sábado, 1 de novembro de 2025
Crime organizado não será combatido pelos gigolôs da violência
O estado de exceção é a antítese do Estado de Direito. Enquanto no Estado de Direito estamos todos submetidos ao império do direito, no estado de exceção imperam a violência e o arbítrio. Nestas quatro décadas de democracia não fomos capazes de universalizar o respeito às leis, especialmente para as populações pretas e pobres.
É cada vez maior o número de brasileiros que estão cotidianamente submetidos ao domínio perverso do crime organizado, que ocupa o vácuo deixado pelo Estado. Estima-se que facções criminosas e milícias dominem hoje mais de 20% da região metropolitana do Rio de Janeiro, explorando não apenas o tráfico mas todos os tipos de atividade. O Rio, no entanto, é apenas a ponta do iceberg.
O fato é que, onde o Estado não impõe a lei e não constrói estruturas elementares de urbanização ou políticas básicas de bem-estar, o crime se impõe. O tráfico e as milícias assumem o controle sobre todas as atividades econômicas, espoliando e subordinando a população.
A macabra operação que resultou na morte de mais de cem pessoas, entre as quais quatro policiais, é uma expressão do fracasso retumbante e reiterado do Estado brasileiro em assegurar o direito fundamental à segurança dos seus cidadãos. Retrata ainda um Estado que, muitas vezes, reproduz os padrões de violência e arbítrio praticados cotidianamente pelos criminosos.
Quantas foram as megaoperações e intervenções nas comunidades nas últimas décadas? O que trouxeram de bom para essas comunidades? Com exceção do frustrado plano de retomada dos territórios, para a instalação de UPP e promoção de políticas públicas nas comunidades, que benefícios geraram? A resposta é simples: não contribuíram em nada! Ou pior, apenas contribuíram para aprofundar um perverso ciclo de violência.
Apesar disso, não surpreende que a imensa maioria dos moradores dessas comunidades apoiem essas operações. Essas populações estão encurraladas pelo crime, que brutaliza as suas vidas e rouba o futuro de seus jovens. Qualquer movimento contra o crime, por mais inócuo ou contraproducente que seja, será aplaudido.
O assanhamento de alguns governadores do campo conservador para se solidarizar com Cláudio Castro sinaliza o potencial eleitoral dessa necropolítica. O empenho desses políticos em bloquear qualquer tentativa de modernização das polícias ou de construir uma política nacional e integrada de segurança pública, com emprego intensivo de tecnologia e inteligência policial, é emblemático de seu baixíssimo interesse em verdadeiramente enfrentar o problema da criminalidade.
Do outro lado do espectro político, também pouquíssimo fez o campo progressista de efetivo para qualificar as políticas públicas de segurança e fortalecer as instituições de aplicação da lei. Diversas das meritórias iniciativas, muitas delas construídas pela interação entre bons policiais, pesquisadores e organizações da sociedade civil, foram rapidamente abandonadas ou negligenciadas diante dos elevados custos eleitorais que apresentavam. O sucesso na redução de homicídios em alguns estados, como São Paulo, na década passada, não gerou um ciclo virtuoso de controle da criminalidade em outras regiões.
O desafio número 1 da democracia brasileira, neste momento, é enfrentar o crime organizado antes que ele domine as estruturas políticas e institucionais do país e colocar em prática efetivas políticas públicas de segurança, que permitam às pessoas viver em paz.
Certamente não serão os gigolôs da violência que realizarão essa tarefa. Cumpre saber se aqueles que se dizem comprometidos com o Estado de Direito terão disposição e competência para fazê-lo.
É cada vez maior o número de brasileiros que estão cotidianamente submetidos ao domínio perverso do crime organizado, que ocupa o vácuo deixado pelo Estado. Estima-se que facções criminosas e milícias dominem hoje mais de 20% da região metropolitana do Rio de Janeiro, explorando não apenas o tráfico mas todos os tipos de atividade. O Rio, no entanto, é apenas a ponta do iceberg.
O fato é que, onde o Estado não impõe a lei e não constrói estruturas elementares de urbanização ou políticas básicas de bem-estar, o crime se impõe. O tráfico e as milícias assumem o controle sobre todas as atividades econômicas, espoliando e subordinando a população.
A macabra operação que resultou na morte de mais de cem pessoas, entre as quais quatro policiais, é uma expressão do fracasso retumbante e reiterado do Estado brasileiro em assegurar o direito fundamental à segurança dos seus cidadãos. Retrata ainda um Estado que, muitas vezes, reproduz os padrões de violência e arbítrio praticados cotidianamente pelos criminosos.
Quantas foram as megaoperações e intervenções nas comunidades nas últimas décadas? O que trouxeram de bom para essas comunidades? Com exceção do frustrado plano de retomada dos territórios, para a instalação de UPP e promoção de políticas públicas nas comunidades, que benefícios geraram? A resposta é simples: não contribuíram em nada! Ou pior, apenas contribuíram para aprofundar um perverso ciclo de violência.
Apesar disso, não surpreende que a imensa maioria dos moradores dessas comunidades apoiem essas operações. Essas populações estão encurraladas pelo crime, que brutaliza as suas vidas e rouba o futuro de seus jovens. Qualquer movimento contra o crime, por mais inócuo ou contraproducente que seja, será aplaudido.
O assanhamento de alguns governadores do campo conservador para se solidarizar com Cláudio Castro sinaliza o potencial eleitoral dessa necropolítica. O empenho desses políticos em bloquear qualquer tentativa de modernização das polícias ou de construir uma política nacional e integrada de segurança pública, com emprego intensivo de tecnologia e inteligência policial, é emblemático de seu baixíssimo interesse em verdadeiramente enfrentar o problema da criminalidade.
Do outro lado do espectro político, também pouquíssimo fez o campo progressista de efetivo para qualificar as políticas públicas de segurança e fortalecer as instituições de aplicação da lei. Diversas das meritórias iniciativas, muitas delas construídas pela interação entre bons policiais, pesquisadores e organizações da sociedade civil, foram rapidamente abandonadas ou negligenciadas diante dos elevados custos eleitorais que apresentavam. O sucesso na redução de homicídios em alguns estados, como São Paulo, na década passada, não gerou um ciclo virtuoso de controle da criminalidade em outras regiões.
O desafio número 1 da democracia brasileira, neste momento, é enfrentar o crime organizado antes que ele domine as estruturas políticas e institucionais do país e colocar em prática efetivas políticas públicas de segurança, que permitam às pessoas viver em paz.
Certamente não serão os gigolôs da violência que realizarão essa tarefa. Cumpre saber se aqueles que se dizem comprometidos com o Estado de Direito terão disposição e competência para fazê-lo.
Todos que apoiam a chacina são fascistas?
A foto dos corpos alinhados no chão não pede legenda. Foi chacina. Chacina não é um desastre natural que mata por acaso, como um terremoto ou uma enchente. A operação comandada pelo governador do Rio, Cláudio Castro, teve planejamento, fuzil, aval e coletiva de imprensa. É bom lembrar que no Brasil não existe pena de morte –oficialmente, não.
As reações, como sempre, vieram no automático da nossa rinha: um lado romantiza a violência estatal, o outro finge que segurança pública se resolve com discurso. Tratar morto como "dano colateral" é covardia travestida de coragem. E, ainda assim, há algo que precisa ser dito com a mesma franqueza: para parte de quem aplaude, não é ideologia — é desespero.
Uma pesquisa da AtlasIntel, divulgada na sexta-feira, mostra que oito em cada 10 moradores de favelas do Rio de Janeiro apoiam a "ação" contra o Comando Vermelho nos Complexos da Penha e do Alemão. Sim, foi uma chacina. Portanto, é preciso olhar com mais atenção porque tanta gente aplaude o discurso criminoso de que a mortandade produzida pelo Estado foi um sucesso.
Humanizar a crítica à brutalidade policial inclui olhar com sensibilidade para uma parte de quem apoiou a operação: os moradores de favela. É preciso se compadecer das mães que enterram filhos, enxergar as famílias que perderam gente primeiro para o crime e depois para o Estado, ao mesmo tempo em que se reconhece que o diagnóstico do problema é muito mais complexo do que tratar a todos como militantes de extrema direita.
Sim, Arthur do Val, ex-deputado, que acha que mulheres ucranianas "são fáceis porque são pobres", é um fascista, que bota na conta das mães periféricas a morte de seus próprios filhos. Nikolas Ferreira (PL), para quem é "só matar outros 120", é outro. A lista de políticos, de celebridades, de gente comum que prefere atropelar o Estado democrático de Direito é grande. Uma turma para quem a solução para a criminalidade nos morros deve ser bala e concreto em cima.
Eu me refiro a milhões de pessoas no país que vivem sob a lei do fuzil: pagam "mensalidade" para abrir o portão, compram luz de bandido, internet de miliciano, água de atravessador. Conheço histórias de quem, aos 50, teve infarto depois de abandonar casa e comércio tomados por traficantes. Mulher obrigada a "namorar" homem armado. Dentista extorquido em pleno expediente. A rotina é essa: medo como regra. Nessa trincheira, a promessa de "entrar atirando" soa, para muitos, como a única saída.
É fácil dizer que são todos fascistas. É confortável —e preguiçoso. O Brasil é conservador, e se agarra a respostas autoritárias quando o Estado some. Da mesma forma que é miopia achar que "direita" é sinônimo de gente endinheirada, é delírio imaginar que só um punhado de extremistas vibrou com a operação.
Foi chacina, sim, chacina, assinada pela polícia do Rio. Mas também não me peça cegueira: reagir à dor com carimbo ideológico é elitismo. Relacionar, de forma automática, a extrema direita à reação de quem só enxerga na barbárie a resposta para a violência é lavar as mãos. Quem vive entre toque de recolher e "lei" paralela quer viver. E quando o Estado só aparece de caveirão, a fantasia de redenção à base de pólvora ganha aplauso.
A esquerda paga caro por ter abandonado o tema. Segurança pública não é pauta "do outro"; é obrigação de governo. Dá para defender direitos e cobrar eficácia. Investigação independente, controle externo das polícias, metas públicas de redução de homicídios, inteligência para desarticular milícia, ocupação social de território, transparência e auditoria de operação não são palavrões, são o mínimo. O que não dá é seguir no ciclo: megaoperação, mortos, coletiva, silêncio, reprise.
Então, à pergunta do título: não, nem todo apoio à chacina é de extrema direita. Parte é medo antigo, dor acumulada e certeza de abandono. Dito isso, nomear o que aconteceu é inegociável. Foi chacina. E quem governa precisa escolher entre o show de horrores que rende manchete e a política que dá trabalho. Enquanto a gente continuar discutindo etiqueta ideológica, a fila de corpos continuará avançando e a única coisa realmente "limpa" será a consciência de quem nunca precisou escolher entre obedecer ao fuzil do crime ou ao fuzil do Estado.
As reações, como sempre, vieram no automático da nossa rinha: um lado romantiza a violência estatal, o outro finge que segurança pública se resolve com discurso. Tratar morto como "dano colateral" é covardia travestida de coragem. E, ainda assim, há algo que precisa ser dito com a mesma franqueza: para parte de quem aplaude, não é ideologia — é desespero.
Uma pesquisa da AtlasIntel, divulgada na sexta-feira, mostra que oito em cada 10 moradores de favelas do Rio de Janeiro apoiam a "ação" contra o Comando Vermelho nos Complexos da Penha e do Alemão. Sim, foi uma chacina. Portanto, é preciso olhar com mais atenção porque tanta gente aplaude o discurso criminoso de que a mortandade produzida pelo Estado foi um sucesso.
Humanizar a crítica à brutalidade policial inclui olhar com sensibilidade para uma parte de quem apoiou a operação: os moradores de favela. É preciso se compadecer das mães que enterram filhos, enxergar as famílias que perderam gente primeiro para o crime e depois para o Estado, ao mesmo tempo em que se reconhece que o diagnóstico do problema é muito mais complexo do que tratar a todos como militantes de extrema direita.
Sim, Arthur do Val, ex-deputado, que acha que mulheres ucranianas "são fáceis porque são pobres", é um fascista, que bota na conta das mães periféricas a morte de seus próprios filhos. Nikolas Ferreira (PL), para quem é "só matar outros 120", é outro. A lista de políticos, de celebridades, de gente comum que prefere atropelar o Estado democrático de Direito é grande. Uma turma para quem a solução para a criminalidade nos morros deve ser bala e concreto em cima.
Eu me refiro a milhões de pessoas no país que vivem sob a lei do fuzil: pagam "mensalidade" para abrir o portão, compram luz de bandido, internet de miliciano, água de atravessador. Conheço histórias de quem, aos 50, teve infarto depois de abandonar casa e comércio tomados por traficantes. Mulher obrigada a "namorar" homem armado. Dentista extorquido em pleno expediente. A rotina é essa: medo como regra. Nessa trincheira, a promessa de "entrar atirando" soa, para muitos, como a única saída.
É fácil dizer que são todos fascistas. É confortável —e preguiçoso. O Brasil é conservador, e se agarra a respostas autoritárias quando o Estado some. Da mesma forma que é miopia achar que "direita" é sinônimo de gente endinheirada, é delírio imaginar que só um punhado de extremistas vibrou com a operação.
Foi chacina, sim, chacina, assinada pela polícia do Rio. Mas também não me peça cegueira: reagir à dor com carimbo ideológico é elitismo. Relacionar, de forma automática, a extrema direita à reação de quem só enxerga na barbárie a resposta para a violência é lavar as mãos. Quem vive entre toque de recolher e "lei" paralela quer viver. E quando o Estado só aparece de caveirão, a fantasia de redenção à base de pólvora ganha aplauso.
A esquerda paga caro por ter abandonado o tema. Segurança pública não é pauta "do outro"; é obrigação de governo. Dá para defender direitos e cobrar eficácia. Investigação independente, controle externo das polícias, metas públicas de redução de homicídios, inteligência para desarticular milícia, ocupação social de território, transparência e auditoria de operação não são palavrões, são o mínimo. O que não dá é seguir no ciclo: megaoperação, mortos, coletiva, silêncio, reprise.
Então, à pergunta do título: não, nem todo apoio à chacina é de extrema direita. Parte é medo antigo, dor acumulada e certeza de abandono. Dito isso, nomear o que aconteceu é inegociável. Foi chacina. E quem governa precisa escolher entre o show de horrores que rende manchete e a política que dá trabalho. Enquanto a gente continuar discutindo etiqueta ideológica, a fila de corpos continuará avançando e a única coisa realmente "limpa" será a consciência de quem nunca precisou escolher entre obedecer ao fuzil do crime ou ao fuzil do Estado.
Nós, o povo da República Federativa do Brasil, estabelecemos que…
Governadores bolsonaristas de sete estados se reúnem para manifestar seu apoio ao destemido Cláudio Castro, do PL de Bolsonaro, aspirante a senador nas próximas eleições.
Parabenizam o governador pela matança de 121 pessoas no Rio de Janeiro e aproveitam o momento para anunciar a criação do que passaram a chamar de “Consórcio da Paz”. Que servirá para quê?
Para articular, segundo eles, ações conjuntas contra o crime organizado. Ações que a propósito de restabelecer a paz no país empreguem, se necessário, o uso da força bruta.
Bandidos serão mortos com um tiro na cabecinha ou em qualquer outro lugar vital do corpo? Sim, serão mortos. E não somente eles, mas simples suspeitos, com ou sem antecedentes criminais.
O Brasil está repleto de políticos, empresários, até ex-presidentes da República com antecedentes criminais. Alguns condenados ou à espera de ser. Mas o tratamento reservado para eles é outro.
Inocentes serão mortos? Bem, a princípio não. Mas numa batalha na mata, por exemplo, é difícil distinguir quem é quem. Daí a expressão “danos colaterais”. Sinto muito, mas é assim.
Quanto ao fato de que a Constituição brasileira veda a pena de morte e assegura o direito do bandido de receber pena proporcional a seu crime… A Constituição precisa ser atualizada.
Todo documento envelhece. Aqui, o Congresso vive reescrevendo a Constituição em ritmo alucinante. Deveria também rever os artigos que limitam o uso da violência contra bandidos e suspeitos.
Enquanto não o fizer, os guerreiros do “Consórcio da Paz” terão de persegui-los e matá-los. A sociedade os compreenderá. Não lhes faltará apoio. É o que dizem as pesquisas.
Bandido morto é bandido bom como todos sabem. Quem discorda? Suspeito morto, doravante, é suspeito bom. Inocente morto é dano colateral. Vida que segue, Mortes que sigam.
Nós, o povo da República Federativa do Brasil, solenemente autorizamos.
Parabenizam o governador pela matança de 121 pessoas no Rio de Janeiro e aproveitam o momento para anunciar a criação do que passaram a chamar de “Consórcio da Paz”. Que servirá para quê?
Para articular, segundo eles, ações conjuntas contra o crime organizado. Ações que a propósito de restabelecer a paz no país empreguem, se necessário, o uso da força bruta.
Bandidos serão mortos com um tiro na cabecinha ou em qualquer outro lugar vital do corpo? Sim, serão mortos. E não somente eles, mas simples suspeitos, com ou sem antecedentes criminais.
O Brasil está repleto de políticos, empresários, até ex-presidentes da República com antecedentes criminais. Alguns condenados ou à espera de ser. Mas o tratamento reservado para eles é outro.
Inocentes serão mortos? Bem, a princípio não. Mas numa batalha na mata, por exemplo, é difícil distinguir quem é quem. Daí a expressão “danos colaterais”. Sinto muito, mas é assim.
Quanto ao fato de que a Constituição brasileira veda a pena de morte e assegura o direito do bandido de receber pena proporcional a seu crime… A Constituição precisa ser atualizada.
Todo documento envelhece. Aqui, o Congresso vive reescrevendo a Constituição em ritmo alucinante. Deveria também rever os artigos que limitam o uso da violência contra bandidos e suspeitos.
Enquanto não o fizer, os guerreiros do “Consórcio da Paz” terão de persegui-los e matá-los. A sociedade os compreenderá. Não lhes faltará apoio. É o que dizem as pesquisas.
Bandido morto é bandido bom como todos sabem. Quem discorda? Suspeito morto, doravante, é suspeito bom. Inocente morto é dano colateral. Vida que segue, Mortes que sigam.
Nós, o povo da República Federativa do Brasil, solenemente autorizamos.
Casa-grande x senzala
Segurança pública no Brasil tem sido para proteger a casa-grande e para atacar e conter a senzala.
Ricardo Brisolla Balestreri, ex-secretário nacional de Segurança Pública entre 2008 e 2011
Ricardo Brisolla Balestreri, ex-secretário nacional de Segurança Pública entre 2008 e 2011
A desinformação alimenta a retórica racista e anti-palestina
Em meio a um frágil cessar-fogo que já foi violado diversas vezes , a desinformação, a propaganda e o racismo anti-palestinos continuam a se espalhar amplamente online.
A desinformação e a propaganda anti-palestina estão sendo usadas como arma "para justificar os crimes que estão sendo cometidos", disse Jalal Abukhater, diretor de políticas da 7amleh , o Centro Árabe para o Avanço das Redes Sociais, à DW Fact Check .
Desde os ataques liderados pelo Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023, as ações militares israelenses resultaram na morte de pelo menos 68.000 palestinos em Gaza , segundo a Autoridade de Saúde de Gaza. Uma comissão de inquérito da ONU e a Associação Internacional de Acadêmicos sobre Genocídio determinaram que a conduta de Israel constitui genocídio.
De acordo com o Instituto para a Compreensão do Racismo Anti-Palestino (IUAPR), esse fenômeno é "uma forma de racismo anti-árabe que silencia, exclui, apaga, estereotipa, difama ou desumaniza os palestinos ou suas narrativas". Embora as definições específicas e os mecanismos de denúncia variem, diversas organizações que monitoram os incidentes relatados de racismo anti-palestino afirmam que estes aumentaram consideravelmente desde os ataques liderados pelo Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023 .
Especialistas apontam que o fenômeno do racismo anti-palestino tem crescido ao longo da história. "Tem suas raízes no discurso colonial e orientalista", disse Asmaa El Idrissi, advogada e professora da Universidade de Ciências Aplicadas de Bochum.
"Se você examinar a literatura de 100 anos atrás, encontrará exatamente os mesmos estereótipos que agora estão ressurgindo contra os palestinos: árabes ou muçulmanos como irracionais e atrasados."
Após os ataques de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos , árabes e muçulmanos passaram a ser retratados cada vez mais como perigosos e simpáticos ao terrorismo, explica El Idrissi. Esses estereótipos continuam a influenciar a percepção pública e as políticas públicas.
Um dos contextos históricos mais importantes para a compreensão do sentimento anti-palestino é a negação da Nakba , apontam especialistas em direito. Em 14 de maio de 1948, o Estado de Israel foi declarado no território da Palestina, então sob mandato britânico. A Nakba , que em árabe significa "catástrofe ", refere-se ao deslocamento em massa e à expropriação de palestinos durante a Guerra Árabe-Israelense de 1948.
Segundo o Escritório Central de Estatísticas da Palestina , mais de 800 mil palestinos foram expulsos de sua terra natal e pelo menos 15 mil morreram durante a Nakba . No entanto, a Nakba é frequentemente negada ou ignorada. Em um caso que recebeu significativa atenção da mídia, a embaixadora de Israel no Reino Unido, Tzipi Hotovely, afirmou em um discurso no final de 2020 que a Nakba era "uma mentira árabe muito arraigada e muito popular".
"A negação da Nakba serve como argumento central para deslegitimar qualquer reivindicação por igualdade de direitos e uma vida livre", explica El Idrissi.
O advogado e professor enfatiza que o combate à desinformação, à propaganda e ao racismo contra os palestinos exige educação, conhecimento histórico e o questionamento de pontos-chave: "Qual é a história da Palestina ? Qual é a história da Alemanha ? E que obrigação legal e moral a história alemã impõe a esse conflito?"
Uma das narrativas falsas mais persistentes dos últimos anos é a equiparação de todos os palestinos ao Hamas . Assim, uma pesquisa realizada pelo Accord Center entre cidadãos israelenses em agosto de 2025 revelou que 62% dos entrevistados concordaram com a afirmação de que "não há inocentes em Gaza".
Embora o Hamas seja um partido político com um braço armado e classificado como organização terrorista pela UE, Alemanha e outros países, o partido foi eleito nas últimas eleições regionais em 2006, embora não tenha conquistado a maioria dos votos. Desde então, não foram realizadas eleições regionais devido às divisões políticas não resolvidas entre o Hamas e o Fatah , partido político que controla a Autoridade Palestina na Cisjordânia , bem como à contínua ocupação e bloqueio israelenses.
Essa narrativa que equipara todos os palestinos ao Hamas está sendo usada indevidamente para justificar a "punição coletiva", que é "essencialmente insustentável sob o direito internacional", enfatiza El Idrissi.
Especialistas apontam que uma das consequências é que as mortes de civis em Gaza são frequentemente minimizadas e, portanto, não são noticiadas. Abukhater dá um exemplo: se um carro ou uma tenda for bombardeado ou atacado em Gaza, "alguém pode dizer que talvez houvesse um membro do Hamas naquele veículo onde cinco crianças foram mortas". E isso seria suficiente para que dissessem: "Vamos passar para a próxima notícia".
Especialistas alertam que o preconceito anti-palestino é alimentado pela cobertura racista da mídia e vice-versa. A pesquisadora palestina Hanan Sahmoud destaca como a mídia europeia frequentemente "retrata os palestinos como selvagens".
O público em geral tende a adotar essas perspectivas desumanizantes em um ciclo vicioso. Usuários de redes sociais frequentemente descrevem palestinos como ratos, e há exemplos de autoridades israelenses fazendo o mesmo.
Dois dias após os ataques de 7 de outubro de 2023, Yoav Gallant, então Ministro da Defesa de Israel, declarou: "Ordenei um cerco total à Faixa de Gaza . Não haverá eletricidade, comida ou combustível. Tudo está paralisado. Estamos lutando contra seres desumanos e estamos agindo de acordo."
Especialistas concordam que essa desumanização reduz a empatia pelos outros. "Tudo isso leva ao que é conhecido como lacuna de empatia , que, por sua vez, justifica o tratamento desigual", explica El Idrissi.
Esses ciclos foram alimentados, por exemplo, pela desinformação seletiva sobre a fome em Gaza em 2025. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou que não havia fome no território e que as crianças apenas aparentavam estar desnutridas devido a doenças preexistentes, e não porque seu governo estivesse bloqueando a entrada de ajuda humanitária e alimentos em Gaza.
Os pesquisadores entrevistados pela DW indicam que esse ciclo está enraizado em "informações" fabricadas e justificativas "morais" que apresentam a guerra como justa e necessária. Há também um crescente conjunto de evidências demonstrando que a desinformação e a informação errônea são componentes-chave na incitação à violência e às guerras em todo o mundo. No caso da guerra em Gaza, a propaganda e a desumanização dos palestinos caminham juntas, concluem os pesquisadores.
Segundo a Associação Canadense de Advogados Árabes (CALA) , essa desumanização é um fenômeno típico do racismo anti-palestino . A primeira descrição conhecida de racismo anti-palestino foi publicada pela CALA em abril de 2022. O racismo, em si, é a crença de que "algumas raças são inerentemente superiores a outras", conforme definido por acadêmicos (como a Enciclopédia do Holocausto ) e organizações como o Centro Anne Frank .
A ONU condena a violência policial em manifestações pró-Palestina na Alemanha.
Essa dinâmica também é observada na Alemanha . Muitos meios de comunicação retratam os palestinos e aqueles que se solidarizam com eles como perigosos, aponta El Idrissi, e os descrevem falsamente como violentos, antissemitas e antidemocráticos. Abukhater acrescenta: "É uma suposição muito racista dizer que qualquer pessoa que defenda os direitos palestinos é 'pró-terrorista'".
Essas suposições também são comprovadas pela violência policial amplamente documentada contra manifestantes pró-Palestina e pela cobertura midiática desses incidentes. "Estamos alarmados com o padrão persistente de violência policial e a aparente repressão ao ativismo de solidariedade pró-Palestina por parte da Alemanha", afirmaram especialistas da ONU em um comunicado à imprensa em 16 de outubro. Nos últimos anos, manifestantes pró-Palestina na Alemanha relataram repetidamente ter sofrido violência policial, alguns ficando feridos e necessitando de atendimento médico.
Em 15 de maio de 2025, durante as comemorações do Dia da Nakba em Berlim, a mídia alemã noticiou amplamente que manifestantes haviam ferido gravemente um policial. Uma investigação posterior realizada pela Forensis, uma ONG sediada em Berlim, revelou o contrário: os manifestantes foram vítimas de violência policial.
Outro problema fundamental é que a mídia se baseia principalmente em declarações do Exército e do Governo de Israel, tratando-as como fatos sem a devida verificação, citação ou análise crítica.
Um estudo de quase 4.853 manchetes na mídia alemã entre 7 de outubro de 2023 e 19 de janeiro de 2025 mostra que muitos dos principais veículos de comunicação alemães dependem principalmente ou exclusivamente de fontes oficiais israelenses para noticiar o Oriente Médio.
Por exemplo, em agosto, Israel assassinou o jornalista Anas al-Sharif, de 28 anos, em Gaza . O exército israelense alegou, sem provas, que al-Sharif liderava uma célula do Hamas; diversos veículos da mídia alemã, incluindo o tabloide Bild , repetiram a alegação como fato, apesar da falta de provas.
As plataformas de redes sociais também desempenham um papel significativo no aumento do conteúdo anti-palestino. A desinformação apela às emoções, e os algoritmos frequentemente promovem conteúdo de extrema-direita e extremista. "Sabemos que o conteúdo de extrema-direita ou extremista é impulsionado pelo algoritmo ", afirma El Idrissi.
Propaganda paga e publicidade tendenciosa também são aceitas e disseminadas pelas plataformas de mídia social. Uma investigação conduzida em setembro pela DW Fact Check e membros da European News Spotlight revelou que Israel gastou pelo menos € 42 milhões (US$ 49 milhões) em anúncios de propaganda anti-palestina.
Em 22 de agosto, no mesmo dia em que a Classificação Integrada das Fases de Segurança Alimentar (IPC, na sigla em inglês), uma iniciativa da ONU, anunciou que grandes áreas da Faixa de Gaza sofriam de "fome causada pelo homem" e que "a fome está presente e se espalhando rapidamente", a agência de publicidade do governo israelense lançou uma nova campanha negando a fome.
Recentemente, a Meta, empresa controladora do Facebook e do Instagram, reduziu seus programas de verificação de fatos por terceiros em muitos países. Uma reportagem da 7amleh mostra que os sistemas de publicidade da Meta aprovaram e lucraram com conteúdo violento e incitador em 2023 e 2025, aceitando-o como publicidade paga. Reportagens recentes também revelam que Israel investiu pelo menos US$ 6 milhões para treinar o ChatGPT a seu favor.
O que as sociedades podem fazer para combater a propaganda anti-palestina e o racismo? Abukhater, pesquisador da 7amleh, afirma que é crucial dar aos palestinos a oportunidade de contar suas próprias histórias.
Em muitos meios de comunicação, "muito se fala sobre os palestinos, sem que eles próprios tenham voz". Além de melhorar a representatividade, a mídia deveria examinar os preconceitos pessoais e estruturais, sugere ela.
E conclui: "Deveria haver mais debate sobre o racismo anti-palestino, reconhecendo-o como um conceito, analisando sua semântica e como ele é geralmente usado para desumanizar e acusar todos os palestinos."
A desinformação e a propaganda anti-palestina estão sendo usadas como arma "para justificar os crimes que estão sendo cometidos", disse Jalal Abukhater, diretor de políticas da 7amleh , o Centro Árabe para o Avanço das Redes Sociais, à DW Fact Check .
Desde os ataques liderados pelo Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023, as ações militares israelenses resultaram na morte de pelo menos 68.000 palestinos em Gaza , segundo a Autoridade de Saúde de Gaza. Uma comissão de inquérito da ONU e a Associação Internacional de Acadêmicos sobre Genocídio determinaram que a conduta de Israel constitui genocídio.
De acordo com o Instituto para a Compreensão do Racismo Anti-Palestino (IUAPR), esse fenômeno é "uma forma de racismo anti-árabe que silencia, exclui, apaga, estereotipa, difama ou desumaniza os palestinos ou suas narrativas". Embora as definições específicas e os mecanismos de denúncia variem, diversas organizações que monitoram os incidentes relatados de racismo anti-palestino afirmam que estes aumentaram consideravelmente desde os ataques liderados pelo Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023 .
Especialistas apontam que o fenômeno do racismo anti-palestino tem crescido ao longo da história. "Tem suas raízes no discurso colonial e orientalista", disse Asmaa El Idrissi, advogada e professora da Universidade de Ciências Aplicadas de Bochum.
"Se você examinar a literatura de 100 anos atrás, encontrará exatamente os mesmos estereótipos que agora estão ressurgindo contra os palestinos: árabes ou muçulmanos como irracionais e atrasados."
Após os ataques de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos , árabes e muçulmanos passaram a ser retratados cada vez mais como perigosos e simpáticos ao terrorismo, explica El Idrissi. Esses estereótipos continuam a influenciar a percepção pública e as políticas públicas.
Um dos contextos históricos mais importantes para a compreensão do sentimento anti-palestino é a negação da Nakba , apontam especialistas em direito. Em 14 de maio de 1948, o Estado de Israel foi declarado no território da Palestina, então sob mandato britânico. A Nakba , que em árabe significa "catástrofe ", refere-se ao deslocamento em massa e à expropriação de palestinos durante a Guerra Árabe-Israelense de 1948.
Segundo o Escritório Central de Estatísticas da Palestina , mais de 800 mil palestinos foram expulsos de sua terra natal e pelo menos 15 mil morreram durante a Nakba . No entanto, a Nakba é frequentemente negada ou ignorada. Em um caso que recebeu significativa atenção da mídia, a embaixadora de Israel no Reino Unido, Tzipi Hotovely, afirmou em um discurso no final de 2020 que a Nakba era "uma mentira árabe muito arraigada e muito popular".
"A negação da Nakba serve como argumento central para deslegitimar qualquer reivindicação por igualdade de direitos e uma vida livre", explica El Idrissi.
O advogado e professor enfatiza que o combate à desinformação, à propaganda e ao racismo contra os palestinos exige educação, conhecimento histórico e o questionamento de pontos-chave: "Qual é a história da Palestina ? Qual é a história da Alemanha ? E que obrigação legal e moral a história alemã impõe a esse conflito?"
Uma das narrativas falsas mais persistentes dos últimos anos é a equiparação de todos os palestinos ao Hamas . Assim, uma pesquisa realizada pelo Accord Center entre cidadãos israelenses em agosto de 2025 revelou que 62% dos entrevistados concordaram com a afirmação de que "não há inocentes em Gaza".
Embora o Hamas seja um partido político com um braço armado e classificado como organização terrorista pela UE, Alemanha e outros países, o partido foi eleito nas últimas eleições regionais em 2006, embora não tenha conquistado a maioria dos votos. Desde então, não foram realizadas eleições regionais devido às divisões políticas não resolvidas entre o Hamas e o Fatah , partido político que controla a Autoridade Palestina na Cisjordânia , bem como à contínua ocupação e bloqueio israelenses.
Essa narrativa que equipara todos os palestinos ao Hamas está sendo usada indevidamente para justificar a "punição coletiva", que é "essencialmente insustentável sob o direito internacional", enfatiza El Idrissi.
Especialistas apontam que uma das consequências é que as mortes de civis em Gaza são frequentemente minimizadas e, portanto, não são noticiadas. Abukhater dá um exemplo: se um carro ou uma tenda for bombardeado ou atacado em Gaza, "alguém pode dizer que talvez houvesse um membro do Hamas naquele veículo onde cinco crianças foram mortas". E isso seria suficiente para que dissessem: "Vamos passar para a próxima notícia".
Especialistas alertam que o preconceito anti-palestino é alimentado pela cobertura racista da mídia e vice-versa. A pesquisadora palestina Hanan Sahmoud destaca como a mídia europeia frequentemente "retrata os palestinos como selvagens".
O público em geral tende a adotar essas perspectivas desumanizantes em um ciclo vicioso. Usuários de redes sociais frequentemente descrevem palestinos como ratos, e há exemplos de autoridades israelenses fazendo o mesmo.
Dois dias após os ataques de 7 de outubro de 2023, Yoav Gallant, então Ministro da Defesa de Israel, declarou: "Ordenei um cerco total à Faixa de Gaza . Não haverá eletricidade, comida ou combustível. Tudo está paralisado. Estamos lutando contra seres desumanos e estamos agindo de acordo."
Especialistas concordam que essa desumanização reduz a empatia pelos outros. "Tudo isso leva ao que é conhecido como lacuna de empatia , que, por sua vez, justifica o tratamento desigual", explica El Idrissi.
Esses ciclos foram alimentados, por exemplo, pela desinformação seletiva sobre a fome em Gaza em 2025. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou que não havia fome no território e que as crianças apenas aparentavam estar desnutridas devido a doenças preexistentes, e não porque seu governo estivesse bloqueando a entrada de ajuda humanitária e alimentos em Gaza.
Os pesquisadores entrevistados pela DW indicam que esse ciclo está enraizado em "informações" fabricadas e justificativas "morais" que apresentam a guerra como justa e necessária. Há também um crescente conjunto de evidências demonstrando que a desinformação e a informação errônea são componentes-chave na incitação à violência e às guerras em todo o mundo. No caso da guerra em Gaza, a propaganda e a desumanização dos palestinos caminham juntas, concluem os pesquisadores.
Segundo a Associação Canadense de Advogados Árabes (CALA) , essa desumanização é um fenômeno típico do racismo anti-palestino . A primeira descrição conhecida de racismo anti-palestino foi publicada pela CALA em abril de 2022. O racismo, em si, é a crença de que "algumas raças são inerentemente superiores a outras", conforme definido por acadêmicos (como a Enciclopédia do Holocausto ) e organizações como o Centro Anne Frank .
A ONU condena a violência policial em manifestações pró-Palestina na Alemanha.
Essa dinâmica também é observada na Alemanha . Muitos meios de comunicação retratam os palestinos e aqueles que se solidarizam com eles como perigosos, aponta El Idrissi, e os descrevem falsamente como violentos, antissemitas e antidemocráticos. Abukhater acrescenta: "É uma suposição muito racista dizer que qualquer pessoa que defenda os direitos palestinos é 'pró-terrorista'".
Essas suposições também são comprovadas pela violência policial amplamente documentada contra manifestantes pró-Palestina e pela cobertura midiática desses incidentes. "Estamos alarmados com o padrão persistente de violência policial e a aparente repressão ao ativismo de solidariedade pró-Palestina por parte da Alemanha", afirmaram especialistas da ONU em um comunicado à imprensa em 16 de outubro. Nos últimos anos, manifestantes pró-Palestina na Alemanha relataram repetidamente ter sofrido violência policial, alguns ficando feridos e necessitando de atendimento médico.
Em 15 de maio de 2025, durante as comemorações do Dia da Nakba em Berlim, a mídia alemã noticiou amplamente que manifestantes haviam ferido gravemente um policial. Uma investigação posterior realizada pela Forensis, uma ONG sediada em Berlim, revelou o contrário: os manifestantes foram vítimas de violência policial.
Outro problema fundamental é que a mídia se baseia principalmente em declarações do Exército e do Governo de Israel, tratando-as como fatos sem a devida verificação, citação ou análise crítica.
Um estudo de quase 4.853 manchetes na mídia alemã entre 7 de outubro de 2023 e 19 de janeiro de 2025 mostra que muitos dos principais veículos de comunicação alemães dependem principalmente ou exclusivamente de fontes oficiais israelenses para noticiar o Oriente Médio.
Por exemplo, em agosto, Israel assassinou o jornalista Anas al-Sharif, de 28 anos, em Gaza . O exército israelense alegou, sem provas, que al-Sharif liderava uma célula do Hamas; diversos veículos da mídia alemã, incluindo o tabloide Bild , repetiram a alegação como fato, apesar da falta de provas.
As plataformas de redes sociais também desempenham um papel significativo no aumento do conteúdo anti-palestino. A desinformação apela às emoções, e os algoritmos frequentemente promovem conteúdo de extrema-direita e extremista. "Sabemos que o conteúdo de extrema-direita ou extremista é impulsionado pelo algoritmo ", afirma El Idrissi.
Propaganda paga e publicidade tendenciosa também são aceitas e disseminadas pelas plataformas de mídia social. Uma investigação conduzida em setembro pela DW Fact Check e membros da European News Spotlight revelou que Israel gastou pelo menos € 42 milhões (US$ 49 milhões) em anúncios de propaganda anti-palestina.
Em 22 de agosto, no mesmo dia em que a Classificação Integrada das Fases de Segurança Alimentar (IPC, na sigla em inglês), uma iniciativa da ONU, anunciou que grandes áreas da Faixa de Gaza sofriam de "fome causada pelo homem" e que "a fome está presente e se espalhando rapidamente", a agência de publicidade do governo israelense lançou uma nova campanha negando a fome.
Recentemente, a Meta, empresa controladora do Facebook e do Instagram, reduziu seus programas de verificação de fatos por terceiros em muitos países. Uma reportagem da 7amleh mostra que os sistemas de publicidade da Meta aprovaram e lucraram com conteúdo violento e incitador em 2023 e 2025, aceitando-o como publicidade paga. Reportagens recentes também revelam que Israel investiu pelo menos US$ 6 milhões para treinar o ChatGPT a seu favor.
O que as sociedades podem fazer para combater a propaganda anti-palestina e o racismo? Abukhater, pesquisador da 7amleh, afirma que é crucial dar aos palestinos a oportunidade de contar suas próprias histórias.
Em muitos meios de comunicação, "muito se fala sobre os palestinos, sem que eles próprios tenham voz". Além de melhorar a representatividade, a mídia deveria examinar os preconceitos pessoais e estruturais, sugere ela.
E conclui: "Deveria haver mais debate sobre o racismo anti-palestino, reconhecendo-o como um conceito, analisando sua semântica e como ele é geralmente usado para desumanizar e acusar todos os palestinos."
quinta-feira, 30 de outubro de 2025
Cláudio Castro assume sua necropolítica com o conceito de 'narcoterrorismo'
O governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, rompeu de forma explícita com os paradigmas de segurança pública estabelecidos pela Constituição de 1988. Ao comentar a Operação Contenção, deflagrada no Complexo do Alemão e da Penha — a mais letal da história do estado, com 121 mortos —, Castro sintetizou os resultados do conceito de narcoterrorismo: “Temos muita tranquilidade de defendermos tudo que fizemos ontem. Queria me solidarizar com as famílias dos quatro guerreiros que deram a vida para salvar a população. De vítima, ontem, lá, só tivemos esses policiais.”
A frase é mais que uma defesa corporativa. Ao tratar os mortos como “narcoterroristas”, Castro inaugura no Brasil uma retórica que substitui a segurança pública pela lógica da guerra interna. Em nome da “defesa da população”, o Estado reivindica o poder de decidir quais vidas são protegidas e quais podem ser eliminadas. A operação de “cerco e aniquilamento”, do ponto de vista militar, foi bem-sucedida. Mas não desarticula o tráfico de drogas nem recupera o território, porque a violência volta à “normalidade” e, geralmente, as milícias ocupam o espaço dos traficantes no controle da economia informal.
O uso do termo “narcoterrorista” desloca o problema do crime do âmbito penal para campo da segurança nacional. É uma palavra importada da doutrina norte-americana da “narcoguerra”, usada na Colômbia e no México para justificar o emprego das Forças Armadas e a suspensão de garantias legais. Quando Castro adota esse enquadramento, ele rompe a fronteira entre direito e exceção. A favela deixa de ser território civil e passa a ser tratada como teatro de operações militares. A consequência imediata é a militarização ampliada da política de segurança, legitimando mortes em massa e esvaziando o controle judicial.
O conceito de “narcoterrorismo” não existe no ordenamento jurídico brasileiro. Seu uso político é uma manobra simbólica, que transforma o criminoso em inimigo absoluto e o Estado em autoridade soberana sobre a vida e a morte. Obviamente, é uma ruptura de acordo com o ideário da extrema-direita brasileira, que Cláudio Castro (PL) representa. Trata-se, como aponta o sociólogo Pedro Cláudio Cunca Bocayuva Cunha, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), de uma forma de necropolítica: “O governo da morte como instrumento de poder”.
Segundo Bocayuva, conceitualmente, a necropolítica é o regime em que “o medo e a crueldade se tornam dispositivos de governo”. No caso do Rio, o “narcoterrorismo” fornece a gramática perfeita para que o governo adote a violência extrema nos confrontos com os traficantes, num contexto de guerra aberta na qual não há “suspeitos” nem “cidadãos em conflito com a lei”: são inimigos mesmo, que precisam ser fisicamente eliminados, em confrontos diretos e, muitas vezes, execuções sumárias. Com amplo apoio popular, é uma forma de combate que elimina qualquer possibilidade de direito.
O balanço da Defensoria Pública do Rio de Janeiro não deixa dúvida do êxito da operação, do ponto de vista da letalidade: 117 civis mortos para quatro agentes do Estado. Para o governador, só há quatro vítimas — os policiais. As outras mortes são tratadas como estatísticas colaterais, sem direitos a serem preservados. É a tradução literal da necropolítica: o Estado não apenas mata, mas escolhe quem merece ser chorado.
Bocayuva chama isso de “cartografia da morte” — uma geografia social em que o território periférico e o corpo negro são administrados como zonas de exceção. A militarização urbana, a naturalização da crueldade e a ausência de políticas de memória e reparação formam o tripé desse poder necropolítico.
Enquanto Castro exibia orgulho, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reagiu com perplexidade e indignação. Em viagem oficial ao Sudeste Asiático, foi informado da operação apenas ao retornar ao Brasil. Reuniu-se de emergência com seus ministros, “estarrecido” com o número de mortos e com o fato de o governo federal não ter sido avisado. O ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, foi enviado ao Rio para acompanhar a crise e cobrar explicações.
O contraste entre o discurso de Castro e a reação de Lula simboliza duas concepções opostas de Estado: uma que se ancora na lógica da exceção, outra na Constituição de 1988. Quando o governador diz “ou soma no combate à criminalidade ou suma”, ele não apenas desafia o governo federal — nega a própria ideia de política como espaço de mediação, substituindo o diálogo pela força. Por óbvio, não faz isso por acaso.
Há uma disputa no imaginário da sociedade pela bandeira de ordem, que o governo federal tenta recuperar com a PEC do Sistema Único de Segurança Pública (SUSP) e a nova Lei das Facções, que endurece as penas para os chefões do tráfico, ambas encalhadas na Câmara por pressão dos governadores de oposição, entre os quais Castro.
Na teoria de Achille Mbembe, autor do conceito, a necropolítica define o poder soberano como aquele que decide “quem deve morrer e quem pode viver”. No Rio, Cláudio Castro assumiu essa prerrogativa de modo explícito, revestido de legitimidade moral e linguagem popular. O “narcoterrorista” é um ser fora da lei, cuja eliminação é um ato heroico e patriótico, onde as favelas e comunidades periféricas se confundem com o campo de batalha. É o mesmo mecanismo simbólico que sustentou a guerra suja na Colômbia e a guerra perdida no México.
A frase é mais que uma defesa corporativa. Ao tratar os mortos como “narcoterroristas”, Castro inaugura no Brasil uma retórica que substitui a segurança pública pela lógica da guerra interna. Em nome da “defesa da população”, o Estado reivindica o poder de decidir quais vidas são protegidas e quais podem ser eliminadas. A operação de “cerco e aniquilamento”, do ponto de vista militar, foi bem-sucedida. Mas não desarticula o tráfico de drogas nem recupera o território, porque a violência volta à “normalidade” e, geralmente, as milícias ocupam o espaço dos traficantes no controle da economia informal.
O uso do termo “narcoterrorista” desloca o problema do crime do âmbito penal para campo da segurança nacional. É uma palavra importada da doutrina norte-americana da “narcoguerra”, usada na Colômbia e no México para justificar o emprego das Forças Armadas e a suspensão de garantias legais. Quando Castro adota esse enquadramento, ele rompe a fronteira entre direito e exceção. A favela deixa de ser território civil e passa a ser tratada como teatro de operações militares. A consequência imediata é a militarização ampliada da política de segurança, legitimando mortes em massa e esvaziando o controle judicial.
O conceito de “narcoterrorismo” não existe no ordenamento jurídico brasileiro. Seu uso político é uma manobra simbólica, que transforma o criminoso em inimigo absoluto e o Estado em autoridade soberana sobre a vida e a morte. Obviamente, é uma ruptura de acordo com o ideário da extrema-direita brasileira, que Cláudio Castro (PL) representa. Trata-se, como aponta o sociólogo Pedro Cláudio Cunca Bocayuva Cunha, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), de uma forma de necropolítica: “O governo da morte como instrumento de poder”.
Segundo Bocayuva, conceitualmente, a necropolítica é o regime em que “o medo e a crueldade se tornam dispositivos de governo”. No caso do Rio, o “narcoterrorismo” fornece a gramática perfeita para que o governo adote a violência extrema nos confrontos com os traficantes, num contexto de guerra aberta na qual não há “suspeitos” nem “cidadãos em conflito com a lei”: são inimigos mesmo, que precisam ser fisicamente eliminados, em confrontos diretos e, muitas vezes, execuções sumárias. Com amplo apoio popular, é uma forma de combate que elimina qualquer possibilidade de direito.
O balanço da Defensoria Pública do Rio de Janeiro não deixa dúvida do êxito da operação, do ponto de vista da letalidade: 117 civis mortos para quatro agentes do Estado. Para o governador, só há quatro vítimas — os policiais. As outras mortes são tratadas como estatísticas colaterais, sem direitos a serem preservados. É a tradução literal da necropolítica: o Estado não apenas mata, mas escolhe quem merece ser chorado.
Bocayuva chama isso de “cartografia da morte” — uma geografia social em que o território periférico e o corpo negro são administrados como zonas de exceção. A militarização urbana, a naturalização da crueldade e a ausência de políticas de memória e reparação formam o tripé desse poder necropolítico.
Enquanto Castro exibia orgulho, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reagiu com perplexidade e indignação. Em viagem oficial ao Sudeste Asiático, foi informado da operação apenas ao retornar ao Brasil. Reuniu-se de emergência com seus ministros, “estarrecido” com o número de mortos e com o fato de o governo federal não ter sido avisado. O ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, foi enviado ao Rio para acompanhar a crise e cobrar explicações.
O contraste entre o discurso de Castro e a reação de Lula simboliza duas concepções opostas de Estado: uma que se ancora na lógica da exceção, outra na Constituição de 1988. Quando o governador diz “ou soma no combate à criminalidade ou suma”, ele não apenas desafia o governo federal — nega a própria ideia de política como espaço de mediação, substituindo o diálogo pela força. Por óbvio, não faz isso por acaso.
Há uma disputa no imaginário da sociedade pela bandeira de ordem, que o governo federal tenta recuperar com a PEC do Sistema Único de Segurança Pública (SUSP) e a nova Lei das Facções, que endurece as penas para os chefões do tráfico, ambas encalhadas na Câmara por pressão dos governadores de oposição, entre os quais Castro.
Na teoria de Achille Mbembe, autor do conceito, a necropolítica define o poder soberano como aquele que decide “quem deve morrer e quem pode viver”. No Rio, Cláudio Castro assumiu essa prerrogativa de modo explícito, revestido de legitimidade moral e linguagem popular. O “narcoterrorista” é um ser fora da lei, cuja eliminação é um ato heroico e patriótico, onde as favelas e comunidades periféricas se confundem com o campo de batalha. É o mesmo mecanismo simbólico que sustentou a guerra suja na Colômbia e a guerra perdida no México.
Letalidades e atrocidades
“A ditadura segue presente nas periferias.” A frase estava no pequeno cartaz que me fez companhia na Catedral da Sé, na noite de sábado, 25 de outubro, durante o culto inter-religioso em memória dos 50 anos do assassinato de Vladimir Herzog. Era um cartaz em papel bem firme, plastificado, quase do tamanho de uma página de jornal como este aqui. De um lado, trazia a foto de Manoel Fiel Filho, o metalúrgico alagoano que foi morto em 1976 pela repressão política da ditadura. Do outro lado, as palavras certeiras sobre a presença destrutiva da violência policial nos bairros mais pobres das metrópoles brasileiras.
Eu levantei o retrato muitas vezes durante o culto. Sempre que um discurso lembrava os desaparecidos ou um dos que tombaram sob tortura, como o jornalista Vladimir Herzog e o operário Manoel Fiel Filho, eu o erguia. Dezenas de outras pessoas presentes, com pôsteres estampados com outros rostos, também elevavam os seus. O efeito cênico se traduzia em comunicação didática e expressão política: a História existe quando dela não nos esquecemos – e, se dela não nos esquecemos, sabemos tecer o presente. Fora disso, o que resta é a selva. A memória dos crimes perpetrados pelo arbítrio que varreu o País há 50 anos nos ajuda a vencer aqueles que querem reeditá-lo. Por isso dizemos: ditadura, nunca mais.
O problema é que persistem entre nós, até hoje, resquícios da violência de Estado. Voltemos os olhos na direção das periferias.
Anteontem, na terça-feira, a chamada “megaoperação” policial que varreu os complexos do Alemão e da Penha, na cidade do Rio de Janeiro, a pretexto de combater as atividades criminosas do Comando Vermelho, deixou um saldo tenebroso. Na noite de terça, a contagem oficial chegava a 64 mortes. Quatro das vítimas eram policiais em serviço. Ontem, quando fechei este artigo, o cômputo tinha dobrado, batendo na casa dos 128. Diante da tragédia em progressão, o jornalista Jamil Chade observou: no mesmo dia, morreram em Gaza 104 pessoas.
Todos esses óbitos são inaceitáveis, sob qualquer aspecto, mas a cifra carioca, neste momento, estarrece mais. O Rio é uma cidade em paz, ao menos em tese. No entanto, quem mora em algumas comunidades vive sob permanente estado de terror. Não há outra palavra: estado de terror. Pior ainda, um estado de terror cujo pavio pode ser aceso pela autoridade pública. Pensemos um pouco sobre o que aconteceu na terça-feira. A fúria dos infernos só desabou sobre o chão, daquele jeito, porque as tropas do governo do Estado, com sua movimentação estabanada e sua descoordenação estapafúrdia, precipitaram o caos. As mortes foram causadas diretamente pelos agentes da lei.
Como interpretar o que houve? O que se passa na cabeça dos governantes? Será que não levam em conta as pessoas que moram naquilo que elas tomam como seu teatro de guerra eleitoreira? A autoridade não pensa na segurança de sua gente quando despeja seus soldados espetaculosos e ineficientes sobre as ruelas?
É a inversão total: no Rio de Janeiro dos nossos dias, a farda e os coturnos deflagram o morticínio, em vez de impedi-lo. A frase do cartaz que eu segurava foi, uma vez mais, comprovada pelos fatos: nas periferias, o terror é a lei.
Mas não só nas periferias. Se é assim nas periferias, é assim necessariamente na cidade inteira. É assim não só porque as aulas em toda parte tiveram de ser interrompidas, não só porque o comércio foi fechado e as igrejas baixaram os seus portões de ferro. É assim não só porque uma bala perdida alcança corpos além das fronteiras de classe. É assim, também e principalmente, porque ninguém está a salvo na metrópole se as maiorias podem ser fuziladas a qualquer momento.
Até quando vamos sustentar a ilusão macabra de que um país pode se dividir em dois regimes sem se perder de si mesmo? Ou o Brasil é um só, com direitos iguais para todo mundo, ou não será Brasil nenhum. Ou paramos com esta doença de acreditar que os direitos dos de cima têm precedência sobre os direitos dos de baixo, ou nunca chegaremos a um Estado democrático.
Onde o poder público descuida da integridade física dos mais pobres, o regime democrático não passa de uma fachada de papelão esburacada por tiros, chamuscada por pólvora queimada e borrifada de sangue. Onde o governante despreza a vida de sua gente, o que existe é um antipoder público ou um poder antipúblico: uma extensão descarada do crime, não mais uma construção do espírito.
Repito o número: 128 mortos. Na conta estão os que não tiveram direito a julgamento e os inocentes que iam trabalhar, que passeavam na calçada, que queriam comprar um cigarro. No território onde faleceram não há democracia.
A repercussão na imprensa internacional é a pior possível. Ainda bem. A indignação do mundo, nesta hora, só nos ajuda. Este governo que chacina seu povo, esfacela os fundamentos da cultura democrática e reforça o império da violência ditatorial, este governo que se comporta como um bando de extermínio terá de responder por seus atos. Enquanto isso, a lógica da ditadura marca presença.
Eu levantei o retrato muitas vezes durante o culto. Sempre que um discurso lembrava os desaparecidos ou um dos que tombaram sob tortura, como o jornalista Vladimir Herzog e o operário Manoel Fiel Filho, eu o erguia. Dezenas de outras pessoas presentes, com pôsteres estampados com outros rostos, também elevavam os seus. O efeito cênico se traduzia em comunicação didática e expressão política: a História existe quando dela não nos esquecemos – e, se dela não nos esquecemos, sabemos tecer o presente. Fora disso, o que resta é a selva. A memória dos crimes perpetrados pelo arbítrio que varreu o País há 50 anos nos ajuda a vencer aqueles que querem reeditá-lo. Por isso dizemos: ditadura, nunca mais.
O problema é que persistem entre nós, até hoje, resquícios da violência de Estado. Voltemos os olhos na direção das periferias.
Anteontem, na terça-feira, a chamada “megaoperação” policial que varreu os complexos do Alemão e da Penha, na cidade do Rio de Janeiro, a pretexto de combater as atividades criminosas do Comando Vermelho, deixou um saldo tenebroso. Na noite de terça, a contagem oficial chegava a 64 mortes. Quatro das vítimas eram policiais em serviço. Ontem, quando fechei este artigo, o cômputo tinha dobrado, batendo na casa dos 128. Diante da tragédia em progressão, o jornalista Jamil Chade observou: no mesmo dia, morreram em Gaza 104 pessoas.
Todos esses óbitos são inaceitáveis, sob qualquer aspecto, mas a cifra carioca, neste momento, estarrece mais. O Rio é uma cidade em paz, ao menos em tese. No entanto, quem mora em algumas comunidades vive sob permanente estado de terror. Não há outra palavra: estado de terror. Pior ainda, um estado de terror cujo pavio pode ser aceso pela autoridade pública. Pensemos um pouco sobre o que aconteceu na terça-feira. A fúria dos infernos só desabou sobre o chão, daquele jeito, porque as tropas do governo do Estado, com sua movimentação estabanada e sua descoordenação estapafúrdia, precipitaram o caos. As mortes foram causadas diretamente pelos agentes da lei.
Como interpretar o que houve? O que se passa na cabeça dos governantes? Será que não levam em conta as pessoas que moram naquilo que elas tomam como seu teatro de guerra eleitoreira? A autoridade não pensa na segurança de sua gente quando despeja seus soldados espetaculosos e ineficientes sobre as ruelas?
É a inversão total: no Rio de Janeiro dos nossos dias, a farda e os coturnos deflagram o morticínio, em vez de impedi-lo. A frase do cartaz que eu segurava foi, uma vez mais, comprovada pelos fatos: nas periferias, o terror é a lei.
Mas não só nas periferias. Se é assim nas periferias, é assim necessariamente na cidade inteira. É assim não só porque as aulas em toda parte tiveram de ser interrompidas, não só porque o comércio foi fechado e as igrejas baixaram os seus portões de ferro. É assim não só porque uma bala perdida alcança corpos além das fronteiras de classe. É assim, também e principalmente, porque ninguém está a salvo na metrópole se as maiorias podem ser fuziladas a qualquer momento.
Até quando vamos sustentar a ilusão macabra de que um país pode se dividir em dois regimes sem se perder de si mesmo? Ou o Brasil é um só, com direitos iguais para todo mundo, ou não será Brasil nenhum. Ou paramos com esta doença de acreditar que os direitos dos de cima têm precedência sobre os direitos dos de baixo, ou nunca chegaremos a um Estado democrático.
Onde o poder público descuida da integridade física dos mais pobres, o regime democrático não passa de uma fachada de papelão esburacada por tiros, chamuscada por pólvora queimada e borrifada de sangue. Onde o governante despreza a vida de sua gente, o que existe é um antipoder público ou um poder antipúblico: uma extensão descarada do crime, não mais uma construção do espírito.
Repito o número: 128 mortos. Na conta estão os que não tiveram direito a julgamento e os inocentes que iam trabalhar, que passeavam na calçada, que queriam comprar um cigarro. No território onde faleceram não há democracia.
A repercussão na imprensa internacional é a pior possível. Ainda bem. A indignação do mundo, nesta hora, só nos ajuda. Este governo que chacina seu povo, esfacela os fundamentos da cultura democrática e reforça o império da violência ditatorial, este governo que se comporta como um bando de extermínio terá de responder por seus atos. Enquanto isso, a lógica da ditadura marca presença.
Amanhã a babá não trabalha
Amanhã a babá não trabalha.
Talvez o motorista também falte.
E, por algumas horas, os moradores dos condomínios de luxo do Rio de Janeiro talvez percebam – não o luto, mas o incômodo logístico – causado pela chacina de hoje. Mais de cem pessoas mortas nas favelas. Quatro policiais também. A tragédia é noticiada em letras minúsculas. Nas coberturas à beira–mar, a vida segue, porque o sangue derramado não mancha o piso de mármore.
A favela sangra, e o país finge normalidade.
A ONU se disse horrorizada com a letalidade da operação, mas o Estado brasileiro parece anestesiado pela crença perversa de que “combate ao tráfico” é sinônimo de “licença para matar”.
O discurso oficial fala em “segurança pública”. A Constituição, no artigo 144, também fala: diz que a segurança é dever do Estado e direito de todos, e que sua finalidade é proteger pessoas e patrimônio.
Mas, nas vielas, o que se protege é o medo. E o que se patrimonializa é a morte.
É nas favelas que a polícia entra atirando, e é nas favelas que o Estado faz o luto coletivo parecer rotina.
Mas é nos condomínios de luxo que o crime se recicla, se financia, se protege.
As grandes apreensões de armas, as investigações de lavagem de dinheiro, as conexões entre milícias e políticos não se dão nas lajes, estão nos andares altos, nas contas bancárias discretas, nos contratos públicos e privados que alimentam a engrenagem.
O dinheiro do tráfico tem endereço fiscal, não geográfico.
E quase nunca esse endereço é uma favela.
A Constituição garante, no artigo 5º, que “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”, e que a vida é inviolável.
Mas o Estado escolhe quem é “todos” e quem é exceção.
Há brasileiros com direito à investigação e brasileiros com direito à bala.
Há territórios onde o Estado só chega quando decide matar.
E há outros, protegidos por muros e blindagens, onde ele nunca ousa entrar.
Chamar de “operação policial” o que é uma execução coletiva é um eufemismo que serve para limpar a consciência de quem aperta o gatilho e de quem o financia.
A elite brasileira segue acreditando que a violência é um problema de quem morre, não de quem lucra com o medo.
E, por isso, amanhã a babá não trabalha, e talvez isso gere algum desconforto.
Mas ninguém perguntará o nome das mulheres mortas, das crianças traumatizadas, dos corpos que desapareceram entre helicópteros e blindados.
O Estado que mata não é apenas violento, é inconstitucional.
Fere o artigo 1º, que estabelece a dignidade da pessoa humana como fundamento da República.
Viola o artigo 3º, que impõe a erradicação da pobreza e da marginalização como objetivo nacional. E trai o artigo 5º, que garante a inviolabilidade da vida.
Cada incursão militar nas favelas é, juridicamente, uma suspensão temporária da Constituição.
É o Estado declarando guerra contra parte de seu próprio povo.
O Brasil é um país onde a desigualdade tem endereço e a morte tem CEP.
Enquanto o asfalto debate “segurança”, o morro enterra filhos.
Enquanto a elite posta indignação seletiva nas redes sociais, mães de periferia lavam o chão do sangue.
O que se chama de “combate ao tráfico” é, na prática, o combate à favela.
E o verdadeiro tráfico, o de armas, de influência, de dinheiro público, permanece intocado, protegido por sobrenomes e escritórios de advocacia de alto padrão.
Amanhã a babá não trabalha.
E talvez, no incômodo passageiro de quem terá de levar os próprios filhos à escola, o Brasil perceba o que sempre se recusou a enxergar: a vida na favela vale menos porque o Estado assim decidiu.
E enquanto não decidirmos o contrário, não haverá Constituição que nos salve da barbárie.
Talvez o motorista também falte.
E, por algumas horas, os moradores dos condomínios de luxo do Rio de Janeiro talvez percebam – não o luto, mas o incômodo logístico – causado pela chacina de hoje. Mais de cem pessoas mortas nas favelas. Quatro policiais também. A tragédia é noticiada em letras minúsculas. Nas coberturas à beira–mar, a vida segue, porque o sangue derramado não mancha o piso de mármore.
A favela sangra, e o país finge normalidade.
A ONU se disse horrorizada com a letalidade da operação, mas o Estado brasileiro parece anestesiado pela crença perversa de que “combate ao tráfico” é sinônimo de “licença para matar”.
O discurso oficial fala em “segurança pública”. A Constituição, no artigo 144, também fala: diz que a segurança é dever do Estado e direito de todos, e que sua finalidade é proteger pessoas e patrimônio.
Mas, nas vielas, o que se protege é o medo. E o que se patrimonializa é a morte.
É nas favelas que a polícia entra atirando, e é nas favelas que o Estado faz o luto coletivo parecer rotina.
Mas é nos condomínios de luxo que o crime se recicla, se financia, se protege.
As grandes apreensões de armas, as investigações de lavagem de dinheiro, as conexões entre milícias e políticos não se dão nas lajes, estão nos andares altos, nas contas bancárias discretas, nos contratos públicos e privados que alimentam a engrenagem.
O dinheiro do tráfico tem endereço fiscal, não geográfico.
E quase nunca esse endereço é uma favela.
A Constituição garante, no artigo 5º, que “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”, e que a vida é inviolável.
Mas o Estado escolhe quem é “todos” e quem é exceção.
Há brasileiros com direito à investigação e brasileiros com direito à bala.
Há territórios onde o Estado só chega quando decide matar.
E há outros, protegidos por muros e blindagens, onde ele nunca ousa entrar.
Chamar de “operação policial” o que é uma execução coletiva é um eufemismo que serve para limpar a consciência de quem aperta o gatilho e de quem o financia.
A elite brasileira segue acreditando que a violência é um problema de quem morre, não de quem lucra com o medo.
E, por isso, amanhã a babá não trabalha, e talvez isso gere algum desconforto.
Mas ninguém perguntará o nome das mulheres mortas, das crianças traumatizadas, dos corpos que desapareceram entre helicópteros e blindados.
O Estado que mata não é apenas violento, é inconstitucional.
Fere o artigo 1º, que estabelece a dignidade da pessoa humana como fundamento da República.
Viola o artigo 3º, que impõe a erradicação da pobreza e da marginalização como objetivo nacional. E trai o artigo 5º, que garante a inviolabilidade da vida.
Cada incursão militar nas favelas é, juridicamente, uma suspensão temporária da Constituição.
É o Estado declarando guerra contra parte de seu próprio povo.
O Brasil é um país onde a desigualdade tem endereço e a morte tem CEP.
Enquanto o asfalto debate “segurança”, o morro enterra filhos.
Enquanto a elite posta indignação seletiva nas redes sociais, mães de periferia lavam o chão do sangue.
O que se chama de “combate ao tráfico” é, na prática, o combate à favela.
E o verdadeiro tráfico, o de armas, de influência, de dinheiro público, permanece intocado, protegido por sobrenomes e escritórios de advocacia de alto padrão.
Amanhã a babá não trabalha.
E talvez, no incômodo passageiro de quem terá de levar os próprios filhos à escola, o Brasil perceba o que sempre se recusou a enxergar: a vida na favela vale menos porque o Estado assim decidiu.
E enquanto não decidirmos o contrário, não haverá Constituição que nos salve da barbárie.
quarta-feira, 29 de outubro de 2025
Capitalismo autofágico
Não nascem notas de dinheiro ao jogar na terra moedas de centavos. O capital não é produzido dessa forma, aliás, o capital não é criado no vácuo ou a partir da natureza, mesmo que seu lastro seja feito a partir de metais preciosos. Gurus neoliberais insistem no acúmulo de riqueza a partir da produção de renda como resultado de fórmulas e constructos ocos. Devaneiam, como se ser rico fosse um quinhão para aqueles com a mente treinada para tal destino. Nessa tese, não há finitude para o capital, pois sua capacidade de multiplicação é autônoma e constante desde que haja um processo incessante de trabalho.
Ao olhar para sua terra, o agricultor de moedas verá que o capitalismo é árido. Não basta trabalho e, muito menos, mente milionária para a prosperidade de sua renda. A finitude do capital está altamente concentrada em poucas mãos, enquanto muitos se acotovelam para sobreviver com a menor parte. É como se alguns tivessem um latifúndio florido enquanto poucos sobrevivem com um vaso de planta murcha.
Tal concentração é um sinal claro que o capital é finito, portanto, sua produção está baseada em como é possível circular moeda no mercado a partir de necessidades e desejos de uma demanda localizada. Mas há um contrassenso, pois isso não explicaria o aumento gradual de capital dos mais ricos. Se o capital é finito e sua criação não é natural, como os mais ricos aumentam suas fortunas dia após dia?
Anselm Jappe, em seu livro A Sociedade Autofágica – capitalismo, desmesura e autodestruição, descreve o mito de Erisícton logo nas primeiras páginas. Presente na mitologia grega, a alegoria conta que Erisícton era rei da Tessália abate uma árvore sagrada para usá-la em uma construção de seu palácio. Deméter, deusa das colheitas, emprega-lhe um castigo: uma fome insaciável. Assim, Erisícton, passa a devorar tudo que via ao seu redor, inclusive a própria natureza e seu reino e, não satisfeito, passa a comer a si mesmo.
Evidentemente, aqui está uma representação do modus operandi capitalista em sua insaciável fome que resulta na alimentação de trabalho e, de forma intrínseca, mais-valor. Para além disso, em uma sociedade que transforma tudo – desde hábitos, labor, necessidades e até psiquê – em mercadorias, tudo aquilo que está presente é passível de alimentar o Erisícton capitalista. Assim, quase tudo que se acumula é devorado, o que não pode ser, é alijado, se houver aquilo que não é capaz de ser mercantilizado.
Todo esse arranjo não é diferente daquilo compreendido por Metabolismo Social, idealizado por Marx. Antes, a dicotomia sociedade/natureza poderia ser vista como uma simbiose a partir dos fluxos de matéria e energia estabelecidos entre a biosfera e a economia, de acordo com Daniel Jeziorny. Nesse sentido, o humano é um agente produtor, que extrai matéria da natureza, a transforma em mercadoria e a devolve em forma de lixo. Porém, na atual fase do capitalismo, o humano vai além e explora a si e mercantiliza aquilo que está em seu íntimo.
Esse fenômeno é possível de ser observado na algoritmização, que explora dados extraídos dos comportamentos – e até pensamentos – daqueles que estão inseridos nessa formatação capitalista. Na vigilância constante de indivíduos, o capitalismo vem se alimentando daquilo que é pessoal e íntimo, como o sono, atividade física e até amostras de DNA.
Percebe-se que a partir do dilema da finitude do capital, a orientação é que se busque alternativas para a mercantilização. Não há um caminho para a produção de mais capital mas há possibilidades para novos arranjos de extração, ou seja, há uma construção para que o capitalismo se alimente de si.
É dessa forma que os indivíduos no topo da pirâmide têm a possibilidade de acúmulo diferentes daqueles que estão na base, pois eles se alimentam, justamente, dos que estão abaixo. Incapazes de produzir mais capital, a alternativa é se alimentar da riqueza daqueles que estão mais vulneráveis.
O trabalho passa a não ser a única forma de gerar mais riqueza aos burgueses, os proletários passam a ser mercantilizados em outras esferas. Por exemplo, o carro do motorista do Uber passa a pertencer, por alguns períodos, à empresa, que por sua vez é capaz de extrair mais informações sobre esse trabalhador e do passageiro. Esses dados são compilados com outros de tantas outras fontes e que somados geram uma mercadoria a ser vendida e exploradas por diferentes empresas.
Ao predar a si, o capitalismo tem como grande objetivo, concentrar ainda mais riqueza em poucas mãos. Isso pode ser visto, por exemplo, quando a fortuna de Musk cresce mais de 700% após a Pandemia de Covid-19. No mesmo período, de acordo com a Oxfam, a riqueza dos cinco maiores bilionários dobrou desde 2020, isso enquanto houve aumento de pobreza e extrema pobreza no mundo.
Os movimentos de contração na base e de expansão no topo mostram que o capital tem sua finitude e uma restrita capacidade de fluidez, em que há pouca (ou nenhuma) circulação na base e uma drenagem para o topo. O oposto não seria um processo autofágico e sim, uma distribuição nutricional equânime desse organismo econômico-social.
Portanto, a dinâmica da desigualdade é uma resposta ao comportamento autofágico do capitalismo, que estará sempre vista no recrudescimento das fortunas dos mais abastados. Obviamente, o aumento de riqueza jamais será através de trabalho ou de produção de capital e sim, pela alimentação da base. Diante da finitude do capital, o banquete será a mercantilização da classe trabalhadora.
Ao olhar para sua terra, o agricultor de moedas verá que o capitalismo é árido. Não basta trabalho e, muito menos, mente milionária para a prosperidade de sua renda. A finitude do capital está altamente concentrada em poucas mãos, enquanto muitos se acotovelam para sobreviver com a menor parte. É como se alguns tivessem um latifúndio florido enquanto poucos sobrevivem com um vaso de planta murcha.
Tal concentração é um sinal claro que o capital é finito, portanto, sua produção está baseada em como é possível circular moeda no mercado a partir de necessidades e desejos de uma demanda localizada. Mas há um contrassenso, pois isso não explicaria o aumento gradual de capital dos mais ricos. Se o capital é finito e sua criação não é natural, como os mais ricos aumentam suas fortunas dia após dia?
Anselm Jappe, em seu livro A Sociedade Autofágica – capitalismo, desmesura e autodestruição, descreve o mito de Erisícton logo nas primeiras páginas. Presente na mitologia grega, a alegoria conta que Erisícton era rei da Tessália abate uma árvore sagrada para usá-la em uma construção de seu palácio. Deméter, deusa das colheitas, emprega-lhe um castigo: uma fome insaciável. Assim, Erisícton, passa a devorar tudo que via ao seu redor, inclusive a própria natureza e seu reino e, não satisfeito, passa a comer a si mesmo.
Evidentemente, aqui está uma representação do modus operandi capitalista em sua insaciável fome que resulta na alimentação de trabalho e, de forma intrínseca, mais-valor. Para além disso, em uma sociedade que transforma tudo – desde hábitos, labor, necessidades e até psiquê – em mercadorias, tudo aquilo que está presente é passível de alimentar o Erisícton capitalista. Assim, quase tudo que se acumula é devorado, o que não pode ser, é alijado, se houver aquilo que não é capaz de ser mercantilizado.
Todo esse arranjo não é diferente daquilo compreendido por Metabolismo Social, idealizado por Marx. Antes, a dicotomia sociedade/natureza poderia ser vista como uma simbiose a partir dos fluxos de matéria e energia estabelecidos entre a biosfera e a economia, de acordo com Daniel Jeziorny. Nesse sentido, o humano é um agente produtor, que extrai matéria da natureza, a transforma em mercadoria e a devolve em forma de lixo. Porém, na atual fase do capitalismo, o humano vai além e explora a si e mercantiliza aquilo que está em seu íntimo.
Esse fenômeno é possível de ser observado na algoritmização, que explora dados extraídos dos comportamentos – e até pensamentos – daqueles que estão inseridos nessa formatação capitalista. Na vigilância constante de indivíduos, o capitalismo vem se alimentando daquilo que é pessoal e íntimo, como o sono, atividade física e até amostras de DNA.
Percebe-se que a partir do dilema da finitude do capital, a orientação é que se busque alternativas para a mercantilização. Não há um caminho para a produção de mais capital mas há possibilidades para novos arranjos de extração, ou seja, há uma construção para que o capitalismo se alimente de si.
É dessa forma que os indivíduos no topo da pirâmide têm a possibilidade de acúmulo diferentes daqueles que estão na base, pois eles se alimentam, justamente, dos que estão abaixo. Incapazes de produzir mais capital, a alternativa é se alimentar da riqueza daqueles que estão mais vulneráveis.
O trabalho passa a não ser a única forma de gerar mais riqueza aos burgueses, os proletários passam a ser mercantilizados em outras esferas. Por exemplo, o carro do motorista do Uber passa a pertencer, por alguns períodos, à empresa, que por sua vez é capaz de extrair mais informações sobre esse trabalhador e do passageiro. Esses dados são compilados com outros de tantas outras fontes e que somados geram uma mercadoria a ser vendida e exploradas por diferentes empresas.
Ao predar a si, o capitalismo tem como grande objetivo, concentrar ainda mais riqueza em poucas mãos. Isso pode ser visto, por exemplo, quando a fortuna de Musk cresce mais de 700% após a Pandemia de Covid-19. No mesmo período, de acordo com a Oxfam, a riqueza dos cinco maiores bilionários dobrou desde 2020, isso enquanto houve aumento de pobreza e extrema pobreza no mundo.
Os movimentos de contração na base e de expansão no topo mostram que o capital tem sua finitude e uma restrita capacidade de fluidez, em que há pouca (ou nenhuma) circulação na base e uma drenagem para o topo. O oposto não seria um processo autofágico e sim, uma distribuição nutricional equânime desse organismo econômico-social.
Portanto, a dinâmica da desigualdade é uma resposta ao comportamento autofágico do capitalismo, que estará sempre vista no recrudescimento das fortunas dos mais abastados. Obviamente, o aumento de riqueza jamais será através de trabalho ou de produção de capital e sim, pela alimentação da base. Diante da finitude do capital, o banquete será a mercantilização da classe trabalhadora.
Dia da Memória das Vítimas da Corrupção
Ao criar o Dia da Memória das Vítimas do Comunismo, o governador do Distrito Federal se refere, provavelmente, às vítimas do regime comunista da antiga União Soviética, que desapareceram há quase meio século. Não está considerando as vítimas da Rússia capitalista na Ucrânia, nem os 6 milhões — quase todos judeus — mortos pelo regime de direita nazista na Alemanha. Tampouco considera os 1.700 israelenses mortos e os cerca de 300 sequestrados, vítimas do terrorismo do Hamas, nem os 70 mil mortos e condenados à fome por Israel no gueto de Gaza. Ainda menos, não leva em conta as dezenas de milhares de presos, torturados, exilados ou os mortos pela ditadura militar de direita capitalista no Brasil.
É estranho criar um dia para lembrar as vítimas do comunismo na União Soviética quando, no Brasil, os comunistas sempre foram as vítimas — nos 10 anos do Estado Novo e nos 21 anos da ditadura militar —, sem promover um dia em memória das vítimas passadas do regime militar e das vítimas da corrupção em nosso regime democrático.
Seria justo decretar um dia de memória pelos 400 mil mortos que teriam sobrevivido à covid-19 se o presidente daquela época tivesse o mínimo de sensibilidade e competência — em vez do escárnio e da estupidez com que tratou os doentes e seus familiares, recusando vacinas, zombando dos mortos, chamando-os de fracos.
O governador lembrou-se de vítimas do comunismo na finada URSS, mas não teve consideração pela memória dos brasileiros que enfrentam a tragédia da saúde pública no DF, provocada pela inoperância e pela corrupção. Apesar dos bilhões transferidos anualmente ao GDF pelo resto do Brasil, pela primeira vez na história há brasilienses indo buscar atendimento na rede pública de Goiás, porque não encontram tratamento dentro do nosso quadrilátero. É preciso um dia de memória para os que são obrigados a esse percurso e para os que sentem vergonha do estado em que a incompetência, o descuido e a corrupção deixaram o que antes era exemplo de excelência no sistema público de saúde do Brasil, com o programa Saúde em Casa.
Deveríamos ter um dia de memória para as crianças que morreram por descuido com a saúde e com a segurança da população. Nenhum dia foi proposto em homenagem às crianças assassinadas — como ocorreu com Isaac Vilhena, morto no último dia 17, aos 16 anos, entre as quadras 112 e 113 Sul. O governo do DF não sancionou uma lei criando o dia da memória dos 4 milhões de escravizados trazidos da África, nem dos nascidos no Brasil, transportados por nove meses no ventre de suas mães, tampouco de seus descendentes, que até hoje estudam em escolas-senzala. Não decretou um dia em memória dos 20 a 30 milhões de brasileiros que viveram e morreram sem saber ler e escrever devido ao descaso histórico de nossos governantes com a educação de nosso povo. Nem pensou em lembrar dos que morreram de fome em país exportador de alimentos.
Somadas ao longo da história, o número de vítimas da corrupção — seja pela escolha errada de prioridades nas políticas públicas, seja pelo comportamento dos políticos que roubam em vez de cuidar do povo — é maior do que das vítimas dos crimes do comunismo em terras distantes e tempos passados.
Devemos lembrar as incontáveis vítimas de doenças e mortes decorrentes da ausência de saneamento, por descuido, incompetência e corrupção que desviam verbas públicas; também as vítimas da falta de remédios e de equipamentos hospitalares; e as vítimas morais — os habitantes do DF envergonhados com a imagem, no dia 8 de janeiro de 2023, da inoperância de nossa segurança pública, incapaz de evitar a depredação dos prédios que simbolizam a democracia. Vergonha por não sabermos se o governo daquele momento foi incompetente ou se participou da tentativa de golpe, levando o secretário de Segurança e integrantes da nossa gloriosa Polícia Militar a perderem suas carreiras e serem condenados à prisão, enquanto seus superiores são inocentados.
Não se trata de discutir se as vítimas distantes do comunismo merecem ser lembradas no DF, mas de denunciar a hipocrisia derivada da embriaguez eleitoral de quem quer agradar aos golpistas. Precisamos de um Dia da Memória das Vítimas de Governos Locais Incompetentes, Corruptos e Embriagados Eleitorais. Uma data apropriada seria o 8 de Janeiro, dia da nossa vergonha — com os que mostraram a cara no golpe e com aqueles que se esconderam, jogando a culpa em subordinados.
É estranho criar um dia para lembrar as vítimas do comunismo na União Soviética quando, no Brasil, os comunistas sempre foram as vítimas — nos 10 anos do Estado Novo e nos 21 anos da ditadura militar —, sem promover um dia em memória das vítimas passadas do regime militar e das vítimas da corrupção em nosso regime democrático.
Seria justo decretar um dia de memória pelos 400 mil mortos que teriam sobrevivido à covid-19 se o presidente daquela época tivesse o mínimo de sensibilidade e competência — em vez do escárnio e da estupidez com que tratou os doentes e seus familiares, recusando vacinas, zombando dos mortos, chamando-os de fracos.
O governador lembrou-se de vítimas do comunismo na finada URSS, mas não teve consideração pela memória dos brasileiros que enfrentam a tragédia da saúde pública no DF, provocada pela inoperância e pela corrupção. Apesar dos bilhões transferidos anualmente ao GDF pelo resto do Brasil, pela primeira vez na história há brasilienses indo buscar atendimento na rede pública de Goiás, porque não encontram tratamento dentro do nosso quadrilátero. É preciso um dia de memória para os que são obrigados a esse percurso e para os que sentem vergonha do estado em que a incompetência, o descuido e a corrupção deixaram o que antes era exemplo de excelência no sistema público de saúde do Brasil, com o programa Saúde em Casa.
Deveríamos ter um dia de memória para as crianças que morreram por descuido com a saúde e com a segurança da população. Nenhum dia foi proposto em homenagem às crianças assassinadas — como ocorreu com Isaac Vilhena, morto no último dia 17, aos 16 anos, entre as quadras 112 e 113 Sul. O governo do DF não sancionou uma lei criando o dia da memória dos 4 milhões de escravizados trazidos da África, nem dos nascidos no Brasil, transportados por nove meses no ventre de suas mães, tampouco de seus descendentes, que até hoje estudam em escolas-senzala. Não decretou um dia em memória dos 20 a 30 milhões de brasileiros que viveram e morreram sem saber ler e escrever devido ao descaso histórico de nossos governantes com a educação de nosso povo. Nem pensou em lembrar dos que morreram de fome em país exportador de alimentos.
Somadas ao longo da história, o número de vítimas da corrupção — seja pela escolha errada de prioridades nas políticas públicas, seja pelo comportamento dos políticos que roubam em vez de cuidar do povo — é maior do que das vítimas dos crimes do comunismo em terras distantes e tempos passados.
Devemos lembrar as incontáveis vítimas de doenças e mortes decorrentes da ausência de saneamento, por descuido, incompetência e corrupção que desviam verbas públicas; também as vítimas da falta de remédios e de equipamentos hospitalares; e as vítimas morais — os habitantes do DF envergonhados com a imagem, no dia 8 de janeiro de 2023, da inoperância de nossa segurança pública, incapaz de evitar a depredação dos prédios que simbolizam a democracia. Vergonha por não sabermos se o governo daquele momento foi incompetente ou se participou da tentativa de golpe, levando o secretário de Segurança e integrantes da nossa gloriosa Polícia Militar a perderem suas carreiras e serem condenados à prisão, enquanto seus superiores são inocentados.
Não se trata de discutir se as vítimas distantes do comunismo merecem ser lembradas no DF, mas de denunciar a hipocrisia derivada da embriaguez eleitoral de quem quer agradar aos golpistas. Precisamos de um Dia da Memória das Vítimas de Governos Locais Incompetentes, Corruptos e Embriagados Eleitorais. Uma data apropriada seria o 8 de Janeiro, dia da nossa vergonha — com os que mostraram a cara no golpe e com aqueles que se esconderam, jogando a culpa em subordinados.
Reconciliar as reivindicações do homem
A educação atual e as atuais conveniências sociais premeiam o cidadão e imolam o homem. Nas condições modernas, os seres humanos vêm a ser identificados com as suas capacidades socialmente valiosas. A existência do resto da personalidade ou é ignorada ou, se admitida, é admitida somente para ser deplorada, reprimida ou, se a repressão falhar, sub-repticiamente rebuscada. Sobre todas as tendências humanas que não conduzem à boa cidadania, a moralidade e a tradição social pronunciam uma sentença de banimento. Três quartas partes do Homem são proscritas. O proscrito vive revoltado e comete vinganças estranhas. Quando os homens são criados para serem cidadãos e nada mais, tornam-se, primeiro, em homens imperfeitos e depois em homens indesejáveis.
A insistência nas qualidades socialmente valiosas da personalidade, com exclusão de todas as outras, derrota finalmente os seus próprios fins. O atual desassossego, descontentamento e incerteza de propósitos testemunham a veracidade disto. Tentamos fazer homens bons cidadãos de estados industriais altamente organizados: só conseguimos produzir uma colheita de especialistas, cujo descontentamento em não serem autorizados a ser homens completos faz deles cidadãos extremamente maus. Há toda a razão para supor que o mundo se tornará ainda mais completamente tecnicizado, ainda mais complicadamente arregimentado do que é presentemente; que graus cada vez mais elevados de especialização serão requeridos dos homens e mulheres individuais. O problema de reconciliar as reivindicações do homem e do cidadão tornar-se-á cada vez mais agudo. A solução desse problema será uma das principais tarefas da educação futura. Se irá ter êxito, e até mesmo se o êxito é possível, somente o evento poderá decidir.
Aldous Huxley, "Sobre a democracia e outros estudos"
A insistência nas qualidades socialmente valiosas da personalidade, com exclusão de todas as outras, derrota finalmente os seus próprios fins. O atual desassossego, descontentamento e incerteza de propósitos testemunham a veracidade disto. Tentamos fazer homens bons cidadãos de estados industriais altamente organizados: só conseguimos produzir uma colheita de especialistas, cujo descontentamento em não serem autorizados a ser homens completos faz deles cidadãos extremamente maus. Há toda a razão para supor que o mundo se tornará ainda mais completamente tecnicizado, ainda mais complicadamente arregimentado do que é presentemente; que graus cada vez mais elevados de especialização serão requeridos dos homens e mulheres individuais. O problema de reconciliar as reivindicações do homem e do cidadão tornar-se-á cada vez mais agudo. A solução desse problema será uma das principais tarefas da educação futura. Se irá ter êxito, e até mesmo se o êxito é possível, somente o evento poderá decidir.
Aldous Huxley, "Sobre a democracia e outros estudos"
Liberdade, liberdade
Predomina hoje uma concepção que restringe a ação do homem baseada somente em uma questão de escolha. Sob essa ótica, quase tudo se torna prisioneiro do mercado, dos objetos que se compra na esquina de casa ao voto exercido a cada quatro anos pelos cidadãos. Na realidade, muitas das nossas opções são impulsionadas pela busca do lucro e do poder. Segundo dados revelados pelo Instituto Federal de Tecnologia, da Suíça, apenas 147 mega corporações controlam 40% de toda a economia no mundo. Não creio ser preciso dizer muito mais. Até mesmo o exercício do voto obedece a determinadas leis da propaganda e ao controle dos mecanismos de indicação por parte de minorias encasteladas nos partidos políticos. Ou seja, o voto como mercado pura e simplesmente.
Assim, há uma imposição do mercado sob o comando do capital; essa imposição não se exerce por intermédio da força bruta do Estado necessariamente. Ainda que não se possa esquecer que fenômenos como o fascismo ou o populismo tentam fazer, mais uma vez, com que a balança pese para o lado da dominação pelo carisma do chefe, apresentado como “escolha” – vá lá – da população. Uma combinação explosiva se aproxima do nosso horizonte, reunindo imposição do mercado e imposição política.
O desgaste e o cansaço provocados por práticas que excluem a cidadania pode estar trazendo de volta a noção do chefe e do poder mantido pelo indivíduo forte, que tudo resolve e centraliza, justamente, acima das próprias instituições. Isso, com a ajuda de partidos que nada representam em matéria de lutas pela liberdade, limitando-se ao triste papel de extensão ou "puxadinho" do Estado ou até do chefe no poder. É o que nós estamos vendo ao redor do mundo.
Estou convencido de que devemos repensar a noção de liberdade, enriquecendo-a com a inclusão em seu bojo da noção de sujeito coletivo, do homem da pólis. Debater o valor da cidadania enfim. A liberdade do indivíduo não pode se restringir à liberdade individual, centrada em escolhas muitas vezes induzidas. E isso, a meu juízo, por uma razão muito forte: vivemos em sociedade, somos seres sociais, com seus direitos e também deveres. Pertencemos a um coletivo. Indivíduo não se iguala a um posicionamento individualista.
Vale dizer, a participação conta e muito. No caso brasileiro, a sociedade tem buscado ir à luta, apesar das dificuldades. Temos milhões de pessoas trabalhando por conta própria, entre as quais cerca de dez milhões de artesãos. Isso na economia. Mas, na Cultura, o mesmo fenômeno ocorre, com uma criatividade que se espalha pelos quatro cantos do país, com músicos, escritores e atores apresentando suas peças de teatro na própria rua, ao mesmo tempo que cresce o número de envolvidos na busca pela solução dos nossos graves problemas ambientais.
Ou seja, a liberdade vai se exercendo das mais diversas formas, multiplicando seus campos de atuação. Aos trancos e barrancos, mas vai, colocando cada vez mais empecilhos à continuidade de práticas que se assemelham às da chamada República Velha. Falta agora que esta liberdade atinja a área institucional, a área da representação política, e mesmo jurídica, tão necessitada de novos atores e mecanismos.
Assim, há uma imposição do mercado sob o comando do capital; essa imposição não se exerce por intermédio da força bruta do Estado necessariamente. Ainda que não se possa esquecer que fenômenos como o fascismo ou o populismo tentam fazer, mais uma vez, com que a balança pese para o lado da dominação pelo carisma do chefe, apresentado como “escolha” – vá lá – da população. Uma combinação explosiva se aproxima do nosso horizonte, reunindo imposição do mercado e imposição política.
O desgaste e o cansaço provocados por práticas que excluem a cidadania pode estar trazendo de volta a noção do chefe e do poder mantido pelo indivíduo forte, que tudo resolve e centraliza, justamente, acima das próprias instituições. Isso, com a ajuda de partidos que nada representam em matéria de lutas pela liberdade, limitando-se ao triste papel de extensão ou "puxadinho" do Estado ou até do chefe no poder. É o que nós estamos vendo ao redor do mundo.
Estou convencido de que devemos repensar a noção de liberdade, enriquecendo-a com a inclusão em seu bojo da noção de sujeito coletivo, do homem da pólis. Debater o valor da cidadania enfim. A liberdade do indivíduo não pode se restringir à liberdade individual, centrada em escolhas muitas vezes induzidas. E isso, a meu juízo, por uma razão muito forte: vivemos em sociedade, somos seres sociais, com seus direitos e também deveres. Pertencemos a um coletivo. Indivíduo não se iguala a um posicionamento individualista.
Vale dizer, a participação conta e muito. No caso brasileiro, a sociedade tem buscado ir à luta, apesar das dificuldades. Temos milhões de pessoas trabalhando por conta própria, entre as quais cerca de dez milhões de artesãos. Isso na economia. Mas, na Cultura, o mesmo fenômeno ocorre, com uma criatividade que se espalha pelos quatro cantos do país, com músicos, escritores e atores apresentando suas peças de teatro na própria rua, ao mesmo tempo que cresce o número de envolvidos na busca pela solução dos nossos graves problemas ambientais.
Ou seja, a liberdade vai se exercendo das mais diversas formas, multiplicando seus campos de atuação. Aos trancos e barrancos, mas vai, colocando cada vez mais empecilhos à continuidade de práticas que se assemelham às da chamada República Velha. Falta agora que esta liberdade atinja a área institucional, a área da representação política, e mesmo jurídica, tão necessitada de novos atores e mecanismos.
Offshore
A citação de Charlie Munger, o sócio do famoso Warren Buffett, Show me the incentive, and I’ll show you the outcome (Mostrem-me o incentivo e eu mostro-vos o resultado) foca-nos no segredo do sucesso das plataformas eletrónicas como Instagram, TikTok e YouTube.
Não se trata da inovação tecnológica ou da comodidade de acesso. O seu crescimento resulta de uma opção legislativa.
Na televisão, na rádio e na imprensa escrita, o proprietário é solidariamente responsável com o autor da peça ou do texto pelos prejuízos causados. Sendo crime, o diretor pode também ser acusado, a par de quem criou o texto ou a imagem, quando não impediu a sua publicação. Isso incentiva a um cuidado especial. Os média tradicionais têm linhas editoriais e diretores de informação que cuidam de evitar a divulgação de conteúdos que incitem ao ódio ou sejam falsos ou capazes de induzir em erro (a tão famosa “desinformação”). Como qualquer outra empresa, também as televisões, as rádios e os jornais visam o lucro, mas o risco financeiro e de processos-crime impedem práticas predadoras.
Com o intuito de promover o comércio eletrónico, optou-se por isentar as plataformas da responsabilidade pelos prejuízos causados pelos conteúdos partilhados. Um offshore, com zero de responsabilidade. O legislador não ponderou os resultados deste incentivo. Livres de qualquer responsabilidade e, tal como qualquer média tradicional, dependentes da publicidade para rentabilizar o investimento, o objetivo é ganhar audiência. Para tal há que garantir que cada um vê o máximo possível daquilo que lhe interessa. E se o conteúdo for chocante, mais interessados nos tornamos, mais nos mantemos online. Mais tempo somos “audiência”. Há por isso que desenvolver algoritmos capazes de perceber do que gostamos, o que nos vicia, para continuar a alimentar o nosso insaciável apetite. Um feed, que sempre que pegamos no telemóvel nos relembra o nosso interesse num tema, com novos conteúdos, imparável, sempre com uma nova sugestão. E assim, juntamente com o conteúdo, a mensagem publicitária que garante o lucro. Há que assegurar que se não estamos online, iremos rapidamente estar e, então, inventam-se as notificações, que nos interrompem com um toque, um tremor, uma imagem. O feitiço completa-se com o botão do like. O nosso desejo de aprovação satisfeito com um polegar que sinaliza a receção ao conteúdo que partilhámos ou criámos.
“Mostrem-me o incentivo e eu mostro-vos o resultado.” O resultado é a proliferação dos conteúdos mais extremos e chocantes, que nos criam visões distorcidas da realidade. A “realidade” no nosso telemóvel é aquilo que tememos e nos choca.
John Stuart Mill afirmava que o maior risco para a democracia era a ameaça à liberdade de pensamento e expressão. As big tech utilizam Mill, indevidamente, para se oporem a qualquer responsabilização pelos conteúdos disponíveis nas plataformas. Afinal, afirmam, se removerem conteúdos estão a violar a liberdade de expressão. O argumento é falso. Os conteúdos mais chocantes geram mais visualizações e partilhas e, como tal, mais “audiência”. E “audiência” gera vendas de publicidade. Mill acreditava que a exposição a diferentes posições permitiria rebater as opiniões falsas ou irracionais. Mas o algoritmo não alimenta o feed com prós e contras de forma equilibrada, ao invés, reforça apenas uma visão. A maior ameaça à democracia é, no século XXI, o algoritmo.
O Regulamento dos Serviços Digitais não alterou, significativamente, o regime legal em matéria de responsabilização. Mantém-se a inexistência de um dever de vigilância, e obriga-se, apenas, as plataformas a retirarem conteúdos ilegais na sequência de uma denúncia ou porque “sabem” que é ilegal. A legislação continua a ignorar que as plataformas não são passivas. Promovem a disseminação, priorizam conteúdos.
O legislador europeu não precisa de criar uma legislação específica, basta aplicar o regime da responsabilidade dos média tradicionais, sempre que as plataformas optem por promover a disseminação de um determinado conteúdo. Alterar o incentivo contribuiria para uma internet mais segura e verdadeira – onde o falso, ilegal e danoso, ao não ser prioritizado pelo algoritimo, daria lugar à informação verdadeira, que todos os dias é partilhada.
Não se trata da inovação tecnológica ou da comodidade de acesso. O seu crescimento resulta de uma opção legislativa.
Na televisão, na rádio e na imprensa escrita, o proprietário é solidariamente responsável com o autor da peça ou do texto pelos prejuízos causados. Sendo crime, o diretor pode também ser acusado, a par de quem criou o texto ou a imagem, quando não impediu a sua publicação. Isso incentiva a um cuidado especial. Os média tradicionais têm linhas editoriais e diretores de informação que cuidam de evitar a divulgação de conteúdos que incitem ao ódio ou sejam falsos ou capazes de induzir em erro (a tão famosa “desinformação”). Como qualquer outra empresa, também as televisões, as rádios e os jornais visam o lucro, mas o risco financeiro e de processos-crime impedem práticas predadoras.
Com o intuito de promover o comércio eletrónico, optou-se por isentar as plataformas da responsabilidade pelos prejuízos causados pelos conteúdos partilhados. Um offshore, com zero de responsabilidade. O legislador não ponderou os resultados deste incentivo. Livres de qualquer responsabilidade e, tal como qualquer média tradicional, dependentes da publicidade para rentabilizar o investimento, o objetivo é ganhar audiência. Para tal há que garantir que cada um vê o máximo possível daquilo que lhe interessa. E se o conteúdo for chocante, mais interessados nos tornamos, mais nos mantemos online. Mais tempo somos “audiência”. Há por isso que desenvolver algoritmos capazes de perceber do que gostamos, o que nos vicia, para continuar a alimentar o nosso insaciável apetite. Um feed, que sempre que pegamos no telemóvel nos relembra o nosso interesse num tema, com novos conteúdos, imparável, sempre com uma nova sugestão. E assim, juntamente com o conteúdo, a mensagem publicitária que garante o lucro. Há que assegurar que se não estamos online, iremos rapidamente estar e, então, inventam-se as notificações, que nos interrompem com um toque, um tremor, uma imagem. O feitiço completa-se com o botão do like. O nosso desejo de aprovação satisfeito com um polegar que sinaliza a receção ao conteúdo que partilhámos ou criámos.
“Mostrem-me o incentivo e eu mostro-vos o resultado.” O resultado é a proliferação dos conteúdos mais extremos e chocantes, que nos criam visões distorcidas da realidade. A “realidade” no nosso telemóvel é aquilo que tememos e nos choca.
John Stuart Mill afirmava que o maior risco para a democracia era a ameaça à liberdade de pensamento e expressão. As big tech utilizam Mill, indevidamente, para se oporem a qualquer responsabilização pelos conteúdos disponíveis nas plataformas. Afinal, afirmam, se removerem conteúdos estão a violar a liberdade de expressão. O argumento é falso. Os conteúdos mais chocantes geram mais visualizações e partilhas e, como tal, mais “audiência”. E “audiência” gera vendas de publicidade. Mill acreditava que a exposição a diferentes posições permitiria rebater as opiniões falsas ou irracionais. Mas o algoritmo não alimenta o feed com prós e contras de forma equilibrada, ao invés, reforça apenas uma visão. A maior ameaça à democracia é, no século XXI, o algoritmo.
O Regulamento dos Serviços Digitais não alterou, significativamente, o regime legal em matéria de responsabilização. Mantém-se a inexistência de um dever de vigilância, e obriga-se, apenas, as plataformas a retirarem conteúdos ilegais na sequência de uma denúncia ou porque “sabem” que é ilegal. A legislação continua a ignorar que as plataformas não são passivas. Promovem a disseminação, priorizam conteúdos.
O legislador europeu não precisa de criar uma legislação específica, basta aplicar o regime da responsabilidade dos média tradicionais, sempre que as plataformas optem por promover a disseminação de um determinado conteúdo. Alterar o incentivo contribuiria para uma internet mais segura e verdadeira – onde o falso, ilegal e danoso, ao não ser prioritizado pelo algoritimo, daria lugar à informação verdadeira, que todos os dias é partilhada.
Mosquitos e humanos
Já vimos placas alertando sobre animais selvagens, cães bravos e outros. Nunca se viu uma advertindo sobre humanos perigosos. Não há leão com cara de bonzinho, mas há humanos cujo marketing os faz parecerem bonzinhos, apesar dos milhões que contribuem para matar!
Passou quase despercebida nos últimos dias uma notícia de grande importância: foram encontrados, pela primeira vez na história, mosquitos na Islândia! Esse país nórdico era uma das pouquíssimas áreas no planeta onde inexistiam tais insetos, devido ao rigor do clima quase polar! Outra região sem eles é a Antártica.
Foi exatamente no dia 16/10/25 que foram encontrados três exemplares, duas fêmeas e um macho, da espécie Culiseta annulata. Não por coincidência neste verão aquele país viveu temperaturas jamais observadas, com máximas beirando os 30 o C. O frio intenso na maior parte do ano impede que a população de mosquitos prospere, mas, doravante, alguns exemplares, alojados em porões ou estábulos, poderão sobreviver ao inverno. E, mantido o estilo de vida intensivo em carbono, plástico, velocidade, desigualdade e tóxicos variados, as tendências destrutivas que os supostos sapiens ainda não conseguiram alterar, em breve terá malária nos polos! E nos demais biomas, podemos esperar o quê?
A importância da notícia reside em que se tornou realidade o que era previsão. Além de mosquitos, peixes de águas menos frias foram encontrados na Islândia. Já há alertas de risco de dengue e chicungunha na Inglaterra, onde inexistiam, mas já foram encontrados exemplares das espécies tão conhecidas aqui nos trópicos. E não só animais têm migrado, fugindo do calor: diversas espécies de árvores hoje já prosperam em latitudes próximas dos polos. Os humanos também bucam novos habitats, movidos pelas mudanças do clima e por ódio, fome, medo e outros motivos, ao tempo em que crescem manifestações contra imigrantes, insufladas por humanos perigosos e poderosos.
Como, com tantas evidências, ainda há pessoas que negam o processo de aquecimento global? Há alguns que argumentam que o planeta sempre apresentou ciclos de mudanças climáticas, e negam o papel dos humanos no processo atual. Cabe comparar a velocidade da queda de uma bola deixada solta no plano inclinado de um morro, com outra bola, colocada no mesmo local e chutada morro abaixo. A humanidade está, literalmente, chutando o clima e a biosfera para além das condições que permitem a vida.
A crescente velocidade das atuais mudanças planetárias coloca em risco todas as nossas instituições e modo de vida. E o absurdo é que aqueles que negam o papel dos humanos nessas mudanças o fazem, em larga escala e na melhor das hipóteses, com o propósito de manter o status quo! Décadas atrás disse o Bush pai, estabelecendo limites para sua participação na conferência Rio 92, a origem das COP: “O american way of life é inegociável!” Ou seja, o estilo de vida que destrói o planeta e não elimina a miséria não pode ser questionado.
Nesse quadro, os dirigentes – recuso-me a chamá-los de líderes – das mais poderosas nações seguem minimizando a responsabilidade de seus países, negando apoio aos condenados pelo sistema vigente e pior, decidiram ampliar seus gastos militares.
Como substituir os perigosos loucos que hoje nos comandam?
Passou quase despercebida nos últimos dias uma notícia de grande importância: foram encontrados, pela primeira vez na história, mosquitos na Islândia! Esse país nórdico era uma das pouquíssimas áreas no planeta onde inexistiam tais insetos, devido ao rigor do clima quase polar! Outra região sem eles é a Antártica.
Foi exatamente no dia 16/10/25 que foram encontrados três exemplares, duas fêmeas e um macho, da espécie Culiseta annulata. Não por coincidência neste verão aquele país viveu temperaturas jamais observadas, com máximas beirando os 30 o C. O frio intenso na maior parte do ano impede que a população de mosquitos prospere, mas, doravante, alguns exemplares, alojados em porões ou estábulos, poderão sobreviver ao inverno. E, mantido o estilo de vida intensivo em carbono, plástico, velocidade, desigualdade e tóxicos variados, as tendências destrutivas que os supostos sapiens ainda não conseguiram alterar, em breve terá malária nos polos! E nos demais biomas, podemos esperar o quê?
A importância da notícia reside em que se tornou realidade o que era previsão. Além de mosquitos, peixes de águas menos frias foram encontrados na Islândia. Já há alertas de risco de dengue e chicungunha na Inglaterra, onde inexistiam, mas já foram encontrados exemplares das espécies tão conhecidas aqui nos trópicos. E não só animais têm migrado, fugindo do calor: diversas espécies de árvores hoje já prosperam em latitudes próximas dos polos. Os humanos também bucam novos habitats, movidos pelas mudanças do clima e por ódio, fome, medo e outros motivos, ao tempo em que crescem manifestações contra imigrantes, insufladas por humanos perigosos e poderosos.
Como, com tantas evidências, ainda há pessoas que negam o processo de aquecimento global? Há alguns que argumentam que o planeta sempre apresentou ciclos de mudanças climáticas, e negam o papel dos humanos no processo atual. Cabe comparar a velocidade da queda de uma bola deixada solta no plano inclinado de um morro, com outra bola, colocada no mesmo local e chutada morro abaixo. A humanidade está, literalmente, chutando o clima e a biosfera para além das condições que permitem a vida.
A crescente velocidade das atuais mudanças planetárias coloca em risco todas as nossas instituições e modo de vida. E o absurdo é que aqueles que negam o papel dos humanos nessas mudanças o fazem, em larga escala e na melhor das hipóteses, com o propósito de manter o status quo! Décadas atrás disse o Bush pai, estabelecendo limites para sua participação na conferência Rio 92, a origem das COP: “O american way of life é inegociável!” Ou seja, o estilo de vida que destrói o planeta e não elimina a miséria não pode ser questionado.
Nesse quadro, os dirigentes – recuso-me a chamá-los de líderes – das mais poderosas nações seguem minimizando a responsabilidade de seus países, negando apoio aos condenados pelo sistema vigente e pior, decidiram ampliar seus gastos militares.
Como substituir os perigosos loucos que hoje nos comandam?
segunda-feira, 27 de outubro de 2025
Uma demanda de urbanidade política
É possível que a cidade de Brasília tenha algo a ver com a deterioração qualitativa do Congresso. No governo Kubitschek, a transferência da capital para o Planalto Central não espelhava nenhuma grande transformação social, mas era a marca de uma reorganização simbólica, marketing do ímpeto industrialista da burguesia nacional. No sistema-mundo, vivia-se o apogeu do princípio anticolonial de autonomia dos povos periféricos, o Brasil despontava no Terceiro Mundo, com a ideologia do desenvolvimento à frente.
Brasília seria um símbolo forte disso tudo. Já em 1916, o sociólogo norte-americano Robert Park afirmava que cidade era algo mais que "um amontoado de homens, ruas, edifícios, luz elétrica, linhas de bonde e telefone. A cidade é um estado de espírito, um corpo de costumes, tradições e sentimentos" (em "A Cidade: sugestões para a investigação do comportamento humano no meio urbano").
Nova capital, novo urbanismo, novo estado de espírito, eis Brasília. Há, entretanto, uma diferença entre urbanismo e urbanidade: o primeiro é o planejamento técnico e metódico de uma cidade, enquanto urbanidade é a criação contínua e espontânea dos habitantes sobre o status quo urbano. É o espírito contrário à depredação de equipamentos coletivos, à violência do tráfego e ao domínio territorial pela criminalidade.
Exceto o 8 de janeiro, Brasília não conhece o estado de pré-barbárie que tem caracterizado as megalópoles brasileiras. Mas sua urbanidade acontece de cima para baixo, pela presença acachapante de todo o aparato de governo e pela contenção habitacional. Com ressalva das cidades-satélites, os brasilienses atestam níveis razoáveis de vida urbana.
Ao olhar externo, entretanto, Brasília é uma urbe desvitalizada, isto é, que não parece ser vivida, como se cada qual estivesse cercado por um meio neutro, exterior ao sentido imediato, sem investimento afetivo. É o etos do seu modo de espacialização, cujo espaço-tempo sugere uma "República de Bruzundangas" (Lima Barreto) burocrática, hipercentralizadora, chupa-cabra do trabalho vivo nacional. Um biorritmo encapsulado: a capital é mais "federal" que do Brasil.
Certa vez, numa avaliação casual, disse Ulysses Guimarães que "o próximo Congresso a ser eleito será certamente pior do que o anterior". Talvez já intuísse o elo entre a ausência de representatividade do povo nos aparelhos de Estado e a inadequação dos parlamentares, cada vez mais destituídos de cosmopolitismo cívico. A frase se revelaria profética quanto ao estado presente da Câmara, antro do mais deslavado fisiologismo e caciquismo político.
Socialização e urbanismo fazem par. A geometria poética de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa abria-se a inovações institucionais, compatíveis com o futuro desenhado. É quando se interligam tempo e espaço. Mas o tempo seguinte, de desastrosa ditadura e degradação civil, desligou-se da criação, que permaneceu como bela forma vazia. A futurística marca espaço-temporal do Estado-Nação, sonhada pela burguesia desenvolvimentista com o nome de Brasília, é hoje resíduo ideológico de um espírito inacessível à esterilidade mental dos legisladores. Seus palácios, alvos depredatórios de golpistas palacianos e turbas ensandecidas.
Muniz Sodré
Brasília seria um símbolo forte disso tudo. Já em 1916, o sociólogo norte-americano Robert Park afirmava que cidade era algo mais que "um amontoado de homens, ruas, edifícios, luz elétrica, linhas de bonde e telefone. A cidade é um estado de espírito, um corpo de costumes, tradições e sentimentos" (em "A Cidade: sugestões para a investigação do comportamento humano no meio urbano").
Nova capital, novo urbanismo, novo estado de espírito, eis Brasília. Há, entretanto, uma diferença entre urbanismo e urbanidade: o primeiro é o planejamento técnico e metódico de uma cidade, enquanto urbanidade é a criação contínua e espontânea dos habitantes sobre o status quo urbano. É o espírito contrário à depredação de equipamentos coletivos, à violência do tráfego e ao domínio territorial pela criminalidade.
Exceto o 8 de janeiro, Brasília não conhece o estado de pré-barbárie que tem caracterizado as megalópoles brasileiras. Mas sua urbanidade acontece de cima para baixo, pela presença acachapante de todo o aparato de governo e pela contenção habitacional. Com ressalva das cidades-satélites, os brasilienses atestam níveis razoáveis de vida urbana.
Ao olhar externo, entretanto, Brasília é uma urbe desvitalizada, isto é, que não parece ser vivida, como se cada qual estivesse cercado por um meio neutro, exterior ao sentido imediato, sem investimento afetivo. É o etos do seu modo de espacialização, cujo espaço-tempo sugere uma "República de Bruzundangas" (Lima Barreto) burocrática, hipercentralizadora, chupa-cabra do trabalho vivo nacional. Um biorritmo encapsulado: a capital é mais "federal" que do Brasil.
Certa vez, numa avaliação casual, disse Ulysses Guimarães que "o próximo Congresso a ser eleito será certamente pior do que o anterior". Talvez já intuísse o elo entre a ausência de representatividade do povo nos aparelhos de Estado e a inadequação dos parlamentares, cada vez mais destituídos de cosmopolitismo cívico. A frase se revelaria profética quanto ao estado presente da Câmara, antro do mais deslavado fisiologismo e caciquismo político.
Socialização e urbanismo fazem par. A geometria poética de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa abria-se a inovações institucionais, compatíveis com o futuro desenhado. É quando se interligam tempo e espaço. Mas o tempo seguinte, de desastrosa ditadura e degradação civil, desligou-se da criação, que permaneceu como bela forma vazia. A futurística marca espaço-temporal do Estado-Nação, sonhada pela burguesia desenvolvimentista com o nome de Brasília, é hoje resíduo ideológico de um espírito inacessível à esterilidade mental dos legisladores. Seus palácios, alvos depredatórios de golpistas palacianos e turbas ensandecidas.
Muniz Sodré
Democracia no Brasil é um grande sucesso
O que quer dizer democracia? A resposta vai variar conforme o gosto do freguês, e o livro "A Palavra e o Poder" (Civilização Brasileira) traz um rico painel desse debate no contexto brasileiro ao longo dos 40 anos da Nova República.
Ao pé da letra grega, democracia é o poder do povo. É mais simples entendê-la no experimento ateniense da Antiguidade, pelo qual os cidadãos se juntavam na praça para deliberar, ao peso de um voto por cabeça, sobre temas da coletividade.
No seu mínimo denominador comum, a democracia é meio de satisfazer o apetite humano pelo poder sem recurso à violência. Nesse sistema, ninguém precisa decapitar o rei ou derrotar a milícia inimiga para tornar-se governante. Basta vencer as eleições. Simples de formular, difícil de implementar.
Há um componente da realidade que complica essa equação. As pessoas podem ser consideradas iguais diante da lei, mas elas não se sentem nem se comportam como se fossem iguais. Uma teia de relações de parentesco, de hierarquia e de posicionamento econômico desafia o ideal normativo.
Não foi à toa que as reformas de Clístenes, que precederam e viabilizaram as décadas de ouro da democracia de Atenas, atacaram a raiz sociológica do dilema político. A dominância do clã, das afinidades familiares, foi substituída pela do território. Tribalismo convive mal com democracia.
A República romana, que não foi uma democracia, ilumina outro aspecto do problema. O modelo não tenta corrigir desigualdades de origem. Ele as pressupõe, traduz e formaliza. SPQR, a sigla que ainda se vê gravada nas tampas de galeria da capital italiana, denota a associação entre oligarcas (os senadores) e comuns (a plebe) num sistema tenso de comandos e vetos. As democracias modernas também desenvolveram os seus mecanismos para conformar e equilibrar o embate entre as forças tradicionais e as plebiscitárias.
E como lidar com o perigo dos trapaceiros? Um sistema baseado em regras universais de entrada e saída do governo precisa se precaver contra quem não quer brincar assim. Em Atenas o risco da tirania era combatido com o ostracismo, que implicava o banimento da comunidade política de indivíduos suspeitos de tramarem a subversão da ordem. Alguém pensou em julgamentos em marcha no Supremo Tribunal Federal brasileiro?
Em Roma, a instituição restauradora se chamava ditadura. Por período definido, permitia-se que poderes absolutos fossem conferidos a um líder incumbido de debelar as ameaças ao regime e devolvê-lo ao curso normal. Dentro do propósito benéfico do instituto clássico, dá para discutir o inchaço circunstancial, frise-se o circunstancial, de prerrogativas de juízes brasileiros diante de assédios à democracia. Formalmente, o espírito da ditadura romana permanece em mecanismos constitucionais como os estados de sítio e de defesa das democracias contemporâneas.
Avaliada sob essa ótica minimalista, o ciclo da democracia brasileira que se iniciou em 1985 tem sido um grande sucesso. Dezenas de milhares de eleições foram realizadas no período nos níveis municipal, estadual e federal, e seus resultados, religiosamente obedecidos. Os eleitos para cargos executivos não receberam cheque em branco para fazer o que bem entendessem. Quem abusou, segundo o julgamento de magistrados ou corpos legislativos, foi legalmente deposto.
Quem urdiu a ruptura autoritária foi bloqueado em plena tentativa de virar a mesa e depois punido pelo sistema judicial.
É claro que se frustraram expectativas grandiosas sobre o que a democracia brasileira deveria propiciar em termos substantivos — um país mais próspero, mais justo e solidário. Mas talvez seja exigir demais desse belíssimo instrumento que a humanidade desenvolveu, mas que não passa disso, um instrumento. Os resultados dependem de quem o manuseia, e o diabo é que na democracia não temos ninguém em quem pôr a culpa pelas nossas mazelas senão em nós mesmos.
Ao pé da letra grega, democracia é o poder do povo. É mais simples entendê-la no experimento ateniense da Antiguidade, pelo qual os cidadãos se juntavam na praça para deliberar, ao peso de um voto por cabeça, sobre temas da coletividade.
No seu mínimo denominador comum, a democracia é meio de satisfazer o apetite humano pelo poder sem recurso à violência. Nesse sistema, ninguém precisa decapitar o rei ou derrotar a milícia inimiga para tornar-se governante. Basta vencer as eleições. Simples de formular, difícil de implementar.
Há um componente da realidade que complica essa equação. As pessoas podem ser consideradas iguais diante da lei, mas elas não se sentem nem se comportam como se fossem iguais. Uma teia de relações de parentesco, de hierarquia e de posicionamento econômico desafia o ideal normativo.
Não foi à toa que as reformas de Clístenes, que precederam e viabilizaram as décadas de ouro da democracia de Atenas, atacaram a raiz sociológica do dilema político. A dominância do clã, das afinidades familiares, foi substituída pela do território. Tribalismo convive mal com democracia.
A República romana, que não foi uma democracia, ilumina outro aspecto do problema. O modelo não tenta corrigir desigualdades de origem. Ele as pressupõe, traduz e formaliza. SPQR, a sigla que ainda se vê gravada nas tampas de galeria da capital italiana, denota a associação entre oligarcas (os senadores) e comuns (a plebe) num sistema tenso de comandos e vetos. As democracias modernas também desenvolveram os seus mecanismos para conformar e equilibrar o embate entre as forças tradicionais e as plebiscitárias.
E como lidar com o perigo dos trapaceiros? Um sistema baseado em regras universais de entrada e saída do governo precisa se precaver contra quem não quer brincar assim. Em Atenas o risco da tirania era combatido com o ostracismo, que implicava o banimento da comunidade política de indivíduos suspeitos de tramarem a subversão da ordem. Alguém pensou em julgamentos em marcha no Supremo Tribunal Federal brasileiro?
Em Roma, a instituição restauradora se chamava ditadura. Por período definido, permitia-se que poderes absolutos fossem conferidos a um líder incumbido de debelar as ameaças ao regime e devolvê-lo ao curso normal. Dentro do propósito benéfico do instituto clássico, dá para discutir o inchaço circunstancial, frise-se o circunstancial, de prerrogativas de juízes brasileiros diante de assédios à democracia. Formalmente, o espírito da ditadura romana permanece em mecanismos constitucionais como os estados de sítio e de defesa das democracias contemporâneas.
Avaliada sob essa ótica minimalista, o ciclo da democracia brasileira que se iniciou em 1985 tem sido um grande sucesso. Dezenas de milhares de eleições foram realizadas no período nos níveis municipal, estadual e federal, e seus resultados, religiosamente obedecidos. Os eleitos para cargos executivos não receberam cheque em branco para fazer o que bem entendessem. Quem abusou, segundo o julgamento de magistrados ou corpos legislativos, foi legalmente deposto.
Quem urdiu a ruptura autoritária foi bloqueado em plena tentativa de virar a mesa e depois punido pelo sistema judicial.
É claro que se frustraram expectativas grandiosas sobre o que a democracia brasileira deveria propiciar em termos substantivos — um país mais próspero, mais justo e solidário. Mas talvez seja exigir demais desse belíssimo instrumento que a humanidade desenvolveu, mas que não passa disso, um instrumento. Os resultados dependem de quem o manuseia, e o diabo é que na democracia não temos ninguém em quem pôr a culpa pelas nossas mazelas senão em nós mesmos.
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