuido linguístico ou por cálculo político, Lula conseguiu incomodar o governo Netanyahu, chamar a atenção para o fato de que a brutalidade militar pode ser comparada a gestos cometidos pelos nazistas. O presidente acertaria plenamente se comparasse o tratamento aos palestinos em Gaza com o tratamento dado nos guetos aos judeus pelos nazistas. Mas esta comparação não incomodaria ao governo de Israel. Foi ao criticar de forma tão enfática que Lula conseguiu abalar a arrogância e a prepotência desumana do senhor Netanyahu.


Como político, Lula explicitou mais uma vez sua repulsa ao terrorismo do Hamas, e carimbou enfaticamente o que o atual governo de Israel está promovendo sobre a população de Gaza. Na essência, chamou atenção ao fato de que os métodos usados pelo governo Netanyahu para impor sofrimento imposto ao povo palestino tem semelhança com alguns usados pelos nazistas contra o povo judeu.

O que é feito em Gaza não deve ser comparado filosófica e historicamente com a totalidade do holocausto, mas pode ser comparado politicamente com operações do nazismo, tal como seus guetos contra judeus e o bombardeio contra todos os habitantes de Lídice, na Tchecoslováquia. Lula não negou o holocausto, não acusou o povo de Israel, apenas comparou os atos de Netanyahu, cujo governo foi salvo pelo Hamas, com atos do nazismo. Nisto ele não errou. Seria um erro responsabilizar Israel, ainda mais aos judeus, como também seria errado responsabilizar aos alemães pelos crimes de Hitler, ou aos brasileiros pelos crimes dos ditadores. Os crimes de Hitler foram de Hitler, os de Netanyahu são de Netanyahu. Por isto, tratar o Lula e todos que o apoiam neste momento como antissemita é uma manipulação.

A declaração do presidente Lula citando o holocausto deveria servir de alerta aos que justificam a morte de milhares de crianças, a fome, o desespero. Por pior que sejam os gestos israelenses em Gaza, nada deve nos fazer cair no antissemitismo, da mesma maneira que por pior que fossem os gestos terroristas palestinos em Israel, nada deve justificar o massacre do povo em Gaza, executado por um governo que não teria sobrevivido sem o brutal ato terrorista do Hamas, matando e sequestrando. Lula verbalizou isto ao denunciar o terrorismo do Hamas e o barbarismo não menor do governo de Israel usando e degradando a imagem moral e a credibilidade técnica das Forças Armadas de Israel, tão admiradas no passado.

A corajosa declaração de Lula deixa-o ao lado dos humanistas contra a desumanidade. Mais sintonizado com os grandes pensadores judeus, do que estão os fundamentalistas do atual governo de Israel.

No futuro, quando forem escritos livros e feitos documentários cinematográficos sobre esta guerra, a fala de Lula prevalecerá como a voz que não silenciou e incomodou Netanyahu, ao usar palavra forte para despertar aqueles que a arrogância cegou e ensurdeceu. Lula, fez o mesmo que Reagan 40 anos atrás, pena que o Brasil não tem a força dos Estados Unidos, nem o governo Netanyahu a solidez do governo Begin. Sua fala não tem a força para parar a guerra, mas dará uma contribuição para isto, ao ter abalado a arrogância fria e desumana do governo de Israel.

Lula ficará na história como quem estava do lado certo, Netanyahu como quem estava do lado errado por ter traído a história do pensamento humanista dos judeus e permitido que o mundo, não apenas o presidente Lula, compare seus gestos com gestos do maldito governo nazista.

Políticas para jovens são urgentes

Tem sido muito raro construir consensos no sistema político brasileiro atual. As relações entre o Executivo e o Legislativo se tornaram mais complicadas desde o segundo governo Dilma, os congressistas estão em constante embate com o STF e a sociedade está fortemente polarizada. Mesmo assim, em determinados temas o conflito dá lugar à cooperação. Esse é o caso da aprovação da poupança para alunos mais pobres do ensino médio público.

Intitulado Pé de Meia, é um programa fundamental para um grupo essencial para o presente e o futuro do país: a juventude. Trata-se de uma excelente notícia, mas ao mesmo tempo revela uma carência perigosa de ações à população mais jovem.

Não faltam prioridades num país tão complexo e desigual como o Brasil. Mas há temáticas que deveriam merecer mais atenção por conta de quatro fatores. O primeiro diz respeito ao número de pessoas de um determinado grupo que estão numa situação social complicada.

Além disso, deve-se levar em consideração o impacto sistêmico desse problema. Isto é, os vários males causados pela não resolução de determinada questão. Um terceiro ponto também é central: como este tema faz a ponte entre o presente e o futuro do país? Por fim, um aspecto prioritário é aquele que pode modificar a forma de se ver e conduzir a política, gerando um efeito bola de neve na agenda pública.

Segundo dados do IBGE, o número de jovens de 15 a 29 anos que nem estuda nem trabalha é de quase 11 milhões, totalizando cerca de 22% desse grupo populacional (mais de um quinto da população jovem). Num estudo recente da OCDE, o Brasil era o segundo país com mais jovens nem-nem entre 37 nações analisadas. A situação é muito ruim em ambos os gêneros, mas a maior parte dos nem-nem é composta por mulheres e, do ponto de vista social, pelo contingente mais pobre da população.


Esse retrato já é suficiente para apontar o tamanho do problema da juventude brasileira. É verdade que já foi pior, e a melhora teve a ver, nas últimas décadas, com a maior inclusão de jovens no sistema educacional. Mesmo assim, cerca de 35% dos jovens de 15 a 18 anos estão fora da escola, sendo o principal momento da evasão escolar brasileira.

Por que os jovens abandonam a escola? Por que essa faixa etária é aquela com as maiores taxas de desemprego e informalidade? Essas perguntas deveriam ser urgentemente enfrentadas, pois o efeito sistêmico desse problema é muito danoso à sociedade. Mais jovens fora da escola e do trabalho significa aumentar a mão de obra disponível à criminalidade - e o crescimento estrondoso do crime organizado nas últimas décadas tem muito a ver com as fragilidades da política para a população juvenil.

Bom que se diga que a juventude sofre aqui nas duas pontas do problema: ela é sujeito e também objeto da violência social, com grande número de homicídios de jovens, especialmente os mais pobres, periféricos e negros. Ouvir as músicas dos Racionais é entender como esse duplo processo perverso afetou a juventude da periferia paulistana, de onde vim.

Ter mais jovens sem perspectiva na sociedade afeta a produtividade presente e, principalmente, futura da economia brasileira. Uma boa parte desse grupo está em posições precárias, com destaque importante para a ocupação de postos na economia uberizada dos aplicativos de entrega e/ou transporte. Qual possibilidade de aprimoramento de habilidades e competências laborais mais amplas terá essa parcela da população? Qual será seu futuro, ou mesmo presente, em termos de proteção social?

Uma juventude com pouca experiência coletiva em escolas ou no trabalho tende, ainda, a ter um processo mais precário de formação de consciência cidadã. Soluções mágicas, quando não violentas, podem se tornar o mantra político dessa faixa etária. O populismo de extrema direita agradece.

Esse alijamento social facilita igualmente a criação de uma geração de homens com autoestima prejudicada, talvez mais tendente a mover-se pelo ressentimento em sua visão de mundo, ao passo que um contingente expressivo de mulheres seguirá mais o caminho perverso da mãe solo abandonada, grande chaga da sociedade brasileira, com poucas chances de mobilidade social. Eis aqui um combustível para famílias se tornarem mais instáveis e com forte potencial de se produzir violência doméstica, majoritariamente voltada contra o gênero feminino.

É grande a lista de efeitos sistêmicos derivados do fato de se ter uma ampla parcela da juventude desassistida por políticas públicas efetivas. O resultado disso não afeta apenas o presente do país. O Brasil sempre acreditou na máxima de que seríamos a nação do futuro.

Isso só é possível se crianças e jovens forem prioridade, algo que só começou a acontecer em grande escala na história brasileira a partir da Constituição de 1988 e da expansão subsequente do Estado de bem-estar social nos períodos FHC e Lula, com avanços inegáveis, mas que ainda são claramente insuficientes frente às nossas necessidades.

O maior exemplo disso é que se abriu nas últimas décadas uma janela demográfica que permitiria maior produção de riqueza. Parte dessa oportunidade foi concretizada, só que o país aproveitou, por ora, muitíssimo menos essa fortuna sociológica do que poderia. Em boa medida porque investiu pouco e de forma ineficiente na formação e qualidade de vida da população jovem.

Desse modo, aquilo que era um bônus pode se transformar naquilo que o economista Marcelo Neri tem chamado de “ônus demográfico”, um modo sutil de definir a quebra da ponte entre o presente e o futuro.

Produzir boas políticas públicas para a juventude, ademais, pode ser uma boa forma de se mudar a qualidade do debate político. É possível acompanhar as ações e resultados de programas voltados aos mais jovens, aferindo com certa rapidez o sucesso, fracasso, problemas e aprendizados nesse processo. Assim, a discussão deixa de ser orientada basicamente por argumentos ideológicos quase sempre referenciados a grupos insulados, aumentando as chances de ser uma contenda mais aberta a opiniões baseadas em evidências, com maior probabilidade inclusive de haver convencimentos e consensos entre setores diferentes da sociedade.

Além disso, discutir o presente e o futuro dos mais jovens por meio de diagnósticos e prognósticos claros é muito mais proveitoso para o país do que gastar um enorme tempo com querelas sobre valores pessoais, uma vez que o debate sobre estes últimos é quase nada efetivo na transformação da realidade social e econômica brasileira. Também vale ressaltar que o tema da juventude, pensado pelo ângulo das políticas públicas, tende a dividir menos os grupos políticos do que as grandes questões econômicas ou de cunho moral.

Colocar a juventude no centro do debate público é uma forma de envolvê-la e transformá-la. Na atual situação de carência e pouca perspectiva de melhora futura, o risco dela se alienar da participação ou de amarrar-se a posições populistas de extrema direita é muito factível e perigoso. Uma geração de jovens que vira prioridade e que se torna sujeito desse projeto transformador é uma receita importante para alterar a política presente e vindoura, gerando líderes que apontem a possibilidade de renovação do país.

A aprovação do programa Pé de Meia foi um jogo de soma positiva que envolveu múltiplos atores. Méritos devem ser divididos pelos presidentes da Câmara e do Senado, pelo ministro da Educação, pela deputada Tabata Amaral e pela ministra Simone Tebet (mães dessa ideia há algum tempo), pela racionalidade adotada pela oposição - majoritariamente bolsonarista - e pela liderança do presidente Lula, que abraçou o projeto.

Mas isso deveria ser só o começo de um processo que deve se orientar, primeiro, por uma perspectiva intersetorial e de longo prazo, dado que a melhoria das condições juvenis vai além da questão educacional, passando por temas como esporte, cultura, saúde, segurança pública e orientação para o trabalho - e aqui a educação profissional deveria ser uma prioridade máxima.

O segundo passo é adotar uma governança colaborativa das políticas para a juventude, congregando os entes federativos e atores sociais - como ONGs, igrejas, empresas etc. - porque nenhuma mudança de larga escala será realizada sem esforços amplos e conjuntos.

Terminando esse ciclo virtuoso, é necessário ter um modelo muito bem definido de implementação de políticas públicas, incluindo aí formas contínuas de avaliação e aprendizado, bem como a consulta regular dos jovens e suas famílias.

Em geral, os governos funcionam mais pela lógica setorial do que pela organização sistêmica de um problema. Uma forma efetiva de mudar a realidade - embora não seja a única e nem contrária às áreas de políticas públicas - é organizar a ação estatal por grupos sociais. Políticas para idosos, pessoas com deficiência e para mulheres, por exemplo, são essenciais e têm avançado, gradativamente, no Brasil. Porém, no campo da juventude os avanços foram muito menores em termos de organicidade e coordenação da enorme fragmentação de programas.

É urgente que tenhamos um plano integrado com uma definição de uma governança colaborativa e de longo prazo para os jovens brasileiros, antes que eles envelheçam mais pobres e vulneráveis ou morram pelo meio do caminho. Perder essa oportunidade agora é reduzir nossa estatura política e moral como construtores de um futuro melhor aos nossos filhos e netos.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

Apoiamos as declarações do presidente Lula e repudiamos as ofensas sionistas

Dando um passo além nas contínuas denúncias dos crimes cometidos por Israel contra os palestinos, o presidente Lula causou furor ao fazer uma comparação entre o que ocorre hoje em Gaza e o que Hitler fez com os judeus durante o nazismo.

A comparação entre genocídios é sempre delicada pois a experiência vivenciada por cada povo afetado é inigualável. Cada um representa uma narrativa singular e dolorosa na história das comunidades vitimadas. Logo, não há como estabelecer qualquer hierarquia entre genocídios. É impossível estabelecer uma métrica objetiva para determinar o 'pior' genocídio da história. Categorizar historicamente vítimas maiores ou menores é uma perigosa armadilha de reprodução de racismo.

A contradição de o povo judaico ser ora vítima e agora algoz é palpável, tenebrosa e desalentadora. Lula externou o que está no imaginário de muitos de nós. Uma comparação que causa muita dor a judias e judeus de todo mundo, que tiveram as suas vidas cindidas pelo genocídio dos judeus na Europa, e agora veem um crime similar sendo cometido, supostamente em seu nome. Enquanto coletivo de judias e judeus, temos antepassados que foram vítimas do Holocausto nazista, e entendemos que nosso imperativo ético é nos posicionarmos contra o genocídio do povo palestino e contra a utilização da nossa defesa como justificativa.

Se a criação e fundação de um Estado judaico foi uma medida de sobrevivência num mundo sitiado, ela logo se tornou um pesadelo. O Estado de Israel não trouxe emancipação verdadeira aos judeus pois a sua existência é mantida às custas da negação da autodeterminação dos palestinos. As lideranças israelenses seguem promovendo um massacre contra palestinos e ainda ameaçam a vida de judeus e judias em todo o mundo. Israel representa hoje a maior fonte de insegurança para todos os judeus do planeta ao usar nossa identidade como fachada e justificativa para sua campanha de terror.

Por isso, defendemos e acreditamos que as palavras de Lula são de grande importância pois levantam questões relacionadas à urgência da ação, como um chamado definitivo dirigido a todos para agir diante do que ocorre em Gaza neste momento. Frente à incapacidade da ONU e de várias organizações internacionais em conter a violência perpetrada por Israel em Gaza, destaca-se a importância vital da postura demonstrada por líderes internacionais como Lula, que levantam suas vozes contra o que é já considerado por incontáveis especialistas como um genocídio contra o povo palestino.

As palavras têm poder. Se a forma como Lula se expressou na ocasião foi pouco cuidadosa – tropeçando justamente neste ninho de comparações forçadas – sua fala tem o objetivo de atingir a imaginação e provocar uma crise moral sobre Israel. O pedido de impeachment protocolado pelos deputados bolsonaristas é uma medida descabida, assim como as acusações de antissemitismo – cujo real objetivo é deslegitimar o governo e a diplomacia brasileira. Não acreditamos que judeus brasileiros estão em risco por causa de sua declaração.

Apoiamos as colocações do presidente Lula e cobramos que a radicalidade de suas palavras seja colocada em prática. Seria um gesto diplomático de relevância gigantesca romper todas as relações entre o estado brasileiro e Israel, em especial as relações militares que também fortalecem a barbárie em terras brasileiras, com a compra de armas e tecnologias de controle social que são usadas para atingir a vida do povo negro nas favelas. Convocar o embaixador brasileiro em Tel Aviv foi um passo ainda insuficiente nessa direção.

Por fim, convidamos a todas e todos, mas principalmente ao governo brasileiro a atender as demandas do movimento internacional de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS), liderado pelas bases da sociedade civil palestina. O povo palestino tem pressa e nossas ações têm poder.

Vozes Judaicas por Libertação (Coletivo é formado por judeus não sionistas que tem como objetivo criar um espaço alternativo à ideologia sionista e combater o colonialismo do Estado de Israel)

'Vamos completar o trabalho'

Aqueles que querem nos impedir de operar em Rafah estão basicamente nos dizendo: 'Percam a guerra'. É verdade que há muita oposição no exterior, mas este é exatamente o momento em que precisamos dizer que não vamos fazer metade ou um terço do trabalho.
Benjamin Netanyahu

Acabar a guerra “o mais rapidamente possível” quer dizer nada

Dada à sua natureza excessivamente conservadora, como demonstrado ao longo da história, a tradicional imprensa brasileira, só agora e com bastante atraso, começa a dar-se conta de que o maior obstáculo à paz no Oriente Médio é o governo de extrema-direita do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, pela terceira vez no cargo.

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, sabe disso, mas não quer admitir às vésperas de uma eleição difícil contra o ex-presidente Donald Trump. A maior colônia de judeus fora do Oriente Médio está justamente nos Estados Unidos. Israel é visto pelos americanos como seu maior porta-aviões naquela parte inóspita do mundo.

Os líderes das maiores potências ocidentais também sabem, mas suas ligações com o povo judeu, alimentadas por um antigo sentimento de culpa e negócios que interessam aos seus países, os impede de dizer com clareza que é preciso dar um basta à guerra que ameaça dizimar os palestinos. De resto, não ousam contrariar os Estados Unidos.


Em agosto de 1982, narra a jornalista Lúcia Guimarães na Folha de S. Paulo, o então presidente americano Ronald Reagan, com um telefonema, sustou o bombardeio israelense de civis no Líbano. Reagia assim a um dia de ataques que haviam deixado 100 civis mortos. Reagan ligou para o primeiro-ministro Menachem Begin e disse:

“Isto é um Holocausto”.

Begin, em tom sarcástico, respondeu, segundo Lou Canon, biógrafo de Reagan:

“Eu acho que eu sei o que é um Holocausto”.

Vinte minutos depois, Begin ligou de volta avisando que tinha suspendido o bombardeio. Biden não faz o mesmo com Netanyahu por razões que só ele e Deus conhecem. Não se passa um dia sem que Biden, pessoalmente ou por meio de porta-vozes, não diga que a matança de palestinos tem que ser interrompida.

Mas todas as resoluções apresentadas ao Conselho de Segurança que recomendavam o fim da guerra foram vetadas pelos Estados Unidos. Esta semana, mais uma foi vetada. O governo americano diz que prepara a sua, recomendando que a guerra seja cesse “o mais rapidamente possível”. Quer ambiguidade maior?

O mais rapidamente possível quer dizer o quê? Uma semana, um mês, um ano? Quem definirá o prazo para que os canhões silenciem, e os mísseis e bombas fornecidos pelos Estados Unidos deixem de ser jogados sobre palestinos em fuga dentro da Faixa de Gaza, a correrem para um lado e para outro obedecendo às ordens de Israel? É um tiro ao alvo.

Biden, e mais recentemente os líderes europeus, dizem que o fim da guerra implicará na devolução pelo Hamas dos reféns que eles fizeram, da libertação por Israel de palestinos presos em suas masmorras, e do início “o mais rapidamente possível” da criação de um Estado Palestino. É a velha tese dos dois Estados jamais implantada.

Na semana passada, por unanimidade, o governo de Netanyahu decidiu que não haverá Estado palestino. A decisão foi ratificada, anteontem, pelo Congresso de Israel. Dos 120 deputados, 99 de diferentes partidos políticos votaram de acordo com Netanyahu, e apenas nove contra, de partidos árabes.

Ahmad Tibi, líder do partido Arab Taal, interrompeu o discurso de agradecimento de Netanyahu gritando: “Será criado um Estado palestino! Apesar de suas palavras, ele será criado!” Após duas advertências do presidente da sessão, Ahmad foi expulso do plenário.

Lula falou em Holocausto para condenar a matança em Gaza. Mas ele não é o Reagan, nem o Brasil os Estados Unidos.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

Pensamento do Dia

 


Fracasso moral do mundo em Gaza deveria envergonhar a todos

No momento em que o G20 se reúne no Brasil nesta semana, o número relatado de mortes nas hostilidades na Faixa de Gaza está se aproximando da marca dos 30 mil. Espero que tal fato dê motivos para que os chanceleres reunidos no Rio de Janeiro reflitam sobre o que seus países fizeram ou não fizeram para parar essa situação.

Dizer que a guerra em Gaza é cruel e constitui um exemplo de fracasso humanitário absoluto não é novidade. Não há necessidade de reafirmar o óbvio. Em vez disso, permitam-me que, em nome dos meus colegas humanitários, faça um alerta não só para o dia de hoje mas também para o que receio que aconteçerá amanhã.

O que tem ocorrido em Gaza nos últimos 137 dias é incomparável na sua intensidade, brutalidade e alcance. Dezenas de milhares de pessoas mortas, feridas ou enterradas sob os escombros. Bairros inteiros arrasados. Centenas de milhares de pessoas deslocadas, vivendo nas condições mais precárias, que foram agravadas com a chegada do inverno. Meio milhão de pessoas à beira da fome e sem acesso às necessidades mais elementares: alimentos, água, cuidados de saúde, latrinas. Uma população inteira está sendo destituída da sua humanidade.


As atrocidades que assolam o povo de Gaza —e a tragédia humanitária que estão suportando— estão à vista do mundo, documentadas por corajosos jornalistas palestinos, muitos dos quais foram mortos enquanto o faziam.

Ninguém pode fingir que não sabe o que está acontecendo.

Ninguém pode fingir também que não sabe que as agências humanitárias estão fazendo o seu melhor: Cerca de 160 dos nossos colegas foram mortos, mas as nossas equipes continuam a distribuir alimentos, material médico e água potável. Estamos fazendo tudo o que podemos, apesar dos riscos de segurança, do colapso da lei e da ordem, das restrições de acesso e das tragédias pessoais. Apesar do corte de financiamento da maior organização da ONU em Gaza. E apesar das tentativas deliberadas de nos desacreditar.

A comunidade humanitária que represento acaba de publicar um plano que descreve o que precisamos para aumentar o fluxo e a distribuição de ajuda em Gaza. Nenhum dos pontos do plano é irracional: garantias de segurança; melhoria do sistema de notificação humanitária para reduzir os riscos; equipamento de telecomunicações; remoção de munições não detonadas; utilização de todos os pontos de entrada possíveis.

Mas embora eu tenha dito muitas vezes que a esperança é a moeda do profissional de ajuda humanitária, tenho pouca esperança de que as autoridades nos forneçam o que precisamos para atuar. Quero muito que me provem que estou errado.

Sabemos, sem sombra de dúvida, que as agências humanitárias serão responsabilizadas —já estamos sendo responsabilizados— pela falta de ajuda em Gaza, apesar da coragem, do empenho e do sacrifício de todas as nossas equipes no terreno.

Mas não nos enganemos: as privações impostas à população de Gaza têm sido tão severas que nenhuma quantidade de ajuda humanitária é suficiente. Os obstáculos que estamos enfrentando a cada passo são tão grandes que só podemos fornecer o mínimo necessário.

Os ataques de 7 de outubro contra Israel são abomináveis — condenei-os repetidamente e continuarei a fazê-lo. Mas não podem justificar o que está acontecendo com todas as crianças, mulheres e homens em Gaza. Por isso, a minha mensagem aos chanceleres do G20 nesta semana é clara: temos implorado a Israel, enquanto potência ocupante em Gaza, que facilite a entrega de ajuda —com pouco ou nenhum sucesso. Temos apelado à libertação imediata e incondicional de todos os reféns, com pouco ou nenhum resultado.

Temos instado as partes a cumprirem as suas obrigações de acordo com o direito internacional humanitário e de direitos humanos, com pouco ou nenhum resultado.

Temos exortado os países que deixaram de financiar a Agência da ONU de Assistência aos Refugiados Palestinos (UNRWA) a reverterem a sua decisão —com pouco ou nenhum resultado.

Hoje, imploramos a vocês, membros do G20, que usem a liderança e influência política para ajudar a pôr fim a esta guerra e salvar a população de Gaza. Vocês têm o poder de fazer a diferença. Usem-no.

O silêncio e a falta de ação de vocês só contribuirão para que mais mulheres e crianças sejam jogadas nas valas comuns de Gaza.

As agências humanitárias estão fazendo tudo o que podem. E vocês, o que estão fazendo?