domingo, 23 de abril de 2023

Parte da imprensa decidiu apontar a cumplicidade da vítima com o estuprador

Que coisa!

Setores da imprensa, nesse episódio do vazamento do vídeo sobre o 8 de janeiro —cuidadosamente editado (por quem?) para transformar o agredido em responsável pela agressão que sofreu —, aderiram à lógica absurda da cumplicidade da vítima com o seu algoz.

Demorou um tempo até que um padrão civilizatório mínimo criasse uma interdição legal e moral que impede que se culpe, ainda que de modo oblíquo, a pessoa estuprada pelo estupro. Não é prudente circular em áreas desertas e mal iluminadas, certo? Mas essa é uma postura preventiva contra qualquer tipo de agressão, note-se. Ainda que não observada, seria uma monstruosidade moral atribuir à vítima algum grau de cumplicidade ou colaboração com o seu agressor. Fazê-lo corresponde a legitimar um suposto lugar do estuprador na ordem das coisas.

A normalização do estupro produziu, a propósito, frases que ainda estão por aí. “Prendam suas cabras que o meu bode está solto”. Você é pai ou mãe de meninas? Guardem-nas, pois. Os genitores de bodes, nessa perspectiva, entendem que seus potenciais violadores cumprem ou uma determinação da natureza ou ocupam seu lugar social.

Em matéria de pântano moral, como deixar Jair Bolsonaro de fora? Em 2018, o então candidato à Presidência, em sabatina na Globonews, tentou explicar declaração misógina dada em 2017, em palestra na Hebraica do Rio — a mesma em que disse que um quilombola se pesava em arrobas e nem servia mais para a reprodução. Afirmou, naquele evento, que, depois de quatro filhos homens, deu uma “fraquejada”, e “veio uma mulher”.

Na entrevista, ele tentou consertar assim a estupidez: “Fiz uma brincadeira. É comum entre nós homens… O elemento é muito namorador, por exemplo, daí vem [nasce] uma menina, e ele fala: ‘Eu vou ser fornecedor, não vou ser mais consumidor’. É uma brincadeira.” Nesse mundo de “fornecedores” e “consumidores”, cada um tem reservado o seu lugar, excluindo-se, por exemplo, o consentimento. É a lógica do estupro! Saia curta, decote, roupa justa… Melhor não provocar os bodes.


Tenho afirmado aqui e em toda parte que o bolsonarismo não contaminou e corroeu apenas as instituições de Estado, como revelam a inércia e a conivência de servidores do GSI, entre outros entes, com os golpistas. O estrago provocado na imprensa é muito maior do que se percebe à primeira vista. Houve avarias importantes — e não sei se sanáveis — nos radares morais e nos sensores que identificam ameaças à ordem democrática. O mais relevante consiste em considerar que o bolsonarismo, a despeito de tudo o que já disse e fez, é uma corrente de pensamento e militância política como outra qualquer e causaria espécie porque não tem vergonha (e como!) de se dizer de direita. Não! Essa é uma bobagem e uma mentira perigosas. Como escrevi em uma coluna da Folha, inexiste virtude nos territórios da morte. Apenas ilustro um dos danos. O objeto deste texto é outro. Adiante.

DE VOLTA AO VÍDEO

Leio em reportagens e em textos de colunistas — com algumas decepções maiúsculas –considerações que vão muito além de recomendar que se evitem ruas desertas mal iluminadas, e até isso teria de ser feito com muito cuidado. O flerte com a culpa da vítima é mais do que uma sugestão. Há até quem infira que Lula experimenta agora uma forma de reverso da fortuna, como se as ações do governo a partir do dia 9 tivessem sido orientadas pelo oportunismo, não por fundamentos que orientam o estado de direito. Teria chegado a hora de pagar a conta.

O flerte com teorias conspiratórias espalhadas nas redes é, muitas vezes, explícito. Quando não, a vítima é vergastada por sua imprudência: “Quem mandou andar naqueles lugares? Onde já se viu sair com essa roupa? Vocês não sabiam que eles eram capazes de coisas assim? Por que não apoiou de cara a CPMI?” Uma pergunta grita o seu silêncio: quem editou o vídeo e com que propósito?

É evidente que o episódio pode e deve suscitar questionamentos e que houve erros grotescos: a mentira contada sobre as câmeras quebradas do terceiro andar, que quebradas não estavam, como se vê; a imposição de sigilo para as imagens; a manutenção no GSI da mesma equipe que serviu a Jair Bolsonaro; quem sabe uma certa subestimação do risco, ainda que a área adjacente ao QG do Exército de Brasília seguisse ocupada.

Que se façam as devidas restrições, admoestações e reparos. Mas cumpre, parece-me, não perder o foco, inclusive o dessa segunda investida — refiro-me, obviamente, ao vazamento do vídeo. A Polícia Federal não tem de correr atrás das fontes da CNN ou de qualquer outro veículo de imprensa. Mas tem de procurar identificar a origem do vazamento. Caso consiga, também se chegará ao propósito. Essa é uma imposição legal.

Ademais, o governo, pela voz de seu líder maior, o presidente da República, jamais descartou a conivência com a barbárie daqueles que, em tese, o serviam, nos limites da lei. Em café da manhã com jornalistas no dia 13 de janeiro, Lula foi explícito:

“Eu ainda não conversei com as pessoas a respeito disso. Eu estou esperando a poeira baixar. Quero ver todas as fitas gravadas dentro da Suprema Corte, dentro do palácio. Teve muita gente conivente. Teve muita gente da PM conivente. Muita gente das Forças Armadas aqui dentro conivente. Eu estou convencido que a portado Palácio do Planalto foi aberta para essa gente entrar porque não tem porta quebrada. Ou seja, alguém facilitou a entrada deles aqui”.

Não se trata de gostar do governo ou não; de aprovar as suas escolhas ou não; de considerar que Lula tem feito as escolhas corretas ou não. Estamos falando dos fundamentos do estado de direito e da democracia. Creio que os registros estão se confundindo. Poderia enumerar aqui os textos que juntam os erros do governo no caso do vazamento com o inconformismo do seu escriba com o arcabouço fiscal ou com as declarações do presidente sobre a Ucrânia. É uma insanidade. É a avaria nos radares morais e nos sensores que identificam ameaças à ordem democrática.

POR QUE É ASSIM?

Por que é assim. Há várias respostas, que requerem muitos outros textos, e não fugirei deles. Uma delas está enunciada no parágrafo anterior: não se está sabendo a fronteira entre a reprovação a medidas do governo — coisa absolutamente legítima — e a tolerância com ameaças às instituições. De novo! Já passamos por isso a um custo gigantesco.

Pesa também o fato de que certos setores da imprensa, identificados com o que dizem ser “liberalismo” ou com a direita democrática se ressentem do que julgam ser falta de voz no governo e no debate público. Os conservadores que compõem o arco de alianças de Lula não os representam. A ojeriza da imprensa ao tal “centrão”, por exemplo, é gigantesca. Falta ao grupo aquele espírito doutrinário do antigo udenismo.

Há mais: dão esses de barato, coisa em que absolutamente não acredito, que o bolsonarismo já está inviabilizado como alternativa de poder. As circunstâncias que o levaram ao poder não se repetirão, e sua notável desorganização política não será capaz de guindar, de novo o grupo ao poder. Assim, exterminada essa vertente do extremismo como alternativa de poder, restaria fulminar a outra: isso a que chamam “lulismo” ou “lulopetismo”. E, assim, combater-se-iam os dois polos considerados nefastos em benefício do centro perdido… Ocorre que o bolsonarismo é, sim, de extrema-direita, mas o petismo não é de extrema-esquerda.

Chega-se mesmo a ver no país um tipo realmente autóctone, inencontrável em qualquer outro lugar: o “extremista de centro”. Mas isso, de fato, será matéria para outros artigos.

CONCLUO

Sim, estou, e deixo claro com frequência, entre aqueles que consideram virtuoso o governo em seus menos de quatro meses — e não quatro anos — de mandato. É evidente que é matéria para controvérsia. E isso nos coloca a todos, entendo, no terreno dos embates democráticos.

O que me incomoda, nessa tentativa de reeditar o golpe — porque o objetivo é evidenciar uma suposta e absurda cumplicidade do governo com o ataque golpista para inviabilizá-lo —, é a imprudência com que imprensa e colunistas passaram a dar piscadelas para o perigo, indagando à pessoa estuprada se, na verdade crua, não acabou sendo cúmplice do estuprador.

Antes que os idiotas sugiram que comparo crimes distintos, relembro: trato de posturas morais e éticas diante do agressor e do agredido. É indecente que jornalistas, que têm um compromisso necessário com a liberdade e a com democracia, digam a Lula que ele não soube cuidar direito das suas cabras, mesmo sabendo que o bode do bolsonarismo estava solto. Trata-se de um comportamento liberticida.

Linguagem emprestada

Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. E justamente quando parecem empenhados em revolucionar-se a si e às coisas, em criar algo que jamais existiu, precisamente nesses períodos de crise revolucionária, os homens conjuram ansiosamente em seu auxílio os espíritos do passado, tomando-lhes emprestado os nomes, gritos de guerra e as roupagens, a fim de apresentar-se nessa linguagem emprestada

Karl Marx, “O 18 Brumário de Luís Bonaparte”

Uma pausa

Hoje em dia é difícil encontrar fôlego para pensar no ontem. Simplesmente não sobra espaço para o passado. Nossa tão fragmentada atenção é disputada o tempo todo por notícias, fatos e factoides — e estes, já no instante seguinte, são atropelados por mais notícias, mais fatos e mais factoides. Não espanta que vivamos num acelerado estado de inútil combustão mental, física, afetiva. Na semana passada, para o 80º aniversário do Levante do Gueto de Varsóvia, nem mesmo a imprensa europeia conseguiu deter-se com o merecido vagar sobre efeméride tão marcante para a Humanidade. Uma lástima, considerando a selvageria da atual guerra na Ucrânia, logo ali ao lado, e o ressurgimento do neonazismo acoplado ao antissemitismo por toda parte.

Foi num 19 de abril de 1943 que os judeus aprisionados feito gado num pedaço da capital da Polônia pegaram em armas. Do total inicial de 400 mil socados naquele gueto, mais de 250 mil já haviam sido deportados para os campos de extermínio nazistas. O levante destinava-se a tentar interromper as deportações. Os insurgentes sabiam que jamais venceriam as tropas nazistas. Também sabiam ser quase impossível sobreviver ao levante. Mas queriam, pelo menos, ser os donos do que lhes restava de vida. E ser donos da escolha de onde e como morrer.


Nas comemorações deste 19 de abril de 2023, que começaram com sirenes uivando por toda Varsóvia, os três chefes de Estado alinhados no pódio eram um retrato das idas e voltas da História.

— Todo aquele que semeia o ódio e pisoteia as pessoas também pisoteia os túmulos dos heróis do Gueto de Varsóvia (...) e de quem os ajudou — discursou o ultraconservador presidente polonês Andrzej Duda, cujos patrícios antepassados ajudaram, e não foi pouco, a insânia de Hitler.

— É imperativo lembrar que este trágico capítulo da História (...) oferece a plataforma para um importante diálogo entre a Polônia e Israel — pontuou o presidente de Israel, Isaac Herzog, sinalizando quanto ainda há pela frente.

O presidente Frank-Walter Steinmeier, em sintonia com uma Alemanha que há décadas encara seu passado, foi o mais direto:

— Cada crime cometido pelos alemães precisa ter espaço em nossa memória — disse.

Os três estadistas traziam um narciso em papel amarelo colado na altura do peito. Outros 400 mil narcisos haviam sido distribuídos entre moradores da capital para ser portados com sentimento. O número faz referência aos 400 mil judeus do gueto. A flor amarela simboliza o levante desde que Marek Edelman, último sobrevivente da resistência, passou a receber em casa, pontualmente a cada 19 de abril, um misterioso buquê de narcisos amarelos. Edelman morreu em 2009, aos 90 anos. O remetente das flores permanece anônimo até hoje. Culpa? Fraternidade? Demônios interiores? Toda guerra tem sua cota de continuidade indelével.

Logo à entrada do que é hoje o Memorial de Auschwitz, do lado direito do infame letreiro Arbeit Macht Frei, um imenso salgueiro plantado muito antes da Segunda Guerra Mundial continua de pé. Está intacto e saudável, ao contrário de três álamos históricos de mais de 90 anos que tiveram de ser derrubados na década passada. Segundo levantamento da entidade de conservação, restam do antigo complexo Auschwitz I, Auschwitz-Birkenau e Auschwitz III apenas duas castanheiras, oito álamos, dois carvalhos e menos de 20 bétulas de mais de 90 anos. Testemunhas silenciosas dos crimes ocorridos naquele chão, essas árvores são reverenciadas em prosa e verso por sobreviventes. “Muitos, como eu, queríamos escalar até o cume e sair voando.../As árvores viram tudo, ouviram tudo,/e como é seu costume,/cresceram, abriram folhas, e permaneceram em silêncio”, escreveu em poema Halina Birenbaum.

Também o 11 de Setembro de 2001, que fez ruir não só as Torres Gêmeas de Nova York, mas todo um mundo que parecia ordenado, tem uma testemunha fincada no solo. Foi encontrada entre as montanhas de ruínas, um mês depois do atentado. Tinha o tronco quase carbonizado, as raízes esmigalhadas e o DNA incerto. Ainda assim, foi depositada como porcelana rara aos cuidados do Departamento de Parques da cidade. Nove anos depois de arrancada pela força do ódio, ainda magrela, porém sadia, pôde ser replantada no local onde nascera. Hoje, essa pereira vistosa e abundante, rebatizada de Árvore da Sobrevivência, vive rodeada de visitantes. A cada ano, também fornece três plantas para comunidades que sofreram alguma tragédia recente, como a cidade de Parkland, onde foram mortas 17 pessoas em chacina escolar em 2018, ou Porto Rico, onde o Furacão Maria deixou um saldo de quase 3 mil mortos.

Hoje sendo domingo, cabe uma pausa na tirania do ininterrupto ser-estar-fazer-postar-ouvir-reagir-clicar. Dar tempo à poesia, à arte, ao pensar solto. No inverno mais amargo de 1916, com a Europa afundada no horror da Grande Guerra, imensas lonas de camuflagem militar começaram a pontilhar uma região campestre do conflito. Destinadas a esconder peças de artilharia do Exército Imperial Alemão, elas destoavam do protocolo bélico. Tinham coloridos ardentes e formatos inesperados, de beleza absurda. Foram criadas pelo então soldado, mas já mestre do expressionismo alemão, Franz Marc. O artista morreu nas trincheiras um mês depois de “tentar pintar o lado espiritual da natureza” em lonas de guerra. Soube viver.

sábado, 22 de abril de 2023

Brasil esquecerá?


É muito importante a gente não deixar o que foi plantado nos últimos quatro anos seja esquecido
Jair Bolsonaro em teleconferência para evento em Mato Grosso

O que faltou dizer sobre Janja e a gravata que comprou para Lula

Onde está escrito que a imprensa tradicional, dita séria, que antes não se rendia amiúde à frivolidade, tenha hoje que estar a reboque das redes sociais, na maioria das vezes a repercutir o que ali se publica primeiro e quase sempre com estardalhaço?

Janja, a primeira-dama, assim que o marido presidente se instalou no confortável Hotel Tivoli, em Lisboa, para sua primeira visita de Estado a Portugal, saiu por uma porta lateral e foi a uma loja de roupa masculina comprar uma gravata para ele.

É uma loja de grife na Avenida da Liberdade, a poucos metros do hotel, da marca italiana Ermenegildo Zegna. Na pressa insana para competir com as redes, os primeiros relatos da imprensa deram conta de que mal chegara de viagem, Janja fora logo às compras.

Antigamente, dava-se ao repórter o tempo necessário para que apurasse uma história e a escrevesse com algum primor. Agora, deve apurar e escrever rapidamente mesmo que a história esteja incompleta. Janja voltou com uma sacola, disseram alguns.

Só mais tarde souberam que dentro da sacola havia uma gravata. E que sua estadia na loja durou apenas 20 minutos. A maioria omitiu que Janja não pagou a gravata com o cartão corporativo. Significa que pagou com seu próprio dinheiro ou com o do marido.

Mas registrou-se, em espaço generoso, o que àquela altura os bolsonaristas nas redes sociais diziam a propósito: “A mãe dos pobres foi às compras em loja de luxo”; “Essa mulher é uma vergonha nacional”; “Será que ela pagou com Pix?”.

O “outro lado da questão” não pode ser uma camisa de força. O jornalismo independente nada tem a ver com isso. Uma imprensa digna de respeito não deveria comportar-se como mera extensão das redes onde Sua Excelência, O Algoritmo, é quem manda.

Bumba-Meu-Poeta

Tomemos conta depressa

deste reino universal
antes que alguém mais esperto
passe na frente da gente.

Tomemos conta depressa
deste reino universal
Eletrifiquemos o reino;
distribuiremos chuchus
aos pobres e torcedores,
bananas aos discordantes
Murilo Mendes, "O menino experimental"

A chibata

– Vovô, eu estava trabalhando, para sustentar meus três filhos. Aquela mulher veio e me bateu com a coleira do cachorro. Me tratou como menos que o cachorro dela. Tomei chicotada que nem escravo. Por que essas coisas acontecem, Vovô?

– Ai, se um dia nóis se respeitasse! Dum jeito assim qui nem qui a gente faz com quem gosta… Num precisa de chamego pra gostá. Mais precisa gostá pra tê chamego. Pra gostá só carece respeito. Pur isso o respeito é qui se tem que querer, qui é pra gente se gostá.

Hoje, a gente num se respeita. A gente bate e apanha e batê e apanhá num é coisa de gente. Nem de bicho. Mas é o que a gente, qui num é bicho, faz cum gente. E faz dum jeito qui tem uns qui só bate e otros que só apanha. Uns qui sabe qui pode batê e otros qui já sabe qui vai apanhá sem recramá. Purqui si recramá, apanha mais duma vez.


Quem bate tem dinhêro e istudo. Sabe falá umas coisa com palavra difícil de se falá e mais difícil ainda de intendê. A gente diz que é gente qui fala bonito e chama de dotô. Mais num tem beleza no qui fala não. Falta uma coisa assim de música no falá. E a gente tumbém sabe qui nem é dotô di sabê tudo, mais de sabê dumas coisa qui ninguém dêxa a gente sabê. Purqui si a gente sabê, vai querê falá disso tumbém. E ninguém qué qui a gente fala nada. Só qué qui nóis trabaia. E se num trabaiá, apanha.

Di nós, eles só qué sabê no trabaio. Tudo quieto. Dócil, eles diz. Purqui p`rêles nóis é até doce quando fica quieto rino fazendo di conta qui num vê que ninguém vê nóis di verade. Vê como coisa. Di si compra, vendê ou quebrá. E eles inté briga entre eles quano um deles vê a gente e fala da gente feito gente. É gostoso de se ouvi. É o gosto do respeito. Nóis pode ser dócil, mais queria memo era ter o gosto de respeito.

Eu passei minha vida assim, fio, trabaiano, apanhano e às veiz cantano. I quando cantava era um furdunço! Eles num sabia se dançava o si batia de vê nóis cum aligria! Eles num pudia si alegrá com o que nóis fazia e nem dexá nóis ficá alegre. Alegria era ruim naquele tempo. Mas no fundo era o que todo mundo, nóis i eles quiria. Daquela tristeza, nóis tudo era escravo.

Mais agora, fio, eu fiz minha passage. Num tô mais nesse mundo e só venho aqui assim, muntado nesse cavalo pra falá cum os fio qui nem vóis. Eu até achei qui esse mundo ía dexá a vida di escravo pra trás. Mais eu fico numa tristeza grande quano vejo os fio de hoje, cês qui tão vivo, qui dizem qui num são mais escravo, apanhano qui nem nóis apanhava. Eu fico triste di vê qui ainda tem gente qui pensa qui pode batê. E bate nos fio. Dispois, fala cumas palavra difícil qui tá duente da cabeça. Tão duente é do coração, qui num vê ocêis qui nem gente. Duente dos ovídu, qui num iscuta o que cêis fala, só purque cêis fala errado. O mundo docês, fio, inda tá duente qui nem o meu tava. I só vai curá quano curá os coração dos fio qui bate e o coração dos qui apanha.

– Obrigado Vovô!

– Vai cum a bênção de Zambi e di Nosso Sinhô Jesus Cristo, qui sempre insinô qui nóis tudo é irmão…

E no terreiro de Umbanda, a gira seguiu noite adentro com fumaças, cantos e atabaques. Assustando uma vizinhança branca que se acha “do bem” e acha “do mal” qualquer coisa que venha de gente preta.

Da matança nas ruas à das escolas

A camiseta, anunciada no Mercado Livre, custa R$ 66,90. Na descrição das características do produto, consta que é “100% algodão”, “silk screen”, masculina, com gola redonda e manga curta. A camiseta preta, estampada de ódio em vermelho, já vendeu mais de 100 unidades. Ainda está disponível nos tamanhos P e GG e é enviada em até um dia útil depois do pagamento. Numa das dez fotos do anúncio, o autor de um massacre escolar nos Estados Unidos posa com uma camiseta igual.

O vendedor, do interior de São Paulo, tem o perfil mais qualificado do site pelo bom atendimento que presta e pela entrega dos produtos no prazo. Coloca-se à disposição para eventuais dúvidas. Toma a iniciativa de esclarecer a primeira delas: “Aviso à patrulha do politicamente correto, não incitamos, não fazemos apologia, somos contra qualquer tipo de violência, seja essa física ou verbal! Assim como somos contra bullying e a favor da livre manifestação de toda e qualquer forma de expressão, menos apontamentos e terceirização de culpa”.


O anúncio é apenas um dos indícios do culto, originado nos Estados Unidos e replicado no Brasil, à dupla que perpetrou o ataque na escola em que estudava no estado americano do Colorado. Outros se seguiram nos Estados Unidos com um número ainda maior de vítimas, mas é a dupla de Columbine que segue sendo reverenciada. O mercado atende aos fãs com jogos eletrônicos e sites com fotos, passagens dos diários que ambos mantiveram nos anos em que planejaram o ataque e vídeos caseiros da dupla que foram apreendidos, mas seguiram em circulação.

A efeméride de 20 de abril, não por coincidência, dia do nascimento de Adolf Hitler, cultuado pela dupla, foi identificada pela equipe montada pelo Ministério da Justiça reunindo a Polícia Federal e policiais civis de todos os estados como responsável pela inflação de ameaças nas redes. Em dez dias, foram registrados mais de 1,5 mil boletins de ocorrência e 965 intimações para adolescentes prestarem informações.

As operações foram mantidas em sigilo para não aumentar o clima de pânico entre pais e alunos depois da morte de uma professora e quatro crianças em atentados que ainda deixaram outras 11 crianças e 5 professoras feridas. Os ataques ocorreram em apenas duas semanas, em uma escola estadual em São Paulo, numa creche municipal em Blumenau, numa escola adventista em Manaus e numa escola municipal no Ceará.

Das grandes crises que mobilizaram o aparato de segurança do Estado desde a posse de Lula - a invasão dos Poderes em 8 de janeiro, o combate ao garimpo ilegal na reserva dos Yanomamis e os ataques do crime organizado no Rio Grande do Norte -, esta é a mais disruptiva. E também aquela que o Ministério da Justiça considera a mais difícil de ser debelada porque não tem uma única causa.

Entre o bullying e o culto ao neonazismo, crianças e adolescentes viveram uma pandemia em que não apenas foram confinadas em ambientes familiares muitas vezes dominados por tensões e tragédias, como foram empurradas para a internet e para as redes sociais.

Se o antissemitismo foi cultivado por séculos antes de eclodir com o nazismo, a cultura da intolerância ganhou tração com o algoritmo. No levantamento do Instituto Sou da Paz, entre mortos e feridos de 2002 a 2022, identificaram-se 93 casos, excluindo-se os anos de 2020 e 2021, quando as escolas, em grande parte, funcionaram remotamente. O ano de 2022, com o retorno das aulas presenciais, trouxe um quarto dos ataques com armas de fogo desse período. No momento em que as escolas poderiam funcionar no acolhimento das agressões vividas durante a pandemia, acabaram por se transformar nos lugares em que a violência encontrou vazão.

Junto com o ano de 2023 chegou a onda de ataques com armas brancas - quatro, em duas semanas. A matriz de sua violência tem sido associada ao 8/1 não apenas pelo entorno do presidente Luiz Inácio Lula da Silva quanto pelo ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes. Se a intentona levou a um cerco crescente por maior regulação das redes sociais, o ataque nas escolas acabou por torná-lo inevitável. Em ato no Palácio do Planalto, Moraes se indagou por que a inteligência oficial não poderia ser usada para identificar e remover das plataformas as mensagens de ódio.

As plataformas resistem não apenas a investir em alternativas capazes de impor barreiras a um modelo de negócios que potencializa a audiência de conteúdos extremistas como até mesmo a exigir a simples identificação dos usuários. No embate provocado pelos ataques às escolas, porém, nenhuma foi tão longe quanto o Twitter, que desafiou o MJ antes de voltar atrás na disposição ao diálogo.

O apelo da liberdade de expressão é usado tanto pela base bolsonarista como por parlamentares governistas contra a regulação das redes. Argumenta-se que a atuação do MJ faculta ao Executivo de plantão a discricionariedade da punição das redes sociais. As mortes, porém, podem levar o Congresso a sair da letargia e votar, ainda em abril, restrições e punições mais efetivas no projeto de lei das “fake news”.

Para pressionar o Congresso, o MJ resolveu editar uma portaria que permite a instauração de processo administrativo para apurar a responsabilidade das plataformas na propagação de conteúdos que incentivem ataques contra o ambiente escolar ou que façam apologia a esses crimes. Escudou-se na Lei de Defesa do Consumidor para livrar-se da acusação de que uma portaria não se sobrepõe a uma lei.

Esta lei é o Marco Civil da Internet, de 2014. Seu artigo, em nome da liberdade de expressão, condiciona a responsabilização de redes sociais por danos de conteúdo gerado por terceiros ao descumprimento de ordem judicial. A este artigo atribui-se parte da leniência das redes sociais na moderação de conteúdo.

A portaria ainda prevê que as plataformas sejam orientadas a impedir a criação de novos perfis a partir de endereços virtuais em que já tenha sido detectada a disseminação de conteúdo extremista. A resistência do Twitter, que alegou a inexistência de previsão legal para a portaria, só aumentou a disposição do STF de levar a julgamento a constitucionalidade do artigo 19 do marco civil. Os ministros estão determinados a pautar o tema - ou pelo menos assim se anunciam para pressionar o Congresso.

Quando Columbine apareceu no mapa-múndi, as redes sociais ainda engatinhavam nos EUA em plataformas restritas. Não por acaso, como contou Dave Cullen em “Columbine” (Darkside, 2019), foi em seu diário que um dos assassinos registrou: “Nos vingaremos [da sociedade] e então poderemos existir num lugar atemporal, num lugar cheio de alegria e de felicidade”.

A epidemia de assassinatos em escolas que tem invadido o Brasil demonstra a atualidade desse comportamento de matar para existir perante uma comunidade da qual se sentem alijados. São crimes anunciados e, muitas vezes, reproduzidos nas redes.

Este é um fenômeno que não existia no Brasil no início quando Lula chegou pela primeira vez ao poder. O paradigma da crueldade juvenil àquela época foi estabelecido por quatro jovens, que tinham entre 17 e 19 anos, quando atearam fogo e mataram o pataxó Galdino dos Santos num abrigo de ônibus em Brasília.

Pretendiam ser esquecidos pelo crime quando fugiram, mas a placa do carro em que estavam foi anotada. Eles foram presos, julgados e condenados, mas cumpriram metade da pena prevista. Vinte e seis anos depois, retomaram sua vida em liberdade.

O país voltou a ser sacudido em 2004, quando o país era governado por Lula, São Paulo, por Geraldo Alckmin, e a capital, por Marta Suplicy. Na madrugada de 19 de agosto daquele ano, dez pessoas que dormiam enroladas em cobertores no centro de São Paulo foram golpeadas na cabeça. Quatro morreram na hora e duas, no hospital. Três dias depois, um novo ataque contra cinco moradores de rua, também na capital paulista, matou um.

Em pesquisa sobre o tema, o antropólogo Daniel De Lucca registrou o esforço de moradores de rua da região em identificar os corpos e evitar a indigência. De um deles ouviu que, pelo menos na hora de morrer, dada a atenção despertada pela violência, eles poderiam ser tratados como gente com enterro em caixão de madeira. Deparava-se com a inserção social pela morte.

Em artigo para a coletânea “Novas faces da vida nas ruas” (Edufscar, 2016), organizada por Taniele Rui, Mariana Martinez e Gabriel Feltran, De Lucca recupera a pedregosa investigação que levou um ano e dois meses para pedir a prisão preventiva de cinco policiais militares e um segurança clandestino que teriam sido motivados ao crime por queima de arquivo. Até uma testemunha do crime foi morta durante a investigação. O caso até hoje perambula sem decisão definitiva no Judiciário.

O desfecho das mortes nas escolas não poderia ser mais distinto. Os três adolescentes foram presos em flagrante e o jovem de 25 anos que matou as crianças na creche de Blumenau se dirigiu até a delegacia para se entregar.

Mendigos nunca deixaram de ser mortos num país que renova a licença da coabitação do crime organizado com a multidão de indigentes que vagueia pelas grandes cidades. Criança assassinada em escola também não chega a ser novidade no país da bala perdida. O que parece diferenciar a conjuntura é que, além da violência gerada pelos extremos da degradação social, o país importou crimes de ódio potencializados pelas redes sociais.

Entre os assassinatos de moradores de rua e aqueles de crianças nas escolas está uma fração das mudanças pelas quais o Brasil passou. Das vítimas cuja existência foi reconhecida pela morte à leva de jovens que almeja reconhecimento pelo assassinato de semelhantes, as redes sociais aumentaram o alcance do macabro espetáculo da polarização.

sexta-feira, 21 de abril de 2023

Brasil Grande


O Brasil é realmente muito amplo e luxuoso. O serviço é que é péssimo
Millôr Fernandes

Pedagogia como prática de segurança

Fazia poucos anos que Paulo Freire havia retornado do exílio quando, em um almoço de família na casa de minha sogra, o próprio professor nos disse que gostaria de ter dado mais ênfase, em sua pedagogia, aos aspectos da educação relacionados com geração de renda e inclusão econômica.

Considerando a importância que o problema da segurança pública alcançou ultimamente no Brasil, não seria exagero imaginar que, se aquele almoço acontecesse hoje, Paulo falaria, quem sabe, do seu interesse em associar uma ‘pedagogia da paz’ ao seu método educativo.

Por coincidência, Paulo Freire era filho de um policial militar de Pernambuco, o capitão Joaquim Temístocles. Ainda assim as influências da infância pobre e do testemunho da vida nordestina difícil pesaram mais na sua ‘educação como prática de liberdade’.


Por isso mesmo, é possível imaginar uma reflexão sobre a promoção da paz nas áreas urbanas sob a ótica do educador pernambucano. A ideia de que “as pessoas se educam entre si mediadas pelo mundo” coincide com a visão do urbanismo social de que a convivência humana diária nos espaços públicos é um pilar de uma sociedade segura.

Afinal, o mundo é cada vez mais urbano. No Brasil 85% da população vivem nas mais de 5.500 cidades. Imagine a intensidade dos contatos, relações, laços, conflitos, enfim, da convivência entre esses cento e setenta milhões de pessoas nas cidades.

Ao longo dos dias e noites, encontros e desencontros servem para formar condutas, princípios, personalidades, cultura, negócios e política. Nesse cenário, para ‘se educarem entre si’, as pessoas contam com a mediação de um mundo no qual a oferta de espaços públicos e de serviços pelo Estado é determinante do nível de segurança cidadã que se consegue obter.

As cidades brasileiras são multiplicadoras de desigualdade social, mesmo nas regiões metropolitanas que contam com melhor infraestrutura, mobilidade e segurança do que os municípios remotos. Prevalecem os espaços de convivência degradados, feios, escuros, quer sejam praças, calçadas, escolas, paradas de ônibus, quadras esportivas, postos de saúde, hospitais ou ruas (indutores do medo, rejeição e distanciamento social, favorecendo a vulnerabilidade ao crime).

Em outras palavras, os espaços públicos decadentes provocam uma sensação de insegurança nos cidadãos que inibe o seu exercício de direitos e liberdades. Ao mesmo tempo, esses vazios urbanos favorecem a perspectiva de êxito e impunidade para a prática de delitos e abusos.

Ao contrário, uma bela praça, conservada e iluminada, serviria como um ambiente mediador de relacionamentos pacíficos, que estimulem a solidariedade e a segurança. Já existem diversas experiências de espaços públicos que Paulo Freire certamente consideraria bons mediadores da educação recíproca entre seus habitantes.

No Brasil, temos exemplos que seriam aprovados pelo professor, como o COMPAZ, as Usinas da Paz, o CEU das Artes, as Praças de Esportes e a Rede de Bibliotecas Pela Paz. Mundo afora há os exemplos colombianos de Medellín e Bogotá e as Utopias em Iztapalapa, México.

A explicação de fatalidades no Brasil

A cultura popular brasileira tem um conjunto extenso de desculpas para explicar o aparentemente indesculpável. Há um esboço de linguagem para eximir de responsabilidade os prováveis responsáveis pelo inexplicável.

Em 2017, o ministro das Minas e Energia, em entrevista em Nova York, explicou como fatalidade o pavoroso desastre que atingiu a pequena localidade de Bento Rodrigues, no município de Mariana, em Minas Gerais, em 2015.

Foi quando a lama de uma barragem de dejetos de mineração, que se rompera, a recobriu em poucos minutos. Morreram 19 pessoas, uma área extensa no Vale do Rio Doce foi afetada, com água contaminada, abastecimento de cidades comprometido, solo afetado, grande número de pessoas desabrigadas, o meio ambiente danificado, a vida colocada entre parênteses. A maior tragédia ambiental da história do país.

A palavra fatalidade para explicar o que aconteceu pode ser utilizada no deciframento do acontecido como palavra analisadora-reveladora, que na sociologia de Henri Lefebvre é o atributo de palavras com força metodológica para desvendar acontecimentos da realidade social. Por que “fatalidade”? A barragem foi obra de engenharia, tudo calculável e previsível: a carga de rejeitos, seu peso, sua força, a capacidade da barragem para aguentá-la e, portanto, o limite de seu enchimento. O próprio risco para as 600 e tantas famílias do povoado abaixo da barragem.

Sendo tudo calculável e tendo ocorrido o desastre é ele indício de uma hierarquia de riscos por ele revelado. Sem o desastre, os riscos passariam para a história como riscos possíveis mas não prováveis, equitativamente distribuídos.

O desastre, como em outros casos, indicou que os riscos estavam desigualmente distribuídos. As pessoas, o ambiente natural, a vida, o outro e o que é do outro, desvalorizados em relação ao que interessava, que não eram eles. Essa hierarquia está presente na consciência social profunda da sociedade brasileira. Evidencia-se cada vez que ocorre um fato anômalo, previsível mas não esperado.


Muito mais grave do que o que aconteceu em Mariana foi o do número de mortos em decorrência da pandemia de covid-19, mais de 700 mil. Pesquisadores dos Departamentos de Física das Universidades Federais do Rio Grande do Norte e da Universidade Federal de Pernambuco desenvolveram um método para calcular a distribuição não homogênea dos efeitos da politização na fatalidade da covid-19.

Os pesquisadores levaram em conta 350 mil óbitos até o final de 2021 e calcularam a correlação entre óbitos e a votação nas eleições de 2018, tendo em conta que o candidato vencedor e seu governo perfilharam um discurso peculiar em relação à pandemia em oposição às recomendações da ciência e dos cientistas.

Roraima, Rondônia e Mato Grosso foram estados com níveis altos de votação em favor do que veio a ser eleito para a Presidência da República. Foram também os estados em que foi alta a fatalidade. Piauí, Bahia, Maranhão, Paraíba e Ceará, estados do Nordeste, onde o eleito não foi majoritário, foi menor a taxa de fatalidade.

Onde a retórica oficial sobre a pandemia foi hostil à ciência, os indícios são de que a população foi menos sensível aos esclarecimentos e aos apelos da ciência, o que provavelmente foi influente nas causas de maior letalidade decorrente. E vice-versa. Onde a prévia opção ideológica e eleitoral não se alinhou com a proposta vencedora, a população, sendo menos vulnerável à retórica anticientífica da direita, ficou mais protegida contra os riscos da doença. De certo modo, o problema já havia aparecido nas reuniões, denúncias e conclusões da eficiente CPI da Covid.

Em momento mais recente, o secretário da Educação do Estado de São Paulo definiu como fatalidade o assassinato de quatro crianças numa escola da zona oeste da capital por um adulto que a invadiu.

Todas essas fatalidades e muitas outras mais, como o brutal linchamento de uma mãe de família, no Guarujá, em São Paulo, há poucos anos, em princípio, tem uma explicação. A sociedade brasileira está cada vez mais mergulhada num profundo estado de anomia, na definição da sociologia. A sociedade já não dispõe, na extensão necessária, de normas e valores sociais de referência para nortear a conduta individual e a conduta coletiva.

Em graus variáveis, a anomia existe em todas as sociedades, em níveis compensáveis pela vontade coletiva em favor de elementos de identidade e de concepções relativas ao primado do bem comum. O que vem sendo chamado de política do ódio tem o deliberado propósito de dividir a sociedade, criar insegurança e medo, tornar a fatalidade mais do que um pretexto, um instrumento de controle social e político. A fatalidade se tornou um poder.

Carta a um otário do 8/1

Se você participou como estrategista, financiador, agente operacional, terrorista ou simplesmente otário na intentona bolsonarista de 8/1 em Brasília, parabéns. Candidata-se a uma temporada numa colônia de férias do Estado, com três refeições diárias, tempo de sobra para ler e banho de sol uma vez por semana, tudo grátis. E, se for um general ou agente público que se omitiu na proteção dos Três Poderes ou apoiou os acampamentos diante do Q.G. do Exército, talvez possa desfrutar também dos confortos da nossa hotelaria prisional.

Tudo dependerá do STF, órgão que você tanto combateu. Os ministros acataram as denúncias oferecidas pela PGR e estão votando para decidir se o tornam réu, assim como a outros 99 dos seus colegas. Se forem aceitas as denúncias —o que você acha?—, serão abertas ações penais e, a partir daí, o STF o considerará apto para o julgamento final. E não fique mascarado, mas você fez por merecer essa distinção. Duvida?

Propagar ideias antidemocráticas, empregar substância inflamável contra o patrimônio da União, deteriorar e inutilizar patrimônio tombado, incitar animosidade das Forças Armadas contra os poderes constitucionais, promover associação criminosa, participar de ação armada para a abolição violenta do Estado Democrático de Direito —leia-se golpe de Estado— e muito mais. Tudo isso é crime, imagine. Coleta de provas? Facílima: você mesmo se fotografou, filmou e gravou abundantemente com seu celular.

Mas eu concordo: é injusto que currículo tão rico seja exclusivo de vocês do 8/1. Todas essas façanhas poderiam ser atribuídas também a Bolsonaro, sem cuja pregação intelectual, psicológica ou de planejamento elas não teriam acontecido.

Em vez disso, enquanto você vê o sol nascer quadrado, Bolsonaro continuará à solta, serelepe, grana no bolso, feliz da vida e tão aí para você quanto esteve para os mortos da Covid.

Bolsonaristas atravessam a rua para pisar numa casca de banana

Quem tem maior poder de fogo para controlar a CPI do Golpe de 8 de janeiro a ser instalada no Congresso? A oposição bolsonarista ao governo? Ou o governo? A princípio, o maior poder de fogo é sempre do governo, de qualquer governo, desde que saiba usá-lo.

Mas isso só não basta. Bolsonaro usou seu poder para impedir a criação da CPI da Covid, e não adiantou. Usou-o para não se desgastar, e não conseguiu. Não foi apenas por incompetência: sua causa era ruim. Ele errou escandalosamente no combate ao vírus.

A causa do governo Lula é muito boa para ele, e a da oposição infeliz para ela. O golpe era para derrubar um presidente eleito. A oposição quer culpar o governo por um golpe que, se bem-sucedido, daria espaço a uma ditadura.

Tarefa absurda, essa, difícil de chegar a bom porto. CPI totalmente dispensável, essa, uma vez que o golpe vem sendo investigado à exaustão por todos os órgãos e instâncias aos quais cabe investigá-lo. Os resultados estão à vista de quem não é cego.


Se o governo contar com a maioria dos votos na CPI, com certeza ela se voltará contra parte da oposição que instigou, financiou e apoiou o golpe, e que agora finge ser inocente e tão somente interessada em que tudo seja esclarecido. Bons moços!

Que tal chamar para depor o ex-presidente Bolsonaro e seu filho Carlos? Como não? Bolsonaro foi quem mais tentou desacreditar o processo eleitoral. Fê-lo mesmo depois de o Congresso ter rejeitado a proposta de restabelecer o voto impresso.

Carlos comandou o Gabinete do Ódio de dentro do Palácio do Planalto, disseminando notícias falsas em benefício do pai. É a voz do dono e, às vezes, o dono da voz. Não é de graça que pai e filho respondem ao inquérito sobre atos hostis à democracia.

O general Augusto Heleno, ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional da presidência, seria um prato cheio de histórias a ser convocado pela CPI. Haveria muito o que lhe perguntar. Assim como ao ex-comandante do Exército, o general Júlio César Arruda.

E Anderson Torres, ex-ministro da Justiça, preso há quase 100 dias? Mandou mapear as áreas onde Lula fora mais votado no primeiro turno da eleição. No dia do segundo, a Polícia Rodoviária Federal bloqueou a chegada às urnas de eleitores de Lula.

Na casa de Torres, a Polícia Federal apreendeu uma minuta do golpe. Ele disse que a recebeu de sua secretária; a secretária negou. Deprimido, 12 quilos mais magro, ele entregou à polícia a senha do celular que diz ter perdido em viagem aos Estados Unidos.

O canário começou a cantar. O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo, negou o pedido da defesa de Torres para libertá-lo. Se ele de fato está disposto a colaborar com a Justiça, a CPI vai querer ouvi-lo, e, por meio dela, o país. Torres sabe muito ou quase tudo.

Bolsonaro passou quatro anos atravessando a rua para pisar numa casca de banana. Ou se preferirem: com boa mira, passou quatro anos atirando no próprio pé. Fez escola. Bravo! Natural que seus seguidores fiéis e sem imaginação façam a mesma coisa.

quinta-feira, 20 de abril de 2023

Este verde repentino

Há uma mágica que só acontece no silêncio do vento, na vontade da natureza do Sertão nordestino: a região pode estar seca como estiver, mas basta chover algumas poucas horas para a paisagem mudar de repente. O ocre deprimido dos matos se transmuta em tonalidades do verde mais verde e esse é o mistério. Em questão de horas, onde a luz e a imaginação alcançam, passa a existir um degradê de alegrias.

É surpreendente a rapidez com que o cenário passa a ser outro, como se a própria vida partisse da água. Eu sempre achei fantástica essa capacidade de refazimento do meio natural. Uma chuvinha rendinha, não digo que seja o suficiente, mas quando chove-de-juntar-água, é o próprio verde quem anuncia que coisas boas virão na sequência. É tanto que se você viu a paisagem seca, e voltar a contemplá-la, já com a terra molhada, a paisagem ou você estará mudado.

No verde-novo os pássaros reaparecem, o cheiro da clorofila enche o ar, os sapos coaxam, o vento sopra como se a manhã se prolongasse por mais tempo. Onde estavam escondidas aquelas folhas do tapete da caatinga, que reapareceram e cresceram tão rapidamente? Árvores como juazeiro, marmeleiro, baraúna, algaroba, que pontuavam dramaticamente a paisagem, igual a um quadro de Vidas Secas, passam a exibir ramagens frondosas. Agora, dão sombra e oferecem-se para os ninhos.

Os pezinhos de alfavaca chegam à beira da estrada, disputando espaços com a acácia, o melão-de-são-caetano e a canafístola de florezinhas amareladas. Passo de carro pelas estradas do Sertão, olhando a paisagem, sem buscar respostas, pois desde cedo aprendi que sou limitado e compreendi que ali há um mistério: o surgimento repentino do verde acusa que a ciência é precária. Que os critérios são frágeis. Que a transmutação acaba com o radicalismo dos céticos, dos sem-esperança. E que os olhos e o coração podem ser enganadores.

Quem gosta dessa breve estação são as abelhas. Lembro-me que era assim que dizíamos, na infância: as abelhas gostam do verde. Se o calor passa da conta, elas não param num canto e migram em enxame. Mas, fazem a viagem de volta e formam colmeia na região, quando chove, porque conhecem as floradas. As abelhas sentem o exato momento da fotossíntese e vêm provar do néctar das florezinhas do muçambê. Agradecem o pólen recebido, pagando em gotas suaves, doces e puras.

Por esses dias, estive no Sertão. Andou chovendo por lá. Na estrada, comparo as diferenças: se nas cidades grandes a gente reclama das chuvas, aqui seria desafiar a Deus. E os deuses, como se sabe, não controlam sua ira. As águas do outono escoam na beira das estradas. Há uma ordem, uma conformidade simples nessas coisas da natureza, como uma obra de arte conexa. É preciso chover para o destino se consolidar como providência.

Mas é preciso reconhecer também que a força da água é igual e contrária, em intensidade, à do fogo do Sol. É ela quem queima com competência, durante a estiagem, o mesmo Sertão radiante. Se através do fogo nada permanece, a água tudo transforma. O ar que sopra é a metáfora de toda mudança e somente a Terra é resiliente. A terra é anterior a tudo, aos processos cíclicos. Terra sertaneja onde tudo é o mesmo elemento, origem e fim. Há uma Física que une tudo.

Viajar ao Sertão é a minha Odisseia. Rever o Sertão é uma batalha entre os mitos que preservo e o meu racional. Uma luta constante contra o esquecimento para realizar o passado, reafirmar a glória dos meus mortos, salvaguardar o futuro. Pelo menos em palavras e fantasias.

Cícero Belmar

Ensino do mapa

Recentemente, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) convidou 15 pessoas para pensarem o futuro da educação no século 21. Fui uma delas. O livro publicado é atualmente usado como guia para reformas da educação de base em diversos países. Daí o incômodo ao ver que, na terceira década deste século, meu país apresenta uma modesta reforma para tirar nosso "ensino médio" do século 19 para o século 20 e, no lugar de avançarmos para a proposta de que o Brasil precisa, forças conservadores tentam impedir essa modesta reforma.

O conservadorismo começa ao ignorar qual deve ser o propósito dessa etapa da educação de base para cada pessoa e para o Brasil. Ao manter o nome "ensino médio", assume que seu papel é servir como degrau ou trampolim para o ensino superior, não como a etapa que prepara o jovem para a vida ao dar-lhe o mapa necessário para viver, usufruir e construir um mundo melhor e mais belo.

Na França, essa etapa recebe o nome liceu e seu último ano é considerado conclusivo; nos Estados Unidos, high school; na Alemanha, gymnasium; na Espanha, educação secundária obrigatória (ESO). Esse sequestro da educação de base pelo ensino superior é recente, para indicar a promessa de que todos devem ingressar na universidade. Promessa hipócrita em um país com 10% de seus adultos analfabetos, onde apenas metade dos alunos conclui a educação de base, destes, no máximo a metade com razoável qualidade, e destes, apenas sua metade, da metade, da metade (12,5%) com formação para seguir um curso universitário com qualidade razoável.

A elite conservadora, que sempre viu a educação de base como o trampolim para seus filhos entrarem na universidade, aceitou, a contragosto, a proposta para criar um sistema compensatório com cotas, bolsas e financiamentos para auxiliar na disputa por vaga em uma universidade. Manteve-se o sistema educacional de base dividido entre escolas casa grande e escolas senzala, escolhendo alguns desses alunos para ascenderem, em geral, a centros universitários que não estão entre os de mais qualidade. Isso é coerente com a cultura nacional, que não privilegia o conhecimento, mas considera que cada pessoa tem direito a um diploma universitário.

Perdeu-se o propósito da educação de base para preparar todos os alunos à vida no mundo contemporâneo: falar e escrever bem o idioma português; ser fluente em pelo menos mais um dos idiomas usados internacionalmente; conhecer os fundamentos da matemática, ciências, geografia, história, artes; debater com competência os temas de filosofia, política, antropologia e sociologia relacionados aos principais temas do mundo moderno; saber usar as ferramentas digitais; dispor de pelo menos um ofício que permita emprego e renda; adquirir solidariedade com os vizinhos, com a humanidade e com a natureza; querer participar da construção de um mundo melhor e mais belo, com desenvolvimento sustentável; ser capaz de obter educação continuada até o final da vida nestes tempos de incertezas e rápida mutação; se quiser, disputar vaga em curso superior de qualidade em condições iguais com todo brasileiro, independentemente da renda e do endereço.

Essa ideia de um "ensino do mapa" para todos exige abolir as escolas senzala, o que requer construir um Sistema Único Nacional Público de Educação de Base com qualidade máxima pelos padrões internacionais. Para tanto, é preciso haver uma consciência nacional pró-educação, pró-conhecimento, não apenas pró-diploma universitário. Essa é a dificuldade.

A elite conservadora não quer oferecer a mesma escola para todos; a elite progressista não coloca esse propósito em seus projetos eleitorais porque ela própria faz parte da classe social que estuda nas escolas casa grande, apartada dos pobres; e estes, por séculos de exclusão, não acreditam que seja possível escola com a mesma qualidade para todos, além de que seus interesses estão nas necessidades para a sobrevivência imediata, sem poder esperar os resultados da educação dos filhos. Falta um instinto nacional pró-educação de base com máxima qualidade para todos, daí uma reforma tardia e modesta é contestada. Nenhum partido e raros líderes políticos defendem uma educação conclusiva que ofereça a todo jovem brasileiro um mapa dos conhecimentos necessários para facilitar a busca individual e familiar da própria felicidade e orientar sua participação social e política na construção de um país melhor e mais belo.

Cristovam Buarque

terça-feira, 18 de abril de 2023

De onde?

 


Um luxo chamado silêncio

Não vou deixar passar em silêncio um tema que tanto aprecio: o silêncio. Numa crônica, Umberto Eco profetiza, e vejo, com inteira razão, que, no futuro, só os ricos terão direito ao silêncio. Mas terão que comprá-lo. Só que o futuro, como diz a mídia, já começou. Os ricos, quase que de uma forma atávica, têm a arte de saberem se isolar; que o digam as ilhas desertas, as propriedades do campo, os recursos tecnológicos, os iates, as mansões bem afastadas dos vizinhos… Enfim, a classe média e os pobres que se virem com o barulho, que, aliás, os cerca de todos os lados, o que não é novidade para ninguém!

O barulho é quase uma definição do que é a modernidade. O sociólogo e antropólogo David Le Breton, em seu ensaio “Du silence”, vai ao ponto: “O único silêncio que a utopia da comunicação conhece é aquele da pane, do desfalecimento da máquina, da parada de transmissão”. Com efeito, cercados de máquinas, temos que aprender a suportar seus ruídos, seus resfolegares, seus apitos. A tecnologia ainda não evoluiu para o silêncio, embora venha tentando.


Curiosamente, há uma máquina cotidiana que Sérgio Porto/Stanislaw Ponte Preta, com seu humor e agudeza, logo definiu como “máquina de fazer doido”: a televisão. Certamente, trata-se de uma das maiores inimigas do silêncio, e isso por uma razão muito simples: ela não se cala, é uma tagarela compulsiva; e quando subitamente se cala, somos os primeiros a dizer: “Está com defeito”. É verdade que há o recurso de “tirarmos o som”, mas só o utilizamos em casos excepcionais, tornando a televisão um tanto ridícula ou esvaziada…

Quer silêncio? Vamos à Antártida. Trata-se do lugar mais silencioso já visitado pelo escritor e explorador norueguês Erling Kagge, autor do admirável livro “Silêncio na era do ruído”. Kagge nos lembra que “[…] o som é um fenômeno físico medido em decibéis, mas não [acha] muito produtivo medir sons usando uma escala numérica. O silêncio se parece mais com uma ideia, um sentimento […] o silêncio mais interessante é o que trago dentro de mim”.

Nesse ponto, ele lembra o Riobaldo, de Guimarães Rosa no “Grande Sertão: veredas”: “O silêncio é a gente mesmo, demais”. O diabo é que, como diz o norueguês, há uma constante fuga de nós mesmos. Enfim, não se suporta bem o silêncio, como viu Pascal, que se assustava com o silêncio eterno dos céus estrelados. Já o barulho é algo que distrai, que nos leva para longe de nós mesmos… Segundo Kagge, nós precisamos criar o nosso próprio silêncio. De qualquer forma, “O silêncio [e assim ele faz eco a Eco] é o novo luxo”.

Do ponto de vista cultural, tanto a Bíblia quanto os judeus e os árabes têm em alta conta o silêncio. Breton, já citado, lembra, a propósito, dois provérbios árabes: “Só abras a boca se tiveres certeza de que o que vais dizer é mais belo que o silêncio” e: “És senhor das palavras que não pronunciaste e escravo das palavras que te escaparam”. Várias culturas africanas também vão no mesmo sentido: a de que podemos nos salvar pelo silêncio.

No mais, o sagrado e o silêncio caminham juntos na história humana. Sobre esse tema, o historiador britânico Peter Burke, no livro “A arte da conversação”, define com oportunidade: “O silêncio religioso é um misto de respeito por uma divindade; uma técnica para abrir o ouvido interior; e um sentido de inadequação de palavras para descrever as realidades espirituais”.

As relações do silêncio com as diversas culturas são de riquíssima palheta. O Japão, dentre outros países, é um caso emblemático, segundo observa o neurocientista Ivan Izquierdo no seu pequeno livro “Silêncio, por favor!”. Não obstante ser um país ruidoso, o Japão conta com “ilhas de silêncio”, jardins ou palácios onde podemos desfrutar de silêncio e serenidade.

Poder-se-ia perguntar: qual de fato o povo mais silencioso? Em hipótese alguma será o brasileiro, como bem sabem os povos que nos visitam ou são por nós visitados… Diz-se que os ingleses são bons de silêncio. Mas a questão, como registra o inglês anteriormente citado, Peter Burke, é controversa. Diz ele: “Os ingleses julgam-se falantes normais, considerando os suecos como sobrenaturalmente silentes, ao passo que os suecos consideram os finlandeses o povo verdadeiramente silente”.

O brasileiro infelizmente passa longe de qualquer amor pelo silêncio. O poeta e cronista Paulo Mendes Campos nos diz, não sem razão, que se queixar de falta de silêncio, ou, noutras palavras, de barulho, é a reclamação mais desmoralizada!

Verdade gritante! Burocratas ou policiais, ou um misto dos dois, sempre nos olham surpresos como se a própria palavra “silêncio” pertencesse a um idioma desconhecido. Por sua vez, Nelson Rodrigues detonava: “Brasileiro vaia até minuto de silêncio”.

Somos um povo de tagarelas? Sim. Barulhento? Sim. Reparem: até a Independência precisou de um grito! No mais, como ironicamente sintetizou Millôr, “Certos silêncios merecem resposta imediata”!

Pessoas são agredidas; ideias, não

O anúncio de uma série da HBO Max baseada no universo do personagem Harry Potter foi acompanhado de pedidos de boicote por parte da audiência. O motivo? A autora da saga, J.K. Rowling, seria transfóbica.

Boicotar é recurso válido no livre mercado. Se uma empresa usa trabalho escravo, consumidores podem escolher outra e aconselhar que os demais façam o mesmo.

Contudo, no caso em tela, é curioso que a ação se deva a uma opinião que não faz parte do conteúdo da série e tampouco é criminosa.

Desde 2020, Rowling sofre cancelamentos por criticar discursos que menosprezam o aspecto biológico do sexo, como: "Se sexo não é real, a realidade vivida por mulheres ao redor do mundo é apagada. Apagar o conceito de sexo remove a habilidade de muitos discutirem suas vidas de forma significativa. Não é ódio dizer a verdade".

Em entrevista, o biólogo Richard Dawkins disse que Rowling sofre "bullying" e que, para a ciência, sexo é binário: "Há apenas dois sexos". Afirmou ainda que o tema foi capturado por uma minoria que produz discursos sem sentido.

Jornais, inclusive no Brasil, afirmam que as falas são de fato transfóbicas. Se a acusação vale para a escritora, pode valer para qualquer um.

Mas, segundo decisão do STF que criminalizou a transfobia enquadrando-a na lei de racismo, impedir acesso a lojas, negar trabalho, ofender ou agredir transexuais, com razão, é crime, mas criticar teses e conceitos do movimento ativista não.

A legislação é sensata, já que pessoas são agredidas, ideias não. Caso contrário, seria impossível criticar o catolicismo, o fascismo ou qualquer outra linha de pensamento —o que travaria o livre debate público necessário, nas democracias modernas, para que nos aproximemos da verdade e encontremos soluções para os problemas que nos cercam.

Não é preciso acusar crime (transfobia) para demonstrar que uma ideia está errada. Na verdade, isso apenas revela fraqueza argumentativa e autoritarismo do acusador.
Lygia Maria 

domingo, 16 de abril de 2023

Brasil protege estudante

 


O ornitorrinco chamado Brasil

O Brasil se presta a muitas comparações. Nos anos 1970, Edmar Bacha nos chamou de Belíndia: leis e riqueza de Bélgica, desigualdade de Índia. Delfim Netto sugeriu Ingana: impostos de Inglaterra, serviços públicos de Gana. Evoluímos para um Dubaiti: privilégios e extravagâncias da cidade de Dubai, vácuo de Estado nas favelas e periferias, à moda do Haiti. Parecemos um ornitorrinco, aquele mostruário de excentricidades, prova viva de que a fidelidade não foi seguida à risca na arca de Noé.

Como o mamífero que, na contramão da sua subclasse, bota ovo, o Brasil é uma mistura de surreal com atraso e pitadas de velhas ideologias. Quase metade da população sobrevive sem acesso a saneamento básico, mas o governo está mais interessado em proteger as empresas estatais que em garantir esgoto e água potável.


Como o mamífero que não tem mamilos, o Brasil é um país rico com cerca de um terço da população abaixo da linha da pobreza. A riqueza existe, mas os canais para sua distribuição não são lá muito ortodoxos.

Assim como o ornitorrinco tem bico de pato, pé de pato e cloaca de pato — mas está longe de ser um pato —, o Brasil tem iniciativa privada e propriedade privada, mas o protecionismo, a burocracia e o patrimonialismo estatal fazem o possível para que não seja uma economia de mercado.

Nas fotos, o ornitorrinco dá a impressão de ser enorme, mas não passa de dois palmos de comprimento. O Brasil é o quinto maior país em área, o sétimo em população e a nona economia — mas continua um tampinha diplomático, um nanico cultural.

Observe o Ornithorhynchus anatinus e a Terra brasilis. O primeiro é um bicho aparentemente fofinho, com esporões conectados a glândulas de veneno. A segunda, lar de um povo que adora memes e inventou o brigadeiro, o pão de queijo, o xaxado, o chorinho, a caipirinha, o chorinho da caipirinha — e deu transcendência ao diminutivo; que chama desconhecidos de “querido”, mistura pizza com abacaxi e dá nó em ChatGPT. Mas tem a oitava maior taxa de violência no mundo: com 2,7% da população do planeta, responde por 20,4% dos homicídios, segundo o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime. Ao contrário do que dizia a personagem da Kate Lyra, o brasileiro (assim como o ornitorrinco) não é tão bonzinho.

Outra boa metáfora é a ex-presidenta Dilma Rousseff. Ela fala um inglês macarrônico e intraduzível, mas dispensa o intérprete. (O Brasil tem educação precária — na formação profissional e na de crianças e adolescentes, está em último lugar no Pisa—, mas engata marcha a ré nos avanços propostos pelo Novo Ensino Médio.)

Ela quase quebrou um país e se acha em condições de presidir o banco criado para auxiliar o crescimento e o desenvolvimento de cinco grandes economias. O Brasil sofre derrotas diárias na guerra ao tráfico, às milícias, à dengue, à evasão fiscal, ao desmatamento e ao garimpo ilegais e quer dar pitaco na guerra na Ucrânia.

Como Dilma, bastava ao país ler o que está escrito — seja na Constituição, nos artigos científicos, nos livros de economia — para que tudo desse certo. Mas insiste no improviso e se embanana todo.

Como exotismo pouco é bobagem, talvez nossa melhor metáfora seja um dilmorrinco.

Por que atacar escolas

Na crônica sombria dos serial killers americanos existe a figura do "copycat", aquele que imita criminosos precedentes. Noutro plano, mas na mesma esfera do crime, também se reproduzem em diferentes regiões os massacres aleatórios, com escolas como alvos preferenciais. Nos EUA são quase semanais, já alarmantes entre nós. Foi traumatizante o assassinato de crianças numa creche.

Ainda não se deu resposta satisfatória à escolha desse alvo. Escola, uma das matrizes da modernidade, é a forma, ao lado de outras (como nação, mercado), pela qual se incorporam saberes e se orientam cívica e profissionalmente os indivíduos. Com esta capa institucional, serve também de adaptação cognitiva ao modo de produção dominante. É dispositivo que metaboliza os parâmetros sociais de reprodução do sistema.

Mas escolarização é o processo interativo acionado pela forma cultural. Isso não se faz sem disciplina, o verdadeiro lastro ideológico da escola. O sociólogo e educador Émile Durkheim sustentava a ideia liberal de uma "autoridade regular" a quem caberia exercer a disciplina indispensável à moral, entendida como um sistema de hábitos e preceitos. Este princípio é indissociável da educação formal.

A isso se contrapõe a mídia contemporânea, cuja forma ideológica, essencialmente neoliberal, pauta-se por persuasão. Por mais que seus conteúdos editem apoios à educação e à ciência, ela é estruturalmente avessa à autoridade escolar. Evidencia-se na lógica do espetáculo e nas redes, onde jogos e anarquia informativa confirmam a crise disciplinar e exacerbam a hostilidade à educação moral.

Árdua é a competição junto aos jovens entre as formas disciplinares e as persuasivas. Estas últimas, com vantagem, guiam-se pelo individualismo neoliberal, cujos parâmetros concorrenciais do salve-se-quem-puder geram ansiedade, depressão e automutilação. Por outro lado, a escola, modelada no século 19 ao modo do controle disciplinar e do púlpito, é tanto objeto de afetos positivos como potencialmente virulentos, movidos pelo rancor.

Nos EUA e no Brasil, a organização carcerária cresce na gestão de corpos educacionalmente desamparados, mas fracassa em termos de reeducação e reintegração social. Nos dois países, cresce também a construção de realidades paralelas pelos sistemas de mídia. A ponte entre elas é o ódio, normalizado nos últimos quatro anos pelo discurso do bestialismo antiescola e anticultura: rastilho de contágio para massacres, já aceso por parte da sociedade eleitoral com o voto extremista. As redes sociais, onde ignorância empodera, são o novo espaço de desinvestimento das forças educativas. A mão que empunha a machadinha tem partido e plataforma digital.

O Brasil voltou! Para onde vamos?

Nestes 100 primeiros dias, Lula já prestou o imenso serviço de trazer o Brasil ao passado anterior a 2019, mas é preciso que acene para o futuro, sintonizado com o mundo adiante, tanto nos riscos quanto nos imensos desafios e oportunidades que surgem para o Brasil, o promissor depositário de recursos para a economia do futuro, baseada em dois capitais: população e natureza. Não temos outra liderança com a sensibilidade, carisma e capacidade de aglutinação do Lula, portanto, não podemos desperdiçar sua presidência apenas e voltar ao passado anterior, até porque o Brasil não estava bem. “O Brasil voltou” ao passado, mas precisa do slogan “o Brasil avança ao futuro”. Mesmo saindo do presente nefasto em que estávamos, voltar é um verbo conservador.

Apenas com o propósito de um passado menos mal que o presente não vamos construir a estrutura necessária para o futuro que desejamos e temos potencial: com eficiência econômica, equidade social, democracia política e sustentabilidade ecológica. Não basta o governo ser novo, ele precisa ser para os novos tempos adiante, com nossos principais recursos: os milhões de cérebros e a imensa biodiversidade que bem usados permitirão aumentar e distribuir a renda, abolir a pobreza, pacificar a sociedade, civilizar as cidades, dar bem-estar à população, oferecer sonhos e esperanças aos jovens.


Respiramos aliviados porque “o Brasil voltou” ao compromisso com a proteção do meio ambiente, mas não definimos como será o progresso sustentável, utilizando a riqueza da biodiversidade. Voltamos ao propósito do desmatamento zero, mas ainda não adotamos a ecologia como questão industrial. Nestes 100 dias, o governo não mostrou um Plano de Metas para a indústria do século XXI, baseada na ecologia e no conhecimento, a economia verde e digital.

Felizmente, Lula trouxe o país de volta do Auxílio Brasil para o Bolsa Família, mas não apresentou a estratégia de como e quando nenhum brasileiro vai precisar de ajuda para sobreviver. O Bolsa Família já tem quase 30 anos, desde que começou no governo do PT no DF; 20 anos desde que FHC levou para o Brasil; mais de 15 desde que foi transformado em Bolsa Família, em 2004, dois anos como Auxílio Brasil. Tomada isoladamente, essa transferência de renda reduz a penúria, mas não elimina a tragédia da pobreza. O futuro exige que esse programa carregue a semente de sua obsolescência, ao ser parte de uma revolução pela educação: a implantação de um Sistema Único Nacional Público de Educação de Base, com a máxima qualidade para todos, independentemente da renda e do endereço da família. Esse seria o rumo para a erradicação da pobreza de forma estrutural e não apenas conjuntural por bolsas e auxílios que os próximos governos poderão acabar por revogação política ou por desvalorização monetária.

“O Brasil voltou”, mas falta proposta de como, ao longo dos próximos anos e décadas de seu governo e dos seguintes, o Brasil vai elevar a produtividade, criar emprego, assegurar que todos terão acesso a água, esgoto, paz nas ruas, moradia, transporte público de qualidade. E a garantia de que isso será feito sem concessão à pior inimiga dos pobres: a inflação.

Em 100 dias não se constrói uma década, mas é possível sinalizar rumos e inspirar cinquenta anos. Graças a Lula, “o Brasil voltou” à democracia e recuperou antigos programas sociais, mas precisa definir para onde e como avançaremos a novos tempos e ambições.

Dois tempos

Agosto de 1955, Estados Unidos — foi sucinta a última recomendação da mãe de Emmett Till, de 14 anos, ao embarcá-lo para visitar familiares no estado sulista do Mississippi:

— Lá não é como aqui em Chicago. Você é um menino negro, não deve arrumar confusão.

Os tios que hospedaram o garoto curioso lhe fizeram advertência semelhante. Também os priminhos da mesma idade falavam em nunca chamar a atenção, mesmo em programas tão inocentes como sair para comprar doces. Foi numa noite daquele agosto escaldante que Emmett entrou no mercadinho Bryant, de propriedade de um branco, acompanhando o primo Curtis Jones. No caixa estava a mulher do dono. Os meninos fizeram a compra, saíram rapidamente e ainda estavam a fazer hora quando a sra. Bryant também saiu para pegar o carro. Um assovio atrevido, insolente, proibido cortou o silêncio e permaneceu no ar. Saíra da boca de Emmett.

— Ele não se deu conta do perigo — relatou depois em livro o outro primo, Simeon Wright.

Na manhã do dia seguinte, o dono do mercadinho e um irmão entraram armados na casa onde Emmett ainda dormia. Levaram o menino até uma camionete que os aguardava.

— É ele? — perguntou o dono.

— É — respondeu uma voz feminina de dentro do veículo.


Passados quatro dias, o que restava do corpo de Emmett foi encontrado no rio de uma cidade vizinha. Cabeça e rosto formavam uma massa desfigurada, monstruosa, de pouca semelhança humana. Emmett fora surrado, alvejado e amarrado com arame farpado antes de ser descartado. A história teria se encerrado ali, como tantas outras à época, pois os irmãos assassinos foram rapidamente absolvidos por um júri supremacista. Não foi assim. A história entrou para a História.

Mamie Till recebera os restos mortais de Emmett em caixão fechado, por via férrea. Ela sabia que o enterro em Chicago seria concorrido, por isso decidiu expor o amontoado de carne que um dia foi seu filho num caixão com tampo de vidro, sem retoques. O impacto sobre familiares, amigos, a comunidade negra e demais participantes foi irreprimível — documentários da época mostram desmaios, mulheres em agonia, outras tantas em choque. O amor e a tenacidade dessa mãe em dor fizeram mais. Mamie percorreu inúmeras redações de jornal pedindo que publicassem fotos do filho em vida, sorridente, junto à dele trucidado. De início, somente publicações negras em luta pelos direitos civis aceitaram. Mas a realidade acabou se impondo, e quem ainda hesitava em condenar o arcabouço racista da nação americana sentiu-se encorajado a entrar na luta. Historiadores consideram a caso Emmett Till, anterior ao caso Rosa Parks, o marco inicial da frente ampla que marcharia até conseguir mudar as leis segregacionistas uma década depois.

— Foi quase insuportável sentir o horror das pessoas ao ver meu filho [naquele estado] — declarou Mamie Till à época. — Mas pensei que a alternativa seria ainda pior. Desviamos o olhar da nossa cruel realidade por um tempo longo demais. Sem a exposição, ninguém acreditaria. É hora de o mundo ver o que eu vi.

Não só o mundo viu, como continua vendo. Em 2005, por motivos forenses, o corpo de Emmett teve de ser exumado e o caixão trocado. A família decidiu então preservar o caixão original e pensou em doá-lo a alguma entidade de direitos civis. Foi contactada por ninguém menos que o colossal Smithsonian Institute e, desde então, o artefato faz parte do acervo do Museu Nacional da História e Cultura Afro-Americana, na capital do país.

— Nunca imaginamos que chegaríamos a tanto — admitiu Simeon Wright à revista Smithsonian. — Visitantes do mundo inteiro vão poder saber por que aquele caixão está ali. E mães, pais ou algum curador haverão de contar a história (...) Quando ninguém faz nada para defender o Estado de Direito, a sociedade se destrói sozinha.

Abril de 2023, Brasil — na semana passada, dois casos registrados em vídeo conseguiram furar nossa acomodação ao cotidiano racista do país. No Rio de Janeiro, o entregador Max Angelo dos Santos, morador na Rocinha, não sabe como contar aos três filhos que foi chicoteado com coleira de cachorro por uma moradora branca de São Conrado. A troco de nada. Ou melhor, por ser negro.

— Complicado uma criança assistir a um vídeo desses, é bem pesado — disse.

A agressora, Sandra Mathias Correia de Sá, ex-atleta de vôlei, já o chamara de “marginal”, “preto”, “favelado” em ocasião anterior, apenas pelo fato de o entregador usar o mesmo espaço público — a rua — que ela.

Em Curitiba, a professora Isabel Oliveira, que fora a um supermercado Atacadão comprar leite para a filha, sentiu-se seguida no estabelecimento por mais de meia hora por um funcionário da casa. “Isso não pode ser normal”, pensou. E não aceitou. Resolveu usar o corpo negro como grito de afirmação. Com o testemunho do marido, que filmou a cena, retornou ao Atacadão, ali desnudou-se e entrou na fila do caixa vestindo apenas calcinha e sutiã, e uma pergunta rabiscada na própria pele:

— Eu sou uma ameaça?

A coleira que chicoteou o entregador Max poderia constar de algum museu do racismo no Brasil de 2023. O basta da professora Isabel aponta para um amanhã sem paciência com a grande perversidade nacional: o racismo.