terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Dilma Rousseff fala sobre a CPMF



Escravizada pela ruína econômica que produziu, Dilma Rousseff já demonstrou que pode ser a favor de tudo e contra qualquer outra coisa. Sempre foi considerada uma personalidade opaca. Mas fazia pose de intransigente e forte. Engolfada pela crise e pela onda de impopularidade, passou a ser vista por adversários e simpatizantes como fraca e inepta. Ao insistir na recriação da CPMF, potencializa a tese segunda a qual pratica um estelionato político, defendendo algo que jurava não estar nos seus planos. Dilma se autodesmoraliza. Leva água para o moinho do descrédito.

A ex-aversão de Dilma à CPMF está exposta num par de entrevistas eternizadas na internet. “Eu não penso em recriar a CPMF porque eu acredito que não seria correto”, disse ela no ano eleitoral de 2010. “Eu sou contra a CPMF”, declarou no ano seguinte, já instalada no gabinete presidencial. “Sabe por que a população era contra a CPMF? Porque a CPMF foi feita para ser uma coisa e virou outra. Acho que a CPMF foi um engodo nesse sentido.” Costuma-se dizer que o futuro a Deus pertence. E o passado? Quem se responsabilizará pelas declarações de Dilma?

Na campanha presidencial de 2014, período em que recitou no rádio e na tevê espertezas elaboradas pelo marqueteiro João Santana, Dilma satanizou os adversários. Informou ao eleitorado que Aécio Neves era o outro nome sacrifícios. Eleito, o tucano elevaria a carga tributária. Cortaria benefícios sociais, tornando vulneráveis os grupos sociais que o PT içara da miséria para a “classe média''.

Num debate eleitoral, usou a CPMF para fustigar a ex-petista Marina Silva. Na sequência, sua campanha levou ao ar um vídeo que espicaçava a antagonista. A peça explorava uma alegada contradição de Marina sobre votações da CPMF em sessões do Senado, ocorridas em 1995 e 1999. “Mudar de opinião, ainda vá lá. Agora, falar que fez o que não fez, isso tem outro nome'', dizia o narrador no comercial, supervisionado por João Santana e aprovado por Dilma..


Ao abraçar um tributo que dizia refugar, Dilma como que autoriza seus antogonistas a produzirem um comercial dizendo algo assim: “Mudar de opinião, ainda vá lá. Agora, fazer o que jurava que jamais faria tem outro nome: estelionato.” Por mal dos pecados, a presidente pede ao Congresso que aprove a CPMF em pleno ano de eleições municipais. Até os aliados do Planalto reconhecem que são pequenas, muito pequenas, diminutas as chances de deputados e senadores avalizarem a volta do imposto. Mas Dilma não se dá por achada.

Na última sexta-feira, dia em que o IBGE informou que o desemprego bateu em 9% entre agosto e outubro de 2015, Dilma declarou a um grupo de jornalistas que a perda de postos de trabalho é o que mais “preocupa” seu governo, exigindo a adoção de medidas “urgentes”. Ela emendou: “Reequilibrar o Brasil num quadro em que há queda de atividade implica necessariamente —a não ser que façamos uma fala demagógica— em ampliar impostos. Estou me referindo à CPMF.'' A volta do tributo “é fundamental para o país sair mais rápido da crise'', enfatizou.

Tomada ao pé da letra, o que a presidente afirmou, com outras palavras, foi o seguinte: “Tudo o que eu disse sobre a CPMF no passado recente é demagogia.” Difícil dizer do que é que Dilma abusa mais: da paciência da plateia ou da flexibilidade semântica? Num pocesso de autocombustão, Dilma parece perseguir uma inusitada marca de eficiência. Ela mesma desmantela a economia, ela mesma faz o diagnóstico e ela mesmo determina os sacrifícios que o brasileiro terá de fazer para consertar o estrago. O Falta-lhe apenas a credibilidade para exigir suplícios adicionais.

Dilma faz lembrar o personagem de um conto do escritor John Updike. A cena se passa na borda de uma piscina. Na água, o pai estimula o filho de quatro anos a pular. Assegura que irá segurá-lo. “Confie em mim'', ele diz. A criança confiou. E foi submetida às bolhas e ao pânico que se seguiram ao afundamento. Agarrado e suspenso nos braços do pai, desesperava-se em busca de ar quanto ouviu o estalo seco do tapa que a mãe pespegou no rosto do marido.

À frente de um governo perdulário, afogado em gastos, Dilma roga à sociedade: “Confie em mim. A CPMF trará de volta o superávit de caixa do governo. E o Brasil superará rapidamente a crise. O país surfará uma onda de crescimento econômico.” Submetido à temporada de asfixia inaugurada no primeiro mandato de Dilma, o brasileiro responde: “glub, glub, glub.” Alguém talvez precise desferir uma bofetada no rosto de Dilma Rousseff. Ainda que metafórica.

Golpistas não tiram férias

PPDD
O começo de ano costuma ser mais devagar, com muita gente de férias e o Congresso em recesso. Mas os golpistas não tiram férias. Felizmente, os responsáveis pela Operação Lava-Jato também não. Nem terminamos janeiro ainda e a quantidade de escândalos envolvendo petistas já impressiona. Cada vez fica mais claro que o PT não passa de uma quadrilha disfarçada de partido político, que tentou tomar de assalto o Estado brasileiro.

A revista “Época” revela que um empreiteiro que negocia delação premiada recorreu ao ex-marido de Dilma para destravar barreiras dos empréstimos oficiais. Mensagens interceptadas mostram que o ex-presidente da empreiteira OAS trocou apoio aos negócios por dinheiro a políticos. A batata do ex-presidente Lula assa mais e mais, a ponto de ele contratar famoso advogado criminalista preocupado com os rumos das investigações. Até o “insepulto” cadáver de Celso Daniel voltou a assombrar o PT...

João Santana, marqueteiro do partido, teria recebido dinheiro do petrolão no exterior. Delcídio Amaral, ninguém menos do que o líder do governo que está preso, continua recebendo privilégios e verbas do Senado. E advogados resolvem escrever um manifesto não contra o PT, mas contra a Lava-Jato, que finalmente chega ao andar de cima e assusta a velha “aristocracia” brasileira.

A lista é infindável, a ponto de o brasileiro ficar anestesiado. Eis o que o PT conseguiu nesses anos de governo, além de destruir completamente nossa economia, subverter nossos valores morais e segregar a população: banalizou a corrupção. Ninguém mais parece ligar quando a imprensa divulga mais alguma encrenca. É o que se espera já, como esperamos o nascer do sol diariamente.

Diante desse quadro, não espere que petistas reconheçam com humildade o estrago todo que causaram. Não seriam petistas se o fizessem. Ao contrário: partem para o ataque cínico, chamam de “golpistas” aqueles que querem fazer cumprir as leis, acusam de “elite” (como se isso fosse xingamento) o povo cansado das tramoias entre petistas e grandes empresários.

Mensalão, petrolão, aparelhamento da máquina estatal, do STF, tudo isso é parte do verdadeiro golpe em curso contra nossa democracia. O esquema na Petrobras é fruto do loteamento político da estatal, promovido pelo Planalto para garantir a governabilidade e a permanência do poder. Hoje, a estatal está praticamente falida. A inflação toma na marra mais de 10% do trabalhador, o desemprego chega quase a dez milhões de pessoas, e o governo faz o quê? Fala em aumentar os impostos, que já estão em patamar indecente em nosso país!

Quem pode ainda defender o PT? Das duas, uma: ou faz parte de uma seita ideológica e encara Lula como uma espécie de guru; ou está no esquema de alguma forma, recebe alguma coisa em troca para defender o indefensável. Mas quando você mostra isso, a resposta da turma “neutra” é que estamos “polarizando” demais a política nacional, que tudo virou um grande “Fla X Flu”, que temos “coxinhas” para um lado e “petralhas” para o outro, matando o bom senso.

Não, meus caros. O bom senso quem matou foram os “isentos”, que apelam para o relativismo somente na hora de dar um jeito de proteger o PT. Quando é para detonar Eduardo Cunha, por exemplo, essa “isenção” toda, esse apelo por “moderação” desaparece, retornando apenas quando é para poupar Renan Calheiros, aliado de Dilma. Quando é para atacar Bolsonaro, de quem não se sabe um só “malfeito”, o pedido de calma some.

Defender o PT não é mais questão de opinião, e sim apologia ao crime. Não são “intolerantes” aqueles que não aguentam mais tanto absurdo, e sim cidadãos decentes enojados com essa porcaria toda, cansados do salvo-conduto de que essa corja desfruta, inclusive na grande imprensa.

Roberto Campos, escrevendo a apresentação do clássico “O liberalismo antigo e moderno”, de Merquior, foi direto ao ponto quando disse: “Não é fácil discutir com nossos patrulhadores de esquerda, viciados na ‘sedução do mito e na tirania do dogma’, confortavelmente encrustados na ‘mídia’ e brandindo eficazmente duas armas: a adulação e a intimidação. Cooptam idiotas, chamando-os de ‘progressistas’, e intimidam patriotas, chamando-os de ‘entreguistas’”. Campos não viveu para ver a deterioração do que já era podre, com a invenção do tal “coxinha”. É o baixo nível de nossa esquerda “intelectual”, impotente na hora de sustentar seu projeto político com argumentos.

Vem carnaval aí. Mas cuidado! Enquanto você estiver pulando, os golpistas estarão agindo, para transformar o Brasil numa Venezuela de vez.

Rodrigo Constantino 

Os mortos

Os mortos mais do que os vivos, estão vivos.
Surgem, fortes, intensos, aparecem,
depurados e cheios de motivos.
Visitam-nos e acham que merecem
Todo o vigor da nossa atenção.
A morte deu-lhes, pensam, nova vida:
vê-se neles uma concentração
de virtudes - de vida reflectida.
Os mortos ensinam-nos a viver:
dão um valor novo ao que nos rodeia,
dão ao quotidiano acontecer
um brilho vivo que nos incendeia.
Os mortos acendem, em nós, a chama
de uma nova vida. Julgo que pedem
que olhemos fundo a luz que se derrama.
Exigem. Clamam. Os mortos não cedem.
Eugénio Lisboa,

Microcefalia: a República cala e permite a imolação das grávidas

Como esperado, já que as interdições ao aborto nunca impediram a sua realização, parece que só mulheres pobres estão tendo bebês com microcefalia. Quem pode pagar R$ 5.000 pratica desobediência civil e aborta entre o pecado e o crime. O Brasil possui uma das leis sobre aborto mais restritivas do mundo, com três permissivos legais: gravidez pós-estupro, em caso de risco de vida da gestante (1940) e anencefalia (2004).

Em “Repressão policial, ideológica e política contra o aborto no Brasil”, registrei: “O aborto – expressão radical de resistência – é uma experiência milenar de milhões de mulheres, que expõe dilemas morais e visibiliza que não é ético obrigar a mulher a levar adiante uma gravidez quando ela não quer ou não pode” (O TEMPO, 14.9.2004).
Numa epidemia que não sabemos quanto vai durar, empurrar milhares de mulheres para o aborto clandestino e inseguro é inominável! É o que a República está fazendo: reforçando o caráter de classe na criminalização do aborto, pois só penaliza as pobres, em geral negras, que sem dinheiro recorrem aos piores lugares, colocando em risco a saúde e até a vida.

Está em vigor uma tabela nacional para aborto/microcefalia: aplicação de cloreto de potássio em clínica privada: R$ 2.000 + R$ 3.000 pelo aborto em si. Há uma segunda opção: pagar a aplicação do cloreto de potássio em serviço privado e realizar o aborto no SUS. E há o Cytotec, ainda nas mãos do narcotráfico no Brasil.

Eis o cenário no qual se movem as mulheres que, após diagnóstico de feto com microcefalia, decidem interromper a gravidez. Há novos problemas clamando solução, e temos de aturar um ministro da Saúde sem repertório científico e humanitário a divagar sobre uma hipotética vacina: “Não vamos dar vacina para 200 milhões de brasileiros. Mas para pessoas em ‘período fértil’. E vamos torcer para que mulheres antes de entrar no período fértil peguem zika para elas ficarem imunizadas pelo próprio mosquito. Aí não precisa da vacina”. (Ai, meus sais!).

Lugar de ministro da Saúde torcedor é em casa, presidente Dilma, sobretudo quando não sabe o que é idade fértil ou reprodutiva, coisa bastante diferente de “período fértil”, que dura em média seis dias e corresponde ao período da ovulação! Melhor ser gado pé-duro no Piauí, que é patrimônio histórico e cultural desde 2009!

Em 1940, a República Federativa do Brasil não se olvidou e incluiu a permissão de aborto em caso de gravidez resultante de estupro, inspirada em uma tendência ética internacional do pós-Primeira Guerra Mundial (1914-1919), quando o estupro adquiriu dimensão pública de arma de guerra: os invasores e/ou vencedores selavam a vitória estuprando as mulheres dos vencidos. Por que, no cenário da epidemia de microcefalia, não toma para si a responsabilidade de inclusão de mais um permissivo legal? São cenários similares!

“O Brasil deve assumir integralmente as crianças com microcefalia e suas mães” (“O que faremos com nossas crianças com microcefalia?”, O TEMPO, 1º.12.2015). “Quedo-me à impotência diante dos números. Os casos suspeitos só aumentam. Nem sequer temos a dimensão, nem como estimá-la, do que nos espera” (“Desafios ambientais, médicos e psicossociais e microcefalia”, O TEMPO, 15.12.2015). É dever do Estado: cuidar com dignidade das crianças com microcefalia; apoiar gestantes e mães resilientes diante da microcefalia e aquelas que não desejam levar a gravidez adiante.

Defendo o direito ao aborto voluntário segundo a decisão da mulher e considero imoral o Estado impor à mulher ter um filho quando ela não quer.

Saúde em quarentena

Decisões movidas por diagnósticos equivocados e terapias tópicas, apenas gerenciais, mas anunciadas como mudanças drásticas, são causas indiretas de sofrimentos evitáveis. A saúde não está somente em crise, tornou-se um imenso problema crônico. Soluções improvisadas e choques retóricos podem acarretar novos problemas. As consequências da zika e o colapso de uma parte da rede de serviços no Rio de Janeiro, apesar das especificidades, não são fenômenos imprevistos ou eclosões acidentais. A opção por tratamentos enganosamente técnicos, rápidos, assépticos, não é proposital, resulta de uma forte atração por ações “politicamente imunes”, fundamentadas em falsa divisão de trabalho. Os puros, desinteressados, se encarregariam da busca de tecnologias sociais e gerenciais, enquanto que a mesquinharia e a corrupção ficariam sob a responsabilidade das instituições políticas.


Parcela considerável dos analistas de políticas públicas as concebe como processos movidos exclusivamente por interesses econômicos. Assim, as instituições políticas seriam dinamizadas por patológicos grupos contrários ao bem-estar público. A competição privada, em contraposição à saúde pública, evoca a livre escolha e o bom funcionamento do mercado e a falência da atuação governamental. Entretanto, essa divisão é artificial, as ações coletivas e individuais de saúde são fortemente regulamentadas.

Médicos não podem trabalhar sem diploma e registro em conselhos profissionais. E as acirradas polêmicas do século XIX sobre a obrigatoriedade da vacinação e proibição de produtos e substâncias nocivas versus o livre arbitrário ficaram para trás. Um mercado aberto e competitivo na saúde, que reúna vendedores e compradores de serviços e produtos para prevenção e cura, é uma miragem.

No dia a dia, os mais ardorosos defensores do equilíbrio entre demanda e oferta se desfazem da teoria do melhor custo-benefício sem a menor cerimônia. Aos primeiros sinais de adoecimento, ou mesmo para consultas rotineiras, correm em busca da excelência, de médicos formados e que estão vinculados a instituições e universidades públicas. Tudo muito bem regulamentado pelo Estado; e não deixam e pedir recibo para abater os gastos do Imposto de Renda.

No entanto, a reiteração da dicotomia público-privado desencadeia um crescente ceticismo na capacidade de intervenção governamental e estimula a preferência pelas alternativas baseadas na lógica do mercado, expressas em malsucedidas tentativas de salvaguardar a saúde de influências políticas. Como se a política pudesse ser colocada em quarentena. Claro que não pode, tanto que a saúde vem sendo invadida justamente por aquelas vertentes políticas, quase caricaturais.

As desastradas recomendações para as mulheres em idade fértil do atual ministro da Saúde ou a denúncia de contratação de um vereador (onipresente) pela empresa que faria uma gestão eficiente, sob a lógica do mercado de hospitais, refletem um preocupante afastamento da saúde pública das agendas de inovação, modernização e igualdade social. A comparação entre os currículos de ministros das área econômica e de saúde, quer se concorde ou não com suas ideias, esclarece qualquer dúvida a respeito da condição periférica do setor. A analogia vale para alguns estados e municípios. Quem se lembra do nome dos últimos secretários de Saúde do Rio de Janeiro, a não ser de quem foi acusado de desviar recursos? A caracterização da saúde como um negócio como outro qualquer, ironicamente, abre alas para o atacadão de interesses políticos particularistas. Gurus gerencialistas e seus sempre renovados clichês desenvolvem esforços e agitações respeitáveis.

Contudo, as promessas revolucionárias de poupar gastos desnecessários na saúde não deram certo em lugar nenhum. Acumulam-se evidências sobre a fragilidade de diversas fórmulas tecnocráticas de pagamento de médicos e hospitais e sobre propostas ingênuas de políticas saudáveis. Métodos e valores de remuneração de procedimentos embutem relações de poder. E todos morreremos, ainda que possivelmente mais velhos, menos doentes e mais autônomos, mas necessitando, ao longo da vida, de cuidados de saúde, sejam curativos ou paliativos.

O radicalismo dos jargões e o foco apenas em determinados aspectos administrativos impedem uma visão clara dos potenciais e entraves do conjunto do sistema de saúde. Graças à combinação da atuação política e mobilização de conhecimentos científicos e técnicos, o Brasil realizou uma reforma profunda na saúde. O SUS não é uma construção político-institucional trivial, e os problemas crônicos da saúde não decorrem de seus erros, e sim de sua não implementação.

A insistência na propaganda e nas ações centradas apenas nos focos domésticos de mosquitos, e não nos criadouros gerados pelas condições sanitárias; a “entrega de chaves” de hospitais públicos, como se fossem prédios comerciais, para outra esfera administrativa; a deterioração do programa nacional de imunizações, que precedeu e foi ampliado pelo SUS, são maus prenúncios. Instituições, redes sociais e entidades comprometidas com o desenvolvimento social não podem assistir de camarote ao isolamento político, à mediocridade e aos erros técnicos na saúde. A próxima reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social deve encorajar a inclusão de pontos sobre saúde na pauta, espera-se coerência de fóruns cujos nomes conectam políticas sociais e econômicas. O controle e tratamento da dengue, chicungunha e zika, o monitoramento das iniciativas do gabinete de crise no Rio de Janeiro e a avaliação pormenorizada da irregularidade e falta de fornecimento de vacinas requerem análises à altura do que o Brasil pode realizar.

Saúde é um desafio democrático, refere-se à plausibilidade dos compromissos e compatibilidade dos recursos alocados para os efetivar. Nas eleições municipais de 2016, a política de saúde e o SUS podem ser resgatados desde que liberados do confinamento e dos modismos, achismos e pilhagens.

Ligia Bahia

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

A esquerda aos soluços

Ninguém me convence do contrário: há dois golpes em andamento por aqui e ambos parecem ora se somar, ora se subtrair, no desentendimento pela divisão do butim e pela multiplicação dos feitos de otários, país afora.

Num dos golpes está a esquerda bolorenta. Participam dela, num bonde de proporções razoáveis, todo tipo de idiota útil a uma ideologia que não para em pé. Cabe todo tipo de fundamentalismo, cretinismo e dissimulação que a paciência aguenta, numa alegre confraria de infiltrados, que vai dos movimentos dos quadris, que só reclamam do preço da passagem nos ônibus mas não enxergam um palmo da crise dantesca em que nos meteram seus gurus enfeitados com cuecas cheias de grana roubada, até exemplares exóticos de uma esquerda picareta, pendurada numa teta qualquer a vociferar como são fascistas estes indignados.


Nesse golpe, saboreando os valores, costumes e atitudes lavradas por uma cartilha vagabunda que ainda quer ver no comunismo a salvação da lavoura, está o PT. Um bando de quadrilheiros que viu nesse “neo-evangelismo” às avessas o terreno fértil para gozar dos brasileiros com todo tipo de falcatrua que a mente perturbada desses carcamanos consegue maquinar.

Ambos os golpes se complementam. Um rouba a urna enquanto o outro finge que não vê. Um exige pedágio do outro. Um vê no outro a verdadeira danação, quando danados estão. Dilma é a “esquerda da esquerda” para os discípulos de Lula e por aí vai.

Não tentem trilhar uma linha coesa nessa canalhada, meus caros. Bandidos se alinham conforme as conveniências do roubo que praticam. Simples assim. No caso, foi fácil convocar o gigante PMDB para ficar na porta, estacionando os carros. É a gorda propina, distribuída sem miséria para essa corte de safados, a turbina que move o país aos solavancos.

Ninguém contava com a Lava Jato para reduzir ao nível de crime comum o que seria o golpe do século na latrino-américa. Nem com a internet, para mostrar as coisas como as coisas são, sem relativismos e “governabilidades”. Nem que segundos ou terceiros escalões do esquema criminoso fossem tão vulneráveis a um par de algemas tilintando no ambiente.

A saga continua no lambuzar dessa gente rumbeira. A palavra de ordem agora é a mesma do Estado Islâmico: “Voltem para as montanhas!!!” Finjam que são de outros partidos, outras siglas e mergulhem na clandestinidade de novo, até que consigamos reunir a “nova ordem” outra vez e nos lambuzarmos novamente.

Candidatos ao vigarismo não faltam. Da nova postura do compositor de melados, Jaques, o Wagner, até a ressurreição do Brizolão, feita pela pujante motoneta estacionada no Planalto. O que não falta são esquerdos a reclamar a sua parte neste latifúndio, ganha na lábia, com o suor do rosto dos outros.

Estou farto disso aí até o talo. Tem uma dona ganhando rios de dinheiro com um livrinho acusando os fartos dessa lenga-lenga de “fascistas”. Além de ser chamado de “loiro de olhos azuis culpado pela crise” pelo maior vagabundo que este país e esta ideologia torta já pariram juntas e irmanadas, ainda tenho que posar à força na mesma selfie dos amigos do Donald Trump e companhia. Me poupe.

O aerotrem era uma idiotice de direita até ser encampada por um governador meio esquerdo, exterminador de sacolas, não é mesmo? Onde andam agora os escombros de mais essa empulhação? No que diferem dos outros trens, também paridos nas cabeçonas mancas dessa gente rumbeira a sugar nossa grana em “temerosas transações”?

Tenha paciência. Vigarice no olho esquerdo dos outros é refresco. Nesse bando eu não voto nunca mais, mas nem amarrado. Vou até lá quebrar uns LPs da Mercedez que eu não compro nem em liquidação e já volto. Desgracias a la vida!!!

O Brasil da cleptocracia

“Perdeu! Perdeu!” Este é o aviso dos bandidos quando abordam uma vítima. Nasceu no Rio e tomou conta do Brasil. “Tá tudo dominado!” é o grito de guerra das quadrilhas quando tomam territórios ou vencem algum confronto. São frases emblemáticas do Brasil destes anos de cleptocracia.
Deixamos que o cenário chegasse a este ponto. Eles foram dominando aos poucos. E, quando nos demos conta, dominavam o país. Desde muito que se alertava para o perigo da compra na boca do caixa daquelas que foram, no passado, entidades representativas de legítimas reivindicações populares.

OAB, ABI, CNBB, UNE, CUT, ABI e o aparato sindical aliados ao MST, MTST e Movimento Passe Livre e outros que tais, são hoje todos a favor do poder. Não reivindicam. São defensores do status quo. Desistiram de lutar por democracia e direitos em nome de verbas e financiamentos oficiais.


Criamos o sindicalismo a favor. A discordância de quem discorda. A luta pelo atraso. O ataque a quem se opõe. A banalização do malfeito. O elogio da ignorância. Este é mais um dos itens da verdadeira herança mais que maldita: amaldiçoada.

Se no século passado o brasileiro médio tinha como expectativa de realização profissional uma vaga no Banco do Brasil – por concurso –, agora a certeza é a da venda da própria consciência ao poder estatal.

É preciso distinguir o que é estatal do que é público. Hoje, raramente são sinônimos. Estatismo é o uso do aparelho do que é público. A privatização do que é nosso, por parte de um grupo que se serve do poder.

Os ditos movimentos sociais não perderam as ruas porque usam os black blocs. Estes existem por que eles perderam as ruas. O isolamento que os faz autofágicos e, como tal, interdependentes, nasceu do cansaço de um país que assiste ao assalto a valores universais em nome do oficialismo de estado. Que, corrupto, corrompido e corruptor, compra o apoio de estudantes e jornalistas, de advogados e igrejas, de operários e camponeses. E dos miseráveis, que nunca param de crescer como excluídos que são.

Mais que nunca as manifestações não são SOMENTE pela saída de Dilma. As manifestações são também – e principalmente – pelo resgate da cidadania. Pela liberdade de ser oposição. Pela ética e moral. Pelo retorno de movimentos sociais que mereçam este nome.

O PT transformou votos em mensalidades. Militantes em meliantes. Universitários em sectários. Estudiosos em alugados com conhecimento de orelhas de livros. E, acima de tudo, uma nação em um entreposto de interesses corporativos regado a verbas públicas.

Os movimentos sociais de hoje não defendem teses ou visões ideológicas, mesmo que equivocadas. Defendem o livro-caixa. O recebimento das benesses em nome de nada além do servilismo abjeto que é marca registrada de todos eles. O suporte a ONGS e OS, todas ligadas a partidos e facções que lembram o “tá tudo dominado!”

Errado! Não está. Está é chegando a hora de nós podermos dizer: “Perdeu! Perdeu!”. E pedir a devolução do que nos foi roubado.

A necessidade da revolta dos sem trabalho

Sobre o desemprego, tanto governo quanto empresários e a mídia ficam com os números oficiais, aliás distorcidos e incompletos. A cada dia mais atividades dispensam trabalhadores, como 40 mil na indústria automotiva, na terça-feira, e 80 mil na quarta, perfazendo mais de 200 mil no sábado. Amontoam-se demitidos na agroindústria, nas grandes, médias e pequenas empresas, no comércio e nos serviços de toda espécie, mas lá pelos lados do ministério do Trabalho divulga-se 9% da mão de obra mandada embora, mentira aceita pelas elites, pois já beira os 11%. Traduzindo, 10 milhões que há pouco eram 8 milhões e amanhã serão 12 ou 14 milhões estão desempregados. Tudo é divulgado sob a aparência de frias estatísticas, números registrados como numa prova de aritmética para pimpolhos do curso básico.

O diabo é que fora os sem trabalho, ninguém dá atenção ao drama de cada família posta da noite para o dia na indigência. Sem recursos para enfrentar a próxima semana e obrigada a desdobrar-se em bicos e paliativos sempre mais raros, caminham para o desespero. Essa é a verdadeira face do desemprego, ignorada pelo governo, elites e até a mídia: o desempregado, entregue à missão impossível de encontrar outro trabalho e desamparado sem alternativa para sustentar a família. Sem falar que os encarregados de zelar por eles acabam de restringir o salário-desemprego, mesmo tendo prometido que os direitos sociais seriam preservados.

Se cada cidadão ainda empregado dedicasse um minuto que fosse a imaginar como se arranjaria caso postado do lado de lá, a situação poderia começar a mudar. Mas não muda porque as agruras dos outros passam longe das nossas, até com certa razão.

O que falta nesses tempos bicudos é solidariedade. Mobilização do conjunto em favor do indivíduo. A revolta precisa ser organizada, pois potencial para mudar existe. O que não dá para seguir adiante é a acomodação. A passividade do condenado que segue no rumo da guilhotina imaginando apenas dever o pescoço do infeliz à sua frente cair antes do que o dele.

Logo chegaremos à situação de só haver pescoços atrás de nós. Fracassou o modelo um dia apregoado pelo PT e penduricalhos, como continua vitorioso o exemplo dado pelos donos da guilhotina. A hora seria de a multidão de condenados insurgir-se diante desse determinismo milenar atingindo hoje níveis só superados pela revolta. Antes que seja tarde. Unidos, os trabalhadores conseguiriam dar a volta por cima, mas jamais com aqueles que dizem representar-nos. Pode ter sido por falta de um projeto acorde com as necessidades gerais, pode ter sido pela tentação do sucesso na corrupção. Tanto faz, se o resultado final apresentado pelos companheiros é o mesmo. No caso, o fracasso.

Com o Supremo desse jeito, quem nos guardará dos guardiões?

Estamos avançando na questão dos erros no julgamento do rito do impeachment da presidente Dilma Rousseff, pisando firme na realidade do bendito Direito Público, mas sem ilusões e sem fulanizar, compartilhando informações. Amadurecendo o debate. Temos que acreditar , apoiar e divulgar o Mandato de Segurança a ser impetrado em breve. Por uma simples razão: o que é ilegal deve ser anulado. Ponto parágrafo. Porque, se nada for conquistado, ainda assim o Supremo terá que se posicionar.

Se o Mandado de Segurança for negado monocraticamente pelo relator, sempre caberá um agravo regimental e, no caso, a discussão e o constrangimento supremos serão levados a plenário. E televisionados.

Pela frente , em vez de “cognição sumária”, em vez de explicações rasas e adjetivas, tais como “está tudo dominado” que não nos levam a nada, é preciso entender, profundamente , por quais razões estes senhores e senhoras, na tentativa de dificultar o impeachment da presidente, atropelaram uma Lei Federal, impediram novo contraditório para “muitas outras partes, a saber: o PSDB, o DEM, o PT, o PSOL, o PSB, o Solidariedade, a Rede, a UNE (União Nacional dos Estudantes) e o PP,” e se calaram cúmplices da mais do que evidente e já provada mentira do ilustre ministro Luís Roberto Barroso.

Neste sentido, é bom reler o que pensa, por exemplo, a ex-deputada Sandra Starling (PT-MG), sob cuja iniciativa foi construída a lei que regula a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental, que recentemente teve aqui postado um artigo. Diz a deputada sobre o julgamento:
“Tenham todos certeza, a loquaz divergência aberta pelo professor-doutor Luís Roberto Barroso, e alegremente seguida pelos que temem ser eivados de comparsas de Eduardo Cunha, não me deixou mais dúvida: o direito é interpretado à luz das circunstâncias do momento. Não tivesse coincidido o pedido de impeachment com as interpretações de Cunha, ou outra fosse a linha sucessória de Sua Excelência, a presidente, teríamos tido outro rito de julgamento do crime de responsabilidade”

Será? Será que a aversão a Eduardo Cunha – transformado no vilão corrupto do “golpe” pela propaganda do Comissariado – é capaz de explicar esta presepada jurídica cometida pelo STF? Será que a biografia do presidente da Câmara foi determinante para que nossos impolutos togados, violassem a lei, escarnecessem do princípio basilar na democracia de independência entre os Poderes, tratassem a Câmara Federal como se fora um playground de moleques e colocassem no colo amigável do Senado o destino do impeachment?

Pergunto: por que fingir – quem acredita? – que a folha corrida do deputado Eduardo Cunha – aquele que parece ser o único bandido de estimação do procurador-geral Rodrigo Janot – é menos extensa do que a do “Coronel” Renan Calheiros, dono do município de Murici nas Alagoas , aquele da farta cabeleira implantada , aquele que “reclamou da falta de repasse de propina”, que é investigado em meia dúzia de inquéritos na Lava Jato, aquele cujas denúncias que não andam sob a tutela do Procuradoria, aquele cuja residência o ministro Teori Zavascki não permitiu que a Polícia Federal visitasse, o mesmo que nega tanto quanto o Instituto Lula quaisquer propinas não “institucionais” e que, simultaneamente , tanto preside o Senado da República quanto se encontra – faz tempo! – denunciado no Supremo, acusado de ter falsificado as notas fiscais de venda de alguns bois virtuais e de ter permitido – agradecido! – que uma empreiteira pagasse pelas fraldas descartáveis de uma filha que teve fora do casamento, com aquela talentosa jornalista que acabou na capa da Playboy.

Não sei, mas vale continuar perguntando: Quem nos guardará dos guardiões?

Estamos pagando as contas da campanha

Sempre que o sujeito aparece como premido por alguma investigação ou, mas grave ainda, como "premiado" na delação de alguém, a saída é quase sempre a mesma: trata-se de regular contribuição para despesas de campanha. Tudo de acordo com a regra e aprovado, direitinho, pela Justiça Eleitoral.

Estamos tão habituados a isso quanto com a conversa daqueles que jamais estão a par de qualquer irregularidade, ainda que tenham a seu dispor multidão de servidores e instituições regiamente pagos para tarefas de fiscalização e controle. Tais autoridades nunca se surpreendem porque, mesmo depois de informadas, continuam sabendo coisa alguma. Afinal, mais de duas dezenas de ministros e ex-ministros da presidente estão sob investigação.

Aliás, cadê a faxineira? Alguém despediu a faxineira?

Tão verdadeiro quanto o que acabo de afirmar é algo de que poucos se dão conta. Refiro-me ao fato de estarmos, nós, os pagadores de impostos, a sociedade como um todo, pagando caríssimo as contas da vitória eleitoral conquistada pelo governo da União em 2014. O aumento da inflação, a recessão, o desemprego, o déficit nas contas públicas, a decadência da qualidade dos serviços prestados, o descrédito do país no mercado internacional, tudo é parcela da mesma conta.

O governo, para criar um clima de euforia na sociedade, injetou droga pesada no subconsciente coletivo. Estourou todos os caixas do setor público. Queimou centenas de bilhões de reais e de dólares e o país se enterrou fundo na toca do coelho falante onde era encenado o país das maravilhas. E o diabo foi sendo feito.

Soube-se, por fim, que a toca era apenas isso, que o buraco era mais em baixo e que havia centenas de bilhões a serem pagos. Eis por que, ao custo dos serviços que não se tem e aos males de uma economia em crise, somam-se os valores financeiros referentes à elevação da carga tributária. Há um pacote de medidas em gestação. Sempre há um pacote de medidas em gestação quando governos irresponsáveis gastam mais do que arrecadam. Recentemente, depois de deixar claro que não haverá correção da tabela do IR (o que representa elevação iníqua da alíquota de contribuição) o Leão passou a cogitar de uma faixa adicional de 35% para o Imposto de Renda.

Tudo isso e mais o que a criatividade fiscal venha a produzir nos meses vindouros pode ser enquadrado na rubrica geral "contas de campanha". E se assim como eu, diante dessa constatação, você se sente otário, tirado para bobo da corte brasiliense, saiba que tem a minha solidariedade. Afinal, a conta que estamos pagando foi criada para eleger o governo e o Congresso que temos.

Percival Puggina

Atualidade política de Nabuco

"Balmaceda" é um livro de Joaquim Nabuco de 1895, que tem sua origem em artigos publicados no Jornal do Commercio da então capital federal. Examina o que foi a crise política no Chile proveniente da conflitiva presidência de José Manuel Balmaceda, que levou a uma guerra civil e culminou no suicídio do presidente.

Na bibliografia de Nabuco, esse livro não se situa no mesmo plano de "Minha Formação", um dos pontos altos da narrativa autobiográfica brasileira, de "Um Estadista do Império", que oferece o melhor acesso ao entendimento das instituições políticas do Brasil de dom Pedro II, ou de "O Abolicionismo", que faz do autor, ao examinar o legado da escravidão, um dos grandes pensadores do Brasil.

Mas "Balmaceda" é uma relevante obra de análise política na avaliação de autores como Evaldo Cabral de Mello e Francisco Iglesias. Em momentos de crise política aguda em países da América do Sul, ler "Balmaceda", que mereceu em 2008 apurada reedição com a chancela da Editora Cosac Naify, traz ensinamentos úteis.

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São múltiplos os ângulos a partir dos quais sua relevância e seu significado podem ser examinados. Trata-se de obra que transcende as circunstâncias e os embates da época da sua elaboração e publicação, ligados à crítica política dos primeiros anos da República e aos desmandos autoritários da Presidência Floriano Peixoto.

Quero chamar a atenção para dois pontos relevantes: a importância atribuída por Nabuco à América Latina para a política externa brasileira, como um dos desdobramentos da implantação da República, e a sua aguda análise dos desafios da governabilidade em nossa região.

Na maior parte do século 19, desde a independência, o Brasil foi o diferente nas Américas: um Império em meio a Repúblicas; uma grande massa territorial de fala portuguesa, que permaneceu unida num mundo hispânico que se fragmentava, tendo no Hemisfério Norte os Estados Unidos expandindo-se territorialmente. Foi a República que sublinhou a relevância da inserção do Brasil nas Américas.

Dizia nesse sentido o Manifesto Republicano de 1870: “Somos da América e queremos ser americanos”. Essa é uma das razões por que o advento da República trouxe uma “americanização” da política externa brasileira.

Daí a importância do conhecimento da América Latina para o Brasil, indicada com clareza e precisão nas páginas finais de Balmaceda: “O interesse que antes já me inspiravam as coisas sul-americanas aumentou naturalmente depois da Revolução de 15 de Novembro. Desde então começamos a fazer parte de um sistema político mais vasto... Desse modo o observador brasileiro, para ter ideia exata da direção que levamos, é obrigado a estudar a marcha do Continente, a auscultar o murmúrio, a pulsação continental”.

A República, no âmbito da “pulsação continental”, ao trazer a negação dos critérios de organização do espaço público do Império, inaugurou um período de dilatada incerteza política, que explica a entropia de seus anos iniciais, caracterizados pelo desafio da governabilidade.

Quando Nabuco escreveu "Balmaceda", o caminho para lidar com a governabilidade, apontado pelos adeptos do positivismo de Augusto Comte, era a ideia de “ditadura republicana” advogada por Júlio de Castilhos, tendo como lastro um demiúrgico cientificismo político. Esse é o pano de fundo brasileiro do capítulo IV do livro, intitulado Ensaio Geral da Ditadura, que examina por que Balmaceda em 1890 “propunha praticamente a onipotência do Poder Executivo e a degradação do Congresso”.
Nabuco discute, nessa conjuntura, o espírito de reforma, que combina conservação e aperfeiçoamento, contrastando-o com o radicalismo dos que buscavam impor a realidade, em nome da “ciência”, o caminho único de uma chave teórica. O ímpeto do “metodismo científico” foi uma inspiração propulsora da ação de Balmaceda. Levou-o a “introduzir insidiosamente no esplêndido organismo chileno o gérmen do militarismo político” e dele fez “um caráter imperioso em que o mando absoluto embotara todas as outras faculdades”, inclusive o discernimento do bom juízo político. Dele fez um integrante da família política dos que “lavram suas utopias na sociedade a tiro de canhão quando é preciso”.

“Os despotismos”, aponta Nabuco com precisão, “não se defendem contando tudo ao país e contando com ele, defendem-se nas trevas com o dinheiro, com o terror e com o silêncio.” Nesse contexto, antecipa o tema contemporâneo da cláusula democrática na nossa região. Afirma, em observação que transcende o que se está passando na Venezuela: “Os chefes de Estado têm o direito de defender a sua autoridade legal – não era o caso de Balmaceda –, mas esse direito não vai ao ponto de acumular por toda parte ruínas sobre ruínas, de arrasar a sociedade, de proscrever a opinião oposta, de privar a nação do direito de se inclinar para o lado contrário e dos meios de gritar pela paz”.

As citações acima retêm plena atualidade política. São as de um pensador que prenuncia o que veio a ser no âmbito da esquerda o debate político reforma x revolução. Para esse debate, a História do século 20, como uma “era de extremos”, deu as duríssimas respostas dos desastres humanos inspirados pelos demiurgos e profetas do caminho único da mudança por métodos revolucionários. Antecipa, igualmente, os riscos na nossa região da tendência à “tábula rasa” dos fundacionismos qualificados como “bolivarianos”.

Esclarece como reformista o desafio da governabilidade democrática em nossa região. Este é o do fazer, e não o do azabumbar do marketing político do falar. E o de levar adiante políticas públicas consistentes, que permitam democraticamente avaliar os governantes pelo resultado da sua administração, vale dizer pelo inventário de que encontraram ao assumirem as responsabilidades do poder e o que deixaram para seus sucessores.

Celso Lafer

Não sou Flamengo...

Já se vai mais um janeiro. Perdemos a desculpa do momento de festas, de passagem de ano, das alegrias que fabricamos para tornarmo-nos mais otimistas, e agora só nos resta o Carnaval para embrulhar esse que é um lamentável sentimento da sociedade brasileira; ainda que desviada de suas tragédias cotidianas pela ideia dos festejos que se aproximam, não há como se desligar da perspectiva medonha do que seremos quando o Brasil voltar a funcionar.

No Brasil tudo é postergado para depois do Carnaval, como se os problemas não existissem, os salários não precisassem de ser pagos, os impostos não fossem recolhidos, os juros dormissem e as famílias não comessem, não pagassem aluguel e as prestações do que adquiriram. Tudo para, tudo se recolhe, nada tem importância, senão o que será essa alegria dos fevereiros. Pelo menos o Carnaval é uma festa mais democrática, menos excludente do que o Natal, que nela todos envolve, do bicheiro ao bispo, passando pela Dilma, pelo juiz Sérgio Moro, Eduardo Cunha e o japonês da Federal.

Difícil aceitarmos que o Brasil terá que arranjar dinheiro para pagar o déficit anunciado, o rombo da Previdência que se arrasta há mais de 40 anos e nunca é enfrentado, seja por causa da inércia dos governos, do ativismo de um sindicalismo que nasceu retrógrado e irrecuperável, da vontade de sempre ganhar sem produzir e da corrupção, que é o que lhe desviam e roubam e um misto de tudo isso que dissemos. Administrar mal e sem zelo a coisa pública é crime e como tal deveria ser julgado e punido.

Vamos encarar um mundo em recessão, especialmente a China, nosso importante parceiro nas commodities agrícolas. Felizmente. Nossa indústria está atrasada 20 anos, pela sua vergonhosa produtividade. Equivocadamente, preferimos as medidas de proteção ao investimento na nossa modernização industrial e a realidade que temos é essa, a de uma indústria totalmente superada e improdutiva, que nem o câmbio manipulado ajudou. Na pauta de exportações, ainda nos restam a soja, a carne, o frango, a fruticultura, que deveriam urgentemente receber os incentivos necessários à sua afirmação econômica.

O investimento no agronegócio é a única saída mais à mão que o Brasil tem. Integrando a sua cadeia produtiva e os seus reflexos no emprego, na redução da migração interna, na interiorização do desenvolvimento econômico e social, na geração de riqueza, na possibilidade de agregação de valor, o agronegócio será nossa tábua de salvação nesse mar de tormentas.

É pouco? É o que temos. Mais do que isso melhor seria ainda soltarmos o japonês na sua Veraneio preta e dourada para mais uma dúzia de visitas ao Paraná, devidamente mal-acompanhado.

Um a cada três jovens abandona escola para trabalhar

Os jovens brasileiros que se mantém nas salas de aula da rede pública são trabalhadores – 40% dos que frequentam as classes de educação de jovens e adultos (EJA) cumprem jornadas de trabalho de 8 horas por dia. Esse percentual é de quase 20% entre os estudantes do ensino médio regular. Cerca de um em cada quatro alunos, tem que conciliar estudo e trabalho ou pelo menos “fazer um bico”. No caso dos alunos do Projovem Urbano e do EJA a razão é de três estudantes para cada quatro.

Para os entrevistados, os problemas mais graves do país são violência (20%), pobreza (16%) e corrupção (15,7%). Em quarto lugar, vem a qualidade da saúde (12,3%). Qualidade do ensino foi mencionada por apenas 5,6% dos estudantes. 

Esses são alguns resultados de uma pesquisa inédita feita pelo Ministério da Educação (MEC), Organização dos Estados Interamericanos (OEI) e Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso). Juventudes na escola – por que frequentam? revela o perfil do jovem brasileiro de 15 a 29 anos que está nas salas de aula da rede pública no ensino médio, nas classes de educação de jovens e adultos (EJA) ou no Projovem Urbano, o programa que traz de volta para à escola jovens moradores de cidade de menos de 200 mil habitantes em qualquer nível de ensino. A pesquisa foi coordenada por Miriam Abramovay, e teve como co-coordenadores Mary Garcia Castro e Julio Jacobo Waiselfizs.

Nas classes de EJA, 74% dos estudantes já abandonaram a escola pelo menos uma vez. Desses, 49% saíram e voltaram a estudar mais de uma vez – o abandono escolar ocorre principalmente pela necessidade de se sustentar. Até mesmo no ensino médio regular, quase 30% dos alunos já pararam de estudar alguma vez para garantir o próprio sustento. Os percentuais entre estudantes do sexo feminino são mais baixos, mas ainda assim bastante significativos: uma em cada quatro alunas considerando-se as três categorias de ensino da pesquisa já deixaram de estudar para trabalhar. Sendo que no caso das jovens, gravidez e ter que trabalhar são mais mencionados como motivos para terem alguma vez deixado a escola.
(Fonte: The São Paulo Times)

Sob o jugo petista...

Vivemos a falsa ilusão de que tínhamos resolvido tudo porque os miseráveis estavam comprando carro popular e viajando de avião. É claro que é maravilhoso que todos os cidadãos brasileiros disponham de bens e vivam os prazeres e lazeres de uma viagem. No entanto, não conseguimos superar esta fase infantil de nosso pseudodesenvolvimento. Os governos de esquerda não realizaram a promessa de redução das diferenças em níveis consideráveis. Governaram como governou desde sempre a direita, apresentando resultados práticos, mantendo a injustiça social perto do intolerável, jogando no lixo os valores que os levaram ao poder. Na hora em que sobrevém a crise e o desemprego, sobram dívidas, quando deveria ter havido educação integral e de qualidade e compreensão cultural das coisas do mundo em que vivemos, antes.
Fernando Bonassi sobre seu romance "Luxúria" que trata “dessa confusão entre cidadania e consumo e endividamento, típica do que aconteceu nos últimos anos. Transformamos os desgraçados em consumidores sem que se tornassem cidadãos.” 

Polarização política se alastra às escolas do Brasil



Pegando carona na onda conservadora e polarizadora que tomou parte da política brasileira a partir das últimas eleições, deputados federais e estaduais e vereadores vêm propondo projetos de lei que pretendem combater o que consideram uma “doutrinação ideológica” nas escolas em temas políticos e sexuais.

Só na Câmara Federal tramitam quatro projetos atualmente. Outros foram protocolados em Assembleias de pelo menos oito Estados brasileiros, entre eles São Paulo e Paraná. Outros apareceram nas Câmaras de municípios como Joinville (SC), Curitiba e Vitória da Conquista (BA). A maior parte das iniciativas surgiu entre 2014 e 2015.


Esses projetos não têm apenas o mesmo objetivo. O texto também é praticamente o mesmo na maioria dos casos, seguindo um modelo base elaborado pelo movimento Escola sem Partido (ESP), uma organização fundada em 2004 e coordenada pelo advogado Miguel Nagib. A maioria dos textos não é explícita em acusar qual linha ideológica e partidária deve ser combatida, mas em discursos e entrevistas, seus autores deixam claro que os alvos são professores de esquerda e a discussão de temas como a homossexualidade em sala de aula.

Segundo alguns defensores, trata-se de impor um mecanismo contra uma esquerda que se apropriou das escolas para promover sua agenda e perseguir alunos que não partilham de suas convicções. Já para os críticos, os projetos afrontam à Constituição – que garante liberdade e expressão – e pretendem transformar os professores em meros “repassadores” de temas pré-estabelecidos, eliminando a possibilidade de qualquer discussão crítica e confronto de ideias.

O deputado Izalci Lucas (PSDB-DF), membro da Comissão de Educação da Câmara e autor do projeto 867/2015 – a proposta de “Escola sem Partido” que mais tem recebido destaque na Casa –, afirma que o objetivo não é colocar uma “mordaça” nos professores, mas combater a propaganda partidária de esquerda do governo nas salas.

“Existe um trabalho muito efetivo do PT nas escolas por meio de professores militantes que fazem campanha para o partido. É uma estratégia, que já foi delineada no Foro de São Paulo. É esse tipo de coisa que queremos combater”, diz à DW.

Para o professor Fernando Penna, da Universidade Federal Fluminense (UFF), membro do movimento Liberdade para Ensinar, que reúne alunos e docentes contrários aos projetos, a promoção dos textos não somente ganhou força por causa da oposição disseminada ao PT, mas também a partir da inclusão de temas como gênero e sexualidade no currículo das escolas nos últimos anos, algo que inflamou políticos conservadores.

Alguns dos projetos pelo país são promovidos por políticos evangélicos Marco Feliciano (PSC-SP) ou com histórico de atritos com movimentos LGBT, como o vereador Carlos Bolsonaro (PP-RJ), filho do deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ).

O texto base do ESP copiado na maior parte dos projetos aponta que o professor deve respeitar “o direito dos pais a que seus filhos recebam a educação moral que esteja de acordo com suas próprias convicções“ e que ele “não constrangerá os alunos em razão de suas convicções políticas, ideológicas, morais ou religiosas”. Para Penna, esses itens têm como objetivo dificultar qualquer discussão que confronte religião e sexualidade nas salas. Alguns dos projetos que tomaram a base do ESP, no entanto, foram além, e chegam a pedir explicitamente a proibição de qualquer discussão sobre o que chamam de “ideologia de gênero”.

“Nesses projetos o professor sempre aparece como uma figura que vai corromper o aluno, e a escola é apontada um local de manipulação. Eles dizem querer combater preferências partidárias, mas estão mesmo é levando a disputa política e religiosa que tomou o país para a educação. Como um professor vai abordar, por exemplo, a história das religiões africanas, a teoria da evolução ou a homossexualidade se um aluno evangélico afirmar que estudar essas coisas vai contra as convicções da sua família?”, diz Penna.

No texto disponibilizado pelo ESP, está prevista a afixação de um cartaz nas salas explicando aos alunos que o professor não deve fazer “propaganda político-partidária” e que devem ser apresentadas diferentes visões sobre temas políticos e sociais. O anteprojeto também prevê que os alunos deverão contar com um canal de denúncias anônimas diretamente ligado às secretarias de Educação locais, que deverão encaminhar as reclamações ao Ministério Público.

domingo, 17 de janeiro de 2016

Charge O Tempo 15/01

Futuro

A maior das crises que o Brasil enfrenta é reflexo do vazio. Vazio de lideranças, de escrúpulos, de honestidade, de respeito. Difícil é escolher um exemplo, alguém que possa servir de farol, de guia, de inspiração. Algumas figuras míticas se desintegrando como bolhas ao sol. O que oferecer ao jovem de exemplo? Mais temos a esconder.

Antes da apresentação de um “Jornal Nacional”, deveria ser exposto em tarja vermelha: “Vetado aos menores de 60 anos”. O que passa na tela deseduca. Coisas apenas para aposentados, que da vida já tiveram quase tudo.


A cada dia, uma forma nova e sofisticada de roubar, de desviar, de aniquilar um país. Falsidade e fórmulas de envenenamento da sociedade. Pelas ondas se espalham a descrença, o desespero, a depressão. Uma incitação à revolta. A covardia é banalizada. O execrável se repete, exposto e esmiuçado para qualquer um ver o que havia de feio.

Gatos do mesmo balaio, um dedurando o outro. Quem mais e quem menos, todos dedicados a mensalão ou mensalinho, mas sempre unidos na exploração sórdida do poder. Rouba-se das verbas da saúde, da educação, da caixinha da igreja, nada escapa, qualquer oportunidade serve, mesmo deixando sofrimentos e cadáveres no rastro.

Ficou exposto também o nobre e democrático instrumento da CPI, que deveria investigar e apurar condutas delituosas. Ele se transformou, como o resto, em forma de achaque, de negociatas, de lavar crimes. CPI usada como ameaça de constrangimento, para depois extorquir verbas que, de regra, saem da coisa pública.

O que se salva hoje? Difícil de dizer. Vazio de propostas, de vontade de enfrentamento. Esperanças que se apequenam num Brasil esvaziado. Fosse manga este país, teríamos para descrevê-lo apenas um caroço seco e pelado. As boas cabeças saem, não têm por que ficar aqui. Não há perspectiva, clima, seriedade, respeito às leis.

Quem vai apostar sua vida neste país? Que futuro esperar? Perder a flor dos anos num covil de lobos?

O indivíduo aspira ao grau de cidadão, emancipado pelas suas capacidades. Quer trabalhar, quer ter renda para satisfazer suas necessidades, viver sua vida. Muitos jovens querem se casar, ter sua família e um lar, uma vida tranquila.

Eu já passei por isso e tenho pena dos jovens de hoje, também muitos deles já deteriorados pelo mal a que ficaram expostos, matando sonhos e esperanças de juventude. Faltam líderes, comandantes, pessoas que pensem amplo e que aspirem a uma sociedade justa.

Tenho pavor de comentaristas políticos caçando cabelos nos ovos e banalizando o desfrute sórdido do exercício do poder. Gostava do antigo Boris Casoy, até ser silenciado.

Arrepio e não entendo como famílias inteiras, brindadas por patrimônios incalculáveis, se dedicam ao arriscado assalto da coisa pública, dos remédios, da comida, sem consciência do mal que provocam e de que deverão, um dia, dar conta a Deus.

Eu não sou pregador nem fanático montanista. Acredito que não há felicidade nem desenvolvimento, individual e da nação a que pertencemos, sem respeito às regras. Não tem Estado que progrediu sem respeito a seus mandamentos. Um Estado predador é terminantemente desautorizado pelas suas atitudes a gerir o poder.

A roda atual gira para favorecer os escroques, incita as novas gerações a trilhar o mau caminho. Apresenta seu pendor execrável.

Brasil: um potencial assombroso jogado fora. Recessão em 2015 de 4% ao ano. Já o ano de 2016 iniciou pior. Nada no horizonte a não ser impeachment e briga de uma classe política que asfixia os entusiasmos dos mais otimistas. O consumo de energia nos primeiros 15 dias do ano caiu 9,6%. Sinal de uma catástrofe iminente? O Estado ocupado por falanges que usam suas prerrogativas para roubar o esforço honesto de quem trabalha. Estado cuja função principal se reduziu a extorquir quem trabalha, lançando mão de tudo.

O Brasil está no limite da revolta; hoje dá medo.

Matar ou morrer

O ano de 2016 será decisivo para o futuro do governo de Dilma Rousseff. Será decisivo por várias razões, e uma delas é por não poder repetir a inoperância desastrosa que o caracterizou em 2015, com uma estimativa de queda do PIB de 3,7% e uma inflação que ultrapassou os 10%. As situações econômica e política a que chegou o país são tão graves que até mesmo Dilma, que não costuma dizer a verdade, chegou a admitir, em entrevista a um grupo de jornalistas, que de fato errou.

É certo que não confessou o erro verdadeiro –que foi, entre outras coisas, valer-se das pedaladas para garantir sua reeleição–, mas admitir que errou já é uma atitude realmente inesperada para quem não erra nunca. Mas o que aconteceu para que ela adotasse, tão inesperadamente, tal atitude? Não tenho dúvida de que se trata de uma questão de vida e morte. Ou seja, Dilma só a adotou porque viu nela o único caminho para se livrar da situação crítica a que, em função de seus erros, conduziu o país.

Não é que basta admitir ter errado para, com isso, superar as dificuldades nas quais o país se debate. Não basta, claro, mas é o primeiro passo para ela tentar ganhar credibilidade junto à opinião pública e poder enfrentar o seu agora mais sério adversário: o PT. O leitor provavelmente ficará surpreso com esta minha afirmação, mas é que, em política, tudo pode ocorrer, especialmente quando se trata de situações como esta que o populismo petista criou no Brasil.

O leitor certamente se lembra de quando o então presidente Fernando Henrique Cardoso criou os programas Bolsa Escola e Bolsa Alimentação: o primeiro para ajudar na educação dos filhos de trabalhadores e o segundo para pagar-lhes a comida quando desempregado. Lula, na época, foi contra esses programas mas, eleito presidente, os manteve, fundindo-os no Bolsa Família e triplicando o número de beneficiados. Com isso, onerou os cofres públicos e bagunçou o coreto, tornando inviável o controle da concessão dos benefícios. É que o objetivo do populismo não é resolver os problemas dos necessitados, mas explorá-los para manter-se no poder.

Assim fizeram Lula e Dilma, valendo-se do dinheiro público em programas assistencialistas e outras medidas equivocadas que contribuíram para a grave situação na qual nos encontramos hoje. Com o propósito de manter-se no poder, os presidentes petistas, em vez de investirem no crescimento econômico do país, estimularam o consumismo, chegando ao ponto de usar recursos públicos para financiar empresas privadas e assim garantir preços acessíveis ao consumo popular. Para isso e para outros procedimentos irresponsáveis, usaram recursos da Caixa Econômica Federal, do Banco do Brasil e do BNDES, contribuindo assim para a situação crítica em que se encontra hoje a economia brasileira.

A situação já era essa em 2014, quando Dilma, para se reeleger, afirmava que a economia brasileira ia de vento em popa. Como havia mentido, ao começar o novo mandato, teve de tomar as medidas necessárias para evitar o naufrágio. Foi então que convidou Joaquim Levy, cuja visão de economista é contrária à sua, para o ministério da Fazenda. Levy, então, propôs medidas necessárias à superação da crise, medidas essas que, inevitavelmente, visavam cortar despesas e fazer o ajuste fiscal. Noutras palavras, o contrário do que o populismo petista havia feito nestes 12 anos de governo.

Imediatamente, o PT se opôs a elas. Claro, porque contrariavam quase tudo o que o os governos petistas fizeram para se perpetuar no governo e, consequentemente, caso fossem postas em prática, atingiriam os seus interesses políticos e levariam inevitavelmente à sua derrota eleitoral, particularmente se impostas por Dilma, membro do partido. Resultado: quase todas as medidas propostas por Levy foram inviabilizadas por eles, e até Lula, que inventara Dilma, atuou contra elas. Sim, porque, sem as benesses do populismo, o lulapetismo estará perdido. Mas o governo Dilma, como fica? Se a estagnação de 2015 se mantiver, ela dificilmente se sustentará no poder. Em face disso, só há uma saída: fazer o contrário do que o PT pretende que se faça. Não por acaso, ela declarou na tal entrevista: "Não governo para este ou aquele partido, governo para a sociedade". Vai morrer gente!

Dilma e a fala do trono

É muito difícil entender o que diz Dilma Rousseff. Assim, há riscos vários quando a presidente trata de temas sensíveis como empréstimos de bancos públicos e a solvência da Petrobras, por exemplo, como na sexta-feira, em entrevista coletiva.

Ainda assim, lida, relida e ouvida a entrevista, a presidente não disse que pode haver capitalização da Petrobras, como se aventou.

Dilma Rousseff, no entanto, não negou que possa fazê-lo. Não negou que o governo possa fabricar dinheiro e inventar uma gambiarra a fim de enfiá-lo no caixa da empresa. A pergunta do jornalista, porém, era direta (vai capitalizar?). A presidente teria se esquecido de negar?


É possível que o assunto principal se tenha perdido no discurso outra vez assintático, convoluto e aleatório de Dilma. O palavrório torna-se ainda mais tumultuário quando a presidente parece afligida pelo desejo de demonstrar que está à altura de si mesma, de se provar a gerentona onisciente e sabida, mistura viva de almanaque capivarol com googlepedia de qualquer assunto de governo, do comezinho ao abstruso.

Essa aflição, temperada com alguma presunção provinciana, não raro acaba em digressões tumultuárias e disparatadas, da saudação à mandioca a manias de engenheira. Na sexta-feira, um dos desvios acabou em uma conversa torta sobre "tight oil" e teorizações tais como "a queda da demanda [de petróleo] é o outro lado do excesso de oferta, por razões diversas".

Os assuntos econômicos da entrevista eram graves.

A situação da superendividada Petrobras é crítica. Caso o governo decida fazer dívida a fim de remendar a empresa, arrisca-se a queimar o último fiapo de credibilidade fiscal, por exemplo. O plano de estimular os bancos públicos a conceder mais crédito suscita as mesmas desconfianças, até porque não se tem ideia do que o governo possa fazer a respeito, do lunático ao irrelevante.

Qualquer discurso do governo sobre tais assuntos já tem impacto por si só, antes que se tome decisão. Calar, por vezes, é necessário. Mas o que disse Dilma? Coisas assim:

"O governo sempre estará preocupado com a Petrobras, principalmente quando os fatores que levam a esta situação são fatores exógenos a ela, que ela não controla. Então nós todos teremos de nos preocupar bastante com o que ocorrerá".

"É óbvio que o petróleo a níveis menores será sempre preocupante. O que nós faremos será em função do cenário nacional e do internacional. Nós não descartamos que vai ser necessário fazer uma avaliação, se esse processo continuar."

"...O que ela [Petrobras] tem feito? Ela tem se adaptado. Ela tem diminuído, por exemplo, seus investimentos, mas não porque ela queira. Mas porque, se ela não fizer isso, ela não sobrevive, então ela toma também as suas medidas."

A vaidade do poder rende mais palavrório em um ambiente como o nosso, de instituições carnavalizadas e de aversão a formalidades necessárias. Falavam demais FHC e sua vaidade intelectual, Lula e sua vaidade de encantador de plateias, Dilma e a vaidade de sua tecnocratice ingênua.

Conviria um pouco mais de recato e disciplina, tanto política quanto intelectual, "falas do trono" com mais prestações de conta e comunicações objetivas de planos de governo.

Desemprego reduz massa salarial em R$ 20 bilhões por mês

O índice de desemprego revelado pelo IBGE na sexta-feira e destacado no Globo, Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo atingiu 9% da mão de obra ativa brasileira, abrangendo assim nada menos que 9 milhões de pessoas. Criou-se um gravíssimo problema tanto econômico quanto social, porque, considerando-se o salário médio no país, de 2.300 reais, não confundir com a renda per capita, que inclui as faixas etárias infantis, o desemprego acarreta assim uma diminuição na massa salarial da ordem de pouco mais de 20 bilhões de reais por mês. As reportagens de Marcelo Correa (O Globo), Idiana Romazelli (O Estado de São Paulo) e de Bruno Vilasboas (Folha de São Paulo0 edições de sábado, destacam de forma bastante nítida o problema.

O desemprego divulgado pelo IBGE refere-se ao período outubro de 2014 a outubro de 2015. Como em outubro a taxa de demissões cresceu 2%, caso a tendência tenha se mantido em novembro e dezembro, o limite de 9% poderá ter sido ultrapassado em 2015. Mas esta é outra questão.

O essencial é verificar que o desemprego não é um desastre apenas por si. Ele acarreta saques maiores no FGTS. Queda nas contribuições, tanto de empregados quanto empregadores para o INSS, além de em muitos casos conduzir à obtenção de aposentadorias que deveriam ocorrer tempos depois. Evidentemente, os técnicos do governo não são capazes de pensar em todos esses reflexos que reduzem as contribuições dos trabalhadores e ampliam os desembolsos oficiais. Assim as demissões, no fundo do problema significam a transferência de despesas por parte do sistema empresarial para o bolso do próprio governo. Mas a sequência do desastre não termina aí. Prossegue.

O desemprego atinge em cheio o nível de consumo da população e com isso a receita de impostos, incluindo os federais, estaduais e municipais. Este quadro conduz ao ato de desempregar e abala a arrecadação pública como um todo. Não adianta criar mais impostos, como anuncia a presidente Dilma Rousseff, referindo-se principalmente à volta da CPMF. O que é essencial é aumentar a receita de tributos sem elevar suas alíquotas, pois isso vincula a elevação da carga fiscal para os preços dos produtos. Como proceder então? Combatendo-se, digo eu, a sonegação fiscal que se generaliza no país, a começar pelo Imposto de Renda que só vai em cima dos assalariados e libera de suas lentes uma parte substancial do empresariado.

Há projetos públicos que claramente tornam-se incentivo à corrupção e, portanto, também à sonegação. É o caso, por exemplo, do que acontece no Rio de Janeiro, com a transferência da administração de hospitais públicos para as chamadas Organizações Sociais. Essas Organizações recebem parcelas fixas anuais tanto do governo estadual quanto da prefeitura da cidade. Tal sistema resulta em quê? Muito simples. Quanto menos atenderem pacientes maior será a margem de sua lucratividade. Projetos assim são montados para ampliar as taxas de corrupção com dinheiro público.

É evidente que quanto maior for o produto da corrupção, maior também será a sonegação. Até porque os agentes do roubo não têm como declarar o volume que receberam em decorrência de tais práticas ilegais.

Portanto, combater a corrupção significa tacitamente enfrentar as maiores fontes de sonegação de impostos. Mas a política federal não leva nenhum desses fatos em conta e aceita conviver com o desemprego estratosférico, como se ele fosse efeito de nada e surgido no país por mero acaso do destino. Não é nada disso. O desemprego é uma consequência do fracasso de uma política econômica e social que exige correção imediata de rumos. Porque os rumos adotados até agora estão levando o país a um impasse gigantesco. O desafio está colocado: sem emprego, não há consumo.

Madame endoidou

Com todo o respeito, Madame parece que endoidou quando, sexta-feira, a um grupo de jornalistas, declarou-se favorável ao aumento de impostos, inclusive a volta da CPMF, e reconheceu que no correr deste ano o número de desempregados passará dos 10 milhões. Também confirmou que vai reformar a Previdência Social, aumentando a idade para as aposentadorias.

A presidente continua fornecendo más notícias. De reformas, só as amargas. Desse jeito, em vez de recuperar a popularidade, mais despencará. Depois, queixa-se de que a campanha do impeachment cresceu, em vez de ganhar as profundezas.


A gente fica pensando se Dilma assumiu de caso pensado a imagem do vetusto mestre-escola empenhado em assustar os alunos com a sombra da reprovação e da palmatória. Porque de alternativas para injetar otimismo na classe, ela dispõe. Mas faz questão de demonstrar o contrário.

Os dez milhões de desempregados são calculados por baixo. Na verdade, ultrapassam esse número. A alta do custo de vida multiplica-se todos os meses, ao tempo em que se reduzem os investimentos. Esta semana os juros serão aumentados, para felicidade dos especuladores e dos banqueiros. Cresce o número dos envolvidos no lamaçal da corrupção, atingindo a cúpula da administração federal e transformando em frangalhos as bases político-partidárias do governo.

Parece inevitável a surra que levará o palácio do Planalto nas eleições municipais do próximo outubro. Os recursos do fundo partidário, mesmo elevados em 183%, não bastarão para impedir a derrota do PT e adjacências, fazendo prever a derrota nas eleições presidenciais de 2018, mesmo que o candidato venha a ser o Lula.

Em suma, enquanto não for apresentado um plano de recuperação nacional voltado para o crescimento econômico, nada feito. Obras públicas em massa financiadas pela aliança entre as empresas, os trabalhadores e o governo seriam um bom começo, mas a retração desses três fatores funciona como um sistema de vasos comunicantes: cada um puxa os demais para baixo.

Por essas e outras indaga-se outra vez: Madame endoidou? Perdeu a capacidade de dar a volta por cima? Está disposta a entregar-se? Mais uma entrevista dessas que tem concedido anunciando a falta de opções para o país sair do sufoco tornará evidente a ruptura definitiva entre a sociedade e seus representantes. Depois, será o que Deus quiser,e, pelo jeito, ELE já está querendo...

Democracia de resultados


Democracia não tem dono, embora muitos se arvorem em tutelá-la. Não permite ser ditada por mandatários políticos ou econômicos. Muito menos tem espaço para ser transformada em democracia de resultados, de conveniência, como preconiza o grupo de advogados que assinou a “Carta aberta em repúdio ao regime de superação episódica de direitos e garantias verificado na Operação Lava Jato”, publicada na sexta-feira nos principais jornais do país.

Nada contra o direito de gritar, espernear, esbravejar, algo que só a liberdade de expressão garantida pelos regimes democráticos permite. Mas seria melhor fazê-lo sem banalizar o conceito de democracia, tão surrado no Brasil nestes tempos de domínio do lulopetismo, em que o governo se considera titular exclusivo dessa doutrina. E que agora tem de partilhar com os causídicos que defendem réus e investigados da operação Lava Jato, responsável por desbaratar a roubalheira desvairada que assolou a Petrobras.

A carta é um primor.

Do título extenso e nada convidativo, que denuncia a “superação episódica”, ao juridiquês, que transmuta descaso ou menosprezo em “menoscabo”, e salubridade em “higidez”, tudo nela é hiperbólico, ou melhor, exacerbado, exageradíssimo. A ponto de perder a razão até nos momentos em que poderia tê-la.

Para os signatários – 103, sendo que pelo menos um deles, o ex-ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Gilson Gipp, negou ter autorizado o uso de seu nome –, a Lava Jato não apenas viola “as prerrogativas da advocacia”, dentre “outros vícios” não explicitados, como imputará “consequências nefastas para o presente e o futuro da justiça criminal brasileira”.

Ora, se é assim tão grave, e se a Lava Jato fere de morte a Constituição, como afirmam, por que a tese não foi levada ao Supremo? Por que só reclamam agora depois de perder sucessivos (não confundir com periódicos) recursos em nome de seus clientes na mais alta Corte do país?

Há certa altura, depois de criticar sem nominar a reportagem da revista Veja que traz o dia a dia de detentos nobres no presídio, a carta traça o cenário da conspiração perfeita: “estratégia de massacre midiático”, parte de um “verdadeiro plano de comunicação para incutir na coletividade a crença de que os acusados são culpados, mesmo antes deles (sic) serem julgados”.

E, pasmem-se, capaz de “pressionar instâncias do Poder Judiciário a manter injustas e desnecessárias medidas restritivas de direitos e prisões provisórias”. Nessa frase acusam diretamente – sem meias palavras - os juízes de tribunais superiores de serem suscetíveis à mídia e julgarem com parcialidade. Contra os clientes dos signatários, é claro.

Assim como o governo Dilma Rousseff e o PT, rechaçam com veemência o que chamam de “vazamento seletivo”, como se seus ricos fregueses tivessem foro privilegiado e depoimentos policiais protegidos.

Nem de longe mencionam que o Supremo manteve as prisões provisórias com base em fartura de provas e na possibilidade de os acusados, se libertados, manipulá-las.

Desafiam o STF e afirmam que a continuidade das prisões é instrumento de coerção para obter delação premiada. Os mesmos presos que representam “gravíssimo risco a ordem pública”, dizem, não oferecem ameaça alguma quando se tornam delatores. Omitem o fato de que, ao contrário dos demais detentos, delatores querem preservar as provas de seus dizeres, sob pena de perderem as vantagens negociadas, em vez de eliminá-las ou tentar alterá-las para driblar a Justiça.

Novamente com o cuidado de não citar nomes e até para evitar ser alvo de eventuais processos, imputam parcialidade ao juiz Sérgio Moro, que estaria se comportando “de maneira mais acusadora do que a própria acusação”.

Por fim, evocam a ameaça ao Estado de Direito e voltam a duvidar da capacidade do Poder Judiciário, que estaria sujeito a ser influenciado pela “publicidade opressiva que tem sido lançada em desfavor dos acusados”. Pura peça de defesa, aqui sem qualquer disfarce.

Mas nada é mais acintoso do que o uso indevido e oportunista do sentido da democracia. Muito mais do que uma “Justiça que se pretenda democrática”, como o documento defende, o país precisa de uma Justiça justa. Que não privilegie ninguém. Isso, sim, é democracia e o mérito maior da Lava Jato.

Planalto parasitário

Nenhuma sociedade jamais prosperou porque tinha uma grande e crescente classe de parasitas vivendo à custa daqueles que produzem
Thomas Sowell

Da série corrupção dos valores: a honra

Num de seus mais recentes artigos, o jornalista Elio Gaspari faz um inventário das mentiras de Doutora Dilma. Seja para trapacear nas eleições, seja para esconder sua incompetência gerencial, não faltam fantasias voluntaristas de quem se acha capaz de mudar o curso da história, como, aliás, é típico do esquerdismo mais infantil e arrogante. E lista o jornalista pelo menos sete delírios da economista medíocre, que seria mais uma a quebrar a cara sozinha, se não estivesse quebrando todo um país no cargo de presidente da República: descontrole da inflação, do desemprego, perda da confiança dos investidores, rebaixamento da nota do país pelas agências de rating, crescimento negativo, tolerância com a corrupção e negação de seu próprio lema de “pátria educadora” com cortes do orçamento da educação. Enfim, sete porque é a conta do mentiroso, mas se estendêssemos o inventário desde seu primeiro mandato, chegaríamos a setenta e sete lorotas, fácil, fácil. Aliás, para aqueles que alegam a mentira do golpe, no mínimo um falso argumento de absoluta desonestidade argumentativa, vale lembrar a previsão constitucional do impeachment como encurtamento do mandato presidencial em casos de comprovada irresponsabilidade e desonra à mais alta magistratura da República. Como por exemplo, as pedaladas fiscais ou o financiamento eleitoral da campanha presidencial por recursos desviados da corrupção. Afinal, é o que afirma outro provérbio: a mentira tem pernas curtas.

Para além da crise política, a crise econômica é também a crise de confiança dos investidores internos e externos como consequência direta do desapreço petista pela verdade. Pra não falar da desfaçatez com que o governo e seus asseclas mudam de palavra, opinião e crença ao sabor das denúncias e das conveniências de momento. Desde o caso Celso Daniel, passando pelo drama do mensalão, quando o mestre Lula chegou a vir a público interpretar a farsa de sua traição, até as recentes e renitentes negações de participação no atual escândalo do petrolão. Porque o esquerdismo, como doença de todas as doutrinas políticas socialistas, é intrinsecamente comprometido com o romantismo enquanto visão-de-mundo e ideologia cultural. Onde a fuga para uma segunda realidade ficcional se consagrou como negação da própria realidade concreta da história. Doutrinas para as quais, honra, sobretudo honra a contratos, palavra empenhada, sobretudo nas transações comerciais, e confiança, sobretudo enquanto valor moral e social, são meros sentimentos pequeno-burgueses diante da grandeza da empreitada de determinar o rumo da história e a “igualdade” social.

Poderíamos mesmo dizer que a partir da concepção latina, maquiavélica e relativista do “fim que justifica os meios”, somada ao pragmatismo cínico nacional do “é dando que se recebe”, conseguimos baixar a ação política a níveis de degradação e desfaçatez jamais pensados pela civilização ocidental. Desde que na Roma antiga surgiu este valor da honos, honoris, como o reconhecimento do mérito exatamente daqueles que, no exercício da função pública, se destacavam pela retidão e decência de sua conduta, fazendo jus à expectativa de fé pública de seus concidadãos. Ao contrário, nossos políticos, sobretudo os de espectro esquerdista, jamais tiveram o pejo do mentir descaradamente. Despudoradamente. Ignorando até mesmo a advertência de seu prócer Lenin sobre a doença infantil do comunismo. Ou seja: se é a honra e a palavra empenhada que sustentam a confiança, como podem reverter a fuga do mercado investidor, o fantasma da recessão econômica e o desemprego crescente, sem reconhecer no valor da confiança o próprio valor moral primeiro e maior entre todos os demais? Na arrogância típica dos ignorantes, desconhecem que a honra é a condição de possibilidade da própria lei mosaica, base de sustentação de todos os códigos morais e legais do Ocidente. Porque, segundo sua deturpada leitura, não constaria entre os dez mandamentos o “não mentirás”. Como se precisasse, uma vez que se impõe implicitamente na própria condição de cumprimento de todos os demais mandamentos sobre os valores invioláveis da vida, da propriedade, da liberdade, da justiça, da igualdade, entre outros. Além do que, a própria fidelidade na crença do poder divino do primeiro mandamento obrigaria a obediência aos demais. Sobretudo aos pais ou antepassados, a quem devemos explicitamente honrar pelo direito de sucessão. O que torna os homens mais iguais diante da lei divina do que da própria lei dos homens. Ignoram o étimo comum de fides para vocábulos tão diversos como fé, fidelidade, confiança, fiança e fiduciário. Ou seja: se não há palavra empenhada, honra preservada, não há sequer a possibilidade de finanças ou crédito para a formação da riqueza econômica. Para além de que já se tornou unânime a impossibilidade de coexistência de sociedade próspera com regimes socialistas. Uma vez que é a honra que possibilita o futuro.

O que resulta que a descrédito no governo atual é simultaneamente a descrença da maior parte da opinião pública, quanto dos próprios agentes econômicos. Resultado, por sua vez, do arrogante menosprezo esquerdista pelos mais consagrados valores morais ocidentais. Se chegamos ao paroxismo da corrupção como ferramenta trivial da política da sociedade brasileira é porque chegamos à corrupção como ferramenta substancial da vida moral desta mesma sociedade. A dupla Lula-Dilma, como criador e criatura de uma mesma farsa política, conseguirá enganar a todos durante todo o tempo, contrariando o provérbio milenar? Quem em sã consciência ainda acredita nisto? Se criador e criatura não entendem o que venha a ser a honra, limite da dignidade não apenas do mais alto cargo da República, como do próprio ser humano, como esperar uma saída honrosa como a renúncia, ou mesmo a divisão do poder de chefia do Estado com a chefia do governo, num pacto pela governabilidade transparente entre forças políticas diversas, deixando inclusive uma porta aberta para um possível retorno à vida pública? Neste sentido, vale ouvir o depoimento do jurista Fábio Medina Osório que participa de nosso programa de Agentes de Cidadania com uma bela interpretação do atentado à honra inerente ao cargo da presidência da República.

Quanto a Lula, no seu desvario lunático, jogou na lama sua biografia de mito de toda uma geração de milhões de cidadãos e cidadãs brasileiros que nele confiaram. Porque não honrou seus pais, não teve a humildade de entender que era apenas a representação de todo um povo, de um novo e tão desejado Estado de democracia. Cidadãos e cidadãs que confiaram e foram vilmente traídos. Até porque a mitificação política é o entulho demagógico mais difícil de ser removido para o advento de uma plena cidadania. Mas, como diz outro provérbio oriental: “duzentos não podem estar errados”.

Jorge Maranhão

O tal bilhete premiado

Queria trazer boas notícias. Mas 2016 começa muito mal. E todas as sinalizações são de um ano terrível para os brasileiros. Na Saúde, encerramos a semana passada com levantamento mostrando que o aumento no número de casos de dengue foi recorde no país em 2015. O Sudeste, a região mais rica do país, encabeça as estatísticas negativas. Mais preocupante é saber, pelas medidas do governo e a fria análise dos fatos, que a tendência é piorar.


Enquanto a população sofre com hospitais públicos sucateados e a falta de atendimento médico, a presidente Dilma parece empenhada apenas em tentar salvar a própria pele do impeachment. Os cortes no orçamento da saúde e da educação - e o uso de R$ 55,8 bilhões pelo Tesouro Nacional para pagamento das pedaladas fiscais - são uma prova disso. Outra, ainda mais escabrosa e com a cumplicidade do Congresso Nacional, é o repasse de R$ 818 milhões para o Fundo Partidário. Inicialmente, na proposta do governo, estava previsto o valor de R$ 311 milhões. Há, ainda, outros R$ 9 bilhões em emendas para os parlamentares "investirem" em obras em seus redutos eleitorais.

Ora, destinar uma dinheirama dessas para proselitismo político, com o país em profunda recessão, é um escárnio monumental. O brasileiro, que paga imposto como se vivesse no primeiro mundo e recebe em troca serviços públicos entre os piores do terceiro, não merece ver cinco meses de salários serem tão mal-empregados. Deus do Céu! É inaceitável: o Brasil está cortando verba da Educação, da Saúde, da Polícia Federal - para atrapalhar as investigações da Lava-Jato? - e de investimentos cruciais para o país e, ao mesmo tempo, destinando mais recursos para partidos políticos!

Mais grave ainda é ver tudo isso acontecer diante do crescimento recorde do desemprego e de uma população que parece incapaz de reagir. Impera o silêncio sepulcral até mesmo quando a presidente vem a público dizer que a saída para a crise passa pela criação de novo imposto, a CPMF. Os assalariados do país são uma espécie de escravos modernos. Ganham cada vez menos e trabalham cada vez para sustentar uma organização criminosa que reduziu a Petrobras- o tal bilhete premiado de Lula -, a um poço sem fundo de corrupção, disseminou-se nas entranhas do Estado e não poupa sequer o dinheiro da merenda das criancinhas.