domingo, 15 de maio de 2016

A herança

Na noite da decisão do afastamento de Dilma Rousseff da Presidência da República, e no dia seguinte, com sua saída do Palácio do Planalto e a posse do presidente interino, a frase martelou constantemente minha cabeça. Atribuída ao poeta romano Públio Terêncio Afro e, segundo alguns, ensinamento predileto de Machado de Assis e Marx, ela sintetiza a complexidade do que senti vendo acabar de desmoronar aquilo que foi parte de minha vida.

Os que porventura me lerem devem se lembrar de que nunca votei em Dilma e que, ao fim e ao cabo, foi diante da violência da imposição da candidatura dela ao PT por Lula, com a sucessão de decisões por ele tomadas para fazê-la vitoriosa, que deixei definitivamente o partido que ajudei a fundar.

Mas a gente não se livra de algo pelo qual lutou tanto tempo de uma só vez. Por mais que tudo que ocorreu tenha sido falha humana e que eu tente por isso compreender, a gente morre várias e sucessivas vezes diante do fracasso de seu ideal. Quem já teve algum tipo de perda na vida – e todos nós temos – compreende o que quero dizer com isso.

Diante dos brasileiros, abre-se agora um novo período. Sei que muitos estão esperançosos em dias melhores. Oxalá tenham razão. Mas o tamanho do estrago deixado pela herança dela e do próprio PT – haja vista o que vem acontecendo no governo de Minas Gerais, para não falar de outros Estados, governados por siglas como o PMDB no Rio e o PSDB em São Paulo – gera em mim um medo terrível do sofrimento dos excluídos. Falo dos trabalhadores de modo geral, dos pobres, daqueles que não tiveram sequer as oportunidades de possuir um teto, uma cama confortável, comida no prato todos os dias, bons médicos e remédios quando doentes, empregos seguros, uma vida de família repleta de momentos alegres. E, lembrando Drummond às avessas, “até um cão”.

Temo pela reconstrução na política, na economia, nas instituições e nas relações entre elas. Temo pelas consequências dessa mais que necessária operação de combate à corrupção sistêmica que acompanha o Brasil há muito, mas que chega ao paroxismo quando muitos investigados, réus ou já condenados, têm a coragem de pegar o microfone no Congresso Nacional e decidir a condenação de outros acusados, como Delcídio do Amaral e Dilma Rousseff. O rosário de discursos hipócritas de lado a lado, tanto dos que votaram contra a presidente quanto dos que tentaram defendê-la –, tudo isso me trouxe a exata dimensão de quantos desafios esperam o país daqui para a frente.

E, se não bastassem todos esses temores, vi perfilados na despedida de Dilma no Palácio muitos dos que foram responsáveis pelas humilhações que vivi enquanto estive na vida pública. Porque nela não vivi apenas glórias e sucessos. Também sofri demais dentro do PT.

Termino este artigo invocando o poeta que me tem consolado: 
Todos estes que aí estãoatravancando meu caminho,eles passarão...eu passarinho” (Mario Quintana)

Como assim, humanismo?

Uma das marcas mais reconhecidas da cultura pós-moderna é o seu anti-humanismo. Individualista ao extremo, o pós-moderno é um modo de estar no mundo que não assimila a noção de valores humanos transcendentes à existência corrida de cada dia. O homem, como valor, está cassado. O humanismo se aposentou. Ficou excêntrico, fora do eixo. Quem percebe a incompletude desse modo achatado de ser fica procurando coisas perdidas. As pessoas ficaram no ar, desautorizadas de fazerem uma experiência de si mesmas que ainda mereça o nome de humanismo. Uma experiência de habitação do homem na Terra. Na terra, onde tudo começou.

Há uma antiga fábula sobre a disputa dos deuses quanto ao nome que dariam ao homem. Que coisa é um homem? Os diversos deuses e deusas pretendiam nomeá-lo, cada um segundo suas próprias características essenciais. A arte do guerreiro. A sabedoria que conhece. O engenho que produz. A alegria que canta. O corpo que deseja. O poder que domina. A linguagem que comunica. Não houve acordo, como era o mais frequente na mesa dos deuses, que comiam, bebiam e brigavam enquanto iam deliberando sobre as coisas do mundo sublunar. E Zeus, o rei dos deuses, decidiu quase salomonicamente: a coisa nova se chamaria, provisoriamente, homem, pois viera da terra, humus.

Outra narrativa, que conhecemos bem, nos dá conta da fabricação do nosso ancestral diretamente por Deus, o oleiro do homem. Deus moldou a forma original da sua mais alta criação. Às outras tinha-lhe bastado dizer “Seja!” Ao homem, não. Deus o quis à sua semelhança. Moldou-o para ser a mais perfeita criatura. A semelhança não estava no corpo, de que Deus não precisa. Estava em que Deus lhe soprou pelas narinas a alma. E o homem, animado pelo divino, viveu.

Barro e nome. Barro e sopro. Um elemento da natureza inerte, outro de vida e sentido. Entre essas duas metades de DNA do homem e da mulher (“e homem e mulher os criou”, diz a outra narrativa do Genesis) definiu-se, provisoriamente, a humanidade. Provisoriamente: os deuses ainda podiam fechar acordo sobre um nome que não lembrasse apenas a origem barrenta; e o primeiro casal, expulso do Jardim, precisou inventar nomes de cidades, ferramentas, armas e tendas. Seu nome próprio estava em suspenso. Precisava merecê-lo. E assim foi. Por um lado como pelo outro da nossa ancestralidade greco-latina e judaica, andamos procurando responder a essa pergunta, que Drummond formulou no bronze do seu verso: “Mas que coisa é homem...?”. As buscas constituíram os diversos humanismos de que se fez a nossa história. Seleciono apenas algumas estações maiores dessa viagem.

Houve um humanismo grego. O que propôs a educação, a formação pela cultura, para criar o homem e afastar o “bárbaro”. Uma Paideia. Herdamos dela. Como já havíamos herdado do humanismo judaico do Livro: sempre dois lendo, um diante do outro, para que da divergência florescesse a interpretação, e nela a continuidade da verdade de Deus. Também aprendemos do humanismo romano do cidadão, do homem livre pela lei, e sujeito a ela para ser livre. Uma bonita ideia sobre o que determina um homem a ser. Formulamos, cristãmente, a noção universal de humanidade, e a distribuímos pelos muitos cantos da terra. Um humanismo universalista, entusiasmante tentativa de entender o que, afinal, é homem, se Deus a todos criou, sem distinção. O humanismo renascentista acabou afastando o homem de Deus, e aproximando-o da outra grande criatura, a natureza. Esse humanismo naturalista nos encheu de arte e beleza, e prenunciou a época moderna, a da Razão soberana. A do homem público, súdito e senhor da Razão. O homem pós-moderno pode ser o antagonista deste. Abalada a Razão pela eficácia do cálculo que dispensa a verdade, surge o indivíduo consumidor, ávido de desejos e prazeres. Homem unidimensional. Não mais barro e sopro, terra e nome. Já não cultura ou interpretação da Palavra. Nada de cidadão e Lei. Nem criatura e Criador. Ou o parceiro da Natureza. Ou o servo e senhor da razão, atormentado pela verdade. O pós-moderno homem unidimensional rompeu todos esses vínculos. Largou amarras. Queria ficar livre: ficou à deriva.

Um humanismo, hoje, poderia funcionar como um contraveneno. Resgatar os jogados fora. Trazer de volta, no próprio momento da sua anunciada extinção, o corpo dos deuses, a Palavra e a Criação, a Lei e a liberdade, o gosto da Natureza. E começar de novo. Ainda não sabemos que coisa é um homem. Corremos o risco de nunca o saber, nesse mundo tornado global, que sofre de doença autoimune, e se devora porque não se reconhece.

O humanismo não seria, hoje, um saudosismo passadista. Nessa hora crepuscular, poderia ser um projeto revolucionário. E não tem mais tempo: é para já.

Marcio Tavares D'Amaral

sábado, 14 de maio de 2016

Deu no New York Times

O jornal The New York Times, o mesmo que meses atrás considerou o Petrolão “o maior escândalo financeiro da história da humanidade”, deu mostras esta semana de que não se conecta consigo mesmo – ou por esquizofrenia ou por amnésia. Ou ambas.

Em editorial, considerou que Dilma Roussef paga “preço desproporcionalmente grande por irregularidades administrativas”. O editorialista parece compadecido com a ex-presidente e assume seu ponto de vista, que, na essência, subscreve a narrativa petista.

Segundo dados iniciais do governo que entra, o déficit de R$ 96 bilhões que a equipe econômica anterior admitiu é bem superior. Não incluiu a queda de arrecadação (algo acima de R$ 100 bilhões) e a renegociação da dívida com os estados (R$ 8 bilhões).

Não é só. A equipe de Dilma previu algo que não existe: arrecadação de R$ 12 bilhões com a CPMF, que, mesmo com as negativas do Congresso, supunha vir a obter (estelionato contábil), além de mais de R$ 230 bilhões de restos a pagar na Saúde.

Como essa conta não sairá do bolso do editorialista do jornal norte-americano, é fácil considerá-la banal.

Mas o mais grave é que o jornal sabe que não se trata “apenas” disso. As pedaladas e as fraudes fiscais, gravíssimas e inconstitucionais – e, portanto, passíveis de impeachment –, estão longe de esgotar o repertório de delinquências do governo que sai.

No pedido aceito por Câmara e Senado, não gostam os delitos de 2014 – ano eleitoral, em que chegaram ao paroxismo, para burlar as eleições -, sob o argumento cretino, do procurador-geral Rodrigo Janot, de que a Constituição (artigo 86, parágrafo 4º) não permite que o presidente, na vigência de seu mandato, seja julgado por atos estranhos ao exercício de suas funções.

O dispositivo constitucional foi aprovado ao tempo em que não existia reeleição. E foi interpretado de maneira defensiva à presidente, considerando absurdamente que seu primeiro mandato nenhuma relação tinha com o segundo, quando o delito praticado visou exatamente a permitir a reeleição.

Ou seja, a acusação que restou – mesmo assim suficiente para a penalidade que lhe está sendo imposta – é desproporcionalmente menor que a praticada. Trata apenas dos crimes fiscais de 2015.

Isso, claro, sem levar em conta o que já se sabe sobre a Lava Jato, em que dirigentes das maiores empreiteiras do país contam uma mesma história: a campanha de Dilma foi nutrida com dinheiro roubado da Petrobras. E embora o mesmo NYT tenha considerado esse escândalo como colossal e incomparável a qualquer outro, sabe-se que não é o único, nem possivelmente o maior.

Há ainda diversas caixas-pretas por abrir. Algumas, como BNDES e Eletrobrás, só pela pontinha que já se puxou, sinalizam rombos equivalentes. A Caixa Econômica Federal está quebrada, idem os fundos de pensão e o Banco do Brasil.

Há o Dnit, as verbas estatais que nutrem blogs sujos na internet, “movimentos sociais”, que se comportam como milícias fascistas, e ONGs que são células partidárias.

Mas bastaria a Petrobras para justificar a responsabilização penal do governo e da presidente, que comandava o Ministério de Minas e Energia e o conselho administrativo da estatal quando a roubalheira sistêmica começou, em 2003.

Se Dilma não roubou dinheiro, deixou que roubassem - e roubou votos de eleitores de boa fé, o que é mais grave ainda.

Al Capone foi preso por sonegação ao imposto de renda, crime modesto, se comparado ao conjunto de sua obra. Mas a polícia, ao prendê-lo por tal motivo, sabia com quem estava lidando. E, a partir do fio daquela meada, chegou ao restante.

É o que ocorrerá com a organização criminosa (expressões do ministro Celso de Melo, do STF, e do próprio Janot) que acaba de ser afastada. De pedalada em pedalada, as investigações chegarão à esfera penal, e aí ficará claro que Dilma está sendo punida pela mais amena das acusações que sobre ela e seu governo recaem.

As projeções mais otimistas sobre a economia brasileira – e que excluem os danos morais, culturais e a guerra ideológica instalada sobretudo nas universidades – falam em pelo menos uma década de sufoco para que o país comece a se recuperar. Não para que avance, mas para que retorne à posição modesta que ocupava antes de ser alvo das tropas de ocupação do PT.

Se Temer não expuser todo o prontuário administrativo do governo Dilma, contribuirá para que a versão petista acabe iludindo mais pessoas de boa fé – e nutrindo os interesses das de má fé. Não se sabe em qual das duas categorias se insere o editorialista do NYT.

Vem aí o Mandela do ABC

Atenção para a nova narrativa da elite vermelha (são os maiores narradores do mundo), de saída do palácio: estão sem grana. Começaram a espalhar que estão pagando seus advogados milionários do próprio bolso, a duras penas. É de cortar o coração. A razão, todos sabem: o produto do roubo de uma década, na corrente solidária do mensalão e do petrolão, foi integralmente doado a instituições de caridade. Os guerreiros do povo brasileiro não querem nada para eles. Só a glória de terem colocado um país na lona na base da conversa fiada.

A saudosa Dilma Rousseff avisou que vai resistir no Palácio da Alvorada. “É só o começo, a luta vai ser longa”, avisou a patroa do Bessias. E milagrosamente a gangue dos movimentos sociais S.A. saiu incendiando o Brasil, bloqueando ruas e estradas, difundindo os altos ideais do parasitismo profissional. Não pensem que sai barato uma mobilização cívica dessas. A mortadela é só o símbolo. É preciso um caixa poderoso para manter tantos vagabundos em estado de prontidão. Devem ser as famosas vaquinhas do Vaccari.


Pode-se dizer que o PT chegou, assim, ao nirvana. Passou um agradável verão de 13 anos e meio à sombra do contribuinte, fez o seu pé-de-meia muito bem feito e voltou para o seu lugar natural nesta existência: jogar pedra e reger a bagunça – protegido pelos melhores advogados e santificado pela fina flor da desonestidade intelectual.

A cena do escritor Adolfo Pérez Esquivel no Senado defendendo Dilma Rousseff de um golpe de Estado mostrou a importância do Prêmio Nobel da Paz: manter uma opinião pública em perfeita comunhão com suas ilusões pequeno-burguesas de bondade, enxergando no espelho um herói socialista. Enquanto Lula não for preso, continuará regendo esse repertório dos inocentes úteis e ativistas de aluguel, investindo sua gorda poupança no rendimento seguro do coitadismo. Depois que for apanhado por Sergio Moro, virará preso político – um Nelson Mandela do ABC, esperando para retomar o que é dele (o Brasil). Isso não tem fim.

A chance que o país tem de confinar a narrativa coitada no seu nicho folclórico é alguém se dispor a governar isto aqui. O Palácio do Planalto foi transformado num bilhete de Mega Sena, onde o felizardo e seus churrasqueiros vão passar longas férias inventando slogans espertos, botando ministro da Educação para caçar mosquito e outras travessuras do arraial. Se aparecer um governo por ali, a essa altura do campeonato, será uma revolução.

Se houver de fato a investidura de uma política econômica de verdade, com Henrique Meirelles na Fazenda e Ilan Goldfajn no Banco Central (ou qualquer outro que não aceite ser capacho de populista), as férias remuneradas da elite vermelha poderão começar a acabar. Se houver de fato a desinfecção da pantomima terceiro-mundista na política externa, faltará a ressurreição da democracia interna. O Brasil vive hoje uma democracia particular, na qual a gangue companheira que depenou o Estado faz chantagens emocionais ao vivo – constrangendo qualquer possível liderança legítima com seu exército de bolsistas sociais. Estamos na metade do caminho para a Venezuela, na metade do percurso para o chavismo e seu totalitarismo branco.

Um governo de verdade pode dar meia volta com relativa facilidade, bastando algo que os políticos atuais de todas as correntes rezam para não ter de exercer: autoridade. Bloqueou rua? O Estado vai lá e desbloqueia. Ele serve para isso, seus funcionários e representantes são pagos para isso – zelar pelo interesse da coletividade. Os monopolistas do bem gritarão que estão sendo reprimidos, na sua velha tática de jogar areia nos olhos da plateia. Cabe a um governo de verdade enxotá-los com a lei, esteja a plateia enxergando ou não.

No Plano Real, antes de nascer gloriosa a moeda forte, o governo penou para implantar a responsabilidade fiscal – essa que está depondo Dilma Rousseff – contra a gritaria geral. Isso dói. Tem alguém aí disposto a esse sacrifício, prezado Michel Temer? Se não tiver, ouça um bom conselho: melhor ficar em casa.

A lenda petista continuará dizendo que se trata de um golpe para entregar o país ao PMDB de Eduardo Cunha. Só há um antídoto eficaz para essa praga renitente: um governo que governe.

Alternância no poder é a melhor maneira de aperfeiçoar a democracia

Defendo o capitalismo, embora injusto, me alinho com os valores ocidentais, mas jamais conheci um país desenvolvido cujo povo fosse pobre – principalmente no quesito educacional. Considero os governos socialistas pelo mundo afora – e não essa chula cleptocracia lulopetista – socialmente mais justos. O que se quer é uma direita empreendedora e liberal e uma esquerda socialmente inclusiva – ambas bem intencionadas, éticas e honestas – se revezando no poder.

No meu mundo moram os republicanos e os democratas, os tories e os labours, les socialistes e os da UMP, os portugas do PSD e do PS, a democrazia cristiana e o partito comunista, o PP e o PSOE, a CDU/CSU e o SPD versus o SPD alemãos, todos eles variando suas posturas no espectro ideológico e suas decisões políticas – mais à esquerda ou mais à direita ou mais ao centro – conforme a vida muda, pois o meu mundo é mutante e plural e tolerante e civilizado e não quero outro.credito em democracia.

Creio que as mídias, os blogs, as redes sociais deveriam funcionar como catalisadores para as nossas opiniões e frustrações. Espaços onde pudéssemos dar curso ao nosso senso de necessária justiça. Mas mesmo justiça é uma palavra ou definição relativa, com base em nossas próprias crenças individuais.

Nós estamos vivendo em um mundo socialmente complexo, partilhado por pessoas com todos os tipos de vivência, com crenças sociais, políticas e religiosas diferentes, onde temos de aprender a conviver e respeitar uns aos outros e a viver dentro das leis.

Se não fizermos isso, é melhor que nos prepararemos para o sepultamento da humanidade/civilização como a conhecemos atualmente.

Juergen Habermas nos forneceu a melhor base para a compreensão e consequente valorização das comunicações hoje em dia. Ele fala de “esferas públicas” como lugares onde as pessoas se reúnem, como iguais, como aqui, para tentar criar “significado” e para constituir normas para o projeto humano em curso.

Ele escreve sobre uma “ética do discurso”, que, baseada na razão, mantém uma conversa democrática empírica. E que esse é o valor mais alto na teoria política republicana recente.

Tenho avaliado que estamos nos radicalizando cada vez mais. Pergunto: quando finalmente formos situação, será que permitiremos oposição?

Aprendi, com os meus muitos anos, que os principais problemas e obstáculos para criar uma convivência viável para a humanidade e uma relação civilizada, na maioria das vezes são criados por grupos ou indivíduos radicais.

Eu, pessoalmente, não acredito em escolhas à esquerda ou à direita – muito menos extremadas – mas simplesmente em liberdade versus tirania.

Aqui reside a raiz dos nossos problemas. As oscilações do pêndulo entre tirania e liberdade são permanentemente rejuvenescidas pelas ilusões de como se viver de forma “mais justa”.

Essas ilusões são manipuladas pelos assuntos da política, mas a “moralidade” dos comportamentos sociais deve ser ditada pelo nosso anseio de viver em liberdade e pela nossa repulsa contundente de viver sob opressão.

A falácia da legitimidade

O principal argumento de Dilma Rousseff e do PT para repudiar o “golpe” que afastou provisoriamente do cargo a chefe de governo mais impopular da história é a legitimidade de um mandato conquistado com o voto de 54 milhões de brasileiros. Legitimidade que, para os petistas, não se estende ao vice-presidente eleito na mesma chapa, com o mesmo número de votos. Legitimidade que os petistas negam ao Supremo Tribunal Federal para estabelecer o rito a ser seguido pelo processo de impeachment no Legislativo. Legitimidade que o PT nega igualmente ao Congresso Nacional para deliberar, por ampla maioria de votos, sobre a admissibilidade do processo de impeachment e, em consequência, transferir provisoriamente ao sucessor constitucional de Dilma o comando do governo.

Legítimo, no Brasil, só o PT. E isso explica o fato de os petistas terem anunciado que não reconhecerão a investidura de Michel Temer na Presidência interina, farão oposição radical a seu governo “ilegítimo” e recusar-se-ão até mesmo a examinar, no Congresso, toda e qualquer medida proposta pelo “usurpador”.

A disposição de radicalizar ao extremo a oposição ao governo cuja legitimidade não reconhecem foi anunciada por parlamentares petistas logo após a decisão do Senado de dar sequência ao processo de impeachment. Enquanto os senadores debatiam a questão, na madrugada de quinta-feira, deputados petistas e seus aliados do PC do B se reuniam na Câmara para discutir a melhor maneira de reagir à derrota considerada inevitável. O deputado Paulo Teixeira (PT-SP) foi um dos primeiros a anunciar o lançamento do movimento intitulado “Temer jamais será presidente, será sempre golpista” ou, opcionalmente, apenas “Temer, o golpista”:

“Nenhum documento assinado por Michel Temer tem qualquer valor, são todos nulos”. E por isso, explicou, a bancada petista não levará em consideração nenhuma proposta enviada pelo novo governo.

A petista gaúcha Maria do Rosário negou legitimidade às decisões do Congresso sobre o impeachment: “Nem sempre a maioria tem razão. A maioria desse Parlamento é golpista”. Ou seja, quem legitima a atuação de senadores e deputados não é o voto popular: é o discernimento dos petistas. Linha auxiliar do lulopetismo, a deputada Luciana Santos (PC do B-PE) compartilha do peculiar entendimento do PT a respeito de quem tem ou não tem direito de falar em nome do povo: “Vamos ter dois presidentes, uma eleita com 54 milhões de votos e outro, ilegítimo, sem voto nenhum”. Raciocínio – ou absoluta falta dele – que escamoteia o fato de que, em eleição para chefe de Executivo, o voto é dado não apenas a quem encabeça a chapa, mas também a seu parceiro.

Essas manifestações de indisfarçável rancor de petistas e aliados diante da adversidade dão a exata medida da mentalidade autoritária, antidemocrática, do grupo político que se julga dono da verdade e durante mais de 13 anos manipulou a opinião pública, particularmente os segmentos menos informados da população. Apresentam-se como monopolistas da defesa do bem comum, protetores dos fracos e oprimidos contra a sanha segregadora das elites impiedosas. Derrotados, fazem-se de vítimas e não têm a dignidade de assumir erros, cuja responsabilidade transferem a inimigos – alguns imaginários –, como fez Dilma Rousseff em todas as oportunidades que teve desde o início da tramitação do processo do impeachment.

Diante disso, pode-se prever que o lulopetismo não terá o menor escrúpulo de sabotar o governo Temer em tudo que estiver a seu alcance, agora mais restrito. No Congresso, está praticamente isolado, sem votos suficientes para se opor à maioria parlamentar que está sendo construída em torno do novo governo. Nas ruas, certamente continuará contando com a militância das entidades e movimentos como CUT, UNE, MTST, que gravitam em seu entorno e dos cofres públicos que certamente lhes serão fechados. O que indica que o País provavelmente terá que se habituar às “manifestações legítimas” de grupelhos de vândalos que infernizarão a vida dos brasileiros nas ruas e estradas.

Teses e narrativas

O Partido dos Trabalhadores adotou, durante anos, a prática democrática de debater teses apresentadas por seus grupos organizados, chamados de “tendências”. Ao chegar ao poder, esta prática foi reduzida pela centralização criada para fazer o governo funcionar. As “tendências” foram perdendo força e suas teses, aos poucos, abandonadas.

Nos últimos meses, o partido passou a adotar “narrativas”, criadas conforme a interpretação de alguns dirigentes ou seus marqueteiros, para serem transformadas em lendas acreditadas sem contestações, o contrário do debate de teses. À exceção de alguns poucos líderes, a exemplo de Tarso Genro, que se mantêm fiéis a teses.

Charge (Foto: Miguel)

Foi propalada a lenda de que os programas de transferência de renda foram inventados e criados, em 2004, pelo governo Lula. A narrativa ignora o programa Bolsa Escola, criado pelo governo do PT no Distrito Federal, em 1995, espalhado para diversas cidades, inclusive São Paulo, no governo da Marta Suplicy, e depois adotado pelo governo Fernando Henrique, em 2001.

O programa foi ampliado com o nome de Bolsa Família, mas, ao relegar o aspecto educacional, transformou-se em instrumento de assistência social. Em 2009, foi criada a narrativa de que o pré-sal era um produto do governo Lula e que suas receitas salvariam o Brasil, especialmente educação e saúde. Anos depois, estes setores não viram os resultados prometidos, e a Petrobras luta para sobreviver após a rapinagem do petrolão.

Vendeu-se a narrativa de que o Brasil havia superado o quadro de pobreza e que 35 milhões ingressaram na classe média, como a família que recebesse em 2012 renda per capita mensal entre R$ 291 e R$ 1.091. Este baixo valor e a elevada e persistente inflação desmoralizaram a narrativa.

Apresentaram a lenda de que as generosas desonerações fiscais seriam capazes de transformar a crise mundial em uma marolinha brasileira. Graças às cotas, positivas, mas localizadas e restritas a raras pessoas, houve a narrativa de que os filhos de todos os pobres tinham vagas nas universidades, mesmo sem a melhoria da educação básica, porque raríssimos pobres terminam o ensino médio com qualidade.

Agora, passa-se a narrativa de que o impeachment é golpe, mesmo se for comprovado crime de responsabilidade previsto na Constituição. Individualmente, cada um pode ter razões para duvidar se as gravidades dos fatos apresentados na petição do impeachment justificam a destituição de uma presidente eleita por mais de 53 milhões de votos.

Mas não há razão para acreditar na narrativa de golpe, se o procedimento estiver seguindo as normas, leis e ritos constitucionais, conforme seguiu no caso do ex-presidente Fernando Collor. Esta narrativa é, porém, um direito do partido na estratégia eleitoral para 2018. É lamentável, porém, que o partido das “teses” tenha se transformado no partido das “narrativas”.

Atenção, profetas!

Vivemos uma época de Dilmas magras e quem sabe o que vai acontecer nos próximos meses ou está mentindo ou é petista.
Agamenon Mendes Pedreira 

Câmara premia com mordomias a imoralidade

Existem políticos piores e melhores. Mas ficou mais difícil distinguir uns dos outros depois que a Lava Jato comprovou que a política virou apenas mais uma ramificação do crime organizado. Há dez dias, o STF afastou Eduardo Cunha do mandato e da poltrona de presidente da Câmara. Fez isso porque, “além de representar risco para as investigações penais” abertas contra ele, o deputado tornou-se “um pejorativo que conspira contra a própria dignidade da Câmara”.

A Suprema Corte concluiu que a presença de Cunha no comando feria os “princípios de probidade e moralidade que devem governar o comportamento dos agentes políticos.'' O que fez a Câmara? Bem, a mesa diretora da Casa acaba de baixar uma resolução concedendo à improbidade todas as mordomias que o dinheiro —do contribuinte— pode pagar.


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Mesmo sem trabalhar, Cunha receberá salário integral. Coisa de R$ 33.763 por mês. Continuará morando na residência oficial da Câmara, assentada à beira de um lago, no bairro mais caro e elegante da Capital. Ali, Cunha terá cama, comida e roupa lavada com verbas públicas. Manterá também a prerrogativa de usar carro oficial com motorista, avião da FAB, seguranças, e até R$ 92 mil para pagar os salários dos funcionários de um gabinete cujo titular o STF suspendeu por tempo indeterminado.

Tudo foi feito em perfeito desacordo com a opinião dos técnicos da Câmara, que opinaram a favor da supressão de regalias de Cunha. O primeiro-secretário da Câmara, deputado Beto Mansur (PRB-SP), alegou que, na falta de melhor critério, os deputados que dirigem a Casa decidiram que Cunha deveria receber as mesmas regalias concedidas à presidente afastada Dilma Rousseff.

Seria injusto dizer que a decisão da Câmara representa mais um caso de corporativismo. Já não se trata de mero espírito de corpo, mas de espírito de porco. Se os resíduos mentais que inspiram esse tipo de decisão fossem concretos, não haveria esgoto que bastasse.

A diferença democrática

Em 1992 bastaram menos de quatro meses entre a denúncia e a decisão de renunciar. No atual, já foram oito meses, e podem ser mais seis até o final. O rito é o mesmo, o rigor, não. O parecer que hoje discutimos possui 128 páginas, o mesmo parecer de 1992 continha meia página, com apenas dois parágrafos. Em 1992 fui instado a renunciar, na suposição de que as acusações fossem verdadeiras. Me utilizei de advogados particulares, dois anos depois fui absolvido de todas as acusações no Supremo Tribunal Federal
Senador Fernando Collor de Mello, em seu voto a favor do impeachment

O crepúsculo das esquerdas latino-americanas

Um após outro, os ícones das esquerdas latino-americanas caem como peças de um dominó que avança de forma inexorável. Deve-se falar em esquerdas, no plural, pois os projetos políticos encarnados pelo chavismo, pelo kirchnerismo, pelo PT brasileiro ou por Evo Morales são diferentes entre si. Mas é de uma evidência cristalina o fato de que grande parte das formações soi-disant progressistas do subcontinente, que dominaram o cenário durante uma longa década, já escutam soar suas badaladas fúnebres.

O chavismo, que conduz a Venezuela rumo a uma hiperinflação de estilo zimbabuense em meio a taxas de criminalidade terríveis, sofreu uma derrota acachapante nas últimas eleições legislativas; o kirchnerismo foi despejado da Casa Rosada; Evo Morales recebeu um sonoro não diante do seu desejo de se perpetuar no poder; até mesmo Michelle Bachelet assiste vê fendas enormes se abrirem em sua antiga reputação impoluta devido às manobras realizadas por seu filho; agora, o projeto político inaugurado pelo carismático Lula, mantido por Rousseff e admirado, à sua hora, por meio mundo, sofre o seu próprio Armagedon, com o impeachment de vento em popa e o país inteiro se afundando no gelo da recessão e na lama da corrupção.


O que levou a esse Crepúsculo dos Deuses ("Götterdämmerung", a quarta e última ópera do ciclo do Anel dos Nibelungos), de dramaticidade wagneriana? Obviamente, cada caso tem as suas próprias explicações. Mas é possível listar alguns denominadores comuns.

Sem dúvida, o fim da bonança em relação às matérias primas fez secar abruptamente o fluxo de dinheiro que financiou boa parte da festa na região. Com níveis distintos, todos esses projetos enfocaram bastante a redistribuição de renda, mas talvez não atentaram o suficiente para o fomento da geração de riqueza, investimento, diversificação. Burocracias desesperadoras, protecionismo, corrupção e expropriações em diferentes gradações, conforme o caso, não ajudaram em nada a vários países da região a se prepararem para a violenta aterrissagem por que passam agora.

Por outro lado, a perpetuação no poder é sempre tóxica, e tende a gerar excrescências tumorais corruptas até mesmo nos lares com credenciais democráticas das mais consolidadas.

Contra esses cânceres, trava-se neste momento, em vários países da região, uma verdadeira ofensiva judicial, por vezes bastante violenta (era mesmo necessário deter Lula para que ele desse depoimento?); esse aspecto, que à primeira vista deixaria Montesquieu feliz, se transforma muito rapidamente de virtude em vício quando adquire os traços de uma luta política por meios judiciais.

A questão do equilíbrio entre os poderes traz à tona os grandes riscos de ordem sistêmica que a América Latina enfrenta nessa gigantesca transição política regional. Quase todos os pilares imprescindíveis de uma vida democrática saudável estão sendo – e serão – submetidos a duras provas. Oxalá as diferentes sociedades civis, cada vez mais amadurecidas, consigam encaixar essa mudança política nos trilhos de uma alternância democrática ordenada, com políticas inclusivas inteligentes, com admissão leal das derrotas, com vitórias que evitem gestos revanchistas que normalmente levam apenas a incêndios políticos e à miséria econômica. Parafraseando o célebre desafio lançado por Dante ao seu próprio intelecto ao empreender a construção da Divina Comédia: América Latina, “qui si parrà la tua nobilitate”. Aqui se medirá a sua nobreza, a sua capacidade de realizar uma tarefa que se anuncia como descomunal. Boa sorte.

sexta-feira, 13 de maio de 2016


O novo venceu o velho

O projeto criminoso de poder foi ferido de morte. Se a crise econômica e a Lava Jato tiveram importante papel neste processo, foram as ruas que decidiram a parada. As quatro manifestações de massa de 2015 sinalizaram que não havia mais meios de uma conciliação pelo alto. De uma saída à la brasileira, dentro da velha tradição nacional. O ponto final foi o dia 13 de março, quando milhões saíram às ruas e apontaram que o impeachment era a única solução para a mais grave crise política do Brasil.

No Senado — já são favas contadas — o julgamento vai condenar o governo petista por crime de responsabilidade. A pena (política) de Dilma é amena: será inabilitada, por oito anos, para o exercício de função pública. Mas o PT foi destroçado. Saiu do governo com a pecha de corrupto. Pior ainda: de ter organizado o maior desvio de recursos públicos da história. Diferentemente de 1992, a condenação não será individualizada. Não. A condenação foi do partido — e de seus asseclas, como PC do B, PSOL e parte da Rede — e de um projeto que construiu, no interior do Estado, o que o ministro Celso de Mello chamou, em um dos votos da AP-470, de “macrodelinquência governamental.” Conseguir reabilitação política a curto prazo é impossível. O PT vai se fragmentar em pequenos partidos, sem força eleitoral expressiva. E o projeto de poder que sustentou parte da esquerda brasileira morreu.

O que chama a atenção foi como tudo ruiu tão rapidamente, no sentido político, claro, pois a crise econômica tinha sido gestada no segundo governo Lula e já dava sinais de agravamento desde 2012. Ter devassado os “marginais do poder”, expressão também de Celso de Mello, deu à Lava Jato um importante papel. Porém, o governo ainda apresentava condições de conviver com o escândalo, tentando diminuir seus efeitos políticos, mantendo sob seu jugo a base da pirâmide social — os mais pobres —, o andar de cima, via bolsa BNDES e o colchão de amortecimento representado por intelectuais, artistas, docentes universitários e movimentos sociais que funcionavam como os tonton-macoute do petismo em troca de generosos apoios às suas ações.

Este bloco parecia invencível. E o Brasil condenado a sustentá-los ad eternum. Coube à sociedade civil desatar o nó górdio do projeto criminoso de poder. Não temos tradição de enfrentar o Estado. Pelo contrário. O Estado é fonte de tudo. Mas desta vez a sociedade deixou de ser invertebrada. Foi um processo maturado nas redes sociais e nos movimentos autônomos que foram surgindo nos últimos anos. A espontaneidade foi a marca deste momento. Quem imaginaria o sucesso da manifestação de 15 de março de 2015?

Os velhos formadores de opinião ficaram olhando para o passado. Foram aliados — alguns entusiásticos — do projeto criminoso de poder. Acharam que tinham um poder de influência fantástico. Coitados. Ficaram falando sozinhos. Ninguém mais os lia ou os ouvia. Seus gritos foram recebidos com risos. Falavam de golpe quando se estava cumprindo o que era determinado pela Constituição. Perderam feio. Quiseram até acionar o Papa. Patético!

Temer começa como Lula

O governo Michel Temer começa da mesma forma que começou o governo de Luiz Inácio Lula da Silva: com Henrique Meirelles como o homem forte da economia. Como presidente do BC, Meirelles determinava os dois preços vitais da economia, o do dinheiro (juros) e o da moeda (câmbio), além de condicionar a terceira perna de qualquer economia, a fiscal.

É o suficiente para demonstrar o nível de indigência mental de quem põe esquerda/direita no debate sobre a conjuntura brasileira.

Outra fraude é supor que haja um conflito entre os setores supostamente populares e os antipopulares. Vai me enganar que Katia Abreu, a ministra da Agricultura, é “do povo”?

Temer assume presidente sem vice nao confia neles mesa gabinete planalto.psd

Não é a única coincidência direita/esquerda, constata Antonio Navalón, colunista de “El País”: “Nenhuma razão desculpa Lula e Rousseff de terminar cheirando a podre como os inimigos do passado.”

Não que não exista direita. Existe desde sempre, é poderosa e domina a vida política e econômica. O que não existe mais é esquerda, salvo bolsões (que não estão no PT).

A esquerda brasileira, com exceções que não conseguem interferir de fato no debate público, não produziu uma ideia, uma que fosse, capaz de se contrapor ao pensamento único que está para (re)assumir o governo.

A rendição da esquerda ao receituário e aos nomes da direita e a sua tentativa de escondê-la escancaram um país primitivo. Primitivo em todos os sentidos, miserável educacional e intelectualmente, inerme, catatônico.

Houve um espasmo, é verdade, em 2013, com aquelas manifestações que exigiam serviços públicos “padrão Copa”.

O 2013 brasileiro se dá agora na França com o “Nuit Debout” (Noite de Pé), movimento que nasceu contra a reforma trabalhista proposta pelo governo (supostamente socialista) de François Hollande e se transformou em acampamento permanente na praça da República.

O nome parece uma alusão ao verso que abre a Internacional, a canção comunista (“Debout les damnés de la Terre, “De pé os malditos da Terra). É um movimento absolutamente anárquico e à margem dos partidos, o que mostra “uma pro­fun­da des­le­gi­ti­mação” destes, diz o pesquisador Pas­cal Pe­rri­neau a “El País”.

Deslegitimação que nasce claramente do fato de que partidos são, sempre segundo Perrineau, “or­ga­ni­zações de pro­fissionais da po­lí­ti­ca”.

Todas as pesquisas recentes demonstram que também no Brasil os partidos perderam completamente o contato com os que pretendem representar, inclusive e principalmente o PT, que tinha ou pretendia ter a propriedade da rua.

Agora, em São Paulo, única cidade em que houve medições científicas das manifestações contra e pró-impeachment, havia cinco vezes mais gente contra o governo do PT do que a favor dele.

O problema é que, como em 2013, a rua logo se esvazia, e o jogo volta a ser jogado exclusivamente pelos “profissionais da política”. É um jogo feio, como o demonstra o comportamento dessa gente no dia da votação do impeachment na Câmara e tudo o que se viu e/ou se anunciou depois dele.

O que sobrar

Lula anunciou que montará um "governo paralelo" para fiscalizar a gestão de Michel Temer. É o que os ingleses chamam de "shadow cabinet" - um ministério informal, agindo à sombra do oficial, para ver se este está trabalhando a favor dos interesses da população. Já leu? Pois esqueça. Lula disse isto todas as vezes em que foi derrotado numa eleição. O "shadow cabinet" é um de seus factoides, destinado apenas a fazer espuma e adoçar seu minguante eleitorado interno.

Se Lula não fiscalizou seu governo, nem o de Dilma, como fiscalizará um governo alheio? Nos 13 anos de PT no poder, houve o aparelhamento e a tomada do Estado, o assalto à Petrobras, o festival de propinas, a farra das montadoras e das empreiteiras, a venda de medidas provisórias, a bacanal fiscal e o rombo nas contas públicas. Tudo isto levou o país para o buraco e, como a Carolina do Chico Buarque, só Lula não viu.

Lula não fiscalizou as manhas e artimanhas de seus amigos José Dirceu,Delúbio Soares, José Genoíno, João Vaccari, Silvinho Pereira, Delcídio do Amaral e demais cartolas do PT, dos marqueteiros João Santana e Mônica Moura, dos empreiteiros Leo Pinheiro e Marcelo Odebrecht, do pecuaristaJosé Carlos Bumlai e de outros que ficam, literalmente, na geladeira.

Aliás, Lula não fiscalizou nem a si mesmo. Deslumbrou-se com os vinhos e jatinhos da elite golpista loura e de olhos azuis, promoveu reformas em sítios e tríplex que não lhe pertenciam e fez palestras milionárias de que não se conhece uma palavra.

E, agora, Lula já não conseguirá fiscalizar seus antigos aliados, que estão presos na Lava Jato e a fim de contar o que sabem para mitigar as sentenças de que não escaparão. Marcelo Odebrecht, por exemplo, quer falar para reduzir os 100 anos de cadeia a que está sujeito e, quem sabe, dividir com Lula o que sobrar.

Ruy Castro

A primeira boa notícia

Por enquanto, a primeira boa notícia é que o Brasil deve pelo menos sair da completa paralisia política em que se encontrava. A segunda boa notícia é que acabaram as penosas e intermináveis votações sobre o impeachment. Pelo menos até o julgamento
Francis França

Há um Brasil que não se presta para otário

Ouvindo os dois pronunciamentos da presidente Dilma, tive a clara percepção de que, de fato, estávamos sendo governados por uma pessoa que derrubou limites na sua relação com a realidade. Era algo que já se identificava durante a campanha eleitoral. À época, essa conduta foi inteiramente atribuída a um esforço para esconder do eleitorado a crise já em curso. Certamente havia bastante disso, sim, na publicidade eleitoral e nas orientações que, a peso de ouro, produzia João Santana. Mas evidenciou-se nos últimos meses que algo mais grave envolvia pessoalmente a presidente. Para todos os efeitos práticos, Dilma presidia um país diferente. Exercia um outro governo.

Mesmo diante de indicadores gravíssimos, que diagnosticavam a maior crise nacional em oito décadas, a presidente jamais lhe dedicou a atenção necessária. Erro imperdoável! Quem não se acautela ante um inimigo desse porte será implacavelmente abatido por ele. Essa é uma crise cujo enfrentamento cobra ações sérias e responsáveis. Dilma desconsiderou as mais prudentes advertências, desdenhou as reações das agências de risco. Condenou os críticos da política econômica. O navio afundava e ela ouvia a orquestra dos companheiros.

A corrupção grassava no governo. Fortunas se acumulavam no seu entorno. É bom lembrar: esses escândalos não foram "descobertos" pela Lava Jato. Eles já enchiam as páginas das revistas semanais bem antes de caírem nas mãos diligentes da 13ª Vara da Justiça Federal de Curitiba. E o que fazia a presidente? Estimulava a reação de sua militância contra as publicações, sem enfrentar os fatos escabrosos que eram denunciados.

Quantas matérias foram produzidas sobre os negócios de seu anjo da guarda, Luís Inácio Lula da Silva, com empreiteiras nacionais em arranjos bolivarianos e africanos envolvendo o BNDES? Quantas denúncias sobre o enriquecimento da família Lula da Silva? Quantas informações circularam no país, durante anos, sobre os desmandos da Petrobrás? Ela sempre ocupando postos, caneta e cadeira de mando. E quanta prosperidade ao seu redor! Não, não me impressionam as alegações da presidente afastada sobre a própria honestidade. Não há mérito em não furtar. Os crimes que se gaba de não ter praticado aconteceram com o que estava sob seu zelo! Ademais, mentir não é honesto. Ocultar a verdade, tampouco. Já a tolerância, a imprudência, a omissão, a negligência e a vista grossa compõem gravíssimos deméritos.

Nos dois pronunciamentos com que se despediu, Dilma Rousseff reincidiu nos mesmos equívocos. Buscou sacralizar um mandato conquistado no mais destapado estelionato eleitoral, tão escandaloso e tão rapidamente evidenciado que levou a nação às ruas já antes de sua posse. Atribuiu seu afastamento a um complô golpista e não a um justificado clamor popular e a um correto procedimento constitucional. Afirmou que seus adversários são inconformados com as "conquistas sociais" e com a "prosperidade dos mais pobres". Somente alguém destituído de juízo pode crer que investidores, empresários, profissionais liberais, por exemplo, se beneficiem da pobreza dos pobres. Fosse assim, o mundo dos negócios se mudaria para Serra Leoa e para a Somália. Quem não sabe disto? Ao contrário, o que de melhor aconteceu para a economia mundial neste século foi proporcionado por 400 milhões de chineses que começaram a produzir, consumir, e saíram da pobreza. Até o Brasil petista cresceu, mas a riqueza foi consumida pelos piores meios e fins, e seus benefícios, hoje, atendem pelo nome de desastre brasileiro.

No entanto, no cérebro da presidente afastada, não há esse tipo de registro. Ali só têm lugar meia dúzia de chavões ideológicos que compõem os mandamentos de seu grupo político. Então, é melhor suportá-los na oposição do que nos submetermos por mais tempo ao desastre que foi a gestão petista.

Percival Puggina

Perdas e danos

Desta vez não foi um circo dos horrores, como a explosão da boçalidade popular da Câmara. Com raras exceções, foi um tedioso comício com quase todos aproveitando cada segundo para se exibirem para seus eleitores, repetindo ad nauseam argumentos que todos já sabem de cor. Foi mais uma, a última, a maior das perdas de Dilma Rousseff.

Quando era jovem e idealista, Dilma acreditava de coração que só um socialismo como o cubano salvaria o Brasil injusto e atrasado. Combatendo nas sombras, arriscando a vida em guerrilhas urbanas, com atentados, expropriações, sabotagens e assassinatos, acreditava que eles seriam capazes de abalar a gigantesca estrutura militar-policial da ditadura e instaurar uma nova ordem.

Dura e mandona, líder de seu grupo, Dilma perdeu. Foi presa, torturada, perdeu três anos de vida por uma crença desmentida pela razão e pelos fatos.

Hoje ela diz que foi vítima de uma injustiça. Em guerra contra o Estado, Dilma perdeu por suas escolhas erradas e teimosas contra todas as evidências, quando a valentia se confunde com a soberba.

Quarenta anos depois de sua prisão, ungida por Lula, o poder lhe caiu nas mãos.

Em 2010, a candidata Dilma declarou que guardava R$ 150 mil em dinheiro vivo em casa. Em seis anos, a inflação criada pelo seu governo roeu uma boa parte de suas economias, e ao mesmo tempo deixou de ganhar um bom rendimento na poupança. Perdeu duas vezes. Por vocação ? Ou metáfora ?


Mentiu, prometeu e gastou o que não tinha para ganhar a eleição. Venceu nas urnas mas perdeu a credibilidade. Rejeitada por 65% da população e pela maioria da Câmara e do Senado, de novo se disse injustiçada. Mas não reconheceu a derrota, nunca assumiu qualquer responsabilidade no assalto da Petrobras para bancar um projeto de poder e nem na crise econômica. Perdeu pelos danos que causou.

Parece estranho, mas Dilma é leitora e admiradora de Nelson Rodrigues, que passou a vida ridicularizando tudo em que ela mais acreditava. Agora lhe resta citá-lo quando disserem que são os fatos que a condenam: Então pior para os fatos.

Esquerdas envelhecidas

Não fui eu que mudei; foi a esquerda que envelheceu, não eu. A esquerda que está há 13 anos no poder, o que demonstra um desapego à democracia, manipulando, cooptando, criando narrativas em vez de análises; com a preferência pelo assistencialismo em vez de uma preferência pela transformação social; com um apego ao poder que consegue, inclusive, driblar a Constituição, fazendo com que o presidente Lula tenha quatro mandatos: dois em seu nome e dois em nome da presidente Dilma Rousseff; com o vício de corrupção, que nenhum de nós imaginava; com a incompetência gerencial, cujos resultados são nefastos e visíveis; com o aparelhamento do Estado; e com gosto por narrativas como essa de que o que estamos fazendo aqui, dentro de todo o rigor constitucional, é golpe.

Por que não fortalecemos a democracia, preferindo comprar parlamentares com mensalão e movimentos sociais com financiamento de projeto? Por que não realizamos as transformações sociais, estruturais, preferindo a assistência, com propósitos generosos, mas também fisiológicos, em troca de votos? Por que não pusemos o Estado a serviço do povo? Ao contrário, entregamos os órgãos públicos aos partidos, porteira fechada; os fundos de pensão aos grupos sindicais e até mesmo ao financiamento de carteiras de governos estrangeiros aliados; os bancos estatais entregamos a negociatas, visando ao financiamento de campanhas eleitorais.
Senador Cristovam Buarque (PPS-DF), ex-ministro da Educação de Lula, em seu voto a favor do impeachment

Um silêncio enganador

Nunca houve presidente no Brasil que falasse tanto quanto Lula. Dia sim e outro também, lá estava ele no rádio, na televisão e nos jornais, falando sobre tudo e mais alguma coisa. Lula é um bom comunicador, um orador inspirado, mas depois de oito anos seguidos de falação, o silêncio que subitamente se fez no Planalto após a primeira eleição de Dilma foi um bálsamo. Ela transmitia uma sensação de seriedade e de concentração, e dava a todos nós, mesmo os que não votamos nela, a impressão de que lá estava, afinal, uma pessoa que estudava e trabalhava com empenho, e que mais ouvia do que falava.

Aos poucos, porém, a sua política canhestra foi se fazendo conhecida, assim como a sua administração desastrada; aos poucos começaram a circular histórias. E percebemos que o silêncio abençoado era, afinal, pura ilusão, apenas a ponta do iceberg de arrogância e de falta de diálogo que acabaria por afundar o governo.

Dilma não caiu por causa das pedaladas; Dilma caiu pelo conjunto da obra. Mas caiu, sobretudo, porque é impossível exercer bem qualquer ofício sem ter gosto ou vocação para este ofício.

A “presidenta”, que até hoje gosta de dizer que defendia a democracia quando pegou em armas — e que eventualmente até acredita nisso, ao contrário de colegas mais sinceros, que já reconheceram que lutavam para substituir uma ditadura por outra —, nunca teve talento para a convivência democrática. A melhor prova disso talvez seja o seu descaso pela política externa, que abandonou por completo ao descobrir que, no palco mundial, deveria tratar seus interlocutores com tato e diplomacia, ao invés de dar ordens como dava em casa.

Dilma Rousseff não foi, em nenhum momento, a presidente de todos os brasileiros; ela foi a sua própria criatura, incapaz de conversar, de ouvir, de aceitar críticas, de delegar poderes — incapaz, em suma, daquele conjunto de atitudes que é a base de um governo plural. A sua assinatura atravessa a crise de ponta a ponta.
É justo que a conta fique com ela.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Os aniversariantes do dia festejam duplamente

Progresso, democracia e esperanças

Somos empolgados pela mudança mas, como revelou Freud, ela precisa da coragem para dialogar com demônios. O progresso decreta respeito, senão ele se desmancha na primeira ressaca, como as nossas ciclovias.

Vivemos num mundo no qual as “páginas devem ser viradas”, embora a narrativa ancorada num progresso cumulativo ordene releituras. A leitura é o ideal; a releitura, uma necessidade.

Estamos testemunhando uma dramática releitura do Brasil como país. Não estamos relendo suas páginas como sociedade e cultura como fazemos quando falamos de comidas, música ou quando discutimos bundas ou carnaval.

O Brasil está falido e, nas vésperas de um desfecho que nos atinge como um todo, não há escolha. Enquanto a maioria torce por uma narrativa razoável, uma minoria, que opta pela negação e pela repressão, reitera que prefere apostar novamente no familiar “quanto pior, melhor”.

Estamos acostumados ao mote do “eu já vi esse filme”, indicativo de retorno de dramas reprimidos. Mas o imperativo de mudar é inadiável.

Um amigo gostaria de uma “limpeza geral”. Eu, humildemente, lembro que o drama é sempre maior que os atores. Num sistema que se diz “democrático-liberal” — embora muitos tomem isso como um insulto —, a peça sempre terá dois lados, embora um deles tenha como objetivo englobar temporariamente o outro.

O problema hoje não é substituir os jogadores; a questão é tirar de campo os atores indesejáveis ao ponto da degradação do próprio jogo. Não se pode transformar o campo mais nobre e mais importante para o progresso de um país — a sua administração pública — num pântano. Substituir um capitão de time é algo delicadíssimo. É um ato doloroso, mas ele não significa liquidar o jogo. O ideal democrático continua desde que, como disse com propriedade o senador-relator Antonio Anastasia, os adversários honrem o fato de que pertencem a partidos diferentes, mas balizem a disputa com sua lealdade à democracia.

Convenhamos que não se pode admitir a nomeação de quase dez mil cargos comissionados, somente por critérios partidários, pois é isso que assassina o espirito das instituições. Todos, como enfatizou numa rara lição de liberalismo o citado senador, são membros de um partido e de um time que deseja vencer. Isso é o óbvio. Mas o que não é obvio é descobrir que a vida política não pode ser reduzida somente a interesses e projetos partidários e pessoais.

Caso assim fosse, a desconfiança e a lealdade seriam os maiores obstáculos ao progresso democrático. Realizado com honra, o movimento parlamentar não pode ter como alvo — exceto por projeção construída pela má-fé — somente a vitória de um partido a qualquer preço.

Se um time de futebol é tão desleal a ponto de querer vencer todos os campeonatos e fazendo com que se pergunte, como o Galvão Bueno, o significativo “pode isso, Arnaldo?!” — o futebol acabaria por inanição. Ele deixaria de ser um jogo para ser teatro ou filme reprisado

Por isso, a democracia é um regime alérgico ao radicalismo absoluto, à fé cega e, acima de tudo, à desonestidade e à conivência. Numa palavra, a uma “ética de condescendência”. Com a conhecida moralidade do tudo o que fazemos é certo e tudo o que vocês fazem é golpe. Sem o risco, sem a incerteza e sem o imprevisto, mas com um acordo básico no progresso e na igualdade de todos perante a lei como um valor, deforma-se a democracia.

Se eu posso, com a minha insignificância como colunista desejar algo ao governo Temer, desejo rigor e austeridade. Que ele tenha uma compostura jamais vista no Brasil. Que tenha a vontade de transformar “governantes” (ou donos) do Estado em servidores da sociedade. Sugiro, e respeitosamente demando, a supressão de todas as figuras de privilégio e hierarquia que fazem o ator comer o cargo, e o criminoso não ser punido.

É preciso terminar regalias como casa, criadagem, comida e aspones que fabricam os “donos do poder”. É necessário impedir a nomeação por gosto e favores partidários ou sexuais.

Em suma, há que se adotar uma inédita e resoluta prática igualitária, sem a qual vamos continuar eternamente sendo os mentirosos engravatados de sempre.

Roberto DaMatta 

Os golpes do petismo

O impeachment não é um golpe. O impeachment é um contragolpe. O golpe começou em 2002 com a “Revolução Pacífica”, como eles chamavam a tomada do poder. Nunca se consideraram “eleitos”, mas invasores do chamado Estado Burguês.

E começaram os golpes contra a República. Golpe deram esses caras com a eleição do Lula, buraco por onde se infiltraram os velhos comunas desempregados desde 68 para fazer uma revolução por dentro do Estado (uma vulgata ridícula de Gramsci), para libertar o Brasil do “capitalismo neoliberal de direita contra o povo brasileiro”, do qual se consideram os vanguardeiros. E partiram para o desmanche do país, como se o capitalismo fosse um regime político, e não um modo de produção. Dilma está sendo julgada pelas pedaladas fiscais, gravíssimas, mas tecnicamente difíceis de entender para a população. E os petistas se agarraram a essa tecnicalidade complexa para dizer que não as cometeram.


As pedaladas foram, sim, o estopim para a grande crise a que assistimos, mas Dilma está sendo impedida por muitos outros golpes.

Foram golpe as mentiras que tramaram nas eleições de 2014, foram golpe as malandragens com as contas publicas para maquiar despesas e manter preços baixos, foi golpe a entrega do tesouro aos aliados, com permissão (desde Lula) para roubar, foi golpe a nomeação de milhares de vagabundos para cargos públicos aparelhados, foi golpe a destruição da Petrobrás, provocada pela absoluta displicência do governo com nossa maior empresa, foi golpe a estupidez da “nova matriz econômica”, que desfez tudo que estava feito para impor uma absurda agenda bolivariana num país capitalista, foram golpes as obras prometidas e inacabadas ou abandonadas, foi golpe a Dilma autorizar a compra da refinaria de Pasadena, a lata velha de US$ 1,5 bilhão, quando Dilma era presidente do Conselho da Empresa (só isso já justificaria um impeachment), é golpe denunciar às organizações estrangeiras um “golpe”, pedindo sanções contra o próprio país que dirigiu e desmanchou.

E o grande golpe se completou com 11 milhões de desempregados, com a indústria e o comércio quebrados. A lista é longa, muito além das pedaladas.

Ainda bem que esses golpes estão mergulhando na lata de lixo da História, junto com os velhos comunas que não viram cair nem o Muro do Berlim.

O parto da girafa

O abalo sísmico provocado pelo deputado Waldir Maranhão, presidente interino da Câmara e ilustre desconhecido até anteontem, é emblemático de quanto chão temos pela frente até o Brasil se transformar em um país estável e de instituições fortes. Iniciar a travessia de um Estado patrimonialista, onde a política é uma intermediação de interesses subalternos, para um Estado verdadeiramente republicano será a prova dos nove para o vice-presidente Michel Temer.

As pedras colocadas no caminho são imensas. O país se modernizou e com ele as instituições permanentes do Estado, como o Ministério Público, a Polícia Federal e o Poder Judiciário, cuja integração e eficácia são particularmente visíveis no combate aos crimes de corrupção e financeiro, como demonstram as operações Lava-Jato, Zelotes e Acrônimo.

Mas o mundo da política continua tão ou mais arcaico do que antes. Velhas práticas do clientelismo, do fisiologismo, do compadrio e do patrimonialismo se encrustaram no Estado, com o agravante de terem se associado a um projeto de poder escuso, responsável pelo maior assalto à coisa pública de nossa história.

Michel Temer encontra-se diante de uma encruzilhada. Se trilhar a estrada antiga, começará seu governo de maneira fragilizada, ficará refém de um modelo político esgotado e esclerosado, o tal “presidencialismo de coalizão” à moda petista.

Por aí, será mais do mesmo. Como tragédia anunciada a crise se agravará por melhor que seja sua equipe econômica. O resgate da credibilidade da política econômica passa, necessariamente, pelo acerto no campo da política, propriamente dita. Se ignorar essa lei, o novo governo estará fadado ao fracasso.

Não está dado, porém, que este seja seu destino. Apesar do vai e vem do provável futuro presidente, há sinalizações de que ele pode enveredar por uma trilha mais promissora. São indicativos disso sua disposição de fazer um pronunciamento à nação defendendo a operação Lava-Jato e o anúncio de que comporá um ministério mais enxuto.

É certo que na política Temer está sendo reativo, impulsionado por uma opinião pública cada vez mais exigente. Por instinto de sobrevivência, ou não, isto pouco importa para efeito da análise, o fato é que ele procura entrar em sintonia com uma sociedade onde a indignação, ao contrário de outros momentos, não deu lugar à apatia.

Mas reagir já é alguma coisa em um país onde a presidente deu as costas ao povo e, arrogantemente, ignorou o grito das ruas. Também não deixa de ser positivo que na hora H o Congresso Nacional tenha entendido o recado dado por milhões e milhões de brasileiros.

Se tiver disposição de ir adiante, Temer poderá se beneficiar de outro fator. A suspensão do deputado Eduardo Cunha e o desfecho do affaire Waldir Maranhão diminuíram o poder de barganha do baixo clero, que deve passar por um momento de desarticulação.

Há, portanto, condições para o futuro presidente por limites à voracidade da constelação partidária, de não ceder ao balcão de negócios, de não ficar prisioneiro da chantagem do toma-lá-dá-cá a cada votação de interesse do Executivo.

Sejamos claros: o balcão só prosperou nestes treze anos porque havia alguém do outro lado disposto a comprar as facilidades que os deputados se dispunham a vender. Os governos lulopetistas suprimiram a política e adotaram uma relação meramente mercantilista com os parlamentares, afrontando, assim, a autonomia do próprio Congresso Nacional.

O que se exige de Temer é a mudança desse padrão. É a adoção de outro valor.

É ilusório crer que faremos um parto indolor, na direção de um país de instituições sólidas, de um Legislativo que se dê o respeito e por isto mesmo seja respeitado, de um Executivo que não faça da cooptação sua forma de construir maioria no Parlamento.

Será um parto longo e extremamente dolorido, algo mais próximo ao parto da girafa, que leva 15 meses para acontecer, mas o filhote, quando nasce, já sai andando.

Fim de um desgoverno

Quando se prepara para receber do Senado Federal a notícia de que a partir de amanhã já não mais será a Presidente do Brasil, Dilma Rousseff, tem razões de sobra para refletir sobre as causas que a levaram e a seu governo a tão melancólico desfecho.

Considerando seu passado, Dilma não admitirá sua própria responsabilidade no episódio. Ficará repetindo, como mantra, é golpe, é golpe, não aceitando o fato de que violou a Constituição em matéria punível com o impeachment.


Escapar da responsabilidade lhe parece natural, pois foi o que fez quando lhe perguntaram sobre o funcionamento do maior esquema de corrupção do mundo, na Petrobras, nos anos em ela foi presidente do conselho de administração da empresa: Euzinha? Nada vi, nada soube, de nada desconfiei, nada supus, de nada nada.

O pior é que pode mesmo não ser apenas uma de encenação. Pode ser que Dilma acredite mesmo na baboseira que vem repetindo nos comícios que organiza no Palácio do Planalto, de que ela é apenas uma pobre vítima de golpistas desalmados. A

Ora, como pode isso acontecer com ela, que apregoava à exaustão na campanha eleitoral de 2010 que “a gente nunca pode apostar nas virtudes dos homens, porque todos os homens e mulheres são falhos. Precisamos apostar na virtude das instituições”.

Mas esse pensamento, que tomou de empréstimo a Márcio Thomaz Bastos, não lhe ensinou a história toda. A virtude, própria ou alheia, é apenas metade do que necessita o ou a governante para ter sucesso. A outra metade, como já instruía Maquiavel a Lourenço de Médici, poucos anos depois da descoberta do Brasil, chama-se sorte, fortuna.

Luiz Inácio Lula da Silva, que antecedeu Dilma na Presidência, administrou o País com um relativo déficit de virtude, mas com um extraordinário superávit de sorte.

Tendo recebido o país com as contas econômicas relativamente bem arrumadas, foi sábio (virtude) o suficiente para nelas não mexer. Com isso pode usufruir de toda a sorte (fortuna) representada pelo aumento brutal dos preços das commodities exportadas pelo Brasil, graças ao ímpeto importador chinês.

Com dinheiro sobrando, com o país crescendo, Lula pode bancar os programas sociais de sua agenda e apresentar-se ao mundo como um grande líder. Como se dizia à época, o lado bom de Lula não era novo, e o lado novo não era bom. Mas o fato é que foi bafejado pela sorte.

Como Dilma, só que com referência ao ‘mensalão’, cujas tratativas ocorriam na sala ao lado de seu gabinete, Lula também de nada soube, viu ou percebeu. Mas o que fazer, se a falta de virtude em seu governo era mais do que compensada pela fortuna?

No caso de Dilma, a situação foi diferente. Por razões que talvez conte quando produzir um relato biográfico, Lula a escolheu - quando muitos associavam sua imagem à de um poste em termos de flexibilidade política - como candidata a sucedê-lo.

Sua fama como gestora, na verdade, parecia mais decorrer do temor que espalhava à sua volta, fruto de incontrolada grosseria pessoal, do que de uma efetiva qualificação pessoal e profissional.

Lula terá um dia de explicar a razão de ter indicado uma pessoa com essas falhas tão patentes para assumir a complexa responsabilidade de administrar um país como o Brasil. Para completar, faltou a Dilma a sorte que sobrara nos governo de Lula da Silva.

A herança deixada por seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva, foi apresentada pela máquina de propaganda do governo como um sucesso. Na verdade, parecia um pêssego, mas era pequi: bonito por fora, mas com profusão de espinhos por dentro.

Um desses espinhos deixados de presente por Lula para sua sucessora foi um pacote de “empenhos”(compromissos de pagamento) de mais de 10 bilhões de reais. Foi esse o começo do fim.

Pedro Luiz Rodrigues

Itinerário da insensatez

O sentimento que por muitas semanas dominou o governo Dilma foi de revolta. Agora mudou: é de desespero, porque a partir de hoje não há mais governo Dilma. Assumiu o governo Temer.

Como imaginar de outra forma os recursos impetrados por Madame na Corte Interamericana de Direitos Humanos e na Organização dos Estados Americanos? Pura insensatez levar para foros que por sinal nada representam diante de nossa soberania, imaginando que qualquer decisão alienígena poderá afetar nossas instituições? A briga teria que ser desenvolvida no âmbito do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal. Apelar para bandos de desocupados só pode mesmo ser desespero.


Até uma parte do PT pensa assim. Nem nos referimos às causas que conduziram o governo a sofrer o impeachment já caracterizado e à espera do golpe de graça nos próximos 180 dias. Não há como eximir Dilma da responsabilidade maior. Em vez de governar, enrolou-se na própria incompetência. Desde o primeiro mandato ela espalhou arrogância, cercando-se mal e atuando pior ainda. Agora, acaba de colher as consequências. O país transformou-se num aglomerado de frustrações. Do empresariado aos trabalhadores, das corporações à classe média, dos políticos à inteligência nacional – a nação rejeitou o grupo encastelado no poder. Claro que as organizações sindicais protestaram, mas vão durar pouco as manifestações de protesto. Quando esgotado o combustível oriundo dos cofres públicos, perceberão a inutilidade de apoiar os artífices do caos. Não deixarão de reivindicar direitos e necessidades, ainda mais diante do retrocesso social que deverá marcar o governo Temer. Só que sem a farsa de seus falsos representantes. Possivelmente o inconformismo vai aumentar, a agitação se multiplicará, mas jamais respaldando o fracasso de Dilma e seu grupo. Talvez aflorem movimentos mais sinceros e por isso mais violentos, à medida em que o novo governo desenvolva iniciativas elitistas e contrárias aos interesses das massas. Nada, porém, saudosista e lamentando o que acaba de passar.

Brasil tornou-se pós-freudiano e pré-falimentar

Atenção! Durante a madrugada, enquanto você dormia, suas coordenadas mudaram. Situe-se. Convém acionar o GPS. Não tem? Então, você precisa de ajuda. Vamos lá.

Você está no Brasil, América do Sul, Terra, fundos. O país migrou da barbárie petista para a decadência peemedebista sem um estágio intermediário de algo para chamar de bons tempos.


O PT amanheceu na oposição, mas continua morando no Alvorada. O PMDB ainda habita o Jaburu, mas passou a controlar as chaves do Planalto. E o PSDB trocou o trono de líder da oposição por duas cadeiras de ministro.

O país agora é pós-freudiano. Mas continua pré-falimentar. Dispõe de dois presidentes. Mas não tem nenhum. Dilma é presidente afastada. E Temer é presidente em exercício. Mas o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, é do Lula.

O ministério sofreu uma reforma. No entanto, com raras exceções, não houve propriamente uma mudança de ministros. Trocaram-se os cúmplices. Os nomes são outros, mas os PPs, os PRs e os inquéritos da Lava Jato são os mesmos.

Fixadas essas novas coordenadas, situe-se como indivíduo. Pegue o seu RG. Confira a foto. Verifique se a assinatura confere. Pegue também o CPF. Recite o número. Repita três vezes, para ter certeza de que você continua sendo você mesmo e não um impostor.

Pneus queimados e os 'miguelitos' da presidente

Esta terça-feira que antecede a votação do relatório da Comissão Especial do impeachment no Senado amanheceu com pneus ardendo em rodovias do país. Os jagunços do comandante João Pedro (quebra-quebra) Stédile vinham sendo, de viva voz, convocados como milícias do decadente governo. Com pneus velhos e foices mais luzidias do que baionetas de desfile, manifestam-se amuados com a decisão constitucional e soberana da Câmara dos Deputados e com a disposição do Senado Federal de afastar a presidente do atabalhoado exercício de suas funções. É bom, mesmo, que a Câmara Alta faça isso logo porque Sua Excelência dedicou os últimos dias à impatriótica tarefa de jogar "miguelitos" no caminho de seu substituto.

O que leva as forças de Stédile a bloquear estradas queimando pneus também move a quase-ex-presidente Dilma a despejar pacotes de medidas cujo efeito é ampliar as dificuldades fiscais que Temer terá de enfrentar no exercício do seu período de substituição. É o mesmo motivo, aliás, pelo qual o governo está caindo, pelo qual o país foi levado a uma crise descomunal e pelo qual o partido governante afunda em descrédito. O PT é animado por aquele egoísmo que só aceita sistema ou ordem em que tudo gravite em torno de si mesmo. Sob tal perspectiva, o país e seu povo pertencem à sua órbita e nela se deslocam. É assim que operam as mentes totalitárias.


Eis aí, também, o motivo pelo qual o partido se recusa a admitir que seu governo levou o país ao caos. Os dados à sua frente nada o informam a esse respeito. Ao contrário, para o PT tudo estava muito bem com o sistema gravitando em perfeita ordem. Caos, para o partido que ainda governa o país enquanto escrevo, é o que se instala quando se embaralham as forças em seu universo particular. E se isso ocorre, fogo nos pneus. "Miguelitos" na estrada do Temer. Histeria masculina e feminina nos plenários. "Manhas e artimanhas", para tumultuar a vida institucional. Manhas e artimanhas foram as palavras usadas pela presidente quando se referiu à patacoada promovida pelo presidente interino da Câmara dos Deputados no ato através do qual usurpou o papel de seu colega Tiririca. Manhas e artimanhas como aquela em que se degradou o ministro José Eduardo Cardozo ao organizar a farsa e arrastar os senadores da base para sua pantomima jurídica.

Estamos longe do fim. Por muito tempo ainda os veremos jogando pesado contra o interesse nacional, contra o bem do país e sua credibilidade. Por muito tempo ainda os veremos empenhados em causar o maior dano possível à sociedade brasileira, que conduziram a inédito nível de desemprego, perda do poder de compra, insegurança, criminalidade e desorientação. Afinal, como esperar algo mais republicano de um grupo político cuja militância queima pneus nas estradas e a quase-ex-presidente joga "miguelitos" no caminho do país?

Percival Puggina

Enfim, um governo

Quando escrevo este artigo, o Senado Federal caminha para afastar Dilma Rousseff do poder. É o fim de uma crônica da morte anunciada. O governo Dilma estava a fadado a morrer. Hoje ou depois. Das pedaladas de antes ou pela obstrução da justiça de agora. Não tinha escapatória.

O que esperar de Michel Temer? Primeiro, devemos ajustar as nossas expectativas. Não podemos esperar aquilo que o governo não pode entregar. Também não podemos deixar de considerar o sistema político que temos.

Considerando que o impeachment será confirmado definitivamente, teremos dois e pouco de um governo de transição. Não é muito tempo. Mas é suficiente para restabelecer a confiança na economia.

Dilma Impeachment Janio Ma

Outro fator é o regime político do país. Vivemos um presidencialismo de coalizão que se sustenta na boa relação do presidente com o Congresso. Se o relacionamento for equilibrado e respeitoso, muito pode ser feito.

Assim, nossas expectativas devem ser ajustadas para o nível básico da realidade. O governo Michel Temer poderá ser excepcional se nossas expectativas forem realistas e ele souber usar os recursos que tem.

Temer sabe que o Brasil tem dois desafios imediatos. Recuperar a credibilidade fiscal do país e destravar os investimentos. De certa maneira, são desafios factíveis de serem alcançados se forem bem trabalhados e existir um bom relacionamento com a base política.

Em tese, qualquer agenda pode ser encaminhada desde que seja bem preparada. Mesmo a reforma previdenciária pode avançar se a proposta for bem explicada para a cidadania; que atinja inicialmente os funcionários públicos e que existam regras claras de transição.

A aprovação de um limite constitucional para os gastos públicos e da renovação da DRU - Desvinculação das Receitas da União também podem ser alcançadas. Desde que o relacionamento político seja sólido.

A base do sucesso do governo Temer está em observar as razões do fracasso do governo Dilma. Uma das razões mais óbvias foi o distanciamento que o governo manteve de sua base. Na hora que precisou dos deputados, se aproximou de forma oportunista. Não funcionou.

Dilma avançou e recuou em muitas de suas iniciativas. Passou falta de clareza e ausência de rumos. Sua comunicação foi caótica. Quando não era patética. Sua liderança nunca se afirmou apesar do repertório de grosserias. Tudo o que não se espera do novo presidente.

Em mantendo clareza de propósitos, uma boa e sincera comunicação social e um diálogo permanente com a base política, Temer poderá consolidar sua presidência e fazer uma boa gestão. É uma expectativa realista.

Murillo de Aragão

Livro científico que dói na cidadania

Há anos, desde que o li, se tiver de indicar um livro para alguém, não tenho dúvida de que é “O Futuro Roubado”, de Theo Colborn, Dianne Dumanoski e John Peterson Myers (L&PM Editores, 1997), que elenca e analisa estudos científicos sobre agentes químicos sintéticos que alteram os sistemas hormonais e que ecologistas e ecólogos, 30 anos antes de sua publicação, apontavam como deletérios ao meio ambiente e à saúde animal e à humana.

Por sua magnitude em dados científicos irrefutáveis, é reconhecido como uma continuação de “A Primavera Silenciosa”, da bióloga marinha Rachel Carson (1907-1964), publicado em setembro de 1962 – hoje um clássico da área da consciência ambiental planetária. A autora é uma celebridade mundial que, para o jornal inglês “The Guardian”, ocupa “o primeiro lugar entre as cem pessoas que mais contribuíram para a defesa do meio ambiente em todos os tempos”.

O pioneirismo, a paciência, a sagacidade e o mérito de Rachel Carson como cientista são inegáveis. Ela sistematizou “toda a literatura científica disponível à época, numa brilhante obra literária de denúncia e divulgação científica”, ao mesmo tempo em que divulgou e reavivou a Teoria da Evolução de Darwin/Wallace “numa América conservadora e religiosa”.

Para Alexandre Sallum, “de maneira demolidora, Rachel Carson explicou e denunciou o perigo dos pesticidas, apesar do título poético, uma referência ao silêncio dos pássaros mortos pela contaminação dos agrotóxicos... No primeiro capítulo, ‘Uma fábula para o amanhã’, a autora descreve, liricamente, um lugar onde as árvores não davam folhas, os animais morriam, os rios contaminados não tinham peixes e, principalmente, os pássaros que cantavam na primavera haviam sumido” (“A Primavera Silenciosa”, de Rachel Carson, 2012).

O primoroso prefácio da edição brasileira de “O Futuro Roubado” é do agrônomo e ambientalista José A. Lutzenberger (1926-2002), no qual declara: “O que precisamos questionar é a tecnologia dos agrotóxicos em si”. A edição norte-americana foi prefaciada pelo Nobel da Paz 2007 e ex-vice-presidente (de Bill Clinton, 1993-2001), Al Gore, que afirma: “Estudos com animais e seres humanos relacionam os agentes químicos a inúmeros problemas, como infertilidade e deformações genitais; cânceres desencadeados por hormônios, como o câncer de mama e o de próstata; desordens neurológicas em crianças, como hiperatividade e déficit de atenção; e problemas de desenvolvimento e reprodução em animais silvestres...

“Os organoclorados e outros produtos estão causando uma profunda alteração na base da sobrevivência dos seres vivos do planeta. Causam disfunções hormonais, levando à masculinização das fêmeas e à feminilização dos machos. Na espécie humana, já há uma queda em 50% da fertilidade pela progressiva destruição dos espermatozoides”.

“O Futuro Roubado” é um livro-síntese da literatura científica até 1996. É um livro-guia: depois que o li, sempre que avalio estar sendo ludibriada, na vida privada ou na pública, sou instada a reagir, pois o referido livro aparece flutuando em minha mente como um alerta para que eu não me cale! E nos roubam muito, quase tudo, até o parto, como relato em “O parto roubado é um conceito político de resistência”.

O título “O Futuro Roubado” hoje é mais que um livro. É também um conceito político de resistência aplicável a conjunturas políticas que retiram, usurpam, entravam direitos e roubam a cidadania, tornando perenes as assimetrias econômicas, as exclusões e as vulnerabilidades sociais e políticas.

Epitáfio para a era PT

Com muita frequência, as pessoas tentam ignorar que cometeram faltas, mas, como um estilhaço de obus que se movimenta dentro de um corpo, seu fardo provoca dores lancinantes e, às vezes, as mata
Ievguêni Ievtuchenko