Michelle Bolsonaro deveria tomar um gancho nas redes sociais. Mas, assim como fake news, intolerância religiosa parece também não ser um problema para as plataformas. Dona Micheque, como ficou conhecida por causa dos R$ 89 mil depositados em sua conta por Fabrício Queiroz, relacionou um ritual de candomblé a "trevas".
No vídeo em que Lula aparece com lideranças religiosas, a vereadora Sonaira Fernandes diz que o ex-presidente "entregou sua alma para vencer a eleição". Dona Micheque pergunta se "isso pode". É uma pergunta retórica, a primeira-dama sabe ou é preconceito. Pode. O Brasil é laico, tão laico que pode até filial da Igreja Satânica, que tem sede em Massachussetts e foi criada menos por adoração ao diabo e mais para provocar gente intolerante feito Michelle.

Dias atrás ela havia dito que o Planalto era "consagrado a demônios". Ainda que Michel Temer pareça uma reencarnação do Drácula e tenha feito conchavos com gente da pior espécie, é um exagero. Bolsonaro entregou a alma e o cartão de crédito dos brasileiros ao centrão e continua posando de cristão.
O presidente quer Michelle em campo para diminuir sua rejeição entre o eleitorado feminino. Só se for entre o eleitorado feminino evangélico. Em poucas aparições, a primeira-dama mostrou que só quer conversa com gente que reza a mesma reza. Tal qual Bolsonaro, que continua em campanha para os mesmos convertidos de sempre, Michelle só tem um argumento para a reeleição do cônjuge: Deus quer.
Que Deus é esse? Trevas é rachadinha, amizade com miliciano, gente com fome, briga que acaba em morte, orçamento secreto, quase 700 mil mortos pela Covid, exaltação ao jet ski, motociata, ataques ao sistema eleitoral, piada homofóbica. Trevas é ter que escrever carta contra golpista em 2022. Trevas é o delinquente do Bolsonaro como presidente. Que a democracia nos ilumine.
Comprem suas armas, comprem suas armas. Isso também está na Bíblia. […] ‘Vendam suas capas e comprem espadas’
Jair Bolsonaro
Quantas palavras de baixo calão, referências homofóbicas, piadas misóginas e menções racistas não saem todos os dias da boca de Bolsonaro em dissonância com a imagem que ele tenta vender de chefe de família exemplar, defensor dos bons costumes, religioso ao ponto de ter sido batizado nas águas do rio Jordão, em Israel.
Local de milagres, o rio Jordão foi cenário para diversas histórias da narrativa bíblica. Ali, Bolsonaro, em 2016, quando já plantava as sementes de sua futura candidatura a presidente, foi batizado pelo pastor Everaldo, então presidente nacional do PSC, partido ao qual ele era filiado. O pastor foi preso depois por corrupção.

O que causa perplexidade é que condutores do rebanho evangélico, a parcela mais fiel do eleitorado de Bolsonaro, responsável pelo segundo lugar que ele ocupa nas pesquisas de intenção de voto, não o censurem por mais que ele se renda aos seus instintos mais primitivos. Nessas ocasiões, fazem de conta que não o escutam.
A religião evangélica está repleta de pastores picaretas, apenas interessados em enriquecer, que acenam com uma vaga no céu em troca do dinheiro alheio. Mas não dá para medir por seu comportamento falso e criminoso a sinceridade da fé que move os que lhe dão ouvidos e acreditam em suas palavras.
Disso eles se valem para construir fortunas; disso se valem também Bolsonaro e seus filhos para se manter no Poder, e prosperar nos diversos ramos que exploram com base nas posições conquistadas. Flávio gosta mais de votos e conforto; Eduardo, de armas, cassinos, cursos digitais. Jair Renan é um aprendiz.
Nascida em família de baixa renda, Michelle, a quarta mulher de Bolsonaro, o conheceu na Câmara como servidora pública. À época, Bolsonaro padecia do mal de ter sido traído. Entre tapas e beijos (isso é só força de expressão), os dois souberam atravessar anos difíceis até que as portas do céu se lhes abriram.
Depois de muitas vezes comer pão amargo (outra força de expressão), Michelle provou do mel (mais uma força de expressão) de tornar-se a primeira-dama de um dos maiores países do mundo. E quem prova do mel nunca mais quer abrir mão de bebê-lo. Se tiver que abandonar a discrição, é o preço a ser pago.
Na cerimônia de posse do marido, Michelle limitou-se a bancar sua porta-voz na linguagem de libras; fez sucesso e abandonou o palco. Preferia atuar a salvo do julgamento da plateia. Comparecia aos eventos que não podia faltar, e em mais de um deles a força que exercia sobre o marido foi notada.
Aos poucos, pôs a cabecinha de fora e mostrou que também podia mandar. Foi ela que pesou decisivamente na nomeação de André Mendonça para ministro do Supremo Tribunal Federal. Bolsonaro vetou a candidatura ao Senado de Damares Alves, ex-ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos; Michelle bancou-a.
É o contraponto perfeito ao marido – ele, um cafajeste travestido de presidente e com vocação de ditador; ela uma mulher que cultiva os bons modos e é religiosa de berço, não por conveniência. Uma parte dos seguidores de Bolsonaro admira suas canalhices. Uma parte maior, o apego fervoroso de Michelle a Deus.
Em maio último, na entrevista de Bolsonaro ao programa Alerta Nacional, da RedeTV, Michelle fez uma concessão à vulgaridade do marido. À pergunta sobre se ele estava “dando conta em casa”, respondeu que ele é “imbrochável”, “incomível” e “imorrível”. No lançamento da candidatura de Bolsonaro, foi outra Michelle:
“Quando o [Palácio do] Planalto se fecha, eu entro com meus intercessores e oro na cadeira dele. E eu declaro todos os dias: Jair Messias Bolsonaro, sê forte e corajoso, e não tema. Ele é o escolhido de Deus”.
De tempos em tempos, desisto do Brasil. Estou desistindo novamente agora. Além de renunciar às urnas, resolvi renunciar também ao nosso site. A partir de hoje, vou parar de escrever para a imprensa. No caso, O Antagonista e a Crusoé.
O plano é me dedicar a atividades mais gratificantes do ponto de vista intelectual e espiritual. De fato, pretendo passar meus dias deitado no sofá, tirando meleca do nariz. Quanto tempo isso vai durar? O trato é permanecer um ano de folga. Pode ser mais, pode ser menos. A única certeza é que vou me abster de comentar a campanha eleitoral, os debates na TV, o resultado do primeiro turno, a festa do vencedor, os nomes dos ministros, as tentativas de golpe, a compra dos parlamentares. Sinto-me revigorado só de ver essa lista.
É claro que há reciprocidade nisso. Eu desisti do Brasil, o Brasil desistiu de mim. Ninguém está disposto a ler pela trigésima-oitava vez os mesmos comentários sobre os mesmos assuntos. Eu já disse o que tinha a dizer. O afastamento, portanto, é consensual. O Brasil e eu enjoamos um do outro. Vou sair de mansinho e o leitor nem vai notar.
Estupidamente, eu havia prometido me atirar do campanário de São Marcos em caso de segundo turno entre Lula e Jair Bolsonaro. A aposentadoria precoce foi o jeitinho acovardado que arrumei para descumprir a promessa. É uma espécie de terceira via particular. Minha vida vai virar uma Simone Tebet: estreita, tediosa, supérflua e sem brilho, mas longe daquela gentalha fedorenta que há vinte anos embosteia meu dia a dia.
Diogo Mainardi
Com 86 anos, estou exatamente no futuro que duramente construí quando jovem. O presente promove futuros. Escolhas realizadas agora predispõem futuros. No nosso caso, um futuro glorioso aprisiona um Brasil de presentes vergonhosos.
Pois mesmo com um debate político inibido, e reacionariamente evitado, ainda ouvimos que todos os nossos problemas serão resolvidos num utópico amanhã, porque, hoje, resolvemos o meu ou (se você for dos nossos) o seu problema.
As questões mais agudas como o repensar a educação, como fez Anísio Teixeira, a gente deixa para os corajosos, os sinceros e os honestos do futuro. “No futuro tudo se resolve...” – porque, abandonando a ele as tarefas, lavamos as mãos.
O problema é que o futuro chegou com toda força, mas só agora nos damos conta que há nele um pesado passado. Um passado escravocrata, feito de uma elite traficante e de negros que eram máquinas.
Amaciamos o justo clamor do movimento negro falando que o problema é a pobreza. Mas os pobres podem melhorar de vida e nela “subir” virando ricos, como ocorre com os gloriosos atletas e artistas. Mas os pretos continuam pretos! O papel de preto não é negociável e, na maioria das circunstâncias, é agravante contra a aparência.

Ah! A famosa aparência ou o “jeito” de fulano ou sicrano que negocia a sua figura e a cor de pele. Uma razão estética que acompanha a oculta hierarquia nacional brasileira. O “jeito da pessoa” – a aparência (feio ou bonito, nervoso ou calmo...) – certamente ajuda. Nas sociedades que territorializaram etnias inventando a segregação – como demonstra claramente o caso dos EUA com seus bairros pobres de judeus, italianos, gregos, latinos e brasileiros – o “jeito” é impensável. O foco é na diferença mais expressiva e, na maioria dos casos, surgem o rosto, a cara e o cabelo, os lábios e o nariz que são inegociáveis. Por isso a negritude é um estigma que hoje, neste futuro inesperado, no qual dois candidatos esvaziam o jogo democrático debaixo de um esquemático e brasileiríssimo combate entre uma direita e uma esquerda, poucos enxergam que nenhum dos dois tem lealdade à democracia.
O futuro mágico é um mito destinado a manter o passado. É equivalente às exortações religiosas de paciência e sacrifício, porque o tempo passa e com isso as coisas mudam por si mesmas. O arianismo que iria branquear o Brasil estava no futuro. Hoje, quase na metade do século 21, nos deparamos com uma história política regressiva (e reacionária), negacionista e vazia de programas. Um aqui e agora marcado pelo “salva-se quem puder”. É esse o Brasil do futuro que minha geração esperava?
Na recente Marcha para Jesus em São Paulo, Bolsonaro fez uma fala sobre o cenário econômico atual e o que ele espera dos evangélicos. Ele disse: “Problemas todos nós temos; os materiais são passageiros. Os espirituais deveriam nos preocupar, sim”.
Trata-se de um princípio da pregação do cristianismo que baseia a purificação humana no sacrifício do indivíduo. Quanto maior o sofrimento, mais puro o cristão. Na maior abnegação, mais possibilidade de agradar a Deus.
O pensamento não é novo. É possível identificá-lo em vários momentos da História como forma de dominar o povo.
Ao usar este artifício, Bolsonaro tenta fazer o povo se ater nos fatores aparentemente espirituais e banaliza problemas práticos do dia-a-dia. Fome e desemprego remetem às coisas materiais e assim poderiam ser de menor importância, afinal, o evangelho é renúncia. Quem valoriza mais o alimento do que as coisas espirituais, estaria errado. É um materialista.
No momento em que a situação econômica leva o Brasil para o mapa da fome novamente, dizer a um pobre cristão que a comida é menos importante e que ele obterá mais valor espiritual se abdicar disso é a arma perfeita para controlar o grito por comida pela própria sobrevivência. É o jejum da população mais pobre para purificar a alma dos mais ricos.
Bolsonaro mexe com o sentimento mais profundo dos cristãos mais simples mas ele mesmo não almeja fazer sacrifício material por ninguém. Continua gastando dinheiro público indiscriminadamente, queimando litros de gasolina em motociatas enquanto o povo faminto luta para conseguir manter-se de pé, sem forças para caminhar.
As lideranças religiosas omitem propositalmente o valor que o próprio Jesus deu para a alimentação. Jesus jamais chamou comida de “coisas materiais” mas condenou o amor ao dinheiro.
Um dos milagres que Jesus fez mais de uma vez foi alimentar multidões. Além disso a bíblia está repleta de milagres relacionados ao alimento, resultantes da compaixão de Deus pelo povo faminto.
O discurso bolsonarista mantém o povo evangélico preso pela espiritualização falsa das pautas morais, pelas quais valeria a pena qualquer sacrifício mas a cada dia que passa fica mais difícil manter a atenção dos fiéis visto que na hora de orar, o prato está vazio na mesa.
Evangélicos estão colocados de forma cruel diante de um dilema: comida na mesa para viver aqui na terra ou a purificação para entrar no céu?Andressa Oliveira, integrante da coordenação estadual do Movimento Negro Evangélico no Rio de Janeiro
Sem tempo de respirar entre uma e outra das muitas mortes sem causa, no modo bangue-bangue, segue o Brasil. Aqui, civis têm mais e melhores armas do que as PMs todas.
Em São Paulo, no fim de semana, tiro na cabeça matou o campeão mundial de Jiu-jitsu, Leandro Lo, 33 anos. Estava em um clube. Assistia a um show.
O assassino? O tenente PM Henrique Otávio Velozo, 30 anos de vida, já condenado por agressão e desacato a um colega de farda – em 2017. Também numa casa noturna. Um dia, mataria.
Motivo para o assassinato do lutador? Precisa?
Houve discussão envolvendo uma garrafa de cerveja. Aconteceu troca de socos, o PM acabou imobilizado pelo lutador. Perdedor no embate físico, Velozo sacou a arma e atirou na cabeça de Leandro. Encerrou com chutes no corpo – caído e quase sem vida – de Leandro. Finalizou.
Foi embora. Como se tivesse esmagado um inseto.
No domingo, 7, em Belford Roxo, RJ, Edson Romário Figueiredo de Souza, 29 anos, separou briga do amigo Gabriel Fonseca, de 24 anos, com outras pessoas. Participavam de um evento. Ao saírem, Edson e Gabriel foram perseguidos pelos agressores e baleados. Edson morreu no local.
Quanto vale a vida de um brasileiro hoje?

No final dos anos noventa, entrevistei um matador do interior da Piauí. Profissional, tinha tabela de preços por trabalho. Morte de figurões – advogados, prefeitos e delegados – era o serviço mais caro.
Não me lembro dos valores exatos, mas não passavam de 10 mil. Um “troco” nos dias de hoje.
Os segundos na tabela de preços eram vereadores e radialistas. Morte de padre tinha preço sujeito a consulta.
Debochado e/ou para me assustar, fez questão de mencionar que o menor preço era “pra estrebuchar mulher”. Fazia até por menos de mil reais.
“Se a causa da encomenda for chifre rasteiro ou topete, faço até de graça. Só por diária da tocaia e da fuga”, detalhou.
“Chifre rasteiro” definia como traição ao marido com “qualquer pé de chinelo”. “Topete”, traduziu, era “enfrentação do macho”. Coisa de mulher causadeira, queixo duro com marido, pai ou patrão.
Se ainda vivo, o matador do Piauí – dos preços módicos – deve estar na fila do Auxílio Brasil.
No Brasil de hoje, mata-se sem intermediários. Nem causa. Rememorando linguagem antiga, mata-se pra desopilar o fígado. Por desfastio, por irritação momentânea. Por qualquer coisa.
Topetudas ou não, causadeiras ou não, mulheres seguem sendo carne barata no mercado da morte brasileiro. Morrem como formigas. Majoritariamente pelas mãos (e/ou pés) de alguém que um dia amaram.
A cada sete horas, acontece um feminicídio no Brasil – por bala, faca, porrada ou fogo. Não há dia sem manchetes sobre feminicídios. O que a lei define como assassinato de mulheres cometido em razão de gênero. Simplificando, foi morta por ser mulher. Talvez topetuda.
Em 2021, 56.090 mulheres foram mortas por serem mulheres.
Aqui e agora, violência e mortes não têm nada a ver com polarização política-ideológica. Crescem e resultam da fomentação ao desprezo e ao ódio pelo desigual.
Mulheres são a maioria dos desiguais. “Enfrentadeiras”, que ousam dizer não. Como se seu direito de dizer algum não fosse igual a todos os muitos direitos dos machos? Pela ousadia, morrem mais.
No Brasil, cada vez mais armado e violento, viver é negócio muito perigoso.
Num domingo de sol, mãe e filho, de mãos dadas, têm desejo de atravessar a rua e ir molhar os pés no mar. Há tempo e espaço para a travessia. Eles só não contam que lá vem uma motocicleta, pilotada por um jovem, louro e belo, de 25 anos.
A velocidade da moto é de 150 km/h. O belo louro Bruno Krupp nem tem habilitação para pilotar motos. Mas já tem no currículo de vida vários casos de estupro. Não respeita mulheres. Não aceita não. Um dia, mataria.
Bum! Lá se vai a vida do menino, João Gabriel, de 14 anos que, ali, só desejava por o pé na areia, apreciar o mar.
O assassino do campeão de jiu-jitsu, tenente PM, que não respeitava os colegas de farda, respeitaria outro qualquer?
Um dia mataria. Assim, por nada. Matou.
Os assassinos de Edson, lá em Belford Roxo, armados, iam deixar pra lá alguém que, de alguma forma, os irritou?
Mataram.
Violência é sempre resposta de quem não tem razão – na causa. Nem têm a humana capacidade de raciocinar, apreender e compreender.
A polarização mais perigosa que vivemos está entre os que têm capacidade de raciocinar, apreender e compreender para julgar e os que não alcançam essa capacidade – esses, armados e/ou motorizados, matam. Com tiro, faca, porrada. Ou moto.
Atenção à competitividade eleitoral de Bolsonaro. Está vivo. Nunca esteve morto. Semeia o caos com uma mão, investindo no 7 de Setembro permanente; e, com a outra, extrai os frutos da parceria que multiplica gabinetes paralelos e distribui codevasfs. Os frutos: o pacotão de estímulos por meio do qual despejará bilhões — o Tesouro bancando a campanha pela reeleição — até o final do ano. Concorre para a instabilidade, mas vai disputar os votos.
Se “é a economia, estúpido!”, o presidente faz — já fez — seu jogo. Contra a inflação, maquia a inflação — e contrata inflação mais duradoura.
Não há limites.
O orçamento secreto — expressão da sociedade entre o lirismo parlamentar e o Planalto — anaboliza a musculatura do sistema. O sistema — Supremo incluído, que não cumpre a missão constitucional de barrar a emenda do relator — trabalhando pelo anti-establishment. Agora é tarde. O anti-establishment virou sócio de Arthur Lira e Ciro Nogueira. O presidente, um autocrata, costurou capilaridade para si, Brasil adentro. Daí que seja estupefaciente a subestimação de suas chances em outubro. Escrevi a respeito em março. O governo sempre pode muito. Um sem limites, então.

E foi a um sem limites que o Parlamento ofereceu exceção à lei eleitoral. Licença para gastar, ao aterramento das regras fiscais. Bolsonaro vai crescer. Não sei até onde; não sei se suficientemente para vencer. Sei que crescerá. Nenhum incumbente, com a máquina que controla, promove tamanha derrama sem colher popularidade.
Não há limites.
O país tem um ministro da Economia cuja relevância — plantada por ele mesmo — estaria no que “não deixa fazerem”. É condição inaferível. A não ser que relatasse à sociedade o que não terá deixado passar. E que se note, para que não nos esqueçamos de que Paulo Guedes não exerce papel de controle externo. Está bem lá dentro. De modo que: não deixaria passar iniciativas espúrias de seus próprios pares, do presidente pelo qual opera. Quem serve — por tanto tempo — a uma gente capaz de propor encaminhamentos ainda piores do que os que prosperaram?
O que será mais torpe do que crédito consignado sobre o Auxílio Brasil?
O que Guedes impediu? Desde onde observo, tudo quanto veio passou; mas com artifício tipicamente bolsonarista: fica menos bárbara uma solução que se deixa para tomar à véspera, tanto mais se em benefício dos pobres. O ministro aprendeu a jogar com a forja chantagista do sentido de urgência. Arrumou R$ 60 bilhões — e a tunga crescerá — instrumentalizando a miséria; fatura em que consta a desoneração da gasolina para os ricos.
Não há limites.
Se você ainda duvida, olhe para a celebração de superávit em 2022. “O primeiro ano no azul desde 2013” — comemora-se. Um governo sem limites; que festeja resultado fiscal positivo ao mesmo tempo que empreende programa de gastos sem precedentes.
Não está para brincadeira uma turma que enche a boca para falar de superávit meses depois de haver formalizado o fim do teto de gastos. Guedes nem ruboriza. Fala, agora, em teto retrátil. Ele me lê. Está atrasado, porém. O teto era conversível quando da PEC dos Precatórios. Naquela época, toda vazada, ainda havia alguma cobertura a flexibilizar. Faz tempo. Foi o início do processo que resultaria — com a PEC Kamikaze — no destelhamento absoluto.
O ministro tem razão: não furarão mais o teto.
Não bastará a cara de pau. A turma aposta na desmemória. E aí talvez cole o embuste de comemorar contas no azul depois de rolados — pedalados — R$ 50 bilhões em precatórios. Aqui, não. Até eu faria gordura assim. Empurrando dívidas para frente. Bancando-me do produto da inflação que se quer combater. Antecipando tudo quanto pudesse em receitas. Lembro os lucros abusivos da Petrobras, consequência da política de paridade de preços. Um estupro! Mas eu quero. Me dá aqui. Superávit.
Não veio a brincar uma galera que se jacta de fabricar superávit enquanto promove gambiarras constitucionais para gastos ilimitados cuja fatura — informa o próprio governo — impedirá resultados fiscais positivos nos próximos anos. A turma que celebra exercício azul em 2022 é a mesma cuja porteira escancarada pela reeleição determina déficits em 2023 e 2024 — para começo de conversa. É o menor de nossos problemas.
A conta aumentará. O dinheiro abunda e escoa hoje. As receitas são extraordinárias. As contas vêm para ficar. Há muitas notas penduradas ao porvir. Mais virão. As receitas, obra das circunstâncias, logo se vão. Gastamos hoje. Nos endividamos hoje. A fatura permanecerá. Ecoará. Estamos nos encalacrando para financiar a campanha de Bolsonaro. Somos doadores compulsórios. Pagamos o Vale Alvorada para o mito.
Superávit na onda da PEC dos Precatórios e do imposto inflacionário, enquanto produz efeitos a PEC Kamikaze. Não há limites. Mas a plateia aplaudiu. É esquecida. Lembro o limite de Guedes: se mexessem no teto de gastos. Limite retrátil?
Antes de adquirirem seus privilégios de consumo, os ricos e as classes médias dos países desenvolvidos enriqueceram a sociedade onde viviam. Enriqueceram, desempobrecendo o país. Puderam ser ricos depois de distribuírem renda e os serviços básicos à população. Para isso, investiram em educação, ciência, tecnologia, inovação, competitividade para aumentar a produtividade e a renda per capita. No Brasil, desde seu início, a elite preferiu adquirir privilégios concentrando renda, sem esperar aumento na produtividade e na renda social. Escolheu o caminho de concentrar a pouca renda de muitos para dar renda elevada a poucos: a riqueza com pobreza.
Graças a essa concentração, apesar da baixa renda per capita do país, nossa minoria rica sempre teve padrões de consumo e de serviços superiores às elites dos países desenvolvidos. Dispõem de moradias luxuosas, em áreas urbanizadas com recursos negados aos pobres, que vivem sem água, nem tratamento de esgoto. Os filhos estudam em escolas especiais, a custos que vão até 30 vezes mais do que os gastos do setor público com as crianças pobres. A riqueza brasileira foi construída sobre a pobreza, da mesma forma que até 1888 era sobre a escravidão, substituída pela apartação.

Para manter a opção de formar riqueza concentrando renda, o Brasil precisou manter sua sociedade dividida: de um lado os ricos, quase sempre brancos, de outro, os pobres separados por muros, catracas, crachás, contas bancárias. Sobretudo em escolas separadas, para perpetuar o vicioso círculo da pobreza que passa de pai para filho. Essa opção não dura para sempre. A desigualdade já obriga os ricos brasileiros a morarem fora do Brasil — verdadeiro ou no exterior.
A minoria privilegiada brasileira está tão viciada em seus padrões de vida que não adianta pedir-lhe sacrifícios para melhorar a vida dos mais pobres. Ao contrário, cada vez que fica difícil manter a desigualdade, no lugar de distribuir, opta por concentrar mais. Para se proteger, prefere a prisão de ouro dos condomínios fechados, no lugar de pagar mais impostos para colocar saneamento nos bairros; escolhe gastar fortunas em escolas privadas dos filhos, em vez de apoiar a implantação de um sistema público gratuito para todos; aceita ficar horas presos no trânsito, a financiar e usar transporte público de qualidade. Adora andar de metrô na Europa, mas aqui investe na infraestrutura viária para seguir nos carros privados com vidro fumê.
É preciso ajudar os ricos para que não se afoguem no excesso de riqueza. Ajudá-los a salvar seus filhos isolados do Brasil em condomínios fechados, escolas especiais, shoppings comerciais, mentes egoístas e imediatistas; dependendo de seguranças ou obrigando-os a emigrar para o exterior, perdendo o país deles. A maneira de salvar os ricos é elevar as condições educacionais de todas as crianças e com isso aumentar a produtividade para gerar renda social elevada e distribuí-la, conforme o talento e o esforço de cada pessoa.
Ajudar os ricos é convencê-los de que, com menos privilégios exclusivos, poderiam viver melhor em um país educado e com boa distribuição de renda: uma riqueza sem pobreza no lugar da atual riqueza graças à pobreza. Não precisarão viver confinados, nem emigrar. Ajudar os ricos é convencê-los de que escola de qualidade apenas para seus filhos não enriquece o país, porque cada cérebro sacrificado é um capital perdido para todos os brasileiros. A salvação dos ricos exige elevar a renda social graças ao aumento da produtividade na economia e distribuí-la com justiça. O caminho é educação de base para todos.
O vício da elite, ao longo dos 500 anos de escravidão, desenvolvimentismo, império, república, democracia e ditadura impedem entender que a distribuição de renda e o investimento em educação, saúde, transporte público elevariam a qualidade de vida dos próprios ricos. A elite não será convertida, moral ou politicamente, a perder privilégios que há séculos a viciou e cegou. Prefere o suicídio, naufragando nas ruínas sociais de um país mergulhado na pobreza e na injustiça, para manter a insustentável riqueza que deslumbra no presente, mas asfixia o presente. É preciso ajudar os ricos a serem egoístas-inteligentes, buscarem sustentabilidade para a riqueza, fazendo-os perceberem que serão mais ricos na proporção que a pobreza diminui.
Por falar nos centenários de 2022 que passaram em branco por falta de espaço, tivemos, em 17 de abril, o de Max Nunes. Sim, o misto de médico e gênio do humor, criador da dupla Primo Rico e Primo Pobre (do programa “Balança Mas Não Cai”, de rádio e TV) e de vários personagens de Jô Soares. Tive a honra de organizar dois livros com as frases de Max: “Uma Pulga na Camisola” (1996) e “O Pescoço da Girafa” (97). Eis algumas.
“O dinheiro corrompe. Mas só quem não o tem.” “Duplicata é essa coisa que sempre vence. Nunca empata.” “Antes, a união fazia a força. Hoje, a União cobra os impostos e quem faz a força é você”. “Anda tudo tão caro que até quem desdenha não quer mais comprar.” “Mesmo com salário de fome, os professores do 1º grau não deixam de ir à escola. Mas é por causa da merenda.”

“Houve um tempo em que os animais falavam. Alguns continuam.” “Se Abel tivesse sido assassinado no Brasil, até hoje ninguém saberia que o criminoso foi Caim.” “Todo erro deve ser esquecido. Por isso, quando o povo erra a polícia passa a borracha.”
“O difícil de confundir alhos com bugalhos é que ninguém sabe o que são bugalhos.” “Há certas coisas na vida que a gente não pode deixar passar. Principalmente se for goleiro.” “A polícia descobriu 100 quilos de cocaína no aeroporto. A droga tinha sido colocada no nariz do avião.” “Manchete de jornal: ‘Incêndio na fábrica de sorvete! Em poucos minutos, o fogo lambeu tudo!’”
“No Brasil também existe pena de morte. Mas só para a vítima.” “Opinião é uma coisa que a gente dá e, às vezes, apanha.” “Com quantas mentiras se faz um desmentido?” “No dia em que o porte de armas for proibido para os militares, aí, sim, haverá paz.” “Na minha rua mora um general/ Cara de mau/ Como convém a todo general./ Ninguém sabe em que batalhas/ Ganhou a série de medalhas/ Que ostenta no peito varonil./ Também, pra que saber?/ Viva o Brasil!”.
O governo de Jair Bolsonaro opera em 2022 com o foco em medidas de curto prazo para melhorar a popularidade do presidente, não importando o efeito sobre a credibilidade das instituições fiscais do país. Iniciativas com horizonte de poucos meses terão impacto duradouro. Há reduções de impostos baseadas no pressuposto de que o aumento corrente de receitas será permanente, afetando a situação fiscal futura de Estados e municípios. Elevações de gastos previstas para vigorar apenas no segundo semestre devem se perenizar. Há ainda adiamento de despesas - caso dos precatórios - que poderão gerar uma bola de neve de dívidas nos próximos anos.
Algumas dessas medidas foram tomadas por meio de Propostas de Emenda à Constituição (PEC), banalizando um instrumento que deveria ser usado de modo criterioso. Para completar, iniciativas de estímulo à demanda ocorrem num ambiente em que o Banco Central (BC) se esforça para derrubar uma inflação que roda na casa dos dois dígitos há quase um ano. Com isso, os juros terão de ficar mais altos por mais tempo.

Um dos resultados dessa estratégia populista é turvar o cenário à frente. Em julho, o Indicador de Incerteza na Economia (IIE) da Fundação Getulio Vargas (IIE) subiu pelo terceiro mês seguido, atingindo 120,8 pontos, um nível historicamente elevado - números acima de 110 pontos são considerados altos.
Para o economista Livio Ribeiro, sócio da BRCG Consultoria, está em construção um quadro futuro recheado de dúvidas - nas receitas, nas despesas e nas regras fiscais gerais. Ele ressalta o aumento do custo médio do endividamento do governo. Nos 12 meses até junho, o custo médio da dívida pública federal ficou em 10,9% ao ano, bem acima dos 7,18% de junho de 2021.
“O perfil das receitas é perigoso”, adverte Ribeiro, também pesquisador associado do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre). Há uma piora das perspectivas para os preços de commodities que ajudaram a engordar os cofres públicos, como petróleo e minério de ferro, dada a perda de fôlego da economia global.
O cardápio de medidas populistas patrocinadas pelo governo Bolsonaro é extenso. Os efeitos de algumas decisões serão sentidos muito além do segundo semestre, podendo atingir a situação estrutural das contas públicas. Um dos exemplos emblemáticos é o limite imposto aos Estados para cobrança do ICMS sobre itens como energia elétrica e combustíveis, para derrubar a inflação no curto prazo. Ribeiro diz que as mudanças no ICMS abrem um buraco potencial nas receitas de Estados e municípios de cerca de R$ 70 bilhões por ano.
“Está aberta uma crise federativa”, resume ele, lembrando que a lei aprovada pelo Congresso sobre o assunto é uma interferência federal num tributo estadual. A alta recente da arrecadação se deveu especialmente à inflação elevada e à alta dos preços de commodities, combinação que não deve se repetir em 2023. Num cenário de desaceleração global mais intensa, como a esperada daqui para frente, as perspectivas para as cotações de produtos primários não são das melhores, por exemplo. Nas contas de Ribeiro, uma queda de 10% dos preços em reais de petróleo e de minérios reduziria a arrecadação anual de União, Estados e municípios em R$ 42 bilhões.
Como haviam alertado especialistas em contas públicas, o limite imposto ao ICMS foi judicializado pelos Estados. São Paulo, Maranhão, Piauí e Alagoas conseguiram liminares no Supremo Tribunal Federal (STF) para compensarem a perda de receita com a redução do ICMS sobre esses itens, suspendendo o pagamento das prestações da dívida com a União.
A principal aposta do governo para reeleger Bolsonaro é a chamada PEC Kamikaze. A um custo de R$ 41,5 bilhões, que ficará fora do testo de gastos, a proposta elevou o valor do Auxílio Brasil de R$ 400 para R$ 600, instituiu um auxílio aos caminhoneiros e uma ajuda aos taxistas e dobrou o vale gás. De cunho obviamente eleitoreiro, as medidas valem até o fim do ano, mas pelo menos o Auxílio Brasil de R$ 600 deve ser perenizado - tanto Bolsonaro quanto o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva já afirmaram que o valor será mantido em 2023.
O programa deve custar R$ 141,8 bilhões no ano que vem, considerando a manutenção do valor em R$ 600 e a incorporação de quem tem direito ao benefício e estava na fila, diz Ribeiro. É um montante R$ 52,7 bilhões maior que os R$ 89,1 bilhões do Auxílio Brasil original, com valor de R$ 400.
Ribeiro ressalta ainda um ponto que tem ficado em segundo plano: os esqueletos fiscais que serão deixados para os próximos anos. É o caso dos precatórios da União, cujo pagamento anual foi limitado por uma PEC aprovada no fim do ano passado. Com isso, a quitação de uma parcela significativa das sentenças judiciais é adiada para os anos seguintes.
O foco do governo está em iniciativas para tentar melhorar a popularidade de Bolsonaro, sem preocupação com o custo ou com as suas consequências. “Com tanta mudança de regra, perde-se a capacidade de antecipar”, afirma Ribeiro. “Esse é o grande problema. Como se planejar desse jeito?” Medidas tomadas de improviso aumentam a incerteza e dificultam a capacidade de planejamento na economia, o que prejudica em especial o investimento. Os estímulos de curto prazo poderão fazer a economia crescer algo entre 1,5% e 2% neste ano, mas para 2023 a desaceleração deve ser forte - Ribeiro projeta 1,5% em 2022 e 0,1% no ano que vem.
“Estamos vendendo o futuro”, diz ele, preocupado com o fato de os “anabolizantes de curto prazo” nublarem um debate importante: “Ao contrário do que o governo prega, não vemos fatores de dinamização estrutural da economia: estamos presos em uma armadilha de baixo crescimento”, afirma Ribeiro. Ele nota que o país não conta mais com o bônus demográfico, uma vez que a população em idade de trabalhar passou a crescer a um ritmo inferior ao da população total. Isso significa que se encerrou a fase mais favorável da estrutura etária do país ao crescimento. “Além disso, a acumulação de capital fixo é insuficiente, não somos bons em capital humano, ainda que se tenha melhorado um pouco, e temos baixa produtividade”, enumera Ribeiro, emendando uma pergunta incômoda e hoje sem resposta: “O que fará a economia brasileira crescer de forma sustentável?”
É a Humanidade que está se desfazendo ou são os meios de comunicação que se multiplicaram e se aperfeiçoaram, colocando-nos imediatamente a par de tudo o que está acontecendo no mundo? Num passado não muito distante, nós levávamos um certo tempo para saber o que se passava na Europa ou em qualquer outro continente desse planeta.
Das guerras mundiais que tanto marcaram o século XX nós sabíamos o que havia acontecido na semana passada. Agora acompanhamos ao vivo o reboliço do mar acabando com as cidades costeiras do Japão ou a invasão da Ucrânia pelo Exército russo de Putin. Não importa mais o país, em que continente, está tudo a nosso imediato alcance.

Como nunca vivemos essa experiência de intimidade com os acontecimentos, como eles nunca estavam a nosso alcance simultâneo, podíamos julgar seus motivos, a origem das coisas que aconteciam, sem precisar explicar a causa de tudo, sem maiores compromissos com isso. Acho que muitas vezes tivemos preguiça de consultar a ciência, inventamos bastante, sempre tomando por princípio o que podíamos interpretar magicamente. Ou em nome de uma ideologia que a tudo imobiliza.
Fico pensando em como os indígenas do continente americano tomaram conhecimento do que faziam ali os colonizadores europeus, o que esses significavam para aqueles. Ou, indo a mais antigamente ainda, como os guerreiros do Peloponeso explicavam a seus parceiros ignorantes a peste que assolava o campo de batalha helênico. E o que pensavam de nós, os homo sapiens vitoriosos, aqueles poucos e pobres hominídeos que sobraram dos massacres com que nossos ancestrais os eliminaram da face da Terra.
A vitória de uns sobre os outros não significava propriamente clara superioridade, mas certamente implicava um poder qualquer que o adversário não tinha. Com esse poder qualquer, a História do planeta acabou se fazendo, mesmo que desafiando a Justiça, o certo e o mais provável.
Como para isso não existe uma regra a ser respeitada nos limites dela mesma, cada um de nós faz o que quer ou torce por quem quiser. A Democracia não é o resultado de uma média, ela não se faz necessariamente em benefício dos valores de cada um, na soma deles para atender a todos.
A Democracia é apenas um princípio de conversa sem o qual não é possível acessar o espaço de uma vida que, no passado ou no futuro, desejamos entender e se possível viver. Todos os outros valores políticos podem mudar, se transformar em benefício dos heróis do presente. Menos a Democracia. Ela é uma só, sendo explicada por necessária pluralidade, sem cartilha.
Porque só nos livraremos do pesadelo se pudermos reimplantar no Brasil a Democracia, a partir do próximo mês de outubro.O que hoje no Brasil nos faz mal e nos faz sofrer é um pesadelo que nos foi imposto pelos inimigos da Democracia. Comandados por Jair Bolsonaro, nosso presidente legitimamente eleito (é isso que me faz temer!), estamos às vésperas de uma nova eleição que, se representa nossa oportunidade de redenção, pode ser também a confirmação de tudo o que não fizemos para melhorar o país. A nossa alegre angústia é que só acordaremos do pesadelo se formos capazes de nos proporcionar esse sentimento de verdadeira liberdade
Sendo a vitória da Democracia o nosso objetivo, essa meta, por mais usada que esteja, é muito mais transformadora, visa muito mais o nosso e o futuro do país do que qualquer outro objetivo político com o qual tentam nos acariciar. Não nos importa mais saber rapidamente o que acontece em toda parte, queremos é fazer acontecer a vida a cada um de nós. A felicidade não começa com o elogio da morte, mas com a saudação da vida.
Talvez já estivesse escrito que o psicanalista Tales Ab’Sáber iria buscar as raízes do país para fazer um retrato. Ele define seu mais novo livro como “uma viagem pela mentalidade escravista do Brasil nos primeiros anos da Independência”. Um estudo de como se formou a consciência nacional que possa responder a pergunta “Que país é esse?”. O autor recua no distante passado não só porque é um entusiasmado por História, mas também porque sabe o quanto a personalidade de cada um está enraizada no passado. Ir às raízes de uma pessoa, de uma família, de um povo, envolve as origens, a formação, mesmo sendo cada estudo diferente. O livro revela a genealogia da crueldade brasileira, tão escondida mas evidente nos elogios à tortura, e ao estupro.
Tales já publicou livros sobre os três últimos ex-presidentes, Lula, Dilma e Temer, além do livro “O sonhar restaurado”, vencedor de um Prêmio Jabuti em 2006. E, após muito estudar sobre a História brasileira, apresenta agora “O soldado antropofágico: escravidão e não pensamento no Brasil”, sobre o século XIX, logo após a Independência. Não é comum que um psicanalista tente entender um país, sabendo o quanto é difícil pensar um analisando ou a si mesmo. Tales não é um psicanalista comum – temos hoje vários psicanalistas criativos e implicados com o País –, pois tem um amplo espectro de estudos além da psicanálise, como arte, filosofia e história. O Brasil convive entre o pesadelo – escravidão, desigualdade social e violência – e um sonho de superação, um sonho de futuro que parece chegar em alguns momentos da História. Li sobre o pesadelo e o futuro também no impactante livro da amiga psicanalista Isildinha Baptista Nogueira, que escreve sobre sua experiência pessoal e de suas analisandas: “A cor do inconsciente: significações do corpo negro”.

A escravidão que durou três séculos e meio foi um tema proibido, gerando um anti-intelectualismo onde se negou o racismo. Não se escrevia a respeito, e buscava-se ocultar, silenciar o sadismo e a maldade contra os negros, índios, propagando que aqui era o país do samba e do futebol. Foi na leitura pacienciosa do livro “O Rio de Janeiro como é” (1824-1826), do soldado alemão Carl Schlichthorst, que Tales foi aprendendo nos detalhes o gozo, o erotismo e a cultura descritos naqueles anos. Impossível entender que país é esse sem estudar os primeiros retratos do Brasil, que Tales Ab’Sáber fotografa a partir de livros como esse. É um retrato que se vê ao ler uma negra escravizada que dança, canta, recita e vende doces que encanta o soldado alemão. Poesia pura nas ruas do Rio em que convivem a pior das violências e o sonho de um paraíso. Esse livro foi um presente do pai de Tales, Aziz Nacib Ab’Sáber, geógrafo e ecologista, vencedor de prêmios nacionais e internacionais. Aziz passou ao filho sua paixão pela nação e os livros, daí ambos buscarem respostas à pergunta “Que país é esse?”.
Pode ser que o Brasil tenha uma doença crônica – três séculos e meio de escravidão tema central desse livro. Uma das tantas histórias que fui averiguar a partir da leitura é porque o Patrono da Independência – José Bonifácio de Andrade e Silva – foi exilado por seis anos, entre 1823 e 1829. O deputado da Constituinte era a favor da abolição da escravatura, pela reforma agrária, além de pôr limites nos poderes do Imperador Dom Pedro I. Integrava uma pequena elite do progresso que encontrou forte resistência até do Imperador, que fechou o Congresso e excluiu do poder José Bonifácio.
Um dos diagnósticos presentes no livro foi sintetizado por Luiz Felipe de Alencastro, um historiador referência para Tales e todos que estudam o País, que disse numa entrevista em 1996: “A escravidão legou-nos uma insensibilidade, um descompromisso com a sorte da maioria que está na raiz da estratégia das classes mais favorecidas, hoje, de se isolar, criar um mundo só para elas, onde a segurança está privatizada, a escola está privatizada e a saúde também”. Um país todo privatizado é a destruição do público, do SUS que salva os pobres e muitos ricos-como ocorre na pandemia- da educação pública, das cotas raciais. O Brasil deve ser para todas e todos, sem discriminação racial, política ou preconceito com os pobres.
Creio que Tales Ab’Saber estaria de acordo que o desafio hoje é entre o elogio das armas, da exploração destrutiva da natureza, versus o humanismo e a ecologia. Desesperar, jamais, pois não se pode esquecer que depois de hoje virá o amanhã, depois do pesadelo voltará o sonho de um povo que caminha na escuridão com esperança no coração.
Por muito tempo, [o Palácio do Planalto] foi um lugar consagrado a demônios. Hoje, é consagrado ao senhor Jesus. Ali, eu sempre falo para ele [Bolsonaro], quando entro na sala dele: essa cadeira é do presidente maior, é do rei que governa essa nação
Michelle Bolsonaro
O cotidiano da política é uma gangorra. A tensão sobe e desce. As expectativas fluem ao sabor dos momentos. As dúvidas ganham volume, puxadas pelos protagonistas. Em ano eleitoral, a dois meses das eleições, e tendo em vista que a contenda usará armas nunca d’antes vistas, não é de surpreender que a guerra seja a mais violenta da atualidade.
Trata-se de um pleito que fará o Brasil caminhar, amanhã, pelos caminhos da esquerda ou da direita. A contar com o maior cofre eleitoral de todos os tempos. E a abarcar o maior número de eleitores, cerca de 156 milhões. Na paisagem de fundo, mais de 30 milhões de pessoas sem acesso à mesa do pão, habitantes do território da extrema carência. Mostrando, ainda, classes médias divididas entre dois candidatos e uma parcela, que tende a crescer, ansiosa para achar a saída da dualidade, um perfil identificado com inovação.
Essa moldura pode se alterar nas próximas semanas, a depender da barreira a ser transposta pelos corredores. O obstáculo deverá aparecer no dia em que o país comemorará os 200 anos da independência, 7 de setembro próximo. A muralha a ser ultrapassada tem sido reforçada com a argamassa produzida nos fornos do presidente Bolsonaro, cujos componentes incluem uma parada militar na avenida Atlântica (Copacabana), no Rio de Janeiro, o convite para as massas comparecerem ao evento, ataques reiterados a membros do Poder Judiciário e às urnas eletrônicas e a indignação contra manifestos em favor da democracia.
O que aguarda o país, após 7 de setembro? Paz ou guerra? Que o leitor tire suas conclusões, após tentar extrair os efeitos dos seguintes cenários:

Mar bravio – O desfile de 7 de setembro – militares de diversas categorias e postos, tanques esmagando o asfalto, continência dirigida ao comandante-em-chefe das Forças Armadas, ele mesmo, o presidente da República – tem o condão de mostrar que o capitão Jair é poderoso e tem forças para anunciar medidas de caráter extraordinário. Medidas que disfarcem a imagem de um golpe, fenômeno que desviará o país de sua rota, mas possível de ocorrer, principalmente se a mobilização de rua implicar devastação, quebra-quebra, desordem, conflitos. Hipótese que será viável/inviável, a depender do comportamento das Forças Armadas,
Céu de brigadeiro – O evento de 7 de setembro ocorrerá com tranquilidade, sem açodamento, brigas entre alas, soldados cumprindo sua tarefa de desfilar, votos de paz e harmonia social, expressos pela sociedade civil. O presidente se manteria de boca fechada, sem jogar lenha na fogueira e até jogando água em algum fogo persistente. Desse modo, o céu de brigadeiro seria visto até outubro, mês do primeiro e do segundo turnos.
Horizonte turvo – Nuvens plúmbeas, pesadas, prenunciando raios, trovão e chuva intensa, emergirão em todos os quadrantes, e seus primeiros sinais apareceriam no dia 7 de setembro, com escaramuças desfechadas por alas bolsonaristas e grupos lulopetistas. O prenúncio de guerra, a se travar nas ruas após a comemoração cívica, criaria as condições para o presidente continuar seu discurso belicoso. E preparar o espírito de suas bases para a alteração das regras no tabuleiro democrático, caso o vencedor do pleito seja o candidato das esquerdas. As instituições da República reagirão e a gangorra de tensões voltará à paisagem.
Luz no fim do túnel – A policromia do arco-íris será manchada com borrões e pichações, nos próximos dias, que enfeiarão o desfile de 7 de setembro, abrindo buracos na sociedade, contribuindo para os polos do extremo ideológico acirrarem suas divergências. A polarização chega ao pico da montanha. Mas acende uma luz no fim do túnel. Toma corpo a taxa de racionalidade. E tal impulso viabiliza um terceiro nome, um perfil com um discurso de harmonia e reinserção do país na roda do desenvolvimento. Pode ser utopia. Mas…
Visita do Imponderável – Uma visita do Senhor da Imprevisibilidade também é possível. Para evitar o mau agouro, este analista deixa de lado as hipóteses desse cenário.
Seja qual for o cenário, urge crer no Brasil, com seu território continental, riquezas naturais, belezas incomparáveis, pedaço importante do planeta. E que, um dia, realizará o sonho de uma grande Pátria: a revolução da Educação.
Bolsonaro desencadeou crises profundas nas igrejas cristãs nascidas das reformas protestantes. Crises que estimularam abandono das igrejas, especialmente pelos jovens e pelos membros mais conscientes da gravidade da situação social e dos riscos representados por um governo que ameaça a frágil democracia brasileira.
A notícia de que o Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana do Brasil desistiu de “vetar cristão de esquerda” trata de uma ocorrência da maior importância política. A igreja reagiu a uma proposta que seria levada ao seu Supremo Concílio por um de seus pastores, que já havia se pronunciado no templo pelo apoio à candidatura de Bolsonaro.
No Brasil, o Estado é legalmente separado da religião. Um conjunto de irregularidades, no entanto, vem sendo praticado por várias igrejas e denominações na violação desse preceito.

Aliás, foi um presbiteriano de origem que levantou o tema pela primeira vez, na chamada “Questão do Cristo no Júri”, em 1891, com base no fato de que a Constituição republicana estabelecera a separação entre Igreja e Estado. Tratava-se do Dr. Miguel Vieira Ferreira (1827-1895), que se desligara da Igreja Presbiteriana e fundara a Igreja Evangélica Fluminense.
Ele era militar, matemático, fora abolicionista e era republicano. Chamado a participar do júri no Rio de Janeiro, em nome da Constituição solicitou que fossem retirados os crucifixos dos recintos públicos em que cidadãos, de qualquer religião, tivessem que atuar. Isso lhe criou um enorme problema, acabou preso.
Dele até hoje, os presbiterianos da igreja que agora se manifesta passaram por grande recuo. Sobretudo no governo Bolsonaro, envolveram-se em várias funções do Estado não em nome da cidadania, mas de uma convocação religiosa, a do “terrivelmente cristão” das pregações do presidente. O caso do da educação foi a gota d’água da negação de valores republicanos da tradição calvinista.
No voto alternativo que superou a proposta do pastor que definia um quadro de limitações a membros identificados com orientações filosóficas diversas das oficiais, prevaleceu o temor de um cisma. Como o já ocorrido nos anos 1970, quando a Igreja, alinhada com o regime militar, perdeu um grupo de pastores que se constituiu na Igreja Presbiteriana Unida. O golpe de 1964 contara com o apoio da Igreja Presbiteriana dominante. Vários presbiterianos, na sequência, se tornaram governadores de estado.
Houve, na ditadura, episódios graves envolvendo evangélicos na violação de direitos humanos, o que sugere uma identificação doutrinária com o regime autoritário e com a repressão que o garantiu.
Na votação de agora, os pastores lembraram de uma decisão anticomunista do Supremo Concílio, de 1954. Foi quando a Igreja justificou-se ao invocar a “incompatibilidade entre o comunismo ateu e materialista e a doutrina bíblica”. Negação do envolvimento nas questões sociais. Em linha oposta à de uma declaração da Confederação Evangélica do Brasil sobre “A Responsabilidade Social das Igrejas”.
Ia-se definindo uma cisão entre as igrejas evangélicas identificadas com o Concílio Mundial de Igrejas, protestante, de Genebra, e as identificadas com as igrejas americanas anticomunistas e as de inspiração fundamentalista.
A referência de 1954 está muito longe da realidade social e política de agora. Os presbiterianos estão se referindo, provavelmente, ao regime totalitário de Stalin, cuja violência e cuja intolerância foram denunciados por Nikita Kruschev, em 1956.
Foi a Guerra Fria desencadeada pelas potências capitalistas já no final da Segunda Guerra que deu extensa sobrevida a uma versão não marxista do socialismo e congelou a esquerda naquilo que não era. Gente repressiva e ignorante reinventou a esquerda para persegui-la. Criou a base ideológica dos regimes totalitários na América Latina.
Não deixa de ser engraçado e contraditório que o combate ao marxismo, por essas igrejas, desconhece que Karl Marx e seu companheiro de trabalho intelectual, Friedrich Engels, eram batizados pela Igreja Luterana. Engels destinara-se à vida de pastor, o que não ocorreu porque teve que assumir a administração da fábrica de sua família na Inglaterra.
Nunca renunciaram ao batismo, o que não quer dizer, como explicou o Padre Gustavo Gutierrez, um dos pais da Teologia da Libertação, que fossem cristãos. No entanto, isso não quer dizer que não haja em suas obras concepções interpretativas e valores próprios do cristianismo. Penso que isso é estrutural no famoso ensaio sobre a alienação, nos “Manuscritos econômicos e filosóficos”, de Marx. Aliás, o cardeal Ratzinger, depois Bento XVI, o cita em seu estudo sobre a vida de Jesus.
A União Europeia irá votar uma legislação que, se aprovada, poderá afetar significativamente as exportações brasileiras. Trata-se da Lei Antidesmatamento, que prevê punições às empresas compradoras de produtos que provoquem devastação florestal. Segundo previsão de diplomatas brasileiros, o projeto deve entrar na pauta do Parlamento Europeu a partir do mês que vem.
As punições atingirão empresas que comprarem café, carne, soja, madeira, óleo de palma ou cacau cultivados em regiões de desmatamento. Os três primeiros produtos, entre os seis incluídos na primeira versão da lei, estão no topo da lista de exportações brasileiras para a Europa. Será igualmente punido quem negociar com regiões ou países que desrespeitam os direitos de populações tradicionais.
Para Giovanna Kuele e Andreia Bonzo, do Instituto Igarapé, o propósito da União Europeia é impedir que empresas do continente colaborem com a destruição das florestas – mas outros ecossistemas, como o Cerrado, poderão entrar na nova lei. Elas discorrem sobre o assunto no minipodcast da semana.
O Brasil tem duas atitudes possíveis diante da iniciativa europeia. A primeira é o esperneio.

Nossos negociadores podem alegar que a lista inicial de produtos atinge especialmente as exportações de países em desenvolvimento – o que é verdade.
Poderão dizer também que a lei contraria alguns princípios da Organização Mundial do Comércio, o que é igualmente correto.
A resposta inteligente, no entanto, é olhar para o próprio quintal. Nos últimos anos, o Brasil vem batendo recordes de desmatamento. Como ter credibilidade em mesas de negociação com tal histórico?
Uma possível crise, assim, pode ser vista como oportunidade. Se nos comprometermos com metas de desmatamento zero – metas que, diga-se, são mais ambiciosas do que as previstas em nosso Código Florestal –, voltaremos a ser respeitados mundialmente e poderemos negociar em melhores condições. Somos vistos hoje, merecidamente, como párias ambientais. Está em nossas mãos reverter a má imagem.
Temos o maior pedaço de floresta tropical do mundo e um enorme potencial de produção de energia limpa. A única chance de o Brasil ganhar alguma relevância internacional é ter voz nas discussões sobre a economia de baixo carbono. Que será, inevitavelmente, a economia deste milênio.
Nós, que já fomos considerados o país do futuro, hoje somos vistos como uma nação em marcha à ré. Se não cuidarmos obsessivamente de nossa maior riqueza – o meio ambiente –, um novo e triste rótulo nos aguarda: o de país do passado. Ou, pior, o de país sem futuro.
Abra o olho, porque as coisas vão esquentar. Bolsonaro está a ponto de perpetrar um grande absurdo, maior do que tudo que cometeu até hoje --algo que porá contra ele até setores que ainda o apoiam no Congresso e nas Forças Armadas. Fará isto de caso pensado. A intenção é provocar uma medida, vinda não se sabe de onde, que o impeça de concorrer às eleições. Isso insuflará o seu discurso de que só assim conseguem derrotá-lo e convocará para a briga seus seguidores, que detêm hoje um poder de fogo maior que o dos quartéis.
Ao contrário do presidente dos EUA Donald Trump, que se achava em condições de enfrentar Joe Biden nas eleições americanas de 2020, Bolsonaro sabe que já perdeu. Se de há muito os números não lhe estão a favor, a campanha os tornará piores ainda quando, descabelado, aos gritos e palavrões, seu descontrole ficar claro até para os papalvos que ainda acreditam nele. Temendo uma derrota no primeiro turno, Bolsonaro não pode esperar por um 6 de Janeiro, como ficou conhecida a invasão do Capitólio pelas hordas de Trump. Precisa de um 6 de Janeiro antes de 2 de outubro. Talvez a 7 de setembro. Talvez antes.
É difícil imaginar algo ainda mais absurdo do que os crimes que ele já cometeu, contra a vida humana, as instituições, a floresta, o decoro, o dinheiro público. Mas Bolsonaro, ou algum gênio da estratégia por trás dele, é inesgotável. A ideia de botar os canhões, urutus e esteiras de lagartas para rodar pela orla de Copacabana já parecia descalabro suficiente, mas não é ---pode melar com uma simples canetada do prefeito do Rio. Bolsonaro terá de vir com algo muito mais bombástico. E virá.
Alguns verão nisso um exagero. Mas, há um ano, também se achava exagero dizer que Bolsonaro estava se preparando para um golpe.
Desta vez, será mais do que um golpe ou tentativa de. Será a senha para uma guerra civil. Bolsonaro não tem mais nada a perder.
Os países nada mais são do que arranjos sociais, em certo ponto de suas histórias, segundo valores, proposições, erros e acertos. Daí, a mudança contínua de suas fronteiras, na luta e na guerra, na inexistência de fronteiras naturais. Precisam de exércitos para manter aquilo que acham que, por natureza, lhes foram atribuídos. Interessante observar que Max Weber, em sua obra Economia e Sociedade, não utiliza o termo sociedade em nenhuma parte de seu livro, somente na capa. Weber se refere à interação social como a amalgama do meio social.
Sabemos que as democracias são pactos, com o estabelecimento consensual de leis entre as partes. Fora do contrato social, conforme Rousseau, somente a barbárie. Mas a democracia é um princípio, e os países mudam, levando a transformações sociais.
Hoje, nas Ciências Sociais há a tendência de se utilizar as teorias existentes no que elas têm de mais significativo. As teorias no século XIX foram escritas como teorias gerais. Hoje, observamos o que há de adequado em cada teoria, como teorias de médio alcance.

Marx, no Volume III do Capital, esboçou o que seria a teoria da alienação. Nem todos podem ser empresários ou trabalhadores ao mesmo tempo. Portanto, existem limites estruturais. Mas, para a convivência mais harmoniosa, a classe dominante difunde a ideologia da igualdade das oportunidades. O problema, para a classe dominante, é quando ela começa a acreditar na ideologia que difunde, gerando a alienação do poder. Na Teoria Funcionalista, de Parsons e Merton, se alguém se esquece das variáveis que o levaram ao poder, achando que se validam por outros valores, entram em disfuncionalidade, com tendência à queda.
Um país, para existir, depende de um equilíbrio entre as partes, por consenso ou opressão. Todo modelo a longo prazo, entretanto, tende a ficar instável. As sociedades mudam, em suas condições econômicas, políticas e populacionais. A alienação das elites leva à disfuncionalidade em suas funções, tendo chegado ao poder devido a certas variáveis, mas atuando segundo variáveis distintas daquelas que os levaram ao poder.
Bolsonaro foi eleito com discurso contra as esquerdas, a “velha política”, e para implementar uma economia liberal. A economia liberal não foi implementada. À “velha política”, ele se aliou. Bolsonaro acha hoje que representa uma cruzada do conceito que ele tem de “liberdade”, se esquecendo daquilo que o levou ao poder. Hoje, Bolsonaro representa a derrocada da economia e a ameaça à democracia; Lula o recall do desenvolvimento e a estabilidade democrática. Bolsonaro é vítima da alienação do poder, limitado que é em suas percepções. Como Dom Quixote combatendo os Moinhos de Vento, na obra de Cervantes. Bolsonaro encontra-se em completa disfuncionalidade. Tende para a força, sem base social para isto. A força não vai se sobrepor ao consenso formado contra o que ele representa. Dificilmente será reeleito.

Houve vaias em atos do candidato Lula da Silva em sua terra natal, Pernambuco. Não foram direcionadas ao ex-presidente, mas aos candidatos do PSB que subiram com ele no palco. Para a militância petista, políticos como Danilo Cabral, pré-candidato do PSB ao governo pernambucano, são traidores, pois votaram a favor do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff em 2016.
"Eu sou da terra, eu sou da época que a gente fazia acordo no meio do bigode", comentou Lula no ato político em Olinda, no fim de julho. A organização do evento já esperava tal aversão aos aliados – segundo relatos da mídia, uma gravação com aplausos estava preparada para abafar as vaias.
A viagem a Pernambuco colocou Lula no meio de uma disputa entre duas famílias que dominam o estado há décadas: Arraes e Campos, que na verdade são quase uma família só. São donas do PSB, atualmente da base aliada de Lula. Mas, como em todas as famílias (e partidos), há brigas internas.
Marília Arraes, promessa política da família Arraes, deixou o PSB em 2016 e se filiou ao PT, sendo uma das figuras emblemáticas na luta contra o impeachment de Dilma. Mas no começo deste ano, ela deixou também o PT. Marília descobriu que existem conflitos internos também no partido de Lula. Agora ela é candidata do Solidariedade ao governo pernambucano. E, assim, adversária de Danilo Cabral, aquele que subiu ao palco lulista em Olinda.
Parece estranho Lula apoiar um candidato que votou para tirar o PT do poder em 2016, em vez de uma candidata que fez história em seu próprio partido?
"A política é a arte do possível", diz um velho ditado alemão do século 19. Lula sempre soube disso, e agiu conforme essa regra. Em seus primeiros dois mandatos, entre 2003 e 2010, o petista se aproximou da velha política para obter o apoio necessário para realizar suas políticas. Ele tem jogo de cintura, e sabe que a política é um jogo sujo.
Lula não é um radical xiita – eis a fórmula de seu sucesso. E isso o diferencia de grande parte da militância petista. Segundo André Singer, podemos dizer que essa á a diferença entre o petismo e o lulismo.
O petismo é mais radical, no sentido anticapitalista, enquanto o lulismo abraça o capitalismo para financiar os programas de combate à pobreza. Mas o lulismo também não tem a mesma crítica ao sistema político como o petismo. O lulismo não tem discurso antissistema, mas aceita os inimigos políticos como aliados.
Quando o ex-presidente Michel Temer apareceu, uns dias atrás, dizendo que "Dilma é honestíssima", a ex-presidente reagiu mal a mea culpa de seu ex-vice. Dilma respondeu friamente: "A história não perdoa traição". Ela já não queria conversa com a "velha política" quando esta fazia parte da base do próprio governo. Imagina agora.
Difícil imaginar uma frase como "a história não perdoa traição" vindo de Lula. Mesmo após ter passado 580 dias na prisão, ele não demonstra mágoas (que deve ter). Ele não confunde apoio político com amor. Lula é político, sabe perder e ganhar. E vencer em outubro significará o triunfo do lulismo.
Mas sempre resta a pergunta se poderia haver lulismo sem seu protagonista. Saberemos em anos futuros, quando não haverá mais um candidato Lula.